FACULDADE DE DIREITO
CURSO DE LICENCIATURA EM DIREITO
DISCIPLINA: HISTÓRIA DO DIREITO – 1.º ANO
RELATÓRIO DE PRÁTICAS JURÍDICAS – 2025
Tema:
Observação e Análise do Funcionamento dos Tribunais Comunitários: Estudo de Caso dos
Tribunais de Chipanga e Malabhue no Distrito de Moatize
Estudante: Elsa Urgente Chire
Tete, Junho de 2025
Índice
1. Introdução................................................................................................................................. 3
1.1. Objectivos ......................................................................................................................... 3
1.1.1. Geral .......................................................................................................................... 3
1.1.2. Específicos ................................................................................................................. 3
1.2. Metodologia ...................................................................................................................... 3
2. Descrição e Análise por Tribunal Visitado .............................................................................. 4
2.1. Tribunal Comunitário de Chipanga – Moatize ................................................................. 5
2.2. Tribunal Administrativo de Malabhue – Moatize............................................................. 6
3. Considerações finais ................................................................................................................. 9
4. Referências Bibliográficas ..................................................................................................... 10
5. Anexos .................................................................................................................................... 11
6. Apêndices ............................................................................................................................... 12
1. Introdução
As práticas jurídicas constituem uma etapa essencial na formação dos estudantes de Direito,
permitindo-lhes contacto directo com a realidade forense. No caso presente, no âmbito da disciplina
de História do Direito, foram realizadas visitas aos tribunais comunitários de Chipanga e Malabhue,
ambos no distrito de Moatize, província de Tete. Estes tribunais, regulados pela Lei n.º 4/92, de 6
de Maio (Lei dos Tribunais Comunitários – LTC), desempenham um papel relevante na
administração da justiça informal e comunitária, baseando-se no costume, na equidade e no bom
senso.
Este relatório visa descrever, analisar e avaliar o funcionamento destes tribunais à luz da legislação
vigente, destacando os desafios e virtudes da justiça comunitária em Moçambique.
[Link]
1.1.1. Geral
• Observar e analisar o funcionamento dos tribunais comunitários no distrito de Moatize,
à luz da Lei n.º 4/92, de 6 de Maio.
1.1.2. Específicos
• Observar in loco a estrutura, composição e funcionamento dos tribunais comunitários
visitados;
• Identificar a natureza dos casos apreciados e as formas de resolução utilizadas;
• Avaliar o grau de conhecimento dos membros relativamente à Lei n.º 4/92;
• Medir o nível de satisfação da comunidade local com as decisões tomadas;
• Refletir sobre a importância dos tribunais comunitários no acesso à justiça.
[Link]
A pesquisa empírica consistiu em visitas presenciais aos locais, entrevistas informais com os
membros dos tribunais, cidadãos que ali recorreram, e observação directa de sessões. Foi ainda
utilizado um formulário-padrão conforme orientação da UnISCED.
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2. Descrição e Análise por Tribunal Visitado
A justiça comunitária em Moçambique é uma manifestação do pluralismo jurídico, reconhecida
formalmente através da Lei n.º 4/92, de 6 de Maio – Lei dos Tribunais Comunitários (LTC). Esta
legislação estabelece a composição, competências e funcionamento destas instituições, que operam
com base no costume e na equidade, respeitando as normas e valores da comunidade local
(República de Moçambique, 1992).
Autores como Meneses (2003) argumentam que a justiça tradicional é uma das formas mais
resilientes de resolução de conflitos em África, por se basear na reconciliação, na mediação e na
autoridade moral dos líderes comunitários. Para Boaventura de Sousa Santos (2006), trata-se de
uma forma de "sociologia das ausências", onde o direito estatal não alcança.
Segundo Trindade (2005), os tribunais comunitários moçambicanos surgiram como uma resposta
ao fracasso do sistema formal em responder de forma célere e eficaz às disputas locais. A sua
actuação privilegia a oralidade, a verdade material e os laços comunitários, o que fortalece o
sentimento de pertença e justiça social entre os cidadãos.
Além disso, a literatura aponta que, embora os tribunais comunitários não façam parte da estrutura
judicial formal, eles operam com legitimidade conferida pela própria comunidade. Para Oquefás
(2011), essa legitimidade baseia-se na confiança social, que muitas vezes é superior à que se
deposita nos tribunais judiciais formais, considerados burocráticos, caros e distantes.
Os tribunais comunitários moçambicanos desempenham, assim, uma função social relevante ao
promoverem o acesso à justiça para as populações excluídas do sistema formal. No entanto, o seu
funcionamento carece frequentemente de estrutura adequada, formação dos membros e
reconhecimento oficial por parte do sistema judicial estatal (Neves, 2015).
Esta prática jurídica baseada no costume, embora informal, contribui para a coesão social e
resolução rápida de conflitos, sendo geralmente bem acolhida pelas comunidades, sobretudo nas
zonas rurais.
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[Link] Comunitário de Chipanga – Moatize
O Tribunal Comunitário de Chipanga está situado no bairro com o mesmo nome, no distrito de
Moatize, província de Tete. É uma instituição informal de administração da justiça, cuja existência
remonta ao período pós-independência, tendo evoluído com o tempo para adaptar-se às novas
exigências legais trazidas pela Lei n.º 4/92, de 6 de Maio. Este tribunal serve essencialmente as
populações do bairro de Chipanga e zonas circunvizinhas, onde o acesso aos tribunais judiciais
formais é limitado, devido à distância, custos ou tempo de tramitação.
O funcionamento do tribunal é orientado pelos valores culturais locais e pela busca da reconciliação
entre as partes. Observa-se um forte envolvimento da liderança comunitária e um ambiente de
grande proximidade entre os juízes comunitários e os cidadãos. A autoridade do tribunal baseia-se
sobretudo na confiança e no respeito social, sendo reconhecida pelos próprios moradores como a
principal via de resolução de conflitos quotidianos.
Tabela 01: Descrição e Análise do Tribunal Comunitário de Chipanga
Questão Previsão Legal Observação Real Análise / Efeitos
Local de Sede de bairro ou O tribunal funciona A informalidade do
Funcionamento edifício comunitário numa sala anexa à espaço limita a
(art. 1.º/2, LTC) residência do chefe do credibilidade
bairro de Chipanga. institucional, mas
favorece a proximidade
com a população.
Composição do 5 membros efectivos Apenas 4 membros O quórum mínimo nem
Tribunal + 3 suplentes (art. 7.º) activos foram sempre é respeitado,
identificados, com podendo comprometer a
presença irregular dos legalidade das decisões.
suplentes.
Casos Pequenos conflitos Casos de dívidas A resolução é célere,
Apreciados civis, questões informais, ofensas leves com foco na
reconciliação, apesar da
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familiares e delitos e disputas entre vizinhos ausência de registos
leves (art. 3.º) foram observados. formais.
Medidas Equidade, Privação temporária de As decisões são
Aplicadas reconciliação, multa acesso a recursos respeitadas, mas sem
até 10.000MT, comunitários e multas execução forçada,
serviço comunitário até 2.000MT são as dependendo da
(art. 2.º e 3.º) medidas mais aceitação voluntária.
frequentes.
Conhecimento Conhecimento Os membros têm uma Evidencia-se
da Lei LTC esperado dos ideia geral da LTC, mas necessidade de
membros (art. 4.º) desconhecem artigos formação jurídica
específicos. contínua.
Satisfação da Possibilidade de A maioria dos cidadãos A informalidade é vista
Comunidade recurso ao tribunal entrevistados como uma vantagem,
judicial (art. 4.º) demonstrou confiança no mas pode limitar o
tribunal, valorizando a respeito às garantias
rapidez e informalidade. fundamentais.
Fonte: adaptado pela autora (2025)
[Link] Administrativo de Malabhue – Moatize
Localizado na comunidade de Malabhue, também no distrito de Moatize, este tribunal funciona
com maior estrutura formal, sendo muitas vezes identificado como “administrativo” pelos
moradores locais devido à sua articulação com outras lideranças administrativas da localidade. O
tribunal atende uma população significativa e desempenha um papel activo na mediação de
conflitos, sobretudo os relacionados à posse e uso da terra, questões familiares e delitos de menor
gravidade.
A estrutura física do tribunal revela uma adaptação mais funcional e institucional, estando instalado
num edifício que outrora servia como escola. Os membros do tribunal demonstram maior
regularidade de actuação e conhecimento mais estruturado da Lei dos Tribunais Comunitários.
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Existe também um esforço visível de manter registos escritos e respeitar procedimentos mais
próximos do modelo jurídico formal, sem descurar os valores tradicionais e a equidade.
Tabela 02: Descrição e Análise do Tribunal Comunitário de Malabhue
Questão Previsão Legal Observação Real Análise / Efeitos
Local de Edifício público Funciona na antiga Melhor infraestrutura
Funcionamento comunitário (art. 1.º) escola primária adaptada, em comparação com
com apoio da Chipanga, com espaço
comunidade e ONGs reservado para sessões e
locais. arquivos.
Composição do 8 membros (5 Totalmente constituído, Há maior formalidade e
Tribunal efectivos e 3 com actas assinadas responsabilidade na
suplentes) pelos membros condução dos processos.
presentes.
Casos Conflitos de terra, Foram observados dois Os membros
Apreciados heranças, casos de partilha de terra demonstraram
convivência familiar e um caso de abandono sensibilidade social e
e delitos de pequena de lar. esforço de mediação
gravidade antes da decisão.
Medidas Crítica pública, Aplicação de multas As medidas são
Aplicadas reconciliação, entre 3.000 e 5.000MT e geralmente aceites pelas
prestação de serviços atribuição de dias de partes, com resultados
(até 30 dias), multa trabalho comunitário. duradouros.
(até 10.000MT)
Conhecimento Espera-se domínio A maioria dos membros A aplicação legal é mais
da Lei LTC razoável da entrevistados conhece os próxima da letra da lei, o
legislação artigos principais da que eleva o nível de
LTC, inclusive os que confiança dos usuários.
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tratam da composição e
competências.
Satisfação da Recurso ao tribunal Os moradores referiram- O tribunal contribui para
Comunidade judicial em caso de se ao tribunal como a pacificação social e
discordância “resolutivo e justo”, reforça a identidade
embora alguns defendam cultural da comunidade.
melhores condições para
os membros.
Fonte: adaptado pela autora (2025)
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3. Considerações finais
As práticas jurídicas realizadas mostraram que os tribunais comunitários são essenciais para
garantir o acesso à justiça em zonas rurais, onde os tribunais judiciais são distantes ou inacessíveis.
Em Chipanga, observou-se um modelo mais tradicional e informal, com limitações estruturais e de
pessoal. Em Malabhue, encontrou-se um tribunal mais organizado, com estrutura funcional e
membros mais capacitados.
Em ambos os casos, destaca-se o papel conciliador das instituições, bem como a confiança
comunitária nas decisões tomadas. Contudo, é urgente investir na capacitação dos membros,
uniformização de procedimentos e melhoria das infraestruturas, para que estas instâncias possam
cumprir de forma mais eficaz a função para a qual foram concebidas.
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4. Referências Bibliográficas
República de Moçambique. (1992). Lei n.º 4/92, de 6 de Maio – Lei dos Tribunais Comunitários
(LTC).
UnISCED. (2025). Manual de Práticas Jurídicas – Faculdade de Direito.
Entrevistas informais com membros e utentes dos tribunais comunitários de Chipanga e Malabhue.
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5. Anexos
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6. Apêndices
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