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2023/2024
1
Agradecimentos
Em primeiro lugar, a minha profunda gratidão vai para o meu orientador de tese,
Professor Doutor Rui Soares Pereira, pela sua orientação indispensável e paciência. A sua
experiência revelou-se inestimável na elaboração deste trabalho.
Seria negligente se não expressasse a minha mais sincera gratidão à minha família
pelo seu inabalável apoio e encorajamento. A sua confiança em mim tem sido uma fonte
constante de motivação. Estou em dívida para com os meus pais pelo seu amor e paciência.
Aos meus amigos, o vosso constante encorajamento e companheirismo têm sido
inestimáveis.
2
Resumo:
Abstract:
This study examines the valuation of fortuitous knowledge obtained through telephone
intercepts within the legal framework of Macau, highlighting the existing legislative gap
despite the enactment of Law No. 22/2022. The analysis questions the admissibility of
such knowledge when it does not pertain to catalogued crimes or lacks connection to the
crime that triggered the interception. A comparative analysis of the legal systems of the
United States, Germany, Portugal, Japan, Taiwan, and China reveals that, for fortuitous
knowledge to be valued, it must be linked to serious crimes listed in the legislation and
demonstrate a connection to the investigated crime. The research suggests adopting a
conditional approach, aligned with international practices, to ensure the protection of
fundamental rights and prevent abuses of the legal system. The proposal includes
implementing clear and stringent criteria for the use of this knowledge, ensuring
compliance with constitutional principles and the effectiveness of criminal prosecution
3
Siglas e abreviaturas
Ac. - Acórdão
apud - citado por
art., arts. - art., art.s
CPPC - Código de Processo Penal da República Popular da China
CPPJ - Código de Processo Penal japonês
CPPM - Código de Processo Penal de Macau
CPPP - Código de Processo Penal português
CPPT - Código de Processo Penal taiwanês
cf. - confira, confronte
cit., cits. - citado, citada, etc., cita-se; citação, citações
ed., eds. - edição, edições; editora, editoras
ibid. - ibidem (na mesma obra)
LB - Lei Básica de Macau
n.º , [Link] - número, números
ob. - obra
p., pp. - página, páginas
s., ss. - seguinte, seguintes
StPO - Código de Processo Penal alemão
TSI - Tribunal de Segunda Instância de Macau
4
ÍNDICE
Introdução ....................................................................................................................... 8
2. Jurisprudência .......................................................................................................... 15
2. Alemanha ................................................................................................................... 28
3. Portugal ..................................................................................................................... 34
4. Japão .......................................................................................................................... 38
5. Taiwan ....................................................................................................................... 45
6. China .......................................................................................................................... 48
7. Conclusão .................................................................................................................. 51
5
III. Análise comparativa da valoração dos conhecimentos fortuitos ....................... 57
2. Alemanha ................................................................................................................... 70
3. Portugal ..................................................................................................................... 91
6
5. Taiwan ..................................................................................................................... 108
7
Introdução
A presente dissertação explora a complexa questão da valoração dos
conhecimentos fortuitos obtidos através de escutas telefónicas no ordenamento jurídico
de Macau. O primeiro capítulo aborda as lacunas legislativas existentes, destacando a
promulgação da Lei n.º 22/2022, intitulada "Regime Jurídico de Interceção e Proteção de
Comunicações". Esta legislação não resolveu completamente a questão da utilização de
conhecimentos fortuitos, uma vez que o legislador defende que a jurisprudência
consolidada de Macau já reconhece a admissibilidade dessas informações. No entanto, a
nossa análise critica essa abordagem, uma vez que a utilização desses conhecimentos
pode comprometer a proteção dos direitos humanos, como a liberdade e o sigilo das
comunicações, protegidos pela Lei Básica de Macau.
8
I. Colocação do problema quanto à valoração dos conhecimentos
fortuitos obtidos por meio de escuta no ordenamento jurídico de
Macau
9
escutas telefónicas, que estava codificado no CPPM, e das inovações introduzidas, como
a revisão dos dispositivos relativos ao regime de escutas telefónicas e a consequente
autonomização deste regime dentro do quadro normativo, verifica-se a persistência de
uma notável lacuna legislativa. Especificamente, carece-se de uma regulamentação
detalhada que trate da valoração dos conhecimentos fortuitos, ou seja, das informações
obtidas incidentalmente durante a execução de intercepções legalmente autorizadas.
1
Esta influência deriva substancialmente do estatuto jurídico-internacional que Macau deteve como
província ultramarina de Portugal até à aprovação da Constituição da República Portuguesa em 1976.
Tendo em vista a transferência de soberania de Macau para a República Popular da China, o sistema jurídico
de Macau foi modernizado e localizado no período de transição de 1989 a 1999, durante o qual foi
introduzido pela primeira vez o regime de escutas telefónicas no direito processual penal através do
Decreto-Lei n.º 48/96/M, que revogou o Código de Processo Penal português de 1929 colocado em vigor
em Macau, e aprovou o Código de Processo Penal de Macau a 1 de abril de 1997. Nota-se que antes da
aprovação da Constituição da República Portuguesa de 1976, a legislação processual penal de Macau era o
Código de Processo Penal de 1929, estendido a Macau pelo Decreto n.° 19271, de 24 de janeiro de 1931.
Todavia, as reformas posteriores à aprovação da Constituição da República Portuguesa de 1976 já não
foram estendidas a Macau. Ou seja, o Código de Processo Penal português de 1929, que já tinha sido
revogado em Portugal, continua a ser aplicável em Macau até à entrada em vigor do novo Código de
Processo Penal de Macau no dia 1 de abril de 1997.
10
legislativas que abordassem especificamente a questão dos conhecimentos fortuitos
durante este período.
2
Cf. Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau, Parecer n.º 3/VII/2022 da
Primeira Comissão Permanente, pp. 46-47.
11
escutas autorizadas nos termos da lei, são susceptíveis de servirem de prova), por isso
este conteúdo não foi introduzido na presente proposta de lei”.
Podemos, portanto, compreender a razão pela qual não foi considerada necessária
a formulação de disposições específicas para a matéria da valoração dos conhecimentos
fortuitos. Os legisladores de Macau concluíram que a existência de uma jurisprudência
consolidada, que reconhece a admissibilidade das informações sobre outros crimes
descobertos fortuitamente durante escutas legalmente autorizadas, serve como
fundamento suficiente para regular esta questão.
1.1 Comentário
Levanta-se uma problemática relevante em relação à posição adotada pelos
legisladores de Macau. Embora exista atualmente uma significativa coerência nas
decisões judiciais relativas à admissibilidade dos conhecimentos fortuitos, não é
garantido que futuras decisões mantenham este mesmo padrão. A potencial emergência
de orientações judiciais divergentes representa uma questão que não pode ser
negligenciada.
12
existência de lacunas legais que impactam diretamente os direitos fundamentais dos
cidadãos, torna-se essencial abordar essas questões desde suas raízes, promovendo a
elaboração de legislação que efetivamente elimine essas falhas.
Por outro lado, o Código Civil de Macau estipula, no seu art. 9.°, o princípio da
integração das lacunas legais através da analogia por parte dos intérpretes da lei, conforme
previsto no n.° 3: “Na ausência de caso análogo, a situação é resolvida de acordo com a
norma que o próprio intérprete criaria, se estivesse a legislar dentro do espírito do
sistema”. É fundamental salientar que esta prerrogativa não confere aos
aplicadores/interpretadores da lei o poder de legislar. Quando confrontados com lacunas
na legislação em conjunto com casos concretos, os operadores jurídicos recorrem, em
situações de extrema necessidade, ao espírito do legislador, às decisões judiciais, às
práticas habituais e a outras fontes para abordar tais questões. Todavia, é crucial
compreender que esta medida constitui apenas uma solução provisória, a ser utilizada
quando não existe legislação específica para lidar com a situação em questão. Portanto,
não é prudente confiar exclusivamente na jurisprudência e na prática de utilizar as mãos
dos operadores jurídicos para estabelecer normas sobre questões particulares, evitando,
assim, a resolução destes problemas através da legislação. Do contrário, isso poderia ser
interpretado como uma transgressão ao princípio da separação de poderes.
13
durante o processo legítimo de intercepção de comunicações. A utilização desses
conhecimentos como prova, desprovida de um suporte legal explícito, levanta questões
fundamentais acerca da conformidade com o art. 32.° da LB. A admissibilidade de tais
conhecimentos fortuitos como prova, sem uma base legal clara, pode ser percebida como
uma afronta ao espírito da própria LB, potencialmente minando os direitos e liberdades
que a lei pretende proteger.
14
2. Jurisprudência
Embora o ordenamento jurídico de Macau evidencie uma lacuna significativa no
que respeita à valoração dos conhecimentos fortuitos obtidos por meio de intercepção de
comunicações, esta omissão não tem impedido os tribunais de Macau de proceder à sua
apreciação. No entanto, desde a instauração da Região Administrativa Especial de Macau
em 1999, tem-se verificado que o número de casos registados sobre esta matéria tem sido
relativamente escasso. Deste escasso número de acórdãos, foi-se tornando pacífico que
não deveria ser afastada a valorização dos conhecimentos fortuitos. Há algumas decisões
judiciais do Tribunal de Segunda Instância de Macau que merecem uma análise
aprofundada.
Por outro lado, o Ministério Público defende a legalidade das escutas telefónicas,
argumentando que foram autorizadas por um juiz em conformidade com o Código de
Processo Penal, especificamente para investigar crimes graves como associação
criminosa. O Ministério Público reteira que “as escutas telefónicas em causa, cuja
3
Cf. Ac. do TSI de 19/09/2013, processo n.º 157/2013, relator: José Maria Dias Azedo.
15
validade não será afectada pela acusação posterior, ou pela decisão condenatória ou
absolutória. E as escutas telefónicas não se tornam nulas por o Ministério Público ter
acusado os recorrentes da prática do crime punível com pena mais leve”. Assim, opina-
se pela rejeição do recurso interposto pelos arguidos, mantendo-se todas as ações e provas
derivadas dessas escutas como válidas. são legais e válidas.
Face a estas ações, o Tribunal Judicial de Base condenou o arguido por violação
de segredo de justiça, conforme estipulado pelo art. 335.º, n.º 1, do CPPM, e art. 14.º, n.º
1, da Lei n.º 5/2006, aplicando-lhe uma pena de 1 ano de prisão efetiva. Inconformado
4
Cf. Ac. do TSI de 20/03/2019, processo n.º 1295/2019, relator: Chan Kuong Seng.
16
com a decisão, o arguido recorreu para o Tribunal de Segunda Instância, alegando que a
decisão condenatória foi baseada em prova inválida, que houve um excesso manifesto na
medida da pena imposta, entre outros vícios processuais.
O Tribunal julgou que no caso em apreço, as escutas telefónicas que foram objeto
de facto na decisão recorrida receberam autorização por despacho do Juiz do Juízo de
Instrução Criminal. Esta autorização baseou-se nos relatórios da Polícia Judiciária que
evidenciavam a imprescindibilidade das escutas para a apuração dos factos investigados.
Assim, não se verifica a ausência do requisito exigido de última ratio pela disposição final
do n.º 1 do art. 172.º do CPPM. Por outro lado, o recorrente foi condenado por um crime
cuja pena máxima não excede três anos de prisão, divergindo do quadro de criminalidade
organizada que inicialmente justificou a autorização das escutas. Todavia, este facto não
compromete a validade jurídica das escutas previamente realizadas, nem obsta à formação
de um juízo de convicção pelo Juiz acerca da legalidade do resultado dessas escutas.
2.3 Comentário
No âmbito jurídico, ambas as decisões judiciais em apreço reconhecem a validade
da valoração dos conhecimentos obtidos de forma fortuita durante a realização de uma
escuta telefónica legalmente autorizada. Esta admissibilidade baseia-se no estrito
cumprimento dos requisitos legais previstos para a autorização de escutas, conforme
articulado pelo art. 172.º, n.º 1 do CPPM, atualmente previsto no art. 3.º, n.º 1 da Lei n.º
10/2022. Segundo esta disposição, “1. A intercepção ou gravação de conversações ou
17
comunicações telefónicas só pode ser ordenada ou autorizada, por despacho do juiz, se
houver razões para crer que a diligência se revelará de grande interesse para a
descoberta da verdade ou para a prova quanto a crimes: a) Puníveis com pena de prisão
de limite máximo superior a 3 anos; ...”. Neste quadro, o tribunal considera que as escutas
em questão, motivadas por crimes que excedem a moldura penal mínima exigida, são
consideradas lícitas. Consequentemente, as provas derivadas dessas escutas são
igualmente admissíveis em tribunal. Importa frisar que, mesmo nos casos em que os
conhecimentos obtidos incidentalmente não correspondem diretamente ao crime
inicialmente investigado, e cuja moldura penal é inferior à exigida para a autorização das
escutas (inferior a três anos de prisão), a jurisprudência tem sustentado a sua
admissibilidade da valoração.
Por outro lado, tamém é questionável por que, na ausência de uma base legal, os
conhecimentos obtidos de forma fortuita poderiam ser valorados e usadoss para atribuir
responsabilidades adicionais a uma pessoa suspeita ou acusada. Isso também contradiz
claramente o espírito do art. 32.º da LB.
18
mecanismo de intercepção de comunicações legalmente autorizada, sugere uma possível
fraude legal, ao permitir a vigilância de comunicações referentes a crimes que não se
enquadrariam, a priori, sob o escopo legalmente definido para tais medidas. Esta
abordagem não apenas contraria as disposições normativas vigentes mas também propicia
um abuso de autoridade potencial, permitindo que as entidades competentes explorem
indevidamente este mecanismo para justificar intercepções em contextos não legitimados
por lei.
Pelo exposto, a análise crítica da Lei n.º 22/2022 e das decisões judiciais
pertinentes evidencia a imperiosa necessidade de se estabelecerem normativas claras
sobre a utilização dos conhecimentos fortuitos no ordenamento jurídico de Macau.
Portanto, a dissertação tem como objetivo analisar se os conhecimentos adquiridos de
forma fortuita durante intercepão de comunicações legalmente autorizada podem ser
legalmente utilizados como prova no contexto do processo penal de Macau. A
19
investigação envolve um exame comparativo das regulamentações existentes sobre
intercepções e conhecimentos fortuitos em jurisdições como Estados Unidos, Alemanha,
Portugal, Japão, Taiwan e China. Será explorado, mais especificamente, em que
circunstâncias e sob quais condições tais informações, mesmo que não diretamente
relacionadas ao objeto inicial da escuta autorizada, podem ser admissíveis como prova
em processos penais concomitantes ou subsequentes. Esta análise será conduzida à luz
de uma ponderação criteriosa entre os direitos à privacidade dos indivíduos envolvidos,
os imperativos de justiça e a busca pela verdade material. Assim, explora-se a viabilidade
de um enquadramento legal que harmonize os interesses em jogo, respeitando os
princípios fundamentais de justiça e de proteção dos direitos fundamentais.
20
legislativos desses cinco países em relação ao sistema de escutas, observa-se uma
convergência significativa na regulamentação dessas práticas. Nos respectivos
ordenamentos jurídicos, existem disposições específicas relativas aos conhecimentos
fortuitos, e um consenso quanto à admissibilidade das provas obtidas por essa via, desde
que sob determinadas condições, o que é amplamente discutido no meio acadêmico e na
jurisprudência. Assim, a escolha desses países como objetos de análise comparativa
proporciona maior relevância e valor de referência.
21
Constituição dos Estados Unidos da América, 5 na qual se encontra a proibição
constitucional das buscas e apreensões injustificadas e sem mandado judicial.6
Por uma votação de cinco a quarto, a Suprema Corte julgou lícita essa escuta
telefónica sem mandado judicial, ou seja, considerou que esta não violou a Quarta
Emenda da Constituição. Tendo em conta os cabos telefónicos interceptados
localizadados no porão de um grande prédio de escritório e em vias públicas, não houve
busca, apreensão, nem invasão da residência ou do escritório do acusado9. Isto é, em casu
não havendo invasão do espaço físico nem existindo apreensão inconstitucional, uma vez
que que não envolveu nenhum bem tangível, a escuta telefónica não poderia ser
considerada busca e apreensão no sentido utilizado pela Quarta Emenda10. Neste sentido,
com base numa compreensão literal da Quarta Emenda, exclui-se a palavra falada do
conceito de busca e apreensão; ou seja, a Quarta Emenda apenas seria aplicável no caso
5
Cf. Kepner, Raymond R., “Subsequent Use of Electronic Surveillance Interceptions and the Plain View
Doctrine: Fourth Amendment Limitations on the Omnibus Crime Control Act”, in University of Michigan
Journal of Law Reform, vol. 9, Ann Arbor: University of Michigan Press, 1975, p. 529.
6
A Quarta Emenda à Constituição dos EUA declara que o direito do povo à inviolabilidade de suas pessoas,
casas, papéis e haveres contra busca e apreensão arbitrárias não poderá ser infringido; e nenhum Mandado
será expedido a não ser mediante indícios de culpabilidade confirmados por Juramento ou declaração, e
particularmente com a descrição do local da busca e a indicação das pessoas ou coisas a serem apreendidas.
Em língua original (Fourth Amendment of the U.S. Constitution): “The right of the people to be secure in
their persons, houses, papers, and effects, against unreasonable searches and seizures, shall not be violated,
and no Warrants shall issue, but upon probable cause, supported by Oath or affirmation, and particularly
describing the place to be searched, and the persons or things to be seized”.
7
Cf. Caso Olmstead v. United States, 277 U.S. 438, 1928.
8
Cf. McWhirter, Darien Auburn; Bible, Jon D., Privacy as a Constitutional Right: Sex, Drugs, and the
Right to Life, New York: Quorum Books, 1992, p. 92.
9
Cf. Vile, John R., Essential Supreme Court Decisions – Summaries of Leading Cases in U.S.
Constitutional Law, 16ª ed., Lanham/Maryland: Rowman & Littlefield, 2014, p. 340.
10
Cf. O'Brien, David M., Privacy, Law, and Public Policy, New York: Praeger, 1979, pp. 51-52.
22
de busca envolvendo invasão física e apreensão de objetos tangíveis 11 , o que leva à
chamada Trespass Doctrine.12
11
Ob. cit. p. 51.
12
Para mais desenvolvimento, Cf. Doenges, William S., “Search and Seizure: The Physical Trespass
Doctrine and the Adaptation of the Fourth Amendment to Modern Technology”, in Tulsa Law Journal, vol.
2, Tulsa: University of Tulsa Press, 1965, p. 180.
13
Em língua original: “We have to choose, and for my part I think it is a less evil that some criminals should
escape than the Government should play an ignoble part.” Cf. Olmstead v. United States, 277 U.S. 438 o
14
Cf. Olmstead v. United States, 277 U.S. 438 (1928).
15
Cf. Katz v. United States, 389 U.S. 347 (1967).
23
provas daí resultantes.16 Com essa norma, consolidou-se o advento do regime jurídico de
vigilância nos Estados Unidos, estabelecendo um precedente de magnitude internacional
quanto à regulação das práticas de intercepção comunicacional.
Por uma votação de sete a um, a Suprema Corte julgou que, em casu, seriam
inconstitucionais as escutas telefónicas sem prévia autorização judicial, uma vez que a
Quarta Emenda protege as pessoas e não locais17, como afirmado por Juiz Stewart, e que
a privacidade, mesmo em locais públicos, pode ser protegida pela Constituição. Segundo
o mesmo juiz, “aquele que ocupa a cabine telefónica, fecha a porta atrás de si e paga a
tarifa que lhe permite fazer uma ligação certamente tem o direito de presumir que as
palavras que profere no bocal não serão transmitidas para o mundo”.18 Na sequência
desse entendimento, o Trespass Doctrine foi afastado e o caso Olmstead v. United States
(1928) foi revogado, incorporando as escutas telefónicas no conceito de busca e
apreensão da Quarta Emenda, sujeitando-as à autorização judicial.
Para verficar se um indivíduo pode ser protegido pelo direito à privacidade sob a
Quarta Emenda, o Juiz Harlan, em sua manifestação concordante, formulou uma cláusula
de “expectativa razoável de privacidade” (reasonable expectation of privacy) com dois
requisitos em que uma pessoa pode esperar razoavelmente que a sua privacidade seja
garantida em um determinado local: primeiro, que uma pessoa tenha demonstrado uma
expectativa de privacidade atual (subjetiva) em uma dada situação e, segundo, que essa
16
Cf. Shoemaker, James R., “Pay Television and Section 605 of the Communications Act of 1934: A Need
for Congressional Action”, in Wash. & Lee L. Rev., vol. 38, Lexington: Washington and Lee University,
1981, p. 1249.
17
Em língua original: “The Fourth Amendment protects people, rather than places.” Cf. Katz v. United
States, 389 U.S. 347 (1967),
18
Em língua original: “One who occupies it, shuts the door behind him, and pays the toll that permits him
to place a call is surely entitled to assume that the words he utters into the mouthpiece will not be broadcast
to the world.” Cf. Katz v. United States, 389 U.S. 347 (1967).
24
expectativa seja aquela que a sociedade está disposta a reconhecer como “razoável” nas
circunstâncias do caso 19 . Em casu, uma cabine telefónica fechada, assim como uma
residência, é um espaço onde um indivíduo tem uma expectativa razoável de privacidade
constitucional protegida e, desse modo, uma invasão eletrónica em um espaço privado
nessa condição poderia constituir uma violação da Quarta Emenda, sendo tal invasão
presumivelmente irrazoável caso não seja realizada com mandado judicial. 20 Esta
claúsula, apesar das várias críticas despertadas21, contribuiu para a limitação do poder do
governo de ober informações dos cidadãos sem o seu conhecimento através da realização
de escutas telefónicas.
19
Cf. Hall, Kermit L. et al., Oxford Companion to The Supreme Court of The United States, 2ª ed., Oxford:
Oxford University Press, 2005, p. 554; e Hartman, Gary et al., Landmark Supreme Court Cases: The Most
Influential Decisions of The Supreme Court of The United States, New York: Facts On File, 2004, p. 340.
20
Em língua original: “an enclosed telephone booth is an area where, like a home, Weeks v. United States,
232 U. S. 383, and unlike a field, Hester v. United States, 265 U. S. 57, a person has a constitutionally
protected reasonable expectation of privacy; (b) that electronic, as well as physical, intrusion into a place
that is in this sense private may constitute a violation of the Fourth Amendment,and (c) that the invasion
of a constitutionally protected area by federal authorities is, as the Court has long held, presumptively
unreasonable in the absence of a search warrant”. Cf. Katz v. United States, 389 U.S. 347 (1967), pp. 360
e 361.
21
Para mais desenvolvimento, Cf. Anderson, David A., “The failure of American privacy law”, in
Protecting Privacy, Oxford: Oxford University Press, 1999, pp. 149-150.
22
Cf. Israel, Jerold H. / LaFave, Wayne R., Criminal Procedure: Constitutional Limitations, St. Paul: West
Publishing Company, 1993, pp. 150-165.
25
Omnibus Control and Safe Streets Act destacou-se pela sua abordagem sistemática e
detalhada na regulamentação dos procedimentos de intercepção das comunicações,
estabelecendo-se como um marco regulatório robusto e evoluído. Essa legislação não só
consolidou práticas internas mas também serviu de modelo referencial para a elaboração
de normativas similares em outros contextos nacionais.
23
Designadamente: O Procurador-Geral, o Procurador-Geral Adjunto, o Procurador-Geral Associado, ou
qualquer Procurador-Geral Assistente, qualquer Procurador-Geral Assistente Interino, ou qualquer
Procurador-Geral Assistente Adjunto ou Procurador-Geral Assistente Interino na Divisão Criminal ou
Divisão de Segurança Nacional especialmente designado pelo Procurador-Geral.
26
Relativamente ao prazo estipulado para a interceção de comunicações, nos termos
do inciso V do §2518, o período máximo autorizado para a interceção de comunicações
é de trinta dias, contados a partir do primeiro dia em que o agente de investigação ou de
aplicação da lei inicia a interceção nos termos da ordem judicial, ou dez dias após a
emissão da ordem, prevalecendo o que ocorrer primeiro. Podem ser concedidas extensões
desse prazo, contudo, estas só serão deferidas mediante pedido formulado de acordo com
os requisitos previamente estabelecidos e desde que o tribunal realize as determinações
exigidas. Importa sublinhar que cada prorrogação também não pode ultrapassar o limite
de trinta dias.
Por outro lado, é estipulado no inciso VI do §2518 que, uma vez concedida uma
autorização judicial para intercepção de comunicações, o juiz poderá requerer a entrega
periódica de relatórios que detalhem o progresso em direção ao cumprimento dos
objetivos que motivaram a autorização, bem como a justificativa para a continuidade da
medida interceptiva. Estes relatórios devem ser submetidos em intervalos definidos pela
autoridade judicial, garantindo assim a supervisão contínua e efetiva sobre a operação em
curso. Nos termos do alínea (a) do inciso VIII do §2518, uma vez que seja negada a
aplicação para uma ordem de intercepção ou findo o prazo da ordem e suas extensões, o
juiz responsável, num prazo não superior a noventa dias, deve notificar as partes
designadas na ordem ou aplicação e outras que considere justificadamente interessadas.
A promulgação da USA Patriot Act introduz uma nova dimensão de risco jurídico,
na medida em que a regulamentação do controle sobre as informações dos cidadãos passa
a ser justificada e legitimada, obliterando a noção de segredo perante o Estado.
Tradicionalmente, as atividades de intercepção de comunicações eram restritas à
27
investigação de crimes; contudo, a USA Patriot Act promove a normalização dessas
atividades, autorizando a sua aplicação em qualquer circunstância que possa ameaçar a
segurança nacional ou a segurança pública. Essa mudança legislativa implica que a
investigação sob o pretexto de combate ao terrorismo se torna ilimitada, potencialmente
infringindo direitos fundamentais dos cidadãos.
Em 2015, o Congresso dos Estados Unidos aprovou o USA Freedom Act, que
substituiu a Lei Patriótica, em vigor por aproximadamente 15 anos.
2. Alemanha
De acordo com o §10 da Lei Fundamental da República Federal da Alemanha, a
inviolabilidade do sigilo da correspondência, da comunicação postal e da
telecomunicação é um princípio fundamental, sendo que tais direitos só podem ser
restringidos por força da lei. Assim sendo, a prática da escuta é, em regra, proibida.
24
Cf. Weigend, Thomas, “Reforma do Processo Penal Alemão: Tendências e Áreas de Conflito”,
in Desenvolvimentos Recentes na Legislação Penal do Século XXI, traduzido por Fan Wen, organizado por
Chen Guangzhong, Pequim: Editora da Universidade de Direito e Política de Pequim, 2004, p. 239.
28
25
teoria do limiar (Schwellentheorie) como fundamento de legitimidade. Assim, as
autoridades alemãs basearam-se no inciso I do §163 StPO 26, utilizando esta disposição
genérica para implementar novas técnicas investigativas.
25
A Schwellentheorie, ou “teoria do limiar” em português, é um conceito jurídico que se originou na
Alemanha. Esta teoria é frequentemente invocada no contexto da persecução penal e da investigação
criminal para justificar intervenções que afetam direitos fundamentais, especialmente quando tais
intervenções não são especificamente reguladas por disposições legais explícitas.
A premissa central da Schwellentheorie é que, abaixo de um determinado limiar de intervenção, as
autoridades policiais e de investigação podem utilizar cláusulas gerais de autorização presentes na
legislação para legitimar as suas ações interventivas, mesmo que essas ações não envolvam coerção física
direta. Isso é particularmente relevante para intervenções informativas, como a recolha de dados e a
vigilância, que não envolvem força física mas ainda assim podem afetar os direitos fundamentais dos
indivíduos.
Em termos práticos, a Schwellentheorie argumenta que, quando a intervenção estatal não ultrapassa um
certo grau de intrusão nos direitos fundamentais, a base legal pode ser encontrada em disposições mais
gerais e menos específicas da lei. No entanto, quando a intervenção atinge ou ultrapassa esse limiar,
exigindo uma intrusão mais significativa nos direitos fundamentais, então é necessário um fundamento
jurídico mais específico e detalhado para justificar a ação.
Por exemplo, no contexto da investigação criminal, a aplicação da Schwellentheorie permitiu que as
autoridades alemãs utilizassem técnicas de investigação emergentes, como escutas telefónicas, antes que
houvesse uma legislação específica que regulasse tais práticas. No entanto, quando se reconheceu que estas
práticas envolviam uma intervenção significativa na liberdade de comunicação secreta (garantida pelo §10
da Lei Fundamental da Alemanha), tornou-se necessário criar disposições legais específicas para legitimar
essas intervenções, como o §100a StPO.
26
Segundo o inciso I do §163 StPO, as autoridades e os agentes dos serviços de polícia têm o dever de
investigar crimes e tomar todas as medidas urgentes para evitar a ocultação dos fatos. Para esse efeito, estão
autorizados a solicitar informações a todas as autoridades e, em caso de urgência, a exigir essas informações,
bem como a realizar investigações de qualquer natureza, salvo se outras disposições legais regularem
especificamente as suas competências.
29
estabelecendo pela primeira vez uma autorização expressa para a vigilância das
telecomunicações.
27
Cf. Weigend, Thomas, “Reforma do Processo Penal Alemão: Tendências e Áreas de Conflito”,
em Desenvolvimentos Recentes na Legislação Penal do Século XXI, traduzido por Fan Wen, organizado
por Chen Guangzhong, Pequim: Editora da Universidade de Direito e Política de Pequim, 2004, pp. 122-
123.
28
Ob. cit., pp. 122-123.
30
A evolução da tecnologia de comunicações móveis para a transmissão digital
possibilitou a gravação automática e contínua das informações de comunicações,
permitindo que as autoridades desenvolvessem métodos avançados de monitorização,
como a análise dos registos de tráfego. A legislação alemã, inicialmente regulamentada
pelo §100a StPO, que limitava a vigilância e a gravação das telecomunicações
(Telekommunikationsüberwachung), foi expandida com a introdução do §100g em 2002,
permitindo a obtenção e análise de dados de tráfego relacionados às comunicações, sem
acesso ao conteúdo das comunicações (Erhebung von Verkehrsdaten). Por outro lado, o
§100i autorizou o uso de captadores de Identificação Internacional de Usuário Móvel para
investigar números de telefone e obter a localização geográfica dos indivíduos sujeitos a
mandados de captura.
29
Cf. Inciso I do §100a StPO.
30
Cf. §100b StPO.
31
intervenção nos mesmos, visando obter informações não acessíveis por métodos
tradicionais e melhorando a eficácia na investigação de crimes altamente encobertos.
31
No contexto da evolução legislativa do StPO, o §100a é, de facto, o dispositivo mais frequentemente
modificado. Com exceção de onze tipos de crimes, tais como homicídio, roubo, fraude, branqueamento de
capitais, crime organizado e terrorismo, que permanecem inalterados, o legislador procede a uma revisão
contínua dos crimes abrangidos pela vigilância das telecomunicações, adaptando-os às exigências das
políticas criminais de diferentes períodos históricos.
32
realização de um crime incluído na categoria dos crimes abrangidos, os atos preparatórios
que configuram crimes segundo o Código Penal, conhecidos como crimes preparatórios
(Vorbereitungstat), são igualmente contemplados.
Além disso, nos termos do inciso III do §100a, a ordem de vigilância deve
restringir-se exclusivamente ao arguido ou a indivíduos sobre os quais, com base em
provas concretas, se possa inferir que recebem ou transmitem comunicações destinadas
ao arguido ou originadas por este, ou que o arguido utiliza a sua linha de comunicação ou
sistema informático.
Assim, é possível que a vigilância alcance aqueles que, em função da sua relação
com o arguido, são susceptíveis de receber ou encaminhar informações para ele, bem
como telefones que o arguido possa utilizar sem o conhecimento do proprietário.
Adicionalmente, se houver fundamentos suficientes que indiquem que o arguido utilizará
um telefone público, a vigilância pode ser legitimamente estendida a estes telefones
públicos, ampliando, assim, o âmbito de aplicação da medida.
33
I do §100a StPO. Além disso, deve-se cumprir o requisito da subsidiariedade previsto na
alínea 3 do inciso I do §100a StPO, que estipula que “se a investigação dos factos ou a
determinação da localização do arguido for substancialmente dificultada ou inviável por
outros meios”, a vigilância das telecomunicações só poderá ser realizada se outras
medidas de investigação forem insuficientes ou inviáveis.
Por outro lado, o prazo para a vigilância das telecomunicações está estipulado no
inciso I do §100e StPO. A validade inicial da ordem de vigilância é limitada a três meses,
sendo admissível a sua prorrogação por igual período, desde que se confirmem os
pressupostos que fundamentaram a medida inicial, à luz dos resultados investigativos
obtidos.
3. Portugal
No âmbito jurídico do direito penal, percebe-se uma significativa evolução
constitucional em relação às metodologias de obtenção de prova, especialmente quanto
às escutas telefónicas.32 A primeira Constituição Portuguesa, de 1822, já protegia direitos
fundamentais como a liberdade e a privacidade, estabelecendo a inviolabilidade do
segredo das cartas no art. 18.º. Esta disposição exigia a intervenção judicial para limitar
tais direitos, refletindo a preocupação com a privacidade. Constituições subsequentes,
como a de 1826 e 1838, continuaram a proteger esses direitos, incorporando princípios
como legalidade, necessidade e proporcionalidade. Com a instalação da República em
1911, verificou-se uma ampliação significativa na proteção dos direitos fundamentais,
32
Cf. Valente, Manuel Monteiro Guedes, Escutas Telefónicas da Excepcionalidade à Vulgaridade,
Coimbra: Almedina, 2008, pp. 30 e ss.
34
englobando, entre outros, o direito ao respeito pela reserva da intimidade da vida privada,
bem como o direito à liberdade de expressão e de pensamento.
33
Ob. cit., p. 45.
35
A Constituição da República Portuguesa, no seu art. 34.º, n.º 3, consagra que “é
proibida toda a ingerência das autoridades públicas na correspondência, nas
telecomunicações e nos demais meios de comunicação, salvos os casos previstos na lei
em matéria de processo criminal”. No âmbito da revisão do CPPP de 2007, e com a
observância do princípio da legalidade que orienta a atuação do legislador penal, verifica-
se uma evolução significativa na regulação das escutas telefónicas.
34
De acordo com o art. 187.º, n.º 1 do CPPP, “… quanto a crimes:
a) Puníveis com pena de prisão superior, no seu máximo, a 3 anos; b) Relativos ao tráfico de
estupefacientes; c) De detenção de arma proibida e de tráfico de armas; d) De contrabando; e) De injúria,
de ameaça, de coacção, de devassa da vida privada e perturbação da paz e do sossego, quando cometidos
através de telefone ;f) De ameaça com prática de crime ou de abuso e simulação de sinais de perigo; ou
g) De evasão, quando o arguido haja sido condenado por algum dos crimes previstos nas alíneas
anteriores.”
36
medida, comprovando a sua indispensabilidade para a descoberta da verdade ou a
dificuldade na obtenção da prova por outros meios.35
35
De acordo com o art. 187.º, n.º 1 do CPPP, “A intercepção e a gravação de conversações ou
comunicações telefónicas só podem ser autorizadas durante o inquérito, se houver razões para crer que a
diligência é indispensável para a descoberta da verdade ou que a prova seria, de outra forma, impossível
ou muito difícil de obter, por despacho fundamentado do juiz de instrução e mediante requerimento do
Ministério Público, quanto a crimes…”
36
De acordo com o art. 187.º, n.º 4 do CPPP, “A intercepção e a gravação previstas nos números anteriores
só podem ser autorizadas, independentemente da titularidade do meio de comunicação utilizado, contra:
a) Suspeito ou arguido; b) Pessoa que sirva de intermediário, relativamente à qual haja fundadas razões
para crer que recebe ou transmite mensagens destinadas ou provenientes de suspeito ou arguido; ou c)
Vítima de crime, mediante o respectivo consentimento, efectivo ou presumido.”
37
No que concerne ao tópico dos denominados “conhecimentos fortuitos”, cuja análise se revela pertinente
em articulação com as alterações anteriormente abordadas, será explorado no próximo capítulo desta
dissertação
37
imediata dos suportes e relatórios não pertinentes. O regime clarificado permite a
destruição imediata de conteúdos irrelevantes ou protegidos por segredo.38
Por outro lado, o art. 188.º estabelece explicitamente que apenas as conversações
ou comunicações que tenham sido transcritas e formalmente juntas aos autos podem ser
consideradas como prova, independentemente de terem sido apresentadas pelo arguido,
pelo assistente ou por ordem do Ministério Público. Estas transcrições e as gravações
originais deverão estar acessíveis a todos os sujeitos processuais.
4. Japão
A promulgação da Lei de Intercepção de Comunicações para Investigação
Criminal (doravante “Lei de Intercepção”) em 1999 foi uma resposta ponderada e vital
do governo japonês aos desafios prementes apresentados pelo crime organizado. O ataque
terrorista com gás nervoso perpetrado pela Aum Shinrikyo no metrô de Tóquio em 1995,
uma seita apocalíptica japonesa, que resultou em múltiplas vidas e causou ferimentos
graves, serviu como um catalisador crucial para o subsequente debate e aprovação desta
legislação. Além disso, a crescente pressão tanto internacional quanto doméstica sobre o
Japão para enfrentar o aumento alarmante da criminalidade, especialmente o tráfico de
38
Cf. Miranda, Jorge, e Medeiros, Rui, Constituição Portuguesa Anotada, Tomo I, 2.ª ed., Lisboa: Coimbra
Editora, 2010, pp. 776 e 777.
38
drogas associado às organizações criminosas, também teve um papel significativo na
percepção da necessidade de uma ação governamental decisiva.39
Por outro lado, havia críticos que argumentavam que a implementação da Lei de
Intercepção resultaria na violação de direitos fundamentais assegurados pela Constituição
japonesa, especialmente os direitos à privacidade e ao sigilo das comunicações. O art.
21.º da Constituição japonesa, ao garantir o sigilo de todos os meios de comunicação,
proibe expressamente qualquer forma de censura e a violação do segredo das
comunicações.41 Por sua vez, o art. 35.º consagra o direito à privacidade, garantindo a
segurança dos indivíduos em suas residências, documentos e pertences contra intrusões,
buscas e apreensões, exceto quando autorizadas por mandado judicial emitido com
justificação adequada e descrição específica do local a ser investigado e dos objetos a
39
Cf. Suda, Yohei, “The Japanese Law on Communications Interception during Criminal Investigations:
Translator's Introduction”, in Pacific Rim Law & Policy Journal, Seattle: Students of the University of
Washington School of Law, 2000, pp. 67-68.
40
Cf. Okupin, Yasuhiro, Pesquisa Abrangente sobre a Lei de Intercepção de Comunicações: Lei de
Vigilância e Liberdades Civis, Tóquio: Nihon Hyōronsha, 2001, p. 6.
41
Cf. o art. 21.º da Constituição japonesa, que estabelece que “a liberdade de reunião e associação, bem
como a liberdade de expressão, imprensa e todas as outras formas de expressão, são garantidas. Não será
mantida qualquer forma de censura, nem será violado o segredo de qualquer meio de comunicação”.
39
serem apreendidos. 42 O art. 35.º determina que a realização de buscas e apreensões deve
ser fundamentada no mandado judicial, sendo que esse art. não abrange a prática de
escutas telefónicas.43
42
Cf. o art. 35.º da Constituição japonesa, que estabelece que “o direito de todas as pessoas à segurança
em suas residências, documentos e pertences contra invasões, buscas e apreensões não será comprometido,
salvo mediante mandado emitido por justa causa e que especifique detalhadamente o local a ser
vasculhado e os objetos a serem apreendidos, ou ainda, salvo nos casos previstos pelo art. 33.º”.
43
Cf. Gilmer, Lillian Roe, “Japan's Communications Interception Act: Unconstitutional Invasion of
Privacy or Necessary Tool”, in Vanderbilt Journal of Transnational Law, Nashville: Vanderbilt University
Press, 2002, p. 910.
44
Tokyo High Court Decision, 15 October 1992, in Kōkeishū, Vol. 45, No. 3, p. 85.
45
O Supreo Tribunal julgou que, perante a necessidade premente de conduzir investigações criminais
eficazes, foram realizadas iniciativas para integrar a prática da intercepção de comunicações no escopo das
investigações na legislação processual penal anterior da sua reforma. Essas tentativas envolviam a aplicação
de inspeção, mediante a qual uma autorização judicial era concedida para a inspeção dos equipamentos das
empresas de telecomunicações, viabilizando assim a intercepção de conversas telefónicas. Este
procedimento foi avaliado como constitucional e legal pelo Supremo Tribunal.
40
com os procedimentos legais apropriados, resultando assim numa solução temporária
para a questão da constitucionalidade da intercepção de comunicações.46
46
Embora a Lei de Intercepção tenha sido promulgada, ainda existem argumentos sendo apresentados de
que a sua promulgação sem uma emenda constitucional é considerada uma violação da Constituição.
Perante essa questão, existe na doutrina jurídica japonesa uma argumentação que explica por que o
Supremo Tribunal considerou a Lei constitucional: essa análise baseia-se na demonstração histórica e
cultural do povo japonês, que tem mostrado disposição para sacrificar liberdades individuais em prol do
bem-estar público. Isso evidencia que a legislação sobre a intercepção de comunicações é concebida para
promover o bem-estar coletivo, ao proteger a população em geral. Acresce que os art.s 12.º e 13.º da
Constituição estabelecem um equilíbrio entre os direitos individuais e o bem-estar público, onde o art. 12.º
estipula que as pessoas devem “abster-se de qualquer abuso dessas liberdades e direitos e devem sempre
ser responsáveis por utilizá-los para o bem-estar público”, enquanto o art. 13.º prevê que o direito de uma
pessoa à “vida, liberdade e busca da felicidade deve, na medida em que não interfira com o bem-estar
público, ser a consideração suprema na legislação”. Esses dois art.s têm sido consistentemente utilizados
para justificar as restrições governamentais às liberdades individuais, contanto que tais restrições adotadas
sejam os meios menos restritivos para proteger o bem-estar público. Assim, existe uma base constitucional
para a opinião do tribunal de que a lei é constitucional se utilizada de acordo com os procedimentos legais.
Cf. Gilmer, Lillian Roe, ob. cit., 2002, pp. 911-913.
47
Cf. Umeda, Sayuri, “Japan: 2016 Criminal Justice System Reform”, in The Law Library of Congress,
Global Legal Research Directorate, Washington, D.C.: The Law Library of Congress, 2016, p. 1.
48
Ob. Cit. p. 2.
41
O âmbito de aplicação da intercepção das comunicações encontra-se no art. 3.º
da Lei de Intercepção. Na verdade, a reforma de 2016, como referimos, ampliou significa-
tivamente o âmbito de aplicação da intercepção das comunicações como uma ferramenta
legítima de investigação criminal. Antes da reforma, os investigadores japoneses tinham
autorização para interceptar comunicações em quatro tipos específicos de crimes,
incluindo tráfico e posse de estupefacientes, violações das leis de controlo de armas de
fogo, homicídios cometidos por grupos criminosos organizados e contrabando em larga
escala de pessoas.49 Com esta reforma, os investigadores podem recorrer à intercepção
das comunicações em casos que envolvem crimes como uso de explosivos, incêndio
criminoso, homicídio, ofensas corporais, aprisionamento de pessoas, sequestro de
menores, tráfico de pessoas, roubo, fraude e violações da lei contra a prostituição e
pornografia infantil.50 51 Neste sentido, os investigadores têm autorização para utilizar
intercepção como parte das suas investigações em uma ampla gama de casos criminais,
uma vez que os tipos de crimes mais comuns no sistema de justiça criminal japonês já
estão sujeitos à possibilidade de serem investigados por meio de intercepção das
comunicações.
49
Cf. art. 3.º da Lei de Intercepção de Comunicações para Investigação Criminal, bem como a Tabela
Anexa.
50
Cf. Tabela Anexa II da Lei de Intercepção.
51
Cf. Umeda, Sayuri, ob. cit., p. 6.
42
recurso, ou seja, quando outras formas de investigação não são suficientes para descobrir
a verdade por trás do caso.52
Por outro lado, conforme preceitua o art. 4.º da Lei de Interceção, as competências
para a interceção de comunicações estão atribuídas aos juízes dos tribunais de distrito. A
solicitação de um mandado para a interceção deve ser formalmente apresentada por um
procurador público, designado pelo Procurador-Geral, ou por um oficial da polícia
judicial.53 O pedido de mandado de interceção deve ser dirigido a um juiz do tribunal de
distrito. No caso de já ter existido um pedido anterior ou um mandado relacionado com
os mesmos fatos ou comunicações, é imperativo que o procurador ou oficial de justiça
informe o juiz sobre essa circunstância.
52
O art. 3.º, n.º 1 da Lei de Intercepção prevê que , “os procuradores ou agentes da polícia judiciária,
quando existirem circunstâncias que levem a suspeitar da realização de comunicações envolvendo
conspiração, instruções ou outros contatos mútuos relacionados com a prática, preparação ou medidas
subsequentes, como a ocultação de provas, referentes a qualquer dos crimes especificados nos seguintes
itens (para os itens (ii) e (iii), uma série de crimes), ou outros assuntos relacionados com a prática do
crime em questão (daqui em diante designados como “comunicações relacionadas com o crime” neste
parágrafo), e quando for extremamente difícil identificar os criminosos ou esclarecer as circunstâncias ou
conteúdo do delito por outros meios, poderão, mediante ordem de escuta emitida por um juiz, interceptar
meios de comunicação identificados por números de telefone ou outros números ou códigos para distinguir
remetentes ou destinatários (doravante referidos como “números de telefone, etc.”) (daqui em diante, um
meio de comunicação assim identificado é referido como um “meio de comunicação”), que o suspeito
utiliza com base num contrato com uma operadora de telecomunicações, etc. (exceto quando não haja
suspeita de que sejam utilizados para comunicações relacionadas com o crime pelos criminosos) ou
quando existam suspeitas suficientes de que sejam usados para comunicações relacionadas com o crime
pelos criminosos”. No seu n.º (i), “Quando existir fundamento suficiente para suspeitar que um crime
mencionado no Anexo I ou no Anexo II foi perpetrado e que há indícios suficientes para acreditar que o
crime foi cometido por meio de uma conspiração envolvendo múltiplas pessoas (para os crimes listados
no Anexo II, restritos àqueles nos quais a conduta constitutiva do crime é executada por um grupo de
pessoas que atuam conforme papéis predefinidos, o mesmo critério se aplica aos itens subsequentes).”
53
No cargo de superintendente ou superior, designado pela Comissão Nacional de Segurança Pública ou
por uma Comissão de Segurança Pública Prefeitoral, um agente de narcóticos designado pelo Ministro da
Saúde, Trabalho e Bem-Estar, ou um oficial da guarda costeira designado pelo Comandante da Guarda
Costeira do Japão.
43
um período de até 10 dias para a sua execução. No entanto, conforme estipulado pela
legislação aplicável, este prazo pode ser prorrogado até ao máximo de 30 dias, desde que
tal extensão seja devidamente solicitada pelo procurador ou pela autoridade policial
responsável. 54 Restrições rígidas são impostas quanto aos locais onde as escutas podem
ser realizadas, sendo estritamente proibido conduzi-las em residências, edifícios ou
embarcações habitadas ou sob guarda, com o propósito de evitar intrusões indevidas na
privacidade de indivíduos alheios à investigação.55
54
O art. 5.º, n.º 1 da Lei de Intercepção estipula que “o juiz que recebe o requerimento mencionado no
parágrafo anterior, ao constatar sua justificativa, estabelece um prazo de até dez dias como período de
escuta e emite o mandado de escuta”. E art. 7.º, n.º 1 da mesma Lei dispõe que “O juiz do tribunal de
comarca pode, mediante pedido do procurador ou do agente da autoridade judicial, estabelecer um prazo
de até dez dias para prorrogar o período de escuta, quando considerar necessário. Contudo, é vedado que
o período de escuta ultrapasse trinta dias consecutivos”.
55
O art. 3.º, n.º 3 da Lei de Intercepção estipula que “salvo nos locais sob a supervisão de provedores de
serviços de comunicações, não é admissível realizar a intercepção conforme definido nos dois parágrafos
anteriores em residências ocupadas ou em locais sob guarda de terceiros, em edifícios ou embarcações.
Contudo, esta proibição não é aplicável quando há consentimento do ocupante da residência, do
responsável pela guarda ou de seus representantes legais”.
56
Cf. Kosakatani, Satoshi, Tetsutaro Uehara, e Songpon Teerakanok, “Japan's Act on Wiretapping for
Criminal Investigation: How the system is implemented and how it should be”, in 2020 15th International
Conference for Internet Technology and Secured Transactions (ICITST), London: IEEE, 2020, p.1.
44
superior esteja presente, assumindo o papel de “supervisor de intercepção”.
desempenhando as funções que anteriormente seriam atribuídas ao represente.57
5. Taiwan
A partir do início da década de 1990, Taiwan iniciou a implementação da
vigilância das comunicações, que, ao longo dos anos, se consolidou como uma técnica
indispensável para as autoridades encarregadas da investigação criminal. Em resposta a
esta necessidade, Taiwan promulgou, em 1999, a Lei de Proteção e Supervisão das
Comunicações, formalizando e regulamentando a prática da vigilância das comunicações.
Com o intuito de garantir a eficácia da implementação da referida legislação, 2000,
o Regulamento de Implementação da Lei de Proteção e Supervisão das Comunicações
foir promulgado. Este regulamento visa delinear de forma precisa os procedimentos
específicos a serem adotados na vigilância das comunicações, assegurando, assim, a
conformidade e a eficácia na aplicação das disposições legais.
A revisão de 2014 constituiu a mais significativa modificação desta lei até à data.
Além de alterar múltiplas disposições existentes, esta revisão introduziu novos sistemas,
abordando questões de grande relevância, como a admissibilidade da valoração dos
57
O art. 13.º, n.º 1 da Lei de Intercepção estipula que “Ao conduzir a implementação da intercepção, é
necessário que um gestor de comunicações, entre outros, esteja presente. Caso um gestor de comunicações,
entre outros, não possa estar presente, um procurador público ou um agente da polícia judicial deve
garantir que um funcionário de um governo local esteja presente na implementação da intercepção”; e n.º
2 estipula que “Um observador pode apresentar as suas opiniões sobre a implementação da intercepção a
um procurador público ou a um agente da polícia judicial”.
45
conhecimentos fortuitos e as regras de exclusão das provas obtidas por meio de escutas
ilegais. Por outro lado, as revisões de 2016 e 2018 foram de menor impacto, limitando-se
a modificar ou eliminar determinados art.s.
Para além dos expostos, nos termos do art. 5.º, n.º 1 da Lei de Proteção e
Supervisão das Comunicações, a admissibilidade da interceção das comunicações está
condicionada à verificação de indícios suficientes que sustentem a crença de que o
arguido ou o suspeito se encontra envolvido em uma das categorias de infração
específicas, conforme elencadas na referida norma. Ainda, deve haver razões substanciais
e confiáveis que indiquem a pertinência do conteúdo das comunicações em relação ao
caso em questão. Finalmente, a interceção das comunicações apenas será admissível
quando a coleta ou investigação de evidências por outros meios se revele impossível ou
58
Os crimes graves específicos que legitimam a aplicação de medidas de interceção são amplamente
abrangentes. Entre os crimes mais graves destacam-se aqueles que envolvem ameaças severas à segurança
nacional e à ordem pública. São incluídos, por exemplo, crimes de preparação de sublevação e tumulto,
bem como delitos graves como corrupção por violação de dever, contrabando, e crimes relacionados com
a exploração sexual de menores. A legislação também abrange delitos relacionados com a segurança
pública, como a posse ilegal de armas e munições, e crimes financeiros sérios, incluindo a lavagem de
dinheiro e a violação de segredos comerciais. Cf. o art. 5.º, n.º 1 da Lei de Proteção das Comunicações.
46
excessivamente difícil. Este dispositivo legal assegura a observância rigorosa dos
princípios da necessidade e da subsidiariedade, garantindo que a medida seja aplicada
apenas quando estritamente indispensável e insubstituível por outras formas de
investigação menos intrusivas.
59
Cf. o art. 5.º, n.º 2 da Lei de Proteção e Supervisão das Comunicações.
60
Cf. o art. 7.º, n.º 1 da Lei de Proteção e Supervisão das Comunicações.
47
dispõe de um prazo de quarenta e oito horas para a emissão do mandado; na falta da sua
emissão dentro desse prazo, a vigilância das comunicações deve ser imediatamente
61
suspensa. Relativamente às medidas de vigilância de comunicações destinadas à
monitorização de comunicações associadas a questões de inteligência, em situações de
extrema urgência, a Agência de Gestão de Inteligência de Segurança Nacional deve
notificar o tribunal superior da jurisdição onde se encontra, acerca da emissão da
autorização para a vigilância das comunicações. Caso o tribunal não conceda o seu
assentimento dentro do prazo de quarenta e oito horas, a vigilância deverá ser
imediatamente interrompida.62
Por último, no que respeita ao prazo da interceção, de acordo com o art. 12.º da
Lei de Proteção e Supervisão das Comunicações, o período de vigilância das
comunicações, em cada caso, não pode ultrapassar 30 dias. Se houver necessidade de
prolongar a vigilância, deve ser apresentada uma fundamentação concreta para justificar
a continuidade da medida, e o pedido deve ser efetuado até dois dias antes do término do
período inicial. A vigilância contínua não pode exceder um ano; se subsistir a necessidade
de prolongar a vigilância, deve ser submetido um novo pedido. A legislação especifica
que o período máximo de vigilância autorizado por um único mandado é de 13 meses
(um mês inicial mais um ano de prorrogação). Em caso de necessidade de continuidade
da investigação, deve-se proceder a um novo requerimento de vigilância.
6. China
A revisão legislativa do Código de Processo Penal da República Popular da China
(doravante CPPC) em 2012 introduziu uma secção voltada para as Medidas de Vigilância
Técnica, inserida no capítulo relativo aos procedimentos investigativos criminais.
61
Cf. o art. 6.º da Lei de Proteção e Supervisão das Comunicações.
62
Cf. o art. 7.º, n.º 3 da Lei de Proteção e Supervisão das Comunicações.
48
investigações, relegou a sociedade a uma posição de desconhecimento quanto às práticas
de monitorização. Em resposta à lacuna regulatória evidente, a Lei de Segurança Nacional
de 1993 e a Lei da Polícia Popular de 1995 instituíram disposições autorizativas que
delinearam os poderes de vigilância técnica aos órgãos de segurança nacional e pública,
estabelecendo um quadro jurídico preliminar para a implementação dessas medidas, vital
para a salvaguarda dos interesses estatais em contexto de segurança interna.
Além disso, o art. 149.º do CPPC regula o prazo das medidas de intercepção de
comunicações. Conforme o disposto neste artigo, a decisão de aprovação tem validade
por um período de três meses a partir da data de sua emissão. Nos casos em que a
continuidade das medidas de investigação técnica não se revele necessária, estas devem
ser imediatamente cessadas. Para casos complexos e de difícil resolução, se houver
necessidade de prolongar a aplicação das medidas de investigação técnica após o término
63
O art. 148.º do CPPC dispõe que, “após a instauração de um processo, as autoridades policiais podem,
em casos de crimes que ameacem a segurança nacional, atividades terroristas, criminalidade organizada de
natureza mafiosa, crimes significativos relacionados com drogas ou outros crimes que constituam um sério
prejuízo para a sociedade, adotar medidas de vigilância técnica, desde que tais ações sejam necessárias para
a investigação criminal e sujeitas a procedimentos rigorosos de aprovação.”
49
do prazo inicial, a validade pode ser prorrogada, mediante a devida aprovação, por
períodos adicionais que não excedam três meses cada.
64
Dispõe o art. 265.º das “Normas Procedimentais para a Gestão de Casos Criminais pelas Autoridades de
Segurança Pública”: “Quando se torna necessário adotar medidas de vigilância técnica, deve-se elaborar
um relatório de solicitação dessas medidas, que será submetido à aprovação do responsável pela segurança
pública a nível municipal ou superior, procedendo-se então à elaboração do documento que formaliza a
decisão de implementar tais medidas.”
50
À luz das normativas supracitadas, a configuração do regime de autorização no
contexto da vigilância técnica na China, além de perpetuar abordagens tradicionais como
a gestão partidária da vigilância técnica ou a vigilância técnica baseada em política,
conserva a legalização das proceduras de aprovação rigorosas como um mecanismo de
controle administrativo interno.
7. Conclusão
Após a análise do regime da intercepção das comunicações nos diversos
ordenamentos jurídicos, observa-se que tanto nos países do sistema de common law
quanto nos do sistema jurídico continental, o objetivo da intercepção de comunicações
evoluiu do controle inicial da criminalidade para a luta contra o terrorismo e a preservação
da segurança nacional. A abrangência das regulamentações relativas à intercepção de
comunicações tem sido adaptada de forma contínua, acompanhando o desenvolvimento
das tecnologias de comunicação e as transformações nos métodos de comunicação. Esse
percurso evolutivo inclui desde a inspeção e apreensão de correio tradicional, passando
pela escuta telefónica e eletrónica, até à vigilância na internet.
51
da intercepção de comunicações: o modelo codificado e o modelo de legislação específica.
O modelo codificado consiste na integração das disposições relativas à intercepção de
comunicações no código de processo penal, tratando-se assim de uma parte integrante
deste diploma legal. Por outro lado, o modelo de legislação específica prevê a criação de
uma lei autónoma, especificamente destinada a regular a intercepção de comunicações.
52
A Alemanha adota majoritariamente o método de enumeração específica dos tipos
de crimes. O §100 do StPO estabelece três categorias distintas para a aplicação de
medidas de escuta e vigilância, a saber: a escuta e registo de comunicações telefónicas, a
escuta de comunicações no interior de residências e a escuta de comunicações fora das
residências. Cada uma dessas categorias é associada a tipos penais específicos,
delineando com precisão as infrações que permitem a implementação das medidas de
intercepção de comunicações.
53
O art. 5.º da Lei de Proteção e Supervisão das Comunicações de Taiwan diferencia
os tipos de crimes suscetíveis de serem alvo de medidas de vigilância de comunicações e
de vigilância de comunicações em situações de emergência. No que respeita à vigilância
de comunicações, a referida legislação adota um modelo que combina a definição ampla
dos crimes, estabelecendo um limite mínimo de pena privativa de liberdade de três anos,
com uma lista específica de infrações. Em contraste, a vigilância de comunicações em
situações de emergência é regulada exclusivamente através da enumeração específica dos
tipos de crimes.
54
assegurando a conformidade com os requisitos legais e a proteção dos direitos
fundamentais.
55
países admite a possibilidade de extensão do período de escuta, desde que esta extensão
seja aprovada por uma instância judicial competente. Caso contrário, a continuidade da
vigilância sem a devida autorização será considerada ilegal.
A título de exemplo, os prazos legais para a vigilância por escuta variam conforme
a jurisdição: nos Estados da América e em Taiwan, de trinta dias; na Alemanha, em
Portugal e na China, de três meses; e no Japão, de dez dias por cada período de escuta
autorizado.
56
encontra-se consagrado nas disposições legais vigentes na Alemanha, Portugal, Japão e
Taiwan.
57
investigador (investigative) ou agente da lei (law enforcement officer) intercepta
comunicações por cabos, orais ou eletrónicas relacionadas a crimes diferentes daqueles
especificados na ordem de autorização ou aprovação, o conteúdo delas e as provas
derivadas delas podem ser divulgados ou utilizados conforme estabelecido nos incisos I
e II desta Seção. Tal conteúdo e qualquer prova derivada podem ser utilizados conforme
o inciso III desta Seção, desde que autorizados ou aprovados por um juiz competente que
verifica, em um requerimento subsequente de autorização da intercepção das
comunicações, que o conteúdo foi interceptado de acordo com as disposições deste
capítulo. Tal requerimento deve ser feito assim que praticável.65 66
65
Em versão original da 18 U.S.C. §2517(5): “When an investigative or law enforcement officer, while
engaged in intercepting wire, oral, or electronic communications in the manner authorized herein,
intercepts wire, oral, or electronic communications relating to offenses other than those specified in the
order of authorization or approval, the contents thereof, and evidence derived therefrom, may be disclosed
or used as provided in subsections (1) and (2) of this section. Such contents and any evidence derived
therefrom may be used under subsection (3) of this section when authorized or approved by a judge of
competent jurisdiction where such judge finds on subsequent application that the contents were otherwise
intercepted in accordance with the provisions of this chapter. Such application shall be made as soon as
practicable”.
66
O requerimento subsequente de autorização da intercepção das comunicações, previsto no parágrafo (5)
do §2517, refere-se a um pedido de alteração do despacho que autoriza a sua realização. Em essência,
busca-se obter uma aprovação judicial com eficácia retroativa para a intercepção de comunicações
relacionadas a crimes que não foram inicialmente especificados no despacho original. O pedido para essa
alteração deve apresentar evidências de que o despacho original foi obtido legamente, solicitado de boa fé
e não como uma busca subterfúgia, e que a comunicação foi interceptada incidentalmente durante a
execução legal do despacho. Cf. LaDue, John D., “Electronic surveillance and conversations in plain view:
Admitting intercepted communications relating to crimes not specified in the surveillance order,” in Notre
Dame L. Rev. 65, Notre Dame: Notre Dame Law Review, 1989, pp. 510-511.
58
oficiais67; o inciso II, por outro lado, indica que os oficiais podem utilizar as informações
obtidas e as provas delas decorrentes, na medida em que essa utilização seja apropriada
para o desempemho adequado das suas funções oficiais.68
67
Em versão original da 18 U.S.C. §2517(1): “Any investigative or law enforcement officer who, by any
means authorized by this chapter, has obtained knowledge of the contents of any wire, oral, or electronic
communication, or evidence derived therefrom, may disclose such contents to another investigative or law
enforcement officer to the extent that such disclosure is appropriate to the proper performance of the
official duties of the officer making or receiving the disclosure”.
68
Em versão original da 18 U.S.C. §2517(2): “Any investigative or law enforcement officer who, by any
means authorized by this chapter, has obtained knowledge of the contents of any wire, oral, or electronic
communication or evidence derived therefrom may use such contents to the extent such use is appropriate
to the proper performance of his official duties”.
69
Em versão original da 18 U.S.C. §2517(3): “Any person who has received, by any means authorized by
this chapter, any information concerning a wire, oral, or electronic communication, or evidence derived
therefrom intercepted in accordance with the provisions of this chapter may disclose the contents of that
communication or such derivative evidence while giving testimony under oath or affirmation in any
proceeding held under the authority of the United States or of any State or political subdivision thereof”.
59
autorizada pelo juiz compente, após este verificar que o conteúdo foi interceptado de
acordo com as disposições do Título III.70
70
Cf. LaDue, John D., ob. cit., p.514 e 515.
71
Cf. Senate Report. No. 1097, 90th Cong., 2d Sess., reprinted in 1968 U.S. Code Cong. & Admin. News
2112, Washington D.C.: U.S. Government Printing Office, 1968, p. 2189. O Senate Report afirma que
““other” offenses under that section “need not be designated “offenses,”” an apparent exemption from
the requirement that the offense be among those designated in the Section 2516 list.””
Veja-se, também, In the Matter of a Grand Jury Subpoena served on John Doe, publicado no volume 889
do Federal Reporter, Segunda Série, na p. 384, com referência específica na p. 387, decidido pelo Tribunal
de Apelação dos Estados Unidos para o Segundo Circuito no ano de 1989, que considera que ““other”
offenses under Section 2517(5) may include offenses, federal as well as state, not listed in Section 2516 so
long as there is no indication of bad faith or subterfuge by the federal officials seeking the amended
surveillance order.”
72
Cf. Coolidge v. New Hampshire, 403, U.S. 443 (1971). Como afirmou a Corte, “an object which comes
into view during a search incident to arrest that is appropriately limited in scope under existing law may
be seized without a warrant”.
60
correspondente promoção de ação penal sem a exigência de um mandado judicial
específico para buscas e apreensões, desde que sejam preenchidos certos requisitos: (1) a
evidência deve estar imediatamente à vista; (2) o agente de autoridade tem de possuir uma
razão justificativa anterior para se encontrar no local a partir da qual consegue visualizar
imediatamente a evidência; (3) a evidência “por si mesma ou juntamente com factos
conhecidos do agente de autoridade no momento da apreensão, [deve fornecer] uma
probabilidade razoável para crer que exista uma conexão entre a evidência e alguma
atividade criminosa”.73 74
A maioria dos cortes federais dos Estados Unidos adota uma interpretação
extensiva do inciso V do §2517 do Código dos Estados Unidos com base no
desenvolmente da doutrina da visibilidade imediata, no que diz respeito à admissibilidade
das evidências obtidas incidentalmente por meio de escutas telefónicas autorizadas em
processos judiciais. Essa interpretação estabelece três exceções e regras com vista a
permitir a admissibilidade dessas evidências: (1) a exceção de crime semelhante (the
similar offense exception); (2) a exceção de parte integral (the integral part exception); e
(3) a regra de autorização implícita (the implicit authorization rule).75
73
State v Guy, 172 Wis.2d 86, 101-02, 492 N.W.2d 311 (1992), citando State v Washington, 134 Wis.2d
108, 121, 396 N.W.2d 156 (1986), que citava Bies v State, 76 Wis.2d 457, 464, 251 N.W.2d 461 (1977).
apud. Cf. Mendes, Paulo de Sousa, “A privacidade digital posta à prova no processo penal”, in Quaestio
facti. Revista internacional sobre razonamiento probatorio, vol. 2, Lisboa: Editora Jurídica, 2021, p. 240.
Em língua original: “(1) the evidence must be in plain view; (2) the officer must have a prior justification
for being in the position from which [he or] she discovers the evidence in ‘plain view’; (3) the evidence
seized ‘in itself or itself with facts known to the officer at the time of the seizure, [must provide] probable
cause to believe there is a connection between the evidence and criminal activity’”.
74
Foi estabelecido no caso Coolidge v. New Hampshire que um item só poderia ser apreendido se a sua
descoberta fosse “involuntária” (inadvertent), enquanto essa restrição foi posteriormente considerada
desnecessária no caso Horton v. Califórnia. Para mais desenvolvimento. Cf. Israel, Jerold H., LaFave,
Wayne R., Criminal Procedure, Constitutional Limitations in a Nut Sshell, St. Paul: West Academic, 2020,
p. 111.
75
Cf. LaDue, John D., ob. cit., pp. 519-522.
61
1.2.1 Exceção de crime semelhante (the similar offense exception)
No que toca à primeira exceção a exceção de crime semelhante foi concebida pelo
Tribunal de Recursos da Quinta Circuscrição dos Estados Unidos no caso United States
v. Campagnuolo e fundamentada no propósito do inciso V do §2517 de evitar o uso de
autorização para intercepção de comunicações como subterfúgio para investigações
criminais não vinculadas aos que foram inicialmente autorizados.76
76
Cf. United States v. Campagnuolo, 556 F.2d 1209 (5th Cir. 1977)
62
acusação.77 De acordo com o entendimento do tribunal a quo, a intenção legislativa no
inciso V do §2517 visa assegurar que a ordem de autorização para intercepção telefónica
não seja utilizada como um subterfúgio para investigar um crime diferente, no qual os
pré-requisitos para uma ordem de autorização estejam ausentes. 78 79 Isto sugere que o
requisito de autorização do juiz competente conforme estabelecido no mesmo parágrafo
poderia ser flexibilizado em situações onde o crime para o qual a intercepção telefónica
foi autorizada e o crime para o qual a informação foi divulgada fossem tão similares que
a autorização original dificilmente seria um subterfúgio para obter evidências do crime
diferente.80 Em casu, não havendo indícios de que o procurador tenha tentado usar as
conversas interceptadas com qualquer objetivo que não fosse obter uma acusação pelo
crime específico mencionado na ordem de autorização, a validade da divulgação incial
77
No caso United States v. Campagnuolo, 556 F.2d 1209 (5th Cir. 1977), o tribunal de apelação do Circuito
Federal estabeleceu que “… difficult to perceive how section 2517(5) would be violated where the
Government used intercepted conversations to secure an indictment solely under the very statute named in
the authorization order, but where those same conversations also evidenced some element of a different
offense for which an indictment was neither sought nor returned”.
78
No caso United States v. Campagnuolo, 556 F.2d 1209 (5th Cir. 1977), afirmou o tribunal que “Congress
wished to assure that the Government does not secure a wiretap authorization order to investigate one
offense as a subterfuge to acquire evidence of a different offense for which the prerequisites to an
authorization order are lacking”.
79
O inciso III do §2517 estabelece que as evidências de intercepção telefónica podem ser divulgadas por
qualquer pessoa autorizada a recebê-las enquanto presta depoimento sob juramento em qualquer processo
realizado sob a autoridade dos Estados Unidos; todavia, o inciso V do §2517 estabelece uma exceção
importante ao inciso III quando um oficial intercepta comunicações “relacionadas a crimes diferentes
daqueles especificados na ordem de autorização...”, em que as conversas só podem ser divulgadas após um
juiz determinar que o conteúdo foi interceptado de acordo com o Título III. É obvio que, deste modo, o
lesgislador pretende evitar que as pessoas contornassem as restrições impostas aos pedidos originais para
intercepção telefónica.
80
Cf. LaDue, John D., ob. cit., p. 520. Também Cf. United States v. Watchmaker, 761 F.2d at 1470, no
qual o tribunal declarou que “Although the court in Campagnuolo did not elaborate, understanding the
authorization requirement as a means of preventing governmental subterfuge appears to permit a more
flexible interpretive approach. For example, courts could relax the authorization requirement in cases
where the offense for which the wiretap was authorized and the offense for which the information was used
were so similar in nature that there would be little chance that the original authorization was a “subterfuge”
to obtain evidence of an offense “for which the prerequisites to authorization are lacking.”
63
não foi afetada pela subsequente obtenção da ordem de divulgação para a apresentação
das evidências de outro crime.
Os réus alegam que o governo não apresentou um pedido de acordo com o inciso
V do §2517 “o mais brevemente possível”, conforme exigido por esta seção, e, portanto,
a intercepção foi ilegal e deve ser suprimida de acordo com o §2515. Argumentam
também que o requerimento subsequente de autorização da intercepção das comunicações
à luz do inciso V do §2517 não incluiu uma solicitação explícita para utilizar as
comunicações interceptadas como prova de uma violação do §371.
81
Cf. United States v. Arnold, 576 F. Supp. 304 (N.D. Ill. 1983)
64
genuína e à legalidade das ações.82 Por outro lado, o tribunal julgou que o requerimento
com base no inciso V do §2517 descreve em detalhes o histórico da intercepção
telefónica e o facto de que várias comunicações foram interceptadas, indicando a
ocorrência dos crimes de obstrução da justiça, operações ilegais de jogos de azar e
atividades de extorsão. Considerando o reconhecimento do Congresso de que esses
crimes frequentemente estão interconectados (“such offenses often go hand-in-hand”),
este tribunal concorda que a conclusão de boa-fé foi justificada.83 Assim, a solicitação
dos réus para suprimir as comunicações interceptadas é rejeitada.
82
Cfr United States v. Arnold, 576 F. Supp. 304 (N.D. Ill. 1983). Segundo o tribunal, “…the offenses
specified in the two original wiretap authorizations and those specified in the §2517(5) application … are
of a sufficiently similar nature to quell any doubts about subterfuge or good faith”.
83
Cf. United States v. Southard, 700 F.2d 1, 28-29 (3d Cir.1983).
65
autoriza explicitamente apenas as interceptações relacionadas a violações diretas da
RICO.84
84
Cf. LaDue, John D., ob. cit., p 520; United States v. Watchmaker, 761 F2d 1459, 1470-71 (11th Cir.
1985); United States v. Mancari, 663 F. Supp. 1343, 1352 & n. 18 (N.D. III. 1987).
85
Cf. United States v. Watchmaker, 761 F2d 1459, 1470-71 (11th Cir. 1985)
86
De acordo com a decisão proferida no caso United States v. Watchmaker, 761 F2d 1459, 1470-71 (11th
Cir. 1985), o trinbunal sustentou que “the prosecution under the RICO statute bears a unique kind of
similarity to the prosecution under the drug law. It is not merely a question of crimes which have ‘some
common elements’ or ‘some overlapping proof’: where, as here, a drug offense is one of the predicate acts
for the RICO violation, every element of that offense must be proven before the RICO violation can be
established. Although the object of the RICO statute might be different, the extent of similarity in what must
be proved makes “subterfuge” virtually impossible”.
66
A regra de autorização implícita permite que a aplicação formal do inciso V do
§2517 e a sua posterior aprovação com eficácia retroativa para a intercepção de
comunicações relacionadas a crimes não inicialmente especificados sejam dispensadas
quando as informações obtidas incidentalmente durante uma intercepção autorizada são
mencionadas na solicitação de prorrogação da ordem original ou no relatório de progresso
judicial da intercepção, e o juiz concorda com a continuação da intercepção. A razão
subjacente a essa regra reside no facto de que, ao consentir com a prorrogação da
vigilância, o juiz concede implicitamente a autorização para a intercepção e divulgação
de evidências ocasionalmente obtidas, mencionadas na solicitação de prorrogação ou no
relatório de progresso. 87
Por outo lado, alguns tribunais federais sustentam que o inciso V do §2517 deve
ser interpretada de forma ainda mais abrangente, argumentando que a disposição tem o
propósito de excluir evidências obtidas de maneira ilegal. Essa interpretação implica que
se as autoridades policiais conduzirem uma vigilância de comunicações de acordo com
os requisitos legais estabelecidos, a falta de evidências suficientes para sustentar a
acusação inicial não invalida a legalidade da vigilância. Ou seja, mesmo que não haja
provas suficientes para sustentar a suspeita inicial, isso não afeta a legitimidade da
vigilância em si. Considera-se, assim, que as evidências relacionadas a outros casos,
obtidas incidentalmente durante uma intercepção autorizada, são válidas.88
87
O tribunal no caso United States v. Masciarelli (2nd Cir. 1977) determinou que a aprovação expressa não
é o único meio de obter autorização conforme o estabelecido no inciso V do §2517, Cf. 558 F.2d at 1068;
e como afirmou o tribunal no caso United States v. Tortorello (2nd Cir. 1973), “it is enough that notification
of the interception of evidence not authorized by the original order be clearly provided in the renewal and
amendment application papers”. Cf. 480 F.2d at 783.
88
Esse entendimento foi adotado em casos como United States v. Cardall (10th Cir. 1985) e United States
v. Davis (10th Cir. 1985).
67
estaduais adotam critérios mais restritivos quanto à admissibilidade dessas
interceptações. 89 Entre as principais abordagens sobre esta questão, destacam-se:
89
Cf. LaDue, John D., ob. cit., p 523-525.
68
desse mandado, mesmo que relacionados a crimes não especificados no mandado original,
podem ser admitidos como prova. Esta posição baseia-se no facto de que tais materiais
foram recolhidos com base num mandado de escuta válido e a atuação da polícia não
contraria os princípios estabelecidos pela Quarta Emenda da Constituição dos Estados
Unidos. A exclusão de provas obtidas incidentalmente em outros casos não contribui para
prevenir a ocorrência de futuras condutas inconstitucionais por parte das autoridades.
Assim, sempre que o mandado de escuta é legal, as provas obtidas fora do seu âmbito
devem ser consideradas admissíveis como prova. Na Pensilvânia, as interceptações
evidentes são admissíveis se mencionadas em um relatório final apresentado ao tribunal
ao término da vigilância. Os tribunais da Pensilvânia interpretam o estatuto de forma a
exigir a supressão de provas não mencionadas no relatório final apenas se o réu
demonstrar prejuízo devido à omissão.
69
A admissibilidade de provas obtidas incidentalmente fora do âmbito de um
mandado de escuta varia entre os estados e difere da legislação federal. Três perspetivas
principais emergem: a teoria da restrição estrita, que proíbe a utilização dessas provas
para proteger a privacidade, como observado em Connecticut; a teoria da restrição
relativa, que admite tais provas apenas para crimes especificados, conforme praticado na
Flórida e na Virgínia; e a teoria da utilização condicional, que permite a admissão de
provas obtidas com mandado válido, independentemente dos crimes não especificados no
mandado.
2. Alemanha
90
OLG Hamburg, NJW 1973, 157.
70
não é comprometida pela posterior incapacidade de provar o crime imputado ao arguido.
A razão para a execução da intercepção era a obtenção de provas relacionadas ao delito
do arguido; contudo, era previsível e aceite pelo legislador que as informações alheias ao
crime sob investigação fossem inadvertidamente recolhidas, constituindo uma
“consequência adicional extremamente óbvia” da natureza da intercepção de
comunicações privadas. A Lei Fundamental da Alemanha, no seu §10, parágrafo 1, assim
como o StPO, não estipulam restrições ao uso de provas adquiridas por meio de
intercepções inicialmente autorizadas, mesmo que as informações recohidas extrapolem
o âmbito específico do crime originalmente investigado.91
91
Cf. Aguilar, Francisco, Dos Conhecimentos Fortuitos Obtidos Através de Escutas Telefónicas:
Contributo para o Seu Estudo nos Ordenamentos Jurídicos Alemão e Português, Coimbra: Almedina, 2004,
p. 29.
92
Ob. cit., p. 29.
93
Ob. cit., p. 29.
71
Em virtude da escassez de discussão sobre a coleta e a admissibilidade das escutas,
Prittwitz argumenta que a interpretação dos conhecimentos fortuitos deve fundamentar-
se na reserva constitucional de lei. Para ele, a valoração desses conhecimentos exige uma
norma específica que autorize tal procedimento, conforme estipulado pelo §10 da Lei
Fundamental da Alemanha. Assim, seria inaceitável aplicar uma interpretação extensiva
do §100a do StPO, uma vez que esta disposição constitui uma norma excepcional e
restritiva de um direito fundamental. De acordo com esta perspectiva, não seria adequado
transpor para o âmbito dos conhecimentos fortuitos os requisitos estabelecidos para os
conhecimentos obtidos através de investigação, pois isso implicaria que o intérprete
94
estivesse ultrapassando a função do legislador ordinário. Em contrapartida,
Schünemann advoga pela valoração irrestrita das descobertas fortuitas, desde que a
intercepção telefónica tenha sido realizada de acordo com os princípios da legalidade.
Segundo esta perspetiva, na ausência de uma proibição específica sobre a produção de
provas, não se estabelecerá também uma proibição quanto à sua valoração. Caso exista
uma proibição relativa à produção de provas, esta inevitavelmente resultará numa
proibição da sua valoração. 95
94
Cf. Andrade, Manuel da Costa, Sobre as Proibições de Prova em Processo Penal, Coimbra: Almedina,
1992, p. 309.
95
Cf. Andrade, Manuel da Costa, ob cit., p. 279.
96
BGHSt 26, 298.
72
Em casu, o tribunal distrital autorizou a intercepção das comunicações telefónicas
de um hoteleiro, sob o amparo do §100a, no contexto de uma investigação a suspeitos de
extorsão e outros delitos por uma organização mafiosa em Düsseldorf. As escutas
revelaram diálogos que implicavam um advogado em crimes de receptação e
encobrimento. A investigação foi arquivada por insuficiência de provas. Posteriormente,
o tribunal disciplinar, apoiando-se nas gravações e no depoimento do policial que realizou
as escutas, concluiu que o advogado violou normas sobre encobrimento de crimes,
conflito de interesses e dever de confidencialidade. Contudo, o tribunal superior anulou
essa decisão, citando o direito à privacidade comunicacional estipulado pela Lei
Fundamental da Alemanha, e declarou ilegal a utilização das comunicações interceptadas.
O Ministério Público recorreu, defendendo a legalidade da utilização das gravações como
prova.
97
Cf. Aguilar, Francisco, ob. cit., p. 31.
73
resultando em uma restrição parcial ao uso de descobertas fortuitas, limitando a sua
aplicabilidade para assegurar um equilíbrio entre a aplicação da lei e a proteção dos
direitos fundamentais dos cidadãos.
Por fim, o BGH julgou que as descobertas fortuitas concernentes aos crimes de
receptação e encobrimento praticados pelo advogado não podem ser admitidas como
prova, visto que não estão associados a qualquer um dos crimes graves especificamente
enumerados. Portanto, conclui-se que o recurso interposto pelo Ministério Público carece
de fundamento.
98
Cf. Aguilar, Francisco, ob. cit., p. 30.
99
Cf. Costa Andrade, ob. cit., p. 308; Aguilar, Francisco, ob. cit., p. 32.
74
2.1.3 Decisão do Bundesgerichtshof de 30.8.1978 (BGHSt 28,122)
100
Cf. BGHSt 28,122
75
quando a legislação, especificamente o §100a, autoriza a intercepção de comunicações
de indivíduos suspeitos de envolvimento nos crimes delineados pelo §129 do Código
Penal Alemão, que aborda a formação ou participação em organização criminosa, tal
permissão engloba, por implicação, todos os crimes relacionados aos objetivos e
atividades da organização criminosa. Esta extensão da autorização abrange tanto os atos
criminosos que estão sendo planejados quanto aqueles que já foram executados,
assegurando que todas as ações ilícitas vinculadas à organização sejam passíveis de
intercepção. Caso a admissibilidade das descobertas fortuitas estivesse circunscrita
exclusivamente aos crimes graves explicitamente listados, essa restrição acarretaria uma
consequência paradoxal: embora fosse possível impor sanções por infrações definidas no
§129 do Código Penal Alemão, que são consideradas menos severas, a persecução de
outros crimes mais graves, perpetrados no âmbito dos objetivos da mesma organização
criminosa pelo mesmo sujeito, não poderia ser realizada.
Por fim, o BGH decidiu que, mesmo que os conhecimentos fortuitos não
pertencentes às ações específicas listadas no §100a, mas estejam em “conexão” com a
suspeita de um crime abrangido por esse catálogo, devem ser tratados de forma
semelhante aos conhecimentos fortuitos que se referem às ações especificamente
listadas 102 Isso significa que o tribunal ampliou o alcance da valoração desses
conhecimentos, permitindo que sejam considerados como evidência, desde que estejam
relacionados com qualquer ação abrangida pelo catálogo legal, não apenas aquela que
motivou a escuta telefónica inicial.
101
Cf. Aguilar, Francisco, ob. cit., p. 32.
102
Cf. Aguilar, Francisco, ob. cit., p. 34.
76
Em resumo, o BGH defende que a suspeita de envolvimento numa organização
criminosa pode abranger a prática de delitos que se enquadrem nos objetivos dessa
organização. Isso significa que, se a organização criminosa tem como um dos seus
objetivos o roubo de automóveis, os indivíduos suspeitos de participação nessa
organização podem também ser suspeitos de cometer esse tipo de crime. Portanto, quando
as autoridades obtêm autorização para realizar escutas telefónicas relacionadas com
suspeitos de participação em organizações criminosas, essas escutas podem abranger
também suspeitas de furto associadas aos membros dessas organizações. Além disso,
mesmo que as suspeitas graves que levaram à autorização das escutas não sejam
confirmadas, as informações acidentalmente obtidas durante essas escutas ainda podem
ser consideradas como prova em processos criminais, desde que estejam relacionadas
com atividades criminosas.
103
Cf. Singelnstein, Tobias, “Strafprozessuale Verwendungsregelungen
zwischen Zweckbindungsgrundsatz und Verwertungsverboten. Voraussetzungen der Verwertung von
Zufallsfunden und sonstiger zweckentfremdender Nutzung personenbezogener Daten im Strafverfahren
seit dem 1. Januar 2008”, in Jurisprudenz und Praxis des Strafrechts, Heidelberg: C.F. Müller, 2008, p.
855, apud. Guo, Jingru, Proibição do Uso de Provas Obtidas Fortuitamente em Intercepções Telefónicas:
Com Foco no Direito de Processo Penal Alemã, Tese de Mestrado em Direito, Taipei: Universidade
Nacional Chengchi, 2012, p. 36.
77
Conforme os ditames constitucionais, e com base no princípio da vinculação da finalidade,
as medidas de intervenção por parte do Estado devem estar fundamentadas em objetivos
específicos e suficientes previstos na lei. Apenas através da análise do significado e do
alcance do propósito de utilização das informações obtidas é possível determinar a
intensidade da intervenção, estabelecendo-se, assim, os limites para a interferência nos
direitos fundamentais. As informações obtidas através de tais medidas de intervenção
devem, em princípio, ser utilizadas exclusivamente no âmbito do propósito específico
que justificou a sua recolha. A utilização dessas informações para fins distintos implicará
uma violação do direito à autodeterminação informativa e poderá afetar outros direitos
fundamentais relacionados com o caso concreto. Esta prática poderá intensificar a
interferência nos direitos individuais, conduzindo, eventualmente, à ilegalidade do uso da
informação.104
104
Ibidem., p. 856.
105
Ibidem., p. 856.
78
Esta segunda intervenção na utilização dos conhecimentos fortuitos consiste na
continuação da violação da liberdade de comunicação secreta protegida pelo § 10.º da Lei
Fundamental da Alemanha. Esta violação constitui uma nova forma de intervenção nos
direitos fundamentais, uma vez que a proteção constitucional dos indivíduos abrange não
apenas a recolha de informações no contexto de processos penais, mas também a
transmissão de informações. A utilização pelos tribunais de provas provenientes de
comunicações secretas, e a aplicação dessas informações obtidas através de vigilância
legal a outros processos penais, pode resultar na ampliação e agravamento da violação da
liberdade de comunicação secreta, podendo até configurar um uso ilícito das informações.
106
Cf. Hilger, in: Löwe-Rosenberg StPO, Kommentar, Bd. 9, 26. Aufl. 2010, Vor §474 Rdn.6, apud. Yan,
RuZhen, Telecomunicações e Descobertas Fortuitas — Uma Perspetiva do Direito Processual Penal
Alemão, Tese de Mestrado em Direito, TaoYuan: Universidade Central de Polícia, 2020, p. 103.
79
2.3 Hipotética repetição de intervenção
O autor Welp desenvolveu o raciocínio do Tribunal Superior de Hamburgo ao
sugerir uma solução baseada na aplicação analógica do §108 StPO, devido à
“homogeneidade estrutural” entre as buscas físicas e as escutas telefónicas, apesar de
discordar da opinião do OLG Hamburg no que tange à utilização irrestrita dos
conhecimentos fortuitos obtidos através de escutas telefónicas. A lógica para esta
aplicação analógica baseia-se no facto de que tanto as escutas telefónicas quanto as buscas
constituem intervenções na esfera privada dos indivíduos.107
107
Cf. Aguilar, Francisco, ob. cit., p. 38.
108
Ibedem.
80
fortuitos obtidos através de escutas telefónicas, é imperativo assegurar que tais provas
estejam vinculadas a uma ação constante do catálogo de crimes graves previsto no §100a.
Caso os conhecimentos fortuitos se refiram a um crime não enumerado nesse catálogo, a
sua utilização como prova deve ser imediatamente cessada.109
109
Cf. Welp, Jürgen, “Zufallsfunde bei der Telefonüberwachung”, in Jura, Stuttgart: Verlag W.
Kohlhammer, 1981, pp. 472-482, apud. Guo, Jingru, Proibição do Uso de Provas Obtidas Fortuitamente
em Intercepções Telefónicas: Com Foco no Direito de Processo Penal Alemã, Tese de Mestrado em Direito,
Taipei: Universidade Nacional Chengchi, 2012, p. 65.
110
Na reforma de 2019 do StPO, o conteúdo desta disposição foi incorporado nos § 479 e § 161 do StPO.
111
Texto original: “Ist eine Maßnahme nach diesem Gesetz nur bei Verdacht bestimmter Straftaten zulässig,
so dürfen die auf Grund einer solchen Maßnahme erlangten personenbezogenen Daten ohne Einwilligung
der von der Maßnahme betroffenen Personen zu Beweiszwecken in anderen Strafverfahren nur zur
Aufklärung solcher Straftaten verwendet werden, zu deren Aufklärung eine solche Maßnahme nach diesem
Gesetz hätte angeordnet werden dürfen”.
81
A disposição em análise estabelece que a suspeita de crimes específicos serve
como critério para a ativação de medidas interventivas para além das escutas telefónicas.
Este critério constitui um ponto de partida para a aplicação de intervenções e regula de
forma abrangente as condições sob as quais as informações pessoais obtidas de forma
legal através dessas medidas podem ser utilizadas para fins diversos. De acordo com essa
disposição geral, é estabelecido um regime que define claramente os parâmetros em que
os dados pessoais obtidos através de tais medidas interventivas podem ser utilizados em
outros procedimentos penais.
82
de todos os critérios legais necessários para a autorização dessa intervenção, com
particular atenção à gravidade do crime no caso concreto e à aplicação da cláusula de
subsidiariedade.
112
Cf. BVerfGE 141, 220, 328-BKA-Gesetz, apud. Yan, RuZhen, ob. cit., p. 103.
113
Cf. Reinbacher, Tobias/Werkmeister, Andreas, “Zufallsfunde im Strafverfahren- Zugleich ein Beitrag
zur Lehre von den Verwendungs- und Verwertungsverboten”, in Zeitschrift für die gesamte
Strafrechtswissenschaft (ZStW), Berlim: De Gruyter, 2018, p. 1114, apud. Yan, RuZhen, ob. cit., p. 117.
114
Cf. Wohlers, Johannes/Jäger, Karl, “§100f Rdn. 26”, in Systematischer Kommentar StPO, Vol. II, 5.ª
ed., Munique: C.H. Beck, 2016., apud. Yan, RuZhen, ob. cit., p. 117.
83
2.4.2 Limites subjetivos
A delimitação subjetiva aqui analisada concentra-se essencialmente na descoberta
acidental de factos criminosos cometidos por terceiros durante uma escuta telefónica. A
questão central reside na admissibilidade da utilização dessas informações obtidas por
meio de escutas como prova para o processamento criminal de terceiros. É crucial
observar que, neste contexto, os factos criminosos atribuídos a terceiros dizem respeito a
crimes graves, pois, caso não se trate de crimes graves e sem qualquer ligação com o
crime grave que motivou a escuta, conforme disposto na segunda frase do inciso II do §
477 StPO, tais informações não poderão ser admitidas como prova em julgamento.
O conceito de terceiro abrange qualquer indivíduo que não seja o alvo inicial da
escuta telefónica. Tanto na jurisprudência como na doutrina, a maioria das interpretações
considera que, quando as informações obtidas através da escuta dizem respeito a crimes
cometidos pelo transmissor da comunicação, pelo fornecedor do equipamento ou por um
terceiro completamente alheio ao processo, tal circunstância não impede que a descoberta
fortuita seja utilizada como meio probatório.
115
Cf. Kretschmer, Joachim, “Die Verwertung sogenannter Zufallsfunde bei der strafprozessualen
Telefonüberwachung”, in StV, Berlin: Walter de Gruyter, 1999, p. 226, apud. Yan, RuZhen, ob. cit., p. 71.
84
um terceiro, ou de dizerem respeito ao arguido ou a um terceiro, estas podem ser
admitidas como prova.
Nos termos do inciso III do §100a StPO, os indivíduos passíveis de serem sujeitos
a escutas telefónicas enquadram-se em duas categorias principais.117 A primeira refere-se
ao arguido diretamente. A segunda abrange aqueles relativamente aos quais existem
factos concretos que permitem inferir serem transmissores das comunicações do arguido
ou fornecedores dos dispositivos utilizados.
116
Cf. Kretschmer, Joachim, ob. cit., p. 226, apud. Yan, RuZhen, ob. cit., p. 72.
117
Segundo o inciso III do §100a StPO, a ordem deve ser direcionada exclusivamente contra o arguido ou
contra indivíduos dos quais, com base em factos específicos, se possa inferir que recebem ou transmitem
comunicações destinadas ao arguido ou provenientes deste, ou que o arguido utilize a sua ligação ou sistema
informático.
118
Cf. Kretschmer, Joachim, ob. cit., p. 227, apud. Yan, RuZhen, ob. cit., p. 72.
85
mesmas, que C teria cometido um homicídio contra D. Mesmo que o homicídio
perpetrado por C seja um delito suscetível de intercepção, a admissibilidade das provas
obtidas está condicionada à participação de C como parte na comunicação.
Esta exceção pode ser analisada sob duas dimensões: a material e a formal. Do
ponto de vista material, o critério pode ser flexibilizado quando há concurso de crimes;
por outro lado, a dimensão formal envolve a conexão processual ou probatória. Volk
argumenta que é admissível a valoração direta das provas obtidas por meio de intercepção
telefónica, mesmo quando estas se relacionem com um crime que não esteja
119
Cf. Kretschmer, Joachim, ob. cit., p. 227, apud. Yan, RuZhen, ob. cit., p. 72.
86
explicitamente incluído no catálogo legal. Isto é viável desde que exista uma conexão
substancial com o crime catalogado, seja do ponto de vista jurídico-material, que se refere
à integração dos factos e circunstâncias envolvidas, ou do ponto de vista formal, que
considera a conexão processual ou probatória entre os crimes.120
120
Cf. Volk, Klaus, Curso Fundamental de Derecho Procesal Penal, Buenos Aires: Hamurabi, 2016, apud.
Kalkmann, Tiago, “O Encontro Fortuito de Provas no Processo Penal Brasileiro e as Correspondentes
Restrições na Legislação Alemã”, in Revista de Doutrina Jurídica, 110.1, Brasília: Instituto Brasileiro de
Direito Penal, 2018, p. 59.
87
Isto implica que, para que a escuta seja validamente conduzida, deve haver uma prova
efetiva da existência do crime grave listado, assegurando que qualquer evidência relativa
a crimes não incluídos no catálogo seja legitimamente fundamentada na conexão com o
crime grave autorizado. Em situações onde não é possível demonstrar a existência do
crime grave alvo da escuta, a utilização das descobertas fortuitas para a investigação de
crimes não catalogados não será permitida.
121
Cf. Beulke, Werner, Strafprozessrecht, 11. ed., Munique: C.H. Beck., 2010, Rn. 512, S. 33, apud. Yan,
RuZhen, ob. cit., p. 117.
122
Cf. Welp, Jürgen, ob. cit. p. 477, apud. Yan, RuZhen, ob. cit., p. 117.
88
investigado por meio de escuta e o delito não grave descoberto acidentalmente, ao serem
avaliados sob uma perspectiva natural, forem considerados como parte de um único
processo histórico natural, as informações obtidas através da escuta poderão ser utilizadas
para a persecução do delito não grave. A conexão entre ambos os delitos fundamenta-se
na concepção de que pertencem ao mesmo facto criminal processual.
89
crimes para os quais a escuta foi autorizada, é permitida a utilização dessas provas como
evidência. Em contrapartida, se a descoberta envolver um crime não incluído entre os
crimes graves autorizados para a escuta, as provas obtidas não poderão ser utilizadas
como evidência, salvo se servirem como indícios para a investigação com o objetivo de
obter novos elementos probatórios. Em segundo lugar, se o crime não catalogado
apresentar uma estreita relação com o crime grave para o qual a escuta foi autorizada, a
descoberta fortuita poderá ser admitida como prova. Além disso, pode verificar-se uma
relação de unidade entre os crimes ou uma conexão com o crime grave que justifica a
autorização da escuta, alinhando-se com o conceito processual de facto estabelecido pelo
§264 StPO.
90
continuação da investigação com base nas informações obtidas casualmente, uma vez que
essas informações poderiam conduzir à obtenção de outros meios probatórios.123
3. Portugal
Até o ano de 2007, Portugal não dispunha de uma legislação específica que
abordasse a problemática dos conhecimentos fortuitos no âmbito do processo penal. Esta
lacuna legislativa foi preenchida com a promulgação da Lei n.º 48/2007, que modificou
o Código de Processo Penal português (doravante CPPP), inserindo especificamente o art.
187º, n.º 7. Antes da implementação desta legislação, a comunidade acadêmica e os
círculos judiciais estavam envoltos em debates intensos sobre este tema.
123
Cf. Ambos, Kai, Lima, Marcellus, O processo acusatório e a vedação probatória perante as realidades
alemã e brasileira, Rio de Janeiro: Livraria do Advogado Editora, 2009, p. 97.
124
Cf. Leal-Henriques, Manuel, Manual de Formação de Direito Processual Penal de Macau, Tomo I, 3.ª
ed., Macau: Centro de Formação Jurídica e Judiciária, 2016, p. 363.
91
Quanto à diferença entre estes dois conceitos, os conhecimentos fortuitos são
aqueles “factos fortuitamente recolhidos, isto é, que não se referem ao crime cuja
investigação legitimou” a realização das escutas telefónicas. 125 Em contraste, os
conhecimentos obtidos no âmbito da investigação referem-se a factos recolhidos através
de escutas telefónicas que estão relacionados “com o crime cuja investigação legitimou a
realização da escuta ou com outro delito (seja ele pertencente ou não ao catálogo legal)
que derive da mesma situação histórica de vida daquele”.126
125
Cf. Valente, Manuel Monteiro Guedes, Escutas telefónicas: Da excepcionalidade à vulgaridade, 2.ª ed.,
Coimbra: Almedina, 2008, p. 304.
126
Cf. Aguilar, Francisco, Dos Conhecimentos Fortuitos Obtidos Através de Escutas Telefónicas:
Contributo para o Seu Estudo nos Ordenamentos Jurídicos Alemão e Português, Coimbra: Almedina, 2004,
p. 17.
127
Ac. de 6 de Março de 2013 do TRC.
128
Cf. Leal-Henriques, Manuel, ob. cit., p. 361.
92
Na doutrina portuguesa, sustenta-se que os conhecimentos fortuitos possuem uma
natureza residual.129 Em outras palavras, apenas quando não é viável classificá-los como
conhecimentos da investigação é que se qualificam como conhecimentos fortuitos.
Portanto, torna-se necessário estabelecer uma delimitação clara e precisa do âmbito dos
conhecimentos da investigação, a fim de determinar rigorosamente o conteúdo dos
conhecimentos fortuitos.
129
Ibidem., p. 365.
130
Cf. Andrade, Costa, Sobre as Proibições de Prova em Processo Penal, Coimbra: Coimbra Editora, 1992,
p. 308.
93
previamente mencionadas e cujo conhecimento ultrapasse o objeto do processo
investigado devem ser considerados como conhecimentos fortuitos.131
Por outro lado, há autores, como Francisco Aguilar, que advogam um critério mais
objetivo e legal, recorrendo aos conceitos de “unidade da investigação processual” e à
figura da “uma mesma situação histórica de vida” como elementos essenciais na
qualificação dos conhecimentos da investigação.133 Assim, sustenta-se que deve haver
uma coerência factual entre os elementos apresentados pelo Ministério Público no
requerimento que fundamenta a suspeita da prática de um crime específico e os factos
que emergem durante a investigação. Esta unidade factual é essencial para que os factos
descobertos no decurso da investigação possam ser valorados como prova, sob a égide do
despacho de autorização judicial emitido.
Francisco Aguilar invoca o art. 24.º, n.º 1 do CPPP, que estipula os critérios para
a conexão de processos, como o parâmetro legal adequado para avaliar se determinados
factos constituem conhecimentos da investigação. Este artigo fornece critérios objetivos
que operam como crivos válidos para operacionalizar o conceito de unidade
processual.134
131
Cf. Tavares, H. Alexandre de Matos, “Os Conhecimentos Fortuitos nas Escutas Telefónicas”, in Estudos
de Homenagem ao Juiz Conselheiro António da Costa Neves Ribeiro, Coimbra: Almedina, 2007, pp. 240-
241 e 246-247.
132
Cf. Conceição, Ana Raquel, Escutas telefónicas: Regime processual penal, Lisboa: Quid Iuris, 2009, p.232;
Aguilar, Francisco Manuel Fonseca de, Dos conhecimentos fortuitos obtidos através de escutas telefónicas,
Coimbra: Almedina, 2004, pp.19 -22
133
Cf. Aguilar, Francisco, ob. cit., pp. 19-21.
134
Ibidem.
94
conexão direta com o objeto do processo. Nestes casos, a gravação das conversações deve
ser valorizada como meio de prova, atendendo ao princípio da legalidade e à relevância
probatória das informações obtidas, conforme delineado na jurisprudência e na doutrina
predominantes.
Como discutido na seção 2.1 deste capítulo, que trata da análise comparativa entre
as doutrinas e práticas jurídicas alemãs, foi referido que o BGH emitiu decisões em 1976
e 1998 sobre a legalidade da utilização dos conhecimentos fortuitos como prova.
[Link] Jurisprudência
95
No contexto jurídico português, a jurisprudência tem demonstrado uma tendência
para alinhar-se com as orientações da doutrina alemã no que se refere ao tratamento de
conhecimentos fortuitos obtidos através de escutas telefónicas. Neste sentido, destacam-
se vários arestos que abordam esta questão de forma detalhada.
135
Ac. do TRP de 11/01/1995, Processo n.º 9441000, Relator: Pereira Madeira.
136
Cf. Rendeiro, Victor Emanuel Saraiva, A Criminalidade Organizada, As Escutas Telefónicas e os
Conhecimentos Fortuitos, Relatório de Mestrado, Lisboa: Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa,
2009, p. 11.
137
Ac. do STJ de 23/10/2002, Processo n.º 02P2133, Relator: Leal Henriques.
96
Em um acórdão proferido a 16 de outubro de 2003, o STJ foi novamente
convocado para se pronunciar sobre a validade das informações adquiridas
incidentalmente durante uma investigação relacionada ao tráfico de estupefacientes.138
Nesta decisão, o STJ clarificou que os conhecimentos obtidos por meio de escutas
telefónicas devem ser considerados como integrantes da investigação e não como
fortuitos, “pois se reportam ao crime cuja investigação legitimou a sua autorização”.
Além disso, o tribunal enfatizou que se um juiz justifica a implementação de escutas
telefónicas com o objetivo de descobrir a verdade, seria ilógico desconsiderar essa
autorização para determinados atos específicos que constituem o tráfico, somente pelo
facto de estes terem sido segregados em outro processo judicial.
[Link] Doutrina
138
Ac. do STJ de 16/10/2003, Processo n.º 03P2134, Relator: Rodrigues da Costa.
97
considerados indispensáveis e necessários para esse esclarecimento, e mediante um juízo
de “hipotética repetição de intromissão”, deve haver uma probabilidade qualificada de
que, caso existisse um processo autónomo, se procederia à intercepção e gravação das
comunicações por serem de “grande interesse para a descoberta da verdade ou para a
prova” e; (3) os conhecimentos obtidos sejam imediatamente comunicados ao juiz que
autorizou ou ordenou a intercepção. 139
139
Cf. Valente, Manuel Monteiro Guedes, Processo Penal—Tomo I, 3.ª ed., Coimbra: Editora Almedina,
2010, p. 608.
140
Roxin, especificamente, argumenta que para a valoração dos conhecimentos fortuitos ser legítima, o
crime de associação criminosa deve, pelo menos, alcançar a fase de acusação formal. Wolter e Welp,
defendendo uma postura ainda mais rigorosa, exigem que tais casos cheguem a julgamento. Costa Andrade
manifesta inclinação para acolher a perspetiva de Roxin. Cf. Andrade, Manuel da Costa, ob. cit., p. 312.
141
Cf. Aguilar, Francisco, Dos Conhecimentos Fortuitos Obtidos Através de Escutas Telefónicas:
Contributo para o Seu Estudo nos Ordenamentos Jurídicos Alemão e Português, Coimbra: Almedina, 2004.
pp. 75 a 79 e 108.
98
criminal que estabelecesse autorização de produção e valoração probatório para os
conhecimentos fortuitos.142 Considerando que os conhecimentos fortuitos não se alinham
com o objetivo estabelecido no art. 187.° do CPPP de obtenção de conhecimentos
relacionados à investigação que motivou a escuta, não podem ser beneficiados pela
autorização excepcional de valoração com base nesse dispositivo legal. Prevalecem, neste
contexto, os direitos fundamentais em questão na ausência de uma permissão legal
específica para a valoração dos conhecimentos fortuitos, os quais, de acordo com o art.
32, nº 8, da Constituição da República Portuguesa, ficam sujeitos a uma proibição de
valoração de prova devido à sua potencial “intromissão abusiva” na valoração de factos
fora dos casos previstos na lei. 143 Aguilar ainda defende a posição contrária a uma
interpretação extensiva ou aplicação analógica do art. 187° do CPP, fundamentada na
natureza restritiva dessa norma em relação a direitos fundamentais. Para o autor, essa
interpretação implicaria em desrespeitar o art. 18º, n.º 2 da CRP, uma vez que “seria o
intérprete e, não o legislador, a estabelecer uma restrição a um direito, liberdade e
garantia”.144
142
Ibidem. p.76.
143
Ibidem. p. 79.
144
Ibidem. p. 80.
99
fortuitos, na esteira do autor, garante um equilíbrio entre o respeito aos direitos
individuais e o avanço dos interesses da comunidade na persecução criminal.145
Podemos assim concluir que persistia uma falta de consenso uniforme quanto à
valoração dos conhecimentos fortuitos no ordenemanto jurídico português, contudo, a
maioria dos estudiosos, como Manuel Guedes Valente e Francisco Aguilar, salienta de
forma convergente a necessidade de reforma legislativa. Estes académicos propõem a
inclusão de disposições análogas ao inciso V da §100b StPO no ordenamento jurídico
português.
145
Ibidem., p. 108.
146
Cf. Intervenção de Damião da Cunha, na acta n.º 18 da Unidade de Missão para a Reforma Penal, de 24
de abril de 2006. “O Prof. Doutor Damião da Cunha manifestou a sua discordância em relação à utilização
dos conhecimentos fortuitos como meio de prova. Na sua opinião, a utilização desses conhecimentos pode
padecer de inconstitucionalidade. São meios de prova que não foram objecto de despacho fundamentado
de autorização”.
100
3.2.2 Depois da revisão do Código de Processo Penal português de 2007
Com a promulgação da Lei n.º 48/2007, a lacuna legislativa que persistia sobre a
questão dos conhecimentos fortuitos foi colmatada, conforme prescrição do art. 187.º, n.º
7 do CPPP. Este normativo legal estabelece que “Sem prejuízo do disposto no art. 248.º,
a gravação de conversações ou comunicações só pode ser utilizada em outro processo,
em curso ou a instaurar, se tiver resultado de intercepção de meio de comunicação
utilizado por pessoa referida no n.º 4 e na medida em que for indispensável à prova de
crime previsto no n.º 1”.
Cumpre assinalar que, mesmo que o crime que motivou a autorização inicial das
escutas seja posteriormente desconsiderado ou declarado inexistente em alguma etapa do
processo, tal circunstância não obsta a continuação dos procedimentos criminais
101
instaurados a partir das novas infrações identificada beseadas dos conhecimentos
fortuitos descobertos.
Por outro lado, a formulação legislativa que emprega a expressão “na medida em
que for indispensável à prova de crime previsto no n.º 1” reflete a adoção, pelo legislador,
da perspectiva de Costa Andrade. De acordo com essa visão, em um novo processo
judicial, a aplicação das medidas de escuta telefónica deve ser fundamentada pela
imprescindibilidade dessas medidas. Assim, apenas as informações obtidas de forma
acidental e que se mostrem necessárias, dentro de um contexto razoável, podem ser
admitidas como prova em outros processos judiciais.147
147
De acordo com o entendimento de Andrade Costa, a exigência de que os crimes estejam previstos
legalmente representa apenas o primeiro limiar a ser cumprido. No entanto, a satisfação deste requisito
inicial não é suficiente para assegurar a legalidade da realização das medidas de escuta nem para validar a
utilização das informações obtidas através dessas medidas. Cf. Valente, Manuel Monteiro
Guedes, Bruscamente no verão passado, a reforma do Código de Processo Penal: Observações críticas
sobre uma Lei que podia e devia ter sido diferente, Coimbra: Coimbra Editora, 2009, p. 177.
148
Ac. do STJ de 29/04/2010, Processo n.º 128/[Link]-A.S1, Relator: Souto de Moura.
102
necessidade investigatório que legitime a operação autónoma da escuta telefónica, e 6) a
competência do julgador para decidir sobre a valoração dos conhecimentos fortuitos
reside no juiz de instrução criminal do processo onde a escuta foi originalmente
autorizada.
149
Cf. Leite, André Lamas, “As escutas telefónicas – algumas reflexões em redor do seu regime e das
consequências processuais derivadas da respectiva violação”, in Separata da RFDUP, Ano I, Porto:
Faculdade de Direito da Universidade do Porto, 2004, pp. 40-41.
103
Conforme aponta, limitar a valoração apenas aos indivíduos diretamente envolvidos na
150
investigação originária reduziria significativamente a utilidade prática da norma.
Complementarmente, Paulo de Sousa Mendes circunscreve a utilização de tais
conhecimentos aos crimes especificados no catálogo legal, mesmo que envolvam
terceiros. 151
O art. 187.º, n.º 4 não objetiva obstar a valoração de tais informações contra
terceiros, mesmo que estes não figurem diretamente na conversação interceptada. Assim,
os conhecimentos fortuitos podem ser valorados contra terceiros, independentemente da
sua participação direta no diálogo que serve como meio probatório.
150
Cf. Teixeira, Carlos Adérito, “Escutas telefónicas: a mudança de paradigma e os velhos e os novos
problemas”, in Revista do CEJ, n.º 9, Lisboa: Centro de Estudos Judiciários, 2009, pp. 275.
151
Cf. Acta n.º 18 da UMRP, de 24 de Abril de 2006.
152
Cf. Valente, Manuel Monteiro Guedes, Conhecimentos fortuitos – a busca de um equilíbrio apuleiano,
Lisboa: Almedina, 2006, p. 133.
104
suspeito no contexto dos conhecimentos fortuitos adquiriria tal status no processo
subsequente, possibilitando a avaliação da escuta telefónica contra ele.
4. Japão
Quanto à problemática dos conhecimentos ocasionalmente descobertos durante
uma intercepção autorizada na legislação penal japonesa, encontra-se tipificado no art.
15.º da Lei da Intercepção, intitulado “Intercepção de comunicações relacionadas com a
prática de outros crimes”. Este artigo estipula que “o procurador ou o oficial de polícia
judicial pode proceder à intercepção de comunicações quando, durante a realização da
intercepção, for evidente que está a ocorrer comunicação que envolva a prática de crimes
que não estão incluídos como suspeitos no mandado de intercepção, mas que se
enquadrem nas categorias listadas no Anexo I ou Anexo II ou que correspondam a crimes
puníveis com pena de morte, prisão perpétua ou pena de prisão de um ano ou mais”.
153
Cf. art. 199.º, nº.1 do CPPJ. Na legislação processual penal japonesa, requer-se sempre a obtenção de
um mandado judicial para proceder à detenção de um suspeito, em que os agentes da polícia designados
por lei e os procuradores públicos têm autorização para solicitar ao juiz uma ordem de detenção, a qual é
emitida caso o juiz considere que existem fundamentos suficientes para suspeitar que a pessoa em questão
cometeu um crime.
105
comunicações relacionadas com a prática de outros crimes à detenção em flagrante delito,
é amplamente reconhecida como a visão predominante. Os estudiosos japoneses
sustentam essa posição devido à extrema urgência na preservação de evidências obtidas
por meio dessa intercepção e à clareza dos conteúdos criminosos nelas contidos,
dispensando, assim, a necessidade de aguardar pela emissão do mandado de detenção
pelo juiz no momento da realização da intercepção para assegurar a sua
constitucionalidade.154
No entanto, existem duas exceções ao requisito de mandado judicial, conforme estabelecido no CPPJ:
primeiro, a detenção em flagrante delito permite que qualquer pessoa detenha alguém que esteja a cometer
um crime ou que o tenha cometido recentemente sem necessidade de mandado judicial, desde que se
verifiquem os critérios legais estabelecidos (Cf. art. 213.º do CPPJ); segundo, a detenção de emergência
autoriza que o procurador público, o assistente de procurador público ou o oficial da polícia detenha um
suspeito em situações de extrema urgência, quando o crime cometido é punível com pena de morte, prisão
perpétua ou pena de prisão de longa duração de pelo menos três anos, e não é possível obter imediatamente
uma ordem judicial. No entanto, é obrigatório solicitar posteriormente um mandado de detenção. Se o
mandado não for emitido, o suspeito deve ser libertado. (Cf. art. 210.º, nº. 1 do CPPJ). Para mais
desenvolvimento, Cf. Faculty Members of UNAFEI, Criminal Justice in Japan, English supervised by
Thomas L. Schmid, Linguistic Adviser, United Nations Asia and Far East Institute for the Prevention of
Crime and the Treatment of Offenders, 2019, p. 15.
154
Cf. Inoue, Masahito, Intercepção de Comunicações e Conversas como Meio de Investigação, Tóquio:
Yuhikaku, 1997, pp. 188 e ss.; Yasuoka, Kiyoshi, Direito Processual Penal (2.ª ed.), Tóquio: Sanseidō,
2013, p. 208.
155
Cf. art. 210.º do CPPJ.
156
O art. 27.º, nº. 1 do CPPJ, relativo ao fornecimento de documentos que descrevem o estado da
implementação da intercepção, estabelece que, “após a conclusão da realização da intercepção, o
procurador ou o agente da polícia judiciária deve, sem demora, submeter ao juiz, conforme estabelecido
no art. 25.º, nº. 4, um documento que inclua os seguintes itens. O mesmo aplica-se quando se requer a
prorrogação do período de intercepção, conforme estipulado no art. 7.º.
1. Data e hora de início, interrupção e término da realização da intercepção.
2. Nome e profissão do observador designado conforme o disposto no art. 13.º, nº. 1.
3. Opinião expressa pelo observador conforme o disposto no art. 13.º, nº. 2.
106
nomeadamente o nome do crime relacionado às comunicações intercetadas, o estatuto
penal aplicável e o motivo que fundamenta a inclusão das comunicações nos termos do
art. 15.º da mencionada Lei. O juiz responsável por analisar o documento apresentado
deve verificar se as comunicações em questão se enquadram nos critérios estabelecidos
no art. 15.º; caso se conclua que não estão em conformidade, a decisão de intercepção
dessas comunicações será revogada (art. 27.º, nº. 3).157
107
tenha ordenado a eliminação de registos ou revogado a permissão para fazer reprodução,
os registos em questão e a sua reprodução ainda podem ser utilizados como evidência nos
procedimentos relacionados ao caso do réu. Isso só é permitido sob certas condições:
primeiro, deve ter ocorrido uma examinação de prova em relação aos referidos registos
interceptados ou a sua reprodução no caso do réu, e segundo, não deve ter sido emitida
uma decisão para excluí-los como prova.159 Em outras palavras, desde que esses registos
ou a sua reprodução tenham sido examinados como evidência nos procedimentos
relacionados ao caso do réu e não tenha havido uma decisão de exclusão da evidência,
eles ainda podem ser utilizados como prova no processo.
5. Taiwan
Antes da revisão de 2014, a Lei de Proteção e Supervisão das Comunicações de
Taiwan não contemplava a questão da admissibilidade da valoração dos conhecimentos
fortuitos. Face a esta lacuna legislativa, a prática judicial prevalecente tem sido a de
considerar que tais conhecimentos, obtidos através de uma escuta telefónica legalmente
(ii) Quando há uma grave ilegalidade nos procedimentos destinados a proteger os interesses das partes
envolvidas na comunicação durante a intercepção ou reprodução.
(iii) Exceto nos casos das duas condições anteriores, quando há ilegalidade nos procedimentos de
intercepção ou reprodução”.
159
De acordo com o art. 33.º, nº. 5, a decisão judicial de ordenar a eliminação dos registos conforme
estabelecido na terceira cláusula, ou a decisão judicial de revogar a permissão de reprodução conforme
estabelecido na cláusula anterior, não impede a utilização desses registos interceptados ou a sua reprodução
como prova no processo relativo ao arguido, se estes já tiveram sido examinados como prova no processo
do arguido, a menos que haja uma decisão de os excluir da prova.
108
realizada devem ser valorados como prova, em conformidade com as exigências da
investigação criminal e a busca pela verdade material.
160
O art. 152.º do CPPT estabelece que, “ao proceder à execução de buscas ou apreensões, se forem
descobertos elementos que devam ser apreendidos no âmbito de outro caso, esses elementos podem
igualmente ser apreendidos e remetidos separadamente ao tribunal ou ao procurador competente”.
109
A fim de consagrar no plano legal a perspetiva adotada pela prática judicial, a
revisão de 2014 da Lei de Proteção e Supervisão das Comunicações abordou
explicitamente esta questão, instituindo a exclusão probatória da valoração dos
conhecimentos fortuitos como prinípio e a sua admissibilidade como exeção. O art. 18.º-
A, n.º 1 da Lei estipula: “Os conteúdos relativos a outros casos obtidos através da
vigilância de comunicações, de acordo com os art.s 5.º, 6.º ou 7.º, não podem ser
utilizados como prova. No entanto, se, dentro de sete dias após a descoberta, for
comunicado ao tribunal e este reconhecer que o caso está relacionado com o caso que
motivou a vigilância de comunicações ou se tratar de um dos crimes graves enumerados
no n.º 1 do art. 5.º, esta restrição não se aplica.”
110
a admissibilidade dos conhecimentos fortuitos em processos judiciais, é necessário que o
tribunal considere se tais provas foram adquiridas de maneira fortuita e de boa fé.161
No que diz respeito aos crimes graves, o art. 5.º da Lei de Proteção e Supervisão
das Comunicações enumera os seguintes crimes: crimes puníveis com uma pena mínima
de três anos de prisão, crimes urgentes como insurreição ou rapto para resgate, suborno
no exercício de funções, infrações ao Regulamento de Controlo de Armas de Fogo,
Munições e Armas Brancas, entre outros. Se o sujeito do caso conexo estiver envolvido
em algum dos crimes enumerados, e o procurador comunicar ao tribunal dentro de sete
dias após a descoberta, e este reconhecer a admissibilidade das provas, então estas terão
validade probatória.
Antes da revisão da lei, uma decisão judicial 162 considerou que a suspeita de
corrupção frequentemente está associada a condutas ilegais, como o registo falso por
funcionários públicos ou a divulgação de segredos de estado para alcançar fins de
corrupção, estabelecendo assim a sua conexão. Todavia, não foi especificado se este
critério pode ser aplicado à reforma da Lei de Proteção e Supervisão das Comunicações,
e a decisão baseou-se na ideia de que certas condutas estão frequentemente associadas a
determinados fins, o que não constitui necessariamente um padrão de julgamento. Esta
ausência de um padrão claro na avaliação da relevância dos conteúdos das comunicações
em processos conexos pode gerar incertezas e disparidades na aplicação da lei.
161
Cf. Huang Chaoyi, Código de Processo Penal, 5.ª ed., Taipei: New School, 2017, p. 336.
162
Cf. Tribunal Superior, Seção de Kaohsiung: Apelação n.º 694 do ano 102.
111
o concurso aparente de crimes, onde múltiplos delitos são cometidos de forma simultânea,
ou crimes conexos, que se interligam diretamente.
163
Cf. Li, Ronggeng, “Comentário sobre a revisão de 2014 da Lei de Proteção e Supervisão das
Comunicações — Uma revisão cuja origem é desconhecida”, in Revista Jurídica Yuandan, n.º 227, Taipei:
Revista Jurídica Yuandan, 2014, p. 172.
164
Cf. Li, Ronggeng, “A valoração probatória dos conteúdos de comunicações obtidos em escutas de casos
conexos – Decisão criminal n.º 2345 do ano 107 do Supremo Tribunal”, in Revista de Decisões Judiciais
Yuandan, n.º 84, Taipei: Revista Jurídica Yuandan, 2019, p. 42.
112
absoluta, um método que apenas uma minoria das decisões judiciais segue, apesar das
disposições mais estritas da Lei de Proteção e Supervisão das Comunicações.
Segundo o art. 158.º, n.º 4 do CPPT, na valoração probatória das provas obtidas
por funcionários públicos durante a execução de procedimentos de processo penal que
contrariem os procedimentos estabelecidos por lei, deve-se ponderar cuidadosamente o
equilíbrio entre a salvaguarda dos direitos humanos e a manutenção do interesse público.
165
Cf. Ac. do Supremo Tribunal, n.º 3714 de 108, n.º 3611 de 108, e n.º 61 de 109.
113
Além disso, diversas posições doutrinárias defendem uma comparação entre as
escutas relacionadas a outros casos e as buscas urgentes, propondo que o regime jurídico
expresso no art. 18.º-A, n.º 1 é análogo ao delineado no CPPT para as buscas urgentes,
que regulamenta expressamente a inadmissibilidade de provas não comunicadas
tempestivamente ao tribunal. 166 Contudo, ao valorar os conhecimentos fortuitos
comparativamente às buscas urgentes, torna-se essencial que os tribunais foquem a sua
análise da valoração probatória nos requisitos materiais, dada a urgência habitualmente
associada à investigação e conservação de provas em tais contextos. Esta urgência
justifica uma menor intrusão nos direitos de privacidade e outros direitos fundamentais
dos envolvidos, em comparação com as buscas urgentes. Portanto, nas avaliações
subsequentes, os tribunais são instados a realizar uma apreciação meticulosa conforme o
art. 158.º, n.º 4 do CPPT.167
166
Segundo os art.s 131.º, n.ºs 3 e 4, do CPPT, as buscas realizadas por procuradores devem ser
comunicadas ao tribunal judicial competente no prazo máximo de três dias após a sua realização. No caso
de buscas efetuadas por oficiais de justiça ou policiais judiciários, a comunicação deve ser feita dentro do
mesmo prazo ao Ministério Público competente e ao tribunal respectivo. Caso o tribunal avalie que a
autorização para a busca não deveria ter sido concedida, tem a prerrogativa de anular tal ação no prazo de
cinco dias. Ademais, buscas que não sejam devidamente comunicadas ao tribunal competente, ou aquelas
cuja autorização seja posteriormente anulada pelo tribunal, resultarão na inadmissibilidade dos objetos
apreendidos como prova no decorrer do processo judicial.
167
Cf. Editora de Revista Jurista Yuanda, “Seleção Prática em Direito Criminal: A Valoração Probatória
das Escutas de Casos Conexos Não Comunicadas Tempestivamente”, in Revista Jurídica Yuandan, n.º 214,
Taipei: Revista Jurídica Yuandan, 2020, p. 118.
114
dos seus direitos processuais fundamentais. Esta prática poderia limitar de forma
significativa a capacidade do réu de contestar a admissibilidade das provas acumuladas
contra ele, conforme garantido pelo direito ao contraditório e à ampla defesa.168
Cumpre ainda salientar que o artigo 18.º-A, n.º 3 da Lei de Proteção e Supervisão
das Comunicações dispõe que, de acordo com os artigos 5.º, 6.º e 7.º, o conteúdo obtido
através da intercepção de comunicações, bem como as provas daí derivadas, que não
estejam relacionadas com o objetivo da vigilância, não poderão ser admitidas como prova
em investigações judiciais, julgamentos ou outros procedimentos, nem poderão ser
utilizadas para quaisquer outros fins. Estas informações devem ser destruídas conforme
previsto no artigo 17.º, n.º 2.
6. China
Abordamos agora a admissibilidade probatória das informações obtidas por estas
medidas. Esta análise é essencial antes de se proceder à valoração probatória de
conhecimentos fortuitos.
168
Cf. Lin, Liying, “Síntese da Conferência sobre a Revisão da Nova Lei de Proteção e Supervisão das
Comunicações”, in Revista Jurídica Yuandan, nº 230, Taipei: Revista Jurídica Yuandan, 2014, p. 316.
115
transformando-os em provas legalmente reconhecidas antes de sua introdução formal no
âmbito processual penal.169
169
Anteriormente à adição da secção “Medidas de Vigilância Técnica” ao Código de Processo Penal da
China (doravante CPPC) de 2012, a utilização de métodos de vigilância técnica na prática investigativa na
China carecia de uma fundamentação jurídica explícita. Até à implementação do referido código, as práticas
de vigilância técnica das autoridades policiais baseavam-se essencialmente em regulamentos internos.
Consoante estes regulamentos, as informações recolhidas através da vigilância técnica não eram
diretamente admissíveis como prova judicial, podendo apenas ser utilizadas como fontes de pistas em fases
investigativas. Para que estas informações pudessem ser admitidas como prova, era necessária a sua
conversão em evidências legais previstas no CPPC. Na prática, isto traduzia-se na retenção de informações
obtidos por meios de vigilância técnica exclusivamente nos arquivos de investigação, não sendo estes
incluídos nos autos do processo encaminhados para a Procuradoria ou para os tribunais.
Visando à fundamentação de provas idóneas e cabais para evidenciar inequivocamente a prática de ilícitos
criminais, as autoridades investigativas frequentemente operam a conversão de informações obtidas por
intermédio de vigilância técnica em diversas modalidades de evidência admissível. É usual, por exemplo,
que durante o interrogatório de arguidos ou testemunhas, são-lhes apresentados excertos de gravações de
áudio que documentam o processo delituoso, evidenciando que as suas ações já se encontravam sob o
controlo das autoridades de investigação. Esta prática visa induzir a confissão dos crimes ou a incriminação
de terceiros, transformando assim os materiais de investigação técnica, que não podem ser abertamente
apresentados em tribunal, em provas testemunhais, como confissões dos arguidos, identificações por
coautores e depoimentos de testemunhas. Em determinadas situações, as autoridades de investigação
elaboram relatórios de situação, no qual detalham o desenrolar das investigações e outros elementos
pertinentes à resolução do caso. Adicionalmente, em certos casos, é permitido que membros do Ministério
Público e do Judiciário ouçam as gravações das escutas realizadas, com o objetivo de reforçar a sua
convicção acerca dos elementos probatórios disponíveis. Esta dependência excessiva da conversão de
provas técnicas em prova testemunhal torna-se, por vezes, um argumento central para as autoridades de
investigação considerarem desnecessária a divulgação dos materiais de vigilância técnica.
170
Cf. Zeng, Zan, “A Prática Legal da Investigação de Escutas: Experiência Americana e Caminho Chinês”,
in Revista de Estudos Jurídicos, n.º 3, Beijing: Instituto de Pesquisa Jurídica da Academia Chinesa de
Ciências Sociais, 2015, p. 165.
116
medidas de investigação técnica só podem ser utilizados para a investigação, acusação e
julgamento de crimes, sendo vedada a sua utilização para quaisquer outros fins”. Estas
disposições normativas representam um marco significativo no ordenamento jurídico da
China, ao conferir legitimidade probatória a materiais obtidos por meios técnicos de
investigação.
A segunda corrente, negativa, sustenta que a aplicação das medidas de escuta deve
observar estritamente o procedimento legal. Escutas realizadas sem a devida autorização
judicial podem violar direitos fundamentais, como o direito à privacidade e à liberdade
de comunicação. Tais práticas são vistas como uma ingerência injustificada nos direitos
dos cidadãos, devendo, portanto, ser rejeitada a admissibilidade probatória dos materiais
obtidos por meio dessas escutas.171
171
Cf. Peng, Le, “Reflexões Legais sobre Escutas e a Utilização de Suas Provas”, in Revista de Pesquisa
Criminal, n.º 6, Xanghai: Associação de Criminologia de Xangai, 2002, p. 50.
117
comparabilidade da gravidade dos factos descobertos fortuitamente com o crime original
e se os sujeitos das escutas são os mesmos. 172
172
Cf. Wang, Jiaming, “Admissibilidade Probatória dos Materiais Obtidos Fortuitamente Durante a
Investigação”, in Hebei Law Review, n.º 2, Hebei: Academia de Carreiras Jurídicas e Políticas de Hebei,
Associação de Direito da Província de Hebei, 2019, p.156.
173
Cf. Tribunal Popular do Distrito de Qinhuai, Cidade de Nanjing: Sentença Penal de Primeira Instância
n.º 831, (2018) Su 0104 Xing Chu.
118
Adicionalmente, reconhece-se a possibilidade de valoração dos conhecimentos
fortuitos com base na subsequente inclusão dos sujeitos das escutas no documento
decisório que fundamenta a autorização da vigilância técnica.
Ilustra-se esta situação com o julgamento de 2018 pelo Tribunal Popular Superior
da província de Jiangxi, relativo ao réu A, acusado de tráfico de drogas. Durante a
vigilância de B, identificaram-se indícios do envolvimento de A em atividades criminosas,
motivando a expansão das medidas de vigilância técnica para incluir A. A defesa
impugnou a validade do procedimento, argumentando que a intercepção ocorreu antes da
instauração formal do processo, numa fase preliminar de investigação. No entanto, o
tribunal rejeitou essa objeção, sustentando que a subsequente inclusão de A, enquanto
sujeito passível de escuta na decisão autorizativa da medida de vigilância técnica,
legitimava a sua inclusão como alvo da intercepção, ratificando assim a admissibilidade
dos conhecimentos fortuitos obtidos.174
174
Cf. Tribunal Superior do Povo da Província de Jiangxi: Sentença Penal de Segunda Instância n.º 75,
(2018) Lai Xing Zhong.
Contudo, o presente caso não esclarece os procedimentos e formalidades necessários para a subsequente
inclusão de novo alvo das escutas no documento autorizativo da medida de vigilância técnica, nem se
observa a aprovação para a inclusão de tal alvo no processo. Embora a legislação e os regulamentos vigentes
no ordenamento jurídico da China não contemplem expressamente a possibilidade de subsequente inclusão
de novos alvos nas medidas de investigação técnica, o art. 267 das “Normas Procedimentais para a Gestão
de Casos Criminais pelas Autoridades de Segurança Pública” determina que qualquer alteração nos alvos
das escutas exige a renovação dos procedimentos de autorização, implicando que os alvos das referidas
medidas devem estar em conformidade com os especificados na decisão autorizativa previamente aprovada.
Portanto, em situações em que o sujeito alvo das escutas na decisão autorizada difira do sujeito do crime
ocasionalmente descoberto, torna-se necessário proceder à alteração dos alvos das escutas na decisão
autorizativa e renovar os procedimentos de autorização.
119
A título ilustrativo, pode-se referir o julgamento realizado em 2018 pelo Tribunal
Popular Intermediário de Wuhan, que envolveu o réu A, acusado de posse ilegal de
estupefacientes. Durante a vigilância de B, numa investigação relacionada ao tráfico de
drogas, as autoridades identificaram as atividades criminosas de A. Utilizando as
informações coletadas pela unidade de vigilância técnica, a brigada antidrogas realizou
uma operação que resultou na captura de A e seus cúmplices. 175
175
Cf. Tribunal Intermediário do Povo da Cidade de Wuhan, Sentença Penal de Primeira Instância, n.º 177,
(2018) E 01 Xing Chu.
120
IV. Regime Jurídico de Intercepção e Protecção de Comunicações no
ordenamento jurídico de Macau e Valoração dos Conhecimentos
Fortuitos
176
Cf. Capítulo I deste trabalho.
121
apreensão de correspondência e das regras processuais para a escuta telefónica. A lei
também impõe às autoridades públicas a obrigação de manter a confidencialidade das
comunicações e criminaliza atos de violação do sigilo das comunicações, gravações não
autorizadas e outras práticas correlatas, estabelecendo as respectivas sanções.
177
Cf. Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau, Parecer n.º 3/VII/2022 da
Primeira Comissão Permanente, ponto 46,
disponível em [Link]
122
A nova legislação adota a terminologia “intercepção de comunicações”, que
representa uma expansão significativa em relação ao conceito mais restrito de “escutas
telefónicas”. Esta mudança reflete a evolução das técnicas de intercepção que agora
abrangem uma gama diversificada de métodos explicitamente delineados para servir aos
propósitos da investigação criminal, conforme articulado no art. 4.º do novo estatuto. Este
artigo especifica as formas de intercepção de comunicações, definindo expressamente que
a intercepção de comunicações é efectuada através de escuta, captação, gravação de sons,
gravação de imagem, cópia ou outra forma semelhante, necessária e adequada às
finalidades da investigação criminal. Notavelmente, a nova legislação abandona o termo
“gravação de conversas”, em favor de uma descrição mais abrangente de comunicação,
que inclui a emissão, transmissão ou receção de sons via telecomunicações, conforme
estabelecido pelo art. 2.º, nº. 1. Além disso, o art. 4.º incorpora a gravação como um meio
de intercepção, consolidando o entendimento de que as disposições supracitadas
satisfazem integralmente a metodologia previamente designada como “gravação de
conversas”.178
178
Ibidem., pontos 137 e 138.
179
Ibidem., pp. 5-7.
123
A Lei n.º 22/2022, ao autonomizar o regime de interceção das comunicações,
evidencia a escolha do legislador de Macau pelo modelo de legislação específica.
180
Cf. art. 3.º, nº. 1 da Lei n.º 22/2022.
124
1.3 Limitação Temporal
A Lei n.º 22/2022 clarifica o prazo da intercepção de comunicações, conforme
disposto no n.º 3 do art. 3.º, estabelecendo que a duração máxima é de três meses, à
semelhança dos regimes vigentes na Alemanha, Portugal e China. Este período é
renovável, desde que os requisitos de admissibilidade sejam cumpridos, permitindo
renovações sucessivas de até três meses cada.181
181
Cf. art. 3.º, nº. 3 da Lei n.º 22/2022.
125
do Capítulo II. O princípio da framentariedade, que restringe a aplicação destas medidas
aos crimes de certa gravidade; o princípio da proporcionalidade, que exige que as medidas
sejam apropriadas ao fim a que se destinam; o princípio da necessidade, que limita o uso
destas técnicas às situações em que não existam alternativas menos invasivas; o princípio
da intervenção mínima, que preconiza a utilização destas medidas apenas quando todas
as outras opções forem inadequadas ou ineficazes; e o princípio da legalidade, que
assegura que qualquer intercepção seja conduzida em conformidade com a lei.
182
Cf. Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau, ob. cit., anexo IV.
183
Ibidem., ponto 109.
184
Ibidem., ponto 114.
126
intrusivas e limitadoras dos direitos fundamentais alheios, exige uma rigorosa avaliação
de proporcionalidade. A intervenção orientada para a elucidação dos factos criminais e a
promoção da justiça deve proporcionar um equilíbrio entre os benefícios esperados e os
custos em termos de direitos sacrificados. O princípio da proporcionalidade é crucial para
assegurar que a aplicação de medidas tão severas quanto a intercepção de comunicações
não resulte em um desequilíbrio injustificado, onde os custos para a privacidade
individual e outros direitos fundamentais superem os benefícios legítimos de sua
implementação.
Esta avaliação decorre tanto da severidade das penas previstas para os crimes em
questão, que espelha a sua gravidade em termos quantitativos, quanto da relevância social
atribuída a determinados crimes, refletindo a sua gravidade qualitativa.
185
Ibidem, anexo IV.
127
medidas sejam consideradas apenas quando outras alternativas investigativas se mostrem
ineficazes ou inexequíveis.
186
Cf. Valente, Manuel Monteiro Guedes, Escutas telefónicas: Da excepcionalidade à vulgaridade, 2ª Ed.,
Coimbra: Almedina, 2008, p. 59.
187
Cf. Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau, ob. cit., anexo IV.
128
2. Conhecimentos fortuitos na intercepção de comunicações: um estudo
comparativo e suas implicações para Macau
188
Valente, Manuel Monteiro Guedes, ob. cit., pp. 140 - 141.
189
Ibidem., pp. 140 - 141.
190
Conceição, Ana Raquel, ob. cit., pp.72-73.
129
No que concerne aos direitos à liberdade e ao sigilo dos meios de comunicação,
as disposições relevantes encontram-se estipuladas no art. 32.º da LB. A doutrina de
Guedes Valente ilumina a dualidade deste direito, que se bifurca em dois eixos
fundamentais de proteção: a garantia do direito à reserva da intimidade da vida privada e
familiar e a garantia do direito à inviolabilidade do sigilo do conteúdo das conversações
e comunicações.191
Todavia, esses direitos não são absolutos e podem sofrer restrições conforme
estabelecido na LB, nomeadamente em situações de inspeção das comunicações pelas
autoridades competentes, sempre que tais ações se justifiquem por razões de segurança
pública ou por necessidades de investigação em processos criminais, nos termos do art.
32.º, n.º 2, da LB. A intercepção de comunicações é, portanto, uma medida excecional
para a obtenção de provas, que deve ser regulamentada por lei e aplicada exclusivamente
em conformidade com as condições específicas previstas para garantir a segurança
pública e a investigação criminal.
Nest sentido, o art. 113.°, n°. 3 do CPPM prevê que, “ressalvados os casos
previstos na lei, são igualmente nulas as provas obtidas mediante intromissão na vida
privada, no domicílio, na correspondência ou nas telecomunicações, sem o
consentimento do respectivo titular”.
191
Valente, Manuel Monteiro Guedes, [Link]., p.142.
130
valoração de provas obtidas sem as devidas salvaguardas legais comprometa os direitos
fundamentais protegidos pela LB.
192
Cf. Aguilar, Francisco, Dos Conhecimentos Fortuitos Obtidos Através de Escutas Telefónicas:
Contributo para o Seu Estudo nos Ordenamentos Jurídicos Alemão e Português, Coimbra: Almedina, 2004.
pp. 75 a 79 e 108.
193
Cf. Singelnstein, Tobias, “Strafprozessuale Verwendungsregelungen
zwischen Zweckbindungsgrundsatz und Verwertungsverboten. Voraussetzungen der Verwertung von
Zufallsfunden und sonstiger zweckentfremdender Nutzung personenbezogener Daten im Strafverfahren
seit dem 1. Januar 2008”, in Jurisprudenz und Praxis des Strafrechts, Heidelberg: C.F. Müller, 2008, p.
855
131
condições rigorosas para a utilização de tais informações, assegurando a conformidade
com os princípios constitucionais e a proteção dos direitos fundamentais.
132
a solução adequada é a recusa total da sua valoração, sustentada pela reserva
constitucional dos direitos envolvidos, conforme sustentado por Francisco Aguilar na
doutrina portuguesa.
133
A análise comparativa das legislações e práticas dos países estudados revela que
a valoração dos conhecimentos obtidos de forma fortuita através de escuta telefónica está
predominantemente orientada para a verificação de dois critérios fundamentais: a
tipificação dos crimes e a conexão com o crime que originou a escuta.
134
utilização dos conhecimentos fortuitos como meio de prova é que estes devem subsumir-
se a um crime grave previsto na lei.
O presente estudo concorda com Tobias Reinbacher, que sustenta que, para além
do cumprimento das disposições que exigem a compatibilidade com os crimes graves
expressamente listados, as informações adquiridas de forma incidental através de escuta
devem ser sujeitas a uma avaliação pormenorizada para assegurar que satisfazem os
critérios necessários à autorização da escuta. Em cada situação concreta, deve-se aplicar
o princípio da subsidiariedade, o qual determina que a prova deve ser obtida ou
investigada por outros meios que sejam menos invasivos, sempre que tais alternativas
eficazes estejam disponíveis. Caso se verifique a existência de métodos alternativos que
permitam a obtenção de provas de forma igualmente eficiente, a utilização das
informações obtidas incidentalmente através da escuta deve ser proibida.
135
Isto deve-se ao facto de que a vigilância de telecomunicações, conforme protegido
pelo §10 da Lei Fundamental da Alemanha, assegura a liberdade de comunicação secreta.
Assim, as descobertas fortuitas devem ser interpretadas de maneira que respeite os
princípios jurídicos estabelecidos. A legislação deve prever a necessidade de uma revisão
detalhada e criteriosa de todos os requisitos que justificam a ativação da vigilância,
mesmo no que concerne aos conhecimentos fortuitos.
136
informações representa, sem dúvida, um abuso das normas jurídicas. Adicionalmente, tal
prática pode proporcionar às autoridades competentes a oportunidade de abusar do
referido mecanismo, conduzindo intercepção em casos que, em circunstâncias normais,
não deveriam ser objeto de vigilância.
137
No âmbito jurídico alemão, ainda que o critério da hipotética repetição de
intervenção seja largamente aceito pela jurisprudência e encontre fundamento na
legislação vigente, deve-se reconhecer a existência de uma exceção que permite a
valoração das provas obtidas incidentalmente, mesmo quando estas não constam no
catálogo de crimes estipulado. Nessa conjuntura, quando há uma conexão entre o crime
grave e o crime menor descoberto acidentalmente, não estamos perante verdadeiros
conhecimentos fortuitos, mas sim de uma conceção análoga aos conhecimentos de
investigação no ordenamento jurídico português.
Assim, quando um crime grave, objeto de escuta telefónica, e um crime não grave
estão intrinsecamente ligados a ponto de constituírem um mesmo facto criminal
processual, as provas obtidas através da escuta telefónica são consideradas parte
integrante das comunicações relativas ao caso em questão, sem envolver outros processos
distintos. Contudo, a aplicação deste critério requer que o crime grave que justificou a
escuta possa ser efetivamente provado. Na ausência de prova do crime grave, o crime não
grave em questão, por carecer de objeto de conexão, não pode ser considerado parte do
mesmo caso. Nesse contexto, por não cumprir a exigência de gravidade de crime e por
faltar conexão, deve-se proibir a utilização das provas obtidas incidentalmente.
138
Por sua vez, Aguilar advoga um critério mais objetivo, alicerçado na “unidade da
investigação processual” e na “mesma situação histórica de vida”, sublinhando a
necessidade de uma coerência factual entre a suspeita inicial e os factos descobertos. Este
autor propõe ainda a utilização do artigo 24.º, n.º 1 do Código de Processo Penal
Português como critério legal para a avaliação dos conhecimentos da investigação,
assegurando que os factos descobertos no decurso da investigação, e que tenham conexão
direta com o objeto do processo, sejam valorizados como prova, em consonância com a
jurisprudência e doutrina dominantes.
Aderimos à posição de Aguilar, uma vez que, conforme exposto por Raquel
Conceição e Francisco Aguilar, as constelações típicas enunciadas por Costa Andrade
não constituem um critério objetivo, apresentando um caráter aberto que pode conduzir a
uma confusão jurídica entre conhecimentos fortuitos e conhecimentos da investigação.
Além disso, salienta-se a falta de suporte legal, bem como a possibilidade de que a
doutrina e a jurisprudência acabem por esvaziar o conceito de conhecimentos fortuitos.
194
Cf. Ac. do TSI de 11/12/2014, processo n.º 555/2014, relator: Chan Kuong Seng.
139
processo. Em setembro de 2012, a Polícia Judiciária de Macau, durante uma investigação,
identificou fortuitamente uma rede de tráfico de drogas que também usava prostituição
para facilitar o tráfico. Após a autorização do juiz para continuar as escutas, o arguido foi
condenado tanto por tráfico de estupefacientes quanto por controlo de prostituição.
O arguido foi condenado a seis anos e nove meses por tráfico de estupefacientes
e a seis meses por controlo de prostituição. Recorrendo ao Tribunal de Segunda Instância,
alegou que a condenação por prostituição violava o art. 172.º do CPPM, argumentando
que as provas eram inadmissíveis e que a moldura penal prevista na Lei n.º 6/97/M (de
um a três anos) não atendia aos requisitos legais.
195
O artigo 15.º, intitulado “Casos de conexão”, dispõe o seguinte, “1. Há conexão de processos quando:
a) O mesmo agente tiver cometido vários crimes; ou b) O mesmo crime tiver sido cometido por vários
agentes em comparticipação. 2. Há ainda conexão de processos quando vários agentes tiverem cometido
diversos crimes: a) Em comparticipação; b) Reciprocamente; c) Na mesma ocasião e lugar; d) Sendo uns
causa ou efeito dos outros; ou e) Destinando-se uns a continuar ou a ocultar os outros.”
140
Concordamos com esta decisão. Embora a expressão “conhecimentos de
investigação” não tenha sido explicitamente mencionada, o Procurador de primeira
instância adota a posição de Francisco Aguilar, recorrendo ao artigo 24.º, n.º 1 do CPPP
(correspondente ao artigo 15.º do CPPM) como critério legal para a valoração dos
conhecimentos obtidos na investigação. Apesar de a prática de exploração de prostituição
não constituir um crime especificamente catalogado, o Procurador defende que os factos
relativos a essa prática, descobertos no âmbito da investigação sobre tráfico de
estupefacientes e com conexão direta com o objeto do processo, devem ser considerados
como prova.
196
Voltamos para o Processo nº 1295/2019 do TSI introduzido no primeiro
capítulo. No âmbito de uma investigação a um caso de criminalidade organizada em
2018, a Polícia Judiciária descobriu, através de escutas telefónicas, que o arguido,
então investigador criminal, acessou documentos e informações confidenciais sem
autorização, violando o dever de sigilo e divulgando esses dados a terceiros.
Condenado a 1 ano de prisão efetiva por violação de segredo de justiça, o arguido recorreu,
alegando prova inválida e vícios processuais.
Não obstante, discordamos da decisão proferida. Caso exista uma base legal que
permita a valoração dos conhecimentos obtidos fortuitamente no que concerne à violação
do segredo de justiça, tal valoração revela-se igualmente inviável. Estes conhecimentos
fortuitos não se encontram associados a crimes tipificados, o que compromete o
cumprimento do princípio da fragmentaridade e a eventual repetição da intervenção.
Portanto, se tais conhecimentos forem tratados como fortuitos, não podem ser valorados.
Adicionalmente, a decisão em questão não esclarece a conexão entre esses conhecimentos
fortuitos e o crime tipificado, o que impossibilita a sua consideração como conhecimentos
196
Cf. Ac. do TSI de 20/03/2019, processo n.º 1295/2019, relator: Chan Kuong Seng.
141
de investigação a serem valorizados. Em conclusão, é imperativo proceder à exclusão da
prova.
Não obstante, não subscrevemos esta posição. Com efeito, nos ordenamentos
jurídicos de países como a Alemanha, Portugal, Taiwan e China, estabelece-se uma
delimitação específica dos sujeitos-alvo da interceção. Na Alemanha, por exemplo, a
ordem de vigilância deve restringir-se exclusivamente ao arguido ou a indivíduos sobre
os quais, com base em provas concretas, se possa inferir que recebem ou transmitem
comunicações destinadas ao arguido ou originadas por este, ou que utilizam a linha de
comunicação ou sistema informático do arguido. De forma análoga, em Taiwan, os
sujeitos-alvo da interceção abrangem tanto o arguido como o suspeito, além de indivíduos
envolvidos na transmissão, receção ou envio de comunicações, bem como aqueles que
forneçam equipamentos de comunicação ou disponibilizem locais onde tais
comunicações ocorram. Em Portugal, para além dos indivíduos mencionados, também as
vítimas de crime estão abrangidas. Por sua vez, na China, a interceção é limitada
exclusivamente a suspeitos de crimes, arguidos e indivíduos com uma ligação direta às
atividades criminosas.
142
Concordamos plenamente com Guedes Valente, doutrinador na jurisprudência
portuguesa, que fundamenta esta restrição na necessidade de evitar manipulações
investigativas que poderiam resultar na implicação de terceiros inocentes em infrações
penais através de conversas direcionadas ou fabricadas. Ademais, subscrevemos a
posição de Joachim Kretschmer, que considera imperativo estabelecer claramente os
limites da intervenção, uma vez que a utilização subsequente das informações obtidas
através das escutas implica uma maior interferência na liberdade de comunicação secreta.
Consequentemente, é essencial proceder a uma avaliação minuciosa dos limites da
utilização das escutas, os quais são delineados pela participação do arguido ou do
transmissor na comunicação.
143
como prova caso os crimes em questão não sejam classificados como graves. No entanto,
uma vez que tais autoridades detêm conhecimento de uma suspeita concreta de crime,
não lhes é permitido ignorar tal informação. Considerando o interesse público na eficaz
persecução penal e no combate ao crime, deve-se permitir o início do procedimento
investigativo.
144
Conclusão
O presente trabalho inicia a sua análise abordando a questão da valoração dos
conhecimentos fortuitos obtidos através de escutas no ordenamento jurídico de Macau.
Manifestamos a nossa discordância face à lacuna legislativa persistente relativamente à
utilização de conhecimentos fortuitos, mesmo após a promulgação da Lei n.º 22/2022,
intitulada “Regime Jurídico de Interceção e Proteção de Comunicações”. O legislador
sustenta que a jurisprudência consolidada no ordenamento jurídico de Macau reconhece
a admissibilidade das informações sobre outros crimes descobertos fortuitamente durante
escutas legalmente autorizadas, justificando, assim, a ausência de disposições legais
adicionais sobre esta matéria.
145
necessidade, intervenção mínima e legalidade, assegurando a proteção do direito à
privacidade dos cidadãos. Simultaneamente, realizamos uma análise minuciosa dos
modelos legislativos, da classificação dos crimes catalogados, dos mecanismos de
aprovação e supervisão, bem como da limitação temporal, apresentando os pontos mais
relevantes de cada regime nacional.
146
Quanto ao segundo critério, os países analisados geralmente não admitem
informações obtidas fortuitamente em escutas telefónicas como prova quando se referem
a crimes não catalogados. Para que esses conhecimentos fortuitos sejam utilizáveis, é
necessário que estejam conectados a crimes previamente listados na legislação. A
interpretação e aplicação desse critério podem variar entre as doutrinas dos diferentes
países estudados. Adotamos a posição da doutrina portuguesa, que define a conexão como
“unidade da investigação processual” e na “mesma situação histórica de vida”, conceito
semelhante ao de “mesmo facto criminal processual” na doutrina alemã. Contudo, a
aplicação deste critério requer que o crime grave que justificou a escuta possa ser
efetivamente provado.
147
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