PORTFÓLIO
PLANO FARMACOLÓGICO E TERAPÊUTICO EM PEQUENOS ANIMAIS
Debora Lima S de Oliveira1
Jucemir da Silva Vitor¹
Neide Maria Griebeler 2
1
Acadêmico do Curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário União das Américas –
UniAmérica Descomplica, Foz do Iguaçu, Paraná;
2
Mestre em Medicina Veterinária, docente do Curso de Medicina Veterinária do Centro
Universitário União das Américas – UniAmérica Descomplica, Foz do Iguaçu, Paraná.
E-mail do autor correspondente: [Link]@[Link]
Foz do Iguaçu – Fevereiro
2022
RESUMO
Este presente portfólio tem o intuito de apresentar o caso clínico com a devida prescrição
farmacológica de um felina, SRD, 5 anos, que teve um episódio de gastroenterite aguda em
dezembro de 2021.
FICHA CLÍNICA
Adentrou-se na clínica veterinária uma espécie felino, fêmea, da raça SRD, com o nome
de Princesa Leia, pelagem preta, porte pequeno, com cinco anos de idade, pesando 3,400kg, e
é esterilizada há quatro anos. Com vacinação em dia, fazendo uso da Nobivac® Feline 1-
HCPCh+FeLV, Nobivac® Raiva, e vermifugação fazendo uso de Vetmax Plus a cada 3 meses.
Sua nutrição é a base de ração para gato castrado GranPlus 150g por dia e ração úmida em dias
alternados.
ANAMNESE
No dia 12 de dezembro de 2021, por volta das 20h, o paciente apresentou episódio de
fezes pastosa, a tutora resolveu observar antes de tomar qualquer decisão, porém às 21h o
paciente apresentou episódios de diarreia e a tutora iniciou com a administração do probiótico
Vetnil 1g. O paciente defecou por sete vezes durante a madrugada, e ao amanhecer, já no dia
13 de dezembro, a tutora administrou mais 1g do probiótico e assim o felino adormeceu. Por
volta das 17h, a paciente começou a apresentar episódios de êmese (conteúdo estomacal
esbranquiçado) e letargia. Prontamente a tutora a levou à clínica veterinária 24h. Ressaltamos
que o paciente estava se alimentando normalmente e não teve nenhuma alteração alimentar.
PATOLOGIA x ESPÉCIE
O sistema gastrointestinal é responsável pela absorção de nutrientes e também mantém
contato com substâncias externas que podem ser prejudiciais tais como bactérias, vírus e
fungos, substâncias tóxicas, sensibilidade alimentar dentre outros.
A gastroenterite caracteriza-se pela inflamação e/ou infecção do estômago e do
intestino, que acomete principalmente felinos adultos e geriatras, mas também pode acometer
animais jovens, não há relato com predisposição racial e sexual. Sua etiologia ainda não é
totalmente compreendida e existem diversas suposições quanto a sua etiopatogenia, mas até o
momento não se tem uma precisa origem. Acredita-se que a doença intestinal inflamatória se
origina de uma deficiência na barreira mucosa, flora bacteriana e/ou no tecido linfóide
associado ao sistema gastrintestinal (RICART; FEIJOÓ; GÓMEZ; 2012). Porém, para alguns
autores ela é considerada uma síndrome caracterizada por infiltração difusa grande de células
inflamatórias no estômago, intestino delgado e/ou colón. Essas células podem ser linfócitos,
plasmócitos e menos frequentemente eosinófilos e neutrófilos (FROES; IWASAKI, 2001).
Tem como principais sinais: êmese, diarreia, febre, apatia, perda de peso, polifagia e
desidratação, sendo os mais evidentes êmese, diarreia e perda de peso, podendo ocorrer
isoladamente ou em conjunto. Quando os felinos apresentam perda de peso sem outros sinais
clínicos, deve-se suspeitar de doença intestinal inflamatória, pois são muitos estudos que
mostram ser essa a apresentação mais comum da DII em felinos (REIS, 2011).
Felinos suspeitos de doença intestinal inflamatória devem fazer o diagnóstico
diferencial para outras doenças que cursam com sinais gastrointestinais como infecções
bacterianas, parasitárias, hipertireoidismo, diabetes melito, insuficiência renal, vírus da
leucemia felina e da imunodeficiência viral felina, sensibilidade alimentar, processos
obstrutivos e de neoplasias intestinais (BOVINO et al. 2011).
O apetite dos felinos é variável podendo estar normal, anorexia ou polifagia.
As principais causas que podem causar as gastroenterites são:
- Hipersensibilidade alimentar;
- Parasitas: (Giardia, Toxoplasmose…);
- Infecções: vírus, fungos, bactérias;
- Intoxicação alimentares;
- Estresse… entre outros.
A doença inflamatória não tem diagnóstico específico. Representa uma doença com
característica de inflamação intestinal sem causa desconhecida. É necessário realizar o
diagnóstico de exclusão eliminando as causas conhecidas de gastroenterite (WALY, 2004).
EXAME COMPLEMENTAR
No exame de hemograma acima, podemos observar os valores de referência para
hematócrito, hemoglobina e número de hemácias estão acima do intervalo de referência, ou
seja, há uma redução de volume plasmático que aumenta a concentração das proteínas
plasmáticas e das hemácias, sendo indício de uma desidratação, que corrobora com os sinais
clínicos apresentados.
Entretanto, apenas um hemograma não conclui o que poderia ter acometido a gastroenterite do
paciente. Neste cenário, indicamos a realização dos exames: concentração sérica de T4 total
para analisar níveis hormonais, bioquímico (ALT, AST, Uréia e Creatina) para observar as
funções renais e viscerais, urinálise para observar distúrbios renais e metabólicos, bem como,
possíveis infecções, coproparasitológico para analisar possíveis parasitos intestinais e uma
biópsia do intestino para avaliação se há lesões extraluminais, pois a realização da endoscopia
para a colheita dos fragmentos não é a melhor opção. Primeiramente acreditam que o acesso ao
íleo fica prejudicado e reforçam ainda que as correlações microscópicas com as lesões
macroscópicas não são correspondentes. E também alertam para a presença dos artefatos por
esmagamento das amostras (FERGUSON e GASCHEN, 2009).
Se os sinais justificam, uma laparotomia exploratória é possível de ser realizada. Tal
procedimento se presta para a colheita dos fragmentos intestinais para o exame histológico.
Nessa oportunidade são coletados apenas três fragmentos, da porção do duodeno, jejuno e
íleo (TAMS, 2005).
MEDICAÇÕES E POSOLOGIAS
A escolha da terapia medicamentosa será baseada na apresentação dos sinais clínicos,
bem como nos achados laboratoriais, pois o tratamento será de suporte.
Citrato de Maropitant (Cerenia®) durante atendimento, única dose - posologia: via de
administração subcutânea, 3,400 x 1mg/kg/10mg por ml= 0,34 ml.
Omeprazol (Gaviz® V) 10mg - posologia: via administração oral, 1mg x 3,400kg= 3,4
mg, ½ comprimido a cada 24h durante 7 dias. Preferencialmente pela manhã e em jejum.
Probiótico (Vetnil) - posologia: via de administração oral, 1g, uma vez ao dia durante 5
dias.
Praziquantel 20mg, Pamoato de Pirantel 230mg (Helfine® Plus gatos) - posologia: via
de administração oral, dose x peso 1 comprimido para cada 4kg = administrar 1 comprimido.
Realizar exame coproparasitológico para escolha do vermífugo ideal.
A terapia alimentar tem o intuito de não induzir uma sobrecarga alimentar. Com tudo,
é essencial uma dieta adequada, assim restabelecendo a fisiologia intestinal.
Alimento úmido que é mais rápido de ser digerido pelo estômago e para repor a carga
hídrica, visto que, a paciente está desidratada, e pequenas porções de 3 a 5 vezes ao dia para
não sobrecarregar o jejuno que não conseguirá absorver o grande volume de líquido, por isso a
importância de fracionar a refeição.
A dieta recomendada deve ser de fácil digestão e não possuir antígenos que estimulem
o sistema imune do TGI. Ao escolher a dieta em casos de DII, pode-se recomendar o uso de
novas proteínas com as quais o animal ainda não teve contato (cordeiro ou cabrito) ou rações
comerciais que contenham proteínas hidrolisadas. As proteínas hidrolisadas apresentam uma
fácil digestão e tem uma menor diminuição da antigenicidade por serem menores em tamanho
comparando-se com outras proteínas (HORTA, 2016).
Para a paciente Princesa recomendamos: Hill’s Prescription Diet k/d Feline Vegetable
& Tuna Stew - Canned (Kidney Care) em pequenas porções 4 vezes ao dia durante 3 dias. No
terceiro de administração alternar com a ração de costume e deixar água potável à vontade.
FARMACOCINÉTICA E FARMACODINÂMICA
Citrato de Maropitant (Cerenia®): O maropitant é um antagonista dos recetores da
neurocinina (NK-1), que atua por inibição da ligação da substância P, um neuropéptido da
família das taquicininas. A substância P encontra-se em 5 concentrações significativas nos
núcleos que constituem o centro do vómito e é considerada como o neurotransmissor chave
envolvido no vómito. Ao inibir a ligação da substância P no centro do vómito, o maropitant é
eficaz tanto contra causas neurológicas como humorais (centrais e periféricas) de vómito.
O perfil farmacocinético do maropitant quando administrado em gatos por via
subcutânea em dose única de 1 mg/Kg peso corporal, foi caracterizado por uma concentração
máxima (Cmax) no plasma de aproximadamente 165 ng/ml; esta concentração foi atingida num
período de 0,32 horas (19 minutos) após a administração (Tmax) O pico da concentração foi
seguido por um declínio na exposição sistémica com uma semivida de eliminação aparente (t
½ ) de 16,8 horas. Os níveis plasmáticos do maropitant conferiram eficácia a partir de 1 hora
após a administração. A biodisponibilidade do maropitant após administração por via
subcutânea em gatos foi de 91,3 %. O volume de distribuição no estado de equilíbrio (Vss)
determinado após administração intravenosa de 0,25 mg/Kg variou entre aproximadamente
2,27 e 3,80 L/Kg .O maropitant revela uma farmacocinética linear quando administrado
subcutaneamente numa dose variando entre 0,25 – 3 mg/Kg. O maropitant é metabolizado pelo
citocromo P450 (CYP) a nível hepático. A ligação às proteínas plasmáticas do maropitant em
gatos estima-se ser 99,1 %. É eliminado por via urinária ou fecal.
Aplicação a nossa paciente: Agindo no complexo central do vômito, reduzindo e
prevenindo êmese e náuseas, ligando-se às proteínas plasmáticas e sendo metabolizada no
fígado.
Omeprazol (Gaviz® V): É um medicamento que bloqueia irreversivelmente a bomba
de prótons localizada na membrana das células parietais gástricas, tendo como resultado a
redução da secreção de ácido clorídrico e o consequente aumento do pH do estômago. Após
administração oral, o omeprazol é rapidamente absorvido no duodeno e biotransformado no
fígado pelo sistema microssomal P-450, formando-se metabólitos inativos que são excretados
pela urina e pelas fezes.
Aplicação a nossa paciente: Irá neutralizar e aumentar o pH estomacal e esofágico da
super acidez ocasionada pela êmese. Diminuindo a atividade da pepsina, que consiste em uma
enzima digestiva que reage em meio ácido. O omeprazol é metabolizado no fígado.
Probiótico (Vetnil): O Vetnil é um probiótico composto 4 cepas de bactérias e 1 cepa
de levedura sendo elas: Bifidobacterium bifidum, Enterococcus faecium, Lactobacillus
acidophilus, Lactobacillus plantarum e Saccharomyces cerevisiae, são de uso oral e para terem
efeito devem resistir ao suco gástrico e a bile e aderir à mucosa intestinal.
Auxiliam na regulação da microbiota intestinal em cães e gatos, competindo com
microorganismos patógenos favorecendo a proliferação de bactérias benéficas e melhorando a
absorção de nutrientes e sínteses de vitaminas e proteínas.
Aplicações ao nosso paciente: como o paciente apresenta-se com diarréia sua flora
intestinal está desregulada com a administração dos probióticos ajudará a recomposição da flora
e consequentemente uma regulação do intestino, melhorando a absorção de água e nutrientes,
ajudando a diminuir a diarreia.
Praziquantel, Pamoato de Pirantel (Helfine® Plus gatos):
Praziquantel: derivado da pirazioisoquinolona eficaz contra cestódeos e trematódeos.
Farmacodinâmica se dá pela ação em provocar aumento da atividade muscular, seguido de
contração e paralisia espástica do endoparasito. Farmacocinética: é de uso oral e é rapidamente
absorvido por difusão passiva, biotransformado no fígado, com pico de concentração
plasmática em 1 a 3 horas, meia vida de 0,8 a 1,5 horas e concentração plasmática de 85%, sua
eliminação é exclusivamente renal sob forma de metabólitos (fonte bula do medicamento).
Pamoato de Pirantel: é um fármaco do grupo tetraidropirimidinas utilizado no
tratamento de escolha, de ascaridíase e enterobiose e tratamento de ancilostomíase e necatoríase
sua farmacodinâmica se dá agindo como bloqueador neuromuscular despolarizante atuando
receptor nicotínico de subtipo-L e o oxantel no receptor de subtipo-N, provocando assim
contração súbita, seguida por paralisia, dos helmintos. Atua também como inibidor da
colinesterase e estimulante ganglionar; os helmintos tornam-se incapazes de manter sua posição
na luz intestinal e são expelidos do corpo pelas fezes por peristaltismo.
Aplicações ao nosso paciente: como não foi realizado um exame coproparasitológico,
que seria o ideal para identificar qual ou quais parasitas podem estar acometendo o paciente,
sugerimos a administração do helfine plus pois os princípios ativos de sua composição são anti
helmínticos que combatem uma ampla gama de verminose tais como: Dipylidium caninum,
Taenia spp, Echinococcus spp, Metacestóide corti, Ancylostoma caninum, Ancylostoma
braziliense, Ancylostoma tubaeforme, Toxocara cati e Toxocara leonina.
Av. José Maria de Brito 2691 – Centro
85.863-730 – Foz do Iguaçu – PR
josearmando@[Link] / [Link]
(45) 3027-0009 / (45) 99989-0466
Paciente: Princesa Raça: SRD Idade: 5 anos
Sexo: Fêmea Peso: 3,500kg Pelagem: Preto
Proprietário: Jorge José Telefone: 99999-1234
Endereço: Rua Castro Mello 325, Nova Esperança – Foz do Iguaçu
FARMÁCIA VETERINÁRIA:
Uso Oral:
(Gaviz® V) 10mg .......................................................... CX
Administrar ½ comprimido, a cada 24h durante 7 dias. Preferencialmente pela manhã e em
jejum.
Probiótico (Vetnil) ..........................................................FRS
Administrar 1g, a cada 24h, durante 5 dias.
(Helfine® Plus gatos) .......................................................... CX
Administrar 1 comprimido (realizar exame coproparasitológico depois de 30 dias).
NUTRACÊUTICA
Hill’s Prescription Diet k/d Feline Vegetable & Tuna Stew .................................. LATA
Administrar em pequenas porções 4 vezes ao dia (1 colher de sopa) durante 3 dias. No terceiro
dia de administração alternar com a ração de costume e deixar água potável à vontade.
Observação.:
-Caso não apresentar melhora no quadro, agendar retorno;
-Qualquer alteração, informar imediatamente ao Médico Veterinário;
Foz do Iguaçu, 16 de março de 22.
José Armando CRMV X3X4X5
REFERÊNCIA
BOVINO, J. B. et al. Doença inflamatória intestinal felina: revisão. Clínica veterinária, São
Paulo, v. 16, n. 91, p. 60-68, mar./abr., 2011.
FERGUSON, D.; GASCHEN, F. Doença intestinal inflamatória idiopática felina. Veterinary
Focus: medicina felina, Boulogne, v. 19, n. 2, p. 20-30, 2009.
FRÓES, T. R.; IWASAKI, M. Avaliação ultrassonográfica do trato gastrintestinal de felinos
portadores de enfermidades gastrintestinais. Clínica Veterinária, n. 35, p. 25-34, nov./dez.,
2001.
HORTA, P.V. P. Alterações de intestino delgado de gatos. Total Alimentos S.A, n. 17, p. 1- 12,
fev. 2016.
RICART, M. C.; FEIJOÓ, S. M.; GÓMEZ, N. V. Doença intestinal inflamatória – atualização.
Clínica Veterinária, n. 101, p. 44-54, nov./dez., 2011.
REIS, C. Principais causas de diarréia crônica em felinos. 2011. Trabalho de conclusão de curso
(Bacharel em Medicina Universitária) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul Faculdade
de Medicina Veterinária, Porto Alegre, 2011.
TAMS, T. R. Doenças crônicas do intestino delgado. In: . Gastroenterologia de pequenos
animais. 2. ed. São Paulo: Roca, 2005. cap. 7, p. 207-245.
WALY, N. E. et al. Immune cell population in the duodenal mucosa of the cats with
inflammatory bowel disease. Journal of Veterinary Internal Medicine, Philadelphia, v. 18, n. 6,
p. 816-825, Nov./Dec. 2004.