O barulho de pandeiros misturados aos sopros das ocarinas tomam toda a floresta,
minúsculas partículas luminosas dançam entre as árvores, se gabando de sua diversidade
de cores e iluminando todos os cantos. As árvores aparentam balançar seus galhos e folhas
em resposta ao ritmo da música, era algo exótico, que nunca poderia ser presenciado por
olhos puros. A música se estendia além da floresta, chamando a atenção daqueles que
passavam pela trilha, os curiosos olham intrigados, tomados pela visão incomum que se
passava por seus olhos. Lentamente um nevoeiro subia entre os troncos das árvores,
dando uma aparência ainda mais mística para a paisagem. Era estranho, alguns olham
fixamente, outros pareciam nem dar bola para o estranho fenômeno. Talvez esse fosse o
caso da garota, seu nome era esquecível, já não importava mais. À medida que se
aproximava da floresta, sua existência era apagada do mundo, sonhos, memórias… Nada
mais se encaixava em si, a sensação de ser esquecida, como se submergisse em um
abismo escuro de desconforto.
Sendo guiada pelas partículas, a Esquecida Garota se deliciava com a vista magnífica, a
beleza da floresta era talhada em seus olhos a cada segundo, cravada em sua mente para
que ela nunca mais pudesse se esquecer. Os animas noturnos da floresta nem se quer se
incomodavam com sua presença, pelo contrário, eles a seguiam. Pássaros que eram
incomuns naquele horário repousavam nos galhos, cantando no mesmo ritmo da melodia
encantadora. Suas penas brilhavam como as partículas de luz, era magnifico. A medida que
se aproximava do centro da floresta, o barulho de uma cachoeira dava elegância a melodia.
Escondida entre as densas árvores, uma pequena queda d’água formada por pedras se
destacava, em sua volta, diversos cogumelos com seus enormes chapéus achatados
davam um toque mágico para o belo corpo d’água. A água cristalina permitia a visão das
brilhantes pedras no fundo do rio, não eram pedras comuns, pareciam joias preciosas, mas
de nenhum tipo já visto antes. Era encantador ao mesmo tempo, aterrorizante.
Em um piscar de olhos, todos os fenômenos estranhos desapareciam, a música, as
partículas, até mesmo os animais sumiram como um sopro. Uma ventania anormal surgia
no mesmo instante em que tudo havia voltado ao normal. Assustada, a garota por extinto
olhava para todos os lados da floresta escura, algo repousava os olhos sobre ela, e ela
podia sentir isso de alguma forma. O conforto que o fenômeno passado havia a fornecido
agora era tomado pelo terror de toda a situação, o vazio da floresta a assustava. Em meio
as árvores, algo reluzia dentro de seu campo de visão. Um brilho dourado, como ouro
reluzindo a luz que chegava a sua superfície. O medo se instaurava à medida que a figura
escondida entre as árvores se aproximava, a princípio se parecia um homem, seu rosto era
coberto por uma máscara dourada, uma máscara que se parecia com a figura de um
coelho. Palavras eram pronunciadas pelo mascarado, mas não faziam sentido a garota, era
como uma língua estrangeira, talvez já esquecida. A voz do “homem” era calma, mas ao
longo do tempo se tornou turva. Perdida em meio ao todo o caos, aquela que foi esquecida
começou a praguejar em direção ao homem, lagrimas de medo escorriam de seus olhos em
direção ao seu queixo. Ela não podia fazer nada além de tentar correr, mas não conseguia,
algo a prendia ali, algo fazia com que ela não tivesse vontade de correr. Sua visão
começava a escurecer, se tornando turva. A figura estranha agora estava a poucos passos
a sua frente, sua língua se tornava compreensível a medida em que a garota caminhava
para a inconsciência.
“Depois disso, eu tive uma visão, uma porta para o inferno estava aberta… vamos destruir
este mundo novamente.”
Sua última visão foi o céu estrelado, seu corpo caia lentamente para trás, indo de encontro
às águas frias que antes admirava. A medida que ia afundando, seus pensamentos
desapareciam. A morte a abraçou, e inconscientemente, ela a abraçou de volta.
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— Posso ganhar um bom dinheiro se arrancar seu rosto…
Foi a primeira coisa que ouviu ao despertar, seus olhos estavam cobertos por algum tipo de
tecido, algo estava em repouso sobre seu rosto, era frio e pesado. A garota sem nome
agora não tinha mais noção de onde estava, as memórias de momentos atrás estavam
confusas, a ausência de nexo e a inexistência de uma explicação a deixaram tonta. Onde
eu estou? Arrancar meu rosto? Ela se perguntou mentalmente, tentando estabelecer uma
base para novos pensamentos. Ao tentar se mexer era impedida por uma corda que se
enrolava por toda a extensão de seu tronco, exceto pelo pescoço, seus braços também
foram imobilizados. Ao passar a mão no que lhe prendia tocava em madeira, uma árvore
talvez. Não era difícil perceber sua situação. Presa em uma árvore, o vento frio que passava
por seu corpo denunciava que estava ao ar livre, ao menos não estava sozinha, só não
sabia se poderia considerar isso bom ou ruim.
— Onde estou? - o que era para ser uma pergunta neutra, saia com um claro desespero -
Que lugar é esse? Responda!
— Você é estranha… é igual a mim, mas eu não sou como você. – a voz era “irregular”,
como se estivesse sofrendo alguma alteração, talvez a voz de um adolescente – Por que
tava nadando no rio?
— Me responda! O que está acontecendo aqui? - sua voz aumentava a cada palavra
pronunciada, o nervosismo se misturava com seu desespero, ela sentia que algumas
lágrimas já estavam se formando eu seus olhos.
— Não grita! Se continuar assim vão encontrar a gente, se te acharem vão acabar com
você em segundos. – a direção da voz mudava, sendo acompanhada com o barulho de
folhas secas se quebrando – Vou tirar a venda…
Ela sentia algo mexendo na parte de trás de sua cabeça, um nó sendo desfeito. A venda
colocada em cima de sua máscara caia lentamente, devolvendo a visão à garota. Suas
suspeitas se concretizaram, realmente estava ao ar livre, em uma floresta. As árvores eram
colossais, de maneira que a árvore onde estava amarrada parecia um pequeno broto. As
folhas variam entre um forte verde ao apagado marrom, como se o verão e o outono
coexistissem ao mesmo tempo. Uma forte neblina passava entre as árvores, ela carregava
consigo uma forte aura de mistério, não era natural, isso era óbvio. O que mais chamava a
atenção naquele lugar era os enormes cogumelos, de todos os tipos e cores. Cresciam por
todo lugar, ao lado das árvores, nos troncos e até mesmo em algumas raízes expostas.
Frio, o vento era realmente frio. Não incomodava sua pele, era como sentir gelo tocando
sua pele, mas sem a ardência que surgia com o tempo. A floresta era silenciosa, nenhum
sinal de animais ou qualquer outro ser era notório, apenas o de sua companhia.
Um rapaz, talvez quinze ou dezesseis anos por sua estatura. Os fios de cabelo em sua
cabeça eram encaracolados, de uma cor acinzentada, apagada. Seus olhos eram
vermelhos como vinho, não parecia natural, nada nele parecia natural. Sua pele era
amarronzada, com algumas pequenas cicatrizes espalhadas pelos seus braços. A costa de
sua mão esquerda era tatuada com um amontoado de rosas, sem cor alguma, apenas o
que ela julgava ser tinta preta. Seu rosto era… não era, havia uma máscara cobrindo seu
rosto, uma máscara dourada como ouro, ou talvez fosse ouro. A máscara tinha um formato
estranho, era repleta de espirais, alguns mais profundos que os outros, outros pequenos,
alguns que não possuíam fim visível. Havia apenas dois buracos, os que revelavam seus
olhos. Seus olhos revelavam um tormento, um tormento indecifrável, mas, no fundo, havia
uma curiosidade, talvez estivesse curioso ao observar a pessoa desconhecida na sua
frente.
— Viu? Eu não tenho a intenção de te machucar, é só você colaborar comigo…
— Quem é você? Que lugar é esse?