Culpas
Ao lado de fora do alojamento a chuva caía, a calmaria em dias
chuvosos são um ótimo motivo para se manter aquecido, um pão
quente, frutas e uma boa bebida são o necessário para alguns.
Para outros uma boa noite escutando a chuva cair e um ótimo
som para os ouvidos.
Dentro da residência do rei, os homens protegem o trono e
patrulham os corredores do castelo.
Pela cidade, os guardas patrulham os muros e vielas, mantendo a
ordem em lugares públicos como Tabernas e Bordeis.
Na caserna, os mais recém-formados cavaleiros estão debaixo
da chuva com armaduras e tecidos acima delas para tentar
evitar um resfriado, resfriado esse, inevitável.
Dentro dos portes o único som vinha da forja, o anão ferreiro
martelava contra a lâmina fervente com tanta força que ecoava
pelo ar, o fogo da forja estava quente, ideal para um anão e
apenas o anão. Para todos os que o conhecem, a dança do fogo,
o calor e o suor, significam que o anão está de luto. E o barulho
da bigorna é a demonstração desta dor.
Aryee observava a chuva cair pela janela onde ela e seus amigos
descansam, um quarto relativamente grande, com apenas dois
beliches de madeira, a direita, aryee dormia na cama de baixo,
Trovan dormia na cama de cima. A esquerda, Elí dormia na cama
de baixo e Sif na cama de cima.
Elí entra no quarto devagar, para ela, seus amigos já estavam
dormindo, mas não. Aryee continuava observando a chuva,
Trovan apoiava seu cotovelo na parede enquanto seus dedos
dançavam, Sif olhava para o teto com os olhos pesados, quase
pegando no sono
– Boas notícias – Disse Elí – amanhã não terá treinamento
– Woo – Comemorou Trovan
– que bom para vocês, amanhã eu ainda tenho que cuidar de
dois homens e uma mulher – Disse Sif
Aryee se manteve em silêncio, ela desenhava com seus olhos, os
movimentos das gotas da chuva escorrendo pela janela.
Elí retira seu sobretudo que a protegeu da chuva, o pendurou
em um prego que Trovan havia martelado. Tirou a roupa
molhada e entrou entre os lençois de Aryee, rastejou até dar de
cara com sua amiga – Elí, por favor…
– Eu preciso do calor do corpo Ary – Elí respondeu sua amiga
com uma voz fina, parecia tentar imitar algo fofo
– Eu preciso de espaço Elí, hoje não, por favor… – Aryee
empurra Elí levemente
– Tudo bem, Perdão
– Eu… – Aryee suspira – Faz tanto tempo que não lido com esta
dor, eu não sei mais como lidar com isso – Elí compreende o que
Aryee diz, perder alguém que ama, nunca será fácil
– Eu entendo, sinto muito.
– Me diga – Interrompeu Aryee – Me diga como eu posso lidar
com isso então… – A voz de Aryee é suave, um pouco trêmula, já
não consegue nem mais chorar. Não comeu nada pela manhã, e
foi obrigada a comer por causa de Sif, caso o contrário dormiria
com fome,
Mas não há fome em Aryee, a perda de seu mentor, de seu
amigo, a fez perder noção de certos sentidos. Escureceu-se
dentro do quarto, fechou as cortinas para que o sol não a
perturbasse.
Quando nervosa, arranhava os braços, muitas vezes com força,
sentia uma leve dor, porém, insignificante.
Não parava de pensar em suas ações, como ela poderia mudar o
rumo da batalha, Aryee preferia morrer defendendo seu mentor,
morrer pelo seu reino, sua casa, mas seu corpo não se mexeu.
O viu perder o equilíbrio, o viu tentar se recompor, mesmo com
metade de sua perna cortada, Aryee não mexia um músculo. Ao
ver a morte do Grande Cavaleiro de Catedralh, sucumbiu ao
medo. Fraquejou as pernas e desabou ao chão, o machado
manchado com o sangue de seu mentor ficou gravado em sua
memória
se culpa por não agir,
se culpa por pensar demais,
se culpa por sentir medo,
se culpa por fraquejar,
Se culpa por não morrer no lugar dele…
– Se ele estivesse aqui, as coisas seriam diferentes, teríamos
avançado mais…
– Então me diga Aryee – exclamou Elí – Vamos colocar algumas
opções na mesa: A Primeira você sobrevive, a Segunda você
morre e na Terceira todos morrem – Elí levanta e assenta na
beira da cama – Você poderia ter morrido…
– Elí tem razão – Disse Trovan com sua voz rouca – Não pense
que um passo diferente haveria outro resultado, acredite em
mim não dá…
Aryee se levanta, se assenta ao lado de sua amiga. Sua mão
abraça a de Elí com força, seus olhos se encontram por um
instante. Os olhos vermelhos, a pele ao redor tinha uma
profunda cor preta rosada
– O que eu devo fazer então? – perguntou Aryee
Continuar disseram
– Não pare, continue treinando por ele, você foi a única a
aprender suas habilidades, táticas de batalhas, conhecimento no
campo – Elí diz com um certo sorriso suave ao rosto – Agora?!
Melhore, e no futuro repasse esse conhecimento, faça Catedralh
conhecer quem realmente é Fellion.
Aryee olha para o chão sem resposta, seus pensamentos estão
em conflito, Um, acha um absurdo continuar algo que Aryee
ainda não completou de fato, o outro acredita que está e a
melhor opção, continuar o legado de seu mentor, de seu amigo.
É difícil encontrar uma solução nesse estado, o conflito dentro
de si é angustiante. Queremos apenas sumir, Aryee apenas
deseja sumir
Trila Sif
– Quando pequena, meu pai dizia. As melhores árvores possuem
raízes fortes – disse Sif tentando confortar Aryee. Pai de Sif era
Agricultor, Jardineiro, Matador de Ratos, Enólogo, Coletor de
Excremento e muito mais. Chegava em sua casa perto da madrugada,
chegava cansado, mas ver o sorriso de sua filha e esposa aquece o
coração de qualquer homem, um simples gesto renova por completo
suas energias.
– Seu pai e um homem sábio – Comentou Trovan
– Obrigada, graças a meu pai e minha mãe, sou quem sou. Uma
versão de cada um – Ela sorri – Meu pai contava história de batalhas
que ele nunca havia participado, de marchas que ele nunca havia
feito… Um heroi.
Já minha mãe, sonhava em ser curandeira, meus avós nunca
demonstraram apoio, mas quem disse que ela parou… nunca precisei
ir a um curandeiro graças a ela, eu trato vocês malditos graças ao
ensinamento dela.
Trovan gargalha, Elí sorri, Aryee remove a tristeza de seu rosto, o
tremor de seus lábios some de pouco a pouco.
– Deveríamos dormir, já está muito tarde – Disse Sif
– Relaxa curandeira, isso aqui vai ser igual uma noite de bebidas, só
que sem a cerveja – Disse Trovan se sentando em sua cama
Endo Trovan
– Já que estamos falando sobre histórias do passado e minha vez –
diz Trovan.
Endo Trovan, nasceu com 3 kilos a mais de massa muscular, seu
corpo se desenvolveu de maneira absurda, isso foi sua benção e
maldição. Cresceu em Pólemos, o Reino governado por mulheres
fortes, os homens são arduamente treinados para o combate, o
exército de Pólemos, os Improvus, considerados o exército mais
forte de Londiria.
Trovan O Musculoso, recebeu esse apelido quando muito novinho.
– houve uma vez que bati em um homem, na época eu tinha 16 anos
de idade. Meus pais são donos de uma famosa taberna na praça
central – Ele esboça um sorriso de canto de rosto com uma leve
risada – O velho Sor Vran-Chupa pica, nem lembro mais o nome
daquele merda. Arrumou uma briga com outros bêbados, meu pai me
chamou e disse “expulse eles”, fui devagar, disse uma, duas vezes
então o Sor se virou e enfiou uma caneca de cerveja em meu rosto.
Eu era jovem, explosivo, não pensei duas vezes, bati no velho como
ele nunca apanhou.
– Você o chamou de Sor, então ele era um cavalheiro?! – Questionou
Elí
– Sim, capitão da última turma dos improvus, que se formou naquele
ano –
– Que Merda. – comentou Elí e Aryee
– Pois é, os seus alunos vieram com tudo em cima de mim, apanhei
muito, mas bati muito – Ele gargalha – O problema mesmo foi após
isso, meus pais foram julgados pela própria Rainha. Iriam exilá-los
por minha causa, então fiz uma proposta à Rainha.
‘Vossa majestade, meus pais são donos da taverna Olho do Dragão, lá
é o ponto principal de soldados e moradores se divertirem. O exílio
de meus pais trará estresse aos seus homens e aos moradores… ao
invés de exilá-los, me exile de minha casa, das terras de Pólemos
O Exílio Público e o que mereço minha Rainha’.
“Exílio Público”, uma tradição antiga de Pólemos, o exilado é
considerado traidor do Reino e daqueles que vivem nele. Trovan
andou pelas ruas de Pólemos de cabeça erguida, apedrejado, xingado,
amaldiçoado pelo povo, chegou aos portões sangrando, com o rosto
avermelhado.
– Então tive que sobreviver como escravo de mercenários, eles
olharam para mim e disseram “Homem grande, pegar peso, servir a
mim”, eu não tinha nada a perder então fui – Ele diz com certa graça
– Mas 20 dias depois, eu encontrei o velho novamente.
– Fudeu o velho?! – Perguntou Elí
– Não, eu o humilhei – Ele ri – tudo começou pela manhã, eu andava
do lado do homem, então a frente na estrada lá estava o velho, com
mais dois guardas.
– Alto lá Sor – Disse o velho, o homem que estava com trovan apoiou
a mão no cabo de sua espada. Sua espada era suja, mal cuidada, para
matar alguém exigia um esforço a mais
– Algum problema, senhor? – perguntou o homem com sua voz rouca
e falhada
– Assaltos estão ocorrendo dentro da cidade, estamos investigando
todos, principalmente do lado de fora.
– Pirralho, quando eu mandar você corre – O homem sussurrou para
o Trovan.
Filho da puta, pensou Trovan, Agora me arrastou pra essa merda… O
homem se aproximou do velho o guarda da esquerda puxou um papel
e começou a analisar o desenho para encontrar alguma semelhante
– Onde esteve ontem Sor? – O velho perguntou
– Ontem estive pela floresta do caminho que vim, eu e meu
escudeiro estamos viajando para além de Orionh.
– Uma viagem e tanto Sor
– De fato, vou encontrar minha…
Senhor, interrompeu o homem
– Diga filho – Disse o velho curioso
– Este é o homem, é ele –
O velho encarou o homem por poucos segundos, quando o segundo
guarda da direita se aproximou, ele sacou sua espada já desferindo
um golpe direto ao pescoço – Corra – Gritou para Trovan, Endo
recuou alguns passos, mas não fugiu. O homem tirou a espada do
pescoço do guarda e entrou em guarda, o velho disparou para cima,
tentou acerta-lo com múltiplos ataques de cortes, quando o velho se
recuperou encontrou uma abertura e atacou, sua lâmina atravessou a
barriga do homem e o enfraqueceu, mais dois ataques e o homem
caiu.
– Pelos sete infernos, Vocês são péssimos… – Disse o velho
– E você velho, é lerdo… – ele esboça um leve sorriso, mas logo se vai
quando sente seu pulmão bombear sangue.
– Você escudeiro – disse o guarda – Renda-se ou pegue a espada e
morra com honra.
– Naquele momento eu estava cansado de fugir, se for para morrer
será lutando, eles não estavam com armaduras de placa, ou seja seria
fácil né?!. O Bastardo me chamou de inútil por não obedecer ele, me
chamaria de covarde se eu fugisse dessa luta, ele jogou sua espada
em meus pés e então peguei ela – Disse Trovan sentado em sua cama
sendo o centro das atenções para as meninas
Trovan segurou a espada com força, o guarda se aproxima e ameaça
um ataque, logo após isso tenta rodeá-lo. Trovan não permite,
começa a ir na mesma direção dele.
O guarda dá passos laterais sem perder o equilíbrio, então fixa seu pé
esquerdo ao solo e avança com um ataque. Trovan esquiva, sua
espada estava abaixo de seu tronco, com apenas um passo a lâmina
perfurou a barriga do guarda, com o peso de seu próprio corpo a
lâmina o cortou de dentro para fora, morrendo ali mesmo.
– Desgraçado – Gritou o velho, Trovan entrou em guarda e se
defendeu dos ataques, quando o velho cansou, ele o socou bem no
rosto com toda a sua força.
O velho desequilibrou e caiu ao chão – Você está morto, morto –
Gritou novamente, Trovan olhou para o velho e cortou sua garganta,
jogou a espada do homem fora e pegou a velho, o homem que estava
ajoelhado ao chão morreu ali mesmo junto com os guardas. Pegou
seus equipamentos, o dinheiro de todos os mortos
Puta merda… o que eu fiz?! Eu vou embora, pensou Trovan, Vai
embora, vai embora… merda minha blusa tá com sangue puta que
pariu…
– E assim cheguei em Catedralh, me alistei na primeira oportunidade
e estamos aqui – ele ri
– Muito foda – comentou Elí empolgada, Aryee não disse nada,
apenas surpresa com a história, e Sif esboçava um sorriso no rosto
por ter ouvido está história tantas vezes
Elí Forge
– Sua vez Elí – Disse Trovan
– Nah minha história e sem graça – Elí responde enquanto tenta
coçar suas costas, Aryee se inclina e a ajuda
– As histórias não são para ter graça – Comentou Sif – Só joga na
mesa, não sabemos nada de você e de Aryee.
Elí e Aryee se olham por um momento, Elí suspira e pensa
rapidamente
– Muito bem, mas minha história não é nem um pouco interessante,
nunca tive grandes feitos, nunca defendi ninguém, sempre fui
reclusa… então vou contar a história de meu pai e minha mãe – Ela
lambe os lábios, e então olha para a janela
A chuva ainda caía, as cotas desenhavam linhas e linhas até o fim da
janela – Meu pai conheceu minha mãe em uma noite como essa, ele
escutou uma batida na porta de casa, quando abriu ficou surpreso
por ver uma Elfa – As orelhas pontudas, os olhos dourados, cabelos
prateados e molhados pela chuva, seu rosto era delicado como
algodão, seu corpo esguio possui uma cor quase amarelada. Estava
vestida com uma calça marrom e uma blusa cinza.
Seus olhares se encontraram por um momento, quando ela percebeu
o que havia feito, recuou alguns passos, mas logo parou quando viu a
mão do homem.
Ele estendeu sua mão como se estivesse sugerindo uma dança, ela
agarrou sua mão com força e entrou na caso do homem, uma casa
simples, não oferecia muito, o homem a ajudou a se secar, e deu a ela
uma de suas roupas
– Naquele momento minha mãe estava se sentindo segura, e de certa
forma acolhida. Depois daquela noite minha mãe ficou lá por 3 dias
seguidos, ela aprendeu a se comunicar lendo os livros de meu pai
Uma noite a Elfa se sentiu confortável para dizer o seu nome,
Adh’reel, para o homem era quase impossível pronunciar então ela
pensou e pensou – Me. Chame de. Elí – ela sorriu mostrando os
perfeitos dentes elficos – muito bem Elí, me chame de Darius –
Darius era um homem forte por causa de seu trabalho, seus cabelos
eram longos e negros, seu rosto era cansado de tanto trabalho, tinha
sua barba mal feita e olhos caídos. Naquela noite Elí usava a roupa de
quando chegou, Darius havia percebido isso, mas não questionou.
– Preciso. Ir. Elfos ficarão. Nervosos – Disse Elí pensando em cada
palavra, Darius compreendeu seu lado e a deu um livro As Crônicas
da Espada de Gelo, um romance que ele havia lido a muitos anos. Eles
se abraçaram para depois partir
– Meu pai se sentiu muito sozinho, se passaram alguns meses, ele
ainda não conseguiu tirar ela da cabeça, mas quando ele aceitou o
fato de que ela nunca mais voltaria. Minha mãe bateu na porta,
depois eles viveram juntos –
De pouco a pouco Darius foi apresentado Elí a sua vila, homens
ficaram apaixonados com a beleza da Elfa, algumas mulheres sentiam
inveja por vê-la com Darius, outras estavam felizes por ver uma moça
tão educada, tão bela. As crianças a chamavam de princesa por sua
beleza, Elí nunca havia se sentido tão acolhida em sua vida, resolveu
ficar, resolver se casar com Darius.
O casamento ocorreu no templo de Stralys a Deusa das estrelas
Em uma manhã ensolarada Elí fazia compras quando escutou gritos
vindo da direção de sua casa, quando se virou havia 7 soldados elfos
em busca de Elí, eles gritavam o seu nome, batiam e ameaçavam os
questionados.
– Islá, Lá está, Adh'reel Soltir, En’frila no’tur, Filha de vosso rei, I’tlha’n
lo’turna, Seu pai exige seu retorno – Disso o soldado mais experiente
– Nu lo’tnia th’ingor, Como ousa feri-los, I Adh’reel Soltir en’frila to
Soltir no’tur, Eu Adh'reel Soltir filha de Soltir vossa majestade, La’te
o’litra to s’aft to lat’rhu no’tur itía, Eu mesma voltarei para casa, e
conversarei com o rei pessoalmente
– Você sabe a língua élfica? – perguntou Sif
– O básico, é uma língua morta, sabiam que existe mais Meio-Elfos
do que Elfos?! O isolamento de sua própria raça está causando sua
própria extinção
– Como? – perguntou Trovan
– História para outro dia… continuando –
Elí retornou para casa e não encontrou seu amado, ela tinha noção
de que não voltaria mais, de que provavelmente seria morta, ser
expulsa de sua terra seria o menor dos casos, mas naquele momento
Elí já sentia os sintomas de sua gravidez, estava esperando o
momento certo para contar ao seu amado.
Deixou sua alabarda, sua arma preferida, como um tipo de
recordação.
– após isso, meu pai diz que os soldados elfos foram a casa de meu
pai para entregar o bebê… – Elí nunca mais voltou para os braços de
seu amado, por ser a futura rainha de seu povo, o seu pai a fez
escolher, matar a criança ou abandoná-la na floresta.
Quando o bebê nasceu, ela escreveu uma carta, entregou o bebê e
sua carta a um grande amigo de infância, agora guarda pessoal.
Ordenou a seu homem ir a vila entregar sua filha ao pai
– Gostaria de conhecê-la – Sua voz estremece – Mas… dizem que os
elfos viajaram para o norte, além das montanhas –
– Sinto muito querida – Disse Sif
– Está tudo bem, agora tenho uma nova família – Elí sorri
– Aryee, conseguiu entender o porquê contamos essas histórias? –
perguntou Trovan
– todos possuem momentos felizes, momentos difíceis – comentou
Elí
– Então estou vivendo uma maldição – Disse Aryee
Aryee Merilion
Após a morte de sua mãe, o sumiço de seu pai e a devastação de sua
casa, a vida de Aryee se resumiu a dor, uma constante dor que a
persegue sem descanso.
– As vezes sonho que poderia ser diferente, tento buscar uma
realidade que quando saio daquele porão tudo era apenas uma
brincadeira, muitas vezes consigo ouvir a alegria das crianças, o
latido do cachorro tentando pegar o pássaro acima da árvore. Mas
quando vejo minha mãe… – Sua voz era pesada, sua boca mal mexia,
cada palavra era com um corte de espada.
Quando finalmente saiu do porão, sua casa se foi, sua vila destruída,
seus vizinhos mortos, seu coração batia rápido, suas mãos suavam,
seu corpo tremia, seus pensamentos inquietos. Porém, tudo se foi
quando encontrou o corpo de sua mãe perfurado com um grande
pedaço de árvore, Aryee não conseguia piscar, não conseguia
respirar, não conseguia se mover
– tirei o corpo de minha mãe dos escombros e a enterrei ao lado de
minha casa… coloquei seu corpo próximo de uma planta que plantei
–
– Onde estava seu pai? – Perguntou Elí
– Meu pai sempre foi um bom homem, melhor amigo do Lorde da
Casa do Cervo, ele foi chamado para ser o Lorde da casa
temporariamente.
– Acha que ele ainda está lá? – perguntou Trovan
– Não sei é não me importo.
– Não diga isso pequena – Disse Sif enquanto se sentava na cama –
Se seu pai estiver lá, ele será conselheiro da Filha do Baratheon, peça
uma audiência com o conselheiro –
– Não Sif – Aryee a Interrompe – Não quero vê-lo, não agora…
Aryee caminhou por quase um dia, para chegar na Cidade do Aço,
passou por acampamentos destruídos, pelo campo de batalha, viu
homens e mulheres gritando o nome de seus amados, viu soldados
carregando os corpos de seus companheiros a carroça, para quem
sabe um enterro digno.
– Fui acolhida por minha Tia Bruna, antiga amiga da minha mãe,
Dona da Taberna Machado, mas para eu ficar lá eu deveria trabalhar.
Alí eu conheci bons homens, mulheres fortes, bons soldados e a
escória.
– Filhos da puta, já estive lá, há muitos boatos de pedófilos por lá –
Disse Trovan com certa raiva
– Pois é, mas Tia Bruna sempre me defendeu, batia neles com um
pedaço enorme de madeira – Aryee sorri por um momento
Trabalhou e trabalhou por anos, voltou a sorrir com seus trabalho,
economizando suas moedas de pouquinho em pouquinho para
conseguir uma casinha só para ela. Aryee mal dormia, a noite tinha
medo de dormir, seus pesadelos pioravam cada vez mais, não havia
uma noite tranquila, até o dia em que foi levada para Catedralh.
– Não posso mentir para mim mesma, dentro dessa maldita caserna
fiz uma nova família, e pensar que Barden, o Rei, seria meu amigo –
Aryee olha para o castelo – mas… tudo parece estar desmoronando,
Kento morreu na última batalha, Olaf também se foi e não vi Lídia
depois do acampamento.
– Eu irei arrumar o corpo de Lídia amanhã – Disse Sif
– Merda… – Disse Trovan, Elí abaixa a cabeça tentando não pensar
nas perdas
– Pelos Deuses… – Comentou Aryee – Barden não sai de seu quarto,
não comparece às reuniões do conselhos, os cavalheiros estão
cavando túmulos, o mercado do reino está caindo, um heroi…
morreu… – Aryee não quer aceitar suas próprias palavras, a morte de
Fellion, trouxe a Catedralh uma forte depressão que assola o Reino
Aryee se curva, coloca a mão no rosto e suas lágrimas caem
novamente, Deveria ser eu… eu deveria morrer, não ele.
– Eu preciso de um ar – Disse Aryee antes de se levantar, de cabeça
baixa andou rapidamente para em direção a porta do quarto e saiu.
– Elí… – Disse Sif
– Sim…
– Fique com ela, tente confortá-la
– Tá bom.
Elí vai atrás de sua amiga, seus passos eram rápidos em busca de
Aryee, às vezes aquele corredor parecia não ter fim. Ao sair do
alojamento, Aryee estava parada no meio do pátio, com sua cabeça
erguida ela sentia cada gota de chuva, sua criatividade começa a
projetar um vasto campo verde.
Aryee começa a entender que a chuva é passageira, assim como a dor
física, a dor interna, os sentimentos negativos, seu corpo.
– Aryee saía da chuva, vai pegar um resfriado assim – Disse Elí –
Venha para cá.
– Sabe Elí… Talvez aquela velha filha da puta saiba de algo mesmo. ‘A
chuva renova o corpo e a alma’ – Aryee cita as palavras da Oráculo
– E você quase a enforcou – comentou Elí, Aryee ri em seguida,
começa a gargalhar, então volta para sua amiga com um sorriso no
rosto
– Um dia eu ainda mato aquela velha – Comentou Aryee
– Eu não duvido.
– Me ajuda no banho?
– Tá bom, eu preciso de um também.
Nota do autor
~ Este capítulo acontece na “Depressão de Catedralh”, após uma
grande batalha, o Reino de Catedralh perdeu um objetivo decisivo
para futuras batalhas.
A morte de Fellion Lindor, o melhor amigo de Barden, O Rei de
Catedralh, Mentor de Aryee Merilion e Elí Forge.
Todo o povo de Catedralh, compareceu ao enterro de Fellion, O
Bravo.