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01 Margens Do Silencio

O livro 'Margens do Silêncio' de Ana Luz Ferreira é uma coletânea de poemas que explora a relação entre a natureza e seus ensinamentos. A autora reflete sobre elementos como rios, chuvas, cachoeiras e florestas, enfatizando a importância da transformação e da aceitação das mudanças. A obra destaca a beleza do mundo natural e a sabedoria que ele oferece através de suas metáforas.

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O livro 'Margens do Silêncio' de Ana Luz Ferreira é uma coletânea de poemas que explora a relação entre a natureza e seus ensinamentos. A autora reflete sobre elementos como rios, chuvas, cachoeiras e florestas, enfatizando a importância da transformação e da aceitação das mudanças. A obra destaca a beleza do mundo natural e a sabedoria que ele oferece através de suas metáforas.

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Margens do Silêncio

Ana Luz Ferreira

Poemas sobre a natureza e seus ensinamentos


Poesia — Edição Digital
— I. Águas —

O Rio e a Pedra
O rio não pede licença à pedra,

apenas a contorna com paciência de séculos.

Aprendi com ele que o tempo

não é obstáculo — é caminho.

A pedra permanece, orgulhosa e fria,

enquanto a água canta e segue.

No fim, quem molda quem

só o vale sabe responder.

Mas eu fico do lado do rio.

Prefiro ser aquilo que se move

àquilo que resiste apenas por hábito.

* Escrito às margens do Rio Doce, 2022.

Chuva de Julho
A chuva de julho não pede desculpas.

Entra pela janela mal fechada,

molha o livro aberto na mesa,

apaga o rascunho que eu chamava de plano.

Mas também lava o asfalto quente,

traz o cheiro de terra ressuscitada,

e me lembra que nem tudo que se perde


merecia ser guardado.

Julho é o mês mais honesto do ano.

Faz frio sem cerimônia,

chove sem avisar,

e passa sem pedir que você goste dele.

Cachoeira
A cachoeira não tem dúvida.

Sabe exatamente onde está indo

e vai com tudo que tem.

Não conheço coragem maior

do que a de quem salta

sem ver o fundo.

Na beira da pedra eu hesito.

A água já foi embora.

Ainda assim, dou o passo.

Mar de Inverno
No inverno o mar fica sério.

Dispensa os turistas, as crianças,

os guarda-sóis e as sandálias.

É nessa época que ele mostra

o que é de verdade:

cinza, profundo, sem performance.


Gosto mais do mar de inverno.

Tem menos plateia

e mais verdade.

— II. Terra —

Floresta de Novembro
As folhas caem sem cerimônia,

sem discurso de despedida.

Ensinam que partir

também pode ser gracioso.

O chão recebe tudo —

o dourado, o marrom, o silêncio.

E sob a terra, já se prepara

o verde que o inverno ainda não viu.

Há uma generosidade enorme

em se desfazer para virar adubo.

As árvores sabem disso.

Nós ainda estamos aprendendo.

Semente
A semente não sabe que vai ser árvore.

Apenas segue seu instinto mais profundo:

romper a casca, buscar a luz,

crescer na direção do que aquece.


Não há plano. Há ímpeto.

Não há mapa. Há raiz.

Às vezes invejo a semente.

Não carrega dúvida,

não conhece a palavra desistência.

Só sabe virar o que tem que ser.

Madrugada no Campo
Às três da manhã o campo respira diferente.

O orvalho ainda não chegou,

mas o ar já carrega seu prenúncio —

úmido, fresco, antigo.

As estrelas não sabem que são belas.

Brilham por obrigação de física

e por isso mesmo comovem tanto:

beleza sem intenção é a mais pura.

Deito na grama e ouço o silêncio

que não é silêncio de verdade:

grilos, vento, algum animal distante.

O mundo nunca para.

Só eu paro, de vez em quando.

* Inspirado em noites na Serra da Canastra.

Pedra no Caminho
Há uma pedra no meio do caminho.

Já sei disso há muito tempo.

Já escrevi sobre ela, já a contornei,

já a usei de assento para descansar.

A pedra não vai embora.

E eu parei de querer que ela fosse.

Às vezes os obstáculos são

parte da paisagem que dá sentido à viagem.

O caminho sem pedra

não é caminho — é corredor.

— III. Céu —

Nuvens
As nuvens não têm compromisso com a forma.

São dragão por um minuto,

montanha pelo seguinte,

e névoa no terceiro.

Aprendi a não me apegar

ao que está sempre mudando.

Aprendi tarde. As nuvens já sabiam.

Entardecer
O céu não escolhe as cores do entardecer.
Elas simplesmente acontecem,

física e poesia ao mesmo tempo.

Laranja que vira rosa que vira roxo.

O dia não morre — se transforma.

Quero ter essa elegância quando chegar minha hora:

não apagar, mas mudar de cor.

Não acabar, mas virar outra coisa.

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