Margens do Silêncio
Ana Luz Ferreira
Poemas sobre a natureza e seus ensinamentos
Poesia — Edição Digital
— I. Águas —
O Rio e a Pedra
O rio não pede licença à pedra,
apenas a contorna com paciência de séculos.
Aprendi com ele que o tempo
não é obstáculo — é caminho.
A pedra permanece, orgulhosa e fria,
enquanto a água canta e segue.
No fim, quem molda quem
só o vale sabe responder.
Mas eu fico do lado do rio.
Prefiro ser aquilo que se move
àquilo que resiste apenas por hábito.
* Escrito às margens do Rio Doce, 2022.
Chuva de Julho
A chuva de julho não pede desculpas.
Entra pela janela mal fechada,
molha o livro aberto na mesa,
apaga o rascunho que eu chamava de plano.
Mas também lava o asfalto quente,
traz o cheiro de terra ressuscitada,
e me lembra que nem tudo que se perde
merecia ser guardado.
Julho é o mês mais honesto do ano.
Faz frio sem cerimônia,
chove sem avisar,
e passa sem pedir que você goste dele.
Cachoeira
A cachoeira não tem dúvida.
Sabe exatamente onde está indo
e vai com tudo que tem.
Não conheço coragem maior
do que a de quem salta
sem ver o fundo.
Na beira da pedra eu hesito.
A água já foi embora.
Ainda assim, dou o passo.
Mar de Inverno
No inverno o mar fica sério.
Dispensa os turistas, as crianças,
os guarda-sóis e as sandálias.
É nessa época que ele mostra
o que é de verdade:
cinza, profundo, sem performance.
Gosto mais do mar de inverno.
Tem menos plateia
e mais verdade.
— II. Terra —
Floresta de Novembro
As folhas caem sem cerimônia,
sem discurso de despedida.
Ensinam que partir
também pode ser gracioso.
O chão recebe tudo —
o dourado, o marrom, o silêncio.
E sob a terra, já se prepara
o verde que o inverno ainda não viu.
Há uma generosidade enorme
em se desfazer para virar adubo.
As árvores sabem disso.
Nós ainda estamos aprendendo.
Semente
A semente não sabe que vai ser árvore.
Apenas segue seu instinto mais profundo:
romper a casca, buscar a luz,
crescer na direção do que aquece.
Não há plano. Há ímpeto.
Não há mapa. Há raiz.
Às vezes invejo a semente.
Não carrega dúvida,
não conhece a palavra desistência.
Só sabe virar o que tem que ser.
Madrugada no Campo
Às três da manhã o campo respira diferente.
O orvalho ainda não chegou,
mas o ar já carrega seu prenúncio —
úmido, fresco, antigo.
As estrelas não sabem que são belas.
Brilham por obrigação de física
e por isso mesmo comovem tanto:
beleza sem intenção é a mais pura.
Deito na grama e ouço o silêncio
que não é silêncio de verdade:
grilos, vento, algum animal distante.
O mundo nunca para.
Só eu paro, de vez em quando.
* Inspirado em noites na Serra da Canastra.
Pedra no Caminho
Há uma pedra no meio do caminho.
Já sei disso há muito tempo.
Já escrevi sobre ela, já a contornei,
já a usei de assento para descansar.
A pedra não vai embora.
E eu parei de querer que ela fosse.
Às vezes os obstáculos são
parte da paisagem que dá sentido à viagem.
O caminho sem pedra
não é caminho — é corredor.
— III. Céu —
Nuvens
As nuvens não têm compromisso com a forma.
São dragão por um minuto,
montanha pelo seguinte,
e névoa no terceiro.
Aprendi a não me apegar
ao que está sempre mudando.
Aprendi tarde. As nuvens já sabiam.
Entardecer
O céu não escolhe as cores do entardecer.
Elas simplesmente acontecem,
física e poesia ao mesmo tempo.
Laranja que vira rosa que vira roxo.
O dia não morre — se transforma.
Quero ter essa elegância quando chegar minha hora:
não apagar, mas mudar de cor.
Não acabar, mas virar outra coisa.