Arte Parietal
Paleolítico Superior
©História e Arte
2015
Os registros artísticos dos cem mil anos que
antecedem a propagação do homo sapiens
pela Europa e pela Ásia são obscuros devido
à falta de artefatos que registrem este
momento histórico. Contudo, os poucos
registros que dispomos acerca da criação do
Homem Paleolítico, em um primeiro
momento, evidenciam um caráter
eminentemente utilitário. As criações destes
homens implicam em modificações
intencionais imprimidas em objetos da
natureza, visando um fim prático que
corresponda a uma necessidade intrínseca
do homo sapiens.
Machadinha de Pedra, encontrada em West Tofts,
Norfolk, Inglaterra. Cem mil anos
[…] o homem da Idade de Rena não se limitou a
adornar com gravuras ou esculturas os objetos úteis. Desde
o Aurignacense típico mais inferior, gravou figuras animais,
humanas e simbólicas em placas de pedra ou em omoplatas
de animais; esculpiu estatuetas em marfim, em osso ou em
pedra macia. Ao lado desta arte móvel, desenvolveu enfim a
arte parietal.
No Paleolítico Superior, ou Idade da Rena, a estatuária
animal principia, na Europa Central, com o Aurignacense: em
França, os seus mais antigos vestígios conhecidos
remontam ao Solutrense Médio. Quer se trate de
representações animais (mamute de Predmost, na Marávia;
renas de Bruniquel, em Tarn-et-Garonne; ursos, felinos,
bisontes e cavalos de Isturitz, na região basca, etc.) ou de
representações humanas (como as Vénus de Brassempouy,
de Lespugne, em França; de Willendorf, na Áustria, ou de
Vestonice, na Morávia), os caracteres realistas, naturalistas
ou figurativos da arte móvel do Paleolítico Superior têm as
Vênus de Willendorf. c. 24.000 – 20.000 AEC. suas correspondências na ornamentação das paredes das
Pedra. Alt. c. 0,12 m. Museu de História Natural, grutas e dos abrigos. (BAYER, 1978, p. 16-17).
Viena
Os homens do Paleolítico Superior
talhavam habilmente – com
instrumentos de sílex –, pequenas
gravuras e esculturas de osso, pedra
ou chifre. Uma das esculturas mais
antigas é a estatueta esculpida em
marfim de mamute, encontrada na
caverna de Hohlenstein-Stadel no sul
da Alemanha, que exprime uma espécie
de teriantropo, ou seja, uma fera
humana caracterizada por uma cabeça
de leão e o corpo de um ser humano.
Esta escultura, datada do Paleolítico
Superior (31.000 AEC), exprime o
surgimento abrupto de entalhes que
denotam uma destreza admirável.
Escultura em Marfim de um teriantropo (fera
humana) de Hohlenstein-Stadel, Alemanha, c.
31.000 AEC
Pinturas rupestres. Lascaux (Dordogne), França
Pertencem ao Paleolítico Superior (que começou há
cerca de 35. 000 anos) as mais antigas obras de arte
conhecidas. Mas pela sua segurança e requinte, estão
longe de qualquer modesto primitivismo. […] Aproximava-
se então do fim do último período glaciário da Europa, e o
clima das regiões situadas entre os Alpes e a
Escandinávia era semelhante ao da Sibéria ou do Alasca
hoje em dia. Manadas enormes de renas e de outros
grandes herbívoros percorriam os vales e planícies,
atacadas pelos ferozes antepassados dos tigres e leões
atuais – e também pelos nossos próprios antepassados.
Estes procuravam habitação nas cavernas ou sob os
abrigos rochosos, de que nos restam muitos vestígios,
particularmente no Norte da Espanha e no Sudoeste da
França. A partir das diferenças entre os instrumentos e
outros achados, os historiadores dividiram os “homens
Pinturas de bovídeos e equídeos na caverna de das cavernas” em grupos diferentes, que designaram
Chauvet, no sul da França, c. 28.000 AEC.
pelos nomes das estações arqueológicas onde foram
feitos os achados. Entre eles, distinguem-se os
Aurinhacenses (de Aurignac) e os Madalenenses (de La
Madeleine), pelo talento dos seus artistas e pelo papel
importante que a arte deve ter desempenhado nas suas
vidas. (JANSON, 2005, p. 26-27).
Uma das obras mais
impressionantes da arte parietal
paleolítica é o Bisão Ferido de Altamira,
no norte da Espanha. O animal tombou
no chão, moribundo, as patas já não
podem com o corpo, mas baixa a cabeça
para tentar defender-se das azagaias
que lhe arremessam. É uma imagem viva
e realista, assombrosa pela agudeza da
observação, pelo traçado firme e
vigoroso, pelos matizes subtis que dão
volume e relevo às formas ou, talvez
Bisão Ferido (pintura rupestre). c. 15.000- ainda mais, pela força e dignidade da
10.000 a.C. Altamira, Espanha
fera agonizante. (JANSON, 2005, p. 27)
Chauvet, sul da França, c. 28.000 AEC.
O domínio técnico de alguns artífices
tribais, de fato, é assombroso. Não
devemos jamais esquecer que, quando nos
referimos à arte primitiva isso não quer
dizer que os artistas tinham um
conhecimento primitivo de seu ofício. Pelo
contrário, muitas tribos
remotas desenvolveram uma perícia
verdadeiramente espantosa na execução
da talha ou cestaria, na preparação do
couro, nos grafismos expressos no ignoto
interior das grutas ou mesmo no trabalho
com metais. Se pararmos para pensar na
simplicidade das ferramentas com que
esses trabalhos são executados, não
Pintura rupestre de arqueiros caçando cervos, Cavalls, podemos deixar de nos deslumbrar com a
Espanha, 5.000 – 2.000 AEC paciência e a segurança das mãos,
adquiridas ao longo de séculos de
especialização. (GOMBRICH, 2013, p. 42,
grifo nosso).
Cavalo de Mazouco, 18.000 a.C. - 15.000 a.C. Freguesia de Mazouco, 62 cm.
O Cavalo do Mazouco
(c. 18.000 a. C. - 15.000 a.C)
Na região do Mazouco – Portugal -, detectou-se em 1981 um painel
decorado com gravuras que, depois de uma análise comparativa com
elementos aparecidos em território espanhol (Siega Verde, na zona de
Salamanca), foi possível datar com segurança como pertencendo ao
Paleolítico Superior.
Trata-se de um painel de xisto situado ao ar livre e, por isso, muito
desgastado e fraturado. Compreendia ao todo quatro figuras, das quais
apenas uma se preservou em condições claras de leitura. São todas elas
zoomórficas e, presumivelmente, representam equídeos. A que se encontra
em melhor estado de conservação, com cerca de 62 centímetros de
comprimento, mostra um cavalo, com o pescoço curvo e pronunciado, o
focinho simplificado, as patas dianteiras ligeiramente afrontadas e um amplo
ventre, conforme à anatomia dos equídeos que, naqueles tempos, habitavam
aquela remota região. Registra-se que a técnica de incisão da gravura foi a
picotagem, verificando-se, no entanto, o seu sucessivo reavivamento por
abrasão em datas posteriores. (PEREIRA, 2011, p. 24)
Gravura rupestre zoomórfica do Vale do Côa, 25.000 a.C. - 10.000 a.C. (1184 x 778)
Gravura rupestre zoomórfica do Vale do Côa, 25.000 a.C. - 10.000 a.C.
Vale do Côa
(25.000 a.C. - 13.000/10.000 ª C.)
Os testemunhos artísticos do Vale do Côa estendem-se por cerca de dezessete
quilômetros. A sua visibilidade é escassa e é provável que muitas das gravuras
fossem preenchidas ou acompanhadas por pintura, entretanto desaparecida. De
qualquer forma, os elementos gravados podem ser observados de pontos diversos e,
por vezes, a considerável distância, dependendo da posição do Sol, o que denota
intencionalidade na escolha dos locais de gravação e uma hierarquização própria. As
técnicas utilizadas encontram-se presentes noutras estações de ar livre: a abrasão
filiforme – ou seja, o troço fino obtido pela fricção de um punção resistente -, a
picotagem – obtida por percussão e muitas vezes executada sobre um primeiro risco
que define os contornos do motivo – e a raspagem. Muitas vezes encontram-se as
diversas técnicas combinadas no mesmo motivo.
No que respeita ao Paleolítico, encontram-se tipos de representação estilística
característicos de épocas diversas, mas continuadas – Solutrense médio, Solutrense
Superior, Gravetense e Magdalenense Antigo, num arco de tempo que vai, portanto,
de 25.000 a.C. a 13.000/10.000 a.C.
O número de gravuras é imenso. Na sua maior parte trata-se da representação
de animais, com algumas figurações, mais raras, de seres humanos e de motivos
abstratos. Os núcleos mais importantes encontram-se já estudados, através dos
meticulosos trabalhos de António Martinho Baptista. São eles: Canada do Inferno,
ribeira de Piscos, Penascosa e Quinta da Barca.
A descoberta do Vale do Côa, por outro lado, veio revolucionar os estudos da
arte rupestre paleolítica, entendida, quase que exclusivamente, como uma arte
iniciática e secreta, executada no ignoto interior de grutas. (PEREIRA, 2011, p. 26-
30)
Sitio Canada do Inferno: rocha 1 (Paleolítico
Superior) Foto de Pedro Guimaraes.
O Parque Nacional Serra da Capivara
constitui a maior concentração de
sítios arqueológicos e o maior acervo
de rupestres do continente. Pessis
afirma que contém os registros dos
primeiros vestígios humanos das
Américas, há mais de 50.000 anos.
São descobertas suficientes para
questionar as teorias clássicas sobre
o povoamento no continente
americano, que data o aparecimento
do homem na região há cerca de
30.000 anos. (PEREIRA, 2010, p.28)
Pintura Rupestre da Serra da Capivara, 12.000 e 6.000 a.C.
Pintura Rupestre de motivo Zoomórfico da Serra da Capivara, 12.000 e 6.000 a.C.
Carbono-14
Lembramos que para estudo e datação da arte feita ao longo dos anos, os estudiosos
utilizam-se de uma técnica denominada Carbono 14 que foi desenvolvida por Willard Libby
que percebeu que a quantidade de radiocarbono dos tecidos orgânicos mortos diminui
constantemente com o passar do tempo.
A medição dos valores de carbono 14 em um objeto fóssil nos dá indicadores exatos
dos anos decorridos desde sua morte. Essa técnica é aplicável em madeira, carbono,
sedimentos orgânicos, ossos, conchas marinhas, ou seja, todo material que conteve
carbono em alguma de suas formas.
O exame se baseia na determinação da idade desses objetos através da quantidade de
carbono 14 existente nele, mas só pode ser utilizado para datar amostras que tenham entre
50 mil e 70 mil anos de idade.
Os seres vivos absorvem constantemente uma forma estável desse elemento, que tem uma
"meia-vida" de cerca de 5.730 anos (Por meia vida é considerado o tempo necessário para
reduzir pela metade, através de desintegração, a massa de uma amostra desse elemento
radioativo). Assim, depois que morre, o organismo deixa de receber carbono 14. O fóssil vai
perdendo seu carbono 14 pela desintegração.
Para ser efetivada a medição do C-14, é preciso queimar um pedaço do fóssil,
transformando-o em gás, que é analisado por detectores de radiação. O C-14, ao se
desintegrar, emite elétrons que podem ser captados pelos detectores. O índice de C-14 é
comparado com o carbono não radioativo, o C-12, para se fazer um paralelo e determinar
quanto do carbono radioativo decaiu. Desta forma pode-se determinar a data na qual o
organismo morreu. (PAULITSCH, DUMONT, 2012, p. 91)
Boqueirão da Pedra Furada, 14 de Nov. de 2010. Foto de Augusto Pessoa
Referências
BAPTISTA, A. M. Aspectos da Arte Magdalenense e Tardi-Glaciar no Vale
do Côa. Fórum Valorização e Promoção do Patrimônio Regional, Volume 3: Do
Paleolítico à Contemporaneidade: Estudos sobre a História da Ocupação
humana em Trás os Montes, Alto Douro e Beira Interior. Disponível em: <
[Link] Acesso em: 26 de
julho de 2015.
BARRAL i ALTET, X. História da Arte. Arte & comunicação, Edições 70, 2011.
BELL, J. Espelho do Mundo: uma nova história da arte. Lisboa: Orfeu Negro,
2009.
GOMBRICH, E. A História da Arte. Rio de Janeiro: LTC, 2009.
JANSON, H. W. História da Arte. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian,
2005.
PEREIRA, P. Arte Portuguesa: História Essencial. Maia: Temas e Debates,
Círculo de Leitores, 2011.
UPJOHN, E, M.; WINGERT, P. S.; MAHLER, J. G. História Mundial da Arte:
da pré-história à Grécia-Antiga. Lisboa: Bertrand, 1874.
[Link] Acesso em: 26 de julho de 2015
[Link]
omem-americano-
sao-raimundo-nonato-pi> Acesso em: 26 de julho de 2015.