Ciclo de vida de duas espécies de Goeldichironomus (Diptera, Corbi
72 Chironomidae)
& Trivinho-Strixino
Juliano José Corbi1 & Susana Trivinho-Strixino1
1
Departamento de Hidrobiologia, Laboratório de Entomologia Aquática, Universidade Federal de São Carlos, C.P. 676, 13560-970
São Carlos-SP, Brasil.
ABSTRACT. Life cycle of two Goeldichironomus species (Diptera, Chironomidae). Two species of Goeldichironomus
were reared under laboratory conditions (21ºC -26ºC) with food supply of TetraMin® and Avemicina Purina®, fish food
and bird food, to obtain bionomic information and to analyze culture rearing viability. The egg masses of the two species
were maintained in petri dishes. The average development duration from egg to adult emergence was 28 (23-34) days for
Goeldichironomus maculatus Strixino & Strixino, 1991 and 20 (18-22) days for Goeldichironomus luridus Trivinho-
Strixino & Strixino, 2005. The larval instars of both species were determinated by the relationship between head capsule
and body length sizes. These measures were used for the estimation of the growth curves and daily development rates of
the species. The rearing has occurred satisfactorily, with fast growth and low mortality, but did not have copulation in
laboratory conditions.
KEYWORDS. Chironomidae; egg masses; Goeldichironomus.
RESUMO. Ciclo de vida de duas espécies de Goeldichironomus (Diptera, Chironomidae). Duas espécies de
Goeldichironomus foram criadas em condições de laboratório (21ºC -26ºC), com alimento para peixes do tipo TetraMin®
e alimento para aves Avemicina Purina®, para se obter informações bionômicas e analisar a viabilidade de cultivo para
fins de bioensaios. As massas ovígeras das duas espécies, foram mantidas em placas de Petri até a eclosão das lárvulas. A
duração média do desenvolvimento larval até a emergência dos adultos foi de 28 (23-34) dias para Goeldichironomus
maculatus Strixino & Strixino, 1991 e 20 (18-22) dias para Goeldichironomus luridus Trivinho-Strixino & Strixino,
2005. Os estádios larvais para as duas espécies foram determinados através da relação entre o tamanho da cabeça e o
tamanho do corpo. Essas medidas foram usadas para determinar as curvas de crescimento e estimar a taxa de crescimento
diário das duas espécies. As criações ocorreram de forma satisfatória, com rápido crescimento larval e baixa taxa de
mortalidade, mas, não houve acasalamento em condições de laboratório.
PALAVRAS-CHAVE. Chironomidae; desovas; Goeldichironomus.
As larvas de Chironomidae representam um dos principais MATERIAL E MÉTODOS
componentes da macrofauna bentônica presente nos
sedimentos e na vegetação dos sistemas aquáticos Obtenção das massas ovígeras. As massas ovígeras de
continentais (Trivinho-Strixino & Strixino 1998). Informações Goeldichironomus luridus Trivinho-Strixino & Strixino, 2005
bionômicas, como duração do desenvolvimento larval, taxas foram obtidas em coletas de campo, em lagoas de estabilização
de eclosão e de emergência são essenciais para um melhor situadas dentro das imediações do matadouro de Frango (Rei
entendimento e análise da dinâmica populacional dessas Frango®), localizado no Município de São Carlos, SP, Brasil.
larvas. Estas informações são de difícil obtenção na natureza As massas ovígeras de Goeldichironomus maculatus Strixino
e, muitas vezes, prescindem de estudos autoecológicos em & Strixino, 1991, foram coletadas na Lagoa do Boa Vista situada
condições de laboratório. Tais estudos podem ainda gerar dentro das imediações da Fazenda Canchim (São Carlos,SP,
informações adicionais que podem servir de subsídios para Brasil). Os substratos contendo as desovas foram transferidos
bioensaios, como os de toxicidade utilizando essas larvas para recipientes plásticos contendo água do próprio local de
(Strixino & Strixino 1982), uma vez que através desses estudos coleta e, posteriormente trazidas ao laboratório.
é possível determinar o potencial de utilização de determinadas Criação no laboratório. As desovas foram, contadas
espécies regionais em trabalhos dessa natureza. diretamente sob estereomicroscópio, desenhadas,
No presente estudo são apresentadas informações a fotografadas e colocadas em placas de Petri com água destilada
respeito do ciclo de vida de duas espécies Goeldichironomus até que as lárvulas tivessem eclodido e abandonado a
comuns em sistemas aquáticos da região central do Estado de mucilagem gelatinosa que envolve os ovos. Após esse período
São Paulo, criadas em condições de laboratório a partir de as larvas foram criadas em bandejas plásticas (45cm x 35cm x
massas ovígeras obtidas em campo. 6cm) contendo água (4litros) permanentemente aeradas e
Pela facilidade da criação das espécies e análise de seus mantidas em temperatura ambiente (21ºC – 26ºC). As espécies
povoamentos no laboratório, foi possível obter-se informações foram colocadas em bandeja (um total de 20), onde foram
bionômicas, bem como condições de suas ocorrências. introduzidas 100 larvas recém eclodidas, e alimentadas com
Revista Brasileira de Entomologia 50(1): 72-75, março 2006
Ciclo de vida de duas espécies de Goeldichironomus 73
ração de peixe do tipo TetraMin®, e ração de ave do tipo As massas ovígeras das espécies de Goeldichironomus são
Avemicina-Purina®. As larvas de G. luridus foram retiradas de formato plano, mais ou menos triangulares, contendo no
diariamente de cada bandeja de criação. Em virtude do ciclo de seu interior fileira(s) de ovos dispostos em “loops” (Fittkau
vida ser mais longo, as larvas de G. maculatus foram retiradas 1965; Trivinho-Strixino & Strixino 1998). As duas espécies aqui
dia sim e dia não das bandejas. analisadas apresentam o mesmo tipo de disposição (Fig. 1 e
Determinação do ciclo de vida e dos estádios larvais. Foram 2). Em G. maculatus as massas ovígeras apresentam cerca de
medidos o comprimento do corpo e o comprimento ventral da 780 ovos com forma globular achatada na porção que adere ao
cápsula cefálica de cada larva. Duas bandejas de criação foram substrato. As desovas de G. luridus possuem em torno de 600
cobertas por gaiolas (40cm x 35cm x 35cm) que permitiram a ovos, com tonalidade esverdeada e aspecto tubular alongada.
captura dos adultos emergidos. As larvas retiradas foram Após a oviposição, os ovos passam por um período de
observadas em estereomicroscópio, fixadas em álcool a 70% desenvolvimento comum a família Chironomidae, na qual,
e, posteriormente, medidas em microscópio óptico com ocular sofrem uma série de divisões nucleares (Sander 2000) (Fig. 2).
micrométrica, onde foi obtida a curva de crescimento através Em ambas espécies, 48 horas após a oviposição, as lárvulas
do tamanho de corpo em relação ao tempo (dias) e as fases incolores do estádio I começam a eclodir dos ovos, onde
larvais (estádios) determinadas relacionando-se o permanecem por mais um período de 12 horas nesse processo.
comprimento do corpo e o comprimento ventral da cápsula Após esse período, as larvas abandonam a massa gelatinosa
cefálica. As curvas de crescimento foram obtidas segundo que envolve os ovos e, a seguir nadam ativamente,
modelo proposto por Krüger (1973). dispersando-se.
Regra de Dyar. A regra de Dyar determina a “razão de
crescimento” (r). Essa regra tem sido amplamente aplicada nos Ciclo de vida
artrópodes (Ford 1959) e, além disso, é utilizada em diversos Goeldichironomus maculatus
estudos sobre a história da vida de Chironomidae (Strixino A duração média do desenvolvimento de G. maculatus é
1973). de 28 dias (23 a 34). Ao eclodir das massas ovígeras as larvas
medem cerca de 900µm e o seu tamanho máximo é de 9459µm.
RESULTADOS E DISCUSSÃO O crescimento em comprimento de G. maculatus (relação
comprimento total/idade das larvas) é praticamente contínuo
Oviposição, Massas Ovígeras e desenvolvimento (Fig. 3). O ciclo de vida de G. maculatus constitui-se em 4
embrionário: As massas ovígeras de Chironomidae são estádios bem diferenciados: I estádio (6 dias), o II estádio (3
constituídas por uma matriz gelatinosa protetora dos ovos dias), o III (5 dias) e o IV estádio (14 dias) (Fig. 5B e Tab. IB). A
que, quando em contato com a água, incha-se, dando à desova aplicação da regra de Dyar evidenciou uma razão de
um aspecto característico. O formato da massa gelatinosa é crescimento constante para os estádios larvais com r = 1,75µm.
em geral característico para determinados grupos (Nolte 1993).
1
C
10 mm
2
4 mm
Figs. 1-2. 1, Desova de Goeldichironomus luridus Trivinho-Strixino & Strixino; 2, Desova de Goledichironomus maculatus Strixino & Strixino;
(A) Ovo após 7 horas de desenvolvimento; (B) Ovos após 30 horas de desenvolvimento; (C ) Ovos após 42 horas de desenvolvimento.
Revista Brasileira de Entomologia 50(1): 72-75, março 2006
74 Corbi & Trivinho-Strixino
400
Tx. Cresc. (µm dia)
1000
360
Comprimento da cabeça (µm)
800
320 IV
600
280
400
B 240
200
200 III
0
160
120 II
Tamanho do corpo (µm)
10000 80
I
8000 40 B
6000 0
K 0 2000 4000 6000 8000 10000 12000
4000 Lt =
1+e a– b . t
A Comprimento do Corpo (µm)
2000
0
300
Comprimento da cabeça (µm)
-2 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24 26 28 30
270
Tempo (dia) IV
240
Fig. 3. Goeldichironomus maculatus Strixino & Strixino. A. Curva de 210
crescimento da população nas condições de laboratório (21-26ºC); B. 180
Taxa de crescimento diário das larvas (n2 – n1/ t2 –t1). Lt (comprimento 150 III
médio no instante t); K (tamanho máximo alcançado pelas larvas); t 120
(tempo em dias); a e b são constantes. 90 II
60
I A
30
Goeldichironomus luridus 0
A duração média do ciclo de vida de G. luridus é de 20 dias 0 600 1200 1800 2400 3000 3600 4200 4800 5400 6000
(18 a 22 dias) e as larvas eclodem dos ovos em um período Comprimento do corpo (µm)
máximo de dois dias. A partir desse tempo as larvas se Fig. 5. Relação entre o comprimento ventral da cápsula cefálica (µm) e
desenvolvem nas bandejas, com um crescimento praticamente comprimento do corpo (µm) nos 4 estádios larvais. A:
contínuo atingindo a fase adulta em um período de 18 dias. Ao Goeldichironomus luridus Trivinho-Strixino & Strixino; B:
Goeldichironomus maculatus Strixino & Strixino.
eclodir, as lárvulas medem 510µm e o seu tamanho máximo é de
5080µm. O crescimento em comprimento de G. luridus (relação
comprimento total/idade das larvas) nas condições de
laboratório é praticamente contínuo (Fig. 4). As larvas de G. estádios: I estádio (3 dias), o II estádio (2 dias), o III (3 dias) e
luridus apresentam tempos diferentes de duração para os o IV estádio (10 dias) (Fig. 5A e Tab. IA). A aplicação da regra
de Dyar evidenciou uma razão de crescimento constante para
os estádios larvais com r = 1,62µm.
Tx. Cresc. (µm dia-1)
800
700
Estudos sobre o ciclo de vida de Chironomidae na Região
600 Neotropical são escassos (Strixino & Strixino 1982). No entanto,
500 esses trabalhos podem fornecer elementos importantes para o
400
300
200 B
100 Tabela I. Comprimento mínimo e máximo do corpo e comprimento
0 mínimo e máximo ventral da cápsula cefálica (c.c.) das larvas de
Goeldichironomus luridus Trivinho-Strixino & Strixino (A) e
6000 -2 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 Goeldichironomus maculatus Strixino & Strixino (B), e duração média
Tamanho corpo (µm)
5000 dos 4 estádios larvais.
4000 Compr. do Corpo Compr. Ventral Duração Média
Estádio
3000 (MICRA) da c.c. (MICRA) (dias)
K
2000 Lt = I 900-1688 60-64 6
1000 1+e a– b . t A II 1750-5980 76-142 3 B
0 III 2490-6330 180-201 5
IV 4410-9459 225-300 14
-2 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20
Tempo (dia) Compr. do Corpo Compr. Ventral Duração Média
Estádio
(MICRA) da c.c. (MICRA) (dias)
Fig. 4. Goeldichironomus luridus Trivinho-Strixino & Strixino. A. I 510-975 60-63 3
Curva de crescimento da população nas condições de laboratório (21-
II 1050-1800 90-98 2 A
26ºC); B. Taxa de crescimento diário das larvas (n 2 – n 1/ t 2 –t1). Lt
(comprimento médio no instante t); K (tamanho máximo alcançado III 2100-3450 150-165 3
pelas larvas); t (tempo em dias); a e b são constantes. IV 3750-5080 255-270 10
Revista Brasileira de Entomologia 50(1): 72-75, março 2006
Ciclo de vida de duas espécies de Goeldichironomus 75
conhecimento sobre a bionomia das espécies dessa família e REFERÊNCIAS
seus aspectos populacionais. Podem ainda esclarecer
modificações temporais do ambiente gerar resultados Fittkau, E. J. 1965. Revision der von E. Goeldi aus dem Amazonasgebiet
beschriebenen Chironomiden (Diptera). Chironomidenstudien X. -
importantes para estudos sobre toxicidade utilizando larvas
Beitr. Neotropical Fauna 4: 209–226.
como indicadoras. Ford, J. B. 1959. A study of larval growth, the number of instars and
O curto período incubação observado para essas duas sexual defferentiation in the Chironomidae (Diptera). Proceedings
espécies de Goeldichironomus (48 horas, entre 21º - 26ºC), Real Entomology Society London (A) 31: 151–160.
Krüger, F. 1973. Zur Mathematik dês tierischen Wachstums. II.
aliado à facilidade na obtenção das massas ovígeras no campo
Vergleich einiger Wachstumsfunktionen. – Helgoländer Wiss.
e fácil criação em laboratório, com rápido crescimento larval e Meeresunters. 25: 509–550.
baixa mortalidade, são interessantes para estudos futuros Nolte, U. 1993. Egg masses of Chironomidae (Diptera). A review
enfocando efeitos de toxicidade. Como apontado por Nolte including new observations and a preliminary key. Entomologica
scandinavica Supplement nº, 43. 75p.
(1993), algumas desovas de Chironomidae são de difícil
Sander, K. 2000. Chironomidae embryology in the 19 th century:
visualização, pequenas e algumas vezes são encontradas Insights and errors of its pioneers, especially August
apenas em substratos submersos no ambiente aquático. Da Weismann (1834-1914), and some 20 th century sequels. Late
mesma forma, algumas espécies apresentam exigências 20 th century research on Chironomidae: an Anthalogy from the
13 th International Symposium on Chironomidae, pp. 1–16.
fisiológicas bem definidas e de difícil repetição em condições
Strixino, S. T. 1973. A largura da cabeça na determinação das
de laboratório como, a presença de troncos como substrato, fases larvais de Chironomidae na Represa do Lobo.
altos teores de oxigênio dissolvido, circulação da água Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo (USP).
constante e exigências alimentares pouco conhecidas o que Strixino, S. & G. Strixino. 1982. Ciclo de vida de Chironomus sancticaroli
Strixino & Strixino (Diptera, Chironomidae). Revista Brasileira
as tornam menos práticas para estudos dessa natureza.
de Entomologia. 26: 183–189.
Strixino, S. & G. Strixino. 1991. Nova espécie de Goeldichironomus
Agradecimentos. Agradecemos ao Prof. Irineu Bianchini pelo auxílio Fittkau (Diptera, Chironomidae) do Brasil. Revista Brasileira
no programa estatístico e Vanessa Colombo pelas sugestões. A CAPES de Entomologia. 35: 593–602.
pelo apoio financeiro. Trivinho-Strixino, S. & G. Strixino. 1998. Goeldichironomus
neopictus, a new species from the Southeast of Brazil: description
and bionomic information (Insecta, Diptera, Chironomidae).
Spixiana 21: 271–278.
Trivinho-Strixino, S. & G. Strixino. 2005. Two new species of
Goeldichironomus Fittkau from southeast Brazil (Diptera,
Chironomidae). Revista Brasileira de Entomologia. 49: 441–445.
Recebido em 15/03/2005; aceito em 08/02/2006
Revista Brasileira de Entomologia 50(1): 72-75, março 2006