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Peça

A peça 'Jantar entre Estranhos' explora as dinâmicas familiares em um jantar caótico, onde segredos e conflitos emergem entre os personagens. Através de diálogos intensos, eles confrontam traições, silêncios e questões sociais, revelando a complexidade das relações humanas. O ambiente se torna um microcosmo de problemas mais amplos, refletindo a luta por reconhecimento e a necessidade de ouvir uns aos outros.

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A peça 'Jantar entre Estranhos' explora as dinâmicas familiares em um jantar caótico, onde segredos e conflitos emergem entre os personagens. Através de diálogos intensos, eles confrontam traições, silêncios e questões sociais, revelando a complexidade das relações humanas. O ambiente se torna um microcosmo de problemas mais amplos, refletindo a luta por reconhecimento e a necessidade de ouvir uns aos outros.

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Peça: Turma quinta-feira das 17h às 19h ​


Jantar entre Estranhos ​

PERSONAGENS

Mãe​

Pai​

Avó​

Médico​

Tio ​

Tia​

Filha ​

Gêmea​

Filho​

Primo​

Empregada ​

Vizinho ​

Entregador​

Desconhecido​

Criança - memória da casa, ninguém a vê​

ABERTURA –

BLACKOUT. SOM DE CHAVES CAINDO, PORTAS BATENDO, PASSOS

APRESSADOS. MÚSICA. ALGUÉM ABRE A PORTA, LUZ. PERSONAGENS ENTRAM

COMO SE ESTIVESSEM CHEGANDO AO MESMO TEMPO, ATRAVESSANDO O


PALCO, FALANDO UNS POR CIMA DOS OUTROS. ​

AVÓ: Toda família tem uma mesa. Toda mesa tem segredos. Algumas famílias

enterram os segredos. Outras servem eles no jantar. (PAUSA) Hoje vocês foram

convidados.

BLACKOUT.​

MÃE: (GRITANDO) Tirem os sapatos! Ninguém entra na minha casa com sapato da

rua!​

FILHA: Você disse que era só um jantar! Eu não queria estar aqui. ​

MÃE: É tradição!​

FILHO: A tradição é fingir que está tudo bem!​

TIO: Ninguém fala de política na minha presença. ​

EMPREGADA: Mas o senhor fala o tempo inteiro!​

AVÓ: Na minha época as pessoas tinham respeito!​

FILHA: Na sua época as pessoas tinham medo!​

FILHO: Todo jantar aqui vira guerra!​

TIA: Eu falei para não jantar em Mercúrio retrógrado!​

VIZINHO: Eu ouvi música!​

TIO: Eu sabia que alguém ia convidar o vizinho intrometido!​

VIZINHO: Eu não fui convidado! ​

EMPREGADA: Alguém derrubou molho no corredor!​

AVÓ: Alguém sentou na minha perna!​

VIZINHO: Eu trouxe o sal que vocês pediram… há três anos. ​

ENTREGADOR: (COM UMA CAIXA DE PIZZA) Entrega!​


MÃE: Eu não pedi pizza!​

ENTREGADOR: Alguém aqui pediu!​

PRIMO: (CALMO) Eu pedi. ​

GÊMEA: Eu também pedi pizza. ​

CRIANÇA: Eu lembro quando essa casa era silenciosa. Não porque não existiam

segredos… Mas porque ninguém tinha coragem de falar.​

SILÊNCIO. LOGO O FALATÓRIO RECOMEÇA. OS PERSONAGENS COMEÇAM A

ATRAVESSAR O PALCO RAPIDAMENTE. EMPREGADA TENTANDO LIMPAR ALGO

QUE TODOS SUJAM, FILHO MEXE NO CELULAR, TIA ACENDE INCENSO E SENTE

ENERGIA PESADA, TIO DISCUTE COM O VIZINHO. AVÓ CONVERSA COM

ALGUÉM INVISÍVEL. ENTREGADOR ESPERA O PAGAMENTO. TODOS AO MESMO

TEMPO. PAI ENTRA CALMAMENTE NO MEIO DA CONFUSÃO. NINGUÉM O

PERCEBE. ELE OBSERVA TODOS.

PAI: Curioso. (PAUSA) Uma casa pode ficar completamente em silêncio durante anos,

e ainda assim, no dia em que alguém morre todo mundo resolve falar. (NINGUÉM

REAGE. CAOS VOLTA)​

MÃE: (BATENDO PALMA VÁRIAS VEZES) Família! (NINGUÉM PARA DE FALAR.

ELA BATE PALMA MAIS FORTE) Família!! (SILÊNCIO ABRUPTO. TODOS FICAM

IMÓVEIS. MÃE OBSERVA A TODOS, RESPIRA FUNDO.) Sentem. ​

TODOS CORREM E SENTAM AO MESMO TEMPO NA MESA. SILÊNCIO

ABSOLUTO.​

FILHO: Eu tenho uma pergunta.​

MÃE: Qual?​
FILHO:Por que o papai está sentado na mesa? ​

SILÊNCIO. TODOS OLHAM PARA O PAI.

PAI: (LEVANTANDO O COPO PARA BRINDAR) Porque o jantar ainda não começou.​

FILHO: Quem vai cortar o frango? ​

FILHA: Eu corto.

FILHA TENTA CORTAR O FRANGO. NÃO CONSEGUE. ENTREGA A FACA PARA O

PRIMO, QUE TAMBÉM NÃO CONSEGUE. ENTREGA PARA O TIO, QUE TAMBÉM

NÃO CONSEGUE, PASSAR POR TODOS NO MESA, PARA NO PAI, QUE TAMBÉM

NÃO CONSEGUE. CADA PERSONAGEM TENTA DE JEITOS ABSURDOS. MÉDICO

TENTA FAZER UMA CIRURGIA NO FRANGO, TIA FAZ UM REIKI, TIO ACUSA O

GOVERNO, VIZINHO TENTA CORTAR COM UMA COLHER, EMPREGADA TENTA

COM PANO, ENTREGADOR USA CAIXA COMO FACA.

MÉDICO: Batimento cardíaco ausente… mas resistência muscular impressionante.​

TIA: Esse frango está carregando energia ancestral.​

TIO: Isso é claramente manipulação do mercado de frangos.​

ENTREGADOR: Se quiserem eu tenho ketchup.​

MÉDICO: Diagnóstico: frango resistente.​

PRIMO: Talvez não seja o frango.​

PRIMO: (PARA A PLATEIA) Famílias são engraçadas. Todo mundo sabe que algo está

errado, mas ninguém quer ser o primeiro a levantar da mesa.​

AVÓ: Claro que não corta. ​

MÃE: Por quê? ​

AVÓ: Porque ele está morto. (TODOS OLHAM PARA O PAI. VOLTAM A SENTAR NA

MESA. FRANGO EXPLODE)​


TIA: Eu senti essa explosão energética desde terça-feira.​

MÃE: Boa noite. Espero que todos estejam confortáveis. ​

PAI: Confortável como alguém pode estar numa família. ​

FILHO: Ninguém vai cortar o frango?​

FILHA: Não sei. Quem cortou a família? (SILÊNCIO) ​

EMPREGADA ENTRA CARREGANDO UM TELEFONE.

TIO: Ninguém vai atender?​

TODOS: Atender o quê?​

TELEFONE CONTINUA TOCANDO. ​

PRIMO: (OLHANDO PARA TODOS, DEPOIS PARA A PLATEIA) Eu sempre achei

curioso. Quando alguém rouba, vocês dizem que é errado. Quando alguém mente,

vocês dizem que é errado. Mas quando alguém ama alguém do mesmo sexo, vocês

dizem que é “opinião”. (PAUSA) Engraçado. Porque o amor nunca me pareceu um

crime. Mas o ódio… esse sim. (PAUSA LONGA) Amar não é crime!​

CENA 2 –

PAI: (LEVANTANDO BATENDO O TALHER NO COPO PARA CHAMAR ATENÇÃO DE

TODOS) Antes de começarmos, preciso dizer algo. (SILÊNCIO) Eu traí sua mãe.

(TODOS VOLTAM A COMER)​

AVÓ: Isso não é novidade. A surpresa seria fidelidade.​

MÃE: Quantas vezes?​

PAI: Depende da versão da história.​

FILHA: Existe mais de uma?​


PAI: Sim.​

MÉDICO: Isso é perfeitamente comum.​

FILHO: O quê? Revelar que traiu depois de morrer?​

MÉDICO: Não. Mortos que continuam jantando.​

MÃE: Isso é normal?​

MÉDICO: Depende da família.​

AVÓ: (OLHANDO PARA UMA CADEIRA VAZIA) Ele discorda. (SILÊNCIO) ​

FILHA: Quem? ​

AVÓ: O Narrador. (TODOS VOLTAM A COMER)​

EMPREGADA SEGURANDO O PANO DE PRATO NO OMBRO. OLHANDO UM POR

UM NA MESA. ​

EMPREGADA: Sabe o que é engraçado? Aqui dentro vocês falam que somos todos

iguais. Mas eu sempre estou na cozinha. Sempre estou servindo. Sempre estou

limpando o que vocês sujam. E quando alguém pergunta quem eu sou, ninguém sabe

meu nome. Eu sou “a moça”. Eu sou “a ajudante”. Eu sou “a empregada”. (PAUSA)

Mas lá fora quando a polícia passa, eles sabem exatamente quem eu sou. (SILÊNCIO

PESADO. ELA VOLTA A LIMPAR) Ninguém sabe meu nome!​

CENA 3 –​


TIA: Eu senti essa traição antes de acontecer.​

TIO: Culpa do governo.​

MÉDICO: Diagnóstico: drama hereditário.​


SOM DE RELÓGIO ACELERANDO. ATORES MUDAM RAPIDAMENTE DE POSIÇÃO.

ATORES VIRAM MÓVEIS DE SALA DE JANTAR. PAI ESCONDIDO ATRÁS DE UMA

CADEIRA, TOTALMENTE NU. EMPREGADA ENTRA E SE ASSUSTA. ​

EMPREGADA: Senhor?​

PAI: Eu posso explicar.​

EMPREGADA: (DE CABEÇA BAIXA) Eu só vim limpar a mesa.​

PAI: Melhor ainda.​

TODOS VOLTAM PARA SUAS POSIÇÕES INICIAIS DO JANTAR. ​

CENA 4 –

FILHO: Então você traiu a mamãe com a empregada?​

EMPREGADA: Essa é uma versão.​

MÃE: Qual é a outra?​

EMPREGADA: Eu também traí. (SILÊNCIO) ​

TIO: Com quem?​

EMPREGADA APONTA PARA A AVÓ. SILÊNCIO. ​

AVÓ: Foi só uma fase. ​


FILHA: Eu também tenho algo a dizer.​

MÃE: Você está grávida?​

FILHA: Não. (PAI SUSPIRA ALIVIADO) Eu me casei escondido.​

FILHO: Com quem? (FILHA APONTA PARA PRIMO, QUE NÃO REAGE) ​

PRIMO: Apenas uma família jantando. (PARA A PLATEIA) Já é estranho o suficiente.


(VOLTA PARA O JANTAR) Eu não lembro disso.​

GÊMEA: Foi um casamento bonito. (TODOS IGNORAM) ​

FILHA: Sim… foi lindo. (PAUSA. OLHA PARA GÊMEA COM ESTRANHEZA) Quem é

você?​

GÊMEA: Sua irmã gêmea. (SILÊNCIO) ​

MÃE: Ah, é verdade.​

PAI: Eu tinha esquecido dela.​

PRIMO: Eu definitivamente não estava lá.​

GÊMEA: É engraçado. Eu sempre estive aqui. Mas ninguém nunca percebeu. Talvez

seja porque eu não grito. Talvez seja porque eu não brigo. Talvez seja porque… vocês

só veem quem faz barulho.(PAUSA) Ou talvez porque algumas pessoas simplesmente

não se importam.​

MÉDICO: Diagnóstico: excesso de realidade.​

CENA 5 – VOLTA AO PASSADO DO CASAMENTO

SOM DE SINOS. TODOS VIRAM CONVIDADOS DOS CASAMENTOS. AVÓ SEGURA

UM PÃO COMO SE FOSSE A BÍBLIA.

AVÓ: Aceita este primo como seu marido?​

FILHA: Aceito.​

AVÓ OLHA PARA PRIMO. SEM ESPERAR RESPOSTA.

AVÓ: Ótimo, aprovado. Eu os declaro: Marido e Mulher. ​

TODOS JOGAM ARROZ. VOLTAM A MESA DE JANTAR.


FILHA: Vocês sabem qual é o problema dessa família? Não é o pai morto. Não é o

frango que ninguém consegue cortar. Não é nem esse silêncio estranho que aparece

toda vez que alguém tenta dizer algo importante. O problema é que vocês não

escutam. Vocês nunca escutaram. Quando eu disse que queria estudar arte… vocês

disseram que era fase. Quando eu disse que queria sair de casa… vocês disseram

que eu era ingrata. Quando eu disse que tinha medo do mundo, vocês disseram que o

mundo sempre foi assim. (PAUSA) Vocês sabiam que uma mulher morre a cada

poucas horas nesse país? Vocês sabiam que pessoas apanham na rua por amar

alguém do mesmo sexo? Vocês sabiam que tem gente que some da história antes

mesmo de nascer? (PAUSA.) Claro que sabiam. Vocês só decidiram não ouvir.​

SILÊNCIO.

MÉDICO: Diagnóstico: excesso de juventude.​

FILHA: Diagnóstico: excesso de silêncio.​

FILHO: Pai, você morreu mesmo?​

PAI: Morri.​

FILHO: Então o que está fazendo aqui?​

PAI: Jantando.​

FILHO: Então isso é um velório? ​

EMPREGADA: Tecnicamente sim.​

MÃE: Mas já que todo mundo estava aqui… resolvemos jantar.​

TIO: Isso explica tudo. ​

AVÓ: (OLHANDO PARA A CADEIRA VAZIA) Ele está ficando irritado.​

MÃE: Quem dessa vez?​

AVÓ: O narrador.​


SILÊNCIO ​

MÉDICO: Isso se chama alucinação narrativa.​

AVÓ: E ele disse que você fala demais.​

PRIMO: (PRA PLATEIA) Vocês estão percebendo? Eles estão discutindo como se

fossem únicos. Mas toda família faz [Link] mesa de jantar vira tribunal. Toda

geração acha que está certa. E no final… ninguém muda de ideia. (PAUSA) Mas vocês

vieram assistir. Então talvez ainda exista esperança.​

MÉDICO: Diagnóstico: empatia aguda.

CENA 6 – PERSONAGEM DESCONHECIDO ​


MÃE: Quem é você?​

DESCONHECIDO: Eu sempre estive aqui.​

AVÓ: Mentira.​

DESCONHECIDO: Eu sou aquele parente que vocês fingem não lembrar. ​

TIO: Espião!!!​

Tia: Que energia negativa. Limpa, limpa, limpa. ​

MÉDICO: Sintoma coletivo. Interessante. ​

Primo: Ou talvez (PAUSA. PARA A PLATEIA) vocês esqueceram alguém. ​

DESCONHECIDO: Eu sou o segredo que vocês escolheram não revelar. (SILÊNCIO

DESCONFORTÁVEL)​

TIA: Eu chamo isso de bloqueio de chacra coletivo.


CENA 7– VOLTA AO PASSADO DO SEGREDO​

SOM DE RELÓGIO. TODOS SE MOVEM EM CÂMERA LENTA. MÃE SEGURA UM

BEBÊ.

MÃE: O que vamos fazer com isso?​

PAI: Ninguém pode saber.​

AVÓ: Enterrem logo a verdade.​

DESCONHECIDO: Eu sou o motivo pelo qual algumas portas nunca são abertas. ​

TODOS VOLTAM AO JANTAR. PESSOA DESCONHECIDA SORRI. A EMPREGADA

LIMPA A MESA LENTAMENTE.

EMPREGADA: Eu escuto tudo. Porque quem limpa a casa sempre escuta. Eu escuto

quando vocês brigam. Escuto quando vocês mentem. Escuto quando vocês fingem

que são bons. E também escuto quando vocês falam da gente. “Essa gente”. A gente

que pega três ônibus. A gente que trabalha doente. A gente que vê a polícia entrar na

rua e não sabe se vai sair viva. (PAUSA) Mas aqui dentro vocês chamam isso de

política. Lá fora a gente chama de vida. (SILÊNCIO) ​

AVÓ: Ele disse que vocês estão demorando muito. ​


TIO: Isso é culpa do governo. Vocês falam de corrupção como se fosse algo distante.

Como se fosse coisa de político, mas a corrupção começa pequena. Começa quando

alguém fura fila. Começa quando alguém paga para resolver mais rápido. Começa

quando alguém mente para manter o poder. (PAUSA) E quando percebemos…o país

inteiro virou um jantar de família. Todo mundo sabe que algo está errado. Mas ninguém

levanta da mesa. (LONGA PAUSA) Todo mundo sabe que está errado!​

GÊMEA: Eu votei, mas ninguém perguntou. ​

TIA: Ou a culpa é só do karma.​


FILHO: Ou da estupidez humana. Eu sempre achei engraçado. Vocês dizem que os

jovens são irresponsáveis. Mas quem destruiu o planeta? Quem construiu cidades

onde ninguém consegue respirar? Quem decidiu que dinheiro vale mais que gente?

Não fomos nós. Nós só chegamos depois do estrago.

CENA 8 – SEGREDOS NEM TÃO SECRETOS

TODOS FALAM QUASE QUE AO MESMO TEMPO.

PAI: Eu traí!​

MÃE: Eu também!​

FILHA: Eu casei com meu primo!​

GÊMEA: Eu também!​

ENTREGADOR: Se ninguém pagar,eu posso ficar para a sobremesa? ​

VIZINHO: Da minha casa da pra ouvir tudo isso. ​

TIO: O governo controla o frango!​

EMPREGADA: Eu sabia de tudo!​

FILHO: Eu tenho outro irmão!​

GÊMEA: É interessante ser invisível. Eu escuto tudo.​

TIO: Eu não sou seu tio!​

AVÓ: Eu não sou avó de ninguém!​

EMPREGADA: Eu sou a dona da casa!​

VIZINHO: Eu só vim devolver o sal.​

MÉDICO: Todos vocês têm a mesma doença.​

FILHO: Qual?​

ENTREGADOR: Eu conheço muitas casas assim. Mudam os pratos, não mudam as

pessoas. ​

DESCONHECIDO: Segredos crescem muito bem em casa silenciosas. ​


PRIMO: Famílias são fascinantes. Elas defendem valores até o momento em que

esses valores entram pela porta. ​

ENTREGADOR: Alguém vai pagar a pizza? Eu fiquei esperando vocês decidirem.

Esperando alguém pagar. Esperando alguém olhar pra mim. (PAUSA) Eu trabalho doze

horas por dia. Pedalando. Entregando comida para pessoas que têm tempo de discutir

filosofia no jantar. E sabem qual é a parte mais engraçada? Eu nunca tenho tempo de

jantar. (PAUSA LONGA) Eu nunca tenho tempo de jantar!​

MÉDICO: Diagnóstico: sociedade.​

FILHA LEVANTA LENTAMENTE. OLHANDO PARA TODOS NA MESA. TODOS

FALANDO AO MESMO TEMPO. FILHA COMEÇA A FALAR, MAS SEMPRE É

INTERROMPIDA. ​

FILHA: Vocês gostam de dizer que o mundo lá fora é perigoso. Que eu preciso ter

cuidado. Que eu não devo confiar em estranhos. (PAUSA) Mas o problema nunca foi o

mundo lá fora. ​

TIO: Lá vem drama.​

FILHA: Não. Lá vem memória.

O TEMPO QUEBRA. A LUZ MUDA. SOM DE RELÓGIO, SOM DE RESPIRAÇÃO.

PERSONAGENS SE MOVEM LENTAMENTE. JANTAR SE TRANSFORMA NUM

QUARTO. FILHA VISIVELMENTE MAIS JOVEM, SEGURANDO UMA BONECA. ESTÁ

SOZINHA. ENTRA TIO, CHEGANDO PRÓXIMO.

TIO: Você cresceu rápido. (PAUSA) Sua mãe sabe que você está acordada?​

FILHA: Eu… estava indo dormir.​


TIO: Não precisa ter medo. Eu sou da família. (ELE SE APROXIMA MAIS. FILHA

RECUA) ​

AVÓ: (PARA A PLATEIA) Ele disse que isso acontece mais do que as pessoas

imaginam.​

PRIMO APARECE EM CENA OBSERVANDO, OLHA PARA A PLATEIA, VOLTA A

OBSERVAR A CENA. AOS POUCOS PERSONAGENS DO TEMPO PRESENTE,

INVADEM MEMÓRIA DE FILHA.

MÃE: Isso nunca aconteceu.​

AVÓ: Famílias não fazem esse tipo de coisa.​

MÉDICO: Memória distorcida.​

TIO: Isso é invenção da internet.​

FILHA: (GRITANDO) Parem!!!!!! (SILÊNCIO TOTAL. MEMÓRIA CONGELA) ​

LUZES VOLTAM AO NORMAL. TODOS SENTADOS NOVAMENTE A MESA DE

JANTAR, COMO SE NADA TIVESSE ACONTECIDO. FILHA CONTINUA EM PÉ.

RESPIRAÇÃO OFEGANTE. ​

FILHA: Vocês sabem por que as mulheres aprendem a ter medo? Não é por causa dos

estranhos. É porque muitas vezes o perigo está sentado na mesma mesa. ​

MÉDICO: Diagnóstico. (PAUSA) Família.​

PRIMO: (PARA A PLATEIA) Vocês perceberam? Quando algo assim aparece, todo

mundo muda de assunto. É a tradição mais antiga das famílias.​

FILHA: Vocês sabem por que eu não gosto de voltar sozinha pra casa? Porque toda

mulher aprende uma coisa desde pequena. Aprende a olhar para trás. Aprende a

segurar a chave entre os dedos. Aprende a fingir que está falando no telefone.
Aprende a calcular o caminho mais iluminado. Aprende a correr. Aprende a sorrir para

não irritar. Aprende a pedir desculpa mesmo quando não fez nada. (PAUSA) Vocês

chamam isso de exagero. A gente chama isso de sobrevivência. (PAUSA LONGA)

Aprende a sobreviver!​

AVÓ: Ele disse que o público está ficando desconfortável.​

VIZINHO: Eu pensei que vocês brigavam só aos domingos.

LUZES PISCAM. CADEIRAS CAEM. TELEFONE TOCA NOVAMENTE. ​

MÃE: (RESPIRA FUNDO. ARRUMA A MESA) Bem, alguém quer sobremesa?

(SILÊNCIO) TODOS: Sim.​

CRIANÇA: Eu moro debaixo da mesa. É o único lugar onde as pessoas dizem a

verdade.​

EMPREGA TRÁS UM BOLO, CORTA E SERVE TODOS SENTADOS QUE OLHAM

PARA A PLATEIA. TELEFONE DENTRO DA SOPA TOCA NOVAMENTE. ​

AVÓ: Ainda falta gente na mesa.​

GÊMEA: Eu existo há 17 anos e vocês ainda se surpreendem. ​

DESCONHECIDO: Família unida.​

PRIMO: (PRA PLATEIA) Vocês também têm um jantar assim. Só muda o tempero. ​

MÉDICO: Agora entendo. Essa família sofre de uma doença rara.​

TODOS: Qual?​

MÉDICO: Memória seletiva.​

TIA: O universo sempre devolve tudo. Só demora mais em famílias ricas. ​


DENTRO DO BOLO TEM UM ESPELHO. CADA UM SE OLHA ATRAVÉS DO

ESPELHO.

MÃE: Controle.​

PAI: Culpa.​

FILHA: Memória.​

FILHO: Cinismo.​

EMPREGADA: Sobrevivência.​

ENTREGADOR: Fome.​

GÊMEA: Invisível.​

TIO: Hipocrisia. ​

TIA: Medo. ​

PRIMO: Realidade​

MÉDICO: Diagnóstico ​

VIZINHO: Intromissão. ​

DESCONHECIDO: Silêncio. ​

CRIANÇA: Máscaras. ​

AVÓ: Fuga. ​

ESPELHOS VIRADO PARA A PLATEIA.

PRIMO: Talvez o problema não esteja nessa mesa. Talvez esteja… em todas.​

PAI: Talvez o problema nunca tenha sido a família. (PAUSA) Talvez seja o mundo. Ou

talvez o problema seja que nós continuamos jantando. Mesmo depois de saber de tudo

isso.​


TODOS COMEÇAM A COMER. SOM DE TALHERES BATENDO NOS PRATOS. ​

AVÓ: Vocês vão continuar aí?

BLACK OUT. ​

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