Sinopse:
Em um reino onde o sol é a força vital e soberana,
acolhido pelo deus Hélio. O príncipe herdeiro, vive sob
uma constante pressão pelo peso da coroa que iria
repousar em sua cabeça no momento em que assumiria o
trono após seu casamento com o Duque de Aurenval.
Porém, para isso, tinha que se ver humilhado pela
própria família e sendo alvo de mentiras maliciosas
sobre a sua própria pessoa. E a sua última cartada para
salvar o destino, foi exigir a volta do Grã-Duque, seu
noivo ausente, que já desprezava o mesmo através das
cartas trocadas entre ambos.
Mas, depois das trocas de cartas carregadas de farpas e
arrogância, o Duque finalmente cede à intimação. Ele
retorna a Seravelle decidido a provar que Jungkook é
apenas uma criança brincando de governar. O que o
Duque não esperava era encontrar um príncipe que,
apenas de mostrar feridas e submissão a pessoas que
humilham constantemente, tem uma força sem igual,
pronto para passar por todas as dificuldades que são
impostas em sua vida.
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Capítulo 1
O jornal pesava nas mãos de Jungkook, o papel
farfalhando baixo enquanto ele caminhava pelos
corredores de mármore. Seus olhos, de um dourado
líquido que lembrava o mel sob a luz, percorriam as
manchetes com uma pressa ansiosa. Ele buscava um
nome. O nome do noivo – ou da sombra de um noivo
que parecia fugir dele a cada estação.
Mas a decepção veio como um balde de água fria. O
papel não falava apenas dele; falava da ferida aberta que
era sua família.
“A família real é, de fato, o cofre dos segredos mais
profundos da alta sociedade...” — as palavras do jornal
pareciam saltar da página, de uma maneira que fazia o
Jungkook achar um pouco cruel quando abordavam o
assunto. “Já passou da hora do príncipe herdeiro tomar
sua coroa... a beleza – Essa que ele já não têm – não
continuará a seu favor para sempre.”
Jungkook parou, o ar subitamente escasso. Ele sentiu o
aperto da própria túnica, as camadas de tecido claro que
ele escolhia estrategicamente para esconder as curvas de
seu quadril e a robustez de suas coxas, traços que os
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jornais chamavam de "falta de disciplina", mas que ele
carregava como um fardo genético.
— O que estamos fazendo de errado para sermos sempre
a pauta desses escritores? — Jungkook perguntou, a voz
saindo mais embargada do que pretendia. Ele olhou para
o irmão, Yunho, que era sua antítese: sombrio, esguio,
elegante em sua túnica azul-noturno. — Isso deveria ser
proibido. Eu sou o futuro rei! Que mal eu fiz?
— Nasceu herdeiro… — Yunho sussurrou. Havia um
amargor naquela frase, uma ponta de inveja misturada
com pena que fez o estômago de Jungkook revirar. —
Me desculpe, Jun. Eu só acho… errado. Eu nasci
primeiro. Mas por você ter o poder do sol… por ser o
próprio sol… foi o escolhido.
Jungkook deu um passo à frente, diminuindo a distância
entre eles.
— Sabe que, se eu pudesse, deixaria o trono para você.
Nunca quis roubar o seu lugar.
Yunho suavizou a expressão. Ele estendeu a mão e tocou
a bochecha de Jungkook – aquela bochecha rosada e
macia que o príncipe tanto tentava afinar com dietas e
exercícios que nunca funcionavam. Naquele toque, não
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havia julgamento, apenas a resignação de dois irmãos
presos em um destino que não escolheram.
Jungkook se culpava por isso e se achava feio. Não por
odiar seu corpo. Mas por fazerem ele se odiar pelo
simples fato de como era.
— Eu sei disso, irmão… — A voz dele saiu baixa,
carregada de uma aceitação que parecia ecoar pelos
corredores de mármore. — Só é lamentável.
Com um suspiro pesado, ele afastou as mãos do rosto do
herdeiro. O movimento fez com que a luz dos
candelabros de cristal oscilasse sobre o veludo
azul-noturno de sua túnica, uma peça de corte impecável
cujos botões de safira bruta pareciam absorver a
claridade em vez de refleti-la. Ele deslizou as mãos para
os bolsos da calça de alfaiataria escura, ocultando os
dedos longos e os anéis de prata que marcavam sua
posição como o segundo filho – a qual passará a ser –
aquele que detinha a elegância, mas nunca a coroa.
Ao seu lado, a presença do herdeiro era quase sufocante
de tão radiante. O irmão mais novo era o retrato vivo da
dinastia: o cabelo loiro, vibrante como o sol, caía sobre a
testa com uma nobreza descuidada, enquanto seus olhos,
duas esferas de um dourado líquido e intenso,
observavam cada gesto do Yunho com um gesto gentil e
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vestia uma roupa totalmente ao contrário do irmão. Em
tons mais leves e claros combinando com a sua
aparência. Bom, também largas, para que não marcasse
tanto seu corpo.
— Vossa alteza…aí estão os senhores. Perdoe-me pela
minha chegada ríspida. Mas a rainha quer vê-los. Os
dois. — Hoseok com sua roupa de serviçal e
acompanhante real da rainha, mencionou com a voz
baixa com o corpo curvado para a frente. E Jungkook se
aproximou, tocando seu ombro, trazendo para cima
novamente.
— Por favor, não precisa fazer isso todas as vezes. Ainda
mais se estivermos a sós. — Jovem lhe entrega um
sorriso doce que fez o servo de cabelos castanhos claros,
sorrir em agradecimento enquanto o Yunho, continha a
vontade de revirar os olhos pela a gentileza do seu irmão
com pessoa que não tinha a menor insignificância além
do trabalho a mão.
— Obrigado, vossa alteza. Por favor, me acompanhem.
A vossa majestade está os esperando na sala de chá.
E os dois seguiram o rapaz, que andava mais a frente,
não podendo andar ao lado e muito menos atrás. Hoseok
parou diante das imensas portas de carvalho entalhado.
Com um toque breve, ele anunciou a presença dos
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príncipes antes de empurrar as folhas de madeira,
revelando o refúgio particular da monarca.
O cenário lá dentro quebrava qualquer protocolo. A
Rainha não estava no trono, mas afundada em um sofá
de veludo, com os pés apoiados de forma despojada
sobre a mesa de centro. Entre os dedos finos, ela
segurava uma xícara de porcelana, enquanto os olhos –
semicerrados por trás da armação de óculos que
escorregava pelo nariz – devoravam as mesmas
manchetes que haviam atormentado Jungkook no
corredor. O ar da sala carregava o cheiro seco e
persistente de nicotina, o passatempo que ela se recusava
a abandonar.
— Vossa Majestade. Eles estão aqui. — anunciou
Hoseok, curvando-se antes de recuar silenciosamente,
deixando o peso do silêncio para os três.
A mulher de cabelos acinzentados, presos em um
penteado que desafiava a gravidade com seus cachos
esculturais, fez um gesto vago para que Yunho se
sentasse. Jungkook, no entanto, permaneceu estático. Ele
sentia o peso do próprio corpo sob o olhar da mãe; as
mãos se uniram à frente do tronco, os dedos se
entrelaçando com tanta força que as juntas perderam a
cor, tornando-se tão brancas quanto o mármore sob seus
pés.
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— Já devem imaginar por que os chamei. — a voz dela
saiu arrastada, rouca, carregando a autoridade de quem
não precisa gritar para ser temida. Ela largou o jornal, e o
som do papel batendo na mesa pareceu um tiro no
silêncio da sala. — Onde está seu noivo, Jungkook?
O herdeiro baixou o rosto imediatamente. Ele podia
sentir o calor subindo por seu pescoço, a vergonha
pinicando a pele. Seus olhos dourados, que deveriam
brilhar como o sol do reino, agora buscavam qualquer
imperfeição no tapete para evitar o confronto.
— Não sabe, não é? — A pergunta dela não era uma
dúvida; era uma constatação amarga e o tom que usava
com o mais novo era de puro julgamento. — Quero que
você envie uma carta para o Grã-duque. E faça uma
intimidação! Quero ele em Seravelle dentro de um mês.
— Mas…
— Nada mais, Jungkook! — A voz da Rainha cortou
qualquer frase que o Jungkook poderia tentar de terminar
de falar em sua defesa. — Estou exausta de ver o nome
desta linhagem arrastado pela lama por sua causa. Cada
edição desse jornal é um novo escrutínio, e lá está você,
estampado na primeira página como um erro que não
podemos apagar.
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Ela cravou os olhos sobre o filho mais novo, um olhar
carregado de um julgamento tão gélido que Jungkook
sentiu o corpo minguar. Ele encolheu os ombros, a
postura de príncipe desmoronando sob o peso daquela
desaprovação.
— É uma tragédia que meu Yunho não possa assumir o
que é dele por direito. — continuou ela, o tom agora
suavizado por um desdém venenoso. Com uma doçura
seletiva, ela acariciou os fios escuros do filho mais
velho. Yunho, por sua vez, sustentou um sorriso contido,
uma máscara de perfeição que evitava confrontar a
tirania materna, mas que brilhava com uma ponta de
triunfo.
A Rainha voltou-se novamente para o loiro, as palavras
saindo como sentenças:
— Então, faça o que mandei! A nobreza já o rotula como
"desinteressante". Daqui a pouco, os sussurros nos salões
dirão que o Duque o rejeita não por falta de modos, mas
por sua figura... descuidada.
Jungkook mordeu o interior do lábio, sentindo o gosto
metálico da ansiedade. Seus raros olhos dourados
tremeram, refletindo a luz dos candelabros enquanto suas
mãos, escondidas nas dobras do tecido fino, suavam frio.
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Ele buscou o refúgio das incontáveis aulas de etiqueta,
erguendo uma barreira de autocontrole que protegia o
que restava de sua dignidade.
Inspirou profundamente, estabilizando a voz antes de
responder à soberana:
— Como a Majestade desejar. — disse ele, a voz baixa,
mas firme como o protocolo exigia. — Enviarei uma
missiva ao Duque agora mesmo, solicitando sua
presença no castelo com a urgência que o caso requer.
Ele executou uma reverência impecável, um arco
perfeito de submissão que não revelava a tempestade em
seu peito. A Rainha sorriu, satisfeita por ter dobrado a
vontade do filho, e dispensou-o com um gesto
displicente de mão, como quem afasta uma distração
incômoda.
Sem olhar para trás, o jovem de cabelos loiros retirou-se,
o som de seus passos ecoando no mármore como uma
contagem regressiva para um destino que ele nunca
escolheu.
“Ao Excelentíssimo Grão-Duque de Orléans,
Escrevo-lhe não por desejo, mas por imperativo dever.
Esta missiva serve como uma oportunidade final para
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que Vossa Graça reflita sobre a negligência de suas
atitudes ao longo destes anos. É de pleno conhecimento
que nossa aliança matrimonial não é uma mera
sugestão, mas um pacto sagrado que Vossa Graça tem
falhado em honrar de forma sistemática.
ediante o curso dos últimos acontecimentos e o
M
desgaste da paciência desta Corte, não há mais espaço
para delongas ou justificativas vãs. Por ordem direta do
trono, comunico que lhe resta apenas um mês para
retornar a Seravelle e oficializar nosso matrimônio em
uma cerimônia real.
embre-se de que a benevolência da Coroa tem
L
limites. O mesmo poder que concede títulos e resguarda
riquezas é o que pode despojá-lo de cada privilégio caso
a desobediência persista. Não teste a resolução de
minha família.
Aguardamos sua chegada, sem mais atrasos.
Atenciosamente,
Príncipe Jungkook Léandre Solenne
Herdeiro de Seravelle
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Capítulo 2
“Ao Príncipe Jungkook Léandre Solenne
Herdeiro do Trono de Seravelle,
onfesso que a chegada de vossa missiva foi uma
C
surpresa – embora não das mais agradáveis. Presumi,
ingenuamente, que o tempo houvesse dissipado as
memórias de nossa antiga aliança ou que vossa alteza
tivesse, finalmente, encontrado ocupação mais digna.
Contudo, o tom desesperado que emana de suas
palavras me compeliu a uma resposta, ainda que apenas
por cortesia ao papel que desperdiçasse.
fascinante observar como a realeza, ao sentir o chão
É
tremer, recorre prontamente à desonestidade.
Ameaçar-me com a destituição de meus bens e de meu
título de Duque? É uma tática previsível e, francamente,
exala um odor de desespero que me causa profundo
asco. O que esperas de mim, Jungkook? Que eu viaje
quilômetros para me prostrar diante de vossa presença e
implorar por migalhas de benevolência?
ossa Alteza ainda preserva o ímpeto de uma criança
V
que brinca de governar. É lamentável que, para validar
sua ascensão e fingir uma maturidade que não possui,
11
precise desesperadamente deste enlace. Sinto informar
que meu título e minha fortuna não são adornos para o
vosso ego.
ão pretendo retornar a Seravelle, nem hoje, nem sob
N
vossa futura coroa. Passar bem.
Atenciosamente,
Grã-Duque de Orléans.”
O papel, outrora impecável, agora exibia as marcas dos
dedos de Jungkook, que o apertavam com uma força
capaz de rasgar o pergaminho. Ele leu e releu cada
palavra. – Criança, desespero, asco. – Até que as letras
parecessem queimar sua retina. A audácia do Duque não
era apenas uma afronta pessoal; era um cuspe na coroa
de Seravelle.
nquanto o reino cambaleava à beira do colapso e sua
E
própria legitimidade era questionada nos corredores do
palácio, o homem que deveria ser seu pilar agia como
um desertor, protegendo-se atrás de muros distantes e
palavras ácidas.
om um rosnado baixo, Jungkook arremessou a carta
C
contra a lareira apagada. O papel flutuou, esquecido,
enquanto ele se lançava à escrivaninha. O som da pena
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mergulhando no tinteiro foi o único aviso do que estava
por vir. Ele não escreveria como o "príncipe
desesperado" que o Duque descreveu; ele escreveria
como o monarca que já reivindicava o que era seu por
direito de sangue.
“Ao Grã-Duque de Orléans,
S ua eloquência é admirável, Duque, mas infelizmente
serve apenas como uma cortina de fumaça para a sua
covardia. É curioso que mencione "brincar de
governar", quando é Vossa Graça quem se esconde em
terras estrangeiras, fugindo das responsabilidades que o
seu título exige.
S e o cheiro do meu desespero lhe causa asco, saiba
que o odor da sua traição já infesta todo o reino de
Seravelle. Não o convoco por necessidade de afeto ou
por "migalhas de benevolência", mas sim para lembrá-lo
de que um título sem lealdade é apenas uma sentença de
morte social.
Você me chama de criança, mas esquece que são as
crianças que herdam o futuro; e o seu futuro está,
inteiramente, sob o peso da caneta que seguro agora. Se
acredita que sua fortuna e seu título estão protegidos
pela distância, está redondamente enganado. A coroa
tem braços longos e memórias ainda mais extensas.
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Não imploro por sua volta, eu a exijo. Não como
pretendente, mas como futuro Rei. Considere esta a
última vez em que a trato com a cortesia que sua
linhagem mereceu. Na próxima, não haverá tinta nem
missiva à sua espera, mas atos cujas consequências não
poderão ser desfeitas.
ríncipe Jungkook Léandre Solenne
P
Herdeiro de Seravelle e Soberano por Direito.”
Entregou o envelope ao servo, o lacre de cera ainda
morno com o brasão recém-pressionado. A ordem foi
curta, dita com uma urgência que não admitia atrasos: o
Duque deveria receber aquilo o quanto antes. Ao ver o
criado desaparecer pelo corredor, ele se levantou, os
dedos mergulhando nos fios de cabelo em um gesto de
puro cansaço antes de caminhar até a janela.
Lá embaixo, o som dos cascos e o ranger da carruagem
ecoavam pelo pátio. Observou o cocheiro partir, levando
consigo as palavras que selariam seu destino. No melhor
dos cenários, seriam duas semanas de silêncio: uma para
a mensagem chegar, outra para a resposta retornar.
Quatorze dias de uma agonia suspensa.
Soltou um suspiro trêmulo, apoiando as palmas das mãos
no parapeito de pedra fria. Inclinou o rosto para o alto,
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deixando que o calor do sol o tocasse, um contraste cruel
com o gelo que sentia no peito. As palavras da carta que
recebera mais cedo ainda queimavam em sua mente,
venenosas e impiedosas.
Até um desconhecido era capaz de nutrir o pior dos
julgamentos sobre ele.
Um tremor percorreu seus ombros. Como seria aquele
homem como marido? A ideia de dividir a vida, e a
intimidade, com alguém que já o desprezava antes
mesmo do primeiro encontro fez seu estômago revirar.
Os olhos dourados, antes brilhantes como o sol que
tentava confortá-lo, escureceram-se As primeiras
lágrimas transbordaram, marcando o concreto escuro da
janela com gotas pesadas.
O peito doía, um aperto que parecia comprimir seus
pulmões. Naquele momento, a saudade do pai era um
abismo físico. Sentia falta da segurança da infância, de
quando os problemas eram resolvidos com um abraço e
não com alianças políticas. Num sussurro inaudível,
desejou que o fardo da herança tivesse caído sobre os
ombros de Yunho. Se ele não fosse o herdeiro, talvez
pudesse apenas... ser.
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Longe de títulos, longe de duques e, acima de tudo,
longe daquele sentimento devastador de ser apenas uma
peça em um tabuleiro de xadrez.
Jungkook afastou-se da janela bruscamente, o coração
martelando contra seu peito de modo que doía. Sentia-se
patético, pequeno demais para o peso daquelas paredes.
O som das batidas na porta foi o estopim para que o
orgulho assumisse o controle: ele secou o rastro das
lágrimas com as costas das mãos e endireitou a coluna,
adotando a máscara de herdeiro antes de permitir a
entrada.
Vossa Alteza, o desjejum está servido e a Rainha
—
solicita sua presença. — anunciou Hoseok. O jovem
príncipe apenas assentiu, mantendo o olhar fixo em um
ponto vago até que o criado se retirasse.
trajeto pelos extensos corredores do palácio parecia
O
mais longo do que o habitual. O aroma de carne fresca,
caçada naquela manhã, preenchia o ar, despertando uma
fome que logo seria sufocada pela tensão. Ao entrar na
sala de jantar, encontrou a Rainha já sendo servida,
enquanto Yunho mantinha os olhos baixos, focado em
sua refeição com uma calma estudada, como se tentasse
se tornar invisível.
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J ungkook sentou-se em silêncio, acomodando o
guardanapo de linho sobre o colo. Assim que a serva
começou a dispor as iguarias em seu prato, a voz gélida
da mãe cortou o tilintar dos talheres.
E o Duque? — a Rainha não ergueu os olhos do
—
próprio prato, mas a autoridade em sua voz era absoluta.
— Ele respondeu? Já está a caminho?
J ungkook sentiu a garganta fechar. Ele forçou um sorriso
pálido, uma tentativa frágil de esconder a ferida aberta
pela carta anterior.
— Ele... enviou uma resposta um tanto ríspida, admito.
Mas já despachei uma nova mensagem. Desta vez, ele
não terá como negligenciar suas obrigações contratuais.
silêncio que se seguiu foi súbito e aterrador. O
O
estrondo da mão da Rainha colidindo contra a mesa de
carvalho fez as taças de cristal vibrarem. Jungkook
estancou com o talher a meio caminho da boca.
Você é um completo inútil, Jungkook! — as palavras
—
dela foram cuspidas como veneno puro. — Eu sabia que
ele hesitaria. Como alguém poderia desejar uma pessoa
tão... descuidada com a própria aparência? Alguém
nitidamente acima do peso?
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J ungkook engoliu em seco, sentindo o rosto queimar de
vergonha sob o olhar das servas e o silêncio perturbador
de Yunho.
Precisamos desse casamento para manter a linhagem
—
e o tesouro. A sociedade espera isso, e você nos
envergonha com sua incompetência. — continuou ela, a
expressão retorcida pelo desprezo. — Saia! Se você não
consegue sequer atrair o homem que deve desposar, não
merece o conforto desta mesa. A partir de hoje, está
restrito a uma única refeição diária até que o Duque
ponha os pés neste palácio. Saia daqui agora!
príncipe levantou-se tão rápido que sua cadeira rangeu
O
contra o piso de mármore. Ele não olhou para a mãe,
nem para o irmão. Com o estômago doendo de fome e o
espírito estraçalhado, ele fez uma reverência rígida e
saiu, sentindo o peso do mundo, e de seu próprio corpo
como uma corrente impossível de quebrar.
Jungkook caminhava-se com a visão turva e a respiração
vindo em goleadas curtas e dolorosas. As palavras da
rainha ainda ecoavam na sua mente e ele nem ao menos
percebeu para onde estava ainda, apenas queria que o
chão debaixo dos seus pés se abrisse e o engolisse para
mais profundezas distantes, poupando-o de viver num
palácio que parecia mais que uma jaula para mantê-lo
preso.
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o dobrar a esquina que levava à ala leste, ele quase
A
colidiu com uma figura que carregava uma bandeja de
prata.
Vossa Alteza? — a voz era suave, tingida de uma
—
preocupação genuína que Jungkook não estava
acostumado a ouvir. E era Hoseok. O criado parou
abruptamente, os olhos castanhos percorrendo o rosto do
príncipe e notando imediatamente o tremor em suas
mãos e a palidez de suas bochechas, ainda rubor pela a
vergonha que estava sentindo.
J ungkook tentou recompor a postura, mas a armadura de
príncipe herdeiro estava se despedaçando. Ele apenas
baixou a cabeça, os fios de cabelo escondendo seus olhos
dourados que voltavam a inundar.
— Ela me mandou sair, Hoseok... — sussurrou
Jungkook, a voz falhando. — Eu não posso... eu não
posso comer. Não até o Duque chegar.
oseok olhou ao redor, garantindo que nenhum outro
H
guarda ou informante da Rainha estivesse por perto. Ele
colocou a bandeja em um aparador próximo e
aproximou-se um passo, quebrando a distância
protocolar que os separava.
19
Venha comigo, senhor. — disse Hoseok em um tom
—
baixo e firme. — Não para o seu quarto. Vamos para o
jardim interno, onde ninguém costuma ir a esta hora. O
senhor precisa respirar.
J ungkook o seguiu como uma criança perdida. Ao
chegarem à sombra de uma glicínia antiga, longe dos
ouvidos curiosos, Hoseok suspirou, sentindo o peso da
injustiça que o jovem mestre carregava.
Ela não tem o direito de fazer isso, Alteza. O senhor é
—
o futuro deste reino, não um objeto de troca. — Hoseok
disse, sua lealdade brilhando mais forte que qualquer
título. — E quanto ao que ela disse sobre... sua
aparência... — ele hesitou, escolhendo as palavras com
carinho. — A senhora Rainha enxerga o mundo através
de lentes de poder e vaidade. Ela não vê o coração que o
senhor tem. O Duque seria um tolo se não visse o que eu
vejo todos os dias.
J ungkook soltou um riso amargo, limpando o rosto com
a manga da túnica luxuosa.
— O Duque já me odeia através de uma carta, Hoseok.
Imagine quando ele me vir e perceber que a Rainha tinha
razão? Que eu sou apenas um fardo lento e pesado?
20
oseok cruzou os braços, uma centelha de teimosia no
H
olhar.
— Então provaremos que ele está errado. Mas o senhor
não vai passar fome. Eu darei um jeito. A Rainha manda
na mesa principal, mas eu conheço cada entrada da
cozinha e cada cozinheiro que prefere a sua bondade à
tirania dela.
Pela primeira vez naquele dia interminável, o aperto
lancinante no peito de Jungkook cedeu, desfazendo-se
em um alívio lento e compassado. Ele soltou o ar que
nem percebera estar retendo, um suspiro trêmulo que
ecoou suave pelas paredes frias do aposento.
lealdade de Hoseok, o servo mais antigo de sua mãe,
A
era um apoio em meio ao caos. Naquele momento, era a
única coisa que o impedia de desmoronar, o único fio de
sanidade que sustentava sua postura enquanto o mundo
ao redor parecia ruir. No entanto, o silêncio do lugar era
terreno fértil para a paranoia. Sua própria mente, como
um carrasco silencioso, tentava trapaceá-lo; sussurrava
que cada passo dado até ali fora um erro estratégico e
que o plano para contatar o Duque não passava de um
castelo de cartas, prestes a desabar ao menor sopro de
uma traição ou de um deslize fatal.
21
Capítulo 3
“Ao Príncipe Jungkook Léandre Solenne
Herdeiro de Seravelle,
Confesso, com a sinceridade que nos falta, que foi uma
surpresa ler uma missiva tão afiada. Por um instante,
não li as palavras de um herdeiro, mas o rugido do
futuro Rei de Seravelle. É revigorante, quase catártico,
sentir o desespero destilado em cada linha; senti até um
"pequeno" arrepio com o vosso desfecho. Esplêndido,
meu jovem. Realmente esplêndido.
ontudo, algo me causou espécie: a facilidade com
C
que Vossa Alteza pronuncia palavras como traição e
covardia. Talvez esse odor de deslealdade que tanto
incomoda seu olfato real não emane das minhas vestes,
mas dos próprios corredores que o cercam. Já parou
para considerar que o traidor raramente é aquele que se
retira, mas aquele que permanece sorrindo ao seu lado?
S ua arrogância – embora petulante – carrega um
ultimato que não posso ignorar. Não pelo temor da sua
"caneta" ou pelo alcance dos braços da Coroa, mas
porque detesto dívidas pendentes, especialmente quando
22
o cobrador demonstra, pela primeira vez, possuir uma
língua tão afiada e atrevida.
Você exige minha volta? Pois bem. Guarde suas
ameaças de tinta e reações irreversíveis; elas soam
como música dramática para um teatro vazio. Eu
voltarei. Mas não se engane, Pequeno Príncipe: não
retorno para me ajoelhar diante de uma criança que
brinca de cetro e coroa. Volto para testar se o homem
que escreveu esta carta é capaz de sustentar o peso da
coroa quando for colocada em sua cabeça.
Prepare os aposentos da ala norte. E, por favor, peça
que limpem o trono. O pó da negligência é o único odor
que realmente me ofende, e pretendo não encontrá-lo ao
chegar.
Com a lealdade que o seu novo tom exige
Grã-Duque de Orléans.”
Jungkook mantinha a mão sobre a boca, o peito subindo
e descendo em um choque eletrizante. Ele releu cada
linha, sentindo o ácido do deboche do Duque queimar,
mas, estranhamente, o sabor era de vitória. O texto
exalava uma arrogância perigosa, sim, mas trazia o que
ele mais precisava: a rendição.
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le soltou o papel sobre a mesa de carvalho e, num
E
impulso que a etiqueta real jamais permitiria, deu alguns
pulos, rodopiando pelo quarto. Era uma dança solitária
de comemoração; ele havia domado a fera com uma
caneta. Com um suspiro alto e um sorriso que iluminava
o rosto, ele disparou pelo corredor. Precisava anunciar
seu triunfo. O Palácio teria que estar impecável; a
"negligência" que Orléans tanto citara não encontraria
morada ali.
o entanto, ao se aproximar da biblioteca, o som de
N
vozes familiares o fez frear bruscamente.
Yunho, você está me ouvindo? — a voz da Rainha,
—
sempre polida e fria, ecoou pelo corredor.
J ungkook parou, a mão já estendida para tocar a
maçaneta entalhada. Ele ia entrar e comunicar sobre o
assunto, mas as palavras seguintes congelaram o sangue
em suas veias:
Estou torcendo para que seu irmão não consiga fazer
—
o Duque vir para Seravelle. — continuou ela, com um
tom de desdém. — Ele nunca conseguirá isso. É uma
tarefa para homens, não para uma criança esperançosa.
Se nem a nós aquele homem respondeu, por que daria
ouvidos ao Jungkook?
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J ungkook inclinou a cabeça para o lado, o sorriso
desaparecendo como uma chama extinta pelo vento. Em
que momento eles haviam entrado em contato com o
Duque pelas suas costas? E por que desejavam o seu
fracasso tão fervorosamente?
peso da coroa, que ele achava ter dominado na carta,
O
pareceu subitamente real e esmagador. Ele deu passos
silenciosos para trás, sentindo o tapete abafar sua
retirada, até avistar Hoseok parado ao pé da escadaria.
J ungkook endireitou a postura. O brilho de alegria no
olhar foi substituído por uma frieza vítrea, herdada
talvez daquela mesma linhagem que acabara de
subestimá-lo.
Hoseok. — chamou. — Dê um recado à Rainha e ao
—
meu irmão. Avise-os que o Duque de Orléans está
retornando. Ele se instalará no Palácio e permanecerá
aqui como meu convidado de honra até a cerimônia do
casamento. — Jungkook fez uma pausa, com os olhos
fixos na porta da biblioteca. — E diga a ela que, desta
vez, o Duque se deu ao trabalho de responder.
Hoseok, mesmo sem entender o porquê o príncipe
herdeiro havia falado aquilo para a rainha, assentiu,
curvando-se e se apressou em passos, sumindo pelo
corredor
25
Jungkook, no entanto, sequer notou a fuga. Seus passos
eram pesados, o eco das botas de couro no mármore
soando como um metrônomo melancólico. Suas íris,
outrora um dourado vibrante, agora assemelhavam-se ao
ouro velho, oxidadas pela exaustão e pelo rancor que
nutria pelas palavras da Rainha.
m mês de diplomacia silenciosa, de palavras medidas e
U
noites em claro trocando correspondências com o Duque
Orléans, e tudo o que recebia era o desdém materno. A
fome, uma companheira constante e indesejada, deu uma
pontada aguda em seu estômago. O jejum forçado pela
rainha era uma tortura estética que não surtia efeito;
Jungkook sentia que seu corpo não estava emagrecendo,
mas sim definhando por dentro, pois havia engordado
mais uns kilos. Isso o fez se questionar. Se comia
engordava, se não comia engordava também. Ele era um
caso perdido.
o mudar o curso para a ala leste, o aroma de pão
A
recém-assado e alecrim agiu como um guia. Quando
entrou na cozinha real, o riso que escapou de seus lábios
foi seco, quase incrédulo pela ironia de buscar conforto
no único lugar que lhe era proibido.
26
Meu jovem! Pensei que não viria hoje. Sente-se logo.
—
— A voz de Seokjin era como veludo, vibrante e
acolhedora.
cozinheiro real remexia um caldeirão de cobre, mas
O
seus olhos atentos não perderam a entrada do príncipe.
Seokjin era uma anomalia fascinante; como uma fênix,
ele carregava uma juventude eterna que beirava o
sobrenatural. Cada vez que o ciclo se renovava, ele
parecia herdar uma beleza ainda mais vívida, o que o
tornava uma lenda viva entre as paredes do castelo.
Está com uma aparência abatida, Alteza. Seus olhos
—
entregam o que sua postura tenta esconder. — continuou
o homem, limpando as mãos em um avental imaculado
antes de deslizar uma caneca de chá de camomila morno
para a frente de Jungkook.
Eu não durmo há semanas, Jin… — Jungkook
—
confessou, desabando na cadeira de madeira rústica da
mesa dos empregados. Para ele, aquela mobília simples
era mais honesta que o trono de ouro. — Estive ansioso
pela resposta do Duque. Mas o silêncio dele é menos
doloroso do que o barulho das críticas da minha mãe.
le olhou ao redor, garantindo que as portas estivessem
E
fechadas. Naquele santuário de temperos, Jungkook não
era o herdeiro perfeito, mas um jovem faminto por
27
comida e por um pouco de compreensão. Seokjin,
percebendo a urgência no olhar do príncipe, já cortava
uma fatia generosa de torta de carne, escondendo-a sob
um pano de prato para que, caso algum guarda entrasse,
o pecado da "gula" permanecesse um segredo entre o
príncipe e sua fênix.
Mas o Duque lhe respondeu? — Seokjin indagou, os
—
olhos brilhando com uma curiosidade astuta enquanto se
inclinava sobre o balcão de madeira. Havia uma
ansiedade palpável no ar; a volta de um Orléans a
Seravelle era um evento que poderia abalar as fundações
do reino, especialmente considerando que o Duque
partira anos atrás jurando jamais retornar à sombra da
família real.
J ungkook suspirou, o vapor do chá subindo e embaçando
sua visão por um instante.
— Ele respondeu... se é que se pode chamar aquilo de
resposta. — O príncipe apertou a porcelana da xícara
entre os dedos. — Escreveu com uma ironia cortante, um
deboche que transborda pelas entrelinhas. Ele se mostra
um lorde de índole duvidosa e um humor ácido que irrita
minha mente. Confesso, Jin... me preocupa que tipo de
companheiro ele será.
28
pensamento de dividir a vida, o leito e o trono com um
O
homem que parecia desprezar a própria instituição da
monarquia fazia a espinha de Jungkook gelar.
— Eu nunca esperei um casamento por amor... —
sussurrou, a voz arrastada pelo cansaço, quase
fundindo-se ao estalar da lenha no fogão. — Fui treinado
a vida inteira para ser um peão político, uma aliança de
carne e sangue. Mas esperava, ao menos, alguém que
não me olhasse como se eu fosse um erro a ser corrigido.
le levou um pedaço generoso da torta à boca. O sabor
E
do recheio suculento derreteu em sua língua, enviando
uma onda de energia imediata pelo seu corpo. Por um
breve segundo, a fome de semanas deu lugar a um
conforto quase pecaminoso. O rosto de Jungkook ganhou
um rubor mais vivo, a vitalidade retornando aos poucos
enquanto ele mastigava com uma urgência silenciosa.
eokjin o observava com uma mistura de pena e
S
admiração. O cozinheiro limpou uma mancha imaginária
na mesa, aproximando-se como quem compartilha um
segredo de estado.
Acredito que o Duque não seja um homem tão ruim,
—
Alteza... — disse ele, a voz baixa e melódica, embora o
ceticismo dançasse em seu olhar. Ele sabia que em
Seravelle, "bom" era um conceito relativo. — Mas
29
escute bem: ele não fará nada contra o senhor. Vossa
Alteza sabe lutar, possui uma inteligência que muitos
generais invejariam e tem o poder de fazer qualquer um
se ajoelhar perante o seu domínio. Não se menospreze
dessa maneira por causa de um homem que vive no
exílio.
eokjin sorriu, um brilho travesso e perigoso surgindo
S
em suas íris, lembrando a Jungkook que as fênix podiam
ser belas, mas também eram feitas de um fogo perigoso
quando queriam.
E se esse Duque tentar qualquer coisa contra o meu
—
Senhor... — o cozinheiro tocou levemente o ombro do
príncipe, transmitindo um apoio sólido. — Eu mesmo
prepararei um chá especial para ele. Uma mistura de
ervas esquecidas que o fará dormir por um tempo longo
o suficiente para o senhor decidir o que fazer com o
corpo. Ninguém mexe com quem eu alimento.
J ungkook soltou um riso genuíno, o primeiro em dias. A
ideia de Seokjin envenenando um Duque com a mesma
elegância com que preparava um banquete era
estranhamente reconfortante.
— Seremos punidos caso faça isso? — Jungkook
perguntou, o tom divertido dançando em sua voz,
embora o brilho em suas íris douradas sugerisse que a
30
ideia o agradava muito mais do que a moralidade deveria
permitir. Havia um prazer quase proibido em imaginar o
lorde arrogante caindo em um sono profundo bem no
meio de um de seus discursos ácidos.
eokjin soltou um riso curto, voltando a mexer seu
S
caldeirão com uma elegância que escondia a força de
séculos.
Só o tempo nos daria essa resposta, meu senhor. E,
—
francamente, o tempo é a única coisa que eu tenho de
sobra. — o cozinheiro piscou, uma alusão silenciosa à
sua natureza de fênix. — Mas um crime só é punido se
houver uma testemunha... e duvido que o Duque consiga
prestar depoimento enquanto sonha com campos de
lavanda.
semblante de Seokjin, no entanto, suavizou-se
O
rapidamente, tornando-se protetor. Ele empurrou o prato
de cerâmica um pouco mais para perto do príncipe, como
se o gesto pudesse protegê-lo do mundo exterior.
Agora coma, Alteza. Coma com gosto e rapidez,
—
antes que os passos pesados da guarda ou o perfume de
jasmim da Rainha comecem a rondar estes corredores à
sua procura.
31
J ungkook não precisou de um segundo convite. Ele
concordou com um aceno vigoroso, focando toda a sua
atenção na torta. Cada garfada era um ato de rebeldia.
Ele sabia que aquela provavelmente seria a sua única
refeição verdadeira do dia, já que sua mãe, a Rainha,
parecia decidida a usar a fome como uma ferramenta de
disciplina para moldar o corpo e a vontade do filho ao
seu bel-prazer.
A satisfação física de uma refeição real, ainda que
clandestina, trouxe a Jungkook uma clareza mental que
ele não experimentava há dias. O calor da torta de
Seokjin parecia ter lubrificado as engrenagens de seu
raciocínio, substituindo o nevoeiro da fome por uma
determinação afiada. Ele se levantou, limpando
discretamente os farelos de sua túnica de seda, e lançou
um olhar de profunda gratidão ao cozinheiro.
Se o mundo soubesse que o futuro de Seravelle é
—
decidido entre o fogão e a mesa dos servos, as guerras
seriam resolvidas com banquetes, Jin. — murmurou o
príncipe, com um meio sorriso que raramente mostrava
aos nobres.
O estômago vazio é o pior conselheiro de um rei,
—
Alteza. Lembre-se disso quando a coroa pesar. —
respondeu Seokjin, curvando-se com uma elegância que
nenhum treinamento de etiqueta conseguiria replicar.
32
J ungkook saiu da cozinha com passos leves, evitando as
patrulhas da guarda real que trocavam de turno nos
corredores principais. Ele conhecia cada passagem, cada
sombra projetada pelas tapeçarias seculares que
narravam as glórias de seus antepassados. Ao chegar à
ala norte, o silêncio era absoluto, interrompido apenas
pelo estalar ocasional da madeira das portas maciças. Ele
entrou em seus aposentos, trancando a porta com um
suspiro de alívio.
quarto era vasto, decorado com tons de azul profundo
O
e ouro, mas para Jungkook, naquele momento, parecia
uma cela luxuosa. Ele caminhou até a escrivaninha, onde
a luz da lua começava a se filtrar pelas janelas altas. O
tinteiro de prata brilhava.
le sentou-se, sentindo o peso da responsabilidade
E
esmagar seus ombros. Pegou a pena, mergulhou-a na
tinta negra e começou a escrever, a caligrafia firme
escondendo a agitação interna.
“Ao Grã-duque Orléans,
Escrevo para agradecer por ter tomado a atitude
correta. Por mais que eu tenha agido de modo ríspido e
preciso, eu tinha que colocar meu poder para que
cumprisse com o seu dever. Sua relutância em retornar a
33
Seravelle é compreensível, dado o histórico de nossa
linhagem, mas sua ausência não seria mais tolerada
pelas necessidades do Estado...”
J ungkook parou. A ponta da pena pairou sobre o papel,
deixando uma gota de tinta cair e manchar o pergaminho
fazendo com que um borrão se formasse. Ele leu as
palavras e sentiu um gosto amargo na boca. "Atitude
correta"? "Poder"? "Dever"? Ele estava soando
exatamente como sua mãe, a Rainha. Estava
agradecendo a um homem por aceitar uma união que
ambos, no fundo, pareciam desprezar. Estava implorando
por atenção sob o disfarce de autoridade.
— Que patético. — sibilou para si mesmo.
om um movimento brusco de frustração, ele arrancou a
C
folha, amassando-a entre as mãos até que o papel
estalasse. Arremessou a bola de pergaminho em direção
à lareira apagada e largou a pena. O silêncio do quarto
tornou-se sufocante.
le caminhou até a cama monumental, desfazendo-se da
E
túnica pesada e deitando-se sobre os lençóis de linho.
Olhando para o teto abobadado, onde afrescos de deuses
antigos observavam a humanidade com indiferença,
Jungkook permitiu-se flutuar no pensamento de seu
futuro. Rei. Marido. Soberano. Palavras que deveriam
34
significar liberdade, mas que para ele soavam como
sentenças de prisão perpétua.
Como seria o rosto de Orléans após todos esses anos? O
humor ácido que ele demonstrara nas cartas seria uma
arma ou um escudo? Pensava, enquanto o sono, enfim, o
vencia, o abraçando de modo leve e suave.
a manhã seguinte, o Reino de Seravelle não acordou
N
com o canto dos pássaros, mas com o grito dos
jornaleiros e o rufar de tambores nas praças principais. O
jornal oficial da coroa e da sociedade, ambas em
conjuntas, circulava com uma tinta ainda fresca, quase
manchando as mãos de quem a pegava, mas era uma
notícia tão gratificante e chocante, que as pessoas ao
menos ligava, pois isso, mudaria o destino do reino e de
todos que viviam por ali.
É com um misto de assombro e júbilo que esta
informante anuncia aos cidadãos de Seravelle: as névoas
do exílio finalmente se dissiparam. Após anos de uma
ausência que muitos julgavam definitiva, o Grã-duque
Orléans, herdeiro das terras de Aurenval, foi avistado ao
amanhecer cruzando a fronteira marítima em sua
embarcação de carvalho negro.
ontes próximas ao palácio confirmam que o retorno
F
não é meramente uma visita de cortesia. Rumores que
35
antes eram sussurrados nos corredores agora ganham
força de lei: o Duque retorna para selar a aliança
definitiva com a Coroa. O príncipe herdeiro, Jungkook,
cujos esforços diplomáticos foram fundamentais nesta
negociação, prepara-se para o encontro que definirá o
século.
Duque, conhecido por sua personalidade impetuosa
O
e intelecto afiado, traz consigo não apenas sua guarda
pessoal, mas a promessa de uma estabilidade que o reino
há muito ansiava. No entanto, o povo pergunta: o que
mudou no coração do homem que jurou nunca mais pisar
em solo real? Seria o dever, ou algo mais profundo que o
trouxe de volta?
As celebrações estão previstas para começar assim que
a carruagem ducal cruzar os portões da capital. Que os
deuses protejam esta união, pois o destino de Seravelle
agora caminha sobre o fio de uma espada... ou sobre o
altar de um casamento.
notícia se espalhou como fogo em palha seca. Nas
A
tabernas, os homens apostavam sobre quanto tempo o
Duque suportaria a etiqueta da corte. Nas cozinhas,
como a de Seokjin, o burburinho era sobre o banquete de
recepção. Mas no quarto do príncipe, quando o jornal foi
deslizado por baixo da porta por um servo silencioso,
36
Jungkook acordou com o som do papel raspando no
chão.
le se levantou, o coração batendo ainda mais rápido,
E
fazendo a sua respirar doer ao respirar. Pegou o jornal,
leu a manchete e sentiu um arrepio que não era de frio. O
Duque estava aqui. A realidade não era mais feita de
cartas trocadas na calada da noite ou de frustrações
jogadas no lixo.
jogo havia começado. E desta vez, Jungkook não tinha
O
certeza se era o jogador ou a peça sendo movida no
tabuleiro.
le olhou para o espelho, ajustando a postura. O príncipe
E
abatido da noite anterior precisava morrer. No lugar dele,
o futuro Rei de Seravelle precisava emergir, mesmo que
por dentro ele ainda sentisse o vazio da fome e a dúvida
de um jovem que nunca teve a chance de escolher o
próprio caminho.
Que venha o Duque. — murmurou ele para o reflexo,
—
enquanto o som dos canhões do porto anunciava,
oficialmente, que a paz de Jungkook havia chegado ao
fim.
37
Capítulo 4
O vento que Seravelle emanava era forte ao ponto de
fazer os olhos de qualquer um lacrimejar e os cabelos
platinados do Duque Orléans que brilhava quase como
um líquido prateado, ser totalmente bagunçados com os
fios desgrenhado, que levou horas para deixar um
penteado perfeitamente alinhado.
O Duque apertou os olhos, encarando a estrutura
massiva do castelo do futuro marido com um desprezo
que mal conseguia camuflar. Ele sentiu o impulso de
revirar os olhos, mas se limitou a um suspiro pesado
quando Taehyung desceu da carruagem para se postar ao
seu lado.
Taehyung não estava ali apenas pelo dever de
acompanhar o nobre, mas ele conhecia bem o seu amigo
de longa data e pelo olhar do Orléans, entendia que
aquela visita, no Reino a qual ele nem ao menos gostava.
Não tinha nada a ver com teor romântico ou desejo
explícito de se casar com o príncipe herdeiro.
— Esse lugar é maior do que eu imaginava. — comentou
o servo de cabelos acobreado, ajustando o casaco em si,
já incomodado com o calor que fazia no lugar.
38
Totalmente diferente de Aurenval que era fresco, quase
beirando ao frio de inverno.
— Um lugar perfeito para o dono que o possui, eu
presumo. — Orléans respondeu com a voz carregada de
um sarcasmo.
O Duque realmente não tinha a menor intenção de subir
ao altar e casar-se com o príncipe, embora, fosse o
movimento político correto de ser feito há anos. Ele
detestava sentir-se como uma peça de jogo de tabuleiro
tendo que seguir de modo a risca. Mas, enquanto relia
aquela maldita missiva em seu escritório, entre um
documento de fazendeiro e outro, algo no tom do
Príncipe despertara seu lado mais sombrio.
le queria ver até onde aquela pose impecável do
E
herdeiro aguentaria. Queria levá-lo ao limite, ao inferno
se fosse preciso, só para ter o prazer de ver Jungkook
perder a compostura e implorar pelo fim daquele
noivado sem sentido.
o cruzar os portões do palácio, o Duque soltou um
A
suspiro pesado, bagunçando os fios de cabelo com
impaciência enquanto a recepção real se organizava. Foi
quando Jungkook surgiu, usando uma rouoa em seda
azul-claro e branco, detalhes em dourado reluzindo sob
as luzes, o cabelo alinhado com uma perfeição irritante.
39
Os olhos dourados do Príncipe varreram a comitiva,
buscando o homem com quem trocara cartas durante
todo o último mês.
entindo o peso dos olhares da corte sobre si, o Duque
S
inclinou-se levemente para o lado, sussurrando apenas
para seu servo de confiança que caminhava logo atrás:
Vamos logo, Taehyung. — a voz do Duque soou mais
—
impaciente do que ele esperava, irritado com aquela
presença toda apenas porque ele havia retornado. —
Estou me sentindo um veado pronto para ser caçado por
essas pessoas. Olham para mim como se eu fosse um
pedaço de carne no prato deles.
Taehyung concordando, atento aos passos do seu senhor,
manteve a sua expressão o mais neutra que conseguia
assim como o seu cargo exigia, mas aos seus olhos,
observava cada pessoa que olhava com curiosidade para
o Duque de Aurenval.
Duque de Orléans, é um prazer tê-lo finalmente em
—
meu palácio. — a Rainha o saudou. O sorriso que
moldava seu rosto era impecável, fruto de décadas de
etiqueta, mas não alcançava seus olhos, permanecendo
como uma máscara perfeitamente ensaiada.
40
Confesso que mantínhamos certo ceticismo quanto à
—
sua chegada. — interveio Yunho, executando uma
reverência polida, porém rígida. — Mas vejo que os
rumores, desta vez, foram precisos. O senhor realmente
cruzou a fronteira.
Duque retribuiu o gesto com uma elegância calculada,
O
uma inclinação de cabeça que demonstrava respeito, mas
não submissão. Alguns passos atrás, Hoseok permanecia
como uma sombra vigilante, observando de soslaio o
Príncipe Herdeiro descer os últimos degraus da
escadaria. O som das botas de couro contra o mármore
ecoava pelo salão, pontuando o silêncio tenso.
Jamais ousaria recusar um chamado do Príncipe
—
Herdeiro. — respondeu o Duque, sua voz carregada de
um barítono aveludado. — Ele foi... surpreendentemente
convincente nas cartas que trocamos. Possui uma
retórica que poucos de sua linhagem demonstraram até
hoje.
o dizer isso, o Duque ergueu o olhar, encontrando os
A
olhos do mais jovem. O Príncipe o encarava de volta
com uma frieza cortante. Diferente da Rainha ou de
Yunho, ele não se dava ao trabalho de fingir uma euforia
diplomática ou de vestir o sorriso de boas-vindas. Ele era
a única nota de honestidade naquele mar de falsidades:
41
um anfitrião que parecia pronto para o combate, e era
justamente essa crueza que fascinava o Duque.
m sorriso de canto quase traiu os lábios de Orléans. O
U
silêncio prosseguiu após a declaração do Duque. O
Príncipe Herdeiro, terminou a sua descida e parou a
exatos três degraus de distância do convidado, uma
posição que lhe garantia uma sutil superioridade física,
mantendo-os olho no olho.
Palavras são ferramentas perigosas, Vossa Graça. — a
—
voz calma do príncipe soou pelo ambiente, fazendo com
que todos ficassem em silêncio ouvindo-se, apenas a
respiração. — Algumas são usadas para construir pontes,
outras para cavar sepulturas. Fico satisfeito que tenha
interpretado as minhas como um convite, e não como
uma advertência.
A rainha teve que cumprir os lábios em um gesto que
quase passou despercebido e ela estava sentindo-se
incomodava com o pequeno atrevimento do seu filho e
da falta de educação que estava tendo com o seu futuro
marido. Yunho, percebendo o desconforto da soberana,
deu um pequeno passo a frente, tentando suavizar o
clima que havia se instalado.
— O príncipe sempre foi conhecido por suas palavras
belas. Creio que a troca de cartas, fez os dois se
42
aproximarem bastante. — Disse o Yunho com as mãos
entrelaçadas nas costas, Jungkook arqueou uma
sobrancelha sutilmente, estranhando aquele
comportamento vindo de seu irmão. — Mas não
deixemos que a política estrague o clima, antes da
refeição ser servida. O Duque deve estar exausto da
viagem. As estradas do norte não são gentis com quem
as percorre com pressa.
A vossa graça desviou o olhar para o príncipe herdeiro
que continuava com o olhar no Yunho. Um olhar
indescritível, mas o homem que acabará de chegar. Sabia
que o de cabelo dourado o encarava daquela maneira
pela a peça de teatro que estava sendo assistida, cujo
final qualquer um já sabia bem.
O cansaço é um luxo que homens na minha posição
—
raramente podem se dar, Príncipe Yunho. — respondeu o
Duque, voltando sua atenção total para o Príncipe
herdeiro. — Além disso, a urgência contida na caligrafia
de Vossa Alteza agiu como um tônico. Eu não poderia
me permitir o atraso de uma única noite de sono sabendo
que o futuro de nossas fronteiras pendia por um fio de
tinta.
Taehyung, que até então permanecia atrás do seu senhor.
Mostra-se quando dá um passo à frente, ficando ao lado
de Jimin, que sorriu de canto quando seu amigo, mostrou
43
que ele não havia vindo sozinho para o meio da cova dos
leões.
Perdoe-me a minha falta de educação. Esqueci-me
—
completamente de apresentar o meu guarda pessoal. —
disse o Duque, com um sorriso que beirava a perfeição
diplomática, embora seus olhos brilhassem com uma
astúcia discreta. — Este é o Lorde Taehyung. Ele me
acompanhará durante esta estadia, zelando por minha
segurança até que todos os termos sejam devidamente
oficializados. Espero sinceramente que a presença dele
não seja um incômodo para a vossa corte.
Jungkook, descendo as escadas definitivamente e se
pondo ao lado da rainha, sentiu-se travar o maxilar e o
impulso de cruzar os braços sobre o peito e demonstrar a
sua óbvia insatisfação era grande. A impertinência do
Duque era audaciosa, passando por cima de qualquer
protocolo, aliás, o homem de cabelos platinados não
havia avisado sobre um convidado a mais com ele e
agora tendo que ficar em seu Palácio.
Capítulo 5
— Receio que não deveria estar aqui desacompanhado,
Alteza. Por acaso anda me seguindo? — O Duque
44
perguntou sem se virar. Ele permanecia de costas para o
príncipe herdeiro, os olhos fixos no espelho d'água do
lago, uma jóia escondida sob a guarda do jardim extenso
e sombrio. — Sua reputação poderá ser maculada. O fato
de estarmos prometidos um ao outro não lhe concede o
direito de buscar minha companhia a sós, em um jardim
isolado e a esta hora da noite.
Príncipe soltou um riso curto, desprovido de humor,
O
enquanto terminava de encurtar a distância entre eles.
Ele cruzou os braços sobre o manto de seda pesada que
envolvia seu corpo, protegendo-o do sereno.
Deveria se preocupar mais com a própria reputação
—
do que com a minha, Vossa Graça. Creio que já notou
que não é exatamente uma figura bem-vinda em
Seravelle. — alfinetou o herdeiro, com o tom cortante.
— A sociedade tem a memória longa, e suas juras de que
jamais voltaria a pisar nestas terras ainda ecoam pelos
salões. Sua volta é vista como uma derrota, não como
um triunfo.
inalmente, o Duque virou-se. O rosto, banhado pela luz
F
pálida, exibia uma expressão de tédio meticulosamente
ensaiada.
Se minha presença lhe causa tal desconforto social,
—
devo colocar a culpa em Vossa Alteza, então? — rebateu,
45
dando um passo lento em direção ao Príncipe. — Quem
forçou meu retorno foi o senhor, com suas exigências
incessantes e cobranças de obrigações contratuais que eu
preferia esquecer. Se tivesse tido a decência de arranjar
qualquer outro infeliz para subir ao altar, acredito que
ambos estaríamos desfrutando de uma noite muito mais
agradável... e devidamente distantes um do outro.
A mandíbula de Jungkook travou com tanta força que
um pequeno músculo em seu rosto saltou. Seus olhos,
banhados em um dourado, faiscavam enquanto ele
tentava perfurar a máscara de serenidade do homem à
sua frente. O Duque de Orléans, no entanto, era uma
estátua; sua expressão era de uma naturalidade irritante,
uma calma que beirava o escárnio.
Você é prepotente, irritante e insuportavelmente
—
egocêntrico! — as palavras de Jungkook saíram afiadas.
O Príncipe Herdeiro passou a mão pelos fios loiros,
desgrenhando a perfeição real em um gesto de puro
estresse. Ele desviou o olhar para o lago, onde o reflexo
da lua dançava na água negra. — Como ousaram propor
um casamento entre nós? Você é... desagradável. Não me
encare com esse sorriso de lado.
J imin deu um passo à frente. O som de suas botas no
cascalho parecia ensurdecedor no silêncio do jardim.
46
Onde foi parar aquele homem de palavras afiadas,
—
Alteza? — a voz do Duque era um barítono aveludado,
carregado de deboche. — Onde está o regente que
ameaçou confiscar meu título e minha fortuna se eu não
retornasse para desposá-lo?
le encurtou a distância, forçando Jungkook a recuar. O
E
coração do príncipe martelava contra seu peito.
Vamos lá, demonstre sua garra! — Jimin provocou,
—
os olhos esbranquiçados brilhando com um desafio
perverso. — Ou sua coragem só se manifesta quando
você está segurando uma pena de escrever atrás de uma
escrivaninha de carvalho?
insulto atingiu o alvo. Jungkook abriu a boca para
O
retrucar, mas o chão úmido sob suas botas cedeu. O
mundo inclinou-se violentamente. Ele soltou um suspiro
curto, os braços tateando o ar enquanto seu corpo pendia
sobre a margem. Ele fechou os olhos com força,
esperando o choque térmico da água gelada contra suas
costas.
O impacto nunca veio.
m vez disso, dedos fortes, braços e músculos cobertos
E
de veias pulsantes, envolveram seu antebraço, e um
braço firme circulou sua cintura, puxando-o para o eixo
47
de equilíbrio. O calor do corpo de Jimin emanava através
das roupas finas, um contraste brutal com a brisa
noturna. Jungkook abriu os olhos, a respiração presa na
garganta, encontrando o rosto do Duque a centímetros do
seu.
Obrigado... — Jungkook sussurrou, o peito subindo e
—
descendo de forma errática. Jimin o sustentou por mais
um momento, tempo suficiente para que Jungkook
pensasse ter visto um lampejo de algo humano naqueles
olhos frios. Mas o momento quebrou.
Vossa Alteza não é absolutamente nada do que eu
—
esperava. — declarou Jimin com um desdém explícito
demais em seu tom. Ele revirou os olhos e, com um
movimento brusco e deliberado, soltou o aperto.
grito de Jungkook foi abafado pelo som ensurdecedor
O
da água. O corpo do príncipe mergulhou no lago, o frio
penetrando seus ossos instantaneamente e pesando suas
roupas reais. Ele emergiu tossindo, o cabelo loiro agora
colado ao rosto, a tempo de ver as costas do Duque se
afastando em direção ao palácio.
— Homem grosseiro! Que solar! — Jungkook
esbravejou, golpeando a superfície da água com a palma
da mão. O impacto ecoou pelo jardim, enviando gotas
48
brilhantes para todos os lados, mas nada era mais quente
do que o rubor que queimava em seu rosto.
alguns metros dali, Jimin já ganhava a margem. Sem
A
sequer se dar ao trabalho de olhar para trás, ele apenas
ergueu uma mão em um tchau displicente, os ombros
sacudindo em um riso silencioso que irritava Jungkook
mais do que qualquer insulto direto. O Duque de
Aurenval sabia exatamente como desestabilizá-lo.
Isso é um desrespeito... um ultraje! — o mais jovem
—
resmungou para as ninfas de pedra da fonte ali perto,
embora sua voz soasse menos convicta agora.
le nadou até a grama com movimentos bruscos e saiu
E
da água, sentindo o peso das roupas encharcadas colarem
ao corpo. Com um suspiro pesado, ele jogou os cabelos
para trás, tentando organizar não apenas os fios rebeldes,
mas os pensamentos que Jimin propositalmente
bagunçara. Em passadas duras e pesadas, ele cruzou o
gramado em direção ao castelo, deixando um rastro
úmido e furioso pelo caminho.
Enquanto isso, no alto de uma das torres, a moldura de
carvalho da janela emoldurava uma figura imóvel.
Yunho observava cada detalhe: a irritação de Jungkook,
a elegância calculada do Duque e, principalmente, a
eletricidade que pairava no ar entre os dois.
49
le cruzou os braços, os olhos estreitados em uma
E
análise fria. O avanço, ou o desastroso descompasso,
daquela relação não era apenas um assunto de família,
era algo envolvendo a política do reino. Ele ponderou
por um instante se deveria levar a notícia imediatamente
à rainha.
Era notável a tensão que havia se formado no castelo
desde a chegada do Duque. Jungkook, resmungava a
cada passo nos tapetes de veludo, deixando a umidade
neles que daria trabalho para os serviçais depois para
secar, mas nada que importasse na mente do jovem. Ele
só conseguia pensar no Orléans e como ele era um
homem arrogante .
No alto da ala leste, onde as janelas davam para o pátio
central, o som das passadas pesadas do jovem príncipe já
havia morrido, mas o eco de sua indignação ainda
vibrava nos olhos de Yunho, que permanecia junto à
moldura de pedra, após chegar até onde sua mãe estava.
A porta da câmara real rangeu suavemente atrás dele. A
Rainha, sentada em uma poltrona de encosto alto, não
precisou se virar para saber quem entrava. O cheiro de
mirra e o tilintar das joias de ouro denunciavam sua
presença absoluta e gélida.
50
— Ele parece... enérgico hoje. — comentou Yunho, com
um meio sorriso que buscava suavizar a cena que
acabara de presenciar lá embaixo. — O Duque parece ter
um talento peculiar para testar os limites de Jungkook.
A Rainha soltou um riso curto, seco como pergaminho
velho cheio de poeira esquecido nas prateleiras. Ela
sequer levantou os olhos do bordado que segurava, mas a
agulha perfurava o linho com uma precisão agressiva.
— "Testar limites" é uma forma generosa de descrever
uma humilhação, meu filho. Jungkook é um tolo
impetuoso. Ele corre para os braços do lobo achando que
está apenas brincando de perseguição. Ele sabia o risco
que estava correndo quando decidiu o trazer de volta.
Até que meu plano deu certo, mesmo que eu tenha
achado que o Duque não viria realmente.
— Não seja tão dura, mãe. Ele é jovem. — ponderou
Yunho, aproximando-se e colocando uma mão que
pretendia ser reconfortante no ombro dela. — Talvez
essa proximidade com o Duque de Aurenval seja o que
ele precisa para amadurecer. Jimin é um homem de
mundo; há muito o que aprender com alguém de sua
estatura. Jungkook pode ganhar confiança, talvez até
uma aliança sólida que proteja nossa linhagem.
51
A Rainha finalmente olhou para cima, e seus olhos
demonstravam frieza, o que ela sentia pelo seu filho mais
novo.
— Confiança? Aliança? — Ela sibilou, a voz baixando
para um tom perigoso. — O que eu quero é que ele se
quebre, Yunho. Quero que essa "energia" se transforme
em vergonha pública. Se o Duque o levar à ruína
emocional e arrastar seu nome pela lama, Jungkook será
mais fácil de controlar, ou melhor, de descartar quando a
sucessão for finalmente selada. Deixe que Jimin o
provoque até que não sobre nada além de um rapaz
desestabilizado e sem honra.
Yunho sentiu um calafrio percorrer sua espinha, mas
manteve a expressão serena. O papel de irmão protetor e
mediador era sua melhor máscara, mesmo que o veneno
de sua mãe ameaçasse corroer qualquer boa intenção.
Enquanto as intrigas eram tecidas, Jungkook atravessava
os corredores em direção à ala norte, onde ficavam os
aposentos reais. O rosto ainda ardia, e não era apenas
pelo impacto que teve ao cair na água. Cada poro de seu
corpo parecia pulsar com a lembrança do riso do Duque.
Ao entrar em seu quarto, ele bateu a porta com força
excessiva. O silêncio do aposento parecia zombar de seu
tumulto interno. Com movimentos impacientes e brutos,
52
ele começou a se livrar das roupas encharcadas. A túnica
de seda, pesada pela água da fonte, grudava em seus
ombros como uma segunda pele indesejada e fria. Ele a
arrancou, jogando-a sem cuidado em um canto, seguida
pelas calças que pesavam quilos a cada passo.
Nu e trêmulo – de frio ou de ódio, ele não sabia dizer –
ele mergulhou na banheira de cobre que já o esperava
com água fumegante. O calor envolveu sua pele de
forma quase dolorosa, mas não foi o suficiente para
acalmar seus nervos. Jungkook se afundou até que
apenas o nariz e os olhos estivessem acima da linha da
água, observando o vapor subir.
"Grosseiro. Atrevido. Insolente"
Pensava ele, enquanto passava a esponja com força
excessiva pelo peito, tentando apagar a sensação de ter
sido diminuído. Ele fechava os olhos e via o sorriso de
lado do mais velho, a forma como o Duque parecia ler
cada uma de suas inseguranças como se fossem um livro
aberto. Por que ele permitia que aquele homem tivesse
tanto poder sobre seu humor? Ele odiava a sensação de
ser pequeno perto dele, mas, no fundo de sua mente, uma
chama perigosa se acendia toda vez que a vossa graça o
olhava daquela maneira desafiadora.
53
Alguns quartos de distância, ainda na mesma ala norte, o
ambiente era o oposto do caos emocional de Jungkook.
No aposento do Duque de Aurenval, o silêncio era
absoluto, quebrado apenas pelo estalar ocasional da
lenha na lareira pequena. Jimin estava deitado de lado
em sua cama monumental, as pernas cruzadas de forma
relaxada, a postura de quem não tinha uma única
preocupação no mundo. Ele já havia trocado suas vestes
por um roupão de seda escura, deixando o peito
parcialmente à mostra e os cabelos platinados ainda
levemente úmidos contra o travesseiro.
Em suas mãos, um livro de couro antigo repousava, mas
seus olhos não percorriam as letras há vários minutos.
Ele encarava a página, mas sua mente estava no logo,
visualizando a imagem de Jungkook batendo na água
como um animalzinho acuado e feroz, os olhos brilhando
com uma fúria que Jimin achava... adorável e ao mesmo
tempo decepcionante.
Um sorriso genuíno, muito diferente do sorriso de
escárnio que usava diante dos outros, surgiu em seus
lábios.
— Tão fácil de provocar... — murmurou Jimin para as
paredes de pedra.
54
Ele fechou o livro com um estalo seco, mas não o
guardou. Usou-o para marcar o ritmo de seus
pensamentos. O jogo com o jovem príncipe estava se
tornando muito mais interessante do que ele havia
planejado inicialmente. Enquanto Jungkook tentava lavar
a presença do Duque de sua pele na banheira, Jimin se
deleitava com a ideia de que, em breve, conseguiria tirar
aquela marra toda do príncipe herdeiro e fazê-lo desistir
ainda mais rápido dessa ideia de casamento. Sorriu,
encarando a lua, reclinar a cabeça no travesseiro,
arquitetando seu plano para amanhã seguinte.
Capítulo 6
Diante do espelho, Jungkook terminava de se vestir com
uma lentidão quase ritualística, adiando o inevitável.
Cada dobra do tecido parecia pesar toneladas sobre seus
ombros. A ideia de descer para o desjejum lhe trazia um
amargor na boca que nenhum banquete poderia aplacar.
Ele sabia que, para além daquela porta, cada olhar seria
uma balança e cada silêncio, um julgamento. Não era
uma refeição que o esperava, mas um campo de batalha
minado, onde as pessoas sentadas à mesa mal escondiam
a expectativa de vê-lo tropeçar em suas próprias
palavras.
55
— Eu não posso falhar. — murmurou para o vazio do
quarto, a voz vibrando com uma convicção que seus
olhos ainda não sustentavam. — Sou o futuro rei de
Seravelle. É meu dever ser forte, independente de
qualquer coisa.
evou a mão ao cabelo, os fios dourados deslizando
L
entre os dedos que ainda tremiam levemente. Diante do
espelho, sustentou o olhar na própria imagem, buscando
o monarca que o mundo esperava encontrar. O reflexo
devolvia uma fachada impecável: o linho pesado e os
cortes retos das roupas largas cumpriam seu papel de
artífice, camuflando com maestria as dobras cheias e as
curvas que ele considerava traições de sua própria carne.
Sob o tecido farto, o corpo que ele julgava
desproporcional estava devidamente sufocado,
escondido do julgamento alheio e, por um breve
momento, até do seu próprio.
Jungkook balançou a cabeça em negativa, tentando
espantar os pensamentos que o perseguiam, e deixou
seus aposentos. O eco de seus passos nos corredores de
pedra parecia anunciar sua chegada ao salão de refeições
muito antes de ele cruzar o umbral.
o entrar, o cenário era de uma calma quase
A
coreografada. Apenas Yunho estava presente. O irmão
mais velho exibia uma compostura invejável: o traje
56
perfeitamente alinhado, sem um único vinco, e os
cabelos negros ondulados caindo soltos sobre os ombros,
emoldurando um rosto sereno. Jungkook, por outro lado,
optara por um detalhe mais prático e simbólico naquela
manhã: tranças embutidas nas laterais de seu cabelo
loiro, mantendo os fios longe do rosto, como se estivesse
pronto para uma batalha que ainda não havia começado.
o sentar-se à mesa, o silêncio foi quebrado apenas pelo
A
som sutil da seda de suas vestes. Yunho inclinou
levemente a cabeça, oferecendo um sorriso que não
chegava a desarmar a tensão do ambiente.
Sinto que está tenso hoje, irmão. — mencionou
—
Yunho, o tom de voz tão macio quanto o veludo de suas
roupas, mas com um olhar que buscava decifrar o que
Jungkook escondia.
J ungkook não respondeu de imediato. Com movimentos
mecânicos, forrou o pano de linho sobre o colo e buscou
o copo de prata. A água gelada desceu queimando sua
garganta enquanto seus olhos se fixavam na entrada do
salão. Como se invocada pelo peso da expectativa, a
Rainha surgiu.
A porta cedeu com um estalar seco, o lamento da
madeira velha ecoando pelas paredes de pedra antes de
ela adentrar o recinto. Ela não apenas caminhava; ela
57
reivindicava o espaço. Sua aura era puramente soberana,
sendo ostentada por um vestido de veludo denso, cujas
dobras pareciam carregar séculos de linhagem.
luz da manhã, filtrada pelas altas janelas, morria e
A
renascia nas facetas das joias que a adornavam. Cada
colar em seu pescoço, cada anel cravejado, funcionava
como uma armadura de vaidade e poder. Ela era uma
mulher que exigia reverência sem dizer uma única
palavra.
ara Jungkook, entretanto, o brilho era ofuscante de uma
P
forma dolorosa. Ao observar o tilintar rítmico dos
adornos dela, ele não via apenas luxo; ele via correntes
douradas. O peso daquele vestido e a rigidez da postura
da rainha eram lembretes físicos do fardo que o
aguardava. Cada joia que reluzia no peito dela parecia
somar um quilo extra à coroa que, em breve, esmagaria
sua própria cabeça, selando um destino do qual ele não
tinha certeza se queria ser herdeiro.
— Bom dia — desejou a Rainha. A voz, destituída de
qualquer calor maternal, cortou o ar fazendo o Jungkook
prender a respiração e sentir as suas mãos trêmulas e
geladas. Mas tentou não demonstrar seus nervosismo
diante dela.
58
la sentou-se com uma elegância coreografada, que
E
aprendeu durante desde o seu nascimento, para ser uma
perfeita governante, que ela sem qualquer imperfeição! E
desdobrou o linho impecável sobre o colo. Ao seu sinal,
o servo Hoseok materializou-se ao seu lado. A presença
dele era quase invisível, uma sombra moldada pelo medo
e pela eficiência.
Quero um café bem forte, sem açúcar. E meu ovo
—
com a gema mole. — ordenou ela, a voz arrastada e
rouca carregando o peso de quem nunca foi questionada.
— Quero que a gema escorra pelo pão.
oseok curvou-se, retirando-se em silêncio absoluto. Ele
H
conhecia o protocolo: um segundo de atraso ou um grão
de açúcar a mais resultariam em punições que as paredes
do palácio preferiam esquecer e evitar que acontecesse,
pois muitos não saiam com vida dessas punições severas.
A Rainha cravou suas íris azuladas em Jungkook. O
rapaz mantinha a cabeça baixa, os dedos trêmulos
beliscando um pedaço de fruta, tentando
desesperadamente fundir-se à mobília. Ele rezava para
que o escrutínio da mãe desviasse para Yunho, mas a
Rainha já havia escolhido sua presa.
Soube por fontes confiáveis que esteve sozinho com o
—
Duque no jardim durante a noite anterior. — disparou
59
ela. O som dos talheres de prata batendo na porcelana
ecoou como um tiro. — Sabe que isso é uma atitude
imperdoável, não? Se os boatos correrem e disserem que
sua honra foi violada, ninguém acreditará na palavra de
um ser como você.
J ungkook travou o maxilar, a bile subindo pela garganta.
O ímpeto de gritar que era um homem, dono de seu
próprio destino e de seu próprio corpo, queimava em seu
peito. Mas o olhar gélido da mulher à sua frente era um
lembrete cruel: ali, ele não era um homem, era um
instrumento de linhagem.
Sinto muito... — murmurou ele, a voz pequena,
—
porém educada. — Não foi prudente da minha parte ficar
a sós com o Duque. Não voltará a se repetir.
Rainha abriu os lábios, pronta para destilar o veneno
A
que terminaria de humilhá-lo, mas o som pesado das
portas duplas se abrindo interrompeu o bote.
ar no salão pareceu mudar de densidade. Jimin entrou
O
com uma energia que desafiava a estagnação do
ambiente. Seus cabelos platinados, levemente
desalinhados pelo vento dos corredores, voaram para trás
enquanto ele avançava. A vestimenta preta com detalhes
em vinho profundo realçava a palidez de sua pele e a
autoridade silenciosa que ele carregava.
60
eus olhos cinzas, tão tempestuosos quanto o céu de
S
inverno, cravaram-se na mesa antes de encontrarem o
rosto de Jungkook. Ele executou uma reverência curta,
porém impecável, e ocupou a cadeira vazia diretamente à
frente do mais novo.
Perdoem o atraso. — disse Jimin, sua voz suave
—
possuindo um timbre que, ao contrário do da Rainha,
exigia atenção sem precisar de ameaças. — Espero não
ter interrompido um assunto... vital.
silêncio que se seguiu foi cortante, preenchido apenas
O
pelo som rítmico e doméstico do café sendo servido na
xícara de porcelana da Rainha. O tilintar da prata contra
a louça parecia ensurdecedor diante da tensão que
pairava no ar.
J imin mantinha o olhar fixo em Jungkook. Suas íris
carregavam uma mistura perigosa de curiosidade e
deboche. Para Jimin, era quase fascinante, e ligeiramente
patético, observar como um homem com o sangue que
Jungkook carregava permitia-se ser reduzido a nada por
aquela mulher. Ele buscava nos traços do Príncipe o
motivo de tamanha submissão; por que aceitar aquele
veneno destilado em forma de palavras daquela que, por
direito natural, deveria ser seu porto seguro e fonte de
afeto maternal?
61
o entanto, o que realmente aguçava o instinto de Jimin
N
não era apenas a dinâmica familiar disfuncional, mas a
escolha específica das palavras da Rainha.
“Um ser como você.”
frase ecoava como uma heresia. Era de conhecimento
A
público que Jungkook era o filho legítimo de Hélio. Em
Seravelle, o reino onde o sol nunca parecia se pôr
totalmente, a história de Jungkook já não era apenas um
registro real, mas uma lenda que corria por todos os
cantos e qualquer pessoa saiba como surgiu o seu
nascimento.
Rainha Genevieve conhecera o frio da viuvez quando
A
o sangue ainda pulsava jovem em suas veias. O Rei, seu
marido, fora levado por um infarto súbito, uma traição
do próprio corpo que deixou a coroa pesando sobre a
cabeça de uma mulher solitária e de seu filho, Yunho,
que na época mal cambaleava em seus dois anos de
idade. Foi nesse vácuo de poder e luto que o milagre, ou
a maldição, aconteceu.
izem que o próprio Deus do Sol, Hélio, desceu das
D
alturas do Olimpo, atraído pelo brilho dourado das searas
de Seravelle e pela beleza melancólica da rainha viúva.
O romance foi tão intenso quanto breve. Hélio viveu
62
entre os mortais, deixando sua essência divina impregnar
o ventre de Genevieve, para então partir bruscamente.
Ele não deixou explicações ou promessas; partiu no
exato momento em que Jungkook respirou pela primeira
vez, trazendo consigo não o choro comum de um
recém-nascido, mas o calor abrasador e as bênçãos
solares que marcavam sua linhagem divina.
as o nascimento de Jungkook foi o crepúsculo de
M
Yunho. A corte, deslumbrada pela presença de um
semideus entre eles, não hesitou em cometer o que
Genevieve considerava o maior dos sacrilégios.
Declararam Jungkook como o príncipe herdeiro por
direito divino, uma vontade que emanava do próprio
Olimpo. Com uma canetada e um selo real, o destino de
todos foram alterados. Yunho, o primogênito de sangue
real e herdeiro legítimo por nascimento, viu seu trono ser
roubado antes mesmo de ter idade para reivindicá-lo.
fúria de Genevieve queimava mais do que qualquer
A
bênção de Hélio. Ela perdera o marido para a morte e o
amante para o céu, mas o golpe final foi ver seu filho
mais velho ser rebaixado ao status de coadjuvante em
seu próprio reino. Para a rainha, Jungkook não era um
deus; era o bastardo que transformara o futuro de seu
primogênito em ruínas.
63
J imin semicerrou os olhos, captando o peso daquela
segregação. Ao chamá-lo de "ser", a Rainha não o
desumanizava apenas como filho, ela o isolava como
uma anomalia. Ela o tratava como se o poder divino que
corria nas veias do Príncipe fosse uma mancha, e não
uma herança real.
Não fazia sentido. Na lógica da corte e do panteão,
Jungkook era o ápice da linhagem: um semideus, o
herdeiro direto do sol. Aos olhos do mundo, ele era uma
divindade caminhando entre mortais, um ser de luz e
autoridade inquestionável. Por que, então, a Rainha o
tratava com a frieza de quem olha para uma mancha
incurável em um tecido de seda?
J imin sentiu um calafrio percorrer sua espinha, uma
intuição que o deboche anterior não conseguia mais
esconder. Ele percebeu que o tom da mulher não era de
superioridade comum; era o tom de quem guardava um
segredo corrosivo.
avia algo a mais ali. Algo que a Rainha sufocava sob
H
camadas de etiqueta e protocolos reais, uma verdade tão
perigosa que ela preferia odiar o próprio filho a admitir
sua natureza real.
e Jungkook fosse apenas o filho de Hélio, ele seria o
S
troféu dela, a sua maior glória. Mas o modo como ela
64
pronunciou "um ser como você" carregava um peso
abissal, uma sombra que o brilho do sol de Hélio não
deveria ser capaz de projetar.
J imin inclinou levemente a cabeça, observando as mãos
de Jungkook. Ele buscava sinais: uma centelha que não
fosse solar, um rastro de energia que não pertencesse ao
céu, mas talvez a algo muito mais antigo ou muito mais
sombrio.
Rainha não estava apenas escondendo uma linhagem;
A
ela estava tentando conter uma força que, se revelada,
poderia com certeza abalar todo o reino. O que quer que
corresse nas veias do príncipe herdeiro, além do sangue
divino, era o verdadeiro motivo daquele silêncio
esmagador à mesa. Jimin teve a certeza disso, enquanto
bebia seu chá com leite, observando tudo atentamente.
Capítulo 7
— O que tanto lhe ocupa o pensamento, Vossa Graça? —
a voz de Taehyung cortou o silêncio, suave, mas
carregada de uma curiosidade cautelosa.
le estava sentado ao lado de Jimin, sob a sombra de
E
uma macieira carregada. O vento de Seravelle,
65
conhecido por carregar o cheiro do salitre e das flores
cítricas, bagunçava os fios pretos azulados de Taehyung,
que pareciam brilhar contra o sol da tarde.
É algo que aconteceu no desjejum? — insistiu ele,
—
notando o olhar distante do amigo.
J imin não respondeu de imediato. Ele estava reclinado
no banco de madeira entalhada, a postura exalando uma
elegância aristocrática que beirava o tédio. Com um
movimento lento e calculado, estendeu os dedos curtos e
adornados por anéis de sinete, movendo um cavalo de
marfim no tabuleiro de xadrez à sua frente.
Sinto que há um fruto podre nesta família, Taehyung.
—
Mas as cascas são brilhantes e enganadoras. Ainda não
descobri qual deles está em decomposição. — O Duque
cruzou as pernas, o tecido fino de sua calça roçando na
madeira. — Eles são estranhos. Os três. Movem-se como
se estivessem ensaiando uma peça de teatro cujo roteiro
eu ainda não li.
J imin soltou um riso seco, sem humor, observando uma
maçã cair da árvore e rolar pelo gramado impecável.
Talvez o meu retorno não tenha sido o erro que
—
julguei ser. Se eu descobrir o que a Rainha tanto teme em
verbalizar... eu poderei sair disso ileso.
66
aehyung inclinou-se para frente, a preocupação
T
vincando sua testa. O vento pareceu esfriar de repente.
Isso não seria conspiração contra a Coroa? —
—
sussurrou o mais baixo que conseguia pela a gravidade
da acusação que estava fazendo, embora, fosse um
assunto entre eles dois. — Lembre-se que paredes têm
ouvidos, vossa graça. E podem muito bem acusá-lo de
traição antes mesmo que possa se explicar. Não quero
vê-lo em uma masmorra por causa de suposições que
nem sabe se é verdade.
As íris acinzentados, desviaram-se finalmente do
tabuleiro a mesa de concreto e encarou o Taehyung e
seus olhos continham um brilho de divertimento, mas
que ao mesmo tempo não demonstravam qualquer medo
do que acabara de falar sobre a família real.
— Só se torna conspiração se te descobrirem e você
perder. — ele tocou a peça do rei adversário, onde
jogava sozinho e derrubou com um peteleco indiferente.
— Ninguém acusa de traição aquele que detém um
segredo que ninguém mais o sabe. É por isso que o
conhecimento, é o poder mais forte que existe.
Taehyung, ele é o único escudo que pode funcionar
contra essa família.
67
Jimin passou os dedos pelos fios de cabelo, alinhando-os
com uma calma quase invejável por ter um autocontrole
surreal.. Pôs-se de pé e caminhou até a maçã que
repousava sobre o gramado; ao colhê-la, limpou a casca
em suas vestes de luxo com um desdém silencioso.
Girou o corpo para encarar o servo, seus olhos brilhando
com uma lucidez perversa.
Há vitórias na vida que só o jogo sujo é capaz de
—
entregar. — declarou. — Esse príncipe... ele é tão
manipulável que chega a ser uma situação trágica. É até
lamentável ter que conspirar contra alguém que se
entrega com tanta facilidade. — disse, mordendo a maçã,
com os olhos fixos no amigo, que não fez nada além de
concordar com o Duque sobre o que acabara de
constatar.
Enquanto o Duque conversava com seu servo, ainda no
jardim, que escutava tudo em silêncio; Jungkook
acelerava os passos pelos corredores do castelo. Nem ao
menos sabendo bem para onde estava indo. No
momento, só precisava se esconder e fugir daquela
conversa sobre o noivado e o Duque. Impossível, é claro.
A rainha não deixaria barato depois do jeito que ele tinha
saído do desjejum e do diálogo que havia sido
interrompido.
68
— Jungkook? — antes que o príncipe herdeiro pudesse
chegar em qualquer lugar. Seokjin surgiu de uma porta
lateral, a roupa velha manchada de farinha, as mãos
ainda sujas de massa. — Por que essa cara? Tá branco
que nem papel. — falou, com os olhos vermelhos
escuros fixos no rapaz enquanto seu cabelo avermelhado
por conta do vento.
Jungkook parou tão rápido que quase tropeçou nos
próprios pés, pelo andar rápido que vinha fazendo.
— Jin... — a voz saiu estranha, meio sem ar. — Aquela
mulher... minha mãe...
— O que foi? — Seokjin largou a tigela que estava
segurando num banco próximo e foi se aproximando
devagar, como quem não quer assustar um animal que
estava sendo caçado num jogo de tiro ao alvo. — Calma,
respira.
— Ela me odeia. — as palavras saíram desconexas, os
olhos dourados tão abertos que pareciam querer saltar. O
peito subia e descia rápido demais, a respiração curta e
ruidosa. — Ela... não quer saber o que eu penso, Jin.
Nunca quis.
69
Seokjin viu o momento exato em que Jungkook perdeu
as forças nas pernas. O corpo cambaleou para trás, as
costas encontrando a parede fria do corredor.
— Meu jovem... — murmurou, ignorando
completamente que não deveria tocar num príncipe
daquele jeito.
Aproximou-se mais devagar, e quando segurou o braço
de Jungkook sentiu o tremor. Puxou-o para um abraço
apertado, desses de avó, com cheiro de trigo e quentura
de quem acabou de mexer na massa do bolo.
Jungkook segurou a respiração por um segundo. Depois,
enterrou o rosto no ombro do cozinheiro e chorou. Sem
fazer muito barulho, sem escândalo, só os ombros
sacudindo e as mãos fechando o pano velho da camisa de
Seokjin.
— Tá tudo bem — Seokjin passou a mão nos cabelos
dele, devagar. — Tá tudo bem, meu menino.
No final do corredor, passos ecoaram. Alguém se
aproximava.
— Vem. — Seokjin soltou o abraço devagar, enxugou as
próprias lágrimas com as costas da mão suja de farinha.
70
— Meu bolo deve estar quase pronto. Me ajuda a tirar do
forno e come um pedaço comigo, sim?
Jungkook fungou, enxugou o rosto com a manga.
Acenou que sim, ainda sem conseguir falar direito, e
seguiu o cozinheiro pelos fundos do castelo. Que sorriu
ao ver o jovem o seguiu, abriu a porta da cozinha,
verificando se não havia ninguém para fazer mexericos
para a rainha ou até mesmo o Yunho.
Sentou-se o Jungkook primeiro, que olhava ao redor,
tendo a agora a sua concentração na maneira ágil do
cozinheiro, que tirou o bolo rapidamente do forno,
colocando sobre a mesa de madeira e sabendo que o
príncipe gostava de um leite morno. Foi atrás do leite
recém tirado de vaca, para oferecer ao seu senhor.
— Sabe que terá que comparecer ao evento na
Sociedade, não é? — A voz de Seokjin cortou o silêncio
da cozinha, calma, mas carregada de uma convicção que
fez o príncipe herdeiro estremecer.
J ungkook, que estava focado na refeição, sentiu o pedaço
de bolo travar na garganta. Ele engoliu com dificuldade,
o peito subindo e descendo em um espasmo seco
enquanto buscava rapidamente o copo de leite para
aliviar o sufoco. O líquido morno desceu, mas o nó de
ansiedade em seu estômago permaneceu intacto.
71
O senhor precisa mostrar que está satisfeito com o
—
noivado. — continuou Seokjin, aproximando-se e
ajustando a postura, os olhos fixos no príncipe. — Mais
do que isso: precisa provar que está pronto para ser o
governante deles. Olhe nos olhos de cada um daqueles
nobres e faça-os engolir cada palavra venenosa, cada
dúvida e cada boato que já espalharam sobre sua
capacidade.
eokjin inclinou-se levemente, baixando o tom de voz
S
para algo quase conspiratório, mas firme:
Lembre-se de quem você é. Você é o Príncipe
—
Herdeiro. A linhagem de sangue corre em suas veias,
não nas deles. E quanto ao Duque? Não importa o quão
influente ele pense que é, ele ainda lhe deve obediência.
Capítulo 8
— Jungkook! Onde você se meteu?! — o grito de Yunho
ecoou pelas paredes de pedra do corredor, carregado de
uma frustração que ele mal conseguia conter. Ele sentia a
pulsação forte nas têmporas; a rainha não toleraria
atrasos, muito menos no dia da feira anual. Era o evento
onde a família real deveria ser o símbolo da união com o
72
povo, e o herdeiro simplesmente decidira evaporar. —
Jungkook, apareça agora!
— Acredito que o príncipe herdeiro dificilmente
atenderá a tais clamores, Alteza. — e a voz fria,
perfeitamente modulada, cortou a vez do Príncipe falar,
que se silenciou no instante que ouvirá o Duque.
unho travou. No fim do corredor, o Duque surgiu como
Y
uma aparição impecável. Ele estava vestido com as cores
de sua linhagem, sem um único fio de cabelo fora do
lugar, o próprio retrato da disciplina que Jungkook
parecia desprezar.
Vossa Graça... — Yunho forçou as palavras para fora,
—
o rosto aquecendo instantaneamente. Ele se curvou de
forma breve, uma reverência que servia mais para
esconder a irritação nos olhos do que por mera etiqueta.
— Perdoe-me pelo comportamento... pouco refinado. O
estresse da hora me traiu.
A pontualidade é uma virtude escassa nesta ala do
—
castelo. — observou o Duque, aproximando-se com
passos silenciosos. Ele parou a uma distância calculada,
o olhar fixo e analítico recaindo sobre Yunho.
príncipe trincou o maxilar, sentindo o peso daquela
O
presença. O Duque mantinha os cabelos penteados para
73
trás, expondo traços severos e uma seriedade que beirava
o intimidador. Por um segundo fugaz, o pensamento de
Yunho desviou-se do irmão desaparecido para a figura
imponente diante de si. Havia algo de perturbadoramente
magnético naquela rigidez, uma força que o fez desviar o
olhar, sentindo um rubor perigoso subir pelo pescoço ao
lembrar que aquele homem era o prometido de seu
irmão, e não seu.
Com sua licença. — sussurrou Yunho, endireitando a
—
postura com uma rigidez súbita. — Preciso encontrá-lo
antes que o sol suba mais. Não queremos deixar os
fazendeiros, nem a Coroa, esperando.
O Duque apenas assentiu com um movimento
imperceptível de cabeça, observando Yunho apressar o
passo, sem saber que seus olhos ainda o seguiam pelo
corredor.
— Curioso... muito interessante. — murmurou o Duque
para as paredes vazias, um sorriso quase imperceptível
brincando no canto dos lábios.
le observou a silhueta apressada de Yunho desaparecer
E
dobrando o corredor antes de soltar um suspiro de tédio
profundo. Contendo a vontade de passar a mão no cabelo
e com uma calma que contrastava com o caos da família
real, já que na outra sala, a Genevieve faltava soltar
74
fogos pelo nariz de tanta raiva que sentia pelo atraso do
Jungkook.
Ele deslizou as mãos para os fundos dos seus bolsos da
calça onde o corte da roupa era feito sobre medidas,
sendo exclusivamente para o Duque. Seus passos eram
terrivelmente lentos, ele não tinha o porque se apressar,
embora soubesse que o evento do dia seria mais ele do
que a família real, devido a sua volta a Seravelle. Mas
isso era ignorado pelo próprio, pois ele preferia estar em
Aurenval do que naquele reino onde tudo era
perfeitamente monitorado os passos de cada pessoa que
morava ou estava hospedado naquele castelo.
Duque. Estava à sua espera, venha. — Taehyung
—
gesticulou, a voz carregada de uma leveza que
contrastava com seu desconforto físico.
le ajustou a gola da túnica, ainda estranhando a leveza
E
das sedas de Seravelle. Em Aurenval, sua terra natal, o ar
era uma presença constante: úmido, frio, gelado, o que
exigia roupas mais quentes e com pelos que podiam
aquecer o corpo. Ali, sob o sol implacável do sul,
sentia-se quase despido, exposto a uma luminosidade
que não perdoava as sombras, já que até as gotas de suor
surgiam em sua testa com o mínimo esforço que fizesse.
75
O senhor está bem? — perguntou ele, acomodando-se
—
ao lado de Jimin no estofado de couro da carruagem.
Deu dois toques curtos na madeira da porta, o sinal seco
para que o cocheiro incitasse os cavalos.
balanço inicial da carruagem trouxe consigo o silêncio
O
reflexivo de Jimin.
Estou bem, sim. — respondeu o Duque, embora seus
—
olhos estivessem fixos na paisagem que passava lá fora.
— Apenas ponderando sobre o peso deste evento. A
família real... eles se tornaram uma sombra do que
foram. Uma piada sussurrada nos corredores desde a
morte do falecido rei.
clima dentro da cabine pareceu esfriar por um instante.
O
Taehyung sentiu o peso daquelas palavras; a política era
um jogo de aparências, e as aparências em Seravelle
estavam em frangalhos.
Que os Deuses o tenham em bom descanso. —
—
murmurou Taehyung. Ele uniu os dedos em um sinal
ritualístico, beijou-os e ergueu a mão em direção ao céu,
um gesto de respeito antigo que todos tinham costume de
fazer para os que se foram.
J imin assentiu silenciosamente, um vinco de amargura
surgindo no canto dos lábios. Apesar da decadência atual
76
da coroa, ele nutria um respeito profundo e quase
melancólico pelo falecido monarca, um homem que, ao
contrário de seus sucessores, sabia a diferença entre
governar e meramente reinar.
Príncipe herdeiro? — Taehyung indagou, a voz
—
carregada de uma curiosidade que Jimin não pretendia
satisfazer.
J imin apenas rolou os olhos, um gesto desprovido de
qualquer emoção real, e cruzou as pernas com elegância.
Virou o rosto para a janela, observando os contornos da
cidade se aproximarem à medida que a carruagem
avançava em direção ao local da feira. O cenário urbano
fervilhava, mas sua mente estava presa nos corredores
frios do palácio.
Está desaparecido. — soltou Jimin, a voz cortante. —
—
O príncipe rebaixado estava esperneando pelos
corredores à procura dele, como um animal enjaulado.
Não havia sequer um sinal, um rastro de poeira. E pensar
que esse será o futuro governante destas terras... Um
homem que exige um matrimônio comigo, embora a
ideia careça de qualquer lógica.
le ajeitou a postura, sentindo o peso do tecido caro
E
sobre os ombros, e deixou que a frustração finalmente
transbordasse em seu tom de voz:
77
Somos dois homens, Taehyung. Não que o desejo seja
—
o problema, mas a linhagem é. Sabemos que ele é filho
de Hélio, o deus solar, mas o que ele carrega no sangue?
Acha que ele é capaz de gerar um sucessor? Porque eu
certamente não sou. E o reino inteiro está ciente disso.
aehyung sustentou o olhar do amigo por um momento,
T
antes de baixar o tom de voz, como se as paredes da
carruagem tivessem ouvidos.
Existem homens que podem, Jimin. A natureza é
—
mais vasta do que os editais reais permitem dizer.
Aqueles que nascem descendentes das linhagens antigas,
sereias, ninfas, fadas ou elfos... se ele carregar uma
dessas essências, as leis da biologia comum não se
aplicam a ele.
J imin voltou o olhar para o amigo, a intriga brilhando em
suas íris claras. O silêncio que se seguiu foi pesado. A
Rainha sempre fora implacável em abafar qualquer boato
sobre a árvore genealógica da família real; falar sobre
linhagens míticas era caminhar à beira de um abismo.
Se ele for um desses "híbridos" — sussurrou Jimin,
—
sentindo um calafrio que não vinha do vento da janela,
deixou a frase morrer pelo caminho. Sabia que o Palácio
78
estava escondendo algo. E isso, significava que era mais
perigoso do que a sua mente cogitou em pensar.
Capítulo 9
Duque Jimin desembarcou da carruagem com uma
O
fluidez invejável, o peso de seu título manifestando-se
em cada movimento calculado. Com um gesto sutil de
mão, dispensou o amigo.
Vá dar uma volta, Taehyung. Explore as iguarias ou
—
os tecidos. — ordenou, sem aspereza, mas com uma
autoridade que não admitia réplicas. — Preciso caminhar
sozinho. O ar da carruagem ficou subitamente difícil de
respirar. Preciso pensar um pouco.
Naquele instante a única coisa que Jimin precisava era
de um espaço para pensar no que a sua mente havia
raciocinado, pensar que o Jungkook podia ter uma
linhagem híbrida correndo pelas veias do herdeiro não
era uma fofoca que se espalharia pelo corredor do
castelo, embora, o Duque achasse que ninguém daquele
lugar soubesse a verdade sobre o Léandre. Se isso fosse
vazado, os jornais de todas as partes poderiam falar que
era uma rachadura na coroa ou até mesmo chamá-lo de
defeituoso por ser uma falha.
79
Uma pessoa anormal aos olhos da sociedade.
Uma pessoa diferente de sua origem. Havia casos de
pessoas que nasciam com sangue híbrido. Mas ninguém
chegou a contar uma história com final feliz. Aliás, todas
acabavam se suicidando por não aguentar a pressão
psicológica. Talvez a Genevieve estivesse protegendo o
príncipe herdeiro.
omo descobrir a verdade e, mais importante, como
C
expô-la sem que minha própria cabeça role primeiro? —
questionou-se mentalmente.
A chantagem em sua mente era uma fruta extremamente
tentadora, como se fosse pecado em sua mão pronto para
ser mordido sem que estivesse remorso algum. Se ele
pudesse provar que o herdeiro era realmente uma
“aberração” ao olhos das leis conservadora do reino
Seravelle. Jimin teria o motivo perfeito para anular a
união e voltar para Aurenval.
Ele não queria ser o consorte de uma criança que nem
sabia as dificuldades que teria quando a coroa fosse
posta na cabeça de cabelo loiro dourado. Ele queria fugir
daquilo o quanto antes, pois sabia que se ficasse nesse
lugar por muito tempo seu segredo seria descoberto e ele
não poderia mais sair nem se quisesse.
80
Jimin passou os dedos pelos fios platinados ajeitando-os
enquanto as íris cinzas olhavam ao redor em busca de
algo, fixos no caminho à sua frente, recebendo olhares
alheios de curiosidade e algumas pessoas se curvavam
para ele enquanto caminhava tranquilamente.
“Pelo Hélio! Eu estou frito…como saio daqui?”
Ao captar aquela voz familiar, Duque franziu o cenho,
estranhando o tom de imediato. Desviou o olhar das
barracas vibrantes e do alvoroço da plebe, mudando o
percurso original. Deixou a multidão para trás e seguiu o
som – que, embora baixo, carregava resmungos
inconfundíveis – até uma área mais isolada e estreita da
feira.
onge do fluxo de pessoas, sua visão finalmente
L
capturou Jungkook. De costas, o jovem vestia suas
habituais sedas, desta vez em nuances de azul-escuro e
branco-prateado. Ele lutava contra o nada, desferindo
socos e chutes no ar enquanto praguejava baixinho.
J imin soltou uma risada contida, cruzando os braços
musculosos contra o peitoral farto, observando a cena
com diversão.
81
Nunca pensei que torceria para o vento ganhar uma
—
luta. — debochou.
susto foi imediato. O jovem virou-se bruscamente, o
O
coração disparado, mas perdeu o equilíbrio e caiu
sentado. Um grito de dor escapou de seus lábios no
instante do impacto.
É, pelo visto, ela ganhou de lavada. — completou
—
Jimin, sem esconder o sorriso.
O que você está fazendo aqui?! — A voz de
—
Jungkook saiu em um estalo, enquanto seu rosto atingia
um tom quente do sol que brilhava fortemente sobre os
dois. A raiva era seu único escudo contra a presença
invasiva do Duque. — Abusado… — resmungou entre
dentes. Ao tentar se afastar, apoiou as mãos na grama
com força excessiva, soltando um grito agudo quando o
espinho, antes superficial, penetrou profundamente na
polpa do polegar. Ele estremeceu, desabando sentado
novamente, encarando a palma da mão esquerda com os
olhos já marejados.
O que aconteceu? — Jimin se aproximou com passos
—
medidos, a voz tingida por uma suavidade ensaiada. Não
havia uma preocupação genuína pulsando em seu peito,
mas sim o faro de um predador que vê uma brecha. Para
tecer a rede de confiança necessária e extrair as
82
informações que desejava, ele precisava ser o “herói”
daquela pequena tragédia. — Vossa Alteza?
Não finja! Sei que não se importa… — o príncipe
—
murmurou, desviando o olhar. A solidão era uma velha
conhecida; o desinteresse alheio era o seu normal. — É
só um espinho… mas dói. Dói muito. — Ele mordeu o
lábio inferior para conter um soluço. A dor latejante o
fazia sentir-se pequeno, e o desejo absurdo de
simplesmente arrancar o próprio dedo o dominava.
I gnorando as rígidas etiquetas da corte que ditavam a
distância entre um duque e o herdeiro, Jimin agiu. Ele se
ajoelhou sobre a grama úmida, uma reverência que
parecia mais uma captura do que um sinal de respeito.
Suas mãos, maiores e mais firmes, envolveram a mão de
Jungkook, pequena, macia e agora trêmula.
J ungkook fixou suas íris douradas no rosto de Jimin, o
corpo tenso, esperando por um escárnio ou uma correção
severa. O que recebeu, no entanto, foi um choque para
qualquer coisa que estivesse pensando, pois foi além do
que a mente projetou.
em desviar o olhar, o Duque levou o polegar ferido de
S
Jungkook aos lábios. O calor da cavidade bucal envolveu
a pele ferida de forma súbita. O coração do príncipe deu
um solavanco e doeu contra seu peito de tão forte que
83
pulsava. Ele sentiu a ponta da língua de Jimin rodear o
ponto atingido, antes de uma sucção firme e ruidosa.
J ungkook arfou. O peito subia e descia em um ritmo
frenético, o rosto queimando sob o peso daquele contato
tão íntimo e impróprio. Um nó se formou em seu
estômago, ele tentou convencer a si mesmo de que era
aversão à saliva do outro, mas o formigamento que subiu
por seu braço dizia algo muito diferente e perigoso.
Como se tivesse sido atingido por uma descarga elétrica,
Jungkook afastou-se bruscamente. O Duque observava
cada reação do jovem com uma atenção extremamente
curiosa. O príncipe herdeiro levou a mão ao peito, que
subia e descia em um ritmo descompassado, enquanto a
boca secava e um nó apertado se formava em sua
garganta.
Ao dar as costas, ele não viu o olhar de Jimin varrendo
sua silhueta de cima a baixo. O Orléans não podia negar:
Jungkook era dono de uma beleza intrigante, mesmo sob
aquelas camadas de roupas excessivamente largas que
pareciam querer camuflar sua existência.
J imin ergueu-se com aquela elegância letal, uma pose
dominante que sugeria que nada no mundo seria capaz
de abalá-lo. Caminhou silenciosamente até o jovem,
parando a meros centímetros de suas costas. No
84
momento em que a mão do Duque tocou o ombro de
Jungkook, o herdeiro soltou um grito contido, girando o
corpo com tanta pressa que o equilíbrio se perdeu.
le teria caído, como fizera no lago, no dia que o Duque
E
deixou ele cair de propósito, porém, se a mão de Jimin
não tivesse agido como uma armadilha de seda. O Duque
circulou a cintura de Jungkook com firmeza e o puxou
contra si com uma mão só, usando sua força, fazendo os
corpos colidirem. Naquele espaço inexistente, as íris
douradas assustadas de Jungkook mergulharam no cinza
de Jimin.
evido à agitação do momento, a mão de Jimin, que
D
antes envolvia a cintura, deslizou levemente para a
lombar. Ali, o tecido fino de seda da túnica agiu como
uma segunda pele, mas não o suficiente para esconder a
verdade. Os dedos de Jimin começaram a subir,
explorando a coluna do príncipe, e o Duque sentiu um
vislumbre real da estrutura física que Jungkook tanto
tentava ocultar.
ão havia apenas ossos e angulosidades; sob o toque de
N
Jimin, revelava-se um corpo de formas generosas e
macias. O príncipe possuía uma estrutura robusta e
curvilínea, com uma camada de carne que trazia um
calor reconfortante e uma densidade fascinante. Era um
corpo "cheinho", preenchido por curvas naturais que
85
preenchiam as mãos de Jimin de uma forma que ele não
esperava. A cintura, embora marcada, era envolta por
uma suavidade que tornava o contato perigosamente
viciante.
J ungkook engoliu em seco, sentindo a alternância entre o
calor da palma e o frio dos dedos do Duque subindo por
suas costas. Ele se sentia exposto, como se os dedos de
Jimin estivessem lendo seu corpo como uma escrita
proibida, mapeando cada curva que as roupas largas
costumavam proteger dos julgamentos alheios.
— O que pensa que está fazendo?! — as palavras saíram
em um sussurro sibilante, carregadas de um pânico que
ele não conseguiu mascarar, mesmo que os ensinamentos
que teve na infância, tivesse o ensinado a ser firme e não
demonstrar as suas emoções.
fastou-se novamente, o roçar das vestes de seda soando
A
como um trovão no silêncio do corredor. O calor onde as
mãos de Orléans haviam tocado ainda queimava,
tingindo suas bochechas de um carmim violento.
Evitando a todo custo o olhar do homem mais velho, ele
sentia o peso sufocante daquela intimidade não
autorizada.
Vossa Graça, não pode agir dessa maneira! —
—
repreendeu, a voz trêmula, mas cortante. — Um único
86
par de olhos curiosos e estaríamos arruinados. Pode
comprometer a honra de ambos por um capricho!
em esperar por uma resposta ou uma justificativa que
S
sabia ser incapaz de ouvir sem fraquejar, ele deu as
costas. Fugiu, não do homem, mas do que estava
sentindo naquele momento, as confusões em sua mente
eram preocupantes. E seus passos apressados ecoando
pelo mármore enquanto rezava para que as sombras do
palácio tivessem sido suas únicas testemunhas.
Capítulo 10
— Parece preocupado. Aconteceu algo enquanto estive
fora? — A voz de Taehyung cortou o silêncio que tinha
se formado no corredor do palácio onde ambos
andávamos lado a lado. A pergunta fez o Jimin revirar os
olhos, porque odiava ser questionado.
Duque arrastou seus olhos cinzas, frios parecendo um
O
gelo, até o Taehyung que engoliu em seco, torcendo para
que ele não estivesse com raiva. Jimin sentiu o peso da
pergunta, mas apenas negou com um movimento curto
de cabeça, os lábios pressionados em uma linha fina.
87
Tem certeza? — Taehyung insistiu, dando um passo à
—
frente, preocupado, porém desta vez, Jimin não disfarçou
o asco. O olhar que lançou foi ríspido, carregado de uma
autoridade que exigia silêncio imediato.
Não quero entrar no assunto. Preciso ir para meus
—
aposentos agora, tenho o que fazer. — sentenciou,
cortando a distância e deixando Taehyung parado no
meio do corredor.
nquanto caminhava, o som de suas botas no mármore
E
ecoava altas, podendo ser ouvida pelos guardas que
estavam fazendo a segurança da nobreza. Ele não
conseguia tirar a mente daquele jardim escondido. O
cheiro do Príncipe Herdeiro ainda parecia impregnado
em suas narinas, uma mistura de sol e terra que não
combinava com os perfumes caros da corte. E o corpo...
aquele corpo era uma afronta aos seus sentidos.
J imin tentava, em um esforço desesperado de lógica,
comparar os irmãos para entender o abismo que os
separava. Yunho era a perfeição que a família real
deveria ser. O cabelos negros e lisos que emolduravam
um rosto de porcelana, olhos azuis claros e um corpo
esguio, esculpido para roupas sob medida. Yunho era o
tipo de beleza que tiraria o fôlego de qualquer um,
homem ou mulher, pela sua simetria impecável e curvas
delicadas.
88
as Jungkook... Jungkook era o oposto de tudo o que
M
Jimin considerava correto.
herdeiro tinha a pele bronzeada, um contraste violento
O
com a palidez da família real. Os cabelos loiros dourados
caíam em tranças laterais que lhe davam um ar quase
selvagem, e aqueles olhos dourados pareciam queimar a
pele de Jimin sempre que se cruzavam. O que mais o
perturbava, porém, era a densidade daquele rapaz.
Jungkook, era cheio, carnudo; as roupas pareciam lutar
para conter a força de suas coxas grossas e a firmeza de
seus glúteos.
J imin negou com a cabeça novamente, um resmungo
baixo escapando de sua garganta enquanto abria a porta
de seus aposentos. Ele estava indo longe demais. Estava
imaginando o peso daquele corpo contra o seu, o calor
daquela pele bronzeada sob seus dedos, e a ideia de que
o "fora do padrão" era, na verdade, a única coisa que ele
conseguia pensar, principalmente depois de ter tocado
mais do que devia.
Sentou-se diante da escrivaninha de carvalho, o som da
pena arranhando o papel sendo o único ruído no quarto
mal iluminado. Mergulhou a ponta no metal líquido do
tinteiro e hesitou por um segundo, vendo a mancha
89
escura se espalhar antes de começar a traçar as linhas
que cruzariam as fronteiras até Aurenval.
“Minha vida,
O tempo aqui parece insistir em não passar, cada
segundo longe de você é um peso que carrego no peito.
Não há um único dia em que meus pensamentos não
voem até Aurenval, buscando o calor do seu rosto e a
paz que só sinto ao seu lado.
eço que, acima de tudo, mantenha a força. Espero
P
que esteja seguindo cada recomendação e aceitando os
cuidados que deixei preparados; minha única paz de
espírito é saber que você está sendo bem amparada
enquanto não posso eu mesmo segurar sua mão.
stou movendo céus e terra para encerrar o que me
E
prende aqui. Em breve, as distâncias não serão mais
obstáculos. Espere por mim, pois meu coração nunca
saiu do seu lado.
Com todo o meu amor, Jimin.”
Jimin dobrou o papel com movimentos precisos, o lacre
de cera derretida selando não apenas uma carta, mas um
pedaço de sua alma que ele enviava para longe. Guardou
o envelope sob as vestes e deixou a Ala Norte. O silêncio
90
dos aposentos reais, no entanto, foi brutalmente
interrompido ao dobrar o extenso corredor de pedra.
ozes ásperas ricocheteavam nas paredes altas. Jimin
V
diminuiu o passo, fundindo-se às sombras das tapeçarias
para escutar o que a prudência mandaria ignorar.
Você é um idiota, Jungkook! — a voz da rainha não
—
era apenas alta; ela praticamente gritava para que
qualquer pessoa ouvisse, como se fizesse questão de
saberem que estava humilhando seu filho. — Como teve
a audácia de ir sozinho à feira? Seu irmão o procurou por
todos os cantos como se você fosse uma criança perdida!
Mãe... eu pensei que já tivessem partido. — a voz de
—
Jungkook soou pequena, sufocada. — Vocês sempre me
deixam para trás. Sempre.
— Cale a boca!
som foi seco. Um estalo que ecoou pelo corredor.
O
Jimin travou a respiração, entendo no mesmo instante o
som que havia escutado. O impacto do tapa parecendo
ressoar em sua própria pele. Ele não precisava ver para
saber que a face de Jungkook queimava em um vermelho
vivo sob o olhar gélido da mãe.
91
Você é uma vergonha para este sangue. — a rainha
—
continuou, o tom agora em um sussurro venenoso que
era ainda pior que o grito. — Yunho deveria ser o
herdeiro, não um irresponsável como você. Não
consegue sequer garantir a aliança com o Duque. É
inútil.
Mãe, a senhora está se exaltando. Por favor, vamos
—
sentar. — a voz de Yunho interveio, polida e calculada,
tentando apaziguar a situação estranha que havia se
formado nos aposentos da Genevieve. — Jungkook
está... tentando o seu melhor, à maneira dele. Não o
sufoque tanto, mãe. Tem que ter calma.
o ouvir o som de passos pesados se aproximando,
A
Jimin agiu por instinto. Ele se esgueirou para um recuo
escuro entre as pilastras, comprimindo-se contra a pedra
fria. Segundos depois, uma figura passou como um
borrão. Era Jungkook. Os ombros estavam encolhidos e
os passos eram rápidos, quase uma corrida desesperada
em direção ao isolamento de seu quarto.
Jimin estalou os dedos, que fez um ecoo de onde estava,
mas logo foi prontamente atendido e um lampejo da
sombra o corpo da criatura se materializou, as penas
batendo ao redor dele e os olhos encarando com firmeza,
esperando pela ordem que seu dono daria. Ele estendeu a
missiva com dedos firmes; o bicho a tomou com o bico
92
curvo, encarando-o com olhos, para saber onde levar o
papel que segurava. Mesmo que já soubesse para onde ir.
Leve para Aurenval. — ordenou Jimin, com a voz
—
séria e tom rouco, sussurrando como um autoritário,
embora em certas posições ele realmente é um.
animal assentiu, um movimento quase humano. O
O
bater de suas asas ecoou contra as pedras de Seravelle
antes de ele se lançar ao céu, ganhando altura e
mergulhando na vastidão do sul, indo entregar o que
precisava para deixar o Orléans mais leve porque sabia
que era necessário essa carta ser entregue a pessoa a
quem havia escrevendo.
nquanto o rastro da criatura sumia no horizonte, o
E
cenário no palácio era de um silêncio sufocante.
Diferente do Duque, que ainda tentava processar o
veneno da discussão que acabara de presenciar com os
seus ouvidos, o Príncipe Herdeiro permanecia estático.
entado na borda da cama, ele mantinha as mãos
S
apoiadas no colo, inertes, como se não lhe pertencessem
mais. Sua bochecha direita pulsava, um calor vívido e
humilhante deixado pelo tapa de sua mãe. O estalo da
agressão ainda se fazia presente em seus ouvidos,
competindo com as batidas descompassadas de seu
coração.
93
Eu não sei mais o que fazer… — sussurrou para as
—
paredes frias. As lágrimas haviam secado, deixando
apenas o rastro salgado na pele; não havia mais utilidade
no choro quando o desespero se tornava absoluto. — Eu
nunca vou servir para ser um rei. Eu sou falho. Cada ato
meu é um erro.
ua voz saiu pesada, carregada por um cansaço que
S
nenhum sono poderia curar. Ele se arrastou até a janela,
encarando a extensão dourada e vasta de seu reino sob a
luz do crepúsculo. O peito doía, uma pressão física como
se o ar de Seravelle fosse denso demais para seus
pulmões "defeituosos".
Por que eu? — questionou aos céus, observando as
—
primeiras estrelas surgirem. — De todos os homens, de
todas as linhagens… por que Hélio escolheu justo a mim
para ser seu filho, se tudo o que consigo ser é uma
sombra do que o trono exige?
Ele tocou o seu rosto que estava quente em uma só parte,
fechando os olhos, sabia que o reino que fora posta em
sua mão, parecia uma tarefa que jamais conseguiria
cumprir. Uma “herança” que mais parecia uma sentença
de condenação do que um privilégio.
94
Com um movimento sutil, Jungkook negou com a
cabeça reprimindo todos os seus sentimentos e desejos e
um suspiro escapou de seus lábios trêmulos que foram
abafados quando fechou as cortinas pesadas da janela de
seus aposentos. Embora uma parte de si implorasse para
sofrer em paz, o dever da responsabilidade cai sobre seu
ombro, trazendo a realidade à tona. O jogo político do
parlamento exigia um posicionamento firme do príncipe
herdeiro e ele tinha uma única missão: enredar o Duque
em um compromisso matrimonial, antes que a situação
saísse do seu controle, essa que nem tinha mais em suas
mãos.
Capítulo 11
O salão principal estava em um completo silêncio apenas
ouvindo-se o barulho do fogo na lareira que era
queimada pela a madeira e o som da voz da rainha, que a
cada vez que falava cuspia em direção às pessoas a sua
frente.
— É obrigação de vocês dois aparecerem juntos! Nem
que seja uma fachada meticulosamente montada. — a
soberana declarou, sua voz pesada e rouca. Seus olhos,
de um azul claro, penetrante, fixaram-se em Jungkook
como se pudessem ler cada um de seus temores.
95
J ungkook sentiu o nó na garganta. Ele engoliu em seco,
sentindo a palma da mão umedecer contra o tecido fino
de seu traje, um contraste direto com a postura de Jimin.
Ao seu lado, o Duque era uma estátua de mármore: sério,
neutro e aparentemente imune à aura esmagadora da
monarca.
A sociedade está ficando impaciente com esse
—
anonimato. — continuou ela, batendo levemente o anel
de sinete contra o braço da poltrona. — Estão me
escutando ou a juventude os tornou surdos para o dever?
J imin finalmente se moveu, mas apenas para deslizar as
mãos nos bolsos da calça de alfaiataria com uma
elegância quase insolente.
Estamos ouvindo perfeitamente, Majestade. Contudo,
—
acredito que meu ouvido é bom o suficiente para captar
suas ordens sem que precise elevar o tom de voz. Peço
que se acalme; a alteração não favorece a clareza da
estratégia. — Jimin rebateu, sua voz saindo suave,
embora decidida. — Por sorte, a paciência do povo não é
a única coisa que anda trabalhando. O Príncipe Herdeiro
e eu já traçamos um plano para nossa primeira incursão
pública.
96
Jungkook olhou de soslaio para o Duque, o coração
batendo mais rápido do que gostaria. Estava atordoado
pela audácia de Jimin e pela menção a um plano que ele
mal sabia que existia. Antes que o Príncipe Herdeiro
pudesse articular qualquer protesto, Jimin curvou-se
formalmente para a Rainha – um gesto de respeito que
parecia carregar uma pitada de ironia – e pousou a mão
firme na lombar do mais novo.
toque foi um comando silencioso. Sem dizer uma
O
palavra, o Duque o guiou para fora do salão principal. O
silêncio que apareceu ficar ainda pior, era substituído
pelo eco de seus passos nos corredores de pedra. Jimin
escolheu a biblioteca real; onde sabia que teria o mínimo
de privacidade, embora não fosse permitido eles ficarem
a sós.
ssim que entraram, Jimin fechou a pesada porta de
A
carvalho e deslizou o ferrolho, garantindo que qualquer
pessoa que não fosse eles dois, permanecessem do lado
de fora.
Você é o futuro Rei. — Jimin disparou. Ele não se
—
virou de imediato. — Sugiro que comece a agir com
autoridade. Caso contrário, sua família continuará a
governar este reino como se você fosse apenas um
adorno no trono, mesmo após a coroação.
97
Como… O que você está dizendo? — Jungkook
—
perguntou, a voz vacilante. Seus olhos estavam fixos nas
costas do homem à sua frente, observando a postura
impecável que exalava uma confiança que ele próprio
desconhecia.
J imin virou-se lentamente. A luz das velas da biblioteca
projetava sombras dramáticas em seu rosto, endurecendo
suas feições.
Príncipe Herdeiro, serei sincero. Eu ouvi a discussão
—
de semanas atrás. Vi você abaixar a cabeça enquanto a
Rainha decidia o seu destino sem o seu consentimento.
Você sequer a rebateu. — o Duque deu um passo à
frente, invadindo o espaço pessoal de Jungkook. — Eu
sei que o casamento comigo é uma peça nesse tabuleiro,
mas me responda: você quer ser o Rei ou quer ser o
fantoche dela? Você é sangue de Hélio! O próprio Sol o
escolheu como um semideus. É hora de parar de brilhar
apenas quando lhe dão permissão e começar a queimar
quem tentar te apagar.
J ungkook sentiu o peso das palavras e a fraqueza em
suas pernas. Ele se deixou cair em uma cadeira de couro
desgastado, os ombros desabando sob o peso de uma
coroa que ainda nem possuía.
98
Eu não sei como fazer isso… — confessou em um
—
sussurro, as mãos unidas em um aperto nervoso, os
dedos esfregando-se incessantemente. — Nunca ousei
me colocar acima dela. Sei que a Rainha mal tolera a
minha presença… Passo meus dias tentando ser invisível
o suficiente para que ela não me odeie, mas presente o
suficiente para cumprir meu dever.
J imin aproximou-se, ajoelhando-se em um joelho só para
ficar na altura do olhar do príncipe, uma submissão física
que contrastava com seu tom desafiador.
A invisibilidade é o privilégio dos covardes, Alteza.
—
Se você continuar tentando ser apenas tolerado, acabará
sendo esquecido pelo seu povo. O fogo de Hélio não foi
feito apenas para aquecer ou ser um leve brilho quando
lhe convém. Ele é feito para iluminar o mundo! Você
nasceu para ser o próprio sol. Então, dê esse orgulho
para seu pai e mostre que ele não errou em tê-lo como
seu filho.
Jungkook engoliu em seco, sentindo o arranho seco em
sua garganta, um lembrete físico de que as palavras do
homem haviam atingido o alvo. Ele soltou um suspiro
entrecortado, lutando contra o instinto de abaixar a
cabeça. Era uma batalha silenciosa para manter a
postura, para não se encolher como o garoto que sempre
cedia sob o peso da obrigação.
99
Eu não sei como fazer isso, vossa graça. O que
—
sugere? — questionou, a voz oscilando entre a
submissão e o desafio. Suas íris douradas brilhavam,
fixas no mais velho.
J imin levantou-se com elegância. Deslizou as mãos nos
bolsos da calça de alfaiataria e iniciou um passeio lento,
contornando a imponente cadeira do príncipe herdeiro
como se estivesse mapeando um território conquistado.
— Não vai me dizer? — Jungkook insistiu, a
impaciência fervendo sob a pele, quebrando o silêncio
que Jimin parecia saborear.
Primeira aula: seja mais paciente. — O tom de Jimin
—
era frio, totalmente calculado, quase pedagógico. Ele
parou às costas do príncipe, uma sombra sobre ele. —
Você nunca derrotará seus inimigos se permitir que a
pressa dite o ritmo do seu pulso.
J ungkook abriu a boca, pronto para rebater, para rugir
que sua própria família jamais poderia ser classificada
como "inimiga". No entanto, o argumento morreu em sua
garganta. Jimin ergueu um único dedo, um gesto
minimalista que cortou o ar e o silenciou de forma
absoluta.
100
Não me questione. — sentenciou Orléans, a voz baixa
—
como um aviso, para que o Léandre ficasse atento ao que
ele falava. — Aprenda primeiro a ouvir o que o silêncio
deles está tentando te esconder.
— Mas o que o silêncio deles querem me dizer?! —
questinou, fazendo o maxilar do Duque travar, já
começando a ficar irritado pelo tanto que aquele jovem
perguntava demais. — Não me olhe dessa maneira,
vossa graça! O senhor que quis começar com essas
“aulas.”
— Você está absolutamente certo, meu caro Príncipe
Herdeiro. — a voz de Jimin destilava um deboche tão
refinado que parecia veneno servido em uma taça de
cristal.
J ungkook sentiu o sangue ferver. Suas mãos fecharam-se
em punhos, as unhas cravando na palma da mão diante
daquela petulância desmedida. Mas Orléans não recuou;
pelo contrário, ele parecia alimentar-se daquela fúria
silenciosa.
Serei seu mentor. Ensinarei a você que o mundo não é
—
o conto de fadas que seus tutores lhe venderam. Nem
tudo termina em um felizes para sempre. — Jimin deu
um passo à frente, a voz baixando para um tom sombrio
e íntimo. — Seja maduro. Entenda, de uma vez por
101
todas, que até o sangue que corre em suas veias pode
conspirar contra você. A traição não vem de estranhos,
Jungkook. Ela pode vim que dorme ao quarto ao lado.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quase sufocante.
Não confie em ninguém. Nem mesmo na sua própria
—
sombra. — ele continuou, o olhar cortante. — Até ela o
abandona quando a luz se torna insuportável. E você...
— Jimin deslizou para a frente de Jungkook, reduzindo o
espaço entre eles até que o calor de sua presença fosse
inevitável.
om uma lentidão calculada, ele ergueu a mão e tocou a
C
ponta do dedo sob o queixo do loiro, forçando-o a erguer
o rosto. Seus olhos se travaram, as íris douradas de
Jungkook encontrando o abismo escuro no olhar de
Orléans.
Você é o próprio Sol. E o Sol, em sua glória, está
—
sempre condenado à solidão.
Jungkook sentiu o nó ficar ainda mais apertado em sua
garganta e a palavra acertou diretamente em seu peito,
porque bem lá no fundo ele sabia que a sua mãe
conspirava contra ele, embora não tivesse como
comprovar.
102
Por que solidão? — a voz do príncipe saiu quase em
—
um sussurro, buscando uma rachadura naquela lógica
que não fazia muito sentido em sua mente.
J imin não desviou o olhar. Pelo contrário, aproximou-se
um milímetro a mais, o suficiente para que Jungkook
sentisse o hálito frio de suas palavras.
Porque o Sol é soberano, Jungkook. Mas toda
—
soberania tem um preço, que só os fortes suportam pagar
por ela. — Jimin deslizou o dedo do queixo para a
mandíbula do mais novo, um toque que parecia uma
marcação de propriedade. — Olhe para cima. O Sol
brilha tanto que cega qualquer um que tente encará-lo de
frente. Ele não tem iguais. Ele não tem companheiros de
órbita. As estrelas só aparecem quando ele se vai, porque
a luz dele é tão absoluta que apaga a existência de todo o
resto.
le soltou o rosto de Jungkook, mas a pressão invisível
E
do seu olhar continuou ali.
Se você quer ser um Rei, um verdadeiro governante,
—
precisa entender que não pode ter "amigos". Amigos são
fraquezas. Amigos têm interesses. No momento em que
você se senta no trono, você deixa de ser um homem
para se tornar um símbolo. E símbolos, meu caro... —
Jimin deu as costas, caminhando em direção à janela,
103
observando o pátio do castelo. — São estátuas solitárias
no topo de pedestais. Se você permitir que alguém
chegue perto demais, eles não verão o Sol; verão apenas
as suas manchas. E é aí que eles começam a cavar a sua
queda.
J ungkook sentiu um peso enorme esmagando seu peito
enquanto as palavras de Jimin assentavam. Ele olhou
para as próprias mãos e percebeu que elas tremiam, não
de medo, mas pelo choque de finalmente entender o
tamanho do fardo que carregava.
le respirou fundo, forçando os dedos a se aquietarem, e
E
virou-se de frente para o Duque. O dourado em seus
olhos parecia mais opaco, mais sério. A ficha tinha
caído.
Eu quero que me ensine. — disse ele, a voz agora
—
firme, sem o tremor de antes. — Me transforme no
governante que eu preciso ser.
le deu um passo curto à frente, sustentando o olhar de
E
Jimin sem recuar.
Seja meu mentor, vossa graça. E não esconda nada de
—
mim, por pior que a verdade seja.
104
Um sorriso de soslaio, carregado de uma satisfação
felina, curvou os lábios de Jimin. Havia uma ironia
deliciosa no ar: ele acabara de aconselhar Jungkook a
não confiar em ninguém e, no segundo seguinte, colhia a
confiança do príncipe herdeiro como um fruto maduro.
Para Duque, a lealdade era uma moeda valiosa, e ele
acabara de realizar um assalto perfeito ao tesouro real.
Seus olhos cinzentos, geralmente frios, brilharam com
uma intensidade quase sobrenatural sob a luz
bruxuleante dos candelabros.
Afastando-se da moldura da janela, ele caminhou em
direção ao jovem governante. Seus passos eram
silenciosos, uma característica de quem está acostumado
a transitar por corredores onde as paredes têm ouvidos.
Ele parou diante de Jungkook, respeitando uma distância
minimamente segura, não por protocolo, mas para
manter a aura de mistério que o tornava tão perigoso.
— Que assim seja, Alteza. — declarou, a voz aveludada
carregando uma reverência que beirava o deboche sutil.
Ele inclinou o tronco em uma mesura impecável, mas
seus olhos nunca deixaram totalmente os do príncipe. —
O castelo é um ninho de víboras, e até as sombras aqui
têm um mestre. Por isso, nosso santuário será o labirinto
de heras. A geometria do caos é o melhor lugar para se
aprender a ordem. — Jimin endireitou-se, o olhar fixo e
penetrante. — Estarei lá ao cair da primeira sombra.
105
Levarei meu servo pessoal; ele garantirá que nossa
privacidade permaneça inviolável, observando a
distância. Não se atrase. Na arte da sobrevivência, o
tempo é o único luxo que um rei não pode desperdiçar.
Com um último aceno de cabeça, ele girou sobre os
calcanhares, deixando para trás o perfume sutil de
sândalo e o saiu da biblioteca deixando o jovem com
seus pensamentos confusos.
Capítulo 12
Jimin percorria o labirinto de heras com passadas largas
e impacientes, o atrito de suas botas de couro contra o
cascalho sendo o único som a quebrar o silêncio pesado
da noite. Ele mantinha as mãos afundadas nos bolsos da
calça de alfaiataria, uma postura que oscilava entre o
desdém e o frio que começava a morder.
escuridão do jardim era vasta, uma massa de sombras
A
que parecia querer engolir as paredes de folhagens,
sendo repelida apenas pelo brilho oscilante do lampião
que seu servo carregava logo atrás. A luz âmbar dançava
pelo rosto de Jimin, destacando o vinco de irritação em
sua testa e o brilho úmido de seus olhos.
106
le parou abruptamente diante de uma bifurcação sem
E
saída. Soltou um suspiro pesado – um bufo de puro
escárnio – e jogou a cabeça para trás, encarando a lua
pálida que iluminava todo o labirinto, o que era um
agradecimento internamente.
— Desculpe-me, vossa graça! Acabei esquecendo do
nosso encontro… estava perdido em um livro — disse o
jovem, alisando as vestes de linho claro com um desleixo
elegante.
Jimin desceu o olhar pelo corpo do príncipe, e por um
breve segundo, a memória do toque íntimo que
compartilharam no passado atravessou sua mente como
um relâmpago. Desviou o rosto bruscamente, sentindo as
orelhas queimarem; amaldiçoava-se internamente,
sentindo-se um pervertido por permitir que tal
"imaginação fértil" florescesse em um momento de
dever.
— Não tolero atrasos, Alteza. Deveria saber que o tempo
de um regente é o seu bem mais precioso — Jimin
cruzou os braços sobre o peito, a postura impecável
contrastando com a leveza de Jungkook.
O príncipe suspirou, mas seu foco já havia escapado
novamente. Ele olhou para a lua de prata, admirando o
brilho que banhava os jardins. O Duque precisou soltar
107
um pigarro seco e autoritário para resgatar a atenção do
herdeiro.
— Foco, Jungkook. O mundo lá fora não espera pelas
suas digressões poéticas. Temos muito o que fazer.
— O senhor poderia escolher um horário mais...
propício. Quem sabe ao amanhecer, quando o sol ainda é
uma promessa no horizonte? — Jungkook sorriu de
canto, achando a própria sugestão dotada de um
romantismo necessário. — Eu costumo dormir cedo,
vossa graça. A noite foi feita para os sonhos, não para
protocolos.
— Lhe darei uma resposta sobre o horário quando
terminarmos a lição de hoje. Embora eu suspeite que, ao
amanhecer, sua preguiça seria ainda mais profunda —
rebateu Jimin, fazendo Jungkook revirar os olhos e
bagunçar os fios loiro-dourados em um gesto de pura
frustração contida. — Responda-me: já sabe empunhar
uma lâmina? Sabe como projetar a voz para que um
exército o obedeça? Teve aulas de etiqueta real?
— Nunca permitiram que eu tocasse em um florete ou
aprendesse esgrima — Jungkook bufou, a irritação
começando a transparecer. — Mas minha mente foi bem
treinada. Sei ler perfeitamente, minha dicção é
108
impecável e domino as línguas das cortes vizinhas. Sou
fluente até no Lumeviano, a língua das luzes.
Ele ergueu o queixo, vangloriando-se do seu intelecto.
— É claro que tive aulas de etiqueta. A Rainha fez
questão disso, provavelmente para que minha presença
não manchasse a imagem dela nos banquetes
Duque Jimin não escondia a irritação, cruzando os
O
braços sobre o peito enquanto o príncipe se perdia em
devaneios lunares.
Saber o básico é o que se espera de um cortesão, não
—
do herdeiro de Seravelle! — A voz de Jimin soou mais
grave e ele olhou sério para o Jungkook. — Você fala o
Lumeviano como um diplomata e o Auric como um
negociante, mas o Zyt’hélio... o seu próprio idioma, a
língua que o próprio Hélio nos deu... você a trata como
se fosse um fardo nos lábios.
J ungkook finalmente desviou o olhar da lua, soltando um
riso soprado que fez suas bochechas gordinhas subirem.
Eu sou fluente, vossa graça. Sei cada verbo de
—
comando e cada oração solar. — Jungkook deu um passo
à frente, sua voz subitamente ganhando um timbre mais
109
profundo ao usar o idioma nativo de seu reino. —
Zyt’xal hélio-kor, nish t’val.
frase em Zyt’hélio saiu perfeita, mas havia uma leveza
A
nela, uma elegância que o idioma, por natureza ríspido e
cortante, não deveria ter. Significava: "O sol de Hélio
habita o coração, mas a noite é minha."
J imin bufou, aproximando-se a ponto de Jungkook sentir
a tensão emanando do corpo do Duque.
Esse é o problema, Jungkook! Você fala a língua de
—
Seravelle como se estivesse recitando poesia em um
bordel de luxo. O Zyt’hélio é o som do sol quando está
brilhando fortemente e queimando qualquer um. É uma
chama que consome a fraqueza dos inimigos! Você mais
do que ninguém deveria saber disso. — Jimin segurou o
queixo do príncipe com firmeza. — Repita, mas desta
vez, fale como um rei, deixe que a voz soe mais grave
com posição! Com dominação. Não um submisso que
aceita tudo de cabeça baixa.
J ungkook sentiu o toque de Jimin e, por um segundo, a
lembrança do dia em que se tocaram de modo mais
íntimo queimou mais a sua bochecha que chegou a arder.
Ele umedeceu os lábios, o olhar desafiador agora fixo no
Duque.
110
O senhor quer que eu grite como um general, vossa
—
graça? — O príncipe sussurrou, a centímetros do rosto
do outro. — Ou quer que eu use o Zyt’hélio para o que
ele foi realmente feito: para ditar sentenças que ninguém
pode revogar?
J imin sustentou o olhar, sentindo a própria autoridade ser
testada pela audácia do loiro. Jungkook sabia falar, e
sabia o poder que tinha; ele só gostava de ver o Duque
perder a compostura tentando moldá-lo.
Quero que você pare de brincar de ser príncipe e
—
comece a ser o Rei que Seravelle precisa. — Jimin
soltou o queixo dele com um gesto seco. — Se sua
dicção está "ótima", prove-me na prática. Ande.
Mostre-me o porte de quem carrega a linhagem de Hélio.
Jimin ainda se mantinha sério encarando o mais novo de
mais severo que consigo, achava que era uma baboseira,
está ali ensinando-o básico e soltou um arfar, observou o
Jungkook dando passos à frente quebrando a distância
que havia entre ele. E o loiro sorriu de lado, com os
olhos brilhando em divertimento, se sentindo à vontade
para mostrar um pouco de sua personalidade quando ele
era confrontado.
Como eu mesmo disse, vossa graça... — Jungkook
—
sussurrou, a voz ganhando um peso metálico, ele gostava
111
de sua língua materna, ainda mais por saber que seu pai,
embora nunca tenha conhecido, era responsável por
conhecimentos extraordinário. — O Zyt’hélio foi feito
para ditar sentenças que ninguém pode revogar.
Com as íris cinzas focadas no príncipe herdeiro, esse que
não hesitou nem um pouco, deixou que as palavras
saíssem da garganta com autoridade que o próprio
Duque havia pedido anteriormente, o que fez o coração
do Jimin acelerar, não porque achou belo, mas pela raiva
do que ele dissera.
— Zyt’kaal vash k’tah, vossa graça. Nish vora, nish korr.
Jimim mordeu o lábio inferior, formando um silêncio
ensurdecedor pelo labirinto, e sentiu o sangue subir pelo
pescoço e ele conhecia bem aquela constituição
gramática e pior era saber que era uma sentença de
posse, usada apenas pelos monarcas de sangue puro
quando queriam reivindicar algo ou alguém.
E agora o príncipe estava querendo reivindicá-lo.
" O sol ordena que se ajoelhe, vossa graça Minha
carne, meu coração."
112
J ungkook inclinou a cabeça para o lado, com sorriso
inocente, observando a reação do Duque com um prazer
sádico demais para seu próprio gosto.
Essa é a minha sentença, vossa graça. O senhor quer
—
que eu seja o Rei de Seravelle? Pois aqui estou eu,
usando a língua de Hélio para dizer que o senhor não
tem poder para revogar o que eu sinto... ou o que eu
comando.
J imin abriu a boca para retrucar, mas o pigarro morreu
na garganta. A audácia do príncipe, misturada àquela
lembrança do toque íntimo que ambos tentavam ignorar,
fez com que um desconforto surgisse e ele suspirou,
mantendo os olhos firme nele, por mais que a vontade
fosse de desviar para qualquer canto que não fosse o
Jungkook na sua frente.
Você... você é um insolente, Alteza. — Jimin
—
finalmente conseguiu dizer, a voz menos firme do que
ele gostaria.
Sou um Rei em treinamento. E um Rei dita as regras.
—
— Jungkook passou a mão pelas vestes claras, voltando
ao tom de voz suave do Lumeviano. — Agora, vai me
ensinar a caminhar como um soberano ou vai ficar aí,
parado, processando a minha sentença? Estou pensando
113
que quer fazê-la. Duque se ajoelhará diante do seu
príncipe?
— Não diga asneiras. Volte para os seus aposentos. —
ordenou o mais velho, o tom firme não deixando espaço
para discussões. — Continuaremos esta aula amanhã,
antes do amanhecer. Não se atrase como hoje; não
esperarei por você uma segunda vez.
ito isso, ele virou-se de costas, apanhou o manto e
D
cobriu os ombros com elegância antes de partir.
Jungkook apressou o passo para acompanhá-lo, ouvindo
a última recomendação:
Não perambule sozinho por aí. Bom descanso,
—
Alteza.
Bom descanso, Vossa Graça. — respondeu Jungkook,
—
observando o homem de cabelos platinados se aproximar
do lorde Taehyung, que já aguardava o seu senhor.
e longe, Taehyung curvou-se respeitosamente para o
D
príncipe antes de desaparecerem pelo labirinto de heras.
Enquanto ambos se distanciaram em direção ao palácio,
Jungkook ainda podia ouvir os resmungos do Duque,
que reclamava sobre o que ocorrera no tempo em que
estivera a sós com o herdeiro.
114
Capítulo 13
Um baile de máscara? Quais são as intenções da
—
senhora propondo isso? — Yunho perguntou, sentado no
sofá macio da sala pessoal da Genevieve. Ele pegou a
xícara com o chá, sentindo o calor transpirar pela a
porcelana, e bebeu o líquido quente de flor de lírio
brancos.
Não tenho intenção alguma, meu filho. — a rainha
—
falou calmamente, sorrindo sem mostrar os dentes. Ela
levou aos lábios seu chá misturado com leite de cabra,
bebendo enquanto as íris azuis encaravam o homem
pálido à sua frente. — Quero apenas mostrar ao povo
que o seu irmão não é uma pessoa qualificada para estar
em eventos públicos, e ainda mostrarei que aqueles dois
são duas farsas. — Falou com um sorriso vitorioso do
plano que havia arquitetado.
A senhora não pode estar falando sério! Isso é um
—
completo absurdo, mãe. Temos que ajudá-lo ao invés de
tentar arruinar o que ele vem tentando fazer. — ele disse,
fazendo a rainha segurar a alça da xícara com força,
olhando incrédula para seu primogênito.
115
Não fale asneiras! Você que é o herdeiro por direito!
—
Não aquele bastardo que o deus do sol me deu como um
filho, que nem reconheço como meu! — Ditou, a voz
subindo de tom antes de transicionar para seu idioma
natal. — Oriel elar nae vionel (Meu reino não será
governado por aquele garoto)! Sae nae vionel Yunho
(Eu só tenho um único filho e ele se chama Yunho)!
Não se menospreze. — Disse no idioma Lumeviano.
Yunho abaixou a cabeça, o peso das palavras da mãe
recaindo sobre seus ombros como um manto de chumbo.
Ele suspirou ao ouvir o Lumeviano, o idioma materno da
rainha, ecoar pela sala. E ele sabia que quando a
Genevieve recitava a língua de Alvorada, entendia que
deveria abaixar a cabeça e aceitar tudo que estivesse
sendo ofertado. Afinal, de nada adiantaria contestar.
Se for da maneira como a vossa majestade planeja...
—
— ele começou, a voz falhando levemente. — Terei que
casar com alguém…
o pronunciar as palavras, a imagem do Duque, o atual
A
prometido de seu irmão, invadiu sua mente com uma
nitidez perturbadora. O rosto de Yunho esquentou
instantaneamente, uma queimação que subiu pelo
pescoço até as bochechas pálidas. No silêncio de seus
pensamentos, ele se viu aceitando aquele destino: se o
116
preço para salvar Seravelle fosse tomar o lugar do irmão
no altar e no leito daquele homem, ele pagaria.
Você se casará com uma lady do Oeste. — a rainha
—
sentenciou, interrompendo o devaneio dele. — Tenho
certeza que a Alvorada lhe dará uma esposa excelente.
Uma união de luz e pureza, assim como eu fui para seu
pai.
unho ergueu a cabeça bruscamente, encarando a rainha.
Y
O choque esfriou o calor em seu rosto. O plano dela era
ainda mais isolado: ele entendia que sempre, em séculos,
a união entre o norte e o oeste eram feitas. Tanto que sua
mãe era de Alvorada. Embora o casamento do seu irmão
tenha sido arranjado com uma pessoa do sul, Yunho não
entendia a mudança de noivo. Agora noiva.
le abriu a boca para mencionar o Duque, para dizer que
E
um acordo com o Sul seria mais estratégico para a
segurança das fronteiras, mas os olhos azuis de
Genevieve brilhavam com uma determinação fanática.
Ele preferiu o silêncio.
Que assim seja, minha mãe. — ele respondeu, embora
—
seu coração batesse ainda mais rápido, sabendo que
estava conspirando com uma traição.
117
enevieve levantou-se, satisfeita, e caminhou até a
G
janela que dava para os jardins luxuosos.
Sae naelis, vionel elaris. (E assim será, pela minha
—
palavra) — ela murmurou, e como um brinde
antecipado à prosperidade que acreditava estar
comprando com o futuro do filho. — O baile de
máscaras será o palco onde as mentiras onde tudo o que
aquele bastardo planeja irá cair e ai sim, a verdadeira
coroa poderá brilhar como deve. Prepare suas melhores
vestes, Yunho. Você será o sol daquela noite. Será o meu
sol. Meu primogênito e herdeiro de Seravelle.
Yunho engoliu em seco, o pomo de Adão saltando no
pescoço sob o peso do olhar sério e frio que sua mãe
possuía. E ele jamais ousaria contrariá-la; em Seravelle,
as vontades dos rainhas eram mantidas, e se a Genevieve
queria que a vontade dela estivesse acima do que o
Grande Conselho havia planejado, que assim fosse.
Levantou-se com uma reverência mecânica, prometendo
buscar as melhores costureiras para que sua vestimenta
assim como ela desejará, sabia onde ir, mas também era
uma maneira de escapar daquela sala e respirar um
pouco de ar livre sem se sentir sufocado.
Porém, antes que pudesse cruzar a porta, a voz da rainha
foi soado pela a sala, referindo-se ao Hoseok que estava
estático perto da porta com as costas quase coladas na
118
parede e com um olhar distante nas tapeçarias para fingir
que não ouvia a conspiração contra o príncipe herdeiro.
Quero que me traga mais chá. Mande aquele fênix
—
idiota preparar uma infusão mais forte e traga-a
imediatamente. Agora! — A ordem veio envolta em uma
nuvem cinzenta de fumaça, enquanto ela tragava seu
charuto com uma satisfação, exibindo um sorriso onde
tinha os dentes amarelados de tanto beber e fumar.
unho aproveitou a deixa para escapar da opressão do
Y
salão, acompanhando o servo pelo corredor. O sol da
tarde filtrava pelas janelas altas, banhando o mármore
com um dourado que logo daria lugar às sombras da
noite que a lua assumiria o seu lugar ao invés do sol, isso
fez o Yunho, comparar a sua situação com a do irmão.
O senhor parece com medo. — comentou Hoseok, a
—
voz baixa, quase fundindo-se ao som dos passos. — Vai
realmente seguir o que ela deseja?
unho parou abruptamente, encarando o criado. Havia
Y
um brilho de ressentimento em seus olhos.
— A Rainha é minha mãe e a soberana absoluta. Se ela
crê que sou o único capaz de salvar este reino, que assim
seja. Não podemos confiar nossos destinos a um deus
que nos abandonou quando meu irmão nasceu. — Ele
119
estreitou o olhar, sentindo o amargor de ter que se
justificar. — Faça o que foi ordenado… e guarde suas
perguntas para si.
oseok, o servo com alma de cervo – sempre alerta,
H
sempre pronto para a fuga – curvou-se profundamente.
Esperou que o primogênito desaparecesse na curva da
escadaria antes de soltar o fôlego que nem sabia que
prendia. Ele não foi para a cozinha imediatamente. Seus
pés o levaram, em passos rápidos e silenciosos, para a
ala onde sabia que teria pelo menos uma resposta.
Embora poderia ser boas ou ruins.
ncontrou Taehyung encostado contra a parede de pedra
E
fria, a postura relaxada de quem não estava com
nenhuma preocupação em sua mente e folheava um livro
com elegância e olhar atento nas letras escritas nas
páginas. Mas ao sentir a aproximação, Taehyung ergueu
os olhos. O impacto daquele olhar acinzentado fez o
coração de Hoseok lhe trair com os batimentos mais
fortes, mas o dever falava mais alto que o desejo.
A Rainha pretende humilhar Jungkook no baile de
—
máscaras. — disparou Hoseok, a voz trêmula
contrastando com a quietude do corredor. — Ela quer
expô-lo como desqualificado diante de toda a corte,
enquanto eleva Yunho ao pedestal de herdeiro perfeito.
120
Taehyung fechou o livro com um estalo seco.
— E por que está me contando os segredos da sua
senhora, pequeno cervo?
Porque o seu senhor, o Duque, está sendo arrastado
—
para esse plano. — Hoseok deu um passo à frente, a
urgência em sua voz era nítida assim como o desespero
em seus olhos castanhos claros. — Ela quer provar que a
aliança entre os dois é uma farsa. Isso não destruirá
apenas o príncipe herdeiro, mas manchará a reputação do
Duque irremediavelmente.
aehyung semicerrou os olhos, as íris tornando-se um
T
cinza escuros, sengindo raiva, não pela conspiração
contra o príncipe, isso era mais do que óbvio que
aconteceria. Mas a raiva sentida era por querer envolver
seu amigo nisso.
— Falarei com meu senhor. Ele possui uma inteligência
formidável, embora sua índole seja, digamos, de uma
moralidade duvidosa. — Um sorriso de canto surgiu nos
lábios de Taehyung. — Mas não sorria assim, Hoseok.
Esse sorriso em seu rosto, me provoca mais do que eu
gostaria. Você é lindo, e o seu sorriso é uma armadilha
que eu adoraria fechar com um beijo em seus lábios.
121
oseok baixou o rosto, sentindo o calor subir pelas
H
bochechas. Elogios eram moedas raras em sua vida de
servidão e silenciamento.
— O senhor sabe o que eu sou... — sussurrou. — Sou
um eunuco. Minha masculinidade foi sacrificada no altar
do serviço à Rainha para que eu nunca fosse uma
ameaça. Eu não poderia satisfazê-lo como um homem
completo deveria.
aehyung deu um passo à frente, encurtando a distância
T
entee eles dois, até que o Hoseok pudesse sentir o cheiro
de couro que vinha dele devido às roupas que usava.
Levou a mão ao rosto do criado, o polegar acariciando a
maçã do rosto com uma ternura possessiva.
Pouco me importa o que lhe tiraram, Hoseok. Eu vejo
—
o que restou, e é magnífico. Garanto que posso lhe dar
prazer de formas que você sequer ousou sonhar... e você
ainda tem suas mãos, seus dedos, seu toque. —
Taehyung inclinou-se, o hálito quente roçando os lábios
de Hoseok. — Garanto que minha bunda receberá seus
dedos com o maior prazer do mundo.
arfar de Hoseok foi interrompido quando Taehyung
O
selou a distância. O beijo foi faminto, uma colisão de
necessidade acumulada, ambos se entregaram como se
estivesse experimentando o melhor vinho do reino.
122
Hoseok sentiu-se, pela primeira vez, não como um servo
ou uma ferramenta, mas como um homem vivo,
desejado. O que em séculos não acontecia. Mesmo que
fosse arriscado, está aos beijos com um inimigo. Hoseok,
permitiu-se, entregar aos beijos macios e intensos de
Taehyung.
Capítulo 14
— Fale logo o que você quer, Taehyung. Desembucha.
— o Duque disparou, sem tirar os olhos do papel. A
pena deslizava rápida, selando o relatório para Aurenval.
Jimin precisava saber se sua cidade ainda estava de pé,
ou se a ausência forçada dele para atender aos caprichos
de Seravelle já tinha virado tudo do avesso.
— Sugiro que o senhor pare de rabiscar e me escute com
atenção. — Taehyung soltou, o tom de voz mais baixo
que o normal.
Jimin largou a pena na hora. Ele conhecia aquele tom.
Ao se virar, deu de cara com um Taehyung de rosto
endurecido e ombros tensos. Estava claro que algo havia
acontecido, Jimin não estava muito animado para saber o
que era.
123
— A Rainha vai dar um baile de máscaras. — anunciou
Taehyung.
Jimin revirou os olhos tão forte que chegou a doer.
— Um baile? Aquela mulher respira futilidade. Isso é
inacreditável. — falou, se endireitando para voltar a
escrever e o Taehyung pigarreou, forçando o Duque a
manter o foco.
— Não é só uma festa, Jimin. Ela traçou um plano para
enterrar a sua reputação e a do Jungkook de vez. Esse
baile é o palco de circo! Ela montou esse plano para
provar que vocês dois são hma farsa e que nenhum tem a
competência para governar em Seravelle. Principalmente
o príncipe Herdeiro.
— Mulher previsível... — Jimin desdenhou, soltando um
riso soprado enquanto passava os dedos pelos fios
platinados. Ele alcançou a taça de vinho sobre a mesa,
observando o líquido rubro antes de beber. — Quer
apostar quanto que ela só vai avisar ao Jungkook sobre o
baile no dia do evento? O plano é clássico: ele aparece
sem traje novo, usa um trapo velho de três temporadas
atrás e passa aquela imagem de desleixo e falta de brio.
Ela é astuta, eu admito. Mas é uma astúcia de curto
alcance.
124
Taehyung se jogou na cama de Jimin, cruzando os braços
com um semblante pensativo.
— E o que você pretende fazer? Sei que seu plano
original é só descobrir o segredo dele para dar o fora
daqui. Mas e agora? Vai deixar que ela consiga o que
quer? Que ria às suas custas?
Jimin deu um último gole no vinho, o olhar brilhando
com uma malícia, do que ja sabia o que faria.
— Não vou deixar. E não é porque eu morra de amores
por aquele insolente, longe disso. Mas a Genevieve teve
a audácia de me incluir nesse teatrinho infantil dela. Se
ela quer jogar sujo, que pelo menos tivesse uma mente
mais brilhante. Essa falta de criatividade deve ser o
motivo pelo qual o Hélio a deixou de lado.
Taehyung soltou um sorriso de canto, acompanhando o
humor ácido do amigo.
— Mande chamar o príncipe. — Jimin ordenou,
levantando-se e ajeitando a túnica com elegância. —
Diga para ele me encontrar na carruagem agora mesmo.
Se a Rainha quer um show, vamos dar a ela um
espetáculo que ela não vai conseguir pagar. Vamos dar
um passeio pela cidade vizinha.
125
— Como quiser. Apenas pare de aterrorizar o garoto,
Jimin. Ele já faz muito em conseguir te encarar de frente.
Você é duro demais quando quer. — Taehyung
comentou, mas o sorriso de Jimin apenas se alargou,
carregado de uma malícia que ele sequer tentou
disfarçar.
Sou duro na maior parte do tempo, meu caro. Você,
—
melhor do que ninguém, deveria saber disso. — rebateu
o Duque com um tom aveludado.
aehyung revirou os olhos, soltando um riso soprado de
T
descrença.
Os bordéis de Aurenval que o digam. Com licença. —
—
despediu-se, deixando o quarto do Duque para trás.
le caminhou pelos corredores silenciosos até os
E
aposentos do príncipe herdeiro. Lá dentro, Jungkook
travava uma batalha perdida. O príncipe tentava, com
dedos trêmulos e uma dedicação quase melancólica,
reviver uma orquídea que definhava no jarro de
porcelana. Ele seguia cada instrução dos botânicos, mas
a vida parecia esvair-se da planta, como se a flor se
recusasse a florescer naquele ambiente de opressão.
o ouvir as batidas na porta, Jungkook bufou baixo.
A
Imaginando ser Hoseok com mais alguma exigência
126
protocolar, nem sequer desviou os olhos das pétalas
murchas.
Pode entrar… — murmurou, a voz desprovida de
—
ânimo.
Vossa Alteza... o Duque solicita a sua presença
—
imediata na carruagem. Ele deseja levá-lo a um passeio.
susto foi instantaneamente ao ouvir aquela voz
O
desconhecida e profundamente grave, Jungkook deu um
sobressalto, quase derrubando o jarro. Ele engoliu em
seco, o coração batendo contra seu peito, pelo susto que
havia tomado, e virou-se lentamente para encontrar
Taehyung parado à soleira, mantendo uma distância
respeitosa, mas com um olhar que parecia ler cada uma
de suas inseguranças.
Jungkook respirou profundamente sentindo o nó em sua
garganta se apertar. Ele não entendia o porquê de um
passeio proposto pelo Duque tão repentinamente. Sabia
que nada que era assim tão do nada poderia ser bom,
ainda mais vindo de um homem que parecia estar sempre
em um jogo de xadrez. Ele olhou uma última vez para a
orquídea moribunda, fazendo um bico e pensando como
iria revive-la quando parecia que ela queria que seu
destino fosse aquele. A morte. Por um instante, sentiu
inveja. Pensando que se fosse uma flor, poderia ter
127
morrido há muito tempo e não viveria dessa maneira,
como se fosse um mero peão.
— Agora? — a voz de Jungkook saiu mais instável do
que ele pretendia.
Taehyung assentiu brevemente, mantendo a postura
impecável.
— O Duque não é conhecido por sua paciência, Alteza.
Recomendo que não o faça esperar.
Jungkook caminhou pelos corredores de pedra fria, a
noite estava para chegar, mesmo que Seravelle fosse um
lugar quente, havia momentos que a tempestade fria com
uma força brutal, e ao que parece, essa seria uma dessas
noites. Suspirou, sendo acompanhado pelo Taehyung que
vinha logo atrás de si.
Ao chegar ao pátio externo, o vento gelado acertou seu
rosto, fazendo-o morder os lábios pelo frio, mas mesmo
assim, ficou a visão na carruagem escura com o brasão
da família Orléans.
A porta foi aberta por um lacaio e, lá dentro, envolto em
sombras e no aroma inconfundível de sândalo e fumo
caro, estava Jimin. Ele não lia um livro, não revisava
128
documentos; apenas esperava, com as pernas cruzadas de
forma elegante e um olhar fixo na entrada.
— Suba, príncipe herdeiro. — a voz de Jimin ecoou,
autoritária, mas com um traço de diversão que era quase
um insulto. — O dia está passando, e eu tenho planos
para você que não envolvem ficar aqui parado enquanto
as moscas perturbam nós dois. Entre logo.
Rolou os olhos pelo tom irritante do Duque e até
ponderou em dar meia volta e ir para seu aposento
novamente, mas subiu os degraus de metal e assim que
se sentou no estofado de veludo, oposto ao Duque. A
porta se fechou em um baque, deixando eles dois juntos
no cubículo de luxo que o Orléans ostentava. Jungkook
teve que apoiar a mão na lateral quando a carruagem
começou a andar dando uma pequena chacoalhada em
ambos.
O silêncio prosseguiu por mãos alguns bons minutos
dentro da cabine que era apenas interrompido pelos sons
das rodas de madeira contra o cascalho e Jimin
observava sem desviar os olho um sorriso de canto,
subindo em seus lábios enquanto notava o nervosismo do
mais novo que tentava esconder sob as coxas.
— Você parece um animal acuado. — Duque foi o
primeiro a romper o silêncio, inclinando-se para frente,
129
reduzindo a pouca distância que havia entre eles. —
Taehyung, me comunicou antes de irmos que demorou
porque você estava entretido com uma orquídea morta.
Não acha que é uma perda de tempo? — disse, fazendo
as mãos do Jungkook se fechar em punhos. — Algumas
coisas não tem conserto. Apenas deixe que vá.
Com um riso irônico, Jungkook virou o rosto para a
janela coberta pela cortina, cruzando os braços enquanto
mordia a bochecha interna.
— Nem tudo o que definha está morto por escolha,
senhor. Às vezes, o ambiente é demasiado tóxico para
permitir que qualquer coisa respire. Não fale da minha
flor dessa maneira. Estava apenas tentando revivê-lá.
O riso que escapou de Jimin foi baixo e vibrante,
preenchendo o espaço da carruagem.
— Touché. Pelo visto, a sua língua ainda está afiada. —
murmurou, com um breve olhar novamente para o
príncipe, mas vendo que estava sendo ignorando. — Use
seus poderes. Isso fará com que ela reviva novamente.
— Poderes?
— Pelos deuses. — jogou a cabeça para trás, chocado
com o que acabara de ouvir. — Escute bem o que vou
130
lhe dizer. Vou dizer no meu idioma para que não
escutem. — disse, assumindo uma postura mais séria e
reta.
— Elar solen arven valen. Valen nae loriel. Solen nae
valen elar. (A rainha dará um baile. Mas esse baile é
apenas para envergonhá-lo. Ela não o quer no trono,
vossa alteza.) — O Duque continuou em Auric, falando
baixo: — Solen valen arven. Valen nae. (Ela pretendia
humilhar nós dois, principalmente você.)
Jungkook, enfim encarou o Jimin, sentindo seus ombros
abaixarem. Não era novidade. Por que se espantava ao
saber disso? Sua mãe nunca o aceitaria. Mas humilhar
em frente a sociedade? Isso era cruel demais.
— Valen nae? (O que o senhor pretende fazer?) —
perguntou em Auric, fazendo o Duque, olhar com uma
certa admiração, ao ver que o garoto sabia o idioma que
lhe era pertencente.
— Vamos para Alvorada. Temos que comprar algumas
coisas. — disse com um sorriso.
— Mas há um problema, vossa graça. Eu não sei dançar.
Sei que nesses bailes exige que dance. Sinto que irei
desapontá-lo.
131
— Não o vai. Eu sou o seu mentor, lembra?
— Não esqueci, isso significa que me ensinará a dançar
também? — perguntou com deboche e o Duque, cruzou
as pernas uma na outra, com o rosto totalmente sério,
fazendo o Jungkook parar de sorrir e encará-lo da mesma
maneira. — É um faz tudo?
— Sereth varien? Na thalor ven aurel. Kael ven arven?
Se thalen var, vael thalen ven. Na velorien arven humeral
ven. Valen et loriel, tharen elar Seravelle, Jungkook.
(Seria eu um faz tudo? Você não me deu a sua
sentença? Sobre me ajoelhar? Se o seu irmão tem
alguém para o apoiar, saiba que agora você também
tem um. Não o deixarei ser humilhado em minha
presença. Somos noivos e você é o futuro Rei de
Seravelle, Jungkook.)
— Não fale dessa maneira… — murmurou Jungkook,
sentindo o rosto arder em um tom carmesim que
contrastava com a frieza do ar que entrava pela
carruagem.
Ouvir seu próprio nome pronunciado pela voz grave e
suave do Duque causava-lhe um formigamento
incômodo, uma mistura de exposição e um tipo de
reconhecimento que ele nunca experimentara em
Seravelle. Desviou o olhar drasticamente, focando a
132
paisagem que passava veloz pela janela; os campos
familiares já haviam ficado para trás, e os contornos
dourados de Alvorada começavam a surgir no horizonte
sob o sol poente.
— Como voltaremos? — perguntou, a voz vacilando
levemente. — É perigoso viajar por essas estradas à
noite. E já está tarde demais para uma escolta simples.
O Duque de Orléans soltou um riso curto, quase
imperceptível, mas carregado de uma confiança que
beirava a arrogância.
— Não voltaremos, Jungkook. — afirmou ele,
saboreando a pronúncia do nome alheio. — Ficaremos
em um dos aposentos da alta nobreza em Alvorada.
Partiremos apenas amanhã, sob a luz do dia e os olhos de
quem quiser ver.
Jungkook arregalou os olhos, mas antes que pudesse
protestar sobre o escândalo, o Duque inclinou-se à
frente, fazendo ele chegar para trás, prendendo a
respiração.
— Tenho certeza de que não darão falta de você antes do
amanhecer. E, de agora em diante, nada de títulos.
Vamos nos tratar pelos nossos nomes pessoais. O mundo
precisa ver que somos íntimos; que cada respiração sua
133
está conectada à minha. Temos que fazer eles
acreditarem custe o que custar.
Jungkook engoliu em seco, mas assentiu. O peso das
palavras de Orléans era real. Ele estava certo. Se sua mãe
queria sua cabeça entregue em uma bandeja de prata, ele
faria questão de mostrar que não seria o prato principal,
muito menos o entretenimento barato daquela noite. Se o
preço da sobrevivência fosse fingir uma entrega absoluta
ao homem à sua frente, ele pagaria com juros.
Capítulo 15
Não vão falar se ficarmos nos mesmos aposentos? —
—
Jungkook soltou a pergunta assim que saltou da
carruagem, mal esperando o lacaio abrir a porta por
completo. Ele estava inquieto, com os olhos fixos na
estrutura de pedra à sua frente.
Duque desceu logo atrás, achando graça daquela
O
pressa toda. Parou ao lado dele, as mãos cruzadas nas
costas, observando a mansão de campo que se erguia
silenciosa sob o céu escuro da noite.
Ninguém fala nada em uma propriedade que me
—
pertence, Jungkook. — respondeu o Duque, com uma
134
calma que beirava a arrogância. — Você achou mesmo
que eu te mandaria para um sanatório ou uma casa de
repouso comum? Tenho posses em Alvorada e Aurenval.
Aqui, as regras são minhas.
J ungkook olhou em volta. O silêncio do campo era
absoluto, quebrado apenas pelo vento nas árvores. Era
longe de tudo, longe do barulho do comércio e dos
olhares da cidade.
Eu poderia facilmente morar aqui… — confessou, a
—
guarda baixa por um segundo diante da paz do lugar.
Duque ouviu, mas não disse nada. Apenas o olhou de
O
soslaio, guardando aquela informação para si como se
fosse um trunfo.
Venha. Está esfriando. — cortou o mais velho,
—
indicando a entrada. — Os caseiros já prepararam tudo.
Você vai direto para o seu quarto e a comida será servida
lá. Amanhã, uma costureira vem logo cedo. Ela vai tirar
suas medidas para o baile de máscaras.
Me trouxe até aqui apenas para comprar roupas? Eu
—
poderia ter resolvido isso em Seravelle — comentou
Jungkook, o tom carregado de uma altivez que escondia
sua crescente curiosidade.
135
o cruzarem o limiar da mansão, o ar pesado da viagem
A
foi substituído pelo aroma de chá de jasmim e casa
recém limpa com especiarias caras. Jungkook travou o
passo quando um casal de raposas – não animais, mas
metamorfos de aura vibrante e acolhedora – surgiu no
corredor. O que o deixou verdadeiramente atônito,
porém, não foi a presença deles, mas a reação do Duque.
O homem de íris cinzas, sempre tão implacável e rígido
em sua presença, abriu um sorriso genuíno, expandindo
os braços para receber o casal em um abraço caloroso
que transbordava familiaridade.
Sr. e Srª Ashdown! É um prazer imenso revê-los.
—
Como tem sido a vida por aqui? — indagou o Duque,
guiando-os para a sala principal com uma leveza que
Jungkook nunca vira. Ele olhou para trás, garantindo que
o príncipe o seguia, antes de pigarrear para as devidas
apresentações. — Perdão. Deixem-me apresentar... Este
é o príncipe herdeiro e... — Ele hesitou por um milésimo
de segundo, o peso da palavra pairando no ar. — Meu
noivo.
distância, Taehyung comprimiu os lábios. Seus olhos
À
brilhavam com diversão, segurando a vontade de
gargalhar da expressão de "peixe fora d'água" do amigo,
mas manteve a postura impecável de um guarda real.
136
Vossa Alteza! — o senhor de meia idade exclamou,
—
os olhos arregalados em surpresa. — Perdoe nossa falta
de modos, não o tínhamos visto!
homem começou a se curvar com dificuldade, as
O
articulações protestando contra o movimento brusco.
Antes que ele pudesse completar o gesto, Jungkook agiu
por puro instinto cavalheiresco. Ele avançou
rapidamente, segurando o braço do senhor com firmeza,
mas delicadeza, impedindo-o de descer mais.
Por favor, senhor, peço que se levante. — disse
—
Jungkook, sua voz suavizando de uma forma que
surpreendeu até a si mesmo. — Está tudo bem. Não são
necessárias tais formalidades sob este teto. Afinal,
parece que estamos entre amigos, não é?
Duque observou a cena em silêncio, um brilho de
O
aprovação cruzando suas íris cinzentas ao notar que, por
trás da coroa, havia um homem capaz de reconhecer a
dignidade acima do protocolo. Talvez, ele não seria um
rei tão ruim assim, como julgava desde do início.
Balançou a cabeça, negando esses pensamentos
inoportunos.
— Senhor Ashdown, a comida está pronta? — A voz de
Jimin foi ouvida pela sala principal. — Peça para que a
levem aos aposentos do príncipe e preparem seu banho.
137
Estarei em meu escritório resolvendo um assunto de
extrema importância.
velho criado assentiu com uma reverência ao duque,
O
por estar acima dele. Ao lado dele, a senhora Ashdown
ofereceu a Jungkook um sorriso materno, um contraste
acolhedor à frieza que vinha das paredes de pedra.
Jungkook, no entanto, sentia-se um intruso em um palco
desconhecido. Ele acompanhou com o olhar a silhueta de
Jimin se distanciar, a luz das velas fazendo sua sombra
dançar de forma dramática contra a tapeçaria, até que o
Duque desaparecesse na penumbra do corredor.
Me acompanhe, Vossa Alteza. — A voz da senhora
—
Ashdown o trouxe de volta. Ela ergueu um lampião de
latão, cuja chama oscilante revelava as partículas de
poeira suspensas no ar. — Irei levá-lo ao quarto e
preparar seu banho. Tenho certeza de que as vestes do
Duque lhe servirão bem; creio que os corpos sejam
semelhantes, embora temperamentos... distintos.
J ungkook apressou o passo. O som de suas botas
ecoando no mármore parecia alto demais, quase uma
profanação naquele silêncio sepulcral.
O senhor desperta coisas boas no Orléans —
—
comentou ela, sem olhar para trás, enquanto subiam a
138
imponente escadaria de carvalho. — Embora ele seja
uma criança difícil de lidar.
Criança…
termo ecoou na mente de Jungkook. Ele quase
O
permitiu que um sorriso irônico surgisse em seus lábios
ao pensar no homem implacável que acabara de
deixá-los, mas guardou o pensamento para si. Para
aquela mulher, que talvez o tivesse visto crescer entre
aqueles muros frios, o temido Duque ainda era apenas o
menino que ela ajudara a criar.
les alcançaram um extenso corredor onde o cheiro de
E
madeira antiga e lavanda era mais forte. A governanta
parou diante de uma porta de jacarandá escuro, cujas
dobradiças soltaram um lamento baixo ao serem abertas.
O quarto era vasto, mergulhado em uma penumbra que
escondia os cantos mais distantes.
Gosta de água morna ou quente? — perguntou ela,
—
deixando o lampião sobre uma mesa de cabeceira e
começando a acender as velas do candelabro, uma a
uma, revelando a opulência discreta do local.
Morna — murmurou Jungkook, sua voz soando
—
estranha aos próprios ouvidos.
139
senhora Ashdown assentiu com um gesto breve e
A
gentil.
— Pois bem. Descansar o corpo é o primeiro passo para
acalmar a alma, Alteza. Trarei a água e suas vestes em
um instante.
Com uma última reverência, a criada retirou-se,
deixando para trás apenas o eco suave da porta se
fechando e o silêncio opressor do quarto. Jungkook
soltou o ar que nem percebera que segurava. Seus
ombros caíram sob o peso das suas inseguranças vindo à
tona, sentindo-se exposto. Ainda mais em um lugar
desconhecido.
Ele caminhou com passos hesitantes até o espelho de
moldura dourada. Conforme as vestes largas e pesadas
deslizavam pelo seu corpo e caíam ao chão, a imagem
que o refletia parecia um insulto à linhagem real. Ele
traçou, com a ponta dos dedos trêmulos, as linhas de seu
próprio corpo. Aos seus olhos, faltava-lhe o vigor dos
guerreiros e a imponência dos líderes; sentia-se gordo,
totalmente acima do peso, uma pessoa que não era
agradável de se observar.
Que tipo de esposo seria ele? — o pensamento martelava
em sua mente. Como poderia alguém como o Duque –
um homem que tinha o corpo de lhe arrancar arfares,
140
caso isso acontecesse. Ele não desejava o duque! Jamais!
Ele nem era isso tudo. Como alguém como o Duque
poderia desejar alguém que ele via como… comum?
O susto veio na forma de um clique na fechadura.
Jungkook cobriu-se apressadamente com os braços
quando a senhora retornou, trazendo consigo o vapor
quente da água. Ela preparou a banheira em silêncio,
ajustando a temperatura exatamente como o príncipe
herdeiro havia solicitado.
— Quer ajuda com o banho, Alteza? — perguntou ela,
mas Jungkook apenas negou com um movimento rápido
de cabeça, as bochechas tingidas de um rosa
involuntário.
— Prefiro ficar sozinho, obrigado. — murmurou, a voz
quase sumindo.
Ela assentiu, deixando sobre o divã roupas de seda em
tons de marfim e tecidos tão finos que pareciam nuvens.
Assim que a porta se fechou novamente, ele se permitiu
entrar na água. O calor abraçou sua pele, relaxando os
músculos tensos, e Jungkook apoiou a nuca na borda da
banheira, virando o rosto para a grande janela lateral.
O jardim estava mergulhado no azul profundo da noite.
O lago, ao longe, devolvia o brilho prateado da lua como
141
algo belo de se admirar como estava fazendo no instante,
até que seu foco foi retirado, o que rolou o fôlego de
Jungkook no momento que já viu lá embaixo, de costas
para a ala sul, estava o Duque.
Ele estava sem camisa, e a visão paralisou Jungkook. A
pele do homem era alva, de um branco pálido que quase
parecia brilhar com luz própria sob a lua crescente,
contrastando dramaticamente com a escuridão da noite.
O suor de seu esforço cobria seu corpo pálido, enquanto
sua musculatura poderosa se movia com a precisão de
uma máquina letal.
Em sua mão, uma espada longa cortava o ar em silêncio
absoluto. Jungkook mordeu o lábio inferior, os olhos
fixos na dança hipnotizante dos músculos das costas do
homem: as escápulas movendo-se sob a pele clara, o
desenho perfeito da coluna vertebral e a tensão nas coxas
sempre que ele avançava em um golpe imaginário.
irou-se bruscamente para o lado oposto, o movimento
V
rápido demais para seu gosto, o que fez a transbordar da
banheira e respingar um pouco no chão de madeira.
Puxou o ar com força entre os lábios, sentindo seu peito
arder pela a força que havia colocado. Sentia-se um
intruso, um admirador oculto que havia se prolongado
perigosamente ao observar a figura do duque a distância.
142
scapou do calor da água com uma pressa quase
E
desajeitada, buscando o refúgio da toalha. Secou o corpo
com movimentos rápidos, tentando esfregar para longe
não apenas a umidade, mas o calor persistente que subia
por seu pescoço. No divã, as roupas de seda o
aguardavam sob a luz trêmula das velas. O tecido
deslizou por sua pele de forma fria e fluida.
pós vestir-se, sentou-se à beira da cama, os dedos
A
afundando no colchão excessivamente macio. O silêncio
do quarto era vasto, interrompido apenas pelo estalar
ocasional da lenha na lareira, e a ausência de sono
tornava tudo mais nítido. Ele encarou as próprias mãos,
inquieto. Se o cansaço não vinha para resgatá-lo daquela
vigília, o que faria?
Um suspiro pesado escapou de seus lábios enquanto ele
tateava pelo chão à procura dos calçados. Ergueu-se com
movimentos furtivos, abandonando o isolamento de seus
aposentos para se aventurar pelo corredor da ala sul.
Descia a escadaria com a agilidade de um rato,
esgueirando-se pelas sombras para evitar o olhar de
qualquer pessoa que pudesse estar por ali.
o cruzar o limiar, a brisa noturna o atingiu como um
A
abraço gélido e revigorante. Ele sorriu, sentindo o
frescor expulsar o ar estagnado dos pulmões enquanto
avançava pelo gramado úmido. No entanto, o
143
contentamento durou pouco: ao longe, a silhueta do
Duque permanecia imóvel, exatamente como ele a vira
da janela.
ominado por um nervosismo que não sabia nomear, o
D
príncipe sentou-se na cadeira mais próxima, buscando o
abrigo de uma mesa de ferro. O metal frio sob suas mãos
parecia realçar o tremor de seus dedos.
Vai ficar aí parado ou pretende se aproximar? — e o
—
Duque falou com o seu tom carregado de uma diversão
contida. — Sabe que notei sua presença no instante em
que pisou na grama, não sabe?
Duque cessou o treino, apoiando a ponta da espada no
O
solo. O tilintar do aço contra a pedra foi o único som
antes de ele se virar. Com um gesto indolente, jogou os
fios platinados para trás, revelando um olhar que fez o
herdeiro engolir em seco, sentindo o peso daquela
atenção repentina.
— Eu… — aspirou o ar fortemente, enchendo os
pulmões como se buscasse coragem no oxigênio, e
finalmente confessou: — Não queria atrapalhar seu
treino.
— Não atrapalhou. Você jantou? — Jimin perguntou
com a voz ainda levemente ofegante pelo esforço físico.
144
Ele caminhou até a mesa, depositando a espada com um
estalo metálico que ecoou pelo jardim silencioso.
Jungkook encarou o objeto por um instante longo
demais, o cenho franzido em uma mistura de admiração
e ressentimento. Perguntava-se, pela milésima vez, por
que sua mãe jamais permitirá que ele segurasse uma
lâmina ou frequentasse as aulas de esgrima. Sabia que
fora criado para o altar, moldado como uma peça para
sentar-se no trono quando fosse necessário, mas ele era
um homem! E, na sua concepção, os homens deveriam
saber o peso do aço e a dança da defesa.
— Pelo jeito, não. — O Duque notou o silêncio do outro.
— A senhora Ashdown deve estar procurando por você.
— Não estou com fome. Não se preocupe. — Jungkook
retrucou, tentando soar casual, embora o estômago desse
um nó vazio. — Não como muito de qualquer maneira.
Ficar sem jantar não vai me fazer desmaiar no chão.
Jimin parou o que estava fazendo, encarando o príncipe
com as sobrancelhas unidas, uma expressão de dúvida
genuína cruzando suas feições endurecidas pelo treino.
— Oh, eu… — Jungkook baixou a cabeça, sentindo o
calor subir pelas bochechas, mas forçou-se a sustentar o
olhar do mais velho logo em seguida. — Vossa Graça já
145
deve ter notado que estou acima do peso. Então, tenho
que me policiar com o que como. Para emagrecer.
Houve um silêncio pesado. Jimin percorreu o olhar pelo
corpo do príncipe, do caimento do tecido caro sobre os
ombros até a postura rígida. Suas sobrancelhas
arquearam-se em uma descrença silenciosa, e ele soltou
um suspiro curto, negando com a cabeça como se
ouvisse um absurdo completo.
— Venha. Vamos caminhar um pouco. — convidou o
Duque, estendendo o braço musculoso para o loiro.
Jungkook hesitou por um segundo antes de aceitar. Ao
enlaçar seu braço ao de Jimin, sentiu um choque elétrico
percorrer sua espinha. Era difícil manter o raciocínio
lógico quando sua pele tocava diretamente o braço
desnudo do outro; ele podia sentir o calor pulsante de
Jimin, o suor que ainda brilhava sob o luar e a textura
firme dos músculos que relaxam e contraem a cada
passo.
Enquanto caminhavam pelos caminhos do jardim, o
perfume das damas-da-noite misturava-se ao cheiro
terroso da pele de Jimin. O Duque não falou de imediato,
conduzindo o passeio em um ritmo calmo que forçava
Jungkook a desacelerar seu coração ansioso.
146
— Quem lhe disse isso? — Jimin finalmente quebrou o
silêncio, sua voz agora mais grave, quase vibrando
contra o braço de Jungkook. — Que você precisa se
privar de alimento para atingir algum ideal de beleza?
— Minha mãe, os tutores… a corte inteira — Jungkook
respondeu com um riso soprado, desprovido de humor.
— Um príncipe deve ter um corpo ideal, Vossa Graça.
Deve ser leve como uma pluma para não sobrecarregar o
prestígio de quem o carrega.
Jimin parou abruptamente, obrigando Jungkook a
virar-se para ele. O Duque o encarava com uma
intensidade que parecia ler não apenas seu corpo, mas
sua alma cansada de cobranças.
— Pois saiba que a força não vem da privação,
Jungkook. — disse ele, usando o nome do príncipe sem
os títulos formais, o que fez o coração do loiro errar uma
batida. — Um corpo que não é nutrido é um espírito que
não pode lutar. E, pelo que vi no seu olhar quando olhou
para a minha espada, você tem o desejo de lutar, não de
apenas ser carregado.
Jungkook desviou o olhar, sentindo-se exposto. O toque
de Jimin em seu braço tornou-se um pouco mais firme,
um suporte silencioso em meio à brisa fresca da noite.
Com um pouco mais de atrevimento, levou sua mão até
147
o braço de Jimin, segurando, mas sem manter muito um
aperto nele.
— Eu não posso lutar, Jimin. Por mais que cada fibra do
meu corpo implore por isso. Eu simplesmente não posso.
— confessou.
O Duque sentiu os músculos travarem ao ouvir seu
nome, sem títulos ou formalidades, escapar pelos lábios
do príncipe herdeiro pela primeira vez. Havia um peso
naquela confissão que ia além das palavras.
— O sangue que corre nas minhas veias... ele não me
permite ser um guerreiro. — Jungkook completou com
um sorriso amargo, desprovido de qualquer vestígio de
humor. Ele soltou o braço de Jimin e caminhou em
direção à margem do lago, parando de costas, com os
braços cruzados apertados contra o peito, como se
tentasse manter a própria estrutura inteira.
— Você é filho de Hélio! — Jimin rebateu, dando um
passo à frente. — É herdeiro da luz. É claro que pode
lutar.
Jungkook fechou os olhos com força, os ombros caindo
sob o peso daquela expectativa eterna. Ele estava
exausto de ser visto apenas como um pedestal para a
glória divina.
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— Embora eu seja filho de Hélio, não é só o sangue dele
que pulsa aqui dentro, Jimin! — O tom de voz subiu. Ele
se virou abruptamente. — Eu ainda carrego o sangue da
rainha. Ou você esqueceu quem é minha mãe? Nunca
parou para pensar no real motivo desse casamento? Por
que dois homens foram destinados um ao outro dessa
forma? E você, não é ingênuo, vossa graça. Não tente
parecer um tolo agora.
Jimin passou a mão pelo cabelo, o nervosismo subindo
pela espinha. O tom cortante de Jungkook indicava que a
verdade, guardada a sete chaves pelo alto escalão do
reino, estava prestes a ser despejada ali, entre as sombras
das árvores. E que era algo que o duque estava
esperando faz tempo.
— Já me perguntei, é claro. Mas não é como se eu
pudesse saber de algo, quando o Palácio tem os seus
segredos.
— Pois aqui está a sua resposta. — Jungkook disse, a
voz agora carregada de um desgosto profundo. — Eu
não sou apenas o semideus que carrega o sol. Eu também
sou filho de uma ninfa. Mas não o tipo de criatura que
povoa os contos de fadas, bela e graciosa. Sou a parte
que preferem esconder a todo custo, como se eu fosse
um erro sobre os olhos da sociedade. Se já me julgam
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por ser filho de Hélio, imagina quando souberem que sou
um ninfa também? Feio, desproporcional e totalmente
fora do padrão…
Ninfa.
A palavra ecoou na mente do Duque. Enfim, o segredo
que sustentava as paredes daquela monarquia vinha à
tona. Jimin percebeu, em um estalo gelado, que tinha em
mãos o motivo perfeito para anular o noivado. Poderia
alegar quebra de linhagem, omissão de natureza ou
qualquer termo jurídico que o libertasse daquele
compromisso sem sentido.
No entanto, ao olhar para Jungkook, ele não viu um
monstro ou uma fraude. Viu um homem quebrado,
cercado por luxo, mas completamente sozinho em sua
própria pele. Alguém que era constantemente lembrado
de suas "falhas" até que passasse a odiar o próprio
reflexo.
O Duque deu o passo que faltava, reduzindo a distância
entre eles. Ele não usaria aquilo como arma. Não agora.
Ele estendeu a mão e segurou o ombro do príncipe,
forçando-o a encarar seus olhos. As íris de Jungkook,
tingidas de dourado, pareciam distantes, perdidas em
anos de julgamentos silenciosos. Agora ele não precisava
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de mais um juiz. Ele já vivia em um tribunal particular
desde que nascera.
E, no fundo, Jimin sabia de algo que nem mesmo os
conselheiros mais velhos ousavam admitir: de toda a
linhagem real, o príncipe herdeiro era o único com
têmpera o suficiente para se tornar rei e se sentar naquele
trono. Mesmo que ele mesmo não acreditasse nisso.
— Olhe para mim. — Jimin pediu, a voz baixa, mas
firme. — O sangue pode ditar como você nasceu,
Jungkook. Mas ele não vai ditar quem você é aqui, na
minha frente. Esqueça o conselho, esqueça a rainha. O
que o trono precisa não é de um guerreiro que saiba
manejar uma espada, mas de alguém que saiba o peso do
que carrega. E isso, você já faz melhor do que qualquer
um.
Percebendo a proximidade súbita e o calor que vinha do
rosto alheio, Jimin recuou um passo, o movimento suave
de seus pés sobre a grama, quase escorrendo pelo
molhado. Ele tentou restaurar uma distância respeitosa,
zelando pelo espaço pessoal do príncipe, mas não passou
despercebido o leve franzir de sobrancelhas e o olhar
turvo de descontentamento que cruzou as feições do
nobre com o afastamento.
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I gnorando a tensão palpável, Jimin retomou a palavra,
sua voz agora carregada de uma firmeza que contrastava
com a sua hesitação anterior:
Vamos entrar. O sereno da noite já não nos pertence
—
mais. — disse ele, com o olhar fixo no horizonte antes
de voltar-se para o príncipe. — Amanhã o dia será longo.
Você precisará experimentar os trajes e permitir que
tirem suas medidas para o baile de máscaras. E não se
preocupe: eu estarei exatamente ao seu lado.
Mostraremos a cada nobre naquele salão que você é, sem
sombra de dúvidas, digno de cada honra que lhe foi
proposta.
le fez uma breve pausa, deixando que o peso de suas
E
próximas palavras se assentasse entre eles.
Serei leal a ti, integralmente, até que os votos deste
—
casamento sejam selados. Não nego que meu plano
inicial era partir no instante em que descobrisse o que
você escondia... o que você realmente era. Mas, após
testemunhar a podridão que corre nas veias da rainha e a
negligência cega deste conselho, percebi que você é a
única peça justa neste tabuleiro. Você é o único que
merece carregar o peso dessa coroa. Então, se Hélio te
escolheu como o sol. Que o sol governe Seravelle.
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