100% acharam este documento útil (2 votos)
29 visualizações5 páginas

PRÓLOGO

O prólogo descreve a rotina de Will e Darion, guardas do Lar das Filhas de Élior, em um dia chuvoso e melancólico. A chegada de uma nova residente, a Senhorita Mallister, provoca murmúrios sobre seu passado e as acusações de bruxaria que a cercam. Will, que guarda lembranças de Jenna Mallister, sente uma mistura de emoções ao perceber que a jovem que aparece não é ela.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
100% acharam este documento útil (2 votos)
29 visualizações5 páginas

PRÓLOGO

O prólogo descreve a rotina de Will e Darion, guardas do Lar das Filhas de Élior, em um dia chuvoso e melancólico. A chegada de uma nova residente, a Senhorita Mallister, provoca murmúrios sobre seu passado e as acusações de bruxaria que a cercam. Will, que guarda lembranças de Jenna Mallister, sente uma mistura de emoções ao perceber que a jovem que aparece não é ela.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.

Prólogo

Chovia de novo naquela manhã – uma chuva fina, persistente, que


parecia brotar das próprias pedras de Suma, escorrendo silenciosa pelos
muros negros do mosteiro.
Will estava de pé sob o arco da entrada principal, com os ombros
encolhidos no manto grosso que já não aquecia nada. A madeira da porta
ainda guardava o cheiro da última abertura, duas horas atrás, quando um
padre passara montado e coberto até as orelhas. Desde então, o mundo lá fora
tornara-se uma parede de névoa.
Àquela hora do dia, quase ninguém saía ou entrava. Era o momento de
maior silêncio. E o mais difícil de suportar.
— Se não parar até a noite, o pátio vai virar uma maldita lagoa —
resmungou Darion, seu colega de guarda, sentado num banquinho encostado
na parede, com as botas estendidas e os olhos semicerrados de tanto fitar a
chuva.
— Já virou — respondeu Will, sem se virar. Mantinha os olhos fixos nos
vultos que se formavam e se desfaziam na neblina.
Darion não comentou. Espreguiçou-se e voltou a calar. Era assim quase
todos os dias.
A guarda do Lar das Filhas não exigia bravura, nem correria, nem
grandes feitos com a espada. Bastava manter-se ali, firme, atento – ou pelo
menos parecer atento. As instruções eram de apenas vigiar e agir em caso de
invasões. Quanto as moças que tentavam escapar, o protocolo era simples:
tocar um dos sinos e alertar as freiras, que lidariam com a situação bem
melhor do que qualquer um deles.
Elas é que sabiam prender.
Eles apenas guardavam as portas e as muralhas.
Will nunca se orgulhara do ofício. Mas o salário era melhor que o da
maioria dos postos de vigia em Délle, e trabalhar em nome de Élior dava
prestígio suficiente para que sua mãe dissesse, com certa altivez: “Meu filho
guarda as filhas do Senhor.”
As filhas...
A maioria era feia, cansada ou resignada. Mas diziam que nem sempre
fora assim. Em outros tempos, as Filhas de Élior caminhavam com cabeças
erguidas, rostos serenos, quase sagrados. Agora, arrastavam os pés pelo pátio
com a mesma expressão opaca de quem já esquecera como era a vida do lado
de fora.
Algumas tinham marcas nos joelhos que o tempo não apagara. Outras
mantinham as mãos sempre ocultas sob as mangas, como se algo nelas
denunciasse mais do que deveriam. Nenhuma falava alto. Nenhuma olhava
nos olhos. E as novas aprendiam depressa.
Havia quem dissesse que aquilo fazia parte do processo de purificação.
Que a reclusão e o trabalho moldavam o espírito. Mas Will, mesmo sem saber

1
os detalhes, intuía outra coisa por trás dos sussurros e dos silêncios
prolongados.
Não era apenas cansaço. Era algo mais profundo. Algo que fazia com
que nenhuma delas ousasse tentar fugir.
— Vai ver é hoje — comentou Darion, de repente.
Will ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— A chegada dela. A tal Senhorita Mallister. — Darion deu um sorriso
enviesado. — Tão importante que quase virou esposa do herdeiro do rei.
Agora tá vindo pra cá. Difícil de acreditar que a filha de um senhor cometeria
bruxaria...
Will não respondeu.
— Aposto que é bonita, no mínimo — continuou o outro. — Deve ser.
Essas de Bris costumam ser. Altivas. Metidas. Mas com aquelas peles limpas e
os cabelos penteados. Aposto que até a respiração dela cheira a lavanda. Veja
você — acrescentou, com um sorriso enviesado e a voz carregada de ironia. —
Brisenho dos pés à cabeça... só falta o cheiro de lavanda.
Will arqueou uma sobrancelha, sem se virar.
— Então eu sou bonito?
Darion soltou um riso abafado, balançando a cabeça.
— Só estou dizendo que vocês se acham.
Will não respondeu. Mas sorriu, ainda que de leve – um sorriso curto,
afiado, sem alegria. Não porque se ofendeu com o comentário do companheiro
– pelo contrário.
Darion estava certo.
A maioria dos brisenhos era exatamente assim: orgulhosos, mesquinhos,
convencidos de que o sangue deles corria mais limpo que o dos outros. Até
mesmo aqueles que passavam os dias com uma pá nas costas, juntando merda
de cavalo, mantinham o queixo erguido como se esperassem uma reverência a
qualquer momento.
Talvez fosse algo na água. Ou nos nomes pomposos. Ou nas histórias
repetidas desde o berço. Mas era verdade. E a Senhorita Mallister era
exatamente como os outros. Ao menos, até onde ele a conheceu.
Viu-a várias vezes, nos jardins da Fortaleza de Bris, quando ainda era
jovem. Ela devia ter uns doze anos, ele quinze, mas a menina já caminhava
como se o chão lhe pertencesse. As criadas a seguiam em silêncio, e mesmo as
flores pareciam se inclinar à sua passagem.
Will sempre a espiava por entre as frestas do pomar murado, onde os
filhos dos empregados podiam brincar desde que não fizessem barulho.
No dia que fora descoberto, ela repousava sobre a relva com um vestido
azul-claro. O sol da tarde atravessava o tecido leve, revelando o contorno
delicado de seus joelhos e das canelas pálidas, e ele se pegou olhando por
tempo demais. Os cabelos castanhos estavam presos em uma trança justa,
mas fios soltos bailavam ao redor de seu rosto com o sopro da brisa.

2
E então, seus olhos se voltaram – não vagamente na direção dele, mas
diretamente sobre ele.
Will congelou, ofegante, meio escondido atrás do galho torto de uma
pereira.
Por um instante, acreditou que ela fosse se levantar, chamar alguém,
mandá-lo embora.
Mas ela não fez nada disso.
Apenas o encarou de longe... E sorriu. Um sorriso pequeno, enviesado,
que parecia brincar com as bordas do silêncio.
Naquele momento, ele sentiu algo tomar conta de seu peito. Pensou que
fosse amor. Pensou que fosse desejo compartilhado. Uma faísca entre dois
mundos opostos – o da moça nobre e o do filho de um dos guardas do castelo.
Pensara nela muitas vezes depois disso. E quando se mudou para Suma,
nas noites longas, em que o frio não o deixava dormir, ela voltava à memória
como uma tentação do inimigo – doce, proibida, insistente. E ele cedia,
sempre, sem culpa e sem pressa, como quem recita um velho costume. Para
então, no dia seguinte, ajoelhar-se diante de um padre e confessar que pecou.
Demorou anos para perceber. Mas hoje sabia que ela não sorrira para
ele. Sorrira dele. De sua inocência. De seu olhar faminto e tolo. De sua
absurda esperança de que algo – qualquer coisa – pudesse, um dia, lhe
pertencer.
— Estão dizendo que ela matou um gato com o olhar — provocou Darion,
só para quebrar o silêncio de novo. — E que apareceu nua num culto das
colinas.
Will não respondeu.
— Juro que ouvi isso da boca de um padre — insistiu o outro, agora um
pouco mais sério. — Dizem que ela gritava palavras em línguas antigas. Que
os olhos dela ficaram pretos feito carvão e que as velas se apagaram sozinhas.
Will virou o rosto só o suficiente para lançar-lhe um olhar de soslaio.
— E você acredita mesmo nisso?
Will sabia que, quando lhes era conveniente, padres mentiam ainda mais
do que um charlatão de feira. Portanto, o que diziam ou fofocavam por aí não
era digno de crédito.
Darion ergueu os ombros.
— Por que não? Bruxas famosas viveram em Bris. E aquela menina... sei
lá. Talvez estivesse tentando enfeitiçar o príncipe.
Will desviou os olhos de volta para a chuva.
Sabia como essas histórias nasciam – e sabia como terminavam.
Em Bris, viu mulheres serem queimadas vivas por muito menos. Bastava
preparar um chá e ele adquirir uma cor estranha, curar um doente, sonhar
com coisa errada...
Era fácil chamar de bruxa uma mulher bonita demais, faladeira demais,
diferente demais.
Difícil era ouvir os gritos na praça e ainda assim acreditar que Élior
queria aquilo.

3
Darion continuava falando, mas Will já não ouvia. A voz do companheiro
se perdeu sob o tambor da chuva no telhado.
Enfeitiçar o príncipe... Não acreditava nessas besteiras de bruxa, no
entanto, não conseguia evitar a pergunta: o que teria acontecido de verdade
para que ela fosse mandada para cá, como uma qualquer, para servir Élior
entre paredes úmidas e madrugadas de prece?
Nada daquilo combinava com ela.
Nasceu em berço de ouro. Foi criada entre preceptoras, aias de
companhia e servas que cuidavam até do modo como respirava. Adormecia
sobre travesseiros de pena, vestia os tecidos mais caros, usava as joias mais
raras, comia do bom e do melhor.
E, até bem pouco tempo, falava-se nela como se tivesse nascido para
usar uma coroa. Com seu nome sendo sussurrado ao lado do príncipe Damon.
Um casamento que muitos davam como certo, até que a princesa Sandy surgiu
com seus véus dourados e acordos comerciais mais vantajosos.
Lorde Benjen ficara uma fera.
Disseram que, quando o rei lhe ofereceu Mason em troca – seu filho
mais novo –, ele se quer disfarçou o desdém. Teria cuspido no chão e dito,
diante de meia corte, que Mason, além de fraco, jamais se tornaria rei.
Depois disso, a filha do senhor de Bris desapareceu. Sumiu dos salões,
das conversas, dos brindes. Seu nome, que antes era repetido com expectativa
e cálculo, já não era mencionado. Como se nunca tivesse importado. Como se
nunca tivesse existido.
Mas bastou o sussurro da palavra “bruxaria” para que todos voltassem a
falar dela.
De um dia para o outro, os salões voltaram a se encher com o nome da
Senhorita Mallister – agora envolto em medo, riso e repulsa, e nunca mais
com reverência ou respeito.
As damas, antes dispostas a imitá-la, agora se benziam ao ouvir sua
menção.
Os homens, que antes apostavam em seu futuro real e a elogiavam pela
beleza e encanto, agora cochichavam histórias sujas sobre noites de feitiçaria
e atos profanos.
Ela voltara a existir. Mas não como filha de um senhor importante, nem
como pretendente de um príncipe. E sim, como escândalo.
E qual seria a melhor forma de Lorde Benjen conter um escândalo como
aquele, senão enviando-a para o lugar mais puro de todo o continente?
Um retiro sagrado, onde moças eram lapidadas em silêncio, oração e
obediência. No Lar das Filhas de Élior, até os pecados mais escuros pareciam
se dissolver sob o peso das preces e da penitência.
Ou, ao menos, era nisso que acreditavam aqueles que nunca haviam
posto seus pés lá dentro.
Aquela manhã se foi, e a tarde chegou como se já fosse noite. A chuva
não cessou, e o vento se enfiava por debaixo das túnicas, enquanto a névoa
espessa engolia os telhados do mosteiro, tornando tudo cinza e indistinto.

4
As filhas andavam mais apressadas, os cochichos se espalhavam pelos
corredores frios – todos aguardavam algo que estava por vir.
Seu turno estava chegando ao fim e Will mal conseguia ver o que havia a
dez passos da porta. Mas permaneceu ali, em pé, firme, como de costume,
esperando. A chuva estava mais forte agora.
Quando o sino da torre finalmente tocou, deu três badaladas – ao invés
das duas rotineiras que indicavam a troca da guarda. Um sinal claro de que a
nova filha estava em solo sagrado.
— Chegaram — murmurou Darion, calçando as luvas, repentinamente
mais sério.
Ambos ajustaram o manto e o cinto da espada. Não que esperassem
resistência, mas a filha de um lorde, mesmo acusada de bruxaria, ainda era
filha de um lorde – e seria tratada com decoro.
Will sentiu o coração acelerar, um impulso estranho que não sabia
explicar. Talvez a emoção em revê-la depois de tantos anos.
Os portões do mosteiro rangeram quando foram abertos, revelando a
carruagem que parava diante deles, puxada por dois cavalos negros,
encharcados pela chuva.
O veículo parecia fora de lugar entre as pedras úmidas e a névoa densa,
um símbolo de luxo e isolamento naquele mundo cinzento.
O cocheiro entregou o pergaminho lacrado. Darion o pegou e Will se
aproximou, olhando para dentro da carruagem.
Os panos pesados das cortinas se moveram, deixando escapar uma
sombra.
A jovem mulher voltou-se para ele.
— Boa noite, sor — cumprimentou, com a elegância que só uma nobre
possuía.
Ele recuou meio passo. O coração, que antes acelerava, pareceu gelar
de repente.
Aquela não era Jenna Mallister.

Você também pode gostar