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Ciência & Saúde Coletiva
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REVISÃO • Ciênc. saúde coletiva 24 (9) • Set 2019 •
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81232018249.32592017
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Fatores limitadores e
facilitadores para o
controle do câncer de
colo de útero: uma
revisão de literatura
Autoria
SCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGS
Resumo
Este artigo revisa os fatores limitadores e
facilitadores do acesso aos serviços públi-
cos de saúde no Brasil na área da atenção
ao câncer de colo de útero (CCU). Nesta
revisão, foram utilizadas a base de dados
bibliográficos Medline (interface com Bi-
blioteca Virtual de Saúde/BVS e PubMed)
e os portais Lilacs e SciELO. Buscou-se pu-
blicações referentes ao período 2011-
2016, a partir do uso de termos específi-
cos das fontes consultadas, relativos a ‘ne-
oplasias do colo do útero’ e ‘acesso aos
serviços de saúde’. Foram inicialmente en-
contrados 704 artigos, mas, considerando
os critérios adotados, foram selecionados
31 artigos, dos quais foram incluídos 19.
Foram mencionados aspectos facilitado-
res do acesso como ampla cobertura do
exame Papanicolaou e de biopsias equiva-
lente ao número de preventivos alterados.
Entretanto, aspectos limitadores de aces-
so como periodicidade inadequada do Pa-
panicolau, dificuldades para agendamen-
to de consultas e exames, alto índice de
estadiamento avançado e atrasos no diag-
nóstico e no início de tratamento, tam-
bém foram apresentados.
Palavras-chave
Acesso aos serviços de saúde; Neoplasias
do colo do útero; Sistema Único de Saúde;
Brasil; Revisão
Abstract
This paper reviews the limiting factors
and facilitators of access to Brazilian cervi-
cal cancer care public health services. This
review employed bibliographic database
Medline (interface with the Virtual Health
Library/BVS and PubMed) and Lilacs / Sci-
ELO portals. We sought publications for
the period 2011-2016 based on the use of
specific terms from the sources consulted,
regarding “cervical neoplasms” and “ac-
cess to health services”. We found 704 pa-
pers initially, which were shortlisted to 31
following adopted criteria, which were
further reduced to 19 papers to make up
the final selection. Access facilitating as-
pects such as wide coverage of the Pap
smear test and coverage of biopsies equi-
valent to the number of altered preventi-
on tests were mentioned. However, access
limiting aspects such as inadequate Pap
smear’s periodicity, di"culties in schedu-
ling appointments and exams, high rate
of advanced staging and delays in diagno-
sis and treatment onset were also repor-
ted.
Key words
Access to health services; Cervical neo-
plasms; Unified health system; Brazil Revi-
ew
Introdução
O câncer de colo de útero (CCU) é uma
importante questão de sáude pública,
sendo causa de morte para 5.430 mulhe-
res no Brasil em 2013 e, sendo estimado
para 2016 o surgimento de 16.340 novos
casos com um risco estimado de 15,85
casos a cada 100 mil mulheres1.
Este câncer é causado, majoritariamente,
por infecção persistente via subtipos on-
cogênicos do Papilomavírus Humano
(HPV), transmitido sexualmente, sendo
esta infecção responsável por cerca de
70% dos cânceres cervicais2. Sua preven-
ção primária, portanto, envolve uso de
preservativos e vacinação contra HPV as-
sociados a ações de promoção à saúde; e,
sua prevenção secundária, ou detecção
precoce, condiz com a realização de diag-
nóstico precoce, via coleta do exame Pa-
panicolaou, possuindo como público-alvo
mulheres de 25 a 64 anos2,3.
O controle do CCU no setor público condiz
com ações de gestão e dos profissionais
de saúde, organizadas segundo os níveis
hierárquicos do Sistema único de Saúde
(SUS), de modo articulado, compondo
uma atenção à saúde na perspectiva de
integralidade4. Nesse sentido, o controle
do CCU é norteado por uma linha de cui-
dado5-7 que sinaliza o fluxo assistencial e
os correspondentes protocolos e diretri-
zes clínicas diante aos graus de evolução
da enfermidade.
À atenção básica e à atenção especializa-
da - média e alta complexidade - corres-
pondem modalidades de atenção à saú-
de, sendo: promoção, prevenção, diag-
nóstico, tratamento, reabilitação e cuida-
dos paliativos. A promoção diz respeito a
ações transversais visando promover me-
lhorias na saúde da população, controlar
doenças e agravos à saúde, incluindo
ações que ampliem a informação e redu-
zam as dificuldades de acesso a serviços
de saúde. A prevenção envolve as ações
anteriormente mencionadas. O diagnósti-
co, para os casos com Papanicolaou alte-
rado, condiz com a realização de exames
para investigação diagnóstica, como col-
poscopias, biópsias, entre outros. O trata-
mento envolve a realização de cirurgias
oncológicas, radioterapia, quimioterapia e
braquiterapia. A reabilitação envolve ação
multiprofissional visando reestabelecer
funcionalidades físico-orgânicas prejudi-
cadas pela enfermidade. Os cuidados pali-
ativos condizem com ações e procedimen-
tos de baixa, média e alta complexidade,
com vista à prevenção e alívio do sofri-
mento - controle dos sintomas, alívio da
dor, suporte espiritual, apoio ao cuidador
- junto aos casos de não resposta clínica
aos tratamentos realizados e, portanto,
com risco de vida7-9.
O controle do CCU é condicionado pelas
desigualdades socioeconômicas e cultu-
rais10 e pelo grau de desempenho do sis-
tema de saúde, sendo o acesso aos servi-
ços de saúde uma das dimensões que
compõe este desempenho11.
O acesso aos serviços de saúde diz respei-
to ao processo de busca por serviços de
saúde, realizado por indivíduos que pos-
suem necessidades de saúde, e a conco-
mitante resposta que esses serviços ge-
ram a tais necessidades, expressa pelo
atendimento prestado aos indivíduos, ou
seja, o acesso aos serviços de saúde diz
respeito à relação estabelecida entre indi-
víduos/comunidade e os serviços de saú-
de12-14.
Os serviços de saúde estão inseridos em
um contexto local, regional e/ou nacional,
facilitador ou limitador desse acesso e de
sua boa organização, sendo as práticas
desenvolvidas nesses serviços norteadas
por preceitos definidores da política de
saúde no território de estudo, dos progra-
mas e das políticas específicas de cada
área da saúde e/ou tipo/grupo de adoeci-
mento13.
Os estudos sobre acesso aos serviços de
saúde podem encontrar-se compreendi-
dos em ‘domínio restrito’, ou seja, deten-
do-se somente na relação entre procura
por serviços de saúde e a entrada nestes.
No entanto, há estudos que ampliam um
pouco mais, envolvendo também a conti-
nuidade assistencial, inseridos em ‘domi-
nio intermediário’. Outros estudos, mais
abrangentes, se atêm ao processo que se
inicia com o desejo de obter cuidado de
saúde, passando pela procura por servi-
ços de saúde, pela entrada nestes, pela
continuidade assistencial, alcançando os
seus resultados, sendo compreendidos
como de ‘domínio amplo’14. Estes últimos
condizem com a definição de acesso en-
quanto “utilização de serviços de saúde
adequados à necessidade da pessoa, em
tempo e local apropriados”14.
Esses estudos analisam - de modo isolado
ou articulado - a oferta de serviços de saú-
de; as características da relação entre pro-
cura e utilização dos serviços de saúde,
reconhecendo aspectos e/ou dimensões
que atuam como facilitadores ou obstru-
tores dessa utilização por potenciais usuá-
rios; e, os resultados da prestação de ser-
viços de saúde. Na perspectiva do segun-
do aspecto mencionado, Donabedian15
apresentou duas dimensões a serem ana-
lisadas: a socio-organizacional e a geográ-
fica. A primeira relativa às condições soci-
ais, culturais, políticas e/ou econômicas; e,
a segunda referente ao tempo-espaço,
expresso na distância física entre usuários
e serviços. Travassos e Castro14 corrobo-
rando-as e ampliando-as, denominaram
tais dimensões de barreiras de acesso,
sendo especificadas em barreiras geográ-
ficas, financeiras, organizacionais e de in-
formação.
No que diz respeito aos resultados, Aday
e Andersen12 reconhecem a satisfação do
usuário dos serviços de saúde como um
tipo de resultado do processo de acesso a
esses serviços, sendo corroborado por
Donabedian15 e reafirmado em Andersen
13. Donabedian compreende não apenas a
satisfação dos usuários, mas, também, a
qualidade dos serviços como expressões
da estreita relação entre estrutura e pro-
cesso de implementação das ações de
saúde sendo resultados desta relação.
Diante disso, esta revisão buscou sinteti-
zar achados de estudos brasileiros sobre
o acesso aos serviços públicos de saúde
no Brasil na área da atenção ao câncer de
colo de útero no período 2011-2016, iden-
tificando os fatores limitadores e/ou facili-
tadores desse acesso. Assim, visou ressal-
tar as barreiras de acesso aos serviços de
saúde para o controle do CCU e registrar
avanços referentes a este acesso, sinaliza-
dos em artigos que tratassem do sistema
de saúde público brasileiro e publicados
em período recente, relacionados à pre-
venção secundária ou detecção precoce,
ao diagnóstico e ao tratamento do CCU.
Métodos
Este estudo foi delineado a partir dos cri-
térios estabelecidos no guia Preferred Re-
porting Items for Systematic Reviews and
Meta-Analyses (PRISMA), considerando o
diagrama de fluxo e o checklist PRISMA16,
17. Assim, possuiu uma pergunta nortea-
dora da busca de artigos e da análise,
sendo: Quais os fatores limitadores e/ou
facilitadores do acesso aos serviços de
saúde para atenção ao câncer de colo de
útero?
O levantamento de artigos foi realizado
na base de dados bibliográficos Medline
(interface com Biblioteca Virtual de Saú-
de/BVS e PubMed) e nos portais Lilacs (in-
terface com a BVS) e Scielo Brasil.
No portal Lilacs e na base Medline/BVS, os
termos de busca usados foram ‘acesso
aos serviços de saúde’ AND ‘câncer de
colo de útero’ OR ‘neoplasia de colo de
útero’ OR ‘câncer cervicouterino’ OR ‘cân-
cer cervical’ OR ‘câncer de colo uterino’; e,
utilizados os seguintes filtros: tipo de pu-
blicação: artigo, ano de publicação: 2011 a
2016; país como assunto: Brasil; limites:
feminino. Na Medline/PubMed, a busca
envolveu os termos: ‘access of health ser-
vices’ OR ‘health services accessibility’
AND ‘uterine neoplasms’ OR ‘cervical can-
cer’ AND Brasil AND 2011-2016 (ano de
publicação). No portal Scielo Brasil, os ter-
mos de busca foram apenas “acesso aos
serviços de saúde”, com uso apenas de
filtro referente ao ano de publicação, pois
a associação com o termo neoplasia de
colo de útero ou sinônimos não produziu
resultados.
A seleção dos artigos foi norteada por cri-
térios de inclusão, sendo: artigos cujos
títulos e/ou resumos indicassem se tratar
de um estudo sobre acesso aos serviços
de saúde para atenção ao câncer de colo
de útero (CCU), no setor público da saúde,
sendo relativo à prevenção, diagnóstico
e/ou tratamento. Tais artigos poderiam
estudar o acesso aos serviços significando
a entrada em serviços de saúde e/ou con-
tinuidade da assistência e cobertura refe-
rente à atenção ao CCU. A cobertura diz
respeito ao “alcance de uma medida sani-
tária”18 como, por exemplo, a proporção
de mulheres que realizaram o exame Pa-
panicolau em determinado ano e territó-
rio. O alcance da cobertura de uma ação
de saúde é associado ao cumprimento da
prestação desta ação e, portanto, ao aces-
so e uso dos serviços de saúde. Mas, tam-
bém, pode significar apenas a possibilida-
de de obter a prestação de ações de saú-
de, podendo ocorrer ou não18. Nesta revi-
são os artigos incluídos que abordaram
‘cobertura’, estiveram em sintonia com o
primeiro sentido acima mencionado.
A identificação dos artigos ocorreu em
março de 2017. A triagem dos estudos foi
realizada mediante a leitura e a análise
dos títulos e resumos de todos os artigos
identificados em cada base de dados, sen-
do norteada pelos critérios de inclusão e
exclusão adotados. Em fase de elegibilida-
de, após definição dos artigos a serem in-
cluídos de cada base de dados, foram ex-
cluídos os artigos duplicados. A seguir,
procedeu-se à leitura na íntegra dos estu-
dos incluídos e a elaboração da síntese
das principais informações em uma plani-
lha, para viabilizar suas análises descriti-
vas e críticas. A análise dos artigos os dis-
tinguiu segundo marcos da linha de cui-
dados referentes ao controle do CCU, sen-
do: ‘prevenção’, ‘diagnóstico e/ou trata-
mento’.
Resultados e discussão
Características dos artigos
revisados
Dos 704 artigos sobre acesso aos serviços
de saúde para atenção ao câncer de colo
de útero (CCU), publicados no período
2011 - 2016, inicialmente identificados, 19
foram incluídos na nesta revisão (
Figura 1). Os artigos excluídos extrapo-
laram os critérios de elegibilidade adota-
dos, referindo-se a outras enfermidades e
políticas ou a outros objetos de estudos
relativos ao câncer de colo de útero (CCU),
como mortalidade, sobrevida e qualida-
de/adequação da ação de profissionais de
saúde inseridos na assistência à saúde (
Figura 1).
Figura 1
Fluxograma de informações sobre a
identificação, seleção e inclusão de
artigos revisão.
Foram publicados em média, aproximada-
mente, 3,2 artigos/ano; majoritariamente
em português (78,9%). Os Cadernos de
Saúde Pública, a Revista Brasileira de Gi-
necologia e Obstetrícia e a Revista Saúde
em Debate foram os periódicos mais pro-
fícuos, tendo publicado, 26,3%, 21 % e
21% dos artigos, respectivamente (
Quadro 1).
Quadro 1
Características dos artigos incluídos na
revisão.
O acesso foi majoritariamente abordado
em termos das barreiras à detecção pre-
coce do câncer de colo de útero, corres-
pondendo a 63,2% dos artigos. Limites no
acesso ao diagnóstico e ao tratamento do
CCU foram abordados por 36,8% dos arti-
gos. Nos artigos que abordaram a detec-
ção precoce, os objetos de estudo se refe-
riram à cobertura de Papanicolaou e/ou
fatores relacionados a não realização des-
te exame (58,3%) e à detecção precoce
diante os segmentos pobres e/ou vulnerá-
veis da população (41,7%). Nos artigos
que trataram do diagnóstico e/ou trata-
mento, os objetos de estudo foram inte-
gralidade/continuidade da atenção ao
CCU (57,1%), fatores relacionados ao diag-
nóstico tardio (28,6) e tempo de espera
para tratamento (14,3%) ( Quadro 1).
O desenho de estudo quantitativo foi ma-
joritário (73,7% dos artigos). Todos os arti-
gos que enfatizaram a detecção precoce do
CCU adotaram a abordagem quantitativa,
diferentemente dos artigos que enfatiza-
ram o diagnóstico e/ou tratamento de CCU,
que mostraram-se diversificados, pois
57,1% destes elaboraram suas análises a
partir de abordagem qualitativa, seguidos
pelos que adotaram abordagens quantita-
tivas (28,6%) e quanti-qualitativas (14,3%).
A entrevista foi fonte de dados e método
mais utilizada (73,7% dos artigos), seguida
pela análise documental (31,6%), uso de
banco de dados secundários (21%), obser-
vação direta ou participante (10,5%), da-
dos de pesquisa prévia (10,5%). Valendo
ressaltar que aproximadamente 47,4%
dos artigos utilizaram a composição de
mais de um método/fonte ( Quadro 1).
Acesso aos serviços para
detecção precoce do câncer
de colo de útero
A maioria dos artigos referentes à preven-
ção do câncer de colo de útero sinalizou a
presença de cobertura de exame Papani-
colaou acima de 80% da população estu-
dada, sendo ressaltado aumento nesta
cobertura, especialmente, junto a seg-
mentos vulneráveis ou que vinham apre-
sentando baixa adesão ao exame preven-
tivo, como mulheres solteiras, negras e de
baixo nível de escolaridade. No entanto,
um dos artigos19, apontou altas taxas de
não realização de exame Papanicolaou e
grande número de casos em estadiamen-
to avançado, o que reforça a importância
da realização do exame preventivo e re-
mete à presença de segmentos da popu-
lação feminina ainda nestas circunstânci-
as. A cobertura e também a periodicidade
adequada dos exames de Papanicolau en-
contram-se condicionadas pelas dispari-
dades socioeconômicas e demográficas,
havendo predomínio de rastreamento
oportunístico20-23 ( Quadro 2).
Quadro 2
Síntese dos limites e dos facilitadores de
acesso a serviços, segundo marcos da
linha de cuidado do câncer de colo de
útero.
A grande maioria das mulheres conhece o
‘exame preventivo’, mas mesmo assim
parte das mulheres não o realiza. A perio-
dicidade adequada, de modo diferente,
não é amplamente conhecida24, sendo a
não informação uma barreira a seu cum-
primento.
O rastreio do CCU sofre a interferência de
fatores de ordem social e subjetivo-cultu-
ral, vivenciados pelas mulheres, do con-
texto organizacional e das características
das ações dos profissionais de saúde (
Quadro 2). Nesse sentido, barreiras or-
ganizacionais e desigualdades sociais,
econômicas, culturais e raciais condicio-
nam tal ação19,23,25-34.
Acesso aos serviços para
diagnóstico do câncer de colo
de útero
O diagnóstico de câncer de colo de útero
ocorre tardiamente no Brasil, estando os
‘casos avançados’ especialmente associa-
dos à idade igual ou maior que 50 anos,
ao fato de viverem sem companheiro e de
possuírem cor da pele preta e baixo nível
educacional35. No sentido de diagnósticos
em estágios avançados, Nascimento e Sil-
va36 detectaram 78.9% das mulheres pes-
quisadas em estágios intermediários e 5%
em estágio avançado da doença, corrobo-
rando a perspectiva de que idades mais
avançadas e desigualdades sociais e raci-
ais possuem correlações com maior risco
e prevalência para CCU.
Os limites de acesso a serviços referentes
ao diagnóstico do câncer de colo de útero
(CCU) estiveram relacionados a barreiras
organizacionais e a limites na ação de
profissionais de saúde33,37,38. A realização
do exame denominado ‘biopsia’, crucial
na conclusão diagnóstica, foi compatível
com o número de citologias alteradas,
cuja frequência foi maior em mulheres
mais jovens. No entanto, os diagnósticos
mais graves tanto de citologias como de
biopsias, prevaleceram em mulheres com
idade mais avançada32,38.
A adequada cobertura de biopsias, entre-
tanto, não garantiu a continuidade de tra-
tamento, em virtude de fragilidades no
acolhimento e vínculo e de dificuldade no
acesso ao tratamento38. Além disso, a de-
mora para o estadiamento do tumor, mui-
tas vezes, prorroga o início do tratamento
36 ( Quadro 2).
O tratamento de câncer de colo de útero
pode envolver a realização de cirurgia,
quimioterapia, radioterapia e/ou braquite-
rapia, sendo realizado predominantemen-
te no Sistema Único de Saúde (SUS)20. No
Brasil, há definição jurídico-legal de prazo
máximo para início de tratamento pelo
SUS de 60 dias a contar da definição do
diagnóstico obtida com o resultado de bi-
opsia39. Este prazo foi contemplado, se-
gundo Nascimento e Silva36, consideran-
do-se o início de radioterapia, pela maio-
ria das ‘pacientes’. O acesso à radiotera-
pia, segundo o mesmo estudo, ocorreu
com equidade, ou seja, o tempo de espe-
ra para início de radioterapia foi menor à
medida que os casos possuíam diagnósti-
co de estádios mais avançados. (
Quadro 2).
O prazo máximo para início de tratamen-
to de câncer no Brasil, acima mencionado,
é parâmetro válido utilizado em alguns
estudos, mas, Nascimento e Silva36 ressal-
tam que o tratamento deva ocorrer com a
maior brevidade, não devendo adotar os
60 dias definidos juridicamente como o
prazo certo. Este prazo possui relevância
em termos de interpelação jurídica, po-
rém existem países com definição de pra-
zo menor que 30 dias, como o caso do Ca-
nadá.
Os limites de acesso a serviços para trata-
mento do CCU foram eminentemente de
dimensão organizacional. O acolhimento
e vínculo foram aspectos favoráveis, pois
foram apontados como práticas presentes
na fase de tratamento oncológico, realiza-
das somente nesta fase da linha de cuida-
do. Além destes, outros aspectos favorá-
veis ao tratamento oncológico foram sina-
lizados31,33 ( Quadro 2).
Desse modo, os resultados apresentados
pelos artigos incluídos nesta revisão tra-
zem implicações para a política de aten-
ção ao câncer de colo de útero referentes
à prevenção, diagnóstico e tratamento do
CCU, com vistas a seu aprimoramento (
Quadro 3).
Quadro 3
Sugestões para aprimoramento do acesso
à detecção precoce, diagnóstico e
tratamento do câncer de colo de útero,
segundo artigos incluídos na revisão.
Em relação à garantia de acesso oportuno
( Quadro 3), vale ressaltar que o rastre-
amento oportunista deve estar associado
ao rastreamento populacional em caráter
complementar. Este último, diz respeito a
uma ação sistematizada, permitindo mai-
or controle de ações e informações refe-
rentes ao rastreamento, inclusive da co-
bertura alcançada, o que sinaliza para
uma maior efetividade, equidade e efici-
ência. No entanto, pelas dificuldades de
acesso aos serviços de saúde nesta revi-
são apontados, é possível que parte das
mulheres, na faixa etária-alvo dos progra-
mas de rastreamento populacionais, não
participe do mesmo. Assim, torna-se rele-
vante a presença também de ações opor-
tunas com vistas à detecção precoce, ou
seja, aquela realizada quando a mulher
procura o serviço de saúde por outro mo-
tivo e o profissional de saúde aproveita o
momento e realiza o exame Papanicolaou
40.
Considerações finais
O controle do câncer de colo de útero
(CCU) vem avançando no Brasil, pois há
registros de maior cobertura de exame
Papanicolau, compatibilidade entre nú-
mero de biopsias e número de exames
Papanicolaou alterados e tratamento on-
cológico para CCU realizado, majoritaria-
mente, pelo Sistema Único de Saúde
(SUS).
No entanto, foram registrados segmentos
da população feminina que nunca realiza-
ram o exame preventivo, que desconhe-
cem ou que não cumprem a periodicidade
indicada deste exame. Fatos que, em al-
guns casos, podem estar associados a
questões de âmbito individual, como
medo e vergonha, difíceis de serem resol-
vidos, mas que também se associam a
questões relativas à gestão pública e/ou
aos profissionais de saúde, se configuran-
do como desafios postos a esta gestão.
Nesse sentido, em termos transversais ao
controle do câncer de colo de útero, fo-
ram ressaltadas necessidade de avaliação
do funcionamento da rede de serviços, de
garantia de integralidade da atenção, de
criação de mecanismos de coordenação
assistencial, de garantia de trâmite entre
serviços com facilidade e de promoção do
acolhimento-vínculo em toda a linha de
cuidados para atenção CCU.
Entre as sugestões específicas, quanto à
prevenção do CCU, foram sinalizados o
rastreamento, em especial, junto a mulhe-
res em situação de pobreza e/ou vulnera-
bilidade, com mais de 50 anos de idade e
residentes em locais distantes dos servi-
ços de saúde; a ampliação de acesso aos
serviços de saúde; e a garantia de privaci-
dade das usuárias nos serviços. Quanto
ao diagnóstico em especial, faz-se neces-
sário redução do tempo para conclusão
do diagnóstico de CCU, com definição do
estadiamento de tumor. Em relação ao
tratamento, se sobrepõe a necessidade
da garantia de seu início no menor tempo
possível, com acesso rápido a exames
para planejamento de tratamento e da
redução de barreiras geográficas de aces-
so, descentralizando os centros de refe-
rência para tratamento, para assim, pro-
mover a redução das desigualdades terri-
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(Cadernos de Atenção Primária, n. 29)
Datas de Publicação
» Publicação
nesta » Data do
coleção Fascículo
09 Set 2019 Set 2019
Histórico
» Recebido » Revisado
28 Out 2017 16 Fev 2018
» Aceito
18 Fev 2018
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