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Fanon

Frantz Fanon analisa a construção social da identidade negra e os estigmas raciais que a cercam, evidenciando como estereótipos de agressividade e passividade são reproduzidos pelo olhar colonizador. Ele discute a alienação cultural e a busca de reconhecimento por parte dos não-brancos, que tentam se aproximar do modelo dominante, enquanto critica a hierarquização cultural imposta pelo colonialismo. Fanon propõe um novo humanismo que busca superar essas estruturas raciais e enfatiza a importância da libertação cultural como um meio de resistência ao colonialismo.

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Frantz Fanon analisa a construção social da identidade negra e os estigmas raciais que a cercam, evidenciando como estereótipos de agressividade e passividade são reproduzidos pelo olhar colonizador. Ele discute a alienação cultural e a busca de reconhecimento por parte dos não-brancos, que tentam se aproximar do modelo dominante, enquanto critica a hierarquização cultural imposta pelo colonialismo. Fanon propõe um novo humanismo que busca superar essas estruturas raciais e enfatiza a importância da libertação cultural como um meio de resistência ao colonialismo.

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FANON, Frantz. Introdução. (In) FANON, Frantz. Pele Negra Máscaras Brancas.

Salvador: EDUFBA, 2008, 25 a 32.

Estigmas Sociais

“Essas coisas, vou dizê-las, não gritá-las. Pois há muito tempo que o grito não faz
mais parte de minha vida”. (p. 25)

“Entre os estudantes, os operários, os cafetões de Pigalle ou de Marselha,


identifiquei a mesma componente de agressividade e de passividade”. (p.29)

Nos trechos apresentados, o autor discute algumas características


historicamente atribuídas às pessoas negras no imaginário social, como a
agressividade, a passividade e a ideia de um comportamento emocional mais
intenso. A análise não busca afirmar tais características como inerentes à população
negra, evidencia como esses estereótipos são produzidos e reproduzidos dentro de
uma lógica racializada. Nessa perspectiva, Fanon problematiza os processos de
construção social da identidade negra sob o olhar do colonizador, revelando como
determinados comportamentos passam a ser interpretados a partir de um viés
pejorativo e estigmatizante. Essa leitura dialoga com os argumentos de Munanga
(2004) acerca da hierarquização racial.

Reflexão sobre raça

“Em direção a um novo humanismo...” (p.25)

“(...) o negro que quer embranquecer a raça é tão infeliz quanto aquele que prega o
ódio ao branco”. (p.26)

“(...) duplo narcisismo”. (p.27)

“um preto que luta para descobrir o sentido da identidade negra”. (p.30)

“O negro “evoluído”, escravo do mito negro, espontâneo, cósmico, a um dado


momento sente que sua raça não o compreende mais. ** Ou que ele não a
compreende mais”. (p.30)
O novo humanismo é uma ideia com objetivo de superar as estruturas raciais
produzidas pelo colonialismo. No decorrer do texto expõe críticas ao ideal de
embranquecimento, ao posicionamento que se fundamenta no ódio. Outro termo
para análise é o duplo narcisismo, uma tendência de negros e de brancos a
construírem identidades centradas em sua própria superioridade racial. Tal lógica
produz um conflito permanente entre os grupos e dificulta a construção de uma
humanidade comum. Ao abordar a figura do negro evoluído, o autor evidencia a
crise identitária vivida por sujeitos negros que, ao internalizarem valores da cultura
dominante, passam a experimentar um distanciamento em relação à própria
comunidade.

Alienação

“O negro quer ser branco. O branco incita-se a assumir a condição de ser humano”.
(p.27)

“(...) o pior erro seria acreditar em uma dependência automática”. (p.28)

“No entanto, permanece evidente que a verdadeira desalienação do negro implica


uma súbita tomada de consciência das realidades econômicas e sociais. Só há
complexo de inferioridade após um duplo processo:

— inicialmente econômico;

— em seguida pela interiorização, ou melhor, pela epidermização dessa


inferioridade”. (p 28)

Os grupos não-brancos almejam tornar-se branco devido aos privilégios da


classe racial. Nessa ambiência, a mudança ocorre na apropriação de elementos
culturais, tentativas de embranquecimento, adequação do comportamento para que
tenha uma aproximação. Para além disso, o capitalismo interfere na conscientização
racial, porque os brancos detem o poder e o capital.
A partir das citações elencadas a priori, é possível afirmar que há um debate
sobre como as relações raciais são profundamente marcadas por estruturas sociais
e econômicas. Muitos sujeitos não-brancos acabam desejando aproximar-se do
modelo dominante, buscando reconhecimento por meio da adoção de padrões
culturais, comportamentos e valores associados ao universo branco.

Outro ponto elencado por Fanon, corresponde ao sentimento de inferioridade


racial, construído historicamente a partir de condições materiais e simbólicas. O
autor explica que esse processo ocorre em dois momentos: primeiro, em nível
econômico, marcado por desigualdades estruturais que posicionam determinados
grupos em lugares de subordinação; e, posteriormente, por meio da interiorização
dessa inferioridade.
FANON, Frantz. Racismo e Cultura. (In) FANON, Frantz. Por uma Revolução
Africana: textos políticos. Rio de Janeiro: Zahar, 2021, p. 69-87.

Hierarquização Cultural

“A reflexão sobre o valor normativo de certas culturas decretado unilateralmente


merece nossa atenção”. (p.69)

“A doutrina da hierarquia cultural não é assim, mais que uma modalidade da


hierarquização sistematizada conduzida de maneira implacável” (p.69)

“Os valores ocidentais se unem de forma singular ao já celebre apelo à luta da cruz
contra o crescente”. (p.71)

“A apatia tão universalmente notada nos povos coloniais é apenas a consequência


lógica dessa operação”. (p.72)

No início do texto, o autor aponta os valores ocidentais como padrão


universal, legitimando uma lógica de dominação que constitui uma modalidade da
hierarquização sistematizada. Essa imposição cultural é historicamente reforçada
por discursos civilizatórios e religiosos, que opõe o Ocidente aos povos colonizados.
Nesse contexto, a desvalorização contínua das culturas dos autóctones produz
efeitos subjetivos e sociais, resultando na apatia tão universalmente notada nos
povos coloniais compreendida por Fanon como consequência direta desse processo
de inferiorização cultural.

Racismo Cultural

“Esse racismo que se pretende racional, individual, determinado por genótipos e


fenótipos se transforma em racismo cultural. O objetivo do racismo não é mais o
home particular, mas uma certa forma de existir”. (p.71)

Ao observar o processo histórico de racialização dos povos, percebe-se que


o racismo ultrapassa explicações biológicas baseadas em genótipos e fenótipos e
passa a assumir uma dimensão cultural. Logo, o racismo deixa de se dirigir apenas
ao indivíduo e passa a atingir modos de vida, valores e formas de existência de
determinados grupos. Assim, ao transformar-se em racismo cultural, a dominação
se direciona à deslegitimação das culturas e as práticas sociais dos povos
colonizados.

Dominação Cultural

“A submissão, no sentido mais rigoroso, da população autóctone é a principal


necessidade. Para isso é necessário destruir seus sistemas de referência”. (p 72)

“A implantação do regime colonial, contudo, não ocasiona a morte da cultura


autóctone”. (p. 72)

“A preocupação constantemente reafirma de respeitar a cultura das populações


autóctones não significa, portanto, que se levem em consideração os valores
veiculados pela cultura. Na verdade, percebe-se nessa empreitada uma vontade de
objetificar, de encapsular, de aprisionar, de enquistar”. (p.73)

“O exotismo é uma das formas dessa simplificação”. (p. 73)

“(...) primeira fase o invasor instala sua dominação, estabelece a autoridade. O


grupo social submetido econômica e militarmente é desumanizado”. (p. 74)

“Invasor legitima sua dominação com argumentos científicos e a “raça inferior” se


nega enquanto raça. Como não lhe resta nenhuma outra solução, o grupo social
racializado tenta imitar o opressor e assim, desracializar-se". (p.77)

A dominação racial aparece como um processo estruturado que envolve a


imposição política e econômica e a desestruturação cultural dos povos colonizados.
Segundo o autor o controle da população nativa exige a destruição de seus
sistemas de referência, ainda explica que a dominação colonial busca desarticular
os fundamentos simbólicos e culturais que sustentam a identidade coletiva.
Entretanto, ressalta que o colonialismo não elimina completamente a cultura
autóctone, e sim, procura controlá-la e enquadrá-la por meio de mecanismos que a
objetificam e simplificam, como ocorre no exotismo. Nesse processo, o invasor
legitima a sua hierarquia por meio de discursos científicos que classificam os povos
colonizados como “raça inferior”. Diante do processo de racialização imposto aos
oprimidos, eles reproduzem as ações opressoras a outros grupos como forma de
escapar da posição de inferioridade.

Capitalismo

“O racismo vulgar em sua forma biológica corresponde ao período de exploração


brutal dos braços e das pernas do homem”. (p.74)

“(...) a opressão militar e econômica (...) possibilita e legitima o racismo”. (p.77)

Fanon evidencia que as teorias raciais serviram para justificar a exploração


física dos povos colonizados. Também destaca que a “opressão militar e econômica
(...) possibilita e legitima o racismo”, demonstrando que o racismo não surge
isoladamente é articulado às estruturas de poder, dominação e exploração que
sustentam o sistema colonial e por consequência o capitalismo.

Alienação

“O opressor, pelo seu caráter global e assustador de sua autoridade, chega a impor
ao autóctone novas maneiras de ver, sobretudo uma avaliação pejorativa de suas
formas originais de existência” (p.78)

“(...) o oprimido mergulha na cultura imposta com a energia e a tenacidade de um


naufrágo”. (p.79)

Ao analisar as premissas da alienação é possível determinar que a


dominação colonial também atua no plano cultural. Ao impor seus valores como
superiores, o colonizador leva o sujeito autóctone a desenvolver uma visão
depreciativa de suas próprias formas de existência. Desta maneira, muitos
colonizados passam a buscar reconhecimento na cultura dominante.

Libertação
“Reencontrando a tradição, vivendo-a como mecanismo de defesa, como salvação,
a pessoa desaculturada deixa a impressão de que a medicação se vinga
substabcializando-se". (p. 82)

“Os intelectuais colaboradores tentam justificar sua nova atitude. Costumes,


tradições, crenças, antes negados e silenciados são violentamente afirmados e
valorizados”. (p.83)

“A imersão no abismo do passado é a condição e fonte de liberdade”. (p. 83)

“No curso da luta, a naço dominadora procura reeditar argumentos racistas”. (p.84)

O processo de resistência ao colonialismo envolve também uma retomada


das tradições culturais. Nesse movimento, o retorno ao passado aparece como
fonte de libertação simbólica. Contudo, no decorrer da luta, os dominadores mudam
os discursos de alienação com finalização de manutenção do racismo.

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