Estudos Avançados
Print version ISSN 0103-4014On-line version ISSN
1806-9592
Estud. av. vol.18 no.50 São Paulo Jan./Apr. 2004
[Link]
TEMAS EM DEBATE
Dialética das relações raciais
Octavio Ianni
RESUMO
AS RELAÇÕES raciais estão enraizadas na vida social de indivíduos, grupos e
classes sociais. As desigualdades sociais frequentemente se manifestam nos
estereótipos e nas intolerâncias, polarizadas em torno de etnias, assim como
gênero e outras diversidades sociais como as de gênero, religiosas e outras. Em
síntese, a dinâmica das diversidades e das desigualdades "fabrica" continua e
reiteradamente as intolerâncias e preconceitos.
ABSTRACT
RACIAL relationships are rooted in the social life of individuals, groups and social
classes. Social inequalities often manifest themselves in stereotypes and
intolerance, polarized around ethnicities and other social diversities such as gender,
religion etc. In brief, the dynamics of diversity and inequality continuously and
reiteratively "manufactures" intolerance and bigotry.
A QUESTÃO RACIAL parece um desafio do presente, mas trata-se de algo que
existe desde há muito tempo. Modifica-se ao acaso das situações, das formas de
sociabilidade e dos jogos das forças sociais, mas reitera-se continuamente,
modificada, mas persistente. Esse é o enigma com o qual se defrontam uns e
outros, intolerantes e tolerantes, discriminados e preconceituosos, segregados e
arrogantes, subordinados e dominantes, em todo o mundo. Mais do que tudo isso,
a questão racial revela, de forma particularmente evidente, nuançada e estridente,
como funciona a fábrica da sociedade, compreendendo identidade e alteridade,
diversidade e desigualdade, cooperação e hierarquização, dominação e alienação.
Vista assim, em perspectiva ampla, a história do mundo moderno é também a
história da questão racial, um dos dilemas da modernidade. Ao lado de outros
dilemas, também fundamentais, como as guerras religiosas, as desigualdades
masculino-feminino, o contraponto natureza e sociedade e as contradições de
classes sociais, a questão racial revela-se um desafio permanente, tanto para
indivíduos e coletividades como para cientistas sociais, filósofos e artistas. Uns e
outros, com freqüência, são desafiados a viver situações e/ou interpretá-las, sem
alcançar sua explicação ou mesmo resolvê-las. São muitas e recorrentes as tensões
e contradições polarizadas em termos de preconceitos, xenofobias, etnicismos,
segregacionismos ou racismos; multiplicadas ou reiteradas no curso dos anos,
décadas e séculos, nos diferentes países.
Esse é o dilema envolvido na polêmica entre Bartolomeu de Las Casas e Juan Ginés
de Sepúlveda, na época da conquista do Novo Mundo, repetindo-se e
desenvolvendo-se nas vivências e ideologias, teorias e utopias de muitos, no curso
dos tempos modernos. Essa é uma história na qual entram Herbert Spencer, Conde
de Gobineau e Georges Lapouge, tanto quanto o evolucionismo e o darwinimo
social, o nazismo e o americanismo1.
Em certa medida, o debate relativo ao "choque de civilizações" implica xenofobia,
etnicismo e racismo. Ao hierarquizar as "civilizações", hierarquizando também
povos, nações, nacionalidades e etnias, é evidente que se promove a classificação,
entre positiva, negativa, neutra ou indefinida, de uns e de outros. Quando Samuel
P. Huntington classifica as "civilizações contemporâneas" em chinesa, japonesa,
hindu, islâmica, ocidental e latino-americana, está, simultaneamente,
estabelecendo alguma relação entre etnia, ou raça, e cultura, ou civilização; uma
relação cientificamente insustentável, desde Fraz Boas, mesmo quando
dissimulada. Essa é, obviamente, uma implicação da sua "teoria", ao priorizar a
"civilização ocidental", por sua escala de "modernização", "tecnificação",
"produtividade", "prosperidade", "lucratividade". Aliás, esse contrabando etnicista,
xenófobo ou racista está presente em diferentes pensadores empenhados em
"explicar" o mundo em termos de "modernização", "racionalização", "tecnificação" e
outros emblemas ideológicos do "ocidentalismo"2.
É evidente que Huntington "esquece" a presença e a atuação do mercantilismo, do
colonialismo, do imperialismo ou do capitalismo, simultaneamente "ocidentalismo",
na constituição do seu mapa do mundo; uma "recomposição da ordem mundial" de
conformidade com a geopolítica norte-americana, arrogando-se como herdeira do
"ocidentalismo" como guardião do capitalismo; ou vice-versa. Toma cada
"civilização" como se fosse "essências", qualificáveis ou inqualificáveis, com
referência ao padrão de civilização capitalista desenvolvida na Europa Ocidental e
nos Estados Unidos da América do Norte. Está empenhado em delinear a
geopolítica de alcance mundial que está sendo exercida pelas elites governantes e
as classes dominantes norte-americanas desde o fim da Segunda Guerra Mundial
(1939-1945) entrando pelo século XXI. Essa é a ideologia que informa também o
pensamento e a prática de Henry Kissinger, Zbigniew Brzezinski, Condoleezza Rice
e outros.
É assim que o mundo ingressa no século XXI, debatendo-se com a questão racial,
tanto quanto com a intolerância religiosa, a contradição natureza e sociedade, as
hierarquias masculino-feminino, as tensões e lutas de classes. São dilemas que se
desenvolvem com a modernidade, demonstrando que o "desencantamento do
mundo" como metáfora do esclarecimento e da emancipação, continua a ser
desafiada por preconceitos e superstições, intolerâncias e racismos, irracionalismos
e idiossincrasias, interesses e ideologias3.
Mais uma vez, no início do século XXI, muitos se dão conta de que está novamente
em curso um vasto processo de racialização do mundo. O que ocorreu em outras
épocas, a começar pelo ciclo das grandes navegações, descobrimentos, conquistas
e colonizações, torna a ocorrer no início do século XXI, quando indivíduos e
coletividades, povos e nações, compreendendo nacionalidades, são levados a dar-
se conta de que se definem, também ou mesmo principalmente, pela etnia, a
metamorfose da etnia em raça, a transfiguração da marca ou traço fenotípico em
estigma. Sim, no século XXI continuam a desenvolver-se operações de "limpeza
étnica", praticadas em diferentes países e colônias, compreendendo inclusive países
do "primeiro-mundo"; uma prática "oficializada" pelo nazismo nos anos da Segunda
Guerra Mundial (1939-1945), atingindo judeus, ciganos, comunistas e outros; em
nome da "civilização ocidental", colonizando, combatendo ou mutilando outras
"civilizações", outros povos ou etnias. A guerra de conquista travada pelas elites
governantes e classes dominantes norte-americanas, em 2002 no Afeganistão, e
em 2003 no Iraque, pode perfeitamente fazer parte da longa guerra de conquistas
travadas em várias partes do mundo, desde o início dos tempos modernos, como
exigências da "missão civilizatória" do Ocidente, como "fardo do homem branco" ,
como técnicas de expansão do capitalismo, visto como modo de produção e
processo civilizatório.
Cabe refletir, portanto, sobre o enigma ou os enigmas escondidos na questão
racial, como sucessão e multiplicação de xenofobias, etnicismos, intolerâncias,
preconceitos, segregações, racismos e ideologias raciais, desde o início dos tempos
modernos, em todo o mundo.
• A raça, a racialização e o racismo são produzidos na dinâmica das relações
sociais, compreendendo as suas implicações políticas, econômicas, culturais. É a
dialética das relações sociais que promove a metamorfose da etnia em raça. A
"raça" não é uma condição biológica como a etnia, mas uma condição social,
psicossocial e cultural, criada, reiterada e desenvolvida na trama das relações
sociais, envolvendo jogos de forças sociais e progressos de dominação e
apropriação. Racionalizar uns e outros, pela classificação e hierarquização, revela-
se inclusive uma técnica política, garantindo a articulação sistêmica em que se
fundam as estruturas de poder. Racializar ou estigmatizar o "outro" e os "outros" é
também politizar as relações cotidianas, recorrentes, em locais de trabalho, estudo
e entretenimento; bloqueando relações, possibilidades de participação, inibindo
aspirações, mutilando práxis humana, acentuando a alienação de uns e outros,
indivíduos e coletividades. Sob todos os aspectos, a "raça" é sempre "racialização",
trama de relações no contraponto e nas tensões "identidade", "alteridade",
"diversidade", compreendendo integração e fragmentação, hierarquização e
alienação.
• Um segredo da constituição da "raça", como categoria social, está na acentuação
de algum signo, traço. Característica ou marca fenotípica por parte de uns e de
outros, na trama das relações sociais. Simultaneamente, na medida em que o
indivíduo em causa, podendo ser negro, índio, árabe, judeu, chinês, japonês, hindu,
angolano, paraguaio ou porto-riquenho, está em relação com outros, aos poucos é
identificado, classificado, hierarquizado, priorizado ou subalternizado. Mesmo
porque uns e outros, indivíduos, grupos, famílias e coletividades estão inseridos em
processos de cooperação, divisão social do trabalho social, hierarquização,
dominação e alienação, e transformação da marca em estigma, o que se manifesta
na xenofobia, etnicismo, preconceito, segregação racismo. Aos poucos, o traço, a
característica ou a marca fenotípica transfigura-se em estigma. Estigma esse que
se insere e se impregna nos comportamentos e subjetividades, formas de
sociabilidade e jogos de forças sociais, como se fosse "natural", dado,
inquestionável, reiterando-se recorrentemente em diferentes níveis das relações
sociais, desde a vizinhança aos locais de trabalho, da escola à igreja, do
entretenimento ao esporte, das atividades lúdicas às estruturas de poder 4. Note-se
que o estigma não atinge apenas aqueles que pertencem a "outras" etnias, já que
atinge também a mulher, o operário, o camponês, os adeptos de outras religiões, o
comunista. Trata-se de elaboração psicossocial e cultural com a qual a "marca"
transfigura-se em "estigma", expresso em algum signo, emblema, estereótipo, com
o qual se assinala, demarca, descreve, qualifica, desqualifica, delimita ou subordina
o "outro" e a "outra", indivíduo ou coletivo. Este é um aspecto fundamental da
ideologia racial: o estigmatizado, aberta ou veladamente, é levado a ver-se e a
movimentar-se como estigmatizado, estranho, exótico, estrangeiro, alheio ao
"nós", ameaça; a despeito de saber que se trata de uma mentira. Precisa elaborar e
desenvolver a sua autoconsciência crítica, tomando em conta o estigma e o
estigmatizador, o intolerante e a condição de subalternidade em que está jogado.
• É evidente que a personalidade, a sensibilidade e a subjetividade do racista
desempenha um papel importante ou mesmo decisivo na trama das relações e das
formas de sociabilidade. Na fábrica da sociedade burguesa, envolvendo a
individualização e o individualismo, a competição e o êxito pessoal, o status
socioeconômico e a classificação social, formam-se personalidades democráticas e
autoritárias, tanto quanto estóicas e apáticas, egoístas e altruístas, neuróticas e
psicóticas. Sendo que esses traços, ou estruturas de personalidade, às vezes
exercem um papel decisivo no modo pelo qual o indivíduo em causa se relaciona
com o "outro" ou os "outros", tomados como estranhos, exóticos, diferentes,
irreconhecíveis, ameaças. Conforme sugerem Adorno, Sartre e outros, o
intolerante, preconceituoso ou racista, inventa o objeto de sua intolerância, ódio,
agressão, podendo ser negro, árabe, judeu; por diferente, surpreendente. Sem
esquecer que aquele que marginalizado ou estigmatizado desenvolve uma
consciência social singularmente sensível, fina, arguta, incômoda; traduzindo-se
geralmente em mais lucidez, maior discernimento, o que é também diferente e
surpreendente5.
• A ideologia racial dos que discriminam, dos que mandam, os quais podem ser
"brancos" ou outros, sintetiza e dinamiza a intolerância, a xenofobia, o etnocismo,
o preconceito ou o racismo. É a ideologia racial que articula e desenvolve a gama
de manifestações, signos, símbolos ou emblemas com os quais indivíduos e
coletividades "explicam", "justificam", "racionalizam", "naturalizam" ou
"ideologizam" desigualdades, tensões e conflitos raciais. O racista fundamenta em
argumentos que parecem consistentes e convincentes a sua "taxionomia" e
"hierarquização", distinguindo, delimitando, segregando ou estranhando o "outro":
negro, árabe, judeu, índio chinês, oriental e assim por diante. São estereótipos,
signos, símbolos mobilizados ao acaso das situações elaboradas no curso de anos,
décadas, séculos, com os quais o "branco", "dolicocéfalo", "europeu", "ariano",
"norte-americano", "ocidental" explica, legitima, racionaliza ou naturaliza a sua
posição e perspectiva privilegiadas, de controle de instrumentos de poder. Nesse
sentido é que essa ideologia é uma técnica de estigmatização recorrente, reiterada
em diferentes formulas e verbalizações, desenvolvendo a metamorfose da marca
em estigma. Sob vários aspectos, essa ideologia racial é transmitida por gerações e
gerações, através dos meios de comunicação, da indústria cultural, envolvendo
também sistema de ensino, instituições religiosas e partidos políticos; e tem sido,
continuando a ser, um componente nuclear da cultura da modernidade burguesa.
Esse o contexto em que formula, cria ou engendra "o mito da democracia racial",
significando que a sociedade brasileira seria uma democracia racial, sem ser uma
democracia política e, muito menos, uma democracia social. É claro que essa
expressão dissimula uma sofisticada forma de racismo patriarcal, patrimonial,
elaborada desde o alpendre da casa-grande. Mais do que isso, pode ser uma cruel
mistificação da desigualdade, da intolerância, do preconceito, do etnicismo ou do
racismo, como "argamassas" da ordem social vigente, da lei e da ordem. "Cruel"
porque implica neutralizar eventuais reações ou protestos, reivindicações ou lutas
dos estigmatizados, definidos de antemão como participantes tolerados da
"comunidade nacional"6.
• É óbvio que o discriminado, o segregado, o estigmatizado, definido como
"estranho", "desconhecido", "não confiável" elabora a sua contra-ideologia,
ideologia de protesto, indignação, reivindicação, emancipação. Simultaneamente à
estigmatização, elabora criticamente a própria situação e a do "outro", geralmente
mas não sempre "branco", administrador, capataz, conquistador, colonizador,
membro de setores sociais dominantes, os quais se imaginam "superiores",
"civilizadores". É assim que o estigmatizado elabora e reelabora a sua identidade:
no contraponto com a alteridade, na dinâmica das relações, processos e estruturas
hierarquizadas, desiguais, com as quais os que mandam ou desmandam
empenham-se em preservar "a lei e a ordem". Nesse percurso atravessado por
vivências, o estigmatizado desenvolve a sua percepção, sensibilidade,
compreensão; construindo e reconstruindo a sua consciência no contraponto do
"eu" e do "outro", do "nós" e do "eles", dos "subalternos", dos "dominantes".
Assim, aos poucos, ou de repente, realiza um entendimento mais amplo e vivo de
qual é a sua real situação, quais são os nexos do tecido social no qual está
emaranhado, de como essa sua situação implica decisivamente a ideologia e a
prática dos que discriminam. Esse o percurso em que se desenvolve a consciência
crítica, a autoconsciência ou a consciência para si, reconhecendo que é desde essa
autoconsciência crítica que nasce a transformação, a ruptura ou a transfiguração.
Charqueada Grande
Oliveira Silveira
Um talho fundo na carne do mapa:
Américas e África margeiam.
Um navio negreiro como faca:
mar de sal, sangue e lágrimas no meio.
Um sol bem tropical ardendo forte,
ventos alíseos no varal dos juncos
e sal e o sol e o vento sul no corte
de uma ferida que não seca nunca7.
Presentinho
Paulo Colina
Maio,
treze,
mil, oitocentos, e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário8.
• No limite, a questão racial, em todas as suas implicações sociais, políticas,
econômicas, culturais, ideológicas, pode ser vista como uma expressão e um
desenvolvimento fundamentais do que tem sido a dialética escravo e senhor no
curso da história do mundo moderno. Constitui um ângulo particularmente crucial e
fecundo do que têm sido os diferentes desenvolvimentos da sociedade moderna,
burguesa, capitalista; visto o capitalismo como um modo de produção e processo
civilizatório, mas histórico e, portanto, transitório. O que já se esboçava no século
XVI com a polêmica entre Bartolomeu de Las Casas e Juan Ginés de Sepúlveda, a
propósito dos povos e civilizações do Novo Mundo, desenvolve-se, aprofunda-se e
generaliza-se no curso dos séculos seguintes, à medida que se formam e se
transformam as castas e as classes sociais. Daí a excepcional clareza, argúcia e
contundência da famosa frase, com a qual Caliban anuncia a sua revolta contra
Próspero: "Foi bom que você tivesse me ensinado a sua língua, agora já sei como
amaldiçoá-lo". Assim nasce a rebeldia do colonizado contra o colonizador, do
subalterno contra o conquistador; um primeiro momento da consciência crítica, da
autoconsciência para si; dialética essa que ressoa e desenvolve-se em escritos de
Rousseau, Hegel, Marx, Engels, Gramsci, Fanon e muitos outros, em todos os
continentes, ilhas e arquipélagos.
"O problema do século XX", disse o famoso líder negro americano William E.
Bughardt Du Bois, em 1900, "é o problema da barreira de cor, a relação das raças
mais escuras com as mais claras, dos homens na Ásia e da África, na América e nas
ilhas do ma. Foi uma notável profecia. A história do século atual foi marcada,
simultaneamente, pelo impacto do Ocidente ba Ásia e África e pela revolta da Ásia
e da África contra o Ocidente... A longo prazo... dois fatores foram fundamentais...
O primeiro fator foi a assimilação por asiáticos e africanos das idéias, técnicas e
instituições ocidentais, que podiam ser aproveitadas contra as potências ocupantes,
um processo em que eles demonstraram ser mais aptos que a maioria dos
europeus tinha previsto. O segundo foi a vitalidade e a capacidade de auto-
renovação de sociedades que os europeus tinham, com excessiva facilidade,
considerado estagnadas, decrépitas ou moribundas"9.
A dialética do escravo e do senhor pode ser tomada como uma das mais
importantes alegorias do mundo moderno, fundamental na filosofia, ciências sociais
e artes. Está presente em distintos círculos sociais, envolvendo tanto etnias e
raças, como a mulher e o homem, o jovem e o adulto, o operário e o burguês, o
árabe e o judeu, o ocidental e o oriental, o norte-americano e o latino-americano,
os sul-africanos e os bôers ou afriksners; diferentes coletividades, grupos sociais,
classes sociais e nacionalidades; todos se relacionando, integrando-se e
tensionando-se nos jogos das forças sociais.
Esta é a dialética das relações sociais, nas quais se inserem as relações raciais: o
indivíduo, tomado no singular ou coletivamente, forma-se, conforma-se e
transforma-se na trama das relações sociais, formas de sociabilidade, jogos de
forças sociais. São várias, mutáveis e contraditórias as determinações que
constituem o indivíduo, no singular e coletivamente, o que pode transformá-lo e
transformá-los; daí constituindo-se o "negro", o "branco", o "árabe", o "judeu", o
"hindu", o "mexicano", o "paraguaio", o "senegalês", o "angolano", tanto como o
"operário", o "camponês", o "latifundiário", o "burguês"; tanto como a "mulher", o
"homem"; todos e cada um visto como criados e recriados, modificados e
transfigurados na trama das relações sociais, das formas de sociabilidade e dos
jogos das forças sociais; envolvendo sempre processos socioculturais e político-
econômicos, desdobrando-se em teorias, doutrinas e ideologias. Assim se dá a
metamorfose do indivíduo "em geral", indeterminado, em indivíduo "em particular",
determinado, concretizado por várias, distintas e contraditórias determinações.
Esse o clima em que germina o "eu" e o "outro", o "nós" e o "eles", compreendendo
identidade e alteridade, diversidade e desigualdade, cooperação e hierarquização,
divisão do trabalho social e alienação, lutas sociais e emancipação.
Esta é, em síntese, uma idéia, hipótese ou interpretação, com o qual todos se
defrontam cotidianamente, ou de quando em quando: a sociedade moderna,
burguesa, capitalista, fabrica contínua e reiteradamente a questão racial, assim
como as desigualdades masculino-feminino, o contraponto natureza e sociedade e
as contradições de classes sociais, além de outros problemas com implicações
práticas e teóricas. São enigmas que nascem e se desenvolvem com a
modernidade, por dentro e por fora do "desencantamento do mundo". A despeito
de inegáveis conquistas sociais realizadas no curso dos tempos modernos, esses e
outros enigmas se criam e se recriam, se desenvolvem e se transfiguram em
diferentes círculos de relações sociais, não em sociedades nacionais, como também
na sociedade mundial. De par em par com a globalização da questão social,
desenvolve-se e intensifica-se mais um ciclo de racialização do mundo, assim como
de transnacionalização de movimentos sociais de todos os tipos, envolvendo
feministas, reivindicações étnicas, tensões e lutas religiosas implicadas na
geopolítica do terrorismo e crescente consciência de que o próprio planeta Terra
está ameaçado. Esses são os problemas e enigmas da modernidade-nação, ou
primeira modernidade, e da modernidade-mundo, ou segunda modernidade, ambas
conjugando-se e tensionando-se no curso dos tempos e espaços do mapa do
mundo; revelando que a modernidade seria ininteligível sem esses dilemas, os
quais desafiam a prática e a teoria, a ideologia e a utopia.
Seria fácil reconhecer que esses enigmas estão na "natureza" das coisas, da vida,
ou da sociedade burguesa, moderna, como enigmas insolúveis, ainda que
manejáveis. E é esse o pensamento de muitos, em diferentes partes do mundo. A
maioria das práticas e dos discursos sobre "a lei e a ordem", "a nova ordem
econômico-social mundial", "o mundo sem fronteiras", "o fim da história" ou "a
teoria, a prática do neoliberalismo" implica "naturalizar" ou "ideologizar" o status
quo: modificar alguma coisa para que nada se transforme.
Mas é possível imaginar que esses problemas ou enigmas podem ser fermentos de
outras formas de sociabilidade, outros jogos das forças sociais, outro tipo de
sociedade, outro modo de produção e processo civilizatório; com os quais se põe
em causa a ordem social burguesa prevalecente, revelando-se a sua incapacidade e
impossibilidade de resolvê-los, reduzi-los ou eliminá-los. Sim, esses problemas ou
enigmas podem ser tomados como contradições sociais abertas, encobertas ou
latentes, permeando amplamente o tecido das sociedades nacionais e da sociedade
mundial, com os quais se fermenta a sociedade do futuro.
Notas
1 Michael Banton, A idéia de raça, trad. Antonio Marques Bessa, Livraria Martins
Fontes, São Paulo, 1979; Richard Hofstadter, Social Darwinism in American
Thought, Beacon Press, Boston, 1967; E. Franklin Frazier, Race and Culture
Contacts in the Modern World, Alfred A. Knoupf, New York, 1957; Eric R. Wolf,
Europe and the People without History, University of California Press, Berkeley,
1982; K.M. Panikkar, A dominação ocidental na Ásia, [Link] Nemesio Salles, 3ª
ed., Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977; J.A. Hobson, Imperalism, Ann Arbor,
Toronto, 1965; Eric Williams, Capitalismo e escravidão, trad. de Carlos Nayfeld,
Companhia Editora Americana, Rio de Janeiro, 1975; David Brion Davis, O
problema da escravidão na cultura ocidental, trad. de Wanda Caldeira Brant.
2 Samuel P. Huntington, O choque de civilizações e a recomposição da ordem
mundial, [Link] M.H.C. Cortes, Objetiva, Rio de Janeiro, 1997; Bernard Lewis, O
que deu errado no Oriente Médio!, Zahar, Rio de Janeiro, 2002; Soren Hvalkof e
Peter Aaby (eds.), Is God an American! International Work Group for Indigenous
Affairs, Copenhagen, 1981.
3 Daniel Patrick Moynihan, Pandemonium: Ethnicity in International Politics, Oxford
University Press Oxford, 1994; Thomas Sowell, Race, Politique et économie (une
approche internationale), trad. de Raoul Audouin, Presses Universitaires de France,
Paris, 1986; Rita Jalali e Seymour Martin Lipset, "Racial and Ethnic Conflicts: A
Global Perspective", Policial Science Quaterly, vol. 107, nº4, 1992-1993, pp. 585-
606; John McGarry e Bredan O' Leary (orgs.), The Politics of Ethnic Conflict
Regulation, Routledge, London, 1993; Ronald Segal, The Race War, A Banton Book,
New York, 1967.
4 Oracy Nogueira, Tanto preto quanto branco: estudos de relações raciais, T.A.
Queiroz, São Paulo, 1985, cap. "Preconceito racial de marca e preconceito racial de
origem", pp. 67-93; Erving Goffman, Estigma, trad. Márcia Bandeira de Mello Leite
Nunes, Rio de Janeiro, Zahar, 1975.
5 T.W. Adorno e outros, The Authoritarian Personality, Harper & Broters, New York,
1950; J.P. Sartre, Reflexões sobre o racismo, trad. de J. Guisburg, Difusão Européia
do Livro, São Paulo, 1960; Frantz Fanon, Peau noire masques blancs, Éditions du
Seuil, Paris, 1952; Albert Memmi, Portrait du colonise, Jean-Jacques Pauvert
Éditeur, Utrecht, 1966; Karl Marx, A questão judaica, trad. de Wladimir Gomde,
Laemmert, Rio de Janeiro, 1969.
6 Roger Bastide e Florestan Fernandes, Brancos e negros em São Paulo, 2ª ed.,
revista e ampliada, Companhia Nacional, São Paulo, 1959; Unesco-Anhembi,
Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo, Anhembi, São Paulo, 1955;
Florestan Fernandes, O negro no mundo dos brancos, Difusão Européia do Livro,
São Paulo, 1972.
7 Oliveira Silveira, "Charqueada Grande", publicado por Oswaldo de Camargo
(seleção e organização), A razão da chama, São Paulo, GRD, 1986, p. 65.
8 Oswaldo de Camargo (org.), O negro escrito (apontamentos sobre a presença do
negro na literatura brasileira), Impressa Oficial do Estado, São Paulo, 1987, p. 180.
Consultar também: José Lus Gonzáles e Mônica Mansour (orgs.), Poesia negra de
América, México, Era, 1976; Roger Bastide, As Américas negras, trad. de Eduardo
de Oliveira e Oliveira, São Paulo, Difel, 1974; John Henrik Clarke e Amy Jacques
Garvey (orgs.), Marcus Garvey and the Vision of Africa, Vintage Books, New York,
1974; Paget Hnery, Caliban's Reason (Introducing Afro-Caribbean Philosophy),
Routledge, New York, 2000.
9 Geoffrey Barraclough, Introdução à história contemporânea, 4ª ed., Rio de
Janeiro, Zahar, 1976, pp. 146 e 152-153; citação do cap. VI: "A revolta contra o
Ocidente", pp. 146-188. Consultar também: William Shakeaspeare, A tempestade,
trad. de Bárbara Heliodora, Rio de Janeiro, Lacerda, 1999; G.W.F. Hegel,
Fenomenologia do espírito, trad. de Paulo Meneses, Petrópolis, Vozes, , 2002, esp.
cap. IV: " A verdade da certeza de si mesmo", pp. 135-171.