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Almas

O documento descreve uma cidade litorânea abandonada, marcada por tragédias e a decadência de seus habitantes, que se tornaram prisioneiros de seus próprios vícios e desilusões. A narrativa explora a fragilidade dos sonhos humanos e a inevitabilidade da morte, culminando em uma epidemia que dizimou a população, transformando a vila em um lugar amaldiçoado. Treze anos depois, um jovem ousa entrar na cidade em busca de uma garrafa de rum, apenas para se deparar com um misterioso homem que parece ser o último habitante do local.

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Bruna de Camargo
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Almas

O documento descreve uma cidade litorânea abandonada, marcada por tragédias e a decadência de seus habitantes, que se tornaram prisioneiros de seus próprios vícios e desilusões. A narrativa explora a fragilidade dos sonhos humanos e a inevitabilidade da morte, culminando em uma epidemia que dizimou a população, transformando a vila em um lugar amaldiçoado. Treze anos depois, um jovem ousa entrar na cidade em busca de uma garrafa de rum, apenas para se deparar com um misterioso homem que parece ser o último habitante do local.

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Era domingo de manhã e estava quente.

O sol brilhava forte no céu, marcando


vigorosamente sua presença, enquanto moscas voavam, ocasionalmente pousando aqui ou acolá.
Em algum lugar, às margens semiáridas de uma caatinga quase inacabável, infinita aos olhos
dos homens, situava-se uma pequena cidade litorânea. Abandonada, senão pelas almas perdidas
que insistiam em habitá-la – por hábito, conveniência ou maldição, estavam presas, era seu
purgatório. Penavam por ali, em maioria, alcoólatras, que existiam apenas para ocupar seus
típicos lugares nos banquinhos redondos de botecos quaisquer; e mulheres, vagando sem rumo
com vestidos rasgados e olhos vidrados, assombrando os casarões que um dia lhes fizeram
morada, petrificadas à sinfonia de seu próprio sofrimento e cegas à escuridão do vazio que
tomara conta do que lhes fora a vida, esperando, na companhia mórbida de seus bastardos
esqueléticos, seus maridos adúlteros retornarem de uma guerra que nunca aconteceu.

Outrora, a vila fora um animado povoado pesqueiro, cenário no qual crianças brincavam
livres pelas ruas, correndo com seus pequenos pés descalços e batendo uma contra a outra, em
eletrizantes batalhas imaginárias, espadas de madeira mais longas que seus próprios troncos.
Com a chegada do crepúsculo, a população sentava-se lado a lado em frente a uma fogueira,
improvisada com gravetos e páginas de livros arcaicos – e de linguajar tão rebuscado que se
faziam ilegíveis àqueles camponeses –, ao passo que um ancião lhes contava as mais
maravilhosas lendas sobre bravos cavaleiros, que lutavam por cruzadas que não lhes faziam
juízo; e marinheiros que um dia descobririam oceano afora um “Novo Mundo”.

Os contos miraculosos que saíam e bailavam em tom de melodia daqueles velhos lábios
faziam o coração dos infantes bater mais forte, cultivando neles, como se fosse um pequenino
broto, o já semeado espírito da criatividade que ardia no interior de cada um, para que, quando
ele desabrochasse, revelasse a mais marcante característica presente nos seres humanos: a
capacidade de sonhar.

É certo que a individualidade humana se manifesta de inúmeras e muito peculiares


formas, e a elas é dado o nome de “sonhos”, contudo, perante o seu significado, sabe-se que há
unanimidade entre os mortais: que mais pode descrever a tamanha particularidade de “sonhar”,
que não obter um propósito para que, no dia do juízo final, o resumo de toda uma existência,
qualquer tenha sido sua duração, não consista em um desperdício de vitalidade. Não, uma
permanência neste árduo plano carnal, mínima que fosse, jamais poderia ter sido em vão.

Ao menos é o que se costuma dizer ao ápice do desarme, durante a mais longa das
noites vividas – a última –, quando a apreensão de fechar os olhos e partir é demasiada intensa
para ser ignorada, e o equilíbrio que um dia manteve a mente sã vagarosamente se desfaz,
transformando-se em caos, como grãos de areia derramando-se no interior de uma ampulheta.
Tamanha seria a ironia caso a vida, o mais precioso bem dos que possuem o traço da
mortalidade, se fizesse meramente insignificante aos olhos do tempo. No entanto, é inegável
que ambos os mencionados atos – tanto o de sonhar quanto o de contar histórias – são
necessidades genuínas dos seres humanos. Se lhes tomassem isso, não seriam eles a mais frágil
das criaturas?

Todavia, sonhos são frágeis e o menor dos sopros poderia torná-los os piores pesadelos.
E foi o que aconteceu.

Na mente dos antigos, a lembrança do que fora a cidadezinha era nítida, no entanto, eles
se recusavam a falar sobre, temerosos de que o demônio que a havia rogado a tão terrível praga,
ainda que não os conhecesse em carne, ouvisse seus cochichos roucos pronunciando em vão o
nome do deus Morte e os concedesse o mesmo destino – suas vítimas –, para que, durante a
eternidade, suas almas por ali aprisionadas clamassem pela misericórdia daqueles que haviam
ofendido. É um pecado que não pode ser cometido, sussurrava a voz do medo aos pés dos
ouvidos conhecedores da veracidade da lenda que a cidade se tornara.

Eram poucos os atrevidos o suficiente para recordar em alto tom, e, apesar de saberem
que condenar-se-iam por sua insolência e que contestariam sua sanidade, afirmavam quase que
em uníssono: o povoado costumava ser sinônimo de calmaria, mas seus moradores eram pagãos.
Devotavam-se às piores artes das trevas: à ciência e à filosofia; permitiam que mulheres
cedessem à libertinagem, deitando-se com homens apenas pelo prazer, que a elas, por ordem
deífica, deveria ser negado; dedicavam-se à heresia da bruxaria, vendendo à besta suas vidas em
troca de artifícios curativos, que tratavam do corpo e envenenavam o espírito;

Contava-se que o infortúnio que os assolara era, na verdade, a vontade de Deus, que
apenas enviara as consequências aos moradores pelos pecados que insistiam em cometer. Suas
crenças fajutas, rezas malditas e atitudes profanas eram provocadoras da ira divina, e, portanto,
o Pai cobrou-lhes o seu preço.

Após pouco mais de um século de profanação e perversão, o castigo os atingiu na forma


da pior das pestes, que, num estalar de dedos, reduziu todos os sonhos a pó, soprado pela
própria morte nos olhos de suas presas, para que, no momento da ceifa, cerrados estivessem,
limitando o sofrimento das pobres entidades aos últimos suspiros; e a ossos, enterrados em
pequenos caixões, de tamanho infantil, sob o lamento de senhoras desoladas pelo luto.

Ah, tão bom é o nosso Senhor! Ele fez com que os corações das criancinhas parassem
antes dos de seus pais, para que os rebentos não tivessem que assistir à agonia sangrenta de seus
genitores quando o próprio sangue passou a lhes travar a garganta: eles engasgavam-se com
pedaços da carne de seus pulmões, que se desfaziam dentro de seus corpos a cada respiração
exalada. Os mais jovens partiram antes, porém não de maneira mais misericordiosa: não
compreendiam, enquanto seus corpinhos se contorciam de dor, que o sofrimento terreno de se
deteriorar de dentro para fora serviria para purificá-los dos insultos cometidos por seus
antepassados. Deus não deixaria a mais jovem das almas passar pelos portões de Seu lar se
pertencesse ao pequeno filho de um pecador. Todos deveriam sofrer, para que vivessem em
plenitude pela eternidade da não-vida.

Era essa a história contada para amedrontar os corações dos céticos acerca da ira de algo
maior. Sabia-se que o berço de Deus era feito de ouro, dizia-se que Ele ninava-se a partir dos
suspiros nas preces dos vivos, ao balanço das mãos apertadas dos mortos, que rodopiavam em
volta de sua própria insignificância parente tal majestosa imagem. Inalcançável.

Enfim, de fato, os menores foram os primeiros a morrer, e agora suas espadas nada mais
eram que pedaços apodrecidos de madeira, abandonados às ruas ressecadas da vila. Seus tão
costumeiros baques foram substituídos por um gritante silêncio mortal, que era ouvido por
todos, ou por ninguém, já que ali nada mais – ou ninguém – existia para escutá-lo.

Ao cais, nem mesmo o vento, que em um passado vindouro arrastava forte as marés,
fazia som algum. Até a própria natureza se emudecia com a intensidade da tragédia. Nos mais
periféricos becos, carcaças despedaçadas de recém-nascidos ainda podiam ser encontradas, em
um estágio grotesco do processo de decomposição. Aqueles ínfimos corpos estavam, num
pútrido banquete, sendo devorados pouco a pouco por vermes, insetos e abutres famintos por
carne. No mais asqueroso júbilo, as bestas gozavam de seu festim, à medida que o sol secava
gotas de sangue que em outro instante haviam pingado pelo chão.

De qualquer forma, tardia foi a atenção das autoridades ao caos que tomava conta da
cidade, por isso brevemente a epidemia veio a se tornar uma fatalidade. Um descuido
incalculável, aprazível ao ceifador, que se deleitou no atraso dos influentes para capturar
centenas de novos espécimes para sua incontável coleção de almas. Quando os poderosos
finalmente voltaram seus olhos circundados por cifrões ao vilarejo, era tarde, ele estava morto.

Corpos cheios de história foram empilhados dentro construções mal-acabadas e


estruturas caindo aos pedaços, para, então, serem consumidos pelo fogo, quando os homens de
altos cargos políticos perceberam a importância que tinha aquele vilarejo portuário. Era fato:
seu ancoradouro era de alta relevância e prestígio para quem buscava conquistar riquezas mar
além, mediante o comércio ou o saque, fator que o tornava interessante a bárbaros e piratas,
portanto, em acordo com opulentos cartógrafos e navegadores, também interessadíssimos, o
Estado desejava impedir que larápios sem berço lhe tomassem posse.

Entretanto, os esforços e gastos realizados foram em vão. Nem mesmo o maior dos
patifes teria a coragem necessária para atracar em um solo tão amaldiçoado. Por fim, a tal
reforma foi interrompida em pouco menos de um mês após ter sido iniciada, uma vez que
nenhum mestre de obra, indiferente de sua qualificação, era capaz de reconstruir o que ali tinha
sido perdido. Após inúmeros relatos fantasmagóricos de serventes supersticiosos e
amedrontados, foi definido que era cedo – ou tarde? – demais para que se fizesse algo a
respeito. O que restou? Lendas assombradas, inventadas pela plebe de municípios próximos
para evitar que os seus por lá se aventurassem.

Quando o governo decretou que a situação do local era irrecuperável, ele foi apagado de
todos os mapas e retirado de quaisquer rotas de mercado de que poderia fazer parte, as pessoas
recusavam-se a dizer seu nome, com medo de que esse simples ato pudesse lhes trazer maus
agouros. O lugar tornou-se tão abandonado que sequer tinha-se certeza de que um dia ele
realmente existira. Alguns, porém, eram tolos o suficiente para ousar desafiá-lo.

Exatos treze anos depois, no centro da cidade, havia um rapaz.

Era robusto e tinha a pele rosada de um leitão. Sua idade pairava entre os dezoito e vinte
anos, seus olhos eram grandes e azuis. Uma curta cicatriz lhe marcava uma das bochechas.

O que trazia um jovem tão promissor – o primogênito de um influente político local – a


um território tão morto e amaldiçoado? É claro, uma aposta com os amigos para cumprir.

O combinado? O garoto deveria adentrar a cidadezinha, cavalgar até o primeiro boteco


com que se deparasse e trazer de lá a garrafa de rum mais antiga que pudesse encontrar. De
início, não pareceu uma má ideia, tudo que precisaria fazer era caminhar por uma vila
abandonada e depois sair dela. Não havia o que temer, ninguém habitava o lugar há mais de
uma década. Era apenas um pequeno trajeto para conseguir álcool de graça para beber. Mas
agora, com o vento sussurrando ao seu ouvido, com os gritos de urubus batalhando por carniça e
com nada além de edificações vazias ecoando o som dos passos de seu cavalo, ele estava
apavorado.

Após alguns minutos – pareceram horas – em sua busca, ele finalmente o encontrou. Lá
estava, no coração da vila, uma pequena e apagada plaquinha gravada com as inscrições “Bar”.
Um arrepio percorreu a espinha do forasteiro ao perceber que não fazia ideia do que encontraria
lá dentro.

Desceu lentamente do cavalo, mão rente à cintura, onde carregava uma adaga
embainhada e um chicote. Amarrou seu corcel castanho ao poste mais próximo e caminhou
vagarosamente em direção à porta. Subiu uma pequena escada, que rangeu a cada degrau que
ele pisava. Estava diante da entrada do estabelecimento. Só lhe faltava a coragem necessária
para abrir aquela porta. Ele respirou fundo não uma, não duas, mas três vezes antes de fazê-lo. E
quando o fez, foi surpreendido por uma figura masculina de olhos dourados o encarando de trás
do balcão.

Para o espanto – e pavor – do rapaz, lá dentro havia um homem.

A idade dele poderia variar entre os cinquenta e os sessenta anos, ele era grisalho,
magro e tinha a barba rala e espetada por fazer. Um chapéu de palha repousava sobre seu crânio,
escondendo a raiz pálida dos fios lisos que lhes cobriam as orelhas e pendiam na altura dos
ombros. Um fino cigarro de palha pendia em seus lábios rachados. Eram múltiplas as cicatrizes
e manchas pelo seu rosto, e seu olhar permanecia calmo, como se estivesse desgastado pelo
tempo. Sua íris amarela expressava ter provado o suficiente da vida – ou da falta dela – para
saber o que viria a seguir. Ele cantarolava uma assombrosa canção esquecida enquanto
embaralhava um excêntrico jogo de cartas. O ambiente emanava uma curiosa mistura de odores:
jasmim, limão e tabaco.

- Por que demorou tanto? Estávamos à sua espera. - Sua voz era rouca e áspera como
uma lixa. Ao passo que a boca do senhor se fechou, saltou sobre a bancada um gato de pelo
negro e um dos olhos costurado. O rapaz, assustado, deu um pulo. Nunca esteve tão pálido.
Desde sua ruína, o vilarejo estava deserto. Inabitado. Aquilo não podia estar certo. Não deveria
ter ninguém ali. Ainda assim, aquele homem – se é que era isso mesmo que era – olhava para
ele com um sorriso vil.

Não houve tempo para fugir, em um estrondo, a porta se fechou atrás do jovem antes
mesmo que ele tivesse a capacidade de raciocinar. Foi então que percebeu: sua trêmula mão
ainda agarrava a adaga na bainha. Um passo em falso daquela criatura que tanto se assemelhava
a um ser humano e ele lhe atravessaria a garganta com a lâmina. Insolente.

- Quem é você? - A frase que deveria ter saído imponente mal passou de um sussurro. O
medo devorava suas entranhas, sua respiração era curta e entrecortada, seus olhos cor de oceano
varriam o boteco em busca de algo que o ajudasse a escapar. O velho, porém, agia como se
fosse uma típica manhã de domingo. - O que é você?

- Vamos, sente-se. Que mal pode fazer um velho decrépito como eu a um filho da
grande aristocracia como você? - gargalhou e tomou um gole de uma bebida vermelho-sangue
de um copo em cima da superfície à sua frente, apagando a guimba de seu cigarro nele logo
depois. - Veio pelo rum, não é mesmo? - voltou-se ao armário de bebidas e virou-se novamente,
agora segurando uma garrafa transparente cheia de um líquido amarelo escuro. - Pois bem, aqui
está - colocou a garrafa sobre uma das vazias mesas de madeira do local e se sentou. - É seu,
mas terá de ganhá-lo de mim primeiro - abriu seu baralho, revelando uma série de cartas que o
jovem jamais havia visto antes. Cartas de tarô. Há muito, a Igreja as banira do continente, sob a
justificativa de que eram malditas. Os olhos do forasteiro brilharam em uma mistura de terror e
êxtase, ele nunca havia visto tais exemplares em toda a sua vida.
Boquiaberto, o rapaz sabia que jogar com o velho seria renunciar sua catequese,
eucaristia e crismas, mas, ainda assim, sentia uma estranha vontade de fazê-lo. Era algo
primitivo, algo que vinha de um pedaço tão remoto de seu interior que ele nem mesmo sabia
identificar o que era. Sucumba à sua própria mortalidade, menino pagão.

A imagem de Jesus Cristo que carregava em seu pescoço ardia contra sua pele, um claro
alerta, contudo, seu corpo parecia não mais responder por si próprio. Quando se deu conta, já se
sentava sobre o banquinho de madeira acolchoado do boteco, o baralho debaixo de seus dedos.
Sua consciência gritava dentro da prisão mental que ele mesmo se impusera, era uma marionete
de seus próprios desejos. Finalmente compreendia o que fizera Eva consumir o fruto proibido.
Tentação.

- Quais as regras? - sua dicção não mais falhava. Sua postura tornou-se ereta, ele estava
pronto. Não parecia o mesmo de momentos antes, coragem exalava de si como se exala a
fumaça de um incenso. É surpreendente o que a perdição faz dos homens.

- Passara tanto tempo vivendo às rédeas da sociedade, meu caro, tanto tempo
conhecendo as regras e as seguindo cegamente, que não mais existe sem elas - era verdade. O
garoto cursava Direito, seu sonho era se tornar xerife, era um exemplo de cidadão e jamais
havia quebrado uma regra sequer – ao que se sabia, é claro. Adentrar aquela cidade detestável
fora a coisa mais ousada que acreditara ter feito. Se refletisse acerca disso, nem mesmo sabia o
real porquê de tê-lo feito. Talvez fosse seu destino, talvez apenas a primeira decisão estúpida de
sua vida adulta. Só dependeria dele.

- Serão cinco as partidas que jogaremos; às que vencestes, lhe contarei coisas que
jamais saberias. Todavia, não poderás perguntar-me as respostas das cartas subsequentes. Ao
fim, restará apenas um de nós nessa mesa. Se venceres, sairás com mais conhecimento que
qualquer indivíduo já ousou possuir. Ah, e, obviamente, carregarás consigo sua garrafa de rum.
Se perderes, porém, estarás fadado a passar o resto de seus dias conosco - subitamente, vozes
tomaram conta do ambiente e o rapaz pôde ver uma amostra do que o botequim costumava ser.

Dançarinas vestidas com collants emplumados sapateavam sobre um palco


improvisado, enquanto uma pequena plateia – exclusivamente masculina – as assistia. Através
de uma das janelas, era possível notar o crepitar de uma fogueira. Com um estalo de dedos do
velho, estavam do lado de fora. Crianças repousavam ao redor da fonte de calor, seus pais e
mães estrategicamente posicionados atrás delas. Ao centro, estava o senhor – quiçá alguns
poucos anos mais novo –, cantarolando a mesma melodia de instantes atrás, contudo, ela não
mais soava macabra. A cena era cativante.

- E quanto às rodadas que eu perder? Nada falaste sobre elas. - Sentia-se enganado o
jovem.

- Às que tu perderes, filho, verás a si mesmo como quem realmente és. - O garoto
sorriu, se orgulhava de quem era. Fora criado sob a crença cristã, realizara todos os ritos de
passagem que a religião pudesse oferecer, acreditava fielmente em Deus, em Seu filho e na
comunhão sagrada de Seus santos. Estudara em escola católica, formara-se com honras. O
homem respeitado que era se desfez num perigoso sorriso desafiador. Poderia perder duas, não
mais que isso. - Acreditas ser um visionário, não é mesmo? Pois bem, meu caro, chegue mais
perto - o nativo apontou para um dos meninos que assistia ao estalar das labaredas. De repente,
sangue passou a escorrer dos olhos do pequeno, que gritava e tossia, esfregando as pequenas
mãozinhas no rosto como se pudesse estancar o sangramento. Pouco depois, o mesmo ocorreu
com o resto da multidão. Não tardou para que todos sucumbissem, corpos ensanguentados
ladeavam o espaço. O cheiro de carne podre tomou conta. A praga os atingira novamente. E de
novo, e de novo, e de novo...

Com um segundo estalar de dedos, a assombrosa cena se desfez e o ancião prosseguiu:


- O jogo baseia-se nos arcanos maiores, que são vinte e dois, e vão, em sequência, do um aos
vinte e um, com um adicional de uma carta zero - separou o monte em dois: um menor e um
maior; e virou para cima a referida carta, O Louco. - Para ganhares, terás de escolher cinco
dentre as vinte e uma que restaram. Isso feito, deverás adivinhar se estão enumeradas acima ou
abaixo do número quinze, o arcano do Diabo. Se acertares o palpite, vencerás a rodada,
entretanto, se estiver errado, a vigésima segunda, o mais verdadeiro dos espelhos, lhe revelará
quem tu verdadeiramente és.- Aquilo era loucura. Arcano de número vinte e dois; O Louco.

- E se eu recusar? - Engolindo em seco, o rapaz se sentia perturbado pela visão que


tivera. Gosto de sangue podia ser sentido no fundo de sua garganta. A porta atrás dele
subitamente se abriu, arejando o ambiente.

- Renunciarás a se tornar o mais sábio dos homens e viverás na mediocridade. - Em


menos de um minuto, o rapaz pôde assistir a tudo que o futuro lhe guardava. - Aos vinte e um,
casar-se-á com a filha do reverendo e a detestará até o último dia de sua breve vida. Serão três
os filhos criarão juntos, nenhum será seu de fato. Aos vinte e três, tornar-se-á, enfim, xerife de
seu condado, contudo, cinco anos depois, perderás o movimento da perna esquerda num
acidente. Aos trinta, terás o distintivo cassado e aos trinta e três render-se-á ao alcoolismo. – O
velho gesticulou como se levantasse uma taça. Saúde.

- Estrangularás sua esposa em uma fria noite de dezembro, da mesma forma que fizera
com a meretriz que te tiraste a inocência, quando a encontrar na sua cama com outro homem.
Então, antes mesmo que possa completar quarenta, serás detestado por seus herdeiros e não
terás uma mísera moeda sequer em seus bolsos. Finalmente, não mais suportarás o peso da vida
e a arrancará para fora de si, alojando uma bala do mesmo revólver que lhe roubaste a
mobilidade, o qual tu vergonhosamente escondias debaixo de seu leito, entre seus miolos - cada
cenário que o velho descrevia estava refletido dentro da carta zero, que o senhor segurava acima
dos ombros.

O garoto pôde ouvir os sinos da igreja tocando no dia de seu casório, o choro de recém-
nascidos de cada um de seus três descendentes e ouviu também o som do gatilho disparando
enquanto uma munição o auto infligia acidentalmente em sua parte inferior. A dor veio logo
depois. Subitamente era incapaz de mover uma das pernas. O ambiente rodopiou ao seu redor e
ele sentiu vontade de vomitar. Sua boca estava seca e sua cabeça latejava. Sentiu os punhos
cerrarem quando assistiu aos olhos verdes de sua consorte se tornarem vítreos como os da
mulher que o desvirginara – tivera sua primeira vez com uma prostituta e a matara por
constrangimento.

- Tudo bem, eu aceito. - Interrompeu a sucessão de acontecimentos quando sentiu o


cheiro da pólvora. Não permitiria que a agonia do suicídio atingisse seu crânio, não sabia se
seria capaz de suportar o que experimentaria quando aquela ilusão apertasse o gatilho contra sua
cabeça. Era tudo uma questão de probabilidade: eram vinte e uma cartas, catorze antes de
quinze e seis depois. Apostaria primeiro em números menores, pois estavam em maior
quantidade e, caso estivesse errado, apostaria neles novamente.
- Pois bem, comecemos então. Não há mais volta para a sua alma! - O nativo, às
gargalhadas, abriu o baralho na mesa mais uma vez e solicitou que seu companheiro
selecionasse cinco cartas. Com elas escolhidas, o mais velho guardou os exemplares restantes
em um dos bolsos dianteiros de sua calça. Tocou o primeiro cartão selecionado pelo garoto e
arqueou uma das sobrancelhas. “Qual é o seu palpite?”

- Abaixo de quinze - o ancião gargalhou após virar o arcano para cima. Número 20, O
Julgamento. O forasteiro sentiu um arrepio na espinha ao encará-la. Ele tinha errado. O pânico o
atingiu como uma rajada de vento. Sem fôlego e com uma ânsia gigantesca, os nós de seus
dedos estavam esbranquiçados pela força como ele cerrava as mãos. Ele não precisou olhar para
O Louco para que uma recordação invadisse a sua memória: (Revisado até aqui, 30/12/2022).

Era uma doce tarde de primavera, os jardins da mansão estavam radiantes. Um


menino branco de seis anos brincava entre as cercas vivas. Atrás dele, meio escondido ao
fundo do cenário, um menino preto de dez observava o outro a se divertir. “Cuide dele, Pedro,
como cuida de seus irmãos. Mamãe precisa trabalhar, essa noite eles farão um jantar para
celebrar a candidatura do Seu Antônio para prefeito, tenho muito a fazer, não poderei ficar de
olho no filho da sinhá esta tarde” fora o que sua lhe mãe dissera antes de voltar à cozinha.
Pedro aceitara o pedido da mulher sem pestanejar, era notável o cansaço no rosto dela.

O mais novo corria e gargalhava enquanto saltitava por entre as flores. Até se deparar
com uma árvore. Era a maior árvore que vira em toda a sua vida. Deveria ter por volta de
vinte metros, enquanto ele tinha apenas um. Era um desafio e tanto, ele tinha que conquistá-la.
Ligeiro em pensamento, afirmou que tinha sede e ordenou que o seu colega e serviçal lhe
trouxesse um copo d’água. Dito e feito, inocentemente, o crioulo obedeceu.

Menos de cinco minutos foram precisos para que a tragédia se estabelecesse: o miúdo
se pôs a escalar o extenso tronco de madeira. Quando seu tão jovem responsável retornou,
acompanhado de uma jarra cheia do líquido gelado e transparente, o menor já estava a sete
metros do chão. O servente, assustado, deu um pulo. Implorou para que o senhorzinho
descesse, ele se recusou. Ofertou-lhe todos os tipos de brinquedos, de nada adiantou – ele já
tinha todos. Em desespero e sem opções, alertou que iria chamar o pai dele, o outro deu de
ombros. Chamar-lhe o pai o pretinho foi.

Contudo, quando Seu Antônio – como era chamado – e o púbere, mas já tão
considerado adulto pela chefia, Pedro chegaram ao local, foi questão de segundos até que o
alpinista em ascensão despencasse de cima de um dos galhos. O resultado: um braço e uma
perna quebrados e uma cicatriz na bochecha, para que jamais se esquecesse do acontecido.
Pedro também não se esqueceu, foi responsabilizado pelo ocorrido e açoitado em frente à sua
mãe e irmãos.

O moribundo estava de joelhos, esperando que lhe chicoteassem mais uma vez, quando
um grito quase que animalesco irrompeu no ambiente. Assustado, o agora rapaz – que,
assistindo àquela tão assombrosa cena, reassumira o papel de criança – voltou sua atenção
para a origem do aterrorizante som que ouvira, apenas para se deparar com a figura do que
um dia deve ter sido uma mulher, agarrando-se ao corpo ensanguentado do filho. “É o
suficiente”, ouviu o patriarca de sua família cochichar para o capataz.

Os olhos da senhora estavam brancos como os de um cadáver, praticamente cegos, e


todo o seu corpo magro tremia. Era a mãe de Pedro. Tinha os ossos visíveis contra a pele
escura, mas ainda assim tentava arrastar o menino consigo, mesmo que isso lhe custasse
pedaços de sua própria carne.

Ocorre uma abrupta mudança de cena.

Na manhã seguinte, quando seu corpinho frágil não mais resistiu à gravidade dos
ferimentos, o menino padeceu. A dama estava prostrada ao seu lado, caída e aos prantos.
Sentia-se fraca, impotente, mas decidiu usar o último resquício de força presente na carcaça
que chamava de si para entrelaçar os dedos numa pose de reza.

- Deus, ajuda-me! Leva a mim, mas não ao meu filho! Meu primeiro filho! Agora está
morto. Que será de mim? O que posso fazer? Ajuda-me Deus, por favor...- Gritava em pânico
aos céus, sua voz esganiçada enfraquecia conforme a dor escapava de seu peito. Ele não iria
voltar, e ela sabia, porém seu coração materno não desistiria tão facilmente, apegava-se
veemente a uma última gota de esperança que se esvaia pouco a pouco de seu coração,
conforme a pele do garotinho esfriava e seus lábios recebiam a tonalidade azulada daqueles
que haviam desaparecido. Deus jamais respondeu àquelas súplicas. Ele não estava lá.

Findado o momento, por alguns minutos, o visitante esquecera-se da presença de seu


parceiro de jogo, até que sua voz ríspida o despertou do transe no qual entrara:

- Uma única frase sua poderia ter evitado o destino daquele menino. Ainda que
soubesses, nada disseste. Sentiste raiva por estar machucado, e, acreditando que havia um
culpado que não fosses a ti, querias que ele sentisse a mesma dor que tu sentias, e agora ele está
morto - O velho acendeu outro cigarro, tragou com força e soltou a fumaça no rosto de seu
companheiro, que se esforçou para não tossir.

- Eu era apenas um menino, como iria saber? - No fundo, ele sabia. E o senhor tinha
conhecimento disso. - Era um criado, o que queria que eu fizesse? Não poderia retirar uma
ordem dada por meu pai!

- Sabes o significado da carta do julgamento, filho? A ressurreição por meio da verdade.


Rejeitas a realidade do ocorrido, ainda que saibas que teu egoísmo roubara o futuro de outro
alguém. Contudo, se é a negativa que lhe conforta, fique à vontade para continuar mentindo a si
mesmo. O sangue dele está em suas mãos, e sua alma está nas minhas. Qual a próxima carta?

- Abaixo de quinze - disse sem hesitar. Ele nem mesmo se arrependia do que fizera. De
qualquer forma, o ocorrido era parte do passado, era imutável. Se hoje se tornara o grande
homem que era, a experiência com o jovem Pedro certamente tinha um papel importante nisso.
Acreditara que o incidente – como o chamara – tivera um importante papel para seu
amadurecimento. Ele nunca mais ousou escalar uma árvore. O outro nunca mais abriu os olhos.

O ancião voltou a tornar um arcano para cima. Número doze, A Roda da Fortuna.

- Parece que dessa vez acertastes - alívio preencheu o peito do forasteiro, que soltou a
respiração há pouco prendida - Que queres saber?

- O que acontecerá quando eu sair daqui? O que posso fazer para evitar o que me guarda
o destino? - ele se referia ao futuro que o velho lhe indicara.

- Já fizeste. Cada uma das decisões que tomastes durante a vida alterou o curso de seu
destino, até que aqui viestes a parar. Ao aceitares minha proposta, todo o futuro que o aguardava
transformou-se em um novo. Garanto-lhe que não mais perecerá durante a terceira dezena de
seus anos - aquilo estava longe da resposta que queria, porém amenizava a ansiedade que
devorava o rapaz. - Coincidentemente, meu caro, A Roda da Fortuna trata-se justamente do
domínio que acreditas ter acerca do vosso destino. Não podes controlá-lo e não deves sofrer por
isso. Um homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio. Entraste aqui um e sairás daqui
outro. Abandonaste um universo e quando a ele retornares, não será o mesmo. Não é essa a
graça da vida? É indomável - ele suspirou, contendo-se por um instante. Seu olhar tornou-se
distante e vazio, como o de alguém que sente falta de casa. Ao perceber a vulnerabilidade que
demonstrava, pigarreou. - Qual o próximo palpite?

Duas cartas já haviam sido viradas. Duas de cinco. O garoto errara uma e acertara a
outra. Seu porvir poderia ser decidido a duas cartas dali. Uma fria corrente de ar entrou pela
janela, atravessando o ambiente de maneira cortante. O cavalo do visitante se agitou,
relinchando alto e batendo com força os cascos no chão, numa tentativa de escapar. O mais
novo ameaçou se levantar, agarrando o chicote que carregava consigo, entretanto, com um
único assovio do senhor, o arredio animal relaxou. Num misto de surpresa e confusão, o jovem
apenas piscou. O som ecoou por mais alguns instantes antes de cessar completamente. Com o
rosto opaco, tomado pelas sombras de uma penumbra, o idoso murmurou com rispidez:

- Qual será o próximo palpite? - Tentando não se demonstrar espantado, o garoto


ajeitou-se no banquinho. Seu coração estava acelerado, mesmo que tentasse não demonstrar
isso. Ele sabia que as chances de ser um arcano inferior a quinze eram mais altas, mas algo não
parecia certo sobre isso.

- Maior. O número será maior. - Cuspiu as palavras e apertou os olhos, esperando pelo
pior. Número dezesseis, A Torre. Êxtase foi o que o jovem sentiu. Estava a uma rodada de sua
liberdade, duas cartas ainda por virar.

- Excelente, acertaste mais uma vez. Faças a tua pergunta. - O ancião sorriu, revelando
um par de dentes de ouro.

(Revisado até aqui, 31/12/2022).

- É verdade o que dizem? Sempre fui fiel a Deus, mas aqui estou eu agora, jogando
carteado com um pagão. Quero saber a verdade sobre a religião. - Ele estava com medo,
dedicara boa parte de sua vida à Igreja. Temia descobrir que fora tudo em vão.

- É um pedido ousado, entretanto, o responderei, como prometido. - Tossiu uma, duas


vezes. – Sabe, filho... a natureza fala. Cabe a nós aprender a escutá-la. Podes negar a Deus,
podes negar ao Diabo, mas jamais poderás negar à morte. Ela faz parte de cada um de nós, e,
um dia, faremos todos parte dela, é a maior e mais fria verdade da vida. - Seus olhos dourados
se iluminavam à medida que as palavras deslizavam sua boca afora, estalando em sua língua - O
calafrio que sentiste quando os ventos mudaram? Ela está tentando se comunicar. Fez-se
presente mais perto do que podemos imaginar, talvez esteja sentada ao nosso lado nesse exato
momento, como uma velha parceira de jogatina, esperando pela próxima rodada, beirando a
embriaguez, mas ainda tão sóbria quanto nosso próprio fim.

O silêncio reinou. O mais novo pensou em uma dúzia de palavras que poderia dizer, e
não conseguiu pronunciar uma sílaba sequer.
- É a sina que cada ser humano foi feito para carregar. É nosso passado e nosso futuro.
Que seria da vida sem a morte? Ela simplesmente não existiria. - A rispidez do homem era
notável, podia-se descrevê-lo ardiloso como o couro de cobra que trazia em suas botas. - Enfim,
A Torre representa a reconstrução de ideais, fundamentada na introspecção. Deves refletir
sempre antes de tomar algo como verdade. É familiarizado com Platão?

- O herege? - Ouvira falar dele algumas vezes durante as missas. Fora parte de um povo
que se dedicara a o que se chamava ciência, contudo, era uma farsa. Os estudos que fizeram
sobre os céus, o culto indevido à nudez e ao corpo e coito entre dois guerreiros – que, a eles, era
comum; tudo manipulação do inimigo para que queimassem no fogo do inferno.

- Chame-o como preferir. Aqui, nós o intitulávamos filósofo, um homem que devotara a
vida ao conhecimento. Se uma realidade além da ignorância é, para ti, heresia, quem sou eu para
tentar te abrir os olhos? Dentre os diversos ideais desse sábio homem, há a sua alegoria da
caverna, uma história na qual um grupo de indivíduos, após uma existência em meio às trevas,
apenas assistindo às sombras do mundo real, se recusa a crer que há mais que aquilo. Quando
um de seus integrantes se liberta e experimenta a verdadeira luz do dia, volta para compartilhar
o conhecimento com os demais, a fim de que eles possam, também, se libertar. Entretanto,
afetados pela negação, eles acabam por assassinar o companheiro, pois, agora, ele é uma
ameaça para sua ignorância. Soa-lhe familiar? - O velho sorriu ao perceber que o forasteiro
entendia aonde ele queria chegar - Mais uma vez, do que chamastes Platão?

- Herege.

- E por quê?

- Porque foi o que me ensinaram. - Admitiu, derrotado. O nativo tinha razão, ele sempre
fora educado a odiar, assistiu a mulheres queimarem e a homens terem os membros esticados e
retorcidos até a morte. Nunca o explicaram a razão de aquilo acontecer. As justificativas
baseadas em feitiçaria eram comuns, porém nunca realmente comprovadas. Era um padrão: a
Igreja mandava, o povo obedecia. Quantas pessoas completamente inocentes ele já não havia
apedrejado? Abra os olhos.

- Nenhuma delas era culpada, filho. As verdadeiras bruxas jamais foram capturadas. - A
frase foi como uma facada no peito do mais jovem. Sarah.

Notando a afetação de seu parceiro, o idoso apenas continuou:

- Qual será seu próximo palpite, meu caro? - bocejou, fechando um dos olhos, parecia
entediado.

Com os olhos cheios de lágrimas, o rapaz sentia vontade de desistir. De que adiantava
sair dali, se voltaria desfeito? Tudo em que acreditara a vida inteira era falso. Seu Deus, sua
religião, sua história, tudo mentira. A única mulher que amara... Mais uma vez, sentiu-se
nauseado. Apático, respirou fundo. Que acabassem logo com aquilo.

- Maior, será maior que quinze. - Disse o jovem em um único suspiro, renunciando a
qualquer lógica que lhe fizesse juízo. Quando a carta foi revelada, ele arregalou os olhos. Estava
errado. Arcano de número seis, Os Enamorados.
A recordação o atingiu tão rápido quanto um raio. Ele nem mesmo pôde ouvir o trovão
que o sucedeu.

Como aquela, era uma típica manhã de domingo e os sinos da igreja ecoavam por toda
a cidade, convidando os fiéis para mais uma missa. O rapaz já estava pronto e esperava por
uma donzela na esquina da rua de sua casa. Logo a garota chegou.

Sarah trajava um vestido branco que ia até seus pés. Carregava um delicado laço azul
na cintura e tinha seus ondulados cabelos loiros presos em uma trança que descia por suas
costas. Trazia consigo um guarda-chuva azul da cor de seus olhos e cheio de babados. Seu
sorriso iluminava o ambiente como o sol iluminava os dias de verão.

- Atrasada mais uma vez, senhorita? - ele a cumprimentou e encaixou seu braço no
dela.

- Como pode afirmar que estou atrasada, se ainda chegaremos a tempo, senhor? - ela
respondeu com desdém, mostrando-lhe a língua.

- Chegaremos a tempo, Sarah, pois sempre a faço apertar o passo - ele sorriu. Um
sorriso doce que poucos já haviam visto. Ela era a única que o conhecia verdadeiramente,
afinal, eram próximos desde que ele se dava por si. Ela era filha de uma amiga de longa data
de sua mãe, cresceram juntos e, praticamente, na mesma casa. Seria como uma irmã para ele,
caso não estivesse sendo cogitada a ser sua futura esposa. Não seria um problema para ele, é
claro, caso se casassem. Ainda que negasse, era claro que o rapaz nutria sentimentos pela
moça.

- Pois então, querido, te desafio a vencer-me em uma corrida- a garota o provocava


com o olhar, um leve sorriso arteiro pairava em seus lábios.

- Ainda achas que és capaz de me vencer, criatura travessa? - Ela gargalhou - Tentas
desde os sete e até hoje não ganhaste uma corrida sequer para se gabar - A postura do garoto
se tornou pomposa, como a de um garanhão.

- Já que a vitória é garantida, qual a dificuldade em aceitar, cavalheiro? - a dama


arqueou uma das sobrancelhas.

- Aceito, mocinha. - Desvencilhou-se da moça e se pôs a correr. Correu com todo o


fôlego que seus pulmões lhe permitiam, até que perdesse a amiga de vista. Quando finalmente
estava próximo à capela local, um assovio na estrada chamou sua atenção.

Sarah estava agarrada às costas de um homem de meia idade enquanto ele cavalgava
um corcel branco. A garota apenas lançou um beijo para o amigo, que encarava boquiaberto à
cena. Não demorou para que o ultrapassassem. Quando ele finalmente chegou à igreja, a
senhorita o esperava sorridente nos degraus da escada.

- Ainda acha que és capaz de me vencer, criatura travessa? - O imitou em tom de


deboche. O garoto respondeu dando um soco de leve no braço dela. - Acho que devemos entrar
agora, antes que frei Paulo decida que se atrasar para a missa também conta como heresia.
Além disso, sinto-me com vontade de confessar essa manhã - falou baixinho.

Toda a sua vida ele dedicara aos mandamentos de Deus, mas Sarah o fazia querer
pecar. Era diferente de todas que ele conhecia, era altiva, era vivaz, era única. Ela era.
A autenticidade daquela jovem era tudo que se proibia à mulher da época. Falava
demais – um traço indesejado, que homem toleraria ser respondido por sua esposa? –, tinha
opiniões fortes e, de longe, não era uma boa cozinheira – como ela alimentaria os filhos dessa
maneira? Era comumente alvo de cochichos pela região, e simplesmente não se importava.
Sarah era bravia como uma tempestade. Ele estava apaixonado por ela.

Assistiram à missa em silêncio, ela olhando atentamente para o padre, que lia as
escrituras da Bíblia em latim, ele fitando-a carinhosamente. Cada fôlego perto da garota
parecia não ser o suficiente. Vê-la cavalgar agarrada às costas de outro fora uma imagem que
o abalara, contudo, não poderia repreendê-la ou puni-la por isso enquanto sua mão não lhe
fosse prometida. Era receoso, admitia, de se unir a uma moça com tamanho espírito de
liberdade: na pior das hipóteses, acabaria enforcado ao lado do corpo em chamas da dama.

Terminada a eucaristia, ele se ofereceu para acompanhá-la até a residência de seus


pais. Não era muita a caminhada, mas o rapaz a faria o mais vagarosamente possível, na
intenção de aproveitar o máximo que pudesse o tempo que passariam juntos. Quando
finalmente chegaram a um cruzamento na estrada onde tinham o costume de se encontrar, ela
suspira e para de caminhar.

- Preciso compartilhar algo contigo...- o rapaz a encarou curioso, incerto acerca de


qual seria a tal revelação que não poderia esperar até que chegassem à residência da moça.
Arqueou a sobrancelha para ela, dando-lhe espaço para que começasse a falar. - Há algumas
semanas, o filho do senhor Cornélio tem me feito companhia durante os chás da tarde
promovidos por minha mãe. De início, tive receio acerca de suas intenções, haja vista que o pai
é um homem excêntrico e pouco conhecido pelo povo de nossa vila... - era verdade, quase nada
se sabia sobre Cornélio, apenas que fora um militar e debilitara uma das pernas durante a
grande guerra do Oriente; que não tinha esposa e tampouco outros filhos; e que era rico, muito
rico.

- Enfim, ontem à noite, ele pediu a minha mão em casamento. Deu-me toda a
madrugada para refletir. Pedi para que ele me encontrasse depois de minha ida à igreja, pois
queria que fosses o primeiro a saber. Nesse exato momento, ele me espera em meu lar, prometi
que retornaria com uma resposta... - o jovem fechou os olhos, o estômago embrulhado como
ele nunca sentira antes. - Aceitá-lo-ei como meu marido. - Se ela o golpeasse com o joelho nos
testículos, se lhe arrancasse com as unhas a pele do rosto, se lhe tirasse o coração de dentro do
peito e pisoteasse-o com calçados próprios para o sapateado, não doeria tanto quanto doera
ouvir a frase que ela acabara de dizer.

Enjoado e com a garganta se fechando pouco a pouco ao passo ele tentava não
desabar na frente dela, um monossílabo foi tudo que o ar conseguiu empurrar para fora de sua
boca:

- Sim - por algum tempo ela esperou que ele completasse sua fala. Não aconteceu.

- A partir daqui, posso fazer meu caminho sozinha - disse a moça, percebendo o
descontentamento do rapaz acerca de sua novidade. Ele apenas assentiu e soltou o braço do
dela. – Obrigada pela agradável companhia – A garota continuou andando sem olhar para
trás. Ah, como ele gostaria que ela tivesse olhado.
Quando ela já estava longe o suficiente para que não mais lhe fizesse vista, ele desfere
um furioso soco na placa de entrada de uma propriedade nos arredores, caindo ao chão com
os olhos marejados. Ele a amava, ela não sabia. E agora teria de vê-la se casar com outro
homem. O que sentia ultrapassava a angústia e a frustração, era dor verdadeira, por pouco
não física – com exceção aos nós lacerados de seus dedos, consequência do recente ataque de
fúria. Ainda que tivesse apenas dezessete, caminhou decidido ao boteco mais próximo e
embebedou-se do mais caro rum que as moedas em seu bolso poderiam bancar.

Guardara sua virgindade para a noite de núpcias que planejava ter com Sarah, mas
aquilo não importava mais. Totalmente embriagado, arrasou-se até o bordel mais chique da
cidade e reservou uma prostituta chamada Jade para passar o que restava do dia ao seu lado.
Era claro pelo seu sotaque e por sua pele retinta que a meretriz era forasteira, provavelmente
mais uma das inúmeras mulheres sem pátria que foram traficadas até a vila com o único
propósito de enriquecer os bolsos de cafetões locais.

Com o restante de seu dinheiro, levou Jade até uma hospedaria mediana pouco antes
da entrada da cidade, despiu-a com o olhar antes que ela tirasse qualquer peça da pouca
roupa que vestia e não a beijou durante todo o tempo que passaram juntos – uma regra
imposta pela moça. Quando a possuiu, o fez rapidamente, num misto de ebriedade, desolação e
desejo. O cheiro de ambos se fundiu em uma agridoce essência de álcool e baunilha, suor
gotejava enquanto aqueles corpos se tornavam um só. Quando o orgasmo atingiu o garoto, seu
corpo despencou exausto na cama. Quanto à cortesã que o acompanhava: ela nem ao menos
chegou perto.

Ela, então, se deitou ao lado do recém-desvirginado rapaz e acendeu um cigarro. Não


havia nada que ele odiasse mais que uma mulher fumante. Para o garoto, era inadmissível que
o sexo mais frágil se apropriasse de tal ato, que deveria ser unicamente masculino. Eram
reservados às fêmeas os deveres de cuidar do ambiente doméstico, gestar e educar as crianças
para que não incomodassem o marido quando ele enfim retornasse; seus direitos e prazeres
deviam ser definidos a partir da felicidade provida ao seu consorte, que a retribuiria com o
tratamento que julgasse apropriado. Homens enrolavam o fumo enquanto liam os jornais de
manhã, mulheres cozinhavam para eles; homens enchiam seus pulmões com a amarga fumaça
do tabaco de seus cigarros propriamente enrolados enquanto suas esposas corriam atrás de
seus filhos para colocá-los para dormir; homens relaxavam acendendo e fumando um após o
clímax, mulheres viravam para seu lado da cama e fingiam dormir, respeitando o momento de
seus esposos. Mulheres não deveriam fumar, putas muito menos.

De súbito, a visão do menino escureceu, suas mãos tremiam e seu sangue fervia em
suas veias. Quando finalmente voltou a si, percebeu-se com os punhos cerrados envolta do
pescoço magro de Jade, que lutava para conseguir respirar. O ato começara de forma
inconsciente, por um instante ele estivera fora de si, agora não mais. Algo o satisfazia enquanto
assistia à vida sendo arrancada para fora dos olhos negros da prostituta. As últimas palavras
dela foram uma súplica ignorada.

“Por favor...”

Ele a havia matado.

Por alguns instantes o rapaz conseguiu arrancar-se para fora da memória que lhe
envolvia a mente, lágrimas escorriam de seus olhos e manchavam sua camisa, ele sabia o que
viria a seguir. O velho apenas gargalhou com o desespero do menor e, após um longo sibilo,
enviou-o de volta para dentro de seu pior pesadelo.

Afogado na ebriedade, o jovem perdeu a noção do tempo enquanto esperava que, por
um milagre, a meretriz na cama do motel voltasse à vida. Não aconteceu. Já passava das cinco
quando ele finalmente teve coragem de tocá-la para sentir seu coração. Seu peito não fazia som
algum. Foi somente entre as dez e as onze da noite que ele finalmente teve coragem de se
levantar e caminhar para fora do quarto.

Consciente de que pedir ajuda nada mais faria do que lhe arrumar problemas com a
justiça, saiu silenciosamente pelos fundos da hospedaria e seguiu seu caminho, desnorteado
noite adentro. Primeiro pensou em ir para casa, mas não conseguiria encarar sua mãe nos
olhos depois do pecado que havia cometido. Depois, arrastou-se até a catedral da cidade,
contudo, esqueceu-se de ter em conta que, àquela hora da noite, os clérigos há muito já
estavam adormecidos. Já beirava a meia-noite quando percebeu que a residência de Sarah era
o único lugar possível que poderia lhe dar abrigo.

Pouco lhe importava o que os vizinhos diriam de uma moça solteira receber em sua
casa um homem durante a madrugada. Ele precisava vê-la, tocá-la, senti-la. Desejava até
mesmo saboreá-la na ponta de sua língua, ainda que não o pudesse. Cambaleou até a casa da
dama e, enquanto tropeçava pelos degraus que levavam até a varanda, percebeu uma
movimentação estranha através de uma das janelas. Era tarde demais para que a família
recebesse visitas, entretanto, uma curiosa figura pairava de pé na sala de estar, uma vela
desenhando sua sombra cortina afora.

- Mas, doutor Cornélio, o senhor tem certeza? – a voz cansada da mãe de Sarah mal
passara de um sussurro, porém, àquela hora, estava audível o suficiente.

- Infelizmente sim, dona Luzia, eu somente poderei medicar seu marido quando
retornar de minha próxima viagem, dentro de quarenta dias. Não se preocupe, ele ficará bem,
o tratamento que realizamos com ervas manterá sua boa saúde durante esse período.

Doutor Cornélio. Medicar. Ervas.

Heresia.

- Não! Por favor! – Era a vez do rapaz suplicar, debatendo-se contra o devaneio que
invadia sua mente sem propriamente precisar de uma autorização.

A memória lhe queimou os olhos e ferveu a mente.

Sarah e sua família foram inquiridos na manhã seguinte, e passaram trinta e três dois
dias se negando a contar a verdade ao reverendo sobre aquela noite partida.

No trigésimo terceiro dia, foram enforcados em praça pública. Ele a havia perdido.

O velho gargalhava e titubeava em sua cadeira de madeira enquanto o rapaz engolia em


seco vezes o suficiente para tornar a barriga algum espécime de balão.

- O que é isso? – O ancião balbuciou entre uma tosse e outra – Lágrimas não a trarão de
volta, filho. Mas o que estou dizendo? É óbvio que tu já tens conhecimento acerca disso, afinal,
não foras tu que a denunciaste à justiça clerical? – O senhor sorriu com uma sobrancelha
arqueada enquanto acendia mais um cigarro. – Podemos seguir?

Pela primeira vez em sua vida, o mais novo pôde sentir o mundo girar à sua volta, mas
ele não estava girando, estava despencando.

- Pare, por favor! Faça parar! Agora! – sua língua amortecida parecia grande demais
para caber em sua boca, os olhos percorriam o local em busca de algo no qual pudessem se
apoiar. Por um breve instante, acreditou que morreria. Não morreu. Ainda não.

- Filho, tu realmente acreditas que aquela mulher era para ti? Tu não foste para ela. Veja
por si próprio, se as pobres palavras de um velho não bastam. – E estralou os dedos novamente.

Sarah estava despida, era quase meia-noite. Ao seu lado, em uma cama perfumada,
estava ele, o noivo. O destino dela se selou juntamente ao beijo que trocara com o homem que,
com ela, partilhava a cama naquele mesmo momento.

Quando os relógios da cidade finalmente soaram o início de um novo dia, o rapaz


sabia exatamente onde estava. Reconheceu o batente arranhado pelas pedras que jogaram na
juventude para irritar a mãe da moça. À sua frente, a porta. Estava em frente à casa dela.
Bater seria inútil, ele sabia, ela não estava.

Foi a primeira vez que ele chorou por amor. Não foi a última.

Ao que se sabia, na tarde da execução de sua amada, ele não estava lá para assistir.
Tampouco o noivo e Cornélio. Deles nunca mais se falou. Todavia, lembrou-se da família de
Sarah por gerações. Que assusta mais um povo que ver os ossos dos seus ardentes em uma pilha
de brasa? Era uma mensagem.

A quantidade de tempo passada entre uma carta e outra poderia ter durado dias, mas
foram apenas minutos. Por outro lado, milênios de segundos se passaram até que o jovem
conseguisse se acalmar. O coração lhe palpitava o peito, ele mordia com força os lábios
esbranquiçados para evitar que tremessem como bambus influenciados pela força do vento.

- Acabe logo com isso! – Gritou o velho, batendo com as palmas das mãos sobre a
mesa, derrubando a porção de cartas que eles já haviam retirado do carteado. – Vamos! – Urrou.

O rapaz não mais era capaz de controlar seus movimentos, sentia-se amarrado à cadeira,
compelido a jogar um jogo que perdera no exato instante que concordara em jogar. Não se pode
vencer do Diabo em seu próprio jogo de cartas. Agora ele entendia.

- Abaixo de quinze – ele sussurrou com incerteza, incrédulo de que conseguira


pronunciar mais que um suspiro de torpor – acima... eu não sei! – agora gritava, incerto de
qualquer coisa que não sua insignificância perante todo o mal que havia cometido.

O rosto do homem à sua frente parecia rasgado e distorcido enquanto os dentes lhe
apareciam à face, no mais malicioso dos sorrisos perversos. Virou a carta sem pestanejar.
Número quinze, O Diabo. Ardiloso, aquilo só poderia ser um truque.

Mas não era, eram apenas as regras do jogo, afinal, não haviam combinado qualquer
artifício acerca da carta média das partidas que apostaram. Então, o rapaz finalmente se deu
conta do que havia perdido.
Um breve grito ecoou no horizonte enquanto a alma do menino era devorada. Por fim,
todo o barulho cessou, mais uma vez, sendo substituído pelo frio silencioso da morte. Apesar
disso, ainda era domingo de manhã e estava quente.
“Quem sou eu para impedir aquilo que não entendo?” Por instantes achou que aquela
resposta seria o suficiente, mas um par de olhos azuis-oceano o inquiria a dizer mais “Recebi
mais visitas da morte do que qualquer um gostaria, poderia até mesmo chamá-la de amiga
íntima, mas jamais cometeria o erro de dizer que posso compreendê-la. Nenhuma criatura o faz,
até que se torne parte dela, e é isso que nos torna mortais.” Bateu com as cartas na mesa,
produzindo um áspero som oco “Primeiro levou um

por um os meus três filhos. A epidemia começou com uma pequena mancha na pele que
o médico constatou ser apenas uma alergia. Receitou-nos uma pomada mais cara que nosso
dinheiro poderia comprar. Decidimos então, eu e minha esposa, vender a nossa vaca, o que foi o
início das várias dificuldades financeiras que enfrentaríamos a seguir. Pomada comprada, de
nada adiantou, e em menos de dois dias éramos forçados a assisti-los convulsionar até que seus
corpinhos não tivessem mais força o suficiente para tal. Chamamos um padre, o único que havia
na cidade, e sabe o que ele nos disse?” O senhor se pôs a gargalhar, um riso seco e vazio, como
se ouvisse uma piada pela centésima vez e de alguma forma ainda a achasse engraçada “Nos
acusou de bruxaria, disse que as crianças estavam possuídas por demônios e nos recomendou
rezar e pedir perdão, disse que a peste que afligira minha família era apenas o preço que estaria
sendo cobrado pela vida pecaminosa que vivíamos, era a vontade de Deus”. De maneira irônica,
desenhou desdenhosamente no ar o sinal de uma cruz pelo rosto, ombros e peito.

Para só então, depois de todo o sofrimento que esse mundo poderia os proporcionar, ela
os carregar para longe de tudo aquilo que respira.” Aqueles implacáveis olhos dourados agora
estavam marejados, o velho estava ruindo “Achei que nenhuma dor poderia superar aquilo que
eu havia sentido quando vi meus pequenos, sangue do meu sangue, se tornarem apenas
cadáveres em caixões, mas quando o Diabo soube de minhas dúvidas, enviou-me mais dor do
que achei que seria possível suportar. Assisti inerte à minha esposa tirar a própria vida, ouvi o
tiro de um revolver que era meu reduzir sua sanidade á miolos. O que há para viver depois de
tudo isso?

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