Capítulo 1 — A Princesa que Disse Não… NÃO?!
No coração do reino erguia-se um grande castelo de pedra clara, com torres altas e
bandeiras que dançavam ao vento.
Ali viviam o rei e a rainha, soberanos respeitados por todo o reino.
Durante muitos anos o povo aguardou uma notícia que enchesse aquelas muralhas
de alegria.
E um dia, finalmente aconteceu.
O rei e a rainha deram à luz uma menina muito…
Muito…
E bastante…
Bom… isso depende muito de quem está contando a história.
Aos olhos do rei, da rainha e de toda a família real, ela era uma princesa perfeita.
Diziam que era formosa como a primavera, graciosa como as primeiras luzes da
manhã, e delicada como uma rosa de jardim real.
Nas festas do castelo, nobres e conselheiros sussurravam elogios:
“Uma verdadeira joia da coroa.”
“Encantadora como uma estrela.”
“Digna de todos os reinos da terra.”
Para eles, a pequena princesa era maravilhosa, gentil e absolutamente impecável.
…Mas nem todos pensavam assim.
Havia também aqueles que observavam o castelo de longe, nas tavernas, nas ruas e
nas sombras do reino.
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Alguns os chamavam de Descontentes da Coroa — pessoas que não confiavam na
realeza e que sonhavam ver o poder do castelo cair.
E para esses…
a princesa não era exatamente perfeita.
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Alguns anos se passaram.
Isabella ainda era pequena quando o castelo estava especialmente cheio.
Era um daqueles dias em que nobres, comerciantes, conselheiros e visitantes
enchiam os grandes salões do primeiro andar. Havia vozes por todos os lados,
passos ecoando no chão de pedra e roupas elegantes passando de um lado para o
outro.
No meio daquela multidão estava a pequena princesa Isabella, caminhando ao lado
do rei Wendel I.
Ela tentava acompanhar os passos do pai.
Mas bastou um instante de distração.
Uma pessoa passou na frente.
Depois outra.
Depois mais duas.
Quando Isabella olhou novamente…
seu pai já não estava mais ali.
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Ela piscou.
Olhou para um lado.
Depois para o outro.
O castelo parecia gigante de repente.
Foi então que ela viu um menino parado perto de uma coluna.
Ele parecia ter mais ou menos a mesma idade que ela.
Os dois se olharam por um momento.
Então Isabella perguntou:
“Você também está perdido?”
O menino pensou um pouco.
“Um pouco.”
Aquilo pareceu suficiente para Isabella.
Logo os dois começaram a brincar entre as colunas do salão, correndo de um lado
para o outro como se o enorme castelo fosse apenas um grande lugar para jogos.
Por alguns minutos…
a princesa e o menino simplesmente brincaram como duas crianças comuns.
Até que Isabella viu algo familiar no meio da multidão.
A capa do rei.
“Papai!”
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Ela acenou animada.
Antes de correr, olhou para o menino.
“Eu tenho que ir.”
Ela deu um pequeno tchau com a mão.
O menino também acenou.
Então Isabella correu em direção ao pai, que já vinha procurando por ela entre as
pessoas.
E assim a princesa voltou para o rei.
E o menino ficou para trás no salão cheio.
Sem que nenhum dos dois soubesse…
que aquele encontro simples não seria a última vez que seus caminhos se
cruzariam.
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Algum tempo depois, quando Isabella tinha cerca de oito anos, ela caminhava
curiosa pelos arredores do castelo.
Foi então que viu algumas figuras estranhas perto de um dos Grandes Bancos
Reais.
Eram os Descontentes da Coroa.
Eles cochichavam, se escondiam nas sombras e tentavam abrir uma das portas do
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banco.
Isabella observou por alguns segundos.
Então inclinou a cabeça.
Para ela… aquilo parecia uma brincadeira.
“Vocês estão brincando de esconde-esconde?”
Os homens congelaram.
Um deles ficou pálido.
Outro tentou fazer sinal para ela ir embora.
Mas Isabella apenas sorriu.
“Eu também sei brincar!”
Então, animada, ela resolveu chamar a pessoa que sempre sabia das melhores
brincadeiras.
“Papai!”
A voz da princesa ecoou.
Pouco depois, o rei Wendel I apareceu acompanhado de guardas.
Seu olhar sério percorreu a cena.
Ele entendeu tudo em poucos segundos.
Então disse apenas:
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“Cavalheiros.”
Logo, os cavaleiros do grupo Cavalheirista avançaram.
Os Descontentes foram cercados, presos e levados para as masmorras do reino.
Isabella observava tudo sem entender muito bem o que tinha acontecido.
Para ela…
aquilo ainda parecia uma brincadeira de esconde-esconde que deu muito errado.
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Os anos continuaram passando.
A pequena Isabella já não corria mais pelos corredores como antes.
Agora ela tinha doze anos.
Numa tarde tranquila, o rei Wendel I e a rainha estavam com Isabella em uma das
grandes varandas do castelo.
Dali era possível ver quase todo o reino.
Os telhados da cidade.
As torres do castelo.
Os campos ao longe.
O rei apoiou as mãos no parapeito de pedra e disse calmamente:
“Um dia… tudo isso será seu.”
Isabella olhou para fora.
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Era muito reino.
Muito castelo.
Muita gente.
A rainha sorriu e disse com gentileza:
“E quando esse dia chegar, minha filha… você também precisará escolher um bom
príncipe.”
Isabella fez uma careta.
A rainha tentou explicar:
“Um príncipe educado… corajoso… de bom coração… alguém digno de uma
rainha.”
O rei assentiu.
“Alguém que governe ao seu lado.”
Isabella ficou em silêncio por alguns segundos.
Pensando seriamente.
Então fez outra careta.
“Mas… beijar na boca é nojento.”
Silêncio.
A rainha piscou.
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O rei virou lentamente a cabeça.
Isabella cruzou os braços com toda a convicção de uma garota de doze anos.
“E eu nunca vou ficar com um homem.”
Mais silêncio.
Ela olhou novamente para o reino.
“Prefiro ser rainha sozinha.”
O rei e a rainha trocaram um olhar.
Porque naquele momento…
nenhum dos dois fazia ideia de que, em algum lugar daquele mesmo reino…
existia um futuro cavaleiro…
que um dia iria irritar profundamente essa decisão.
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Capítulo 2 — O Passado No Presente
O menino voltou.
Mas agora já não era exatamente um menino.
Alguns anos tinham passado desde aquele dia no castelo. O suficiente para ele
crescer um pouco, ganhar mais força nos braços e aprender a trabalhar de verdade.
Perto dos grandes portões do castelo, onde mercadores, artesãos e viajantes
montavam pequenas barracas, ele também tinha o seu lugar.
A barraca não era grande.
Algumas ferramentas simples.
Peças de couro.
Pequenos objetos feitos à mão.
Trabalho honesto.
Ele usava um par de óculos redondos, apoiados no nariz, que às vezes
escorregavam quando ele se inclinava sobre a mesa para trabalhar.
De vez em quando alguém passava.
Olhava.
E seguia andando.
Ninguém parecia muito interessado.
E ele também não parecia muito preocupado com isso.
Ele estava concentrado tentando ajustar uma peça de couro quando o som de
passos diferentes começou a se espalhar pela entrada do castelo.
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Passos organizados.
Guardas.
Algumas pessoas começaram a se afastar do caminho.
— A princesa… — alguém murmurou.
Ele levantou os olhos por um instante.
Não por curiosidade.
Mais por reflexo.
E foi então que ele a viu.
A princesa Isabella.
Agora com quatorze anos, caminhando pelo caminho de pedra com o mesmo ar que
parecia dizer que o mundo inteiro estava levemente irritando ela.
Alguns guardas vinham atrás.
Algumas pessoas faziam pequenas reverências.
Ela parecia ignorar quase todas.
Ele observou por apenas um segundo.
Depois voltou os olhos para a mesa.
Não era da realeza.
Não era importante.
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E certamente não era alguém que uma princesa notaria.
Então continuou trabalhando.
Mas naquele exato momento…
Isabella passou ao lado da barraca.
Sem olhar diretamente para ele.
Sem parar.
Sem dizer nada.
Apenas passando.
E então aconteceu algo estranho.
Um pequeno brilho acendeu na mente de ambos.
Nada além de uma memória.
Ele sentiu o cheiro dela — gardênias e lírios.
Ela sentiu o cheiro dele — plantas e mar.
Nenhum deles entendeu nada.
Nenhum deles disse uma palavra.
E em menos de dois segundos…
os dois seguiram seus caminhos como se nada tivesse acontecido.
Porque, afinal…
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eles nem sequer se reconheceram.
Mas alguma coisa dentro dos dois sabia.
Mesmo que ainda não entendesse o quê.
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Capítulo 3 — "Vossa Alteza"
O dia no portão do castelo seguia como quase todos os outros.
Pessoas entrando.
Pessoas saindo.
Mercadores tentando vender alguma coisa.
E o garoto de óculos estava na sua pequena barraca, concentrado em ajustar uma
tira de couro.
Até que alguém parou diante da mesa.
Ele não levantou os olhos imediatamente.
— Você devia organizar melhor isso.
A voz era clara. Jovem. E claramente irritada.
Ele ergueu os olhos.
A princesa Isabella estava ali, olhando para a barraca como se tivesse encontrado
algo profundamente inconveniente no mundo.
Ele piscou algumas vezes.
— A senhora costuma discutir com barracas também?
Ela franziu a testa imediatamente.
— Senhora?
— Sim, senhora.
— Eu tenho quatorze anos.
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Ele ajeitou os óculos no rosto.
— Eu também, senhora.
Ela cruzou os braços.
— Eu sou a princesa.
— Eu percebi.
— Então deveria agir como alguém que percebeu.
Ele pensou por um segundo.
— Entendi.
E voltou a trabalhar como se nada tivesse acontecido.
Ela ficou olhando.
Esperando alguma reverência.
Algum pedido de desculpas.
Alguma coisa.
Nada veio.
— Você é muito estranho.
— Já me disseram isso antes.
— E muito mal educado.
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— Isso também.
Isabella soltou um som irritado e virou as costas.
— Eu não sei por que perdi meu tempo aqui.
— Eu também não.
Ela parou por um segundo.
Mas decidiu continuar andando.
No dia seguinte, o garoto recebeu um pedido incomum.
Um mensageiro do castelo apareceu na barraca com uma pequena caixa de
madeira.
— Entrega especial.
— Para quem?
— Para a princesa.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Depois pegou a caixa.
Subir os andares do castelo era uma experiência estranha.
Corredores enormes.
Tapeçarias nas paredes.
Guardas observando cada passo.
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Ele claramente não parecia pertencer àquele lugar.
Mas continuou andando até chegar à porta indicada.
Um guarda abriu passagem.
Ele entrou.
Isabella estava perto da janela.
Quando virou o rosto e viu quem estava ali…
seus olhos se estreitaram imediatamente.
— Você.
Ele levantou levemente a caixa.
— Entrega para… vossa alteza.
Ela já parecia irritada.
— Deixe aí.
— Como desejar, vossa alteza.
Ele colocou a caixa sobre a mesa.
— Mais alguma coisa, vossa alteza?
O jeito que ele dizia aquilo começava a parecer… exagerado.
Isabella percebeu.
— Pare de falar assim.
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— Assim como, vossa alteza?
— Desse jeito.
— Que jeito, vossa alteza?
Ela fechou os olhos por um segundo.
Respirou fundo.
— Você está tirando sarro de mim?
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Jamais faria isso com vossa alteza.
Agora estava claro.
Ele estava fazendo exatamente isso.
— Você é insuportável.
— Como desejar, vossa alteza.
Ela apontou para a porta.
— SAIA DO MEU QUARTO!
Ele fez uma pequena reverência exagerada.
— Como desejar, vossa alteza.
Caminhou até a porta.
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— E FECHA ESSA PORTA!
Ele parou.
Olhou para ela por um segundo.
Então saiu.
E deixou a porta…
mais aberta ainda.
Silêncio.
Isabella ficou olhando para a porta aberta.
Respirou fundo.
E então gritou:
— SEU IDIOTA!
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Capítulo 4 — Entre Lírios e Gardênias, QUAL IRRITA MAIS?
O jardim de lírios e gardênias era um dos poucos lugares do castelo onde Isabella
realmente se sentia em paz.
Desde pequena ela gostava de caminhar ali.
Passar as mãos nas pétalas.
Se inclinar sobre as flores.
Sentir o perfume delas.
Lírios brancos.
Gardênias suaves.
Ela respirou fundo, fechando os olhos por um instante.
Era por isso que, desde criança, seu cheiro sempre lembrava aquelas flores.
O vento passou devagar pelo jardim.
As folhas se moveram.
E então…
um galho estalou.
Isabella abriu os olhos.
— Tem alguém aí?
Silêncio.
Ela deu alguns passos pelo caminho de pedras.
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Foi quando três homens saíram de trás dos arbustos.
Roupas gastas.
Olhares ruins.
Um deles sorriu de lado.
— Olha só o que encontramos…
Outro cruzou os braços.
— A princesinha do reino.
Isabella franziu o rosto.
— Se aproximem mais um passo e eu mando prender todos vocês.
Os homens riram.
— Não vejo guardas por aqui.
Um deles começou a caminhar em direção a ela.
— Sabe quanto pagariam por você?
Isabella deu um passo para trás.
— Meu pai vai—
— Seu pai não está aqui.
Ele estendeu a mão para agarrá-la.
— Ei.
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A voz veio de trás deles.
Os três homens se viraram.
O garoto de óculos estava ali, parado na entrada do jardim.
Ele olhou para os homens.
Depois para Isabella.
Depois para os homens de novo.
— Acho que vocês escolheram o jardim errado.
Um deles riu.
— E quem é você?
O garoto ajeitou os óculos.
— Alguém que vocês deveriam ignorar.
O homem avançou.
E tudo aconteceu rápido.
O garoto desviou.
Empurrou o primeiro contra o segundo.
Um deles tropeçou no caminho de pedra.
O terceiro tentou agarrá-lo, mas levou um empurrão que o fez cair nas flores.
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— Guardas! — alguém gritou ao longe.
Os homens perceberam que estavam ficando sem tempo.
Um deles se levantou correndo.
— Isso não acabou!
E os três fugiram pelo jardim.
Alguns guardas apareceram segundos depois, correndo.
— Vossa alteza! Está tudo bem?
Isabella ajeitou o vestido imediatamente.
Levantou o queixo.
— Está tudo sob controle.
Os guardas correram atrás dos invasores.
O jardim ficou em silêncio novamente.
O garoto olhou para ela.
— Parece que vossa alteza está bem.
Ela cruzou os braços.
— Eu não precisava da sua ajuda.
Ele deu de ombros.
— Claro.
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Ela deu um passo à frente.
E então…
pisou com força no pé dele com o salto.
— AH! ISSO DOEU! TÁ MALUCA?!
Ele pulou para trás segurando o pé.
— Qual é o seu problema?!
Ela virou as costas como se nada tivesse acontecido.
— Isso é por ontem.
E começou a caminhar para fora do jardim.
Ele ainda estava massageando o pé.
— Você é completamente louca!
Ela continuou andando sem olhar para trás.
— E você é irritante.
Ele ficou ali parado por alguns segundos.
Depois suspirou.
— Que garota estranha.
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Capítulo 5 — Missão ou Encontro?
O dia começou cedo no castelo. O garoto de óculos entrou na sala do trono, e, por
reflexo, se ajoelhou diante do rei.
— Levante-se — disse Wendel I com um gesto firme, dispensando formalidades. —
Você não precisa disso aqui.
Isabella estava ali, parada, braços cruzados, com aquela expressão de quem não
estava nem um pouco animada com o que estava prestes a ouvir.
— Você cuidou da princesa hoje, não é? — perguntou o rei.
— Sim, majestade — respondeu ele, ajustando os óculos, mantendo o olhar firme.
O rei voltou sua atenção para Isabella.
— Preciso que você vá a outro reino, participar de uma reunião de princesas. É
importante que esteja presente.
Isabella suspirou, olhando para o chão com desânimo.
— Eu mesmo?
— Sim — disse o rei, com firmeza. — E eu não posso deixar o reino sem supervisão
agora. Sua mãe precisa descansar e se recuperar.
Ele então se voltou para o garoto.
— Você a acompanhará e cuidará dela durante a viagem.
O garoto engoliu em seco. Essa era a primeira vez que receberia uma
responsabilidade real, e ainda por cima com sua própria espada. Ele sabia que não
podia falhar.
Um criado entrou na sala carregando uma caixa de madeira decorada. Ele a abriu e
dentro repousava uma espada, polida e impecável, com o brasão do reino gravado
na lâmina.
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— Esta será sua espada. Use-a com cuidado, e lembre-se de que ela simboliza a
proteção da princesa e do reino. — O rei entregou a arma com um olhar sério.
O garoto segurou a espada com firmeza, sentindo o peso e a responsabilidade
daquilo. Ajustou os óculos, respirou fundo e ergueu a lâmina levemente, como se
jurasse silenciosamente proteger Isabella a qualquer custo.
Isabella levantou os olhos para ele, estudando-o com uma expressão crítica,
claramente nada animada com a companhia que iria ter.
— Ótimo — disse, sem entusiasmo.
Ele ajustou os óculos mais uma vez, sentindo uma mistura de ansiedade e
determinação. Aquele era o começo de algo grande, e ele sabia que dali em diante
as coisas nunca mais seriam as mesmas para nenhum dos dois.
A aventura deles começava oficialmente, e o castelo que antes parecia seguro
começava a se transformar em um lugar de decisões e desafios, que nem eles
mesmos conseguiram resolver sozinhos.
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Capítulo 6 — Uma Terrível Jornada
A Sala de Armas Especiais da Cavalaria estava em silêncio, iluminada apenas pela
luz que atravessava os vitrais altos.
O jovem ajustava sua roupa com cuidado, agora diferente de tudo o que já havia
usado antes. A espada recém-recebida repousava ao seu lado, ainda reluzente,
quase como se não pertencesse àquela realidade.
Ele a pegou com firmeza e a prendeu à cintura.
Respirou fundo.
Era real.
Do outro lado do castelo, no Salão Especial da Realeza, Isabella era cercada por
criadas que ajustavam cada detalhe de sua vestimenta. O tecido caía perfeitamente,
os adornos brilhavam com leveza, e seu perfume de gardênias e lírios preenchia o
ambiente.
Mesmo assim, sua expressão não combinava com nada daquilo.
Ela estava claramente irritada.
— Já está bom — disse, afastando uma das criadas com um pequeno gesto.
Minutos depois, as grandes portas de seus aposentos se abriram.
Do outro lado do corredor, quase ao mesmo tempo, ele também saía.
Os dois pararam.
Se olharam.
Isabella revirou os olhos imediatamente, cruzando os braços com um leve desdém.
Ele apenas manteve a postura, o rosto neutro, com um quase imperceptível traço de
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tranquilidade.
E então, começaram a caminhar.
Lado a lado.
Sem dizer nada.
O salão principal estava cheio. Nobres, cavaleiros, conselheiros… todos reunidos
para assistir ao anúncio.
Quando os dois entraram, os olhares se voltaram para eles.
O rei Wendel I ergueu a voz:
— Hoje, a princesa de Sáturna Realis parte em missão para outro reino,
acompanhada por aquele que jurou protegê-la. Que todos aqui desejem a eles
sabedoria, força… e sucesso.
Um coro de vozes se levantou pelo salão.
No meio daquilo tudo, Isabella se inclinou levemente, sem olhar diretamente para
ele, e sussurrou:
— Eu não queria estar aqui, só pra você saber, tá bom? Não se acostuma…
Ela fez uma breve pausa, então continuou, ainda mais baixo:
— E qual é mesmo o seu nome?
Ele virou o rosto apenas o suficiente para responder:
— Samuel.
Isabella soltou um leve suspiro de desinteresse.
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— Não se acostuma, Samuel.
Ele respondeu no mesmo tom:
— Fica tranquila… isso vale pros dois lados.
Ela estreitou os olhos, irritada.
Ele voltou a olhar para frente, como se nada tivesse acontecido.
Pouco depois, o salão começou a se dispersar.
Mas antes da partida… ainda havia uma última parada.
Samuel precisava ir para casa.
E, pela primeira vez, alguém o esperava.
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Capítulo 7 — O Que Ficou
Antes de vestir uma espada, antes de atravessar os portões do castelo, antes
mesmo de ser chamado para algo maior… ele já carregava histórias que ninguém
via.
Samuel não nasceu entre nobres, nem cresceu cercado por luxo. Sua casa sempre
foi simples, pequena demais para o mundo que existia além dela, mas grande o
suficiente para caber tudo o que realmente importava.
Sua mãe.
Era com ela que ele aprendia sobre força, mesmo sem perceber. Não através de
batalhas ou armas, mas na forma como ela seguia em frente todos os dias, mesmo
quando parecia cansada demais para isso.
Ela nunca reclamava.
Nunca dizia que era difícil.
Mas ele via.
Via nas mãos marcadas, no olhar silencioso, na forma como às vezes parava por
alguns segundos a mais do que o normal… como se estivesse tentando recuperar
algo que o tempo havia levado.
Seu pai…
Era uma história diferente.
Não havia despedida.
Não havia explicação.
Apenas ausência.
Alguns diziam que ele havia partido em busca de algo maior. Outros, que nunca
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mais voltaria. Havia até quem sussurrasse coisas piores, coisas que ninguém nunca
teve coragem de confirmar.
Mas, dentro daquela casa, esse assunto quase não existia.
Sua mãe nunca falava sobre ele.
E com o tempo, Samuel também aprendeu a não perguntar.
Ainda assim… havia um vazio.
Um daqueles que não fazem barulho, mas estão sempre ali.
Foi por isso que ele cresceu mais rápido do que deveria.
Aprendeu a se virar sozinho, a não esperar demais, a não depender de promessas
que poderiam nunca se cumprir.
E talvez fosse exatamente por isso que, agora, ao segurar uma espada nas mãos,
aquilo não parecia apenas uma oportunidade.
Parecia um caminho.
Um que ele não pretendia desperdiçar.
Porque, pela primeira vez… ele estava indo além do que conhecia.
E dessa vez, ele não estava sozinho.
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A madeira da porta rangeu levemente quando ele bateu.
— Já vai! — a voz veio de dentro, familiar, apressada.
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Alguns segundos depois, a porta se abriu.
Ela parou.
Os olhos se arregalaram por um instante, como se não acreditasse no que estava
vendo.
— Samuel…?
Ele mal teve tempo de responder.
Ela o puxou para um abraço apertado, forte, como se quisesse ter certeza de que ele
realmente estava ali.
— Você cresceu tão rápido… — disse, com a voz embargada. — Meu Deus… olha
você…
Ele sorriu de leve, retribuindo o abraço.
— Eu tô aqui, mãe.
Ela segurou o rosto dele com as mãos, analisando cada detalhe, como se estivesse
tentando recuperar o tempo perdido em segundos.
— Você tá diferente… mais alto… mais sério… — ela riu baixo, ainda emocionada.
— Continua sendo meu menino, mas…
— Mas já não sou tão pequeno assim — completou ele, com calma.
Ela deu um pequeno suspiro, ainda sem soltar totalmente ele.
— O que aconteceu? Por que veio assim… desse jeito?
Ele entrou, fechando a porta atrás de si.
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A casa continuava igual. Simples. A mesa de madeira no centro, os mesmos objetos,
o mesmo cheiro de sempre.
Ele parou por um instante… e respirou fundo.
Um pequeno sorriso surgiu.
— Ainda cheira a mar…
Ela olhou pra ele, surpresa, e depois riu baixo.
— Você sempre dizia isso quando era pequeno.
— E nunca mudou — respondeu ele, dando de ombros, ainda com aquele leve
sorriso.
Por um momento, tudo pareceu menor do que antes.
— Eu fui chamado pelo rei — disse ele.
Ela ficou em silêncio.
— Vou acompanhar a princesa em uma missão… para outro reino.
Ela piscou algumas vezes, absorvendo aquilo.
— Missão…? — repetiu, mais baixo.
Samuel caminhou até a mesa e colocou a espada sobre a madeira. O som ecoou
pelo ambiente, pesado, definitivo.
— Eu prometo trazer a princesa de volta em segurança, mamãe.
O olhar dela caiu sobre a espada.
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E então… ela começou a chorar.
— Eu vou sentir saudades… — disse, levando a mão ao rosto. — Você acabou de
chegar e já vai embora de novo…
Ela se aproximou dele rapidamente, segurando seus braços.
— E se você se machucar?
— E se… se não voltar?
— E se alguém te atacar?
As perguntas saíam rápidas, atropeladas, carregadas de medo.
Ele não respondeu de imediato.
Apenas a abraçou.
Com calma.
Com firmeza.
— Mãe… — disse baixo. — O pequeno filho que você criou já cresceu.
Ela fechou os olhos, segurando ele com força.
— Chegou a minha hora… de criar meu propósito.
O silêncio que veio depois não era vazio.
Era cheio de tudo aquilo que nenhum dos dois precisava dizer.
Ela se afastou devagar, ainda com os olhos marejados, respirando fundo como se
estivesse reunindo forças.
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— Eu… vou deixar tudo pronto pra você partir — disse, com a voz baixa, mas firme.
— Mesmo que doa em mim…
Ela tentou sorrir, mas não conseguiu completamente.
— Mas você vai ficar essa noite em casa.
Ele a olhou por um instante… e apenas assentiu.
Dessa vez, sem discutir.
---
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Capítulo 8 — O Eco do Passado
— É, filho… isso é história. E vai se tornar realidade logo logo, quando eu for atrás
do———
— Sério? Você vai mesmo??
— Vou, carinha… eu preciso ir atrás disso. É meu sonho de vida.
— Então não demora…
— Eu não vou demorar.
— Promete?
— Prometo.
— Você sempre promete…
— E sempre volto.
— Mas nunca fica.
— Dessa vez vai ser diferente.
— Por quê?
— Porque quando eu voltar…
—…
— A gente vai ser feliz.
— Como?
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— Nós três.
— Eu, você e a mamãe?
— Isso.
— Pra sempre?
— Pra sempre.
— Boa noite, papai… espera eu dormir antes de sair, por favor.
— Tá bom, filho… eu tô aqui.
————————————————
Samuel abriu os olhos devagar.
O teto estava ali.
O quarto, silencioso.
Mas ele não se moveu.
Ficou parado… apenas olhando.
Como se ainda estivesse tentando entender o que tinha acabado de ver.
Ou lembrar…
Do que não conseguiu.
Depois de alguns segundos, ele respirou fundo… e se levantou.
Os pés tocaram o chão frio.
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Ele caminhou até a janela.
A madeira rangeu levemente ao ser empurrada.
E lá fora…
O sol estava nascendo.
A luz ainda era suave, espalhando tons dourados pelo horizonte, como se o mundo
estivesse recomeçando devagar.
A vila começava a despertar.
Algumas portas se abriam.
O silêncio da madrugada ia sendo substituído pelos primeiros sons do dia.
Tudo seguia.
Como sempre.
Samuel apoiou a mão na madeira da janela, observando em silêncio.
Aquela cena…
Aquela voz…
Aquela promessa…
Pareciam próximas demais para serem só um sonho.
Mas distantes demais para serem lembradas.
— “Ir atrás do…” — murmurou, quase sem perceber.
A frase ficou incompleta no ar.
Assim como na sua mente.
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Ele apertou levemente a mão na janela.
Aquilo não voltava.
Só a sensação.
E ela não era boa.
Depois de alguns segundos, ele se afastou da janela e passou a mão pelo rosto,
como se estivesse tentando acordar de verdade.
Abriu a porta e saiu do quarto.
O cheiro veio primeiro.
Quente.
Familiar.
Pão recém-saído do forno.
Ele seguiu até a cozinha.
— Já acordou? — disse ela, sem se virar.
— Já.
Ela colocou o pão sobre a mesa e se virou, com um sorriso leve.
— Justo hoje você acorda cedo…
— Nem dormi direito.
Ela não perguntou.
Apenas assentiu.
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Colocou leite em uma caneca e empurrou na direção dele.
— Senta.
Ele se sentou.
O pão ainda soltava vapor quando ela partiu um pedaço e colocou no prato dele.
— Você sempre acordava assim quando era pequeno — disse ela.
— Assim como?
— Quieto… pensando demais.
Ele deu um pequeno sorriso.
— Acho que não mudou muito.
Ela riu de leve.
— Não mesmo.
O silêncio voltou, confortável.
— Você sempre foi diferente, Samuel.
Ele olhou pra ela.
— Diferente como?
— Especial.
Ele desviou o olhar.
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— Eu só faço o que precisa ser feito.
— E é por isso.
Ele ficou em silêncio.
— E escuta — continuou ela — quando você estiver lá… trata bem a princesa.
Ele soltou um leve suspiro.
— Eu trato.
— Trata bem mesmo.
Ele levantou o olhar.
— Eu já disse que trato.
Ela estreitou os olhos.
— Samuel.
Ele revirou os olhos.
— Tá bom…
— Uma mulher se trata sempre bem.
— Eu sei…
O silêncio voltou por alguns instantes.
Então ele se levantou.
— Vou me arrumar.
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— Tá bom.
Ele voltou para o quarto.
A luz da manhã já iluminava tudo.
Se arrumou em silêncio.
Quando terminou, seus olhos foram direto para a mesa.
A espada.
Ele se aproximou e a pegou.
O peso era diferente.
Real.
Ele ficou alguns segundos olhando.
Eu vou proteger ela a todo custo.
É uma promessa.
Uma promessa a mim mesmo.
Ele respirou fundo.
E segurou a espada com firmeza.
Quando voltou para a sala, ela já estava esperando.
— Vem cá — disse.
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Ele se aproximou.
— Se alimenta direito, não sai por aí sem pensar, presta atenção em tudo, não
confia em qualquer um, descansa quando puder… e olha por onde anda, não vai se
meter em confusão, e se alguma coisa parecer errada, você sai na hora… e se a
princesa estiver em perigo, você tira ela de lá, sem pensar duas vezes.
Ela falava enquanto ajeitava a roupa dele.
— Mãe…
— Você é um homem, Samuel… e foi eu quem te criou assim. Então você se coloca
na frente dela, em tudo. Entendeu?
Ele puxou levemente o rosto pra trás.
— Já tá bom…
— Não tá não.
Ele suspirou.
— Eu sei me cuidar.
— Eu sei que sabe… mas isso não me impede de falar.
Ela parou.
Segurou o rosto dele com as duas mãos.
E beijou sua testa.
— Não é todo dia que a gente tem a chance de descobrir o mundo…
— Aproveita.
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— A vida só se vive uma vez.
O silêncio ficou entre os dois.
Pesado.
Mas cheio de amor.
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Capítulo 9 — Talvez Nem Tão Terrível Assim
A porta se fechou atrás dele com um som leve.
Samuel não olhou para trás.
Desceu os pequenos degraus de madeira e seguiu em frente, sentindo o ar fresco
da manhã tocar o rosto.
A vila já começava a acordar.
Algumas pessoas varriam a frente de casa, outras abriam suas portas, e o cheiro de
comida simples se espalhava pelas ruas.
Tudo estava como sempre.
Mas ele não.
Caminhava em silêncio, com passos firmes, a espada presa ao lado do corpo.
Alguns olhares o acompanhavam.
Curiosos.
Outros… respeitosos.
Não era mais só o filho de alguém.
Agora, ele carregava um propósito.
Conforme avançava, a vila dava lugar a ruas mais movimentadas. Barracas sendo
montadas, comerciantes organizando seus produtos, carruagens passando.
O coração de Sáturna Realis pulsava diante dele.
E, ao fundo…
O castelo.
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Imponente.
Muito maior do que qualquer lembrança que ele tinha.
Samuel respirou fundo e continuou.
Ao se aproximar dos grandes portões, dois guardas cruzaram as lanças, bloqueando
sua passagem.
— Identificação.
Samuel manteve a calma.
— Fui convocado pelo rei.
Os guardas trocaram um olhar.
Um deles o analisou por mais alguns segundos… até perceber a espada.
O gesto mudou.
As lanças foram erguidas.
— Pode passar.
Samuel assentiu, em silêncio, e atravessou os portões.
Lá dentro, o mundo parecia outro.
Tudo era maior.
Mais organizado.
Mais… distante.
Servos caminhavam apressados.
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Guardas se posicionavam com precisão.
Cavalos eram preparados.
A jornada já estava acontecendo… mesmo antes de começar.
E então…
Ele a viu.
No meio de toda aquela movimentação, como se o resto simplesmente deixasse de
importar.
Seus olhos encontraram os dela.
E, por um instante… o tempo desacelerou.
Os olhos de Samuel brilharam, de forma sutil, sincera.
Ele não disse nada.
Apenas ficou ali, observando.
Um, dois… cinco segundos.
Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.
Calmo.
E desapareceu logo em seguida.
Ele respirou fundo.
Voltou à postura.
Lembrou das palavras da mãe.
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E então, com respeito:
— Bom dia… Isabella.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Você demorou.
Samuel manteve a calma.
— Cheguei no horário.
Ela cruzou os braços.
— Tenta não atrapalhar.
— Vou tentar não te irritar.
Ela soltou um leve suspiro.
— Você já tá falhando.
O movimento ao redor continuava, mas entre os dois… o tempo parecia outro.
Isabella olhou na direção dos portões ainda fechados e soltou um suspiro leve.
— Finalmente…
Samuel virou o rosto, atento.
— Finalmente o quê?
Ela demorou um pouco pra responder.
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— Sair daqui.
O tom não era irritado.
Era leve.
— Respirar sem alguém me dizendo o que eu devo fazer a cada segundo.
Samuel a observou por um instante.
— Parece importante pra você.
Ela deu um pequeno sorriso de lado.
— Mais do que você imagina.
Houve um breve silêncio.
Então ela olhou ao redor, como se estivesse se certificando de que ninguém
prestava atenção… e se inclinou levemente na direção dele.
— E eu vou levar uma coisa.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Escondido.
— Escondido?
— Uhum.
Ela cruzou os braços, com certo orgulho.
— Materiais de pintura.
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Samuel ficou em silêncio por um segundo.
— Você pinta?
— Ninguém precisa saber.
Ela respondeu rápido.
Ele assentiu.
— Faz sentido.
Ela observou a reação dele.
— Você não vai falar nada?
— Sobre?
— Sobre eu levar isso.
Ele deu de ombros.
— Não é problema meu.
Ela soltou um pequeno sopro de riso.
— Você é estranho.
— Já me disseram.
Ele inclinou levemente a cabeça, com um quase sorriso.
— Mas… por que você me contou isso, se é segredo?
Ela franziu a testa.
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— O quê?
— Você mal me conhece… e já confia tanto assim em mim?
Ele soltou uma risada baixa.
O rosto dela mudou na hora.
— Eu não confio em você.
— Então por que contou?
— Eu só…
Ela travou por um segundo.
— Eu não contei nada. Você que ouviu.
— Ah, entendi.
Ele segurou o sorriso.
— Foi sem querer.
— Exatamente.
Ela cruzou os braços, virando o rosto.
— E se você contar pra alguém, eu mesma te jogo do cavalo.
— Justo.
— E eu não tô brincando.
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— Eu também não.
Ela olhou de volta pra ele, ainda irritada…
Mas, por um instante, parecia sem resposta.
E foi aí que aconteceu.
Samuel olhou diretamente nos olhos dela.
E não desviou.
Sem pressa.
Sem provocação.
Apenas… ficou.
Sustentando o olhar.
Isabella percebeu.
E, pela primeira vez…
Não reagiu como sempre.
Não revirou os olhos.
Não desviou imediatamente.
Ficou ali também.
Observando.
Como se estivesse tentando entender aquilo.
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— Você… — ela começou, mas parou.
Franziu levemente a testa.
— Esquece.
O som dos portões começou a ecoar.
Lentamente, eles se abriram.
Os guardas se posicionaram.
Os cavalos foram trazidos…
E, logo atrás, uma carruagem.
Elegante.
Imponente.
Preparada para a viagem.
Isabella respirou fundo, olhando para frente.
— Vamos.
Um dos guardas abriu a porta.
Ela subiu primeiro, sem hesitar.
Antes de entrar completamente, porém…
Ela parou por um breve segundo.
E lançou um olhar rápido para Samuel.
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— Não me faz me arrepender disso.
Ele assentiu, simples.
— Não vou.
Ela entrou.
Por um instante, Samuel permaneceu parado.
Então, sem dizer nada…
Subiu também.
A porta se fechou atrás deles.
O som do mundo lá fora ficou mais distante.
Lá dentro…
Silêncio.
A carruagem começou a se mover.
Devagar no início…
O leve balançar marcava o começo da jornada.
Samuel se sentou à frente dela, mantendo a postura firme.
Mas, agora… perto.
Muito mais perto.
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Isabella apoiou o braço ao lado da janela…
Mas antes de olhar para fora, seus olhos encontraram os de Samuel mais uma vez.
Por um breve instante.
Silencioso.
— Você não fala muito, né?
Samuel respondeu com calma:
— Só quando precisa.
Ela inclinou levemente a cabeça, ainda olhando pra ele.
— Que ótimo… vou passar dias com alguém assim.
Um sorrisinho quase imperceptível surgiu em seu rosto.
Então, só então…
Ela virou o olhar para a janela.
O silêncio voltou.
Mas diferente.
Mais denso.
Mais presente.
A carruagem avançava, deixando o castelo para trás.
E, ali dentro…
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Sem perceber…
Algo começava a mudar.
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Capítulo 10 — Caos em Movimento
A carruagem avançava pelas estradas de Sáturna Realis, o som das rodas contra o
chão marcando um ritmo constante.
Lá dentro…
Nada constante.
— Para de mexer nisso.
— Eu só encostei.
— Você encostou três vezes.
— Eu tô contando agora?
— Eu tô.
Isabella puxou a pequena bolsa para mais perto de si, protegendo como se fosse um
tesouro.
Samuel recostou-se, soltando um leve suspiro.
— Você é meio exagerada.
— E você é meio irritante.
— Meio?
Ela lançou um olhar rápido pra ele.
— Tá bom. Muito.
A carruagem deu um leve solavanco.
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Os dois se desequilibraram por um segundo.
— Ótimo, agora além de irritante você ocupa espaço demais.
— A culpa foi da estrada.
— A estrada não tem ombro largo.
— Quer que eu diminua?
— Se for possível, eu agradeço.
Samuel segurou um sorriso.
— Vou tentar encolher até o fim da viagem.
— Faz isso.
Outro solavanco.
Dessa vez, o joelho dele bateu de leve no dela.
— Olha isso!
— Foi sem querer.
— Você tá tentando me derrubar.
— Dentro da carruagem?
— Você é capaz.
— Obrigado pela confiança.
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Ela revirou os olhos.
— Eu não confio em você.
— Eu sei, você já deixou isso bem claro.
Silêncio por… dois segundos.
— Para de olhar pra minha bolsa.
— Eu não tô olhando.
— Tá sim.
— Eu só tô olhando na direção geral dela.
— Que é exatamente onde ela está.
— Coincidência.
Ela puxou a bolsa ainda mais perto.
— Se você encostar nisso, eu juro—
A carruagem deu um tranco mais forte.
Os dois foram jogados levemente um contra o outro.
Por um segundo… próximos demais.
Eles se afastaram na mesma hora.
— Tá vendo?
— O quê?
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— Você.
— Eu não fiz nada!
— Fez sim.
— Foi a estrada!
— Você e a estrada estão trabalhando juntos.
Samuel soltou uma risada baixa.
— Claro. Eu combinei com o chão antes de sair.
Ela cruzou os braços, tentando manter a expressão séria…
Mas claramente segurando o riso.
— Ridículo.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Um pouco.
O silêncio voltou por alguns instantes…
Até que Samuel falou:
— Como você conseguiu se arrumar tão rápido?
Ela virou o rosto na hora.
— Rápido?
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— Você já tava pronta quando eu cheguei.
Ela soltou um pequeno suspiro.
— Eu não me arrumei rápido.
— Não?
— Eu tô acordada desde antes do galo cantar.
Samuel arqueou a sobrancelha.
— Sério?
— Sim.
Ela apoiou o braço, meio dramática.
— As criadas vieram, arrumaram meu cabelo, trocaram roupa três vezes porque
nada estava “adequado”, apertaram coisas que nem precisavam ser apertadas…
Ela fez uma pausa.
— E eu fiquei parada igual uma estátua.
Samuel segurou o riso.
— Parece… divertido.
Ela olhou pra ele com uma expressão de puro julgamento.
— Você tá rindo por dentro, né?
— Talvez.
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— Eu sabia.
Ela descruzou os braços, levemente irritada.
— Você não faz ideia do que é isso.
— Não mesmo.
— É um monte de gente decidindo como você deve parecer.
— E você não gosta disso.
— Nem um pouco.
Ela olhou para a janela por um instante…
Mas voltou logo em seguida.
— Por isso eu quero sair.
Samuel a observou com mais atenção dessa vez.
— Pra ser você.
Ela hesitou por um segundo.
— É.
A carruagem seguiu em silêncio por alguns segundos…
Mais calma agora.
Mais leve.
Samuel a encarou por um instante.
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Sem provocação.
Sem brincadeira.
Só… direto.
— Então você já conseguiu.
Ela franziu levemente a testa.
— O quê?
— Ser você.
Ela ficou em silêncio.
Ele continuou, simples:
— E… você é linda.
O ar pareceu parar por um segundo.
Samuel desviou o olhar por um instante, como se tivesse falado algo completamente
normal… mas não era.
— Você tá… bela.
Isabella piscou, surpresa.
— Você…
Ela travou.
Sem resposta pronta.
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Sem sarcasmo imediato.
Algo raro.
— Você fala isso pra todas?
— Não.
— Hm.
Ela virou o rosto, tentando disfarçar…
Mas o leve calor no rosto entregava.
— Estranho.
— Já me disseram.
Silêncio.
Mas completamente diferente de antes.
Mais denso.
Mais… próximo.
— E você? — ela perguntou de repente, ainda sem olhar pra ele.
— O quê?
— Você sempre foi assim?
— Assim como?
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Ela fez um gesto vago.
— Quieto.
Ele pensou por um instante.
— Sempre tive mais o que pensar do que falar.
— Que frase estranha.
— Funciona pra mim.
Ela inclinou a cabeça.
— E agora?
— Agora o quê?
— Você vai continuar assim?
Ele deu de ombros.
— Não sei.
Ela ficou em silêncio…
Observando ele.
— Acho que não.
— Por quê?
Ela desviou o olhar, fingindo desinteresse.
— Porque você já tá falando mais.
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Ele quase sorriu.
— Talvez seja o ambiente.
— Ou talvez…
Ela parou.
— Talvez o quê?
Ela cruzou os braços novamente.
— Nada.
— Você começou.
— E eu parei.
— Justo.
Ela respirou fundo… ainda olhando pra frente.
— E você também… tá aceitável.
Samuel virou levemente o rosto pra ela.
— Aceitável?
Ela deu de ombros, tentando parecer indiferente.
— Não se acostuma.
Ele soltou um leve sorriso.
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— Vou considerar um elogio.
— Não é.
— Claro que não.
A carruagem deu mais um leve solavanco.
Dessa vez, nenhum dos dois reclamou.
Só se ajustaram.
Em silêncio.
Mas não um silêncio vazio.
Um silêncio cheio de algo… novo.
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