CESUL – CENTRO DE ENSINO SUPERIOR
Atos, Fatos e Negócios Jurídicos
3° Período – 1° Semestre letivo
Profª. Eloísa Borghelott
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AULA 3 – O NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL NO CPC/2015, DO ERRO, DO DOLO
1. O NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL NO CPC/2015
1.1. Conceito e Natureza Jurídica
O negócio jurídico processual (NJP) é compreendido como uma projeção da teoria geral dos
atos e negócios jurídicos para o âmbito do processo civil.
Define-se como um fato jurídico voluntário em que o sujeito possui o poder de escolher a
categoria jurídica ou estabelecer situações jurídicas processuais dentro dos limites do
ordenamento.
Trata-se de uma ferramenta de flexibilização do procedimento, permitindo que as partes
escolham "circuitos" processuais.
1.2. Fundamentação Legal e Autonomia da Vontade (Art. 190 CPC)
O Art. 190 do CPC/2015 estabelece a cláusula geral de negociação processual:
Requisitos: Versar sobre direitos que admitam autocomposição e ser celebrado por
partes plenamente capazes.
Diferenciação: Existem negócios típicos (já previstos em lei, como eleição de foro e
arbitragem) e atípicos (baseados na cláusula geral do art. 190).
O Art. 191 trata do negócio jurídico processual plurilateral, onde o juiz e as partes, de comum
acordo, fixam um calendário para a prática dos atos processuais.
Vinculação: O calendário vincula as partes e o magistrado.
Modificações: Prazos só podem ser alterados em casos excepcionais e justificados.
A validade do NJP submete-se aos requisitos do Art. 104 do Código Civil (agente capaz, objeto
lícito/possível e forma prescrita ou não defesa).
Vícios do Consentimento e Sociais: Aplicam-se as regras de erro, dolo, coação, estado
de perigo, lesão, fraude contra credores e simulação.
Princípios Interpretativos: Incidência da boa-fé objetiva (Art. 113 e 422, CC) e do
princípio da cooperação. A interpretação deve considerar a intenção das partes acima do
sentido literal (Art. 112, CC).
Conservação do Negócio: A invalidade do negócio material não implica necessariamente
a invalidade da convenção processual autônoma nele inserida.
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Resumo com fórmulas:
Fato jurídico = fato + direito
Ato jurídico = fato jurídico + vontade + licitude
Negócio jurídico = ato jurídico + interesse das partes (criando-se algo novo)
Elementos do Negócio Jurídico:
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2. DEFEITOS DO NEGÓCIO JURÍDICO
2.1. Introdução e Classificação dos Vícios do Negócio Jurídico
O estudo dos defeitos do negócio jurídico é de vital importância, pois tratam-se de vícios que
maculam o ato celebrado, atingindo a vontade ou gerando repercussão social. Tais defeitos
tornam o negócio passível de ação anulatória ou declaratória de nulidade.
O problema acomete a vontade, repercutindo na validade do negócio celebrado (segundo degrau
da Escada Ponteana).
Vícios da Vontade ou do Consentimento: Erro, dolo, coação, estado de perigo e lesão.
Estes problemas acometem a vontade e repercutem no plano da validade (segundo
degrau da Escada Ponteana).
Vícios Sociais: Fraude contra credores e a simulação (embora haja debate sobre seu
enquadramento). São institutos condenados por sua repercussão social, atentando contra
a boa-fé e a socialidade.
Nota de diferenciação: Não se deve confundir vícios do negócio jurídico com vícios
redibitórios. Os primeiros atingem a manifestação da vontade ou a órbita social e situam-se no
plano da validade. Já os vícios redibitórios (ou do produto) atingem o objeto em contratos e
situam-se no plano da eficácia.
2.2. Do Erro e da Ignorância (Art. 138 ao 144 do Código Civil)
O erro é definido como um engano fático ou uma falsa noção sobre uma pessoa, objeto ou direito,
que acomete a vontade de uma das partes. A ignorância, tratada pela lei como sinônimo de erro,
é o desconhecimento total quanto ao objeto.
Requisito de Anulabilidade: O negócio só é anulável se o erro for substancial e puder
ser percebido por pessoa de diligência normal (cognoscibilidade).
A Questão da Escusabilidade: No Código Civil de 2002, prevalece o princípio da
confiança e a eticidade. Segundo o Enunciado n. 12 da I Jornada de Direito Civil, é
irrelevante se o erro é escusável (justificável) ou não, bastando o conhecimento pela outra
parte.
Enunciado 12 da I Jornada de Direito Civil: Na sistemática do art. 138, é irrelevante ser ou não
escusável o erro, porque o dispositivo adota o princípio da confiança.
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Exemplo Prático: A venda fictícia da faculdade a um estudante (doces x venda da instituição).
Mesmo sendo um erro grosseiro (inescusável), o negócio seria anulável hoje porque a outra parte,
ciente do erro, silenciou para receber o dinheiro, violando a boa-fé.
Divergência Jurisprudencial: Embora a doutrina majoritária dispense a escusabilidade
(desculpa), julgados do STJ ainda mencionam a necessidade de preenchimento de três requisitos:
substancialidade, conhecimento e e escusabilidade.
2.2.a) Espécies de erro substancial (art. 139 do CC)
O erro e a ignorância refletem um desconhecimento total quanto ao objeto do negócio. Os casos
são tratados pela lei como sinônimos, equiparados. Em ambos, no erro e na ignorância, a pessoa
engana-se sozinha, parcial ou totalmente, sendo anulável o negócio toda vez que o erro ou a
ignorância for substancial ou essencial, nos termos do art. 139 do CC/2002.
O erro é considerado substancial quando:
Interessa à natureza do negócio (error in negotia), ao objeto principal (error in corpore),
ou a qualidades essenciais (error in substantia) (ex: comprar bijuteria achando que é
ouro).
Error in persona: Diz respeito à identidade ou qualidade essencial da pessoa, influindo na
vontade de modo relevante (ex: erro sobre vício comportamental em celebração de
casamento).
Error iuris (Erro de Direito): Quando constitui o motivo único do negócio e não implica
recusa à aplicação da lei.
*Existe uma antinomia aparente entre o art. 139, III, do CC (que admite erro de direito) e o art. 3º
da LINDB (que veda a alegação de desconhecimento da lei). Deve prevalecer a norma do Código
Civil por ser norma especial para negócios jurídicos, enquanto a LINDB é norma geral.
2.2.b) Erro Acidental (Art. 142 do CC)
Diferencia-se do essencial por dizer respeito a elementos secundários e não essenciais ao
negócio jurídico, sendo o contrato celebrado com conhecimento dos contratantes.
Consequência: Não gera anulabilidade e não atinge a validade do negócio.
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Retificação: Se for possível identificar a pessoa ou a coisa a que se refere a declaração, o
negócio permanece válido (ex: erro no CPF ou nome em apólice de seguro que não
impede a identificação do segurado real).
2.2.c) O Falso Motivo (Art. 140 Do CC)
O motivo é a razão pessoal (subjetiva) da celebração, distinta da causa (objetiva).
Regra Geral: O falso motivo não anula o negócio.
Exceção: O negócio será anulável se o motivo tiver sido expressamente declarado como a
razão determinante do ato.
Exemplo: Comprar um carro para presentear uma filha descobrindo depois que o aniversário era
do filho; em regra, isso não anula a compra.
2.2.d) Transmissão Errônea da Vontade (Art. 141 Do CC)
A vontade transmitida por meios interpostos (mensageiros, meios de comunicação) é anulável nos
mesmos casos da declaração direta.
Este artigo aplica-se aos contratos eletrônicos ou digitais. A proposta de reforma do Código
Civil sugere incluir explicitamente os "meios virtuais" no texto legal.
2.2.e) Erro de cálculo e Princípio da Conservação (Art. 143 e 144 do CC)
Erro de Cálculo (Art. 143): Não anula o negócio, autorizando apenas a retificação da
declaração. Isso respeita o princípio da conservação dos negócios jurídicos.
Execução da Vontade Real (Art. 144): O erro não prejudica a validade se a outra parte
oferecer-se para executar o negócio conforme a vontade real do manifestante. Exemplo:
se alguém compra o lote X pensando ser o Y, e o vendedor entrega o lote X, o erro
substancial é superado.
Enunciado 22 da I Jornada de Direito Civil: A função social do contrato, prevista no art. 421 do novo
Código Civil, constitui cláusula geral que reforça o princípio de conservação do contrato, assegurando
trocas úteis e justas.
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2.2.f) Erro Obstativo
Também chamado de erro obstáculo ou impróprio, ocorre quando há uma divergência tão
profunda entre as partes que impede a própria formação do negócio. No sistema brasileiro, se o
negócio chegar a ser celebrado, a consequência é a anulabilidade (Art. 171, II, CC).
Observação: Prazo: o prazo para anular o negócio jurídico eivado de erro é decadencial de quatro
anos, contados da celebração do negócio jurídico. A contagem inicia-se do dia da celebração do
negócio jurídico (Art. 178, II, CC).
2.3. Do Dolo (Art. 145 A 150 CC)
O dolo é conceituado como o artifício ardiloso empregado para enganar alguém, visando o
benefício próprio. Na doutrina clássica, é comparado à "arma do estelionatário".
- Consequência: De acordo com o art. 145 do Código Civil, o negócio praticado com dolo é
anulável, desde que o dolo seja a sua causa determinante.
- Dolo Essencial (dolus causam): Ocorre quando uma das partes utiliza artifícios maliciosos
para levar a outra a praticar um ato que não faria normalmente, buscando enriquecimento sem
causa.
2.3.a) Dolo-Vício x Dolo da Responsabilidade Civil
É fundamental não confundir o dolo como vício do negócio jurídico com o dolo na
responsabilidade civil:
Dolo na Responsabilidade Civil: Não está necessariamente ligado a um negócio jurídico
e não gera anulabilidade; se atingir um negócio, gera apenas o dever de pagar perdas e
danos (dolo acidental – art. 146 CC).
Dolo-Vício do Negócio: É a causa única da celebração do contrato (dolo essencial),
situando-se no plano da validade – art. 171, II, CC, desde que proposta ação no prazo de
4 anos da celebração do negócio, pelo interessado (art. 178, inc. II, do CC).
2.3.b) Dolo Essencial x Dolo Acidental
A distinção entre essas duas modalidades define se o negócio subsiste ou não:
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Dolo Essencial: Causa a anulabilidade do ato (Arts. 171, II e 178, II do CC). O prazo
para anulação é de 4 anos a contar da celebração.
Dolo Acidental (dolus incidens): Ocorre quando o negócio seria realizado de qualquer
forma, embora de outro modo. Não gera anulabilidade, mas apenas a satisfação de
perdas e danos (Art. 146 do CC), resolvendo-se no plano da eficácia.
A principal diferença prática entre o dolo essencial e o acidental reside na validade do negócio
jurídico e se o artifício ardiloso foi ou não a causa determinante para a celebração do contrato.
2.3.c) Dolo De Terceiro (Art. 148 do CC)
O dolo pode ser praticado por alguém estranho ao negócio.
Conhecimento da Parte Beneficiada: O negócio só é anulável se a parte a quem o dolo
aproveita tinha ou devesse ter conhecimento dele.
Ausência de Conhecimento: Se a parte beneficiada não sabia do dolo, o negócio é
válido, mas o terceiro autor do dolo responderá por todas as perdas e danos perante o
lesado.
2.3.d) Dolo do Representante Legal (Art. 149 Do CC)
As consequências variam conforme o tipo de representação:
Representante Legal: O representado responde civilmente apenas até a importância do
proveito que teve. Trata-se de uma responsabilidade limitada ao benefício financeiro ou
patrimonial colhido.
Representante Convencional: O representado responde solidariamente com o
representante por perdas e danos. Aplica-se aqui, por analogia, a responsabilidade
objetiva do comitente pelos atos de seu preposto (Arts. 932, III e 933 do CC).
2.3.e) Classificações do Dolo
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O dolo recebe divisões importantes quanto ao seu conteúdo e conduta:
I) Quanto ao Conteúdo
Dolus Bonus: É o dolo tolerável, comum no comércio (exageros sobre qualidades de um
produto). Não anula o negócio, exceto se configurar publicidade enganosa ou prática
abusiva vedada pelo CDC. Também abrange condutas que visam beneficiar outrem (ex:
dar remédio fingindo ser suco).
Dolus Malus: São ações maliciosas com o fim de enganar e causar prejuízo. Permite a
anulação se houver benefício ao autor e prejuízo ao induzido (ex: publicidade enganosa
por ação ou omissão).
II) Quanto à Conduta das Partes
Dolo Positivo (Comissivo): Praticado por uma ação (ex: anúncio com característica
inexistente).
Dolo Negativo (Omissivo): Ocorre pelo silêncio intencional ou reticência sobre fato que
a outra parte ignorava (Art. 147 do CC). O prejudicado deve provar que não celebraria o
negócio se soubesse da verdade (ex: não informar restrições de condomínio em instalar ar
condicionado).
Dolo Recíproco ou Bilateral (Art. 150 do CC): Ambas as partes agem de má-fé. Pela
regra de que ninguém pode beneficiar-se da própria torpeza, o negócio não pode ser
anulado e não cabe indenização. Se os prejuízos forem muito desproporcionais, pode
haver compensação parcial com pleito de perdas e danos.
Exemplos Práticos:
- Dolo Acidental (Indenização): Vendedores que prometem a posse de um imóvel em 30 dias
sabendo que não poderiam cumprir o prazo por haver um locatário no local. O negócio subsiste,
mas resolve-se em perdas e danos.
- Dolo Acidental (Omissão): O vendedor de um estabelecimento omite a necessidade de reparos
ínfimos em relação ao valor total do negócio. Se ficar provado que o comprador teria fechado o
negócio mesmo se soubesse dos reparos, o contrato é mantido, restando apenas o direito à
indenização pelos consertos.
- Dolo Essencial (Anulação): Um mutuário é convencido por um representante de banco a fazer
um empréstimo para investir em um fundo inexistente (golpe). Como a fraude foi a razão
determinante para o contrato, o negócio é anulado com a restituição dos valores pagos.
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Quando ambas as partes agem com dolo em um negócio jurídico, ocorre o que a doutrina
classifica como dolo recíproco ou bilateral (também denominado dolo compensado ou dolo
enantiomórfico).