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For Your Protection

A fanfic 'For Your Protection' se passa no universo de Harry Potter, começando no meio do livro 'Príncipe Mestiço', onde Hermione Granger recebe uma pulseira misteriosa com um bilhete que diz 'Para sua proteção'. À medida que a guerra mágica se intensifica, Hermione se vê envolvida em eventos sombrios que afetam muggleborns e sangues puros, enquanto lida com seus próprios traumas e a necessidade de proteger seus entes queridos. O trabalho explora temas de amor, dor e a luta contra a opressão, com um foco especial no relacionamento entre Hermione e Draco Malfoy.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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For Your Protection

A fanfic 'For Your Protection' se passa no universo de Harry Potter, começando no meio do livro 'Príncipe Mestiço', onde Hermione Granger recebe uma pulseira misteriosa com um bilhete que diz 'Para sua proteção'. À medida que a guerra mágica se intensifica, Hermione se vê envolvida em eventos sombrios que afetam muggleborns e sangues puros, enquanto lida com seus próprios traumas e a necessidade de proteger seus entes queridos. O trabalho explora temas de amor, dor e a luta contra a opressão, com um foco especial no relacionamento entre Hermione e Draco Malfoy.
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For Your Protection | Tradução

Posted originally on the Archive of Our Own at [Link]

Rating: Explicit
Archive Warning: Graphic Depictions Of Violence
Categories: F/M, M/M
Fandom: Harry Potter - J. K. Rowling
Relationships: Hermione Granger/Draco Malfoy, Harry Potter/Ginny Weasley, Luna
Lovegood/Ron Weasley, Theodore Nott/Blaise Zabini
Characters: Hermione Granger, Draco Malfoy
Additional Tags: Slow Burn, Enemies to Lovers, Torture, Minor Character Death,
Hurt/Comfort, Explicit Sexual Content, Explicit Language, Healing,
References to Hitler, Psychological Trauma, Possessive Draco Malfoy,
Graphic Description, Angst, Praise Kink, Healer Hermione Granger, WE
ARE EARNING THAT E RATING
Language: Português brasileiro
Stats: Published: 2025-08-26 Completed: 2025-09-05 Words: 153,827
Chapters: 28/28
For Your Protection | Tradução
by ficsbystar

Summary

Começa no meio do livro Príncipe Mestiço.


À medida que o mundo mágico se torna mais sombrio, Hermione recebe uma linda pulseira
com um bilhete sem assinatura que simplesmente diz “Para sua proteção”. Os presentes e
bilhetes continuam a chegar à medida que a Ordem começa a ouvir rumores de que
muggleborns e sangues puros “inadequados” estão sendo submetidos a experiências pela
Comissão de Registro de Nascidos Trouxas. À medida que a guerra chega ao fim, os rumores
sobre as experiências passam de teoria para realidade para Hermione, que começa a trabalhar
no St. Mungo e precisa cuidar de seus antigos colegas de classe.

Notes

Este trabalho abordará alguns dos aspectos mais sombrios da Segunda Guerra Bruxa.
Recomenda-se discrição ao leitor.

❗ Aviso Importante ❗
Essa fanfic não é de minha autoria. Todos os créditos vão para o(a) autor(a) original:
VeataVesa.
Eu apenas traduzo com muito carinho e dedicação, porque adoro Dramione e quero que mais

🚫
pessoas tenham acesso a essa história incrível.
Não autorizo a cópia, repostagem ou reprodução dessa tradução em nenhum outro lugar.

💬
Esse trabalho é feito de fã para fã, com respeito e amor pelo conteúdo original.


Fique à vontade para comentar, curtir e compartilhar suas impressões por aqui!
Adoro saber o que vocês estão achando — isso me motiva a continuar.

A translation of [Restricted Work] by VeataVesa


Capítulo 1

Dezembro de 1996

O som dos cânticos de Natal e dos carros passando pela neve derretida preenchia o ar.
Pessoas corriam pela rua cheia de lojas, entrando rapidamente nos estabelecimentos ou
seguindo para casa ao final da tarde. Luzes brilhantes e festões estavam pendurados em todas
as vitrines, iluminando os caminhos que escureciam.

Hermione amava o Natal. Sempre tinha aquele sentimento mágico, mesmo no mundo trouxa.
A alegria, os rituais pagãos adotados e as histórias do velho São Nicolau contribuíam para
aquela sensação de outro mundo.

— Claramente um bruxo — pensou distraída, trocando as sacolas de compras de uma mão


para outra enquanto esperava na calçada. — Embora eu não me lembre de já ter ouvido falar
do Papai Noel por alguém que cresceu com magia.

Suas sobrancelhas se juntaram enquanto tentava recordar se Ron ou alguém já mencionara


renas voadoras ou o que era claramente o abuso de um vira-tempo para conseguir entregar
presentes a todos, no mundo inteiro, em uma única noite.

Um homem saiu de uma loja, evitando a multidão de pessoas enquanto se aproximava da


mulher que esperava. Seu cabelo castanho-claro cortado bem curto tinha alguns fios
grisalhos, e havia marcas de riso ao lado dos olhos castanhos e calorosos. A expressão de
Hermione se suavizou e ela sorriu para ele à medida que se aproximava.

— Acho que já estou pronto! — disse animado quando chegou até ela. Os olhos castanhos
dela sorriram de volta, encantados.

— Pronto para ir para casa, pai? — perguntou, ajeitando um gorro de lã que tentava escapar
dos seus cachos cheios. Estava coberta por uma leve camada de neve, as bochechas coradas
pelo frio. O homem assentiu com um largo sorriso.

Ele sempre deixava os presentes de Natal da mãe dela para a última hora e era uma tradição
informal que os dois enfrentassem juntos a correria da véspera para comprar algo para ela. As
multidões eram uma loucura, mas era raro que Hermione tivesse tempo a sós com o pai. Ele
entrelaçou o braço no dela enquanto voltavam para o carro.

— Espero que sua mãe já tenha terminado os biscoitos de gengibre — comentou, enquanto
passavam por um fluxo interminável de compradores.

Ela não conseguiu segurar a risada. Seus pais quase nunca mantinham doces assados em casa,
tão acostumados à prática de evitar açúcar o máximo possível, mas os dois dentistas sempre
abriam uma exceção no Natal. Sua mãe fazia placas de massa de gengibre suficientes para
que os três construíssem uma casa em tamanho respeitável. Nunca parecia ser estruturalmente
forte o bastante para durar a noite, “acidentalmente” desabando antes que a noite terminasse.
— Bom, acho que vamos ter que comer agora! — o pai exclamava com falsa surpresa. — Eu
jurava que todo aquele glacê iria segurar.

A mãe lançava a ele um olhar de resignação antes de roubar algumas peças para si.

Era uma pausa celestial do estresse de seu sexto ano em Hogwarts. Hermione estava contente
em apenas aproveitar o tempo tranquilo com os pais antes de voltar à escola no fim das férias.
Voltar a Hogwarts significava voltar aos artigos do Profeta Diário sobre pessoas
desaparecidas, à obsessão de Harry com Draco Malfoy e à ameaça geral de uma guerra
iminente.

Ela não pensaria no fato de também ter que testemunhar Ron e Lavender trocando beijos
intermináveis em vários lugares públicos. Seu peito doeu com o pensamento. Sério, será que
aqueles dois não podiam arrumar um quarto?

Hermione decidiu aproveitar suas férias de Natal como se o mundo tivesse apertado o botão
de pausa.

Depois de várias fatias de pão de gengibre, os três assistiram a alguns filmes de Natal antes
de irem dormir. Hermione trocou-se para o pijama e deitou na cama, mexendo no edredom
amarelo já desbotado.

Seu pai era fascinado pelo mundo mágico em geral e ouvia suas histórias da escola com
atenção extasiada. Sua mãe gostava das histórias como qualquer mãe gosta de ouvir sobre a
vida dos filhos, mas sempre com uma ponta de preocupação. Hermione sabia que a mãe se
preocupava com o aspecto perigoso da magia, mas fazia o melhor para tranquilizá-la.
Ultimamente, vinha modificando várias de suas histórias, diminuindo o potencial de desastre,
tentando não preocupar os pais à medida que o mundo bruxo se tornava mais sombrio.

— Planos de contingência — pensou com seriedade enquanto adormecia. — Eu preciso de


planos de contingência para eles.

Foi acordada na manhã de Natal pelo som da mãe preparando o café. Demorando-se na cama
aquecida, cochilou de novo por alguns instantes. Pensou distraidamente se Harry e Ron já
tinham aberto seus presentes. Para Harry, dera um conjunto de penas auto-tintantes e um
bilhete mandando-o parar de roubar as suas. Para Ron, um enorme caixa de Feijõezinhos de
Todos os Sabores Bertie Bott Edição Especial.

A versão especial vinha sem nenhum dos sabores bons, mas a caixa convenientemente não
mencionava isso.

Animada com o pensamento e agora completamente desperta, jogou as cobertas para trás e
saiu da cama. A casa estava aquecida e o cheiro de bacon subia pelas escadas. Caminhando
suavemente até a cozinha, foi recebida pela visão da mãe no fogão, de roupão e chinelos, de
costas para o cômodo enquanto se concentrava na comida.

Seu pai estava por perto, também de pijama, tentando roubar pedaços de bacon sem que a
esposa percebesse. Depois da terceira espátula batendo em seus dedos e de um olhar de
advertência, ele desistiu e piscou para Hermione. Teria que esperar.
Depois de um café da manhã farto, foram para a sala trocar presentes. Os pais sentaram-se
juntos no sofá azul macio enquanto Hermione se acomodou na poltrona combinando,
admirando a árvore delicadamente decorada que os pais haviam montado uma semana antes
de sua chegada.

— Aqui está — disse o pai, pegando vários presentes debaixo da árvore e colocando-os
diante dela. — Recebi nada menos que cinco corujas com presentes para você esta manhã!

Ele parecia encantado. Seu pai, um observador de aves apaixonado, adorava o correio por
coruja.

Ela guardou aquele pensamento para outro momento. Hoje era sobre felicidade e família e ela
se agarraria a isso pelo maior tempo possível.

Abriu vários presentes atenciosos dos amigos, incluindo um belo diário encadernado em
couro de dragão de Harry e um novo suéter Weasley de Molly, vermelho com um “H”
dourado na frente. Ginny lhe mandara um livro sobre feitiços de organização, enquanto Luna
lhe enviara seu próprio par de Espectrospecs verde-limão.

— Isso são… óculos de sol? — arriscou a mãe, examinando os óculos alados bizarros com as
sobrancelhas erguidas. Hermione riu.

— Não exatamente. Eles não ajudam de verdade a ver nada. — respondeu, entregando-os à
mãe, que os colocou e fingiu modelar. Tanto Hermione quanto o pai caíram em gargalhadas.

Não havia presente de Ron, mas ela já esperava, já que não estavam se falando no momento.

Um pequeno embrulho no chão, a seus pés, chamou sua atenção. Estava cuidadosamente
envolto em papel preto e amarrado com uma fita dourada. Hermione achou as cores muito
estranhas para um presente de Natal. A caixa era um pouco maior que a palma da mão e mais
pesada do que parecia.

Arrancando o embrulho, revelou uma elegante caixa de madeira escura. Hermione franziu a
testa e girou a caixa nas mãos. Não havia marcação alguma e os embrulhos não tinham cartão
ou bilhete. Ela não esperava que mais ninguém tivesse enviado presente. Talvez Ron
realmente tivesse mandado algo?

— Pai, veio algum bilhete com este aqui? — perguntou, erguendo a caixa ainda fechada.
Mostrou a ele o papel preto quando ele franziu a testa.

— Acho que não. Para ser sincero, nem tenho certeza de qual coruja trouxe esse. As cinco
chegaram ao mesmo tempo! — sorriu, claramente fascinado com o bando de corujas que vira
naquela manhã.

Intrigada, voltou os olhos para a caixa e a abriu. Um pedaço de pergaminho estava dentro
com três palavras em perfeita e elegante caligrafia.

Para sua proteção.


Ela pegou o pergaminho e quase deixou a caixa cair. Debaixo, em uma cama de seda branca,
repousava uma linda pulseira de prata. Havia várias pedras pretas incrustadas por toda a
circunferência, a prata se entrelaçando entre cada pedra para dar uma aparência delicada,
quase como uma videira. Era uma peça belíssima e de artesanato refinado.

Antes de pegá-la para examinar, recobrou o juízo e fechou abruptamente a tampa articulada.

De imediato, Katie se ergueu no ar, graciosamente, braços estendidos, como se estivesse


prestes a voar. No entanto, havia algo errado, algo perturbador... Seu cabelo chicoteava ao
redor dela pelo vento feroz, mas seus olhos estavam fechados e seu rosto estava totalmente
vazio de expressão. Harry, Ron, Hermione e Leanne pararam onde estavam, observando.

Então, a quase dois metros do chão, Katie soltou um grito terrível. Seus olhos se abriram,
mas o que quer que estivesse vendo, ou sentindo, claramente lhe causava uma angústia atroz.
Ela gritava e gritava; Leanne também começou a gritar e agarrou os tornozelos de Katie,
tentando puxá-la de volta ao chão. Harry, Ron e Hermione correram para ajudar, mas
mesmo quando agarraram as pernas dela, Katie caiu sobre eles; Harry e Ron conseguiram
segurá-la, mas ela se debatia tanto que mal conseguiam segurá-la. Em vez disso, a deitaram
no chão, onde ela se contorcia e gritava, aparentemente incapaz de reconhecer qualquer um
deles.

— Hermione? Querida, você está bem?

O tom preocupado da mãe atravessou a lembrança. Hermione piscou e percebeu que ainda
estava sentada na poltrona, mas suas mãos agarravam com força a caixa de madeira escura, a
mandíbula contraída. Sentia o suor frio escorrer por todo o rosto e pescoço. O pedaço de
pergaminho havia caído no chão durante seu flashback.

A mãe a observava com os olhos arregalados, os Espectrospecs em uma das mãos. Relaxando
a mandíbula, Hermione forçou um sorriso tenso numa tentativa de tranquilizá-la, mas, a
julgar pela expressão da mãe, não estava enganando ninguém.

— Eu só estou… com frio — mentiu. — Já volto, vou pegar um suéter.

O rosto da mãe deixava claro que não acreditava nela, mas não disse nada enquanto
Hermione recolhia o pergaminho e disparava da sala para o andar de cima, a caixa
firmemente agarrada em uma das mãos. Invadindo o quarto, localizou seu baú da escola e
puxou a varinha, lançando um feitiço de tranca e um feitiço de “Não-Me-Note” sobre a caixa.
Precisava impedir qualquer pessoa de tocar a pulseira até que pudesse entregá-la a
McGonagall para inspeção.

Enfiou a caixa no fundo do baú e bateu a tampa com força, tentando puxar várias respirações
profundas. Não fazia ideia se a joia estava amaldiçoada, poderia muito bem ter sido um
presente de Natal de alguém que simplesmente esquecera de incluir um bilhete assinado, mas,
depois do que aconteceu com Katie, não arriscaria. Lançou um olhar ao pequeno pedaço de
pergaminho apertado em sua mão junto à varinha.

Para sua proteção. Se alguém realmente estivesse enviando algo para protegê-la, por que
diabos não teria incluído o nome? E talvez uma indicação de como exatamente uma pulseira
deveria protegê-la e de quê? Seria uma daquelas pulseiras energéticas que vira em farmácias
trouxas, que afirmavam curar enjoo de viagem e uma série de outras enfermidades? Isso
parecia exatamente o tipo de presente que Ron mandaria, especialmente com o exame de
Aparatação chegando no próximo período, mas aquela definitivamente não era a caligrafia
desleixada dele no bilhete. Também não era a de Harry, e ele já havia lhe dado um presente.
Ela sabia reconhecer, afinal corrigia os deveres dos dois há anos.

Além disso, a pulseira parecia muito mais cara do que qualquer coisa vendida em farmácias.
Parecia ser de prata verdadeira. Não tinha certeza de que pedras estavam incrustadas nela,
mas a impressão geral era de um valor obsceno.

Se estivesse amaldiçoada, a alarmava a facilidade com que poderia ter caído nas mãos dos
pais. E se tivesse sido endereçada a um deles? Poderiam facilmente tê-la aberto, supondo que
fosse para eles, se ela não tivesse voltado para casa no Natal. Não havia etiqueta alguma no
papel de presente indicando para quem era, seu pai apenas assumira que era para ela porque
chegara por coruja.

Guardou o pedaço de pergaminho em um de seus cadernos da escola antes de descer


novamente, o suéter completamente esquecido, enquanto repassava teorias na cabeça. A
percepção de quão vulneráveis seus pais realmente estavam a corroía. Precisava descobrir
como protegê-los — e rápido. Talvez McGonagall tivesse alguma ideia quando voltasse à
escola — poderiam usar o feitiço Fidelius na casa dos pais? Funcionaria para esconder
trouxas? Possibilidades atravessavam sua mente enquanto mentalmente compilava uma lista
de opções a investigar.

Adeus, pausa.

Os pais já haviam terminado de abrir os presentes enquanto ela estava no andar de cima. O
pai estava encantado com os Stringmints Dentifloss que ela lhe dera, esquecendo-se dos
outros presentes, e imediatamente começou a chupar um.

— Unnh! — exclamou, surpreso, quando começaram a passar entre seus dentes. — Issa
meio… agresssivo!

A mãe o observava tentar deter a bala puxando uma das pontas, divertida, mas, ao notar
Hermione, seu sorriso desapareceu.

— Tem certeza de que está bem, querida? — os olhos dela sondaram o rosto da filha,
preocupados.

Dessa vez, Hermione conseguiu sorrir de verdade, um pouco do pânico aliviado pelo
espetáculo que o pai apresentava. Ele havia desistido de tentar deter a bala e a deixava
continuar escovando seus dentes. Seus olhos pareciam incomodados, mas era difícil perceber
com a boca e os lábios sendo puxados em direções diferentes.

— Estou bem. Um garoto de quem eu gosto está namorando outra pessoa e achei que um dos
presentes pudesse ser dele, mas não era. Eu só… fiquei decepcionada. — era próximo o
bastante da verdade; Ron realmente não lhe dera nada no Natal.
— Ah, sinto muito, querida. Isso é sobre o Ron? — a mãe a envolveu num abraço quando
Hermione assentiu. Ela a abraçou de volta, aproveitando o conforto, e observou os
stringmints amolecerem enquanto terminavam de limpar os dentes do pai.

— Finalmente! — bufou ele, puxando-os da boca e olhando o fio com desconfiança. Estava
completamente mole, o feitiço havia se esgotado. Ele sorriu, passando a língua pelos dentes.

— Eles são bem minuciosos. Pena que não posso usá-los em alguns dos meus pacientes!

Hermione riu enquanto a mãe revirava os olhos.

Janeiro de 1997

No segundo em que voltou à torre da Grifinória e guardou seus pertences, Hermione puxou a
caixa de madeira escura e o bilhete de seu baú, removeu os feitiços e correu para o escritório
de McGonagall. Bateu rápido à porta, nervosa até em manter a pulseira fora do baú.

McGonagall abriu a porta e franziu o cenho. — Posso ajudá-la, srta. Granger?

— Desculpe incomodar, professora, mas recebi um presente de Natal estranho e esperava que
pudesse me ajudar.

— Um presente de Natal — repetiu McGonagall, descrente.

— É uma joia e veio sem nenhuma indicação de remetente — respondeu Hermione de forma
seca, irritada que McGonagall presumisse que a incomodaria com algo sem importância.

A bruxa mais velha arfou, erguendo as sobrancelhas, e em seguida conduziu Hermione para
dentro do escritório. Claramente tivera o mesmo pensamento dela — aquilo podia ser uma
repetição do que acontecera com Katie Bell. Hermione retirou a caixa da bolsa escolar,
colocando-a e o bilhete sobre a mesa da professora. Deu alguns passos para trás e permitiu
que McGonagall se encarregasse.

— Veio por coruja. Eu não vi a coruja, porém, já que foi meu pai quem recebeu o pacote. Não
havia bilhete indicando quem o enviou, apenas isto. — gesticulou para o pedaço de
pergaminho. McGonagall lançou um olhar ao bilhete, franziu o cenho, e então puxou a
varinha.

Com um movimento, a caixa se abriu, revelando a pulseira repousando perfeitamente sobre a


seda branca, a prata brilhando intensamente no escritório bem iluminado. McGonagall
examinou a peça por um instante antes de dar outro movimento de varinha, fazendo a caixa
se fechar.

— Posso enviar a pulseira para ser testada pelo departamento de aurores no Ministério —
disse McGonagall, voltando-se para Hermione, o sotaque escocês se acentuando com a
preocupação. — Mas, se encontrarem qualquer magia das trevas, irão confiscá-la e você não
a terá de volta.
— Não a quero de volta se tiver magia das trevas — replicou Hermione com firmeza. A
professora assentiu, já suspeitando disso.

— Muito bem. Avisarei assim que receber notícias deles. Enquanto isso, eu evitaria abrir
qualquer outro pacote sem remetente que receber e, em vez disso, me avisaria imediatamente.

Hermione concordou e McGonagall a dispensou, mas ela hesitou.

— Havia mais alguma coisa, srta. Granger?

— O feitiço Fidelius pode ser usado para proteger uma residência trouxa? — perguntou
diretamente.

A expressão de McGonagall suavizou e ela suspirou. — Não creio que sim. Imagino que seja
sobre seus pais? — Hermione assentiu.

— Você poderia tentar feitiços de proteção na casa, mas talvez fosse melhor que eles
deixassem o país por um tempo — disse McGonagall com delicadeza. — Feitiços de
proteção não serão suficientes se a história se repetir.

Hermione agradeceu pelo conselho e saiu, a mente correndo por potenciais soluções.
Precisaria visitar a biblioteca.

Depois de visitar Hagrid e “Asa de Rapina” logo após o encontro com McGonagall,
Hermione voltou à sala comunal da Grifinória e encontrou Harry, Ron e Gina trancados do
lado de fora por conta da troca de senha. Depois de deixá-los entrar, Harry a puxou de lado
para relatar a conversa que ouvira entre Snape e Malfoy antes do Natal.

Ela já estava cansada da insistência de Harry de que Malfoy era um Comensal da Morte, mas
parecia incapaz de convencê-lo do contrário. Todas as provas dele eram circunstanciais e
exigiam certa imaginação para fazer sentido. Ela preferia fatos concretos e conclusões
lógicas, mas Harry não aceitava. Teriam de concordar em discordar, por ora.

Alguns dias depois, após a discussão sobre o que afinal poderia ser uma Horcrux, Hermione
previsivelmente se encontrava na biblioteca após o jantar. Precisava pesquisar tanto sobre
Horcruxes quanto métodos de proteger trouxas sem violar o Estatuto de Sigilo. Gostaria de
poder consultar algo sobre a pulseira, mas não tinha nada além da caligrafia daquelas três
palavras. Nem sabia ao certo quais pedras a pulseira possuía. Opala negra? Diamantes negros
existiam? Empurrou o assunto para o fundo da mente.

Encontrando alguns títulos promissores na seção de Defesa Contra as Artes das Trevas,
pegou uma mesa vazia nos fundos da biblioteca, onde era mais silencioso. Desfez a bolsa
escolar, espalhando pergaminho e pena para fazer anotações, e pegou um dos tomos.

Duas horas depois, Hermione já havia descartado rapidamente dois dos três livros que
selecionara como completamente inúteis. Prendera os cabelos cacheados em um coque
bagunçado, tinha manchas de tinta escura pelas mãos e começava a se cansar. Estava absorta
em uma cópia de Escudos, Salvaguardas e Abrigos e acabara de decidir que precisaria levá-lo
emprestado para terminar a leitura quando uma gargalhada alta à sua esquerda quebrou sua
concentração. Ela lançou um olhar de censura na direção do barulho e ouviu Pince
expulsando furiosamente um grupo de alunos por atrapalharem o silêncio.

Desistindo da pesquisa naquela noite, começou a guardar seus materiais quando sentiu a
incômoda sensação de estar sendo observada. Tentou lançar olhares discretos ao redor
enquanto enfiava os últimos frascos de tinta e pergaminhos na bolsa, mas não viu ninguém. A
sensação permaneceu enquanto devolvia os dois livros inúteis às prateleiras e também
durante o empréstimo de Escudos, Salvaguardas e Abrigos.

Quando Pince lhe devolveu o livro e a dispensou, Hermione ouviu a bibliotecária perguntar:
— E o que deseja, sr. Malfoy?

Hermione se virou e encontrou Malfoy esperando casualmente atrás dela. Ele tinha um
pequeno tomo nas mãos cujo título ela não conseguiu ver. Embora Pince tivesse se dirigido a
ele, os olhos estavam fixos em Hermione, percorrendo-a dos pés à cabeça de maneira
insolente. Hermione franziu o cenho. Notou que ele parecia não estar dormindo — havia
olheiras sob os olhos e sua postura não estava tão rígida quanto de costume. Parecia sob
bastante estresse.

Pince pigarreou alto, interrompendo o duelo de olhares. Hermione se virou sem dizer uma
palavra e deixou a biblioteca, esquecendo o incidente quase de imediato, já que seus
pensamentos voltavam a como proteger melhor os pais.

Março de 1997

Na manhã seguinte à liberação dos dois garotos da ala hospitalar — Ron por causa do
envenenamento com o hidromel de Slughorn e Harry por causa do crânio rachado —, os três
estavam sentados no café da manhã no Salão Principal. Ron e Harry estavam de frente para
Hermione. Ela notou que a cabeça de Harry estava enterrada naquele maldito livro de poções.

Luna parou para oferecer a Dean Thomas alguns conselhos sobre sua aparente infestação de
espíritos infestadores de orelhas. Estava gesticulando ao redor da cabeça dele e dando
instruções muito detalhadas — e questionáveis — sobre como se livrar deles. Isso incluía
banhar-se em óleo de abacate à meia-noite todas as noites durante uma semana e enfiar
cebolas nas meias. Dean não sabia se devia sentir-se ofendido ou envergonhado, mas não
conseguiu pensar em uma resposta antes que Luna deslizasse até a mesa da Corvinal,
prometendo verificar seu progresso na semana seguinte.

— Maluca — murmurou Dean, balançando a cabeça enquanto voltava ao café da manhã.

— Eu aprendi a gostar dela — disse Ron, dando de ombros e referindo-se ao comentário


anterior dele durante o episódio da raiz de gurdy. — Ela é doida, mas não faz mal a ninguém.

Hermione mastigou a torrada pensativa. Luna era excêntrica, claro, mas Ron tinha razão. Não
era maliciosa, apenas… estranha. Parecia estar conectada a um lado da magia que mais
ninguém estava, isto é, se suas especulações fossem verdadeiras e não apenas fruto da
imaginação.

— Não há más intenções ali — concordou. Ron cutucou-a com o garfo.

— Exatamente — tentou articular através de uma boca cheia de ovos. Engoliu e continuou, o
garfo agora apontando para o jornal ao lado do prato de Hermione. — Agora, isso vale muito.

Hermione assentiu. As notícias estavam ficando cada vez piores. Mais ataques, mais relatos
de pessoas sob a maldição da Imperius e, agora, Mundungus tinha sido preso. Seu raciocínio
foi abruptamente interrompido ao perceber que Lavender estava gritando com Ron em algo
que parecia ser um rompimento público.

A conversa parecia ser totalmente unilateral, com Ron meio virado no assento e Lavender em
pé ao lado dele, chorando e parecendo ao mesmo tempo triste e furiosa. Ron parecia atônito e
nada disse, a boca aberta.

Quando ela se afastou pisando forte, com o relacionamento claramente acabado, Ron a
encarou por alguns momentos antes de lentamente se virar novamente no assento. Estava
chocado e um pouco aliviado. Harry havia mencionado que Ron não queria continuar
namorando Lavender, mas também fora incapaz de terminar com ela.

Harry deu-lhe um tapinha nas costas em solidariedade e os dois tiveram uma conversa
sussurrada que Hermione escolheu ignorar. Nos últimos dias ela percebera que, embora
tivesse gostado dele anteriormente, na verdade não queria namorar Ron. Lavender não era
exatamente sua amiga todos aqueles anos, mas Hermione também não aprovava a maneira
como Ron a tratara. Ver os sentimentos desesperados de sua colega de dormitório tratados
com tanta indiferença matara de vez os últimos vestígios de sua paixonite.

— Garotos — pensou, bufando. Seus olhos vagaram para as outras mesas, curiosa se Luna
havia encurralado mais alguém. Antes que pudesse localizar o cabelo loiro-branco de Luna,
outro loiro chamou sua atenção. Encontrou os olhos de Malfoy do outro lado do salão.

Ele estava encarando de novo. Desde a noite na biblioteca, ela notara que ele a observava
mais vezes, ou pelo menos, mais vezes do que percebera antes. Nas aulas que tinham em
comum, em especial, pelo menos uma vez em cada aula sentia os olhos dele sobre si, o que a
fazia olhá-lo mais. Talvez ele estivesse olhando mais para ela porque ela também estava
olhando para ele?

Harry precisava superar essa teoria de Comensal da Morte, pensou com firmeza. Era a única
razão pela qual continuava observando-o. Toda vez que Malfoy espirrava, Harry interpretava
como uma confissão prática. Talvez Malfoy soubesse que Harry estava contra ele. Hermione
pensaria que ele estivesse observando Harry, e não ela, exceto que ela e Harry nem sempre se
sentavam juntos nas aulas e frequentemente acabava cruzando o olhar com Malfoy quando o
flagrava encarando. E ele não desviava quando era pego, como alguém tentando ser discreto
faria.

Provavelmente só estava tentando intimidá-la.


Depois de dar a Harry uma palestra longa sobre o uso indevido dos elfos domésticos e
encerrar de vez suas tendências de perseguir Malfoy, Harry respondeu que não era um
Comensal da Morte e recebeu outra bronca furiosa de Hermione, que finalmente o calou, mas
a deixou irritadíssima.

Ron passou todo o tempo enfiado na caixa de Feijõezinhos de Todos os Sabores Bertie Bott
que Hermione lhe dera no Natal. A conversa dela com Harry fora pontuada pelos sons dele
cuspindo os feijõezinhos em desgosto.

— Como você pôde esquecer de dizer a eles para dormir? Francamente!

— Pah! Grama!

— Pelo amor de Merlin, Harry, pedi para eles seguirem ele, não registrarem cada movimento!

— ECA! Acho que esse era de vômito.

— Isso foi uma invasão selvagem da privacidade de Malfoy! Como você se sentiria se
descobrisse que tinha um elfo doméstico te espionando no banheiro?!

— Cera de ouvido? Não, talvez só cera de vela. Argh.

Depois de várias mordidas infelizes e rodadas de discussão, Hermione declarou que ia para a
cama. Harry permaneceu em silêncio, bufando de raiva.

— Boa noite! — chamou Ron, alheio à fúria dela enquanto sacudia a caixa para embaralhar
os feijões. Espiou a expressão carregada de Harry.

— Quer um? — ofereceu, estendendo a caixa. Harry, que vinha o ignorando durante toda a
discussão com Hermione, enfiou a mão na caixa sem olhar, os olhos fixos na figura dela se
afastando.

— Cuidado, parceiro, esse aí é— — começou Ron, mas Harry já tinha colocado o feijão na
boca e o cuspiu de volta, o rosto em desgosto.

— — pergaminho — terminou Ron, fazendo careta. Olhou para a caixa com desconfiança
por um momento antes de deixá-la de lado.

— Então — perguntou a Harry. — Qual é o plano?

Abril de 1997

O sexto ano parecia ser O Ano em que a Biblioteca de Hogwarts Decepcionou Hermione.

Não apenas não encontrara nenhuma menção a Horcruxes, como também não encontrava
nada de significativo sobre a proteção de trouxas além de manter a magia em total segredo
deles. O que não era realmente uma opção, já que seus pais tinham conhecimento extenso e
confirmado da magia desde que ela completara 11 anos e recebera a carta de Hogwarts.
Também haviam testemunhado surtos de magia acidental alguns anos antes disso.

Ela sabia que apagar completamente suas memórias e forçá-los a se mudar era uma opção
viável, sabia disso, mas não suportava a ideia de abrir mão de toda a sua história, sua relação
com os pais, sua casa, toda a família estendida — essencialmente toda a sua vida fora de
Hogwarts — se pudesse encontrar outra solução. Estava desesperada para encontrar qualquer
outra solução.

Se chegasse ao ponto de apagá-la da vida deles, não tinha certeza de que seria capaz. Forçar
os pais a esquecê-la? Não era cruel o suficiente para isso e era egoísta o suficiente para
admitir que queria manter sua família.

Tinha que haver algo.

Maio de 1997

Agora que tinham uma compreensão melhor do que eram os Horcruxes e do que Voldemort
poderia ter transformado em Horcrux graças à memória de Slughorn, a dimensão da tarefa se
agigantava na mente de Hermione.

Havia muito a fazer. Dumbledore indicara que eram seis Horcruxes. Com dois destruídos,
ainda restavam quatro a encontrar e destruir, dois dos quais nem sequer sabiam o que eram.
Parecia impossível.

Ainda bem que temos Dumbledore, pensou Hermione fervorosamente. Não tinha certeza de
como conseguiriam algo tão monumental sem ele.

Ela pensara que sua palestra “deixe Malfoy em paz” havia convencido Harry, mas todo o
episódio do Sectumsempradeixou muito claro que não. Nunca estivera tão furiosa com Harry
e tão preocupada com um Malfoy em sua vida.

Ele podia ser um idiota, mas não merecia ser retalhado como um peru de Natal.

Quando Harry ousou reclamar da detenção, ela novamente lhe deu uma bronca fulminante. A
vida de alguém tinha muito mais peso do que suas malditas partidas de quadribol e ela não
ouviria nada em contrário. Também desabafara sobre aquele maldito livro de poções. O fato
de Gina, recém-terminada com Dean, ter ousado ficar do lado de Harry nesse assunto fez
Hermione revirar os olhos.

O que aconteceu com “amigas antes de garotos”?

Não importava se Malfoy era um Comensal da Morte, ele não merecia morrer. No entender
de Hermione, Gina só estava defendendo Harry porque queria ficar com ele, por mais nojento
que isso lhe parecesse. Os dois estavam como bezerros lunáticos apaixonados, com o jeito
que se olhavam na última semana. Ela e Ron estavam igualmente revoltados.
Sabia que Harry jamais pediria desculpas a Malfoy. Como única do grupo que sentia pena
dele, Hermione tomou para si a responsabilidade de ir até a ala hospitalar com os deveres das
aulas em comum alguns dias depois do ataque de Harry. Notara que Malfoy já não parecia
falar muito com os colegas da própria casa e não tinha certeza de que alguém se daria ao
trabalho de levar-lhe anotações de aula.

Ficou em frente à porta pesada da ala hospitalar e conferiu se tinha cópias de todas as notas
que pretendia dar a ele, alisando nervosamente o uniforme escolar enquanto fazia isso. Ela e
Malfoy nunca haviam tido interações positivas, mas pelo menos naquele ano ele não a
importunara. O que quer que estivesse acontecendo para deixá-lo mais magro e ainda mais
anguloso que o normal claramente tirara de sua mente a ideia de provocá-la.

A porta abriu-se sem som e ela entrou de fininho. Ainda era horário de visitas, embora ele
parecesse ser o único paciente no momento, a cama dele perto tanto da porta quanto do
escritório de Madame Pomfrey.

Estava reclinado em vários travesseiros, sem camisa, os cobertores até a cintura. Faixas
brancas cobriam a maior parte da pele pálida exposta, deixando à mostra apenas um ombro e
o antebraço direito, nu e sem sinal de tatuagem. Tentava lembrar em qual braço ia a Marca
Negra, pronta para esfregar na cara de Harry que ele não era, de fato, um maldito Comensal
da Morte, quando percebeu que os olhos prateados dele a encaravam enquanto se
aproximava.

A expressão dele estava fechada, mas ela sentiu que podia ser de raiva. Estava ainda mais
pálido que o normal e visivelmente magro. Os ossos dos ombros se projetavam mais do que
parecia saudável e o rosto estava mais fino que no ano anterior. As mãos estavam ao lado do
corpo e a mais próxima dela estava cerrada em punho.

— Veio terminar o trabalho, Granger? — ele zombou.

Ela parou a um pé da cama dele, as anotações apertadas nas mãos, franzindo o cenho. Dias
atrás parecia corroído por algo, mas havia mudado. Não tinha mais aquele ar desesperado à
espreita. Agora todo o corpo estava tenso, os olhos quase irados. Parecia perigoso para
alguém deitado numa ala hospitalar, coberto de bandagens. Achando que podia ser uma tática
de intimidação, ignorou e estendeu as anotações com firmeza.

— Anotações das aulas que você perdeu — disse secamente. A expressão dele não se alterou,
os olhos duros e penetrantes. Ele não fez menção de aceitá-las.

— Não preciso da sua ajuda — cuspiu. Ela quase pôde ouvir o “sangue-ruim” implícito no
tom. Merlin, seria esse o mesmo Malfoy que Harry jurava ter visto chorando no banheiro
dois dias antes?

Ela abaixou as notas ao lado, incerta. Talvez já tivesse recebido dos amigos da Sonserina?
Sentia-se uma completa idiota por ter se disposto a ajudá-lo, sua aparência anterior e
episódios de olhares a fazendo pensar—

—o que exatamente estava pensando? Malfoy não queria nem precisava da ajuda dela. Era
uma tola, uma idiota simpática com alguém que nunca havia mostrado qualquer gentileza.
— Deixa pra lá — murmurou, virando-se para sair. Aquilo fora um erro gigantesco. Já estava
quase na porta quando ele a chamou.

— Granger — o tom era baixo. Ela se virou, uma mão na porta da ala hospitalar, e esperou.

— Quando tudo desmoronar, você deve correr. Longe — a voz dele era firme e baixa, um
aviso claro.

Ela lhe lançou um olhar incrédulo. — Não vou a lugar nenhum. Essa luta é tanto minha
quanto do Harry. — disse com ferocidade.

A expressão dele se transformou em algo tempestuoso, mas ela se virou e escorregou pela
porta sem esperar resposta.
Capítulo 2

Junho de 1997

— Eu fui tão estúpida, Harry! — disse Hermione em um sussurro agudo. — Ele disse que o
Professor Flitwick tinha desmaiado e que nós devíamos ir cuidar dele enquanto ele—
enquanto ele ia ajudar a lutar contra os Comensais da Morte—

Ela cobriu o rosto de vergonha e continuou a falar entre os dedos, de modo que a voz saía
abafada. — Nós entramos no escritório dele para ver se podíamos ajudar o Professor
Flitwick e o encontramos inconsciente no chão... e oh, agora é tão óbvio, Snape deve ter
Estupefado Flitwick, mas nós não percebemos, Harry, nós não percebemos—

Hermione acordou do sonho coberta de suor frio e tremendo. O pijama estava encharcado, as
cobertas da Grifinória torcidas. Ela percebeu imediatamente que não tinha sido um sonho. Ela
vinha revivendo os acontecimentos do dia anterior repetidamente durante toda a noite.

Todos se moviam mecanicamente naquele dia, incapazes de reunir energia para fazer mais do
que sentar em silêncio na sala comunal ou beliscar seus pratos no salão principal. O castelo
inteiro estava de luto, subjugado e silencioso. Ninguém falava muito entre si.

Draco Malfoy tinha matado Dumbledore. Harry tinha contado a história inteira, detalhando
como eles haviam retornado da incursão à caverna, como Snape tinha vindo ao encontro dos
outros Comensais que Malfoy tinha deixado entrar no castelo, como o próprio Malfoy havia
lançado a maldição sem hesitação. Harry tinha assistido em horror, imobilizado abaixo,
enquanto o corpo de Dumbledore caía.

Hermione estava amarga de arrependimento e retorcida pela dor. Ela tinha se recusado a
acreditar no que Harry vinha insistindo sobre Malfoy o ano inteiro. Ele repetia sem parar que
Malfoy era um Comensal da Morte e estava tramando algo, que estava em uma missão. Ela
pensava que Harry estava paranoico, sua perspectiva nublada depois de anos de conflitos com
o lufano loiro. Ela poderia jurar que Malfoy não tinha esse tipo de escuridão dentro de si. Ela
achava que ele era apenas um garoto arrogante, mimado, rico.

Malfoy tinha se revelado o pior de todos.

Sua mente foi para as horcruxes e o quão impossível a tarefa parecia quando Dumbledore
ainda estava vivo.

O que diabos vamos fazer agora?

McGonagall pediu que Hermione se encontrasse com ela no dia seguinte ao funeral de
Dumbledore. Ela disse a Ron para arrumar o baú enquanto Gina e Harry saíam para
caminhar. Suspeitava que ele estava planejando terminar com Gina, mas manteve suas
opiniões para si pela primeira vez.
Ela duvidava que Harry fosse ouvi-la por um tempo.

Quando entrou na sala de Transfiguração, sentiu uma onda de melancolia ao pensar que
poderia ser pela última vez. Tinha ouvido que estavam discutindo fechar a escola.

— Recebi sua pulseira de volta do Ministério — começou McGonagall de imediato.


Hermione se sobressaltou. Tinha quase esquecido a pulseira, com tudo o que havia
acontecido.

— Isso deve significar que está livre de magia das trevas. Eles descobriram de onde veio?

— Não. Incluíram uma carta com detalhes sobre a singularidade do objeto, mas não havia
pista alguma sobre a identidade do remetente.

Minerva entregou a Hermione a pequena caixa de madeira e uma carta em pergaminho.


Hermione os aceitou, mas percebeu que McGonagall hesitava e estava escondendo algo.

— A senhora tem uma ideia, Professora? — perguntou diretamente. Não tinha paciência para
sutilezas depois dos últimos dias.

McGonagall franziu a testa, sua expressão mais severa que o habitual. — Um presente tão…
extravagante quanto este normalmente é dado como presente de cortejo. Um presente de
intenção, por assim dizer. Pelas famílias bruxas mais antigas.

McGonagall ergueu uma sobrancelha e observava Hermione cuidadosamente diante dessa


revelação. Foi a vez de Hermione franzir o cenho, ouvindo as palavras não ditas que
McGonagall deixara de fora.

— Eu não estou namorando um sangue-puro, se é isso que está perguntando — respondeu


secamente. — No clima político de hoje, duvido que alguém de uma das famílias antigas
ousasse.

— Não se subestime — sua professora a repreendeu, surpreendendo Hermione. McGonagall


apontou com a cabeça para a caixa e a carta nas mãos dela.

— Alguém passou por muito trabalho e despesa para isso. Vale uma pequena fortuna e muito
bem pode ser uma relíquia de família. Qual família, porém, ainda resta descobrir.

Hermione ficou boquiaberta. McGonagall se voltou para a mesa, um claro sinal de dispensa.
Ela enfiou a caixa e a carta na bolsa escolar e deixou a sala.

Sua mente fervilhava durante todo o caminho de volta ao dormitório. Uma família bruxa,
sangue-puro, antiga? Isso não parecia certo. Ela não estava namorando ninguém, não desde
Krum no quarto ano, e mesmo assim aquilo durara apenas alguns meses e nunca passara de
beijos. Definitivamente não estava no estágio de presentes de intenção com ninguém, muito
menos algum rebento da realeza bruxa.

Ao chegar ao quarto compartilhado, sentou-se na cama e fechou as cortinas. Depois de lançar


um feitiço de silêncio, puxou a caixa e a carta e começou a ler.
Passou os olhos pelas informações no topo do relatório sobre quem tinha examinado a
pulseira e quando. A pulseira era de prata, o que ela já havia percebido, e as pedras eram
obsidianas. Havia uma longa lista de feitiços de proteção nela que protegiam o usuário ao
colocá-la. Alguns dos feitiços Hermione nunca tinha ouvido falar antes e definitivamente
queria pesquisar para ver se poderiam ajudar seus pais. A pulseira estava imbuída para
protegê-la de todos os tipos de dano — agressões físicas, feitiços de estupor, até mesmo
maldições cortantes. Não podia ser transfigurada e era imune a Bombarda.

Quem diabos iria a esse ponto para protegê-la, anonimamente? Algum sangue-puro com uma
paixão secreta? Com esse nível de esforço, não iriam querer que ela soubesse quem era?

Havia duas linhas no final da carta que chamaram sua atenção.

Não protege contra as Maldições Imperdoáveis. Ela já sabia que nada podia proteger contra
essas, mas era um lembrete sóbrio do que tinha acontecido com Dumbledore poucos dias
antes. Um lembrete de que estavam à beira de uma guerra total, que ela estaria em constante
perigo enquanto ajudasse Harry em sua missão. Que talvez não saísse viva. Respirou fundo
para afastar esses pensamentos.

Nada de se afundar em autopiedade. Ela lançou os olhos para a última linha escrita na carta.

Feitiço de escuta — parece requerer ativação a partir de outra peça de joalheria e que a
pulseira seja usada simultaneamente. Tire-a se não quiser ser ouvida.

Seu sangue gelou. Um feitiço de escuta. Alguém queria poder ouvir o que ela estava fazendo.
Esse grande gesto de proteção vinha com um preço, pensou amargamente. Um pouco de
segurança em troca de informação.

Não era de se estranhar que tivessem se dado a tanto trabalho para protegê-la — ela tinha que
estar viva para que alguém pudesse ouvir qualquer segredo. Também explicava por que foi
enviado anonimamente. Não queriam que ela soubesse quem estava ouvindo.

Enojada, puxou as cortinas da cama e atirou a carta e a pulseira com raiva dentro do baú
escolar. Ela não era um canal de rádio que poderiam sintonizar quando quisessem uma
atualização. Decidiu não usar aquela maldita coisa a menos que fosse entrar em uma batalha.

Vocês podem ouvir as pessoas gritando — pensou sombria. — Eu não vou lhes dar nada.

Julho de 1997

Sua varinha de videira estava firme, a respiração medida e profunda. Só podia pensar na
tarefa à frente e não nas repercussões, no que significaria se sobrevivesse à guerra, ou em
qualquer outra coisa. Não podia pensar em como não haveria volta depois daquilo. Nenhuma
restauração de memórias, nenhum final feliz para ela e seus pais. Se a memória de Gilderoy
Lockhart não pôde ser restaurada depois de usar uma varinha defeituosa, as memórias de seus
pais não tinham a menor chance com a dela, perfeitamente capaz.
Não podia pensar em seu fracasso em encontrar outra opção, qualquer outra opção, para
mantê-los a salvo de Voldemort e suas forças. Suas noites insones de pesquisa, de contato
com outros bruxos, praticamente implorando por uma alternativa razoável. Nem mesmo
podia mandá-los embora sem alterar suas memórias, como McGonagall sugerira. Eles ainda
carregavam o sobrenome Granger, ainda tinham conhecimento sobre ela, magia e Harry.
Poderiam, acidentalmente, deixar escapar que tinham uma filha, Hermione, de volta na Grã-
Bretanha. Ela não podia correr o risco de alguém encontrá-los.

Não havia mais nada que pudesse fazer. Nenhuma outra opção.

Pense nisso. Somente nisso.

Não pense em aproveitar ao máximo as últimas semanas com eles. Absorver todo o amor e
carinho, tentar passar o máximo de tempo de qualidade possível. Ela desligando a TV e
insistindo para que jogassem um jogo de tabuleiro juntos. Passeios no mundo trouxa,
tentando capturar o maior número possível de lembranças felizes com eles, já que teriam que
durar por toda a vida.

Sem mais férias. Sem mais Natais. Sem mais abraços, vê-los discutindo de forma
brincalhona, lembrando-a de escovar os dentes...

Pare. Pare de pensar nisso.

Eles estavam de costas para ela. Ela tinha sua bolsa de contas com o Feitiço de Extensão
indetectável presa ao lado. Vestindo jeans e um suéter leve, ela ia fazer aquilo e aparatar
direto para a Toca. Podia fazer isso. Tinha que fazer isso. Não pense no que vai acontecer se
não fizer isso. Não há outra opção.

Hermione respirou fundo.

— Obliviate.

Ela se segurou tempo suficiente para aparatar até a Toca antes de desabar em lágrimas.

Molly a encontrou chorando no quintal, logo fora das proteções, completamente


inconsolável. Confusa, ela envolveu Hermione em um abraço. Molly tinha sido como uma
segunda casa por anos, e Hermione encontrou consolo na maciez e nos cheiros reconfortantes
da comida caseira que Molly oferecia.

Molly a conduziu para dentro da casa, gesticulando furiosamente para os gêmeos fazerem um
chá e chamando por Gina. Ela a acomodou delicadamente em um sofá e tentou persuadir
Hermione a lhe contar o que havia de errado.

Enquanto Hermione, entre soluços pesados e irregulares, revelava que tinha sentido a
necessidade de obliviarem seus pais, Gina se juntou a ela no sofá, do outro lado, e a envolveu
em um abraço feroz. As duas Weasley a seguraram por aquilo que pareceu horas, acariciando
suas costas e ouvindo Hermione repetir incessantemente que tinha que fazer isso, tinha que
fazer.
Gina tentou acalmá-la, assegurando-lhe que precisava ter feito algo ou eles teriam sido
mortos com certeza. Rony tinha lançado um olhar para ela, Molly e Gina e ficado ali,
desajeitado, sem saber como ajudar, antes de Gina mandá-lo embora com um gesto.

Quando, por fim, ela chorou até não restar mais forças e o ombro de Gina estava
completamente encharcado, Hermione recostou-se e começou a torcer a barra do suéter com
as duas mãos. Molly tinha se apressado para a cozinha quando um timer disparou, retornado
brevemente para empilhar alguns muffins sobre a mesa em frente ao sofá, e voltado em
seguida para a cozinha.

Gina estalou a varinha para secar a própria blusa imediatamente antes de entregar com
firmeza uma xícara de chá que os gêmeos tinham deixado sob um feitiço de estase.

— Esse é um feitiço útil — murmurou Hermione.

— Tenho praticado meus feitiços de alfaiataria. — A expressão de Gina se tornou maliciosa


quando lançou um olhar ao redor. Elas estavam sozinhas na sala, todos os outros Weasley
conspicuamente ausentes.

— Nem todos usei nas minhas próprias roupas. Quer ouvir algo que talvez anime você?

Hermione assentiu e conjurou um lenço, assoando o nariz. Gina abriu um largo sorriso.

— Ronald acha que está crescendo de novo.

Hermione soltou uma pequena risada descrente, a garganta rouca de tanto chorar. A peça de
Gina ajudou a aliviar sua tristeza por um momento, distraindo-a.

Gina examinou as unhas com uma sobrancelha erguida, batendo em uma delas com a varinha
para arrumar o esmalte lascado. — Acho que na próxima semana todas as calças dele podem
acabar ganhando rendas. Preciso praticar para o vestido que quero ajustar para o casamento
de Gui e Fleur.

Hermione lhe deu um sorriso úmido e balançou a cabeça. Gina terminou as unhas e deu um
tapinha em seu ombro.

— Você vai ficar bem por um tempo? Quero ver como está a mamãe, todo esse planejamento
do casamento a está deixando positivamente selvagem.

Ela assentiu e fez um gesto com a mão para Gina ir, sem confiar plenamente na própria voz.
Gina lhe deu um pequeno sorriso e se levantou, jogando o longo cabelo ruivo sobre um
ombro.

— Você devia comer algo. — Ela gesticulou em direção aos muffins.

Hermione estava o mais distante possível de sentir fome, mas pegou um para agradá-la. Gina
assentiu uma última vez antes de seguir para a cozinha. Hermione percebeu que havia um
feitiço de silêncio na sala, pois no instante em que Gina abriu a porta, ouviu-se uma
cacofonia de panelas batendo, Molly gritando e água correndo, tudo abruptamente cessando
assim que a porta se fechou.
Hermione se afundou de volta no sofá e suspirou, ainda com o muffin apertado em uma das
mãos. Não podia se entregar ao luto por muito tempo, havia coisas que precisava fazer.

A guerra não esperaria que ela superasse a dor.

Alguns dias após sua chegada à Toca, ela, Gina, os gêmeos, Molly e Arthur estavam sentados
tomando café da manhã. Rony entrou na sala de jantar, o rosto em um vermelho intenso, e
toda a conversa cessou de repente.

— Rony, o que você está vestindo? — perguntou Molly, incrédula. Ela havia parado no meio
de colocar ovos no prato de Arthur, a espátula suspensa no ar. Seus olhos se arregalaram. Os
gêmeos, sentados de frente para Hermione, pareciam ter ganhado o Natal antecipadamente.

As calças escuras de Rony pareciam alguns centímetros curtas demais para sua estrutura
desengonçada, e as mangas de sua camisa faziam da camiseta uma regata justa. Alguns
centímetros de estômago pálido e sardento apareciam entre o topo da calça e a parte de baixo
da blusa.

— Tô crescendo de novo — resmungou, as bochechas em chamas e sem olhar para ninguém.


— Nada serve.

Hermione cuidadosamente evitou os olhos de Gina, voltando o olhar para o prato enquanto
segurava um sorriso. Gina encarava Rony completamente impassível, as sobrancelhas ruivas
arqueadas bem alto.

Molly suspirou e balançou a cabeça, colocando os ovos no prato de Arthur. — Vamos ter que
arrumar alguns dos velhos trajes de gala do Gui. Com o estado atual do Beco Diagonal, não
sei se você conseguiria comprar alguma coisa.

Rony se sentou ao lado de Hermione e começou a se servir rapidamente de tudo ao alcance, a


expressão carrancuda. Ficava claro que não desejava uma repetição dos trajes herdados do
Baile de Inverno, mas também não havia muitas opções agora, com quase tudo no Beco
Diagonal fechado.

Arthur murmurou um agradecimento à esposa e acenou para Gina.

— Gina conseguiu arrumar alguns dos meus trajes antigos para o casamento, parecem novos
em folha! — elogiou, pegando garfo e faca. — Você poderia ajudar o Rony com alguns dos
do Gui?

Hermione tinha a nítida suspeita de que Arthur sabia que Gina era a causa dos problemas de
Rony, sua expressão inocente demais, o tom gentil demais. Ele havia criado Fred e Jorge, ela
reconheceu. Não era completamente cego às inclinações dos filhos.

Gina fitou o pai por um momento antes de ceder. — Está bem. Se encontrar um conjunto no
armário dele, eu dou uma olhada mais tarde.
— Valeu, Gina, você é a melhor — agradeceu Rony, animando-se. Começou a enfiar comida
na boca enquanto Hermione trocava olhares com Gina. Gina deu de ombros, um pequeno
sorriso nos lábios.

— ’Mione? Você tem um vestido? — perguntou Rony, interrompendo o ato de devorar o café
para cutucá-la com o cotovelo.

Ela assentiu. — Comprei um em uma loja trouxa antes de eu... antes de vir para cá. — Ela fez
uma careta e se calou.

— De que cor é? Você quer combinar comigo? Gina, você pode enfeitiçar uma camisa para
combinar com o vestido dela, não pode?

Ele não fazia ideia de como lidar com uma garota chorando, mas mantê-la acompanhada e
distraí-la era algo em que se saía bem. Hermione apreciou o esforço.

Ambos sabiam que iriam como amigos. Hermione estava feliz por nunca ter revelado sua
paixão por ele, e Rony parecia completamente alheio ao fato de que ela já tivera sentimentos
por ele. Ele sempre a tratara como tratava Gina — com afeição familiar, proteção e uma
saudável dose de medo.

Ela riu quando Gina ameaçou Rony com uma camisa rosa-choque. Rony se virou para ela,
horrorizado, esquecendo o café da manhã por um momento.

— Rosa-choque, Hermione? Sério?

— Relaxa — ela riu. — Gina nem sequer viu o vestido que comprei ainda. Não é rosa-
choque.

Ele pareceu tão aliviado que ela não conseguiu conter uma risadinha.

Agosto de 1997

Hermione estava dando os retoques finais em sua roupa para o casamento quando houve uma
batida na porta do quarto de Gina.

— Tá pronta? — Era Rony. Ele parecia elegante com os trajes encantados, a camisa em um
vermelho escuro que não combinava em nada com o vestido vermelho dela. Gina tinha dado
uma olhada na cor viva do vestido e declarado que vermelho vivo era uma cor horrível em
um Weasley e que não havia chance alguma de infligir aquilo a Rony depois de todo o
esforço de arrumar os velhos trajes de Gui. Ele teria que se contentar com um tom mais
escuro e ponto final.

Arthur também a tinha feito parar de encolher as roupas de Rony e devolvê-las ao tamanho
original. Fora uma semana agitada para Gina.

Hermione disse a Rony que precisava de mais alguns minutos. Depois que ele saiu, ela
conferiu novamente se a varinha estava no coldre e, em seguida, revirou a bolsa de contas
para se certificar de que ainda estava completamente cheia. Suprimentos de acampamento,
livros, poções e mais estavam entulhados no interior, fazendo-a se perguntar até onde iria
aquele feitiço de extensão. Sabia que algo estava por vir, mas não sabia quando, e estava
preparada há dias, só por precaução. Vigilância constante.

Enquanto remexia, os dedos roçaram em uma caixa escura de madeira familiar. Ela parou e a
puxou, tirando-a da bolsa e fitando-a. Tinha guardado ali depois da noite em que tinham
movido Harry, percebendo que deveria tê-la colocado no pulso assim que estivessem no ar.
Não ousara usá-la antes, com medo de que o plano fosse ouvido.

Não que fizesse diferença, pensou amargamente, lembrando-se da noite em que o tinham
tirado da Rua dos Alfeneiros. Eles já sabiam.

Ela abriu a caixa e encarou a joia que ainda não havia tocado de fato. Era um casamento, não
haveria troca de informações confidenciais em um ambiente em que seria tão fácil ser ouvido.
Duvidava que fossem atacados, mas o fato permanecia: a essa altura, qualquer coisa era
possível. Havia uma estranha tensão no ar nos últimos dias. Seus instintos a incitavam a
colocá-la.

Só por precaução — pensou, pegando-a. Tudo o que poderiam ouvir seriam algumas
bebedeiras e danças, talvez partes da cerimônia e dos discursos.

Ela a deslizou sobre a mão, e a pulseira imediatamente se ajustou ao seu pulso. Era
confortável, o metal estranhamente quente. Estava enfeitiçada para sempre parecer recém-
polida e brilhava em seu pulso, as pedras de obsidiana reluzindo. Ela não se sentia mais
protegida só por tê-la colocado.

Vigilância constante.

Hermione encontrou Rony e Harry no andar de baixo. Harry estava elegante em sua camisa
social e calças e fitava Gina com desejo do outro lado da sala. Tanto Rony quanto Gina
fingiam não perceber o comportamento óbvio de Harry. Gina conversava com Fred e Jorge,
enquanto Rony espanava fiapos imaginários de seus trajes.

— Sutil — comentou ela, acenando para Harry e entrelaçando o braço no de Rony. Rony
lançou um olhar na direção de Harry e fez uma careta.

— Queria que ele fosse mais sutil — resmungou. — Ei! — latiu de repente para Harry. —
Pronto pra ir?

Harry foi arrancado de sua contemplação de Gina em seu vestido transparente decorado de
forma elegante com renda preta. Gina tinha passado boa parte da semana finalizando os
detalhes da renda, certificando-se de que as partes importantes estivessem cobertas, mas
ainda deixando à mostra um toque de pele. Harry desviou os olhos de volta para Rony e
tentou agir como se não tivesse acabado de ser flagrado admirando descaradamente a irmã
dele.

— É, sim, vamos... vamos.


Capítulo 3

Agosto de 1997

No dia após o casamento de Gui e Fleur, os três estavam se mantendo discretos em


Grimmauld, esparramados na sala de estar e discutindo sem pressa seu próximo passo. Os
três vestiam roupas trouxas casuais, para desgosto anterior de Walburga. Hermione
vasculhava as profundezas sem fim de sua bolsa de contas. Harry havia lhe dado o medalhão
para tomar conta e ela estava organizando o conteúdo.

Preciso de um bolso para horcrux. — refletiu consigo mesma enquanto enfiava o braço até o
ombro. A pulseira estava guardada em sua caixa de madeira, escondida em algum lugar na
bolsa sem fim, enquanto os garotos discutiam sobre o Kreacher ao fundo. Além deles e de
Kingsley, que supostamente estava em algum tipo de reunião, a casa estava vazia.

O que explicava por que a voz abafada murmurando no hall da entrada foi ao mesmo tempo
inesperada e alarmante. Os três trocaram um olhar de pânico. Os garotos puxaram as varinhas
e foram em silêncio até a escada, escutando, enquanto Hermione rapidamente tirava o braço
da bolsa e sacava sua própria varinha, um compasso atrás deles. Eles desceram em silêncio os
degraus que levavam ao hall da entrada.

Havia apenas uma voz e definitivamente não era a de Kingsley.

— Aquilo é…? — Harry franziu a testa, ouvindo. As escadas, misericordiosamente, não


rangeram sob o peso combinado deles.

— De jeito nenhum — sussurrou Rony, os olhos se arregalando, quando ele e Harry


chegaram ao pé da escada um pouco à frente de Hermione. Os garotos pararam bem em
frente ao retrato de Walburga, as cortinas abertas, mas não esvoaçando como de costume, e
ficaram olhando.

O retrato de Walburga não estava gritando. Em vez disso, parecia estar arrulhando.

— Oh, ele é o mais maravilhoso, não é… não carrega o nome da mais Antiga e Nobre Casa
dos Black, não… mas o sangue dele é negro…

Ela estava sombria e deleitada, murmurando afagos sobre um novo visitante ao Largo
Grimmauld e sua aparente devoção ao lorde das trevas. Hermione parou, ainda nos degraus e
fora do campo de visão do retrato, caso quebrasse o encanto sob o qual ele estava e o fizesse
começar a gritar com ela como fizera mais cedo naquele dia. O tom de Walburga era quase
reverente e Hermione ficou grata por não poder ver, naquele momento, as expressões faciais
da velha bruxa.

Rony parecia prestes a vomitar.

A mente de Hermione girava enquanto os dois garotos pareciam hipnotizados pela estranha
declamação de Walburga. Kingsley estivera trancado na cozinha na última hora. Eles não
ouviam nada vindo daquela direção, o cômodo provavelmente tinha sido silenciado, mas
estava claro que ele tinha algum tipo de visitante de quem Walburga aprovava.

— Não tem como isso ter a ver conosco ou com o Kingsley — sussurrou Harry, claramente
seguindo a trilha de pensamento silenciosa dela.

— Quem mais estava na reunião? — ele perguntou, virando-se para Hermione com um ar
expectante. Ela deu de ombros, a expressão indicando que não tinha ideia, e ele voltou-se
para o retrato.

A expressão de Rony era de absoluta repulsa. — A Walburga está apaixonada. Acho que vou
vomitar.

Ele esqueceu de sussurrar.

Walburga interrompeu abruptamente sua tirada devota. Os olhos, que estavam fixos na parede
oposta, desfocados, voaram para Rony e se concentraram. As cortinas começaram a se erguer,
como se um vento invisível começasse a ganhar força. Harry suspirou e empurrou os óculos
de volta para o alto do nariz.

— TRAIDOR DE SANGUE IMUNDO! — Walburga começou a guinchar em seus tons


habituais. — VOCÊ NÃO MERECE O SANGUE QUE CORRE NAS SUAS VEIAS! VOCÊ
E AQUELE MEIO-SANGUE—

Hermione desceu o último degrau e começou a ajudar Harry a fechar as cortinas que batiam
furiosamente, enquanto o rosto de Rony passava por vários tons de vermelho. Walburga a
avistou e imediatamente mudou de foco.

— LADRONA! ESCÓRIA! COMO OUSA UMA SANGUE-RUIM POSSESSUIR UM


TESOURO TÃO VALIOSO DA CASA DOS BLACK!

Depois de mais algumas palavras escolhidas sobre Hermione, ela e Harry finalmente
conseguiram cobrir o retrato da velha matriarca Black. Hermione se voltou para Rony, as
mãos na cintura, ofegando levemente do esforço de domar as cortinas.

— Sério, Ronald?

Rony estava vermelho-beterraba e escolheu ignorar o tom dela. — Como é isso de um


tesouro dos Black?

Hermione bufou, nada impressionada. — Eu tenho o medalhão de Regulus na minha bolsa.


— Ela gesticulou para a dita bolsa, atualmente presa ao lado, e continuou a lhe lançar um
olhar sombrio.

— Falando nisso — Harry interrompeu, guardando a varinha —, acho que tenho uma ideia
para ele.

Eles discutiam os méritos de entregá-lo ao Kreacher quando Kingsley terminou a reunião. A


porta da cozinha foi escancarada e ele passou por ela a passos largos, parando ao ver os três
se acomodando perto do retrato.
Ele vestia seu esplendor habitual de vestes de cores fantásticas, mas sua presença estava
diminuída pelo cansaço. As últimas 24 horas, com a queda do Ministério, tinham cobrado seu
preço e Hermione não tinha certeza se ele sequer havia dormido. Ele esfregou os olhos antes
de cumprimentá-los e convidá-los para a cozinha.

— Não tenho muito tempo — começou, assim que todos se sentaram à mesa de madeira
marcada —, mas queria avisar vocês. Há… boatos… — Ele hesitou, os olhos ao mesmo
tempo cansados e tristes. Tirou o chapéu e passou as mãos sobre a cabeça raspada, os
cotovelos apoiados na mesa.

— Não há uma forma fácil de dizer isto — recomeçou, observando os três, baixando as mãos.
— A Comissão de Registro dos Nascidos-trouxas decidiu que simplesmente encarcerar
nascidos-trouxas e aplicar o beijo do Dementador neles é desperdiçar sua potencial utilidade
para o mundo bruxo. Eles elaboraram um novo programa para garantir que “cumpram todo o
seu potencial contribuindo para projetos de pesquisa aprovados pelo Ministério em conjunto
com o St. Mungo’s”. — Ele declarou a última parte com nojo.

— Isso não parece ruim? — Harry arriscou. — Pelo menos parece melhor do que o beijo de
um Dementador.

— Eles estão experimentando neles — devolveu Kingsley, plano. — Não temos certeza de
quais métodos exatamente estão usando, mas tudo até agora indica que estão torturando-os
em nome da ciência.

Houve uma inspiração coletiva e aguda do trio. Isso era algo que eles não haviam antecipado.
Prisão, sim, mas experimentos médicos? Definitivamente não.

— A nova posição oficial do Ministério é que nascidos-trouxas roubaram sua magia e um dos
boatos é que estão tentando ver se conseguem… reavê-la.

Hermione sentiu que não conseguia respirar, e Rony e Harry tinham empalidecido. Não era
possível tirar a magia de um ser mágico. Qualquer tentativa provavelmente seria dolorosa e
poderia causar danos permanentes. Hermione sentiu o estômago se revoltar e engoliu em
seco, impondo a si mesma que não passaria mal naquele momento.

— Outros boatos incluem tentativas de criar um supersoldado e, potencialmente, introduzir


um programa de eugenia.

— Um programa de quê? — As sobrancelhas de Rony se juntaram. Hermione engoliu a


saliva que se acumulava na boca por causa da náusea que crescia rapidamente.

— Eugenia é a prática de melhorar a espécie humana por acasalamento seletivo — respondeu


Hermione, vazia, automaticamente. — Seus defensores afirmam que isso “elimina” traços
indesejáveis da população, como deficiências ou doenças.

Kingsley assentiu, sombrio. — O programa afirma que levará à eliminação de squibs e


nascidos-trouxas por completo depois de algumas gerações.
Os três ficaram em silêncio, a atmosfera pesada enquanto absorviam o quão longe Voldemort
e companhia estavam dispostos a ir. Harry encarava a mesa, a expressão oscilando entre raiva
e determinação. Rony havia cerrado as mãos em punhos. Hermione levou a cabeça às mãos.
Ela não conseguia acreditar que existissem pessoas que apoiassem esse tipo de prática, que
realmente tratassem nascidos-trouxas de tal forma que suas vidas valessem praticamente
nada, como se nem fossem humanos.

Por outro lado, ela percebeu com clareza chocante, muito disso soava exatamente como o que
o mundo trouxa havia atravessado durante a Segunda Guerra Mundial. Também tinha sido
sobre pureza de sangue naquela época, e eles nem precisaram de uma divisão mágica para
torturar e massacrar os chamados “outros”. Ela ergueu a cabeça e prendeu o olhar no de
Harry, que agora parecia precisar bater em alguma coisa.

— Ele é realmente um maldito Hitler mágico.

Setembro de 1997

Rony dormia inquieto. O plano de fuga deles desabara quando tentaram deixar o Ministério e
Rony tinha ficado esfacelado. Hermione havia usado todo o seu ditamno para deixá-lo
confortável. Não tinha a intenção de virar o frasco inteiro, mas as mãos tremiam e havia tanto
sangue. Ela precisaria de mais, e em breve, se essa fosse a vida deles pelos próximos tempos.

Ela mencionou isso a Harry antes de sair para reforçar as proteções que havia erguido às
pressas mais cedo, enquanto Harry armava a barraca. Ainda vestia as roupas emprestadas que
usara para se passar por Mafalda Hopkirk e estava salpicada de sangue por ter curado Rony.
Ao terminar as proteções, arrancou a camisa externa, pois a visão do sangue a deixava
enjoada.

Harry saiu para se juntar a ela enquanto ela tirava a pulseira e amassava a camisa manchada
de sangue. — Então, onde estamos?

Hermione notou que sua camiseta por baixo estava limpa enquanto caminhava de volta em
direção à barraca para trocar de roupa.

— Nos bosques onde aconteceu a Copa Mundial de Quadribol — disse a ele por cima do
ombro. Ela ergueu a aba da barraca e foi até sua bolsa.

Eles discutiram o medalhão, e a súbita incursão de Harry na mente de Voldemort, antes de


irem dormir. Os três dormiram mal — Harry por causa da visão com Gregorovitch, Rony por
causa dos ferimentos e Hermione pelo estresse da fuga.

Houve um estalo de aparatação e Hermione despertou, o coração na garganta, mal


conseguindo conter um grito. Harry não estava em seu beliche, mas Rony ainda dormia no
dele. Ela saltou da cama, varinha em punho, e se aproximou furtiva da aba da barraca.

Harry não estava dentro da área protegida quando ela olhou para fora, mas havia um pequeno
embrulho. Ela vasculhou a área com os olhos e lançou um Hominum Revelio por garantia,
que também não detectou nada. Hermione deixou a barraca com cautela, encarando os
bosques que cercavam a área deles.

Ela havia erguido feitiços anti-aparatação. Ninguém deveria ter conseguido entrar na área em
frente à barraca por uns bons seis metros. Não havia etiqueta no embrulho, mas ele estava
envolto no mesmo papel preto da pulseira.

Ela se abaixou para pegá-lo e franziu o cenho. O relatório daquele auror indicara que não
havia feitiço de rastreamento na pulseira; como diabos eles sabiam onde encontrá-la? Eles
não poderiam ficar muito tempo ali; se esse benfeitor misterioso conseguia achá-los, os
Comensais provavelmente também conseguiam.

Hermione rasgou o papel e abriu a caixa, encontrando um grande frasco de ditamno. Ela
quase deixou cair.

Olhando freneticamente ao redor de novo, os pensamentos dispararam. Ela havia tirado a


pulseira antes de dizer a Harry onde estavam, ela sabia que sim, mas a pulseira ficara no
pulso durante toda a incursão ao Ministério, porque ela queria uma proteção extra caso tudo
fosse pelos ares. O que aconteceu. A pessoa devia ter ouvido o esfacelamento e seu
comentário para Harry sobre precisar de mais ditamno.

Uma figura se movendo à sua esquerda a fez lançar um feitiço de atordoamento, por pouco
não acertando Harry.

— O quê—? — Ele desviou do feitiço e ficou ali, boquiaberto para ela.

— Desculpa! — ela guinchou. — Só estou um pouco nervosa, só isso!

Ele assentiu, os olhos ainda arregalados, e empurrou os óculos de volta no nariz. Acenou com
a cabeça para as mãos dela. — O que é isso?

Ela engoliu em seco e olhou para baixo. Ainda não tivera a chance de lhes contar sobre a
pulseira ou seu novo benfeitor.

— Explico lá dentro — afirmou com firmeza, voltando para a barraca e fazendo desaparecer
as embalagens. Rony estava sentado, acordado e fazendo careta, claramente dolorido pelo
esfacelamento. Animou-se um pouco ao vê-los e mais ainda quando Hermione mencionou
café da manhã.

Durante o café, ela contou a Harry e Rony tudo sobre a pulseira — como a recebeu, como a
mandou investigar e se esqueceu dela, como só a recebeu de volta no dia seguinte à morte de
Dumbledore e depois não tivera chance de lhes falar sobre isso. Contou sobre as proteções e
o feitiço de escuta. Como a tinha colocado durante o casamento, mas a tirava durante
qualquer conversa que tivessem. Como não fazia ideia de quem a enviara.

Rony franziu o cenho e estendeu a mão para a pulseira. Ela passou para ele e explicou que
quem quer que tivesse a capacidade de ouvir devia ter escutado o esfacelamento e seu
comentário sobre o ditamno, e então enviara mais. Ela mostrou a Harry o frasco que era
facilmente cinco vezes maior que o pequeno vidro que usara no dia anterior.
— Então, quem enviou? — perguntou Rony, virando a pulseira nas mãos. As sobrancelhas se
ergueram enquanto ele a examinava e ele soltou um assovio baixo. — Parece um presente de
noivado.

Ela suspirou. — Não faço ideia. Como eu disse, a nota não estava assinada e ninguém me
disse nada. McGonagall também comentou que parecia um presente de intenção.

— Então você está noiva de alguém que não conhece?

— Eu não estou noiva, Ronald, sinceramente. — Ela arrancou a pulseira da mão dele e a
enfiou de volta na caixa. Empurrou a caixa de volta para dentro da bolsa.

— E o Krum? — perguntou Rony. — Poderia ter sido ele? Você nos trouxe para a floresta da
Copa Mundial de Quadribol, afinal.

Ela balançou a cabeça. — Pensei nisso. Não era a caligrafia dele no bilhete. — Eles tinham
trocado cartas durante o verão após o quarto ano, mas acabaram perdendo o contato. A escrita
refinada que acompanhara a pulseira definitivamente não era o garrancho quase ilegível do
Krum.

— Hermione, você considerou que isso pode ser uma armadilha? — perguntou Harry sem
rodeios. Era claro, pela expressão, que ele não estava confortável com aquele desdobramento.
Passou a mão pelo cabelo escuro, bagunçando-o ainda mais do que já estava, um gesto que
Hermione passara a associar com ele estressado.

— É claro que considerei — rebateu ela, ofendida. — Mandei investigarem. Eu tiro no


segundo em que começamos a falar. Só usei quando sei que pode haver problema, e houve
vezes em que simplesmente esqueci de colocar! — A noite em que moveram Harry, por
exemplo.

— Esse é o problema com problemas, você nem sempre sabe quando vão acontecer — disse
Harry. Ela assentiu.

— Eu sei. Prefiro não estar com ela e correr o risco de ser atingida por alguma coisa do que
entregar qualquer coisa sobre a nossa missão — respondeu com ferocidade. — Eu tomo
cuidado com o que digo quando estou com ela. Eles têm que estar sintonizados de qualquer
forma — não é como se pudessem ficar ali ouvindo 24 horas por dia, 7 dias por semana. Você
confia no meu julgamento, não confia?

Harry assentiu relutante, acrescentando uma concordância apressada em voz alta quando ela
o encarou ainda mais sério. Depois de todo o trabalho que ela tinha com os dois, se ele
dissesse que não confiava no julgamento dela, ela talvez o matasse antes que Voldemort
tivesse chance.

— Você sempre pode cantar — deu de ombros Rony. — Isso provavelmente os afastaria de
ouvir por um tempo. — Hermione transferiu o olhar zangado para Rony, cruzando os braços.

Harry claramente ainda estava cauteloso, mas resignado a aceitar a decisão dela, enquanto
Rony parecia não se importar. Quando Hermione, com sarcasmo, o questionou sobre a atitude
leviana, as orelhas dele ficaram cor-de-rosa e ele de repente achou a calça do pijama
incrivelmente interessante.

— É… ah… meio que um presente padrão de cortejo entre sangue-puros — coçou a nuca,
sem encará-la. — Muitas famílias têm algo parecido, embora não necessariamente tenham
camadas de feitiços protetores. A mamãe tem um anel que foi passado do lado dos Prewett,
mas é… é…

Ele se calou, corando ainda mais e voltando o olhar para o teto, claramente desconfortável.
Houve um murmúrio breve de “feitiço de fertilidade” e então ele ficou mudo.

Harry e Hermione travaram os olhos por um instante antes de, apressados, desviarem o olhar.
Ela pigarreou e imediatamente mudou de assunto para o fato de que precisavam mover o
acampamento com frequência e se agora não seria um excelente momento para fazer
exatamente isso.

Dezembro de 1997

A viagem de acampamento não planejada estava durando muito mais do que ela havia
antecipado originalmente. O inverno tinha chegado e o local mais recente ficava no meio de
uma área arborizada nevada e acidentada. Árvores com centenas de pés de altura bloqueavam
a maior parte da luz do sol, fazendo o dia parecer crepúsculo e a noite parecer que eles
sufocavam sob um cobertor escuro. De vigia, podiam ver a própria respiração a cada
expiração e tinham que relançar feitiços de aquecimento o tempo todo.

O moral estava no nível mais baixo de todos os tempos. Além do frio, os suprimentos não
estavam bons, revezar o uso da horcrux era difícil para todos, e os últimos boletins do rádio
eram angustiantes. O Potterwatch havia começado a confirmar ou desmentir os boatos em
torno dos experimentos da Comissão de Registro dos Nascidos-trouxas. Até agora, Voldemort
tinha falhado em produzir um supersoldado sem mente que obedecesse a todos os seus
comandos, mas isso não o impedia de tentar com afinco suficiente para matar os selecionados
para o programa.

Hermione franziu o cenho enquanto ouvia o último boletim. Estava sentada na entrada da
barraca, tendo assumido o turno de vigia da noite, observando a escuridão absoluta ao redor.
Harry estava sentado à mesa dentro e encarava, sem ver, o interior da barraca enquanto ouvia,
a postura curvada. Era a vez dele de usar o medalhão e ele, como de costume, estava quieto e
retraído.

Rony vasculhava seu pacote de Feijõezinhos de Todos os Sabores (“O QUE ACONTECE
com esses feijões?!”) e ignorava a transmissão. Normalmente ele não prestava muita atenção
até começarem a anunciar os que tinham falecido, desesperado para não ouvir os nomes da
família.

O locutor do Potterwatch alertava famílias com filhos gêmeos para serem especialmente
vigilantes, pois parecia que os experimentos mais recentes exigiam um grupo de controle
específico e gêmeos eram vistos como a melhor forma de medir certos efeitos. Rony ergueu
os olhos dos feijões, surpreso. Os olhos de Hermione se arregalaram.

— Ele arranjou um Mengele — sussurrou, o pânico tomando conta. Os olhos de Harry


deslizaram para ela enquanto Rony franzia o cenho.

— Um o quê? — perguntou Rony, confuso, a caixa de feijões momentaneamente esquecida


em uma mão.

— Da Segunda Guerra Mundial trouxa — esclareceu Hermione, trêmula e horrorizada,


voltando a olhar para fora. — Ele era um oficial médico que fazia experimentos em crianças
— gêmeos, especificamente. — Ela se recusou a entrar em mais detalhes, sem olhar para
nenhum dos dois.

— É como se ele tivesse um livro didático da Segunda Guerra e estivesse usando como guia
do tipo “como fazer” — comentou Harry, amargo, os olhos de volta à mesa. Hermione tentou
respirar fundo para aliviar o horror absoluto que sentia, uma mão na varinha e a outra cerrada
em punho. As unhas cravavam na palma da mão.

O locutor prosseguiu indicando que a Comissária aparentemente também decidira que certas
famílias bruxas “inaptas”, não apenas nascidos-trouxas, também seriam incluídas no
programa se fossem capturadas.

Rony ficara muito, muito pálido. — “Inaptas” — crocitou. — O que torna uma família
“inapta”?

Hermione balançou a cabeça, ainda se recusando a encará-lo. Não conseguia dizer. Como
alguns países no mundo trouxa haviam considerado a pobreza uma característica de
inferioridade genética. Como um programa de eugenia frequentemente envolvia
esterilizações em massa dos considerados indignos.

Como ser sangue-puro não impediria Umbridge de experimentar em Fred e Jorge, ou em


qualquer outro membro da família dele, se fossem presos.

O programa terminou com uma lista de mortos ou desaparecidos. Os desaparecidos, notou


Hermione com pesar, incluíam as gêmeas Patil. Nenhum Weasley foi mencionado, para o
profundo alívio de Rony. O trio ficou em silêncio enquanto Harry desligava o rádio e ia
dormir, sem dizer uma palavra. Rony parecia prestes a vomitar. Ele fez desaparecer a caixa de
Feijõezinhos, claramente desistindo deles de vez, e tomou o lugar de Harry à mesa, sentando-
se de lado na cadeira para poder encarar Hermione.

— Minha vez amanhã — disse Rony, acenando com a cabeça para as costas de Harry.
Quando ela não incentivou conversa, ele percebeu que ela não queria falar depois da última
rodada de notícias e deu boa-noite.

Hermione se esforçou muito, pelo resto do turno, para não imaginar o que aconteceria com
ela se fosse capturada.
O encontro deles com Grampo fora bastante esclarecedor. Hermione coçava para perguntar a
ele sobre a pulseira, mas não houve tempo antes de partirem para falar com um retrato.

Alguns dias depois tinham sido, muito provavelmente, o Natal mais miserável que Hermione
já tivera. Harry agora estava sem varinha depois da visita a Godric’s Hollow, Rony os
abandonara, não estavam mais perto de destruir a horcrux ou de encontrar outra, e já eram
meses trocando o local do acampamento a cada poucos dias. Ela estava sem ideias, sem
fôlego, e se sentia, naquele momento, mais deprimida do que quando era sua vez de usar o
medalhão.

Hermione notara que, nas poucas vezes em que usara o medalhão e a pulseira juntos, eles
pareciam se anular. Ela não se sentia tão desesperançada quanto se estivesse só com o
medalhão. Mencionara isso a Harry, mas ele desconfiava demais de quem quer que fosse o
remetente para considerar deixá-la usar ambos em tempo integral e insistira em continuar
com o rodízio. Ele não queria arriscar um deslize em conversa.

No dia seguinte ao Natal, era a vez de Hermione ficar de vigia logo de manhã. Ela tentava
não se afundar em pensamentos sobre o Natal anterior com os pais e como isso nunca mais
aconteceria quando sentiu os pelos da nuca eriçarem. Hermione ergueu um pouco a varinha
enquanto olhava ao redor, todos os sentidos em alerta máximo.

Houve um estalo alto de aparatação bem à sua frente e ela soltou um gritinho, assustada.
Lançou a varinha adiante e por pouco não acertou o pobre Kreacher com um feitiço bem
entre os grandes olhos carrancudos.

— Kreacher! — arfou, levando a mão ao peito sobre a jaqueta, obrigando o coração a


desacelerar. — Você quase me matou do coração!

— Kreacher desejava ter assustado a sangue-ruim até o fim… — ele começou imediatamente
a resmungar naquele tom escuro e mordaz que reservava para ela. — Por que ele tem que ser
forçado a trazer presentes para ela… sangue imundo… não merece—

— Kreacher — interrompeu ela, firme, sem querer saber que outras coisas imundas ele tinha
a oferecer. Normalmente sentia muita compaixão por elfos domésticos, mas naquele
momento sua reserva estava bem baixa. Não tinha desejo algum de ficar ali sendo insultada.
— Você tem algo para mim?

Ele a fulminou por interrompê-lo, mas lentamente estendeu uma caixa longa, fina e
retangular, embrulhada no familiar papel preto. Os olhos de Hermione se arregalaram ao ver.

— Onde você conseguiu isso? — exigiu, tomando-o dele e apertando-o contra si. — Quem te
deu isso? Quem te mandou aqui?

Um milhão de perguntas cruzavam a mente dela. O cenho franzido de Kreacher lentamente se


transformou em um sorriso oleoso e satisfeito. — Kreacher recebeu ordens para não
responder a nenhuma pergunta que a sangue-ruim imunda fizer.

Ele claramente se deleitava com as ordens. Ela estreitou os olhos e abriu a boca para chamar
Harry. Suspeitava que as ordens de Harry suplantariam as de quem o enviara, e planejava
fazê-lo interrogar Kreacher por ela. Assim conseguiria descobrir quem mandara a pulseira, o
ditamno e o que agora suspeitava ser uma varinha de reposição para Harry.

Antes que pudesse chamar, ele aparatou, desaparecendo com um estalo de chicote. Ela
franziu o cenho, furiosa, para o espaço onde ele estivera. Dois podiam jogar esse jogo —
faria Harry chamá-lo de volta assim que ele acordasse.

Quem mais, na Ordem, Kreacher realmente obedeceria? — perguntou-se. Teria que ser
alguém com acesso ao Largo Grimmauld, certo? Kreacher podia sair do Largo Grimmauld,
mas nunca parecia inclinado a isso a menos que recebesse ordens ou fosse convocado.
Hermione tinha quase certeza de que Harry era o único que podia chamá-lo.

Ela se deu conta de que ainda segurava a caixa que ele havia lhe dado e a examinou. Ao
desembrulhar e levantar a tampa, suas suspeitas se confirmaram. Lá estava, sem dúvida, uma
varinha longa e fina, e um pequeno cartão com seus detalhes. Madeira de pinho com núcleo
de pelo de unicórnio, 10 polegadas. Desta vez, diferente do ditamno, seu benfeitor também
incluíra um bilhete.

Não posso ajudar você quando você tira.

Ela bufou. Essa pessoa tinha que estar envolvida no mercado negro, ter ouro de sobra para
queimar, ou ter acesso a um fabricante de varinhas, porque varinhas estavam em curtíssima
oferta, segundo o Potterwatch. O núcleo de pelo de unicórnio fazia sentido — pelo de
unicórnio não era um bom núcleo para magia das trevas e a varinha provavelmente seria
último recurso para a maioria dos Comensais. Ainda assim, era um presente generoso em um
momento de necessidade desesperada, e ela estava muito, muito grata.

Isso não significava que passaria a usá-la quando estivessem tendo discussões sérias. Teriam
de se virar com as poucas informações que recebiam no momento.

Hermione colocou a varinha na barraca, cuidando para não acordar Harry, e voltou ao posto
de sentinela. Gostaria de ao menos poder agradecer ao benfeitor. Estavam claramente
tentando ajudar onde podiam e ela não fazia ideia de como entrar em contato para expressar
gratidão.

Talvez, ponderou, se eu disser obrigada em voz alta? Mas eles teriam que estar sintonizados.
Não havia indicação de quando estavam ouvindo. Ainda assim, ela tentou, murmurando um
pequeno “obrigada” na direção dela e imediatamente sentindo-se tola.

Quando Harry acordou pouco depois, ela lhe contou a história enquanto trocavam o
medalhão. Ele ficou radiante por ter outra varinha e rapidamente mudou o tom quanto ao
misterioso benfeitor, o humor melhorando dez vezes, entre tirar o medalhão e a varinha.

— Se estão me enviando uma varinha de reposição, então querem que a gente tenha sucesso
— admitiu. — Caso contrário, teriam apenas dito àquele-que-não-deve-ser-nomeado onde eu
estava e que eu estava sem varinha.

Ele imediatamente tentou chamar Kreacher, sem resposta, mas não pareceu surpreso por ele
não aparecer. Lembrou Hermione de como, anteriormente, ficara dias sem resposta de
Kreacher quando o mandara atrás de Mundungus.

— Talvez ele apareça mais tarde — deu de ombros. Ele estava nitidamente menos
incomodado com a identidade da pessoa do que ela.

Provavelmente porque ele não está potencialmente noivo de algum sugar daddy sangue-puro
que um dia pode cobrar a conta — pensou, azeda. Kreacher é melhor aparecer.
Capítulo 4

Dezembro de 1997

Os garotos estavam relatando a história incrível da espada de Grifinória, da corça e da


destruição da horcrux enquanto Hermione permanecia ali, meio ouvindo e meio tramando a
morte iminente de Ron.

Se ela tivesse tido quaisquer sentimentos românticos restantes por Ron, o completo abandono
deles por parte dele teria fulminado de vez qualquer último resquício. Ela estava furiosa e
magoada. Não num sentido de "como-ele-pôde-me-deixar", mas sim num sentido de "você-
deveria-ser-nosso-amigo". Num sentido de "estávamos-todos-nisso-juntos". Num sentido de
"você-nos-deixou-no-nosso-momento-de-necessidade". Como ele pôde simplesmente deixá-
la e Harry por conta própria durante uma missão impossível da qual ele deveria participar?!

Então ele simplesmente entrou de volta, sem sequer se dar ao trabalho de trazer para eles
quaisquer suprimentos ou algo útil que pudessem usar, e esperava que ela se comportasse
como se ele nunca tivesse ido embora. Que o recebesse de braços abertos e um sorriso
radiante e talvez até se derretesse pelo triunfo heróico dele de ter derrotado uma horcrux.

Que se dane isso. Ela nem tinha certeza se queria ser amiga dele depois disso, quanto mais
uma de suas parceiras nessa maldita guerra. Ele teria sorte de sobreviver à próxima hora, que
dirá receber qualquer tipo de elogio dela por suas ações.

Ela voltou silenciosamente para a cama, sem confiar em si mesma para falar. Sua pequena
piada sobre os pássaros a fez semicerrar os olhos. Sinceramente, parecia uma ideia excelente
bem agora. Só que desta vez não seriam pequenos pardais.

Não, se ela lançasse o feitiço agora, seriam emas.

Ela se acalmou imaginando um bando gigante de emas furiosas, asas enormes estendidas,
penas voando, silvando e perseguindo Ronald por toda a floresta fria e congelada enquanto
ele corria gritando por sua pequena vida sardenta. Ele provavelmente nunca tinha sequer
ouvido falar de emas e ficaria imensamente confuso e alarmado que uma ave tão enorme,
zangada e incapaz de voar sequer existisse.

Ela estava muito tentada.

— A Luna foi levada.

Eles estavam sentados juntos em silêncio na tenda para o café da manhã, aliviados pelo fato
de ninguém mais precisar usar o medalhão, quando Ron quebrou o silêncio.

Ele olhava para a mesa, os ombros ligeiramente caídos ao dizer aquilo. Hermione franziu a
testa, sem simpatia. Ela ainda estava com raiva dele, mas ele parecia um pouco mais abalado
com essa notícia do que ela teria considerado normal para um simples conhecido.
— Como? — Harry perguntou. — Quando?

— No Expresso de Hogwarts — ela estava indo para casa para as férias. — Ele respondeu
melancólico. O tom dele fez Harry e Hermione trocarem olhares de entendimento,
sobrancelhas erguidas.

— Sinto muito, Ron. — disse Harry, colocando uma mão em seu ombro. Ron assentiu e
suspirou.

— Ela simplesmente… não merece isso, sabe? Eu não sei para onde ela foi levada, se vai
acabar com a Comissão, ou— — Ele parou abruptamente e soltou o ar com força.

— Falando na Comissão, tenho outras notícias da Ordem. — Mudou de assunto, sacudindo a


cabeça levemente. Eles limparam a bagunça do café da manhã e começaram a desmontar a
tenda em preparação para outra mudança.

— Eles estão considerando guerra biológica. Acho que estão tentando encontrar algo que
afete apenas nascidos-trouxas e trouxas e acabe com eles. Algo sobre fazer um panini? Não,
um pen-sick? Qual era a palavra que Kingsley usou—

Hermione engasgou e deixou cair os Contos de Beedle, o Bardo, que estava prestes a guardar.
— Ele vai fabricar uma pandemia? — perguntou, apavorada, apoiando as mãos na parede da
tenda à sua frente.

Ron gesticulou para ela. — Essa mesma. O plano é eliminá-los todos de uma vez só. O boato
é que ele não está tendo muito sucesso; até agora, tudo o que tentou também matou sangue-
puros.

— Mas é claro que mataria! — Hermione exclamou indignada, endireitando-se. — Nós não
somos uma espécie diferente! Ele vai acabar criando outra Peste Negra que mata todo
mundo! Sabe como os trouxas lidaram com isso? Trancando as pessoas em suas próprias
casas e queimando-as até o chão!

Ela agora desabafava furiosamente, horrorizada e chocada mais uma vez com as táticas de
Voldemort. Depois de alguns minutos de explodir em fúria sobre várias epidemias históricas,
percebeu que nenhum dos garotos estava lhe dando atenção e estavam, ao invés disso,
conversando entre si.

— Qual é a dos trouxas com o fogo? — Ron estava perguntando a Harry. — Achei que eles
só queimassem bruxas.

Harry deu de ombros. — Os bruxos são tão ruins quanto — que tipo de pessoa olha para um
fogo escaldante e decide que ficar em pé dentro dele e gritar seria o jeito perfeito de viajar?

— Melhor do que ficar preso numa caixa de metal bem acima do chão, seja lá como se
chamam aquelas coisas. Parecem armadilhas mortais.

— Parece o carro do seu pai. — apontou Harry, agitando sua nova varinha para arrumar as
camas. As sobrancelhas de Ron se ergueram.
Hermione lançou para os dois um olhar sujo antes de, furiosa, agitar sua varinha em direção à
cozinha. Os utensílios, pratos e outros apetrechos de cozinha se chocaram uns contra os
outros em sua pressa para serem guardados pela força de seu feitiço.

— Às vezes ela me lembra o Salgueiro Lutador. — Ron sussurrou teatralmente para Harry
depois dessa cena. Ela os ignorou por todo o processo final de empacotar, se deslocar e
montar o novo acampamento.

O novo local que ela escolhera ficava mais ao sul do que o anterior. Ainda fazia frio, mas
menos, e pelo menos nesta área não havia neve. A floresta era densa e exuberante mesmo
nessa época do ano, as árvores tão grossas quanto a mesa de cozinha deles. Ela não queria
deixar a Floresta de Dean e as memórias reconfortantes de seus pais, mas sabia que não
podiam ficar muito tempo em um só lugar.

Ron explicou sobre o tabu no nome de Voldemort e eles concordaram que precisavam de
mais informações sobre onde conseguir a próxima horcrux. Ron insistiu em visitar Xenofílio
Lovegood, o que fez Harry e Hermione se comunicarem silenciosamente sobre suas
motivações por meio de olhares carregados que Ron escolheu não interpretar. Decidiram ir no
dia seguinte falar com ele.

Os pensamentos de Hermione voltaram para seu benfeitor enquanto estava deitada na cama
naquela noite — era a vez de Ron montar guarda naquela noite. Ela estava frustrada por não
ter a menor ideia de quem fosse. Nenhuma pista sobre idade, gênero, aparência, nada. Tudo o
que tinha eram uma bela caligrafia e a alta probabilidade de ser um sangue-puro rico.

Ela reconhecia que era bom que alguém claramente se importasse o bastante com ela para
achar que ela merecia tanto proteção quanto ajuda. Harry e Ron a procuravam por respostas,
para ajudá-los a resolver problemas, e a tratavam como a mulher forte que ela era. Ela
apreciava isso e não queria que a tratassem como uma donzela em perigo — Hermione era
ferozmente independente e sabia disso. Ela não gostava de pedir ajuda se pudesse resolver o
problema sozinha. Mas, por outro lado.

É meio bom que alguém esteja ouvindo o que eu preciso, admitiu para si mesma enquanto
pegava no sono. Eu nem preciso pedir, eles apenas ouvem e entregam.

Seu último pensamento antes de adormecer foi que Monstro ainda não tinha aparecido.

Março de 1998

O último episódio da Pottervigilância com “Rio” e “Rômulo” tinha deixado Harry muito
animado, até que anunciaram que Percy Weasley fora levado pela Comissão por ser
considerado um sangue-puro “inapto”, junto com uma família nascida-trouxa de cinco
pessoas. Harry e Ron ficaram quietos e soturnos depois disso.

Hermione mexia distraidamente na pulseira enquanto ouvia, sem usá-la, mas também sem
guardá-la, procurando pistas. A prata era lisa, as gemas de obsidiana brilhando, nenhuma
marca de fabricante visível no verso. Ela a aproximou do rosto, girando-a lentamente caso
tivesse perdido algum detalhe.
Harry começou a falar sobre a varinha das varinhas, ainda tentando convencê-los sobre as
Relíquias da Morte, seu vigor no assunto renovado depois da notícia perturbadora sobre
Percy, quando disse o nome de Voldemort.

Ela gritou para detê-lo, mas já era tarde. Houve um estalo ensurdecedor do lado de fora da
tenda e então ela estava apontando sua varinha para Harry, lançando um Feitiço Fustigante,
enfiando a pulseira no braço e puxando a manga por cima, e então eles estavam cercados.
Houve uma breve troca enquanto Greyback tentava descobrir quem eram e então eles
estavam sendo aparatos, e a próxima coisa que Hermione soube foi que estavam encarando o
olhar escrutinador de Narcisa Malfoy.

Mansão Malfoy. Percebeu com terror. Eles estavam ferrados.

Foram arrastados para uma sala de visitas onde Lucio e Draco Malfoy esperavam. Todos os
três Malfoy estavam vestidos como se fossem se sentar para um jantar elaborado. Lúcio e
Narcisa usavam vestes de gala pretas, as de Narcisa esvoaçando com seus movimentos
rápidos, quase nervosos. Draco vestia um terno preto simples e uma camisa social preta. Suas
sobrancelhas se uniram ao vê-los.

A pressão sanguínea de Hermione disparou ainda mais. Narcisa havia chamado o filho para
identificá-los. Draco a reconheceria e a Ron com certeza e saberia que era Harry sob o
inchaço. Ele o identificaria. Era isso, pensou freneticamente. Estava acabado. Voldemort
venceria.

— E então, garoto? — rosnou Greyback. Draco lhe lançou um olhar que calou o lobisomem
na hora. Fitou Greyback até que o lobisomem desviasse os olhos e abaixasse a cabeça, ainda
que ligeiramente. Hermione registrou essa mudança de hierarquia com ainda mais alarme.

Mas o quê…?

Ela não via o jovem Malfoy de tão perto desde o encontro na ala hospitalar. Ele ainda parecia
magro demais para ela, mas estava definitivamente mais alto e sua postura havia mudado
completamente. Não mais um escolar lamurioso e zombeteiro, mas agora um homem
imponente e bastante intimidador. Ele passara de parecer a presa, a parecer o predador.

A mudança no jovem Malfoy a deixou ainda mais nervosa. Ela sucumbiu novamente ao
pânico quando ele se aproximou de Harry. Os olhos de Draco se estreitaram, avaliando cada
centímetro dele enquanto Lúcio perguntava animadamente, repetidamente, se era Harry
Potter.

Outro olhar de Draco, desta vez por sobre o ombro, silenciou também Lúcio. Hermione
percebeu, desesperada, que Draco parecia estar no comando daquele pequeno grupo, sua
posição aparente dramaticamente diferente do que ela esperava.

Desde quando ele está no comando?

Ele continuou a avaliar Harry em silêncio por um momento antes de se virar para Greyback.
— O que você fez com ele? — perguntou friamente ao lobisomem. — É difícil dizer quem
ele é nesse estado.

Quando o lobisomem negou qualquer envolvimento na aparência de Harry, Lúcio sugeriu que
parecia um Feitiço Fustigante. Narcisa examinava a varinha de Harry e indicou que não era
aquela pela qual ele era conhecido, sua expressão duvidosa. Lúcio espelhou a expressão da
esposa, claramente incerto se deveriam chamar Voldemort.

— Se não tivermos absoluta certeza, não podemos chamar o Senhor das Trevas. — Draco
dizia, gélido. — Não me agrada a ideia de ficar sujeito ao tratamento de Dolohov e Rowle
caso o decepcionemos. Isso pode ser um truque como o incidente dos múltiplos Potters em
julho passado.

— E quanto à sangue-ruim, então? — rosnou Greyback. Narcisa confirmou a identidade de


Hermione, reconhecendo-a da Madame Malkin. O coração de Hermione parou antes de
retomar no que parecia ser o triplo da velocidade normal.

Draco concordou com a mãe e também apontou quem era Ron. Ele percorreu sua aparência
de cima a baixo com uma sobrancelha loira erguida. Os últimos oito meses na fuga não
tinham sido gentis com ela. Estava abaixo do peso, seu cabelo era um desastre por dormir na
tenda, suas roupas rasgadas e sujas. Ela havia evitado qualquer arranhão e corte na pele
devido ao tratamento bruto de Greyback graças à pulseira. Os olhos dele estavam subindo de
volta pelo corpo dela quando pararam em uma de suas mãos.

Ela arriscou um olhar para baixo e viu a pulseira espiando debaixo de uma manga, sua
posição desalojada por toda a manipulação. Seus olhos rapidamente voltaram para os dele,
agora em pânico de que ele pudesse reconhecê-la e saber.

Ele inclinou o rosto para o lado como se fosse estalar o pescoço, ainda encarando a mão dela,
antes de se virar completamente para longe dela. Pareceu tomar uma decisão e abriu a boca
para falar, mas antes que pudesse dizer uma palavra, uma voz aguda, açucarada e doentia
soou, fazendo Hermione suar frio.

— O que é isso, Draco?

Bellatrix Lestrange entrou na sala de estar. Ela circulou lentamente em volta do trio e parou à
direita de Harry, encarando Hermione por sob as pálpebras pesadas. Seu vestido preto estava
rasgado em alguns pontos, acentuando seu aspecto esquálido de completa insanidade.

— Mas com certeza esta é a menina sangue-ruim?

— Sim, isso nós já estabelecemos. — arrastou Draco num tom entediado, mas Bellatrix
pareceu não tê-lo ouvido. Ela encarava algo fora do campo de visão de Hermione, atrás de
Harry. Bellatrix de repente se moveu na direção do que quer que fosse.

— O que é aquilo?! — ouviu-a dizer. Houve uma breve troca com um Ladrão de Varinhas
por causa da espada que terminou em lampejos de luz vermelha e todos os Ladrões de
Varinhas atordoados, exceto Greyback, contra quem ela imediatamente se voltou, exigindo
saber onde a havia encontrado. Greyback rosnou de volta para ela.
Bellatrix ordenou que Narcisa levasse os prisioneiros para o porão enquanto ela encarava a
espada de Grifinória, evidentemente pensando rápido. Narcisa se empertigou, indignada por
receber ordens em sua própria casa, e Bellatrix começou a gritar com ela.

— Faça isso! Você não tem ideia do perigo em que estamos! — guinchou Bellatrix. Ela
parecia assustadora, louca; um fino jato de fogo saiu de sua varinha e queimou um buraco no
tapete.

— Esperem — disse Bellatrix, bruscamente. — Todos, exceto… exceto a sangue-ruim.

Ron começou a gritar para levarem a ele em seu lugar enquanto Hermione sentia o sangue
deixar seu rosto e extremidades tão rápido que ficou tonta. Não desmaie, não desmaie.

Ron gritava seu nome, o som ficando mais fraco quanto mais longe eles iam. Bellatrix virou-
se repentinamente para ela, exigindo saber onde encontrara a espada.

Hermione afirmou que era uma cópia e Bellatrix imediatamente começou a lançar Cruciatus
nela.

Seus nervos estavam em fogo, seu estômago cheio de facas. Sua cabeça certamente se abria
ao meio, todas as veias estourando de uma vez. Ela nunca havia sentido dor tão intensa e se
deu conta de que estava gritando. Aquilo nunca iria acabar, as sensações de perfurar, rasgar e
queimar.

Quando Bellatrix suspendeu o feitiço, Hermione não tinha certeza se tinham sido cinco
minutos ou cinco horas.

Ela jazia ofegante no tapete, não totalmente certa de quando tinha caído, mas a dor na parte
de trás do crânio indicava que não fora uma aterrissagem suave. Hermione engoliu grandes
golfadas de ar. Sua pele parecia em chamas, ardendo e doendo. Ela era incapaz de se mover.
Depois de alguns minutos, tomou consciência de uma discussão entre os três Malfoy e
Bellatrix.

— …precisamos dela sã, Bella, se você realmente quer informação.

— Ela está mentindo! Ela esteve dentro do meu cofre em Gringotes! — Bellatrix guinchava.

— Esta pode nem ser a verdadeira Granger. — Era Draco agora, ela percebeu. — Esses três
são conhecidos por usar Poção Polissuco para alcançar seus objetivos. Isso explicaria a
aparência toda ferrada do Potter — a poção pode ter começado a perder o efeito.

— Não podemos esperar a Polissuco acabar! — Hermione arriscou abrir os olhos. Bellatrix
delirava agora, cuspe voando enquanto gesticulava freneticamente com a varinha. — Isso não
pode esperar mais um momento!

Então Bella estava sobre ela, uma faca agarrada nas mãos, puxando seu braço para longe do
corpo e prendendo-a ao chão. Bellatrix sibilava perguntas para ela, mas tudo o que Hermione
conhecia era dor. Bellatrix praticamente se sentava sobre ela enquanto dilacerava seu braço.
Hermione gritava e se debatia sob ela, tentando expulsá-la. Parecia que ela cortava seu braço
fora, a dor excruciante enquanto Hermione soluçava e implorava que parasse.

Quando Bellatrix finalmente terminou, Hermione voltou a jazer no chão, completamente


esgotada a ponto de nem conseguir chorar. Ela não conseguia mover os membros e
permaneceu imóvel, mal ouvindo a discussão entre os outros quatro ocupantes da sala.

De repente, Draco estava à frente de sua forma prostrada, sua expressão dura emergindo no
campo de visão. Ele a agarrou pela frente do suéter com uma mão e ergueu com rudeza seu
corpo inerte um tanto ereto, a varinha apertada na outra e apontada para a cabeça dela. Ela
não tinha mais nada para resistir fisicamente. Ela nunca tivera medo de Malfoy antes e, se
tivesse energia suficiente para se importar, talvez tivesse se encolhido diante do olhar em seu
rosto.

— Legilimens.

Ela pôde senti-lo deslizar para dentro de sua mente e começar a olhar memórias, vasculhando
como se procurasse algo específico. Ele descartou as mais recentes dela na tenda com os
garotos, mas parou sobre sua interação com Monstro. De repente mostrou-se muito
interessado em sua pulseira e em seu benfeitor e passou rapidamente a examinar seus
pensamentos sobre quem poderia ser, procurando pistas sobre sua identidade. Ela estava fraca
demais para resistir e permaneceu mole em seu aperto, ainda sangrando ativamente do
ferimento no braço, deixando-o focar no benfeitor enquanto desesperadamente tentava não
pensar em uma certa palavra com H.

Ele parecia revisitar certas memórias repetidamente, mas ela já estava além de prestar
atenção. Sentia-se escorregar rumo à inconsciência e quase ansiava pelo alívio que desmaiar
proporcionaria.

Ela mal estava acordada, apenas vagamente ciente de uma comoção acontecendo e então, de
repente, foi puxada para a vertical com uma faca em sua garganta. Seus músculos gritavam
de protesto e ela mal conseguia sustentar o próprio peso enquanto Bellatrix puxava sua
cabeça para trás. Ela fechou os olhos.

Bellatrix gritava algo, mas ela não conseguia entender. Havia muitos gritos e confusão
acontecendo e ela não conseguia ordenar a bagunça em sua mente. Hermione abriu os olhos e
registrou cabelo ruivo de repente à sua frente antes de o mundo ficar preto.

Quando Hermione finalmente acordou, deu por si em um quarto desconhecido. Ela lançou
um olhar ao redor, o corpo inteiro dolorido e latejante, e absorveu o ambiente.

Havia cortinas diáfanas nas janelas, a luz lá fora entrando forte e quente. As paredes eram
pintadas de uma cor neutra e as decorações pelo quarto envolviam algum tipo de concha ou
tema de praia. Havia duas camas, uma das quais era a em que ela estava deitada, e uma
escrivaninha espremida no cômodo pequeno. A escrivaninha sustentava as roupas que ela
usava quando foram apanhados pelos Ladrões de Varinhas, a pulseira repousando
inocentemente no topo da pilha.
Então, não era a Mansão Malfoy.

Ela se ergueu devagar, a cabeça girando, músculos protestando, e tentou ordenar o caos na
mente. A última coisa de que se lembrava era de Bellatrix dilacerando seu braço. Depois
disso, tudo era turvo. Não tinha certeza de onde estava ou como chegara ali. Assim que a
visão clareou, ela balançou as pernas para fora da cama e ficou sentada por um momento,
decidindo se realmente queria se levantar ou não.

Ela vestia pijamas desconhecidos, cujas mangas curtas revelavam um curativo ocupando a
maior parte do braço esquerdo. Ela podia sentir o ferimento por baixo, ainda coçando e
dolorido. Olhou para a pulseira sobre a escrivaninha e lhe lançou um olhar carrancudo.

Eu achei que você deveria proteger contra dano físico?

A porta do quarto se abriu e o rosto de Ron espiou para dentro. Ele sorriu de leve ao vê-la
acordada e ela deixou cair o cenho para lhe oferecer um pequeno sorriso.

— Oi — disse ele com gentileza. — Trouxe comida para você. — Ergueu uma bandejinha
com sopa e pão antes de pousá-la sobre a escrivaninha.

— Onde estamos? — ela grasnou, a garganta áspera de tanto gritar. Ron lhe entregou a sopa e
uma colher.

— Chalé das Conchas. — Ele explicou sobre a casa de Gui e Fleur. A seu pedido, contou as
partes da história que faltavam, como escaparam e a morte de Dobby, insistindo o tempo todo
para que ela terminasse a sopa.

Ela não se lembrava de Malfoy ter realizado legilimência nela, mas Ron indicou que eles
pegaram o final dele vasculhando sua mente. Ela realmente esperava que ele não tivesse
descoberto sobre as horcruxes, que não tivesse visto aquelas memórias, especialmente se
agora ele fosse algum tipo de Comensal da Morte de elite no mesmo nível de Bellatrix.

— A Fleur fez o melhor que pôde com… — Ron gesticulava para o braço enfaixado dela. —
Acho que a lâmina tinha algum tipo de encantamento das trevas. A cicatriz… pode ser que
não… — ele deixou a frase morrer, com expressão de dor.

Hermione deu de ombros. — Eu já tenho algumas cicatrizes. Tudo bem. — Ron puxou o ar e
o prendeu, claramente querendo dizer mais alguma coisa.

— O quê? — ela perguntou, ficando preocupada. — O que foi?

— Você viu? — ele perguntou, apreensivo. — O que ela escreveu?

— Escreveu? — Sua voz subiu várias oitavas e suas mãos começaram a tremer. — Ela
escreveu alguma coisa no meu braço?

Ao ouvir isso, ela começou rapidamente a desenrolar a bandagem, ignorando os protestos de


Ron. Quando a gaze saiu por completo e ela viu as marcas vermelhas e furiosas pela primeira
vez, ela ofegou.
Sangue-ruim.

Era de um vermelho profundo e ocupava boa parte do antebraço. Ela ficou atônita,
horrorizada com a possibilidade de aquilo não sumir devido a seja lá o que a lâmina tivesse
absorvido. Ela teria de usar um rótulo literal do seu status de sangue, potencialmente pelo
resto da vida, que ficaria em exibição pública sempre que usasse mangas curtas. Um lembrete
cru de que ela era inferior, uma “outra”.

Ela voltou os olhos arregalados para Ron. Fazia sentido por que a pulseira não conseguira
protegê-la agora. Ela pode ter sido enfeitiçada para proteger contra dano físico, mas se
Imperdoáveis conseguiam atravessar, claramente outros objetos sombrios também
conseguiam. Ela não a envolvia em uma bolha perfeita e segura e ela sabia disso, mas isso
não impediu que se sentisse um pouco traída por ela.

Ela se sentiu desfigurada e, em seguida, imediatamente sentiu vergonha por se sentir assim.
Sabia que outras pessoas sofriam coisas muito piores nas mãos tanto de Voldemort quanto da
Comissão, mas uma parte dela lamentou sua própria vaidade. Ela não queria ser um anúncio
ambulante.

Hermione subitamente exigiu suas meias de Ron, que lhe lançou um olhar muito estranho e
não fez menção de obedecer. Ela suspirou, impaciente, antes de explicar que havia enfiado a
bolsa nas meias quando foram pegos pelos Ladrões de Varinhas para evitar perdê-la. Ele
entregou lentamente o monte de roupas, ainda com aquele olhar estranho, como se esperasse
que ela ou desatasse a chorar ou começasse a atirar coisas a qualquer momento.

Ela encontrou sua bolsa e remexeu dentro, localizando a caixa de madeira escura. Enfiou a
pulseira de prata lá dentro e atirou a pulseira e suas roupas sujas de volta na bolsa, bufando de
raiva para si mesma, antes de tirar uma muda de roupa limpa.

— Saia. — disse a Ron em tom seco. — Eu te encontro lá fora em um minuto.

Ficou claro para Hermione depois de apenas algumas horas que Ron estava enfeitiçado por
Luna. Se o sentimento era correspondido, ela não tinha certeza, porque Luna era
incrivelmente difícil de ler e ainda mais difícil de arrancar uma resposta direta. Ron não
parara de falar sobre ela a manhã inteira e de repassar sua parte no ousado resgate, dando-lhe
um relato palavra por palavra de tudo o que Luna lhe dissera nas últimas 24 horas e querendo
analisar isso.

Ela estava com dor, subalimentada, exausta e, no geral, simplesmente não tinha paciência
para esse comportamento. Ela arrastou Harry para longe de uma discussão com Grampo para
tomar conta do Weasley apaixonado, dizendo a Harry para vir procurá-la quando a poção do
amor tivesse passado. Ela nem queria tentar conversar com Luna, realmente não estava com
humor para ouvir sobre Espectadores ou Espectrocos ou fosse lá o que fosse.

Entre as discussões com Grampo e os outros, o trio passou alguns dias se recuperando no
Chalé das Conchas. Estar na presença de alguns membros da Ordem significava uma
atualização sobre a guerra que não vinha da Pottervigilância, e os três estavam ansiosos para
ouvir as notícias que pudessem.
Nenhuma das notícias era boa. Gui indicou que alguns dos experimentos em sangue-puros
feitos pela Comissão tinham sido um sucesso retumbante para as forças do Lorde das Trevas.
Alguns Comensais da Morte eram imunes a feitiços atordoadores. Outros eram imunes a
determinados feitiços menores e não havia como saber a que cada pessoa era imune, tornando
o combate extremamente difícil. Você não sabia o que iria ou não funcionar contra o seu
oponente. Não havia garantia de que, se seu feitiço atingisse o alvo, teria qualquer efeito.

E havia também o que a Ordem chamava de Fulminadores. Forças do Lorde das Trevas que,
quando encurraladas, explodiam em magia. Podiam atordoar uma área inteira de uma só vez
e a energia não se disseminava entre amigo ou inimigo. Os Fulminadores também não
pareciam limitados a atordoar. Havia relatos de outros feitiços irrompendo deles —
Immobulus, Incarcerous e, em um caso horrível, Sectumsempra. As explosões também não
matavam a pessoa, que era capaz de explodir repetidamente. Não estava claro se os
Fulminadores realmente tinham controle sobre as explosões ou se era algum tipo de magia
instável.

A Ordem estava perdendo gente, e rápido, por causa desse novo tipo de combate. Eles
vinham tentando conseguir informações sobre como os Fulminadores eram feitos, para ver se
havia alguma forma de neutralizá-los, mas não conseguiam nada nem em St. Mungus nem na
Comissão. Umbridge comandava tudo com mão de ferro e ninguém estava disposto a falar.
As ordens atuais eram evitar combate corpo a corpo sempre que possível até que
conseguissem pensar em um jeito de revidar. A Ordem relutava em aprovar o uso da
Maldição da Morte, mas Hermione não tinha certeza de que conseguiriam continuar muito
tempo sem ela.

Para piorar, Fred e Jorge tinham sido presos no dia anterior pelo Comitê de Registro dos
Nascidos-trouxas. A razão não era exatamente clara, mas o trio sabia que Umbridge os tinha
na mira desde a exibição de fogos de artifício deles. Como Umbridge chefiava a Comissão,
eles esperavam que ela realmente não precisasse de um motivo para prendê-los.

O que preocupava Hermione era que ambos tinham sido presos, juntos. Uma vez que alguém
era enviado para participar dos experimentos em andamento, a Ordem não conseguia mais
nenhuma informação sobre essa pessoa. Todos sabiam que Umbridge vinha ativamente
procurando gêmeos para algumas de suas “pesquisas”.

A falta de informação não surpreendia completamente Hermione. Umbridge provavelmente


usava táticas altamente questionáveis para garantir o sigilo e, pelo que ela se lembrava de ter
aprendido sobre a segunda guerra mundial trouxa, muitos dos detalhes sobre o Holocausto
não surgiram até depois do fim da guerra. Os oficiais sabiam, mas a pessoa comum não.

Eles permaneceram no Chalé das Conchas por algum tempo, reunindo informações e
tentando planejar como entrar em Gringotes. Ron estava abatido entre as notícias dos gêmeos
e o eventual retorno de Luna a Hogwarts. Harry parecia um homem possuído — ele, mais do
que qualquer um, queria que essa guerra acabasse. Planejavam tomar Polissuco, Hermione
como Bellatrix já que agora tinha a varinha dela, ao menos para passar pelo primeiro
conjunto de portas.

Hermione não colocou a pulseira de volta. Não era racional, ela sabia, mas sentia-se um
pouco traída por ela, irritada com sua incapacidade de protegê-la de Bellatrix. Também estava
um pouco ressentida com quem quer que a tivesse enviado. Ainda não fazia ideia de quem
fosse e, no momento, não tinha particular interesse em descobrir.

Em meados de abril, uma transmissão da Pottervigilância jogou uma enorme chave de fenda
no plano deles.

Bellatrix estava morta. A Pottervigilância indicou que tinha acontecido durante um confronto
recente com a Ordem — um dos Fulminadores tinha explodido com um feitiço de
Sectumsempra que aparentemente causara mais dano ao lado das trevas do que ao da luz. A
Pottervigilância não tinha ideia da identidade do Fulminador, mas relatava vários outros
Comensais da Morte pegos no fogo cruzado, a explosão destruindo um quarteirão inteiro da
cidade.

— Merda. — praguejou Harry. — Que diabos se supõe que façamos agora?


Capítulo 5

Abril de 1998

O anúncio público da morte de Bellatrix suspendeu o planejamento deles por vários dias.
Hermione ainda estava no processo de preparar a Poção Polissuco e decidiu continuar por
ora, caso pensassem em alguma outra coisa. Eles não poderiam se transformar em outra
pessoa sem uma parte dessa pessoa, mas a poção ainda precisava de mais uma semana antes
de estar pronta de qualquer forma. Ela esperava que conseguissem bolar alguma coisa,
qualquer tipo de plano para conseguir outro fio de cabelo, e rápido.

Hermione passou a maior parte daqueles dias seguintes em uma batalha interna consigo
mesma. Eles estavam ficando sem opções e uma forma de avançar trazia um risco enorme de
revelar as horcruxes, o plano deles, e ainda assim poderia fracassar. Ela não tinha ideia se
conseguiriam o que precisava ou não. Além disso, ainda estava um pouco irritada com a
pulseira e com seu benfeitor. Realmente não queria ter que pedir nada a eles.

Mas se conseguissem um fio de cabelo…

Ela suspirou. Fazia quase dois meses desde que usara a pulseira e tinha a suspeita de que sua
recusa em usá-la era como dar ao mesmo tempo o tratamento de silêncio e o dedo do meio.
Eles não tinham ideia de que ela havia falhado em protegê-la de Bellatrix e provavelmente
estavam no escuro quanto ao motivo de ela ter, de repente, ficado em silêncio total. Talvez até
tivessem pensado que ela tinha morrido.

Hermione de repente se sentiu culpada, e suas ações pareceram muito infantis em retrospecto.
Seu benfeitor provavelmente estava bastante abalado com a ideia de que ela poderia ter
morrido e pode ter estado de luto enquanto ela fazia birra. Relutante, pegou sua bolsa com
contas e começou a vasculhar. Refletiu sobre o fato de que estava dando consideração demais
às emoções de alguém que nem conhecia e por quem não tinha nenhum vínculo ao retirar o
estojo de madeira elegante.

Abrindo a caixa, passou a mão levemente sobre a pulseira reluzente antes de pegá-la e
colocá-la. Ela se redimensionou para seu pulso enquanto ela fechava e guardava o estojo.
Esperou um momento, admirando-a em seu pulso, antes de inspirar fundo.

Aqui vai nada.

— Preciso de uma coisa. Desesperadamente. — murmurou em sua direção, esperando que


quem quer que fosse estivesse ouvindo e sentindo-se um pouco tola por falar mais uma vez
com um objeto inanimado. — Um fio de cabelo de um dos irmãos Lestrange.

Não houve resposta, mas ela também não esperava uma, já que a pulseira nunca dava
indicação de que alguém estivesse ouvindo. Ela repetiu o pedido algumas vezes ao longo de
uma hora, caso seu benfeitor não tivesse conseguido “sintonizar” bem na hora em que falara
pela primeira vez.
Depois de uma hora, voltou a guardá-la em sua caixa e a enfiou novamente na bolsa. A essa
altura, só lhe restava esperar, talvez tentar de novo em alguns dias caso um certo elfo
doméstico ainda falhasse em aparecer.

E desta vez, Monstro, pensou sombria. Você não vai a lugar nenhum.

Dois dias depois, Monstro ainda não tinha dado as caras. Hermione vinha fazendo seu pedido
uma vez por dia, variando os horários, caso seu benfeitor não conseguisse ouvir nos outros
momentos em que tentara. Enquanto ela, Ron, Harry, Gui e Fleur se sentavam para o café da
manhã, Hermione decidiu que passaria uma ou duas horas fazendo pedidos à pulseira mais
tarde naquele dia, já que ainda não o fizera naquela manhã. A pulseira estava de volta em sua
bolsa, tendo sido guardada após cada pedido.

Gui tinha retornado naquela manhã de uma reunião noturna da Ordem e tentava transmitir
todas as notícias que recebera entre bocejos e colheradas de mingau. Contou-lhes que a
Comissão aparentemente libertara vários prisioneiros que tinham feito parte do programa de
experimentação. Fora feito em silêncio, e a Ordem não tinha tomado conhecimento até que
Penélope Clearwater, que fora presa no início da Comissão quando se registrou como
nascida-trouxa, voltou para casa de seus pais trouxas. Em poucas horas, todo o subúrbio fora
engolido por um incêndio massivo depois que Penélope aparentemente explodira de uma
forma bem diferente da dos Fulminadores.

A Ordem suspeitava que ela tivesse sido um dos experimentos preliminares para criar os
Fulminadores, com base na data em que fora levada sob custódia. Agora tentavam
freneticamente descobrir quem mais havia sido libertado, pois temiam que houvesse um
grande número de verdadeiras bombas humanas andando por aí. A Pottervigilância vinha
pedindo às pessoas em cada transmissão que relatassem qualquer ente querido desaparecido
que tivesse de repente retornado para casa, mas o medo era de que muitos passassem
despercebidos por um tempo. Ninguém queria correr o risco de ver seu ente querido, que
provavelmente achava que nunca mais veria, ser levado sob custódia pela segunda vez.

Fred, Jorge e Percy não estavam entre os libertados. Hermione não sentiu nenhum alívio com
a notícia, no entanto, já que isso provavelmente significava que ainda estavam sendo usados
em experimentos ou torturados. Gui prosseguiu, indicando que abortos também estavam
agora sendo reunidos, Arabella Figg e Argus Filch incluídos, como parte de um programa de
“empoderamento”. A Comissão queria ver se conseguiria transferir a magia roubada de
nascidos-trouxas para abortos e transformá-los em “bruxos de verdade”.

Após esse anúncio de altos e baixos, ela e os garotos decidiram dar uma caminhada pela
praia. Conversaram em voz baixa no início, mas rapidamente caíram no silêncio, cada um
lidando com seus próprios fardos. Ron lutava com as notícias, ou a falta delas, sobre seus
irmãos. Harry estava perdido em pensamentos sobre seus próximos passos e o que precisaria
fazer na batalha final. Hermione tentava elaborar um plano alternativo para conseguir um
cabelo de Lestrange caso seu benfeitor não cumprisse. O som das ondas parecia mais
ameaçador do que relaxante.

Quando voltaram ao chalé, acabou que Hermione não precisava elaborar plano alternativo
algum. Ela tinha tirado os sapatos e se encaminhado para a cozinha em busca de água quando
algo sobre a mesa da cozinha chamou sua atenção. Parou abruptamente, fazendo Harry
trombar nela e quase derrubar os dois.

— ’Mione? — perguntou Harry depois de recuperar o equilíbrio. Ele arrumava os óculos, que
tinham ficado tortos quando colidira com ela, mas ela não respondeu.

Havia uma caixa perfeitamente embrulhada em papel preto repousando inocente sobre a mesa
de madeira. Hermione estreitou os olhos, avaliando. Que coincidência que tivesse aparecido
no segundo em que ela saíra do chalé por um tempo, em um momento em que ninguém
estaria na cozinha preparando uma refeição. Claramente, alguém fora muito cuidadoso com
as ordens de Monstro para garantir que não fosse visto nem questionado novamente.

Ela marchou até a mesa e rasgou o papel e a caixa. Harry, reconhecendo o papel do último
pacote e tendo percebido que vinha de seu benfeitor, murmurava algo para Ron enquanto os
garotos se aproximavam da mesa. Harry apoiou as mãos no encosto de uma cadeira e
observou enquanto ela retirava uma nota em pergaminho.

Tire de novo e eu vou trancá-la pelo resto da guerra.

A nota nunca tinha tido um tom tão agressivo antes. As outras haviam sido bastante neutras, a
última quase um pedido, mas essa estava zangada. A caligrafia, ainda a mesma escrita
elegante, estava mais escura e manchada, como se o escritor tivesse pressionado forte demais
a pena. Parecia apressada, mais inclinada, como se não tivessem conseguido conter a raiva.

Hermione arqueou a sobrancelha para a nota e bufou. Trancá-la? Presumia que quisessem
dizer manter-na em segurança, embora o tom da nota sugerisse outra coisa. Apreciava o
sentimento de querer protegê-la, mas não gostava das palavras ameaçadoras. Será que eles a
conheciam? Ela não era do tipo que obedecia, especialmente não quando o pedido vinha
embrulhado numa ameaça. Pelo contrário, aquilo a fazia querer atirar a maldita pulseira no
mar quando enviavam uma nota como aquela. Além disso, se pensavam por um momento
que seria fácil trancá-la, tinham outra coisa a aprender. Quem quer que fosse, teria que
encontrá-la primeiro.

Ela colocou o pergaminho sobre a mesa ao lado da caixa e Harry imediatamente o pegou e
franziu o cenho. Ron lia por cima do ombro de Harry. Espiando dentro da caixa para ver o
que lhe fora enviado, suas sobrancelhas se uniram enquanto erguia um pequeno frasco de
vidro com rolha. Andou até a pia da cozinha e o segurou contra a luz da janela, semicerrando
os olhos para ver o que havia dentro. Quando conseguiu distinguir a forma de vários cabelos
pretos e curtos lá dentro, os pelos de sua nuca e braços se eriçaram.

Um dos irmãos Lestrange, podia apostar, pensou, virando-se triunfante para Harry e Ron. Seu
benfeitor havia cumprido, e bem a tempo. A Poção Polissuco estaria pronta no dia seguinte.

Maio de 1998

Ela se transformaria em um dos irmãos — fosse de quem fossem os cabelos — para garantir
que conseguissem entrar no cofre dos Lestrange. Os três revisaram cada aspecto do plano na
noite anterior à invasão, tentando contabilizar qualquer coisa que não tivessem pensado.
Depois de duas horas de discussão minuciosa em todos os ângulos, Harry pousou a mão
sobre a de Hermione enquanto ela apontava algo em sua lista.

— Hermione — começou suavemente. Ela ergueu os olhos para ele, afastando impaciente o
cabelo dos olhos.

— Acho que já fizemos tudo o que podíamos. Parte disso vai ter que ser improvisada.

Ela odiava improvisar — era para isso que servia o planejamento —, mas reconhecia que era
impossível conhecer todas as variáveis de antemão. Decidiram em grupo que era hora de se
recolher e dormir antes de enfrentar o dragão, por assim dizer.

Na manhã seguinte, enquanto vestia uma aproximação das vestes de Comensal da Morte, ela
lançou um olhar à sua bolsa com contas, hesitante. Eles poderiam acabar em um duelo de
varinhas, ela sabia. Poderia haver uma armadilha dentro do cofre.

Melhor prevenir do que remediar.

Ela soltou um suspiro resignado antes de vasculhar a bolsa atrás da familiar caixa de madeira
e retirar a pulseira. Enfiou a bolsa no bolso, colocou a pulseira pela primeira vez em quase
dois meses e deixou o quarto para encontrar Harry, Ron e Grampo.

— Por que diabos não estava lá?!

Ron explodiu no segundo em que retornaram a Grimmauld depois da angustiante investida


em Gringotes. Todo o episódio tinha sido aterrorizante e muito mais próximo de matá-los do
que Hermione acreditava que já tinham estado antes — e tudo isso em vão. Estavam cobertos
de poeira, sujeira e sangue, mal acreditando que tinham saído vivos. Não tinham pensado
nem por um segundo que voltariam de mãos vazias.

A horcrux não estava no cofre dos Lestrange. Hermione não entendia — tudo tinha levado ao
cofre dos Lestrange. Não havia razão para não estar lá. Sua mente voltou a Bellatrix na
Mansão Malfoy. Como Bellatrix surtara por causa da espada, acreditando que eles tinham
invadido o cofre dos Lestrange e a roubado. Quão em pânico ela ficara com a ideia de que
tivessem saqueado seu cofre.

E se Bellatrix tivesse movido a horcrux para outro cofre depois que eles escaparam,
acreditando que o dos Lestrange não era seguro o suficiente? Quantas das famílias antigas
tinham cofres assim em Gringotes? Talvez ela tivesse transferido para outro, de algum
apoiador, depois de acreditar que eles já tinham invadido? Isso explicaria o nível de pânico
dela na mansão; ela pensou que eles já tinham levado a horcrux em março.

— Talvez estivesse em outro cofre… — sugeriu, pensando em voz alta. — E se Bellatrix


tivesse movido—

— Você quer que a gente tente roubar Gringotes DE NOVO?! — gritou Ron, virando-se
contra ela. — Você ficou maluca? Hoje não foi difícil o bastante?!
Hermione se calou, sem querer provocar Ron ainda mais, pois ele parecia prestes a explodir.
Seu rosto estava vermelho e o peito arfava. Ainda vestido nas vestes escuras que usara no
roubo, parecia à beira da completa insanidade ao encará-la, incrédulo.

Harry também a olhava como se ela tivesse perdido o juízo. Ele balançou a cabeça para ela.

— Não, Hermione — disse em voz baixa. — Acho que temos que considerar outras opções.

Ela decidiu não lembrá-los de que não havia outras opções se quisessem derrotar Voldemort.

Horas depois de retornarem de Gringotes, Kingsley convocou uma reunião da Ordem no


Chalé das Conchas. Hermione não se surpreendeu — ele provavelmente queria discutir a
façanha pública deles e o fracasso total. Ela tentava descobrir onde diabos estaria a horcrux
mais recente e como poderia convencer Harry e Ron a talvez tentar de novo. Talvez
conseguisse o resto da Ordem do seu lado e pressionasse os garotos.

Kingsley chegou primeiro e pediu para falar com ela em particular antes que todos os outros
chegassem. Ela deu de ombros para Harry e Ron quando eles lhe lançaram olhares
questionadores enquanto ele a puxava para a cozinha. Assim que a porta foi fechada e
silenciada, Kingsley virou-se para ela, o rosto sério.

Ele lhe estendeu um embrulho, envolto em papel preto, sem dizer nada. Ela o aceitou, o
coração disparando no peito, e o encarou de olhos arregalados, alarmada.

— Onde conseguiu isso? — exigiu, fixando o papel. Estava perfeitamente embrulhado, sem
etiqueta, como sempre. Como Kingsley sabia que era para ela?

— Monstro me deu antes de eu sair de Grimmauld. Disse que era para a— para você. — Ele
fez uma careta leve e ela sabia qual palavra Monstro realmente usara.

— Monstro estava em Grimmauld? — perguntou, confusa. Harry ainda não tinha conseguido
chamá-lo; eles tentaram depois que o último pacote apareceu e temeram que ele finalmente
tivesse esticado as canelas ou fosse mandado embora. Elfos domésticos conseguiam ignorar
uma convocação do próprio mestre? Ela não achava que sim.

Kingsley a observou. — Sim — disse devagar. — Ele não deveria estar?

Hermione corou levemente e murmurou “Deixa pra lá”, antes de agradecer a Kingsley pelo
embrulho e sair. Não queria discutir Monstro nem a pulseira com Kingsley, ainda relutante
em contar à Ordem sobre seu benfeitor.

Encontrou Harry e Ron ainda na sala de estar, discutindo algo em voz baixa, enquanto
Grampo já não estava mais à vista. Eles pararam de falar quando ela se aproximou, a caixa
ainda nas mãos.

— O que o Kingsley disse? — perguntou Ron, se afastando da parede. — O que é isso? —


acenou para o pacote.
— Não aqui. — disse ela, gesticulando para que a seguissem escada acima. Gui e Fleur
estavam abraçados no sofá e não deram atenção aos três. Ela fechou e trancou a porta do
quarto, lançou um feitiço de silêncio e voltou-se para os garotos.

Ela afastou os cachos do rosto e lançou um olhar preocupado a Harry, que estava muito
quieto desde que ela os trouxera para o quarto. Ele encarava o embrulho que Kingsley lhe
entregara, o olhar fixo.

— Harry? — chamou suavemente. Os olhos dele se voltaram de súbito para o rosto dela.

— Acho que devemos abrir. — disse ele, inspirando fundo. Ela mordeu o lábio inferior,
preocupada com a firmeza do olhar dele, mas rasgou o papel do pacote. Por baixo havia uma
grande caixa de papelão comum, apressadamente fechada com fita-cola mágica. Não fora
feito com o requinte habitual dos outros pacotes; seu benfeitor estava com pressa.

Rasgando a caixa e espiando dentro, ela arfou e quase a deixou cair.

Harry mergulhou para frente e tomou a caixa dela, encarando o conteúdo. Enfiou o braço
dentro e o retirou lentamente, segurando o que era inconfundivelmente a taça de Hufflepuff.

— Mas que porra!? — gritou Ron. Hermione agradeceu por ter pensado em silenciar o
quarto.

Harry examinou a taça com cuidado, descartando a caixa ao lado. Depois de inspecionar a
taça inteira, o rosto tenso e fechado, conferiu o resto da caixa e retirou uma nota, as
sobrancelhas subindo até a linha do cabelo. Ele ergueu o olhar para Hermione, os olhos
verdes arregalados, e entregou o pergaminho a ela. Ela o pegou, preocupada com a reação
dele.

Algum outro plano de se matar que eu deva saber? Se tivesse seguido meu conselho da
primeira vez e deixado a porra da coisa no braço, não teria precisado invadir nada. Este é
meu último aviso — não tire essa merda de novo.

Ela engoliu em seco, subitamente nervosa. Era a nota mais longa que já recebera. Seu
benfeitor claramente não apreciara ter ouvido a invasão a Gringotes e todo o perigo
associado, apenas para falharem em obter o que precisavam. Ainda assim, tinham descoberto
o que ela buscava e literalmente tinham feito uma horcrux ser entregue direto em suas mãos.

Outro pedido embrulhado numa ameaça, pensou com os olhos semicerrados.

Ron leu a nota por cima do ombro dela, carrancudo. — Ainda bem que estão do nosso lado.
— murmurou sombriamente. — Já que são meio babacas.

Harry lançou-lhe um olhar, a taça ainda firmada em uma das mãos.

— O quê? — perguntou Ron, defensivo. — Quero tanto quanto vocês derrubar aquele caipira
mágico—

— É Hitler mágico, Ron — interrompeu Hermione, dobrando a nota. Ela estava bem irritada
com as ordens do benfeitor, mas não planejava tentar a sorte removendo imediatamente a
pulseira, a não ser que precisasse. Ela ainda estava em seu pulso desde a incursão a Gringotes
naquela manhã. Estava menos preocupada com um sequestro iminente do que com a
possibilidade de não poder usá-los caso precisassem de outra coisa. Melhor não irritar quem
quer que fosse e arriscar encerrar esse arranjo atualmente bastante benéfico, a não ser que
fosse absolutamente necessário.

— Tanto faz. Meu ponto é que precisamos de toda ajuda possível, e se o noivo da Hermione
está disposto a ajudar—

— Ele não é meu noivo, pelo amor de Merlin, nem sabemos se é um ele!

— Eu digo que não devemos olhar um Testrálio dado nos dentes. — finalizou Ron, então
lançou a Hermione um olhar que claramente dizia “ah, claro”.

— O quê, acha que foi Pansy Parkinson quem te mandou uma pulseira e bilhetes de amor? —
zombou. — Talvez Millicent Bulstrode? É definitivamente algum sangue-puro idiota com
uma queda por você. Talvez Ernie MacMillian — ele parece afetado o bastante.

Hermione revirou os olhos para Ron, enfiando a nota na bolsa, mas recusou-se a responder.
Não tinha vontade de resolver esse enigma agora — tinham outras coisas a planejar agora que
tinham a taça. Estendeu a mão para pegar a taça e guardá-la também. Harry a observou por
mais um momento antes de entregá-la para que ela a mantivesse em segurança. Ele assentiu
para Ron.

— Você tem razão. Até agora só fizeram bem por nós, quem quer que sejam. — Suspirou e
esfregou o rosto com as duas mãos, entortando os óculos. — Quando isso acabar, vou tirar
umas férias do caralho.

— Fazemos dois, parceiro. Mas sem acampamento, beleza?


Capítulo 6

Maio de 1998

Ela se sentia como se estivesse sonhando. Estalos de cenas tremeluziam por suas pálpebras
enquanto ela lentamente retomava a consciência.

Harry olhando para Gina com anseio na Sala Precisa…

Feitiços ricocheteando nela, a pulseira bloqueando-os enquanto voavam em sua direção de


todos os lados…

Ela e Ron, destruindo a taça na Câmara Secreta…

Snape morrendo pelas mordidas de Nagini…

Fulminadores explodindo por todo o terreno…

O corpo de Harry, sem vida, nos braços de Hagrid…

Seus olhos se abriram de repente enquanto ela puxava uma grande lufada de ar, suas
respirações ofegantes altas em seus próprios ouvidos enquanto se sentava num pulo. Estava
coberta de suor, o coração trovejando enquanto as memórias da batalha final a inundavam.

Gina usando um bombarda maciço em vários Fulminadores… sangue e partes de corpos por
toda parte…

Corpos no Salão Principal… Tonks, Lupin…

Fiendfyre…

As memórias passaram novamente diante dela. O clarão de luz dos Fulminadores enquanto
descrevia um amplo arco ao redor deles, o feitiço atingindo tudo dentro de um raio de seis
metros. Stupefy e incarcerous eram os mais comuns que ela notara, luz vermelha e cordas
voando por todo lado. Gina usara um feitiço bombarda poderoso naquela noite e, embora
tivesse sido eficaz para derrubar múltiplos Fulminadores de uma só vez, fora horrível.

Uma borrifada de sangue e osso irrompera diante delas, pedaços de coisas que ela não queria
contemplar chovendo ao redor enquanto ela parava no meio da corrida através do campo de
batalha, seguindo Harry e Ron. Gina estava coberta de imundície e vísceras, a expressão
triunfante, ao eliminar uma grande porção das forças do lorde das trevas de uma só vez. Foi
uma demonstração de poder impressionante e que Hermione tinha certeza de que virara a
maré da batalha. Ela não apreciara muito aquilo no momento, já que imediatamente parara de
correr para vomitar profusamente.

Ela nunca fora boa com sangue, e o esfacelamento de Ron era um de muitos exemplos.
Naquela noite, com corpos espalhados pelo terreno, os ferimentos horríveis no pescoço de
Snape por Nagini, a visão de Lilá Brown… Hermione nunca vomitara tanto quanto vomitou
quando a noite acabou. O cheiro de sangue estava em toda parte, corpos mortos e pedaços de
carne e osso constantemente no seu campo de visão. Quase todas as noites desde então, as
memórias faziam seu estômago se revoltar, forçando-a a despertar para vomitar por causa do
trauma.

Comensais da Morte zombando deles enquanto choravam diante da imagem de Harry nos
braços de Hagrid…

Seu alívio quando Harry saltou e lançou Expelliarmus…

Voldemort caindo…

Harry devolvendo a Varinha das Varinhas ao túmulo de Dumbledore…

Seus olhos focaram nos lençóis à sua frente. Voldemort se fora. A batalha acabara. À medida
que sua frequência cardíaca voltava ao normal e ela engolia o impulso de vomitar, largou-se
de volta na cama e ficou olhando para o teto do quarto que dividia com Gina n’A Toca. Um
rápido olhar para a outra cama confirmou que Gina já estava de pé e tinha saído. Ela e Harry
tinham passado muito tempo conversando naquela semana e pareciam ter reatado. Hermione
não perguntara para confirmar, já que a semana fora puro caos, mas esperava que ambos
estivessem felizes.

As perdas do mundo bruxo tinham sido grandes. Os Fulminadores eram capazes de derrubar
grandes grupos em um raio massivo — comparados a só poder disparar um feitiço por vez,
eram eficazes e letais. Hermione sabia que um grande número de seus colegas e pares estava
morto, mas quantos restavam ainda iria se saber. O Ministério vinha enfrentando dificuldades
para compilar listas devido ao número puro de corpos, muitos dos quais em pedaços. Seu
estômago revirou.

Depois que a batalha terminou, os Comensais da Morte que não foram imediatamente
agrupados e presos para aguardar julgamento desapareceram. A falta de sobreviventes do
lado da luz significava que muitos conseguiram escapar — simplesmente não tinham pessoal
suficiente para ir atrás deles. O Ministério ainda estava em um período de transição em que a
Ordem retomava o controle e tentava separar quem era legítimo e quem era apoiador de
Voldemort, mas era um processo lento.

Tinham sido solicitados a fornecer depoimentos detalhados sobre o que haviam visto e feito
durante a guerra para que seus testemunhos fossem usados nos julgamentos eventuais, que, a
essa altura, nem sequer tinham data de início. Kingsley queria seus depoimentos o quanto
antes, precisando deles para ajudar a priorizar quem o Ministério precisava perseguir.

No geral, tudo fora absoluta loucura. Com seus pais permanentemente obliviados, Hermione
estava, no momento, sem teto. Molly a acolhera a ela e a Harry sem uma única objeção, mas
a casa estava cheia. Com Percy, Fred e George ainda desaparecidos, Molly existia em uma
espécie de luto suspenso que a fazia feliz num momento e chorando no seguinte. Harry e
Gina tinham adotado o hábito de sumir juntos por razões óbvias, fazendo Hermione bater a
qualquer porta fechada antes de entrar em um cômodo, e Ron vinha fazendo viagens longas
para algum lugar, mas se recusava a revelar o que estava aprontando. Hermione não tinha
ninguém para ver nem para onde ir. O Beco Diagonal ainda estava em frangalhos — ela nem
podia escapar para a Floreios e Borrões por algumas horas.

Ela sabia que Harry planejava morar em tempo integral em Grimmauld assim que tivesse
certeza de que seria seguro contra quaisquer Comensais desgarrados remanescentes, mas ela
não tinha tal plano reserva. Toda sua energia fora devotada a conseguir horcruxes e garantir
que Harry sobrevivesse tempo suficiente para matar Voldemort. Ela estivera tão focada em
sobreviver à maldita guerra que falhara em considerar o que isso realmente significaria. Não
fizera planos para o depois.

De qualquer forma, não parecia um “depois” para ela ainda. Os três foram imediatamente
agraciados com ofertas para cargos de auror por Kingsley, sem necessidade de N.I.E.M.s.
Enquanto Harry e Ron agarraram a chance, Hermione hesitara. Sentia que já perseguira
bruxos das trevas o suficiente para uma vida e não achava que iria gostar de continuar
vivendo no limite, correndo atrás de gente que queria matar a ela e aos seus.

Sem teto E desempregada, pensou, bufando. Nunca suspeitei que acabaria como qualquer
um dos dois.

Desistindo de dormir, levantou-se e se vestiu para o dia com um par de jeans e um casaco
confortável com zíper. Tentar domar seus cachos gigantes era geralmente uma completa
perda de tempo, mas ela tentou um feitiço de alisamento mesmo assim. Não vendo qualquer
mudança significativa na massa de molas depois de cinco minutos, desistiu com um cenho,
calçou os tênis e seguiu para a cozinha. Parecia ser fim de manhã — a cozinha estava vazia
de gente, o único movimento era uma panela sendo lavada com bastante vigor por um pano
encantado.

Ela pegou um muffin que sobrara e seguiu para o jardim dos fundos, ouvindo vozes vindas
daquela direção. Um sol aguado brilhava, o clima de primavera fazendo esforço para
esquentar. Gina e Ron discutiam algo em voz baixa, sentados juntos num banco de vime
perto de um muro de pedra. Alguns trasgos-do-jardim resmungavam nos canteiros de flores
próximos, e ela avistou Bichento observando-os com avidez.

Ela cutucou seu familiar alaranjado com a ponta do tênis, murmurando “Nem pense nisso.”
para ele antes de ir se juntar a Ron e Gina. Molly cuidara de seu gato durante a guerra por ela,
e Hermione estava feliz por tê-lo de volta, mesmo que ele vivesse a importunar qualquer
coisinha que se mexesse em seu caminho. Ao sentar-se em outro banco ao lado da dupla
Weasley, ela viu Bichento começar a se lavar como se nunca tivesse tido a intenção de
perseguir os trasgos em primeiro lugar.

Molly e Arthur não estavam em lugar algum. Percy, Fred e George ainda estavam
oficialmente desaparecidos. Os outros irmãos Weasley haviam retornado ao que restava de
suas vidas, tentando recolher os cacos do que sobrara após a guerra.

Ela cumprimentou Ron e Gina quando terminaram a conversa, perguntando onde todos
estavam. Harry se encontrava com Kingsley na frente d’A Toca, segundo Gina, enquanto
Molly e Arthur tinham ido ao Ministério se informar novamente sobre o paradeiro dos três
filhos. O Ministério ainda não estava oficialmente recebendo relatos de pessoas
desaparecidas no rescaldo da batalha final.
Como tinham sido levados pela Comissão de Registro dos Nascidos-trouxas, porém, Molly e
Arthur queriam que alguém verificasse os registros em St. Mungus. Toda a divisão de
experimentação da Comissão ficava em St. Mungus, que ainda se mantinha incrivelmente
calado sobre o que estava acontecendo. Até agora, a única notícia oficial divulgada sobre os
experimentos e a Comissão era que Dolores Umbridge, a chefe da referida Comissão, fora
presa. O resto eram todos boatos da guerra.

Hermione apertou o casaco mais junto do corpo para afastar o frio de fim de manhã enquanto
os pensamentos corriam. Ela queria desesperadamente mais informações sobre a Comissão e
o que estava sendo feito. Queria saber como seus companheiros nascidos-trouxas tinham
sofrido e como o Ministério planejava ajudá-los. Em que mais resultaram os outros
experimentos? Voldemort realmente conseguira desenvolver uma epidemia armada? Ela
presumia que, à parte os Fulminadores, o restante de seus experimentos de super-soldado não
tivesse dado certo, ou teriam visto uma demonstração na Batalha de Hogwarts.

Gina e Ron a tiraram de suas contemplações quando passaram a debater os méritos de fazer
os N.I.E.M.s remotamente versus retornar para um ano extra. Hermione e Gina tinham
decidido estudar por conta própria e prestá-los remotamente e tentavam convencer Ron a
prestá-los ao menos quando Harry voltou, o Ministro da Magia interino a tiracolo.

Ron argumentava que não precisava dos N.I.E.M.s já que já tinha um emprego garantido
quando Kingsley pediu uma palavra em particular com Hermione. Harry foi direto até Gina e
o banco, o canto da boca de Gina se curvando num sorriso ao vê-lo. Ao seguir Kingsley de
volta ao jardim da frente, Hermione vislumbrou Ron inventando uma desculpa apressada e
entrando na casa, claramente sem querer estar por perto da irmã e de Harry enquanto eles
tiravam o atraso.

— Em que posso ajudar, Ministro? — perguntou Hermione assim que ficaram a sós.

— Notei que você recusou a oferta para um cargo de Auror no Ministério — começou ele, a
voz grave neutra. — Posso perguntar por quê?

As sobrancelhas de Hermione se juntaram, a boca repuxando. Se ele estava ali para tentar
fazê-la mudar de ideia, ela não estava interessada. — Não é uma carreira que eu tenha
interesse em seguir. — disse firmemente. Ela passara a infância inteira ajudando a caçar um
bruxo das trevas. Já chegava disso.

Ele assentiu e não pareceu surpreso, mas Hermione notara que ele era de modo geral bastante
inexpressivo. Talvez seja oclumente, pensou sem muita convicção, examinando-lhe o rosto.

— Nesse caso, tenho outra proposta para você. — Hermione apertou o casaco novamente em
torno de si e esperou, incerta.

— A Comissão de Registro dos Nascidos-trouxas está sendo dissolvida. Imagino que tenha
ouvido que Umbridge foi presa. — Hermione assentiu. — Os registros dos experimentos
estão, francamente, uma bagunça. St. Mungus está com falta de pessoal, de curandeiros a
pesquisadores e cargos administrativos. A quantidade de pacientes que foram submetidos às
experimentações está além da nossa capacidade atual de tratar, e muitas das condições em
que ficaram são intrigantes.
Hermione fitou Kingsley e mudou o peso para o outro pé. — Eu não sou curandeira,
Kingsley — disse após alguns momentos. — Mal sei o básico. Nem lido bem com sangue. —
Ela reprimiu uma careta quando a lembrança do esfacelamento de Ron lhe surgiu à mente.

Kingsley balançou a cabeça.


— Haverá treinamento, mas não estou pedindo que você cure ferimentos. O que estou
oferecendo é mais um cargo prático de pesquisa. Precisamos de alguém bom em quebra-
cabeças, bom em magia, para ajudar essas pessoas. A Grã-Bretanha bruxa está com falta de
pessoal em todos os setores neste momento, Srta. Granger, e não podemos nos dar ao luxo de
deixar a mente mais brilhante que o mundo já viu ficar ociosa.

Os olhos castanhos dela faiscaram para ele e ela franziu o cenho. Então ela estava ficando
ociosa, estava? Menos de uma semana após a batalha final, depois de passar um ano fugindo,
e ele a estava chamando de preguiçosa? Ela ainda não se recuperara da falta de sono, da
nutrição adequada e do trauma extenso que o último ano lhe causara, e ele ia insinuar que ela
não estava fazendo nada com seu tempo?

Aparentemente, Kingsley sabia sentir perigo e ergueu as mãos em um gesto apaziguador.


— Seus colegas nascidos-trouxas precisam de você para ajudá-los. Você pode salvar vidas.

Ela percebeu um pouco de lisonja no tom dele, mas Hermione considerou. Ela realmente
queria ajudar seus colegas nascidos-trouxas — ela poderia muito facilmente ter sido uma
deles em algum momento do último ano. Sabia que poderia fazer a diferença em St. Mungus.
A única coisa que a fazia hesitar era o aspecto emocional. Hermione não tinha certeza de que
conseguiria lidar com as cicatrizes emocionais que poderiam vir de tentar tratar ferimentos
mágicos horríveis — e se ela não conseguisse salvá-los? Será que suportaria mais pessoas
morrendo, potencialmente bem diante dela, porque não conseguiu resolver um enigma
médico a tempo? Ela já sofria com pesadelos entre a batalha final e o ataque de Bellatrix na
Mansão Malfoy. Esse tipo de trabalho tinha potencial para ser tão recompensador quanto
devastador.

Por outro lado, se não houvesse alguém como ela trabalhando nesses casos, havia potencial
para mais vidas serem perdidas. Sem querer se gabar, mas ela conseguia ligar os pontos
muito mais rápido do que muitos de seus pares. Hermione não sabia muito sobre feitiços de
cura além do básico que aprendera para a caçada às horcruxes, mas a ideia de aprender um
novo ramo da magia no qual poderia fazer uma diferença significativa lhe agradava bastante.
Além disso, era um emprego. Ela começava a perceber que precisava resolver a questão do
trabalho, e rápido. Não poderia viver n’A Toca para sempre, especialmente se quisesse existir
nesse estado de “depois” ao qual todo mundo parecia ter transitado sem esforço.

Ela pediu um ou dois dias para pensar e Kingsley concordou. Ele partiu logo em seguida e
Hermione voltou para a casa, meditando silenciosamente sobre suas opções. Ela torceu a
pulseira no pulso distraidamente, brincando com ela enquanto a mente percorria cenários. Já
estava montando um cronograma de estudos e debatendo onde conseguir alguns livros-texto
de medicina mágica quando se deu conta.

Você não precisa realmente de um dia para refletir, pensou com ironia. Você já sabe que vai
aceitar.
Dois dias depois, ela e Harry aparatam para a Travessa do Grimmauld e rapidamente
avaliaram a rua do lado de fora. Quando nenhuma ameaça remanescente se tornou
imediatamente aparente, entraram em silêncio para não acordar Walburga.

Harry convidara Hermione para se mudar para Grimmauld com ele, sabendo que ela não
tinha casa para onde voltar, e os dois planejavam reformá-la antes de se mudarem. Ele e Ron
deviam começar o treinamento de auror no início de junho, ao mesmo tempo em que ela
começaria em St. Mungus, e Grimmauld precisava tanto de atualização quanto de
encantamentos protetores adicionais. Hermione escrevera para Kingsley ontem para aceitar
sua nova posição e ansiava por ter seu próprio espaço em Grimmauld.

Um novo trabalho, um novo espaço de moradia, uma nova vida?

O Ministério estava ansioso para pôr as pessoas para trabalhar e ajudar a devolver o mundo
ao normal, empregando métodos de treinamento “no susto” para atingir seus objetivos. Eles
suspeitavam que tanto o treinamento de auror deles quanto o de curandeira dela seriam muito
extraoficiais e caóticos, mas esperavam ao menos deixar a casa pronta e assentados para não
viverem no completo caos entre trabalho e lar.

Eles passaram em bicos de pés pelo retrato silencioso e foram para a sala de estar empoeirada
e escura. A Ordem havia tornado boa parte da casa habitável quando era usada como quartel-
general, mas Harry queria algo melhor do que habitável — queria que fosse lar. Hermione
olhou ao redor por um momento, observando os vários móveis, paredes e piso de cores
escuras, antes de se voltar para Harry com um pequeno sorriso malvado.

— O que acha — cremes, dourados e vermelhos? Estilo sala comunal da Grifinória?

Harry abriu um sorriso.

Eles começaram a tentar mudar estofados, cortinas, papel de parede e assoalho, encontrando
resistência pelo caminho. O piso clareou sem objeções, mas o papel de parede devolveu os
feitiços de coloração para fora. Um dos feitiços atingiu Harry, deixando seu jeans de um
vermelho bem vivo, enquanto Hermione se abaixou no momento perfeito, o feitiço por pouco
não acertando seu cabelo.

Depois de uma ou duas horas lutando com o cômodo, decidiram fazer uma pausa rápida e
afundaram em sofás opostos que agora estavam revestidos em tons de creme e dourado.
Hermione enfiou a mão nas profundezas de sua bolsa com contas para pegar duas cervejas
amanteigadas que havia guardado mais cedo e entregou uma a Harry.

— Então — começou Harry, examinando uma almofada roída de seu sofá. — Teu “noivo”
deu notícias? — Ele tocou a almofada uma vez com a varinha, murmurou reparo e viu o
tecido se recompor.

Hermione sacudiu a cabeça, engolindo um gole de cerveja amanteigada.


— Ainda não. — Fazia mais de uma semana desde a batalha final. Ela esperava ouvir deles
quase imediatamente, imaginando que iriam querer capitalizar a ajuda com as horcruxes e em
mantê-la viva, sem mencionar se revelar, já que tinham sido tão superprotetores com ela.
Imaginara que talvez estivessem… interessados nela. Não tinha certeza do que vinha
antecipando, mas silêncio total não era isso.

Ela tinha certeza de que, se fosse um membro da Ordem, ou alguém neutro, já teriam se
apresentado. A falta de bilhetes ou qualquer comunicação, apesar de não ter tirado a pulseira
desde a última nota, levava-a a crer que seu benfeitor estava morto ou preso. Não tinha
certeza de querer examinar a possibilidade de qualquer um dos dois. Mantendo a esperança
de que pudessem apenas estar ocupados com outra coisa — afinal, só se passara uma semana
—, ela deixara a pulseira no pulso como instruído. Não havia nada confidencial que
estivessem ouvindo de qualquer forma — seu depoimento da guerra estava sendo redigido, o
resto de suas interações era bastante mundano.

O rosto de Harry assumiu uma expressão pensativa, os olhos verdes contemplativos enquanto
ele sorvia.
— Talvez tenham achado que você não iria querer ouvir deles. Eles foram meio rudes no
final. — apontou.

Ela olhou para a pulseira ainda no pulso.


— Eu não me importaria de ouvir deles — murmurou, ainda olhando para ela. — É por isso
que deixei no braço. Estou mais preocupada que eles não consigam me contatar. — Um
pensamento de repente lhe ocorreu.

— Você já conseguiu chamar o Monstro?

Harry sacudiu a cabeça.


— Tentei algumas vezes, em lugares diferentes. Ele não responde. A cabeça dele também não
está naquela parede. — Ele ficou levemente esverdeado com a ideia, e Hermione fez uma
anotação mental de que precisariam se livrar daquelas cabeças.

— Ele deve estar vivo ainda. Dá para registrar elfos domésticos como desaparecidos? — Ele
se perguntou em voz alta.

— Eles nem estão recebendo registros de pessoas desaparecidas agora, e o Ministério não
considera elfos como pessoas — resmungou Hermione, mas se absteve de fazer seu discurso
habitual ao ver o olhar dele.

Harry apontou com o queixo para o pulso dela.


— Talvez você devesse colocar um anúncio no Profeta.

— Que dissesse o quê? Procurado: benfeitor misterioso e superprotetor de joia de intenção de


herança?

— E que tal: Procurado: Noivo de Hermione Granger?

Hermione atirou uma das almofadas do sofá nele. Ela notara que Rita Skeeter sobrevivera à
guerra e estava imprimindo suas bobagens de novo. Os três do Trio de Ouro receberam
pedidos de entrevista na última semana. Hermione respondeu com um desenho horrível de
um besouro e nada mais. Não queria nem imaginar a tempestade midiática que enfrentaria se
vazasse que ela estava potencialmente noiva de alguém que nem conhecia.
Harry se esquivou da almofada e lhe abriu um sorriso por um momento, antes de voltar a
ficar sério.

— Você soube que Kingsley tinha um informante?

— O quê? Tipo o Snape?

Harry assentiu.
— Parece que alguém também passava informações para ele sobre a Comissão. A maior parte
da Ordem não sabia — ele teve que dizer alguma coisa agora por causa de todos os
depoimentos sendo coletados.

— Quem é?

— Ele não diz. Acho que não quiseram tornar público nem depois da guerra, no caso de
retaliação.

— Deve ter sido quem estava em Grimmauld naquele dia. — A mente dela disparou,
juntando peças. — Aquele de quem a Walburga era apaixonada. Você perguntou a ela?

Harry fez uma careta.


— Tentei e ela gritou algo sobre um homem muito mais bonito do que eu. Não quis saber
mais. Aparentemente, nem todas as informações nos depoimentos serão de conhecimento
público. Estou supondo que alguém está recebendo pena reduzida e isso vai aborrecer muita
gente.

Hermione assentiu. O depoimento dela, de Harry e de Ron sobre as horcruxes deveria


permanecer informação classificada segundo uma carta de Kingsley, suas narrativas sobre
essa parte seriam lacradas ao público. O Ministério não queria que ninguém pudesse seguir
os passos de Voldemort.

— Então — retomou Harry —, Ron e Luna?

Hermione soltou uma risadinha pelo nariz. Pelo tom, ela percebia que ele não estava
surpreso. O tom de voz de Ron ao falar de Luna ao longo do último ano se tornara bastante
admirado, e o mau humor dele com a partida dela do Chalé das Conchas fora bem evidente.

— Ron e Luna — confirmou. Ela ainda não chegara a ver Luna n’A Toca, mas ficara bem
claro para onde Ron vinha desaparecendo quase diariamente. Ele voltava, a aparência
desgrenhada e com hematomas misteriosos no pescoço para os quais não conseguia
apresentar explicação razoável. Ela suspeitava que ele ainda não estava pronto para
apresentar Luna à Molly, especialmente dado o estado em que Molly estivera recentemente.

— Não é tão estranho assim — contemporizou Hermione, mordendo o lábio. — Ela é bem
simpática, ainda que um pouco excêntrica.

Harry assentiu.
— Ela pode ser muito perspicaz. Tivemos boas conversas ao longo dos anos.
Hermione sobressaltou-se, fitando-o. Não sabia que Luna e Harry tinham conversado tanto.
Harry deu de ombros diante da expressão dela, esvaziou o resto da cerveja amanteigada e se
levantou para voltar ao trabalho.

Eles continuaram trabalhando ao longo do dia, conseguindo por fim que o papel de parede
aceitasse um vermelho profundo — tons mais claros estavam claramente fora de cogitação
—, antes de seguir para os quartos. Cada um escolheu um e tentou personalizá-lo conforme
as próprias preferências, combinando que a cozinha e os outros quartos poderiam esperar até
amanhã ou mais tarde na semana.

Voltaram à Toca para o jantar. Molly e Arthur estiveram calados durante toda a noite e se
recolheram cedo. Ela, Ron, Harry e Gina jogaram algumas rodadas de Snap Explosivo antes
de também subirem para dormir. Seria mais um longo dia de reformas no dia seguinte, e
Hermione queria estar bem descansada quando fossem encarar a cozinha.

Junho de 1998

Fulminadores explodindo por todo o terreno…

O corpo de Harry, sem vida, nos braços de Hagrid…

A faca de Bellatrix faiscando enquanto abria seu braço…

Gina usando um bombarda massivo em vários Fulminadores… sangue e partes de corpos


por toda parte…

Ela acordou arfando por ar de novo, sentindo os destroços do bombarda de Gina deslizando
por sua pele. Hermione disparou da cama até o banheiro no fim do corredor, esvaziando o
conteúdo do estômago no vaso. Depois de alguns minutos, recostou-se, ofegante e trêmula, e
pôs a cabeça nas mãos.

Resposta traumática, sua mente forneceu utilmente. Você talvez precise de aconselhamento.

Ela começara a ler métodos de cura mais aprofundados, incluindo os de trauma psicológico,
depois de aceitar a oferta de Kingsley. Após comprar quatro textos por coruja, Hermione
passara o resto de maio estudando-os quando não estava ajudando Harry a reformar
Grimmauld.

E olha onde isso te trouxe, um autodiagnóstico.

Depois de conjurar um copo d’água e sumir com o vômito, permaneceu sentada no chão do
banheiro enquanto bebia aos goles, pensando. Haviam oficialmente se mudado no sábado, os
espaços principais da casa muito mais claros e acolhedores do que antes. O quarto que
Hermione escolhera se recusava a abrir mão de seus verdes da Sonserina, mas aceitara que
ela trocasse os pretos e pratas por dourado para, ao menos, iluminá-lo e fazê-lo parecer
menos com a sala comunal da Sonserina em Hogwarts. Os verdes e dourados davam quase
uma sensação natalina.
Gina queria dar uma festa de inauguração, mas com o governo ainda em caos e a maioria de
seus colegas de escola desaparecidos ou mortos, não parecia uma hora de celebrar. O trio e
Gina tiveram, em vez disso, uma celebração quieta, bebendo cerveja amanteigada e fazendo
planos para o futuro em vez de relembrar.

Ainda restavam alguns outros quartos e o sótão para limpar em breve, sem mencionar que
ainda não tinham conseguido se livrar da querida velha Walburga. O retrato passara a gritar
“ladra” em vez de “sangue-ruim” para Hermione toda vez que a acordavam por engano.
Hermione estava tentada a encontrar um feitiço que lavasse tinta em retaliação.

Ela sumiu com o copo vazio e esfregou o rosto. Ela e Harry deviam começar seus novos
trabalhos em poucas horas. Provavelmente deveria tentar dormir um pouco mais para não
aparecer parecendo tão acabada quanto se sentia. Hermione voltou ao quarto, a mente ainda
fervendo.

Hermione ficara muito surpresa ao saber que deveria se apresentar à Madame Pomfrey, que
muito recentemente assumira a ala de danos por feitiços em St. Mungus. Com Hogwarts
ainda precisando ser reconstruída e metade da equipe do hospital mágico tendo sido ou presa
por violações de direitos humanos ou morta por se recusar a seguir as ordens da Comissão,
Pomfrey era, no momento, uma das curandeiras mais experientes e instruídas de toda a Grã-
Bretanha. Pomfrey supervisionaria e trabalharia com os curandeiros responsáveis por tentar
desfazer os danos causados pela Comissão de Registro dos Nascidos-trouxas. Hermione
ansiava por trabalhar com um rosto familiar, ainda que severo e intimidador.

Algumas horas de virar e revirar depois e Hermione não conseguira dormir mais. Vestiu-se,
suas vestes de trainee de cura um roxo-escuro em vez do verde-limão que significava
curandeiros plenamente treinados, e usou a lareira para ir direto a uma das chaminés situadas
na entrada principal. A bruxa da recepção informou que devia se apresentar a Pomfrey no
quarto andar enquanto câmeras piscavam e repórteres gritavam perguntas para ela. Hermione
deu um pequeno sorriso, permitiu algumas fotos e disse que estava animada para começar o
novo emprego, antes de se virar e seguir para o conjunto de elevadores.

A imprensa estava insaciável desde o fim da guerra, e ela, Ron e Harry mal podiam ir a
qualquer lugar sem serem fotografados e bombardeados com perguntas. Ela podia ouvir a
equipe de segurança expulsando os repórteres pela lareira enquanto entrava no elevador.

Quando chegou à área para a qual devia se apresentar, Hermione foi introduzida aos outros
quatro trainees contratados ao mesmo tempo, um dos quais se revelou ser Hannah Abbott.
Hermione a cumprimentou com surpresa e prazer, encantada que outro rosto familiar tivesse
sobrevivido à guerra. Ambas expressaram surpresa pela outra ter interesse em magia de cura,
e Hannah confessou ter pensado em substituir Pomfrey em Hogwarts um dia.

— Eu gosto de crianças — ofereceu timidamente. Hermione lhe deu um pequeno sorriso em


resposta, antes que a orientação começasse.

Ela trabalharia predominantemente na Ala Janus Thickey. St. Mungus havia feito uma
pequena reorganização sob a Comissão de Registro dos Nascidos-trouxas para manter todos
os experimentados juntos no mesmo andar, quer tivessem sido submetidos a feitiços, poções
experimentais ou qualquer outra coisa a que os encarcerados foram submetidos.
O registro dos pacientes era um pesadelo. Não havia nomes, apenas números, e parecia que
metade dos pacientes nem registros tinha — como se não importasse quais fossem os
resultados dos experimentos. Alguns dos registros também tinham sido deliberadamente
destruídos assim que souberam que Voldemort caíra, querendo apagar parte das provas do
que vinham fazendo.

Os trainees acompanhariam outros curandeiros por várias semanas, mas poderiam trabalhar
de forma independente assim que tivessem algumas habilidades e conhecimento básicos.
Fariam de tudo, desde exames médicos básicos a pesquisar potenciais curas e tentá-las,
supervisionados e com aprovação, claro. Hermione se sentiu ansiosa para começar,
revigorada pela ideia de um enigma a ser resolvido. Seu primeiro dia foi informativo e
agradavelmente exaustivo, e ela voltou a Grimmauld com a mente fervilhando.

Harry e Ron quiseram celebrar o primeiro dia coletivo deles, então depois do trabalho ela
trocou-se para jeans e camiseta antes que ela e Harry usassem a lareira para a Toca para o
jantar. Estavam se servindo de um excelente banquete para o qual Molly tinha se esmerado,
seu humor bastante radiante naquele dia, quando a edição da noite do Profeta chegou.

A coruja a deixou bem em frente a Arthur, que a desdobrou, engolindo uma garfada de
assado enquanto o fazia. Depois de um momento exclamou, contente:
— Vocês três saíram na primeira página, olhem!

Passou o jornal para Ron, que se inflou e sorriu para a foto.


— “Trio de Ouro de Volta à Ação” — leu em voz alta. — “Harry Potter, o Eleito, e Ronald
Weasley são mostrados aqui…”

Hermione o ouviu ler o artigo, terminando seu próprio assado com batatas enquanto ele
prosseguia. Era em grande parte factual, detalhando onde os garotos e ela estavam
trabalhando e sob cuja supervisão. Havia alguma especulação sobre sua escolha de emprego e
se isso significava ou não que os três haviam se desentendido, fazendo Gina e ela revirarem
os olhos. Ron terminou e passou o jornal para Harry, que o folheou rapidamente antes de se
inclinar para sussurrar para ela.

— Parece que você colocou um anúncio no jornal afinal. — Ele lhe entregou o jornal,
apontando para a foto dela. Hermione lhe lançou um olhar confuso ao aceitá-lo, baixando os
olhos para onde ele indicava.

Era uma foto menor, embaixo da dos dois garotos de pé encarando a câmera. A foto dela fora
tirada de lado enquanto falava com a bruxa da recepção, e ela se viu levando a mão esquerda
para trás da orelha a fim de prender um cacho rebelde enquanto falava. A manga de suas
vestes roxas escorregou com o movimento, a pulseira cintilando num lampejo da luz da
câmera, claramente exibida por vários segundos antes que a foto se repetisse.

Ela ergueu os olhos para Harry, arregalados. Ele lhe sorriu de volta, os olhos verdes
faiscando.

Na primeira semana em St. Mungus, ela passou a aprender como lançar diferentes tipos de
feitiços diagnósticos para ajudar a determinar o que havia de errado com um paciente. Os
feitiços só podiam dizer até certo ponto, e as semanas seguintes foram gastas aprendendo a
realizar diferentes testes para ver como o paciente reagia e o que suas reações significavam.
Esperava-se que mantivessem uma estrita confidencialidade do paciente, então ela não podia
discutir detalhes com Ron e Harry, mas Hermione gostava de como isso mantinha sua mente
ocupada.

Ela conseguia evitar pensar no fato de que seu benfeitor ainda não a havia contatado mesmo
após a foto no Profeta e sua indicação de que queria ouvir notícias. Se não estavam mortos,
então definitivamente estavam encarcerados, o que significava sem varinha. Sem varinha
significava que provavelmente não podiam “ativar” o feitiço para ouvir, então ela vinha
deixando a pulseira no braço no trabalho. De qualquer forma, parecia que não conseguiam
escutar.

Havia risco zero de a trancarem, já que a guerra tecnicamente acabara, mas era claramente
importante para eles que ela a mantivesse no pulso. Ainda havia Comensais da Morte
desgarrados soltos e, com a febre midiática, ela era um alvo muito público.

Parecia estranho sentir falta de alguém que ela não conhecia. Quem quer que fosse tinha
investido muitos recursos e pensamento nela durante a guerra, e a falta de comunicação desde
então soava anticlímax. Sentia-se um pouco desamparada, como se estivesse de pé numa
borda, mas em vez de cair simplesmente tivesse ido embora. Sentia que poderia descobrir
mais durante os julgamentos, por mais desconfortável que fosse essa ideia, e decidiu manter a
pulseira até que terminassem. Queria ter absoluta certeza de que a pessoa estava morta ou era
um Comensal da Morte antes de desobedecer as últimas instruções.

Depois de um mês seguindo outro treinador em grupo, passaram a poder trabalhar sozinhos
em uma ala de pacientes de baixo risco e já triados, a maioria sofrendo sintomas leves como
desnutrição ou efeitos persistentes de pequenas exposições à Maldição Cruciatus, como
espasmos musculares. Havia um bom número sofrendo sintomas semelhantes aos dela —
pesadelos, flashbacks, abalos emocionais. Ela recomendava aconselhamento a eles, mas não
seguia o próprio conselho. Conseguiram liberar vários pacientes e mandá-los para casa aos
entes queridos, o que era ao mesmo tempo satisfatório e frustrante. Hermione ficava feliz por
poderem ir embora, mas sentia que estavam desperdiçando tempo que poderiam gastar
estudando e curando os casos mais graves.

Seus pesadelos continuavam voltando, todas as noites, mas agora intercalados com sonhos de
pessoas reclamando de dores e incômodos mundanos enquanto ela tentava freneticamente
lavar o sangue dos braços e pernas. Estava perdendo o pouco de peso que conseguira
recuperar durante os alguns meses no Chalé das Conchas, seu jeans mais uma vez tão folgado
quanto fora quando viviam na tenda.

Harry e Ron estavam tão absorvidos em seus respectivos pares que não notaram, mas numa
noite perto do fim de junho ela, Harry, Ron, Luna e Gina estavam jantando juntos em
Grimmauld. Era barulhento e animado, risadas entremeadas de provocações, mas Hermione
se sentia deslocada. Não só por ser a única sem par, mas também porque não se sentia tão
feliz quanto os outros pareciam. Os outros pareciam seguir em frente e Hermione se sentia
quase… parada.
Luna, que havia formado um vínculo com Olivaras durante a guerra e decidira tornar-se sua
aprendiz, estava profundamente envolvida numa explicação sobre alguma fada mágica que
existia em uma floresta específica onde colhiam um certo tipo de madeira de varinha.
Hermione só prestava meia atenção, empurrando a comida no prato enquanto a mente
reprisava alguns de seus pacientes do dia. Luna interrompeu a história para comentar sobre os
wrackspurts ao redor da cabeça de Hermione, e ela tomou isso como sinal para prestar
melhor atenção.

A conversa derivou para o anúncio recente do Ministério de que os julgamentos criminais dos
Comensais da Morte começariam em setembro. Quaisquer Comensais, confirmados e
suspeitos, estavam detidos em Azkaban. Os Dementadores tinham ido embora fazia tempo e
aurores a guardavam agora, mas Harry e Ron confiaram a ela que haviam feito um turno de
treinamento em Azkaban e que, mesmo sem os Dementadores, era o lugar mais sombrio e
deprimente em que já estiveram.

— E isso inclui a mente do Voldemort — disse Harry, revirando os olhos para o sobressalto
de Ron. — Ao menos ele não passava a maior parte do tempo gritando.

A prioridade do Ministério parecia ser reconstruir: o próprio Ministério, St. Mungus, várias
indústrias e Hogwarts especificamente, mas financiamento era desesperadamente necessário
e a economia não fora bem durante a guerra. O que deveria ter sido um impulso econômico
foi um fiasco, já que os Comensais da Morte mataram ou prenderam qualquer um de
indústria mágica relevante: fabricantes de varinhas, donos de negócios e metade do quadro do
Ministério, para citar alguns. As únicas indústrias que prosperaram sob o domínio dele foram
a imprensa (fortemente censurada), a criação de criaturas e os artefatos das trevas, esta última
agora sob intenso escrutínio do Ministério.

O Ministério queria poder tomar reparações daqueles responsáveis por crimes de guerra e que
participaram das atividades de Voldemort. O Profeta enquadrava a instalação apressada dos
julgamentos como uma maneira de o Ministério reconstruir a confiança do público, mas
Hermione suspeitava que fosse para poder confiscar bens e usar o dinheiro.

No fim de junho, a proficiência dela e de Hannah aumentara a ponto de Pomfrey liberá-las


para o próximo nível de pacientes. Pacientes de risco médio e alto significavam que não
apenas exigiam um treinador com elas por um tempo, mas também um atendente, caso as
coisas se tornassem violentas ou saíssem do controle. Esses pacientes eram mantidos na parte
trancada da ala, e havia tantos que a maioria só recebera uma avaliação preliminar antes de
ser jogada em um quarto para ser atendida conforme o tempo e a equipe permitissem.

Eram o mesmo tipo de pacientes que a Comissão havia libertado, enviados para casa como
bombas-relógio. Alguns tinham sido recapturados e trazidos de volta, enquanto outros ainda
não haviam sido liberados desde a apreensão inicial pela Comissão. Muitos dos que haviam
sido soltos ainda não tinham sido descobertos, as famílias continuando a não denunciá-los.
Uma delas fora descoberta na semana passada quando a família trouxe uma bruxa que vinha
tendo convulsões, seu corpo emitindo faíscas e incendiando tudo ao redor. Ela foi levada em
instantes para a ala de segurança mais alta.

Ela estivera em casa por meses, a família se recusando a denunciá-la, apavorada de que nunca
mais a veriam se a denunciassem.
A pressão no peito de Hermione aliviou um pouco ao pensar em trabalhar com pessoas que
realmente precisavam de sua ajuda. Sua treinadora, uma mulher atarracada chamada Myriam
Blenkinsop, tinha cabelo branco curto e uma paciência inesgotável. Hermione não sabia se
ela estava na casa dos quarenta ou dos sessenta, mas tinha um sorriso gentil e nunca parecia
se irritar com suas perguntas. Nessa ala, ela poderia trabalhar individualmente com a
treinadora e pesquisaria como ajudar esses pacientes, todos triados e que permaneceriam no
hospital no futuro previsível. Os experimentos os haviam tornado um potencial risco para si
mesmos ou para a segurança pública.

Myriam levou-a para a parte trancada da ala, mostrou-lhe os procedimentos para entrar e sair
de um quarto e então pegou a lista de pacientes do dia. Estava organizada por número,
exatamente como os arquivos dos experimentos eram rotulados, sem nomes para indicar
quem eram. Na ala anterior, os pacientes podiam dizer seus nomes, mas Myriam advertiu
Hermione que nem sempre era o caso nessa ala e que o primeiro paciente do dia não fazia
ideia de quem era. Os pensamentos de Hermione voaram brevemente para o que sabia sobre
os pais de Neville Longbottom, e ela sentiu o estômago despencar.

Elas pararam diante da primeira porta da lista e bateram, varinhas erguidas, com o atendente
à frente. Sem esperar resposta, Myriam brandiu a varinha para destrancar a porta e deixou o
atendente — um bruxo grande e corpulento que parecia se comunicar inteiramente por
grunhidos — entrar primeiro. Depois de um momento, ele grunhiu para elas e Myriam
pareceu tomar isso como permissão para entrar. Myriam entrou primeiro, confirmando que o
paciente havia sido contido conforme o procedimento. Em seguida, acenou para Hermione
entrar.

Ela respirou fundo e atravessou o umbral, varinha erguida, e deu de cara com o rosto
encovado de Jorge Weasley.
Capítulo 7

Julho de 1998

Hermione ficou imóvel logo dentro do batente, encarando boquiaberta o homem à sua frente.
As paredes caiadas de branco desapareceram ao fundo enquanto ela absorvia uma versão
esquelética de Jorge, as mãos magicamente contidas à frente do corpo. Ele estava
empoleirado na beira de uma cama de hospital que ela suspeitava ter sido fixada ao chão, o
quarto desprovido de qualquer coisa além da cama e de uma mesinha ao lado. Ela percebeu
vagamente uma porta de banheiro em um canto e suspeitou que estaria igualmente vazia de
qualquer coisa com que ele pudesse se ferir.

Myriam não notou a reação dela, ocupada olhando o prontuário à sua frente por um momento
antes de lhe fazer perguntas como que dia era. Jorge a encarou de volta, a expressão perplexa.
Ele não respondeu corretamente.

— E-ele não sabe quem é? — crocitou Hermione, recordando o que Myriam dissera antes de
entrarem no quarto. Myriam ergueu a cabeça bruscamente para encarar Hermione, alarmada
com o som da voz dela.

— Você sabe quem é? — indagou. Seu jeito afável virou, de repente, puro profissionalismo.
Hermione assentiu de leve, sentindo que poderia desabar. Pôs uma mão na parede atrás de si
para se firmar.

— Jorge Weasley — disse rouca, recitando o ano de nascimento. — Está desaparecido desde
março, ele e o irmão gêmeo, Fred. Eles têm um irmão mais velho, Percy, que também está
desaparecido.

Myriam conjurou uma pena e começou a rabiscar no prontuário. Depois de alguns momentos,
conduziu Hermione para o corredor e pediu ao atendente que aguardasse. Do lado de fora do
quarto, conjurou uma cadeira e mandou Hermione sentar, mantendo as mãos sobre os ombros
dela e olhando-a nos olhos.

— Em circunstâncias normais, profissionais de saúde não podem trabalhar com pessoas que
conhecem. Conflito de interesse e tudo mais — disse Myriam, séria. — Infelizmente, devido
à falta de pessoal agora, certas regras foram suspensas por enquanto. Dito isso, se for
perturbador demais, vamos realocá-lo para outra curandeira.

Hermione respirou fundo.


— Tudo bem — sussurrou. — Só o choque inicial. Ele é amigo. Estou bem para continuar.

Myriam a avaliou por um instante.


— Você vai trabalhar diretamente comigo pelos próximos meses, pelo menos, antes de se
formar no treinamento. Vai aprender alguns dos seus limites — o que consegue e o que não
consegue lidar — e eu poderei observá-la também. Se eu vir algo ficando pessoal demais e
achar que você não consegue manter a imparcialidade, eu a realoco.
Depois que ela concordou e tomou um momento para se recompor, Hermione se levantou e
indicou que estava pronta para continuar. Myriam desfez a cadeira e pegou novamente o
prontuário, entrando no quarto onde Jorge ainda estava sentado na beira da cama.

— Bem, agora que sabemos quem você é, Jorge, podemos avançar um pouco mais num plano
de tratamento! — disse-lhe jovialmente, sorrindo. Jorge sorriu de volta, mas o movimento
pareceu reflexo, os olhos ainda confusos.

— Uma poção restauradora de memória vai ajudar, mas é preciso administrá-la com a
intenção de restaurar memórias específicas — instruiu Myriam. — Dar uma sem ter ideia do
que você está tentando trazer de volta dificilmente vai funcionar, especialmente quando toda
a identidade deles foi apagada. Você precisa ser capaz de guiá-los.

Hermione pensou nos pais e registrou mentalmente para pesquisar depois. Precisava verificar
se uma poção de memória poderia funcionar em trouxas que tiveram as memórias
modificadas ou se a poção só funcionava em seres mágicos.

Myriam gesticulou com a pena na direção de Jorge.


— Ele pode não se lembrar de tudo, mas ao menos vai se lembrar de quem é. Sofreu um
pouco de Cruciatus e foi mal alimentado, mas, fora isso, parece ileso.

Enquanto faziam anotações no prontuário quanto ao plano de tratamento, Hermione


perguntou se Myriam notara mais alguém que se parecesse com ele. O gêmeo dele, Fred, e o
irmão mais velho, Percy, tinham sido levados ao mesmo tempo que Jorge e também eram
considerados desaparecidos. Myriam pensou por um momento, mas balançou a cabeça,
dizendo que não os vira, embora também não fosse responsável por todos na ala.

— Vou perguntar por aí, podem ter sido atribuídos a outro membro da equipe — disse
Myriam com gentileza. Hermione perguntou se poderia ela mesma avisar os Weasley sobre
Jorge depois do expediente, e Myriam concordou.

O restante dos pacientes da manhã era desconhecido para ela. Hermione passou a tarde
folheando periódicos médicos sobre modificação de memória e se perguntando por que
alguém teria julgado adequado apagar toda a memória de Jorge. O que mais a preocupava era
a afirmação de Myriam de que ele estava ileso no mais.

Mengele costumava manter um dos gêmeos em relativa saúde enquanto realizava


experimentos extensos no outro, mantendo um como controle para poder observar os efeitos
dos experimentos em tempo real. Se Jorge estava bem, à parte alguns Feitiços de Memória,
ela temia em que estado Fred poderia estar — isso se chegassem a encontrá-lo.

Imediatamente após o turno, ela usou a lareira direto para a Toca sem nem trocar as vestes
roxas. Arthur ficou bastante alarmado ao encontrar Hermione e Molly agarradas uma à outra
e chorando na sala de estar. Os Weasley estavam exultantes por qualquer notícia, ainda que
agridoce. Ele não se lembrava deles, mas estava vivo. Era a maior notícia que recebiam desde
que os irmãos desapareceram.

Naquela noite, ela sonhou com Comensais da Morte que explodiam com fogos de artifício
em vez de feitiços, as faíscas incendiando tudo o que tocavam.
À medida que julho avançava, Hermione impressionou Myriam com sua capacidade de
propor soluções inovadoras e eficazes. Hermione sugeriu chamar um fotógrafo para vir e
fotografar todos os pacientes, não apenas os com perda de memória, para acelerar o processo
de identificação. Famílias com pessoas desaparecidas poderiam vir e ver todas as fotos e
contar mais sobre os históricos médicos dos pacientes, levando a planos de tratamento mais
sob medida. A ideia subiu a cadeia para aprovação e Hermione tinha esperança de que
pudesse ajudar a encontrar os outros dois Weasley desaparecidos.

A memória de Jorge voltava devagar — ao menos ele sabia quem era e se lembrava até mais
ou menos o quarto ano de Hogwarts. Havia lacunas nas recordações e ele era propenso a
acessos de fúria, especialmente depois de perguntar por Fred e não receber informações.
Myriam e Hermione não achavam que ele estava apto a voltar para casa ainda, seus acessos
envolvendo magia violenta demais mesmo sem varinha, mas ao menos ele tinha permissão
para visitas supervisionadas dos pais e irmãos. Molly passara a aparecer diariamente e já
estava em bases de primeiro nome com os atendentes responsáveis.

Gina assumira um cargo nas Harpias de Holyhead, as Ligas de Quadribol de volta à ativa. O
Ministério promovia o esporte com afinco para elevar o moral nacional. Ela partiria para o
campo de treinamento por seis semanas no começo de agosto, para desgosto de Harry. Ele
desabafou com Hermione numa noite, durante o jantar em Grimmauld.

— Passamos um ano separados e só tivemos os últimos dois meses juntos. Agora ela vai
viver na estrada o tempo todo, viajando seis meses por ano.

— Você poderia se juntar a ela nos fins de semana? — sugeriu Hermione com cautela,
brincando com seu salmão. O apetite ainda estava ruim. — Poderia tirar umas férias e ir a
Holyhead.

— Acabei de começar no departamento, não tenho muita férias. — Ela abriu a boca para
interromper, mas ele a cortou. — Não vou usar a carta do Eleito porque quero ficar com
minha namorada. Nunca mais me levariam a sério.

Hermione fechou a boca e comprimiu os lábios para esconder um sorriso.

— Não quero atrapalhar a carreira dela, mas também quero estar fisicamente com ela, sabe?

Ela evitou apontar que, na verdade, não sabia — não tinha um relacionamento romântico
desde Krum — e tentou acenar com simpatia.

— Pelo menos são só seis semanas para começar? — arriscou. — Você vai ter algum tempo
com ela entre o fim do campo e o começo da temporada. Ela também comentou que os
primeiros jogos serão perto de Londres.

Harry levou o prato vazio até a pia, gesticulando sem varinha para que a louça se lavasse
sozinha. Suspirou, de costas para ela enquanto ela permanecia à mesa.

— Só queria que desse para ter as duas coisas — resmungou, apoiando as mãos no balcão e
se inclinando.
— Deixa ela grávida. — Hermione deu de ombros, tomando a última garfada do jantar. Harry
engasgou e se virou num salto, os olhos esbugalhados. Olhos verdes se estreitaram para ela
quando percebeu que ela lutava para não sorrir.

Ele levou a mão ao peito.


— Achei que estava tendo um ataque cardíaco — disse, adotando um tom ofendido.
Hermione revirou os olhos.

— Imune à Maldição da Morte, mas a simples ideia de criar uma vida podia te matar. Não é à
toa que Voldemort teve problemas — ele entendeu tudo ao contrário. — provocou.

— Diz a mulher que provavelmente nunca teve um susto de gravidez na vida — resmungou.

Ela ergueu a sobrancelha, imperturbável.


— E você já teve? Eu sabia que vocês têm problemas com feitiços de silêncio, mas o
anticoncepcional? Sério?

Ele corou de um vermelho opaco, lembrado de ela tê-los ouvido na outra noite. Murmurou
que não ia acontecer de novo antes de se voltar para a pia. Ela se aproximou e entregou o
prato a um pano de prato bastante agressivo, o feitiço se intensificando à medida que a
vergonha de Harry crescia.

— Só estou brincando — disse, pousando uma mão nas costas dele. Harry assentiu, sem
encará-la, as faces ainda ruborizadas.

— Eu… ah… não ficaria chateado se você encontrasse alguém com quem quisesse praticar
seus próprios feitiços de silêncio — ofereceu, ainda sem olhá-la. — Você tem parecido…
sozinha, ultimamente. Não bem você mesma.

Hermione sentiu as próprias bochechas começarem a arder. Retirou a mão das costas dele e
desviou o olhar.
— Eu não tenho… tem… — ela tentou organizar as ideias antes de suspirar.

— Tenho me concentrado no trabalho. Ninguém realmente… me atraiu. — Ela hesitou por


um momento, observando o pano de prato entusiasmado agora esfregando as bancadas.
Seguiu seus movimentos enquanto ele lavava o topo das mãos de Harry, que ainda estavam
apoiadas no balcão. Harry nem percebeu, o olhar no chão, ainda envolto no constrangimento.

— Ainda estou esperando por… eles — murmurou, gesticulando com o pulso esquerdo na
direção dele, a pulseira à mostra com a camiseta de mangas curtas. Bichento entrou na
cozinha em passos largos, miando pelo jantar, e ela aproveitou a deixa para tentar encerrar a
conversa alimentando o gato. Harry abrira a boca para dizer algo quando ela se virou, mas o
pano de prato começou a ensaboar os antebraços de Harry, distraindo-o por completo. Ele
passou alguns momentos tentando afastá-lo fisicamente antes de perceber que precisava
encerrar o feitiço.

Ele estalou a mão, o pano recolhendo-se à pia, antes de voltar os olhos para ela.
— Hermione…
Um estrondo no vestíbulo interrompeu bruscamente a conversa. O coração dela saltou à
garganta, a mente invocando cenários de Comensais desgarrados invadindo e flashbacks de
Fulminadores. A voz de um homem soou um momento antes de Walburga começar a gritar.

— TRAIDOR DO SANGUE! COMO OUSA SUJAR A CASA DE MEU PAI COM A SUA
PRESENÇA!

Eles correram para o corredor, varinhas em punho, para encontrar Ron estatelado no chão e
as cortinas de Walburga esvoaçando em seu vento mágico. Harry foi ajudá-lo a se levantar
enquanto ela continuava a berrar para Ron sobre sua indignidade.

— Tropecei no tapete! — gritou Ron. Ele gesticulou grosseiramente para Walburga. —


Acordei a velha bruxa!

Hermione virou-se para o retrato, que agora a avistara e voltara à ladainha habitual sobre seus
modos de ladra. Ela ergueu a varinha, mas as palavras que Walburga usava chamaram sua
atenção, fazendo-a parar no ato de silenciá-la.

— …NÃO MERECE TANTA PROTEÇÃO DE SANGUE-PURO! LADR—! VOCÊ


ROUBOU DA MAIS ANTIGA E NOBRE—!

— CHEGA!

O grito de Hermione realmente deteve o delírio por um momento, aqueles olhos selvagens
cravando-se no rosto dela. Peças de quebra-cabeça começaram a se encaixar em sua mente,
os olhos correndo rapidamente de um lado a outro enquanto ela pensava. Walburga começou
a sibilar para ela num tom baixo.

— Acha que é tão esperta, não é, sangue-ruim? Acha que já desvendou tudo? Eu ouvi como
te chamam, Bruxa Mais Brilhante da Sua Idade. HÁ! Você nem consegue descobrir quem te
deu esse tesouro no braço. Sua sangue-ruim estúpida, a única coisa para a qual você presta é

Harry puxou as cortinas sobre o retrato, silenciando-a, antes de se voltar para Hermione. Ela
empalidecera, os olhos arregalados.

— Eu achei que ela queria dizer o medalhão — sussurrou quando Ron entrou no campo de
visão. Os lábios lhe pareciam dormentes, sem sangue. — Da outra vez. Achei que ela queria
dizer o medalhão na minha bolsa, não a pulseira.

A respiração dela acelerou quando olhou para a pulseira, uma ideia se formando.
— A tapeçaria — disse, os olhos voltando para Harry. — Se for alguém da família Black,
deve estar na tapeçaria.

A tapeçaria não foi a revelação que Hermione esperava. Estava incompleta por causa das
pessoas que tinham sido explodidas dela ao longo dos anos, os galhos não se estendendo
além das partes chamuscadas. Um exemplo claro era Andrômeda – não havia nenhuma linha
levando a Tonks ou a Teddy abaixo do buraco onde seu rosto costumava estar.
Os garotos a tinham seguido até a sala da tapeçaria e se acomodado em um dos sofás.
Hermione ignorou a conversa deles enquanto corria pelas possibilidades.

Andrômeda poderia ser um bom lugar para começar. Talvez reconhecesse a pulseira se de
fato fosse uma herança dos Black.

A tapeçaria também não estava totalmente completa por falta de espaço. Hermione notou que
os Crouch estavam conectados, mas parava depois de Casper Crouch, que ela suspeitava
poder ser o pai de Barto Crouch Sênior com base nas datas. Não achava que Barto Crouch
Júnior tivesse gerado filhos, mas teria de escrever ao Ministério para ter certeza.

Algo que Rony dizia chamou sua atenção.


— …lado Prewett, não sabia que eles eram parentes.

Ela girou no lugar e encontrou Rony apontando para o lado oposto da sala. O nome Ignatius
Prewett estava ligado a Lucretia Black, mas não havia nenhuma linha levando a filhos
embaixo. Rony explicou que Ignatius era seu tio-avô. Hermione descartou imediatamente a
teoria que vinha se formando de que poderia ser um membro da família Weasley. Os Prewett
estavam ligados por casamento, não por sangue, o que não batia com o que Walburga estava
alegando.

— Ela pode simplesmente estar te zoando — apontou Rony. — Não é como se tivesse algo
melhor para fazer.

— É um feitiço, Ronald, não uma pessoa — retrucou. — Por mais senciente que pareça, está
ali basicamente para gritar com pessoas que não são dignas da Casa dos Black segundo as
visões distorcidas que ela tinha em vida.

Hermione encontrou sete buracos na tapeçaria. Conjurou uma pena e pergaminho e começou
a fazer uma lista, ignorando os garotos enquanto eles especulavam sobre a árvore genealógica
de Harry. Três dos buracos ela conseguiu identificar – Sirius, que não tinha descendência,
Andrômeda e Alphard Black. Harry estava bastante certo de que Alphard morrera sem filhos
e contou uma história de Sirius, que mencionava Alphard ter deixado todo o seu ouro para
ele.

Restavam quatro a investigar – Isla, Phineas, Marius e Cedrella – para ver se haviam tido
filhos que ainda estivessem por aí, ou ao menos vivos na época em que Hermione recebera a
última nota. Uma árvore genealógica mais extensa seria necessária e ela pensou que poderia
solicitar uma ao Ministério. A única outra ponta solta que encontrou foi…

Malfoy?

Ela escreveu o nome na lista com um ponto de interrogação, sem realmente acreditar que
fosse uma opção. Hermione caminhou até os garotos, lista completa, e afundou-se em um dos
sofás, observando os cinco nomes em sua lista. Malfoy era o único ainda vivo, mas a
desprezava, pelo que sabia. Achava muito mais provável encontrar um parente distante
através das linhas dos outros quatro que tivesse enviado a pulseira, talvez em nome de Harry,
do que imaginar que fosse Malfoy.
Rony aparentemente pensava o mesmo. Bastou ele bater o olho na lista e caiu na gargalhada,
passando-a para Harry porque não conseguia nem articular as palavras. Harry lhe deu um
olhar de descrença.

— Estou eliminando todas as possibilidades — ela estalou, defensiva. — Não acredito de


verdade nisso.

— Você vai ter de esperar um pouco para eliminar essa possibilidade. — Rony acenou com a
cabeça para o pergaminho nas mãos de Harry. — A família Malfoy inteira está em Azkaban,
aguardando julgamento. Nada de corujas entrando ou saindo.

Ela sentiu todo o sangue deixar o rosto. Parentes dos Black, incapazes de se comunicar com
ela desde o fim da guerra, vastas quantias de ouro ou acesso a um fabricante de varinhas,
acesso a uma horcrux.

O último ponto a fez parar. Se Belatriz tivesse movido a horcrux para outro cofre, poderia ter
escolhido o da família Black ou talvez dado a outro seguidor. A segunda possibilidade não
lhe parecia provável – Belatriz era do tipo ciumento e acumulava seus tesouros, pelo que
tinham visto do cofre dos Lestrange e do comportamento dela naquela noite na mansão.
Duvidava que tivesse confiado a alguém mais, nem mesmo à irmã Narcisa. Hermione franziu
a testa. Draco Malfoy teria tido acesso ao cofre da família Black? Ele deveria ter tido acesso
em algum momento, se fosse ele quem tinha enviado a pulseira. Como exatamente
funcionava a lei de herança dos cofres?

E se tinha sido ele quem enviou a pulseira, por quê? Eles nunca se deram bem. Ele tinha
ajudado intencionalmente a derrotar Voldemort, mantido-a viva e enviado notas de tom quase
possessivo. Isso não batia com o que sabia dele, mesmo que o resto da teoria fizesse sentido.
Sentiu-se um pouco tonta.

Harry, que vinha acompanhando sua linha de pensamento, explicou a Rony sua e de
Hermione suspeita de que o benfeitor podia estar encarcerado. Rony empalideceu conforme
Harry falava.

— Você… eu… mas… Malfoy… — gaguejou. Hermione encontrou o olhar dele.

— Não sabemos ao certo — disse, mordendo o lábio e desviando o olhar. — Vou precisar de
uma árvore genealógica extensa e quero falar com Andrômeda.

— Mas ele te odeia! — Rony explodiu, horrorizado. Ela fez uma careta.

— Eu sei. — Não queria pôr em voz alta o pensamento seguinte, mas ele escapou mesmo
assim.

— Pode ter sido uma manobra. Um seguro para que, de qualquer forma, os Malfoy
acabassem do lado certo da guerra. Se Voldemort vencesse, eram apoiadores declarados. Se
perdesse — engoliu em seco —, então ajudaram a derrubá-lo.

— Ou ele vem nutrindo uma paixão secreta por você há anos — disse Harry, sarcástico. —
Alguma vez recebeu poemas anônimos sobre seus olhos?
Rony lhe lançou um olhar de nojo. O sorriso de Hermione saiu forçado. Não sabia qual
explicação doía mais – ser apenas um plano de seguro ou que Malfoy secretamente gostara
dela todo o tempo em que a insultara.

— Bem, vamos descobrir nos julgamentos, não vamos? — disse Rony. — Se eles fizeram
isso para salvar a própria pele, vamos ouvir lá. — De repente se animou. — Ei, se você
estiver noiva à força de Malfoy, quero desafiá-lo para um duelo.

— O quê?

Rony abriu um sorriso.


— Direitos de sangue-puro. Posso desafiá-lo pela sua… er… mão, não que fosse valer de
nada — acrescentou depressa quando ela franziu o nariz. — Eu poderia quebrar seu noivado
e aleijar o fuinha ao mesmo tempo. Duas vitórias numa só.

Hermione detestava toda essa baboseira antiquada de sangue-puro. Resfolegou para Rony,
mas não respondeu. Os julgamentos ainda estavam a um mês de distância e ela não fazia
ideia da ordem em que aconteceriam. Precisava escrever ao Ministério e falar com
Andrômeda antes disso. Depois de um momento, virou-se para Harry.

— Quer visitar o Teddy esta semana?

Agosto de 1998

Marcar uma visita com Teddy e Andrômeda levou mais tempo do que o previsto. Entre o
aniversário de Harry no fim de julho, a partida iminente de Gina e um incidente em St.
Mungus que deixou Hermione fazendo hora extra, já era meados de agosto quando
conseguiram combinar.

Um dos Fulminadores presos em Azkaban conseguiu quebrar as contenções que mantinham


suas habilidades mágicas suprimidas e explodiu com um feitiço incendiário, incendiando
vários detentos e causando queimaduras extensas. Como Hermione não lidava bem com
sangue e vísceras, pediram que ela fizesse hora extra junto com Hannah e os outros novatos
para liberar todos os pacientes de baixo risco e abrir espaço. Precisavam de outra ala trancada
para lidar com a enxurrada de pacientes de alta segurança na ala deles, muitos dos quais eram
Fulminadores. Ela e os outros trainees esvaziaram os pacientes de baixo risco em dois dias.
No resto da semana, ficaram encarregados de seus pacientes normais com os atendentes,
trabalhando em duplas, já que os curandeiros de nível mais alto estavam todos mobilizados
em outro lugar.

Pomfrey indicou que estavam cogitando trazer curandeiros de fora do país, com contratos,
para atravessar esse período de crise. Os trainees ainda estavam a pelo menos um mês de
qualquer tipo de trabalho independente, embora ela soubesse que ela e Hannah mostravam
muito potencial, e mais da metade dos pacientes precisava de atenção mais individual. A
proporção ideal seria um curandeiro para cinco ou seis pacientes, e a atual era mais parecida
com um para dezesseis. Pomfrey estava tão preocupada com os pacientes quanto com o
esgotamento da equipe.
Ela e Harry finalmente combinaram de ver Andrômeda e Teddy por algumas horas numa
tarde de sábado em meados de agosto. Aparataram até o ponto mais próximo, a cerca de três
quarteirões, e caminharam a curta distância até a casa de Andrômeda. Harry vinha calado
desde que Gina partira, sorumbático e solitário sem a namorada.

Ele se animou quando chegaram, e Andrômeda imediatamente lhe passou Teddy. O pequeno
bebê, agora com três meses, fitou Harry maravilhado antes de surgirem finos cabelos pretos
em sua cabeça. Andrômeda riu.

— Ele está tentando copiar o seu cabelo — disse, enquanto Harry observava, fascinado. —
Mas ainda é muito novo para acertar. Dora fazia a mesma coisa, quase esqueço que ela fazia
isso.

O sorriso de Andrômeda ficou um pouco triste e nostálgico à menção da filha. Hermione


pousou uma mão reconfortante em seu ombro e mudou de assunto para as novidades, a fim
de distraí-la.

Os três conversaram um pouco antes de Teddy decidir que estava com fome, seu choramingo
aumentando de volume de forma constante. Andrômeda conjurou uma mamadeira e a
entregou a Harry, sobrepondo-se a quaisquer objeções alarmadas dele por não fazer ideia do
que estava fazendo, e observou com satisfação enquanto o orientava sobre como alimentar o
afilhado. Juntou-se a Hermione num sofá enquanto Harry ninava e alimentava o pequeno
Teddy do outro lado da sala, a expressão ainda preocupada enquanto vigiava Teddy como um
falcão.

Hermione achou que era agora ou nunca.


— Posso te fazer uma pergunta sobre a sua família? Do lado dos Black, especificamente.

Andrômeda focou nela e, por um momento, Hermione lembrou-se fortemente de Belatriz.


Sua respiração parou. Os traços eram semelhantes, mas o cabelo de Andrômeda era um
castanho bem mais claro, seus olhos, mais gentis. Ela piscou e a semelhança se desfez. Soltou
uma longa expiração.

— Claro — ofereceu Andrômeda com elegância, sem notar a reação de Hermione. — O que
quer saber?

Hermione arregaçou a manga e estendeu o pulso esquerdo.


— Isto te parece familiar?

Os olhos de Andrômeda cravaram-se na pulseira enquanto sua expressão se fechava. Ela


estendeu a mão como se fosse tocá-la, mas a recolheu antes. Não disse nada por vários longos
segundos, o som de Teddy deglutindo alto no cômodo.

— É uma herança da família Black, se é isso que você está realmente perguntando —
confirmou por fim, encontrando os olhos de Hermione. — Quem te deu?

Hermione fez uma careta. Resumiu brevemente a Andrômeda a história de como a recebera,
o que o relatório dos aurores descrevera, sua especulação de que poderia ser um presente de
intenção, e a ajuda que ela e os garotos haviam recebido do remetente durante a guerra.
A outra bruxa lhe lançou um olhar de aprovação antes de olhar para Harry, para conferir os
dois. Teddy dormia profundamente, a boquinha aberta e roncando. Harry era a imagem
espelhada.

Andrômeda cobriu a boca com a mão, abafando uma risada enquanto Hermione fazia o
mesmo. A bruxa mais velha ajeitou um cobertor em volta deles com delicadeza antes de
acenar para Hermione segui-la até a cozinha, deixando os dois dorminhocos na cadeira de
balanço. Assim que se sentaram à mesa com um bule de chá e duas xícaras, Andrômeda
considerou Hermione enquanto envolvia a caneca com as mãos.

— Não conheço muito bem meu sobrinho — começou, referindo-se ao mais novo dos
Malfoy. — Narcisa e eu nunca chegamos a nos reconectar depois que fui deserdada.

Hermione sacudiu a cabeça enquanto Andrômeda levava a xícara aos lábios. Ela nem tinha
revelado essa parte da teoria; Andrômeda era rápida.
— Eu só quero saber sobre a pulseira. E se havia outros parentes Black que você conhecesse
e que não estivessem naquela tapeçaria em Grimmauld, caso não seja realmente o Malfoy.

— Narcisa e ele são os dois únicos que têm acesso ao cofre da família Black agora que Bella
se foi — disse Andrômeda, baixando a xícara. Ela acenou para o pulso de Hermione. — Essa
pulseira ficava no cofre. Não tenho acesso desde que me casei com Ted — teria de ser um
dos dois a retirá-la. Como Narcisa é casada e prefere bruxos a bruxas, posso praticamente te
garantir que é do Draco.

— Só por via das dúvidas, se não for — insistiu Hermione, notando que a voz ia ficando
aguda por causa do desconforto. — O que você pode me dizer sobre ela?

Andrômeda sorveu pensativa por um momento, o olhar especulativo.


— O feitiço de escuta que você mencionou é ativado pelo anel da família Black. O chefe da
casa normalmente o usa — é da mesma prata da sua pulseira, com o brasão dos Black. Meu
pai tinha o anel, mas nunca ousou dar a pulseira à minha mãe. Ela provavelmente o teria
envenenado se ele tentasse ouvir as conversas dela. — O sorriso de Andrômeda foi amargo.

— Acho que parte do “impedir dano físico” é também protegê-la de autolesão — Andrômeda
a avaliou significativamente por um momento, lançando propositalmente um olhar de cima a
baixo ao seu corpo muito magro. — Em algum ponto, Hermione, ele vai se sobrepor à falta
de apetite — acrescentou com gentileza. — Não pode afetar seu estado emocional, apenas o
físico.

— Suas outras suposições estão corretas — prosseguiu Andrômeda, retomando o tom


reflexivo e ignorando a reação de Hermione ao comentário sobre sua aparência. — Era
tipicamente dado a uma mulher que um dos homens desejava cortejar. Não é uma declaração
explícita de noivado, mas uma forma antiquada de dizer que você estava fora de limites
enquanto ele passava um tempo com você e decidia se combinavam.

Hermione já tinha presenciado coisas demais em sua curta vida para que essa última
informação lhe causasse náusea, mas quase aconteceu. Seu cérebro independente e moderno
gritava sobre o quão sexista aquilo tudo era. Ela franziu o cenho para a mesa.
Andrômeda pigarreou delicadamente, observando o punho cerrado de Hermione com um
pequeno sorriso.
— Como eu disse, não conheço muito bem meu sobrinho, mas conheci Lúcio. Cissy e ele já
namoravam havia um tempo quando eu fugi com Ted. — Os olhos de Hermione voltaram
para Andrômeda e ela descrispou a mão, erguendo a xícara de chá esquecida.

— Ele era bastante possessivo com Cissy. Ele e Sirius chegaram a sair no tapa uma vez
porque Sirius deu um abraço em Cissy. Não parecia importar a Lúcio que eles fossem primos.
Veja bem, tenho quase certeza de que Sirius fazia de propósito para provocá-lo. Gostava de
chamá-lo de “Lucinha”. — Andrômeda revirou os olhos à lembrança, e Hermione soltou uma
risadinha. Definitivamente soava como algo que Sirius faria.

— Mas ele a tratava bem — ofereceu Andrômeda, após uma pausa. — A mimava — vivia
dando presentes, levando-a para lugares, muito afetuoso. Parecia adorar o chão que ela
pisava. — Seus olhos foram longe por um instante. — Ted era assim — disse, o olhar
baixando para a xícara esquecida. — Amou-me pelo que eu era, mesmo quando eu errava.

Ela pigarreou de novo, trazendo de volta os olhos marejados para Hermione. Hermione
retribuiu o sorriso, um tanto triste.

— Parece lindo, o que vocês tiveram. Espero que um dia eu tenha o que você teve com Ted
— disse, estendendo a mão para a mulher mais velha. Elas apertaram as mãos sobre a mesa.
Hermione ficou quieta por um momento antes de suspirar.

— Mas tenho quase certeza de que seu sobrinho me odeia. Mesmo que tenha sido ele quem
enviou a pulseira, passou a maior parte dos nossos anos de escola me dizendo na cara por que
me desprezava. Ele está prestes a ser julgado por assassinato e sabe-se lá mais o quê.

— Sem contar — resmungou, concluindo o desabafo —, que ele é meio babaca.

Andrômeda riu dessa última.


— Bem, nenhum de nós é perfeito.

Terminaram na cozinha e voltaram ao par adormecido na sala. Andrômeda retirou Teddy dos
braços de Harry e levou-o para o próprio quarto. Harry acordou durante a movimentação,
desorientado, e se despediu de Andrômeda sem graça antes de partirem. Enquanto
caminhavam de volta ao ponto de aparatação, Hermione contou a ele a conversa que perdera.

— Ainda preciso checar a árvore genealógica — insistiu Hermione depois que voltaram a
Grimmauld. Franziu o cenho por um momento, pensando no quebra-cabeça do cofre dos
Black. — Os registros de herança de Gringotes são abertos ao público?

— Duvido — disse Harry, sem rodeios. — Pelo menos sabemos que você não está realmente
noiva do fuinha. Ele está só, como disse a Andrômeda, avisando a todos que você está fora de
limites? — sugeriu, malicioso. Ela lhe lançou um olhar.

— Uma pena, eu já tinha comprado presente de casamento — suspirou dramaticamente.


Hermione lhe deu um tapa de costas da mão no braço.
— Olha, se é uma manobra, você vai descobrir em quê, três semanas? Os Malfoy não são um
dos primeiros julgamentos? — Ela assentiu. O Profeta anunciara que os Malfoy e os
Lestrange seriam julgados primeiro, por serem as famílias mais prolíficas (e Hermione
suspeitava, as mais ricas). — Você já pensou no que vai fazer se não for algum tipo de plano
de seguro?

Ela não tinha realmente pensado nisso e sacudiu a cabeça para Harry. Hermione estava tendo
muita dificuldade em conciliar o garoto escolar vil, sardônico, e o adulto assassino que
conhecia com o benfeitor secreto que cuidara deles durante a guerra e cujas notas exalavam
uma possessividade feroz que, secretamente, eletrizava uma partezinha, minúscula,
microscópica dela.

Ela ainda não estava totalmente convencida de que fosse ele e decidiu enviar seu pedido ao
Ministério naquela noite.

— Bem, se for o que o mantém fora de Azkaban, a imprensa vai fazer a festa.

Ela fez uma careta. Quase podia ver as manchetes que Skeeter escreveria, retorcendo a
história num romance de guerra proibido.

— Se essa for a tática dele, não será a primeira pessoa que eu ponho fogo. Podemos também,
de repente, ganhar outro bichinho de estimação inseto por algumas semanas — disse ela,
sombria. Harry abriu um sorriso.

— Bem, ao menos você e Malfoy têm algo em comum — disse ele, ampliando o sorriso ao
ver o cenho dela —: vocês dois são um pouco assustadores quando estão com raiva.

— Você está bem relaxado quanto a possivelmente ser o Malfoy — disse ela, semicerrando
os olhos. — Considerando quanto tempo passou obcecado com as atividades dele no sexto
ano. Eu esperava uma reação mais na linha do Rony, especialmente já que ele matou
Dumbledore.

Harry deu de ombros, o sorriso sumindo.


— Se for ele, ele nos ajudou a derrubar Voldemort. Difícil ajudar do outro lado da guerra sem
sujar as mãos. Olhe para Snape.

Era um ponto justo.


Capítulo 8

Agosto de 1998

Na segunda-feira após a visita a Andrômeda, Hermione se pegou contemplando quão


efetivamente Pomfrey responderia a súplicas. A matrona acabara de informá-la de que ela
não poderia mais contornar sua aversão às partes mais “sujas” do trabalho de curandeira, já
que três curandeiros e um trainee tinham ligado avisando doença e eles ainda lidavam com
algumas das queimaduras do Fulminador que explodira em Azkaban.

Ela se viu com um grande pote de pasta para queimaduras em uma mão e vários prontuários
na outra, dois atendentes a reboque, enquanto começava suas rondas na ala de alta segurança.
Depois de aplicar dois potes inteiros de pasta em três pacientes, fez uma pausa para passar
muito mal no banheiro. A imagem de pele carbonizada e feridas em bolha persistia em sua
cabeça.

Enquanto se limpava, percebeu que, embora ainda tivesse pesadelos, na verdade não vinha
vomitando por causa deles havia alguns dias. Não tinha tempo para refletir sobre o porquê e
arquivou o assunto para exame posterior. Recuperando seus prontuários restantes e mais
pasta no posto dos curandeiros, reuniu os dois atendentes e seguiu para o quarto seguinte.

Enquanto os atendentes entravam para conter o paciente, ela abriu o prontuário e passou os
olhos. Também estava numerado — um número de paciente de St. Mungus no topo e o
número de prisioneiro de Azkaban abaixo. Perguntou-se, distraída, se não poderiam mudar
para um sistema com nomes enquanto lia o arquivo ralo. O paciente tem 1,88m e ela notou
que estava abaixo do peso para a altura. Cicatrização extensa ao longo do tórax do paciente,
marca negra no antebraço esquerdo. Suspeita-se exposição prolongada ao Cruciatus.
Histórico do paciente incerto. Capacidades cognitivas intactas, ele só é não colaborativo.

Ela fungou, divertida, com a última linha, reconhecendo a caligrafia de Myriam. Os


atendentes chamaram dizendo que estava liberado para entrar e ela fechou o prontuário,
adentrando o quarto.

Sentado absolutamente ereto na cama e encarando a porta, cada centímetro dele parecendo
plenamente capaz de matar mesmo com as contenções e dois atendentes pairando sobre si,
Hermione inspirou bruscamente ao ver o cabelo loiro e os olhos cinza semicerrados. Ele a
observou entrar e aproximar-se, os olhos não deixando os dela.

— Olá, Granger. — Draco Malfoy cumprimentou, a voz sugerindo que ela havia entrado no
covil dele. Era uma reação estranha para alguém amarrado e aparentemente sofrendo
queimaduras de segundo grau.

— Malfoy. — Ela respondeu de modo neutro, esforçando-se pela indiferença. Não o via de
tão perto desde a noite em que foram capturados e levados à Mansão Malfoy, só tendo
vislumbres na batalha final. Ainda era uma figura imponente mesmo sentado. A diferença de
altura os deixava face a face, os olhos cinza dele cravando-se nos seus. Ela quebrou o contato
visual para lançar um rápido feitiço diagnóstico, notando que ele de fato parecia magro
demais pelo que se via sob as listradas vestes de prisioneiro. Reparou no número de
prisioneiro tatuado na lateral do pescoço, a tinta preta em forte contraste com a pele pálida.
Os ossos dos punhos saltavam, o cabelo loiro estava seboso e murcho. Os olhos tinham
olheiras; o feitiço confirmava privação de sono e uma miríade de carências nutricionais.

— Enrole as barras das calças e deite. — Ordenou, pousando o prontuário e a pasta e


começando a arregaçar as próprias mangas. — Preciso aplicar mais pasta nas queimaduras.

— Não sabia que você queria brincar de médico, Granger. — O tom sedoso era de galhofa, e
ele não fez menção de obedecer.

— Enrole você ou um deles enrola. — Ela acenou com a cabeça para os atendentes,
ignorando o jeito sugestivo da frase que a fez esquentar. Não tinha certeza se aquilo fora uma
alfinetada ao seu status de trainee ou uma tentativa de flerte. Hermione não sabia qual
preferiria.

Ele ergueu uma perna, os olhos percorrendo as vestes dela, e dobrou a barra. Repetiu com a
outra, revelando ataduras em ambas, e então deslizou para trás na cama, sentado bem ereto,
as mãos algemadas repousando no colo. Ela ignorou o olhar implacável enquanto estalava a
varinha para remover as ataduras e limpar as queimaduras.

A falta de nutrição tanto do cárcere quanto do estresse da guerra antes disso fazia os
músculos das pernas sobressaírem, e não de um jeito atraente. Hermione sentia que todos que
via precisavam de um bom mês de nada além de bife com batatas. As queimaduras tinham
cicatrizado bastante, segundo o último estado registrado no prontuário, e a visão delas mal
lhe revirou o estômago. Secretamente, agradeceu por isso — não tinha certeza de que restava
algo no estômago naquele ponto.

Hermione pegou a pasta que deixara ao lado e começou a desenroscar a tampa, lançando-lhe
um olhar de relance enquanto fazia isso. O feitiço de limpeza ainda agia, mas ele não lhe
dava atenção. O olhar dele estava cravado em seu pulso esquerdo, as pedras negras faiscando
sob a luz dura do teto, a pulseira oscilando levemente com seus movimentos.

A expressão dele era ilegível enquanto avaliava a joia. Ela parou de se mover quando
percebeu o que ele fixava, mal respirando. Depois de um momento, ele ergueu os olhos para
encontrar os dela, o olhar semicerrado. Ela engoliu em seco, os olhos saltando para as outras
duas pessoas na sala.

Ela não podia falar com ele ali, na frente dos atendentes. Se relatassem que ela estava íntima
demais ou emotiva demais, corria o risco de ser realocada. Sem falar que não fazia ideia do
que dizer — só suspeitava que poderia ter sido ele quem enviou a pulseira havia dois dias,
não levando muito a sério a teoria até falar com Andrômeda. Se ele era o remetente, não fazia
ideia de que ela sabia, embora o olhar que ele lhe lançava estivesse rapidamente apagando
qualquer dúvida restante de que não fosse dele. Ele parecia quase… satisfeito? Difícil dizer.

Ela baixou os olhos, dedicando uma quantidade desnecessária de escrutínio ao pote de pasta.
O olhar dele a seguiu quando voltou às pernas dele, espalhando a pasta do jeito mais
impessoal e profissional possível. Um estalar de varinha e as ataduras voltavam a se enrolar
sozinhas. Ela queria sair daquele quarto — e já.

— Mais uma aplicação e você vai estar tinindo! — guinchou ao terminar. Sentia-se
atrapalhada e em pânico, o olhar implacável dele a deixando ansiosa. Lançou um scourgify às
mãos para limpar os resíduos, pegou o prontuário e assentiu para os atendentes indicando que
havia terminado.

— Tenha um ótimo dia! — Praticamente gritou, voando pela porta e descendo até o posto dos
curandeiros. Avisou por cima do ombro aos atendentes que faria um intervalo enquanto se
afastava a passos rápidos, deixando-os no corredor. Despencando numa das cadeiras e
largando prontuários e pasta sobre a mesa, levou as mãos à cabeça, gemendo.

Você realmente desejou a Malfoy, um detento de Azkaban preso por assassinato e


aguardando julgamento, que está aqui para tratar queimaduras graves, um ÓTIMO DIA?!

Ela tinha enlouquecido. Pensamentos e sentimentos, todos embaralhados por acreditar que
ele era seu benfeitor. Seu benfeitor assassino. Não, isso não podia estar certo. Seu rosto se
contorceu ao ponderar as palavras. Aquela formulação o tornava ao mesmo tempo assassino e
benfeitor dela, ou fazia parecer que ele lhe dava o presente do assassinato?

Pesado demais para uma segunda-feira antes do meio-dia, decidiu, afastando os


pensamentos. Tinha trabalho a fazer e outros pacientes a ver. Não podia contemplar
sentimentos opostos agora.

O resto do dia voou, consumido como estava pelos pensamentos. Visitou seus últimos
pacientes, registrou uma ordem para que todos recebessem refeições adequadas e uma poção
restauradora que ajudaria com as severas carências de vitaminas que notara, e deu baixa.

Estava tão aturdida pelos eventos que nem contou a Harry naquela noite, preferindo remoê-
los em particular, antes de desejar que Gina estivesse disponível para conversar. Nem tinha
certeza de que poderia contar a Gina suas interações com Malfoy — sigilo paciente–
curandeira e tudo mais. Gina não voltaria por mais um mês de qualquer forma — não
conseguiria sua perspectiva a menos que fosse ela mesma até Holyhead.

Na verdade, não é uma má ideia, refletiu. Fim de semana de garotas? Embora Harry talvez
tivesse algumas objeções — ela sabia que ele planejava ir naquele fim de semana. Ele a
visitara no primeiro fim de semana em que ela partiu, consentindo em ficar para trás no fim
de semana anterior apenas para que pudessem visitar Andrômeda. Seu tempo de meninas
teria que esperar. Só havia tanto Harry deprimido que ela conseguia aguentar.

No dia seguinte, todos ainda estavam de licença médica no trabalho. Hermione notou que
tinha os mesmos prontuários de ontem, os números familiares e as anotações exibindo sua
caligrafia. Os dois primeiros pacientes ela conseguiu dar alta, e foram escoltados de volta a
Azkaban, mas o terceiro precisava de pelo menos mais um dia. Estivera mais perto do
Fulminador que explodiu e suas queimaduras eram mais graves.

Ela até conseguiu fazer o curativo e aplicar a pasta sem náusea, então seu dia ia melhor do
que o de ontem, ao menos. Quando ela e os atendentes se aproximaram do quarto de Malfoy,
respirou fundo algumas vezes.

Calma e profissional. Não alguém em dúvida selvagem sobre como se sente quanto a ele
possivelmente ser seu benfeitor.

Os atendentes entraram e o contiveram, dando a ela o ok para entrar. Ele estava sentado na
mesma posição do dia anterior, observando-a aproximar-se com aqueles insondáveis olhos
cinza-ardósia, sem piscar.

— Granger. — Ele ergueu uma sobrancelha loira, o resto da expressão fechado. Ela assentiu
para ele e lançou o feitiço diagnóstico. As queimaduras nas pernas estavam quase curadas —
provavelmente precisava de mais um dia. Ela ficou satisfeita ao ver que alguns níveis
nutricionais estavam um pouco melhores, a poção restauradora claramente surtindo efeito.
Hermione arriscou um olhar para o rosto dele e notou que parecia um pouco menos abatido
do que no dia anterior.

Notou que a leitura indicava algumas contusões, bem como o que parecia ser uma concussão.
Franziu o cenho, voltando ao prontuário. Nada sobre concussão havia sido anotado antes de
ela assumir o caso e também não aparecera na leitura de ontem. Fez uma anotação, uma
suspeita se formando.

— Você não parece nada bem, Granger. — Comentou Malfoy quando ela permaneceu em
silêncio durante o diagnóstico. Ela piscou para ele, interrompendo as notas, e o encontrou
inspecionando-a visualmente de cima a baixo.

— Posso dizer o mesmo de você. — Apontou, gesticulando para o escaneamento com a pena.
— De alguma forma você adquiriu uma concussão desde ontem, estando trancado aqui. —
Falava com ele, mas observava a reação dos atendentes. Não ouvira nada dos outros
membros da equipe, mas suspeitava que alguns não estivessem contentes por terem que
hospedar e curar um bando de Comensais da Morte apenas meses após a batalha final. Um
dos atendentes se remexeu levemente. Seus olhos se estreitaram para ele.

Bingo.

Ela fechou o prontuário num estalo, ainda com os olhos no atendente, e o arremessou sobre a
mesinha ao lado da cama, estalando a varinha para dissipar o feitiço diagnóstico.

— Vamos tratar a concussão primeiro. Feche os olhos.

— Eu teria pensado que você preferia seu parceiro no comando. — Aquela única sobrancelha
ergueu-se, a voz baixa e sedosa.

O cérebro dela deu curto por alguns momentos, captando a insinuação e uma porção de
imagens impróprias dele “no comando” lampejando em sua mente. Os olhos dela se
arregalaram.

Não, não, não. Assassino, valentão da infância, pensou freneticamente, enquanto o calor
varria seu corpo. Você não está atraída por isso.
— Feche os olhos — disse de novo depressa, irritada ao ouvir a própria voz subir algumas
oitavas. Um pequeno sorriso brincou no canto da boca dele enquanto continuava a encará-la,
claramente percebendo a reação.

Ela lhe franziu o cenho. Ele só está brincando com você.

— Como quiser. — Ela deu de ombros, tentando voltar a parecer impassível. Passou de leve
uma mão pela lateral da cabeça dele e apontou a varinha exatamente entre os olhos com a
outra, preparando-se para curá-lo. Antes que pudesse pronunciar uma palavra do
encantamento, houve um clarão ofuscante de luz vermelha que durou vários segundos. Ela
registrou o som de dois baques ao mesmo tempo em que ergueu as mãos para cobrir os olhos,
apertando as pálpebras. Como nada mais aconteceu e a luz sumiu após alguns segundos,
abriu os olhos e fez rapidamente um inventário, baixando ligeiramente as mãos.

Ambos os atendentes estavam caídos no chão, atordoados. Sua varinha ainda estava em sua
mão, mas Malfoy estava curvado à sua frente, as mãos segurando-lhe as laterais e o rosto
pressionado contra seu estômago. As mãos dele estavam soltas, as contenções, ausentes. Ele
respirava profundamente, mas mantinha a cabeça baixa — ela não tinha certeza de que estava
consciente. Ela estava em pé entre os joelhos dele e, vagamente, percebeu que ele devia tê-la
agarrado e puxado para si quando o feitiço explodiu. Manteve as mãos à altura dos ombros,
cotovelos colados ao corpo, sem querer tocá-lo e assustá-lo.

Malfoy é um Fulminador. A mente dela girou. Aquilo foi de propósito? Talvez fosse um
mecanismo de defesa involuntário quando ela apontou a varinha para ele. Não parecera
intencional, mas ela estava focada em lançar seu próprio feitiço na hora e tudo acontecera
muito rápido. Será que ele atordoou todo mundo no andar ou ficou confinado a este quarto?
Os olhos dela estavam fechados — não notara se o feitiço ricocheteara quando atingiu a
parede.

Conforme o procedimento, a porta do quarto ficava trancada assim que ela e os atendentes
entravam. O coração dela disparou ao perceber que ele provavelmente não precisava de
varinha para sair dali, se aquela demonstração valesse de referência. A magia sem varinha
dele provavelmente era igualmente poderosa. Ele rompéra contenções que deveriam suprimir
exatamente o que acabara de fazer. O surto de magia teria acionado um alarme interno, e a
segurança estaria a caminho — e rápido —, mas quão rápido dependia de até onde o estupor
se espalhara.

Ele ergueu a cabeça e ela ficou paralisada, as mãos ainda à altura dos ombros, o coração
retumbando. Fulminadores costumavam ser imunes a atordoamentos e a uma série de outros
feitiços, segundo o que Kingsley lhes dissera durante a guerra. Ela sentiu a adrenalina
disparar ao considerar que talvez não houvesse como impedi-lo de escapar. Ele não parecia
inclinado a atacá-la, mas só tinham se passado alguns segundos enquanto sua mente voava.
Ele ainda podia estar decidindo.

Ela o ouviu engolir em seco e percebeu que as mãos dele ainda seguravam suas laterais.
Hermione podia sentir os dedos longos dele quase se encontrando nas suas costas, na altura
da lombar. Baixou os olhos para encontrá-lo novamente a fitá-la. A expressão ainda estava
mascarada, os olhos cinza aparentemente sem surpresa pelo fato de ela estar consciente e de
pé. Ele se recostou um pouco, ainda segurando-a, e lentamente a percorreu com o olhar.
— Parece que tenho você à minha mercê, Granger.

Ela o encarou, os olhos ainda escancarados e as mãos ainda erguidas como se um policial
trouxa tivesse mandado que ficasse imóvel. Um calor espalhou-se baixo no abdômen com as
palavras dele, apesar do pânico em tumulto pelo seu corpo. Por que tudo que ele dizia soava
tão sugestivo? Ou era ela que estava interpretando assim?

Talvez estivesse procurando algo mais nas interações deles onde pudesse não haver nada,
tentando decifrá-lo. O que sabia do comportamento dele destoava tanto do seu benfeitor.
Sentia como se estivesse tentando encaixar duas peças de quebra-cabeça que não
combinavam. Uma peça era um assassino a sangue frio que derrubara Dumbledore e
potencialmente outros a serviço do lorde das trevas. A outra peça era alguém que se dera a
consideráveis esforços e despesas para mantê-la viva e auxiliar a derrotar aquele mesmo lorde
das trevas.

Ela pensou brevemente naquelas notas escuras, possessivas, que recebera. As palavras
poderiam definitivamente ser dele.

A falta de surpresa dele por ela não ter sido atordoada era bastante reveladora. Se ele não
tivesse enviado a pulseira, não teria exigido saber por que ela não fora atordoada? Ou a falta
de surpresa dele fazia parte de seu ato impassível? A cabeça dela começava a doer com tantas
perguntas sem resposta.

— Você está bem? — perguntou com cuidado, em voz baixa, sem querer perturbar a trégua
cautelosa que tinham no momento. Aqueles olhos cinzentos, que vinham inspecionando seu
corpo preguiçosamente, saltaram de volta para o rosto dela.

— Posso…? — Ela fez um pequeno gesto com a varinha, imitando o movimento do feitiço
diagnóstico. Depois de um momento, ele soltou lentamente suas laterais, os dedos deslizando
por seus quadris ao se recostar e dar espaço para ela conjurar. Ela pôde sentir o rastro que os
dedos dele deixaram mesmo depois de a soltar. Ele não respondeu em palavras, mas os olhos
não a deixaram.

Ela lançou cuidadosamente um diagnóstico nele, notando que a leitura era a mesma de alguns
minutos atrás, exceto pelo nível de energia. A explosão de magia o deixara um pouco
exausto, o que ela já esperava, mas não parecia ter afetado mais nada. Ela guardou essa
informação para considerar se tivesse a chance de trabalhar com outro Fulminador no futuro.

Ela dispersou o escaneamento com um gesto.


— Vamos tentar aquela concussão de novo, hm? — perguntou em tom baixo, leve,
esforçando-se para manter o controle da situação. Ele a observou por um momento, os olhos
de fumaça pesadamente semicerrados, antes de assentir uma vez.

— Feche os olhos desta vez. — O canto da boca dele puxou-se levemente por apenas um
segundo antes de ele fechá-los lentamente, claramente pensando na interação anterior. Ela
pousou uma das mãos suavemente na lateral da cabeça dele, apontou novamente a varinha
entre os olhos com a outra e lançou, sem palavras, um feitiço anestésico.
Ele desmaiou, a parte superior do corpo ficando frouxa e caindo para trás sobre a cama.
Hermione lançou o feitiço de contenção nas mãos dele e depois nas pernas, por via das
dúvidas, soltando o ar que vinha prendendo. Tomou um momento para tentar se acalmar,
então reanimou os atendentes e mandou um sair para ver que diabos estava demorando tanto
com a equipe de segurança. Ele mal saíra pela porta quando a segurança irrompeu e o caos
reinou por vários minutos.

Assim que a equipe de segurança a liberou, ela saiu do quarto e encontrou Pomfrey, dois
curandeiros e vários outros atendentes no corredor, a confusão correndo solta. Explicou a
situação a Pomfrey, que imediatamente pôs os curandeiros e os atendentes para verificar os
outros quartos atrás de pacientes atordoados, antes de conduzir Hermione até a mesa dos
curandeiros e acomodá-la numa cadeira.

Hermione relatou calmamente a história entre várias interrupções e Pomfrey distribuindo


ordens. Pomfrey mandou que ela redigisse um relatório de incidente enquanto ia lidar com a
situação. Hermione começou a tremer um pouco conforme a adrenalina passava, o cansaço se
instalando. Ainda assim, fez questão de incluir suas observações sobre ele ter de alguma
forma adquirido uma concussão sob os cuidados do hospital. Só porque era um criminoso
não significava que merecia ser alvo de abuso.

Ela sofreu uma pequena crise emocional ao se perguntar se sentiria diferente quanto ao
tratamento dele se ele não fosse seu benfeitor.

Potencial benfeitor, lembrou a si mesma. Ainda não recebera resposta do Ministério. Queria
explorar todas as vias antes de acreditar plenamente.

Assinou o relatório, exausta, a mão trêmula, e o entregou de volta a Pomfrey quando ela
retornou. Hermione recebeu os três dias obrigatórios de licença que sucediam um incidente e
levantou-se do posto dos curandeiros para ir ao seu armário, o corpo inteiro desabando.
Pomfrey elogiou seu profissionalismo e perguntou por que ela usara o feitiço anestésico em
vez do Stupefy.

— Estupefaça não funciona nos Fulminadores — respondeu Hermione, confusa. As


sobrancelhas de Pomfrey dispararam para cima.

— E como você sabe disso, Srta. Granger?

Hermione ficou perplexa.


— Kingsley contou à Ordem durante a guerra. Achei que todos soubessem.

Pomfrey balançou a cabeça.


— Sabemos quase nada sobre eles. Eu não tinha ciência de que era possível ser imune a
atordoamento. — Ela a examinou especulativamente por um momento, como se algo lhe
ocorresse. Pomfrey passou os olhos pelo relatório de Hermione na mão.

— Um Feitiço Escudo lançado no momento exato… — murmurou Pomfrey, os olhos se


estreitando. Hermione sentiu o pulso acelerar. A bruxa de ar maternal lhe lançou um olhar
que dizia que não acreditava, mas escolheu não questioná-la mais naquele momento.
— Quando voltar na semana que vem, venha direto me ver. Acho que talvez precisemos usar
seus talentos em outro lugar. — respondeu a bruxa mais velha, prim. Hermione sorriu
fracamente e concordou.

Porra.

Com três dias de folga mais o fim de semana, Hermione decidiu visitar Ginny em Holyhead
durante a semana para não ocupar um dos preciosos fins de semana de Harry. Elas
combinaram de se encontrar em um pub local para jantar e beber algo depois do treino de
Ginny na quinta-feira. Ela passou a quarta-feira se recuperando, dormindo até tarde pela
primeira vez em meses, seus pesadelos notavelmente ausentes.

Passou o resto da quarta e boa parte da quinta pesquisando técnicas de restauração de


memória para trouxas. Já havia descartado a poção de memória como solução para seus pais,
ao descobrir em uma das publicações médicas que ela só funcionava em quem tinha magia.
George fora recentemente designado a um curandeiro especializado em recuperação de
memória e estava perto de receber alta, sua memória já restaurada até o início da guerra. Ele
teria de retornar para consultas regulares como parte de um programa ambulatorial,
especialmente se novas lembranças surgissem. Havia esperança de que eventualmente se
lembrasse de tudo, mas Hermione não tinha certeza se isso seria realmente bom. Talvez
tivesse uma vida mais pacífica sem as lembranças de suas experiências de guerra. Ela fez
uma anotação para falar com o curandeiro de memória sobre seus pais quando voltasse ao
trabalho.

George ainda se irritava quando percebia que não podia ver Fred, mas agora os acessos eram
menos violentos e mais emocionais. O uso de um fotógrafo ainda não tinha sido aprovado por
questões de privacidade, e perguntar a outros curandeiros se haviam visto alguém parecido
com George ainda não revelara nenhuma pista sobre Fred ou Percy.

Na tarde de quinta-feira, Hermione vestiu um vestido longo cor pêssego e rasteirinhas,


desfrutando a chance de usar algo que não fosse as vestes de curandeira, e deixou o cabelo
solto. Aparatou até o ponto mais próximo do pub e percorreu o resto do caminho a pé. Estava
escaldante, o suor formando-se em sua pele só de caminhar, o sol implacável. Ao se
aproximar do restaurante, avistou uma figura familiar de longos cabelos ruivos até a cintura,
vestida com um vestido verde transpassado e salto alto.

Cumprimentaram-se com um abraço antes de pedirem uma mesa no terraço. Um grande


guarda-sol oferecia sombra contra o sol intenso e elas pediram algumas bebidas geladas.
Ginny contou várias histórias sobre os treinos, o entusiasmo evidente em sua voz. Para
Hermione, que quase nunca se exercitava de verdade, parecia horrível.

A caçula dos Weasley relatou vários quase-acidentes e colisões reais com suas colegas de
time. Pelo visto, também não era a paciente favorita da curandeira das Harpias. Hermione a
repreendeu de forma bem-humorada por não deixar as curandeiras fazerem seu trabalho,
especialmente se queria uma carreira longa no quadribol e sem lesões permanentes. Ginny
revirou os olhos, mas prometeu se comportar melhor.
Elas pediram o jantar e a conversa mudou para o trabalho de Hermione. Ela contou o que
podia sobre seu treinamento, sempre cuidadosa em manter o sigilo dos pacientes. Hermione
tentava encontrar uma forma de falar com Ginny sobre Malfoy sem quebrar as regras de
confidencialidade, quando foi Ginny quem o mencionou primeiro.

— Então, o Harry me falou sobre… — o queixo de Ginny fez um movimento em direção ao


pulso de Hermione quando ela pegou o copo. Hermione tomou um bom gole do segundo
coquetel, ganhando tempo enquanto avaliava o quanto Ginny sabia. Ginny percebeu a
expressão calculista e revirou os olhos.

— Eu sei dos… presentes. — disse, olhando em volta. Tirou a varinha e lançou um Muffliato
para que continuassem sem serem ouvidas.

— Certo — disse Hermione, pousando o copo enquanto Ginny guardava a varinha. — Ele te
contou sobre a sala da tapeçaria? — Hermione não achava que Harry teria falado da visita a
Andromeda, já que tinha sido no último fim de semana, mas a sala da tapeçaria e o incidente
com Walburga tinham ocorrido semanas antes.

Ginny assentiu justo quando os pratos chegaram. Hermione ganhou mais tempo atacando seu
peixe com batatas fritas. Os olhos castanhos de Ginny alternavam entre o próprio prato e
Hermione, esperando.

— Fomos ver Andromeda no sábado — disse finalmente, em tom baixo. Hermione contou a
história, vendo os olhos da amiga brilharem quando descreveu Harry e Teddy tirando um
cochilo juntos. A expressão dela escureceu quando Hermione revelou o quão provável era
que seu benfeitor fosse Malfoy.

— Malfoy? — Ginny zombou. — O furão nunca se importou com nada além de si mesmo.
Nunca mostrou qualquer inclinação em relação a você, muito menos um instinto protetor —
se for ele, por que agora?

Uma lembrança invadiu Hermione enquanto Ginny falava.

Ron disse a Malfoy para fazer algo que jamais teria ousado diante da Sra. Weasley.

"Linguagem, Weasley", disse Malfoy, com os olhos pálidos faiscando. "Não seria melhor se
apressar agora? Você não gostaria que a vissem, gostaria?"

Ele indicara Hermione, e no mesmo momento uma explosão soara no acampamento e um


clarão verde iluminara as árvores.

— O que isso quer dizer? — retrucara Hermione, desafiadora.

"Granger, eles estão atrás de trouxas", dissera Malfoy. "Quer mostrar suas calcinhas no ar?
Porque se quiser, fique por aqui… eles estão vindo nessa direção, e vai ser um bom
espetáculo."

Os olhos de Hermione se arregalaram. A Copa Mundial de Quadribol, no verão antes do


quarto ano. Ele os havia avisado. A avisado, especificamente, para sair dali.
— Não é a primeira vez que ele me avisa — contou lentamente a Ginny, remexendo em anos
de interações. Relatou a história da Copa Mundial. Ginny franziu o cenho.

— Se ele gosta de você desde o quarto ano, por que diabos nunca disse nada? Ou pelo menos
parou de te provocar?

— Talvez não pudesse, por causa dos pais, das lealdades deles. Ele parou no sexto ano… —
Ginny bufou.

— Ele estava um pouco ocupado tentando assassinar Dumbledore e arrastar o resto de nós
para a morte. Não acha que é forçar demais a barra? — retrucou, irritada. Hermione não tinha
resposta.

Ginny lançou-lhe um olhar de pena que a deixou desconfortável. — O Harry me contou sua
outra teoria — começou cautelosa.

Hermione sabia a qual se referia. A teoria de que tudo não passava de um seguro, e que seria
levantada em seu julgamento dali a algumas semanas. Que ele usaria o fato de tê-la ajudado,
de ter ajudado a derrotar Voldemort, como uma carta de saída de Azkaban.

Ela forçou um sorriso. — Bem, vamos ter de esperar algumas semanas para ver, não é?

Hermione sabia que Ginny teria dificuldade em aceitar algo positivo sobre os Malfoy — e
entendia o porquê. Ela mesma mal conseguia acreditar, e tivera experiências bem diferentes
das de Ginny. Não valia a pena insistir que Malfoy talvez estivesse seriamente interessado
nela quando nem ela estava certa disso.

— Bom — disse Ginny após um instante. — Se você acabar namorando o furão, eu me


reservo o direito de mandar um Feitiço de Ranhos de Morcego pelo correio para o pai dele.

— Você pode fazer isso? — Hermione perguntou, surpresa. Nunca ouvira falar em enviar um
feitiço por correio.

Ginny sorriu. — Com um berrador. Mamãe mandou um pros gêmeos no segundo ano, acho.
Lembro de ouvir ela gritar, e quando papai perguntou o que ela tinha feito, respondeu que era
algo para fazê-los ouvir melhor. George me contou depois que fosse o que fosse, fez as
orelhas deles incharem.

Hermione riu. Talvez daí tivesse surgido a inspiração para as Orelhas Extensíveis. Ela tentou
ignorar a pontada no peito ao ouvir o nome do gêmeo.

O resto do jantar foi sobre o relacionamento de Ginny e Harry. Ginny sabia como Harry
estava lidando mal com a ausência dela. Apreciava o esforço dele em tentar aguentar, mas
estava tão irritada quanto Hermione com a falta de habilidade dele para lidar com a
separação. Hermione apontou que Harry estava acostumado a ser abandonado e isso
provavelmente lhe causara questões de abandono. Ginny resolveu chamá-lo mais vezes pela
lareira.
Hermione manteve para si os encontros com Malfoy em St. Mungo’s. Não sabia como contar
sem quebrar a confidencialidade dos pacientes e tinha certeza de que Ginny não interpretaria
da mesma forma que ela.

Despediram-se quando o sol já se punha. Hermione caminhou até o ponto de aparatação,


sentindo-se agradavelmente satisfeita entre o jantar e as bebidas. Estava pensando que fazia
tempo que não comia tanto de uma vez quando as palavras de Andromeda lhe voltaram à
mente.

"Ele vai anular a falta de apetite em algum momento, Hermione."

Ela aparatou para a frente de Grimmauld, sentindo-se subitamente gelada quando outra
memória a atingiu.

"Você não parece nada bem, Granger." Malfoy comentara quando ela permanecera em
silêncio durante o diagnóstico. Ela piscara para ele, parando as anotações, e o encontrara
inspecionando-a dos pés à cabeça.

Não podia ser. Andromeda não dissera nada sobre ele poder ajustar os feitiços da pulseira.
Hermione não achava possível que o comentário dele tivesse forçado a pulseira a agir. Seria
essa também a razão de ter tido um alívio nos pesadelos nos últimos dias?

Ele não precisaria do anel Black para isso? As mãos dele estavam nuas — e ela ignorou a
parte da mente que queria saber por que reparara nisso. Qualquer efeito pessoal teria sido
confiscado pelos guardas ao ser preso. Ele fizera o comentário ainda contido, a magia
suprimida.

Aquelas contenções não serviram de porcaria nenhuma, e você sabe, murmurou sua mente.
Ele as rompeu menos de um minuto depois.

Ela entrou de volta em Grimmauld, completamente distraída. Fechou a porta, perdida em


pensamentos, a mente a mil, e tropeçou no tapete exatamente como Ron fizera semanas antes.

As cortinas de Walburga se abriram.

Hermione gemeu. Só o que me faltava. Mas, em vez de gritar de imediato, Walburga voltava
a sussurrar como fizera quando Hermione gritara com ela, os olhos fixos em sua forma caída.

— Então a sangue-ruim finalmente descobriu, foi? Acha que vou deixar você macular o
sangue dos Black—

— Ah, ele é maravilhoso, não é? Não leva o nome da mais Antiga e Nobre Casa dos Black,
não… mas o sangue dele é negro…

Ela se mostrava sombria e deliciada, murmurando carícias sobre um novo visitante a


Grimmauld Place e sua aparente devoção ao lorde das trevas.

Não sangue Black. Sangue Black.


— Ele é o informante — sussurrou Hermione, erguendo-se do chão, os olhos horrorizados
fixos no retrato de Walburga.
Capítulo 9

Agosto de 1998

Malfoy foi um informante durante a guerra.

Parecia mais uma peça do quebra-cabeça que era Malfoy. Kingsley vinha mantendo sua
identidade em segredo e eles suspeitavam que era porque o informante receberia uma
sentença mais branda que o normal. Causaria indignação e possível retaliação por parte dos
Comensais da Morte foragidos que ainda não haviam sido capturados se se tornasse público
que os Malfoy supostamente estiveram do lado deles na guerra o tempo todo. O público não
acreditaria.

Harry acreditou. Encontrara-a estatelada no vestíbulo, atraído pela comoção que ela e
Walburga estavam causando. Depois de silenciar o retrato, ela despejou sua conclusão e eles
ficaram acordados até tarde demais discutindo, considerando que ele tinha de trabalhar de
manhã.

Ela estava completamente desperta, sem ter certeza de que chegara a dormir, agarrando uma
xícara de café e fitando a mesa de jantar com uma expressão chocada quando ele entrou na
cozinha na manhã seguinte. O cabelo preto, um desastre; os óculos, tortos; as vestes de
Auror, só meio abotoadas. Ele tateou às cegas por uma caneca de café antes de despencar na
cadeira à frente dela.

— B’môrning. — murmurou, bocejando.

— Um informante — sibilou ela, retomando de onde haviam parado na noite anterior. Ele
piscou sonolento para ela, semicerrando os olhos.

— Achei que já tínhamos falado disso?

— Você sabe o que isso significa? — exigiu. — Ele vai sair sem cumprir pena nenhuma! Ele
estava essencialmente do nosso lado o tempo todo!

— Isso não é bom, já que vocês dois tecnicamente estão namorando? Você quer que ele vá
para a prisão? — a voz dele estava cansada, confusa.

— Ele matou pessoas!

Harry suspirou e balançou levemente a cabeça. — Olha, eu não aprovo o que aconteceu,
obviamente, mas o que foi feito, foi feito. Eu quero seguir com a minha vida, não passá-la
remoendo todas as pessoas que perdi. Todo o sofrimento… — Ele foi diminuindo a voz por
um momento, encarando a xícara. Hermione o ouviu resmungar algo sobre ser cedo demais
para isso antes de levantar os olhos de novo.

— Tecnicamente eu também matei alguém — apontou.


— Isso é diferente!

— Uma vida é uma vida — disse ele. — A guerra acabou, Hermione — você não quer seguir
em frente?

Ela ficou quieta por um momento. A guerra não parecia ter acabado quando ela passava todos
os dias na presença de quem ainda estava profundamente afetado por ela. Pessoas sob seus
cuidados tinham sido torturadas, usadas em experimentos. Faltavam-lhes membros, tinham
convulsões, estavam esqueléticas de fome. Ainda se via a evidência da guerra nos olhos
delas, ouvia-se nas vozes.

Para eles e para ela, estava longe de ter acabado.

— Não acabou para todo mundo — disse baixinho, sem olhar para ele enquanto traçava uma
linha na madeira da mesa com um dedo. Ele ficou quieto por um instante.

— Você editou seu depoimento, agora que sabe que é ele? — perguntou sério, indicando a
pulseira com um gesto de cabeça.

Ela negou com a cabeça. — Eu sei que ele é a única possibilidade, mas sinto que isso não é
algo que ele queira que se torne público.

Harry sorveu o café, sem dizer nada, mas ela conseguia ler a expressão com todas as letras.
Era ele quem não queria que viesse a público, ou era ela? Relutante, ele concordou em
guardar o segredo, embora isso fosse contra seu treinamento de auror, invocando
autopreservação como motivo, já que ela continuava assustadora quando zangada.

— Você precisa sair mais de casa — declarou ele de repente, fazendo-a sobressaltar-se com a
mudança abrupta de assunto. — Seu aniversário está chegando. A gente devia tirar férias
quando a Ginny voltar.

Ela mordeu o lábio, pensando. Ele tinha razão. Ela quase não tinha vida fora do trabalho e
isso provavelmente não ajudava seu estado emocional. — Sem acampar — disse num tom
seco, lembrando a piada do Ron de alguns meses atrás.

Harry revirou os olhos. — Acredite, já tive barracas o suficiente para uma vida inteira.

Quando voltou ao trabalho na segunda-feira seguinte, Pomfrey informou que ela havia
oficialmente se formado do programa de trainee, transfigurou suas vestes para verde e
designou-lhe um projeto especial. Malfoy fora enviado de volta a Azkaban enquanto ela
estivera ausente, e ela não sabia se estava decepcionada ou aliviada.

Atribuíram-lhe dois casos muito complexos e um punhado de simples. Eles haviam recebido
aprovação para finalmente trazer curandeiros de outros países, reduzindo a proporção de
pacientes por curandeiro e permitindo focar nos mais perigosos e intricados. Também tinham
finalmente recebido aprovação para trazer um fotógrafo.
— A logística das fotos provavelmente levará algumas semanas — preveniu Pomfrey. —
Alguns pacientes serão mais difíceis de fotografar do que outros e a segurança do civil é de
suma importância.

Ela lhe entregou vários prontuários, fitando-a enquanto o fazia.

— Devo dizer, numa nota pessoal, que parece que o seu tempo de folga lhe fez bem. —
comentou Pomfrey, sem rodeios, antes de dispensá-la.

O comentário surpreendeu Hermione. Seu apetite voltara e ela vinha dormindo melhor
durante a folga. Ainda acordava suando e tremendo pelo menos duas vezes por semana, mas
era uma melhora enorme em comparação aos últimos meses. Hermione ainda suspeitava que
tivesse a ver com os comentários de Malfoy e a pulseira, mas não tinha como provar sem
perguntar a Andrômeda ou ao próprio Malfoy. A primeira estava no meio de uma regressão
de sono com Teddy, segundo Harry, e Hermione não queria incomodar a pobre mulher. E não
podia simplesmente perguntar ao segundo.

O Ministério finalmente respondera à sua consulta na sexta-feira. Nenhuma das outras quatro
pessoas que haviam sido explodidas da tapeçaria procriou, segundo os registros. Seu
benfeitor era definitivamente Malfoy — não que ela realmente esperasse que fosse outra
pessoa a essa altura.

O Ministério também incluiu informações sobre seus N.O.M.s, que, para sua surpresa,
haviam sumido completamente de sua mente ao longo do verão. Havia informações sobre o
curso por correspondência e uma lista de livros, e ela percebeu que teria de ir à Floreios e
Borrões naquela semana. O curso preparatório era condensado; as provas aconteceriam em
Hogwarts, em dezembro, ao final do período.

Ela sacudiu para longe os pensamentos sobre N.O.M.s e Malfoy e foi até o posto dos
curandeiros antes de abrir o primeiro prontuário. Pomfrey indicara que ela deveria estudar os
casos antes de conhecer os pacientes, anotando gatilhos e procedimentos de segurança, já que
estes eram alguns dos mais perigosos.

O primeiro tinha registros experimentais extensos. Hermione sentiu a náusea voltar, a bílis
subindo à garganta enquanto lia. Cruciatus prolongado, abuso físico, feitiços de contenção —
a lista continuava. As reações do paciente haviam sido anotadas de modo clínico pela equipe
médica que executara ações tão hediondas naquela pobre alma, sem sinal de empatia nas
notas. Escreviam sobre o paciente como se ele nem fosse humano.

Nascida trouxa, sua mente forneceu com ferocidade. É isso que pensavam de você.

De acordo com os registros, eles tentavam ver se conseguiam criar um obscurial. Ela ficou
horrorizada. Obscuriais só deveriam resultar de crianças com menos de dez anos tendo a
magia suprimida, muitas vezes por várias formas de abuso. Frequentemente não chegavam à
adolescência. Hermione se lembrava de ter ouvido falar de um caso de obscurial às vésperas
da Primeira Guerra Bruxa Global que vivera até os vinte e poucos anos, mas não lembrava
exatamente o que acontecera com ele. Fez uma anotação para pesquisar o destino dele.
A Comissão começara a tentar transformar esse paciente em um quando ele já estava no fim
da adolescência. De alguma forma, ele ainda estava coerente e fora capaz de fornecer o
nome, que foi anotado. Hermione disparou do posto dos curandeiros até o banheiro quando
leu, vomitando sem de fato expelir nada.

Justin Finch-Fletchley.

Levou o resto do dia e uma Poção Calmante para terminar o prontuário dele e a maior parte
da semana para concluir os outros. Ela podia sentir seu nível de estresse subir e então parar
como se batesse no teto, ou numa parede.

Estúpido loiro idiota e sua joia chique.

Ela esmagou ferozmente os pensamentos sobre como ele ainda cuidava dela apesar de estar
preso e bastante debilitado. Ainda não estava pronta para explorar a possibilidade de Malfoy
realmente se importar — e se ela queria isso ou não.

Hermione já tinha problemas suficientes com a ideia de sentir atração por ele. Fisicamente,
ele não estava nada atraente no momento — magro demais e precisando desesperadamente de
um banho. A voz dele e o jeito sugestivo de falar com ela, porém, vinham em reprise quase
constante na cabeça.

— Eu teria pensado que você preferia seu parceiro no comando. — Aquela única
sobrancelha erguida, a voz baixa e sedosa.

O cérebro dela deu curto por alguns instantes, captando a insinuação e toda sorte de imagens
impróprias dele “no comando” pipocando em sua mente.

Literalmente não havia outra forma de interpretar aquilo. Ela não tinha nenhum outro
curandeiro com ela na sala — não havia parceiro algum!

Também havia algo de bastante sedutor no modo como ele não conseguira tirar os olhos dela.
Hermione não era vaidosa e geralmente não dava muito valor à aparência, mas até ela
precisava admitir que era lisonjeiro ser o centro da atenção de alguém. Alguém loiro. A
atenção intensa de um alguém loiro.

Trabalhe, Hermione. Você deveria estar trabalhando.

Seu outro prontuário complicado revelou-se ser o de Dennis Creevey. Ela se lembrava de que
Colin, o irmão mais velho, falecera na batalha final. Com base na data de internação, que fora
vários meses antes da batalha, não sabia se Dennis tinha ciência disso.

O problema de Justin era a magia voltar-se para dentro em vez de para fora. Em vez de
explodir como um Fulminador ou um Obscurial, ele tentava contê-la, o que causava extensas
lesões internas. A lista de poções que ele tomava tinha páginas. Hermione não tinha certeza
de que a quantidade de Skele-Gro e Poção Repositora de Sangue que ele vinha ingerindo
fosse inteiramente segura, e certamente careciam de valor nutricional; anotou procurar
alternativas.
Pode ser resultado da idade — registrou no prontuário. Velho demais para ser um obscurial,
já teve vários anos aprendendo a controlar a magia.

Dennis era outro assunto totalmente. Seu prontuário mostrava que ele fora um dos nascidos-
trouxas em que tentaram retirar a magia para transferi-la a um sangue-puro squib. Uma
variação de feitiços de corte havia sido usada, alguns dos quais Hermione nunca ouvira falar
e deviam ter sido criados exatamente para esse propósito. A magia é atada à sua alma; ela não
conseguia imaginar o quão excruciante aquilo devia ter sido. A magia dele mostrava sinais de
instabilidade — ele era propenso a surtos violentos e parecia carecer de controle. Hermione
sentiu algum alívio ao descobrir, depois do episódio com Malfoy, que todos os quartos de
pacientes eram enfeitiçados para conter explosões de magia, impedindo que atravessassem as
paredes e afetassem alguém do lado de fora. Os pacientes ainda podiam ferir a si mesmos,
porém.

Dano à alma? — escreveu no prontuário dele. — Seccionamento — como a Maldição da


Morte?

A ideia de um paciente criar um horcrux involuntário fez os pesadelos voltarem com força
total.

Na última sexta-feira de agosto, Hermione percorria o Beco Diagonal restaurado, apreciando


a vista das lojas reabertas e das fachadas recém-pintadas. Vários negócios novos haviam
surgido — lojas de suprimentos para poções e restaurantes — misturando-se às conhecidas
para criar uma atmosfera movimentada e alegre.

A Floreios & Borrões ainda tinha sua faixa de “Grande Reabertura!” pendurada do lado de
fora, a celebração oficial tendo ocorrido na semana anterior. Ela entrou e respirou fundo. O
cheiro de pergaminho e livros, tanto antigos quanto novos, a saudou como um velho amigo.
Estantes empilhadas até o teto, romances e tomos por todos os lados onde se olhava — era
uma visão adorável. Algumas crianças que pareciam jovens o suficiente para serem do
primeiro ano encaravam, de olhos arregalados, o que parecia ser um romance bruxo que
desafinava uma canção de amor para outro livro ali perto, alto e fora do tom. O outro livro
sibilava para ele.

Hermione suspirou, feliz. Havia tanto tempo que não entrava em uma livraria.

Não que suas estantes no quarto em Grimmauld estivessem carentes. Sua bolsa de contas
contivera sua biblioteca inteira por um tempo durante a guerra, mas ela a desempacotara
quando se mudara. As duas estantes do chão ao teto no seu quarto já gemiam sob o peso de
sua coleção pessoal e, enquanto percorria os corredores, ela refletiu que talvez precisasse de
uma terceira muito em breve.

O lojista ficou radiante por tê-la na loja e se ofereceu entusiasmado para ajudá-la. Ela lhe
entregou sua lista de livros e, quando ele já estava ocupado juntando os volumes, dirigiu-se à
seção médica para procurar mais informações sobre magia de cura e obscuriais.

Ficou frustrada, mas não surpresa, ao descobrir que a loja não tinha nada sobre obscuriais,
nem mesmo um texto histórico sobre aquele bruxo do início dos anos 1900. Hermione
encontrou um livrinho com um monte de informações sobre magia instável, embora fosse
principalmente sobre crianças bruxas pequenas e parecesse escrito para pais. Decidiu levá-lo
mesmo assim, imaginando que, no mínimo, poderia oferecer uma perspectiva interessante
sobre criar crianças no mundo bruxo, já que ela crescera no mundo trouxa.

O balconista registrou suas compras, lançando-lhe um olhar curioso quando viu o livro de
parentalidade mágica, e perguntou a Hermione se ela queria abrir uma conta na loja. Assim,
suas compras poderiam ser debitadas automaticamente de sua conta no Gringotes, em vez de
ela ter de garantir que estivesse com ouro suficiente a cada visita ou pedido por coruja.
Hermione admitiu que era muito tentador, mas recusou. Não achava que tinha autocontrole
suficiente para evitar comprar a loja inteira se fosse tão fácil.

Ao sair da loja com as compras guardadas em sua bolsa de contas, perguntou-se em que
estado a Biblioteca de Hogwarts ainda estaria. Não havia nada de bom sobre magia da alma
quando tentara pesquisar horcruxes, mas tinha uma excelente seção de história. Talvez
houvesse algo sobre aquele obscurial. Uma carta para McGonagall estava em ordem.

Setembro de 1998

A cobertura do início dos julgamentos pelos jornais era abrangente. Lúcio estava sendo
julgado primeiro e, de acordo com o Profeta, muitas das testemunhas que se esperava haviam
misteriosamente retirado seus depoimentos uma semana antes do julgamento. A acusação não
tinha muito com o que trabalhar.

Ouro te leva a qualquer lugar, pensou ela, amargamente. Ou te tira de qualquer coisa.

Duas semanas depois, tanto ele quanto Narcisa conseguiram escapar de uma sentença de
prisão, terminando com um ano de prisão domiciliar e mantendo o uso das varinhas. A única
coisa que a apaziguou foi que o Ministério impôs uma pesada penalidade financeira.
Hermione suspeitava que isso fosse em parte para equilibrar as objeções públicas e em parte
para encher os cofres.

O julgamento de Narcisa despertara interesse significativo e não pouca simpatia pública,


especialmente com o testemunho de Harry de que ele não teria sobrevivido sem as ações
dela. Ela afirmou fervorosamente que sua posição sobre pureza de sangue mudara
drasticamente durante a guerra, sua linha do tempo coincidindo com quando Lúcio fora preso
e Draco marcado. De acordo com vários depoimentos, ela parecia ter sido mais uma
prisioneira em sua própria casa do que uma perpetradora. O Profeta enlouqueceu quando foi
revelado que Narcisa fora ameaçada de ser enviada à Comissão de Registro dos Nascidos-
Trouxas em abril de 1997, Voldemort descontente com o progresso da missão de Draco.

Um mês antes de Malfoy matar Dumbledore.

Ela não era a única com essa especulação — Skeeter imprimia artigo após artigo sobre o mais
jovem Malfoy, já pintando-o como um jovem desesperado para fazer qualquer coisa para
salvar a mãe, antes mesmo de seu julgamento começar. Rony achou hilário.
— Olha isso! — ele jubilou, sacudindo a edição mais recente do Profeta. Ela e Harry estavam
se juntando aos Weasley para um brunch comemorativo em uma manhã de fim de semana, já
que Hermione não era a única que havia recentemente se formado no programa de
treinamento — tanto Harry quanto Rony também haviam sido nomeados oficialmente
Aurores Juniores. Rony vinha exibindo orgulhosamente seu distintivo a manhã inteira. Ele
finalmente apresentara Luna à Molly em algum momento de agosto e ela se tornara mais um
elemento permanente nas reuniões dos Weasley. Molly recebera bem a notícia, embora ainda
parecesse sem saber o que fazer com Luna quando esta derivava para uma de suas conversas.
Rony tendia a ouvir com um sorriso bobo no rosto enquanto sua mãe procurava, desajeitada,
uma rota de fuga.

Gina, recém-chegada do campo de treinamento, ergueu os olhos dos feijões com tomates que
servia no prato. — O que foi?

— Outro artigo sobre o quanto Malfoy ama a mamãezinha — ele riu, cutucando Harry ao
lado. Harry emitiu um som não comprometido em resposta e cruzou o olhar com Hermione.
Ela e Harry ainda não tinham contado a Rony quem era seu benfeitor e decidiram que seria
melhor deixar isso sem dizer até depois dos julgamentos. Bem depois.

Talvez o contassem no ano que vem.

Gina revirou os olhos. — Como se você não amasse? — retrucou antes de adotar um tom
agudo, imitando-o mais cedo naquela manhã. — “Ah, mamãe, você fez o meu favorito” —
ela fungou. — Você sequer tem um favorito? Nunca te vi recusar qualquer tipo de comida,
nunca.

— Ei, eu gosto mesmo daqueles muffins! — disse Rony, na defensiva, com as bochechas
corando.

— Gostaria de mais do meu muffin, Ronald? — perguntou uma voz sonhadora. A frase ficou
pior porque Luna não parecia ter nenhum produto de padaria em mãos.

Hermione engasgou com o suco de laranja, tossindo e sufocando. Rony a fulminou do outro
lado da mesa por um momento antes de voltar-se para a namorada e recusar educadamente a
oferta.

Harry recusou-se a encontrar os olhos de Hermione, de repente achando o próprio prato


muito interessante, enquanto um rubor apagado subia pelo seu pescoço.

Naquela semana, Hermione estava na área de atividades de pacientes da Ala Janus Thickey,
tentando coaxar Justin a sair da concha e engajar-se em uma partida de xadrez. Lembrava,
dos tempos de escola, que ele gostava, e obtivera um conjunto trouxa para tentar jogar com
ele — imaginando que a violência dos conjuntos bruxos não cairia bem, considerando o que
ele passara.

Como a magia de Justin não tendia a ferir outros, apenas a si mesmo, ele era um dos poucos
pacientes que tinham permissão para passar um tempo na sala de atividades. Hermione
passara pouquíssimo tempo ali durante seu treinamento, já que normalmente os atendentes
vigiavam os pacientes na sala, mas achou que exercícios de construção de vínculo poderiam
ajudar a ganhar alguma confiança e a traçar um plano de tratamento. No mínimo, não faria
mal.

Justin também era um dos poucos pacientes que não precisavam ficar constantemente
contidos. Mostrou algum interesse no conjunto, mas estava claramente desconfiado quando
as peças não respondiam a comandos de voz e tinham de ser movidas manualmente. Levou
um tempo até que ele tocasse nelas, mas, quando tocou, ela perdeu de modo espetacular e
repetidas vezes. Xadrez, bruxo ou trouxa, nunca fora seu forte.

Após sua terceira derrota em menos de uma hora, Myriam passou por ali. — Coruja pra você
— disse a Hermione, entregando-lhe um envelope. Conversaram por um momento, pondo o
papo em dia, enquanto Justin contemplava o tabuleiro recém-reposto. Myriam tinha sido uma
das curandeiras que estiveram doentes durante o episódio Malfoy — Escrofungulose andava
circulando — e estivera ausente quando Hermione fora oficialmente feita curandeira. Sua
antiga tutora a parabenizou pela nova posição e ofereceu ajuda no que precisasse.

Quando Myriam voltou às rondas, Hermione perdeu para Justin em menos de cinco minutos.
Seu ex-colega de escola indicou que estava cansado e queria voltar ao quarto, então ela o
reconduziu com a promessa de estudar estratégias de xadrez para oferecer mais desafio.
Houve um breve lampejo de descrença por parte dele e ela escolheu contar aquilo como
progresso em vez de insulto.

De volta ao posto, ela rasgou o envelope do Ministério e examinou o conteúdo. Uma


intimação. Estavam chamando-a como testemunha para o julgamento de Malfoy na semana
seguinte. Ela pensara que seu depoimento escrito bastaria, mas aparentemente havia
perguntas. Engoliu em seco.

Isto não pode ser bom.

Perdeu para Justin no xadrez pelo resto da semana. Hermione decidiu visitar a Floreios &
Borrões novamente no fim de semana, desta vez por um livro de estratégias de xadrez. Não
tinha muita certeza de quando teria tempo para lê-lo entre a pesquisa do trabalho e os
N.O.M.s, mas justificou a compra com o pensamento de que não poderia ler um livro que não
tinha.

Ignorou alguns repórteres que a fotografaram e a bombardearam com perguntas, ponderando


se valia a pena almoçar no Beco. Ao passar pela loja de Olivaras, a visão de um cabelo longo
e loiro-pálido na vitrine chamou sua atenção. Havia muitos alunos pela calçada e vários
primeiranistas tagarelavam, empolgados, sobre varinhas.

— É a varinha que escolhe você, não o contrário!

— Algum tipo de teste—

— — crina de unicórnio—

Hermione esgueirou-se por eles e entrou na loja, pensando em dar um rápido olá a Luna e
despistar a imprensa antes de comer algo. A loja estava significativamente mais silenciosa
que a rua, as vozes e outros sons cortando abruptamente quando a porta se fechou. Ainda era
mal iluminada, com caixas de varinhas empilhadas do chão ao teto, exatamente como
Hermione lembrava de sua primeira visita tantos anos atrás. Ela sorriu com a lembrança,
recordando a euforia que sentira quando sua varinha a escolhera.

Luna auxiliava várias crianças na compra de suas primeiras varinhas. Hermione observou o
processo com interesse, acomodando-se numa cadeira perto dos pais que aguardavam. Luna
empregava uma estratégia muito diferente da de Olivaras — que, recostado no caixa, também
observava Luna. Em vez de uma fita métrica mágica, ela os observava e fazia a cada um
algumas perguntas que, à primeira vista, não pareciam ter relação com a seleção da varinha.

— Quando é seu aniversário?

— Qual é sua criatura favorita?

— Você quer um chocolate?

Às vezes, fazia-os ficar diante de um espelho simples por alguns momentos e observava as
reações. Alguns encaravam diretamente o próprio reflexo, outros lançavam um olhar rápido e
desviavam, e alguns observavam Luna em vez de olhar para si. Aquele sorriso sereno
permanecia no rosto dela o tempo todo e, frequentemente, encontrava a varinha correta para
cada criança na primeira tentativa.

Hermione achou o processo inteiro bizarro e carente de qualquer lógica que conseguisse
acompanhar. Luna tinha um talento semelhante ao de Olivaras nesse sentido — notar coisas
que outros frequentemente ignoravam. Quando todas as crianças haviam pago pela compra e
deixado a loja, Hermione cumprimentou Luna e a convidou para almoçar, curiosa sobre o
processo.

Foram a uma das lanchonetes do beco. Quando pegaram os pratos e conseguiram uma mesa
no local lotado, Hermione perguntou a Luna como qualquer coisa do que testemunhara
ajudava a encontrar a varinha certa. Luna inclinou a cabeça por um momento, ponderando.

— Você pode dizer muito sobre alguém pelo modo como olha para o próprio reflexo — foi a
resposta calma. — Confiança, vaidade…

Hermione não tinha tanta certeza de que isso fosse verdade — sentia-se bastante confiante
em suas habilidades mágicas e mal passava tempo diante de um espelho. Disse isso a Luna.

— Magia não é a única coisa que exige confiança — respondeu Luna, imperturbável. —
Amizades, amor… — Luna a examinou pensativa. — Quem tem confiança em uma área nem
sempre a tem nas outras. Tudo se conecta à varinha.

Ela mastigou o sanduíche com determinação por um momento, decidida a refutar a


afirmação, mas Luna continuou antes que pudesse interromper.

— Madeira de videira e cerne de coração de dragão, por exemplo — continuou Luna,


listando na voz sonhadora a combinação exata da varinha de Hermione enquanto fitava a
distância. — O dono será um aprendiz veloz e bastante poderoso, destinado à grandeza.
O olhar de Luna afiou-se sobre Hermione por um instante, que agora escutava atentamente,
com os olhos semicerrados. — Os donos frequentemente surpreendem as pessoas que mais
bem os conhecem — atraídos como são por pessoas com profundezas ocultas.

— Há algo escondido nas profundezas da sua mente que surpreenderia aqueles próximos a
você, Hermione?

O almoço com Luna a deixou desequilibrada e irritadiça pelo resto do fim de semana e na
semana seguinte. Ela não estava escondendo nada, exatamente — bem, talvez estivesse
escondendo algo de Rony, e de Luna, e de todos que não fossem Harry e Gina. Era mais que
ela realmente não sabia como se sentir sobre tudo do que estava ativamente escondendo —
difícil expressar corretamente algo sobre o qual você estava bastante confusa.

A teoria de que ela era um plano de seguro para Malfoy fazia mais sentido, mas a fazia sentir-
se… decepcionada? O que era ridículo, ela não tinha exatamente o melhor relacionamento
com ele para começo de conversa, então por que ficaria chateada por ele tê-la usado.
Tecnicamente ela também o usara, embora em busca de um objetivo comum ao que parece, já
que ele era o recurso de Kingsley. O pensamento de que aquelas notas não tinham nada além
daquilo por trás fez seu peito doer um pouco.

As notas e o comportamento dele no hospital a fizeram pensar que ele… se importava? Ela
estava frustrada, incapaz de encontrar os termos certos para expressar exatamente como se
sentia sobre a situação. A possessividade das notas e a sugestividade de suas falas a faziam
sentir que havia um pouco mais do que apenas uma tentativa de absolvição acontecendo ali.

Ela sacudiu os pensamentos quando foi chamada ao tribunal.

A câmara do Wizengamot estava quase vazia quando foi conduzida ao banco das
testemunhas. Alisou as mãos pela borda superior de sua saia-lápis azul-escura, certificando-se
de que a blusa branca ainda estava por dentro. Suas vestes formais escuras estavam abertas,
as bordas arrastando atrás dela enquanto subia os degraus até o estrado.

Malfoy estava na jaula dos réus quase diretamente à sua frente, de onde ela se sentava
jurando dizer a verdade e manter os procedimentos para si. Metade do testemunho do caso de
Malfoy era classificada e a maior parte de seu julgamento não seria informação pública.
Estavam apenas ela, ele, os integrantes completos dos 28 Sagrados, e dois advogados na
grande sala circular.

A jaula não era alta o bastante para ele ficar completamente ereto. Seus braços e pernas
estavam acorrentados, as vestes prisionais rasgadas e sujas, e ele se apoiava desajeitadamente
com as costas voltadas para as arquibancadas vazias, de frente para o Wizengamot, a cabeça
abaixada para evitar o topo da estrutura em forma de cúpula. Desde o momento em que ela
fora chamada a depor, sentira aqueles olhos de ardósia sobre ela entre dezenas de outros.

Foi-lhe pedido que recontasse a noite na Mansão Malfoy. Hermione recitou a noite
exatamente como havia escrito para Kingsley todos aqueles meses atrás. Questionaram-na
sobre o comportamento dele antes de questionarem por que ela havia deixado de mencionar
Malfoy realizando legilimência nela.
— Eu… o quê? — Ela parou, piscando forte para o promotor. Os olhos dele se estreitaram.

— O depoimento dos três Malfoy sobre aquela noite incluiu o jovem Sr. Malfoy realizando
legilimência em você por vários minutos, e ainda assim isso estava conspicuamente ausente
da sua própria versão dos acontecimentos. Por quê?

— Eu… não me lembro disso — ela percebeu em voz alta, confusa. — Depois… da faca.
Não me lembro de nada entre a faca de Belatriz e acordar no Chalé das Conchas.

O promotor desviou a atenção dela para o Wizengamot. — Há testemunhos alegando que o


Sr. Malfoy era uma espécie de agente duplo, fornecendo à Ordem informações sobre a
Comissão de Registro dos Nascidos-Trouxas e os Fulminadores. Acreditamos que a
informação que ele possa ter fornecido à Comissão não foi obtida em resultado de sua
espionagem, mas extraída da sua mente enquanto na mansão.

Ele voltou-se para ela. — Se for esse o caso, ele na verdade não espionou nem forneceu à
Ordem qualquer informação nova. Acho muito conveniente que você não se lembre de quais
memórias ele escolheu ver, Srta. Granger. Essa história pode servir para reduzir a sentença do
Sr. Malfoy e ainda não há prova de que a Ordem não tenha obtido essa informação por outros
meios. Há apenas uma pessoa que pode confirmar a história do Sr. Malfoy e é opinião deste
tribunal—

— Ele não é a única pessoa.

O promotor girou de volta para encará-la. Ela sentiu os olhos dele sobre si novamente
enquanto seu pulso acelerava. A outra pessoa era claramente Shacklebolt, que havia sido o
contato de Malfoy durante a guerra. Claramente o Wizengamot não estava disposto a tomar a
palavra de Shacklebolt sozinha quanto ao fato de Malfoy ter repassado informações muito
antes de março de 1998.

Ela pensou rápido. A Ordem soubera dos Fulminadores poucos dias após terem sido
capturados e levados à Mansão Malfoy e ela não soubera deles até que Bílio contara aos três
no Chalé das Conchas. Malfoy não teria como puxar informações de sua mente que ela ainda
não tinha.

— Ele não é a única pessoa — ela declarou de novo. Ela explicou sobre o retrato de
Walburga e seus comentários sobre o recém-chegado ter sangue Black enquanto Kingsley
estava trancado em uma reunião em agosto de 1997. Sobre os rumores a respeito dos
Fulminadores, informação que São Mungo não tinha nem agora, compartilhada com eles no
Chalé das Conchas.

— Você está baseando isso em um retrato? — O advogado estava incrédulo.

— Se me permitem — um dos membros do Wizengamot interrompeu. Ele tinha uma longa


barba branca, semelhante à de Dumbledore, mas sua expressão era distintamente menos
amigável naquele momento. — O retrato de Phineas Nigellus foi bastante instrumental no
sucesso de Harry Potter em derrotar Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. Se aceitarmos a
ajuda e informação de outros retratos em diversos depoimentos, teremos de aceitar este
também.
O membro do Wizengamot voltou-se para Hermione. — Talvez queiramos corroborar suas
declarações com o retrato.

Hermione teve uma súbita imagem de Walburga gritando com membros do Wizengamot
enquanto tentavam entrevistá-la. Uma bolha de histeria ameaçou escapar e ela tentou reprimi-
la.

— Está… ah… preso em sua localização atual, no 12 Largo Grimmauld — ela ofereceu, a
voz vacilante. — Feitiço de Fixação Permanente, receio. No entanto, Harry Potter ou eu
podemos conceder acesso à casa.

Houve uma nota de murmúrio empolgado entre alguns do Wizengamot ao pensar em ir à casa
de Harry Potter.

— E como exatamente você sabe com certeza que foi o Sr. Malfoy e não algum outro parente
Black, Srta. Granger? — exigiu o promotor, tentando retomar o controle dos procedimentos.
— A família Black é uma família sangue-puro extensa e famosa. Eles se misturam a muitas
outras famílias bruxas — Eduardo Lupin é um exemplo primário.

Hermione fixou os olhos em Malfoy e respirou fundo, firmando-se e usando sua voz mais
caxias.

— Porque pesquisei toda a árvore genealógica dos Black e investiguei todos os ramos. Teddy
Lupin não estava vivo em agosto de 1997. Naquele momento, Draco Malfoy era o único
parente homem vivo remanescente da família Black em todo o mundo bruxo.

Foi exigido que ela enviasse sua pesquisa sobre a família Black como evidência e aguardasse
uma coruja de alguém no departamento de aurores que talvez precisasse entrevistar
Walburga, mas ela nem se importou. Ela entregou a documentação e foi para casa, exausta. A
pulseira e os presentes, parte de seu depoimento sob sigilo, não vieram à tona no restante da
parte do julgamento da qual ela participou e ela percebeu que Malfoy não lhes contara que
fora ele. O Wizengamot se contentou em deixar tudo como um agradável mistério e nem por
um momento pensou que fosse relevante para o julgamento de Malfoy.

A única razão pela qual ela tivera de colocar os presentes em seu testemunho de guerra em
primeiro lugar foi porque ele lhe presenteara um maldito horcrux. Se o restante do caso dele
não o salvasse da prisão, esse era problema dele, caramba.

Ela ainda não estava pronta para reconhecer que não era um plano de seguro.

A expressão de Malfoy no anúncio dela sobre a família Black ficou gravada em sua memória.
O rosto dele estava… intenso. Como se tentasse comunicar algo, mas ela não fazia ideia do
quê. O promotor aceitara a explicação dela para o súbito interesse na família Black como
sendo o desejo de satisfazer sua curiosidade acadêmica de que Malfoy era o informante.
Malfoy claramente não aceitara. Ele sabia que ela sabia que fora ele quem enviara a pulseira.

Naquela noite, ela sonhou com gaiolas e grades sacudindo.


Os trechos não classificados de seu caso foram minuciosamente examinados pela mídia nas
duas semanas seguintes. O julgamento dele estava levando significativamente mais tempo do
que o de seus pais — ao que parecia, Malfoy estivera bastante ocupado durante a guerra.
Além de ser informante de Kingsley e enviar a ela várias coisas, a mídia noticiou que ele
também fora o Fulminador responsável pela morte de Belatriz. Segundo o Profeta, a única
razão pela qual ele matara Dumbledore fora a ameaça contra a vida de sua mãe e a sua
própria. Ela guardou a informação para examinar depois, ainda evitando seus sentimentos.

Seu aniversário caiu num sábado naquele ano e Harry organizou para todos passarem o dia na
praia como parte de sua ideia de férias. Estava quente para o fim de setembro, clima perfeito
de praia no sul da Inglaterra, e Hermione ficou satisfeita ao descobrir que não precisava
comprar um novo maiô. O que comprara no verão de seu sexto ano servia muito bem agora
que seus hábitos de comer e dormir estavam quase de volta ao normal. Ela se espreguiçou ao
sol preguiçosamente, apreciando a rara pausa tanto do trabalho quanto dos estudos para os
N.O.M.s e trabalhando num leve bronzeado.

Passou o dia observando os outros dois casais com um senso de anseio. Eles salpicavam e
riam, se aconchegavam e se tocavam, e ela percebeu que Harry tinha razão. Ela estava um
pouco sozinha. Tinha dezenove anos e era virgem, pelo amor de Merlin. Hermione nunca
fizera mais do que alguns beijos com Viktor no quarto ano, suas experiências com intimidade
nulas.

Você está meio que namorando um presidiário, sua mente ajudou, solícita. Talvez ele seja
solto em mais de um sentido?

Rony lançou-lhe um olhar estranho quando ela gemeu em voz alta e cobriu os olhos com as
mãos.

Após três semanas completas de depoimentos e argumentos, a sentença de Malfoy foi


marcada para a primeira semana de outubro. Hermione havia passado o resto de setembro
pesquisando seus prontuários e passando tempo tanto com Justin quanto com Dennis,
construindo sua confiança e examinando seus sintomas. Ela ainda não havia exatamente
definido um plano de tratamento, mas queria realizar alguns testes e avaliar algumas
suspeitas. Ambos sofriam de TEPT bastante severo e precisariam de terapia prolongada. Ela
marcou atendimentos com curandeiros da mente para eles.

Ela encontrara Hannah pela primeira vez em mais de um mês, seus caminhos cruzando-se no
posto das curandeiras. Hannah também havia se formado cerca de duas semanas depois de
Hermione e estava gostando de seu novo papel. Parecia encontrar muito mais o lado positivo
de ajudar as pessoas e Hermione sentiu um pouco de inveja da capacidade dela de se livrar
dos aspectos mais horríveis do trabalho. Hermione não tinha a habilidade de deixar tudo na
porta quando ia para casa todas as noites.

Hannah revelou que ela e Neville tinham começado a namorar. Hermione teve um aterrador
lampejo de percepção de que não vira qualquer indicação de que os pais de Neville ainda
estavam na ala. Pensando bem, também não vira o Professor Lockhart, e seu coração afundou
ao perceber que provavelmente tinham sido silenciosamente mortos durante a guerra, suas
condições físicas e mentais não os tornando exatamente úteis como cobaias. Ela parabenizou
Hannah fracamente ao se recompor do pensamento e deu uma resposta não comprometedora
quando Hannah sugeriu um encontro duplo algum dia, se Hermione tivesse alguém em
mente?

Ah sim, eu te retorno com uma data assim que meu namorado, com quem nunca falei de fato
sobre nosso relacionamento, sair de Azkaban.

Ela não achou que isso cairia bem.

Ao menos o fotógrafo vinha passando pelos pacientes num ritmo muito mais rápido do que o
previsto inicialmente. Começaram a anexar cópias das fotos a todos os prontuários e
enviaram os originais ao Ministério, onde as famílias podiam ir identificar. Já estavam
recebendo nomes e históricos médicos de alguns daqueles para os quais tinham fotos, as
famílias incrivelmente gratas quando vinham para consultas e visitas.

O Ministério também finalmente estava aceitando registros de pessoas desaparecidas. Molly


registrou dois para Fred e Percy no mesmo dia em que Jorge foi liberado para ir para casa.
Ele precisaria vir semanalmente para confirmar que ainda estava bem por um tempo. Sua
memória não havia progredido além do início da guerra e ele ainda ficava emotivo à menção
de Fred, mas, fora isso, parecia normal — contando piadas e conversando com Rony e Gina
como se a guerra nunca tivesse acontecido. Hermione achou isso um tanto inquietante, mas
Molly estava em êxtase.

Hermione encontrara tempo para falar com o curandeiro da mente sobre seus pais, mas ele
não pôde oferecer nada a Hermione. As táticas de recuperação de memória que ele conhecia
só funcionavam com seres mágicos, não trouxas, e ele tentou gentilmente dizer-lhe que, se
ela os tinha obliviado, então as memórias deles estavam permanentemente perdidas.
Hermione ficou contente por ter ido vê-lo no fim do dia e passou a noite chorando em seu
quarto em Grimmauld, evitando Harry completamente. Ela sabia que esse era o resultado
provável, mas não estava pronta para desistir totalmente deles para sempre.

Ela se sentiu mais sozinha do que nunca.


Capítulo 10

Outubro de 1998

O frenesi da mídia que antecedeu a sentença de Malfoy foi irreal. O público não queria que
ele saísse livre, nem mesmo em prisão domiciliar já que ele era um Fulminador, e o Profeta
concordava. Era arriscado demais ter alguém que podia explodir daquele jeito circulando por
aí, e todos os testemunhos indicavam que ele era um dos poucos que conseguiam controlar
qual feitiço saía. Um dos guardas de Azkaban deixou escapar para a imprensa que ele tinha
sido quem pusera todo mundo em chamas em agosto.

Incendio, Stupefy, e seja lá qual fosse a maldição que havia matado Belatriz e um monte de
outros Comensais da Morte, Hermione listou mentalmente. Duvidava que ele se livrasse sem
nenhuma sentença. Matar pessoas dos dois lados não se cancelava e ele definitivamente
parecia ser perigoso demais do jeito que estava agora para estar em público. Sem contar que,
com a tensão tão alta, o público poderia na verdade ser um perigo para ele.

Harry e Rony tinham lhe dito que, na semana anterior, estouraram um esconderijo que
continha vários dos Comensais da Morte desaparecidos. Eles foram capturados, interrogados
e enviados a Azkaban. Algumas das notas de interrogatório haviam feito referência aos
experimentos nas mãos da Comissão e Harry a avisou de que tinham enviado essas notas para
o departamento dela em São Mungo's. Hermione mal podia esperar para pôr as mãos nessas
notas. Não vinha tendo muito sucesso em sua pesquisa até então. McGonagall escrevera
dizendo que ela podia usar a biblioteca a qualquer momento, mas ela ainda não arranjara
tempo entre o trabalho e os N.O.M.s para de fato ir.

Na manhã de sexta-feira da primeira semana de outubro, ela estava, sonolenta, pondo açúcar
no café quando Harry estendeu silenciosamente a edição daquela manhã do Profeta para ela.
Ela pegou sem dizer palavra, sacudiu o jornal e leu a manchete em negrito na capa.

SENTENÇA DE DRACO MALFOY COMUTADA, EX-COMENSAL DA MORTE SERÁ


ENVIADO A SÃO MUNGO'S

Ela ergueu os olhos para Harry, incrédula, antes de passar o resto do artigo. Devido a
“testemunhos convincentes mas sob sigilo” ele ainda estava sendo condenado, mas receberia
crédito pelo tempo já cumprido e seria enviado a São Mungo's “para a segurança de todas as
partes envolvidas”. Assim que São Mungo's pudesse declará-lo não mais uma ameaça à
segurança pública, ele poderia ser liberado em liberdade condicional e autorizado ao uso de
uma varinha.

— Ah, pelo amor de merda — ela praguejou em voz alta, fazendo as sobrancelhas de Harry
subirem. — Quantos galeões os Malfoy gastaram para ele escapar com quatro meses em
Azkaban e uma viagem para a minha ala?

— Estou acordado há, tipo, cinco minutos — Harry resmungou entre mordidas do café da
manhã. — É cedo demais para matemática. — Ele apontou o garfo para ela. — Duvido que
você vá trabalhar diretamente com ele. Eles não têm regras contra namorar seus pacientes?
Ela lançou um olhar sombrio para ele, frustrada por não poder realmente revelar que já o
havia tratado anteriormente, o papel farfalhando ominosamente em suas mãos. Ela o fez
desaparecer sem varinha com um gesto zangado e violento.

— Eu não tinha terminado de ler — Harry disse, mal-humorado. — Você não deveria estar
feliz por o seu namorado não estar na prisão?

— Ele não é meu namorado! — ela explodiu com ele.

— Então por que, em nome de Merlin, você ainda está usando essa coisa?

Ele gesticulou para ela com a caneca de café e tomou um gole longo. Toda a raiva dela
esvaziou e ela baixou os olhos para a peça de joalheria em questão, mexendo nela.

— Você disse que ele não usou isso como parte do testemunho dele, então claramente você
não era um “plano de seguro”. — Ele fez uma pausa para outro gole, considerando-a. —
Você está a fim dele, não está?

— Ele é um paciente — não me é permitido estar a fim dele —, disse ela teimosamente,
ainda sem encará-lo. — Eu não… — ela suspirou. — Eu não tinha certeza se queria
considerá-lo dessa forma caso tudo acabasse sendo algum truque cruel — murmurou por fim.

Ele abanou a mão para ela, displicente. — Conhecendo o ouro dos Malfoy, ele estará solto
em, no máximo, uns poucos meses. Você sabe que não foi um plano agora, então considere
isso por um minuto.

Ela pensou por um momento. — Talvez se ele ganhasse uns bons dez ou quinze quilos e
tomasse banho — disse, olhando para o chão enquanto recordava observações anteriores que
fizera. — E se tivéssemos uma conversa de verdade sobre algo que não fosse meu status de
sangue.

Harry expirou pelo nariz, as sobrancelhas ainda erguidas. — Hã. Achei que você tivesse dito
que não o considerava dessa forma. Parece que anda dando uma conferida nele.

Ela ficou vermelha. — Eu não estava dando uma conferida nele, eu estava trabalhando. —
disparou, antes de perceber o que dissera, mas o treinamento de auror dele agarrou isso na
hora.

— Você o viu no hospital?

— Não te interessa! Não posso falar sobre isso — confidencialidade de paciente!

Harry ficou quieto por um momento, pensando. — Certo — disse devagar —, por que você
não me conta uma história sobre a vez em que você encarou um dragão, então? Pura fantasia,
nenhum paciente draconiano envolvido. Eu preciso de uma história de ninar.

— São sete da manhã, Harry.

Ele deu a ela um olhar. Ela estava desesperada para conversar com ele ou com Gina sobre
isso e ele estava lhe dando uma abertura.
— Tá bom. — Hesitante, ela relatou suas duas interações com o “dragão” para Harry. Ele
ficou quieto por um momento, então—

— Malfoy tem jogo.

— Como é que é?!

— Você esperaria que alguém que passou o último ano morando com Voldemort, sendo
experimentado, e depois preso em Azkaban estivesse mais insano e menos galanteador. Estou
meio impressionado.

— Ele não é galanteador, Harry, honestamente—

— Eu devia usar essa linha “à minha mercê” com a Gina — ofereceu pensativamente.
Hermione lhe deu um olhar de nojo.

Malfoy seria transferido para a ala no fim da semana. Pomfrey o tinha designado para
Myriam, a condição específica dele como Fulminador exigindo uma curandeira experiente,
mas pediram a ela que fornecesse a Myriam uma lista de tudo o que sabia sobre
Fulminadores. Era uma lista curta.

Hermione não viu a chegada dele nem ficou em qualquer lugar perto do quarto, mas a rádio-
corredor fervilhava. Depois que ele atordoou a pobre Myriam quatro vezes na primeira
semana, foi designado a outro curandeiro. Ela se sentiu mal por Myriam, a mulher estava
coberta de hematomas de cair no chão repetidamente, e também um pouco preocupada com
Malfoy. Não podia ser bom para ele estar esgotando aquele nível de energia com tanta
frequência.

Ela não tinha muito tempo extra para gastar pensando em pacientes que não eram seus,
porém, já que estudar para os N.O.M.s estava tomando todo o seu tempo livre. O pouco
progresso que fizera com Justin tinha emperrado e ela finalmente decidiu que precisava ir à
Biblioteca de Hogwarts neste fim de semana e ver se havia algo sobre aquele obscurial da
Primeira Guerra Bruxa. Ela não conseguia impedir que ele literalmente derretesse seus órgãos
internos toda vez que tinha um ataque de pânico, e ter que fazê-los crescer de novo a cada
poucos dias estava cobrando um preço de ambos.

Dennis não estava muito melhor. Tentativas de fazê-lo conjurar algo pequeno, mesmo tão
básico quanto um Wingardium Leviosa, saíam por todos os lados. Ou a pena não se movia, ou
ele praticamente criava um tornado que reduzia a pena a tiras. Quando ficava irritado demais,
ele crepitava de eletricidade por horas, incapaz de acalmar a si mesmo ou sua magia. Ela
estava perplexa.

A única coisa boa era que dois de seus outros pacientes ela conseguir resolver os problemas e
mandá-los para casa. Suspeitava que a Comissão estivesse tentando fazer Metamorfomagos,
mas só havia resultado em algumas transfigurações humanas bizarras que tinham sido difíceis
de desfazer. Eles ainda precisariam de terapia ambulatorial pelo trauma do encarceramento e
dos procedimentos pelos quais passaram, mas não houve efeitos físicos duradouros.
Pomfrey designou a ela outros dois pacientes com problemas semelhantes, um dos quais não
queria sua transfiguração revertida, já que isso o tinha deixado mais de trinta centímetros
mais alto do que originalmente era. Ela precisava discutir as implicações éticas de deixá-lo
como estava com Pomfrey antes que pudesse dar alta.

A Biblioteca de Hogwarts tinha sido tanto uma viagem física quanto mental pelo caminho da
memória. Tinha sofrido alguns danos durante a guerra e fora deslumbrantemente
reconstruída, mas sua coleção não era nem de perto tão completa quanto costumava ser.
Havia várias estantes completamente vazias e isso fez o coração de Hermione doer ao ver.
Ela sempre pensara na biblioteca como vasta e abrangente, e as prateleiras vazias faziam o
cômodo parecer menor de algum modo.

Ela encontrou alguns livros que mencionavam aquele obscurial, Credence Barebone, e como
ele havia se juntado a Grindelwald, mas nada que mencionasse seu destino final. Não havia
precedentes para tratar um obscurial adulto e ela estava um pouco perdida quanto ao que mais
procurar. Mesmo a Seção Restrita, à qual tinha pleno acesso como funcionária de São
Mungo's e adulta, estava espantosamente carente de qualquer informação útil.

Um feitiço de contenção não vai funcionar quando ele está se ferindo e indo para dentro, não
para fora.

A biblioteca tinha, no entanto, um livro chamado A Alma Mágica que parecia muito
promissor, vários capítulos referenciando cura da alma e aludindo a horcruxes sem usar a
palavra diretamente. Ela ficou surpresa por nunca tê-lo encontrado durante suas tentativas de
pesquisa em anos anteriores.

Quando terminou suas escolhas, foi ao escritório de McGonagall. Sua antiga professora a
convidara para ficar para um chá quando concluísse as seleções e Hermione se viu
apreciando estar em um patamar mais igual com a inteligente professora agora que não era
mais sua aluna.

Depois de pôr a conversa em dia e mergulhar em uma discussão aprofundada sobre


transfiguração humana, um tópico no qual Hermione estava especialmente interessada em
cutucar o cérebro da professora por causa de seus pacientes, Hermione pousou a xícara de
chá na mesa para se preparar para ir embora. Os olhos de McGonagall notaram a pulseira em
seu pulso e a bruxa mais velha ergueu uma sobrancelha, a expressão ficando severa.

— Srta. Granger, isso é…?

— Ah, é—sim. — Hermione sentiu as faces corarem. — Foi… muito útil, durante a guerra.

— Você chegou a descobrir quem a enviou? — Direta ao ponto como sempre, McGonagall
esperou quando Hermione hesitou.

— Sim, descobri — ela respirou fundo —, mas receio que não seja um assunto atualmente
aberto à discussão. Não é meu segredo para contar.
McGonagall não a questionou mais, mas Hermione percebeu que ela estava desconfiada. A
leoa protegendo seus filhotes. Era verdade, porém, que ela ainda não sabia se Malfoy queria
que as pessoas soubessem. Não o via pessoalmente desde logo depois de ter descoberto. Eles
não tinham conversado sobre isso e a última coisa que ela queria era Rita Skeeter pôr as mãos
nisso e torcer tudo em alguma história de romance proibido se essa não fosse a intenção dele
de modo algum.

Alguns comentários sugestivos e um pouco de ajuda durante a guerra não fazem um


relacionamento.

O fotógrafo tinha terminado de tirar fotos de todos os pacientes. Hermione revisou todas as
cópias, esperando encontrar Fred ou Percy, mas nada chamou a atenção. Os poucos ruivos
que tinham não eram nenhum dos dois e seu coração afundou. O que ela encontrou ao folhear
as fotos, no entanto, foram as gêmeas Patil. Notou Parvati quase de imediato, mas Padma foi
um choque enorme. Hermione nem a reconheceu e só percebeu que era ela pelo nome
rabiscado na parte de baixo da foto. Ela e a irmã já não eram mais idênticas e Hermione não
tinha certeza se um dia voltariam a ser.

O normalmente preto cabelo de Padma estava de um loiro estranho. Sem acesso ao prontuário
dela, Hermione não tinha certeza se era resultado de uma transfiguração malfeita ou de outra
coisa completamente diferente. Ela estava significativamente mais magra do que Parvati
parecia estar, e sua pele também mais pálida. As mãos de Hermione tremeram enquanto
comparava as duas fotos. A condição de Padma a lembrava de uma de suas próprias pacientes
nascida trouxa, aquela que ela suspeitava que a Comissão tinha tentado transformar em uma
Metamorphi. Essa paciente não mencionara ser gêmea, mas também estivera entre as
primeiras pessoas que a Comissão prendera e poderia ter sido um experimento inicial.

Mengele fazia coisas como injetar substâncias nos olhos de uma gêmea para ver se mudavam
de cor. Era um salto lógico que gêmeas bruxas pudessem ter sido usadas para testar
resultados de transfigurações. Se a aparência de Jorge estava bem…

Ela precisava revisar as fotos dos pacientes sem nome com muito, muito cuidado.

Ela evitou a Toca naquele fim de semana, passando suas manhãs de domingo enroscada com
Bichento e seus livros. Harry não perguntou, percebendo que ela precisava de espaço, e ela
ficou grata por ele reconhecer isso. Hermione não queria que ele fosse forçado ou a guardar
um segredo ou a contar a Gina ou a Molly a novidade. Ele voltou do brunch certa manhã, em
meados de outubro, com um convite para uma festa de Halloween que os Weasley
planejavam dar. Gina já teria voltado de seu último conjunto de partidas até lá e todos
poderiam ir em grupo. Hermione concordou a contragosto em ir, debatendo se seria melhor
falar com Molly antes ou depois da festa e desejando em silêncio não ser a única pessoa
solteira ali. Decidiu contar a Molly depois, ignorando a voz interna que dizia que ela estava
sendo covarde e nada parecida com uma Grifinória.

As vezes você precisa de um pouco de autopreservação, disse ela à voz, sombriamente. Não
tenho certeza se estou pronta para isso agora.

Sonserina, a voz sibilou de volta. Ela ignorou.


— Como vai aquele projeto do dragão? — Harry perguntou a ela durante o café certa manhã.
Hermione ergueu os olhos da torrada, piscando forte por um momento enquanto pensava.

— O dragão é projeto de outra pessoa no momento — ela tentou. — Mas ele continua, ah,
cuspindo fogo na equipe do projeto. — Ela franziu a testa, tentando pensar em como
expressar suas preocupações. — Temo que ele possa ser mandado de volta para a reserva se
não começar a cooperar.

Harry soltou um suspiro resignado. — Talvez ele esteja com fome. Tem alguma princesa por
perto para ele comer?

— Harry!

Hermione estava concentrada no prontuário de Justin, sua conta não fechando enquanto ela
estava atrás do balcão da estação dos curandeiros, tentando entender por que a dosagem que
calculava para a Poção do Sono Sem Sonhos de Justin não estava batendo direito. Ela teria
esquecido de levar um um? Um clearing alto de garganta puxou abruptamente seu foco, e ela
ergueu os olhos de suas anotações para o rosto entediado de Pansy Parkinson.

— Granger — a outra bruxa assentiu para ela. Hermione, com números ainda pairando na
frente da mente, encarou em branco a ex-colega por um momento. Os cabelos negros dela
estavam presos num coque perfeito, unhas vermelhas tamborilando no tampo do balcão. Uma
saia preta justa e um blazer realçavam as curvas da outra bruxa, sua aparência profissional e
sensual.

— Parkinson?

— Rápida como sempre — disse Pansy, friamente. — Qual é o quarto do Nott?

— Quem? — Hermione perguntou, perdida entre a aparência de Pansy e a pergunta. Não via
Pansy desde que ela sugerira entregarem Harry a Voldemort. Tentou lembrar se Pansy
chegara a ir para Azkaban ou não. Não recordava nenhuma menção dela nos jornais.

— Theodore Nott — repetiu Pansy, erguendo uma sobrancelha. — Mais ou menos desta
altura, cabelo castanho?

Hermione sacudiu a cabeça. — Ele não é um dos meus pacientes. Você vai ter que perguntar
a um dos atendentes.

— Ótimo — bufou Pansy e virou o olhar para vários dos tais atendentes atrás de outra seção
do balcão. — Encontrem Theodore Nott, agora.

Hermione observou enquanto todos os atendentes se atropelavam para obedecer, vasculhando


prontuários para achar o número do quarto dele. Uma expressão satisfeita cruzou o rosto de
Pansy enquanto ela via o pânico deles.
Antes que pudesse perguntar a Pansy por que diabos ela tinha irrompido ali para falar com
Nott, de quem Hermione nem sequer sabia que era um de seus internados, um alarme
disparou de um dos quartos de pacientes. Todos os atendentes deixaram o balcão e seguiram
pelo corredor que Hermione sabia levar ao quarto de Malfoy.

Pansy observou o caos com os olhos semicerrados e, com certeza, alguns minutos depois
Hermione viu a nova curandeira de Malfoy, ostentando um hematoma novo, sair furiosa do
corredor. Suas vestes verde-limão esvoaçavam atrás dela enquanto apressava o passo,
Pomfrey logo atrás.

— Remaneje-o! — gritava a curandeira, a bruxa normalmente doce e paciente claramente no


limite. — Já deu!

Pomfrey parecia tentar argumentar com ela, a expressão severa. As duas seguiram pelo
corredor através de outro conjunto de portas duplas, a conversa se apagando conforme
avançavam.

Pansy voltou-se para Hermione com uma sobrancelha erguida em perfeita imitação do tópico
da conversa. — Ouso perguntar?

Os olhos de Hermione ficaram no vão da porta por onde as duas bruxas haviam desaparecido,
antes que ela pigarreasse e baixasse o olhar de volta para o prontuário. Tinha esquecido
completamente de onde estava em seus cálculos e teria que recomeçar.

— Seu ex-namorado — ofereceu como explicação, franzindo a testa para o pergaminho.

— Ele não é um dos seus? — exigiu Pansy. Hermione olhou para ela, aguda.

— Um ex-namorado meu? — disse Hermione, incrédula.

— Um paciente seu, Merlin — a expressão de Pansy estava calculista e Hermione decidiu


que não gostou. Ela sacudiu a cabeça.

— Ele precisa de uma curandeira sênior. Eu só me formei no treinamento mês passado.

— Como se isso significasse algo. Você é a Garota de Ouro. — Pansy revirou os olhos.

Hermione deu de ombros. — Ele não foi designado para mim.

Pansy a considerou por mais um momento antes de os atendentes vagarem de volta para a
estação dos curandeiros. Ela voltou a importuná-los pelas informações do Nott e Hermione
voltou aos seus cálculos, ignorando-os. Escreveu a conta inteira, já que não estava
funcionando na cabeça, e percebeu que não estava funcionando porque o peso dele tinha
aumentado recentemente e ela não levara isso em conta.

O resto de outubro voou entre seus estudos, o trabalho e a aproximação da festa de


Halloween. Os outros casais já haviam decidido fantasias em par e Hermione continuava se
sentindo a peça deslocada, tentando encontrar algo ao mesmo tempo divertido e inteligente.
Tinha escrito a Gina pedindo ideias e todas as sugestões que a amiga lhe devolveu pareciam
sugestivas demais para uma festa de família. Isso a deixou desconfiada.

Decidiu ir como a versão trouxa de uma bruxa, meias listradas e uma vassoura comum de
palha incluídas. Harry foi o único que entendeu sua fantasia, a maioria dos Weasley achando
que ela era uma trouxa que gostava de limpar. Arthur ficou encantado. Rony achou que ela
estava vestida como a tia-avó Muriel dele.

— Eu sou uma bruxa, Rony.

Ele olhava para ela como se ela fosse burra. — Eu sei.

Hermione revirou os olhos. Às vezes desejava que seus amigos fossem um pouco mais
intelectuais e pudessem entender seu senso de humor.

Jorge tinha tentado ir vestido de Merlin, o cabelo ruivo encantado de branco com uma barba
combinando que ia quase até os pés. Lembrou-a fortemente de quando ele e Fred tomaram
aquela poção do Envelhecimento no quarto ano, a lembrança fazendo-a parar enquanto algo a
incomodava. Antes que pudesse pensar muito nisso, porém, Gina arrastou um convidado até
ela. Sabendo que ela seria a única pessoa sem par, já que até Jorge lembrara de convidar
Angelina Johnson, Gina convidara Córmaco McLaggen para ser o par dela.

Entre Angelina, a falta de memória de Jorge sobre a guerra, e passar uma festa de Halloween
se escondendo de Córmaco, ela se sentia como aquele homem do filme trouxa Jumanji
exigindo saber em que ano estavam. Estava furiosa com Gina e não estava se divertindo,
dando a McLaggen um breve oi antes de passar boa parte da noite andando em círculos pela
festa para evitá-lo e a suas falas sugestivas.

Ela ia matar Gina. Quando percebeu quem a bruxa mais nova tinha convidado, puxou-a de
lado e exigiu saber o que ela estava pensando. Gina sabia que ela não gostava de Córmaco,
mas a outra mulher deu de ombros e disse algo a Hermione sobre explorar suas opções.

Seu cérebro apontou a diferença entre ela achar as falas de McLaggen repulsivas, mas as de
Malfoy intrigantes. Talvez fosse porque McLaggen era insistente e não aceitava um não
como resposta, ao passo que Malfoy tendia a dizer algo e então deixá-la ruminar por um
tempo, lendo suas reações antes de oferecer qualquer outra coisa. Como se estivesse
confirmando se era bem-vindo ou não.

— Weasleys intrometidos — murmurou para si mesma enquanto fazia outra volta rápida,
evitando McLaggen. — Quando foi que eu dei qualquer indicação de que me interesso por
alto, loiro e estúpido?

Alto e loiro, sua mente forneceu, enquanto relampejava outra pessoa que preenchia esses
requisitos. Ele definitivamente não é estúpido.

— Aí está você! — Ela parou e fechou os olhos de aborrecimento, pega. Ele havia mudado
de direção para alcançá-la e ela não percebeu. Abriu os olhos e deu-lhe um sorriso tenso,
desejando poder descer a vassoura na cabeça dele.
— Eu já estava indo.

— Tão cedo? Mal tivemos chance de ficar… confortáveis. — Ele abaixou a voz na última
palavra e ela não conseguiu conter a expressão de repulsa.

— Não estou interessada, Córmaco — disse a ele sem rodeios, oficialmente farta de suas
bobagens. — Tenha uma boa noite.

Ele estendeu a mão para ela com um protesto, tentando fazê-la ficar, mas ela recuou e
desapareceu diretamente do jardim dos Weasley sem se despedir. Sabia que era falta de
educação e decidiu enviar uma nota a Molly no dia seguinte, fingindo doença. Era meia-
verdade — Córmaco realmente dava dor de cabeça.

— Se Cormac fosse minha única opção, eu preferia continuar virgem para sempre — disse
ela firmemente a Bichento. Seu familiar laranja miou em concordância.

Novembro de 1998

Hermione entrou às pressas no elevador, equilibrando um café e a varinha numa mão, um


bagel e a bolsa na outra. Tinha dormido demais e estava atrasada, quase quinze minutos
depois do horário naquela manhã. Um sonho bastante agradável a fizera aparentemente
ignorar o feitiço-despertador, e ela dormira como uma pedra.

Valeu a pena.

Já fazia tempo que ela não tinha nenhum sonho realmente agradável de que conseguisse se
lembrar. Normalmente eram pesadelos, uma sensação de que algo estava errado, ou um vazio.
Na noite anterior, porém, havia um misto tentador de mãos grandes e uma voz profunda.
Acordara sentindo um aperto, um desejo — algo que não acontecia desde antes do começo da
guerra.

O som agudo do “ding” do elevador ao chegar ao seu andar a trouxe de volta ao presente.
Apressou-se até a mesa dos curandeiros, as vestes esvoaçando, e assinou o ponto. Alguns
atendentes circulavam por ali e tentavam disfarçar os olhares na sua direção, mas ela não
tinha tempo para refletir sobre o comportamento deles. Puxou alguns prontuários e seguiu
para a ala.

— Hermione! — a voz de Hannah ecoou quando ela entrou num dos corredores. Hermione
retribuiu o cumprimento com um sorriso educado.

— Parabéns! Eu nem fazia ideia de que você estava saindo com alguém — disse Hannah,
animadíssima. O sorriso de Hermione murchou um pouco.

— Não estou — respondeu leve, confusa. As sobrancelhas de Hannah dispararam para a


linha do cabelo.

— D-desculpa — apressou-se Hannah. — Eu não quis— eu não percebi—

— O que está acontecendo?


Hannah pareceu muito desconfortável de repente e tirou um exemplar da Bruxa Semanal do
meio dos arquivos nos braços. — É a edição desta semana — disse, observando-a com
apreensão.

HERMIONE GRANGER GRÁVIDA?

Hermione encarou, estarrecida, uma foto pouco lisonjeira dela numa de suas idas à Floreios e
Borrões. Fora tirada no momento exato — o vento levantara o vestido quando ela girou,
fazendo o tecido na altura da barriga inflar para frente. A foto se repetia em loop por um ou
dois segundos, enquanto ela se virava e olhava ao redor, parecendo uma bruxa em avançada
gravidez.

O artigo era curto: detalhava uma compra de um livro sobre criação de crianças bruxas,
alfinetava sua tendência de aprender tudo por leitura e concluía apontando que, até onde o
mundo bruxo sabia, ela não tinha nenhum envolvimento romântico.

Ela tremia de raiva no meio do corredor. Levantou os olhos do jornal, com expressão
assassina, e viu atendentes trazendo de volta vários pacientes de alta segurança do horário de
saída ao ar livre. Eles foram encaminhados para seus quartos enquanto Hannah saía do
caminho, sorrindo sem graça para alguns pacientes — e atendentes — que a encaravam.

O jornal começou a fumegar levemente, e Hannah, com cuidado, tirou-o de suas mãos. —
Vou presumir que não é verdade? — perguntou num tom leve.

— Eu não estou grávida! — Hermione gritou, a voz ressoando no corredor. Hannah


encolheu-se, murmurou um “desculpa” e se virou. Hermione lançou um olhar fulminante ao
restante dos presentes no corredor; todos desviaram e fingiram não ter visto nada.

O resto do dia foi péssimo. A “notícia” se espalhou como fogo e ela passou as horas negando
e recebendo de volta olhares de incredulidade. Ao fim do expediente, estava de humor
absolutamente péssimo. Harry e os Weasley seriam insuportáveis com aquilo, e ela já sabia
que seria interpelada assim que chegasse em casa. Achou melhor ir direto pela lareira e
acabar logo com isso.

Chegou a um caos completo.

— Você está grávida?

— — o pai?

— — ter que saber disso pela Bruxa Semanal —

— — de quantos meses —

— EU NÃO ESTOU GRÁVIDA.

O grito dela calou Harry e toda a família Weasley. O peito arfava, ainda vestia as robes
verdes de curandeira e o cabelo estava um desastre. Nunca se sentira tão furiosa com uma
publicação. Nem era a Skeeter — embora pudesse imaginar o que aquela mulher vil devia
estar escrevendo naquele exato instante.
Repórteres a seguiriam por meses tentando conseguir fotos, o mundo bruxo ansioso por
novidades sobre a primeira do Trio de Ouro a ter um filho. Ela seria perseguida até ficar
muito claro, pela completa ausência de um bebê, que tudo não passara de balela. Então
começariam os boatos sórdidos sobre o que teria acontecido à “gravidez”.

Um sonho para jornais — e um de seus muitos, muitos pesadelos.

— É mentira! O vento levantou meu vestido! Essa foto é de setembro! Eu não estou saindo
com ninguém. A chance de eu estar grávida é zero.

— Tenho certeza de que é mais que zero—

— — achei estranho —

— — a Bruxa Semanal vive cheia de asneira —

A dor de cabeça vinha chegando. Era embaraçoso demais declarar, para uma sala cheia de
gente, que seu útero estava, de fato, completamente vazio — e sempre estivera. Depois de
mais uns dez minutos de perguntas, ela simplesmente foi embora, sumindo pela lareira direto
para Grimmauld, já farta. Teriam de acreditar na palavra dela. Era uma mulher adulta, pelo
amor de Merlin, e não precisava se explicar.

Ela tinha batido num muro quanto às ideias de tratamento para Dennis e Justin e estava
frustrada. Ambos tinham anotações extensas, mas a falta de material médico disponível na
Biblioteca de Hogwarts e na Floreios & Borrões a fazia ficar sem opções. Precisava de acesso
a uma biblioteca vasta, com muitas informações sobre magia das trevas, ou do relato em
primeira mão de alguém que tivesse perpetrado os experimentos. Uma ideia se formou.

Dolores Umbridge. A chefe da Comissão. Sentada numa cela de Azkaban, com julgamento
só dali a alguns meses. Ela poderia enviar uma lista de perguntas ao Departamento de
Aurores para ver se conseguiam arrancar cooperação. Trabalhou até tarde a semana inteira,
compilando perguntas que servissem para todos os seus casos atuais e pedindo aos colegas
que enviassem o que também quisessem saber.

Estava exausta ao fim da semana, e a lamúria do Harry não ajudava. Sem N.O.M.s a estudar,
ele passava as noites de semana reclamando da falta crônica de Gina. Hermione, sofrendo
tanto de falta de intimidade quanto de falta de tempo livre, não tinha muita simpatia. Harry
partiu na sexta-feira à noite para onde quer que fosse a partida da vez de Gina, sem dizer uma
palavra.

Rony e Luna a convidaram para jantar no sábado, para celebrar que iriam morar juntos.
Hermione não queria muito ir, mas seria deselegante recusar, especialmente considerando
como as coisas estavam com Harry naquela semana. Não pretendia ser uma amiga terrível; só
tinha muita coisa acontecendo — e ninguém em quem se apoiar.

Ainda estava de mau humor quando foi à casa de Rony e Luna no sábado à noite. Luna
construíra um novo lar no mesmo terreno de sua casa de infância depois da guerra, já que a
original queimara. Continuava ao lado do riacho e cilíndrica, parecendo uma torre de xadrez,
mas em vez de preta agora era de um lilás suave. Hermione guardou para si o pensamento de
que era uma cor horrível para uma casa.

Por dentro, a casa gritava “Luna”. Pinturas em tons pastéis com desenhos fantasiosos, bibelôs
e vários exemplares do O Pasquim por toda parte. Havia um toque claro de Rony na
decoração agora que ele havia se mudado: coisas dos Chudley Cannons e jogos de xadrez
bruxo espalhados, junto com algumas plantas mágicas. Uma delas parecia suspeitosamente
com visco.

Luna preparara… alguma coisa para o jantar. Hermione não tinha certeza do que estavam
comendo — uma espécie de “cottage pie”, mas não exatamente —, porém, ao menos, não era
horrível. Rony enfiava colheradas na boca no ritmo de sempre, repetindo de boca cheia que
estava delicioso. Hermione perguntou mais a Luna sobre o processo de seleção de varinhas,
surpresa por receber uma explicação detalhada de astrologia trouxa e de como certos traços
de personalidade levavam as pessoas a escolher criaturas favoritas específicas.

Depois do jantar, discutia prós e contras dos Nifflers, brincando distraidamente com a
pulseira enquanto conversavam. Rony e Luna estavam sentados no sofá de estampas
berrantes à sua frente, ele com o braço em volta dela enquanto a namorada se aninhava. Ele
percebeu o movimento e fez um aceno de cabeça para o bracelete.

— Já descobriu quem te mandou isso? — perguntou, dando um gole na cerveja amanteigada.


— Não li nada a respeito nos jornais sobre os julgamentos.

Hermione tomou um gole pequeno do chá enquanto pensava em como responder. Não queria
mentir, mas também sabia que a reação dele não seria boa.

— Ele foi trancafiado, então? — Luna interrompeu, no seu jeito sonhador e direto. — Rony
sabe como é, ter alguém que você ama preso.

Rony estremeceu na referência ao cativeiro de Luna por alguns segundos antes de arregalar
os olhos e se virar para Hermione.

— Hã… sim — ela tergiversou, pousando a xícara e respirando fundo.

Rony semicerrava os olhos, com a garrafa a meio caminho da boca. — É o Malfoy, não é?

Hermione fez uma careta, mas não negou. Rony estivera lá quando tinham examinado a lista
de possibilidades, e o nome de Malfoy estava nela.

— Você só pode estar brincando. A fuinha?!

Hermione suspirou. — Draco Malfoy foi quem me mandou a pulseira, a essência de dittany,
uma varinha e um horcrux. E você vai guardar essa informação para si, Ronald, porque nós
dois optamos por não informar o Wizengamot de que era ele.

Disse a última parte num tom firme e viu-o ceder, exatamente como Harry cedera à sua
expressão sombria. Rony resmungou algo que soou ao mesmo tempo irritado e, a
contragosto, impressionado.
— Acho maravilhoso, você e o Draco — disse Luna, com um sorriso distante.

— V-você acha? — Rony perguntou, olhando para ela sob o braço, incrédulo. Ela cantarolou
um “uh-hum”.

— Hermione sempre foi um pouco esperta demais — disse. — Acho que Draco vai combinar
muito bem com ela.

Rony ficou resmungando de mau humor por vários minutos enquanto ela e Luna tomavam
chá em silêncio.

— Posso desafiá-lo para um duelo, então? — perguntou por fim. Hermione olhou para ele,
mas Rony encarava Luna, esperando autorização. Ela pensou por um momento.

— Eu adoro música de piano — disse enfim, sorrindo —, e dois sempre são melhores do que
um.

Rony soltou um grande suspiro e beijou o topo da cabeça de Luna.


Capítulo 11

Novembro de 1998

Quando Hermione saiu de Grimmauld, ficou surpresa ao descobrir que as árvores do lado de
fora estavam nuas. Ela estivera tão absorta nos acontecimentos do último mês que a mudança
de estação sequer havia lhe ocorrido. A temperatura havia caído consideravelmente e ela
parou para pensar quando fora a última vez que passara um tempo significativo ao ar livre.

Provavelmente naquele dia de praia em setembro.

Ir e vir pela lareira até St. Mungo’s, estudar para os N.O.M.s, tentar impedir que Harry
reclamasse de Ginny – nada disso exatamente lhe deixava muito tempo para se atualizar com
o sol. Somando-se a isso um monte de repórteres barulhentos que haviam se instalado
permanentemente tanto no trabalho quanto em sua casa, ela oficialmente se tornara uma
reclusa. Ajustou os robes verdes de curandeira mais apertados em torno do corpo, ignorando
os flashes e as perguntas incessantes sobre sua “gravidez” antes de aparatar.

Ela havia escrito para a Associação de Poções sobre alternativas para Reposição de Sangue e
Ossos Reconstituídos para Justin, e eles se ofereceram para se reunir com ela para discutir o
que precisava. Hermione sabia que provavelmente poderia descobrir sozinha, dado recursos e
tempo suficientes, mas atualmente lhe faltavam ambos e não tinha capacidade extra para
assumir a invenção de uma poção médica no momento.

A reunião ocupou boa parte da manhã enquanto ela definia as qualidades exatas que a poção
precisava ter. Reconstituir órgãos e ossos, de forma rápida, de preferência com menos dor do
que Ossos Reconstituídos causava, e algo que não precisasse ser administrado a cada hora
como Reposição de Sangue. O estômago de Justin ficava tão cheio de poções depois desses
episódios que ele não comia por dias. Levava uma eternidade para se recuperar quando não
havia nada com o que o corpo pudesse trabalhar.

Ela registrou sua entrada no trabalho e foi verificar os pacientes. Ao retornar para a estação
dos curandeiros, notou um maço de papéis em sua caixa de correio que não estava lá algumas
horas antes. Seus olhos se arregalaram ao folhear várias páginas que pareciam ter sido um
interrogatório de Macnair.

Como Umbridge fora a chefe da Comissão, Hermione imaginava que ela teria sido
responsável por aprovar os procedimentos mais extremos e teria conhecimento deles e de
seus resultados pretendidos. As informações fornecidas por Macnair, no entanto, detalhavam
mais do que isso. Umbridge não apenas aprovara os experimentos – ela havia projetado
alguns deles. Fora presa em maio, mas não estava falando. Hermione aguardava ansiosa pela
eventual sentença dela e ainda esperava conseguir um monte de anotações do interrogatório.

Era claro pela transcrição que ele não via absolutamente nada de errado no que havia sido
feito. Acreditava ativamente que nascidos trouxas eram uma espécie inferior, e ela leu
páginas e mais páginas de um completo vazio de empatia pelo próximo. O que lhe faltava em
formação médica compensava com pura maldade.

Hermione fez anotações extensas, vários trechos relevantes para os arquivos dela e de
colegas. Enviou suas notas e teorias aos colegas responsáveis pelos casos correspondentes,
passando várias semanas desenvolvendo tratamentos propostos e outros exames diagnósticos
para confirmar algumas de suas hipóteses. Entre pausas nas pesquisas, jogava xadrez com
Justin e tentava convencer Dennis a sair do quarto. Ele não deixara o quarto de paciente
desde que ela assumira seu cuidado, com medo demais de ferir outras pessoas para sair,
mesmo tendo sido liberado para usar a sala de atividades com ela e dois atendentes presentes.
Ela não teve sucesso.

No fim de novembro, Pomfrey tinha uma surpresa para ela. Ao que parecia, o novo
curandeiro de Malfoy também se recusava a trabalhar com ele depois de um incidente com
Incarcerous e ameaçara se demitir. Pomfrey pretendia entregá-lo a outro curandeiro sênior até
receber um pedido especial do conselho.

Hermione estava sendo designada para Malfoy. Ficaria com Justin e Dennis, mas seus outros
casos seriam redistribuídos, já que o de Malfoy aparentemente tinha “prioridade máxima”,
pois havia ganhado a “atenção especial” dos membros do conselho, e eles achavam que a
pessoa perfeita para trabalhar em seu caso era a Bruxa Mais Brilhante de Sua Idade.
Hermione leu nas entrelinhas.

Alguém havia feito uma grande doação e puxado alguns cordões.

A conversa com Pansy lhe veio à mente, mas não tinha certeza se Pansy tinha aquele tipo de
ouro, influência ou motivação para tal resultado. Sua outra suspeita eram os pais de Malfoy.
Talvez soubessem da pulseira e do que quer que estivesse acontecendo com aquilo, ou
queriam sua libertação e acharam que a inexperiência e o perfil público dela poderiam ser o
caminho.

Pomfrey não parecia contente com a decisão e Hermione não sabia como se sentir.
Pessoalmente, não o via desde o julgamento no mês anterior, e eles não haviam exatamente
tido chance de conversar. Trabalhar diretamente com ele poderia oferecer a oportunidade de
perguntar sobre a pulseira e os presentes. Ou talvez ela permanecesse em suspenso até sua
libertação.

Profissional e academicamente, estava muito interessada no experimento Fulminator e nos


resultados. Era um enigma que queria desvendar, e estava confiante de que poderia fazê-lo. Já
havia “curado” vários pacientes dos problemas físicos – sua taxa de sucesso era bastante alta.
Os procedimentos que ele sofrera provavelmente eram semelhantes aos de Justin, então fazia
sentido que fosse designada a ambos. Pomfrey concordou com ela e comentou que talvez
tivesse até mais sucesso com Malfoy, já que era a única em St. Mungo’s que trabalhara com
ele sem ser atordoada. Hermione ignorou o tom questionador de Pomfrey e aceitou o caso.

Ao abrir o arquivo do paciente, encontrou apenas um exame preliminar de admissão, nada


além disso. Ele não permitira sequer um diagnóstico desde então, e seu arquivo estava vazio
de detalhes sobre os procedimentos que sofrera. A palavra “não cooperativo”, anotada por
Myriam, agora estava sublinhada várias vezes, acompanhada de anotações em diferentes
caligrafias descrevendo a mesma coisa.

Bem, essa é uma forma de dizer.

Ela percebeu que teria de tentar entrevistá-lo sobre o que se lembrava das experiências
específicas com a Comissão. Hermione já sentia uma dor de cabeça se formar, e ainda nem
havia falado com ele.

Hannah a encontrou assim que a notícia de que fora designada a Malfoy se espalhou.
Aparentemente, ela era a curandeira responsável por Theo Nott. Nott não era um Comensal
marcado, mas tanto seu arquivo quanto o de Malfoy estavam suspeitosamente vazios de
procedimentos realizados pela Comissão. Um contraste gritante com qualquer dos arquivos
dos nascidos trouxas. Depois de conversar com Hannah, Hermione pesquisou os registros de
St. Mungo’s sobre Comensais conhecidos e algumas famílias sangue-puro antigas e
encontrou todos no mesmo estado de vazio.

Tentar manter suas habilidades em segredo – foi o que ela imaginou ser a intenção da
Comissão. Com o bônus adicional de não dar a ela e sua equipe nada com que trabalhar, o
que tinha certeza de ser uma precaução de Umbridge caso as coisas desandassem. Suspirou e
bateu o último arquivo de volta no armário. Não havia outra saída – teria de falar com ele
diretamente.

Reunindo dois atendentes e o arquivo, ela se viu frente a frente com ele pela primeira vez em
três meses. Uma sobrancelha erguida para ela, o rosto inexpressivo. Sua aparência
permanecia a mesma, exceto pelo fato de estar limpo e ter ganhado quase três quilos. Notara
que Myriam e seu outro curandeiro vinham pedindo várias poções de vitaminas para ele,
junto com uma dieta rica em calorias. Tomar as poções parecia aceitável, mas falar com os
curandeiros ou permitir qualquer tipo de diagnóstico com varinha não. Continuava bastante
pálido, a tinta preta da tatuagem de prisioneiro no pescoço e as sombras roxas profundas sob
os olhos bastante visíveis.

Vestia a típica roupa de paciente: camisa azul-clara e calças que lembravam mais uniformes
trouxas de hospital do que qualquer outra coisa. Nada de aventais abertos nas costas para a
comunidade bruxa. Lançou um Muffliato nos atendentes. Havia aprendido recentemente que
era prática comum durante sessões de cura da mente, em que eles não deviam ter acesso às
conversas entre paciente e médico, e achou que seria útil ao lidar com Malfoy. Se ele fosse
revelar procedimentos experimentais, queria o controle da disseminação dessas informações.

Sua mente sussurrou que também poderia ser útil caso ele quisesse falar sobre a bela peça de
joalheria que ela ainda usava, embora Hermione não tivesse certeza se teria coragem de tocar
nesse assunto ainda.

— Então, Dr. Estranho — perguntou sem rodeios, fazendo referência ao personagem de


quadrinhos trouxa. — Quer me contar sobre seus superpoderes ou eu preciso adivinhar?

— Ah, agora eu sou o doutor? Bom saber que você ainda alimenta fantasias médicas comigo,
Granger.
— Não é isso...! — gaguejou. Não era de forma alguma o rumo que previra para a conversa.
Merlin, esse homem tinha a mente suja. — Eu não estava...!

Aquele sorrisinho de canto voltou, o olhar percorrendo seu corpo de cima a baixo. — Ou quis
dizer o tipo acadêmico de doutor, talvez? Acho difícil acreditar que você, de todas as pessoas,
tenha sido uma má aluna, mas talvez, na minha ausência, tenha sido uma boa garota.

Caralho.

Ela queria ouvir ele dizer aquilo de novo. Sua voz baixa dizendo que ela era uma boa garota
ecoou em sua mente por vários segundos. Hermione sentiu os músculos das coxas se
contraírem.

Deveria ser ilegal trancafiar um garoto de dezoito anos, decidiu. Aparentemente a falta de
companhia feminina havia feito os hormônios corroerem suas células cerebrais. Ele parecia
bastante... reprimido, embora ela supusesse que não era como se Azkaban oferecesse
oportunidades de... alívio...

E agora estava pensando em Malfoy se masturbando.

FOCO.

— Experimentos! — guinchou, olhos arregalados. Ele exibia um sorrisinho convencido e


seus olhos brilhavam. — Quero saber que experimentos fizeram em você!

O sorriso desapareceu de seu rosto e sua expressão se fechou instantaneamente.

— Não.

— Preciso saber para poder tratá-lo, Malfoy — tentou, a voz ainda aguda. Pigarreou. —
Preciso de mais informações para trabalhar em parar seus... episódios.

Ele permaneceu completamente em silêncio, recusando-se a responder qualquer pergunta,


aqueles olhos cinzentos apenas a observando. Ela não conseguiu decifrar sua expressão e,
após cinco minutos de completo silêncio, desistiu.

— Certo — suspirou, frustrada. — Vejo você amanhã, Malfoy.

Desfez o Muffliato dos atendentes e foi embora, perguntando-se como, em nome de Merlin,
iria consertar o que quer que tivessem feito com ele se ele não lhe contava nada. Ela sequer
podia requisitar as notas dos curandeiros da mente devido às leis de privacidade. Precisava de
mais informações de alguém que lembrasse o que havia acontecido, ou talvez houvesse algo
nas anotações de Macnair que deixara passar.

Revirou o interrogatório novamente, trabalhando até a noite. Já havia tirado os robes de


curandeira, seu vestido de trabalho amassado de tanto tempo sentada, o cabelo em desordem
de tanto passar as mãos por ele. Já era hora do jantar quando terminou, os atendentes
empurrando os carrinhos de refeição pelos corredores e entregando comida aos pacientes. Ao
registrar a saída e se preparar para ir para casa, uma ideia lhe ocorreu ao olhar para um dos
carrinhos, lembrando-se do comentário de Harry sobre o dragão estar com fome. Virou-se e
voltou para a ala trancada.

A porta do quarto dele estava aberta, um atendente entregando sua bandeja, e ela
simplesmente entrou. Ele já estava contido, como ela sabia que estaria. Sua expressão
demonstrou surpresa ao vê-la antes de os olhos percorrerem seu vestido de trabalho, seus
robes de curandeira esquecidos na outra sala.

— Vou te fazer uma proposta — disse, perguntando-se se estava imaginando o olhar faminto
em seus olhos. Era hora do jantar, mas ele olhava para ela, não para o prato. Hermione fez um
aceno para a bandeja coberta.

— O seu pessoal na mansão pode providenciar todas as suas refeições — ofereceu. Comida
de fora não era proibida em St. Mungo’s, a menos que o paciente tivesse dieta restrita, o que
não era o caso dele. Provavelmente se sairia melhor se recebesse algo familiar de casa, de
qualquer forma. Não era preciso ter sido criado com uma colher de prata na boca para
detestar comida de hospital.

— Em troca, quero sua total cooperação com o plano de tratamento. Vai responder perguntas
e se submeter a qualquer tratamento que eu prescrever, sem reclamações. — Lançou-lhe um
olhar altivo, quase desafiando-o a fazer algum tipo de piada suja com “submeter-se” e “sem
reclamações”.

— Fechado. Com a condição de que seja você quem faça o tratamento, Granger. Não quero
nenhum dos seus colegas me tocando.

Ela ficou tão satisfeita com a vitória fácil em garantir o acordo que só muito mais tarde
percebeu as implicações daquela frase.

Ele não queria que nenhum dos colegas dela o tocasse, mas aparentemente o toque dela
estava tudo bem.

Dezembro de 1998

Malfoy respondeu a todas as perguntas dela sem dificuldade mais tarde naquela semana.
Indicou que tinha algum controle sobre o tipo de feitiço que saía, mas nenhum controle sobre
se ele realmente saía ou não. Não tinha qualquer lembrança do procedimento a que fora
submetido, o que imediatamente a irritou e a fez sentir que ele estava brincando com ela, até
que começou a perguntar sobre o incidente em Azkaban que o levara a ser enviado para St.
Mungo’s em agosto.

Acontece que o guarda o havia ameaçado fisicamente. Malfoy disse que estava de pé ao lado
da cama em sua cela na época e a incendiara quando explodiu, daí as canelas queimadas. As
celas de Azkaban não eram protegidas contra magia da mesma forma que os quartos de St.
Mungo’s e, pelo que parecia, o raio dele fora enorme.

Ela pensou nos poucos incidentes que conhecia em que ele havia explodido. A morte de
Bellatrix, o incidente com ela quando apontara a varinha para ele e o guarda de Azkaban.
Todos os três tinham elementos de ele estar sendo ameaçado.

Resposta de luta ou fuga? Ela escreveu em seu arquivo. Como diabos iria testar isso?

Ela franziu a testa. Não queria assustá-lo, porque sentia que isso seria equivalente a tortura, e
seus pacientes já tinham passado mais do que o suficiente disso. Queria construir confiança
com ele como paciente, não destruí-la para testar uma teoria. Poderia criar artificialmente
uma resposta adrenal – havia várias drogas trouxas que eram bastante eficazes e
relativamente baratas também. Pomfrey teria que aprová-las e, depois, ela teria que encontrar
uma forma de consegui-las, o que significava passar pelo Departamento de Relações com
Trouxas no Ministério. Hermione gemeu. A papelada levaria semanas para ser processada.

— Isso é o que eu acho que é?

Hermione apontava para um pacote que estava bem embrulhado com papel preto e fita
dourada, repousando inocentemente sobre a mesa da cozinha dela e de Harry. Harry, que
estava servindo seu café, lançou um olhar rápido antes de voltar à tarefa.

— Já estava aqui ontem à noite quando cheguei daquela batida.

Ela o encarou por um momento antes de voltar-se para Harry.

— Você alguma vez baniu o Kreacher das proteções?

Ele parou com a caneca a meio caminho do rosto. — Hm, não? Eu deveria?

Ela suspirou e balançou a cabeça, desembrulhando lentamente o pacote. Dentro da caixa fina
e plana havia um envelope e uma cópia da Semanal das Bruxas. Rasgou o envelope,
encontrando uma nota escrita em uma caligrafia familiar e elegante que não via desde maio.

O melhor que pude fazer com pouca antecedência. Eles foram avisados.

Ela passou a nota para Harry, confusa, enquanto olhava para a revista.

Retratação: Hermione Granger Grávida?

O artigo inteiro havia sido retirado, a publicação emitindo um pedido completo de desculpas.
Ela leu o artigo duas vezes antes de fechar os olhos, apertando a revista com as duas mãos e
inspirando fundo pelo nariz. Um arrepio percorreu seu corpo ao pensar no aviso que ele
aparentemente dera a eles. Havia algo um pouco excitante em um homem que exalava aquele
nível de controle — ainda mais preso — e escolhia usá-lo em favor dela.

Harry assobiou baixo quando ligou os pontos. — Aposto que esse aviso não foi de que o pai
dele ficaria sabendo — comentou calmamente. Ela sorriu.

— Bem, pelo menos não teremos que nos preocupar com a Semanal das Bruxas por um
tempo.
— Fale por você — resmungou. — Pelo menos uma vez por mês tem um artigo sobre o
tamanho da minha varinha.

Ela havia parado de dar muita atenção à cobertura dos julgamentos nos jornais depois do de
Malfoy e ficou surpresa ao perceber que já passara um mês. Os irmãos Lestrange foram os
próximos, os testemunhos tomando a maior parte de novembro, e a sentença foi adiada até
depois do Natal. Hermione achava que isso podia ter sido de propósito para prolongar o
processo e não conseguia sentir um pingo de simpatia por eles.

Ficou satisfeita por finalmente ter terminado os N.O.M.s, passando com cores brilhantes e se
formando oficialmente em Hogwarts. Sabia que iria passar, mas era bom ter um pouco de
tempo livre novamente, o qual percebeu, com a aproximação do feriado, que provavelmente
seria gasto comprando e embrulhando presentes. Sentiu uma pontada dolorosa ao pensar em
não comprar nada para os pais.

Hermione estava revisando a pilha de fotos dos pacientes sem nome mais uma vez. Havia
uma em que continuava voltando, algo nele, mesmo sabendo que nunca o tinha visto antes.
Seu cabelo era branco e a pele tinha um bronzeado profundo. Parecia estar por volta dos
quarenta e poucos anos, mas era difícil dizer a partir de uma única foto frontal.

Um suspiro alto e irritante soou atrás dela. Hermione ignorou a pessoa e ergueu a foto para
um dos atendentes. — De quem é este paciente?

Outro suspiro dramático soou atrás dela. O atendente a quem se dirigira franziu a testa para a
foto por um momento, antes de indicar que o homem estava designado a um dos novos
curandeiros que haviam sido trazidos da Austrália em um contrato temporário.

— Você aí, plebeu, em que quarto está Draco Malfoy?

Ela captou de relance a expressão surpresa do atendente que o idiota atrás dela havia
abordado. Reconheceu a voz e decidiu que provavelmente seria melhor não interagir com
esse visitante. O atendente protestava contra seu novo título, sua linguagem corporal rígida.
O visitante respondeu com uma piada zombeteira sobre a mãe do atendente.

Houve um movimento brusco e ela se virou rapidamente, imobilizando o atendente e


lançando um olhar gélido para os olhos escuros de Blaise Zabini.

— Por favor, abstenha-se de assediar a equipe — disse friamente. — Ou terei você removido
e banido da ala.

Ele lhe deu um sorriso astuto. — Vou me comportar. Não gostaria que meu traseiro fosse
esbofeteado por Hermione Granger.

Ela libertou o atendente com um movimento da varinha e designou outro funcionário para
acompanhá-lo. Não estava interessada em jogos naquele momento, ocupada demais pensando
no paciente da fotografia. Cabelos brancos. Olhos castanhos. Ele quase parecia...

...como George no Halloween, fantasiado de Merlin.


Ela havia encontrado Fred. Sua aparência havia envelhecido dramaticamente, cabelo branco e
rugas, e ele estava completamente não responsivo. Molly praticamente a estrangulou quando
Hermione lhe contou, independentemente de seu estado. Ela consultou imediatamente o
curandeiro designado a ele, e ele concordou em tentar um processo semelhante de
recuperação de memória que haviam usado com George, bem como parte da cura por
transfiguração em que Hermione vinha trabalhando com seus outros pacientes. Hermione
conseguiu confirmar com certeza que todos os gêmeos que haviam descoberto até então
tinham feito parte da Comissão tentando alterar suas aparências de maneira dramática,
tentando criar metamorfomagos ou um disfarce duradouro que não exigisse o uso de poção
Polissuco.

A neve caía, cobrindo tudo do lado de fora de Grimmauld com um leve manto branco. Fitas e
enfeites haviam sido pendurados em St. Mungo’s, músicas de feriado tocando em áreas
comuns como a sala de atividades e na estação dos curandeiros. Hermione passara a se
esconder na biblioteca dos funcionários para escapar do som, ocupando-se com o máximo de
trabalho e estudo possível para evitar lembranças de Natais anteriores.

Ginny estava em casa pelo restante do mês, a temporada de Quadribol só retomando em


janeiro, e Harry estava tanto mais feliz quanto mais ocupado. Ela tentou não invejar a
felicidade do relacionamento dele e se sentiu mal por nutrir sentimentos pouco gentis em
relação a ambos quando a convidaram para o Natal dos Weasley. Seus amigos realmente
cuidavam dela e ela não deveria sentir ciúme por todos eles terem encontrado alguém com
quem serem felizes. Ela só queria isso também.

A pessoa com quem ela ainda tentava decidir se queria isso não atordoara ninguém desde que
ela assumira seu arquivo e estava recebendo mais liberdades. Pomfrey autorizara que ele
pudesse enviar cartas e pedir coisas de casa. Ele também estava autorizado a ir à área de
atividades contanto que as mãos permanecessem contidas, mas parecia não ter interesse em
interagir com ninguém além dela.

Ela se sentia ótima. Fred estava de volta e, com sorte, em breve estaria a caminho de algum
tipo de vida normal; ela conseguira um avanço importante nos casos de experimentos que
ajudaria vários sobreviventes e vítimas da guerra, e seus outros casos de pacientes iam bem,
consideradas as circunstâncias. A Associação de Poções indicara que teria duas novas poções
experimentais para Justin tentar no ano novo assim que concluíssem o preparo, Dennis
finalmente começara a se aventurar na sala de atividades por curtos períodos de tempo, e
Malfoy estava...

Intenso.

Ele observava cada movimento dela durante os tratamentos. Era como se seus olhos fossem
pequenos ímãs, seguindo-a por todo lado. Ela gostava disso, muito mais do que deveria,
especialmente considerando que ele era um paciente.

Ela queria dar algo a ele no Natal, mas não sabia o quê, ou mesmo como, já que
provavelmente seria considerado inadequado dar algo a ele diretamente. O que você
comprava para um riquinho idiota que estava trancado numa ala de hospital e que
provavelmente podia comprar qualquer coisa de que precisasse? A única coisa que ele não
podia comprar no momento era a liberdade.

Liberdade. Era isso.

Um passe de um dia.

Se ela conseguisse que o aprovassem para o próximo nível de permissão, poderia emitir para
ele um passe ocasional de um dia para que pudesse ir para casa ou sair. Provavelmente não
saía ao ar livre desde maio. Se não retornasse para o check-in em determinado horário, os
aurores viriam atrás dele e isso provavelmente violaria todo tipo de condição de sua liberdade
condicional, mas seria alguma coisa. Para obter esse tipo de permissão, ela precisaria
descobrir afinal o que diabos era o gatilho para seus surtos, para que ele pudesse tentar evitá-
los quando estivesse fora.

Eles haviam discutido mais sobre o controle dele sobre o tipo de feitiço, mas ele era bastante
reservado e só lhe dava respostas para o que ela perguntava. Tinham lhe dito também que as
consultas com o curandeiro da mente não iam bem, ele ficando em completo silêncio o tempo
todo, então haviam sido canceladas por ora para liberar o tempo do outro curandeiro.

Felizmente, Relações com Trouxas finalmente aprovara e providenciara tudo de que ela
precisava para o teste adrenal, e tudo fora entregue naquela manhã. Assim que terminou com
Justin e Dennis, ela seguiu direto para o quarto dele.

No momento em que entrou, atendentes pairando ao lado, foi recebida pela visão de uma
escrivaninha com livros espalhados sobre ela, junto com uma pilha de pergaminhos e o que
parecia ser um conjunto de penas muito caras. Os livros eram os mesmos que ela tinha para o
curso de N.O.M.s por correspondência — ela supôs que ele devia ter se inscrito para o curso
do segundo semestre e talvez estivesse esperando estar livre antes da data do exame.

— Se você brincar direitinho na caixa de areia, podemos começar a remover suas contenções
durante os tratamentos — disse a ele. — Você pode ser autorizado a um passe de um dia para
sair.

Ela viu um lampejo de algo cruzar o rosto dele. Ele estava na posição de sempre, contido e
sentado na beira da cama, de frente para ela. Hermione jogou o arquivo na cama ao lado dele
enquanto lia seus sinais vitais. Seus níveis nutricionais estavam bem mais altos, as
deficiências de vitaminas corrigidas, e ele havia ganho pelo menos uma pedra.

Havia outra concussão, percebeu lentamente, conferindo a leitura duas vezes. Olhou para o
atendente no quarto, mas era um diferente do da última vez. Com certeza ele não tivera uma
ontem. Ela pensou por um momento.

Quem esteve no turno da noite passada?

Ela teria que puxar a escala e verificar. Seus olhos voltaram para ele. O rosto estava
nitidamente menos encovado, mas sua pele sempre seria pálida. Pelo menos parecia mais
saudável, menos amarelada. Ele ainda estava um pouco privado de sono, mas ela sabia que
muitos pacientes tinham dificuldade em dormir profundamente no hospital.
Ela se inclinou ao lado de Malfoy para pegar o arquivo na cama ao lado dele e ele se moveu
levemente, o braço roçando em um dos dela. Ela se sobressaltou para trás, fora de alcance, e
semicerrrou os olhos.

— Tão desconfiada — murmurou ele, com o rosto voltado de lado para mantê-la em seu
campo de visão. Um pequeno sorriso de canto rondava sua boca. — Tem certeza de que quer
que minhas mãos fiquem livres?

Ela notou um toque de barba loiro-escura em torno dos lábios e do maxilar, e seus olhos
demoraram sobre isso um pouco além da conta. A boca dele se encurvou e ela corou,
baixando os olhos para o arquivo e rabiscando apressadamente algumas coisas.

Por que isso é tão atraente?

Ela curou a concussão dele, desta vez sem incidentes. Depois, Hermione pigarreou. — Tenho
uma teoria sobre os Fulminadores. Acho que as explosões e a proteção contra coisas como
feitiços de atordoamento podem estar ligadas à sua pressão sanguínea ou à sua resposta
adrenal.

Malfoy ergueu uma perfeita sobrancelha loira para ela, sem responder.

— Se importa que façamos um teste dessa teoria?

— Exatamente o que você planeja fazer para inspirar uma pressão sanguínea elevada,
Granger?

— Elas parecem acontecer durante uma resposta de luta ou fuga. Durante uma batalha,
quando apontei minha varinha para você, o guarda em Azkaban… — Ela deixou a frase no
ar.

— Então você vai o quê, me assustar? — perguntou, o tom cético. Ela sentiu um pequeno
arrepio por ele ter tido o mesmo raciocínio que ela, seguindo a mesma lógica.

— Não exatamente. Vou criar uma resposta adrenal artificial. Tudo que você tem que fazer é
sentar aí. — Ela explicou sobre a injeção. Ele ficou claramente pouco impressionado.

— Então você vai me cutucar e depois ficar me encarando. Isto é um hospital ou um


zoológico?

Ela revirou os olhos e tirou o kit do bolso, preparando tudo numa pequena bandeja que
conjurou. Um rápido aceno de varinha trouxe a leitura diagnóstica, outro aceno e luvas
médicas azuis cobriram suas mãos. Enquanto passava pela lista mental, um pensamento
súbito e horrorizado lhe cruzou a mente.

Esta injeção vai na coxa dele.

Ela fechou os olhos e praguejou baixinho, cotovelos colados às laterais, mãos estendidas à
frente para evitar tocar em qualquer coisa e contaminar as luvas. Ele a observava atentamente
como de costume.
— E agora, Granger?

— Preciso que você tire as calças.

Claramente não era isso que ele esperava que ela dissesse. Os olhos dele se arregalaram, as
pupilas dilatando. Um rápido olhar para o diagnóstico e ela notou que a pressão dele já estava
levemente elevada.

Ele se recompôs após um momento, aquele sorriso perigoso nos lábios. Ergueu as mãos
contidas, as algemas mágicas faiscando.

— Você vai ter que tirá-las para mim — ele soou satisfeito demais.

Hermione sentiu satisfação demais ao informá-lo de que, se ele não pudesse fazê-lo sozinho,
chamaria um dos atendentes para fazê-lo.

Seu olhar carrancudo foi feroz quando as mãos dele desceram até a braguilha dos pijamas,
levantando-se apressado. Ele puxou o nó da calça de cordão, desfazendo-a num único
movimento, e ela caiu até os tornozelos. Sentou-se de novo na cama, ainda fazendo cara feia
para ela.

Hermione tentou não notar a cueca boxer preta justa que ele usava, nem a fina penugem loira
que cobria suas coxas. Conseguia ver um volume na frente e sentia o rosto corar enquanto
tentava focar na seringa em sua mão.

— Vai dar uma pequena picada — disse, inclinando-se e empurrando a agulha na coxa dele.
Apertou o êmbolo. Ele não reagiu, exceto por se inclinar mais perto dela e sussurrar em seu
ouvido.

— Eu poderia dizer o mesmo para você numa noite.

Ainda bem que ela já havia removido a agulha, porque se sobressaltou em choque, o coração
disparado, os olhos arregalados.

Será que ele sabia? O olhar que ele lhe lançava sugeria que sabia exatamente quão experiente
ela era. Ela engoliu em seco.

Profissional. Você tem um diagnóstico para ler.

Hermione desviou os olhos dos dele e fez a agulha e as luvas desaparecerem, virando-se de
volta para a varredura diagnóstica enquanto o fazia. A pressão sanguínea dele subia de forma
constante e ela notou que ele começava a tremer levemente.

— Vai ser um pouco desagradável por um tempo, mas vai passar rápido — disse a ele. A
dose fora pequena, só o suficiente para obter uma reação por um curto período e ver se ele
“disparava”.

— Você se ouve? Remeto você à minha declaração anterior — ele rangia os dentes, ainda
sentado na cama só de cueca.
Hermione corou violentamente enquanto repassava mentalmente o que acabara de ser dito.
Manteve os olhos no diagnóstico, recusando-se a olhar para ele ou responder.

Depois de alguns minutos com pressão sanguínea e níveis de cortisol elevados e sem show de
fogos, as sobrancelhas de Hermione se juntaram. Ou não fora um aumento suficiente para
justificar uma resposta — não rápido o bastante, ou talvez a pressão dele não estivesse alta o
suficiente —, ou talvez aquilo não estivesse ligado à pressão sanguínea ou à resposta adrenal
dele, afinal. Hermione fez algumas anotações no arquivo e, em seguida, lhe passou uma
Poção Calmante.

Houve um pequeno tilintar quando ele a pegou dela que chamou sua atenção. Ela o impediu
de beber para verificar o frasco, certificando-se de que o vidro não havia rachado e o lacre
não estava violado. Se a poção tivesse sido desselada, ela não queria dar-lhe algo que pudesse
deixá-lo doente. O frasco estava fisicamente intacto e ela o encarou enquanto seu estômago
afundava.

Seus olhos voltaram para ele e o pegaram observando-a com a expressão neutra que usava
quando escondia algo. Ela baixou o olhar para as mãos dele, ainda contidas no colo, e sacou a
varinha num golpe.

— Finite.

Ao mesmo tempo que as contenções desapareceram, um anel prateado brilhou à vista em sua
mão esquerda.
Capítulo 12

Dezembro de 1998

Os olhos dele se arregalaram e ele imediatamente se levantou, ainda de boxer-briefs pretos, e


avançou para agarrá-la. Uma luz vermelha brilhante irrompeu dele quando se moveu em
direção a ela. Ela não foi afetada por causa da pulseira, mas o atendente desabou com um
baque alto quando ela tentou recuar para sair do alcance de Malfoy.

Em poucos passos, ele a encurralou contra a parede, as mãos envolvendo a parte de cima dos
braços dela e impedindo sua fuga. Ela registrou duas coisas — que ele tivera um surto e que
claramente havia desiludido o anel e o vinha usando havia algum tempo.

Há quanto tempo. Era isso que ela queria saber. Há quanto tempo ele o usava. Desde o fim da
guerra? Desde sua transferência? Desde que suas regras haviam sido relaxadas devido ao
bom comportamento?

Estava claro para ela agora, as insinuações, os comentários, que ele vinha ouvindo ela. Ela
sabia que sua magia sem varinha era boa e que ele não ficava contido a menos que fosse
durante os tratamentos, que tipicamente somavam menos de uma hora do dia dele. Ele teria
tido meses sem nada mais para fazer além de ouvir, se estava com o anel o tempo todo.

A pressão dele já havia recuado quando ela lançou o último feitiço — ela achou que talvez
ele tivesse entrado em pânico no segundo em que viu o anel, com base na expressão dele,
mas não se atreveu a lançar outro diagnóstico do jeito que ele a estava olhando. Os olhos
ainda estavam arregalados, o aperto firme. O alarme soava alto no corredor, passos rápidos se
aproximando. Uma veia pulsava em seu pescoço, sua linguagem corporal rígida enquanto a
pressionava contra a parede, as mãos sendo a única parte dele que a tocava enquanto seu
rosto pairava acima do dela. Mal tinha se passado um segundo enquanto tudo isso passava
pela cabeça dela. Ele a encarava, olhos prateados indo e voltando entre os dela, a expressão
quase vulnerável.

— O tempo todo? — ela perguntou baixinho, sem resistir. Ele assentiu com movimentos
bruscos e sacudidos, as mãos apertando ainda mais os braços dela.

A equipe de segurança irrompeu, tendo claramente resolvido o problema dos tempos de


resposta, e mirou feitiços de atordoamento nele. Ele girou para empurrá-la para o canto entre
a cama de hospital e a parede, posicionando-se à frente dela e explodindo pela segunda vez.

Os dois seguranças caíram do mesmo jeito que o atendente, os feitiços de atordoamento nem
sequer registrando. Ele respirava mais pesado agora. Duas grandes ondas de magia assim em
menos de alguns minutos cobririam muito de qualquer um, especialmente alguém que
estivera confinado por um longo período e não estava nas melhores condições físicas para
começar.

Ele permaneceu de costas para ela, os braços abertos para os lados e atrás de si para mantê-la
no canto, o corpo arfando levemente com a respiração pesada. Continuava usando apenas as
boxers pretas e a blusa azul-clara de uniforme, dando a ela uma excelente visão que ela
tentava ignorar dadas as circunstâncias atuais.

Hermione pousou muito de leve a mão no centro das costas dele. Presumia que mais
seguranças chegariam a qualquer momento, já que o alarme ainda tocava, o toque estridente
mais alto agora que a porta do quarto estava escancarada.

— Eu tenho que contê-lo antes que chegue mais segurança. Não quero que machuquem você
— disse a ele, tentando ser ouvida acima do toque. Os ombros dele desabaram e, relutante,
ele se virou para encará-la. Uma expressão resignada cruzou seu rosto antes que ele recuasse
até a cama e se sentasse nela, o rosto descendo até ficar no nível do dela.

Ela lançou o feitiço de contenção nas mãos dele enquanto ele inspirava.

— Não— — ele começou, mas a segunda equipe de segurança irrompeu. A boca dele se
fechou com um estalo e seus traços endureceram.

Quando viram que ele estava contido, silenciaram o alarme e começaram a despertar os
outros. Hermione foi conduzida para preencher mais um relatório de incidente. Pomfrey
desceu para avaliar a situação. Depois de ouvir os detalhes dos eventos por ela, foi verificar
Malfoy e a equipe de segurança. Hermione sentou-se na estação dos curandeiros, a mente
derivando para o que acabara de acontecer.

Ele vinha ouvindo ela por meses depois da batalha final e ela não fazia ideia. Ingenuamente,
ela presumira, antes de saber que era ele, que a pessoa não poderia ouvi-la se estivesse presa,
imaginando que o anel teria sido tirado pelos guardas e colocado com os outros pertences
dele no segundo em que foi preso. Em vez disso, sendo o homem esperto que era, ele havia
desiludido a maldita coisa de alguma forma e claramente tinha magia sem varinha suficiente
para escutar quando deixado por conta própria.

Por que diabos o anel dele podia ser desiludido, mas ela não conseguia fazer porcaria
nenhuma para esconder a pulseira? Isso parecia nitidamente injusto. A quantidade de olhares
que recebia, especialmente no hospital, por usar uma peça tão chique todos os dias a fizera
desejar repetidas vezes poder deixá-la com um aspecto um pouco mais simples. Mais de uma
vez perguntaram sobre ela e ela teve que inventar alguma história de que era sentimental e
não queria falar a respeito.

Sem contar que era meio verdade.

Ela ardia de vergonha e violação. Não tirava a maldita coisa havia meses. Ele poderia ter
ouvido todas as conversas dela com Harry e Ginny. Poderia tê-la ouvido falando com outros
pacientes, o que era uma violação enorme do sigilo paciente–curandeiro. Poderia tê-la ouvido
no banheiro. Ela tirou a pulseira pela primeira vez desde antes da batalha final e a enfiou no
bolso do robe, tremendo.

O chão bem que podia se abrir e engoli-la inteira agora.

A culpa era dela por presumir que a falta de resposta direta significava que ele não conseguia
ouvir nada. Não era como se ele fosse dizer “ah, a propósito, posso ouvir tudo que você diz”,
quando o máximo de reconhecimento que ela tivera de que ele sequer lhe dera aquilo, lá no
começo, fora o aceno de cabeça dele há pouco. Ele nem sequer podia escrever para ela até
muito recentemente. Na verdade, uma das primeiras coisas que fez quando pôde enviar
cartas...

...foi exigir uma retratação da Semanal das Bruxas.

Ah. Ah.

Talvez aquilo devesse ter sido uma pista? Ela simplesmente presumira que ele ouvira de um
dos atendentes, já que todos sabiam. Mas ele nunca falava muito com ninguém, ainda se
recusando a passar tempo na sala de atividades. Quanto mais pensava, mais sentido fazia que
ele tivesse ouvido uma das muitas conversas dela ao longo do dia e agido com base nisso,
especialmente com a rapidez com que a retratação fora publicada...

Merlin, que idiota ela era. Ele vinha tentando dizer a ela sem realmente dizer, já que não
podiam ter uma conversa privada. Ela estava ao mesmo tempo violentamente envergonhada e
horrivelmente lisonjeada e não sabia para que lado querer ir. Indignação parecia a emoção
mais confortável no momento.

Ela ainda encarava a escrivaninha quando o som de unhas tamborilando se fez notar.
Hermione ergueu os olhos e gemeu em voz alta.

— Muito profissional, Granger — disparou Pansy Parkinson.

— Você sabe onde o Theo está, Pansy — respondeu Hermione, reorganizando seus arquivos.

Pansy fungou, endireitando um blazer azul-escuro e tirando um fiapo imaginário. Estava


elegantemente vestida como de costume, a maquiagem impecável. — Não estou aqui pelo
Theo hoje. Preciso falar com o Draco.

Hermione mal se conteve para não exigir saber por quê, lembrando-se em silêncio de que não
era da sua conta e de que não queria saber o que Pansy estava aprontando. Deu a ela o
número do quarto dele e a informou de que talvez tivesse alguns problemas para falar com
ele naquele momento, antes de voltar a terminar seu relatório de incidente e a remoer os
eventos da manhã.

Hermione resmungava consigo mesma enquanto assinava o relatório quando Pansy voltou.

— Café, Granger. Agora.

Ela se virou e lançou um olhar fulminante à outra bruxa, que não estava nem um pouco
amassada como Hermione, que havia fugido do quarto de Malfoy.

— Não.

— Hora do intervalo. Vamos.

— Eu disse não, Parkinson.


— Bruxa Mais Brilhante de Sua Idade uma ova, Granger. Quer saber sobre a sua joia ou não?
— sibilou Pansy em voz baixa, evitando ser ouvida pelos atendentes.

Hermione bateu a gaveta do arquivo com força. Pansy a pegara, e ela sabia disso. — Quinze
minutos, Parkinson, e só.

Elas foram em silêncio até um elevador e desceram para a cafeteria. Hermione raramente a
usava, normalmente levando almoço e café próprios, e levou alguns minutos para encontrar
as bebidas quentes e uma mesa reservada.

Já sentadas, Hermione encarou Pansy sem tocar no café que acabara de comprar. —
Desembucha.

— Que diabos aconteceu esta manhã?

— Sigilo paciente–curandeiro, Parkinson. Você disse que tinha respostas, não perguntas.

— Pelo menos você é a maldita curandeira dele agora. Já ouviu o termo “negável plausível”,
Granger?

Claro que sim. Ela não era idiota e lançou a Pansy um olhar que dizia exatamente isso.

— O que você acha que acontece com uma curandeira que se envolve com um de seus
pacientes?

— Não estamos envolvidos! — ela sussurrou, olhando freneticamente ao redor para garantir
que não seriam ouvidas. Hermione lançou rapidamente um Muffliato.

— Acha que eu não percebi isso? Todas as nossas conversas têm testemunha, mesmo com
Muffliato não podemos falar em particular.

— Daí a negação. Se você nunca falar sobre isso, não aconteceu. Consegue soltá-lo, Granger,
e se você perguntar a ele então provavelmente ele vai te contar tudo.

— Estou tentando — disse ela a Pansy, zangada. — Não há precedente médico para a
condição dele. Ele está melhorando, mas é lento. Estar miserável e trancado o tempo todo não
ajuda!

Pansy ergueu uma sobrancelha perfeitamente desenhada enquanto Hermione assimilava o


que ela dissera. — O que você sabe? — exigiu Hermione, desconfiada.

A outra bruxa revirou os olhos e inspecionou as unhas. — Você realmente acha que vou te
dar informação privilegiada? O que acabei de dizer sobre a negação? Merlin, vocês
grifinórios são ridículos. Você desfila com aquela coisa por aí, deixa que fotografem no
jornal, caramba, e—

Ela gesticulava para o próprio pulso, mas parou de repente, encarando a mão. Os olhos de
Pansy voltaram para ela, furiosos.
— Você é cega por acaso? O quê, feriu seus preciosos sentimentos? — Ela zombou de
Hermione. — Você vai colocá-la de volta se souber o que é bom para você, Granger.

Hermione disse a Pansy que não estava interessada na opinião dela e deixou a outra bruxa na
mesa, furiosa com sonserinos em geral. Ainda estava com raiva quando chegou em casa.

Ela passou seus três dias de folga relendo o livro A Alma Mágica e fazendo anotações sobre
Dennis. Sua teoria atual era que a alma dele estava rachada, não dividida como com a
maldição avada, mas definitivamente com algum tipo de fenda que causava a instabilidade.
Havia muito pouca informação sobre como consertar uma fenda — tudo o que ela encontrara
sobre lidar com magia instável era majoritariamente relacionado a crianças e não havia
muitos detalhes.

Uma das coisas sugeridas era usar barreiras de sangue familiares para conter a magia até que
a criança aprendesse a controlá-la adequadamente. Os livros apenas faziam referência a isso,
porém — pareciam presumir que o pai soubesse do que estava falando e como realizar uma.
Nunca tendo feito qualquer tipo de barreira de sangue antes, especialmente uma familiar,
Hermione não sabia como realizar uma em Dennis.

E, se realizasse, temia correr o risco de selar toda a magia dele e transformá-lo em um trouxa-
nato se fizesse errado. Magia de sangue não era algo com que se devesse brincar. Ela
verificou tanto em Hogwarts quanto na Flourish & Blotts, mas nenhuma oferecia livros sobre
barreiras de sangue. Quando seus três dias terminaram, Hermione cogitava uma ida ao Beco
Knockturn para ver se havia uma livraria suspeita que pudesse oferecer os títulos de que
precisava. Skeeter faria a festa se a flagrasse.

Hermione manteve a pulseira fora do pulso, ainda se sentindo confusa com a revelação mais
recente. Não revelou nada a Harry, que estava ocupado demais com o retorno de Ginny para
lhe dar muita atenção de qualquer jeito. A ruiva sardenta praticamente morava em
Grimmauld ultimamente, o casal grudado e sempre se tocando.

No dia em que voltou ao trabalho, ela foi direto para a estação dos curandeiros, tencionando
anotar todos os pensamentos sobre o tratamento de Dennis que corriam em sua cabeça,
quando um alarme disparou para a sala de atividades. Vários atendentes passaram correndo
pela mesa e ela ouviu o nome de Dennis ser gritado, desorientando-a por um momento
quando o nome ressoou tanto dentro quanto fora de sua cabeça. Hermione mudou de direção
abruptamente para segui-los.

Ele estava agachado ao lado de uma das poltronas, as mãos no cabelo loiro-sujo, tremendo
levemente. O cômodo parecia ter sido atingido por uma bomba, mesas e cadeiras espalhadas,
o sofá virado, enchimento e penas flutuando lentamente até o chão. Havia um zumbido de
magia no ambiente.

Ela acenou para que os atendentes recuassem e se aproximou lentamente, deixando a varinha
no bolso por ora.

— Dennis? — perguntou suavemente. — Sou eu, Hermione.


Ele não respondeu, a cabeça baixa. Ela não conseguia ver bem seu rosto e deu passos lentos à
frente, falando com gentileza enquanto fazia isso. Garantiu a ele que estava tudo bem, que
ninguém estava ferido ou chateado, e por que eles não se sentavam e conversavam por alguns
minutos?

Ela estava a pouco menos de um metro dele quando parou e se agachou, tentando captar seu
olhar e ver se ele registrava alguma coisa. Ele não reagira a nenhuma de suas palavras,
continuando a tremer e a balançar-se levemente.

Os atendentes observavam, prontos e com varinhas erguidas caso ele se movesse. Ela tentou
de novo.

— Dennis?

De repente, ele se atirou sobre ela, fechando a distância e desequilibrando-a. Ela caiu estirada
no piso industrial frio, o ar expelido dos pulmões, Dennis em cima dela e crepitando de
magia instável.

As mãos dele estavam em volta de sua garganta e seus olhos estavam distantes. Ela percebeu,
quando ele começou a sufocá-la, que ele não a via, mas revivia algum cenário horrível, preso
em sua mente.

Ela lutou com ele por apenas um momento antes que um dos atendentes conseguisse arrancá-
lo de cima dela, as manchas pretas em sua visão desaparecendo. Hermione ficou deitada no
chão por alguns minutos, os robes verdes espalhados ao seu redor, atônita e arfando. Os
atendentes lutaram fisicamente com ele antes de contê-lo e conduzi-lo para fora.

Ela se sentou devagar, adrenalina correndo pelas veias. Sabia que ficaria com hematomas
tanto da queda quanto dele tentando sufocá-la. Uma onda de emoção subiu dentro dela, uma
necessidade de entrar em pânico e chorar, e ela tentou lembrar o procedimento que precisava
executar quando um curandeiro era atacado por um paciente para ajudar a conter isso.

Pomfrey chegou antes que ela conseguisse se concentrar e começou a dar ordens em voz alta.
A ala entrou em lockdown, todos os pacientes confinados aos seus quartos enquanto um
relatório de incidente era compilado e uma investigação realizada. Ela tinha uma vaga
consciência de ser conduzida a uma cadeira, um feitiço de cura lançado em seu pescoço.
Perguntas foram respondidas no piloto automático enquanto sua mente flutuava, sentindo-se
como se não estivesse exatamente dentro do próprio corpo, mas pairando do lado de fora,
alheia.

Pomfrey lhe ofereceu mais do que os três dias obrigatórios de afastamento. Ela se ouviu
recusar e dizer algo sobre não querer deixar os pacientes por tanto tempo, especialmente
porque tinha acabado de voltar havia menos de quinze minutos. Também recusou que Dennis
fosse reassumido por outro, relatando o que notara sobre o episódio, sua teoria recente, e
sugeriu que o curandeiro da mente fosse notificado.

Hermione nem lembrava de ter voltado a Grimmauld. De repente deu por si sentada à mesa
da cozinha, segurando uma caneca de chá, a voz preocupada de Harry soando em seus
ouvidos.
— Hermione? O que aconteceu com o seu pescoço?

Ela explodiu em grandes, sacudidos soluços, tentando contar a história entre arfadas. Ele a
envolveu num abraço e deu tapinhas calmantes em suas costas, ouvindo com atenção por
vários minutos enquanto ela tentava descrever os eventos da manhã. Quando finalmente se
acalmou, ele a ajudou a voltar para a cadeira e preparou um novo bule de chá antes de se
sentar com ela à mesa. As sobrancelhas dele se juntaram.

— Eu pensei — a pulseira, ela não deveria tê-lo impedido?

Ela irrompeu em outra onda de lágrimas e explicou toda aquela confusão. Ele ainda estar com
o anel, ela ter tirado a pulseira, a conversa com Pansy. Ela nem tentou esconder a história por
trás da analogia do dragão deles.

Seus sentimentos estavam em guerra uns com os outros. Vergonha, sensação de violação pela
falta de privacidade, chateação consigo mesma por tê-la tirado e acabar atacada na mesma
semana, incerteza sobre o que aquilo significava para eles agora que ela a havia removido.

— Hermione — disse Harry com gentileza, cobrindo uma das mãos dela com a sua. — Você
tem direito à privacidade. Você tem direito a segredos. Ele não precisa saber cada coisinha
que acontece e, se ele não gostar, então ele não é uma boa combinação para você. Mas às
vezes...

Harry suspirou. — Às vezes pode ser bom, compartilhar seus segredos. Ter alguém que te
conhece por dentro e por fora e te ama por isso. Alguém que não é só um amigo — disse
enfaticamente, olhando para ela quando ela abriu a boca para protestar.

— Amigos são ótimos, mas todos queremos mais, precisamos de mais. Quando você não
pode estar fisicamente perto de alguém, às vezes a intimidade emocional... — Ele suspirou.
— Digamos apenas que, quando a Ginny está longe, eu gostaria de poder ouvir o que ela está
fazendo o tempo todo. Não porque eu não confie nela, eu só sinto falta dela. — Deu de
ombros. — Seria bom ouvir até as coisas banais, só para fazer a distância parecer menor.

Ele deu um tapinha na mão dela antes de esvaziar o resto do chá. — Estou de plantão à noite
hoje, então vou para a cama já. Você vai ficar bem? Quer que eu veja se a Luna ou talvez o
Ron podem ficar com você esta noite?

Ela recusou, dando a ele um último abraço antes de ir para o quarto. Podia ser meio da
manhã, mas ela já precisava de uma soneca.

Crack.

— Kreacher tem uma mensagem urgente para a imunda sangue-ruim.

— E as instruções do Kreacher incluíam entregá-la às três da manhã?

— Não. Kreacher odeia a sangue-ruim e espera que ela—

— Caia fora, Kreacher.


Crack.

Houve um leve baque quando algo pousou no chão. Hermione ignorou, furiosa com a
aparição grosseira do elfo doméstico no breu do seu quarto, assustando-a e tirando-a de um
sono perfeitamente bom e sem pesadelos. Ela não conseguira cochilar muito durante o dia e
estava ansiosa por uma noite inteira de sono, sem esperar que o maldito Kreacher aparecesse
no meio da madrugada. Hermione bufou, virou-se na cama e tentou voltar a dormir.

Crack.

— Eu disse FORA, Kreacher!

— O mestre de Kreacher insiste que a sangue-ruim leia assim que for entregue, ou Kreacher
tem permissão para importunar a inútil, feia—

Ela rosnou e arrancou as cobertas, lançando um lumos maxima e cegando ambos por um
momento antes de Kreacher desaparecer. Aquele maldito elfo não aparecia durante a guerra
quando precisávamos de mais informações, ah não, mas agora que as tinham e não
precisavam mais interrogá-lo, ele não sumia. Ela apanhou o pergaminho e o desdobrou com
raiva, quase rasgando-o no processo.

Coloque de volta ou seu dragão será forçado de volta à reserva depois que ele incinerar
aquele maldito leão.

Ela bufou e atirou o bilhete de volta ao chão, lançando um olhar fulminante ao pequeno
estojo de madeira na mesinha ao lado da cama. Ele estava claramente ameaçando se fazer
jogar de volta em Azkaban atacando Dennis. A notícia devia ter se espalhado pela ala sobre o
que acontecera, já que ele não teria conseguido ouvir nada.

O estojo de madeira estava fechado e a pulseira dentro. Ela a recolocara no estojo no segundo
em que chegara em casa naquele mesmo dia em que a havia removido, sem querer perdê-la
por mais chateada que estivesse com Malfoy. Ela estava furiosa tanto com ele quanto consigo
mesma. Realmente deveria ter percebido que havia a possibilidade de ele estar com o maldito
anel o tempo todo, mas também não esperava que ele fosse tão proficiente em magia sem
varinha. Queria que ela e Malfoy pudessem simplesmente ter uma conversa direta, sem
rodeios, sobre tudo isso. Era tão frustrante tentar adivinhar e deduzir a partir de pequenas
pistas o tempo todo. Mesmo que conseguissem ter uma conversa decente e sem supervisão,
ele não era exatamente a pessoa mais acessível.

Ela se remexeu na cama por um tempo, tentando se acomodar. As palavras de Harry mais
cedo ecoavam em sua mente. Ela suspeitava que Malfoy pudesse sentir falta dela, o que
parecia ridículo, já que eles não tinham exatamente um relacionamento fora de paciente–
médica e joias mágicas tipo walkie-talkie de mão única. Ela fez uma careta ao perceber que
ele sabia que ela se importava com ele ficar fora de Azkaban.

Depois de toda ajuda dele durante a guerra, ele realmente não merecia apodrecer numa cela,
especialmente quando claramente precisava de intervenção médica. Se ele voltasse para
Azkaban por outro assassinato, desta vez aparentemente sem provocação, eles nunca
conseguiriam ter uma conversa franca sobre qual era a motivação por trás da necessidade
dele de ajudar e ouvi-la.

Ela não tinha plena certeza de que comprava toda a história de crush secreto por anos, que
parecia ser a explicação mais simples. Adormeceu de novo, com perguntas tumultuando em
sua mente, sem recolocá-la.

Crack.

— K-Kreacher?

O tom surpreso de Harry no café da manhã seguinte fez com que ela se virasse do balcão,
onde preparava seu café, para fuzilar com o olhar o elfo doméstico ofensivo. Os olhos de
Harry estavam esbugalhados enquanto ele encarava. Ele ainda vestia as roupas de auror do
turno da madrugada.

— Kreacher traz um convite para a asquerosa sangue-ruim de sua senhora.

Harry e Hermione olharam primeiro para ele e depois um para o outro. — Walburga? —
exigiu Harry.

Kreacher fungou, empinando o nariz. — Kreacher vive para servir os membros


remanescentes da Nobre Casa dos Black. Minha pobre velha senhora, ela odiaria—

— Os Malfoy — percebeu Harry antes que Hermione pudesse corrigi-lo, ignorando Kreacher
enquanto ele continuava a lamuriar-se sobre sua antiga senhora. — Ele me disse uma vez que
preferiria muito mais servir ao Draco do que a mim. É por isso que não consegui chamá-lo.
Ele deve ter trocado a lealdade durante a guerra.

Hermione não sabia que elfos domésticos podiam fazer isso, especialmente após todo o
tormento que Dobby sofrera. Ela achava que Kreacher só podia servir ao Malfoy além de
Harry, não em vez de. — Joias não são exatamente vestimentas, mas talvez, quando você deu
a ele o medalhão, tenha sido suficiente? — sugeriu.

— Kreacher deve convidar a nojenta sangue-ruim para o Baile de Ano-Novo da família


Malfoy. Apenas a sangue-ruim — cuspiu, agora fulminando Harry com o olhar enquanto
produzia um convite preto e branco. — A sangue-ruim não deve trazer nenhum de seus
amigos deploráveis.

— Ah, sim, os meus amigos é que são os deploráveis — resmungou Hermione. Kreacher
deixou o convite cair no chão, mas permaneceu por um momento.

— Havia mais alguma coisa, Kreacher? — perguntou ela em tom sombrio, bem ciente de que
ainda não recolocara a pulseira.

— Kreacher foi instruído a perguntar à sangue-ruim o que ela quer de seu mestre para que ele
possa dar a ela e ela possa voltar a ser uma mancha na Antiga e Nobre Casa dos Black.
Hermione revirou os olhos, bem ciente de que Malfoy formulara aquilo de forma
significativamente diferente da interpretação escolhida por Kreacher. As sobrancelhas de
Harry se juntaram e ela lhe contou sobre a visita de Kreacher na noite anterior e o bilhete.

— Hermione, estou do seu lado aconteça o que acontecer, mas, para ser justo, ele usou
alguma dessas coisas contra você? Faz algumas semanas que ele consegue se comunicar com
o mundo e, em vez de tentar te derrubar, ele calou a imprensa em seu favor.

— Sinto que não tenho privacidade nenhuma! É quase pior do que a imprensa porque alguém
que mal conheço e a quem nem tenho chance de fazer todas as perguntas que eu tenho está
ouvindo cada coisinha que eu faço!

Ela se virou para Kreacher. — É isso que eu quero dele, um maldito pouco de privacidade e
uma explicação! — O elfo apenas a fitou por um instante antes de desaparecer com outro
crack alto.

Ela apanhou o convite do chão e percorreu rapidamente a escrita dourada, ignorando um


Harry agora silencioso. Passou-lhe o convite sem dizer palavra, voltando ao café para
adicionar creme e açúcar. O rosto de Harry ficou desconfiado quando ela se juntou a ele à
mesa, e ela percebeu que o treinamento de auror dele estava despertando.

— Pode ser que ela queira a publicidade positiva que virá de Hermione Granger ser vista em
seu evento social. Ou ela quer conhecer a futura nora.

Ela lhe lançou um olhar sombrio e nada impressionado. — Nós não estamos noivos, nem
sequer estamos saindo! Ele é um paciente!

Ele deu de ombros. — Não quer dizer que você não seja boa para a imagem da família dele.

Hermione conteve um grito de frustração ao pensar em mais um possível uso que Malfoy
poderia ter para ela e que ela ainda não havia considerado.

Desta vez, Hermione passou alguns dos seus dias de folga refletindo sobre o caso do Justin.
Não tinha certeza se protegê-lo com barreiras faria algum bem, como faria com Dennis.
Ainda estavam esperando as poções experimentais por enquanto, mas, nesse meio-tempo, ela
esperava descobrir um gatilho.

Os episódios dele eram semelhantes aos de Malfoy — pareciam acontecer em estado de


estresse aumentado, mas ela não conseguia identificar exatamente qual era o gatilho. Depois
do último episódio com Malfoy, ela ainda não tinha certeza de que não fosse algo relacionado
à pressão sanguínea ou à adrenalina, mas talvez houvesse um gatilho adicional em que ela
não pensara? Que diabos a Comissão levara em consideração quando executou o programa
Fulminator?

Hermione realmente esperava que conseguissem fazer Umbridge falar, e logo. Começava a se
preocupar que Justin não sobreviveria a seus episódios por muito mais tempo, cada período
de regeneração demorando cada vez mais. As consultas com o curandeiro da mente pareciam
ser especialmente estressantes e haviam sido pausadas por um tempo pela segurança de todas
as partes envolvidas. O curandeiro da mente estava achando bastante traumático que à menor
menção da guerra, de repente seu paciente estivesse derretendo as próprias entranhas.

O problema era que ela não tinha acesso a livros sobre Magia das Trevas. A Comissão vinha
se baseando numa combinação de práticas físicas e mágicas muito questionáveis, sobre as
quais nenhum dos recursos literários de que ela dispunha tinha informação. Onde no mundo
ela iria obter livros sobre o assunto sem atrair atenção da mídia era outro problema. Se o
mundo reparava nela comprando um livro de criação mágica de filhos, definitivamente
repararia na “Garota de Ouro” de repente comprando livros sobre barreiras de sangue e magia
das trevas.

Ela passou o resto da folga praticando feitiços de cura de hematomas no pescoço e


terminando as compras de Natal. No dia anterior ao retorno ao trabalho, Ginny concordou em
acompanhá-la para comprar vestido para a festa de Narcissa, arrastando-a para praticamente
todas as lojas de robe do Beco Diagonal numa tarde. Hermione não fazia ideia do que estava
procurando e Ginny foi brutalmente honesta.

— É black tie, mas não é uma festa preto e branco — informou Ginny, examinando o
convite. — Com a sua coloração, eu estou pensando em algo em tom suave e claro. Sem
mangas.

Ginny lhe lançou um olhar significativo com a última frase. Elas haviam discutido o mérito
de deixar a cicatriz Mudbloodà mostra durante o evento. Hermione não se importava muito se
as pessoas viam a palavra gravada em seu braço. O mundo bruxo inteiro sabia que estava lá
— nunca houve motivo para escondê-la —, mas ela achou que poderia ser indelicado exibir
uma ferida obtida justamente ali, na casa dos anfitriões.

— Se você esconder, eles vão achar que você está ou envergonhada do seu status ou tentando
ser gentil. Você não deve ser nenhuma das duas coisas — disse Ginny firmemente, enquanto
inspecionava um vestido azul-claro. — Você deve entrar valsando, vestida à perfeição, com
ela à mostra para que saibam que você não dá a mínima para o que os Malfoy pensam.

Hermione guardou para si o pensamento de que talvez não fosse a melhor maneira de
reencontrar os pais do seu potencial futuro namorado, mas Ginny captou na falta de resposta.
Ela largou o vestido e encarou os olhos de Hermione.

— Olha, eu posso ter alguma bagagem quando se trata da família Malfoy. Você não passa por
eventos com uma horcrux ilesa — Hermione fez uma careta e assentiu. Ginny baixou a voz.
— Mas o furão tomou algumas... medidas intensas por você. As contribuições dele podem ter
sido a diferença entre vencermos ou perdermos. Eu não preciso gostar dele, e ainda vou me
esforçar para te dar outras opções, mas está bem claro que ele gosta de você. Ele é um idiota,
mas se você quiser as atenções dele, eu posso lidar com isso.

Ginny franziu os lábios pensativa, desta vez para um vestido amarelo-escuro. — Embora eu
talvez não consiga lidar em silêncio.

Depois de experimentar o que pareceu uma centena de vestidos, finalmente escolheram um


que atendia a todos os critérios coletivos. Hermione pagou e conseguiu arrastar Ginny para a
Flourish & Blotts por um tempo antes de voltarem a Grimmauld. Ginny se encaminhou para
a seção de Quadribol enquanto Hermione ponderava sobre um tratado caro, porém muito
aprofundado, sobre a combinação de tratamentos médicos trouxas e mágicos.

Ela tentava economizar para seu próprio lugar, tendo percebido por comentários sutis de
Harry que ele pediria Ginny para morar com ele. Ginny já praticamente morava lá quando
estava em casa e, embora soubesse que Harry a deixaria morar com ele o tempo que quisesse,
ela não queria ser o “vela”. Isso sem contar que os dois ainda eram péssimos com feitiços de
silenciamento.

Com esse pensamento, ela devolveu o livro por ora e decidiu ver se a biblioteca médica de St.
Mungo’s tinha um exemplar que pudesse pegar emprestado. Quando voltaram a Grimmauld,
ela foi guardar as compras no quarto enquanto Ginny ia procurar Harry. Assim que abriu a
porta do quarto, Hermione encontrou uma pequena caixa, cuidadosamente embrulhada, no
meio da cama. Era do tamanho de uma caixinha de anel e seu coração disparou ao vê-la se
destacar contra seu edredom dourado.

Ela largou as sacolas e foi direto até lá, rasgando o papel. A caixa era do mesmo tom de
madeira escura do estojo da pulseira, que ainda repousava inocentemente na mesinha de
cabeceira. Ela abriu o estojo devagar. O bilhete estava por cima, exatamente como estivera
quando recebera a pulseira quase um ano antes.

Fique com ele até estar pronta para o outro, mas coloque a porra da coisa de volta.

O pulso dela acelerou ainda mais. Debaixo do bilhete havia um anel de prata com o brasão da
família Black, o mesmo que ela vislumbrara no dedo dele dias atrás. Ele repousava sobre um
leito de seda branca, tal qual o estojo da pulseira; um conjunto combinando.

Ele estava dando a ela a privacidade que ela exigira até que estivesse pronta para a
explicação. Ele não conseguiria mais ouvir nada agora — ela poderia usar a pulseira e saber
que ele não estava ouvindo. Ele estava disposto a abrir mão da capacidade de ouvi-la para
que ela tivesse as proteções que a pulseira podia oferecer e, ao mesmo tempo, dizendo que
responderia às perguntas dela sempre que ela estivesse pronta.

Ele estava ouvindo-a em um outro nível agora. Prestando atenção aos desejos dela mais do
que aos próprios. Era uma sensação incrível ter alguém colocando as vontades e necessidades
dela acima das dele, decidiu, e não era algo a que estivesse acostumada. Em geral, Harry e
Ron precisavam que ela consertasse algo e não importava como ela se sentisse, eles viam
como responsabilidade dela. Malfoy parecia ver a responsabilidade dele como cuidar dela, e
isso era inesperado e bizarro, considerando o histórico deles antes do último ano.

Exceto no quarto ano.

Ela estava muito confusa. Sabia que não poderia realmente perguntar nada a ele até que fosse
libertado — essa não era uma conversa que ela quisesse com testemunhas, mesmo que não
pudessem ouvir o que era dito. O que ela queria perguntar era incrivelmente íntimo e Malfoy
já era reservado em um dia bom. Ela também não queria ter essa conversa enquanto ele
estivesse trancado numa ala 24/7 e tecnicamente fosse seu paciente. Como Pansy dissera, eles
precisavam de negação plausível. Ela poderia perder o emprego e ele poderia ficar preso em
St. Mungo’s indefinidamente. Ela não podia arriscar isso.
Ela fechou a caixinha do anel e estendeu o braço para pegar a caixa combinando na mesinha
de cabeceira. A pulseira de prata reluzia como recém-polida, a obsidiana cintilando sob a luz
do quarto. Ela a pegou e a deslizou no pulso, observando enquanto ela se ajustava ao seu
punho.

— É melhor você ter uma maldita boa explicação quando sair — informou à pulseira,
sabendo que Malfoy não podia ouvi-la com certeza desta vez.
Capítulo 13

Dezembro de 1998

No segundo em que voltou ao trabalho, ela solicitou uma reunião com Pomfrey. A bruxa mais
velha, felizmente, tinha tempo naquela manhã e pôde encontrá-la quase imediatamente, para
alívio de Hermione. Ela relatou as duas concussões que notara que Malfoy de alguma forma
havia sofrido enquanto estava sob custódia de St. Mungo’s, esperando que a bruxa de modos
maternais se lançasse à possibilidade de que certos pacientes estivessem sendo maltratados.
Hermione ficou furiosa quando Pomfrey, em vez disso, lhe deu uma bronca.

A chefe do departamento disse a ela que, a menos que pudesse apresentar uma queixa
específica, com provas, contra um funcionário específico, não havia nada que pudesse fazer.
Era perfeitamente possível um paciente se causar uma concussão durante um surto violento e,
como Malfoy não vinha sendo o paciente mais cooperativo para começo de conversa, era
uma explicação razoável. Hermione estava enfurecida e estarrecida, pronta para retrucar, mas
Pomfrey a cortou.

— Também houve uma acusação de conduta imprópria contra você, srta. Granger.

Hermione estacou, a fúria agora se transformando em indignação. — Eu?

— Usar Muffliato numa conversa sobre informações sensíveis é uma coisa. Usá-lo em
absolutamente todos os tratamentos, no entanto, é outra questão inteiramente. Como o sr.
Malfoy confirmou que não houve conduta imprópria, não haverá ação disciplinar neste
momento, mas considere isto um aviso oficial. A menos que ele esteja compartilhando
informações sensíveis sobre detalhes do que aconteceu durante a guerra, não quero ouvir
falar de outra conversa silenciada entre vocês dois.

Os olhos dela se arregalaram e ela engoliu em seco e assentiu, prendendo o olhar em Pomfrey
e tentando não parecer culpada. Seu plano de conseguir passes de dia para ele agora parecia
apressado e óbvio, e Hermione ficou grata por ainda não ter apresentado a papelada para ele
atingir o próximo nível de permissão tão cedo. Teria de mostrar melhora significativa no
arquivo dele antes de empurrar qualquer coisa adiante e manter qualquer flerte no mínimo, ou
poderia arriscar perder o emprego.

Que porra de hora para ele não estar ouvindo, pensou irritada. Como diabos ela iria impedi-lo
de fazer todos os comentários insinuantes agora?

Quando voltou à estação dos curandeiros e conferiu sua caixa de correio, havia um bilhete de
Harry sobre seu pedido das notas do interrogatório de Umbridge. Aparentemente, Dolores
não estava falando. Ela se recusara a responder a qualquer uma das perguntas e eles estavam
buscando aprovação para refazer o interrogatório com Veritaserum, mas isso poderia levar
algum tempo, já que seu julgamento agora estava sendo marcado para mais tarde no ano
seguinte. Fora adiado para dar mais tempo a ambos os lados para montar casos melhores.
Como Dolores fora uma mente por trás dos bastidores, o foco atual do Ministério estava
naqueles que haviam sido mais publicamente associados a Voldemort — e que tinham cofres
a perder.

Faltando apenas alguns dias para o Natal, Hermione sentia uma falta desesperada de seus
pais. Sentia falta das tradições e da casa de infância, do pão de gengibre e das compras de
última hora. Tentara se distrair debatendo o que dar a Malfoy, apenas para perceber que, se
realmente lhe desse algo e alguém no hospital visse, lançaria uma luz ainda mais suspeita
sobre as interações deles, já altamente escrutinadas. Quando ela e o atendente entraram no
quarto dele pouco depois da conversa com Pomfrey, o atendente observou de muito perto
enquanto ela lançava o diagnóstico. Era claro que tinham recebido instruções a respeito dela e
de feitiços de silêncio.

Os olhos de Malfoy a varreram de cima a baixo no segundo em que ela entrou, aquelas íris
prateadas dardejando por ela como se fosse uma carta que ele aguardava desesperadamente.
Ele estava retíssimo na cadeira da escrivaninha, as mãos contidas e cerradas em punhos,
vestindo o uniforme de paciente de sempre. Ele não disse nada quanto à ausência do feitiço
de silêncio, apenas a examinou de alto a baixo. Pomfrey havia indicado que ele fora
questionado, e Hermione percebeu que ele saberia que algo estava acontecendo.

Ela sentiu uma leve onda de alívio e euforia pelo nível de inteligência dele. Se fosse Harry ou
Ron, ela teria sido bombardeada com perguntas que dariam ao atendente algo a relatar.
Malfoy, o sonserino nele de fato sabendo ser sutil, agiu como se nada estivesse fora do
comum.

Hermione arregaçou as mangas, exibindo a pulseira enquanto lia o diagnóstico. Ele a fitou
por um momento antes de inspirar profundamente, os punhos lentamente se abrindo. O corpo
dele relaxou ligeiramente, os olhos se fechando por um breve instante.

Ela inspirou, mas antes que conseguisse dizer uma palavra, houve uma batida seca à porta
dele. As três cabeças se voltaram para lá, a interrupção durante uma sessão sendo altamente
incomum.

O atendente abriu a porta, dispensando o visitante com firmeza, mas Hermione avistou Blaise
Zabini no umbral.

— Tudo bem — ofereceu —, já estamos praticamente terminando aqui.

O atendente permitiu a passagem dele e permaneceu na soleira, à espera dela.

— Draco — cumprimentou Zabini ao entrar, ignorando-a completamente. — Quando é que


você sai deste pardieiro?

— Blaise — cumprimentou ele, com um aceno de cabeça. — Sem ideia. Pergunte à Granger.

Zabini então voltou-se para ela e desenhou uma reverência de deboche. — Curandeira
Granger — ele sorriu de lado, aqueles olhos escuros cintilando de diversão. Se com ela ou
com a situação de Malfoy, ela não sabia.
— Quando o Malfoy será liberado do seu manicômio? Há várias, como é mesmo a expressão
trouxa, damas da noite ansiosas por seu retorno.

— Que porra é essa, Blaise?

O silvo veio de Malfoy, a expressão ao mesmo tempo furiosa e incrédula. Hermione não
conseguiu esconder o nojo do rosto, embora, pelo que pareceu da reação de Malfoy, o
comentário tivesse sido feito para provocar, não revelar. Se os boatos em Hogwarts fossem
confiáveis, não faltavam parceiras dispostas para o herdeiro Malfoy, sem necessidade de
comprar companhia.

— Se as suas joias de família estão ardendo, Zabini, sugiro que dê um jeito nisso. Primeiro
andar — ofereceu com doçura fingida. Malfoy ainda fulminava o suposto amigo e os olhos
de Zabini se estreitaram ao tom dela.

— Falando em joias de família… — entoou Zabini, os olhos descendo para o pulso dela. Ela
corou escuro e fez uma retirada rápida antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa,
levando o atendente consigo. Não queria ouvir nada de Zabini sobre a pulseira, sem confiar
que qualquer coisa que ele dissesse seria verdadeira.

Chegou a véspera de Natal e ela praticamente havia decidido não dar presente nenhum a ele.
Achou que causaria perguntas demais se fosse vista lhe dando qualquer coisa e ainda não
tinha a menor ideia do que comprar para ele. Apesar de ter estudado com ele por anos e das
interações mais recentes, ela não conhecia exatamente Malfoy tão bem assim. Sabia que ele
gostava de doces e de quadribol, mas doces não pareciam pessoais o bastante e ele não estava
exatamente autorizado a ter uma vassoura no hospital.

— Ouvi dizer que Charlie Weasley tem um dragão no seu plantel — comentou Malfoy,
casualmente, durante a última consulta antes do início das férias dela. Ele a observava,
ignorando o atendente como de costume. Hermione ficaria de folga até o ano-novo, os
atendentes e alguns curandeiros que não se importavam em trabalhar no Natal ficando para
vigiar todos. — Ele fez dele meio que um projeto e pediu minha ajuda. Se você se lembra da
escola, eu gostava bastante de Trato das Criaturas Mágicas.

Ela quase revirou os olhos. Ambos sabiam que ele detestava a matéria, mas o atendente não
sabia disso, e ela tinha a sensação de saber aonde aquilo ia dar.

— Aparentemente, ele conhece o dragão há algum tempo — prosseguiu. Ela ainda fitava o
diagnóstico e fingia anotar algo no arquivo, tentando evitar parecer interessada demais no que
ele tinha a dizer. — Há uma história ruim ali. Ele não tem certeza de como ganhar a
confiança do dragão depois de anos de… mal-entendidos.

Ela ergueu uma sobrancelha com a escolha de palavras enquanto encarava as páginas à sua
frente. Aparentemente, era a vez de ela ser o dragão na conversa. Não eram mal-entendidos,
pensou sombriamente — ele havia sido propositalmente maldoso com ela. Sabia que não
podia dizer isso abertamente na frente do atendente, porém, e pensou por um momento antes
de responder.
— Pelo que ouvi, Charlie vem fazendo bastante progresso nessa frente já. Dragões são
criaturas bastante inteligentes, sabe — disse a ele, limpando o diagnóstico. Fixou o arquivo,
sem querer encontrar os olhos dele. — Provavelmente ele deveria apenas dizer ao dragão o
que quer dele.

— Dragões são animais notoriamente traiçoeiros — veio a resposta suave. — Difíceis de


prever e difíceis de manter satisfeitos. É preciso ganhar a confiança deles, seduzir-lhes o
próprio cérebro, antes que deixem você montá-los.

Ela ignorou o leve arrepio que lhe percorreu o corpo com o modo como ele disse “seduzir”.
— E esse é o objetivo final do Charlie? — perguntou levemente, fechando o arquivo
enquanto o coração batia forte, o olhar disparando para o dele. — Montar o dragão?

Aqueles olhos de mercúrio cintilavam. — Entre outros.

Os olhos de Hermione se estreitaram. Ela não seria uma marquinha no cabeceiro da cama
dele. Não acreditava realmente que fosse apenas uma conquista — imaginava que ele tinha
ido longe demais por apenas sexo —, mas uma parte pequena e insegura dela temia que essa
fosse a intenção dele por causa de toda a insinuação. Malfoy pareceu farejar o perigo na
reação dela e se recostou muito sutilmente.

Ela lhe desejou um feliz Natal com a voz tensa antes de sair do quarto num rodopio, os
pensamentos trovejantes.

Os pacientes receberiam um banquete de Natal no dia, e aqueles que tinham possibilidade de


receber presentes os ganhariam pela manhã. Um pensamento lhe ocorreu quando chegou em
casa naquela noite, vazia, já que Harry e Ginny haviam ido para a Toca para passar a noite.
Hermione planejara ir pela lareira logo cedo, querendo acordar sozinha caso desatasse a
chorar ao pensar nos pais.

Um pomo de ouro.

Ele talvez não pudesse ter uma vassoura, mas poderia ter um pomo para brincar. Ela ainda
estava um pouco irritada com a última conversa deles, mas também sentia que devia dar a ele
um presente em sinal da gratidão que não conseguira expressar até então. Hermione já estava
dentro da Qualidade em Quadribol e pedindo para embrulhar quando percebeu algumas
coisas.

Ela não fazia ideia de como entregar a maldita coisa sem despertar suspeitas.

Ele provavelmente tinha toneladas dessas coisas em casa, que poderia ter pedido, e talvez já
tivesse.

Ela fechou os olhos e suspirou, frustrada, justamente quando o bruxo atrás do balcão
registrou quem ela era. Ele imediatamente presumiu que ela estava ali para comprar algo para
Harry e começou a mostrar os vários pomos de ouro que tinham. Ela ouviu sem muito
entusiasmo, agora convencida de que aquela fora uma ideia estúpida de presente.
— Agora este é algo especial para o seu alguém especial — comentou ele, claramente em seu
elemento com o assunto. Hermione reconheceu a mesma expressão que via em Harry, Ron e
Ginny quando eles divagavam poeticamente sobre o esporte. Ela se esforçou para prestar
atenção, em vez de assumir sua expressão vidrada habitual.

— Assim como o pomo que Harry Potter teve durante a guerra, dá para colocar uma coisinha
dentro, veja, bem aqui — ele demonstrou como se abria. — Eles têm memória tátil, os
pomos, mas como este foi pensado para ser um porta-presente além de um pomo normal, e o
seu destinatário ainda não teria tocado neste aqui, é uma magiazinha bem engenhosa...

Ele continuou descrevendo como se podia enfeitiçar o pomo para abrir após certo período de
tempo, ou numa certa data como aniversário ou Natal. Hermione pagou o que considerou
ouro demais por uma coisa tão pequena e pediu para levar o embrulho de presente para casa.
O bruxo, presumindo que fosse para o Harry, forneceu embalagens vermelha e dourada. Ela
ficou muito grata por a Semanal das Bruxas ter sido calada — o olhar do homem dava a
entender fortemente que achava que poderia ser um presente romântico, apesar do
relacionamento público de Harry e Ginny.

Ela agradeceu e levou para casa, tirando a varinha e o pomo no segundo em que entrou pela
porta. Hermione planejava modificar aquele feitiço de abertura.

Só quando conseguiu modificar a maldita coisa e enfiar seu presente lá dentro é que percebeu
que ainda não tinha como entregá-lo a ele, mas tinha um palpite.

Talvez…

— Kreacher?

Crack.

— A imunda sangue-ruim tem um presente de Natal para o mestre de Kreacher?

Claro que o idiota presumiria que ela lhe daria algo e deixaria Kreacher de prontidão para ela.
Ela não quis examinar as implicações de que na verdade conseguira chamá-lo, ainda que
temporariamente, e entregou ao elfo seu pequeno presente embrulhado.

— Entregue a ele amanhã de manhã, por favor. Nem um segundo antes das 7h! —
Acrescentou a última parte quando viu os olhos do elfo se estreitarem. Do jeito que ele era,
apareceria à meia-noite só para implicar com Malfoy. Depois de um minuto, o elfo assentiu,
altivo, e desapareceu.

Mais tarde, enquanto estava deitada na cama e relembrava anos anteriores e tradições com os
pais, ela percebeu que havia saído para comprar presentes na véspera de Natal. Exatamente
como ela e o pai costumavam fazer para comprar um presente para a mãe. Só que desta vez,
fora para Malfoy.

Na manhã de Natal, ela desabou em choro, sentindo falta do cheiro de pão de gengibre e dos
sons da mãe na cozinha, o pai tentando roubar pedaços do que quer que estivesse sendo feito
antes de ficar pronto. Ela estava desolada por nunca mais abrirem presentes juntos e tirou um
tempo para viver o luto antes de ter que se aprontar. Os Weasley todos haviam oferecido para
ela dormir lá e se distrair, mas ela quis ficar sozinha naquele ano. No ano anterior, ela nem
sequer tinha percebido que era Natal até pouco antes, ocupada demais fugindo e focada em
permanecer viva. Ela quis sentir plenamente a falta da experiência de Natal que nunca mais
teria, antes de poder seguir em frente e criar novas tradições.

No fim da manhã, ela viajou pela lareira, levando todos os seus presentes para poder
desembrulhá-los com todo mundo. Era um caos completo, papel de presente e laços por toda
parte, pessoas gritando de alegria e jogando coisas de um lado para o outro, todos vestindo
uma variedade de suéteres Weasley em um arco-íris de cores. Vários Weasley, e um Harry,
gritaram saudações de Natal para ela, mostrando seus presentes e oferecendo café da manhã e
biscoitos. Hermione abriu caminho lentamente por aquele mar de gente para se sentar ao lado
de Luna em um dos sofás magicamente ampliados.

Luna, que estava mais uma vez aninhada sob o braço de Ron, vestira um suéter Weasley roxo
suave, cor semelhante à da sua casa, com um L laranja berrante na frente. Hermione
reconheceu o tom do time de Ron, os Chudley Cannons, e tentou guardar para si a opinião de
que aquelas cores eram horríveis juntas. Luna percebeu sua expressão.

— Ah, então você comeu um dos muffins? — perguntou Luna, objetivamente. Hermione
compôs as feições.

— Hm, não — respondeu, cautelosa, feliz em silêncio por Molly não ter ouvido a ofensa à
sua culinária —, só estou… não me sentindo muito bem.

Não era exatamente uma mentira. Luna apenas assentiu, solenemente.

Ela olhou para Harry e o viu vestindo um suéter verde-garrafa com um H preto na frente,
combinando tanto com os olhos quanto com o cabelo dele. Ela o examinou, passando por
memórias das várias cores pouco lisonjeiras de suéteres que recebera. A única pessoa cuja
coloração Molly parecia levar em conta ao fazer os suéteres era a de Harry. Ele sorriu para
ela do outro lado da sala como se pudesse ler seus pensamentos e gesticulou para a pilha de
presentes dela.

Hermione ficou surpresa e encantada ao descobrir que seu próprio suéter combinava com o
de Harry naquele ano e o vestiu rapidamente. Ela sempre ficara bem de verde, mas quase não
o usava na escola por causa das rivalidades das casas. Houve um breve lampejo de
pensamento de que Malfoy provavelmente adoraria vê-la assim, mesmo que fosse sinal de
que ela fazia parte do clã Weasley. A imagem dele recebendo seu próprio suéter Weasley um
dia foi prontamente afastada. Era cedo demais para pensar em tais coisas e implicava que
todos eventualmente se dariam bem. Ron e Harry tinham sido maduros sobre tudo até então,
mas ainda não tinham realmente precisado interagir com Malfoy.

Houve vários outros presentes maravilhosos — Ron lhe dera um livro sobre runas de que ela
havia se esquecido completamente que queria, por estar tão absorvida em sua pesquisa
médica ultimamente. Ginny lhe dera um passe VIP de temporada de Quadribol para a tribuna
de observação normalmente reservada para familiares e ergueu as sobrancelhas para ela
quando mencionou a vista. Hermione sabia que Ginny ainda tinha esperanças de que ela
escolhesse alguém que não fosse Malfoy, daí o incidente ridículo de Halloween com
McLaggen e agora ingressos para ela cobiçar um monte de atletas profissionais, mas Ginny
fora tão solidária quanto Hermione poderia esperar quando falaram sobre Malfoy, então ela
escolheu não se ofender.

Harry lhe dera o que parecia ser um livro sobre doma de dragões que lhe rendeu um olhar
cortante. Quando o abriu, porém, todas as páginas estavam em branco. Ele depois disse que
era para ela escrever suas aventuras com o dragão, já que tinha certeza de que haveria muitas
por vir. Ela quase atirou o livro nele.

Ron e Luna lhe deram uma pequena muda de ameixeira-dirigível em vaso. Luna explicou que
elas tinham a habilidade de ampliar a percepção e a capacidade de aceitar o extraordinário, e
fez um breve apanhado de como cuidar da planta. Hermione se lembrou de Xenophilius ter
dito a mesma coisa quando o visitaram durante a guerra e agradeceu educadamente a ela e a
Ron. Ron sorriu, pedindo desculpas com o olhar.

O restante dos Weasley incluiu presentes de penas de açúcar e penas de verdade, sabendo que
ela sempre perdia ou quebrava as suas, de tanto que trabalhava. Havia um presente restante
em sua pilha que ela deixara por último — um volumoso, embrulhado em papel preto e fita
dourada, que a fez inspirar com força. Ela rasgou o papel para encontrar aquele tratado sobre
tratamentos médicos trouxas e mágicos que vinha cobiçando na Flourish & Blotts algumas
semanas antes. Seu queixo caiu.

Era uma edição especial, com uma nota escrita no verso da capa endereçada a ela, o autor se
oferecendo para corresponder com ela caso tivesse alguma pergunta. Ela estava perplexa —
não mencionara o livro a ninguém, nem sequer dissera o título em voz alta quando estivera na
loja. Como ele…?

Havia um bilhete incluído, encaixado na capa interna, mas não era dele. O livreiro da
Flourish & Blotts incluíra um aviso de uma conta da loja aberta em seu nome para que ela
usasse em compras futuras. Ela fora vinculada a uma conta em Gringotes, mas o nome do
titular não fora incluído.

O loiro idiota não apenas lhe dera um livro que ela achava que ninguém sabia que ela
desejava, como lhe dera carta branca para comprar o que quisesse de sua livraria favorita, no
futuro, às custas dele. O comentário dele sobre seduzir o cérebro dela lhe veio à mente. Ele
podia querer dormir com ela, mas essa era mais uma ação que lhe dizia que ia muito além
disso. Se ele queria sua atenção, oficialmente a tinha.

Hermione de repente se arrependeu de quanto tempo ele teria que esperar para aquele pomo
se abrir.

Os dias após o Natal foram passados numa névoa de refeições fartas, preguiça em sofás
enquanto folheava seu novo livro e conversas noturnas ao pé do fogo. Ela fez algumas
anotações, mas tinha passado tanto do seu tempo de folga pré-Natal trabalhando nas
pesquisas de seus pacientes que foi facilmente persuadida a atividades mais divertidas com os
meninos e Ginny — e foi assim que se viu arbitrando uma partida casual de Quadribol em
um campo nevado no dia anterior à véspera de Ano-Novo. Hermione lançou mais um feitiço
de aquecimento enquanto tentava apitar o jogo do chão, ainda sem estar 100% certa das
regras, mas parecia não importar, já que eles passavam metade do tempo discutindo entre si
em vez de aceitar suas marcações.

Harry e Ginny entraram em um desacordo bem acalorado a certa altura, que durou tempo
suficiente para Ron e George pousarem perto dela para uma pausa. Eles se apoiavam nas
vassouras, conversando distraidamente sobre estratégia e fingindo ignorar o casal cujo
volume da discussão aumentava rapidamente, enquanto a cabeça de Hermione ia e vinha
entre os meninos e o casal.

— — o tempo todo fora —

— Você não pode fazer um Parkin’s Pincer com só dois artilheiros, Ron —

— — TRABALHANDO —

— — o contragolpe do balaço ainda —

— — ver minha namorada —

— — mas o Apanhador —

— — VEM MORAR COMIGO DE UMA VEZ!

O último grito pegou os três de surpresa, e parecia ter feito o mesmo com Ginny. Harry
arfava, a expressão furiosa enquanto se agarrava à vassoura. A boca de Ginny estava
escancarada enquanto ela o encarava em silêncio.

Hermione foi a primeira a se recompor, sabendo que Harry acabaria pedindo aquilo. Não
esperava que fosse de forma tão pública e irritada, e apressou-se em redirecionar Ron e
George para longe.

— Acho que é hora de um chocolate quente, sim? — perguntou com um falso bom humor e
puxou os garotos, deixando o casal para se entender.

Os três já estavam acomodados na cozinha havia algum tempo, o assunto derivando para os
planos de Ano-Novo, que Hermione realmente não queria discutir. Ron não sabia para onde
ela iria, e ela queria manter assim por enquanto. Não tinha desejo de trazer à tona as
lembranças dele da Mansão Malfoy e arruinar sua pacífica temporada de festas. Por sorte,
Harry e Ginny voltaram e, graças a Merlin, pouparam-na daquela explicação.

Harry sorria, envergonhado, ao explicar que iriam morar juntos, de mãos dadas com uma
Ginny igualmente sem jeito. Molly estava fora de si, chorando sobre sua garotinha estar
crescendo, para profunda vergonha de Ginny. George, que ainda não lembrava bem a origem
de os dois terem ficado juntos, já que isso acontecera sobretudo depois da guerra, deu-lhes
parabéns surpresos e perguntou em voz alta a Ron se alguém já tinha tido “a conversa” com
Ginny.

Ron ficou de um tom horrível de roxo e levou George para outra sala.
Decidiram mudá-la depois do Ano-Novo, antes de Ginny ter que voltar para Holyhead no
início de janeiro. Hermione conseguiu evitar com sucesso o assunto do que faria na véspera
do Ano-Novo pelo resto da visita, voltando sozinha pela lareira para Grimmauld, aliviada.
Ela deixaria Harry explicar a Ron onde ela estava quando ele aparecesse na celebração dos
Weasley sem ela, e ignorou a parte de si que sussurrava que estava sendo covarde.

O espelho de corpo inteiro que ela conjurara refletia sua imagem por completo, e Hermione
conferiu mais uma vez para garantir que não havia esquecido nada. O longo vestido de seda
azul-claro lhe assentava perfeitamente da cintura para cima, as alças finas cruzando a parte
superior das costas. A seda era lisa e sem adornos, mas brilhava de leve, uma espécie de
magia refletiva para fazê-la reluzir. Abaixo da cintura, abria-se um pouco e flutuava com seus
movimentos, cintilando sob a luz. Ela se sentiu como a Cinderela, o vestido no tom certo,
ainda que significativamente menor.

Hermione conferiu de novo os feitiços de maquiagem com que Ginny a ajudara antes de
deslizar a varinha para dentro da pequena clutch que escolhera para a noite. O convite
indicava que a lareira havia sido aberta cinco minutos antes, mas ela não quis parecer ansiosa
demais, decidindo chegar dez minutos depois da hora. Não queria ser rude, mas também não
queria ser a primeira a chegar e ser forçada a uma conversa longa e constrangedora com
Narcissa, ou, Deus a livre, Lucius.

Ela estava nervosa em voltar à Mansão depois do que acontecera com Bellatrix e cogitara
seriamente uma Poção Calmante. No fim, decidiu contra, imaginando que tomaria uma taça
de vinho em vez disso. Estava bastante certa de que o que quer que servissem seria superior a
qualquer vinho que já tivesse provado.

Sua única joia para a noite era um par de simples brincos de diamante que seus pais lhe
haviam dado alguns anos antes e sua reluzente pulseira preta e prata. O presente de Malfoy
era definitivamente a peça mais chique que possuía, por não ter tido muita utilidade para joias
antes. Tirando o Baile de Inverno e o casamento de Fleur e Bill, suas oportunidades de usar
brilho eram raras e espaçadas.

Ela viajou pela lareira para a mansão exatamente dez minutos depois, o convite apertado na
mão para permitir sua passagem. Hermione estava um pouco nervosa com a perspectiva de
ver a mansão novamente, receosa de que pudesse ter flashbacks ao ver um lugar onde fora
torturada. No segundo em que pisou fora da grelha, porém, apareceu um elfo doméstico e
tomou o convite de sua mão, conduzindo-a por um vasto saguão de entrada que ela não
reconheceu. O elfo vestia-se primamente com uma toalha limpa e nada disse a ela ao se
afastar.

Seguindo a pequena criatura por um corredor ornamentado e de teto alto, ela encontrou flocos
de neve pairando preguiçosamente do teto, desaparecendo antes de pousarem em qualquer
coisa ou pessoa. O som de vozes conversando e de taças tilintando vinha de uma porta aberta
perto do fim do corredor, música suave de cordas flutuando até ela. À medida que se
aproximavam das portas de madeira entalhada que tinham sido escancaradas, ela observou as
paredes claras com papel de parede intrincado e cintilante, as obras de arte contemporâneas
em exibição e os vários toques dourados por toda parte. Não se parecia em nada com sete
meses atrás — nada acionou a memória daquela noite com Bellatrix. Parecia ser a mesma
mansão apenas no nome, não na aparência.

Não há muito mais o que fazer quando se está em prisão domiciliar além de reformar, pensou,
pouco caridosa.

Hermione apertou a clutch em uma mão enquanto olhava ao redor. Da última vez, haviam
entrado pelos portões da frente e até o clima estava sombrio e escuro. O interior fora soturno,
os corredores em marrons, cinzas e pretos profundos. Definitivamente fora tudo refeito a
ponto de ela não fazer ideia se estava em qualquer proximidade do cômodo onde fora
marcada. Ainda havia um leve sussurro de algo inquietante, só o bastante para mantê-la alerta
e incapaz de relaxar totalmente. Magia das trevas não podia ser encoberta com tinta.

O elfo gesticulou para que ela entrasse além daquelas portas de madeira adornadas — um
salão de baile ricamente decorado a aguardava — e então desapareceu com um estalo. Ela se
aproximou para dar de cara com um balcão que dava vista para todo o salão, escadarias
descendo para o piso principal de ambos os lados. Havia árvores de Natal pelos cantos do
salão, cobertas de enfeites de vários tons de verde, preto e prata. Toques de ouro estavam por
toda parte, semelhante ao corredor de onde ela viera, mas as cores dos Malfoy reinavam
supremas. Bruxos e bruxas em uma variedade de robes e vestidos coloridos perambulavam
pelo salão, segurando taças de champanhe enquanto conversavam e socializavam. Um
conjunto de músicos bem-vestidos estava disposto de um lado, tocando uma versão
instrumental do que soava suspeitosamente como I’m Dreaming of a White Christmas.
Alguns casais dançavam preguiçosamente no centro do salão, o teto enfeitiçado com a
mesma neve que caía de leve e desaparecia.

Hermione desviou para a escadaria da esquerda e desceu, tendo avistado seus anfitriões ao pé
da escada cumprimentando as pessoas conforme chegavam. Descendo com cuidado para não
tropeçar e cair, teve um momento de pânico ao refletir sobre como cumprimentá-los. Qual
exatamente era a etiqueta apropriada para alguém cuja única outra visita à casa terminou com
você sendo torturada pela irmã deles, que também assassinou o elfo doméstico que a
resgatou, e essa foi a última vez que sequer se viram pessoalmente? Ela simplesmente fingia
que aquilo nunca acontecera e que essa era sua primeira visita à mansão? Qual das duas seria
mais constrangedora?

Ela ainda não tinha chegado a uma resposta quando chegou sua vez de cumprimentá-los.
Olhos frios e cinzentos fixaram-se nela, se estreitando e lembrando-a brevemente de outro
Malfoy. O restante da expressão estava mascarado exatamente como a do filho quando ele
escondia algo. Não fosse pela diferença de idade e pelo fato de que seu filho nunca a olhava
daquele jeito, teria tido dificuldade em distingui-los. Lucius estava ereto, vestido com robes
de gala pretos com padrões prateados bordados nas bordas.

O sorriso de Narcissa era educado, porém tenso; seus olhos azuis diretos e mais enfatizados
pelos robes de gala azul-gelo que usava, a renda desenhada para parecer uma trilha sem fim
de flocos de neve por toda parte. Seus longos cabelos loiros estavam presos, e Hermione
notou que as tatuagens de Azkaban de Lucius e Narcissa estavam ausentes, provavelmente
disfarçadas para a noite.
— Srta. Granger, seja bem-vinda — ofereceu Narcissa, estendendo-lhe a mão. Hermione
apertou brevemente a mão da mãe de Malfoy, um suor frio brotando na nuca quando os olhos
de Narcissa desceram por um instante até a pulseira, sem que sua expressão mudasse.

— Sr. e Sra. Malfoy — cumprimentou educadamente, aliviada por sua voz sair normal em
vez de estridente. Seu interior fervilhava enquanto Narcissa trazia aquele olhar direto de volta
ao seu. — Obrigada pelo convite. A festa está linda.

— É gentileza sua — devolveu Narcissa. Havia um murmúrio ao redor enquanto várias


pessoas registravam a presença de um dos membros do Trio de Ouro. — Por favor, tome uma
taça de champanhe e divirta-se. Eu adoraria falar com você mais tarde, se permitir.

Hermione assentiu educadamente, os olhos saltando para Lucius. Ele a observava, silencioso
e avaliador. Hermione se afastou, permitindo que o casal atrás dela os cumprimentasse, antes
que ele pudesse dizer qualquer coisa. Perguntou-se sobre o que, em nome de Merlin, Narcissa
queria falar com ela.

Provavelmente a obsessão do filho por você, sugeriu sua mente.

Uma bandeja encantada repleta de taças de champanhe voou até ela quase de imediato,
cutucando-a de leve mas de modo insistente até que pegou uma. Ela disparou para longe no
segundo em que ela agarrou uma taça, quase derramando o conteúdo, e começou a
importunar um bruxo mais velho. Ele a enxotou, rabugento, bebendo algo de um copo baixo,
e a bandeja já voava rumo à próxima vítima. Hermione sorveu sua taça, tendo pouco
conhecimento sobre champanhe, mas ainda assim apreciando, enquanto olhava ao redor do
salão.

Havia outras bandejas encantadas carregando canapés flutuando pelo espaço. O feitiço era
bom — as bandejas conseguiam evitar movimentos bruscos dos convidados para não
derramar o conteúdo, embora ela notasse que eram um tanto agressivas quando passavam por
várias pessoas sem que ninguém aceitasse suas ofertas.

Hermione reconheceu vários funcionários do Ministério por suas fotos no Profeta,


perguntando-se vagamente se eram amigos ou apenas laços políticos que a família Malfoy
ainda mantinha no bolso. Começou a fazer um circuito pelo salão, notando um fotógrafo
circulando tirando fotos para as páginas sociais. Os olhos das pessoas a registravam, e sua
cicatriz exibida claramente, tentando e falhando em não encarar. Ela mal havia percorrido um
quarto do salão quando foi abordada.

Horácio Slughorn parecia o mesmo de antes da guerra — ainda o bruxo jovial e vaidoso que
fora nas aulas de poções. Ele entrou diretamente em seu caminho e começou a relembrar os
tempos do Clube do Slug com quase nenhum cumprimento. Tagarelou sobre seus talentos por
vários minutos antes de lhe ocorrer perguntar o que ela andava fazendo agora que a guerra
havia terminado. Hermione quase se surpreendeu por ele não ter acompanhado sua carreira,
considerando o quanto gostava de citar nomes. Ela abriu a boca para responder, por ainda não
ter conseguido dizer uma palavra, mas uma voz aveludada e profunda falou antes que
pudesse.
— A srta. Granger é a curandeira de Draco, Horácio — interveio Lucius Malfoy,
posicionando-se ao lado dela. — Certamente sabia que ela trabalha em St. Mungo’s e está
entre as mais jovens curandeiras certificadas. Achei que você acompanhava as conquistas de
todos os seus pupilos — você tanto adora nos lembrar de todas as suas contribuições à
bruxidade.

Slughorn corou e respondeu de modo afirmativo porém atrapalhado antes de se desculpar


para ir atrás de outra bebida. Uma bandeja com o que pareciam ser copos de firewhisky o
“ouviu” e passou a seguir sua retirada apressada pelo salão, bamboleando perigosamente com
a velocidade.

Lucius o observou ir por um momento, os olhos semicerrados, antes de baixar o olhar para
Hermione. Ela sustentou o olhar de modo firme, uma sobrancelha erguida numa imitação do
filho dele, e tomou um gole do champanhe. Ele acabaria trazendo à tona o motivo de tê-la
procurado.

Não precisou esperar muito. — Minha esposa gostaria de falar com você, para agradecer pelo
seu… trabalho com Draco — disse-lhe sedoso. — Embora eu não faça ideia do que ela tenha
a agradecer, visto que ele segue paciente, sem data de liberação.

A sobrancelha dela permaneceu erguida ao tom. — Estou trabalhando com ele há um mês —
disse, plana. — A condição dele não tem precedentes. Se queria que fosse solto antes, deveria
tê-lo convencido a cooperar com os curandeiros mais seniores.

Ele ofereceu o braço, rígido, e ela o pegou relutante, tentando manter a aparência de boa
convivência enquanto ele a conduzia por entre vários casais. — Ah, mas os curandeiros mais
seniores não tinham o mesmo apelo que você aparentemente tem, srta. Granger — disse em
voz baixa, enquanto caminhavam. Ela decidiu que não era uma conversa que quisesse ter
com Lucius e preferiu não responder.

Narcissa a cumprimentou quando se aproximaram, agradecendo por seu trabalho no caso de


Draco. — Somos gratos por ele ter encontrado o seu caminho aos seus cuidados — disse a
loura esguia. Hermione piscou com força ante isso. Ele não “encontrara seu caminho” aos
cuidados dela, pensou sombriamente; ele havia propositalmente irritado todos os curandeiros
até que alguém — e ela suspeitava fortemente do casal à sua frente — mexesse os cordões
para atribuí-la a ele. Começava a se sentir um peão no tabuleiro de xadrez que parecia ser a
vida dos Malfoy.

— Se houver qualquer coisa de que precise para auxiliar no tratamento dele, diga-nos como
podemos ser úteis.

— Na verdade — começou Hermione, uma ideia súbita lhe ocorrendo. — Entendo que a
Mansão Malfoy esteja na posse de uma das maiores bibliotecas da Grã-Bretanha. Se for o
caso, eu ficaria muito grata se pudesse consultá-la. Minhas fontes literárias atuais não
parecem incluir muito sobre os tópicos de que preciso para lidar com as… aflições
particulares dos meus pacientes.

Ela olhou diretamente para Lucius ao dizer isso, certa de que ele tinha ciência do que a
Comissão vinha fazendo, já que Draco estava tanto ciente quanto era vítima. Houve um leve
apertar de olhos, e só. A biblioteca Malfoy provavelmente tinha uma grande seção de magia
das trevas e muito provavelmente continha informações sobre obscuriais e barreiras de
sangue. Poderia ter exatamente o que precisava, e a imprensa não ficaria nem um pouco mais
sábia sobre suas leituras. A expressão de Narcissa passou de polidez para interesse genuíno.

— Claro — anuiu. — Pode me enviar uma coruja com sua disponibilidade e podemos fazer
os arranjos. Draco me disse, durante nossa última visita, que você gosta de livros. Ele fala
muito bem de você.

Ela não perdeu a nuance de que os comentários só haviam sido positivos recentemente —
provavelmente ouviram anos de negativos enquanto estavam na escola. Surpreendeu-se que
estivessem visitando, já que não vira nem Narcissa nem Lucius, mas fora alvo de Blaise e
Pansy, e se perguntou se aquilo não fora de propósito. Hermione teve um frio no estômago ao
se perguntar se Malfoy sequer sabia que ela estava ali naquela noite. Sem o anel para ouvi-la
e com a impossibilidade de discutir, era possível que os pais também não tivessem
mencionado a ele.

Narcissa entregou a taça vazia a Lucius e, docemente, pediu outra, ignorando o olhar que ele
lhe lançou. Hermione observou a troca com atenção, desconfiada. As bandejas estavam por
toda parte e surgiam sempre que alguém indicava querer uma nova bebida — Narcissa
certamente sabia disso, como anfitriã, e poderia simplesmente convocar uma se quisesse
mesmo. O olhar do marido transmitiu exatamente isso, mas ele bufou e se afastou,
carrancudo. Narcissa virou-se de imediato para Hermione.

— Sua joia esta noite é linda — comentou Narcissa no segundo em que Lucius saiu do
alcance da voz, gesticulando para a pulseira. O coração de Hermione vacilou. Se Andromeda
sabia dela, então Narcissa certamente também sabia, mas talvez Lucius não. — Lembra-me
algo que Lucius me deu quando começamos a namorar.

Hermione fitou a outra bruxa, olhos azuis perfurando os seus castanhos, mas não disse nada.

Uma sobrancelha loira ergueu-se na direção dela. — Deve ter custado caro a ele — sugeriu
com suavidade.

— Uma relíquia de família — respondeu Hermione, com cuidado. — Pelo que entendi.

— Sim — murmurou Narcissa, observando um Lucius que se aproximava rápido com uma
taça de champanhe numa mão e um copo de uísque na outra —, linhagens antigas tendem a
possuir tais relíquias. E como a senhorita o tem achado, o seu pretendente?

Hermione se perguntou se Narcissa sabia há quanto tempo ela estava na posse da pulseira. Se
sabia para quem Malfoy a mandaria antes de ela tê-la recebido, ou se soube apenas quando
viu as fotos de Hermione no Profeta. Pensou nos bilhetes e em suas interações com ele, em
seu semblante frio e arrogante num momento, e na capacidade de demonstrar que estava
disposto a ouvir e a ceder no seguinte. Pensou em seu presente de Natal — um livro
específico que ela queria, a chance de discuti-lo com o autor, além de todos os livros que
pudesse imaginar comprar na Flourish & Blotts. Pensou no anel. Havia um senso de posse e
quase desespero em suas ações; a necessidade tanto de proteger quanto de garantir sua
felicidade. Era totalmente oposto ao seu comportamento antes da guerra.
Lucius voltou, tentando entregar a taça de champanhe à esposa, mas ela não olhava para ele.
Esperava a resposta de Hermione, aqueles olhos azuis vasculhando seu rosto do mesmo modo
que o filho fazia no início de cada sessão. Buscando respostas sob a superfície.

— Surpreendente — ofereceu por fim, sem querer revelar a Lucius sobre o que vinham
falando. Lucius ergueu uma sobrancelha, mas nada disse, dando um leve empurrão em
Narcissa. Ela finalmente desviou o olhar, aceitando a taça com um agradecimento
murmurado.

— Vamos tirar uma foto de vocês três, sim? — o fotógrafo se aproximou de lado, de repente,
gesticulando para que ficassem lado a lado. Lucius virou Narcissa com suavidade na direção
do fotógrafo, uma mão na curvatura de suas costas, e Hermione se posicionou do outro lado.
O fotógrafo mandou que sorrissem e um clarão estourou diante dos olhos dela.

Hermione piscou rapidamente para limpar os pontinhos em sua visão, sem saber se tivera
tempo de sorrir ou não.

— Com licença, srta. Granger — disse-lhe Lucius. Hermione inclinou a cabeça enquanto ele
conduzia a esposa para longe, o fotógrafo tagarelando animado ao lado dela. Ela não ouviu
uma palavra do que ele disse enquanto observava as duas figuras se afastando, cruzando o
salão.

Ela foi abordada por muitos funcionários do Ministério ao longo da noite, todos querendo
conhecer a Hermione Granger, e foi submetida a uma miríade de fotografias. Muitos se
interessaram por seu trabalho, mas, como seus pacientes eram de alto perfil, ela passou muito
tempo desviando de perguntas ou dando generalidades. Evitou a pista de dança, por não
querer se envergonhar tropeçando de salto nem correr o risco de ser fotografada e iniciar mais
fofocas sobre com quem poderia estar saindo. Em geral, não se importava com a especulação,
mas parecia meio indelicado iniciar esse tipo de rumor sob o teto dos pais do seu possível
namorado.

Sem contar que, se Malfoy visse fotos dela dançando com outros bruxos, tinha a sensação de
que a veia possessiva dele se manifestaria. Especialmente quando ele não podia ouvir o que
estava sendo dito e provavelmente não sabia do convite. Parecia particularmente cruel
ostentar publicamente, na cara dele, sua liberdade de dançar com outros quando ele não podia
estar ali para dançar com ela. Ela quase apostaria que o idiota valsava impecavelmente, como
muitos dos outros casais que observava — tinha a sensação de que recebera aulas quando
mais novo. Malfoy não parecia do tipo que pisaria em seus pés. Tinha orgulho demais em se
crer o melhor em tudo e, claramente, era mau perdedor, a julgar por como a tratara quando
ela o superara em tudo, exceto quadribol.

Malfoy com uniforme de quadribol…

O som no salão cresceu e, em uníssono, os convidados começaram a contagem regressiva a


partir de dez. Ela empurrou aqueles pensamentos perigosos para um canto escuro da mente.
Números prateados gigantes apareceram acima deles para guiar a contagem, casais se
juntando para o beijo da meia-noite. Hermione ficou sozinha entre eles, uma pequena parte
de si desejando que Malfoy estivesse ali, fitando-a com aquele olhar esfumaçado e intenso
que ele sempre parecia ter.
No ano que vem.
Capítulo 14

Janeiro de 1999

A foto em preto e branco de Granger com seus pais voltou a se repetir enquanto ele a
encarava, descrente. Sua mãe e seu pai fitavam a câmera impassíveis, os olhos parecendo
pousar diretamente nos dele, sem reação. Granger estava do outro lado de sua mãe, os olhos
indo de Narcissa ao fotógrafo e os cantos da boca apenas ligeiramente se erguendo antes de o
loop recomeçar.

Olhos cinzentos vasculharam cada minúcia da aparência dela. Aquele cabelo selvagem fora
domado e preso no alto, braços esguios e a clavícula à mostra num vestido cuja cor ele não
conseguia distinguir. Sua cicatriz de sangue-ruim estava claramente visível para o mundo,
assim como uma linha grossa e raivosa que vinha de um ombro e cruzava na diagonal até
desaparecer sob o decote. Ele não tinha notado aquela antes — ela normalmente usava blusas
de gola muito mais alta; o vestido era a coisa mais reveladora que a vira vestir desde o Baile
de Inverno. E ela definitivamente não tinha aquela cicatriz naquela época.

O que diabos ela estava fazendo na festa de Ano-Novo dos seus pais? Ele nem sequer tinha
percebido que ela fora convidada, quanto mais que aceitara ir. Ela foi sozinha? O Weaselbee
ou o Potter não teriam dado algum tipo de festa? Por que caralhos ela não foi à festa deles em
vez disso?

O que diabos os seus pais disseram a ela?

O artigo era inútil, tagarelando sobre o baile anual que sua mãe dera quase todos os anos,
exceto durante a guerra. Mencionava brevemente a prisão domiciliar de seus pais e parecia
tentar insinuar que Granger estava em ótimos termos com os Malfoy. Ele quis revirar os
olhos — Granger mal suportava tratá-lo, quanto mais ter camaradagem com seus pais.

Não havia menção de ela ser sua curandeira no artigo, e ele se perguntou se seu pai havia
silenciado o repórter quanto a isso. Para ele, ficava claro que o bom e velho papai tentava
capitalizar a presença dela para melhorar o nome da família. Ele teria que bolar um plano
para impedir isso no segundo em que saísse dali — Granger enxergaria aquilo na hora, e ele
não correria o risco de mais nada ferrar sua chance com ela.

Se é que ainda tinha uma chance. Maldito do Blaise e sua porcaria de senso de humor
desastroso, dizendo que ele tinha malditas prostitutas esperando por ele em casa. Se havia um
jeito de matar o desejo da bruxa mais inteligente do mundo, com certeza seria insinuando que
ele de alguma forma apoiava o tráfico sexual. A conversa deles sobre “dragões” na véspera
de Natal talvez não tivesse ajudado. Ele percebeu depois que podia ter sido interpretada como
ele só querendo entrar nas calcinhas dela. Ele estava tentando dizer que não era a única coisa
que lhe interessava. O que diabos ela queria que ele dissesse? Que ele não queria transar com
ela?

Honestamente, a quantidade de recursos que ele despejara na bruxa deveria tornar muito
óbvio que ele não estava atrás de um sexo rápido. Mesmo que estivesse, não precisava pagar
por isso, não importa o que o maldito Blaise dissesse. Era difícil pra cacete transmitir isso
para uma bruxa com quem ele nem conseguia ter uma conversa privada e que também
poderia sair correndo morro acima se ele dissesse claramente que vinha secretamente
carregando uma tocha com o nome dela, havia mais tempo do que gostaria de admitir.

Ele tentara sustentar os padrões que sua família lhe impusera, tentara ser o bom filhinho
sangue-puro que odeia todos os sangue-ruins e sabe toda a etiqueta apropriada e fez todas as
malditas aulas de alta sociedade de que precisava para, quando chegasse a hora, poder seguir
os passos do pai e levar adiante o legado Malfoy. Estava indo muito bem em ignorar aquela
vozinha interior rebelde até o sexto ano, quando de repente a vida de toda sua família passou
a ser ameaçada justamente pelos valores que vinham defendendo. O extremismo deixou de
ter apelo, especialmente quando nem servia de proteção contra a morte certa nem para ele
nem para os pais.

O sangue nunca importou de verdade para ele, mas ele sustentara as expectativas dos pais,
comportara-se como lhe ensinaram — que era melhor do que todo mundo. Veja bem, ele era
fodidamente espetacular e poucos podiam compará-lo, mas isso tinha menos a ver com o
sangue e mais com a inteligência. A maioria das pessoas era ignorante. Tentar ter uma
conversa profunda e inteligente com qualquer pessoa que não fosse Blaise, Pansy ou Theo
geralmente acabava com muitos olhares vazios ou platitudes ocas. Inferno, metade das vezes
em que tentava debater com aqueles três, começavam a acusá-lo de pedante.

Ele atirou o jornal sobre a escrivaninha, passou a mão pelos cabelos e fez uma careta ao ver a
marca negra em seu antebraço nu. Granger não dissera nada sobre ela, apesar de ficar à
mostra o tempo todo naqueles ridículos robes de paciente que era obrigado a usar. O tecido
era barato e áspero — entre estes e os uniformes de prisão, ele aguardava ansioso suas
próprias roupas quando fosse solto.

Seus comentários definitivamente a deixavam em brasa. Vinha observando-a tão de perto


sempre que dizia algo remotamente insinuante que notara todos aqueles pequenos sinais de
excitação. Pupilas bem dilatadas, lábios se entreabrindo levemente, o olhar desfocando
enquanto a imaginação dela assumia por alguns segundos. A veinha no pescoço começava a
bater em dobro. Às vezes a respiração dela falhava.

Ele estava tão ferrado. Estava tão obcecado. Ficar trancado vinte e quatro horas por dia não
ajudava — não tinha muito mais o que fazer além de estudar para os N.O.M.s e estudar
Granger. Ela era tão incrivelmente inteligente — o cérebro era pelo menos metade do apelo.
A capacidade dela de entender e resolver até os problemas mais complexos era muito sexy.
Ele tinha inveja de Potter e do Weasel por terem passado toda a vida escolar estudando com
ela. Ela teria sido uma parceira de estudos incrível — ele podia imaginar os debates que
teriam. Não, os debates que teriam, assim que ele saísse daquela maldita caixa branca que era
o quarto.

A pulseira fora uma maneira de tentar garantir que aquela inteligência atravessasse a guerra.
Todo o mundo bruxo sabia que Potter não teria descoberto nada sem ela — ela foi mais
instrumental para a queda de Voldemort do que o cabeça-de-cicatriz. Ele só queria que ela
sobrevivesse, ajudá-la se pudesse, talvez aprender um pouco mais sobre do que ela gostava,
já que nunca tinham tido uma conversa completa. Culpa dele — quem diabos queria
conversar com alguém que era um perfeito canalha toda vez que você sequer olhava pra ele?
Mesmo quando tentara alertá-la sobre os Comensais no Mundial de Quadribol no quarto ano,
ele fora um completo idiota a respeito.

Ele não previra que ela se recusaria a colocar a maldita coisa por oito meses. OITO MESES.
Passou os primeiros dois meses ativando o feitiço obsessivamente, tentando ver se ela havia
colocado e se havia algo para ouvir. Quando ficou tudo mudo, passou a praticamente
persegui-la para ver se ela estava usando. Quando aquela noite na torre de Astronomia
chegou e ele ainda não a vira usar, praticamente desistiu.

O assassinato de Dumbledore. Seu primeiro, mas não o último, homicídio. Sua mãe fora
atingida por Crucio na frente dele quando o trabalho no armário levou tempo demais,
Voldemort ameaçando acabar com ela antes de matar o próprio Draco caso ele falhasse na
missão. Pura e absoluta desesperação para salvar a vida da mãe e a própria foi a força motriz
daquele Avada. Tem que querer, a voz de Bellatrix sibilou antes que ele conseguisse ocluir a
memória sem piedade. Tem que querer, de fato — quando se tratava de salvar a própria vida
ou a de outra pessoa, ele escolheria a sua toda vez.

Ele não queria se deter no que sentira ao tirar aquela vida, a agonia física e espiritual, a
alegria tresloucada de Bellatrix por o filho de Lucius ser mais digno da Marca Negra do que
ele. Percebeu que não podia ser esse peão, não podia sentar e torcer aos deuses para que
Potter tivesse êxito. Estava tão desesperado por qualquer notícia dela depois que o Ministério
caiu, tão frustrado pela incapacidade de fazer algo por ela já que ela não usava a maldita
coisa, tão furioso consigo mesmo por seguir cegamente a baboseira dos pais como um idiota,
que se alistou como informante de Kingsley. Isso não aliviou sua consciência. Passou metade
da guerra praticando Oclumência para conseguir sustentar aquilo.

E então, por um capricho no começo de setembro, ele acessou o feitiço e finalmente,


finalmente, ouviu a voz dela. Ela estava conversando com os dois cabeças-ocas sobre nada de
significativo, mas ele ficou incrivelmente aliviado, e mais do que um pouco satisfeito, por ela
finalmente ter colocado. O alívio durou pouco quando percebeu que eles tinham acabado de
invadir o Ministério e tudo tinha ido para o inferno.

Ele ouviu os gritos dela e o episódio de cura com o ruivo imbecil, paralisado no meio do
jantar na Mansão. Por sorte, Voldemort não jantava com eles naquele dia e ele ocluía com
força suficiente para não deixar o choque transparecer no rosto, mas a mãe notou sua
imobilidade. O resto da refeição foi passado ouvindo-os, fingindo que tudo estava bem para
acalmar a mãe desconfiada, e tramando. Invadiu seu próprio estoque de poções naquela noite
para pegar a maior maldita garrafa de dittany que possuía, enfeitiçou as embalagens e enviou
Kreacher com instruções rígidas para entregar fora de vista.

O elfo provou ser muito útil, para sua surpresa. Ele sabia que Bellatrix deixara toda a fortuna
e os bens dos Black para ele — ela discutira especificamente com ele assim que descobriu
que estava grávida, querendo que ele segurasse tudo até que o filho dela com Voldemort
atingisse a maioridade —, mas o elfo não fazia parte daquela lista. Depois que sua tia
torturou Granger no chão da sala de visitas, ele aproveitou a primeira oportunidade para
assassinar a megera e sua cria ímpia antes que nascesse. Salazar é que sabe do que aquela
prole seria capaz, e ele não correria maldito risco algum. Não se arrepende nem um pouco
daquela vida perdida, mesmo que o rasgo em sua alma o tenha deixado enjoado por dias.

Os laços de Kreacher com a família Black, da qual agora ele era o herdeiro, tinham lhe dado
controle compartilhado do elfo até que Potter foi idiota o bastante para presentear o elfo com
algo. Ele não tinha total certeza do que Potter dera, mas fora suficiente para o elfo poder
romper laços e não precisar atender aos chamados de Potter se não quisesse. Ele sentia um
tantinho de satisfação em saber que tinha incomodado Potter de algum modo.

Kreacher entregou o resto do que pôde para ajudar Granger e os gêmeos idiotas pelo restante
da guerra. A varinha foi fácil; mantinham um estoque delas na mansão após capturarem
Ollivander. Nessa altura ele já subia nas fileiras; sua eficiência durante as investidas e contra
a Ordem ficou ainda mais impressionante quando recebeu a honraria duvidosa de integrar o
programa Fulminator. Uma trava de segurança, chamaram.

Ele não mentiu para Granger quando disse que não se lembrava. Ele e alguns outros foram
apagados para o feitiço ou procedimento que a Comissão finalmente aperfeiçoara depois de
meses de fracassos. Acordou menos de uma hora depois e não sentiu grande diferença até a
medibruxa que estava na sala tentar lançar Crucio para testar a efetividade.

Ele explodiu, puro pânico correndo-lhe nas veias pela desorientação e surpresa. Ninguém
espera ser atacado em um hospital, mesmo um dirigido por um megalomaníaco com o hábito
de torturar os próprios seguidores. Um feitiço de escudo impediu que a bruxa virasse carvão.
Ela achou interessante que, em vez de um stunner, tivesse saído um Incendio.

Ficou muito claro, nas escaramuças seguintes de que participou, que ele era um dos poucos
que conseguiam controlar o que saía. A maioria era Stupefy ou Incarcerous, e Bellatrix ficou
absolutamente deliciada quando seu sobrinho mostrou ainda mais potencial. Voldemort o
promoveu.

O cabelo foi mais difícil de conseguir depois que ele ouviu o pedido dela — uma grande
revelação de que ela sabia que ele estava escutando do outro lado. Claro que ela descobriu
que havia um feitiço de escuta — suas notas deixavam claro que ele ficava puto toda vez que
ela tirava.

As notas devem tê-la alertado.

O horcrux, por outro lado…

Ele estremeceu, lembrando o absoluto descrédito ao ouvir aquela aventura desequilibrada.


Saber que fora ideia de Granger o levou a reavaliar seriamente a inteligência dela. A bruxa
era insana. Depois de quase se cagar ouvindo todos os gritos e a zona completa que foi o Trio
Morônico assaltando Gringotes, a cotinha ainda teve a ousadia de sugerir que tentassem uma
segunda vez porque tinham errado o cofre. Ele explodiu com Imperio naquela vez,
claramente o desejo de controlar a idiota para que não se matasse de verdade. Quase se fez
executar com aquela manobra, por estar ao alcance do pai na ocasião. A única coisa que o
salvou de Lucius tentar assassinar o próprio filho foi o desagrado que Lucius enfrentaria se
tentasse matar o principal soldado de Voldemort.
Claro que Bellatrix mudou a droga da coisa depois que apareceram diante dela com a espada.
Ela não deixaria ao acaso ou coincidência — era insana, mas não burra. A querida tia Bella o
levara com ela quando transferiu a taça do Cofre Lestrange para o dos Black. Trancou
Narcissa para fora do cofre completamente depois que sua mãe recuperou a pulseira e o anel
a pedido dele. Bellatrix ficou furiosa — o anel estava atado a mais do que aquela pulseira e,
como era a Black viva mais velha, considerava-o seu. Narcissa não fez perguntas a Draco
quando o recuperou; apenas lhe entregou o conjunto naquele dezembro.

A gravidez de Bellatrix a deixou ainda mais paranoica. Tentava mantê-la escondida de


Rodolphus, temendo que ele pudesse matá-la se descobrisse. O… romance de Bellatrix e
Voldemort, se é que dava para chamar assim, era o segredo mais mal guardado das fileiras,
mas só um maníaco suicida ousaria mencionar qualquer coisa sobre a infidelidade da esposa
na cara dele. Draco ainda não tinha certeza se Rodolphus de fato sabia ou apenas suspeitava.

A paranoia a levou a confidenciar a ele a importância da taça para Voldemort. Não disse por
quê, apenas que era vital para ele, e Draco não tinha certeza se ela sabia sobre os horcruxes
ou não. Ele mesmo só percebeu o que era no dia do assalto. Ele integrou as forças do Lorde
das Trevas despachadas para Gringotes em seguida e ninguém olhou duas vezes quando quis
passar no próprio cofre depois que terminaram os deveres. Suou frio ao pensar em Granger
convencê-los a tentar de novo — façanha que certamente levaria à morte imediata, entre os
duendes e os Comensais — e mandou a maldita taça amaldiçoada para ela o mais rápido
possível para evitar isso.

Se eles tivessem tido um relacionamento real além de agressor e vítima na época, ela poderia
simplesmente ter pedido a ele. Ela nem sabia que ele vinha alimentando Kingsley com
informações sobre a Comissão — Kingsley não queria que ninguém da Ordem soubesse de
onde vinham as informações porque sabia que não seriam bem recebidas. Não apenas pelo
histórico dele com o Trio Maravilha, mas também pela falta de confiança que a Ordem
mantinha em Snape.

Draco esfregou o rosto com as mãos. Não previra passar mais de um ano sem conseguir falar
com ela sobre a pulseira e seus motivos para tê-la enviado. Tudo que queria era uma chance
com ela. Ela era tudo que ele queria — inteligente, com espinha de ferro, e aquele corpo. Ele
não via muito dele atualmente, escondido atrás daqueles horrendos robes de curandeira cor de
limão, mas, num dos primeiros dias dela como seu caso, ela os deixara de lado. Aquele
vestido profissional ajustado que ela usava quando entrou tempestuosa e ofereceu as
refeições da mansão aparecia enrodilhado na cintura dela em mais de uma de suas fantasias.

Ele só queria uma chance. Podia se desculpar até ficar roxo de tanto pedir perdão por tê-la
tratado como lixo, mas no fim das contas queria que aquilo levasse a algum lugar. Queria
namorar a maldita bruxa. Ele ressuscitaria a Biblioteca de Alexandria se isso a fizesse
concordar em sair com ele.

Ele vinha tentando fazer com que ela o visse como algo além de seu valentão de infância e
um completo idiota em toda e cada interação até agora. Queria que ela o visse como
desejável, um par para o intelecto dela. Alguém disposto a cuidar dela e realmente ouvir o
que ela queria porque, caralho, Wazlib e Potty nunca fizeram isso. Foi por isso que ele lhe
enviara o anel. Ela tinha ficado tão puta por ele estar ouvindo — ele já tinha previsto
completamente que ela ficaria assim quando descobrisse originalmente e não estava
preparado para a ira dela depois de todo esse tempo. Claramente ela não tinha percebido que
os guardas em Azkaban falharam em removê-lo de sua pessoa.

Ele não queria que isso arruinasse o que considerava ser a única chance que poderia ter com
ela. Ela não o colocou de volta depois do bilhete dele sobre incinerar Creevey, e ele não
estava brincando — esteve tentado a botar fogo no garoto por atacá-la. Ela enviara Kreacher
com um pedido de privacidade em vez disso e ele enviara a maldita coisa para ela e se
resignara a passar pelo menos os próximos meses com nada além dos próprios pensamentos
como companhia. Ela parecia de volta ao normal quando retornou, pulseira no lugar, e ele
pôde respirar aliviado sabendo que ela tinha alguma forma de proteção.

Ele não sentia deleite em assassinato, mas ainda assim ia matar Creevey, porra, na primeira
chance que tivesse. Poderia arruinar todo o trabalho dela para tratá-lo, e deixaria mais uma
mancha em sua alma, mas valeria a pena pra caralho.

No primeiro turno dela de volta depois das festas, ele desejou que ainda pudessem falar com
o feitiço Muffliato. Ele soube no segundo em que Pomfrey começou a fazer perguntas que
suspeitavam que algo estava acontecendo. Relações paciente–curandeiro eram um grande não
— ele sabia; mandara Pansy passar o manual do funcionário e os contratos de trabalho a
pente-fino. Quis se assegurar de que não seria um problema quando fosse solto, que não
haveria consequências para Granger se ela começasse a namorar um ex-paciente antes que ele
queimasse cada curandeiro daquele lugar para chegar até ela.

Pansy revirou os olhos, mas concordou em passar por tudo em troca de um favor futuro
indeterminado. Ele sabia que iria se arrepender desse acordo, mas ainda assim o fez. Os
esforços a que ele chegava por causa daquela bruxa.

Pansy indicara que, do ponto de vista legal, deveria ficar tudo bem quando ele fosse solto. A
fofoca, no entanto, provavelmente seria atroz e sugeriria fortemente que Granger abusara de
sua posição para garantir para si uma vida confortável como princesa Malfoy. Pansy não
apreciou seu comentário sobre gostar desse título para Granger e o acertou com o manual.

O artigo da gravidez saiu pouco depois disso, então ele amordaçou a Semanal das Bruxas.
Ele ainda ponderava como queria lidar com o Profeta, já que uma ordem de silêncio não
serviria se quisesse usá-lo para apresentar um viés positivo do relacionamento deles mais
tarde. Ele não queria manter segredo — além de ser impossível, sabia como Granger
encararia isso —, então a imprensa precisaria ser controlada. Skeeter teria de ser tratada com
especial cuidado no departamento Granger, se os artigos anteriores servissem de referência.

Ele a observou lançar o feitiço de diagnóstico, sua primeira visita desde antes do Natal, e não
se deu ao trabalho de tentar ler números e linhas de trás para frente, preferindo examiná-la em
vez disso. Ela parecia muito mais saudável do que em agosto passado, quando ele dera um
pequeno empurrão nos feitiços de proteção. No que dizia respeito a protegê-la de si mesma,
os feitiços não eram exatamente sencientes e precisavam de orientação. As golfadas da meia-
noite finalmente haviam parado, embora ele tivesse notado que ela ainda tinha pesadelos
ocasionais. Não fazia ideia se isso continuara durante as festas agora que estava sem o anel.
Ela parecia repousada após o tempo de folga, as olheiras sumidas e a pele com uma cor
límpida e saudável. Os olhos estavam um pouco hesitantes, indo dele ao atendente. Ficava
claro que ela queria dizer algo, mas não podia com uma plateia. Ele tentava descobrir como
perguntar se seus pais tinham dito algo impróprio — ele com certeza podia perguntar sobre o
baile em geral, já que o pai achou por bem colocá-lo no maldito jornal. Nada suspeito para o
atendente implicar ali. Antes que pudesse perguntar, contudo, ela falou primeiro.

— Teve um bom Natal?

Ah, se teve. Kreacher entregara o presente dela bem cedinho pela manhã, embrulhado
naquelas cores de Grifinória, para sua surpresa. O pomo era lindamente trabalhado e
claramente custara alguns galeões, embora ele nunca tivesse encontrado um pomo que
chocalhasse.

Suspeitava fortemente que ela de alguma forma tivesse conseguido colocar alguma coisa
dentro dele, mas até então não conseguira abrir. Ele também não queria destruir a maldita
coisa e arriscar estragar o que quer que houvesse dentro. Soltá-lo dentro do quarto pelo
menos vinha lhe proporcionando alguma forma de entretenimento e exercício físico.

— Foi… estimulante.

Ele manteve o sorrisinho no rosto, o tom levemente insinuante. Ignorou o atendente no canto,
sem se importar se ouviu, e observou os olhos dela se arregalarem levemente. Ele tinha
ouvido o comentário que ela fez àquele terror laranja de gato no Halloween e estava bem
ciente do quão inexperiente ela era. Provocá-la com seus comentários, ver aquele rubor se
formar enquanto a imaginação dela assumia, era uma excelente forma de entretenimento.
Antecipação. Havia uma correlação entre nível de inteligência e desvio sexual, e ele
aguardava ansioso para explorar quão desviada a ratinha de biblioteca certinha poderia ser.

— E o seu? — perguntou, tentando puxar o foco de volta para o aqui e agora, em vez do
futuro possivelmente distante.

Os olhos dela voltaram ao atendente antes que ela umedecesse os lábios com aquela
linguinha cor-de-rosa. A mão dele se fechou num punho.

— Foi adorável, passei com amigos. — O sorriso não chegou aos olhos.

Amigos? E os pais trouxas dela?

Agora que pensava, não se lembrava de ter ouvido nada que soasse como ela falando com os
pais. Ela voltara para casa no verão depois do sexto ano, ele tinha certeza, mas não se
lembrava de ter ouvido nada sobre eles em todo o tempo em que vinha escutando. Não que
pudesse ouvir cada segundo do dia, mas ainda assim. Todas as missões para encontrar a
família dela que o Lorde das Trevas ordenara tinham dado em nada — ela os escondera bem,
mas agora ele se perguntava se não teria sido bem demais.

Ela era mais Sonserina do que ele percebera.

— Ganhou alguma coisa boa?


A pergunta foi feita mansa, mas ele ardia de curiosidade quanto à reação dela ao presente de
Natal dele. Ela tinha de saber que fora dele, e ele sabia que estava absolutamente perfeito,
mas queria ouvir, queria confirmar que ela tinha amado, já que não pôde ver ou ouvir ela
abrindo e apreciando a reação.

Ela sorriu para ele, o sorriso largo e a felicidade radiante no rosto deixando-o atônito por um
momento. Não tinha certeza de que ela já lhe dirigira alguma expressão remotamente
próxima desse nível de prazer.

— Ganhei um livro absolutamente maravilhoso — explicou, e passou a detalhar o texto


médico que ele lhe enviara. Ele lutou para manter um sorrisinho correspondente fora do
rosto, para não parecer suspeito ao atendente.

Ela não mencionou a conta na Flourish & Blotts, mas ele não a culpou. Para ele, o
entusiasmo dela pelo livro era um indicativo de gratidão, tanto quanto podia expressar
durante uma conversa monitorada. Se ela estava tão grata por um monte de livros, ele mal
podia esperar para mimá-la pra caralho quando saísse e ver até onde aquela gratidão poderia
levá-lo. Seus ancestrais iam se revirar no túmulo com a quantidade de ouro que ele ia gastar
com ela.

Ele perguntou sobre a festa, perguntas genéricas apenas, mas as respostas dela eram
entusiasmadas e tingidas de um pouco de deslumbramento. Ela mencionou que sua mãe
oferecera o uso da biblioteca deles, e ele pôde ver o brilho ávido nos olhos dela. A ideia de
ela estar na mansão regularmente, especialmente se Lucius estivesse por perto, fez seu
estômago despencar. Com certeza precisaria deixar claro ao pai, e logo, que ela não era para
ser usada.

Ele queria muito saber se ela levara um acompanhante. Ela era definitivamente solteira —
tudo o que ouvira antes certamente não revelara nem pista de namorado, embora aquelas
conversas com Potter fossem bastante esclarecedoras sobre o estado mental dela quanto à sua
pessoa. Potter fora surpreendentemente maduro e ele decidiu fazer questão de, ao menos,
polidez com o cabeça-de-vento no futuro. Com Weasley, porém, valia tudo.

Ele não podia perguntar se ela levara um par ao baile dos pais dele na frente do atendente
sem soar suspeito. Refletiu por um momento de volta à analogia do dragão, mas ainda não
tinha formulado uma pergunta antes que o tempo deles acabasse e ela fosse embora. Teria de
perguntar a Kreacher mais tarde.

O atendente desfez suas contenções e trancou a porta ao sair. Não era um dos dois que
gostavam de espancá-lo, geralmente durante o turno da noite, mas ocasionalmente bem no
meio do dia. Ele não denunciara nem revidara — denunciar parecia demais com seu infame
“Espere até meu pai ouvir sobre isso”, e tanto ele quanto os atendentes sabiam que sua
situação era por demais precária para revidar. Se atacasse, seria a palavra dele contra a deles,
e sua sentença provavelmente seria “comutada” de volta a Azkaban.

Ele também achava que era isso que eles queriam. Claramente estavam putos com a
clemência e o queriam na prisão; ele se recusava a lhes dar o gosto. Por ora, aguardaria o
momento até estar solto. Sabia que Granger suspeitava de algo com as concussões repetidas,
mas duvidava que houvesse provas suficientes para fazer algo.
Draco afundou um pouco na cadeira da escrivaninha, pensando. Sem a capacidade de ouvi-la,
os dias se arrastavam. Havia pelo menos o curso por correspondência dos N.O.M.s de janeiro
a maio, mas isso ainda o deixava com incontáveis horas livres. Não podia cuidar de nenhum
dever oficial de herdeiro Malfoy enquanto trancado num hospital — seu pai supervisionava
tudo, ainda em prisão domiciliar —, então lhe restava muito pouco para fazer com o tempo.
Sair de braço direito de Voldemort para prisioneiro e então paciente de hospital foi uma
mudança abrupta e chocante. Passara a escrever para Theo e Blaise, sabendo que o primeiro
também estava trancado em algum lugar daquele ala, mas até então não conseguira cruzar
com ele. Theo não dizia o que tinha, só que não podia sair de seus quartos ainda. Draco só
conquistara esse privilégio recentemente e vinha usando-o para perseguir Granger, claro.

Ele chegara a descobrir que Granger jogava xadrez com um de seus outros pacientes
regularmente naquele casulo de sala que chamavam de espaço de atividades. Ele tinha
permissão para ir, sem restrições, mas apenas na companhia de um atendente que ficaria
colado nele. Antes, não via sentido, mas, como não podia passar os dias ouvindo Granger e
começava a ficar bastante desesperado por um fiapo de informação, resolveu começar a
escutar as partidas deles. Parecia patético, mas ele estava incrivelmente entediado.

Na segunda semana de janeiro, ele já havia decifrado a rotina aproximada dela. Parecia jogar
xadrez com Justin Finch-Fletchley, de quem não se surpreendeu ao encontrar em St.
Mungo’s, nas manhãs de quarta. Notou que ela frequentemente levava um copo para viagem
de algo claramente cafeinado e sempre perdia para Justin de maneira bastante espetacular.

Draco achou hilário que a Bruxa Mais Brilhante de Sua Geração fosse absolutamente péssima
em xadrez.

— Vamos fazer assim — dizia Granger, leve, o olhar no tabuleiro entre ela e um Finch-
Fletchley completamente silencioso. Este vestia as mesmas roupas de paciente que ele, todo
de azul, e também olhava fixamente a mesa entre eles. Granger já perdera duas vezes naquela
manhã e só jogavam havia vinte minutos. — E se eu te contar algo sobre mim e aí você me
conta algo sobre você?

Buscando mais conforto, ela tirara aqueles robes de curandeira horrendos e revelara uma
calça social escura e justa e uma blusa rosa-claro macia. As roupas trouxas foram
inesperadas, mas totalmente valiam a pena ter de lidar com o atendente carrancudo que
pairava ao lado de sua poltrona. Ele escolhera um lugar a distância de ouvir e com visão clara
da dupla à esquerda, fingindo interesse em um exemplar do Profeta para não ser pego
encarando descaradamente.

Ela lhe dera um breve olá e um sorriso quando ele entrou. Ele assentira em resposta, o modo
altivo e irrepreensível a qualquer outro funcionário que testemunhasse suas interações. Finch-
Fletchley ainda não dissera uma maldita palavra a ninguém; a única indicação de que era
coerente eram os movimentos que colocava cuidadosamente no tabuleiro.

Ele levantou um pouco o olhar ao comentário dela, sem chegar a fazer contato visual, mas o
suficiente para mostrar que ouvira. Draco percebeu que Granger prendia a respiração,
aguardando a resposta. Finch-Fletchley assentiu de leve, um gesto pequeno porém seguro, e
ela suspirou baixinho, aliviada.
— Vamos começar pequeno, tá? — ofereceu, um sorrisinho brincando naqueles lábios
rosados. — Por exemplo, eu absolutamente odeio ervilhas.

A última parte foi dita no típico tom dela, certinho e informativo. Draco observou enquanto o
paciente dela, cuja aparência esquálida parecia precisar de um caldeirão inteiro de ervilhas e
mais um pouco, franzia as sobrancelhas por um momento.

— Suco de abóbora — a voz dele estava rouca, quebrada pelo desuso. Draco se perguntou,
por um instante, quando fora a última vez que o sujeito falara, se era a isso que Granger
recorria para conseguir qualquer informação dele.

— Você não gosta de suco de abóbora? — ela perguntou, para confirmar, e Finch-Fletchley
assentiu, encontrando os olhos dela pela primeira vez desde que Draco entrara.

Quem diabos não gosta de suco de abóbora?

Ele achou que Granger poderia sentir o mesmo, mas ela manteve a expressão e o tom livres
de julgamento, focada na interação. Era a vez dela, e ela mordiscava o lábio, pensativa, as
sobrancelhas franzidas enquanto encarava o tabuleiro. Fez um movimento hesitante, a blusa
rosa farfalhando de leve com o gesto, e ergueu o rosto de volta para Finch-Fletchley.

— …meus pais? — perguntou Finch-Fletchley com a voz áspera. Ele olhava diretamente
para Granger, as piscadas longas e lentas.

— Não tenho certeza — respondeu, suave, a expressão minguando. — Procurei o Escritório


de Ligação com Trouxas e eles tentaram o último endereço conhecido dos seus registros de
Hogwarts, mas eles não estavam lá. Eles se mudaram?

Finch-Fletchley assentiu.

— Se você me der o novo endereço, posso pedir ao Escritório de Ligação para investigar. —
Ela não prometeu visita nenhuma, notou Draco. Ou Finch-Fletchley era instável a esse ponto,
ou ela não acreditava que os pais dele estivessem vivos.

Quão instável ele era ficou muito claro alguns minutos depois. Estavam terminando a terceira
partida quando outra curandeira, atravessando a sala de atividades com os braços cheios de
frascos de poção, tropeçou nos próprios pés.

A curandeira foi ao chão em uma explosão de vidro e líquido brilhante a uns noventa
centímetros de onde eles jogavam xadrez. Estilhaços de frascos despedaçados voaram por
toda parte, uma poça multicolorida se formando sob a bruxa estatelada. Granger e Finch-
Fletchley estavam perto demais para se proteger ou abaixar, mas o atendente de Draco lançou
preguiçosamente um feitiço de escudo para os dois.

Bastou um olhar para o paciente e Granger já estava de pé, saltando da cadeira e caindo de
joelhos diante do parceiro de xadrez, lançando freneticamente um diagnóstico. Draco
observou, impassível, enquanto ela começava a gritar comandos. Vários atendentes
apareceram, atraídos pelo barulho, e rapidamente se apressaram em cumprir suas ordens.
Finch-Fletchley estava curvado na cadeira, suando e gemendo como se estivesse em dor
extrema. O atendente de Draco, ainda mantendo um feitiço de escudo, encarava a cena. Ele
observava o outro paciente com alarme crescente, Draco momentaneamente esquecido no
caos de erguer a curandeira, reparar frascos e seguir as ordens de Granger.

Ele observava Granger com apreensão. Um atendente viera amparar Finch-Fletchley e


impedir que ele caísse no chão, enquanto Granger alternava entre um tom calmante para o
paciente e ordens aos berros.

— Tá tudo bem, Justin, não é um ataque, só algumas garrafas quebradas…

— Vou precisar daquela poção nova da associação! A azul-escura! Tragam reposição de


sangue caso não funcione.

Os olhos dela voavam pelo diagnóstico, o amontoado de números e gráficos aprofundando-se


de amarelo-claro para amarelo-escuro até um vermelho berrante. Granger ainda estava
agachada diante de Finch-Fletchley, varinha em punho e lançando repetidos feitiços de cura
que ele nunca tinha ouvido. Finch-Fletchley começou a gritar.

— De volta pro seu quarto, vamos — a voz do homem ao lado dele quebrou a concentração
de Draco, o atendente fazendo sinal para que começasse a se mover. Ele se levantou da
poltrona para evitar ser arrastado à força e tentou dirigir-se à saída da sala o mais devagar
possível. Funcionários entraram às pressas com uma maca, o nível de agitação na sala
aumentando ainda mais.

— O que há de errado com ele? — exigiu.

— Não é da sua conta — retrucou o atendente.

— Não faça isso — Granger parecia implorar com raiva ao paciente enquanto o deitavam na
maca, o corpo dele convulsionando. Outra curandeira juntou-se a ela enquanto, magicamente,
erguiam a maca e começavam a ir rumo ao corredor. Draco acelerou o passo para poder
caminhar ao lado do grupo, ouvindo enquanto ela descrevia rapidamente o que acontecia para
a outra curandeira, os olhos no diagnóstico.

— Ele está liquefazendo o estômago e os intestinos de novo, o próximo será o fígado.

— Anestesie-o! — ordenou a outra curandeira.

— Stunners e anestesia não funcionam mais nele! — rebateu Granger.

— Cerquem-no com um feitiço de barreira — ele interrompeu alto a interação delas enquanto
acompanhava o ritmo pelo corredor, o atendente ao lado. A cabeça de Granger virou para ele
num golpe, os cachos soltos chicoteando ao redor da cabeça com o movimento.

— Cerquem-no — repetiu —. Selar temporariamente a magia dele — dá pra suspender


depois.

— Isso é altamente irregular — ofegou a outra curandeira. Ele percebeu que Granger
considerava sua sugestão, via o cérebro dela trabalhando rápido por trás dos olhos. Finch-
Fletchley começou a ter convulsões e a vomitar e ela voltou-se para ele quando o grupo parou
de repente no corredor, várias mãos tentando auxiliar.

— Cerquem-no! — Draco gritou para ela. O atendente ao seu lado correu para ajudar,
esquecendo-se completamente de Draco. Viraram Finch-Fletchley, a equipe tentando evitar
que ele se engasgasse com o vômito. O cheiro ácido impregnava o ar e ele quis vomitar.

— Eu não sei como! — ela retrucou enquanto bania o vômito e lançava outro feitiço de cura.
— O fígado se foi, ele está indo pros pulmões — disse frenética para a outra curandeira,
enquanto lançava um olhar ao diagnóstico pairando.

Draco cobriu a distância entre ele e Granger em três passadas e socou as mãos na perna de
Finch-Fletchley. Sabia que conseguia fazer aquilo sem varinha, a magia lhe fora ensinada
muito antes de ir para Hogwarts, mas fazia tempo que não executava nem um feitiço
pequeno. Sentiu um atendente puxá-lo quando começou a recitar e o sacudiu para longe,
concentrando-se.

— Todo mundo afaste! — Granger berrou de súbito, arrancando as próprias mãos para trás.
Os outros funcionários fizeram o mesmo, recuando um passo. Ele fechou os olhos contra a
expressão agitada dela para se concentrar, sentindo sua magia vinculando a de Finch-
Fletchley. Draco começou a suar — o esforço necessário para selar um adulto era muito
maior do que para selar uma criança. Também estava sem prática por ficar tanto tempo numa
cela; o esforço o exauria rapidamente.

As convulsões de Finch-Fletchley pararam e ele ficou mole. Houve um breve momento de


imobilidade absoluta no corredor enquanto ele terminava. Draco ergueu as mãos, mostrando
que concluíra, e um turbilhão de atividade recomeçou.

Ele recuou até encontrar uma parede para se apoiar, observando a equipe médica entrar em
ação, apressando a maca pelo corredor e tagarelando rapidamente. Granger foi com eles,
lançando um olhar de relance para ele apenas uma vez enquanto conjurava feitiço após
feitiço. O atendente que o esquecera voltou a derivar até ele e sinalizou para que seguisse
para o quarto.

Ele desabou na cama imediatamente, completamente drenado após a torrente de magia que
aquilo exigira. Não sabia quanto tempo dormira, mas acordou ao som da porta do quarto
abrindo e de passos. Confuso, tentou se levantar, mas foi imediatamente contido e empurrado
de volta à cama por um atendente. Ele ficou de súbito completamente desperto, o alarme
crescendo até que Pomfrey entrou.

A expressão dela estava crispada e severa, e um dos atendentes lançou um feitiço de escudo
ao redor dos três. Draco sentou-se, as costas rígidas como uma vara, e estreitou os olhos,
imediatamente irritado pelo tratamento heterodoxo.

— Explique-se, Sr. Malfoy — exigiu Pomfrey, a matrona médica tão imponente quanto ele se
lembrava dos tempos de escola. Infelizmente para ela, ele não a temia mais, especialmente
quando ela não impedia esse tipo de tratamento. Ele domou a expressão até uma de tédio,
tentando ocluir a fúria.
— Famílias bruxas às vezes precisam selar a magia de uma criança, especialmente se estiver
causando dano — disse, seco. — É como pôr um feitiço de escudo em volta dela. Famílias
bruxas antigas tendem a ensinar isso bem cedo.

— Estou ciente, Sr. Malfoy — disse ela friamente, e ele percebeu que não fazia ideia do
status de sangue dela. Muito bem poderia ser sangue-puro e ter aprendido o selamento por
conta própria. — O que eu gostaria de saber é por que você foi quem selou o Sr. Finch-
Fletchley.

— Granger não sabia como — disse, erguendo uma sobrancelha. — A outra curandeira não
parecia inclinada a tomar qualquer ação.

— E você o selou por desejo de salvá-lo? — A bruxa mais velha estava cética, a opinião dela
sobre o caráter dele claramente baixa.

Ele e Granger já estavam sob suspeita, e Pomfrey tinha um jeito de enterrar coisas que as
pessoas prefeririam manter escondidas. Para alguém que nunca saía da ala hospitalar de
Hogwarts, ela sempre parecia saber muita coisa.

— Se recorda, Madame, eu exprimi arrependimento por minhas ações no meu julgamento —


respondeu gelado. — Não estou querendo assassinar alguém que já está à beira da morte
diariamente.

— Você removerá o selamento a pedido da Curandeira Granger, no momento em que ela


solicitar — atirou Pomfrey. Ele inclinou a cabeça educadamente, a expressão gélida
inabalável enquanto ela saía do quarto num farfalhar de robes.

Draco até gostava de desestabilizar o curandeiro mental com seu silêncio total. O homem de
óculos fazia perguntas tão imbecis sobre seu tempo de guerra e, enquanto ele esbravejava
contra o tolo dentro da própria cabeça, Draco não dizia uma palavra em voz alta. Aquele
adulto feito, que claramente vivera as duas guerras bruxas e, ainda assim, nunca participara
— não tinha esperança de entender um único pensamento de Draco, muito menos a
complexidade de seus sentimentos. Como se ele fosse compartilhar aquele buraco negro
verificável das coisas que fora forçado a fazer para sobreviver com um completo estranho.
Preferia ocluir-se até um coma. Até agora, ocluir funcionava muito bem para todos os
sentimentos com que ele preferia não lidar.

Ele não se importava com o que Pansy dizia sobre isso eventualmente alcançá-lo.

No dia seguinte ao espetacular show pirotécnico interno de Finch-Fletchley, Granger


apareceu à sessão deles parecendo bastante privada de sono e apressada. Os robes estavam
tortos, o cabelo em um tumulto emaranhado pela cabeça, e ele notou manchas de tinta nos
dedos e pulsos quando ela arregaçou as mangas.

— Tudo certo aí, Granger? — Ele perguntou quando ela lançou um diagnóstico sem
cumprimentá-lo. Ela tinha o prontuário dele numa mão e a varinha na outra, a mão da varinha
pendendo. A pele sob os olhos estava num roxo claro e ele suspeitou, de repente, que ela
usava de fato os mesmos robes de ontem.
— Sim, desculpe — como você está? — disparou, sacudindo a cabeça como para clareá-la.
Ele assistiu, divertindo-se mal disfarçado, enquanto ela tentava conjurar a pena tendo as duas
mãos ocupadas. Ela apareceu no ar e despencou em espirais até o chão. Ela piscou por um
momento, confusa, antes de suspirar.

— Claramente melhor do que você. Você parece não ter dormido.

— Porque eu não dormi — respondeu, voltando a ficar de pé após recolher a pena. Fez
algumas anotações no prontuário, alheia à carranca dele.

— Já se passaram pelo menos 15 horas desde o incidente de ontem — você ficou aqui o
tempo todo? — exigiu.

Ela fechou o prontuário com um estalo e estreitou os olhos. — Eu precisava monitorar meu
paciente. Sua “ajuda” foi sem precedentes e precisávamos garantir que as poções ainda
surtiriam efeito com a magia dele selada. Felizmente, o selamento não pareceu afetar a forma
como poções funcionam com um ser mágico típico.

— Você não pode desfazer um ser mágico, não importa o que a Comissão tenha tentado.

— Graças a Merlin por isso — resmungou, limpando o diagnóstico. — Vamos esperar até ele
terminar de se recuperar antes de pedir que você remova o selamento. Vim aqui antes de ir
pra casa porque tenho outra teoria sobre os Fulminators com base no episódio de Justin
ontem.

Ele não tinha percebido que tinham tentado fazer de Finch-Fletchley um Fulminator. Que
diabos deu errado no experimento de Finch-Fletchley?

— Agora acho que isso é calibrado ao seu estado emocional. Difícil confirmar para você
especificamente quando você não fala sobre os incidentes com sua curandeira — ele recebeu
um olhar pontudo com essa frase, que ignorou —, mas com base no que vi entre você e
Justin, faz sentido. Acredito que tenha sido projetado como um mecanismo de defesa para
proteger as forças de Voldemort — está se aproveitando da sua resposta de luta ou fuga. As
pessoas congelam quando entram em pânico ou experimentam medo intenso e, em vez de
treinar seus soldados para responder de modo diferente, o que pode levar um tempo
significativo, ele arma suas emoções.

Ela era absolutamente brilhante. Tudo fazia perfeito sentido quando ela colocava nesses
termos. Mas—

— Então como pretende tratar uma condição baseada no meu estado emocional? Mais cura
da mente? — arrastou as palavras. Ele realmente esperava que não.

Ela balançou a cabeça, os cachos pulando loucamente. — Se você é tão bom em Oclumência
quanto alegou ser durante o julgamento, Pomfrey e eu achamos que talvez consiga deter as
explosões antes de começarem, se você ocluir quando começar a sentir qualquer tipo de medo
ou pânico. É uma medida temporária — advertiu, e então lhe deu um sorriso cansado —, mas
se descobrirmos que funciona, você terá outra camada de permissão. Passes diurnos, sem
contenções e coisas do tipo.
Um pouco do exaustão desapareceu dela enquanto falava, claramente revigorada por um
avanço na teoria sobre sua condição. Ele nunca pensou que sua oclumência seria tanto a
chave para sobreviver à maldita guerra quanto para sair de St. Mungo’s. Engoliu um nó na
garganta ao pensar em uma medida sequer pequena de liberdade. Não via o mundo lá fora
fazia sete meses. — E qual é o próximo passo? — crocitou.

Ela lhe deu um sorrisinho pequeno, quase maldoso, e o coração dele acelerou.

— Desta vez, a gente realmente vai ter que te assustar.


Capítulo 14

Janeiro de 1999

Hermione dormiu boas 12 horas seguidas depois do épico caos que foi Malfoy selando Justin.
Pela primeira vez em meses, teve um pesadelo de tirar o fôlego e, quando acordou, não
conseguia lembrar do que se tratava.

Ficou claro que o sobressalto de Justin com aquela curandeira desajeitada derrubando todas
aquelas poções foi o que desencadeou seu episódio — ele parecia estar tendo um ataque de
pânico além de se autodestruir. O abuso e a experimentação que sofrera às mãos da
Comissão, na tentativa de transformá-lo em um obscurus, o haviam tornado o oposto de um
Fulminator. Quando sentia pânico ou medo, ele não conseguia controlar a reação de destruir,
mas de alguma forma a contivera em si mesmo em vez de ferir outros. Ela suspeitava
fortemente que Justin fosse um excelente oclumente e que era por isso que conseguia conter.
Pelo que podia dizer, era também a única razão pela qual Malfoy conseguia controlar qual
feitiço saía. Vários dos Fulminators não tinham controle nenhum sobre nada — estavam
puramente à mercê de suas emoções.

Emoções que tinham sido transformadas em arma.

Era engenhoso, apavorante pra cacete e mais que um pouco insano. Quem arma as emoções
de um adolescente? Voldemort não fazia ideia de quão instável é o adolescente médio?
Hermione tinha dezenove anos e estava prestes a sair da fase adolescente, e suas emoções
ainda pareciam um pêndulo em alguns dias!

Acordou desorientada e demorou tempo demais para perceber que era fim de semana. Tinha
pesquisas a fazer e tratamentos a explorar. Depois de duas xícaras de café, um bilhete para
Narcissa sobre a esperança de visitar a biblioteca nos próximos dias e um banho, Hermione
saiu para a mercearia com Ginny a reboque. Ginny e Harry fariam um jantar em Grimmauld
naquela noite para celebrar a mudança oficial de Ginny. A artilheira tinha viajado pela lareira
para a casa em algum momento da noite passada, enquanto Hermione estava em coma. Pelo
sorriso dos dois no café da manhã, ou ela dormiu profundamente ou o casal finalmente
aprendera a conjurar direito feitiços de silenciamento.

Ginny tagarelou sobre os planos do jantar, mencionando que Ron e Luna viriam, junto com
George e Angelina. A atenção de Hermione derivou um pouco, pensando no estado atual de
Fred e em como diabos ela deveria literalmente assustar o feitiço para fora de Malfoy.

— O que você acha, Hermione?

Ginny a olhava ansiosa agora e Hermione piscou. — Hã, desculpa? Perdi essa última parte.

A amiga não pareceu ofendida. — Quer que eu te mostre a cozinhar com magia? O Harry me
disse que vocês dois têm feito do jeito trouxa.
Hermione concordou entusiasmada. Tinha aprendido alguns pequenos feitiços de cozinha
com Molly, mas sempre que precisara cozinhar para si fora de Hogwarts tinha sido antes de
poder usar magia fora da escola, assim como Harry. Ambos lidavam com o básico e seguiam
receita, mas nenhum chegava perto de algo como a comida da Molly.

Ginny, porém, tinha bem mais exposição à cozinha mágica e era uma fera no fogão, pelo que
Hermione notara. Além do aspecto prático, ela adorava aprender novas habilidades.

A Harry coube a limpeza e a preparação das atividades da noite enquanto elas estavam fora.
Ele deu um gemido teatral quando recebeu as tarefas, ao que Ginny respondeu sussurrando
algo em seu ouvido que Hermione absolutamente não desejava ouvir. A expressão no rosto
dele fez com que ela deixasse a sala bem depressa, passando vários minutos lembrando
firmemente a si mesma sobre procurar um apartamento.

Depois de trazer para casa várias sacolas de compras e algumas garrafas de vinho, Hermione
e Ginny puseram mãos à obra. Ela dominou os feitiços de descascar e picar de imediato, o de
misturar veio logo depois. O feitiço para descascar ovos cozidos era significativamente mais
difícil e ela esmagou três ao lançar agressivamente demais. Ginny assumiu os ovos depois
disso e a deixou preparando o molho.

O de engrossar molhos exigiria estudo adicional, notou azeda enquanto inspecionava uma
colherada. O molho de mostarda para o frango estava fino demais e seu movimento de
batedor também precisava de trabalho. Ginny bastou olhar para mandar que ela subisse para
trocar de roupa, banindo o molho e recomeçando.

Ron e Luna chegaram pela lareira na sala logo quando ela desceu, usando um vestido simples
florido e os cachos soltos. Eles cumprimentavam Harry quando ela entrou — Luna entregava
a ele uma grande planta envasada com flores rosas e roxas. Hermione abraçou os dois assim
que Harry pegou a planta florida de Luna.

— Hã, obrigado, Luna — disse ele, olhando a planta. O olhar passou a Ron e ele ergueu uma
sobrancelha.

— É um Puffapod — disse ela sonhadora, sem notar o olhar que ele lançava a Ron.

— Eu sei, lembro de Herbologia. Alguma razão em particular? — perguntou Harry.


Hermione notou Ron ficando vermelho e evitando contato visual.

— Eles são o ingrediente principal em poções de fertilidade — disse Luna, ainda naquele tom
leve e etéreo. — Já que você e a Ginny vão morar juntos oficialmente.

— Ah, é, nós não— isso não— — Harry tentou, e falhou, explicar apressado, mas Luna se
afastou rumo ao hall da frente enquanto ele falava, arrastando um Ron vermelho-beterraba.

— Vamos dar um oi para a Ginny — disse ela levemente enquanto desciam as escadas.

Harry olhou desamparado para Hermione e então de volta para a planta, fitando-a por vários
longos momentos. — Não acho que os Weasley precisem de ajuda com fertilidade —
murmurou por fim, as orelhas corando. Hermione apertou os lábios para não rir.
— Bem — começou, a voz tremendo um pouco de graça —, podia ter sido pior? Ela podia
ter trazido a poção em si. A gente podia ter servido no jantar, como vinho.

Harry lançou-lhe um olhar exasperado por cima dos óculos. — Continua falando e vê o que
eu te dou de presente de inauguração, tá? Ovos de dragão, talvez?

— Eu ainda não encontrei um lugar — apontou ela, semicerrando os olhos. Ele deu de
ombros.

— Você é bem-vinda aqui pelo tempo que quiser, mas eu sei que você tem procurado.

Hermione assentiu e observou-o colocar a planta numa mesinha antes de fazer sinal para que
ela seguisse na mesma direção que Luna tomara.

— Não tem muita luz aqui — aconselhou quando ele se pôs ao lado dela. — Não sei se vai
sobreviver nesta sala.

— Eu sei — disse ele, presunçoso, os olhos verdes cintilando. — Se eu não deixar morrer de
causas naturais, a Ginny pode pôr fogo. Ela provavelmente vai achar que é má sorte.

— Bom, vamos torcer para você ser melhor em feitiços contraceptivos do que em feitiços de
silenciamento.

George e Angelina chegaram pouco depois, batendo à porta da frente e despertando


Walburga. O mais velho dos Weasley claramente lembrava da pintura, e ela dele — passaram
vários minutos tentando calá-la quando ela começou a berrar com ele sobre abuso.

— Que foi isso tudo? — exigiu Ginny, um pouco ofegante pelo esforço de pôr as cortinas no
lugar de novo. Foram precisos quatro para fechá-las, de tão forte a ira de Walburga. George
ficou levemente vermelho, as sardas sumindo enquanto a cor se espalhava pelas bochechas,
para o crescente interesse de Angelina.

— Deve ser bom se essa é a sua reação. Conta logo — disse ela, encantada. Ela inclinou a
cabeça, o cabelo escuro balançando com o movimento. George suspirou.

— Vinho primeiro, tá? — pediu. A turma foi para a cozinha, tomando assento ao redor da
mesa de madeira que Harry ampliara magicamente para a noite. Ginny jogara por cima uma
toalha vermelho-escura e pratinhos dourados de aperitivos estavam dispostos. A ruivinha
ergueu a varinha e o vinho começou a se servir sozinho diante de cada convidado enquanto
os aperitivos passavam de mão em mão.

— A gente pode ter tentado colar um bigode nela — disse, tentando e falhando manter um ar
casual enquanto a garrafa de vinho tinto flutuava. As bochechas dele estavam quase da cor do
vinho e ele agarrou apressado um ovo recheado e enfiou na boca.

Todos sabiam quem ele queria dizer com “a gente” e decidiram evitar o assunto naquela
noite.
— De quem era o bigode? — exigiu Ginny, brandindo uma colher e fazendo Hermione virar
a cabeça na direção da caçula Weasley. Ela teria imaginado que fosse um falso, mas o
comentário de Ginny implicava que tinham roubado o bigode de alguém.

— Do Lupin — veio a resposta resmungada. Os olhos de Hermione se arregalaram quando


Ron caiu na risada. Bem, isso certamente explicava a aparência subitamente de rosto liso do
professor esguio no sexto ano, após ostentar aquele bigode por anos. Levou quase um mês
inteiro para ele voltar a crescer.

Ron e Angelina uivavam de rir com essa revelação. Hermione soltou uma risadinha de
incredulidade enquanto Ginny e Harry sorriam, primeiro um para o outro e depois para
George. George deixou escapar um pequeno sorriso, mas com um toque de tristeza.

Luna perguntou como conseguiram tirar o bigode do rosto de Lupin, o que lançou George
numa reconstituição de um truque esperto de magia que ele e Fred tinham experimentado,
uma combinação de um feitiço de remoção de pelos com um de estase. Infelizmente, a parte
de remoção do feitiço significara que um feitiço de colagem era incompatível com ele,
tornando o bigode inutilizável para a pintura.

— Então o que vocês fizeram com ele? — perguntou Ginny enquanto começava a servir o
jantar, os pratos completos voando com precisão aos respectivos donos assim que ela
terminava cada um.

— Transfiguramos num morcego e levamos de volta para Hogwarts, mas ele escapou — deu
de ombros.

Ou a transfiguração não se manteve e se desfez numa pilha de pelos em algum lugar, pensou
Hermione. Era magia demais para só uma pilha de pelos. Pelos não tendem a reter magia por
muito tempo — é por isso que aquela Poção Sleekeazy para cabelo normalmente só funciona
por algumas horas.

O jantar estava delicioso, o que Hermione sentiu dever-se principalmente a Ginny. A


conversa virou para Quadribol, o que então virou para trabalho, já que estavam entrelaçados
para Ginny. Os amigos sabiam que Hermione não podia dizer muito sobre o emprego, mas
ela apreciou que perguntassem mesmo assim e respondeu genericamente. Os que sabiam da
situação com Malfoy guardaram para si por ora e ele não foi mencionado.

O burburinho estava alto, arranhando os nervos. Em vez de participar, ela se viu voltando a
pensar em assustar Malfoy. Assustá-lo exigia percepção sobre ele que ela não tinha.

Talvez eu devesse tentar falar com os amigos dele? Embora eu duvide que Blaise vá ajudar
muito…

— “…depois que eu cheguei lá, ele foi e—”

Perguntar aos pais dele seria realmente constrangedor. Não tenho certeza se eu teria uma
resposta de Lucius, mesmo se isso ajudasse o filho…

— “…se pensaria que as pessoas já teriam aprendido a essa altura a não—”


Embora eu realmente precise saquear a biblioteca deles. Não só pelo Malfoy, mas pelo Justin
e pelo Dennis também. O Dennis parece estar definhando…

— “…realmente não quero—”

— Hermione, você tá bem?

A última parte foi dita de leve por Harry, perto do fim da refeição. Ele estava à direita dela à
mesa e notara sua falta de participação, olhando-a com curiosidade. Ela lhe deu um sorriso
tenso e perguntou como o trabalho ia.

Ele não se deixou enganar, mas deixou passar. — Difícil — disse, direto. — Ainda não
conseguimos aprovar Veritaserum para ninguém que não tenha julgamento nos próximos
meses, já que é difícil de fazer e os estoques nacionais estão baixos. A Associação de Poções
vem trabalhando para reabastecer os estoques dos Aurores, mas anda lento. E não são só
curandeiros pedindo informação — agora estamos recebendo perguntas dos Inomináveis
também. Você viu que o julgamento do Dolohov tá chegando?

Ela assentiu, tendo recebido um pedido para montar um testemunho sobre a incursão deles no
Departamento de Mistérios no quinto ano. A acusação queria usar o ataque de Dolohov como
parte do caso contra ele.

— Bem que eu achei — respondeu Harry quando ela disse isso —, nós também estamos
recebendo perguntas deles sobre aquilo. Aparentemente alguns itens sumiram naquela noite,
mas claro que eles não nos dizem o que. Torna o interrogatório um tanto difícil mesmo com
Veritaserum.

— Os julgamentos dos Lestrange são este mês também — comentou Hermione. Harry
assentiu sombrio.

— Pegamos a maioria dos foragidos que não foram presos imediatamente em maio. A
maioria não são peças grandes, exceto Yaxley.

— Yaxley não foi pego? Ele não estava trabalhando com a Comissão? — exigiu Hermione.

— Tava, mas desapareceu alguns dias antes da batalha final. Vamos achar ele eventualmente.

— Ei! — chamou Ron do outro lado da mesa, atraindo a atenção de todos de uma vez. Ele
fez uma pausa ao ver seis pares de olhos cravados nele, o silêncio bastante repentino.

— O que tem de sobremesa? — perguntou, sem graça.

No fim do fim de semana, Narcissa havia respondido oferecendo que ela viesse depois que
terminasse o expediente na quinta-feira. Hermione teve um cuidado extra aquela manhã ao
escolher a roupa, decidindo-se por um vestido envelope cinza-escuro, de mangas compridas,
que ia até logo abaixo dos joelhos. Era profissional e ajustado ao corpo, algo que poderia usar
tanto no trabalho quanto num jantar. Ginny a convencera a comprá-lo durante uma das
excursões, insistindo que tinha cara de encontro.

Não que eu tenha tido um desses desde, ah, o quarto ano…


Os robes verdes de curandeira esconderam o vestido durante o dia, o que foi uma sorte
porque ela derramou um tinteiro em si mesma e em três prontuários logo após o almoço. Os
prontuários ela conseguiu salvar com um rápido feitiço de banimento, mas os robes ficaram
encharcados pela frente toda.

— Fantástico — resmungou para si, tendo-os tirado na estação dos curandeiros. Um olhar
rápido revelou que a tinta não chegara a atravessar até o vestido, e ela mediu os robes com os
olhos, pensando se poderiam ser salvos ou se seria melhor jogá-los fora.

— Jogue isso no lixo, Granger, você nunca vai tirar a tinta — informou uma voz firme.
Hermione ergueu os olhos e encontrou Pansy diante do balcão, quase gemendo em voz alta.

O cabelo preto dela estava preso num coque profissional naquele dia, o terno preto destacado
por uma camisa branca social de colarinho. As calças eram de cintura alta e a camisa estava
com vários botões abertos, emanando sem esforço tanto vibração profissional quanto
provocante. Hermione queria sentir-se ao menos metade tão arrumada e sexy quanto Pansy
parecia naquele momento.

— O que você quer, Parkinson? — Hermione encolheu os robes e os jogou na lixeira antes de
se virar para encarar a bruxa irritante.

— Preciso falar com minha cliente. Aparentemente há algumas questões éticas envolvendo
um plano de tratamento.

— Eu ao menos quero saber?

— Visto que é o seu plano de tratamento, sim — foi a réplica ácida de Pansy. Hermione
franziu o cenho.

— Se isso é a respeito do Malfoy e da necessidade de confirmar a condição dele assustando-


o, garanto que confirmamos que é perfeitamente ético — disse Hermione severamente,
endireitando-se e usando sua melhor voz de curandeira. — Por mais heterodoxo que pareça,
precisamos de um diagnóstico confirmado antes de poder tratá-lo.

— Aterrorizá-lo de propósito, quando você tem múltiplos incidentes registrados da


manifestação da condição dele e do como, é completamente desnecessário — sibilou Pansy,
os olhos se estreitando enquanto abria as mãos sobre a mesa.

— Os incidentes foram registrados, mas o estado emocional dele não — rebateu Hermione,
exaltada. Já tivera que defender esse plano à exaustão para Pomfrey e agora Parkinson, sem
nenhuma formação médica, parecia achar que sabia mais?

— Ele se recusa a falar com um curandeiro da mente — continuou desabafando —, então não
temos confirmação de que ele explode quando entra em pânico ou sente medo. Eu não posso
tratá-lo eticamente sem confirmação, então, a menos que você tenha uma ideia melhor,
Parkinson…

— O que você está planejando fazer? — cortou Pansy, seca. Hermione parou, ainda fervendo,
e notou três atendentes assistindo ao embate de boca aberta. Ela descrispou os punhos e saiu
de trás do balcão.

— Sigilo paciente–curandeira, Parkinson — disse, curta. — Café?

Pansy a avaliou por um momento antes de virar as costas para os atendentes. — Adoraria,
Granger. Mostre o caminho.

A conversa com Pansy acabou inútil. Hermione confiou que na verdade não fazia ideia de
como assustar Draco, ao que Pansy deu um muxoxo e disse algo nada elogioso sobre a
inteligência e a visão dela. Fora uma conversa relativamente curta.

Hermione apoiou a cabeça nas mãos de volta à estação dos curandeiros, encarando o café
sem vê-lo. Como vou assustar alguém que aparentemente não tem medo de nada? Todo
mundo tem medo de alguma coisa, do contrário o seu bicho-papão…

Ela se endireitou num sobressalto, quase virando o café. Era isso. Ela nem precisava saber do
que ele tinha medo porque um bicho-papão saberia e projetaria. Malfoy não poderia saber
que era um bicho-papão, porém, ou talvez não atingisse o nível adequado de medo ou pânico.
Era perfeito. Exceto…

Onde diabos vou arranjar um bicho-papão?

No segundo em que atravessou a lareira dos Malfoy, um elfo doméstico pipocou à sua frente.
Hermione mal teve tempo de registrar o branco brilhante do átrio antes que o elfo a estivesse
conduzindo para fora do aposento. Não era o mesmo da festa de Ano-Novo e tagarelava feliz
enquanto a guiava por uma série de corredores e subia um lance de escadas. Hermione tentou
sacudir discretamente a fuligem do vestido, alisando o tecido cinza enquanto iam.

— A Senhorita está muito feliz que a Senhorita Granger veio pegar livros emprestados —
disse o elfo, antes de engatar numa longa explanação sobre livros de cozinha de que o elfo
gostava. Hermione ouviu educadamente e tentou formular respostas, mas o elfo não parecia
precisar delas, perfeitamente contente com uma conversa totalmente unilateral. Ela se
perguntou, de leve, se aquele elfo conhecia o Kreacher e se passava os dias falando tanto que
arrancava as grandes orelhas do elfo rabugento.

Foi conduzida a um grande vão em arco. O elfo desejou-lhe um bom dia antes de estalar e
sumir, sem esperar resposta. Hermione não tinha certeza de que teria conseguido responder
de todo modo, pois dera um passo para dentro do arco e ficara completamente sem fala.

Era uma biblioteca linda, lembrando Hermione daquela que vira quando estava de férias na
Irlanda com os pais um verão. Estantes altas, de madeira escura, erguiam-se em fileiras em
dois andares, altas o suficiente para exigirem aquelas escadas deslizantes de madeira que os
trouxas usam, exceto que não havia nenhuma à vista. Duas escadarias em caracol,
intrincadamente talhadas, uma de cada lado do aposento, levavam ao segundo nível, um
corrimão de madeira decorativo ladeando o piso superior onde se abria para o restante do
cômodo.
No centro da sala, no pavimento principal, diretamente diante das janelas, havia um conjunto
de escrivaninhas. Longas e retangulares, de madeira escura e imponentes, ficavam de frente
uma para a outra, cerca de quatro metros e meio separando-as. Cadeiras de madeira escura
com almofadas verdes macias estavam colocadas junto a ambas. Janelas de caixilho altas
ficavam atrás delas, embora, de onde estava, Hermione não pudesse dizer o que mostravam.

Dava para ver as escrivaninhas do corrimão do segundo andar — de fato, notou enquanto
virava um pouco, elas estavam visíveis de praticamente qualquer ponto da biblioteca.
Claramente pensadas para serem um ponto focal, ela supôs que uma fosse de cada um dos
pais dele.

Enquanto o pensamento nos pais dele lhe atravessou a mente, Narcissa apareceu no arco e
aproximou-se, recebendo-a com polidez e oferecendo chá. Hermione aceitou e elas se
mudaram para uma mesinha redonda, à esquerda da entrada. Narcissa chamou e pediu o
serviço por meio de um dos elfos enquanto Hermione se remexia, tentando achar conforto na
cadeira de madeira ornamentada e dura, definitivamente mais estilo do que conforto.

Sobre o que exatamente se conversa com a mãe do seu quase-namorado, que até muito
recentemente você achava que odiava a sua mera existência, na casa em que você foi
torturada, na biblioteca mais adorável que você já viu?

Ficando no assunto mais seguro, arriscou: — A biblioteca é absolutamente encantadora.


Agradeço a gentileza de me permitir pegar livros emprestados.

O canto da boca de Narcissa se ergueu, muito de leve. — Sim, Draco comentou que você
ama ler.

Hermione se perguntou se o comentário fora antes ou depois da pulseira. Na ocasião, ele


estaria reclamando ou elogiando?

O serviço de chá apareceu de repente na mesa, impedindo conversa por alguns momentos
enquanto preparavam suas xícaras. Hermione recostou, as mãos envolvendo a xícara,
enquanto Narcissa segurava delicadamente a xícara e o pires, uma em cada mão, sentando-se
rígida como um pilar, tal qual o filho costumava.

— Como ele está? — indagou Narcissa, os olhos fixos na xícara.

Hermione pensou em sua interação com Malfoy naquela tarde. Ele deixara muito claro que
gostara do vestido, tanto do caimento quanto da cor, por meio de uma analogia com pele de
dragão. Ele lambera os lábios inconscientemente ao fazer o comentário, puxando os olhos
dela para a boca dele. Ele com certeza a pegara olhando, se aquele sorrisinho tivesse sido
algum indicativo.

— Ativo — disse, seca. — Ele finalmente atingiu um peso saudável, a pele tem alguma cor, e
parece manter-se ocupado. Você visita com frequência?

Narcissa meneou ligeiramente a cabeça, aninhando a xícara. — Prisão domiciliar significa


que Lucius e eu só podemos ir depois de receber permissão tanto do DMLE quanto de St.
Mungo’s. Infelizmente, eles não têm sido dos mais… complacentes.
O pequeno sorriso era triste e o coração de Hermione apertou. Terem sido separados
enquanto todos estavam encarcerados e ainda sujeitos a interações limitadas, e monitoradas,
oito meses depois… ela se compadeceu da mãe dele. As interações monitoradas estavam
matando Hermione; não conseguia imaginar como era para ele e para os pais.

— Não posso lhe contar tudo por conta das leis de sigilo paciente–curandeira, mas posso
compartilhar que ele parece ir bem, consideradas as circunstâncias. Ele está estudando para
os N.O.M.s por correspondência.

— E importunando várias publicações, eu notei — respondeu Narcissa, discreta. Hermione


corou escuro.

— Como você…?

— Uma amiga minha é dona da Witch Weekly. Recebi uma carta muito interessante no
mesmo dia em que a retratação foi impressa.

Hermione não sabia se podia ficar mais vermelha e pousou a xícara bruscamente. — Garanto,
Sra. Malfoy, que eu—

Narcissa acenou uma mão pálida, cortando-a. — Sei que você não teve nada a ver com isso.
Os machos Malfoy podem ser bastante… protetores. Possessivos.

Andrômeda mencionara isso.

A mãe de Malfoy a mediu, especulativa. — Ele foi a grandes comprimentos por você, sabe
— disse baixinho a Hermione.

Os olhos de Hermione se arregalaram e ela inspirou fundo e prendeu o ar. Quanto a mãe dele
sabia?

Narcissa fechou os olhos por um momento e respirou trêmula, claramente mantendo algo à
distância, antes de abri-los e um brilho de resolução de aço surgir.

— Agora mesmo estou tentando conseguir a liberação dele — disse Hermione lentamente à
outra bruxa, observando a mudança dramática no semblante dela. O que diabos eu deveria
dizer? Pois é, Sra. Malfoy, estamos perdidamente apaixonados apesar de isso poder por em
risco meu emprego e de nunca termos tido uma conversa de verdade. Eu sou suscetível a um
babaca que de repente decide me dar algo brilhante e dar em cima de mim.

— E depois…? — A expressão fechada de Narcissa lembrou fortemente Hermione de


Malfoy quando ocluía.

— O que ele escolher perseguir depois que for liberado é assunto dele — disse-lhe
firmemente. Não fosse pela ajuda dele durante a guerra e pela pulseira, a essa altura
Hermione teria atribuído o interesse dele a síndrome de Estocolmo. — Não me oponho a
passar mais tempo com ele se ele pedir.

Ele vai ter que pedir se quiser aquele maldito anel de volta tão cedo.
Já haviam deixado o comportamento dele na escola para trás, embora ela ainda quisesse uma
explicação de onde raios viera esse desejo por ela, o suficiente para lhe enviar a pulseira e
fazer todos aqueles comentários sugestivos. Ela não era exatamente sem graça, mas
definitivamente não era nenhuma Pansy Parkinson, a última namorada dele de que ela tinha
conhecimento.

Ambas terminaram o resto do chá rapidamente, a conversa passando a como a biblioteca era
organizada. Narcissa fez um panorama de cada seção. Quando terminaram e o serviço de chá
desapareceu, levantaram-se e Narcissa gesticulou em direção às escrivaninhas.

— A da esquerda é a de Draco, a outra é a de Lucius. Se quiser começar uma pilha, terá de


usar esta mesa, pois as escrivaninhas só podem ser usadas pelos homens Malfoy. — A boca
dela torceu um pouco. — A biblioteca não conjura escrivaninhas para mulheres, receio.

— A biblioteca parece bastante sexista — disse Hermione, erguendo as sobrancelhas.


Narcissa riu.

— É um infeliz pedaço de magia antiga que não conseguimos corrigir. O que é até bom —
Narcissa repentinamente elevou a voz, olhando para cima como se falasse com o próprio
aposento —, já que as cadeiras aqui são terrivelmente desconfortáveis.

As cadeiras retas de madeira que Hermione e Narcissa haviam acabado de deixar


desapareceram, dando lugar a poltronas estofadas. Um estofado de paisley berrante e
contrastante cobria o tecido e Narcissa recuou.

Hermione examinou as novas cadeiras. Não era de espantar que Malfoy usasse a Sala Precisa
com facilidade em Hogwarts — ele tinha um cômodo similar em casa.

— Ela pode ajudar na busca por um livro, ou fornecer coisas de que você precise —
continuou Narcissa, lançando às novas cadeiras um olhar altivo. — Ela fornece uma
escrivaninha para os homens da casa assim que atingem a maioridade. Lucius e Draco
conseguem tirar muito mais proveito das capacidades do aposento do que eu. Ela não vai
machucá-la — tranquilizou Narcissa —, só pode não ser muito útil. Eu sugeriria tentar
encontrar os livros sozinha para começar.

Hermione assentiu e Narcissa a deixou a sós, dizendo para levar quantos livros quisesse pelo
tempo que precisasse. Quando estivesse pronta para sair, disse Narcissa, um elfo doméstico
apareceria no momento em que ela deixasse a biblioteca, pois ela tinha alguns assuntos a
tratar e talvez não estivesse disponível por algum tempo.

Ela foi direto ao segundo andar, perto das janelas, assim que Narcissa se foi, indo onde a
outra bruxa havia indicado que se localizavam livros de História da Magia. Hermione queria
primeiro investigar aquele obscurial e descobrir o que acontecera com ele, antes de ver se
havia livros sobre selamentos, magia da alma ou magia emocional.

Depois de vasculhar vários livros de história em busca de qualquer menção a Credence


Barebone ou a um obscurial durante a Guerra Bruxa Global e não encontrar nada, Hermione
decidiu seguir em frente por ora. Parecia que o destino dele se perdera no tempo e ela já
passara bastante tempo em geral tentando descobrir o que lhe acontecera. Mudou para uma
seção nos fundos do primeiro andar, mais perto da entrada, onde havia alguns livros sobre
feitiços básicos de cura. As duas primeiras prateleiras não pareciam ter nada relevante, mas a
terceira tinha um tomo que parecia ter algo a ver com magia baseada em emoções, que estava
um pouco acima do alcance dela.

Sem ver escadas ou banquinhos por perto, Hermione conjurou um — apenas para ele
desaparecer no segundo em que ergueu o pé para subir. O mesmo aconteceu quando conjurou
uma cadeira. Accio tanto para o livro quanto para uma cadeira não surtiu efeito. Tentar trazer
fisicamente a cadeira teve o mesmo resultado. A atmosfera estava opressiva, uma sensação
distinta de falta de acolhimento a pressioná-la.

— Preciso pedir com jeitinho ou algo assim? — perguntou ao aposento, azeda, já de saco
cheio. — Posso dar uma olhada em “Raiva e Oportunidade”, por favor?

Quando nada aconteceu, ela estreitou os olhos para o topo da estante. — Bem, então acho que
vou ter que deixar o Draco sentado em St. Mungo’s para sempre, não vou?

O livro deixou o lugar e despencou abruptamente em sua direção, rápido demais para que ela
o apanhasse. Ela se puxou para trás, por pouco evitando que lhe acertasse a cabeça. O tomo
bateu no chão com um estrondo e ela lançou um olhar carrancudo para a estante.

— Ele vai ficar lá mais tempo se você me machucar! — sibilou Hermione para o móvel,
curvando-se para pegar o livro. Ele não se mexeu, colado ao chão como se tivesse um Feitiço
de Adesão Permanente. Hermione soltou um ruído irritado e brandiu a varinha.

— Vou soltar fiendfyre aqui e reduzir este lugar a cinzas, pode apostar — disse ao aposento,
pondo-se de pé e girando devagar com a varinha em punho. — Não tenho zero apego a este
lugar — entre você e a sala de visitas, duvido muito que eu fosse responsabilizada
criminalmente ou que o Draco se importasse.

A pressão no aposento afrouxou e uma sensação leve, quase interrogativa, a substituiu. Ela
ainda encarava o espaço, carrancuda, sem saber se fora a ameaça ou o nome de Malfoy que
mudara a atmosfera. Hermione se abaixou com cautela, mantendo-se alerta, a varinha ainda
erguida, e pegou o livro.

— Assim está melhor — disse em tom sombrio, aninhando o tomo ao peito.

Uma hora depois, já acumulara vários livros promissores sobre almas, sobre a criação de
maldições e azarações, um sobre magia das trevas que tinha resultados com som semelhante
aos dos seus pacientes e um sobre técnicas de terapia que talvez fossem úteis de modo geral,
especialmente ao lidar com pacientes que não queriam falar com o curandeiro da mente.

Empilhando suas escolhas na mesinha com a intenção de carregá-las nos braços pela casa até
a lareira — preocupava-se que pudessem se danificar no seu saco de contas cavernoso —, ela
deu um leve sobressalto quando uma grossa tira de couro apareceu tranquila sobre a mesa.

— O que é isso então? — perguntou ao aposento, pegando-a. Havia uma fivela e ela
percebeu que era uma cinta de livros. Enrolando-a ao redor da pilha e prendendo a fivela,
ergueu a pilha para descobrir que havia um feitiço de leveza, tornando-os sem peso.
— Isso é bem atencioso, obrigada. Vou ter o cuidado de devolvê-la junto com os livros.

Virou-se para o arco e deu de cara com Lucius Malfoy observando-a, uma sobrancelha
erguida.

O coração dela saltou à garganta por um instante, sem saber há quanto tempo ele estava ali.
Teria ele ouvido ela falando com a biblioteca dele?

— Srta. Granger — disse aquela voz aveludada enquanto ele dava alguns passos na direção
dela, a postura rígida. — Encontrou tudo de que precisa, presumo?

Hermione endireitou a própria postura, apertando firme a cinta de livros numa mão. — Por
ora. Eu já estava de saída.

— Tão cedo? — Ele lançou um olhar à cinta, a sobrancelha tremendo de leve antes que
alisasse a expressão. — Você não gostaria, talvez, de mais chá?

Pela expressão no rosto, ele poderia envenenar se ela aceitasse. Hermione o encarou fria.

— Não? Bem, volte em breve. Não gostaríamos que alguém sentisse sua falta.

Os olhos de Hermione se estreitaram, perguntando-se se o comentário era sobre o livro que


quase lhe caíra na cabeça. Teria Lucius sido o responsável pela natureza hostil da biblioteca
no começo? Ou ele fazia alguma espécie de piada a respeito dela e do relacionamento
atualmente estático com o jovem Malfoy. Decidiu que não gostava de nenhuma das
interpretações. Dando-lhe uma despedida de som bastante desconfiado, passou pelo arco,
seguiu o elfo que apareceu até a lareira e suspirou aliviada quando estava de volta a
Grimmauld.

Sonserinos demais para um dia só.

Depois de uma longa semana de pacientes, pesquisas e mais aulas de culinária mágica com a
Ginny, Hermione passava a manhã de sábado procurando apartamento do outro lado de
Londres em relação a Grimmauld. O atual que ela estava visitando era claro e moderno —
janelas longas do chão ao teto na área principal exibindo o sol aquoso da manhã. Um quarto
grande, um banheiro e uma cozinha espaçosa. Hermione achou perfeito, embora estivesse no
limite superior do seu orçamento. Tinha um pouco de dinheiro dos pais, o que recebera com
sua Ordem de Merlin, Primeira Classe, e seu salário, mas ainda assim — Londres não era
barata, fosse trouxa ou bruxa.

A corretora lhe fez o tour, apregoando todos os recursos com uma voz nasalada. Era o lugar
mais bacana que ela tinha visto até então, mas longe tanto do trabalho quanto do Harry.

Não que isso importe com lareira e aparatação, percebeu de relance, espiando
obedientemente um armário que a corretora abriu para sua inspeção. O bairro também era
agradável, refletiu. Muitas lojinhas e restaurantes para onde se poderia ir, talvez passear pela
rua com um certo alguém.
Você está se adiantando.

Agradeceu à corretora ao fim do tour e combinou de ver os dois últimos lugares em que
olhariam, ambos mais tarde na semana, antes de tomar uma decisão. Distância física não era
importante e o apartamento era lindo, mas ela precisava conferir de novo os números do
orçamento antes de se comprometer.

Ela voltou a Grimmauld, o apartamento momentaneamente esquecido assim que abriu a


porta. A visão do Harry, sem camisa e visivelmente mais musculoso do que na última vez em
que o vira sem camisa na tenda durante o ano em fuga, fez com que parasse em seco. Ele
tinha prensado uma Ginny igualmente seminu na parede do hall de entrada. A blusa de Ginny
estava puxada para baixo, os seios à mostra, a cabeça jogada para trás contra a parede, com a
saia amontoada na cintura. Os olhos dela estavam fechados. O gritinho de surpresa de
Hermione os fez se separarem num salto, os olhos verdes arregalados de Harry encontrando
os dela enquanto as cortinas de Walburga se abriram num rasgo.

— ESCÓRIA! COMPORTAMENTO VERGONHOSO E REPUGNANTE! AS


PROFUNDEZAS A QUE VOCÊS SE ABAIXAM, BEM NA MINHA FRENTE! VOCÊS
PROFANAM A ANTIGA E NOBILÍSSIMA CASA D—

— Sim, sim, somos todas vadias que maculam o seu bom nome — atirou Ginny para o
retrato, puxando a blusa para cima e agarrando uma das cortinas esvoaçantes. Puxou a saia
para baixo com a outra mão, sorrindo sem o menor arrependimento para Hermione, o cabelo
ruivo todo emaranhado. Ela e Harry conseguiram cobrir o retrato depois de uma breve luta e
então se voltaram para Hermione. Harry, ainda sem camisa já que as roupas não pareciam ter
sido descartadas nesta área, de repente achou o carpete muito interessante.

— Bom, isso foi divertido. Vamos nunca mais falar sobre isso — comentou Hermione para o
teto, recusando-se a olhar na direção deles. Ginny caiu na risada, completamente
despreocupada por ter sido flagrada, e agarrou Harry pelo cotovelo para arrastá-lo escada
acima. Harry seguiu, uma sequência de desculpas embaraçadas saindo dele enquanto
contornava a parede e era puxado para cima.

Hermione esperou até ouvir uma porta bater e uma suspeita falta de barulho que indicava um
feitiço de silêncio. Virou-se imediatamente e saiu pela porta de novo. Uma coisa era estar em
casa quando não sabia que eles estavam naquilo — outra coisa completamente diferente era
estar ali ciente e tentando não ouvir.

Ela ficou um momento no batente, pensando para onde ir. Os livros do Solar que estava lendo
ficavam no seu quarto, mas o tratado sobre tratamentos médicos trouxas e mágicos ainda
estava no seu saquinho de contas. Querendo sossego e um local familiar, e sem cafés na área
imediata, aparatou para St. Mungo’s e foi à pequena biblioteca de trabalho do seu andar para
fazer anotações.

Hermione estava no meio de um capítulo detalhando como os trouxas lidavam com cura da
alma — de cristais e astrologia a religião e meditação — quando uma linha lhe chamou a
atenção.
A alma é intrínseca ao ser da pessoa. Rompimentos na alma podem ser causados por eventos
externos, mas não podem ser curados por uma força externa. A cura interna deve ocorrer
primeiro — o ramo trouxa da psicologia pode ser útil tanto para trouxas quanto para seres
mágicos, mas, no caso de seres mágicos, sua magia é necessária para curar feridas
relacionadas à alma.

O curandeiro da mente. A cabeça de Hermione disparou. Dennis vinha conversando com o


curandeiro da mente, disso ela tinha certeza. A própria magia dele precisava curá-lo, mas
pelo que parecia ele precisaria de terapia também. Já estavam um passo na direção certa, pelo
menos. Isso também significava que ele não deveria ser selado como Justin, porém, já que, se
não pudesse acessar a própria magia, não seria capaz de se curar. Hermione suspirou,
desapontada, pois isso queria dizer que ele ficaria internado por um bom tempo. Não fazia
ideia de quanto a cura de uma alma poderia levar e o livro também não oferecia prazo.
Semanas? Meses? Anos?

Ela guardou seus materiais de volta na bolsa e foi até a estação dos curandeiros no fim do
corredor. Não estava de plantão, mas queria anotar o que descobrira no prontuário dele para
que o curandeiro da mente visse na próxima consulta. Por ser fim de semana, o quadro era
mínimo — apenas um punhado de atendentes e dois curandeiros para o andar inteiro.

Absorvida em suas anotações, a cabeça curvada sobre a mesa e a pena escrevendo


febrilmente, a voz arrastada a surpreendeu tanto que sua mão deu um tranco, fazendo um
risco firme atravessar suas notas.

— Com tanta saudade de mim que está trabalhando no fim de semana, Granger?

Fazendo uma careta para o risco e dando um peteleco com a varinha, irritada, para removê-lo,
levou alguns instantes até erguer os olhos para o rosto pálido de Malfoy. Ele se apoiava no
balcão, os antebraços nus sobre a parte elevada diretamente à frente dela, uma sobrancelha
arqueada. A Marca Negra espiava por cima da borda da mesa, os malotes soltos caídos para a
frente e dando-lhe um vislumbre do peito nu dele. Ela engoliu o excesso de saliva que se
juntara ao espiar por dentro da camisa dele e os olhos dele cintilaram. Parecia bastante
satisfeito por vê-la apesar do tom arrastado da voz.

Um atendente rondava a poucos passos atrás dele.

— Tive um avanço num dos meus casos — disse ela, corando de leve com a pergunta dele e
com sua própria reação. — Vim fazer anotações.

Terminando o resto das notas no prontuário e ignorando-o por alguns minutos, acabou se
pondo de pé e enviando o prontuário de volta ao arquivo com um floreio de varinha. Ele
bateu as asas até uma gaveta que se fechou na hora, com o som de uma tranca virando.
Quando ela se virou de volta, ele ainda estava apoiado ali e lançava ao seu jeans trouxa e à
camiseta leve um olhar insolente e lento de cima a baixo.

— Como você está hoje? — perguntou a ele secamente, tentando manter o ar profissional
com roupas excessivamente casuais. Ele revirou os olhos.

— Entediado — disse. — Quer jogar xadrez?


O sorrisinho dizia que ele sabia que ela era péssima nisso. Ele passara a assistir às partidas
dela com Justin ultimamente, até o último episódio do Justin ter colocado tudo em pausa por
tempo indeterminado. Ele ainda estava sob o selamento de Malfoy — estavam usando o
tempo para tentar permitir que se recuperasse mais antes de removê-lo. Malfoy
provavelmente encontraria um parceiro de xadrez melhor em um dos atendentes e ambos
sabiam disso. Hermione reconheceu a tentativa de passar tempo com ela pelo que era, um
pequeno sorriso surgindo enquanto ela aceitava.

Instalaram-se na sala de atividades, a mesinha e o tabuleiro de xadrez trouxa entre eles.


Hermione não tinha percebido o quanto Malfoy era alto até ele se dobrar para se enfiar numa
daquelas cadeiras de metal e plástico e os joelhos dele baterem nos dela debaixo da mesa. Ela
não recuou.

Ele tentou corrigi-la quando ela fazia jogadas terríveis, mas foi ficando frustrado quando ela
não seguia consistentemente os conselhos dele.

— Granger, você vai perder a sua rainha e você não quer isso.

— Por quê? Posso simplesmente fazer outra.

— Fazer outr— Merlin, não é tão simples!

Ele parecia tão incrédulo com a maneira blasé dela que ela caiu na risada. Malfoy não tinha
os anos que Harry e Ron tinham de se acostumar com ela descartar coisas que eles achavam
vitalmente importantes, como jogadas de xadrez e manobras de quadribol. Ele resmungou
algo sobre não ser de se espantar que ela estivesse sempre perdendo para Justin, mas um
pequeno sorriso pairou em sua boca também, diferente do costumeiro esgar. Ela sorriu de
volta.

Depois de perder seis partidas para Malfoy, ele decidiu que já tinha aguentado o suficiente e
se recusou a jogar outra. Ela riu de novo, chamando-o de vencedor mau perdedor e
concordando em parar por hoje.

— Eu devia voltar mesmo — disse ela, olhando para o relógio na parede da sala de
atividades. — Harry e Ginny já devem ter terminado — murmurou para si.

Malfoy ouviu e sua expressão ficou positivamente malévola. — Pegou a Doninha e o Potter
em posição comprometedora, pegou? Seus pobres olhos virgens.

Hermione corou de um vermelho escuro, subitamente grata porque o atendente estava


apoiado na parede atrás dela e não podia ver seu rosto. Gemeu, pôs as mãos sobre o rosto e
tombou a cabeça para trás.

— Eu preciso do meu próprio apartamento — disse às mãos, antes de baixá-las um momento


depois e encará-lo nos olhos. — Eles também são péssimos em feitiços de silêncio —
confidenciou. — Basicamente fugi hoje de manhã.

— Nada muito grifinório da sua parte. Posso perdoar ao Salvador do Mundo Bruxo suas
indiscrições, já que ele nos libertou do Lorde das Trevas.
— Isso porque você não tem que ouvir tais indiscrições.

— Uma mão lava a outra, Granger — murmurou baixo para que o atendente não ouvisse, o
olhar ficando intenso. — Esqueça do seu próprio feitiço de silêncio uma noite.

Se possível, o rubor dela aprofundou ainda mais. Aquela conversa precisava terminar agora,
antes que o atendente percebesse. Malfoy fingia guardar as peças de xadrez de volta na caixa,
os olhos voltando para ela e acompanhando o rubor se espalhar pelo pescoço.

— Ou talvez você nem precise. Aposto que você é bem silenciosa.

Ela lançou um olhar que dizia claramente para ele calar a boca, que o atendente ia ouvir, mas
ele ignorou, o rosto absorto. O pulso dela disparou.

— Posso mudar isso.

Ela piscou, mas antes que pudesse reagir, a expressão dele se apagou e ele disse num tom
normal: — Você disse que precisa do seu próprio apartamento, então arranje um.

O queixo dela tinha caído com o comentário anterior e levou um instante para se recompor
antes de responder à mudança abrupta de assunto.

— E-eu tenho procurado — admitiu, piscando forte e tentando juntar os pensamentos.


Começou a contar a ele sobre o lugar que tinha visto naquela manhã antes de ver Ginny e
Harry no hall. Ele fez perguntas educadas, padrão, sobre os recursos e a localização do
apartamento e ela emendou numa comparação com os outros que já tinha visto. Hermione
ficou agradavelmente surpresa por ele não torcer o nariz imediatamente para o conceito de
alugar um apartamento, considerando que crescera numa mansão familiar enorme e
provavelmente nunca teria que alugar nada na vida.

Aparatando de volta a Grimmauld mais tarde, Hermione refletiu sobre a conversa. Vinha
dizendo repetidamente que ainda não tinham tido uma conversa de verdade, recusando-se a
contar as consultas de cura com ele como bate-papo legítimo. Agora, podia honestamente
dizer que tinham desfrutado de uma conversa civil sobre xadrez e conseguiram não se
insultar, os comentários dele sobre as habilidades dela no jogo à parte. As insinuações dele,
porém — por Godrico, como aquilo a excitava. Não importava o tema, ele conseguia
instantaneamente transformá-lo em algo safado.

A porta da frente foi aberta bem mais devagar dessa vez, tentando dar amplo aviso aos
ocupantes antes de entrar. Espiando por trás da porta para ver o corredor vazio, ela foi para a
cozinha, ainda cautelosa com o que poderia encontrar. Ginny estava postada no fogão,
fazendo algum tipo de guisado de carne pelo visto e, sim, totalmente vestida. Virou-se ao som
da entrada de Hermione e começou a rir.

— Eu peço desculpas por você ter visto, mas não por ter feito — disse Ginny, sorrindo.
Hermione balançou a cabeça, sentindo que o rubor se tornaria permanente nesse ritmo.

— Você sabe que já vi o Harry em vários estados de nudez durante o tempo morando naquela
tenda e nunca me pareceu tão constrangedor quanto hoje!
Ginny riu. — Ele sentiu o mesmo. Coitado, achou que traumatizamos você.

— Traumatizaram — resmungou Hermione, observando Ginny adicionar vários temperos à


panela. — Onde ele está, a propósito?

— Plantão noturno — resmungou Ginny, franzindo triste. — Eu estou de folga por uma
semana e ele trabalhando à noite.

Hermione ofereceu seus pêsames. Ginny tinha uma quantidade considerável de tempo livre já
que era entressafra, mas ainda tinha que ficar em Holyhead para várias reuniões e sessões de
treino. Uma semana de folga de uma vez era um luxo raro e ela nem podia passá-la com
Harry.

— Onde você acabou indo, depois que saiu? — perguntou Ginny.

— Para o trabalho.

— Num sábado?

— Bem, eu não ia ficar aqui — resmungou Hermione, corando levemente. Os olhos de Ginny
se estreitaram, brincalhões.

— Foi ver o furão, foi? — Quando o rubor dela se aprofundou, Ginny sorriu de lado.

— E…? — instigou, fazendo um gesto de continua com uma mão e mexendo o guisado com
a outra.

— Jogamos xadrez — murmurou Hermione, olhando o guisado para não ter que encarar a
amiga. — E conversamos.

— Sobre…?

— Arranjar meu próprio apartamento — disse-lhe pontuda, fazendo a outra bruxa rir.

— O quê, ele ainda não te convidou para morar com ele? — provocou Ginny.

— Tecnicamente ele está morando em St. Mungo’s no momento.

— E você não está? — retrucou Ginny, deixando o guisado apurar. Encostou-se no balcão e
cruzou os braços. — Quando não está no hospital, você está pesquisando métodos de
tratamento e lendo interminavelmente coisas de trabalho. Raramente vai a algum lugar ou vê
alguém a menos que de algum modo seja relacionado ao trabalho. Até sua ida à casa dos
Malfoy — não tinha um livro naquela pilha que não fosse sobre um dos seus pacientes.

Hermione se remexeu, desconfortável. — Pesquisa é silenciosa — defendeu-se. — Vidas


estão em jogo, Ginny. Não dá para adotar uma abordagem casual e largar isso na porta toda
noite.

— Está te consumindo — disse Ginny suavemente. — Talvez ajude tirar a cabeça disso de
vez em quando. Vá ver a Andrômeda e o Teddy, ou visite o Ron e a Luna. Você não vai ao
café da manhã de domingo na Toca faz tempo também.

Hermione suspirou, cedendo. — Eu vou ao café da manhã amanhã.

— Ótimo. O Charlie vem — ele precisa falar com o Rolf Scamander e a Luna é amiga dele.
Acho que ele está tentando cruzar duas espécies de dragões e anda com dificuldades com a
fêmea.

Ginny lhe lançou um olhar intrigado quando Hermione caiu na gargalhada.


Capítulo 16

Fevereiro de 1999

Acontece que conseguir por as mãos em um bicho-papão era mais difícil do que ela tinha
inicialmente imaginado. Não era algo que você pudesse simplesmente comprar, pelo menos
não sem conexões no mercado negro. Eles não eram incomuns, mas a maioria das bruxas e
bruxos adultos seria capaz de lançar um feitiço Riddikulus e se livrar deles, então não
recebiam muita atenção quando apareciam. Grimmauld tinha tido um antes da guerra, ela se
lembrava de Molly soluçando sobre os corpos de seus filhos em que a maldita coisa tinha se
transformado, mas ela e Harry já tinham revistado a casa de cima a baixo a essa altura e
nenhum tinha aparecido. Hermione se recordava da aula do terceiro ano com Lupin em que
ele tinha mencionado que lhe levou vários dias vasculhando Hogwarts para encontrar um.
Seu coração afundou.

Pomfrey tinha indicado que era uma excelente ideia e que ela poderia tentar algumas
conexões de Magizoologistas que a matrona tinha, uma das quais era Rolf Scamander, mas se
eles não conseguissem encontrar um ela precisaria elaborar outro plano. Ela estava meio que
considerando mandar corujas para todos que conhecia para ver se alguém tinha um escondido
em uma gaveta em algum lugar. Um bicho-papão poderia levar meses para ser encontrado —
ela talvez tivesse mais sorte descobrindo um medo dele de outra forma muito antes disso.

Pouca chance disso acontecer sem ao menos uma conversa silenciada.

Parte do problema em simplesmente perguntar a Malfoy do que diabos ele tinha medo era
que isso tirava o elemento surpresa. Se ele dissesse a ela que tinha medo de aranhas ou algo
do tipo, como o Rony, e ela aparecesse com uma tarântula, seria tão previsível e em um
ambiente tão controlado que ela duvidava muito que ele reagisse no nível que eles
precisavam que ele reagisse. Precisava ser medo real. Intenso, do tipo medo-de-morrer.

Quando se aproximou da estação da curandeira, Hermione lançou um olhar suspeito para um


buquê de rosas amarelas. Elas tinham sido cuidadosamente colocadas bem no meio do lugar
dela na estação. Havia um cartão, ela notou ao colocar suas coisas ao lado delas, mas isso não
era nada tranquilizador. Malfoy não ousaria mandar nada para ela em St. Mungo’s e rosas
amarelas definitivamente não eram o estilo dele. Alguma rosa rara caríssima e extravagante?
Claro. Uma rosa comum, banal? Especialmente aquelas que simbolizavam “amizade
platônica”?

Definitivamente não era Malfoy. Especialmente não depois de todos os comentários


sugestivos dele.

Ela lançou às rosas um olhar abertamente enojado, enrugando o nariz. Harry e Rony eram
desatentos demais para mandarem qualquer coisa a ela; ela ficaria surpresa se lembrassem de
comprar flores para as próprias namoradas. Ginny poderia estar tirando sarro. Luna teria
mandado num vaso para ser plantado, e o arranjo diante dela era um maço de flores cortadas.
Pegando o cartão e rasgando-o, seu rosto se contraiu ainda mais quando percebeu que era de
McLaggen. Ele lhe desejava um Feliz Dia dos Namorados e a convidava para jantar, com
uma sugestão nada sutil de sobremesa.

Enojada e irritada, o cartão começou a fumegar levemente em sua mão enquanto ela o fitava
com raiva. Claramente ele não estava entendendo que ela não tinha nem o mínimo interesse.
Era como se ele aparecesse de vez em quando apenas para incomodá-la. O homem não tinha
dito uma palavra a ela desde a festa de Halloween e agora, de repente, queria levá-la para
sair? Será que seu charme repulsivo falhou em arranjar um encontro no Dia dos Namorados
ou algo assim? O cartão começou a soltar ainda mais fumaça, as bordas do papel branco se
enrolando e ficando cinzentas enquanto ela o encarava, quando um pigarro a fez erguer os
olhos.

Malfoy pairava diante da escrivaninha, os olhos alternando entre as rosas e o cartão


rapidamente se desintegrando em sua mão, com seu característico sorriso de canto.

— Parece que você tem um admirador — arrastou ele, arqueando uma sobrancelha para ela
enquanto apoiava os antebraços na prateleira de cima da escrivaninha. Ela franziu a testa para
ele.

— Não é fã de flores, Granger? — ele parecia bastante satisfeito com sua ira, o que a irritava.
Ele não deveria ser o tipo ciumento e possessivo? Não que fosse sábio fazer uma cena bem
ali, mas ele poderia ao menos franzir o cenho para as rosas ou algo assim em vez de se
divertir com sua reação. Irritada, ela puxou a varinha e incendiou as pobres plantas, o breve
clarão de fogo fazendo com que ele tirasse os braços às pressas da escrivaninha, enquanto ela
deixava queimar por alguns segundos antes de banir a bagunça.

— Não sou fã de idiotas insistentes que não sabem entender uma indireta — sibilou ela para
ninguém em particular, o cartão agora reduzido a uma pilha de cinzas a seus pés. Algo
sombrio brilhou no rosto de Malfoy por um momento antes de sua expressão se tornar vazia.
Os olhos dela se estreitaram.

Ela não estava falando dele, mas dizer isso em voz alta com vários atendentes olhando não
seria prudente. Dois dos atendentes a observavam nervosamente, preocupados que ela
pudesse incendiar mais alguma coisa em seu estado de fúria.

Hermione escancarou algumas gavetas e começou a bater arquivos de pacientes na


escrivaninha, irada com McLaggen e aborrecida que Malfoy pudesse interpretar suas palavras
como se ela quisesse que ele recuasse. Pelo contrário — se ele insistia em cortejá-la, ela
estava muito interessada em saber o que isso poderia significar quando ele estivesse livre
novamente. Enquanto isso, sentia-se condenada à frustração por não poder falar francamente
com ele. Se ele estivesse usando o anel, ela poderia explicar mais tarde. Maldita sua
necessidade de privacidade.

Vou mandar um berrador para McLaggen. Com um feitiço de meleca no nariz.

Abrindo o arquivo de Dennis e ignorando tanto Malfoy quanto os atendentes, sua raiva se
transformou em choque ao ler um relatório de incidente da noite anterior. Os olhos dela se
arregalaram enquanto percorriam a página de um lado para o outro.
Dennis tinha atacado um atendente com alguma variação de feitiço cortante. O atendente
tinha profundas lacerações em um braço, mas estava bem, os ferimentos rapidamente curados
por outro membro da equipe. Dennis tinha estado na sala de atividades no momento, sua
primeira saída do quarto, e sem restrições. Ninguém mais tinha sido ferido, a sala estava
relativamente vazia na hora, embora o feitiço cortante tivesse despedaçado vários móveis
próximos.

Ele estava sob confinamento agora, restrito ao quarto, e pediram a Hermione que garantisse o
uso de medidas específicas de segurança durante suas sessões com ele por enquanto. Ela
suspirou, os ombros caindo ao se jogar pesadamente na cadeira. Ele vinha fazendo bons
progressos com a curandeira da mente, se abrindo sobre suas experiências e sentimentos, e já
fazia algum tempo desde seu último episódio.

Mas que tipo de progresso era esse, se no segundo em que saía de sua zona de conforto, seu
quarto, ele passava a ferir os outros? Especialmente um dos atendentes, com quem
presumivelmente estaria bastante familiarizado? Não era um funcionário novo tampouco —
era alguém que ele já teria visto desde que fora designado a Hermione, se não antes. O
relatório indicava que o atendente não fazia ideia do que tinha provocado o ataque. Fora uma
noite tranquila, rotineira; não havia sinais de perturbação em Dennis; nenhuma outra força
externa registrada. Ele estava sentado em um dos sofás, lendo um romance e conversando
distraidamente com o atendente.

Isso não era um bom sinal. Um ataque completamente não provocado, sem gatilho? A
proteção que Malfoy tinha feito em Justin passou por sua mente. Talvez eles devessem
considerar algo semelhante para Dennis, embora isso impactasse significativamente seu plano
de tratamento atual, que era permitir que a própria magia dele curasse sua alma…

E se ela conseguisse ajustar as proteções de alguma forma? Em vez de selar tudo como
Malfoy tinha feito com Justin, e se ela redesenhasse as proteções para restringir sua magia
apenas a propriedades curativas? Isso sequer seria possível? Talvez pudesse restringi-la
apenas à magia considerada não-ameaçadora, embora como ela determinaria isso…

Ela estava perdida em pensamentos, as engrenagens de sua mente girando, Malfoy e as rosas
completamente esquecidos. Hermione começou a anotar ideias no arquivo de Dennis
enquanto Malfoy voltava a se apoiar na parte de cima da escrivaninha, observando-a.

— O livro das almas — murmurou para si mesma. — Embora eu não tenha encontrado nada
sobre feitiços de selamento.

— Eu posso te ensinar.

Ela se sobressaltou, a voz dele a pegando de surpresa. Seus olhos prateados estavam sérios,
sua linguagem corporal intensa enquanto se inclinava sobre a escrivaninha em direção a ela.

— Me ensinar feitiçaria de proteção, como o que você fez com Justin? — perguntou, um
pouco atônita. Ela pensava que seria um segredo zelosamente guardado, baseado na falta de
explicações em qualquer livro que o tivesse mencionado até então e porque ela nem sequer
tinha ouvido falar disso até muito recentemente. Ele assentiu.
— Eu precisaria modificá-lo — disse ela, franzindo o cenho. Ele revirou os olhos.

— Claro que precisa. Magia antiga fantástica à sua disposição e você quer dobrá-la à sua
vontade — resmungou. — Nada poderia dar errado.

Ela lançou um olhar sombrio a ele. — Aproximadamente quanto tempo vai levar para me
ensinar?

Ele deu de ombros. — Algumas horas. É complexo, mas com esse seu cérebro vai ficar tudo
bem. Embora — acrescentou devagar, um olhar calculista por trás dos olhos — tecnicamente
é um segredo de família. Eu preferiria manter esse conhecimento em sigilo.

O queixo de Hermione caiu. — Esse tipo de informação poderia ser útil para tantos outros
pacientes, não apenas aqueles afetados pela Comissão! Você quer que eu guarde só para
mim?

Os olhos de Malfoy desviaram para os atendentes por um momento antes de voltarem para os
dela. Ele inclinou a cabeça para a frente, tentando comunicar algo.

— Não me importo que você compartilhe com outros curandeiros, Granger.

Certo. Os atendentes. Aqueles que tinham que supervisionar cada interação deles. Ele não
queria que o conhecimento fosse compartilhado com eles. O que significaria que precisariam
ter uma conversa sem supervisão.

— Vou precisar verificar com Pomfrey — murmurou ela, desviando o olhar para brincar com
sua pena. Pomfrey muito bem poderia dizer não, embora tudo tivesse sido dentro das regras
nos últimos dois meses desde a conversa delas sobre o Muffliato. Ela apostaria que Pomfrey
diria não — Hermione teria que ter um plano para convencer a matrona, ou talvez passar por
cima dela…

— Certo — disse ele, suspirando. Endireitou-se, desejou-lhe um bom dia em um tom muito
formal e se afastou a passos firmes. Os olhos dela o acompanharam.

Maldição.

— O que você acha?

Ginny girou diante de um espelho de corpo inteiro, o vestido preto na altura dos joelhos
destacando suas sardas e o cabelo ruivo. Todo o seu treino ao ar livre, até mesmo durante o
inverno, tinha dado à sua pele uma cor bronzeada saudável, seu corpo esguio musculoso. O
vestido era de modelo frente única, deixando suas costas à mostra e seu cabelo ruivo preso.

— Você está deslumbrante! — disse Hermione com sinceridade, dando uma olhada completa
na amiga. O vestido era justo na cintura, com um design prateado bordado por toda parte.

— Harry vai me levar ao Le Spectacle.


Hermione inalou bruscamente, Ginny lhe lançando um olhar arregalado. O Le Spectacle era
um restaurante de alto padrão no Beco Diagonal, conhecido por sua clientela famosa e
culinária cara. Era o tipo de restaurante em que os sangue-puros iam quando queriam ser
vistos e em que o bruxo comum ia quando queria fazer um pedido de casamento.

Harry nunca foi conhecido por sua sutileza e Hermione não achava que ele já tivesse
colocado os pés no Le Spectacleantes. Guardou para si o pensamento de que ele estava indo
rápido demais — eles só estavam morando juntos havia pouco mais de dois meses e nem
tinham completado um ano de volta ao namoro. Ela duvidava muito que ele levaria Ginny ali
sem a intenção de pedir sua mão, embora para ela parecesse cedo demais.

Ginny segurou suas mãos e Hermione apertou seu aperto, oferecendo um sorriso genuíno à
amiga. — Aproveite — disse firmemente à ruiva, com receio de expressar suas suspeitas caso
estivessem certas ou erradas e estragassem a magia da noite. Um rápido aperto nas mãos e
Ginny a soltou, voltando ao espelho para terminar a maquiagem.

— Quase esqueci, tem uma caixa na cozinha para você.

Hermione ficou imóvel, observando Ginny aplicar o rímel.

— O Kreacher deixou lá? — Hermione se contraiu com o tom esperançoso da própria voz.

Ginny deu de ombros. — Eu não vi chegar — estava lá quando eu voltei de Holyhead.

Hermione esperou até ver o casal sair para o jantar, Harry vestido com deslumbrantes vestes
azuis-escuro que faziam seus olhos e cabelo se destacarem. Ele parecia mais velho que
dezenove, pensou com nostalgia, mais homem e menos garoto. Sua expressão ao ver a roupa
de Ginny, uma mistura de desejo e amor, a fez ficar feliz por seus amigos e, ao mesmo tempo,
intensamente invejosa.

Ela ficou parada na cozinha, olhando para a grande caixa sobre a mesa. Tinha o mesmo
embrulho preto com fita dourada e media aproximadamente sessenta por noventa
centímetros. Tinha que ser dele. Ela girava nervosamente a pulseira em seu pulso. Hermione
não tinha comprado nada para ele, incerta se eles sequer comemorariam o feriado como um
casal normal. Deveria ter comprado algo? Se tivesse, o que, em nome de Merlin, ela teria
comprado? Ele sequer gostava do Dia dos Namorados? Seria aquilo uma reação por ela ter
queimado as flores de McLaggen naquela manhã?

Falando nisso, ela ainda devia um berrador àquele idiota.

Prioridades.

Desembrulhando cuidadosamente o presente, ergueu a tampa da caixa de papelão chique com


um nome em relevo que ela não reconhecia. Empurrou o papel de seda de lado, sentindo o
toque suave da seda por baixo. Confusa, remexeu sob a pilha de seda colorida até encontrar
dois envelopes. O primeiro tinha o mesmo nome da tampa da caixa, e ela o abriu primeiro.
Seus olhos se arregalaram.
Blusas de seda à prova de manchas, dizia o cartão. Estavam enfeitiçadas para evitar que
qualquer tipo de mancha grudasse nelas; tinta, sangue, café, batom…

Sua sobrancelha arqueou diante desse último e ela voltou o olhar para a pilha. Havia pelo
menos seis cores diferentes na caixa, duas das quais eram de um verde esmeralda profundo.
Prateado cintilante, azul suave, vermelho vibrante… um pequeno sopro de descrença escapou
enquanto ela puxava uma delas da caixa. Observando a peça bem-feita com incredulidade,
largou-a após um momento e pegou o segundo envelope, rasgando-o.

Você é desastrada.

Sua boca se abriu e ela virou o cartão. Era só isso? Ele gastava o que deviam ser centenas de
galeões em várias blusas novas para que ela não precisasse se preocupar com manchas e em
se manter profissional no trabalho, no Dia dos Namorados ainda por cima, e isso era tudo que
ele escreveu no bilhete?!

Ela era desastrada, mas isso era irrelevante!

Havia outra linha pequena no final do verso do cartão e ela franziu a testa.

Use-as juntas.

Era a caligrafia dele, suave e elegante, em ambas as linhas. Ele queria que ela usasse todas as
blusas de uma vez? Isso não fazia sentido nenhum. As sobrancelhas ainda franzidas, ela
revirou a grande caixa, agora erguendo cada blusa com um suspiro resignado, embora
satisfeito. Eram realmente muito bonitas, cada uma de um estilo diferente — de manga
comprida, de manga curta, transpassada, com babados sutis. Iriam bem com suas calças
sociais e saias, e seria bom não ter que se preocupar em se sujar. Havia outra camada de papel
de seda por baixo. Ao levantá-la, ela parou por um instante antes de um rubor intenso se
espalhar por seu rosto e pescoço, descendo.

Roupa íntima. Sutiãs e calcinhas combinando em uma variedade de cores e tecidos. Renda,
algodão, seda — devia haver de quinze a vinte conjuntos. Como ele sabia até os tamanhos
das roupas dela, ela não fazia ideia, mas isso parecia… íntimo. Pessoal.

Erótico.

Ele tinha comprado para ela peças íntimas chiques e caras e queria que ela as usasse ao
mesmo tempo que as blusas. Assim ele saberia.

Calor inundou a parte inferior de seu abdômen ao pensar nisso. Ela estava ao mesmo tempo
chocada com a audácia dele e excitada pela ordem. Ele veria a blusa do dia e ficaria se
perguntando qual conjunto estaria por baixo, sem dúvida a imaginando com ele. Parecia
travesso, sujo, mas também meio excitante.

Como diabos ela ia conseguir fazer qualquer trabalho ao redor dele agora? O que ela estava
considerando parecia que demonstraria uma completa falta de profissionalismo, mas isso
também era metade do apelo. Proibido. Provocante. Não é como se alguém realmente fosse
descobrir…
Pela barba de Merlin.

Ele lhe dera um tipo de poder com seu presente. Mesmo que ela não estivesse usando uma
das blusas, ele ficaria se perguntando o que havia por baixo. Ela refletiu que ele
provavelmente já vinha se perguntando. Imaginando.

Hermione não sabia que era possível ficar molhada por causa de um presente.

É assim que é ser uma sugar baby?

Ela ficou parada na cozinha, mordendo o lábio inferior enquanto seus olhos saltavam entre o
cartão dele e a lingerie. Arrepios pipocaram por sua pele ao imaginar a reação dele quando
ela entrasse para a próxima sessão usando o top verde-escuro e o conjunto combinando por
baixo. No mínimo, a única pessoa com quem ela realmente sempre quisera dormir tinha
excelente gosto e aparentemente se deleitava em mimá-la. Se o presente tivesse sido de
McLaggen, ela teria ficado absolutamente furiosa e enojada. Mas vindo de Malfoy…

Feliz Dia dos Namorados, de fato.

O queixo de Ginny caiu na manhã seguinte no café da manhã quando Hermione entrou
rebolando na cozinha. Calças sociais pretas e blusa de seda verde-escura que afinava na
cintura, a lingerie combinando completamente escondida por baixo, seu cabelo cacheado
solto sobre os ombros. Ginny a examinou de cima a baixo.

— Malfoy? — perguntou a amiga, assentindo para o top. Hermione sorriu travessa.

— Presente de Dia dos Namorados — confirmou. — Uma caixa inteira deles.

Ginny disparou o nome da grife e Hermione assentiu, reconhecendo-o da caixa e do cartão.


Ela não percebera que Ginny conhecia marcas de alto padrão, e sua expressão ficou surpresa.
A ruiva assobiou baixo.

— Alguém está tentando impressionar.

A expressão de Hermione virou exasperação. — Não é como se ele pudesse fazer muito mais
para impressionar agora — disse secamente antes de mudar de assunto. Ela não queria falar
sobre ele ainda ser sua paciente naquele momento. Pensar era uma coisa, mas falar era outra
completamente diferente.

— Então, como foi sua noite?

Ou eles tinham usado feitiços de silêncio ou Hermione dormira profundamente durante o


retorno deles, e ela estava ansiosa para ouvir qualquer novidade, apesar de sua inveja. Um
grande sorriso se espalhou pelo rosto sardento da outra bruxa. Ginny ergueu uma mão e a
abanou diante de Hermione, exibindo um anel grande e brilhante.

Seus gritinhos e exclamações devem ter acordado Harry, que tropeçou cozinha adentro vários
minutos depois, os óculos tortos enquanto amarrava um robe. As duas bruxas já tinham
passado a discutir planos de casamento, mas Hermione parou e correu até Harry quando o
viu.

— Parabéns! — Ela se atirou nele, apertando-o num abraço forte. — Estou tão feliz por
vocês!

— Valeu, ’Mione — murmurou Harry, retribuindo o abraço. Ele a soltou e cambaleou até a
cafeteira enquanto Hermione e Ginny retomavam a conversa sobre o casamento entre ovos e
torradas.

— Ah! Isso me lembra que preciso falar com aquela corretora — disse Hermione de repente,
interrompendo as divagações de Ginny sobre um possível local. — Acho que encontrei um
flat.

— Você não precisa se mudar por nossa causa! — disse Ginny, ansiosa, lançando um olhar
para Harry.

— Eu sei. Mas eu quero dar espaço para vocês — admitiu. — Além disso, se tudo ficar…
resolvido… — ela corou ao tentar, e falhar, articular que talvez quisesse seu próprio espaço
quando Malfoy fosse solto.

— O quê? Você não quer que a gente ouça o Malfoy tirar sua virgindade?

— Ginny!

Harry ficou verde só de imaginar e mandou uma Ginny gargalhante calar a boca. Hermione
não tinha certeza se podia ficar mais vermelha e resmungou algo sobre sair para o trabalho.

A conversa embaraçosa no café da manhã a deixou tão fora de eixo que ela tinha esquecido
completamente da blusa nova. Enfiando os ombros nas vestes de curandeira verde-limão e
deixando-as abertas na frente, ainda levemente ruborizada ao recordar o comentário de
Ginny, Hermione escancarou o arquivo de Dennis na estação da curandeira e tentou se
concentrar enquanto os atendentes fofocavam.

— Prisão perpétua—

— Nem chega perto do que os Malfoy pegaram.

— Você realmente está surpresa? Com a quantidade de dinheiro que eles têm—

Ela franziu o cenho e ergueu a cabeça para fora do arquivo. Três atendentes gesticulavam
para um exemplar do Profeta Diário, uma foto de Rodolphus Lestrange gritando para a
câmera se repetindo em loop. A poucos passos, ela conseguiu distinguir a manchete acima de
seu rosto transtornado.

Irmãos Lestrange sentenciados à prisão perpétua em Azkaban

Seu coração parou. Não pelos irmãos sádicos e distorcidos, porque eles definitivamente
mereciam, mas por causa do que os atendentes discutiam. Era um contraste enorme com as
sentenças dos Malfoy, como eles tinham notado. Metade do motivo de os Malfoy terem se
safado com tanta leveza não tinha sido tornado público e sua reputação tinha sofrido por isso.
Resmungos de descontentamento de que eles mereciam uma pena muito mais severa era só o
começo — ela sabia que isso evoluiria para a suposição de que eles tinham comprado a saída.
Ela até achava que algum dinheiro tinha trocado de mãos — a sentença dos pais de Draco
tinha sido assustadoramente branda considerando que não tinham sido eles a passar as
informações.

Hermione mordeu o lábio, perdida em pensamentos. A lei não permitiria um segundo


julgamento, mas isso não impediria vigilantes de tentarem fazer justiça com as próprias
mãos. Preocupação por Malfoy e seus pais a invadiu por uns três segundos antes de ser
interrompida.

— Zabini — cuspiu um dos atendentes, claramente de mau humor depois da conversa. —


Visitando seu namoradinho de novo?

Hermione ergueu os olhos e encontrou Blaise Zabini parado diante da escrivaninha dos
atendentes, vestido com terno preto e camisa azul-escura. As mãos enfiadas nos bolsos, os
dois ou três botões de cima da camisa abertos, o jeito casual e relaxado. Ele ergueu uma
sobrancelha escura para o atendente, imperturbável pelo tom irritado e pelo comentário.

— Com inveja?

O tom despreocupado fez o atendente ficar vermelho e se levantar. Hermione latiu uma
ordem para ele, irritada com a demonstração de falta de profissionalismo. Eles deveriam ser
adultos. O atendente esgueirou-se para cumprir o que lhe foi mandado, os olhos se
estreitando entre ela e Zabini. Ela despachou os outros dois atendentes também, aborrecida
com toda a situação, garantindo que ficariam ocupados por um tempo antes de se voltar para
a figura alta à sua frente.

— Posso ajudar, ou você está visitando Nott? — perguntou com compostura.

Ele a examinava, os olhos passando por ela de alto a baixo antes de inclinar a cabeça de lado.
— Virando uma Sonserina, Granger?

As sobrancelhas dela se juntaram e ele assentiu em direção a ela. — Camisa verde, vestes
verdes — assentiu para o corredor por onde os atendentes tinham desaparecido —, aquela
pequena demonstração de poder. O que eu não consigo entender é se você está usando ele —
nisso, os olhos dele desceram de novo para a camisa dela — ou se está genuinamente
interessada.

O pulso dela disparou enquanto ele continuava falando. Era território perigoso, tanto a
conversa quanto o lugar onde acontecia. Ela sabia que Zabini e Malfoy eram próximos, mas
nem morta iria dizer a ele qualquer coisa sobre o relacionamento deles sem falar com Malfoy
antes.

— Você precisa de algo, Zabini? — rosnou.


— Sim, na verdade — arrastou ele, imune ao tom dela. — A curandeira do Theo não tem a
menor ideia do que há de errado com ele. Quero que você olhe o arquivo dele.

Hermione se sobressaltou. Hannah era uma curandeira muito competente e ela sabia que
Theo estava designado a ela, embora não fizesse ideia de qual era a condição de Theo. Não se
lembrava de já ter conversado sobre isso com Hannah antes.

— Ele não é meu paciente — não posso simplesmente olhar o arquivo dele a menos que
Hannah peça uma consultoria ou o encaminhe para mim — disse lentamente. O fato de ele
querer que ela olhasse o arquivo do amigo significava que talvez não gostasse do estado atual
do relacionamento dela com Malfoy, mas claramente confiava na inteligência dela e no valor
dela como curandeira. Era um começo, pensou, se iria ter que aturá-lo no futuro.

— Ou ele é realocado para mim — acrescentou, pensando em como Malfoy acabou sob seus
cuidados.

A expressão de Zabini ficou contemplativa. Ele assentiu uma vez e virou-se para ir embora, o
fim da conversa tão abrupto que ela o deteve.

— Espera!

Ele parou no lugar e virou-se ligeiramente, erguendo de novo aquela sobrancelha escura para
ela. Ela hesitou, pensando, antes de firmar a resolução.

— É sobre o Malfoy — eu preciso confirmar algo sobre a condição dele. Para isso, eu preciso
saber do que ele tem medo.

Zabini a fitou por um momento com um olhar que claramente dizia que ele achava que ela
estava maluca. Ela se manteve firme, a seriedade inabalável, e ele bufou uma risada.

— Mesmo que eu soubesse, Granger, eu não te diria.

Mais tarde, enquanto Hermione fazia suas rondas e repassava a conversa com Zabini
repetidas vezes, perceberia seu erro. Ele era um Sonserino; não faria favores sem receber algo
em troca, especialmente um favor que pudesse colocá-lo numa situação delicada com Malfoy.
Ela não ia quebrar as regras do hospital para olhar Theo, especialmente não quando um
bicho-papão ainda poderia aparecer, mas não custaria perguntar a Hannah sobre ele na remota
hipótese de poder ajudar.

Ela enviou as corujas aos Magizoologistas, esperando que algum deles tivesse por acaso um
bicho-papão que ela pudesse “emprestar”. O conceito de emprestar uma criatura mágica
despertou em sua ativista interna dos direitos das criaturas um discurso furioso, distraindo-a
durante toda a sua visita com um Dennis mal-humorado. Ele se recusou a dizer muito e ela
não tinha uma solução para ele no momento, o caminho atual dependendo da aprovação de
Pomfrey ao seu pedido de uma reunião privada com Malfoy.

A consulta de Justin foi útil — ele admitiu ser um oclumente, como ela suspeitara. Ele estava
desperto e alerta durante a consulta, pronto para que seu feitiço de contenção fosse retirado, e
ela fez uma anotação mental para discutir isso com Malfoy quando o visse. Ela tinha
guardado a visita a Malfoy para o final, querendo saborear a reação dele à sua roupa. O
atendente a chamou para dentro, e seus olhos o encontraram imediatamente quando ela
entrou pela porta.

Ele estava sentado em sua cadeira de escritório, as mãos contidas e relaxadas sobre as coxas,
o cabelo loiro desalinhado e úmido como se tivesse acabado de sair do banho. Aqueles olhos
cinzentos se fixaram em sua blusa quando ela se aproximou, sua garganta se movendo antes
de se erguerem para encontrar os olhos dela.

Ela sorriu presunçosa para ele antes de lançar seu diagnóstico. Podia ser virgem, mas não era
covarde. Ele queria brincar e ela estava interessada. Ele se mexeu um pouco na cadeira e
pigarreou, as mãos se contraindo. Sua pressão sanguínea subia levemente enquanto ela
permanecia ali, e ela franziu o cenho ao ver isso, o verde lentamente se transformando em
amarelo. Seu olhar alternou do diagnóstico para ele, examinando-o da cabeça aos pés e
ficando mais preocupada quanto mais a pressão subia.

Malfoy cruzou as mãos nos pulsos e as moveu mais para cima no colo, sem nunca desviar os
olhos dela.

Oh, meu Deus.

Ela arrancou os olhos do colo dele, a pulsação acelerada de repente fazendo sentido. Um leve
rubor manchou suas bochechas e ela apressadamente desfez o diagnóstico, pigarreando e
tentando adotar um tom profissional.

— Vou precisar que você remova o feitiço de contenção do Justin, provavelmente amanhã.

Ele assentiu, mantendo o contato visual com ela, um pequeno sorriso provocador no rosto.
Hermione, com as próprias bochechas ficando levemente coradas, notou que ele não parecia
nem um pouco incomodado com sua situação atual. Ele tinha girado a cadeira levemente para
que o colo ficasse fora do campo de visão do atendente, que se encostava à parede junto à
porta. Suas mãos, que já eram grandes por si só, ainda não eram suficientes para cobrir—

— Estarei indo à mansão neste fim de semana para trocar meus livros. Quer alguma coisa de
casa?

Ela sabia que os elfos domésticos poderiam trazer para ele, mas esperava que o pensamento
nos pais dele ajudasse a manter a reação sob controle. Não que ela quisesse, necessariamente,
que estivesse sob controle, mas eles não estavam sozinhos. Não era o lugar. Ela não podia
explorar isso agora.

— Dê lembranças à minha mãe.

Ela assentiu enquanto fazia uma anotação em seu prontuário, evitando contato visual por
alguns momentos. Ele se mexeu novamente na cadeira.

— Como você achou a biblioteca dos Malfoy?


Ela ergueu os olhos do arquivo com uma sobrancelha arqueada. — Como um cachorrinho
travesso a princípio — admitiu secamente. Ele sorriu de canto.

— A princípio?

— Ficou muito mais cooperativa depois que ameacei incendiá-la.

Ela fechou o arquivo com um estalo e se virou, deslizando para fora da sala e escondendo um
sorriso satisfeito diante da expressão boquiaberta dele.

Uma semana depois, Hermione prendeu a respiração após fazer seu pedido para que Malfoy
pudesse ensiná-la em particular os feitiços de selamento. Ela tinha tido cuidado extra ao
redigir, querendo que não houvesse espaço para que fosse considerado nada menos que
curiosidade profissional. Ela e Pomfrey estavam no escritório de Pomfrey, sentadas em lados
opostos de sua enorme mesa coberta de pergaminhos, enquanto a matrona examinava o
formulário à sua frente. A porta tinha sido deixada entreaberta, o leve burburinho da estação
das curandeiras audível.

Ela tinha cuidadosamente enquadrado como sendo importante tanto para a saúde do paciente
quanto para a segurança da equipe e dos pacientes. A instabilidade mágica de Dennis estava
aumentando mesmo enquanto sua saúde mental parecia estar melhorando. Se aquele feitiço
tivesse atingido em cheio aquele atendente…

Em resumo, ele poderia matar alguém.

A expressão de Pomfrey era calculista. — O sr. Malfoy não é o único sangue-puro, ou


mestiço, que tem conhecimento dos feitiços de selamento e de como a magia funciona.
Especialmente aqueles usados pelas famílias antigas. — Seu tom era frio, desconfiado.

— Como parece ser algo passado pelas famílias, achei que seria rude pedir a alguém que não
estivesse oferecendo — disse Hermione, incerta. Famílias bruxas antigas como os Malfoy
guardavam sua magia de perto — ela achava que pedir a uma aleatória seria tão educado
quanto perguntar a alguém a cor da sua roupa íntima. — Preciso de uma explicação detalhada
de como funciona, já que precisarei modificá-lo para se adequar a Dennis — um resumo
básico não será suficiente.

Quando Pomfrey continuou em silêncio, Hermione prosseguiu. — Ele se ofereceu. Não


consegui encontrar nenhum livro sobre o assunto em lugar algum. Ele ajudou com o último
episódio de Justin. Não é diferente de chamar um especialista para uma consulta.

— Quero a conversa testemunhada.

Hermione praticamente explodiu, todo o planejamento cuidadoso indo pelo ralo quando a
raiva tomou conta. — Alguém fez uma acusação de má conduta? Houve alguma reclamação
contra mim? — exigiu da bruxa mais velha.

Os olhos de Pomfrey se estreitaram. — Tirando a questão do muffliato, não.


— Então por que estou sendo tratada com tanta suspeita? Dennis pode matar alguém da
próxima vez e você vai resistir a explorar um método de prevenção por causa de uma
conversa privada?!

— Existe uma política, srta. Granger, para proteger nossos pacientes de possíveis abusos—

— Eu me pergunto — Hermione a interrompeu, o tom perigoso ao se levantar do assento,


tremendo levemente de raiva. — Exatamente o que o conselho administrativo teria a dizer
sobre isso. Negar a uma curandeira uma via de pesquisa sob a alegação de que ela poderia
potencialmente abusar de um paciente que é perfeitamente capaz de se defender e não fez
absolutamente nenhuma reclamação sobre mim. Ele está aqui por vontade própria, Poppy, e
nós duas sabemos disso.

— Esse paciente só foi designado a você depois de uma grave manipulação interna —
retrucou Pomfrey com um silvo. — E ele só coopera com você, por razões desconhecidas—

— Se acredita que estou me comportando de maneira imprópria, abra uma investigação


formal — rosnou para ela. — Tenho certeza de que o conselho adoraria saber exatamente o
quão pouco confiável você parece considerar Hermione Granger.

Pomfrey estreitou os olhos diante da ameaça. Alguns comentários sugestivos não se


sustentariam, especialmente quando Hermione sabia que Malfoy não cooperaria com
nenhuma investigação contra ela. Sem uma queixa ou acusação real contra ela vinda de
paciente ou funcionário, Pomfrey não tinha base alguma, e ambas sabiam disso.

— Vou levar seu pedido em consideração.

Hermione saiu tempestuosa do escritório de volta para a estação das curandeiras,


considerando que talvez essa não fosse a carreira para ela se tivesse que lidar com Pomfrey
como chefe por muito mais tempo.
Capítulo 17

Março de 1999

Isso é bizarro.

Hermione virou o pedaço de pergaminho, encontrando o lado oposto em branco, e o virou de


volta. Era um pedido de desculpas de McLaggen a respeito das flores e do comportamento
dele no Halloween. Ele também prometia deixá-la em paz dali em diante. Suspeitas se
formaram em sua mente enquanto ela relia a nota curta.

A nota estava em uma pilha de correspondências que ela estava no momento separando,
sentada na cozinha de seu novo flat e sorvendo uma xícara de chá. Hermione tinha
completamente se esquecido de enviar um berrador para ele entre suas visitas à biblioteca dos
Malfoy, a conversa animada de Ginny sobre planejamento de casamento, o trabalho e sua
caça ao bicho-papão. Alguém claramente tinha dito algo que tinha atravessado aquele crânio
grosso, no entanto, já que ela não acreditava por um segundo que McLaggen tivesse
entendido a indireta simplesmente pela completa falta de resposta dela ao convite dele. Ele
era definitivamente do tipo que tenta mais quando uma mulher diz não.

Ela suspeitava fortemente que havia um loiro letal por trás disso.

Sem saber se estava irritada com a possessividade ou satisfeita com ela, colocou a nota na
pilha de descarte. Sua parte racional se rebelou contra a ideia de um homem tratá-la como se
ela não pudesse se defender, especialmente depois de ter acabado de sobreviver a uma guerra.
A parte emocional do cérebro dela fez uma festa com a demonstração clara dos sentimentos
dele: ela era dele e McLaggen precisava cair fora.

Ela pegou o próximo envelope da pilha, decidindo não se ofender. Mencionar isso a ele só
alimentaria seu ego. Além disso, ela realmente queria que McLaggen desaparecesse, o
cretino. Se o seu namorado presumido quisesse ser o responsável por avisá-lo para se mandar,
que fosse.

A carta seguinte acabou sendo do único Magizoologista de quem ela ainda não tinha recebido
resposta, e continha praticamente a mesma resposta que as outras: um beco sem saída.
Nenhum dos três que Pomfrey conhecia tinha um bicho-papão em sua coleção no momento,
ou pelo menos não um do qual estivessem dispostos a se desfazer. Harry não tinha ouvido
falar de nenhum no DMLE, Grimmauld ainda não tinha um, e Rony e Luna não tinham visto
um em seu chalé. Ela não quisera perguntar a Molly ou Arthur, caso trouxesse memórias
ruins do encontro anterior de Molly. Andromeda mantinha sua casa limpa demais — Harry
sempre comentava que a poeira não ousava assentar em sua presença — e ela não se atrevera
a perguntar a nenhum de seus colegas, caso quisessem saber o porquê e isso chegasse a
Malfoy, revelando o que ela buscava. A essa altura, Hermione estava seriamente debatendo
se seria grosseiro perguntar a Narcissa se a Mansão tinha um bicho-papão.

Ela não tinha conexões com o mercado negro e ser vista na Knockturn não era uma opção,
como ela já tinha notado anteriormente quando pesquisava livros de Magia das Trevas.
Malfoy podia ter conexões que ela pudesse usar, mas ela não podia perguntar a ele ou ele iria
querer saber por quê. Isso arruinaria tanto o elemento surpresa de que ela precisava quanto
ela não tinha certeza de conseguir pedir de um jeito que não chegasse à mídia ou aos seus
superiores. A tempestade de merda que viria com o público ou Pomfrey descobrindo que ela
queria comprar algo ilegal em nome do tratamento de um paciente não era algo com que ela
estivesse preparada para lidar.

Pansy e Blaise também tinham sido um beco sem saída no que dizia respeito ao que ele
poderia temer, o que a surpreendeu. Hermione jogou a carta do Magizoologista na pilha de
descarte também, encarando sem ver a pilha crescente ao lado de sua xícara de chá esquecida.
Pansy e Blaise podiam não estar dispostos a revelar do que ele tinha medo, e ela sabia que
eles tinham que saber do que se tratava se eram tão chegados na escola quanto ela, Harry e
Rony tinham sido, mas eles podiam ter conexões no mercado negro. Sonserinos, afinal, eram
um povo cheio de recursos. Eles valsariam de um lado ou de outro da lei se isso lhes
trouxesse algo que desejavam.

Blaise seria mais provável que Pansy. Hermione recostou na cadeira enquanto contemplava
suas opções. Pansy no momento seguia uma carreira no direito e era muito menos propensa a
admitir qualquer conhecimento ilícito. Se Zabini estaria disposto a conectá-la a alguém que
pudesse adquirir algo ilegalmente, no entanto, era outra história. Ele não confiava exatamente
nela e não estava ciente de sua tendência a ignorar regras que não lhe serviam. Ele podia
achar que ela estava perguntando para poder denunciá-lo às autoridades.

Ela realmente precisava falar com Hannah sobre Theo.

Se a maldição é carregada no sangue, então a cura deve sê-lo.

Doença transmitida pelo sangue? Isso soava distintamente trouxa. Hermione esfregou os
olhos, com os cotovelos na mesa apoiados de cada lado do tomo gigantesco que estava lendo.
Não é de admirar que a Comissão estivesse pesquisando eugenia se eles estavam tentando
ligar uma aflição ao sangue, embora explodir quando estão com medo pareça bastante contra-
intuitivo a qualquer tipo de programa de reprodução, refletiu. O que acontece se você fica tão
nervoso que explode sem querer e mata seu potencial parceiro sexual?

Falando em sexo, se é carregado no sangue isso significa que pode ser passado às gerações
futuras? Também parece contraproducente para um programa de eugenia. Talvez a intenção
fosse que os Fulminator não fossem os que se reproduzissem? Isso também não fazia sentido,
percebeu, já que houvera mais de um herdeiro de família sangue-puro que tinha sido
experimentado.

Embora talvez isso não tivesse relação com os Fulminator de modo algum e sim com os
outros experimentos que a Comissão vinha realizando. Talvez pretendessem que fossem
fatais, mas lentos, e que os resultados de quaisquer atividades reprodutivas carregassem a
mesma dor?

Isso é macabramente mórbido para uma manhã de domingo.


Tecnicamente ela deveria estar no café dos Weasley agora. Ela tinha passado lá hoje de
manhã para pegar as últimas coisas que tinham ficado em Grimmauld, tendo movido a maior
parte de seus pertences alguns dias antes, e tinha esbarrado em Ginny. Hermione tinha
tentado acertar o horário para aparecer depois que ela e Harry já tivessem saído, mas seu
timing falhara e Ginny a abordara, tentando fazê-la ir ao brunch de domingo.

Hermione se desculpara com a desculpa de que precisava terminar de desempacotar suas


coisas em seu novo flat, mas no segundo em que eles desapareceram pela floo ela levou a
última caixa para casa e então foi direto para a Mansão Malfoy, assustando pra valer Lucius
Malfoy.

Não é que ela não quisesse ver os Weasley, é só que havia apenas até certo ponto em que
Hermione aguentava a falação sobre planejamento de casamento de Ginny e Molly, e as
insinuações involuntárias de Luna. Ela já estava sujeita a um agora fixo jantar quinzenal com
Ginny, que insistia que ela precisava tanto ter algum tipo de vida social quanto ajudá-la a
considerar as milhares de decisões que planejar um casamento exigia.

Fugir para casar, com certeza vou fugir para casar.

Os Malfoy fogem para casar?

FOCO.

Ela sabia que occlumency e o controle sobre os surtos estavam conectados com base nas
experiências de Justin e de Malfoy, mas tinha que haver algo mais relacionado a emoções e
magia que pudesse ajudar a controlar as explosões ou livrar-se delas de uma vez.

Ela fechou o tomo que vinha folheando, frustrada. Magia emocional era muito difícil, como
evidenciado pela incapacidade de Harry de aprender occlumency o bastante para bloquear
Voldemort. Não era uma área extensa, a maior parte focada em coisas como poções do amor
e o tipo de magia que a mãe de Harry usara para protegê-lo, que era incrivelmente rara e mal
documentada para começar. Ela não precisava de algo para proteger Malfoy, porém — ele já
estava imbuído de proteções do maldito feitiço Fulminator. Incarcerous, Stupefy, etc., nada
daquilo podia tocá-lo. Se o feitiço de explosão estava imbuído nele, ela precisaria de um
feitiço que pudesse removê-lo — que pudesse purificá-lo. Esfregar aquele feitiço estúpido
para fora dele. E isso apenas se sua teoria se provasse correta.

O que ela não podia confirmar sem um bicho-papão.

Ela gemeu e inclinou a cabeça para trás, olhando para o piso superior da biblioteca dos
Malfoy sem realmente vê-lo. A cadeira de paisley berrante era significativamente mais
confortável do que as cadeiras de madeira tinham sido e ela repousou a cabeça no encosto
alto, frustrada e absorta em pensamentos.

Houve uma sensação suave, inquisitiva, que se enroscou ao redor dela por um momento antes
de um copo d’água aparecer sobre a mesa à sua frente. Um sorriso curvou seus lábios e ela
murmurou um agradecimento surpreso para o cômodo como um todo, sorvendo o copo
enquanto uma dor de cabeça se formava.
A única outra magia que ela conhecia que tinha base emocional eram os patronus. Exigindo
uma lembrança ou sentimento feliz poderoso para conjurar, eram difíceis como a occlumency
no sentido de que algumas pessoas nunca os dominavam.

Hermione encarou o ponto à sua frente, os olhos se arregalando quando uma teoria se formou
rapidamente em sua mente. Um patronus requeria felicidade — felicidade em grau máximo
— concentrada em um ponto focal externo. Quase como uma explosão. O exato oposto de
uma explosão de medo.

Até onde sabia, Malfoy nunca conseguiu conjurar um patronus na escola.

— Kreacher!

Crack.

— O que a imunda sangue-ruim que—

— Eu preciso da Narcissa, agora por favor.

— A Senhora está indisponível. Ela deixou a propriedade.

Hermione se sobressaltou. Narcissa tinha permissão para sair hoje? Isso explicava a surpresa
de Lucius com a presença dela quando ela atravessara a floo. Ele não tinha ficado
impressionado quando a encaminhara para a biblioteca, mas, de novo, ele nunca ficava. Ela
mordeu o lábio, debatendo internamente os méritos, antes de respirar fundo e mergulhar de
cabeça.

— Então me traga o Lucius.

Crack.

Lucius não apreciou ser convocado por ela. Hermione notou que estava zero de dois em se
dar bem com ele hoje. Sua expressão indignada registrou para ela, mas Hermione estava
envolvida demais em montar o quebra-cabeça para se importar.

— Draco consegue produzir um patronus? — exigiu, cortando-o no meio de seu comentário


mordaz sobre os métodos dela de solicitar audiência. A expressão dele ficou abertamente
assassina.

— Não — disse-lhe de pronto, os olhos faiscando. — Creio que Draco falhou em dominar o
feitiço do patronus.

Ela revirou os olhos por dentro. Só Lucius Malfoy poderia considerar isso um fracasso em
vez de reconhecer o quão difícil ele é considerado.

Virando-se para longe dele, resmungou sob o fôlego sobre precisar de um livro sobre o feitiço
do Patronus e pegou sua bolsa na mesa de sempre. Ignorando as tentativas irritadas de Lucius
de assumir o controle da interação e dar-lhe uma lição de polidez, ela mal deu alguns passos
em direção às estantes antes de dois livros voarem da seção de magia emocional e pairarem à
sua frente.
— Oh. Obrigada — disse ao cômodo, surpresa, enquanto os apanhava no ar. Voltando-se para
a mesa, registrou brevemente que Lucius estava ficando vermelho de raiva.

— Srta. Granger — sibilou ele, irado. Quando ela voltou a si, o quebra-cabeça mental se
desfazendo à medida que tudo se encaixava, percebeu que provavelmente deveria estar
alarmada com o tom e a linguagem corporal dele. Ele pairava sobre ela e parecia bastante
capaz de violência enquanto ela apertava os livros contra o peito.

A varinha dele não estava na mão, mas ela não fazia ideia se ele tinha o mesmo nível de
capacidades sem varinha que o filho tinha. Por precaução, explicou brevemente enquanto
recuava em direção ao arco de entrada da sala.

— Se eu puder confirmar que a condição dele é desencadeada por uma resposta de medo, e se
eu conseguir fazê-lo conjurar um patronus, ele pode estar curado. Livre.

Lucius, que vinha perseguindo seus passos em retirada, parou e a observou atentamente. Sua
expressão ainda estava sombria enquanto esperava por uma explicação adicional. Ela deu
mais alguns passos para trás, a cabeça erguida e os livros ainda apertados contra o peito. Ele
não a seguiu, concedendo-lhe espaço.

— Um patrono é o exato oposto do feitiço Fulminator. É lógico que, se ele puder conjurá-lo,
banirá o feitiço impuro que está imbuído nele. Como um scourgify em suas emoções.

— E se ele não conseguir dominar o feitiço? — perguntou em voz baixa, os olhos se


estreitando.

— Eu não sei — ela respirou. — Ainda é tudo teórico.

— Posso lembrá-la, srta. Granger, de que sua posição em St. Mungo’s está bastante… tênue,
no momento.

Ela inalou bruscamente, o coração acelerando. Ele sabia sobre seus problemas com Pomfrey?

É claro que ele iria manter vigilância sobre você.

Ela endireitou a postura. — Nesse caso, talvez se interesse em saber que a fragilidade da
minha posição está interferindo na minha capacidade de tratar seu filho.

A expressão dele indicava que não sabia disso. — É mesmo — aquele tom perigoso estava de
volta. — De que maneira?

— Pomfrey acha que estou seduzindo-o — disse-lhe francamente. As sobrancelhas loiras


dele se ergueram. Tecnicamente era o contrário, e ele provavelmente sabia disso.

— Todas as nossas conversas são monitoradas. Pedi uma reunião privada com ele para
discutir algumas informações sensíveis e a administração ainda não aprovou. — Ela
convenientemente omitiu o fato de que a conversa não era necessária para o tratamento de
Draco, mas sim para outro paciente. Seu instinto lhe dizia que quanto menos Lucius soubesse
do que ela estava planejando, melhor.
— Entendo. Nesse caso, srta. Granger, talvez possamos ajudar um ao outro.

Ela sentiu pena de quem quer que fosse o alvo do desagrado de Lucius, seu tom e expressão
prometendo rápida represália. Ela também não tinha certeza se queria firmar qualquer tipo de
acordo com o pai de Malfoy.

— Parece que você precisa de influência em certas áreas onde posso ser de ajuda — aquela
voz aveludada estava de volta, sua ira aparentemente desaparecida. A rápida mudança de
postura deixou Hermione em alerta. — Só peço que, em troca, use parte da sua própria
influência.

— O que você quer? — perguntou bruscamente, odiando a subversão.

— Garantirei que sua reunião seja aprovada, assim como quaisquer outras aprovações em que
possa encontrar resistência — disse-lhe, a expressão desaprovadora. Claramente não gostava
de sua relutância em jogar o jogo sutil. — Em troca, você comparecerá a vários eventos dos
Malfoy à minha escolha.

— Dois eventos. — Não havia chance de deixá-lo escapar com uma quantidade indefinida. O
evento de Ano Novo tinha sido adorável, mas ela não era uma socialite que queria bajular e
brincar de política toda semana.

Os olhos dele brilharam e ela poderia jurar que ele estava satisfeito por ela ter percebido isso.
— Quatro.

— Dois eventos e ainda deixo você escolhê-los.

Ela sabia o que ele queria. Ele queria que ela se aliasse publicamente aos Malfoy, para ajudar
a recuperar o status social e parte da influência que tinham perdido durante a guerra. Ela seria
vista apoiando seus empreendimentos, seu status de heroína de guerra e Garota de Ouro
mostrando que os Malfoy podiam ser confiáveis. Hermione não acreditava que sua palavra
ajudaria muito com a opinião pública da forma como Lucius parecia acreditar — ela achava
mais provável acabar afundando sua própria reputação — mas como nunca ligara muito para
ser a “garota de ouro” em primeiro lugar, parecia um preço pequeno a pagar em troca de seus
pacientes.

Famosas últimas palavras.

Sua blusa hoje era azul-clara, entre outras peças de roupa que por acaso usava, e os olhos de
Malfoy percorreram seu peito quando ela entrou no quarto dele. Ela segurava o prontuário
dele em uma mão, guardando a varinha no bolso após uma breve leitura diagnóstica durante a
qual os olhos dele raramente saíram de seu torso.

— Tenho algumas perguntas sobre sua magia sem varinha.

Hermione tinha mais do que algumas perguntas, mas sentia que pisava em gelo fino só de
reconhecer o poder de sua magia sem varinha em primeiro lugar. Ele estava basicamente ali
voluntariamente — a magia de contenção em seus pulsos era claramente incapaz de
realmente segurá-lo, com base em episódios anteriores. Seus olhos vagaram preguiçosamente
para o rosto dela diante da pergunta e ele assentiu uma vez para indicar que estava ouvindo.

— Era tão poderosa antes do procedimento que você passou? Ou aumentou depois?

— Era a mesma antes e depois.

Hermione conjurou uma pena e fez uma anotação. Se tivesse aumentado, poderia ter
significado interferência em sua alma, como o que Dennis estava experimentando. Ela
precisava garantir que não havia nenhum outro aspecto que não tivesse considerado antes de
prosseguir com a aquisição de um bicho-papão por meios questionáveis.

— Voldemort ensinou isso a todos os seus seguidores? — Ela não se lembrava de ter visto
outro Comensal da Morte com aquele nível de magia sem varinha durante a guerra, mas
poderia ter sido um nível de treinamento específico dos Fulminator, caso em que também
poderia estar relacionado ao procedimento que ele passou.

Malfoy se contraiu levemente ao ouvir o nome de Voldemort. — Não.

Ela fez outra anotação. — Mais uma. Você precisa imitar o movimento de varinha do feitiço
para lançá-lo?

Essa última pergunta era pura curiosidade acadêmica e ela pôde perceber pelo leve inclinar
dos lábios dele que ele sabia disso. Seus olhos baixaram para as próprias mãos. As restrições
brilhavam fracamente em seu colo, em seu estado habitual, antes de subitamente
desaparecerem.

Ele lentamente ergueu os braços e executou um alongamento bastante preguiçoso, bem acima
da cabeça, lançando um sorriso zombeteiro ao atendente postado na porta. O atendente tinha
uma expressão alarmada, mas Hermione não percebeu. A camisa de Malfoy subira com o
movimento de alongar, revelando um pequeno pedaço de pele e um vislumbre dos músculos
abdominais.

Hermione engoliu em seco, excitada tanto pela visão quanto pela impressionante
demonstração de magia. O nível de controle e poder bruto que aquilo exigia, não apenas para
executar tal feitiço, mas para fazê-lo parecer tão fácil…

O atendente deu um passo em direção a Malfoy, mas ele já estava tranquilamente retornando
as mãos à posição original, as restrições voltando a cintilar em seu colo enquanto ele a
encarava novamente com uma expressão presunçosa, os olhos absorvendo sua expressão
corada.

— Você ainda precisa de uma varinha a essa altura? — Hermione perguntou um pouco fraca.

— Não é o tamanho da varinha, Granger…

Ela revirou os olhos antes de lançar-lhe um olhar firme. Ele deu de ombros.

— Não tenho uma desde que Potter pegou a minha. Eu sabia que poderia perdê-la durante a
guerra — pareceu sensato praticar sem ela.
Hermione não fazia ideia do que Harry tinha feito com a varinha de Malfoy depois que
reparara a sua própria com a Varinha das Varinhas. Como Malfoy fora preso imediatamente
após a batalha final, era inteiramente possível que Harry ainda estivesse de posse dela. Ela
fez uma anotação mental para perguntar a ele da próxima vez que o visse.

Olhos cor de uísque leram a folha de aprovação diante dela. Tinham se passado apenas alguns
dias desde que ela e Lucius haviam conversado, e ali estava uma aprovação assinada para
uma conversa silenciada de três horas com Malfoy. Além disso, ele não era mais obrigado a
permanecer contido após sua pequena demonstração do outro dia, já que fora notado o quão
inúteis eram as restrições para contê-lo. O atendente esperaria do lado de fora da sala durante
toda a discussão — se algum dos alarmes fosse acionado, a sessão chegaria a um fim
imediato.

É impressionante o que dinheiro e influência podem fazer, pensou sombria, tentada a amassar
a folha.

Antes de avisar Malfoy desse desenvolvimento, ela foi checar Fred pela primeira vez em
semanas. O curandeiro dele não tinha as melhores notícias, infelizmente — a recuperação de
sua memória estava lhe causando muita angústia. Fred vinha gritando e inconsolável à
medida que se lembrava de mais e mais coisas, e havia um debate moral em andamento entre
o curandeiro da mente e seu outro curandeiro sobre se deveriam continuar ou se isso era
equivalente a torturá-lo uma segunda vez. Ela disse ao curandeiro que ele precisaria discutir
com os Weasley, mas que talvez eles desejassem interromper o processo de recuperação se
estivesse causando tanta dor e estresse. As memórias de George ainda não haviam avançado
de qualquer maneira — ele vinha aprendendo a viver sem elas.

Ela saiu do quarto de Fred e estava tão perdida em pensamentos que quase esbarrou em
Zabini. Ele a firmou, as mãos em seus ombros, enquanto ela se desculpava.

— Como está o Nott? — perguntou educadamente, sentindo-se desconfortável.

— Sem mudança — disse-lhe de forma rígida. — Abbott também não vai encaminhá-lo para
você.

— Eu sei.

Ele lhe lançou um olhar perplexo por um momento antes de se transformar em um de


avaliação.

— Vamos tomar um café.

Acomodada na pequena mesa que normalmente ocupava quando tomava café com Pansy,
Hermione lançou um feitiço de silêncio, ignorando a sobrancelha erguida de Zabini ao fazê-
lo. O terno dele hoje era cinza-escuro e parecia caro, ela notou enquanto tomava um gole,
refletindo brevemente sobre como começar aquela conversa.

— Preciso comprar algo discretamente.


— Então contrate um personal shopper, Granger — disse-lhe Zabini de forma impassível,
fazendo uma careta com o gosto do café da cantina. — Não vejo como isso se relaciona com
Theodore.

— Algo ilegal — disse ela sem rodeios.

Ele ergueu uma sobrancelha para ela. — E você está me contando isso, por quê? Garanto que
circulo em ambientes perfeitamente legais. Não sei o que teria lhe dado a impressão
contrária.

— É para o Malfoy.

— Trocando presentes, é isso?

Você não faz ideia.

— Zabini — disse ela em tom de advertência. — Por favor. É importante.

Ele exalou pelo nariz, encarando-a por um momento sem falar.

— Eu sei o que há de errado com Nott.

Olhos negros arderam com sua declaração, sua expressão se tornando intensa enquanto a
fitava por vários longos e tensos segundos. Ele engoliu com dificuldade.

— Como? — finalmente conseguiu dizer, rouco. — O quê?

— Preciso de algo para Malfoy — disse-lhe com firmeza, não querendo revelar sua única
carta sem uma garantia.

— Certo. O que a Princesa Grifinória precisa? — Sua expressão se recompôs em uma de


indiferença enquanto agarrava o copo descartável de novo e tomava outro gole.

— Um bicho-papão.

Ele engasgou com o café, batendo no peito com o punho antes de lhe lançar um olhar
incrédulo. Pousou o copo de volta e a encarou, incrédulo.

— Você quer que eu intermedeie um negócio por um bicho-papão? Para o Malfoy?

Ela explicou brevemente seu plano de diagnóstico, e ele a encarou como se ela tivesse
enlouquecido.

— Não consigo decidir se você é completamente maluca ou brilhante, Granger.

— Não me importa o que você decida, desde que me consiga um bicho-papão.

— E Theodore?

Seu tom era leve, mas Hermione podia perceber que a resposta era importante. Ela tinha
“acidentalmente” convocado o arquivo de Nott em vez do de Dennis naquela manhã e
passado pelas anotações de Hannah. Soava exatamente como vários de seus pacientes
anteriores de transfiguração experimental — todos os quais tinham sido corrigidos e enviados
para casa.

— O arquivo dele se parece com outros casos que já tive, em que os pacientes foram
liberados sem efeitos físicos colaterais. Desde que não haja surpresas ou diferenças, deve ser
simples, mas preciso examiná-lo pessoalmente primeiro.

Ela descreveu brevemente o processo para ele apelar a Pomfrey, de modo que ela pudesse
assumir o caso de Nott, já que Hannah não estava disposta a encaminhar Theo para Hermione
diretamente. Ela precisava conversar com Hannah sobre isso e descobrir o porquê — não
tinha nenhuma desavença com ela e não podia imaginar uma razão para a recusa.

— Um bicho-papão — Blaise murmurou para si mesmo quando ela terminou. — Um maldito


hipogrifo teria sido mais fácil e provavelmente tão eficaz quanto.

— Preciso de medo real, não fingido — apontou, gesticulando com seu copo descartável.

— O medo dele não era fingido — disse-lhe secamente, levantando-se para ir embora. — Ele
é um pequeno dramático, Granger, você vai ver.
Capítulo 18

Abril de 1999

— Ah, pelo amor de Merlin, vocês dois!

Seu silvo irritado fez os dois amantes se separarem de repente com expressões culpadas.
Harry apressadamente tateava o cinto enquanto Ginny, pela primeira vez, de fato corava e
começava a alisar o vestido. Hermione girou no lugar, dando as costas ao casal enquanto eles
se ajeitavam.

— Vocês sabiam que eu estava vindo. — Ela bufava, sua própria falta de qualquer tipo de
vida sexual tornando a cena ainda mais irritante. Já fazia meses desde que os pegara da última
vez e ela ainda estava no mesmo estado de limbo no que dizia respeito à sua vida amorosa.
Sua relação com Malfoy, se é que se podia chamar assim, não ia a lugar algum até que ela
conseguisse soltá-lo. Enquanto isso, seus amigos tinham passado de namorando para
morando juntos para noivos e planejando casamento nesse mesmo intervalo de tempo.

— Talvez eu quisesse vir primeiro?

— Ginny!

Ela e Harry gritaram para a ruiva ao mesmo tempo, Hermione em tom de repreensão e Harry
em tom exasperado. Ginny, agora perfeitamente arrumada e imperturbável, deu a volta e
parou diante da amiga. Sua expressão não era nem um pouco contrita, o vestido longo cinza
sem um amasso sequer após ela lançar um feitiço esperto.

Hermione lançou-lhe um olhar fulminante. — Sério?

— Estamos recém-noivos — disse Ginny simplesmente, dando de ombros e vestindo uma


jaqueta.

— Estou bem ciente, já que estou ajudando você a planejar o casamento. — Hermione
retrucou, enfurecida. Ela não costumava ser tão agressiva, mas aquilo já era demais. Eles
tinham tido tempo de sobra para se preparar para a chegada dela, e ela realmente não
precisava da vida sexual deles esfregada na sua cara naquele momento. Sua própria vida
amorosa ainda estava limitada a insinuações e olhares de canto — ela não precisava de um
lembrete do que poderia ser.

A expressão de Ginny era de quem sabia das coisas, mas ela sabiamente não disse nada
enquanto os três deixavam Grimmauld, Harry puxando uma camiseta preta sobre a cabeça no
processo. Seu cabelo negro estava em desordem, como de costume, e ele não fez esforço
algum para ajeitá-lo enquanto se afastavam alguns passos da casa. Ginny carregava um
presente embrulhado em papel colorido em uma mão, o papel de seda azul e vermelho
amassando levemente a cada passo.
— Como está o novo flat? — perguntou Harry, mudando de assunto enquanto os três
puxavam suas varinhas e se preparavam para aparatar.

Solitário.

— Maravilhoso — murmurou ela, erguendo a varinha e se preparando para girar no lugar.


Três pops distintos depois e eles estavam de pé na rua da casa de Andromeda.

— Como está o trabalho? — ela forçou, tentando se acalmar antes de chegarem para a festa
de aniversário de Teddy. Sua expressão sombria provavelmente assustaria o bebê de um ano e
geraria uma porção de perguntas dos Weasley, nenhuma das quais queria responder.

— Corrido. — O tom de Harry era grave. — Podemos ter capturado a maior parte dos
Comensais de Morte renegados, mas agora temos problemas com vigilantes.

— Vigilantes? — Hermione perguntou, a expressão intrigada e a irritação derretendo. —


Fazendo o quê, exatamente?

— Atacando aqueles que acham que não foram punidos com severidade suficiente, ao que
parece. Apoiadores para os quais não tínhamos provas suficientes para prender ou aqueles
que receberam sentenças leves foram os alvos até agora.

Ao ver sua expressão alarmada, os Malfoy imediatamente vindo à mente, Harry apressou-se
em tranquilizá-la, lendo corretamente seu rosto. — Os Malfoy já foram avisados pelo DMLE,
’Mione, e não é nada que eles não esperassem. Esse grupo é descuidado e já fizemos uma
prisão.

— Não se preocupe — aquela mansão deles é praticamente uma fortaleza. A quantidade de


feitiços de proteção que tem lá… — Ele balançou a cabeça em descrença antes de apontar
para o pulso dela. — Faz esse negócio aí parecer brinquedo da Zonko.

Hermione lhe lançou um olhar agradecido e sentiu-se mal por seu acesso anterior. Ainda
estava visivelmente preocupada, não apenas com os pais de Malfoy, mas com o próprio
Draco. Ele era perfeitamente capaz de se defender, mas também estava vulnerável dentro do
hospital. Os funcionários passavam pelo que se considerava checagem de antecedentes no
mundo bruxo, mas a guerra tinha afetado a todos. Tinha mudado as pessoas. Com o jeito que
Pomfrey e Hannah vinham se comportando ultimamente, e as concussões misteriosas de
Malfoy, ela de repente se sentia muito tensa.

A chegada à casa de Andromeda interrompeu suas preocupações quando foram conduzidos a


uma cena barulhenta e caótica. Weasley em todos os cômodos — Bill e Fleur estavam em
conversa com Rony e Luna, a expressão de Fleur cuidadosamente neutra enquanto ouvia algo
que a loira sonhadora dizia. Molly abraçou-a, Harry e Ginny em sequência antes de levar sua
única filha até a cozinha, falando algo sobre problemas com o bolo de aniversário. Harry
abriu um sorriso ao ver Teddy de olhos arregalados encarando toda a gente e correu para
roubá-lo de Andromeda. A casa mais velha transbordava de risadas e movimento, um
contraste enorme com a última visita tranquila que Hermione tivera com Andromeda, que
tinha sido apenas ela, Harry e um Teddy sonolento.
Hermione seguiu Molly e Ginny até a cozinha, passando pela porta dos fundos e avistando
Charlie e George no jardim. Eles tentavam enfeitiçar o que Hermione tinha quase certeza de
que era um carrinho elétrico Power Wheels trouxa para se mover sozinho, os movimentos
bruscos e desengonçados do veículo lembrando fortemente o Ford Anglia de Arthur na
Floresta Proibida.

Ela afastou a lembrança e voltou-se para o bolo. O problema de Molly com a monstruosa e
imponente confeição parecia ser conseguir mantê-la em pé e evitar que pegasse fogo quando
colocava as velas. A oferta de ajuda de Hermione foi educadamente recusada, então ela
acrescentou seu presente — uma combinação de livros infantis bruxos e trouxas — à pilha
sobre a mesa da cozinha antes de seguir para fora e garantir que George e Charlie não
adicionassem velocidade demais ao veículo da criança.

A visão de uma mulher loira alta e esguia estava tão fora de lugar no quintal de Andromeda
que ela parou por um momento, detendo-se no pátio dos fundos enquanto a discussão de
Charlie e George continuava alguns metros adiante.

— Narcissa?

A loira, vestida em um vestido azul meia-noite, o longo cabelo preso em um coque elegante,
virou-se e brindou Hermione com um pequeno sorriso tenso. — Hermione. Que bom vê-la.

Hermione avançou em sua direção, confusa com sua presença e ignorando os gritos de alegria
de Charlie quando o Jeep de plástico disparava descontrolado pela grama. Queria perguntar o
que Narcissa fazia ali, e também tentava lembrar a última vez em que a tinha visto usar algo
que não fosse preto, mas não encontrava uma forma educada de expressar isso, especialmente
sem mencionar o fato de que Narcissa teria precisado de permissão explícita do Ministério
para sair da mansão apenas para aquilo.

— Eu queria conhecer meu sobrinho.

Narcissa falou suavemente quando Hermione se aproximou. Surpresa e um pouco satisfeita


com a possível reconstrução de pontes queimadas, Hermione ofereceu-lhe um sorriso
tranquilizador. — Como foi?

— Ele se transformou em loiro. — A descrença tingia a voz da outra bruxa, sua expressão
mudando apenas ligeiramente com a admissão.

Hermione riu, sua tensão anterior desaparecendo. Parecia que fazia um tempo desde que ria
daquela forma, mas a formal Narcissa estava tão surpresa com a atividade favorita do
pequeno — copiar o cabelo de quem fosse novo — que ela não conseguiu evitar.

— Ele também consegue copiar sardas — confidenciou, apontando com a cabeça para os
bem sardentos irmãos Weasley, que tinham perdido completamente o controle do brinquedo e
agora tentavam persegui-lo fisicamente enquanto ele passava por cima das plantas de
Andromeda.

O sorriso de Narcissa dessa vez era menos tenso e mais relaxado. Hermione sabia que não
podia ser fácil para ela, conhecer o sobrinho depois de todo o tempo que havia se passado
desde a última vez em que ela e a irmã tinham se falado, e do que pode ter sido dito quando
se separaram originalmente. Era bastante corajoso de Narcissa ter vindo, Hermione pensou
consigo mesma, e a ausência conspícua de Lucius dizia muito.

Harry, carregando um Teddy sonolento, escorregou pela porta dos fundos com Rony e Luna
atrás. Ele sorriu para Hermione e veio andando, dando tapinhas rítmicos no bumbum do bebê
enquanto caminhava. Teddy apoiara a cabeça no ombro de Harry, exibindo cabelos curtos,
bagunçados, de um preto profundo e olhos azul-claros.

— Ele está dividido entre mim e Luna — disse Harry, radiante. Os olhos de Teddy piscavam
cansados enquanto Hermione se inclinava para esfregar suas costas. Rony e Luna se
aproximaram e cumprimentaram Narcissa educadamente enquanto ela e Harry conversavam
em voz baixa. O olhar de Teddy alternava entre Hermione e Luna enquanto Hermione
sussurrava suas saudações para ele, antes que ele se endireitasse e estendesse os bracinhos
para Hermione.

— Quero! — proclamou sua vozinha, e Harry o passou para ela. Hermione abriu um sorriso
diante da expressão relutante de Harry.

— Minha vez — ela provocou enquanto Teddy se aninhava em seu pescoço, sua irritação
anterior com Harry completamente esquecida.

Harry também cumprimentou Narcissa e os cinco mergulharam em uma breve conversa sobre
como Andromeda reagiria ao estado de seu jardim quando descobrisse. Pedaços de plantas
estavam espalhados pelo gramado, o barulho agudo das rodas eletrônicas ressoando pelo
espaço enquanto o Jeep deixava rastros pela terra e pela grama. Charlie e George tinham
desistido da perseguição, seus finite’s não surtindo efeito, e pareciam se reagrupar enquanto
tentavam descobrir como parar o brinquedo desgovernado.

Teddy, claramente exausto pela tarde, ignorava o caos em favor do ombro de Hermione
enquanto ela balançava suavemente de um lado para o outro. O gesto de George com a
varinha de forma errática lembrou Hermione de perguntar a Harry sobre a varinha de Malfoy.
Ele refletiu por um momento antes de indicar que acreditava ainda tê-la em algum lugar em
Grimmauld, prometendo procurá-la na semana seguinte. Eles derivaram para uma discussão
sobre o pedido de casamento dele a Ginny, deixando Rony e Narcissa para discutir plantas
mágicas com Luna.

— Eu estava tão nervoso, não queria te contar caso não desse certo.

— Quer dizer, caso você arregasse? — Hermione perguntou secamente, dando tapinhas
suaves nas costas de Teddy. Harry sorriu de forma culpada e ela revirou os olhos.

— Como se ela fosse dizer não, está apaixonada por você desde os 11 anos.

Harry deu de ombros. — Somos jovens. Ela poderia ter me feito esperar.

Hermione lançou-lhe um olhar. Podiam ter dezenove anos, com Ginny um ano mais nova,
mas certamente não pareciam com essa idade depois de tudo o que tinham passado juntos.
— Além disso — acrescentou —, tudo o que você pensa aparece no seu rosto. Se tivesse
sabido, teria estragado a surpresa.

Hermione pessoalmente achou aquilo bastante perspicaz para Harry, que provavelmente era a
pessoa mais desligada que conhecia, mas o resto da conversa deles foi interrompido pela
porta dos fundos se abrindo e Andromeda surgindo por ela. Ela parou de imediato ao ver o
Jeep, a boca se abrindo por um momento antes de uma expressão furiosa tomar-lhe o rosto.
Sua varinha surgiu com um movimento colérico e ela avançou em direção ao veículo
desobediente, toda a conversa morrendo quando Hermione vislumbrou a mulher que um dia
desafiara toda sua família para se casar com Ted Tonks.

O braço de Andromeda desceu com um movimento feroz, um arco escuro aparecendo em seu
rastro. O feitiço parou o veículo abruptamente, as rodas protestando com um gemido agudo.
Seus cabelos castanhos esvoaçavam atrás dela enquanto atravessava o jardim em direção ao
brinquedo. Charlie e George ergueram os olhos da conversa ao ouvir o som e empalideceram
consideravelmente ao vê-la, encolhendo-se um pouco no lugar.

Uma severa repreensão se seguiu, para a diversão de Rony, que vinha observando o
brinquedo motorizado com interesse o tempo todo em que estivera do lado de fora. Ele
resmungou algo sobre irmãos e más ideias enquanto o restante dos convidados observava,
constrangidos, Andromeda repreender seus irmãos.

O resto da festa transcorreu com surpreendentemente pouca estranheza. Teddy se reanimou


tempo suficiente para o bolo, ganhando uma explosão de energia depois e gritando de alegria
quando Harry e George começaram a persegui-lo. Hermione ajudou Charlie com o trabalho
complexo de feitiços no Jeep, limitando a velocidade a um nível razoável e informando que,
se ele simplesmente tivesse comprado uma bateria trouxa especial para ele, a magia não teria
sido necessária. Charlie explicou, envergonhado, que estava no mesmo nível de Rony e
Arthur no entendimento do mundo trouxa e não quisera estragar a surpresa pedindo ajuda a
Andromeda.

— Como eu ia saber que ia sair igual ao carro do Papai? — perguntou, devidamente


repreendido naquele ponto. Hermione ergueu as sobrancelhas, tendo pensado o mesmo mais
cedo.

Narcissa se desculpou cedo, sua visita provavelmente tendo um limite de tempo imposto pelo
Ministério, mas Hermione permaneceu no feliz casulo que envolvia o evento do dia. Fazia
tempo que não se sentia tão em paz, e ela absorveu tudo, aproveitando a trégua da escuridão
de sua vida profissional e sabendo que poderia precisar dela para a semana seguinte. Afinal,
sua reunião sem supervisão com Malfoy aconteceria na semana seguinte.

Só Merlin sabia como aquilo iria terminar.

Uma ida à livraria à tarde, cheia de flashes de câmeras e perguntas gritadas sobre seu
paradeiro recente, a deixou contrariada. Aparentemente ela não saía em público há bastante
tempo e sua ausência havia sido notada. Os repórteres praticamente salivaram quando a
viram, seguindo-a para cima e para baixo no Beco Diagonal. Eles gritaram perguntas e
tiraram fotos até que ela aparatou, a maior parte de suas compras ficando inacabada em uma
tentativa de preservar a sanidade.

Ela tinha conseguido encontrar alguns volumes sobre o feitiço do patrono, todos cobrados em
sua adorável nova “conta”, antes que a atenção da mídia se tornasse demais e agora estava
sentada mergulhada neles, chá em uma mão e livro na outra, enroscada em seu novo sofá.
Bichento ronronava, enrolado em torno de seus pés e mantendo-os aquecidos, enquanto seus
olhos percorriam a página mais recente.

O Patrono representa aquilo que está escondido, desconhecido mas necessário dentro da
personalidade.

… assumem formas que seus conjuradores podem não esperar…

… algumas bruxas e bruxos podem ser incapazes de produzir um Patrono até que tenham
passado por algum tipo de choque psíquico…

… a autoconfiança também pode desempenhar um papel importante na conjuração do


feitiço…

Hermione bufou alto na última linha. Malfoy não tinha falta de autoconfiança, isso com
certeza. Quanto ao choque psíquico, ela estava disposta a apostar que, se ele não fora capaz
de conjurar um antes da guerra, já tinha recebido choque suficiente a essa altura para
potencialmente conseguir. Se ele conseguisse evocar uma lembrança suficientemente feliz.

Suas sobrancelhas se juntaram enquanto ela considerava. O pouco que sabia da vida dele não
parecia ser lá muito feliz. Ele podia ter algo da infância ou dos primeiros anos em Hogwarts
que pudesse usar, mas entre o senso geral de caráter de Lucius e o fato de ele ter se
comportado como um pestinha desagradável durante a maior parte do tempo escolar deles,
ela sentiu aquela inquietação voltar. Se ele não tivesse uma lembrança suficientemente feliz,
mas sua soltura dependesse de produzir um patrono com sucesso…

Isso é um maldito paradoxo sem saída.

A porta se fechando atrás dela pareceu quase monumental, de certa forma. Ela finalmente,
finalmente ia poder ter uma conversa de verdade com ele. Sem atendentes, sem feitiços de
silêncio, sem monitoramento, nada. Havia mil coisas passando por sua cabeça, tantas que ela
nem sabia por onde começar e, em vez disso, olhava para ele de olhos arregalados,
completamente silenciosa.

Ele se levantara da cadeira da escrivaninha no segundo em que ela atravessara as portas,


lançando-lhe um olhar preguiçoso de cima a baixo enquanto se apoiava na mesa e cruzava os
braços. Ela deixara o atendente no corredor conforme o procedimento combinado para a
tarde. Só deveriam entrar depois que o tempo deles acabasse ou se algum dos alarmes de
segurança da sala fosse acionado. Ela nunca tinha tido tanto tempo ininterrupto a sós com
Malfoy antes, e sentia uma mistura de nervosismo e excitação borbulhar dentro de si.

— Você gosta da verde.


A voz grave dele percorreu por ela. Na lista de coisas que ela esperava que ele dissesse,
aquilo nem entrava no top dez. Além de uma saudação básica, ela definitivamente esperava
algo mais… explicativo? Ela franziu levemente a testa para ele, sem compreender.

— A camisa. Você usa essa bastante.

Ah. Ah.

Ela sentiu as bochechas ficarem levemente coradas enquanto os olhos dele percorriam seu
corpo. Não era só a camisa que era verde e ele obviamente sabia disso pelo olhar intenso em
seu rosto. Os olhos dele percorreram sua figura até que ela pigarreou de leve, decidindo para
onde levar a conversa.

— Eu estava sob a impressão de que era sua cor favorita.

Suas bochechas ficaram ainda mais vermelhas com a ousadia incomum da admissão, mas era
bom admitir algo tão pequeno quanto usar uma camisa pensando nele sem ter que se
preocupar com o que um atendente poderia pensar dessa afirmação. Ela queria agradá-lo,
atraí-lo, depois de tudo que acontecera entre eles. Os lábios dele se curvaram em um sorriso
de canto.

Ela atravessou a sala em direção à mesa dele, pergaminho e tinta na mão, observando-o
enquanto ele a observava se aproximar. Depois de colocar suas coisas na mesa bem ao lado
dele, ela lhe lançou um olhar de soslaio. Ele a encarava, ainda na mesma posição contra a
mesa com os braços cruzados.

Ela se sentiu um pouco travada. Todas aquelas perguntas fervilhantes que queria fazer ao
longo de todas as interações de repente sumiram de sua mente. Não sabia por onde começar e
se sentia atrapalhada e nervosa, sem saber como conduzir a conversa para chegar onde
queria. Para levar os dois aonde ela queria.

— Então — ele pigarreou, baixando o olhar para as coisas dela na mesa antes de voltar a
encará-la por sob as pálpebras semicerradas. — Feitiços de selamento.

Ela assentiu, ainda muda e um pouco atrapalhada, e ele iniciou uma explicação detalhada de
como a magia funcionava. Sentir as bordas da magia na alma, o processo de contê-las, as
palavras antigas que ele aprendera ainda menino. Hermione relaxou no processo familiar de
aprender magia nova e reter informação. Ela rabiscou anotações, interrompendo
ocasionalmente para pedir explicações mais detalhadas de algum aspecto e conjurando mais
pergaminho conforme necessário.

Depois de não mais que quinze minutos, ele parou, e ela se debruçou sobre as anotações por
alguns instantes em silêncio, passando por possíveis modificações para Dennis de modo que
sua alma ainda pudesse se curar, mas reduzindo o perigo para os que o cercavam. Seus dedos
estavam salpicados de tinta, o pergaminho farfalhando enquanto ela os embaralhava e sua
mente girava. Escrevendo mais algumas notas, seu fluxo de pensamento foi interrompido
quando percebeu que ele a encarava havia vários minutos.

— É só isso? — perguntou, confusa. Tinha dado menos de meia hora no total.


— É isso — ele confirmou.

— Você disse que levaria três horas — ela disse devagar.

Ele deu de ombros. — Eu menti.

Ela não precisava perguntar o porquê — estava escrito no jeito como ele a olhava. Não sabia
se ficava irritada com o tanto de esforço que fizera para conseguir o tempo juntos só para
descobrir que precisavam de uma fração dele, ou impressionada com a armação dele.
Internamente, decidiu um pouco dos dois, e eles caíram em um silêncio carregado, os olhos
dela saltando entre os dele, sem saber como prosseguir. Era bizarro estar sozinha e sem
supervisão com ele e ela não tinha muita certeza de como se comportar. Parecia que o
equilíbrio de poder tinha mudado e ela já não era quem mandava.

Malfoy estava de pé, perto e bem à sua frente, olhando para baixo para ela. Ele era muito
mais alto do que ela em pé — ela estava tão acostumada a vê-lo sentado. Na cama, na cadeira
da escrivaninha — ele estava sempre abaixo dela, ouvindo seus conselhos médicos e teorias.
Com ele pairando sobre ela, forçando-a a inclinar o pescoço para trás para olhá-lo, um arrepio
a percorreu de todas as maneiras boas. Hermione abriu a boca para dizer algo, qualquer coisa,
para quebrar o silêncio, mas ele ergueu uma de suas mãos grandes e pálidas até o rosto dela.
Afastou um cacho rebelde da bochecha e o prendeu atrás da orelha, as costas dos dedos
descendo pelo pescoço e deixando um caminho quente em seu rastro.

A mão dele continuou até que os nós dos dedos repousassem de leve no centro do peito dela,
logo acima do “v” da camisa. Ele ainda a encarava diretamente nos olhos, observando sua
reação. Ela engoliu, sentindo o caminho dos dedos como fogo queimando sua pele. Ele
arrastou os nós mais para baixo, entre os seios, fazendo seus mamilos enrijecerem atrás do
sutiã rendado verde que combinava perfeitamente com a camisa. Continuaram até o
estômago, antes de ele alisar a mão sobre seu quadril e puxá-la até que ficasse colada nele,
seus narizes quase se tocando.

— Esperei anos para te tocar.

Havia um leve tremor no grave da voz dele na palavra “anos”, uma ênfase que a deixou sem
fôlego. Seu mundo se estreitou para os olhos prateados dele e a sensação do corpo dele, duro
e magro, contra o dela. Ela podia ver o ponto do pulso batendo rapidamente no pescoço dele;
seu próprio coração ribombava em resposta. Claramente, ela não era a única desestabilizada
pela proximidade.

— Vá em frente, então.

Ela soou mais ousada do que se sentia, suas palavras baixas fazendo os olhos dele se
arregalarem por um segundo antes de se estreitarem, predatórios. Ele abaixou a boca até a
dela, os olhos dela se fechando quando o sangue ribombou em seus ouvidos.

Para alguém que a esperara por tanto tempo, ela esperava que o beijo dele fosse apressado,
frenético — desesperado. Em vez disso, ele tomou seu tempo, os lábios se inclinando sem
pressa sobre os dela, a língua contornando seus lábios antes de mergulhar em sua boca. A
outra mão dele subiu para segurar a parte de trás da cabeça dela, inclinando ambos para
encontrar o ângulo perfeito que lhe desse o acesso que queria.

Fora alguns beijos com Viktor, aquilo era território novo para ela. Ela o beijou de volta com
ardor, testando movimentos com a língua para ver do que ele gostava. Quando o lábio
inferior dele ficou preso entre os dentes dela enquanto ele recuava para respirar, ele gemeu e
praguejou. O aperto no quadril dela se intensificou a ponto de deixar marca e ele a beijou de
novo, com força, a outra mão se enredando em seu cabelo enquanto a esmagava contra si.

O quarto estéril, o atendente esperando no corredor, tudo sumiu enquanto a língua dele
saqueava sua boca. As mãos dela agarraram a blusa dele com ambas as mãos, o tecido áspero
amontoado entre seus dedos enquanto ela se puxava o mais perto possível dele. Ele tinha
gosto de calor e anseio. De hortelã e fumaça e algo caro que ela não sabia definir.

Ele tinha gosto de que ela nunca queria parar.

A mão na nuca dela afrouxou o aperto o suficiente para descer lentamente por suas costas
antes de agarrar sua bunda. Suas calças sociais iam ficar marcadas e seu cabelo ia ficar ainda
mais desastroso do que o normal, mas ela estava perdida demais para ligar. Ele estava
tocando nela, beijando-a, finalmente, e era tudo que seu subconsciente vinha repetindo em
seus sonhos e mais.

Ele se afastou de seus lábios para trilhar beijos lentos e suaves pelo pescoço dela. Um som
miado escapou de sua garganta enquanto ela inclinava a cabeça para trás para lhe dar melhor
acesso e uma risada soprou dele. Ela arfava de leve, excitada e embriagada por uma mistura
dele e adrenalina. Os dentes dele roçaram de leve em sua garganta enquanto ele descia.
Quando a mão no quadril escorregou por baixo da barra da blusa e alisou a pele de seu
estômago, subindo firme, ela foi abruptamente trazida de volta à terra, o local onde estavam
voltando à mente com um tranco desagradável.

— A gente— — ela começou.

— Calma — ele sussurrou, erguendo a cabeça e trazendo olhos líquidos e semifechados até
encontrarem os dela. — Não preciso tirar nenhuma das suas roupas para te satisfazer.

O cérebro dela entrou em curto quando os dedos dele escorregaram por baixo do sutiã, as
mãos grandes o bastante para cobrir completamente um de seus seios. Ele a acariciou, suave e
provocante, enquanto sussurrava em seu ouvido.

— Embora eu mal possa esperar para te ver nua e estendida diante de mim. Passei muitas
horas fantasiando sobre você, Granger. Se você é silenciosa ou barulhenta. Se vai implorar
para mim como uma boa garota.

Ele mordeu de leve o lóbulo da orelha antes de se afastar, apoiando-se um pouco na mesa e
prendendo os olhos nos dela. — Como você vai ficar com o meu pau dentro de você.

Hermione gemeu, os olhos dilatados, as palavras imundas dele causando uma onda de líquido
entre suas pernas enquanto os dedos dele brincavam com seu mamilo. As mãos dela tinham
afrouxado na blusa dele quando ele se sentou de volta na mesa. A outra mão dele, ainda
segurando sua traseira, puxou seus quadris para a frente enquanto ele se movia para enfiar
uma coxa dura entre as pernas dela. A mão por baixo da blusa recuou para o quadril, ambas
as mãos inclinando levemente sua pélvis para a frente antes de ele erguer a coxa e arrastar o
corpo inteiro dela contra si.

Criou uma fricção deliciosa exatamente onde ela precisava e sua respiração travou por um
momento. Ele a empurrou um pouco para trás antes de puxá-la para a frente novamente, as
mãos mantendo seus quadris no ângulo certo e os olhos observando o rosto dela com
intensidade, lendo suas reações. As mãos dela voaram para os ombros dele, as unhas
cravando enquanto o prazer crescia.

— Eu preciso saber como você soa quando goza — disse-lhe num tom escuro e sensual. —
Mas você pode fazer a gente ser pego se for barulhenta demais.

O pensamento era ao mesmo tempo aterrorizante e eletrizante. Ela podia sentir seu clímax se
construindo, aquela pressão intensa no clitóris e o formigamento em todo o resto começando
a tomar conta. Ela se ergueu levemente na ponta dos pés, mudando o peso para pressionar
com mais força contra a coxa dele enquanto ele a arrastava para frente e para trás. Sua
respiração não conseguia acompanhar — ela alternava entre ofegar por ar e prender a
respiração enquanto cambaleava à beira do precipício, o ritmo constante dele nunca mudando
enquanto ele observava seu orgasmo se aproximar.

— Acho que talvez você queira ser pega. Acho que um dia você vai querer que alguém te
veja cheia do meu pau — e amando cada segundo.

Hermione arfou e estremeceu e tremeu através de sua euforia, o orgasmo mais intenso (e
significativamente mais rápido) do que qualquer coisa que ela já tivesse conseguido arrancar
de si mesma. Seus olhos se fecharam com força enquanto as ondas de prazer quebravam
sobre ela, mal captando o olhar de triunfo dele enquanto ela ofegava e gemia para ele.

Ela desabou ligeiramente para a frente depois de um momento, exausta e mole. Ele os
reorganizou e se sentou na cadeira da escrivaninha, ela de lado em seu colo e a cabeça
encaixada sob seu queixo. A ereção dele pressionava contra seu quadril, mas ele não fez
menção de fazer nada a respeito. Parecia contente em simplesmente segurá-la enquanto ela
recuperava o fôlego e a lucidez, deslizando uma mão para cima e para baixo em suas costas.

Ela estava um pouco envergonhada por basicamente tê-lo esfregado até terminar e não tinha
certeza de como prosseguir a partir dali. Nunca tinha feito nada do tipo antes e não sabia qual
era o protocolo. Ela deveria dizer algo? Simplesmente alcançá-lo e pegá-lo? Por que não
pensara em pesquisar antes a progressão de um relacionamento sexual?

Ele acariciou com uma mão o braço dela e tocou brevemente a pulseira prateada e preta antes
de voltar a mão ao ombro, seguindo o mesmo caminho repetidas vezes. Hermione ergueu o
rosto e pousou um beijo no pescoço dele, arrancando um gemido dele. Sua mão desceu pelo
peito dele e em direção ao colo, decidindo por um plano de ação em vez de palavras, mas
uma das mãos dele prendeu seu pulso e segurou firme.

— Se você começar isso agora, eu não vou conseguir parar, e eu não vou te comer numa
cama de St. Mungo’s na sua primeira vez.
Hermione corou. Não era nem metade do que ele já vinha dizendo de sujo, mas parecia muito
mais indecente o fato de ele claramente ter pensado na perda de virgindade dela. Mais do que
ela, ao que parece. Seu olhar desceu até onde ele segurava seu pulso, a mão dele cobrindo
parcialmente a pulseira da vista. Uma pergunta incômoda surgiu em sua mente ao ver aquilo.

— Eu não consigo desiludir isso.

Ela falou suavemente e ergueu a cabeça para encontrar os olhos dele, sua própria expressão
interrogativa. Ele parou por um momento, permanecendo absolutamente imóvel, antes de
soltar a mão dela e voltar a acariciar suas costas.

— Eu também não consigo transfigurar.

Um sorriso arrogante puxou um dos cantos de sua boca, mas não parecia exatamente como o
de sempre. — Tentando me esconder?

— Não — respondeu, franzindo ligeiramente a testa para ele. — Não pretendo esconder nada
quando você sair daqui.

O sorriso caiu e o olhar intenso dele voltou, os olhos dele indo e vindo entre os dela como se
checassem o quão séria ela estava. Ele ergueu uma mão para emoldurar o rosto dela e puxá-la
para um beijo suave.

Quando ela se afastou após alguns momentos, ergueu uma sobrancelha. — Você conseguiu
desiludir o anel.

— Eu gostaria dele de volta, a propósito — disse ele levianamente. Ela lhe lançou um olhar
de crescente frustração e ele suspirou.

— É para ser um statement, para ostentar. Escondê-lo derrotaria o propósito.

Andromeda estava certa.

— E que declaração exatamente você estava tentando fazer ao me dar isso no Natal de dois
anos atrás?

Ele resmungou algo que soou suspeitosamente como “Acho que vamos fazer isso agora”. —
Caso não tenha notado, grifinórios tendem a ser bastante imprudentes quando estão bancando
o herói. Você pode ser bem difícil de manter viva.

— Eu não sou a única que passou a guerra bancando o herói.

— Eu não sou herói! — Os olhos dele arderam, a expressão ficando zangada. Ele a tirou do
colo, gentilmente, e se levantou, dando alguns passos para longe enquanto visivelmente
tentava se acalmar.

Hermione observou com crescente confusão e inquietação. — Nós não teríamos sobrevivido
sem sua ajuda. Talvez nem tivéssemos encontrado aquelas horcruxes—
— Quantas vidas o Trio de Ouro tirou? — ele exigiu, girando de volta para encará-la. —
Quantas pessoas os preciosos grifinórios do Mundo Bruxo mataram?

— O que você tem, cinco anos? — ela retrucou. — Não aprendeu nada com a guerra? O
mundo não é preto e branco. Você não é ou herói ou Comensal da Morte. Só porque eu não
lancei uma maldição da morte não significa que não haja sangue nas minhas mãos!

— Eu assassinei pessoas, Granger. Eu matei o seu precioso Dumbledore, já esqueceu? Ajudar


vocês três a matar um lunático obcecado em destruir minha família não redime isso —
cuspiu. — Eu joguei nos dois lados por meus próprios interesses.

Ela já quase gritava agora, indignada. — Você jogou nos dois lados para salvar pessoas que
amava. Era só isso que qualquer um de nós tentava fazer!

— E ainda assim você nunca teve que matar ninguém para conseguir isso!

Ela lhe lançou um olhar de incredulidade. — Era guerra, Draco. Você acha que o resto de nós
saiu ileso? Acha que estamos todos por aí vivendo nossas melhores vidas? Que não estamos
traumatizados por tudo?

Ele permaneceu em silêncio, confirmando sua afirmação. Pelo amor de Merlin, ele achava
que ela estava feliz aqui fora? Ele podia não ouvir todas as interações dela, mas ela estava
longe de viver uma vida despreocupada, de arco-íris e sol.

— Só porque a gente não morou com aquele monstro não quer dizer que não tenhamos todos
nossos próprios demônios.

A postura zangada dele murchou um pouco e a expressão se tornou avaliadora, os olhos


dando uma rápida varredura nela. — Você não está mais pele e osso, as olheiras sumiram, e
você foi vista em público recentemente depois de uma ausência prolongada e conspícua.

O queixo dela caiu. A impossibilidade de ouvir sua vida diária aparentemente significava que
ele vinha acompanhando de outras formas. Claramente ele tinha visto o artigo do Profeta que
saiu sobre a ida dela ao Beco Diagonal, proclamando em alto e bom som que ela era uma
reclusa por não ter sido vista em público por vários meses. Ele achava que o retorno dela à
saúde física decente significava que ela estava feliz? Que não estava sozinha? Merlin, ela se
sentia completamente presa no limbo e estava tão com ciúmes dos relacionamentos dos
amigos que mal aguentava ficar perto deles, não conseguia nem aproveitar um simples café
semanal com os Weasley ou o planejamento do casamento com sua melhor amiga, e ele
achava que ela estava bem?

— Só porque eu não pareço mais marcada pela guerra por fora não quer dizer que minha vida
é perfeita! — ela retrucou, irritada com as suposições dele.

A expressão dele aguçou, os olhos se estreitando. — Ah, qual é, Granger — ele zombou. —
Parece bem aconchegante daqui. Flat novo, festas de aniversário…

Ele calou abruptamente quando os olhos dela se arregalaram. Ela não tinha contado a ele o
que fizera no fim de semana, ainda não mencionara sua mudança recente.
— Você— você está mandando me seguir?

— Não.

Ele fez uma careta, percebendo o erro, mas não explicou. Soou como um tapa no rosto. Ela
vinha trabalhando dia e noite, pesquisando e explorando opções potencialmente, muito
ilegais para tirá-lo dali, e ele achava que ela estava por aí se divertindo e seguindo em frente
com a vida após a guerra.

— Narcissa — ela sussurrou, percebendo. Narcissa devia estar informando seus movimentos.
Ela tivera que conectar o novo flat à rede de floo, obter permissão dos Malfoy para poder
floo-ar diretamente à mansão. Narcissa estivera na festa, uma das raras vezes em que ela
realmente se divertira em meses. Narcissa não mencionara todas as idas à biblioteca dos
Malfoy que ela fizera, todos os livros por que passara, vasculhando o lugar por qualquer
informação que pudesse ajudá-lo? Ou estava apenas reportando seus movimentos?

Ele não negou a percepção silenciosa dela de que a mãe dele vinha contando a ele o que ela
fazia. Ele ficou de frente para ela, as mãos enfiadas nos bolsos da calça azul de paciente,
observando atentamente a reação dela. Seu rosto estava vazio de emoção.

— O objetivo de você tirar o anel era privacidade, Malfoy. — A voz dela tremia levemente.
— Ter sua mãe relatando minhas atividades anula o propósito.

— O que você quer que eu faça? — ele rosnou de volta. — Eu te vejo por menos de uma
hora por semana, tudo cuidadosamente profissional e monitorado, e você fica chateada
porque eu quero saber o que você faz fora do trabalho?

— O que importa o que eu faço fora do trabalho? — ela exigiu. Sinos de alarme soavam em
sua mente. — Você quer um itinerário detalhado de todos os lugares aonde eu vou? — Seu
sarcasmo entrou em ação enquanto ela lutava para conter a raiva.

— Quero, na verdade!

Ela empalideceu. Aquilo era comportamento controlador, desesperado, insalubre. Suspeitas


giraram em sua mente enquanto ela considerava várias possibilidades. Não era esse o tipo de
relacionamento que ela queria com ele, ou com qualquer um. Ela não ia ser um ratinho
submisso para atender a todos os caprichos dele, constrangida pelo ciúme dele ou—

Ciúme.

— Do que você está com tanto medo? — ela perguntou com cuidado, tentando um tom
neutro apesar do turbilhão de emoções dentro de si. — Em que você acha que andei gastando
meu tempo?

Quando ele permaneceu em silêncio, suas suspeitas se aprofundaram e ela estreitou os olhos
para ele.

— Tenho pesquisado como te tirar daqui — rosnou. — Passo metade das minhas horas fora
do trabalho na sua maldita biblioteca, procurando planos de diagnóstico e tratamento que
possam te liberar!

— E o café com o Blaise?

Sua ira aumentou. Merlin, ele tinha espiões no trabalho agora? Uma dor de cabeça se formou
enquanto ela considerava o quanto isso era mais fácil quando ele podia simplesmente ouvir
todas as conversas dela. Isso teria arruinado completamente a ideia do bicho-papão,
infelizmente, mas agora ela estava irritada demais para se importar.

— Ele me pediu para assumir o caso de Theodore Nott — disse entre dentes. — Hannah não
tem avançado muito com ele.

A postura zangada dele murchou e sua expressão relaxou, mas ela ainda estava
profundamente irritada.

— Eu não vou te dar uma agenda, Malfoy — disse, baixa mas firme, a expressão sombria. —
Eu espero que você confie em mim. Que me respeite o suficiente para acreditar que eu não
estou aí fora saindo com alguém.

Ela girou nos calcanhares e atravessou a porta, batendo-a atrás de si.


Capítulo 19

Abril de 1999

Ela estava tão furiosa que mal conseguia enxergar direito e, ainda assim, não tinha tempo
para processar suas emoções. Pomfrey queria que ela fizesse um relato sobre sua reunião com
Malfoy quase imediatamente após a sessão e, apesar de tê-la encerrado um pouco mais cedo,
ela não tinha tempo a perder. Na pressa de deixar Malfoy para trás, ela esqueceu suas
anotações sobre a mesa dele e mandou o atendente buscá-las, zangada demais para encará-lo
ela mesma.

Arrancando-as da mão do atendente e saindo a passos duros, ela deu uma passada rápida no
banheiro para garantir que sua aparência estivesse em ordem após a sessão deles. Seus lábios
pareciam levemente inchados, seu cabelo o desastre de sempre, e suas calças ligeiramente
amarrotadas. Um feitiço rápido de passadoria nas calças e algumas respirações profundas
para relaxar a expressão irritada e lá foi ela ver Poppy.

Após seu tenso e constrangedor debrief com Pomfrey sobre a magia de selamento, durante o
qual ficava claro que sua chefe ainda não tinha superado a capacidade de Hermione de passar
por cima dela para conseguir aprovações, Hermione completou o resto de suas rondas e
colocou firmemente o episódio com Malfoy fora de sua mente até poder processá-lo mais
tarde. Em particular. Talvez com uma taça de vinho.

Ou firewhiskey.

Ele tinha demonstrado sua possessividade, seu desejo por ela, repetidas vezes, refletiu mais
tarde naquela noite. A pulseira, as notas, o comportamento dele em relação à imprensa — ele
era protetor, mas também parecia que estava carimbando o nome dele por toda ela. Se ele
fosse um cachorro, jurava que ele estaria fazendo xixi nela para marcar território.

Ela fitou a taça de vinho feito por elfos que vinha degustando no sofá, no escuro, sem se dar
ao trabalho de acender nenhuma luz quando o sol se pôs. Bichento ronronava ao lado dela no
sofá, satisfeito em apenas estar por perto e deixá-la destrinchar suas preocupações por conta
própria. Hermione não tinha certeza do que pensar sobre a revelação mais recente de que
Narcissa estava basicamente espionando-a. Narcissa sabia sequer o que estava fazendo? Ou a
informação que passava a Malfoy era apenas incidental quando conversavam? Havia uma
grande diferença entre “Ah, vi Hermione na festa de aniversário do Teddy/na mansão” e
relatar cada movimento de que tinha conhecimento de volta para ele com o único propósito
de informar seus deslocamentos.

Ela queria confrontar Narcissa? Hermione não tinha certeza de que havia muito a ganhar com
isso. Narcissa era obviamente ferozmente leal ao filho, tendo desafiado Voldemort numa
tentativa de salvá-lo, e Hermione duvidava que ela parasse de relatar a ele se lhe pedisse.
Narcissa poderia ficar mais ofendida por Hermione sequer acusá-la de espionagem.

Mas o que isso dizia sobre qualquer potencial relacionamento futuro que pudessem ter se, na
primeira vez que realmente conversam, tudo degringola numa discussão e ele é tão
possessivo a ponto de realmente querer uma programação das coisas que ela faz? Ela
conseguia perceber que ele estava com ciúmes, mas não havia nada do que ele ter ciúmes. Ela
não estava interessada em mais ninguém, nunca sentira atração por outra pessoa—

Ciúmes.

Hermione endireitou-se. Ele estava com ciúmes. Ela girou o pulso para acender as luzes e
reabasteceu a taça vazia, as mãos apenas um pouco trêmulas devido à quantidade de vinho
com que se concedera. Se ele estava com ciúmes, isso implicava que ele podia estar se
sentindo inseguro. Malfoy, frio, confiante, imperturbável, sentindo-se inseguro?

… a autoconfiança também pode desempenhar um papel importante na conjuração do


feitiço…

Uma potencial falta tanto de autoconfiança quanto de lembranças felizes poderia


definitivamente causar problemas para conjurar um patrono, mas resolver esse quebra-cabeça
teria que esperar até ela confirmar sua teoria de que o feitiço Fulminator estava ligado às
emoções dele, especificamente ao medo.

Tinha ainda toda a questão de ele ter trazido à tona o fato de ter sido quem assassinou
Dumbledore. Ela, assim como Harry e Rony, amara Dumbledore e chorara amargamente sua
morte, especialmente pelo período em que acontecera. O próprio Dumbledore, no entanto,
não fora perfeito, e vivera também na área cinzenta da vida, algo que ela sentia que Malfoy
talvez não tivesse percebido. Dumbledore guardara tanto para si que ela, Harry e Rony
sofreram tentando montar o quebra-cabeça. Ele tornara suas vidas muito mais difíceis do que
precisava — se tivesse sido franco com Harry, muita dor e angústia poderiam ter sido
poupadas. Hermione reconhecia que, embora estivesse triste por ele ter partido, sabia que
Malfoy estivera numa posição de matar ou morrer.

Ela também era justa o bastante para que Malfoy ter matado seu antigo e problemático diretor
não fosse o fator decisivo que ele parecia achar que era. Era guerra, pelo amor de Merlin. As
mãos de ninguém estavam limpas.

A coruja de Lucius chegou quando ela já estava algumas taças de vinho adiantada, sua nota
bastante insistente para que ela comparecesse a algum evento beneficente em nome dele na
noite seguinte. Afirmava com toda clareza que se esperava que ela “defendesse os valores dos
Malfoy”, fosse lá o que diabos isso significasse, e que “se vestisse e se conduzisse
apropriadamente”.

E onde diabos eu deveria encontrar um vestido ‘apropriado’ com menos de 24 horas de


antecedência?

Um pequeno adendo no rodapé indicava que seu “pedido” seria atendido dentro de alguns
dias e que agora se esperava que ela participasse de pelo menos quatro eventos em vez de
dois. Ela rangia os dentes diante do tom esnobe e a missiva fumegava levemente enquanto ela
a encarava.

Irritada com a presunção correta dele de que ela concordaria em ir a mais eventos para
conseguir o que queria, ela descartou o pergaminho caro sobre a mesa e encarou o monte de
outras mensagens sem realmente vê-las. O que diabos eram os valores Malfoy que ela deveria
sustentar em um evento beneficente? Tratar os outros como se fossem inferiores? Subornar
diversos oficiais? Honestamente, ela estava muito mais qualificada para causar uma boa
impressão em um evento de caridade sem os “conselhos” sarcásticos de Lucius.

O pedido que ele mencionara era para que Lucius puxasse seus cordões de marionete e
fizesse o caso de Nott ser realocado para ela. Ela sabia que a bússola moral de Hannah era
forte demais para sequer discutir um paciente sem uma consulta oficial, a qual ela não parecia
inclinada a pedir a Hermione, pelo que Blaise vinha lhe contando. Hannah também vinha
resistindo às exigências de Blaise por uma segunda opinião, embora isso deixasse Hermione
ainda mais intrigada. Hannah era uma boa curandeira, uma pessoa doce — por que raios
estava arrastando os pés quando se tratava do tratamento de um paciente?

A essa altura, a rádio-corredor sobre o que Hermione conseguia aprovar já zunia, e ela estava
irritada demais com fofocas e cansada demais dos efeitos de uma guerra para se importar com
o que diriam quando isso acontecesse. Ela não tinha certeza de quanto mais conseguiria
aguentar de uma carreira de cura de qualquer forma — talvez pudesse eventualmente migrar
para um cargo de pesquisa em vez de um de contato com pacientes.

A nota de Blaise chegou na manhã de sábado quando ela estava a caminho do Beco Diagonal
para encontrar um vestido, e levou um momento para ela entender por que era apenas um
número de cinco dígitos. Seus olhos quase saltaram das órbitas quando percebeu o que estava
vendo.

O preço do bicho-papão.

Hermione mordeu o lábio. A soma era exorbitante — quase um ano de aluguel do seu flat.
Quase esvaziaria toda a sua poupança.

Não era como se ela pudesse lançar isso nas despesas do trabalho também, já que era uma
compra ilegal. Sua intenção sempre fora arcar com o custo e apenas alegar que encontrara um
em algum armário por aí, mas não previra que custaria tanto. Isso significaria permanecer em
um emprego que estava aprendendo a odiar por muito mais tempo do que queria, mas
também poderia significar que Malfoy potencialmente ficaria livre. Se sua teoria estivesse
correta.

Ela recitou silenciosamente pragas bastante criativas enquanto fazia uma nota mental para
passar em Gringotes durante sua ida ao Beco para transferir o dinheiro para a conta de Blaise.
O peso financeiro pairava sobre sua mente enquanto ela recalculava como lidar com suas
despesas daqui para frente, incluindo a compra do que provavelmente seria um vestido
obscenamente caro para o evento desta noite. Ela talvez tivesse que comprar outros vestidos
ou vestes para eventos futuros também. Hermione mordeu o lábio com força suficiente para
sangrar enquanto considerava suas possibilidades.

Talvez eu possa fazer horas extras, trabalhar alguns turnos à noite.

Ela fez uma careta, quase ouvindo a voz sarcástica de Ginny em sua mente.

“Exatamente o que você precisa; mais tempo no trabalho!”


Droga.

Ele era um idiota.

Não era que estivesse mandando segui-la, por assim dizer; era mais que ele apenas mantinha
o controle de aonde ela ia. Com quem ela se encontrava. Ele só estava de olho nela,
garantindo que ela estivesse… segura.

E daí se ele estava praticamente mandando segui-la por uma combinação de sua mãe, elfos
domésticos e funcionários de hospital facilmente subornáveis. Não era como se ele a
perseguisse por propósitos nefastos, pelo amor de Merlin.

Ele só estava de olho no que era dele.

Exatamente “o quê” ela era ainda precisava ser determinado.

Difícil chamar uma bruxa de namorada quando você nem perguntou se ela gostaria de sair
com você.

Draco gemeu e levou as mãos à cabeça, os dedos se enredando no cabelo loiro-branco e


imediatamente fazendo-o estremecer. Na mesma noite da sessão deles, aquele atendente
covarde voltara. As noites de sexta pareciam ser as preferidas dele — mais tempo para a
vítima se curar no fim de semana, tornando as marcas menos óbvias. Granger só tinha notado
as concussões até agora; qualquer hematoma ou estava curado ou escondido pela roupa.

Sua cabeça estava sensível por um golpe na parte de trás, um talho marcava um dos braços
por algo que ele achou ser um feitiço de corte. Ele passou distraidamente uma mão sobre o
corte meio cicatrizado no bíceps enquanto pensava. Não sabia o nome do atendente — não
lhe era familiar de Hogwarts e não se deu ao trabalho de perguntar ao idiota quando ele
estava ali —, mas duvidava ser o único que o imbecil espancava. Draco desejava que um dos
outros pacientes ensinasse uma lição ao cretino. Se isso não significasse potencialmente uma
viagem rápida de volta a Azkaban, ele o faria pessoalmente e com prazer.

A última coisa de que precisava era de mais uma marca em seu histórico já bagunçado,
especialmente agora que Granger achava que ele não confiava nela. Ou não a respeitava. Ele
suspirou, frustrado, e recostou-se na cadeira, as mãos caindo no colo. Ameaçar McLaggen
talvez tivesse sido um passo além, refletiu, embora ela não tivesse reclamado. Para ser justo,
talvez ela não tivesse percebido que ele chegara a ameaçar remover o apêndice favorito do
sujeito se ele chegasse a menos de 500 metros dela outra vez.

O resmungo da mãe sobre homens Malfoy possessivos lhe veio à mente.

De todo modo, seus planos cuidadosamente traçados para tê-la só para si por algumas horas
terminaram de forma amarga, com ela indo embora mais cedo, furiosa com ele, e sem
previsão de quando poderia se desculpar. Não que ele quisesse se desculpar, note-se. Não
havia um pingo de remorso por suas ações circulando em seu sistema. Em vez disso, sentia a
necessidade de apaziguar a fogosa grifinória para que ela não o azaraçasse e depois se
recusasse a ter qualquer coisa com ele.
Ele já havia colocado as compras de livros dela na conta dele em Gringotes e ela tinha acesso
à infame biblioteca dos Malfoy, então um livro não parecia que resolveria desta vez.
Qualquer coisa material, a essa altura, estava propensa a irritá-la; ele sabia que ela não
gostaria de se sentir comprada, por mais que ele desejasse mimá-la. Podiam chamá-la de
Princesa Grifinória agora, mas ele planejava plenamente torná-la uma Princesa Malfoy em
breve.

Ele não estava disposto a ceder mais na questão da privacidade do que já cedera ao abrir mão
do anel.

Talvez pudesse apelar para o lado trouxa dela. Talvez a rainha trouxa pudesse ajudar, pensou,
franzindo a testa em concentração. Não lembrava o nome dela, tendo sido apresentado
quando era muito, muito jovem, mas seu pai saberia. Podiam ser trouxas, mas riqueza é
riqueza, e o primeiro-ministro não era o único chefe de estado ciente do mundo bruxo. Lucius
chegara a caçar com o príncipe consorte em certo momento, embora tenha passado as
semanas seguintes reclamando da inferioridade tanto das armas quanto do álcool trouxas.
Granger gostava da Monarquia? Alguns trouxas não eram contra?

Um exemplar de domingo do Profeta Diário estava sobre a mesa à sua frente enquanto ele se
inclinava, uma mão de cada lado do papel, a ruminar. A manchete berrava sobre como
Umbridge tinha conseguido resistir a interrogatório sob o uso finalmente aprovado de
Veritaserum, o artigo recheado de teorias sobre como. Draco considerou isso, uma linha
vincando entre as sobrancelhas enquanto algo lhe coçava no fundo da mente. Ele não fora
ensinado a resistir ao Veritaserum explicitamente, embora soubesse de outros no círculo de
Voldemort que tinham sido, mas Umbridge não era uma delas, que ele soubesse. Ela não fora
uma Comensal da Morte, apenas um peão com muito ódio e motivação. O fato de ela ter
conseguido resistir parecia… estranho.

Antes que pudesse explorar mais essa linha de pensamento, uma foto perto da parte de baixo
da página chamou sua atenção. Abruptamente pegando o jornal e puxando-o para perto do
rosto, o papel todo farfalhando, ele examinou a foto de perto. Seus dedos longos mantinham a
imagem em movimento de Hermione esticada, vestida com um traje glamouroso,
conversando brevemente com Kingsley Shacklebolt e algum membro do Wizengamot cujo
nome ele não lembrava.

Era uma imagem em preto e branco, então ele não sabia a cor, mas o vestido era estilo sereia
— justo no corpo com uma abertura na altura das panturrilhas. Mangas em babados e um
decote em “v” profundo, era glamouroso e sem adornos. Ela deu um sorriso tímido para a
câmera, seus cachos selvagens quicando levemente com o movimento da cabeça, antes que a
foto reiniciasse em loop.

O artigo indicava que ela tinha comparecido a um certo sarau beneficente do Ministério,
observando que era sua primeira aparição pública em bastante tempo e especulando sobre o
que ela vinha fazendo. Seguiu relatando sobre o evento, finalizando a coluna com uma nota
de como o sucesso da arrecadação se devia em grande parte à doação que a srta. Granger
fizera em nome dos Malfoy.

Ele prendeu a respiração enquanto encarava a última linha do artigo em descrença. Seu pai
geralmente comparecia a esse evento todos os anos — a única razão para não ter ido seria a
prisão domiciliar. Lucius claramente enviara Hermione em seu lugar, munida de uma grande
doação que queria que ela fizesse, publicamente, realizando várias coisas de uma vez. A
doação em si teria ajudado minimamente a imagem dos Malfoy, mas ter Hermione Granger,
heroína de guerra e nascida-trouxa mundialmente famosa, fazendo a doação em nome
deles…

Não apenas poderia melhorar a imagem da família, como também causaria enorme
especulação sobre por que ela estava se alinhando à família Malfoy de qualquer forma. As
colunas de fofoca iam enlouquecer com isso — ele virou algumas páginas para descobrir que
já haviam começado. Rumores giravam sobre qual poderia ser a conexão dela com a família
Malfoy que a tornava apta a se apresentar como representante, a especulação variando de
uma ligação familiar oculta a um tórrido caso amoroso com ele mesmo. Os artigos eram
rápidos em salientar que ele estava institucionalizado e ela era sua médica, chamando aquilo
de um amor proibido e questionando o que isso poderia significar para a carreira dela.

O jornal amassou em seu punho. Seu pai a usara exatamente como Draco imaginara que
poderia. As implicações de ela se alinhar publicamente com sua família eram severas — ele e
a família se beneficiariam, mas ela sofreria. Ela seria uma pária, uma vira-casaca,
especialmente se não houvesse uma declaração dele ou de seu pai explicando o porquê.
Achariam que ela era uma traidora dos nascidos-trouxas, alinhando-se a uma família tão
prolífica de Comensais da Morte. Eles já achavam que ela estava violando regras de
paciente–curandeira com base naquele artigo. Pomfrey ia perder de vez o pouco juízo que lhe
restava.

O que diabos Granger estava pensando?

Hermione fitou turva a cópia do Profeta Diário que Ginny agitava em seu rosto, as
reclamações da ruiva sardenta mal fazendo sentido para ela. Ainda de pijama, tendo sido
acordada de modo bastante abrupto por Ginny aparecendo sem avisar e sacudindo o jornal
em sua cara, ela tentou entender o que sua querida amiga estava naquele momento
sussurrando aos gritos para ela.

Ela tinha chegado do evento muito tarde, passando horas ouvindo um monte de sangue-puros
e vários funcionários do Ministério falarem sobre si mesmos e sobre todo o dinheiro que iam
doar à “nobre causa” — a qual honestamente ela nem lembrava mais qual era — e gastando o
dinheiro de Lucius (e tecnicamente do Draco?) dinheiro. Pansy até tinha dado as caras,
embora não tivesse lhe dito muito além de amenidades. Hermione não achava que Pansy
soubesse em que capacidade Hermione tinha comparecido, ou suspeitava que Pansy teria tido
mais a dizer.

“— você chegou a pensar por um minuto no que todo mundo ia dizer? Mamãe está fora de si,
acha que você levou um imperius —”

Hermione suspirou e se apoiou na cama antes de gesticular para Ginny lhe entregar o jornal
enquanto ela continuava a desabafar. O artigo da primeira página parecia bom para ela, a foto
bastante lisonjeira, e ela lançou um olhar para Ginny quando disse isso.

— Não esse, olha este.


Ginny amassou o jornal e enfiou-o de volta no rosto de Hermione, a força do gesto causando
uma leve brisa em seu rosto. Ela ergueu a mão para pegá-lo de Ginny, franzindo a testa
enquanto lia.

— Uma traidora? Sério?

— O que você achou que ia acontecer? — exigiu Ginny, mãos nos quadris, parecendo cada
centímetro a faísca que era. — Que iam suspirar por cima do seu caso de amor inexistente,
possivelmente-provável com um ex-Comensal da Morte?

— Mas ele—!

— Escolheu não revelar o que fez ao público — cortou-a Ginny, sombria. — Eles ainda
pensam nele como o garoto que matou Dumbledore e saiu com uma temporada em
[Link]’s, e agora parece que ele te colocou sob algum tipo de feitiço. — As sobrancelhas
ruivas se arquearam para ela. — E não do tipo em que nós duas sabemos que você está.

Hermione deixou a cabeça cair para bater na cabeceira. — Pomfrey vai me matar — ela
gemeu.

— É com ela que você está preocupada? Você já conheceu a minha mãe? Ou o Rony? Ou
literalmente qualquer um dos outros Weasley? Ainda bem que você contou a mim e ao Harry
sobre isso há eras. — Ginny acrescentou a última parte sombria. — Esta manhã foi cheia de
todo tipo de gritaria dos Weasley. Consegui convencê-los a me deixar falar com você
primeiro. Aliás, como está indo com ele?

A mais nova dos Weasley se enfiou na cama ao lado de Hermione, arrancando o jornal das
mãos dela e abrindo em outra página enquanto se acomodava. Parecia imperturbável com a
ira da família enquanto percorria o resto das notícias. Hermione ergueu a cabeça novamente
para olhar para as mãos agora vazias, pigarreando.

— Nós, ah, tivemos uma conversa.

Ela detalhou como tinha sido a sessão com Malfoy dois dias antes e sua fúria persistente por
estar sendo seguida. As sobrancelhas de Ginny subiam mais e mais à medida que ela falava,
até finalmente explodir com—

— Peraí, vocês se beijaram?

Hermione corou, tendo mantido o resto do que acontecera com Malfoy para si, e assentiu.
Ginny soltou um whoop e caiu na risada, agarrando a barriga.

— O Harry me deve dez galeões — disse a ela, sorrindo. — Apostei com ele que Malfoy
daria o primeiro passo antes de ser solto.

O queixo de Hermione caiu. — O quê? Vocês estavam apostando em cima de mim?! E essa é
sério a sua leitura da situação depois de eu ter acabado de dizer que ele está praticamente me
stalkeando?
Ginny deu de ombros, ainda sorrindo. — Tecnicamente o Harry apostou em você e nos seus
princípios de ferro. Eu apostei na falta de escrúpulos do Malfoy.

Hermione bateu em Ginny com um dos travesseiros enquanto a outra mulher gargalhava
como louca por alguns momentos. Ficando séria, ela jogou o jornal já maltratado para o lado
e cravou um olhar de aço na amiga cacheada.

— Quanto ao stalking — o que ele está fazendo com a informação? Sentindo alívio por você
estar segura? Merlin nos livre — Ginny revirou os olhos.

Hermione fez uma careta. — Eu ainda sinto que não tenho privacidade! Eu não quero ser
seguida!

Ginny deu de ombros. — Você tem privacidade aqui dentro — ela gesticulou ao redor do flat.
— Já que ele não tem mais aquele anel. Ele está de olho em você em público, e daí? Você é
observada por todo mundo em público, heroína de guerra famosa e tudo mais. — Ela apontou
de volta para o jornal amassado, agora em pedaços no chão do quarto. — O Profeta é prova
disso — toda vez que você vai à livraria, sai uma matéria.

— Você percebe que a maioria das mulheres reclama que os homens não dão atenção
suficiente, né? — acrescentou Ginny, levantando-se da cama. Claramente encerrando o
assunto, perguntou: — Então, como vamos lidar com a mamãe?

Não posso simplesmente evitar a Molly para sempre?

Resignada, Hermione arremessou as cobertas para trás e se levantou. — Vamos acabar logo
com isso.

Ela passou o café da manhã de domingo dos Weasley tentando explicar para todo mundo que
não estava, de fato, namorando ativamente um de seus pacientes (e recebendo olhares com
sobrancelhas erguidas de Rony, Harry e Ginny pela escolha de palavras) e estava ajudando a
família Malfoy por razões dela, nas quais teriam que confiar. Também lembrou a todos que
realmente não deveriam questionar seu julgamento porque vejam onde ela os tinha levado até
agora — um pequeno incidente com roubar o cofre errado em Gringotes à parte.

Molly, apenas um pouco apaziguada pela explicação dela, mas claramente ainda desconfiada
— ela era, afinal, uma grande fã de Rita Skeeter — revelou que tinham decidido não
prosseguir com a recuperação de memória de Fred. Sua aparência física tinha melhorado, um
pouco do vermelho voltando ao cabelo e um peso saudável colocado, fazendo-o parecer
menos uma casca de pessoa, mas ele ainda estava muito perdido. Precisaria permanecer em
[Link]’s, sua magia ainda instável e sua capacidade mental para a vida diária
questionável.

— Ele fica resmungando sobre Rowle — Rony disse a ela em voz baixa, sentado ao lado dela
na grande mesa de madeira maciça em que todos comiam. — Fica dizendo “é o Rowle, é o
Rowle”, mas nada além disso.

Ela estava cansada demais para decifrar os resmungos de Fred. Exausta do interrogatório e de
sua noite tardia, Hermione passou o resto do domingo trancada em seu flat desenhando um
feitiço de selamento para Dennis e evitando pensar em como ia lidar com Malfoy na segunda-
feira.

Acontece que ela não precisava evitar os pensamentos sobre como lidar com Malfoy, porque
ela nem chegou a vê-lo.

O cheiro de sangue, enferrujado e pesado, impregnou suas narinas. Suas mãos e vestes de
curandeira estavam cobertas dele, seus dedos escorregadios e desagradavelmente quentes.
Estava por toda parte — no chão, na cama, salpicado nas paredes brancas do quarto. Seus
ouvidos zumbiam enquanto ela encarava suas mãos trêmulas e vermelhas, ajoelhada numa
poça disso. O sangue penetrava nas pernas de suas calças sociais.

Alguém estava em pé à sua frente, falando, mas Hermione mal conseguia ouvir. Ela via as
vestes verdes de curandeiro na visão periférica, mas não reconhecia o rosto. As vestes deles
estavam limpas, sem uma gota de vermelho, enquanto ela estava encharcada de sangue. Eles
não estavam vendo? Eles não viam todo aquele sangue? Era tudo o que ela conseguia ver, e
cheirar, e provar—

Ela vomitou em cima dos sapatos da pessoa.

Deve ter passado algum tempo de que ela não estava ciente. A voz em pânico de Ginny
rompeu o zumbido em seus ouvidos, o rosto dela sendo a primeira coisa que entrou em foco
em um bom tempo. Parecia que ela estava perdendo um pedaço de tempo, mas não podia ter
sido muito, porque suas mãos ainda estavam vermelhas. Alguém segurava seu cotovelo e ela
virou-se para olhar.

Hannah Abbott estava ao lado dela, explicando algo para Ginny. As vozes estavam distantes
e confusas — ela não conseguia entender o que diziam. Hermione percebeu vagamente que
devia ter sido side-alonged. Hannah devia tê-la levado para Grimmauld porque aquilo
definitivamente não era o seu flat. Os traços do cômodo estavam desfocados e trechos da
conversa das duas flutuavam por sua mente enquanto ela se agarrava a um pensamento.

— Eu quero um banho.

Sua voz estava áspera como se tivesse gritado, mas ela não lembrava se tinha. As cabeças de
Hannah e Ginny se viraram para ela, a boca de Ginny levemente aberta, a expressão
preocupada. Hannah apenas assentiu e a soltou, despedindo-se das duas com um boa-noite.
Essa parte ao menos ela conseguiu reconhecer.

Ginny a levou ao chuveiro e ajudou a tirar a roupa encrostada, o sangue havia muito secado.
Desmanchou-se em pequenos flocos vermelhos, cobrindo o chão do banheiro enquanto ela se
despia. Hermione estremeceu ao ver aquilo e Ginny apressadamente baniu a bagunça e levou
as vestes consigo, deixando-a tomar banho em paz. A água correu vermelha por tanto tempo
que ela se perguntou se parte daquilo não era alucinação.

Harry insistiu que ela passasse a noite, dizendo algo sobre não querer que ela ficasse sozinha,
mas Hermione queria muito, muito ser deixada sozinha naquele momento. Ao mesmo tempo,
queria silêncio absoluto e passar horas gritando o mais alto que pudesse. Nenhuma das
opções parecia suficiente.
Ela ainda conseguia sentir o gosto de sangue.

Quando ela não apareceu na segunda-feira, ele tentou não deixar isso incomodá-lo. Não era
tão incomum assim ela pular um dia aqui ou ali. Sua condição não exigia visitas diárias,
embora ela tendesse ao menos a dar uma passada uma vez por dia com todos os pacientes,
mantendo uma rotina e sendo a pessoa prática que era. Às vezes outro paciente tomava muito
tempo, ou surgia uma emergência, e ela aparecia logo cedo no dia seguinte. Ele costumava
ser o primeiro da lista nas rondas dela.

Ela não veio na terça também.

Dias de férias, disse a si mesmo quando a quinta-feira chegou. Embora ela raramente, ou
nunca, tirasse férias (algo que ele planejava corrigir quando saísse). Ele teria achado que ela
diria algo se fosse sair de férias em vez de simplesmente desaparecer, embora pudesse ser
porque estava chateada com ele. Ele pensaria que ela o estava evitando totalmente, mas o
atendente que ele tinha subornado indicou que não a vira no hospital também. Ela
simplesmente não tinha ido trabalhar.

No sábado ele já estava oficialmente entrando em território de ataque de pânico. Se tivesse


havido algum tipo de incidente com um paciente, eram obrigatórios três dias de afastamento,
o que significava que ela já deveria ter voltado. Ela não tinha sido internada no hospital com
ferimentos. Os elfos domésticos relataram que ela se mudara de Grimmauld no mês passado
e, embora eles pudessem entrar no novo flat, teriam que explicar por que estavam ali se
fossem vistos e, depois da última interação dele com Granger, ele tinha quase certeza de que
isso não cairia bem com ela.

Mas onde diabos ela estava?

Ela deixou Grimmauld uma manhã, lúcida o suficiente para reconhecer que queria ficar
sozinha e em seu próprio espaço. Estar no seu flat não foi tão reconfortante quanto achara que
seria e ela se sentia como se estivesse flutuando entre realidade e sono quase sem emendas.
Seus sonhos eram vívidos e tão intensos que pareciam realidade, e a realidade não estava tão
clara e nítida como normalmente, emprestando uma sensação onírica.

O tempo parecia passar lento demais e rápido demais. Ela não sabia quando tinha comido
pela última vez, só sabia que, quando tentou, achou por alguns segundos que estava bebendo
sangue. Acabou correndo para o banheiro e vomitando novamente. Tinha sido hoje? Ou
ontem?

Relances da cena no quarto de Dennis, de sua sessão com Malfoy, e de eventos com os
amigos se misturavam até ela já não saber se estava acordada ou dormindo. Achou que Ginny
podia ter passado — embora pudesse ter sido um sonho, ou talvez uma alucinação. Já não
tinha muita certeza a essa altura.

Os sonhos com Malfoy eram seus favoritos — cheios de paz e calor, coisas simples como se
aninhar quietamente em sua cama, aqueles olhos cinzentos a observando enquanto sua mão
afastava um cacho rebelde do rosto dela. Ela sabia que ele ainda estava em [Link]’s, sabia
que tinha que ser sonho, então se enroscava mais perto para aproveitar sua presença
descomplicada e alucinada.

Aquele atendente idiota finalmente descobriu o que diabos acontecera e o avisou. Um


atendente tinha sido morto.

Por um dos pacientes de Granger.

Ele não tinha certeza de qual atendente era, e Draco secretamente esperava que fosse o que
tinha estupidez suficiente para continuar o agredindo. Granger ainda não tinha ido trabalhar e
já era segunda-feira. Ele não tinha informação alguma sobre o paradeiro dela além de uma
breve visita a Grimmauld, segundo um dos elfos, mas ela desaparecera na manhã seguinte e
tanto seu estado quanto sua localização eram desconhecidos. Ele estava à beira do desespero
e prestes a fazer algo altamente ilegal e imprudente.

Ela ia matá-lo.

Vale a pena.

A luz das janelas se curvou por baixo de suas pálpebras e ela lentamente voltou ao que achou
que poderia ser a realidade. A luz doía levemente, seu corpo parecia dolorido e fraco — dor
significava que ela tinha que estar acordada, certo? Ela estava muito aquecida e suspirou
satisfeita, se aninhando mais fundo no travesseiro.

Uma expiração suave acima de sua cabeça fez um choque de relâmpago atravessá-la. Seus
olhos se arregalaram e ela se sentou de supetão na cama, um homem loiro, sem camisa,
observando cuidadosamente sua reação. Ela se arremessou de volta contra a cabeceira antes
de registrar quem era.

Os lençóis estavam puxados ao redor da cintura nua de Draco Malfoy e um de seus braços
estava estendido atrás da cabeça, mas ela estava apavorada demais com sua presença para
apreciar a quantidade de músculos magros à mostra. Ela estava definitivamente acordada.
Não parecia seus sonhos, todos suaves e flutuantes. Ela se sentia bastante pesada, e exausta, e
ainda assim Malfoy estava em sua cama.

— Que diabos você está fazendo aqui?! — ela guinchou, arremessando-se para fora da cama
em um ataque de pânico completo, quase caindo na pressa. Registrando que pelo menos
estava de pijama, ela deu um passo para trás da beira da cama e o encarou, horrorizada.

Mas que caralho absoluto.

— Você ESTÁ LOUCO?! — ela exigiu, subindo firmemente em direção à histeria.

Seu rosto estava naquela expressão cuidadosamente vazia que lhe dizia que ele estava
ocluindo. Malfoy sentou-se devagar, reclinando contra a cabeceira e levantando as mãos à
sua frente, palmas voltadas para ela. Havia uma marca vermelha em seu peito de onde ela
estivera dormindo com a bochecha pressionada ali.
Meu Deus.

— Você não apareceu no trabalho por mais de uma semana. — A voz dele estava calma e
razoável, o exato oposto do que ela sentia.

— Então você o quê, fugiu do hospital?!

Ele não respondeu.

Meu Deus.

— Eles vão te arrastar para Azkaban. Eu vou ser demitida por interferência com um paciente
— ter sorte de escapar de tempo de cadeia eu mesma—

Ele jogou as cobertas para o lado e se levantou, contornando a cama até ela. Sua metade
inferior estava coberta por uma cueca preta que não deixava absolutamente nada à
imaginação, desviando temporariamente seu trem de pensamento enquanto ela se perguntava
há quanto tempo ele vinha se aninhando com ela em sua cama.

— Há quanto tempo você está aqui? — ela exigiu de repente, as engrenagens em sua mente
girando. É possível que a ausência dele não tenha sido notada se tiverem sido só algumas
horas. Eu poderia potencialmente enfiá-lo de volta lá, pode exigir uma transfiguração
complexa para passá-lo pela segurança—

— Granger — ele estava diante dela agora e estendeu a mão para segurar ambos os seus
braços superiores. Ela ainda tentava descobrir como diabos impedir que os dois fossem para a
cadeia por aquela gracinha dele, encarando-o com uma mistura de descrença e pânico aberto.

— Eu não quero que você vá para Azkaban!

— Hermione — ele tentou, o tom contendo apenas um toque de súplica. Os pensamentos


dela pararam.

Preocupada com ele — a constatação fez algo em seu peito alçar voo. Ela não estava
objetando à presença dele em seu flat, mas sim preocupada com a presença dele fora do
hospital sem permissão. Ele a apertou contra o peito, sua ansiedade quanto à reação dela à
sua presença diminuindo.

— Calma — murmurou, esfregando as costas dela com uma das mãos enquanto a mantinha
pressionada contra si com a outra. As mãos dela subiram para repousar em seu peito, o toque
levíssimo fazendo brotar arrepios em sua pele nua. Hermione relaxou contra ele, seus corpos
se tocando do quadril ao pescoço, a cabeça dela encaixada sob seu queixo enquanto
permaneciam de pé no quarto dela.

— Calma — murmurou de novo. — Eu não vou para Azkaban — acrescentou, deixando um


beijo leve no topo da cabeça dela.

— Você não sabe disso — ela murmurou em rebeldia contra sua pele, o roce leve dos lábios
dela em seu peito fazendo o sangue dele descer ainda mais ao sul.
— Sei, na verdade — disse, ainda passando devagar uma mão para cima e para baixo nas
costas dela e lutando por controle. — Minha sentença era permanecer em [Link]’s até eu
não ser mais uma ameaça à segurança pública, então devo ser solto em liberdade condicional.
Eu não feri ninguém quando saí, e só estou fora há algumas horas.

— Mas você apareceu no flat da sua curandeira, que dizem ser sua amante secreta — ela fez
uma careta, apertando os olhos como se de dor. — Você pode não ir para Azkaban, mas eu
com certeza vou ser demitida. Por que diabos você veio aqui depois de fugir?

— Você não apareceu no trabalho por uma semana — ele repetiu em tom firme, repreensivo.
Ela inclinou a cabeça para cima para olhar para ele. Seus lábios estavam comprimidos numa
linha fina.

— Preocupado? — disse ela levemente, tentando soar provocativa, mas sem conseguir muito.

— Sim, na verdade — respondeu ele, segurando a nuca dela. Sua mão era grande o suficiente
para quase cobri-la por completo e ele aproximou o rosto muito do dela. — Eu tento cuidar
do que é meu.

Ele fechou a distância entre eles e o cérebro dela entrou em curto, suas preocupações ficando
em suspenso enquanto ela se concentrava na sensação dele a beijando. Os dedos dela
apertaram seu peito nu, a pele dele quente e firme.

Ele se afastou, sugando de leve o lábio inferior dela ao fazê-lo. Ela permaneceu na mesma
posição, olhos fechados e boca ligeiramente entreaberta, o cérebro completamente em pausa.
Um riso baixo, uma respiração profunda, soou dele.

— Acho que encontrei um jeito de desligar seu cérebro e ligar seu corpo ao mesmo tempo.

Os olhos dela se abriram para encontrar aquele sorrisinho no rosto dele, olhos cinzentos
semicerrados enquanto a estudava. A mão dele ainda envolvia a nuca dela, a outra ao redor
da cintura. As dela estavam espalmadas em seu peito, os músculos tão definidos que ela
podia sentir cada movimento sob a ponta dos dedos.

A cabeça dele desceu novamente na direção da dela, mas antes que pudesse tocar, uma voz
ecoou da sala de estar.

— Tenho uma entrega especial aqui, Granger, e é meio— ora, olá, Malfoy.

Blaise Zabini entrou no quarto como se tivesse feito isso mil vezes e deu de cara com os dois.
Congelada entre pânico e choque — a lareira dela era por acaso uma maldita porta giratória
agora? Blaise nunca nem estivera ali antes! — ela não se afastou imediatamente de Malfoy.

O semblante de Malfoy escurecera no segundo em que registrara a voz de Blaise, o aperto


dele nela se intensificando. Um flashback registrou-se brevemente na mente dela — “E o café
com o Blaise?” — e seu pânico aumentou um grau com o que poderia parecer para Malfoy
que Blaise aparentasse estar muito à vontade em seu flat.
— Como você entrou? — ela perguntou, a voz aguda. Malfoy não afrouxara o aperto nela,
ambos apenas virando a cabeça para olhar o recém-chegado que agora se apoiava no batente
da porta, cruzando os braços enquanto um sorriso lascivo deslizava pelo rosto ao ver os dois.

— Pela lareira, Granger — declarou como se fosse óbvio. — Embora eu ache que deveria
fazer a mesma pergunta ao Draco. Você não deveria estar trancafiado, amigo?

Os olhos de Draco se estreitaram.

— O que você está fazendo aqui, Blaise? — perguntou Hermione, a voz ainda aguda.

Sobrancelhas escuras se ergueram. — Entrega especial, Granger, não me ouviu? — Ele fez
flutuar um gabinete de madeira, estalando a varinha para colocá-lo num canto. — Estou
interrompendo sua agenda cheia de amuar? Ou — ponderou, o tom caindo levemente
enquanto os olhos saltavam entre os dois — talvez eu devesse usar outra palavra com s.

— Amuar? — ela interrompeu, corando levemente com a insinuação e olhando o gabinete.

— Você faltou ao trabalho por mais de uma semana.

O olhar de Draco afiado pousou em Blaise, sua expressão escurecendo mais.

Droga, Blaise. Ela achou que ele podia estar provocando Malfoy de propósito.

— Eu estou de licença!

— Você tem pacientes para atender. Você está negligenciando suas responsabilidades. — Ele
fungou para ela, escovando fiapos inexistentes do ombro antes de lhe lançar um olhar
aborrecido.

Nott. Ele achava que ela não estava cumprindo a parte dela do acordo.

— Um homem morreu! — ela explodiu com ele, o temperamento levando a melhor. Sangue
no chão, em suas mãos…

— Sim, algo que você nunca viu antes — disse a ela sarcasticamente. — Você lutou numa
guerra, é melhor amiga do Potter e trabalha em saúde. Você é um belo floquinho de neve
sensível. — A expressão dele não era nada menos que condescendente.

Hermione ficou furiosa. Zabini e ela não eram camaradinhas — mal se conheciam e ele
simplesmente entra e decide que ela precisa superar? Voltar ao trabalho, fingir que nunca
aconteceu, e consertar o amigo dele o quanto antes?

Os olhos dela se estreitaram. — Cai fora.


Capítulo 20

Abril de 1999

Blaise partiu com um aceno curto e um pedido para um café novamente em um futuro
próximo. Malfoy ainda a segurava firme, sua expressão escura enquanto encarava o ponto no
batente da porta que Blaise havia deixado há poucos instantes, antes de desviar o olhar para o
armário.

Hermione engoliu em seco e passou uma mão pelo peito dele em um gesto que esperava ser
reconfortante, tentando distraí-lo e desacelerar as batidas nervosas de seu coração. Ele não
podia ter acesso ao armário, não depois de todo o trabalho que ela tivera. Queria lhe fazer mil
perguntas, principalmente o que ele quis dizer com “Eu tento cuidar do que é meu”, mas ele
estava olhando para o armário de um jeito que fez seu estômago despencar.

— É para um paciente — murmurou, acariciando o peito dele. — Não é um presente. Ele foi
pago por isso.

— O que é?

Ela refletia sobre uma resposta, sem querer mentir mas incapaz de dizer a verdade, quando
uma sensação sob seus dedos chamou sua atenção.

Seu olhar caiu do rosto dele para um corte comprido no peito, cruzando uma das cicatrizes de
Sectumsempra. Ela inspirou bruscamente antes de empurrá-lo para trás. Pegando-o de
surpresa, ele lhe deu um olhar atônito enquanto ela o empurrava até que estivesse sentado em
sua cama, esticando-se para pegar a varinha na mesa de cabeceira e mantendo uma mão em
seu ombro nu.

— Onde você conseguiu isso? — perguntou, examinando o corte de perto antes de lançar um
feitiço de cura. Diversos hematomas apareceram que ela não havia notado antes, em seu
estado de pânico. Alguns eram antigos — amarronzados e amarelados, em processo natural
de cicatrização — mas havia um azulado e arroxeado que começava na lateral de sua caixa
torácica e se estendia até as costas.

Ele não respondeu à pergunta enquanto ela o examinava, as mãos percorrendo sua pele nua,
inspecionando peito e costas. Seus olhos se fecharam e ele engoliu em seco, inclinando a
cabeça para trás e inspirando profundamente.

Ela murmurou mais feitiços de cura sobre os hematomas, checando também os braços, antes
de lançar um diagnóstico e encarar o resultado. Os olhos dela faiscaram ao encontrá-lo.

— Outra concussão?

Os olhos dele se abriram e a cabeça voltou a se inclinar para baixo, encontrando o olhar dela
com uma expressão vazia. Ocluindo.
Aquilo tinha de ser pelo menos a terceira concussão, embora ela não tivesse visto nenhuma
no exame em meses, e duvidava muito que tivesse a ver com sua fuga. Os hematomas a
alarmaram — alguém claramente estava batendo nele, pelo tamanho; dificilmente seriam
autoinfligidos. Ela curou a concussão antes de fitá-lo, uma mão no quadril, a outra jogando a
varinha de volta à mesa de cabeceira.

— Draco… — começou, antes que um nó na garganta a fizesse parar e limpar a voz. — Você
precisa me contar — murmurou. — Se for um dos atendentes…

Sangue em suas mãos, encharcando suas calças…

O olhar afiado dele percebeu sua breve deriva e suas mãos subiram gentilmente pelos braços
dela. — Você primeiro — murmurou de volta, voz suave e persuasiva.

Hermione se surpreendeu ao ver tudo escapar dela quase contra a própria vontade. Contou
como tinha protegido Dennis com feitiços de contenção, insegura se seriam fortes o bastante
para segurar tudo, pensando que talvez precisasse ajustá-los conforme ele evoluísse. Temera
sufocar completamente a magia dele, o que impediria a cura. Em vez disso, subestimara
brutalmente a força de sua magia.

Dennis havia liberado uma torrente de magia violenta durante o exame de rotina. A magia a
deixou totalmente intocada por causa da pulseira, enquanto o atendente caiu em um jato de
sangue que parecia não ter fim.

Ela contou sobre a tentativa de ajudar o atendente — Sean, lembrou-se — enquanto os


alarmes soavam, ficando coberta de sangue no processo. Dennis caíra inconsciente por
exaurir sua magia. Os ferimentos de Sean resistiram a todos os feitiços de cura dela. Pessoas
chegaram e assumiram o controle. Vomitou nos sapatos de Hannah.

Ela nem sabia o sobrenome de Sean.

Draco a puxou para seu colo enquanto ela falava, suas pernas apoiadas de lado sobre as dele.
Suas mãos acariciavam costas e braços, como se não conseguisse parar de tocá-la, e ela se
deliciava com o conforto que ele oferecia. Ele não disse nada, apenas a deixou colocar tudo
para fora, e ela se aninhou nele enquanto falava.

Quando terminou, nenhum dos dois se mexeu, e ela levou uma mão ao peito dele de novo,
passando a palma suavemente. — Vai me contar agora? — perguntou após alguns minutos de
silêncio, sentindo-se um pouco melhor por ter desabafado e querendo oferecer o mesmo
alívio a ele.

Ele não respondeu de imediato, os movimentos lentos de suas mãos hesitaram por apenas um
segundo antes de retomarem o caminho pelas costas e braços dela.

— Confie em mim — implorou, afastando-se o suficiente para encará-lo. — Por favor.

Ele soltou um suspiro pelo nariz, levantando a mão para afastar seus cachos. Quando ainda
assim não respondeu, apenas continuou a tocá-la, ela tentou outra tática.
— Isso poderia ajudar a conseguir sua liberação.

O olhar dele se aguçou, questionador.

— A segurança dos pacientes é uma prioridade enorme. Se a equipe não é confiável,


especialmente considerando que aparentemente temos um grupo de vigilantes à solta atrás de
ex-Comensais… — ela sustentou o olhar. — Isso pode ser argumento para liberação.

Ela precisaria falar com Harry para confirmar o que ele sabia sobre os vigilantes para
realmente reforçar seu caso, mas valia a tentativa. Especialmente se o teste com o bicho-
papão desse certo — ele poderia precisar estar em liberdade para conseguir produzir um
patrono em primeiro lugar. Difícil criar memórias felizes se você está trancado, certo?

Ele refletiu, os dedos percorrendo o pescoço dela e provocando arrepios. Focou em sua
reação, testando pressões diferentes até a respiração dela se acelerar. Ele sorriu triunfante, o
olhar preso à pele dela.

Ela franziu o cenho. — Não me distraia. Confie em mim — enfatizou, mudando a posição do
corpo até estar ajoelhada sobre ele, as pernas de cada lado das dele. — Eu sei que você quer
me proteger, mas eu também não posso te proteger? Se eu sou sua… — nisso, engoliu em
seco, o estômago despencando com o salto que sentia estar dando — então você é meu.

Aqueles olhos cinza-escuros estavam intensos nos dela, sondando, o sorriso sumido. O tom
relutante, admitiu em voz baixa: — Turno da noite. Sextas, às vezes sábados.

Ela assentiu, exultante e aliviada por ele confiar nela. As mãos dele tinham ido parar em seus
quadris com a mudança de posição, e ela corou violentamente ao perceber que
essencialmente o estava montando em sua cama.

— Devíamos te levar de volta a [Link]’s — sussurrou.

Ele arqueou a sobrancelha ao ver o rubor, um sorriso voltando ao rosto enquanto suas mãos
apertavam os quadris dela. Puxou-a para baixo, para que não estivesse mais pairando sobre o
colo dele, mas sentada nele. Hermione arfou ao sentir como ele endurecia sob si, ciente de
que ele ainda estava apenas com uma cueca preta.

— Talvez, em vez disso, possamos discutir outro tipo de liberação? — murmurou,


inclinando-se para capturar os lábios dela. As mãos dela voaram para a nuca dele, agarrando
os fios loiros para puxá-lo mais, enquanto a língua dele deslizava em sua boca. Seu sopro
roçava o rosto dela enquanto espalhava mordidinhas pelo maxilar, a língua logo depois
acalmando cada uma, antes de tomar seus lábios novamente.

Ela se moveu inconscientemente em seu colo e ele gemeu, grave e profundo, as mãos
apertando-lhe os quadris. Fez de novo, jogando a cabeça para trás e saboreando os sons
intensos que ele emitia. Sentia-o duro sob si e se pressionou mais contra ele. Ele começou a
sugar e mordiscar seu pescoço, descendo enquanto ela se esfregava contra ele.

— Pare de me fazer ser seguida — sua voz era ofegante, as mãos ainda segurando os cabelos
dele. Uma das mãos dele acariciava sua lateral, a outra ainda prendia firme seu quadril.
— Não — rosnou, abandonando seu pescoço para encará-la nos olhos. Sua expressão era
feroz, sem vestígio de oclusão, e ela se sentiu enredada. Ele largou seus quadris e começou a
desabotoar sua camisa de flanela de baixo para cima, os olhos fixos nos dela.

— Você é minha, Granger. — Um botão se abriu.

— Minha para proteger — outro botão se abriu.

— Minha para tocar — desfez o último, a camisa agora frouxa entre eles.

Ele enfiou as mãos para cima, deslizando pelo peito dela até os ombros, tirando a flanela
enquanto se inclinava para sussurrar em seu ouvido.

— Minha para foder.

Ela corou, embriagada de antecipação e pelas palavras sujas. Ainda estava irritada por ele não
ouvir, mas o toque dele a distraía. Ele lançou a camisa para o lado com força, os olhos
percorrendo demoradamente seu peito nu, admirando cada curva com posse. Encorajada
pelas palavras e pelo olhar dele, ela nem tentou se cobrir. A expressão dele era faminta, quase
esfomeada, e ele levou as mãos de volta à cintura dela.

As palmas deslizaram para cima até envolver ambos os seios, os polegares brincando
levemente com os mamilos enrijecidos. Ele os observou por um momento antes de erguer o
olhar semicerrado para o dela, absorvendo sua respiração ofegante e os lábios entreabertos.

A boca dele desceu, soprando ar quente sobre o peito dela e fazendo arrepios irromperem em
sua pele. Os lábios ficaram a milímetros de um seio e ele permaneceu imóvel, soprando ar e
fazendo seus mamilos enrijecerem ainda mais.

— Quero ouvir você dizer de novo, Hermione.

Os lábios roçaram o volume de um seio e atravessaram um mamilo antes de se moverem para


fazer o mesmo no outro. Seus olhos, escurecidos de desejo, voltaram para os dela enquanto a
observava. A língua dele saiu, tocando sua pele de leve.

— Diga que você é minha.

Ele se inclinou de novo, capturando um mamilo com os lábios e sugando. Uma das mãos
deslizou para suas costas para mantê-la no lugar enquanto a outra descia para a cintura de sua
calça.

— Não.

Ela balançou a cabeça e ele se afastou com um estalo leve, soprando um sopro frio sobre o
mamilo. Ela estremeceu levemente à sensação, a respiração trêmula. Os dedos dele
mergulharam na borda de sua calça na parte de trás, provocando a pele sensível ali.

— Hermione… — começou, o tom em advertência enquanto os dedos paravam, a mão


apenas meio sob o cós. Os olhos escurecidos a observavam enquanto ele se inclinava para o
outro seio.
Ela estava tão excitada que falar se tornava difícil. Viu o reconhecimento de seu estado
brilhar nos olhos dele e o sorriso dele se tornou convencido. Ele começou a lamber e
mordiscar seu corpo, a barba rala arranhando-lhe o peito e o pescoço, a mão escorregando por
completo sob a cintura da calça para agarrar sua nádega. Ela emitiu um som inarticulado e se
arqueou contra ele.

Ele esfregava a ereção contra ela, usando a mão em sua traseira para pressioná-la com mais
firmeza contra seu comprimento enquanto continuava a sugar e mordiscar-lhe o peito. Ela
arfou com o atrito, se sacudindo antes de se pressionar ainda mais. A boca dele subiu
mordiscando e sugando pelo peito e pescoço antes de tomar seus lábios agressivamente
enquanto se esfregavam um no outro.

Então ele afastou mais as pernas, impedindo-a de se mover contra ele, e a mão em sua
traseira desapareceu. Ela emitiu um som de protesto que morreu na garganta quando a mão
dele deslizou pela frente da calça para segurá-la, a pele dele ardente contra a sua. Seus dedos
a acariciaram, gentis e lentos, e ela podia sentir o quanto estava molhada contra eles.

— Tudo isso, só para mim? — perguntou, deslizando os dedos por entre suas dobras úmidas.
Ela estava em agonia, desesperada por pressão, mas ele não parecia ter pressa.

— Sim — ela gemeu, sem saber se era uma resposta que ele queria, mas dando uma na
esperança de que ele fizesse mais. Ela se sentiu despojada, aquela alta que vinha perseguindo
recuando no segundo em que ele afastou a ereção. Seus olhos estavam bem fechados, a
cabeça jogada para trás, as mãos ainda agarrando o cabelo dele. Seu peito e pescoço ardiam
com todas as marcas de mordida e a queimadura de sua barba por fazer. Uma das mãos dele
ainda estava espalmada em suas costas para mantê-la no lugar.

— Você ainda não disse, Hermione.

O quê? Havia uma lembrança vaga de que ele queria que ela dissesse alguma coisa e, no
momento, ela não conseguia lembrar o que era ou por que estava recusando. Os dedos dele a
acariciaram, encontrando seu clitóris e esfregando em círculos firmes e apertados. A pressão
se acumulando em seu corpo tornava mais difícil respirar. Depois de atiçá-la por alguns
momentos, ele parou, os dedos cessando todo movimento.

— O qu…? — ela soprou, desorientada enquanto aquela sensação deliciosa começava a se


dissipar de novo.

— Diga que você é minha — ele rosnou. Ela jogou a cabeça para trás para encontrar o olhar
dele. Os olhos dele queimavam nos dela, a mandíbula cerrada com o esforço de se conter. Ela
baixou o olhar para o colo dele a tempo de ver a ereção latejar, os olhos se arregalando com o
tamanho.

Isso nunca vai caber.

— Concentre-se.

Os olhos dela encontraram os dele novamente, a respiração ainda rasa enquanto ela ficava
suspensa no momento.
— Eu não vou pedir de novo, Hermione. Diga — ele exigiu, o tom escuro e completamente
em desacordo com o toque gentil, porém insistente.

— Sua — ela arfou.

— Boa menina — ele rosnou.

Ele imediatamente deslizou um único dedo dentro dela, o calcanhar da mão pressionando seu
clitóris para fornecer o atrito de que ela precisava. Ele se inclinou para o pescoço dela e
começou a sugar seu ponto de pulso. O leve estiramento de um de seus dedos longos, a
pressão da mão, a boca no pescoço, tudo a fez escalar constante em direção àquela borda
mais uma vez. Ele bombeava os dedos para dentro e para fora, moendo a palma contra ela.

Ela se arqueou contra a mão dele, longe demais para sentir qualquer vergonha, a respiração
falhando enquanto escalava mais alto rumo ao ápice. O corpo dele se projetou para a frente
para alcançar enquanto ele a dedilhava. Ele curvou o dedo para cima atrás da pélvis dela,
atingindo um ponto doce que ela não sabia que tinha, arrancando dela um som agudo. Ela o
observou quando ele se afastou ligeiramente de seu pescoço, os olhos caindo para onde a mão
dele estava. Ele observava o que fazia, a boca ligeiramente aberta, a própria respiração
áspera.

Ele examinou o rosto dela por um momento antes de mudar para acrescentar um segundo
dedo. O estiramento ardeu levemente e a respiração dela falhou.

— Devagar — murmurou ele, desacelerando os movimentos para permitir que ela se


ajustasse. A sensação de ardor desvaneceu rapidamente e ela já estava de novo se esfregando
contra ele em poucos instantes, soltando o cabelo dele para cravar as unhas nos ombros dele.
Eles se retesavam com os movimentos sob a ponta de seus dedos.

— Porra — disse ele, rouco, observando-a trabalhar o caminho até o ápice. Ela tremia por
todo lado enquanto forçava contra ele, seu corpo inteiro enrijecendo por um momento quando
atingiu aquele doce crescendo. Os olhos dela se fecharam com força, estrelas dançando atrás
das pálpebras enquanto ela puxava um enorme bocado de ar. Tinha certeza de que estava
deixando marcas nos ombros dele, mas ele não fez nenhum som de protesto. A sensação de
explosão estava de repente em toda parte — entre as pernas, nas pontas dos dedos, atrás dos
olhos. Ele a elogiava, ela achou, repetindo algo de novo e de novo enquanto arrancava tudo
dela, os dedos não parando. O sangue corria pelas veias e ela estremeceu e ofegou e ignorou
Draco completamente por vários segundos enquanto cavalgava seu orgasmo.

Quando voltou a si, descobriu que ele tinha se deitado na cama dela e a levara junto. Ela
estava esparramada sobre o peito dele, bochecha no peito, as pernas ainda montadas sobre
sua dureza, os braços abertos enquanto as mãos dele amparavam sua bunda ainda vestida.
Seus seios estavam pressionados contra o abdômen nu dele e ela saboreou o contato pele a
pele, mexendo-se levemente para se esfregar nele. Ainda estava um pouco úmida entre as
pernas, mas não dolorida.

Ele gemeu — um som rouco, necessitado — e apertou o abraço. Ela desgrudou o rosto do
peito dele para olhar para ele, encontrando os olhos bem fechados, a boca marcada numa
linha dura.
Satisfeita e se sentindo brincalhona, baixou a cabeça para pousar beijos leves e provocantes
no peito dele. O músculo longilíneo ondulou levemente quando ele se sobressaltou, as mãos
deixando sua traseira para agarrar seus braços superiores e puxá-la de volta, mantendo o peito
fora do alcance enquanto travavam os olhos.

— Se você começar com isso, não vou conseguir parar até estar enterrado dentro de você.

Os dentes dele estavam cerrados e a expressão intensa. Os olhos dela se arregalaram.

— E-eu não—

— Eu sei. Comporte-se.

Eles caíram no silêncio e ele lentamente a abaixou de volta ao peito, vigiando-a desconfiado
como se não tivesse certeza de que ela obedeceria. Ela se aninhou quando ele moveu uma das
mãos para descansar em suas costas. Ele enfiou a outra atrás da cabeça, contente em ficar ali
com ela.

Ela sentiu ao mesmo tempo alívio e paz por ele não a estar pressionando a ir além. Ele não a
apressou, ignorando completamente sua ereção que no momento estava pressionada contra a
metade inferior do torso dela por causa da posição, a mão correndo lentamente por suas
costas. Ela queria agradá-lo, levá-lo ao mesmo prazer sem mente que ele trouxera a ela, mas
tinha pouquíssima ideia do que estava fazendo. Sua experiência se limitava ao que ouvira no
dormitório das meninas e aos recortes ocasionais de revista sobre como agradar um homem,
também cortesia de suas colegas de quarto.

Hermione ergueu a cabeça novamente para olhar para ele. Os olhos dele estavam fechados,
mas a mão continuava seu trajeto para cima e para baixo nas costas dela. Apesar do aviso, ela
enfiou a mão entre eles para segurá-lo através da cueca. Os olhos dele se arregalaram, o peito
expandindo rapidamente num suspiro agudo.

— Porra — a voz grave dele estava sem fôlego enquanto olhava para o teto, alongando a
palavra. Ela apertou experimentalmente, o pau coberto pela roupa se contraindo em sua mão,
e a mandíbula dele cedeu enquanto os olhos corriam para os dela.

Ela sentou-se de vez, montando as coxas dele e olhando para a própria mão. A mão dele
escorregou de suas costas quando ela fez isso e caiu na cama, fechando-se em punho. Ele se
ergueu num golpe, num impressionante demonstrar de força abdominal, agarrando de novo
os braços superiores dela.

— O que foi que eu acabei de—

— Tenho certeza de que você tem mais autocontrole do que isso — disse ela com primor,
apertando-o com firmeza. Os olhos prateados reviraram por um momento, as pálpebras
tremendo e a boca ainda aberta.

Ele puxou outra respiração funda, desta vez pelo nariz, e travou a mandíbula enquanto
soltava os braços dela e lentamente se abaixava de volta na cama. O estômago dele estava
retesado, o corpo inteiro tenso, e ela admirou toda aquela musculatura antes de baixar o olhar.
Os olhos dele se fecharam brevemente como se de dor quando ela o libertou da cueca.

Ela descobriu o quão pouco a cueca deixava para a imaginação. Ele era bem comprido e
grosso, seus dedos não se encontrando ao envolver a mão ao redor. Ela o acariciou da base à
ponta, experimentalmente, a glande brilhando levemente, uma veia proeminente na parte de
baixo. Ele estava duro e a pele lisa, o eixo pulsando levemente enquanto ela brincava.

Talvez eu devesse comprar um livro sobre como fazer isso… ela refletiu enquanto o
bombeava, sem saber quão rápido ir nem quão firme apertar. Ele captou a expressão dela e
arqueou uma sobrancelha prateada, erguendo a mão. A palma maior engoliu a mão inteira
dela, os dedos cobrindo os dela enquanto a envolviam sobre a glande.

— Assim — disse suavemente, apertando de leve a mão dela e guiando o movimento. Era um
ritmo mais firme e mais lento do que ela teria esperado, a respiração dele acelerando em
rajadas curtas enquanto as mãos se moviam juntas por algumas passadas. Quando teve
certeza de que ela tinha o compasso, ele soltou, permitindo que ela assumisse.

O estômago dele se retesou enquanto ela o trabalhava para cima e para baixo, o hálito
falhando e pequenas gotinhas de suor se formando no peito e no rosto. Os olhos, escurecidos
pela excitação, alternavam entre observar o que ela fazia e o rosto dela. As mãos estavam
cerradas, o esforço de não tocá-la, de não forçá-la, fazendo-o tremer.

— Mal posso esperar para estar dentro de você… ver você gozar nos meus dedos vai me
assombrar por semanas… porra…

O tom grave dele a excitou, um rubor de desejo a dominando outra vez. Ela aumentou o
ritmo e ele gemeu, o corpo se curvando levemente.

— … a minha perdição… fantasia maldita que virou realidade…

Hermione notou que, quanto mais perto ele chegava, mais ele falava. Estava praticamente
balbuciando, seu jeito normalmente estoico e reservado indo pela janela conforme se
desfazia.

— …vou garantir que todo mundo saiba que você é minha…

Os olhos dele ardiam, quase febris, enquanto ela acelerava as mãos mais uma vez. — Isso…
— ele gemeu, arfando. — A quantidade de vezes que pensei nisso… toda aula que tivemos
juntos… fantasiava com suas mãos em mim debaixo da carteira…

Ele empurrou contra as mãos dela e soltou um som primordial no fundo da garganta. — Eu
vou… porra, Granger, eu vou—

Ele se arqueou na cama, a pélvis estocando nas mãos dela, o nome dela nos lábios enquanto
gozava. Jatos brancos jorraram da ponta, cobrindo a mão dela e o estômago dele enquanto ele
ficava ofegante sobre a colcha dela.
Ela se sentiu bem úmida entre as coxas com a cena, orgulhosa de tê-lo levado ao limite pela
primeira vez. Antes que pudesse encontrar a varinha para sumir com o sêmen que esfriava e
grudava nos dedos, tudo de repente desapareceu.

Ele não tinha se mexido, nem sequer erguido a mão. Os pelos da nuca dela se eriçaram com a
demonstração sem varinha.

Isso é ao mesmo tempo alarmante e excitante.

— Nada possessivo ou ciumento da sua parte, hein? — ela perguntou secamente, referindo-se
ao comentário corrido dele, enquanto se deitava ao lado dele. Ele envolveu um braço ao redor
dela, puxando-a para que a cabeça repousasse em seu peito, as faces corando enquanto os
olhos deslizavam de lado. Ele ainda estava sem fôlego, e ela podia ouvir o ronco da voz dele
partindo do peito quando respondeu.

— Eu gosto de… falar. Não… quer dizer, eu posso par—

— Você não precisa parar — ela o interrompeu às pressas, as próprias faces corando. Merlin
me valha, eu gosto. — Mas você também não é meu dono.

Ele lhe lançou um olhar que dizia que pensava o contrário com convicção, mas sabiamente
preferiu não comentar, apenas a enlaçando mais. Ela enfiou um braço por baixo e jogou o
outro sobre o torso dele.

— Então — ele beijou o topo da cabeça dela, ainda respirando um pouco mais pesado que o
normal — você vai me dizer onde está meu anel?

Harry encarou Hermione, olhos verdes arregalados, enquanto ela terminava de explicar a
parte dele na atual atividade tecnicamente criminosa de Draco. Ele ficou em silêncio por um
minuto inteiro, o olhar indo e vindo entre os dois enquanto ela e Draco estavam duros no hall
de entrada de Grimmauld.

Definitivamente não era assim que ele achara que sua manhã de quinta-feira iria. Ainda de
calça de pijama e sem camisa, fora bastante abruptamente surpreendido pela chegada
barulhenta de seus convidados (o barulho graças principalmente a Walburga, que começou
berrando com Hermione e então passou a um arrulho perturbador no momento em que
percebeu que Malfoy estava presente) e depois teve que testemunhar o sujeito pomposo
realmente bajulando a velha bruxa.

Ele nunca mais conseguiria desver (ou desouvir) Walburga Black flertando com o mais
jovem dos Malfoy.

— Então deixa eu ver se entendi — ele começou, decidindo que falar com Hermione era bem
mais seguro do que não falar diretamente com ela. — Você quer que eu leve Malfoy de volta
a St. Mungo’s sob o pretexto de que de alguma forma encontrei um paciente fugitivo que
nem sequer foi anunciado como desaparecido ainda?
Hermione lhe lançou um olhar de reprovação, expressão com a qual ele era bastante familiar,
comunicando com clareza que ele estava sendo idiota. — Só porque o DMLE não anunciou
que ele fugiu não significa que você não saberia que ele deveria estar trancafiado em St.
Mungo’s no momento. Tem sido manchete que eu estou tratando dele ultimamente, lembra?

Harry fez uma careta, levando a mão à nuca para coçar. — Isso é bastante ilegal, Hermione.

— E desde quando isso te impediu?

Ele encolheu-se com o tom dela, anos lidando com Hermione lhe dizendo que não era hora de
peitar. — Onde exatamente eu deveria tê-lo encontrado?

— A mansão seria uma escolha óbvia — arrastou Draco, a linguagem corporal rígida e
formal e a expressão divertida enquanto observava os dois. — Não suponho que você tenha
um motivo para visitá-la no momento, tem, Potter?

Harry percebia, pela maneira como Malfoy o fitava, que ele sabia que Harry de fato tinha um
motivo para aparecer na Mansão Malfoy. Ele planejava adiar até a semana seguinte, mas
aparentemente o universo decidiu intervir. Ele suspirou.

— Vamos acabar com isso — disse com relutância, acrescentando num resmungo: —
Caramba, te deixo sozinha um mês, ’Mione, e olha no que dá.

Hermione franziu o cenho ferozmente para ele. Ela abriu a boca para repreendê-lo, indignada
por ele aparentemente achar que ela precisava ser vigiada como algum cachorro, mas Draco
falou primeiro.

— Porque você fez um trabalho e tanto cuidando dela, para começar — rosnou Draco para
ele. — Abaixo do peso, traumatizada, desprotegida e isolada. Belo amigo você.

Veneno pingava de cada palavra enquanto ele avançava, pairando sobre Harry. — Ela salvou
sua carcaça quantas vezes e é assim que você retribui?

Harry piscou, surpreso com o tom e o comportamento dele. Hermione envolveu a mão no
braço de Draco, puxando-o para longe de seu melhor amigo e lançando um olhar carrancudo
aos dois.

— Eu não sou uma criança que precisa ser cuidada! — sibilou para os dois, sem saber com
quem ficar mais irritada. Draco lançou outro olhar de desprezo a Harry antes de virar-se de
volta para Hermione, as mãos emoldurando o rosto dela. Ele franziu a testa para ela.

— Você vai cuidar melhor de si mesma — disse firme. — Tire uma maldita férias. Passe
mais tempo com esse imbecil se isso te faz maldita feliz.

Ele gesticulou para um Harry resmungando, que recuperou o suficiente para murmurar em
rebeldia: — Andromeda não estava brincando. E pensar que eu estava do seu lado. Malditos
Malfoy.

Hermione, agora liberada do toque de Draco depois que ele pousou um beijo suave em sua
testa, estreitou os olhos para Harry. — Vai ter um Malfoy sangrento E um Potter sangrento
aqui! — Dividiu o olhar fulminante entre os dois, a varinha apertada em um punho. Draco
bufou.

Harry revirou os olhos, impassível com Hermione. — Sim, sim, expulsão e morte se não te
ouvirmos. Cristo, eu preciso de um café.

Hermione embaralhou seus prontuários e tentou parecer mais ocupada e menos nervosa. Ela
esperara até a segunda-feira seguinte para voltar ao trabalho, não querendo suscitar suspeitas
ao retornar no mesmo dia em que Malfoy foi trazido de volta. Harry aparentemente precisara
atualizar Lucius e Narcissa sobre as ameaças que o grupo de vigilantes vinha fazendo contra
eles e aparecera na mansão depois de dar a Draco uma hora de vantagem.

Lucius e Narcissa atestariam, é claro, que Draco estivera na mansão o tempo todo em que
esteve desaparecido e, sem uma varinha que indicasse o que ele andara aprontando, e com
Veritaserum ainda difícil de obter, o DMLE teria de aceitar a palavra deles. Malfoy foi
transferido de volta para St. Mungo’s e Harry rezou para que a imprensa não ficasse sabendo
de tudo, já que o chefe do DMLE não considerava um paciente foragido do hospital algo que
valesse levar ao Wizengamot, por mais notório que fosse, e recusou-se a apresentar qualquer
acusação.

Culpa do sobrevivente, foi como Pomfrey chamou quando Hermione se reuniu com ela ao
voltar naquela manhã. A própria Pomfrey parecia bastante consternada e dispersa com a
morte de Sean, dispensando Hermione distraidamente após uma conversa breve. Culpa do
sobrevivente. Precisando de uma mudança de carreira é o que Hermione achava que
realmente era, e não pela primeira vez.

Ela estava ajudando pessoas, fazendo diferença, mas o custo parecia ser sua própria saúde e
sanidade no momento. Recuperação de trauma não é linear, ela sabia, especialmente com o
tipo de trauma que vem de sobreviver a uma guerra. Sabia que haveria retrocessos, mas
também deveria haver progresso. Estava cada vez mais difícil sentir que avançava e seguia
em frente quando revivia a guerra todos os dias no trabalho e sua vida pessoal estava presa no
limbo.

Era como se estivesse permanentemente à espera. Esperando encontrar um tratamento para


seus pacientes, esperando que Malfoy fosse libertado, esperando que a sensação da guerra se
dissipasse. Sua vida profissional era exaustiva e traumatizante. Sua vida pessoal não ia a
lugar nenhum, embora eventos recentes lhe tivessem dado um vislumbre de como a vida
poderia ser quando Draco saísse. O homem vinha a cortejando enquanto preso em um
hospital — e escapara de lá para verificar seu estado mental. Ela tinha a sensação de que
ficaria muito sobrecarregada assim que ele ganhasse alguma liberdade.

Hermione franziu a testa para o prontuário de Dennis. Ele fora movido para um quarto de
segurança máxima e removido de sua lista de pacientes. Todas as opções de tratamento
estavam sob revisão por Pomfrey e um conselho de outros profissionais médicos. Seu
coração afundou. Apesar das garantias em contrário de Pomfrey, ela ainda sentia que o havia
fracassado. Parecera uma teoria tão sólida. Hermione escreveu sua lógica em anotações
extensas, acrescentando tudo ao prontuário dele antes de arquivá-lo magicamente.
Normalmente, ela compraria briga com Pomfrey pela realocação do caso de Dennis,
protestaria que sabia que podia lidar com aquilo, mas depois dos acontecimentos recentes já
não tinha tanta certeza. Seu erro de avaliação fizera alguém morrer — e se tivesse sido Harry
ou Ron? Ou Hannah?

E se ela não tivesse a pulseira de Malfoy?

Ela não tinha ânimo para confrontar a diretoria sobre isso, sentindo que talvez tivesse sido
uma boa decisão transferir o caso para profissionais com muito mais experiência do que ela.
Ainda doía, o peito latejando com os “e se”, mas precisava tentar deixar isso de lado por ora e
focar nos pacientes restantes.

Theo, que ela ainda não conhecera. Justin, cuja vedação fora removida e não tivera outro
surto desde então. Draco. Hermione marcara a sessão com o bicho-papão para a semana
seguinte, querendo se estabilizar melhor no retorno e acalmar os nervos antes de tentar o que
certamente seria uma montanha-russa, mas precisava se encontrar com Nott hoje.

Hannah não queria nem olhar para ela. Hermione a cruzou no corredor a caminho do quarto
de Nott e a outra bruxa nem fez contato visual. Hermione decidiu que tinha coisa demais na
cabeça para se incomodar com aquela questão social relativamente pequena por enquanto e
tirou isso da mente, entrando no quarto de Nott com um atendente a reboque.

Ele estava sem restrições e sentado calmamente na beira da cama, seu quarto um espelho de
todos os outros e sem nada digno de nota. O cabelo castanho curto e solto estava
desgrenhado, olhos escuros atentos. Fora o cabelo e os olhos, ele não se parecia em nada com
o Theodore Nott que ela meio lembrava dos tempos de Hogwarts.

O nariz era grande demais e ele estava mais baixo do que fora. Continuava atarracado, e ela
não tinha certeza se a boca dele sempre fora daquele jeito. Os lábios se apertaram quando ele
observou a aproximação dela.

Ela pediu educadamente permissão para lançar um diagnóstico, ignorando a expressão


desconfiada dele, ao que ele concordou. Os sinais vitais pareciam bem, a pressão apenas
levemente elevada, mas isso podia ser atribuído aos nervos. Hermione encerrou o feitiço com
um movimento rápido e manteve a varinha em punho.

— Você foi parcialmente transfigurado com uma forma mais permanente de transfiguração
que não responde a finite ou outras reversões. — Os olhos castanho-escuros de Nott se
arregalaram e as sobrancelhas se juntaram enquanto ela falava, parecendo ao mesmo tempo
alarmado e desconfiado. — Vou reverter com um feitiço de minha autoria que já foi usado
com bastante sucesso em vários pacientes antes de você.

Ela esperou até que ele assentisse, mantendo aquela combinação de expressões, antes de
realizar o feitiço. Levaria alguns minutos, mas era relativamente indolor para o receptor. Nott
ficou estoico o tempo todo, observando cada movimento de varinha dela, mas sem dizer
nada.

Quando terminou, conjurou um espelho e uma fita métrica. Pondo-o de pé, entregou-lhe o
espelho e encostou a fita nele, confirmando que ele ficara mais alto do que a medida
registrada no arquivo.
— Deixei passar algo? — perguntou, com a fita confirmando que ele voltara à altura original
de pouco menos de um metro e oitenta. Lembrou-se de Draco ser mais alto que ele, mas não
sabia dizer quanto.

Ele tinha um e oitenta e sete? Um e noventa?

Concentre-se, Hermione.

Nott encarava o próprio reflexo no espelho, incrédulo, virando o rosto de um lado para o
outro. Hermione ocupou-se a assinar a papelada de alta, dando-lhe um minuto para se
recompor.

— Aqui está — disse, estendendo a papelada após alguns minutos e fazendo o espelho que
ele lhe devolveu sumir com um gesto. — Você vai precisar falar com a recepção sobre seus
pertences pessoais, tipo sua varinha e tal, claro.

— Só isso? — ele perguntou, ainda descrente, olhando de cima para ela. — Cinco minutos e
estou liberado?

— Digo… — Hermione titubeou — você provavelmente ainda vai precisar ver o terapeuta
mental, dependendo das recomendações dele e de qualquer ordem judicial que possa existir,
mas, efetivamente, sim. Pode ir para casa.

A expressão dele mudou de incredulidade para uma de felicidade juvenil. — Eu podia te


beijar — disse com fervor, pegando a papelada das mãos dela.

— Por favor, não — disse ela rapidamente, dando um passo para trás e lançando um olhar ao
atendente. O atendente franziu a testa para Nott e deu um passo à frente.

— Ah — respondeu Nott, o modo mudando para um charme cavalheiresco. — Como desejar.


Eu não gostaria de pisar em nenhum calo. Ou devo dizer… escamas?

Ela gaguejou enquanto ele passava por ela e saía pela porta, o atendente seguindo para
processar a papelada.

Malditas fofocas dos Sonserinos.

Zabini apareceu quando a alta de Nott estava sendo processada. Hermione estava na mesa ao
lado, examinando o prontuário de Justin já que ele era o próximo da lista do dia. Ela
ponderava os méritos de tentar selar a parte obscurial dele, e se isso funcionaria e como
poderia desenhar um feitiço de selamento melhor depois do desastre mais recente, quando
uma comoção quebrou sua concentração.

Zabini havia derrubado Nott no chão em frente ao balcão dos atendentes e pareciam
envolvidos numa luta de socos. Houve um embaralhar de membros e muita gritaria, os dois
se engalfinhando no chão enquanto vários atendentes tentavam separá-los. Nott acertou um
soco bem aplicado no rosto do agressor, os gritos aumentando de urgência quando a cabeça
escura de Blaise virou de lado.
De repente a briga mudou e assumiu um tom muito mais íntimo, desconcertando os
atendentes que ainda tentavam separar a dupla. Hermione observou com uma vergonha alheia
crescente enquanto os dois homens, alheios à multidão que haviam atraído, procediam a se
beijar no chão do corredor. Uma miríade de curiosos de repente parou todo movimento, bocas
escancaradas.

— Certo, já chega, parem com isso — começou um dos atendentes, o tom exasperado, ainda
tentando dispersar a cena. Zabini imobilizara os pulsos de Nott no chão acima da cabeça,
sentado sobre ele, e ignorava completamente os esforços da equipe.

— Vamos lá, vocês dois, tem muita gente olhando no hospital—

— — realmente não é apropriado—

— — dez horas da manhã, pelo amor—

— — isto não é um bordel—

— Aproveitando o show, Granger?

Uma voz grave familiar murmurou o último comentário em seu ouvido, fazendo-a arfar e
desviar os olhos do casal que agora estava sendo separado à força por magia e não parecia
nem um pouco arrependido. Draco estava se movendo para a frente de sua mesa, tendo
passado por trás dela só para falar em seu ouvido.

Ele arqueou uma sobrancelha prateada para ela e apoiou os antebraços na mesa.

— Não é… eu não estava… eu—!

As protestas dela se esvaíram, o olhar que ele lhe lançava era inteiramente distraidor. Ela
embaralhou as anotações à frente por um momento, pigarreando e tentando recobrar os
pensamentos enquanto evitava contato visual.

— Eu só não sabia que eles eram um casal, só isso. — As faces dela coraram, observando a
dupla levar uma bronca caprichada de um dos curandeiros seniores.

Malfoy deu de ombros. — Pior segredo guardado nos dormitórios da Sonserina, receio.

Ela ergueu uma sobrancelha em imitação dele. — Acho que não havia muitos segredos nos
dormitórios — disse seca, pensando em todas as vezes que ouvira os sussurros de Lilá e
Parvati. Nott parecia conhecer a analogia interna do dragão deles e o único visitante no
registro dele fora Zabini, o que quer dizer que ele teria de saber disso. Fofoqueiros, de fato.

— Me conte um dos seus.

— Um segredo?

Ele assentiu. As duas sobrancelhas dela subiram até a linha do cabelo enquanto ela ignorava
o caos ao redor. Ele se desvanecia ao fundo enquanto ela o fitava, a imagem do despojamento
enquanto se apoiava na mesa enquanto as pessoas corriam ao redor. Os pensamentos dela
correram por um momento enquanto considerava qual seria bom lhe contar.

Ela abriu a boca, tendo decidido, quando uma mão escura desceu forte nas costas de Draco,
fazendo-o se sobressaltar. Zabini surgiu, dentes brancos brilhando ao sorrir para os dois. Um
hematoma se formava no osso malar superior, perto da órbita, e Hermione fez uma careta ao
ver.

— Belo espetáculo, Granger — disse, os olhos dançando. — Tirei Theo em menos de uma
hora. Estou levando ele para casa agora.

Hermione assentiu. — Er… divirtam-se? — tentou, sem saber qual seria a resposta
apropriada.

O sorriso de Zabini tornou-se lascivo. — Ah, pretendo.

Ele murmurou algo no ouvido de Draco antes de dar outra palmada nas costas dele e virar
para ir embora. Hermione pensara em se oferecer para curá-lo, mas ele se foi antes que
pudesse. Draco e ela observaram os dois saírem do corredor enquanto a atmosfera voltava a
um estado de calma relativa; menos tumulto do que instantes antes, mas um hospital só pode
ser tão silencioso durante o dia. Draco voltou-se para ela.

— Então, aquele segredo?

— Você não está encrencado? — perguntou ela, referindo-se ao fato de que ele só
recentemente fora trazido de volta ao hospital. — Ouvi dizer que você fugiu enquanto eu
estava fora.

Ele lhe deu um pequeno sorriso de canto e deu de ombros, baixando os olhos para a mesa. Os
atendentes estavam todos envolvidos numa barulhenta reconstituição do que acabara de
acontecer e os ignoravam na outra ponta, mas ela ainda sentia necessidade de ser cautelosa.
Os olhos dele voltaram a subir, observando-a por debaixo dos cílios.

— Um segredo, Granger. Me conte um.

Ela suspirou. — Mantive uma animaga não registrada num vidro por uma semana no quarto
ano.

Seja lá o que ele esperasse ouvir, claramente não era isso. As sobrancelhas prateadas
dispararam e a expressão dele ficou alarmada. Ficaram em silêncio por vários momentos,
encarando-se por cima da mesa enquanto Draco ia se endireitando lentamente.

— Eu também botei fogo no Snape no primeiro ano — ela se apressou em acrescentar.


Pareceu de algum modo prudente confessar seus pecados a ele. Ele parecia achar que ela era
algum tipo de mulher de fantasia, o que ela definitivamente não era. Ele continuou a fitá-la e
ela tentou um dar de ombros casual, sem muita certeza de ter fingido bem, e completou: —
Todos vivemos numa área cinzenta, lembra?
Ele ficou em silêncio por mais alguns momentos, os olhos disparando ao redor antes de voltar
a pousar nela algumas vezes. Ele a avaliou por mais um minuto antes de balançar
ligeiramente a cabeça.

— Lembre-me de não te irritar, Granger.

— Você já viu isso?

Ginny sacudiu outro jornal na cara de Hermione, os olhos cor de mel tentando acompanhar os
movimentos erráticos da manchete antes de desistir e esperar que a amiga cuspisse a história.
Elas almoçavam no Caldeirão Furado, decisão da qual Hermione se arrependera assim que
aparatara no Beco Diagonal e se deparara com uma horda de repórteres aos gritos.

Sabendo que qualquer foto hedionda que tivessem conseguido desta vez não sairia impresa
tão rápido, ela supôs que o artigo que deixava Ginny indignada não era sobre ela.

Ela estava errada.

— Estão dizendo que você não está bem — sibilou Ginny, enfiando o jornal nela. — Que
você enlouqueceu e está sendo manipulada pelos Malfoy. Semana passada disseram que era a
Maldição Imperius!

Hermione passou os olhos pelo artigo, um garfo de cottage pie congelado a meio caminho da
boca enquanto os olhos voavam pela página. O artigo da semana passada indicara que a
morte de Sean fora na verdade obra dela enquanto estava sob Imperius, embora o jornal não
deixasse claro qual membro dos Malfoy supostamente havia tomado controle dela. Nesta
semana, ela estava simplesmente doida.

Não sei decidir se isso é uma melhora ou não.

— O da semana passada já foi suficientemente perturbador — murmurou, sem querer voltar


ao lugar escuro a que aquele artigo a levara. — Este chega a ser quase engraçado em
comparação.

Ginny bufou enquanto dava uma garfada caprichada no peixe com batatas. Continuou a
praguejar contra a imprensa enquanto Hermione percorria o resto do jornal, notando um
artigo sobre o grupo dissidente de apoiadores de Voldemort que ainda estava à solta.

— Não há menção aos grupos de vigilantes — apontou para Ginny, devolvendo o jornal e
lançando um olhar interrogativo. Ginny deu outra mordida, mastigando pensativa por um
momento.

— Acho que o Harry disse algo sobre manter isso fora da imprensa por enquanto para não dar
ideias a ninguém. Eles ainda não têm a situação totalmente sob controle — faz mais sentido
anunciar algo quando tiverem. Estão avisando em particular todas as pessoas que acham ser
alvo, por enquanto. Harry tem passado por muitas propriedades de sangue-puro ultimamente.
Hermione franziu o cenho, não concordando com a estratégia, e apontou que poderia haver
outros alvos de que eles não soubessem mas que poderiam ser alertados ao ler sobre isso no
Profeta. Ginny assentiu.

— É um ponto justo, mas infelizmente não é decisão do Harry. — A ruiva sardenta deu de
ombros. — Agora, o que você acha que daria bons centros de mesa para um casamento de
inverno?

Depois de destrinchar vários detalhes de decoração com Ginny (e consumir mais de uma
caneca), Hermione se despediu e cautelosamente voltou ao Beco Diagonal. A imprensa havia
dispersado, embora alguns compradores tenham parado para apontar e sussurrar, mas ela os
ignorou e foi direto para a Floreios e Borrões.

Ela tinha tomado manteiga de cerveja o bastante para ganhar coragem de entrar na seção de
relacionamentos. O balconista estava atarefado ajudando outro cliente quando ela entrou e,
felizmente, não a viu. Hermione havia debatido os méritos de comprar o que queria por
coruja, mas decidiu que não queria esse tipo de rastro em papel.

Encontrando um título que parecia muito promissor e folheando às pressas, ela pegou
também um exemplar do Profetapara pôr por cima. Evitou contato visual com o caixa
durante toda a compra, sem nenhuma vontade de ver a expressão dele diante do título que
estava adquirindo, e enfiou às pressas ambos os itens em sua bolsa com contas ao sair da loja.
Capítulo 21

Maio de 1999

Um ano.

Havia se passado um ano desde que ela estivera nesses terrenos com Harry e Rony, a varinha
apertada em uma mão, coberta de sangue—

…sangue em suas mãos, encharcando sua calça…

Agora não. Não pense nisso agora.

Ela apertou a mão de Harry com mais força, tentando bloquear as imagens e ouvir as palavras
do discurso que Kingsley fazia. O ar estava fresco nos terrenos, uma brisa cortante vinda do
lago apesar de se supor que fosse primavera. Tão ao norte, as plantas mal haviam começado a
brotar, a geada ainda visível nos vidros do castelo. Ela estremeceu, sem saber se era por causa
das lembranças ou do frio.

…sangue e partes de corpos por toda parte…

…correndo até que seus pulmões ardessem…

…Snape morrendo das mordidas de Nagini…

Kingsley dizia algo sobre seguir em frente, mas lembrar, manter as pessoas em nossos
corações, todas as frases típicas de memorial que ela já ouvira antes. Tentou se concentrar em
suas palavras, mas continuava a se perder. Molly chorava abertamente ali perto, amparada
por Arthur e Gina, Jorge parado rígido ao lado dela. Ele estava pálido e apertava os lábios,
suas lembranças de qualquer coisa além do último ano na escola ainda incompletas.

Era uma multidão grande e sombria. Harry mantinha uma das mãos na dela, a expressão
grave. Kingsley concluiu seu discurso, encerrando a cerimônia, e várias famílias se afastaram
do grupo, reunindo-se em pequenos círculos para prestar respeitos no túmulo de Dumbledore.
Havia conversas sobre erguer um monumento nos terrenos, um símbolo da perda do mundo
bruxo, mas ninguém queria avançar com ideias ainda. O túmulo de mármore branco
permanecia como lembrança externa, enquanto as cicatrizes internas ainda eram recentes
demais.

Hermione segurou as lapelas do casaco fechadas, apoiando-se levemente em Harry enquanto


ficavam junto aos Weasley. O rosto de Gina estava impassível enquanto esfregava as costas
da mãe, murmurando suavemente em seu ouvido. Harry passou o outro braço em volta dela,
segurando-a e a Gina junto enquanto permaneciam em silêncio. Rony e Luna estavam no
círculo com os outros irmãos e o pai; Rony de um verde cadavérico e Luna com expressão
contemplativa.
—Não fazem muito, fazem? As palavras. —comentou ela em sua voz leve e pensativa. O
rosto inexpressivo de Arthur virou-se para Luna.

Molly fungou por um momento, enxugando os olhos. —O quê? —perguntou à loira, confusa.
Rony segurou Luna pela cintura e abaixou a cabeça para olhar sua forma significativamente
mais baixa. Jorge, Gui e Carlinhos também se viraram, vários pares de olhos lançando-lhe
olhares que variavam da confusão polida à dor dilacerante.

—As palavras —Luna repetiu suavemente. —Soam bonitas, mas o que fazem?

—E-elas servem para nos a-ajudar a c-curar —a voz de Molly vacilou, um lenço apertado
firmemente em um punho. —P-para seguir em frente!

A expressão da matriarca estava confusa, como se não tivesse plena certeza de que aquilo era
verdade, e lançou um olhar em volta do círculo em busca de ajuda. A cabeça de Luna
inclinou-se de lado enquanto olhava para Molly por um instante, seus olhos azul-claros
penetrantes. —Eu acho que as palavras machucam mais do que curam. São as ações que nos
curam, não as palavras.

—Mas as palavras podem ajudar —observou Gina, o tom afiado e a expressão irritada. —
Como quando alguém pede desculpas.

—Um pedido de desculpas não ajudaria neste caso —disse Hermione sombriamente. —
Desculpa não traz as pessoas de volta.

Dias depois de voltar ao trabalho, chegou-lhe uma coruja de alguém do DMLE pedindo que
fosse responder algumas perguntas a respeito da morte de Sean. Ela esperara até depois do
aniversário da Batalha de Hogwarts para comparecer, já que o Ministério ficara fechado no
dia para o luto nacional. Uma investigação era normal, Harry a assegurara quando ela
apareceu no Ministério à tarde, praticamente à beira de um ataque de pânico com a intimação.
Especialmente porque ela não estivera em condições de dar um depoimento adequado na
época da morte dele, nem nos dias seguintes. O hospital fizera sua própria investigação, mas
aparentemente ainda havia perguntas demais que esperavam que ela pudesse responder.

Ela entregou sua lembrança daquele dia e respondeu a perguntas sobre o prontuário de
Dennis, uma cópia do qual St. Mungus já havia fornecido. Harry sentou-se ao lado dela para
apoiá-la na pequena sala, enquanto Rony e uma bruxa de expressão severa sentavam-se do
outro lado de uma mesa de metal e a interrogavam por quase uma hora. As perguntas, aos
poucos, passaram do comportamento de Dennis e da morte de Sean para o ambiente do
hospital e como a alta administração vinha respondendo a eventos nos últimos nove meses de
sua permanência.

—Srta. Granger —começou a bruxa, cujo nome havia entrado por um ouvido e saído pelo
outro de Hermione—, você notou alguma diferença na forma como a administração trata os
pacientes? Especificamente, algum paciente não nascido trouxa?

A testa de Hermione se franziu e ela lançou a Rony um olhar questionador. Ele lhe deu um
pequeno sorriso e um aceno de incentivo, seu corpo magro mal cabendo nas duras cadeiras da
sala. Olhos cor de caramelo voltaram-se para os olhos negros da parceira, o rosto marcado
dela sério.

—Acho que não —Hermione começou lentamente, pensando. —Madame Pomfrey é muito
rígida, muito voltada às regras.

—Então você não sente que os pacientes, ou seus tratamentos, sejam tratados de forma
diferente uns dos outros?

Hermione hesitou e os olhos da bruxa se estreitaram. —Só tem um paciente pelo qual tenho
dificuldades em conseguir aprovações —corrigiu-se—, mas não acho que seja porque ele é
sangue-puro.

Ela corou levemente quando a bruxa ergueu uma sobrancelha. Realmente não queria falar
sobre isso. Aquilo era uma entrevista oficial da lei, e mentir ou omitir parecia errado, mas era
algo pessoal demais. Hermione respirou fundo, as mãos mexendo no prontuário de Dennis à
sua frente, os olhos nos papéis em vez de na entrevistadora.

—Houve uma acusação de comportamento impróprio em relação a mim sobre esse paciente
em questão —disse em voz baixa. Harry se remexeu no assento ao lado dela. —Como eu
vinha silenciando a maioria das nossas conversas. Pela privacidade do paciente. Recebi uma
advertência verbal oficial. Qualquer aprovação que buscasse em relação a esse paciente
depois disso quase sempre recebia uma camada extra de escrutínio.

—Com a intervenção da diretoria às vezes sendo necessária para que fossem aprovadas,
entendo —comentou a bruxa, folheando papéis do dossiê à sua frente. Hermione sentiu o
rubor aumentar quando Harry pigarreou e se mexeu novamente na cadeira. —Este é o mesmo
sangue-puro cuja família você foi recentemente associada na mídia?

—Sim —confirmou ela, o coração acelerado. —Ela só estava tentando protegê-lo —o abuso
de pacientes é levado muito a sério no hospital. Não que eu estivesse abusando dele —
acrescentou rapidamente diante do olhar que a bruxa e Rony lhe lançaram.

—Se ela realmente achasse que havia um problema, por que ele não foi transferido para outro
medibruxo?

—Ahm… —Suor brotou na nuca dela. Como explicar isso?

—Se me permitem —interrompeu Harry. —Malfoy é uma pessoa bastante difícil de lidar e
temos relatos de que ele atacou vários curandeiros antes de ela ser designada para ele. Eles
têm uma boa relação de trabalho —presumo que as conversas silenciadas tenham sido a
forma de ela conseguir que ele se abrisse para ela, permitir que percebesse que podia confiar
nela.

Ela assentiu, grata pelo discernimento de Harry naquele momento. —A segurança dos
curandeiros também é prioridade —Hermione continuou. —Como o Sr. Malfoy não
apresentou nenhuma queixa sobre meu comportamento em várias entrevistas com Madame
Pomfrey, e outros curandeiros não tiveram nem de longe o mesmo sucesso com ele, foi
decidido que ele permaneceria como meu paciente.
—E você não notou diferença na forma como ele era tratado pela administração em
comparação com os outros pacientes sangue-puro?

—Ele era o único sangue-puro sob meus cuidados até muito recentemente, e o outro foi
tratado e liberado sem nenhuma resistência.

A bruxa de olhos escuros remexeu nos papéis até encontrar o que Hermione supôs ser a
papelada de Nott. Hermione sentiu-se desconfortável com a linha de questionamento —
pensava que essa entrevista fosse sobre Sean e Dennis, não sobre ela. A outra bruxa leu o
arquivo por um instante e Hermione lançou a Harry um olhar que esperava transmitir
claramente seus pensamentos, que basicamente se resumiam a “que diabos é isso, Harry
James Potter”. O sorriso de Harry foi tranquilizador.

—Diz aqui que ele estava sob os cuidados de Hannah Abbott até que a diretoria pediu a troca
de curandeiro por falta de progresso no estado dele. —A expressão da bruxa era de
questionamento. Hermione assentiu.

—Certo. O caso dele era semelhante a outros que eu já havia tratado antes e esses pacientes
foram liberados com sucesso. O espaço no hospital é limitado e ele estava lá havia meses sem
melhora.

—Como você sabia que seria capaz de curá-lo? Consultou a Srta. Abbott sobre o estado dele?

Ela hesitou de novo. —Bem, não exatamente—

A bruxa ergueu a mão e ela parou de falar abruptamente. —Está bem, acho que não quero
ouvir o resto. Weasley?

Rony deu um aceno firme à colega antes de se voltar para Hermione. Ele apoiou os
antebraços na mesa, inclinando-se para a frente com ansiedade. —Harry contou a você sobre
o grupo vigilante com o qual temos tido problemas, não é? O que está atacando famílias
sangue-puro e outros que consideram não ter sido punidos o bastante pela participação na
guerra?

Os olhos de Hermione percorreram a mesa, incerta se Harry teria problemas por compartilhar
informações provavelmente confidenciais. Harry deu de ombros e ela voltou o olhar a Rony,
assentindo devagar.

—Notamos algumas irregularidades em St. Mungus —além da morte recente de seu colega
—aqui ele fez uma expressão de desculpas—, há relatórios de incidentes que não se
sustentam, aprovações negadas sem motivo, outras aprovações dadas por motivos ainda mais
fracos, etc. É bastante óbvio que a diretoria tem alguma… influência externa —ele fez uma
careta—, mas há um guardião específico entre a diretoria e os curandeiros cujas ações não se
encaixam.

Seus olhos se voltaram por um instante a Harry. Ela sentiu o alarme crescer quando as peças
se encaixaram.
Rony assentiu seriamente diante da expressão dela. —Achamos que Pomfrey pode fazer parte
do grupo vigilante.

Ela passou mais uma hora depois da revelação de Rony revisando cada interação que tivera
com Pomfrey desde dezembro de 1998, quando começaram as irregularidades. Passaram por
suas aprovações e pelos prontuários de pacientes, Harry e Rony ajudando a preencher lacunas
em seu conhecimento que haviam encontrado durante a investigação.

Ela também entregou uma lista de atendentes que notara recentemente trabalharem nas noites
de sexta e sábado, com um olhar significativo para Harry e Rony que dizia que falaria com
eles sobre isso depois.

Os rapazes a acompanharam para fora da sala ao final, pedindo-lhe que os informasse se


encontrasse mais algo suspeito e que mantivesse a informação para si. Não queriam de forma
alguma que isso chegasse a outros colegas, já que não sabiam até onde ia, mas suspeitavam
que fosse muito além de Pomfrey e talvez um ou dois atendentes envolvidos até então. Rony
conseguiu arrancar dela a promessa de jantar com ele e Luna uma noite da semana seguinte
antes de se despedirem, envolvendo-a em um abraço caloroso antes de se afastar e deixar
Harry fazer o mesmo.

De volta ao apartamento, Hermione deu comida a Bichento antes de olhar o jornal trouxa que
pegara no caminho para casa, parte da mente ainda fervilhando pela entrevista. Ela mantivera
melhor acompanhamento dos principais eventos do mundo trouxa antes da guerra, mas
parecia não pensar naquilo fazia eras. Fez distraidamente uma lista mental de algumas coisas
para investigar no hospital enquanto o jornal declarava que haveria um apocalipse gerado por
computador na virada do milênio devido ao que os trouxas chamavam de “bug do milênio”
(Y2K). Decidiu que estava bastante grata pela magia e pela forma antiquada como o mundo
bruxo lidava com arquivos e bancos naquele momento, mesmo que parecesse ultrapassada na
maior parte do tempo.

Embora realmente sentisse falta da televisão.

—O que você acha, Bichento? —perguntou ao novelo de pelos laranja enquanto ele se
enrolava em seus tornozelos, miando. —Deveríamos comprar uma televisão?

O apartamento tinha fiação elétrica, embora ela não lembrasse se havia tomada para cabo ou
não. Assistir a filmes com os pais era um de seus passatempos favoritos. Tentou ignorar a
pontada ao pensar neles e percebeu que não assistia a um programa de televisão desde o
Natal anterior à fuga.

—Então uma televisão será —disse a ele com um firme aceno. —Talvez Harry queira ir a
Londres trouxa na próxima semana.

Foi o aniversário de um ano da Batalha de Hogwarts e Draco refletiu que


também era o aniversário de um ano de sua reclusão.

Viva.
Um ano inteiro ele estivera trancado, seja em Azkaban, seja em St. Mungus, tirando sua
pequena excursão no fim de semana anterior. Estava inquieto, coçando para sair e viver uma
vida pós-guerra minimamente normal. Sua vida não era relativamente normal desde antes do
sexto ano. Nesse ritmo, ele se perguntava se sequer reconheceria o que normal poderia
parecer.

Granger havia estado ausente no dia, assim como metade da equipe — uma parte
significativa da Grã-Bretanha bruxa reunira-se nos terrenos da escola para o serviço
memorial. Mesmo que tivesse estado solto, não tinha certeza se teria ido; duvidava muito que
sua presença fosse bem-vinda. O Profeta Diário lançou uma edição vespertina naquele dia,
detalhando o serviço e exibindo fotos de um Trio de Ouro sombrio e do Ministro.

Felizmente, sua pequena escapada para o mundo exterior não lhe custara nenhuma liberdade
dentro do hospital, provavelmente graças a um suborno bem-posicionado de seus pais. Eles
não se mostraram impressionados ao vê-lo quando ele entrou no solar de forma displicente,
informando-os de que, no que lhes dizia respeito, ele estava lá fazia horas e que iria tomar
banho. Potter aparecera cerca de uma hora depois para levá-lo de volta, suas habilidades de
atuação enganando ninguém além do desinformado chefe do DMLE.

Maldito garoto dourado se safava de tudo.

Ele se recostou na cama do hospital, soltando o pomo de ouro que segurava e observando-o
voar freneticamente pelo quarto. O dourado e prateado brilhante contrastava de forma
gritante com as paredes brancas sem graça, o zumbido leve das asas e o chocalho cada vez
que se movia soando alto no ambiente silencioso. Seus olhos acompanhavam os movimentos
enquanto ele ziguezagueava pelo ar.

Draco estava quase certo de que sua bruxinha sorrateira havia enfiado seu anel dentro
daquela maldita coisa. A não-resposta dela à sua pergunta em seu quarto praticamente
confirmara a suspeita que crescia em sua mente já havia algum tempo. O que ele não
conseguia descobrir era o truque para abri-la. Poderia simplesmente destruí-la, entortar o
metal e a magia até que o anel saísse e o pomo não fosse mais que um monte de lixo, mas
sentia-se relutante em fazê-lo, por mais tentador que fosse poder ouvi-la. Era o primeiro
presente que ela lhe dera e ele não queria arruiná-lo.

Idiota sentimental.

Falando em presentes — os cantos de seus lábios se curvaram quando seus olhos


acompanharam o pomo pairando sobre sua escrivaninha, flanando sobre sua correspondência.
Recebera um recibo muito interessante da Floreios e Borrões outro dia. Parece que, depois da
pequena sessão de exploração no apartamento dela no outro dia, ela comprara uma leitura
curiosa. Sua pequena rata de biblioteca queria estar mais preparada no futuro, ele supôs, se
estava comprando Como Montar a Vassoura do Seu Jogador de Quadribol.

Não era um livro de Quadribol, disso ele tinha certeza absoluta.

Ela ficara chocada, e um pouco excitada a julgar pelo rubor em seu pescoço, ao ver Blaise e
Theo se reunindo entusiasticamente no andar do hospital no outro dia. Blaise estava
determinado ao inferno em tirar o namorado dali, consultando Pansy e desabafando com ele
durante algumas visitas. A maior parte do tempo de visita passava no quarto de Theo,
provavelmente tentando compensar a culpa de tê-lo praticamente abandonado no auge da
guerra para se refugiar na Itália. Theo se recusara a segui-lo, uma idiotice na mente de Draco,
já que também se recusara a aceitar a marca. O imbecil pintara um alvo enorme nas próprias
costas, o status do pai no círculo íntimo de Voldemort não conseguindo salvá-lo de ser jogado
aos lobos na Comissão.

Ele estava ao mesmo tempo feliz e ferozmente invejoso por Theo estar fora. Aliviado por o
que quer que fosse que seu amigo tinha ser facilmente remediado nas mãos de Granger e um
tanto frustrado por ainda estar preso. Ela parecia estar à beira de descobrir sua condição,
muito dependendo do teste de medo que faria em breve, e ele tentava ser paciente. Havia
tanto que queria, precisava, fazer quando saísse — começando por conter seu pai ousado
demais.

Lúcio estava usando Hermione para seu próprio ganho e jogara a mão rápido demais com
aquela pequena farsa do baile beneficente. Draco lhe enviara uma carta furiosa, informando-o
de que qualquer e todo acordo entre os dois estava agora nulo e sem efeito, ou ele próprio
destruiria publicamente a imagem da família, reputação que se danasse. A última coisa que
queria era conquistar sua liberdade física e encontrar Hermione envolvida em alguma
armadilha política armada por seu pai ardiloso. Não importava quantas portas Lúcio alegasse
que estavam sendo abertas graças à boa influência dela.

Seu pai arrastara o nome dela pela lama, os jornais e a imprensa incessantes em sua
necessidade de desmoralizá-la e envergonhá-la por uma afiliação com sua família. Draco
preferia muito mais que essas portas permanecessem fechadas para sempre a vê-la passar por
aquele inferno.

Dois dias após o aniversário, Granger estava retraída durante a consulta, verificando-o
silenciosamente. No início pensou que fosse por causa do memorial, imaginando que pesava
muito em sua mente claramente ainda traumatizada, mas ela indicou que realizaria o teste de
medo nele, se ele concordasse. Ele aceitou, um pouco surpreso, e ela desapareceu por alguns
minutos para recolher as coisas de que precisava.

Granger voltou, suas irritantes vestes verdes balançando levemente enquanto empurrava um
grande carrinho médico cheio de máquinas. Ele a observou empurrar o carrinho para o lado
da cama e se colocar diante de sua forma sentada. Suas mãos estavam soltas no colo,
tentando parecer relaxado enquanto a frequência cardíaca aumentava levemente. Não sabia o
que o teste envolveria, apenas que supostamente deveria assustá-lo.

—Sem atendente hoje, já que estamos lidando com seus medos pessoais —disse ela de modo
prim. —Ainda assim há um do lado de fora, caso precisemos.

Aparentemente Pomfrey havia cedido por causa das preocupações com a privacidade e a
possibilidade muito real de Malfoy processar St. Mungus com sua equipe legal se seus medos
fossem parar na Semanal das Bruxas. Profissionais médicos podem ser mantidos a um padrão
alto, mas isso não significava que não fofocassem.

—Onde você me quer? —ele perguntou, baixando ligeiramente o tom de voz. Conseguiu a
reação desejada.
—Ahm —ela guinchou e corou levemente, claramente imaginando algo indecente naquela
mente fascinante dela. Ele não conteve o leve sorriso, e ela endireitou a coluna diante de sua
expressão.

—Aí mesmo está ótimo. Você precisará tirar a camisa.

Ambas as sobrancelhas subiram alto em sua testa, seus olhos se arregalando de deleite. Ele
levou uma mão atrás da cabeça e puxou a blusa azul do uniforme hospitalar de uma vez só.
Os lábios dela se entreabriram ao assistir ao gesto.

Os olhos dela percorreram seu peito antes que parecesse se lembrar de si mesma, pigarreando
várias vezes enquanto o rubor subia em seu pescoço. Ela desviou o olhar dele, conjurou uma
bandeja médica flutuante e começou a tirar coisas dos bolsos da túnica. Guardou a varinha
antes de lançar sem ela um feitiço de enluvamento com um movimento das duas mãos. Luvas
médicas azuis e finas surgiram sobre elas e ela as inspecionou por um momento antes de
encarar seus olhos.

—O feitiço diagnóstico mostra as informações da pessoa em tempo real —explicou enquanto


começava a colar uma série de adesivos no torso e na testa dele. —Infelizmente, devido à
natureza deste teste específico, há uma grande chance de eu não conseguir anotar o que
acontece ao mesmo tempo. Pense neste dispositivo trouxa como uma Pena de Repetição
Rápida para seus batimentos cardíacos, respiração, etc.

Ele não respondeu enquanto ela continuava a conectá-lo. Assim que vários monitores e fios
estavam ligados nele, ela fez um teste nas máquinas, desfez as luvas e mexeu nos botões até
se dar por satisfeita. Voltou-se para ele.

—Pronto? —perguntou. Ele assentiu, respirou fundo e se fechou.

Houve o estouro de uma bomba de fumaça e ele se dobrou, tossindo por um momento antes
de acenar com a própria mão para clarear o ar, tentando não puxar os fios. Hermione agora
estava do outro lado do carrinho, as mãos nos bolsos da túnica, observando-o com a cabeça
levemente inclinada.

—Uma bomba de fumaça? —perguntou, incrédulo. —Esse era o seu grande plano?

Ela soltou uma risada e colocou as mãos nos bolsos da roupa de curandeira. —Claro que não.
Está insultando minha inteligência? Ou apenas duvidando dela?

Suas sobrancelhas se juntaram por um momento. —Nenhum dos dois.

—Com medo de ser superado por uma sangue-ruim?

Ele sentiu os ombros estremecerem, os fios balançando indecentemente, e desviou o olhar


dela por um instante. —Eu não disse isso.

—Não para mim, não —ela murmurou. —Mas em suas cartas para o seu pai quando
estávamos na escola… qual era a frase… “Aquela sangue-ruim imunda me superou pela
última vez”?
Seus lábios se afinaram. —Ele te disse isso? —Ele ouvia a própria voz zangada, quebradiça,
seu temperamento subindo. —Tem passado bastante tempo com meu pai, não é?

Ela sorriu azedamente. —Talvez ele seja melhor companhia.

Ela estava apenas cutucando suas inseguranças agora, tentando encontrar uma forma de
provocá-lo. Embora ela realmente tivesse passado um tempo com seu pai ultimamente… Ele
respirou fundo, tentando se acalmar. Não é real.

Draco estremeceu desta vez, a cabeça virando de lado. —Então esse é o seu plano —
respondeu após um momento. —Achar um ponto fraco e cutucar? Você está gerando raiva
agora, Granger, não medo.

Ela deu de ombros. —Eu não quero estar com você —seu rosto estava frio. —Te irritar
parece um bom começo.

Ele podia sentir o coração batendo dolorosamente no peito antes de forçar os sentimentos
para trás, tentando se fechar. Só um teste, isso é só um teste.

—Tudo isso foi um erro —ela continuou, observando-o. Havia um leve apito vindo de uma
das máquinas. —A forma como me tratou na escola, como se comportou na guerra —você
realmente acha que eu poderia perdoar seu comportamento? Vê-lo como algo além de um
covarde mesquinho e agressor?

O apito virou uma insistência, o som ao mesmo tempo distrativo e irritante. Ele podia sentir-
se tremendo levemente com o esforço de conter as emoções em fúria dentro de si.

—Você vai ter que fazer melhor que isso para me assustar, Granger —sorriu friamente para
ela, o rosto muito mais passivo do que sentia. Ela só estava te fodendo, tentando arrancar
uma reação.

Ela ergueu o pulso com a pulseira. —Sua tentativa de cuidar de mim foi patética. Você
poderia ter feito muito mais para me proteger. Em vez disso me tratou como um animal de
estimação com uma peça para exibir posse, ouvindo minhas conversas e mandando me seguir
como um maldito cachorro.

Um suor frio brotou em seu rosto e pescoço enquanto as palavras dela o cortavam. Ele se
fechava a ponto de sentir dor, tentando manter a reação dentro de si, mas não conseguia evitar
sentir as palavras como pequenas facas no peito. Um lampejo de raiva o fez levantar da cama,
puxando o carrinho médico para o lado ao dar um passo em direção a ela. Agarrou-a pelos
braços com força dolorosa, um dos monitores arrancando da pele.

—Foi tudo um jogo para você? Uma forma de me manipular? —exigiu em voz baixa, sua
capacidade de racionalizar o comportamento dela como um teste começando a abandoná-lo.
Ela o encarou impassível, completamente indiferente à conversa.

—Te manipular? —perguntou, incrédula. —Que indício eu já te dei de que estava


minimamente interessada?
—Você mostrou muito mais que interesse no seu quarto —rosnou ele.

—Você viu o que queria ver, Draco.

Ele recuou como se tivesse levado um tapa. Soltou-a e deu um passo atrás, incapaz até de
encará-la enquanto questionava cada uma de suas interações. Ela não queria dizer que era
dele, vinha exigindo que parasse de segui-la… sentiu a bile subir pela garganta com o
pensamento de que talvez tivesse tomado algo que não fora oferecido.

Será que ele…?

—E sobre ser sua? —perguntou baixinho, a cabeça virada de lado e os punhos cerrados. Seu
coração martelava, os pelos dos braços arrepiados. Não havia como, não havia como ele
tivesse interpretado tudo errado—

—Eu menti.

—Besteira.

—Talvez eu quisesse que você soubesse como era —sibilou ela, a expressão transformando-
se naquela odiosa que ele lembrava dos tempos de escola, a mesma que ela sempre lhe
lançava quando ele zombava de um dos amigos dela. —Talvez eu quisesse que sentisse só
um pingo do que eu sentia quando estávamos na escola.

Houve uma explosão violenta de luz roxa que iluminou todo o quarto e o cegou por vários
segundos. Ele sentiu a energia escoar de si, a magia preenchendo cada canto do ambiente.
Quando as manchas na visão sumiram, todo o espaço estava vazio, nem móveis restavam. Ele
se virou lentamente para encontrar Hermione, de pé em um canto do quarto, a alguns metros
de onde estivera um segundo antes. Uma das mãos cobria a boca, seus olhos cor de uísque
arregalados fixos nele.
Capítulo 22

Maio de 1999

Draco respirava pesado, a expressão devastada enquanto a encarava.

—E-eu s-sinto muito —ela arfou, tentando se controlar. Ele parecia tão malditamente triste e
ela se sentiu péssima. Precisara assustá-lo, tirá-lo do eixo, mas no segundo em que viu o
bicho-papão transformar-se nela mesma enquanto estava desiludida no canto, percebeu que
havia uma enorme falha em seu plano.

Um bicho-papão não virava apenas qualquer medo.

Ele se transformava nos seus medos mais profundos, mais sombrios.

Ela tivera de assistir enquanto o bicho-papão o despedaçava com palavras. Palavras que ela
jamais teria cogitado — palavras feitas para feri-lo, para enfiar a mão em seu peito e
arrancar-lhe o coração. A reação dele, o feitiço violento que explodiu para fora dele,
confirmou o que ela pensara: que o feitiço Fulminator estava atrelado à emoção. Medo,
pânico, coração partido — qualquer um deles podia ser o gatilho para ele detonar como uma
bomba.

Também lhe mostrou um nível de sentimentos dele por ela para o qual ela não estava
exatamente preparada.

De repente ele nem conseguia olhá-la, apenas ficou ali tentando recuperar o fôlego,
desviando o olhar para fixá-lo no chão. Seu quarto estava vazio, não restava um grão de
poeira — seu carrinho médico, a escrivaninha dele, a cama, tudo simplesmente não existia
mais. Fora uma quantidade tremenda de energia expelida e alguma parte dela estava ao
mesmo tempo maravilhada e preocupada por ele ainda estar de pé. Ela nem precisava das
leituras dos monitores ausentes para saber o que acontecera — estava escrito no jeito que os
ombros dele desabavam, nos tremores quase imperceptíveis dos punhos cerrados.

Ela inspirou trêmula e tentou explicar: —I-isso foi—

Os olhos dele se fecharam ao som da voz dela, os punhos ainda cerrados e o maxilar travado.
Ele inspirou forte pelo nariz, claramente tentando se recompor. Ela estava com dificuldade
para forçar as palavras garganta afora, a emoção entupindo-a e dificultando tanto respirar
quanto falar.

Ela não tinha certeza de estar pronta para a revelação de que a rejeição dela era o medo mais
profundo dele. Que o fato de ela ter estado apenas brincando com ele o tempo todo causaria
esse nível de pânico interno, esse grau drástico de explosão. A pulseira dela provavelmente
era a única razão de ela ainda estar na sala que agora não continha nada além dos dois.

—Draco, eu— —ela recomeçou, mas parou, os olhos saltando ao redor. Não sabia bem o que
dizer. A intensidade dos sentimentos dele por ela era alarmante. Ela achara que o bicho-papão
se transformaria em um Voldemort ressuscitado, ou em alguém dizendo que ele iria para
Azkaban para sempre, mas ser ela o chamando de covarde, dizendo que não o queria… era
mais do que ela havia previsto, um pouco mais do que estava pronta para aceitar nesse
estágio do relacionamento ainda não oficial deles, e sentia-se péssima por quão exposto ela
devia ter feito ele se sentir. Quão vulnerável.

Aquele bicho-papão fora simplesmente cruel, algo que ela achava que nunca seria — e, no
entanto, fora ela quem infligira aquilo a ele.

Quando voltou a olhá-lo, ele abrira os olhos, mas o resto da linguagem corporal ainda estava
rígido, tenso. A voz dele era gelada quando falou, ainda sem olhar diretamente para ela.

—Acho melhor você ir embora.

Ela inspirou com força, as lágrimas preenchendo os olhos e transbordando. Hermione


assentiu uma vez, sem confiar na própria voz, e fugiu do quarto. O atendente do lado de fora
tentou chamar sua atenção, mas ela fez um gesto para que a deixasse e engasgou que
precisava de um minuto primeiro.

Foi direto ao banheiro da equipe, felizmente sem encontrar ninguém no caminho, e tentou se
recompor. Pomfrey esperava um relatório dos resultados do teste naquele mesmo dia — ela
não tinha tempo para desabar. Não tinha tempo para se emocionar com aquilo. Ela não
precisava atrair ainda mais suspeitas de comportamento impróprio — chorar depois de lidar
com aquele paciente em específico seria um enorme sinal de alerta para todos.

Dez minutos, uma dose de calmante e alguns feitiços de maquiagem para cobrir a
vermelhidão nos olhos depois, ela voltou pelos corredores até sua mesa. A estação dos
atendentes no corredor estava agitada, um turbilhão de atividade e vozes altas fazendo um
grande auê enquanto as pessoas iam e vinham às pressas.

—O que aconteceu? —ela perguntou ao atendente mais próximo, o mesmo que estivera
esperando por ela do lado de fora do quarto de Draco. Ele deu de ombros, pouco
impressionado, encostado na entrada do corredor.

—Alguém fez magia para tirar o conteúdo do quarto pra fora, pelo visto. Não sei qual
paciente, mas as coisas estão aparecendo por todo lugar. —Ele indicou com um gesto uma
cama de hospital amassada que ficava no meio do corredor, com uma escrivaninha de
madeira familiar empilhada de qualquer jeito em cima.

Ainda havia papéis e instrumentos de escrita espalhados. Alguns atendentes de túnicas


brancas tentavam juntar a bagunça, conversando sobre o acontecimento bizarro. Hermione
engoliu em seco ao ver um deles perseguir um pomo de ouro familiar enquanto ele zumbia
por ali. Seu estômago afundou.

—Er… houve um pequeno aborrecimento com o Sr. Malfoy agora há pouco —ela contornou,
evitando contato visual com o atendente. —Acredito que essas possam ser as coisas dele.
Elas… elas deveriam ser devolvidas ao quarto.
As sobrancelhas do atendente dispararam para cima quando ele a fitou com atenção, mas ele
assentiu uma vez sem fazer mais perguntas. Ela o deixou encarregado de devolver os itens a
Malfoy e foi à própria mesa para redigir o relatório.

Esforçando-se por um tom neutro e impassível, Hermione descreveu a resposta dele ao bicho-
papão, mas não o que o bicho-papão era. Agradeceu aos céus o fato de que ela e Pomfrey
haviam concordado previamente que não colocariam por escrito o que o bicho-papão se
transformara, para evitar vazamentos à imprensa. Confirmou seu plano de tratamento dali
para a frente — Malfoy precisaria produzir um Patrono corpóreo para “limpar” o feitiço
Fulminator, uma teoria sólida com base nas evidências disponíveis no momento.

Ela hesitou antes da parte seguinte. Draco nunca conseguira produzir um patrono completo
— mal conseguia manejar fiapos dele. Ela tinha a opinião, tanto médica quanto pessoal, de
que ele precisava ser liberado para tentar construir memórias boas e felizes de verdade que
lhe permitissem conjurar um. Preocupada de que Pomfrey considerasse isso uma opinião
pouco profissional, ela pensou bastante na redação que queria usar, tomando seu tempo para
tentar acertar em cheio.

No fim, o relatório e suas recomendações tinham mais de doze páginas. Ela usara, talvez
tolamente, o exemplo de ele ter escapado do hospital apenas para ir “para casa” por várias
horas como prova de que não era um perigo para o público em geral, que era tecnicamente
tudo o que ela precisava provar para que fosse liberado conforme as condições de sua
sentença. Além disso, ele precisava trabalhar boas memórias felizes, algo extremamente
difícil de construir dentro de um hospital — onde já estava havia a maior parte de um ano, e
ela podia atestar que seu patrono não melhorara desde os tempos de escola.

Mesmo tendo sido o mais minuciosa possível em suas recomendações e submetido o relatório
antes de sair naquele dia, Hermione se afogava em culpa. Assim que chegou em casa, não
conseguiu mais conter os sentimentos que ameaçavam dominá-la. Desatou a chorar na
entrada do apartamento, afundando no chão e apertando um Bichento ronronante enquanto
soluçava abertamente.

Ela se sentia bastante entorpecida e desligada no dia seguinte no trabalho enquanto


organizava sua pilha de correspondências e memorandos. Havia um bilhete de Lúcio sobre
algum evento do qual ele esperava que ela participasse no final do mês, algum tipo de soirée
de uma sociedade histórica bruxa da qual ela nunca ouvira falar. Hermione já começara a
revisar mentalmente seu orçamento incrivelmente apertado para ver se conseguiria encaixar o
custo de outro vestido, antes de perceber que talvez não fosse uma boa ideia representá-los,
considerando como Draco reagira no dia anterior.

O episódio de choro da noite passada deve ter ajudado de algum modo, porque ela continuava
a sentir nada além de um vazio doído e entorpecido ao pensar que ele talvez não quisesse
mais nada com ela.

Pomfrey respondera ao relatório e sua recomendação de soltá-lo havia sido aprovada.


Hermione piscou para aquilo por vários longos momentos, suspensa na descrença. Um
pequeno tanto de felicidade e alívio surgiu dentro dela antes que a desconfiança se
sobrepusesse a ambos. Se Pomfrey era uma justiceira como Harry e sua equipe achavam,
qual era o benefício em soltá-lo? Torná-lo mais acessível para que o atacassem? Retirá-lo da
responsabilidade do hospital caso algo acontecesse? Protegerem-se de um fator imprevisível?

Parecia fácil demais, conveniente demais. Isso teria de ser levado à atenção de Harry — ela
esperara mais resistência quanto a isso, seu alívio por não tê-la tido durou pouco diante de
todas as outras perguntas martelando em sua mente. Pela cara do dossiê, ele já tinha sido
liberado antes mesmo de ela chegar ao trabalho naquela manhã. Sinos de alarme soaram em
sua cabeça.

Menos de 24 horas para uma aprovação e liberação? Para Malfoy?

Nott fora uma coisa, mas ele não gritava perigo no segundo em que ela o via. Malfoy era
outra história por completo, suas habilidades sem varinha e detonações bem documentadas.
Era o segredo mais mal guardado da ala que ele podia facilmente fugir quando quisesse, que
tecnicamente estava ali por vontade própria. Talvez esse fosse o motivo da liberação rápida?
Acabar com a pretensão de mantê-lo sob controle? Hermione franziu a testa para o resto da
papelada que indicava suas condições de liberação, incluindo a impossibilidade de viver na
Mansão até que a liberdade condicional e o tratamento ambulatorial estivessem concluídos.
Sua próxima consulta fora marcada para dali a três meses para verificar como ia seu patrono,
e havia uma nota de que não se podia colocar rastreador em sua varinha, já que ele não tinha
uma no momento.

Seu coração afundou. Ela nem tivera a chance de explicar a ele o que acontecera e agora ele
estava solto. Não fazia ideia de onde ele estava ficando — na Parkinson? No Zabini?
Hermione não sabia onde nenhum dos dois morava para começo de conversa e não estava
disposta a se fazer de tola tentando rastreá-lo. Ela tinha a varinha dele, Harry finalmente a
localizara em seu velho baú de Hogwarts, e planejara devolvê-la quando ele fosse liberado.
Embora, pensou distraída, ele talvez não a quisesse de volta se ao mesmo tempo viesse dela e
significasse restrições sobre a magia que poderia realizar.

Ele se sentia como se tivesse sido rachado e esvaziado de emoção. Como se uma certa CDF
de cabelo armado tivesse aberto seu peito e assistido ao seu sangue escorrer, e ainda assim o
tivesse achado insuficiente.

Ele se sentia traído. Pelo menos ainda não ouvira nada sobre a sessão no noticiário nem de
ninguém que conhecia — até agora ela não contara a ninguém, mas ele não sentia que podia
confiar em onde a lealdade dela estava no momento. Se ela estivesse brincando com ele, que
motivo melhor do que transformá-lo em motivo de chacota pública? Weasley adoraria saber
que ele suspirara por Granger durante anos só para ver tudo explodir em sua cara. O babaca
teria munição contra ele pelo resto de sua miserável vida bruxa.

Ele valorizava muito a lealdade, especialmente depois de ver o pai mudar de lado a vida
inteira sempre que lhe convinha. Não conseguia acreditar que ela teria dito aquelas coisas
para ele, mesmo em nome de algum tipo de tratamento. Ele já tinha passado por coisa física
pior durante sua reclusão, mas aquilo fora equivalente a tortura psicológica. Uma mulher por
quem ele era obcecado, com quem achava que finalmente estava tendo uma chance, com
quem mal havia arranhado a superfície, rejeitá-lo e insinuar que ele a tinha agredido?
Mas que merda absoluta é essa, Granger?

Profissionais de saúde não tinham de fazer algum tipo de juramento de não causar dano? Ou
isso era só um conceito trouxa mal lembrado de Hogwarts?

Ele foi direto para a casa de Blaise naquela noite, sem se surpreender ao encontrar Theo
morando lá também. Nott estava reformando a propriedade da família agora que oficialmente
passara para ele com o pai encarcerado por um período prolongado. Pelo menos, essa era a
razão oficial; Draco e metade da equipe de St. Mungus que testemunhara a pequena sessão de
amassos deles sabiam bem.

Os dois sempre tiveram uma relação muito oito ou oitenta, Draco notara. Estavam
completamente ignorando um ao outro, comportando-se como colegas de dormitório típicos
(ou agora, no caso, companheiros de apartamento), sentados em pontas opostas da sala e
discutindo calmamente as últimas probabilidades de Quadribol. Ele podia sair do cômodo e
voltar nem cinco minutos depois e encontraria um Blaise sem camisa arrancando as calças de
um Theodore de olhos arregalados e protestando. Incrivelmente acostumado às palhaçadas
deles depois de ter morado com ambos por sete anos, Draco passou direto pelo sofá em que
estavam e foi para a cozinha, ignorando o pedido de desculpas murmurado de Nott enquanto
Blaise o arrastava para o quarto.

Ele só planejava ficar alguns dias enquanto encontrava seu próprio lugar, já que as restrições
do ministério indicavam que ele não podia morar em nenhuma das várias propriedades dos
Malfoy como parte de sua liberdade condicional, jogando um balde de água fria em seu plano
inicial de simplesmente mudar-se para um dos vários imóveis dos Malfoy espalhados pelo
Reino Unido e Europa. Pusera um dos vários capangas que a família empregava para caçar
imóveis naquela mesma tarde, algumas opções pingando ao longo dos últimos três dias
enquanto ele alternava entre herdeiro responsável dos Malfoy tentando se reintegrar à
sociedade e um bêbado de dezenove anos tentando processar as ações de partir o coração de
sua quase-namorada.

Puxando por cima da cabeça um suéter de caxemira escuro, as sobrancelhas prateadas se


juntaram ao ver o reflexo no espelho. Passou um dedo pelas runas tatuadas na lateral do
pescoço, um lembrete perene de sua breve passagem por Azkaban. Haviam colocado tão alto
no pescoço que só uma camisa social de colarinho esconderia agora; feitiços de disfarce não
funcionam em tatuagens de Azkaban. Ele estava acostumado a trajes formais; era sua roupa
padrão, mas ainda o irritava que a tatuagem ficasse aparente sempre que não estivesse de
camisa e gravata.

Ele desviou o olhar do reflexo e foi até a escrivaninha, organizando um monte de


correspondências que ficaram desordenadas em sua pressa de arrumar tudo e cair fora de St.
Mungus assim que Granger o liberou. Estava se acumulando, as cartas tristemente
negligenciadas em favor de ficar incrivelmente bêbado por um período prolongado numa
tentativa tanto de celebrar a liberdade quanto de evitar lidar com as emoções.

Ele queria que ela porra se importasse e achara, pelo olhar no rosto dela no fim do idiota
“teste”, que ela se importara. Não esperava uma declaração de amor eterno nem nada, mas
com certeza esperava algo mais do que silêncio da parte dela depois de ter a alma exposta.
Ele sabia ler nas entrelinhas, alto e claro. Ela não falara com ele, nem ao menos perguntara de
ninguém a seu respeito, até onde ele sabia. Anos porra anelando por uma mulher que o
odiava, trabalhando diligentemente para fazê-la mudar de ideia, para cuidar dela, ao contrário
dos amigos imbecis, e fazê-la finalmente vê-lo como algo a mais — e tudo explodira na cara
dele.

Uma mão desabou sobre a mesa em frustração. Quando isso não foi suficiente para aliviar o
acúmulo de emoção intensa, ele varreu a pilha de cartas e penas com um movimento seco,
lançando papéis e plumas pelo ar. Um pequeno objeto dourado zuniu de debaixo de um dos
papéis, voando pelo quarto e se afastando em protesto contra a reviravolta.

Olhos cinzentos acompanharam o chacoalhar do pomo por um instante, cerrando o cenho. Ele
não queria que a coisa idiota escapasse, mas também não queria pegá-la, irritado consigo
mesmo por ainda estar apegado a ela mesmo depois da facada dela no coração. Conjurou,
sem palavras, um Accio, franzindo para ele enquanto prendia a esfera relutante entre três
dedos pálidos. O pomo fez um clique e parou de se mover, as asas se recolhendo na esfera
enquanto camadas se deslizavam para trás e revelavam um anel prateado, masculino, com um
grande B feito de obsidiana no topo. Um pequeno bilhete estava dobrado ao lado.

Draco expirou pelo nariz enquanto despencava numa cadeira, altamente irritado com sua
bruxa esperta enquanto o coração apertava. Virou o pomo de cabeça para baixo para deixar o
anel e o pedaço de pergaminho caírem na outra mão. O pergaminho dizia-lhe que ela o havia
enfeitiçado para abrir após sua liberação de St. Mungus. A inteligência dela — ela teria tido
de modificar ou até criar o feitiço de abertura da coisa — era ridiculamente erótica, e ele se
sentia exasperado consigo mesmo por pensar isso. Ele podia, a contragosto, admitir que o
trabalho de feitiçaria dela era incrível mesmo enquanto odiava o timing. Irritado com a
própria curiosidade sobre por que ela escolhera aquele momento específico para permitir que
ele voltasse a ouvi-la, ele ponderou as opções apesar da voz na cabeça lembrá-lo de que ainda
estava bravo com ela.

O pomo fora dado a ele no Natal, bem antes de ela indicar que precisava assustá-lo como
parte do teste, então ela não podia ter suspeitado que as coisas sairiam tão dos trilhos. Talvez
o comportamento dela tivesse sido apenas parte do teste? Se sim, faria sentido que ela não
tivesse dito nada antes, precisando que fosse crível para que ele reagisse de modo adequado,
mas por que ela não dissera nada desde então?

Por que o silêncio?

Apesar da raiva e frustração, a tentação de ouvi-la era grande demais. Furioso consigo
mesmo, sabendo que estava basicamente pedindo para ser torturado por seja lá o que
escutasse, ele enfiou o anel no dedo de uma mão e lançou o feitiço, recostando-se na cadeira
da escrivaninha e fechando os olhos.

Ela não aguentava mais. Ele estava solto havia mais de uma semana e ela não ouvira um pio.
Hermione meio que esperava que ele aparecesse no apartamento, exigindo explicações e
potencialmente cheio de ameaças, mas em vez disso parecia estar levando a sério o que o
bicho-papão dissera e devia estar por aí lambendo as feridas. Alternando entre coração
partido e entorpecimento, ela finalmente decidiu mandar uma nota dizendo que aquilo tudo
fora um mal-entendido, que era um bicho-papão e não ela, e talvez eles pudessem conversar?
O que ela queria mesmo era ir até seja lá onde ele estivesse e informar que ele estava
emburrando como o filhinho mimado que fora na juventude, mas uma nota teria de bastar.

Kreacher apareceu no segundo em que ela o chamou (e se recusou a revelar a localização —


ela supôs que ele leu corretamente a raiva e angústia em sua expressão) e ela o enviou com
instruções rígidas (“Direto para Malfoy, Kreacher, para mais ninguém.”) e passou o resto da
noite ficando muito bêbada com vinho trouxa e tentando não ficar esperando por uma
resposta.

Não veio nenhuma.

O resto da semana foi gasto canalizando todos os esforços no caso do Justin e visitando Fred
com Molly a tiracolo. Fred ainda falava de Rowle. Sua expressão ficara quase suplicante, os
grandes olhos azuis fitando-a até que ela se sentisse desconfortável. Quase parecera lúcido,
do jeito que os olhos dele se iluminaram ao vê-la, mas não demorou para que voltasse a
apresentar sinais de magia instável e a curandeira recomendasse que saíssem para que ele
pudesse ser sedado. Hermione levou Molly direto para casa, com o coração se quebrando em
pedaços cada vez menores enquanto a coisa mais próxima que tinha de uma figura materna
naquele momento chorava abertamente.

A disposição dela oscilava constantemente entre entorpecimento e raiva conforme a semana


avançava e nenhuma resposta vinha. Quando completou uma semana que ele estava solto e
ela ainda não ouvira nada, Hermione concluiu que ele devia estar aplicando o tratamento de
silêncio e se deslocou firmemente para a raiva, toda a simpatia por tê-lo essencialmente
enganado apagada sob a sensação de abandono.

Criança, idiota, loiro idiota.

Se ele ousasse aparecer ou mandar uma nota a essa altura, ela provavelmente o fulminaria até
o oblívio pelo modo como a descartara depois do que no fundo fora apenas um mal-
entendido. Tal mal-entendido precisara acontecer por razões médicas e levara à libertação do
imbecil do confinamento hospitalar, então, em vez de ignorá-la, ele devia era estar mostrando
um pouco de gratidão, porra. Como ousava simplesmente jogá-la fora assim? Como se não
tivesse significado nada?

…não tinha…

…certo?

—Kreacher —começou Lúcio lentamente, examinando a missiva à sua frente. —A Srta.


Granger estava… sóbria, quando lhe entregou isto?

Kreacher deu de ombros. —A sangue-ruim se comporta de modo estranho o tempo todo,


Kreacher nunca sabe se é por causa do sangue dela, imundo e detestável, ou—

—Entendo —respondeu Lúcio, franzindo o cenho. —Obrigado, Kreacher. Não haverá


resposta.
Um lampejo de verde brilhante e o rugido das chamas foi tudo que precedeu a chegada de
Gina. Hermione sobressaltou, erguendo os olhos do jantar em que andava beliscando sem
vontade. Gina avançou até a mesa da cozinha, o rosto aceso de curiosidade.

— Ele está solto! — exclamou a amiga, brandindo um exemplar do Profeta Diário como de
costume. — Diz aqui que ele foi liberado há duas semanas — você não comentou nada!

Hermione sentiu os ombros subirem em direção às orelhas. Ela não contara a Gina o que
acontecera com o bicho-papão nem sobre a liberação dele de St. Mungus. Entre oscilar de
autocomiseração a fúria incandescente, e a natureza muito particular do bicho-papão de
Malfoy, ela guardara para si. Ele não a contatara, ela estava um caos, e a última coisa que
queria era ouvir um “eu te avisei” das várias pessoas de sua vida que definitivamente não
eram fãs de Draco Malfoy.

Ela vinha evitando seus sentimentos feridos sobrepondo-os com raiva e tentando se afogar no
trabalho, que tinha ainda menos atrativo agora que ele não estava lá. Pegara turnos extras,
chegando a se inscrever para plantões de sobreaviso numa tentativa tanto de se distrair quanto
de garantir que pagaria o aluguel do mês. Sua conta em Gringotes estava chegando a um
ponto em que começava a se perguntar se não precisava arrumar uma colega de quarto; a
vergonha de possivelmente ter de pedir a Harry e Gina para voltar a morar com eles apenas
dois meses depois de ter conseguido o próprio lugar a impulsionava através das longas horas
de trabalho.

O Profeta foi estapeado sobre a mesa diante dela, uma grande foto de Draco ocupando boa
parte da capa. A matéria era enxuta, apenas detalhando a data de sua liberação e as condições
de sua liberdade condicional. A foto era um flagrante dele e Zabini, ambos muito bem
vestidos com calças sociais e sobretudos escuros semelhantes, golas erguidas contra o vento
de primavera. Ele penteára o cabelo loiro-branco para trás e de lado, e tinha as mãos nos
bolsos. A imagem os seguia por alguns passos enquanto ele dizia algo a Zabini antes de
lançar um olhar de soslaio, sombrio, às câmeras. Ela assistiu ao looping algumas vezes, a
visão dele abrindo uma fenda em seu peito.

— Vamos, você tem que ter alguma coisa pra me contar! Eu não consegui me livrar de
Holyrood antes. Ele tem te cercado agora que está solto? — Os olhos de Gina estavam
arregalados, a expressão ansiosa enquanto se sentava à mesa. O olhar dela correu por todo o
rosto de Hermione, e sua expressão foi aos poucos murchando.

— Ou não — disse devagar, as sobrancelhas se juntando. — Você parece… estranha.

— Acho que não vou ver muito o Malfoy — murmurou Hermione, com os olhos no prato ao
voltar a empurrar a comida.

— O quê? Depois de tudo aquilo?! Pelo amor de Merlin, me diga que é porque você o matou.
Se ele fez alguma coisa…

— Houve um procedimento médico — ela contornou o assunto com cuidado, ainda sem
encarar Gina. — Ele não… reagiu bem. Não ouvi nada dele desde então.
A boca de Gina formou um “o” silencioso, sua expressão ficando pensativa, e as duas caíram
no silêncio. Hermione desistiu da comida e começou a guardar tudo, lavando a pouca louça
do jantar solitário enquanto Gina olhava por cima dela, perdida em pensamentos.

— Eu mandei uma nota — disse Hermione, limpando uma mancha no balcão —, mas não
houve resposta. Eu pensei que… — ela deixou a frase morrer.

Ela achara que ele a procuraria, sua intensidade ao longo do ano anterior levando-a a
acreditar que ele apareceria à porta exigindo explicações no segundo em que fosse libertado.
Cada vez que ouvia o bater das asas de sua coruja, ou o estalo de Aparatação, ou o rugido da
lareira, ela esperava que fosse o próprio Draco ou, pelo menos, uma nota dele, mas não
houvera nada. Seu peito doía toda vez que pensava nisso. Ele sabia onde ela morava, ela
esperara que ele aparecesse e que eles pudessem discutir o que acontecera como adultos
perfeitamente racionais.

Ele parecia não ter mais intenção de persegui-la. Será que o bicho-papão causara tanto
estrago a ponto de ele simplesmente não se interessar mais por ela? Depois de toda aquela
espera, do anseio, das pesquisas intermináveis para tentar soltá-lo, presa no limbo enquanto
todo mundo seguia com a vida…

Ele finalmente estava livre, e não a queria.

— Não importa — disse Hermione com firmeza. — Acho que eu gostaria de seguir em
frente.

Ela queria seguir em frente. Sua raiva crescia toda vez que pensava em como ficara
esperando, presa no limbo, sabendo que sua vida avançaria quando ele saísse, apenas para
receber tratamento de silêncio e ser abandonada antes mesmo de ter chance de explicar. Ela
achara que confiavam um no outro, que ele a conhecia melhor do que aquilo, considerando há
quanto tempo supostamente estava a fim dela. Que tipo de relacionamento era esse em que
ele realmente acreditava na baboseira que o bicho-papão despejara? Ele tinha tão pouca fé
nela assim?

Gina assentiu, solidária, antes de um sorriso maroto iluminar seu rosto.

— Então… com quem a gente te prepara um encontro?

Uma multiplicidade de vozes soava alta do outro lado do feitiço de escuta. Ele estava tentado
a encerrá-lo para aliviar a dor de cabeça que crescia, mas queria descobrir onde diabos ela
estava. Não reconheceu nenhuma das vozes como pertencendo a colegas dele — será que ela
estava em algum evento de trabalho? Era tarde demais para ser a cafeteria do hospital,
embora o tilintar de copos lembrasse um pouco. Talvez estivesse num pub?

O comportamento de Granger durante a sessão ainda não lhe descia bem, e ele não aprendera
muito ouvindo-a aleatoriamente nas últimas semanas. Seu estômago vinha se retorcendo toda
vez que ele revivia aqueles trinta minutos ao longo das três semanas. Ele sabia que ela não
era tão manipuladora, nem tão boa atriz assim. Desde que tornara a colocar o anel, suas
escutas intermitentes não revelaram muito além do que já sabia; ela era uma workaholic,
obcecada por aquele gato laranja idiota, e um tanto reclusa. Horas podiam se passar só com o
farfalhar das páginas de fosse lá qual livro ela lia agora, embora ele tenha notado que não
recebera mais nenhum recibo da Floreios e Borrões recentemente.

Será que ela terminou aquele livro da vassoura?

Ele fez uma careta quando esse pensamento foi seguido pelas palavras dela da última vez em
que a vira. Você viu o que quis ver. Merlim, será que ele viu mesmo? Ela não era do tipo que
ilude um homem — definitivamente não era a súcubo que Pansy era. Não batia.

Draco foi arrancado dos pensamentos quando Theo irrompeu em seu quarto, uma garrafa de
uísque de fogo numa mão e um copo baixo na outra. O copo foi enfiado em suas mãos sem
cerimônia, a garrafa despejando descuidadamente líquido dourado enquanto o amigo ao
mesmo tempo o impelia para a sala de estar principal. Theo tagarelava a mil por hora sobre
alguma coisa que Blaise fizera e que parecia uma boa ideia na hora, gesticulando loucamente
com a garrafa.

Theo, Draco descobrira, era uma pessoa incrivelmente inútil para se morar junto,
incentivando sua bebedeira, inventando atividades ridículas que provavelmente matariam os
três algum dia, e dando conselhos do tipo “Esquece ela, cara, tem muitos outros galeões em
Gringotes” e “Eu não achava que Granger fosse capaz daquele nível de maldade”.

Ele também não achava. Tudo, do humor dela mudando rápido aos movimentos físicos
bizarros pela sala, não fazia sentido, mas ele não tinha respostas. Ainda queria Granger, e
muito, mas a ideia de que pudesse ter forçado qualquer coisa dela fazia gelo correr-lhe nas
veias. Deu um gole generoso na bebida ao despencar pesadamente num sofá antigo e macio,
observando Nott quase derrubar coisas da lareira com os braços desengonçados enquanto
continuava a história.

Felizmente, seu corretor de imóveis parecia finalmente ter conseguido algo adequado e ele
não teria de morar com aqueles idiotas por muito mais tempo.

Blaise estava suspeitosamente calado enquanto o namorado divagava sobre o Chapéu Seletor
e como ele não fazia a menor ideia de onde colocar as pessoas, porque claramente Granger
pertencia à Sonserina. Draco semicerrrou os olhos para o amigo italiano, que sorvia seu
uísque de fogo num cadeirão estofado. Blaise não mostrara surpresa alguma quando ele
recontara a história em detalhes nas primeiras noites em que ficara ali. Nott, por outro lado,
ficara ao mesmo tempo indignado e descrente, especialmente depois de ter sido paciente de
Granger, ainda que brevemente.

A posição de Nott tinha raízes firmes na incredulidade. Blaise se mantivera em silêncio, sem
opinar — comportamento incomum para o italiano.

Draco optara por dividir o sofá com Nott enquanto a discussão esquentava, mas agora se
recostou e alargou as pernas, relaxando a postura enquanto fitava firmemente o outro
ocupante do cômodo. O gelo tilintou no copo com seu movimento, o álcool rapidamente lhe
dando um torpor agradável. Depois de mais de um ano sóbrio à força, sua tolerância caíra
drasticamente.
— O que você acha, Blaise? — perguntou casualmente. — Acha que ela estava me enrolando
o tempo todo?

Olhos escuros se prenderam aos seus, um pouco mais rápido do que deveriam. Blaise deu de
ombros e sorveu o uísque.

— Mas é claro que estava! — Theo interveio, furioso. — Por que mais ela diria tudo aquilo?
Mulher manipuladora. Boa curandeira, contudo — animou-se, lembrando de quem estava
falando em vez de apenas apoiar Draco. — Não a trocaria por nada.

— Apesar da traição? — perguntou Draco, seco, percebendo que Theo provavelmente estava
bêbado. A expressão de Theo se amarrotou e ele imediatamente engatou um discurso
indignado em nome de Draco.

Blaise revirou os olhos, enojado com a dupla. — Você podia simplesmente ir perguntar a ela
— arrastou para Draco. A postura estava relaxada, ligeiramente afundada na poltrona, mas o
pé batia de leve e ele brincava com a borda do copo. Draco estreitou os olhos ante a cena e
inclinou a cabeça.

— Eu podia — concordou, neutro. — Embora—

— E ser acusado de agressão de novo!? — explodiu Theo. Foi a vez de Draco revirar os
olhos.

— Estou curioso, no entanto — retomou, ignorando a indignação do moreno por um


momento em favor de olhar diretamente para Blaise —, por que ela transferiu 35.000 galeões
para a sua conta no mês passado.

Theo engasgou com a bebida, sua tosse sendo o único som no cômodo enquanto Draco e
Blaise travavam os olhos. Uma sobrancelha prateada ergueu-se para o amigo enquanto ele
dava outro gole, apoiando o antebraço no sofá e esperando. O álcool o deixava um pouco
mais ousado que o normal — ele normalmente não confrontaria o amigo na frente de
ninguém, incluindo o parceiro. Um ponto pulsava depressa no pescoço de Blaise, seu maxilar
trabalhando enquanto ele remoía algo, mas, ao fim, permaneceu em silêncio por um bom
tempo.

— Um Amasso comeu sua língua? — provocou Draco. As narinas de Blaise dilataram de


leve. Ele baixou o olhar, examinando o conteúdo do próprio copo por um instante enquanto
tentava recuperar o ar de indiferença.

— Andou importunando meu contador, então? — Blaise devolveu, arrastado, claramente


irritado. Draco fungou, divertido, mas continuou a encará-lo.

— Ela comprou um bicho-papão — admitiu ele quando ficou claro que Draco não largaria o
osso.

— Um bicho-papão — replicou Draco, sem inflexão, distraído. Vinha uma conversa do lado
de Granger e ele sintonizou por um instante, sem registrar de imediato o que as palavras de
Blaise realmente significavam.
— ESSE é o seu maior medo? — Theo explodiu de repente, a crise de tosse encerrada.
Atirou-se para fora do sofá e ficou diante de Draco, a expressão incrédula. — De todas as
possibilidades do mundo inteiro, você tem medo de que a Princesa da Grifinória não queira
sair com você? Merlim, você é mais ferrado do que eu. Pelo menos eu tenho a decência de
temer algo legítimo.

Draco lhe lançou um olhar carrancudo. — E do que você tem medo que seja tão melhor,
hein? Vai lá — instigou, ainda distraído.

— Sei lá, talvez do Lorde das Trevas ser ressuscitado? Ser comido por um Escreguto de
Cauda Explosiva? Parece um pouco mais legítimo do que não conseguir molhar o pavio com
certa bruxa — retrucou Theo, suspenso na descrença. Por trás dele, Draco viu Blaise cobrir a
boca com a mão, tentando sufocar um sorriso. Ele se sentiu um pouco idiota por não ter
considerado o renascimento de Voldemort, sua fé nas habilidades de Potter aparentemente
muito mais forte do que jamais imaginara que seria.

Draco fulminou Theo com o olhar, mas fez uma pausa, ouvindo a comoção do lado de
Granger. De repente rosnou antes de desaparecer com um estalo de Aparatação, deixando
fiapos de vapor negro pairando sobre o sofá e seus dois amigos impassíveis encarando o
lugar que ele desocupara.

— Eu tinha esquecido que era assim que aquilo parecia — comentou Theo para ninguém em
particular, abanando a mão para dispersar a fumaça. Blaise virou o resto da bebida e pousou o
copo vazio numa mesinha lateral, erguendo-se da poltrona.

— Cinco galeões dizem que Granger fulmina ele no segundo em que ele aparecer.
Capítulo 23

Junho de 1999

— Cinco gale… o que diabos há de errado com você?! Você sabia o tempo todo?!

Blaise deu de ombros, atravessando a sala em direção ao bar enquanto as peças todas se
encaixavam na mente do parceiro. Theo o seguiu, praticamente sibilarndo, e empurrou seu
ombro quando ele não lhe deu atenção.

— Por que você torturaria ele assim?! — exigiu. Blaise ergueu uma sobrancelha escura para
o amante.

— Achei que ela tivesse mais colhões do que deixá-lo ir embora daquele jeito — disse de
modo uniforme, servindo-se de mais uísque de fogo. Blaise lançou um tempus, ignorando o
resfolegar indignado à esquerda ao notar que já era quase meia-noite. — Achei que ela lutaria
mais por ele.

A voz de Blaise ficou indignada. — Que ela estivesse mais investida nele. Qual foi o sentido
de todo aquele sofrimento mútuo, afinal?

— Eu também achei — acrescentou em tom mais alto, falando por cima das ameaças do
namorado de mostrar quem é que tinha um par de colhões ali — que ele fosse obsessivo o
bastante para reconhecer que Granger é tão sutil e manipuladora quanto uma Bombarda.
Claramente a reclusão mexeu com as faculdades dele se acreditou num bicho-papão daqueles
tão prontamente.

Ele murmurara a última parte mais para si mesmo, mas Theo lhe lançou um olhar que sugeria
estar considerando Bombardar o próprio Blaise. Deu um passo à frente, enfiando um dedo no
peito de Blaise.

— Você não tem graça — informou Theo. — Você é um idiota. E se ele tivesse deixado pra
lá, hein? E se simplesmente tivesse desistido dela, decidido que não valia a espera?

— Então ele não a merecia — cortou Blaise, agarrando Theo com força pela cintura e
puxando-o para si. Sabia que eles já não falavam mais de Draco. Olhos escuros cravaram-se
nos verde-claros enquanto ele pousava a bebida no balcão e esmagava a boca na de Theo,
calando-o de vez.

No começo, seus sentimentos eram simples paixão. Um desejo de conhecê-la melhor, de ver
quão à altura um do outro poderiam ser, o quanto se encaixariam. Ela precisava sobreviver à
maldita guerra para que isso acontecesse, e ele fizera sua parte para assegurar isso, sem
perceber que a simples paixão rapidamente escalara para obsessão plena. Ouvi-la através da
pulseira era como uma droga quando a informação que ele colhia tanto a salvava quanto a
agradava.
Ele nunca pensou que seu vício, sua necessidade dela o levaria a isto.

Ela estava encrencada pra caralho.

As finanças de Blaise não foram as únicas em que ele mexeu, especialmente depois que
começou a seguir os galeões. Granger mal estava se mantendo de pé agora, em perigo muito
real de perder o apartamento, tudo para comprar um bicho-papão do mercado negro?

Granger não era gastadora impulsiva e arriscar sua independência daquele jeito soava muito
fora de caráter. Bem, depois daquele episódio em St. Mungus, ele não tinha certeza do que,
exatamente, era o caráter dela.

Espera, o que Theo estava dizendo mesmo?

Ele Aparatou bem no meio do baile beneficente anual da sociedade histórica favorita do pai,
fumaça negra rolando dele enquanto os pensamentos corriam. A fumaça era um legado
permanente das aulas de Aparatação da tia Bella. Por mais que detestasse a associação que as
pessoas fariam com isso, ele saboreava a atenção que vinha com uma entrada chamativa.

Foi tudo aquilo… um bicho-papão?

Houve alguns arfares alarmados e um grito alto e agudo. Draco observou várias bruxas de
vestido recuarem às pressas sem olhar para ver quem era. Homens em vestes de gala sacaram
as varinhas, mas congelaram ao perceber que ele não era exatamente mais um condenado.

Embora isso pudesse mudar nos próximos dez minutos.

A parte do bicho-papão explicaria os movimentos dela. As lágrimas.

As acusações.

Ele vasculhou o salão em busca de um conjunto de cachos ouriçados, ignorando o pânico e a


confusão que se espalhavam ao redor. O lugar estava apinhado de gente muito bem vestida,
um dos muitos eventos sociais exagerados do pós-guerra que tentavam agir como se o mundo
tivesse voltado ao normal.

Talvez para alguns tivesse.

Ele a avistou do outro lado do salão, sua figura pequena notável em um longo vestido verde-
esmeralda e dourado. As costas mergulhavam baixas, uma grande faixa de pele oliva à
mostra. Ela prendera os cachos, expondo também a nuca para ele. De costas, uma taça de
alguma coisa numa mão, ele podia ouvi-la através do feitiço de escuta enquanto falava com o
idiota à sua frente.

Vê-la agora, depois de passar de vê-la dia sim, dia não, para nada por três semanas, pareceu
como se tivesse largado alguma droga de uma vez e depois tido uma overdose de uma tacada
só. A adrenalina disparou, sua visão escurecendo nas bordas e formando um túnel até que
tudo que pudesse ver fossem os cachos dela e aquele vestido.
Numa tentativa de manter a calma, ele se fechou enquanto se aproximava da dupla,
empurrando toda a raiva para trás de um grande muro de tijolos na mente. Avisara
McLaggen, explicitamente. Graficamente. Independentemente de ela estar ou não com
Draco, aquele imbecil devia saber muito bem que não podia, caralho, se aproximar dela
nunca mais.

Se tinha sido só um bicho-papão, por que diabos ela não dissera nada desde então?

E por que diabos McLaggen não enfiava na cabeça dura que ela não estava interessada?

Além disso, por que diabos ela estava ali? Ele dissera ao pai que qualquer manobra com ela
estava encerrada. Ela não devia fazer o papel de aliada dos Malfoy e sujar ainda mais a
reputação por causa deles. Pelo local em que estava, a mensagem não havia sido comunicada
de forma eficaz o suficiente.

Talvez seu pai precisasse de um aviso gráfico próprio.

De preferência com um pouco de violência gratuita, já que ninguém parecia levar suas
ameaças a sério.

As emoções fervilhavam por trás do muro da oclumência, ameaçando arrebentar quando ele
os alcançou. No tempo que levara para cruzar o salão, McLaggen havia colocado a mão na
parte inferior das costas dela, tentando puxá-la para perto.

Ele era um homem morto.

O que é mesmo que eu ainda estou fazendo aqui?

Hermione forçou um sorriso para o homem à sua frente, irritada com as insinuações de
McLaggen e sua incapacidade de entender indiretas. Já fizera o teatrinho de fazer uma doação
em nome da família Malfoy, transferindo os galeões a um dos diretores sem alarde e
passando o resto do tempo conversando baixinho com Harry.

Ela trouxera Harry como seu acompanhante, sem vontade de passar a noite puxando conversa
com gente que mal conhecia, mas teve o efeito adicional de tirá-lo de casa. Gina estava fora
com as Harpias por um mês inteiro por causa de partidas pela Europa e ela achou que ambos
podiam aproveitar a companhia um do outro naquele momento. Ela pretendia flertar com
quem achasse interessante numa tentativa de superar Malfoy, mas não havia ninguém que a
interessasse até então e não demorou para McLaggen encurralá-la.

O prédio histórico era lindo, o teto alto da sala intrincadamente decorado de ponta a ponta e
descendo pelas paredes. Ela queria ter passado um tempo admirando os detalhes de perto,
mas toda a interação social que seu status exigia até então a impedira. Harry se afastara,
conversando com colegas e ex-colegas de classe, e McLaggen surgira com elogios vulgares,
invadindo seu espaço pessoal. Tudo nele a irritava, do cabelo loiro sujo ao sorriso
presunçoso, e ela xingou mentalmente o amigo de óculos sem noção.

É bom você estar no banheiro, Harry James Potter.


— Que bom pra você — respondeu sem emoção quando Cormac gabou-se de algum feito
recente. Ela não vinha prestando atenção, só notou que precisava responder quando ele parou
de falar e ficou olhando para ela, à espera. Sua irritação por não conseguir inspecionar as
filigranas da arquitetura só era superada por sua irritação com homens em geral. Cormac,
completamente alheio ao fato de que a interação não ia bem, sua arrogância sem freio imune
à conversa relutante dela, insinuou que podiam comemorar juntos em particular. Ela deu um
gole na champanhe em vez de responder, olhando para qualquer lugar que não fosse ele num
esforço de demonstrar desinteresse.

— Não, obrigada — disse com firmeza, a irritação virando nojo quando ele repetiu a “oferta”
de modo mais descritivo. Havia um fotógrafo perambulando a uns três metros, notou, tirando
fotos deles conversando. Hermione xingou mentalmente, compondo uma expressão polida
para evitar dar aos jornais algo novo de que fofocar.

McLaggen não pareceu captar o tom dela nem o sorriso tenso e inclinou-se ainda mais,
tentando sussurrar algo em seu ouvido enquanto deslizava a mão da cintura até a parte
inferior das costas. Hermione se inclinou para trás e lhe lançou um olhar de aborrecimento,
levando a mão para tirar a dele de sua pele. Ela conseguia ouvir o clique da câmera ao lado.

Antes que pudesse tocar a mão de McLaggen, ela foi arrancada de repente. Uma forma alta e
escura agarrou-o pelas lapelas do terno, mãos pálidas puxando-o para cima. Hermione recuou
rapidamente quando a outra pessoa roçou nela, os sapatos enroscando na cauda do vestido na
pressa. Desembaraçando os pés e o tecido depressa, ergueu os olhos e sentiu o estômago
despencar.

— Eu te avisei — a voz de Malfoy era mortal, os olhos semicerrados cravados em um


Cormac de olhos arregalados e se debatendo. Ele o erguera quase do chão, usando a própria
altura a seu favor. Havia sombras sob seus olhos e uma penugem ao longo do maxilar,
adicionando à energia perigosa que emanava. Parecia contemplar violência séria contra o
homem que segurava. Hermione não teve chance de falar antes de um estalo agudo de
Aparatação e um sibilo quando fumaça negra preencheu o espaço onde os dois tinham estado.

Gritos entre a multidão soaram, o pânico se instaurando no segundo em que desapareceram.


Abriu-se um amplo círculo ao redor dela enquanto as pessoas recuavam. Hermione ficou
plantada, encarando o vazio à sua frente. Que diabos aquilo tinha sido? Por causa dela? De
Draco? De Cormac? Algo totalmente diferente?

Ela podia ouvir a voz de Harry em algum lugar atrás, no modo Áuror completo, fazendo
perguntas e tentando acalmar e controlar o caos. Hermione piscou rápido, a champanhe
apertada numa mão, a cauda do vestido na outra. Estava congelada no momento, os olhos
caindo sobre a taça antes de desviar para a pulseira em seu pulso. Ela cintilava inocente sob a
luz suave.

Será que ele estava com o anel?

Ela não notara nos poucos segundos em que ele estivera à sua frente, mas fazia todo sentido.
Perguntara-se por que McLaggen esquentava e esfriava com ela — suspeitava fortemente que
Malfoy vinha o advertindo, e esse comportamento se encaixava na teoria. Inspirando fundo,
rompendo os pensamentos, ela se virou para avaliar o salão. Harry trabalhava no controle da
multidão, distribuindo ordens a dois outros Áurors. Se já estavam ali ou se ele os chamara,
ela não sabia, mas deu alguns passos em sua direção para ver se podia ajudar.

Harry terminou com um dos Áurors e virou-se para ela justamente quando o alcançou.
Segurando-a pelo cotovelo, puxou-a um pouco para longe do resto da multidão, refazendo
seus passos enquanto varria o salão com o olhar.

— O que aconteceu? — perguntou em voz baixa.

— Não tenho certeza — disparou ela. — Malfoy apareceu, agarrou McLaggen e Aparatou.

— Ótimo, ele se formou de fujão a sequestrador — resmungou Harry, dramático, tirando os


óculos para esfregar os olhos. — Ele disse algo? — perguntou, cansado.

Hermione hesitou e imediatamente se sentiu culpada por isso. Ela não precisava guardar
segredos de Harry, embora soubesse que, para onde quer que aquilo fosse, não era para um
lugar bom.

— Disse que tinha o avisado — contou a contragosto. Harry franziu o cenho ao recolocar os
óculos e passar a mão no cabelo.

— Você sabe sobre o que ele o avisou?

— Não, mas posso deduzir — disse secamente. As sobrancelhas de Harry subiram até a raiz
do cabelo.

— Ah — disse, compreendendo de repente, os olhos verdes cintilando para ela. — Por que
seu namorado tem que ser tão violento?

— Ele não é…! — ela começou a objetar antes de perceber que ele estava provocando,
enquanto um sorriso lento se espalhava no rosto dele. Bufando, retrucou: — Como se a Gina
fosse muito melhor.

Passou-se mais uma hora antes que ela pudesse ir para casa, a festa rangendo até parar depois
do incidente. Áurors desceram sobre os convidados, precisando de depoimentos de todas as
testemunhas e emitindo um boletim tanto para Cormac quanto para Draco. Hermione ajudou
a organizar o caos, sentindo-se um tanto responsável, já que tinha a pulga atrás da orelha de
que toda a cena era por causa dela.

Voltando pela lareira ao seu apartamento, cansada demais para Aparatar — como diabos ele
consegue fazer isso sem varinha? —, soltou um suspiro exausto ao chegar e imediatamente
tirou os saltos. Largando a bolsa na mesa de centro, caminhou em direção ao quarto, tirando
grampos do cabelo pelo caminho. Hermione mal deu dois passos além do sofá antes que um
arrepio de alerta percorresse sua pele. Lançou um olhar à cozinha antes de fazer um duplo
take e girar, percebendo tardiamente que a varinha estava na clutch.

Malfoy estava recostado casualmente no balcão da cozinha, observando-a com olhar


semicerrado. Os braços cruzados, o cabelo uma bagunça, as roupas um pouco desalinhadas.
Parecia exausto e predatório, o olhar inquietante. Não havia sinal de McLaggen. Ela
pigarreou de leve, surpresa com a presença dele e nervosa quanto ao estado de espírito.

— Você está bem? — perguntou com cuidado. Ela queria mesmo era exigir que diabos ele
estava fazendo em seu apartamento, mas o semblante dele a alarmou. Ele respirava pelo
nariz, claramente tentando manter algum controle sobre as emoções. Ela ponderou questioná-
lo sobre o paradeiro de Cormac, mas decidiu deixar para depois. Ele parecia estar no fio de
alguma borda e a menção disso podia fazê-lo despencar.

— Eu gostaria que você me explicasse o bicho-papão que comprou de Blaise.

As palavras saíram cortadas e curtas, a voz tensa. A confusão se entrelaçou nela enquanto
permanecia na sala, descalça. Ela não lhe dissera onde conseguira o bicho-papão na carta,
mas ele estava morando com Zabini. O resto, porém, ela claramente explicara por escrito.

— Achei que deixei claro na minha nota — disse ela lentamente.

Os olhos dele percorriam todo o rosto dela enquanto ele se endireitava levemente. — Que
nota?

Ela franziu a testa. — Eu entreguei uma nota ao Kreacher para você, semanas atrás.

Quando ele permaneceu em silêncio, exceto por erguer ambas as sobrancelhas, ela suspirou,
uma dor de cabeça se formando. — Kreacher!

Houve um estalo seco e o elfo apareceu ao lado dela, de costas para Malfoy, enquanto fazia
uma careta. — O que a imunda sangue-ruim quer com Kreacher agora?

Os olhos dela saltaram brevemente do elfo para Malfoy, cuja expressão se tornara
profundamente assassina. — Minha nota de algumas semanas atrás — ela começou
apressada, esperando desviá-lo —, eu disse para levar direto ao Malfoy, mas ele nunca
recebeu.

— Kreacher seguiu as ordens da estúpida sangue-ruim — fungou. — O Mestre Malfoy disse


que não haveria resposta para a sangue-ruim bêbada.

— Eu— o quê? Bêbada? — ela perguntou, ofendida. Ela não estava bêbada!

Um suspiro irado soou da cozinha. — Você pode ir, Kreacher — rosnou Malfoy. O elfo
desapareceu com um estalo de dedos.

— Meu pai — disse ele simplesmente.

— Ah — ela se sentiu cansada. Exausta pelo chicote emocional e a turbulência que vinham
desde o fim da guerra. Falhar em especificar qual Malfoy para sua nota era só mais um risco
em uma longa lista de coisas que tinham saído completamente do eixo ultimamente.
Hermione deu alguns passos contornando o sofá antes de afundar nele, inclinando a cabeça
para trás para apoiar no encosto e fechando os olhos.
— O bicho-papão era para te assustar — começou ela, sem ouvir movimento algum dele. —
Eu só precisava da sua reação para confirmar que o gatilho era baseado no medo — não era
real, o que ele disse. Não era— — ela engoliu o nó na garganta — não era eu.

Ela abaixou a cabeça para olhar as mãos, brincando com elas no colo. — Eu te mandei uma
nota porque não sabia onde você estava ficando. Eu achei — suspirou e sacudiu levemente a
cabeça —, eu achei que você viria até mim.

Passos se aproximaram, mas ela manteve os olhos baixos, ainda frustrada com o silêncio dele
no último mês, embora parecesse que ele nunca tivesse recebido sua nota para começo de
conversa. Um leve cheiro de uísque de fogo chegou a ela quando ele parou diante de seus
joelhos. Ela levantou os olhos para a calça preta dele, mas não além disso.

— O que você fez com o Cormac? — ela perguntou às pernas dele com cuidado. Ele parecia
um pouco mais calmo do que antes, mas ela ainda não tinha total certeza do que ele estava
pensando. O cheiro de álcool vindo dele a deixou desconfiada.

— Ele está vivo — respondeu displicente. Ela suspirou, exasperada, mas ele prosseguiu,
claramente desinteressado em discutir McLaggen no momento. — Você está dizendo… o
bicho-papão…

O tom dele, um traço de desespero lutando com esperança, a fez erguer a cabeça. Seus olhos
se prenderam ao abdômen dele, o suéter amarrotado na altura de seu olhar. Ela podia ver as
mãos dele flexionando aos lados, tremendo como se quisessem alcançá-la. Hermione mordeu
o lábio.

— O bicho-papão — ele tentou novamente, a voz quebrando de leve. — Ele refletiu… como
você se sente?

— Você sinceramente acha que eu manipularia alguém assim? — ela perguntou, a mágoa
colorindo o tom. Ele claramente não tinha grande opinião dela, se fosse isso. Ela inclinou a
cabeça para trás para finalmente fazer contato visual com ele. — Você é um paciente! Acha
que eu seria tão cruel, tão inescrupulosa? Que propósito isso serviria?

Os olhos dele se fecharam brevemente e ele expirou. — Olha, não batia, e—

— Por que você não veio falar comigo?

A expressão dele ficou gélida. — Eu não acreditava que você gostaria de falar com alguém
que você essencialmente insinuou ter te agredido. Eu estava tentando te mostrar algum
respeito.

Hermione engoliu em seco, a raiva diminuindo ligeiramente diante da acusação silenciosa de


que ela não lhe mostrara muito em troca com sua pequena encenação. — Não foi uma
situação ideal — respondeu baixo —, mas isso te tirou de lá.

— Perdoe-me por não te agradecer, Granger, por revelar meu medo mais profundo à única
pessoa que agora o transformou em realidade.
Ele estava vulnerável, ela percebeu. Em interações anteriores, apesar de ele ter sido seu
paciente, não estivera tão emocionalmente vulnerável e exposto quanto agora. O poder na
dinâmica deles mudara não só porque ele não estava mais encarcerado sob seus cuidados,
mas porque fora despido diante dela e ela ainda não dissera nada a respeito. Draco Malfoy
nunca lidara muito bem com vulnerabilidade.

— Eu nunca disse que não te queria.

O bicho-papão pode ter dito, mas ela não. Um músculo no maxilar dele tremeu à admissão
silenciosa. Ele se inclinou, dobrando-se ao meio para colocar as mãos no encosto do sofá,
uma de cada lado dos ombros dela.

— E você quer? A mim, quero dizer — a voz dele estava baixa, o rosto a poucos centímetros
do dela. Os olhos dela oscilaram entre os dele por alguns segundos antes que ela assentisse.

— Graças a Merlin — ele murmurou antes de pressionar os lábios nos dela.

Ao contrário dos beijos gentis de antes, este foi muito mais agressivo. Ele a beijou como se
talvez nunca mais o fizesse, como se achasse que ela poderia desaparecer se ele parasse. Uma
mão agarrou sua cintura e a ergueu do sofá contra ele, a outra deslizou em seus cabelos e
inclinou sua cabeça no ângulo exato. A língua dele avançou, pressionando contra a dela
enquanto ele a levantava do chão.

Ela enlaçou as pernas na cintura dele, o vestido esmeralda se juntando ao redor dos quadris,
antes de se inclinar para trás, arfando por ar. Indiferente, Draco cobriu o pescoço dela de
beijos enquanto avançava com propósito em direção ao quarto, uma das mãos quente na pele
nua de suas costas. Ele alcançou a amarra no pescoço e puxou.

— Você fica porra muito gostosa de verde — sussurrou no ouvido dela ao desfazer o nó, e o
vestido começou a deslizar pelo seu frente. As mãos dele mudaram para segurar sua bunda,
aproximando-a bem. Ele parecia não ter qualquer dificuldade em carregar o peso dela pelo
apartamento.

— Malfoy— — ela arfou quando ele a deitou com cuidado na cama e passou a deslizar o
resto do vestido para fora, deixando-a apenas de calcinha. O corte do vestido significava que
ela não pudera usar sutiã. Ela se apoiou nos antebraços enquanto ele lançava o vestido para
trás. — Espera um segundo—

Ele ficou de pé por um momento, levando uma mão às costas para tirar o suéter e a camisa de
uma vez, revelando uma extensão de peito pálido, marcado e enxuto. Os ombros eram largos,
o abdômen definido, e enquanto os olhos dela percorriam seu corpo ela não conseguia
lembrar por que precisava que ele parasse. Ele ergueu uma sobrancelha parado à frente dela,
um pequeno sorriso de canto esperando.

Os olhos dele varreram a forma quase nua dela, fazendo arrepios brotarem por onde
pousavam. — Você queria que eu parasse, Hermione? — ele perguntou, baixo e aveludado.
Os lábios dela se entreabriram diante do olhar lascivo em olhos enfumaçados enquanto ele a
percorria de cima a baixo. Ela balançou a cabeça.
— Use as palavras, seja uma boa menina — ele fez um “tsk”. Ela bufou, irritada.

— Tira a calça — retrucou. O sorriso dele cresceu enquanto desabotoava o cinto, os dedos
longos e hábeis baixando o zíper antes de deslizarem sob o cós e empurrarem a peça para
baixo.

— E agora? — arrastou, depois de sair delas, ficando diante dela com uma cueca preta colada
que mostrava claramente o contorno do seu comprimento longo e duro pressionando o tecido.
Hermione ignorou o tom dele, os lábios entreabrindo-se levemente enquanto o devorava com
o olhar. Ela estendeu a mão e ele recuou, sorrindo de canto. As sobrancelhas de Hermione se
juntaram e ela ergueu os olhos para os dele.

— Parece que temos um problema de comunicação — arrastou. — Quero que você soletre
pra mim, Hermione.

Ela gemeu e levantou os olhos para o teto. Embora a sujeira dele a excitasse, não tinha
certeza se conseguiria superar a vergonha de ter de pedir explicitamente o que queria que ele
fizesse.

Ele avançou e se inclinou, o sopro roçando o pescoço dela, embora ainda não a tocasse de
fato. Quando a boca alcançou seu ouvido, ele sussurrou: — Você vai pedir, ou mandar?

Quando ela permaneceu muda, o tom dele baixou enquanto uma das mãos pousava na cama
ao lado dela. Ela sentiu o colchão afundar quando ele mudou o peso e emitiu um leve “hum”.

— Ou talvez eu te faça implorar.

— Por favor… — ela choramingou, erguendo uma mão para ele. Ela acariciou o peito dele
enquanto ele se afastava, olhos semicerrados cravando nos dela.

— Por favor o quê?

— Me toca — ela praticamente choramingou. Mãos grandes alisaram o lado de fora de suas
coxas, descendo até os joelhos e subindo de volta aos quadris num arrasto torturante e lento.
O toque dele era reverente e lânguido, como se ele não conseguisse se conter e não quisesse
tentar.

— Aqui? — murmurou, com tom inocente. Ela praticamente rosnou. Ele agia como se ela
fosse quebrável, como se precisasse que ele fosse gentil.

— Não foi isso que eu quis dizer — disparou, irritada. Os olhos dele se estreitaram.

— Quero ter certeza de que não estou vendo o que eu quero ver — disse em tom escuro,
claramente ainda inflamado por causa do bicho-papão. As mãos apertaram nas coxas dela, os
dedos cravando de leve com ênfase. A respiração dela falhou ao toque áspero, os olhos se
arregalando em excitação.

Os olhos dele saltaram para as próprias mãos e voltaram ao rosto dela, e a cabeça inclinou. —
É exatamente disso que estou falando — disse com leveza, catalogando o rubor que subia
pela pele dela. — Essa reação me diz que você pode gostar um pouco mais bruto. Você já
pensou nisso, Granger? Já pensou como seria eu te foder até você não conseguir andar?

Ela guinchou, ao mesmo tempo animada com a perspectiva e nervosa com o desconhecido.
— Não basta, eu preciso das palavras, Granger — disse firme, soltando o aperto. — Quero
saber que você se tocou pensando em mim te abrindo no meio. Em eu tomar tudo que você
tem para dar e mais.

— Sim! — ela explodiu, envolvendo os bíceps dele com as mãos para impedi-lo de se afastar.
— Sim, eu já pensei nisso — acrescentou, mais baixo. Aquele sorriso diabólico voltou com
força total.

— Diz pra mim.

Os músculos dos braços dele se retesaram, numa combinação de sustentar a maior parte do
peso projetado à frente nas mãos de cada lado dela e do esforço de não tocar o corpo nu dela.
Ela estava ali, bem ali à frente, e ele se continha enquanto esperava ela confirmar
explicitamente o consentimento.

Não haveria mais mal-entendidos.

Ela projetou o queixo. Esse homem e a necessidade de falar sacanagem. Ela estava um pouco
nervosa, mas não o suficiente para fazê-la mudar de ideia. Ela queria isso, e queria com ele.
Hermione endireitou os ombros, invocando a coragem da Grifinória, e olhou-o direto nos
olhos, em desafio. Ele queria que ela falasse sacanagem?

— Eu já pensei em você me virar sobre a mesa dos atendentes e me tomar ali mesmo, às
claras — disse ousadamente. — Já pensei em você me tomar em cada superfície deste
apartamento. Já pensei no seu pau na minha garganta, na sua cabeça entre minhas coxas e em
todas as combinações no meio disso.

— Merlim, me f— — ele soltou o ar com força, as pupilas dilatadas.

— Sim, é isso que eu estou dizendo — respondeu impaciente.

Hermione se viu deitada de costas no instante seguinte, os lábios dele esmagando os seus
enquanto aquelas mãos pousavam nos joelhos dela e os abriam, encaixando os quadris entre
suas coxas. Ele pressionou a ereção ainda coberta contra ela, a sensação deliciosa do atrito
fazendo as costas dela arquearem da cama. Ele soltou a boca dela para chupar e lamber
caminho abaixo pelo pescoço.

Ele roçou contra ela de novo, uma mão subindo para esfregar o mamilo. Ela se sentiu muito
pequena e delicada sob ele, uma mão cobrindo todo o seio com facilidade. Ele se afastou do
pescoço e se curvou, lambendo o seio antes de tomar o mamilo na boca. O desejo varreu-a
quando ele simultaneamente empurrou os quadris contra ela e mordeu o mamilo. Hermione
arfou, arqueando-se mais.

Ele riu baixo da reação enquanto soltava o seio e deslizava mais para baixo, deitando-se entre
as pernas abertas dela. Choramingando pela perda do atrito, ela se encolheu para alcançá-lo e
trazê-lo de volta para onde queria. Uma das mãos dele apalpou e beliscou seu mamilo
enquanto a outra subia pela parte interna da coxa para acariciar entre as pernas.

Draco pressionou a base da mão contra o clitóris ainda coberto, o atrito era um deleite, mas
nem de perto tão bom quanto o pau dele havia parecido roçando nela. Ela virou a cabeça para
olhar e encontrou aqueles olhos de mercúrio já no seu rosto enquanto os dedos dele
deslizavam sob a borda do elástico. Ele recuou para tirar a calcinha dela sem quebrar o
contato visual.

Hermione o alcançou quando ele tornou a subir sobre ela, acariciando o peito e o abdômen
até brincar com o elástico da cueca dele. Draco inclinou-se para capturar os lábios dela,
saqueando sua boca com a língua enquanto os dedos deslizavam por sua fenda.

Um dos dedos se enterrou nela enquanto ele a distraía com beijos. Moveu-o raso antes de
acrescentar um segundo, o estiramento de dois fazendo-a gemer aguda sob ele.

— Porra, você é apertada. Não tenho certeza se vou caber — a voz dele tinha um veio escuro,
a respiração pesada. Ele gostou da ideia de que ela pudesse ter dificuldade em recebê-lo, o
pensamento levando-o a roçar os próprios quadris no colchão, buscando alívio.

Os dedos dele entravam e saíam lentamente, alargando-a enquanto ele sussurrava no ouvido
dela que ela ia recebê-lo inteiro como a boa menina que era. Os olhos dela reviravam-se
enquanto ele curvava os dedos para cima, o polegar esfregando o clitóris em círculos.

— Querendo isso há anos, porra—

Ele perdeu a frase, praguejando contra o pescoço dela enquanto acelerava a mão. Ela se
agarrava aos ombros dele, as mãos tremendo conforme a pressão subia. Estava perto, as mãos
dele levando-a direto a um frenesi. As plantas dos pés foram para o colchão para que ela
pudesse impulsionar os quadris para cima, arremetendo de volta contra a mão dele.

— Mal posso esperar pra te provar — ele gemeu com a ideia. — Malditas saias… imaginei
minha cabeça debaixo de cada uma…

A imagem a levou ao auge e ela arfou, tremendo e choramingando enquanto despencava do


penhasco. Ela se arqueou contra os dedos dele, que ainda curvavam e empurravam dentro
dela enquanto a ajudava a atravessar, só parando quando os quadris dela voltaram ao colchão
e ela ficou mole. O coração dela disparava, uma fina camada de suor cobrindo o corpo nu
enquanto ele pairava logo acima.

Ele levou os dedos à boca e os lambeu limpos sob o olhar semicerrado dela antes de se erguer
de joelhos. Ajoelhou-se entre as pernas dela e então desceu da cama por completo para tirar a
cueca. Os olhos dela desceram pelo corpo dele, demorando-se no pau nu e duro. Caralho, ele
não estava brincando quando disse que talvez não coubesse. A visão foi interrompida quando
ele caiu de joelhos no chão, agarrou-a por trás dos joelhos e a puxou até a beirada da cama.

O gritinho dela foi cortado quando ele jogou as pernas dela sobre os ombros e mergulhou. As
mãos dele abriram seus lábios enquanto dava uma lambida longa e firme. Ela mal tinha se
recuperado do primeiro orgasmo, mas quando ele circulou o clitóris com a língua e depois
sugou, ela sentiu o tesão voltar a disparar.

— Vou devorar essa bocetinha linda até você gozar toda na minha cara.

Merlim e Morgana.

Aqueles dois dedos voltaram, apenas para serem acompanhados por um terceiro um instante
depois. Ela soltou um som leve de desconforto quando ele os empurrou para dentro, e os
olhos dele piscavam da boceta para o rosto dela, lendo sua expressão, embora não parasse.

— Eu preciso te alongar — a voz dele rachou de leve, um músculo no pescoço saltando. Ele
tinha dificuldade em se controlar, precisando prepará-la para tentar reduzir a dor inevitável,
mas porra, ele estava prestes a explodir. No ritmo em que iam, seria o sexo mais curto da
história. Ele vinha sonhando em tê-la há tanto tempo que mal podia acreditar que isso estava
mesmo acontecendo, porra.

Ele ia fazer essa porra ser boa pra ela. Não achava que ela jamais o desejaria no mesmo nível
que ele a desejava, mas com certeza iria tentar pra caralho. Queria-a desesperada por ele,
precisando que ele a preenchesse, que a satisfizesse de um jeito que só ele podia.

Ele era sortudo pra caralho por ela não ter nada com que comparar suas habilidades.
Planejava pôr a barra tão alto que ela nem pensasse em olhar para outro lugar.

A respiração dela saía em rajadas agudas à medida que ela se enrodilhava cada vez mais
perto do orgasmo. As mãos voaram para a cabeça dele, dedos tremendo, quadris moendo
contra o rosto dele enquanto ele continuava a lamber. Os dedos dele abriam caminho em
tesoura dentro dela, tentando deixá-la pronta para receber o comprimento dele. Queria que ela
ficasse viciada. Seria gentil desta vez, mas aquele toque de rudeza que ela gostara antes fazia
as ideias correrem soltas em sua cabeça.

Ela gritou, as costas arqueando para fora da cama quando gozou no rosto dele. O sangue
correu por todo o corpo, o alto durando vários segundos, os membros enrijecendo enquanto
surfava a onda. Hermione voltou devagar a si, sentindo as mãos dele acariciarem suas coxas
de leve enquanto depositava beijos suaves no seu estômago.

Ela olhou para baixo, para ele, aqueles olhos cinzentos como fumaça e aço enquanto a
observava em êxtase. A voz grave dele a envolveu quando disse, em tom ao mesmo tempo
mandão e brincalhão: — De novo.

Antes que ela pudesse soltar um som de protesto, a língua dele já estava de volta nela e sua
cabeça tombou de novo no colchão. Ela gemeu com a sensação da língua dele mergulhando
dentro dela. Merlim, esse homem era bom, mas ela o queria dentro dela e queria agora.

— Draco — ela sussurrou em protesto, ainda arfando do orgasmo anterior —, vem aqui.

— Você vai gozar de novo pra mim — ele disse firme, achatando a língua contra ela. Ele
soava mais confiante e certo disso do que ela sentia. Ela não tinha certeza se conseguiria.
— Eu te quero — protestou, a voz rouca enquanto ele girava a língua. As mãos apertaram no
cabelo dele enquanto ela meio que se encolhia para cima na sensação.

— Dentro de mim — tentou de novo, mal conseguindo soltar as palavras. Ela sentiu a
vibração do gemido dele contra si, uma das mãos apertando a coxa dela com força quando ele
se afastou. O rosto dele estava molhado e a visão a fez contrair.

— Eu quero que você goze de novo — disse, a respiração áspera. Ela via a bunda firme dele
mover-se de leve enquanto ele se pressionava contra a cama. Ela queria que ele a
pressionasse por dentro daquele jeito.

— E eu quero você dentro de mim, agora — o tom dela não estava nem perto do firme que
queria. Nunca tinha entendido como as pessoas se perdiam de paixão, mas, como agora
estava com dificuldade de alinhar os pensamentos, tudo fazia perfeito sentido. Nada mais
importava naquele momento além de tê-lo, quente e firme, bem fundo dentro dela.

— Porra — ele arrastou a palavra enquanto subia pelo corpo dela como um predador. Beijou-
a e ela conseguiu se provar nele. Nunca imaginara gostar disso, mas naquele momento
provavelmente faria qualquer coisa que ele pedisse.

Ele se ajustou acima dela para segurar o próprio comprimento no punho, avançando os
quadris para roçar a glande rombuda nas dobras encharcadas dela. Empurrou devagar,
cerrando os dentes no esforço de se conter e ir com calma enquanto afundava nela. Uma mão
grande segurou a coxa dela, abrindo-a mais enquanto ele avançava.

Hermione puxou o ar e prendeu, o estiramento significativamente maior do que com os dedos


dele. Ela estava encharcada, mas nervosa, o corpo tensionando de leve conforme o pau dele
escorregava mais para dentro. As mãos dela deslizaram para as costas dele, agarrando-o
contra si e soltando um ruído inarticulado de protesto conforme a sensação virava dor. O
tesão arrefeceu conforme a dor aumentou e ela apertou os olhos.

— Você vai receber até o último centímetro de mim como uma boa menina — ele disse em
voz firme, uma mão alcançando entre os dois para brincar com o clitóris dela enquanto
falava.

— Eu vou te dar todo o tempo que precisar pra se ajustar, mas você vai receber. Você vai
gozar no meu pau, e depois eu vou gozar dentro de você.

Os olhos dela se arregalaram ao encontrar o olhar dele, atento às reações. Um sorriso sujo
cruzou o rosto dele e ele empurrou mais uma polegada pra dentro.

— Você gosta dessa ideia, não gosta? Quer ficar cheia do meu gozo?

O ar que ela segurava escapou num jorro enquanto assentia. A expressão dele escureceu e ele
se inclinou para beijá-la de novo enquanto se assentava até a base. Soltou um suspiro trêmulo
e ficou imóvel, dando-lhe tempo para se acostumar, uma mão esfregando e beliscando o
clitóris.
Hermione mexeu os quadris de leve, de experiência, fazendo-o gemer e encostar a testa na
dela. Ele fechou os olhos com força, o corpo tremendo de leve, embora ela não soubesse
dizer se era por contenção ou outra coisa. Ela percebeu que ele murmurava frases desconexas
no ouvido dela. Palavras como “perfeita” e “minha”, misturadas a palavrões, saíam com cada
respiração.

Ele mantinha-se perfeitamente parado acima dela, exceto pela mão; o outro braço sustentava
o corpo grande para não esmagá-la. Ela puxou os quadris para trás um só centímetro, roçando
devagar contra ele. A dor estava se dissipando, a sensação ainda um pouco incômoda, mas
melhorando. Ela desceu as mãos pelas costas dele e sobre a bunda, apertando de leve para
puxá-lo. Ele praguejou.

— Eu estou bem — disse a ele, recuando de novo para arremeter contra ele. — Eu quero que
você se mexa.

A mão dele saiu do clitóris dela para agarrar uma das mãos dela, tirando-a de sua bunda e
prendendo-a no colchão. Ele avançou nela com cuidado, devagar, pressionando a pélvis na
dela num movimento de moenda a cada vez.

— Tira as mãos ou isso não vai durar — avisou. Ela arquivou isso para mais tarde,
concentrando-se no atrito viciante entre eles. O arrasto lento dele dentro dela a enrodilhava, o
leve desconforto sendo lentamente suplantado por puro prazer.

— Ou eu vou ficar pingando de você?

— Você vai ficar porra de tão gostosa cheia e pingando do meu gozo — ele gemeu,
arremetendo com um golpe firme que a fez guinchar. Ele ficou imóvel bem fundo dentro
dela, chovendo beijos desculposos no pescoço e no peito. Soltou o pulso dela e passou a mão,
reverente, do quadril ao pescoço e de volta.

— Faz de novo — ela ofegou, usando as duas mãos para apertar a bunda dele.

— O que foi que eu te disse, por— — ele rosnou, cortando-se ao arremeter. Ele acertava um
ponto bem fundo que fazia os olhos dela revirarem.

Ele não estava indo nem de perto tão forte quanto queria. Na próxima, pensou, tentando se
segurar. Estava perto, muito perto, só pela sensação de ela apertá-lo como um torno, mas
estava desesperado para sentir ela espasmar ao redor dele. Queria que ela gozasse nele, forte,
a necessidade de saciá-la por completo tomando tudo.

Ele manteve o ritmo — lento e firme, as ancas estalando contra as dela. — Você me recebe
bem pra caralho — sibilou, recuando nos joelhos para ver o próprio pau desaparecer dentro
dela. Agarrou-a pelos quadris para ter firmeza. Ela gemeu com as palavras, empurrando de
volta contra as investidas e levando uma mão para brincar consigo mesma. Os olhos dele
grudaram na mão dela, assistindo-a se fazer gozar, a expressão enquanto a língua passava
pelos lábios sendo uma das coisas mais excitantes que ela já vira.

— Que boa menina, brincando com essa boceta linda, porra—


— Draco… — ela suspirou; aquela pressão familiar se acumulando num ponto dentro dela.
— Draco, eu—

As costas dela arquearam e ela gritou quando gozou, os olhos cerrando enquanto espasmava
ao redor dele, as pernas tremendo. Ele bombeou dentro dela mais algumas vezes,
prolongando o êxtase, antes de colar as ancas às dela e ficar imóvel. Um gemido soou grave
em sua garganta antes que um calor líquido a preenchesse. Ela sentiu-o pulsar e esvaziar-se
dentro dela enquanto ele se inclinava. Beijou-a docemente, lento e lânguido, antes de sair e
deitar ao lado.

Ele a puxou para si, encaixando a cabeça no pescoço dela e lançando um feitiço de
aquecimento sem varinha sobre os dois. Ela se sentia sem ossos, os músculos doendo
levemente pelo esforço incomum. Ele pousou um beijo suave em seu pescoço, causando
arrepios, e sua risada foi ofegante, as mãos a enlaçando de modo possessivo e uma perna
entrelaçada nas dela.

A mão dela vagou preguiçosa pelas costas dele enquanto ela adormecia, a mente, pela
primeira vez, quieta.
Capítulo 24

Junho de 1999

A sensação de calor e peso a trouxe lentamente à consciência na manhã seguinte. Draco


estava esparramado de bruços, meio por cima dela, sua respiração profunda sendo o único
som no cômodo. Seus lençóis escuros, cobrindo apenas a metade inferior dele, destacavam-se
em contraste com a pele pálida. O quarto estava suavemente iluminado, as cortinas abertas, e
Hermione alcançou a varinha no criado-mudo e lançou um Tempus para descobrir que eram
apenas seis e meia.

Ela fez um inventário de si mesma e descobriu que estava dolorida em lugares que não
esperava. Entre as pernas, sim, mas por que diabos as panturrilhas e os ombros doíam? Ela
definitivamente não esperava que sexo fosse tão extenuante. Falando em sexo…

Ela não se lembrava de ter lançado um feitiço contraceptivo.

Merda.

Os olhos dela se arregalaram e ela se sentou de um pulo na cama, desalojando um Draco


pesado e imediatamente contrariado. Ele ergueu a cabeça, mechas loiras em completa
desordem, enquanto a fitava com confusão tingida de biquinho. Soltou um grunhido
interrogativo, claramente não acordado o suficiente para palavras ainda.

O coração dela parecia que ia saltar do peito e ela engoliu em seco enquanto o encarava de
olhos arregalados. — O feitiço contraceptivo — arfou —, eu esqueci.

Draco deixou a cabeça cair de novo com um baque abafado antes de passar um braço em
volta da cintura dela e puxá-la para si. Ele os acomodou em posição de conchinha e ela o
cutucou com o cotovelo, forte.

— Isto é sério! — ela guinchou quando ele grunhiu mas não fez menção de soltá-la. Ela virou
o pescoço para olhá-lo.

— Tá tudo bem — disse a ela, olhos fechados. — Sem varinha.

Hermione ficou imóvel. — Você quer dizer que lançou em mim um feitiço contraceptivo sem
varinha sem que eu percebesse? Eles dão formigamento, Draco! Eu lembraria disso!

— Não em você — o tom dele saiu indignado conforme despertava mais, abrindo um olho
para fulminá-la. — Em mim.

Todo o vento saiu das velas dela e a tensão deixou o corpo. — Ah.

Ele bufou do nariz para ela antes de se aninhar mais perto, enterrando o rosto na vasta juba de
cabelo dela enquanto o braço ao redor dela se apertava. Às vezes ela esquecia que o feitiço
funcionava dos dois lados, tendo sido martelado nela tanto pelos pais quanto por professores
que mulheres eram, mais frequentemente que não, responsáveis pelo controle de natalidade.
O fato de ele ter feito por conta própria, claramente enquanto ela não estava prestando
atenção e sem ela sequer precisar pedir…

Ela se acomodou contra ele, pousando uma mão sobre o braço enlaçado em seu estômago, e
fechou os olhos. Outro pensamento, porém, a fez sobressaltar e virar de costas, apoiando-se
nos cotovelos enquanto olhava para ele.

— O que você fez com o McLaggen?

— Hermione — ele exalou entre dentes, ainda de olhos fechados. — Tudo que eu quero
agora é fazer carinho na minha namorada. Ele está bem, agora vem cá.

Ela acordou algum tempo depois, a luz no quarto significativamente mais forte dessa vez.
Draco já estava acordado, ainda enroscado nas costas dela e dando um aperto gentil quando
ela se mexeu.

— Que horas são? — perguntou, grogue, virando de costas. Ele lançou um Tempus sem
varinha, mostrando que agora eram nove. Hermione praguejou baixinho e duas sobrancelhas
prateadas se ergueram na direção dela.

— Domingos de manhã são para o café da manhã com os Weasley — admitiu. — Se eu não
aparecer, alguém certamente vai vir me procurar.

Como se ela tivesse conjurado uma só por dizer o nome em voz alta, houve um leve whoosh
da lareira e a voz de Gina ecoou da sala, chamando por ela.

Ela voltou os grandes olhos castanhos para Draco, horrorizada, antes de arremessar o
edredom para trás e se erguer da cama. Gritou de volta para Gina que sairia em um minuto,
escancarou as portas do armário e apressou-se para se vestir.

Depois de vestir um par de jeans trouxas e um suéter, olhou e encontrou Draco puxando uma
camisa por cima do torso bem definido e ficou momentaneamente desviada pela visão,
parando bruscamente no meio do passo para encará-lo. Ela percebeu o sorrisinho dele ante a
reação, embora lhe parecesse tenso. Antes que pudesse ruminar sobre isso, porém, houve uma
batidinha discreta na porta do quarto antes que a maçaneta girasse.

— ’Mione? Você tá decente?

Ela lançou um olhar em pânico para Draco. Não era que ela não quisesse que Gina soubesse
— ao contrário, se ele ia chamá-la de namorada, uma rodada de reapresentações seria
absolutamente necessária —, mas sua melhor amiga arrombando a porta e encontrando-o no
quarto não era a situação ideal.

Os olhos de Draco endureceram, o cinza virando aço ante a expressão dela enquanto os lábios
dele se adelgavam. O coração dela afundou ao perceber que ele provavelmente pensou que
ela não queria que Gina soubesse de jeito nenhum, e ela decidiu aguentar firme em vez de
deixá-lo Aparatar e poupá-la da vergonha.
A troca durou apenas um segundo antes que ela respondesse a Gina, que tinha a porta aberta
o suficiente para ver Hermione, mas não o resto do quarto. — Eu tô decente, mas não tô
sozinha — disse leve.

Sobrancelhas ruivas se juntaram num olhar interrogativo antes que os olhos de Gina se
arregalassem. Ela empurrou a porta até abrir de vez, a expressão de Draco mudando
brevemente para choque antes de alisar.

— Ginevra — ele inclinou a cabeça, claramente mirando a polidez. Hermione o encarou,


esperando um esgar ou pelo menos algum comentário depreciativo. Quando Draco
permaneceu em silêncio, a postura rígida, ela e Gina trocaram um olhar.

— Doninha — respondeu Gina, preguiçosa, imitando a postura e o meneio. Os olhos de


Draco se estreitaram e Hermione soltou uma risadinha nervosa.

— Já vamos, Gina. Dá um minuto?

— “Nós”? — Draco e Gina responderam, os tons igualmente incrédulos — embora por


razões totalmente diferentes —, enquanto dois pares de olhos rompiam o duelo e se voltavam
para ela. A descrença de Gina era fácil de entender; a de Draco, nem tanto. Hermione corou e
empurrou Gina para a lareira, prometendo que não demorariam e revirando os olhos às
ameaças murmuradas de Gina caso ela não aparecesse.

Assim que a amiga se foi, virou-se de volta para Draco. Ele estava no batente da porta do
quarto, as mãos nos bolsos do que pareciam calças recém-passadas.

Malditos feitiços de primping.

— Você… você não queria ir? São muitos Weasley. O Harry vai estar lá também, e é
provável que queira uma explicação sobre o que aconteceu com Cormac. A Molly é
realmente adorável, porém, ela não—

O tagarelar nervoso foi abruptamente cortado quando ele a alcançou, envolvendo uma mão
atrás da cabeça dela e puxando-a para um beijo longo e lento. Ela se derreteu nele,
desfrutando a possibilidade de tocá-lo fisicamente sem restrição profissional ou o medo de
alguém observando. Aturdida e relaxada quando ele se afastou, um sorriso arrogante se
espalhou no rosto dele ante a expressão desfocada dela.

— Demora um bocado para te deixar propriamente quieta, não? — O tom dele era leve,
provocador, enquanto a cabeça descia de novo até o ouvido dela. Ficou escuro e esfumaçado
quando disse que talvez preferisse quando ela era barulhenta.

Ela se endireitou e ele a soltou, parecendo impecável e nada como alguém que acabara de
causar arrepios por toda a pele dela. Ele lhe ofereceu o braço, o suéter perfeitamente passado.

— Vamos?

As sobrancelhas dela se juntaram. Ele estava excessivamente despreocupado quanto a visitar


a família Weasley; o completo oposto do comportamento que ela esperava. Dividida entre
precisar que ele se comportasse de maneira não-imbecil e não querer estragar a atmosfera de
bem-aventurança, ela hesitou enquanto decidia o que dizer.

Draco revirou os olhos para ela, lendo corretamente a hesitação com o braço ainda estendido
para ela aceitar. — De todos que estarão presentes, te prometo que tive muito mais aulas de
etiqueta do que todos eles juntos.

— E ainda assim eu nunca vi sinal disso na escola — retrucou ela, irritada pelo tom altivo. O
sorriso arrogante dele amaciou um pouco e ele fungou, parecendo bem mais divertido do que
zombeteiro.

— Eu não ia exibir bons modos quando estava tirando sarro, ia?

Ele tinha um ponto, mas ela ainda hesitou enquanto fitava o braço dele. Ele bufou e apanhou
uma das mãos dela, encaixou-a na curva do próprio cotovelo e a conduziu para fora do
quarto. Hermione foi puxada, a contragosto.

— Vou exemplificar “modos de quem pretende conhecer os sogros” e vou—

— “Pretende”? — ela interrompeu, alarmada, mas ele ignorou.

— Não fazer um único comentário depreciativo sobre o estado de vestimenta deles, a


qualidade do mobiliário ou a cor obscena do cabelo coletivo.

Ele já alcançava o pó de Flu e pisava na lareira, não lhe deixando escolha senão segui-lo, já
que o braço ainda estava preso ao lado dele.

— “Pretende”? — tentou de novo, a voz subindo um tom enquanto tentava permanecer


calma. A visita iminente aos Weasley e a ideia de que Draco já considerava as coisas tão
adiante no futuro — ela nem conseguia pensar a palavra — faziam-na suar frio.

Ele olhou para baixo, a mão posta com o pó de Flu, esperando que ela anunciasse o destino.

A expressão dele ficou séria e ele encontrou os olhos dela com intenção, a voz firme.

— Eu sei exatamente o que eu quero.

Ela inspirou bruscamente ante o olhar no rosto dele. — Eu não—

— Cheguei lá ainda, eu sei — cortou ele, suave. — Eu posso esperar.

Ela buscou os olhos dele por um instante, mas ele exsudava nada além de paciência e
confiança. Desejando ser metade tão segura de si e questionando a sanidade dele, Hermione
anunciou a Toca enquanto ele lançava o pó. Ao girarem, ela se deu conta de que ele não
prometera não dizer nada desagradável ao Harry e elevou uma prece silenciosa a Merlin para
que aquilo desse certo.

Eles saíram pela lareira numa sala de estar quase vazia, o único outro ocupante um Jorge
abatido, que mediu Draco com farta dose de suspeita. A gola da camisa de Draco cobria a
tatuagem de Azkaban, mas Hermione viu os olhos de Jorge descerem para onde ela estaria de
qualquer maneira. Eles saíram da lareira e Hermione começou a tirar a fuligem da roupa,
apenas para notar-se limpa num instante. Lançou um olhar a Draco, impecável, que apenas
inclinou a cabeça para ela antes de puxá-la adiante.

Os dois homens se cumprimentaram, sem jeito, antes que Hermione puxasse Draco rumo à
cozinha e à sala de jantar, querendo resolver a pior parte logo. Rony e Harry haviam sido
solidários em teoria, e ela sabia que Molly e Arthur aceitariam suas escolhas, ainda que não
concordassem com elas, mas ainda assim era de roer as unhas aparecer pela primeira vez
como um casal. Não tinha certeza de como Draco estava lidando com aquilo tão calmamente
e suspeitava ou um toque de Oclumência, ou talvez a reclusão o transformara um pouco em
masoquista.

A balbúrdia do café da manhã — múltiplas conversas ao mesmo tempo, a turma toda reunida
em volta da mesa enquanto Molly colocava travessas variadas em pontos aleatórios sobre ela.
A presença rara de Carlinhos, Gui e Fleur (claro que ela tinha de escolher a manhã em que
todos estivessem ali) foi avassaladora a princípio, até que o som diminuiu e se apagou. Ela
ficou parada no batente, ainda presa ao lado de Draco, enquanto um silêncio constrangido
descia.

Rony a encarava carrancudo, o que ela esperava, mas pelo menos estava calado. Ela olhou
para Gina com olhos suplicantes, mas havia um grande, maldoso sorriso estampado no rosto
sardento e ela cutucou um Harry boquiaberto ao lado. Harry sobressaltou, os óculos
escorregando com o movimento enquanto parecia sair de um transe. Pigarreou e empurrou os
óculos de volta ao nariz, chamando: — Tudo certo aí, Malfoy?

Draco assentiu para ele, antes de soltar Hermione e avançar em direção a uma Molly
surpresa. Passou a mão pelos cabelos loiro-brancos, certificando-se de que as mechas não
estavam despenteadas, e endireitou a postura antes de cumprimentá-la muito formalmente.
Hermione os observou por um momento enquanto o volume e a conversa voltavam a
aumentar de modo constante, a tensão quebrada conforme ele conversava educadamente com
a matriarca Weasley. Molly, para crédito dela, parecia satisfeita com a presença dele em vez
de desconfiada. Hermione olhou para Rony, preocupada com como ele poderia estar reagindo
a tudo aquilo, mas ele abandonara o encaramento e estava absorto em algo que Luna
sussurrava em seu ouvido.

Ela avançou até ele e Harry, deixando Draco por conta própria por um pouco, já que ele
parecia ter tanto Molly quanto agora Arthur muito bem na mão. Contornou a mesa comprida
e despencou numa cadeira entre Luna e Harry, murmurando para este: — Bem, isso é bizarro.

Harry soprou uma risada e virou-se para ela, a voz colorida por um toque de incredulidade:
— Foi você quem o trouxe.

— Acho que foi o contrário.

Harry lhe lançou um olhar que dizia claramente que ninguém podia obrigá-la a fazer nada
que não quisesse, antes de mudar de assunto. — Então a Gina me disse—

— Eu não te contei porcaria nenhuma, Harry Potter — interrompeu Gina. Os dois trocaram
uma série de olhares antes de Gina parecer vencer fosse lá qual conversa silenciosa estavam
tendo. Harry murchou e voltou aos ovos.

— Então, o que ele fez com o McLaggen? — A pergunta casual veio de Gina, mas Harry
cravou os olhos em Hermione, avaliando cada nuance da resposta, o garfo com ovos
esquecido no meio do caminho até a boca. O jeito dele mudou para modo Áuror completo e
ela percebeu o olhar interessado que Gina lançava para ele do outro lado.

Tentando ignorar o modo bastante descarado como os olhos da ruiva percorriam seu melhor
amigo, Hermione deu de ombros para Harry. — Ele não disse — admitiu. — Só mencionou
que estava vivo.

— Ele não vai prestar queixa, se é isso que te preocupa, Potter.

A voz arrastada veio de trás dela e ela girou para encarar Draco. Ele parecia incólume após a
conversa com Molly e, em vez disso, avaliava a mesa diante de si com olhar crítico,
claramente notando que não havia assento para ele ao lado dela. Ela começou a se erguer,
sem querer deixá-lo sentado sozinho cercado de pessoas com quem tinha um histórico tão
negativo, mas ele balançou a cabeça de leve e pousou uma mão em seu ombro.

A voz de Harry interrompeu seus pensamentos. — Ele é considerado pessoa desaparecida,


Malfoy. Você o sequestrou diante de uma centena de testemunhas e da imprensa.

Malfoy revirou os olhos. — Foi uma disputa pessoal e ele estava em casa e inteiro quando o
deixei ontem à noite. Sinta-se à vontade para fazer uma verificação de bem-estar no endereço
dele. — Houve uma pausa antes de acrescentar, ominoso: — Eu lidarei com a imprensa.

Os olhos de Harry se estreitaram. — Vou verificar o McLaggen hoje — avisou.

Draco ignorou a última parte e houve um gemido de madeira e um baque alto atrás dela.
Voltando-se para a mesa, Hermione descobriu que de repente havia uma cadeira entre ela e
Luna onde não havia um momento antes. Rony encarava Draco do outro lado de Luna, a boca
ligeiramente aberta enquanto a mesa rangia em protesto com a expansão súbita.

— Eu perguntei à sua mãe primeiro — disse Draco a Rony, com brandura, enquanto Luna
dava um tapinha tranquilizador em seu braço.

— Hermione comentou que você é muito bom com magia sem varinha — observou para
Draco enquanto ele se sentava, ainda dando tapinhas no braço de Rony em ritmo. — É muito
raro, a capacidade de canalizar magia assim.

Hermione contou a Draco que Luna estava trabalhando com Olivaras agora antes de,
tardiamente, se dar conta de que ainda estava com a varinha antiga dele. Prometendo
devolvê-la depois do café, já que ainda estava em seu apartamento, ele lhe segurou a nuca
para pousar um beijo suave em sua testa.

— Seria bom tê-la enquanto trabalho no feitiço do patrono — admitiu. — Sem varinha é
mais fácil se é um feitiço que eu pratiquei bastante.
Hermione corou furiosamente ante os olhares arregalados idênticos de Jorge e Gui do outro
lado da mesa ao gesto casual de afeto de Draco e ocupou-se em passar manteiga na torrada,
evitando contato visual com todo mundo por vários momentos enquanto Draco e Luna
retomavam a conversa sobre núcleos de varinha.

— Não é de se admirar que você tenha sido um Comensal terrível — divagou Luna. Harry
engasgou ao lado dela enquanto todas as cabeças se viravam. Um rubor vermelho-escuro
subia pelo pescoço de Rony, mesmo quando ele enlaçava um braço em Luna e a puxava para
perto. Harry e Gina apressadamente evitaram contato visual, e Hermione se divertiu ao ver
Draco comprimir os lábios, mas, fora isso, abster-se de comentar. Ela se perguntara como ele
lidaria com Luna.

— Pelo de unicórnio — continuou Luna, alheia ao tumulto na mesa. — As varinhas são


incrivelmente difíceis de voltar-se às Artes das Trevas. Sua relutância em participar também
não teria ajudado.

Draco a encarou.

— Fico pensando qual é o núcleo da varinha da sua mãe — a voz dela era leve e mais uma
afirmação do que uma pergunta, mas Draco respondeu mesmo assim, a voz um tanto rouca.

— Pena de fênix.

Hermione sentiu a surpresa de Harry ao lado, mas seus olhos estavam grudados em Draco.
Ele engoliu em seco, os próprios olhos fixos na loirinha ao lado. A mesa prendeu a respiração
coletiva, aguardando a avaliação dela.

Luna apanhou um doce de uma travessa à sua frente enquanto assentia. — A mais difícil de
domar e tendente a agir por vontade própria. O núcleo perfeito para alguém disposto a mentir
para Voldemort.

Depois da declaração displicente de Lovegood sobre a varinha da mãe dele — quem diabos
fala uma coisa dessas? — o resto do café com os Weasley foi bastante típico, embora uma
conversa entre ele e Carlinhos Weasley sobre raças de dragões tenha feito Hermione e Potter
caírem em risadinhas meio histéricas. Ele suspeitava muito que as conversas deles sobre
dragões enquanto ele estava em St. Mungus não eram conhecimento privado. Potter mal
conseguiu encará-lo pelo resto do café; ainda assim, antes de irem embora, tentou de novo
extrair de Draco uma resposta sobre o que raios acontecera entre ele e McLaggen. Draco
respondeu perguntando quanta plausível negação ele precisava antes de reiterar que aquilo
não se tornaria questão legal.

Voltando pela lareira ao apartamento dela, ostensivamente para pegar a varinha de volta,
Draco puxou Hermione contra o lado dele mais uma vez. Nem em um milhão de anos ele
admitiria a Potter, ou a Hermione, que tinha Aparatado com os dois até a beira de um
penhasco bem alto, empurrado McLaggen de lá, antes de ativar uma chave de portal ilegal
que ele escondera no bolso do idiota e que despejaria o imbecil na piscina do quintal de
McLaggen. Deixou a ameaça — de que da próxima vez não haveria chave de portal — sem
ser dita.
Hermione pareceu incerta depois que lhe entregou a varinha de espinheiro e pelo de
unicórnio, e ele fez uma pausa para saborear a onda familiar de tê-la de volta. Quase
esquecera a facilidade daquilo, tão acostumado a despender a energia que a magia sem
varinha exigia, e levou um instante para conjurar um enorme buquê de lírios brancos. Draco o
entregou à namorada com um floreio e uma leve mesura, apreciando as expressões
simultâneas de prazer e exasperação que ela exibia.

Ela pegou as flores e foi até a cozinha, procurando um vaso. Havia cartas espalhadas pelo
balcão, e uma carimbada “notificação final” em letras vermelhas vivas chamou a atenção
dele. Ele enfiou as mãos nos bolsos para se impedir de pegá-la e comentou, no que esperava
soar despreocupado: — Molly Weasley foi bem mais receptiva do que eu achei que seria.

Hermione fungou, divertida. — Molly não coloca os pecados das famílias nas costas das
pessoas — houve um olhar pontudo na direção dele nisso, que ele ignorou. — Ela
provavelmente te enxerga como outra criança perdida precisando de amor e comida.

Ele se indignou, endireitando-se para retrucar antes de notar o brilho zombeteiro nos olhos
dela enquanto colocava as flores num vaso com água. Estreitando os olhos ao captar a
escolha de palavras, perguntou: — “Outra”?

Ela desviou o olhar, ajeitando as flores. — Ela acolheu o Harry, obviamente, e sempre foi
acolhedora comigo. Com certeza virou ainda mais uma figura materna depois de…

Ela se calou por um momento antes de pigarrear e colar o que ele achou ser um sorriso meio
demente no rosto, tentando encobrir o que ele há muito suspeitava desde que percebeu que
ela passava os Natais com o clã Weasley. Depois que ela mencionou ter passado com amigos,
ele fizera uma escavação, pesquisando seu assunto favorito, embora não houvesse muito a
encontrar. Os pais dela haviam desaparecido sem deixar rastro perto do começo da guerra e
ninguém parecia saber o que acontecera com eles.

Ele nunca pensou em questionar um Weasley.

— Depois de…? — ele insistiu, querendo preencher as lacunas do próprio conhecimento. Ela
se remexeu, arrumando coisas na pequena área da cozinha, ainda sem encarar os olhos dele.
Ele se aproximou devagar, mãos ainda nos bolsos, observando atentamente os movimentos
dela.

— Eu os Obliviei — murmurou por fim, encarando a bancada. — Permanentemente. Quis ter


certeza de que estariam seguros.

Lembrando do estado em que Lockhart estivera antes da guerra, ele fez uma careta. Em vez
de oferecer esperança falsa ou uma solução, envolveu-a nos braços, apoiando o queixo no
topo daquela rebentação de cachos.

— Eu até dispensaria a marca particular de loucura da Lovegood, mas todos eles claramente
te amam.

Hermione não conteve a risada que escapou. — Espera só até ela te oferecer quitutes.
Draco voltara para a casa de Zabini pouco depois da conversa sobre os pais dela, dizendo que
tinha algumas coisas a resolver, mas arrancando dela a promessa de vê-lo mais tarde naquela
noite. Ele a deixou zonza com um beijo de despedida longo e lânguido, prometendo muito
mais do que aquilo só com o olhar faminto nos olhos. Hermione pretendia pôr-se a trabalhar
assim que ele se foi, mas levou mais tempo do que gostaria de admitir para que seus
pensamentos embaralhados se recompusessem.

Ela começou a percorrer suas pesquisas de pacientes enquanto a conversa sobre seus pais se
repetia na cabeça. Feitiços de memória claramente tinham sido usados em alguns pacientes
do programa da Comissão, como Fred e Jorge. Depois da Segunda Guerra Mundial e dos
experimentos que os nazistas vinham conduzindo, os trouxas debateram se os resultados
desses experimentos deveriam ser usados em pesquisa médica por causa das implicações
éticas de sujeitos não informados e não dispostos. A Comissão destruíra uma quantidade séria
de papelada com resultados, pelo que qualquer um em St. Mungus sabia, mas e se uma parte
não tivesse sido perdida? Seria possível que algo ainda estivesse por aí?

Umbridge talvez soubesse, mas nunca tinham conseguido arrancar nada dela. O pouco de
papelada que havia estava trancado em algum lugar, ela não sabia — o escritório de
Pomfrey? O Departamento de Mistérios? Nada de bom podia sair de algo que não estava
disponível para outros pesquisadores médicos analisarem. Sua própria pesquisa limitava-se
ao conjunto de papéis que mantinha na bolsa. Ela não compartilhara a maior parte porque
nunca tinham realmente pedido, mas e se pudesse ir além? E se pudesse ajudar outros além
de seus colegas, que relutavam em pedir ajuda fosse por orgulho pessoal, fosse lá qual fosse o
rancor que Hannah Abbott nutria contra ela?

Se toda aquela informação era mantida longe de quem mais podia usá-la, então todas aquelas
vítimas sofreram por nada. Talvez ela pudesse compilar tudo que tinha e publicar um artigo
médico? Embora, ao encarar a pilha crescente à sua frente enquanto tirava tudo da bolsa roxa,
talvez acabasse virando um livro.

Falando em livros, ela não devolvera o último conjunto de livros que pegara emprestado da
biblioteca dos Malfoy. Uma visita rápida se impunha, se Narcisa permitisse — ela queria
confrontar um dos livros sobre obscuriais enquanto decidia o que fazer a seguir. Ele não tinha
tido um episódio havia pouco mais de um mês e parecia melhor a cada dia, mas ela não tinha
certeza de que estava seguro para ser liberado ainda. Ele melhorara na parte de terapia
também, mas a última coisa que ela queria era liberá-lo sem proteção e ele se matar por
acidente. Talvez o próximo passo fosse treinar o controle da magia? Pomfrey aprovaria o uso
de uma varinha para ele?

Ela mandou uma coruja a Narcisa pedindo para fazer uma troca rápida de livros naquele dia e
se surpreendeu ao receber uma resposta bem rápida que incluía um convite para jantar. Havia
uma nota de que Draco estaria presente também, já que era o aniversário dele, e um pedido de
desculpas pelo curto prazo, pois só haviam recebido aprovação do Ministério para ele visitar
a mansão naquela manhã. Hermione mal registrou a observação de rodapé, ocupada relendo a
linha sobre ser o aniversário dele.

Merda.
Ela tinha esquecido completamente do aniversário dele. Passara a manhã toda com ele sem
mencionar e ainda o levara para um café da manhã dos Weasley. Hermione gemeu, enfiando
a cabeça nas mãos e se sentindo a pior namorada do mundo. Estivera completamente tomada
pela experiência do “dia seguinte” pela primeira vez, e então Gina invadira, e tudo
simplesmente voara.

Lançando um Tempus, ela entrou em frenesi ao perceber que tinha tempo limitado para
encontrar um presente à altura e depois se vestir para o jantar com os pais do namorado.
Sogros, sussurrou a voz interna nada útil, que gostara do uso anterior de “pretende” por parte
de Draco. Ela a esmagou impiedosamente antes de ir em pânico pela lareira ao Beco
Diagonal.

— Posso, por favor, pegar aquele livro de obscurial que eu estava lendo há duas visitas? Tem
capa preta, mas não recordo o nome.

Ela chegara à Mansão uma hora antes do jantar, conforme a nota de Narcisa, para fazer uma
leitura rápida e decidir quais livros precisava levar em seguida. Hermione ainda repassava o
arquivo de Justin na cabeça, algo cutucando a parte de trás da mente.

Houve um cintilar animado no ar e então o livro solicitado veio voando pelo vasto espaço,
além das grandes estantes escuras, para pousar em sua mesa de sempre, a cadeira
espalhafatosa arranhando o chão às pressas para abrir espaço para ela. Fazia algum tempo
desde a última visita e ela sentira muita falta do espaço senciente, oferecendo um sorriso
afetuoso ao ambiente enquanto afastava a saia do vestido para se sentar.

Se ao menos todas as bibliotecas tivessem esse tipo de indexação.

Ela se acomodou na cadeira e os pés rasparam de novo, aproximando-a da mesa. O livro se


abriu na última página que lembrava ter lido, para sua diversão, e ela pôde sentir o que quer
que vivesse no cômodo pairando por perto como um mordomo excessivamente zeloso.

— Talvez aquele com a capa de pano vermelho também? Acho que foi publicado no começo
da década de 1940?

Virou-se para a esquerda para ver o livro vir em sua direção e se sobressaltou com a aparição
de outra pessoa. Draco, de calça preta e um suéter de gola alta azul escuro macio, olhava para
ela com sobrancelhas erguidas que subiram ainda mais rumo à raiz do cabelo quando o livro
solicitado deslizou pela mesa em sua direção do outro lado.

— Feliz aniversário! — ela disparou, para não esquecer de novo. — Eu tenho um presente
pra você, mas você não pode receber até depois do jantar.

Ele não pareceu registrar nada do que ela dissera, fitando-a com uma mistura de surpresa e
desconfiança. — Ele realmente te obedece? — perguntou, referindo-se ao cômodo. Ela
assentiu com um leve rubor, atrapalhada pela reação dele.

— Pode ser que tenha havido ameaças envolvidas — admitiu, afundando um pouco no
assento. — Embora agora eu ache que ele gosta da companhia.
Ele grunhiu, embora soasse suspeitosamente como uma risada. — Mamãe nunca conseguiu
fazê-lo cooperar, e ela é bastante inventiva com ameaças — disse, seco. — Eu vivia buscando
livros para ela. Nem os elfos têm particular apreço por este cômodo.

— Acho que é meu cômodo favorito na Mansão — disse ela, empertigada. Uma sensação
satisfeita varreu a dupla antes que um prato, cheio de frutas frescas e quitutes, surgisse de
repente sobre a mesa a ponto de tilintar por um instante antes de parar. Draco falou, o arrastar
usual ainda mais marcado enquanto sacudia a cabeça levemente, encarando o prato.

— Você vai estragar o jantar.

Uma lufada correu pelo ambiente, batendo as cortinas à frente das janelas. Hermione abriu
um sorriso para ele.

— Acho que isso foi o equivalente a um bufar.

— Só você mesma, Granger, para favorecer um cômodo senciente mal-intencionado e


abarrotado de livros.

Ele meneou a cabeça antes de seguir para a própria escrivaninha, perdendo o modo como
Hermione admirou a vista de suas costas enquanto ele se afastava.

O jantar foi um acontecimento interessante. Repleto de algum tipo de tensão subjacente entre
os três Malfoy, junto com o nervosismo dela por estar tendo o típico jantar de “conhecer os
pais”, a coisa toda deixou Hermione à flor da pele. Normalmente não se conheciam os pais
do namorado depois de tê-los enfrentado em lados opostos de uma guerra e depois de passar
boa parte de um ano tratando do filho deles. Como exatamente se conversava educadamente
com um possível futuro sogro que tentara matá-la em várias ocasiões? Um com quem ela
tinha feito um acordo questionável a fim de conseguir um tratamento melhor para o filho e
eventual libertação?

Você já deu a ele mais de um tipo de libertação.

Oh, Deus.

Ela quase engoliu seu vinho num gole para afogar seus pensamentos errantes e
completamente inapropriados. Tinha passado boa parte da noite tentando se lembrar de regras
básicas de etiqueta à mesa e de não derramar nada no vestido cor de vinho que pegara às
pressas emprestado de Gina. Era um tantinho apertado demais no busto, nada que um
pequeno feitiço de ajuste não resolvesse, mas a saia rodada até os joelhos era perfeita.

O que salvou o jantar foi a reação encantada de Draco ao presente de aniversário dela.
Nervosa demais para ver se ele realmente gostaria, porque o que você dá a um homem que
praticamente tem tudo, ela perdeu completamente o que quer que seus pais tenham dado a ele
depois que terminaram a refeição e uma fatia de delicioso bolo de chocolate.

Ele virou a caixa algumas vezes, o embrulho feito pela balconista da loja no Beco Diagonal
absolutamente impecável. A cor prateada do papel não passou despercebida, a julgar pela
sobrancelha erguida e o sorriso de canto malicioso que ele lançou a ela enquanto
desembrulhava com cuidado.

O peso do presente o surpreendeu e, quando levantou a tampa, piscou. Uma câmera, parecida
com o tipo que o garoto Creevey perambulava por Hogwarts durante anos, cegando qualquer
um que tivesse a infelicidade de estar em sua direção, estava lá dentro. Os olhos castanhos de
Hermione eram sinceros enquanto ela se apressava em explicar.

— Achei que poderia ser divertido… tirar umas fotos com os seus amigos… talvez ajudasse
com o seu patrono… — Estava mordendo o lábio, claramente repensando o presente.

Talvez essa não tivesse sido uma escolha sábia, afinal. Ele provavelmente poderia comprar
uma bem melhor se tivesse algum interesse em fotografia.

Ele engoliu seco, sentindo que estava estragando tudo. As únicas memórias novas que queria
eram as que envolviam ela. Draco tirou a câmera da caixa, inspecionando-a por um momento
para ver como funcionava antes de erguê-la e apontar para ela.

— Sorria, Hermione.

Foi mais um olhar de veado diante dos faróis do que um sorriso, acompanhado de um
lampejo hesitante de dentes, mas ele clicou a foto de qualquer jeito. Hermione piscou
rapidamente depois de ser cegada pelo flash antes de explodir em risadinhas, a presença dos
pais dele completamente esquecida por um instante. Ele abaixou ligeiramente a câmera para
encará-la. Seus olhos brilhavam, as bochechas levemente coradas enquanto o som escapava
leve.

— Isso vai ficar horrível — informou ela, o sorriso brilhando como uma lâmpada de mil
watts. Ele sorriu de volta, a reação instintiva, e ergueu o aparelho novamente, clicando outra
vez.

— Para! — Ela riu, erguendo as mãos aos olhos. — Acho que você me cegou.

— Sim, se já terminaram — arrastou Lucius num tom com certo nojo, rompendo a pequena
bolha que os dois tinham formado. Draco corou levemente e guardou a câmera, parecendo
uma mistura de satisfeito consigo mesmo e um tanto envergonhado. Hermione desejou que o
chão se abrisse e a engolisse inteira.

Pouco depois se despediram, embora Lucius tenha puxado o filho de lado para uma conversa
sussurrada quando se aproximavam da lareira. Ele entregou a Draco algo que parecia um
jornal, antes de lançar-lhe um olhar bastante significativo e desejar-lhe uma boa noite.
Hermione esperou até que saíram da lareira, Draco, sem varinha, afastou toda a fuligem outra
vez antes que ela se virasse para ele com perguntas.

Antes que pudesse sequer abrir a boca, ele lhe entregou o jornal que estava enfiado sob o
braço. Ela o abriu e lá estava uma foto de Draco no baile beneficente, cercado por fumaça
negra e parecendo absolutamente assassino, com uma manchete em letras grandes e em
negrito que gritava:
Draco Malfoy e Hermione Granger Namorando!

— Achei que você disse que ia lidar com a imprensa — sibilou ela, passando os olhos
rapidamente pelo artigo antes de jogá-lo na mesinha baixa e enfiar a cabeça nas mãos. Gemeu
de forma dramática: — Vou ser demitida.

Ela não podia acreditar que não tinha considerado as ramificações do episódio com
McLaggen — nem tinha passado por sua cabeça que a mídia interpretaria corretamente o que
sabia ter sido um acesso de ciúmes. Pensara que assumiriam que ele tinha alguma conta a
acertar.

— Você não vai ser demitida — a voz de Draco soou de algum ponto à sua esquerda. O tom
tinha a confiança de um homem que muitas vezes conseguia o que queria na vida. Como ele
ainda conseguia soar assim depois de tudo o que não saíra conforme o planejado em seu
mundo estava além dela. — É pura especulação — um artigo de fofoca. Eles não podem te
demitir quando não têm certeza.

O tom dele tornou-se apologético. — Tentei abafar, mas alguém escutou o comentário do
Potter para você sobre seu namorado violento.

Maldito seja. O comentário de Harry seria uma mina de ouro para a imprensa. Não era de se
estranhar que ele não tivesse conseguido matar a história — aceitariam a palavra do Menino
Que Sobreviveu como a mais pura verdade.

— Eles têm que me demitir — ela retrucou, corando levemente. — Quebrei todos os tipos de
regras éticas — estou namorando um ex-paciente e deixei de revelar o relacionamento ao
meu empregador. Envergonhei publicamente tanto a mim quanto ao hospital!

— Eles não têm que. Quão terrível ficaria para eles se demitissem a grande Hermione
Granger por causa de um tabloide? — Um arrepio corria por ele ao perceber que, por mais
preocupada que ela estivesse com sua posição, não havia ainda qualquer menção de terminar
o relacionamento. Uma parte sombria, desesperada dele não tinha certeza se conseguiria
permitir que isso acontecesse.

Ele não podia ir embora de novo. Não iria.

— Mas e se… — ela tentou novamente, e ele a silenciou suavemente, fazendo-a erguer o
rosto das mãos com uma carranca. Um sorriso que parecia suspeitosamente afetuoso cruzava-
lhe o rosto.

— O hospital não poderá confirmar a informação a menos que te perguntem diretamente.

— E quando perguntarem? — ela exigiu, preocupações nublando-lhe a mente enquanto


largava as mãos. Ele deu de ombros e ela se virou totalmente para ele.

Ele deu de ombros. — Minta.

— Não quero te esconder — disse a ele com firmeza, a capacidade de respirar deixando-a
diante do olhar enamorado dele à sua declaração.
— Quer saber no que eu estava pensando, durante todo o jantar?

O foco dele estava fixo nela, olhos cor de tempestade absorvendo cada minúcia de seu rosto e
linguagem corporal. Seus passos eram lentos e deliberados enquanto avançava até a distância
de um toque, parando bem à frente, com mal uma polegada separando seus corpos. Ela
engoliu em seco diante da proximidade, cada pelo de seu corpo se eriçando. Hipnotizada por
ele, fascinada demais para se mover ou mesmo desviar o olhar, Hermione assentiu, aceitando
a mudança de assunto.

Ele se inclinou, a bochecha roçando na dela para poder sussurrar em seu ouvido. — Eu estava
pensando em como me dói fisicamente não te tocar quando você está perto. Como esperei
anos, literalmente, para poder fazer isso.

Um de seus dedos enrolou um cacho de cabelo dela, puxando-o de volta para observar as
mechas antes de encontrar os olhos dela outra vez. — Eu estava pensando em como você
ficaria porra de gostosa de joelhos, implorando pela minha rola na sua garganta.

Seu interior se contraiu e ela inalou bruscamente, os olhos escurecidos, dilatados. Ele recuou
com aquele sorriso autossatisfeito no rosto, soltando o cacho para enfiar as mãos nos bolsos
enquanto a observava com calma. Os olhos prateados a percorreram de cima a baixo,
absorvendo o modo como suas coxas se apertavam uma contra a outra à medida que a
imagem evocada por suas palavras se formava em sua mente.

— Ah, nós gostamos dessa ideia, não gostamos? — murmurou ele, percebendo o leve rubor
que ela sentia manchar-lhe o rosto. Ela mordeu o lábio e assentiu outra vez, os olhos presos
nos dele.

— De joelhos, Hermione.

Ela se abaixou lentamente até o chão, mantendo os olhos fixos nos dele. Ele murmurou algo
sob a respiração e, quando seus joelhos tocaram o piso de madeira do apartamento, percebeu
que era um feitiço de amortecimento. As mãos dele ainda estavam nos bolsos, aquela
demonstração despreocupada de poder sem varinha apenas aumentava o fervor dela.

As mãos dela se ergueram para alcançar o cinto dele, mas ele a deteve segurando um de seus
pulsos.

— Ah-ah — repreendeu. — Eu não disse para você me tirar ainda, disse?

O olhar dela disparou para o contorno nítido de sua ereção crescente, o volume começando a
armar sua calça, antes de voltar correndo para os olhos dele.

— Como mais você esperava que entrasse na minha boca então? — bufou ela.

— Cuidado com a insolência ou eu te calo com ele — advertiu, depois lhe deu um sorriso
obsceno quando os lábios dela se entreabriram. Sentiu o coração acelerar, a ideia de ele ser
um pouco rude com ela, suas mãos em sua cabeça, empurrando-a um pouco mais do que
talvez ela fosse sozinha, dizendo-lhe como era uma boa garota enquanto o engolia o quanto
pudesse…
A calcinha dela estava encharcada.

— Ou talvez você prefira continuar com a atitude — murmurou ele, observando a reação
dela. Soltou-lhe o pulso e ordenou: — Mãos atrás das costas.

Ela segurou um pulso com a mão oposta junto à lombar, a pulseira tilintando suavemente
com seus movimentos, e observou enquanto ele desabotoava o cinto e a calça, abaixando a
cueca apenas o suficiente para liberar seu membro intumescido. Já estava meio duro, o
tamanho dele ainda inacreditável para ela. Não podia acreditar que aquilo coubera dentro
dela, e que ainda por cima parecera incrível, quando parecia que deveria tê-la matado em vez
disso.

Como diabos ele escondia aquilo se ficasse excitado em público? Uma tenda de circo?

A mão dele escorregou para o cabelo dela, trazendo-a de volta ao presente, embora em vez de
forçá-la para frente parecesse estar afastando os fios de seu rosto, o gesto mais afetuoso do
que sexual. Querendo a paixão e a rudeza que ele insinuara, ela decidiu testar até onde ele
toleraria sua ousadia antes de simplesmente enfiar-se em sua boca.

— Não sou um animal de estimação — disse ela em tom insolente, fazendo referência à mão
dele em seu cabelo. A outra mão dele se movia lentamente sobre si mesmo e ela a observava,
a língua saindo para molhar os lábios. A ponta do membro brilhava com um toque de
umidade e ela ansiava por passar a língua sobre ele e ouvir sua reação. Inclinou-se para
frente, com a intenção de fazer exatamente isso, mas a mão em seu cabelo apertou,
mantendo-a no lugar.

— Não, você não é um animal de estimação — ele concordou. — Você é minha bela
propriedade.

Antes que ela pudesse retrucar que não era propriedade de ninguém, completamente
indignada, ele aproveitou a boca aberta dela e entrou de uma vez. No começo manteve-se
dentro da zona de conforto dela, segurando o cabelo dela e impondo um ritmo lento que não
ia fundo demais. O comentário a irritava e excitava ao mesmo tempo, embora ela detestasse
admitir a segunda parte, mas a irritação estava vencendo quando ele não cumpria a promessa
de fazê-la engasgar.

Libertando as mãos, ela alcançou por trás dele na investida seguinte e agarrou-lhe as nádegas.
Os quadris dele avançaram num solavanco, o pau batendo no fundo de sua garganta enquanto
ele soltava um som inarticulado de prazer.

Os olhos dela lacrimejaram quando ele recuou, praguejando. A mão saiu de seu cabelo e
segurou-lhe o queixo, inclinando a cabeça dela para cima a fim de encará-lo.
— Viu o que acontece quando você fica gananciosa? — repreendeu, o polegar acariciando a
lateral da bochecha dela.

— Pare de ser tão gentil — ela reclamou. — Não sou feita de vidro.

— Você quer que eu seja bruto, Hermione? Preciso das palavras, lembra. O que acontece se
você não gostar?
— Seja bruto comigo! — ela explodiu. — Eu vou te dizer quando parar!

— Você pediu por isso.

Ele colocou a mão na parte de trás da cabeça dela e voltou a se enfiar na boca dela de modo
brusco. Ela adorava a sensação dele deslizando sobre sua língua, a glande tocando o fundo de
sua garganta para testá-la antes de decidir que ela podia aguentar um pouco mais. Ele recuava
e empurrava de novo mais forte, mais fundo. Ela tentava conter o reflexo de engasgar,
observando a expressão extasiada que se estampava no rosto de Draco enquanto usava a boca
dela para seu próprio prazer.

— Tão boa menina — ele arfou, acelerando o ritmo. Ele fazia pausas quando ela engasgava,
dando-lhe chance de se recuperar antes de retomar o domínio de sua boca. Ela estava cercada
por ele — o gosto e a sensação dele em sua boca, o cheiro almiscarado, o som de sua
gratificação, a visão dele com a cabeça jogada para trás e os olhos fechados ao se aproximar
daquele ápice que tanto desejava. Hermione percebeu-se subitamente desesperada para senti-
lo gozar em sua boca, para ver-se trazendo-o, figurativamente, de joelhos, enquanto ela
estava de joelhos.

Ele segurou firme a cabeça dela quando gozou, empurrando-a mais para baixo de modo que
se derramava no fundo da garganta dela. Ela prendeu a respiração, sentindo-o pulsar e inchar
levemente a cada jorro de líquido quente. Estava tão fundo que ela mal conseguia sentir o
gosto, engolindo reflexivamente enquanto ele arfava acima dela.

Ela puxou um fôlego ofegante quando ele se retirou, recuperando o ar e sentando-se sobre os
calcanhares. Ele a observava enquanto ela limpava a boca com as costas da mão, sua postura
curvada e a respiração também bastante acelerada. Ele a segurou pelo cotovelo e a puxou
para se levantar, arrastando-a contra si para um beijo duro. A língua dele mergulhou em sua
boca e ela envolveu o pescoço dele com os braços, esfregando as coxas uma na outra
enquanto sua própria excitação, fervendo sob a superfície o tempo todo, transbordava e a
incendiava.

— Sua vez — disse-lhe em tom sombrio, erguendo-a e jogando-a no sofá. Ela caiu de traseiro
e ergueu o olhar para ele através de olhos semicerrados, cor de uísque.

— Agora, abra as pernas e me mostre o que há debaixo dessa saia.

— Isso ao menos conta como uma memória feliz?

Draco estava no meio do escritório de Blaise, a varinha erguida enquanto tentava o feitiço do
patrono pela terceira vez naquela semana. Tinha lançado a pergunta a Blaise sem olhá-lo,
concentrado em praticar o movimento da varinha antes de tentar novamente. Theo havia
presumido, corretamente, que ele estava usando a lembrança de seu recente encontro como
esforço para invocar um patrono. Apesar de seus sentimentos por Granger, ainda parecia um
tanto deprimente que o mais feliz que conseguia lembrar de ter sido fosse enquanto gozava.

Tinha se sentido adulto durante toda a guerra, mas isso o fazia sentir-se muito mais como o
adolescente que tecnicamente ainda era.
Blaise o observava de um assento confortável em um sofá antigo, olhos escuros criticando os
movimentos de varinha enquanto Theo se aninhava ao lado dele. Um dos braços estava
enroscado em seu parceiro, mantendo-o firmemente no sofá e impedindo qualquer
interferência física.

A interferência mental, porém, era outra história.

— É claro que conta — Theo zombou, cortando o que quer que seu namorado estivesse
prestes a dizer. — Por que outro motivo chamariam de “final feliz”?

— Theo — o tom de aviso de Blaise não fez nada para desencorajar o sorriso malandro que
cobria o rosto do moreno. Ele o ignorou em favor de importunar Draco com uma pergunta de
seguimento.

— E se o tipo de memória que você usa na primeira vez afetar a criatura que aparece?

Distraído, Draco abaixou a varinha para lançar um olhar interrogativo na direção do par.

— O que você quer dizer?

— Bem — Theo raciocinou —, e se você estiver pensando em sexo e o seu patrono sair na
forma de um pau?

Draco ficou boquiaberto, sem palavras por um instante, antes de resmungar ao virar-se de
volta:
— Um pau não é uma criatura.

— Talvez o seu não seja—

— Theo.

O tom de Blaise havia escurecido significativamente e Theo fechou a boca rápido o bastante
para que Draco ouvisse os dentes baterem do outro lado da sala.

— Faz sentido, no entanto — Theo começou de novo. — O da McGonagall é um bando de


gatos — ela me contou que sua lembrança mais querida, quando era jovem, foi quando
aprendeu a se tornar Animaga.

Diante dos olhares incrédulos dos amigos, acrescentou em tom defensivo:


— O quê? Tive muitas detenções com ela. Nem todo o tempo foi gasto em completo silêncio
com um olhar carrancudo direcionado a mim.

— Acho difícil acreditar, isso é praticamente metade do seu relacionamento — Draco


retrucou com um aceno em direção ao sofá. Blaise bufou para ele.

— Expecto Patronum!

Fios prateados irromperam de sua varinha, tudo o que tinha conseguido produzir desde sua
libertação. Não passava de vapor, nem remotamente parecido com um escudo e
definitivamente não o suficiente para manter um Dementador afastado. Draco conteve o
impulso de atirar a varinha pela sala.

— Pareceu vagamente em forma fálica para mim.

— Pelo amor de Merlin, Theo — Blaise estalou. — Se não vai ajudar, vá embora.

— Considerando que sou o único aqui que consegue conjurar um patrono, acho que minha
contribuição é necessária — o tom arrogante foi ignorado enquanto os outros dois homens
congelaram. Dois pares de olhos furiosos pousaram sobre ele. — O quê?

— Você não achou importante mencionar antes que consegue conjurar um maldito Patrono?
— Draco exigiu. Não sabia que Theo tinha a habilidade de lançar o feitiço e, a julgar pela
expressão de Blaise, era novidade para ele também.

— É claro que consigo! — o tom de Theo era quase ofendido. Ele se soltou do braço de
Blaise e sacou a varinha, erguendo-a com um movimento preguiçoso. Magia branca e azul
disparou dela e um urso fantasmagórico se formou, trotando pelo aposento por alguns
instantes antes de se dissipar.

— Um urso? — Blaise perguntou, uma sobrancelha negra erguida.

— É porque ele é um grandalhão sentimental, não é — Draco comentou secamente para


Blaise. — Como um ursinho de pelúcia.

— Eu não sou o único aqui com o…

— Theo!
Capítulo 25

Junho de 1999

O homem à sua frente arfava, o sangue jorrando dele, os olhos arregalados e apavorados. Ela
estava coberta pelo líquido quente e pegajoso — as mãos, a calça, ajoelhada numa poça
daquilo. O sangue se acumulava ao redor dele, manchando aquele cabelo loiro-branco
imaculado…

Hermione tomou consciência de repente, arfando o nome de Malfoy quando o


reconhecimento se instalou no exato momento em que despertou com um sobressalto.
Sentou-se ereta num pulo, as pernas enredadas nos lençóis, ofegante e desorientada.

Você está no seu apartamento. Você está bem.

Engolindo goles de ar, ela tentou acalmar o coração disparado na escuridão de seu quarto.
Uma mão repousava sobre o peito enquanto ele subia e descia, o sonho aos poucos se
esvaindo. Levou vários segundos para perceber que não estava sozinha.

Uma mão grande e quente deslizou por seu quadril e baixo-ventre e ela foi puxada contra um
corpo quente e firme, suas costas no peito dele. Ele se mexeu levemente para que ficassem
totalmente colados um ao outro, e ela conteve a bolha de riso levemente histérico que
ameaçou escapar.

— Pesadelo? — murmurou ele, e ela sentiu o sopro de ar roçar seu rosto, bagunçando um
cacho rebelde. Ela se aninhou de volta contra ele em resposta, lutando para se acalmar.

— ’Tá tudo bem — ele a acalmou, apertando o abraço. — Nada vai acontecer. Eu só vou…
matar eles…

A fala de Draco se apagou quando ele mergulhou de volta no sono, seus padrões de fala
deixando claro que nem sequer estava totalmente acordado para começo de conversa. A
maneira casual com que indicou que assassinaria quem quer que a tivesse assustado era ao
mesmo tempo alarmante e, admitia a zona cinzenta em que às vezes ela habitava,
estranhamente reconfortante.

Um tanto sexy também…

Ela tentou fechar os olhos e voltar a dormir, mas sua mente estava desperta e toda a ansiedade
sobre ir trabalhar naquela manhã irrompeu para a linha de frente. Hermione sabia que seria
demitida hoje, mas recusava-se a escolher o caminho covarde. Levantaria, se arrumaria e
entraria lá como se não tivesse feito nada de errado. Não era crime se apaixonar por alguém,
lembrou a si mesma.

Não que ela estivesse apaixonada. Ah não, não estava pronta para grandes declarações ou
seja lá qual nível de compromisso o “estar apaixonado” exigia. Todo mundo que ela conhecia
que estava apaixonado tinha se mudado junto e ou estava planejando um casamento ou
certamente seguindo nessa direção. Hermione gostava do seu tempo sozinha, do seu espaço e,
embora gostasse muito, muito de Draco, aquilo ainda era novo demais para considerar
qualquer coisa como amor ou morar junto ou arranjos de flores ou—

— Pare de pensar tanto.

Hermione teria pulado se não estivesse tão firmemente envolvida pelos braços dele, sem para
onde ir. Houve um ronronar de risada baixa às suas costas antes que um beijo fosse
pressionado em seu cabelo.

— Vai dar tudo certo. Mesmo que você seja demitida, vai ficar tudo bem.

Falado como alguém que nunca precisou se preocupar com dinheiro, ela pensou com rudeza,
mas se conteve de dizer. Não queria começar a manhã de um dia que já seria bastante difícil
com uma discussão, especialmente quando ele não tinha sido nada além de bom para ela.
Ainda assim, não tinha certeza de como pagaria seu apartamento. Já havia recebido vários
avisos sobre a falta de pagamento do aluguel naquele mês. Talvez devesse falar com Harry
sobre voltar a morar com ele…

Vagamente ciente de um movimento atrás de si, de repente ela estava deitada de costas, com
um Draco Malfoy desgrenhado e meio acordado pairando sobre ela. Ele claramente buscava
uma expressão severa, mas as marcas vermelhas no rosto, causadas pelos amassados da
fronha, e o cabelo absolutamente em desalinho arruinavam o efeito.

— Você vai ficar bem. Vai estar segura, saudável, e seu senso de valor próprio não será
diminuído por falta de St. Mungo’s. Estou bastante certo de que você encontrará meios
dignos de emprego em outro lugar dentro de uma medida razoável de tempo, caso assim
escolha.

— Vou virar uma vilã — ela gemeu, sem vontade de encarar a reação pública que viria de ter
arruinado todas aquelas grandes e perfeitas expectativas que todos depositavam na “grande
Hermione Granger”. Iriam cuspir nela nas ruas por quebrar uma regra tão importante para o
pessoal médico.

— A imprensa vai se esbaldar em virar isso contra o hospital — independentemente das


regras, eles terão demitido a talentosa Hermione Granger, inventora de vários feitiços que
ajudaram na recuperação de centenas afetados pela Comissão e seus experimentos atrozes,
heroína de guerra extraordinária e uma do Trio de Ouro. Tudo por causa de um romance
altamente publicizável que vai vender milhares de exemplares do Profeta quando eles
girarem a história como “amantes desafortunados”. A imprensa vai estar do seu lado,
Hermione.

Ele estava confiante demais em suas avaliações, o discurso bem elaborado demais para um
Draco recém-desperto. — Você já intimidou o Profeta, não foi?

— Como é aquele ditado, “se você não consegue calá-los, diga o que quer que eles digam”?
— O sorriso dele era profundamente autossatisfeito.

— Acho que o que você quer é “se não pode vencê-los, junte-se a eles”, mas passou perto.
— Você será amparada — ele reiterou mais seriamente, os olhos ficando intensos.
Acrescentou baixinho: — Eu vou cuidar de você.

— Não preciso que vo—

— Eu quero — ele respondeu com honestidade. — Deixe-me cuidar de você como você
passou o último ano cuidando de mim.

Sem saber exatamente ao que estava concordando, ela respondeu com um pequeno e suave:
— Ok.

Ele soltou um suspiro de alívio antes de praticamente despencar sobre ela. Ela soltou um
“Ei!” surpreso, presa sob o peso considerável dele, o tamanho dele a sufocando. Ela riu e
tentou se esgueirar para sair debaixo dele.

— Você é pesado! Sai de cima!

— Com prazer — foi o rosnado sedutor em seu ouvido antes que as mãos dele descessem e
ela perdesse a capacidade de falar.

Apesar das distrações da manhã, ela conseguiu entrar no trabalho bem antes da troca do turno
matutino. Havia um único atendente do turno da noite sentado na mesa redonda onde todos
os prontuários eram guardados, mas seus olhos não continham suspeita quando ela se
aproximou. Hermione o cumprimentou casualmente, o pulso em descompasso, enquanto
escorregava para trás da mesa e seguia até o arquivo onde ficavam os prontuários dos
pacientes, tentando se comportar normalmente.

Ela puxou dois prontuários do arquivo antes de ir à sua mesa, abrindo-os e se posicionando
num ângulo de modo que o atendente, com sorte, não pudesse ver o que estava aprontando.
Um rápido olhar na direção dele mostrou que estava absorto num livro e a ignorava, mas isso
não significava que continuaria assim.

Retirando a varinha, Hermione fez cópias completas dos dois prontuários, encolheu-as e as
enfiou no bolso. Folheou os originais, virando-se de modo que o atendente pudesse ver o que
estava fazendo e tentando não parecer suspeita. Conjurando uma pena e rabiscando algumas
anotações inúteis, por fim guardou os prontuários e os devolveu, planejando fazer as rondas
antes que todos chegassem e ela fosse obrigada a encarar o artigo do Profeta.

Ela não tinha intenção de mentir para Pomfrey sobre isso. O relacionamento delas seria
descoberto repetidas vezes, especialmente agora que a imprensa tinha farejado o assunto, e
isso só acabaria virando um escândalo ainda maior e potencialmente arruinando sua
credibilidade se negasse a princípio. Hermione estava em violação direta das regras de
funcionários de St. Mungo’s — Draco podia estar no programa ambulatorial, mas ainda era
um paciente, um sob seus cuidados diretos. Ele teria encontros com ela para revisões com o
Patrono. Ela sabia disso e, literalmente, ainda assim o fizera.

Gemendo por dentro diante dos pensamentos picantes — a boca imunda de Draco devia estar
pegando nela —
Ah, pelo amor de—

— Hermione.

Ela parou no meio do passo no corredor, a poucos pés da porta do quarto de Justin. Virando-
se ao som da voz de Hannah, concedeu à outra bruxa um sorriso hesitante em cumprimento.
Hannah parecia desconfortável, remexendo a varinha numa das mãos e incapaz de olhar
Hermione diretamente nos olhos.

— Aconteceu alguma coisa? — Hermione perguntou com cuidado quando Hannah não disse
nada após vários longos e constrangedores momentos. O olhar da outra bruxa cruzou com o
dela por um instante antes de se desviar de novo.

— É verdade? — ela perguntou finalmente, fazendo uma careta como se na verdade não
quisesse perguntar. Hermione franziu o cenho, embora pudesse adivinhar o que Hannah
realmente perguntava.

— Draco e eu, você quer dizer?

Hannah assentiu, ainda fazendo careta. Hermione endireitou os ombros. É claro que Hannah
tinha lido o artigo; fora a mesma que lera o Witch Weekly que proclamara Hermione grávida
meses atrás.

— Sim. Estamos nos vendo.

Pareceu um pouco como selar o próprio destino, e nem era a Pomfrey a quem estava
admitindo. A expressão de Hannah tornou-se de puro nojo, percorrendo Hermione de cima a
baixo como se ela fosse algo desagradável sob o sapato.

— Como você consegue gostar daquele babaca? — A descrença coloria sua voz. Hermione
não fazia ideia de quais tinham sido as experiências de Hannah com Malfoy em Hogwarts,
mas podia supor que fossem semelhantes às suas. Ainda assim, ergueu o queixo, sem sentir
necessidade de explicar seus sentimentos ou seu relacionamento com Malfoy à colega gelada.
Ela e Hannah mal se conheciam e de repente ela exigia uma explicação?

— Isso não é da sua conta.

Hermione se virou, os cachos voando ao redor enquanto avançava a passos firmes duas
passadas na direção do quarto de Justin e estendia a mão para a porta. Não se importava com
o que Hannah pensava de sua atitude, embora tenha percebido que esquecera de pedir que um
atendente a acompanhasse. Perdida demais em seus pensamentos sobre Draco e a
probabilidade de ser demitida para sequer pensar em protocolo — estupidez —, embora
tenham sido as palavras de Hannah que a impediram de entrar no quarto mesmo assim.

— Pomfrey quer falar com você.

— Draco se levantou no exato segundo em que uma figura baixa, bem-vestida e esguia
apareceu ao lado de sua mesa no Leaky, gesticulando formalmente para que sua
acompanhante se sentasse. Houve uma pausa enquanto ela lhe lançava uma avaliação breve,
de olhos semicerrados, engrenagens claramente girando por trás dos olhos escuros antes que
ela tirasse o casaco dos ombros e escorregasse para a cabine com um bufar.

— O que você quer? — Pansy Parkinson perguntou secamente, acenando para o garçom. —
Achei que ia me encontrar com o Theo.

— Não te vejo há meses — Draco respondeu no mesmo tom. — E é assim que você me
cumprimenta?

— Você não teve nenhuma necessidade jurídica que exigisse minha presença física — Pansy
deu de ombros, pedindo algum tipo de coquetel. Draco não pediu nada — Theo chegaria em
breve e ele só tinha um favor rápido a pedir a ela. Sabia que ela não era do tipo que “coloca a
conversa em dia”. — Alguns de nós realmente têm que trabalhar para viver. Se você está
assim tão carente e desesperado por atenção, vai pedir uma punheta para a Granger.

— Você podia aparecer para sair com a gente — ele retrucou, exasperado. — Sabe, realmente
ver seus amigos, já que fomos soltos e tal.

Pansy zombou. — Naquela festa de salsichas que vocês três chamam de apartamento? Não,
obrigada.

Draco revirou os olhos para a atitude dela antes de recostar na cabine. Espalhou-se,
pendurando os braços ao longo do encosto enquanto lançava um olhar pelo pub. Vestia um
suéter azul de tom intermediário, as calças sociais ainda no preto de sempre, mas era a maior
quantidade de cor que Pansy o via usar em anos. Sua casualidade afetada não a enganou, e ela
gemeu teatralmente.

— Isso tem algo a ver com a Granger.

Ele nem se deu ao trabalho de negar, voltando a atenção para ela com calma e erguendo uma
sobrancelha. — Há um imóvel que eu gostaria de comprar.

— Então compre e me mande a papelada.

— Não está à venda.

— Como se isso já tivesse impedido um Malfoy antes — ela resmungou, olhando ao redor da
taverna e achando-a sem graça. O garçom voltou com a bebida dela, da qual ela sorveu um
gole e imediatamente franziu o nariz. Quando Draco hesitou em continuar bem depois de o
funcionário se afastar, Pansy lançou um olhar irritado em sua direção. — Isso realmente
exigia uma reunião presencial?

— O quê, eu não posso visitar uma velha amiga?

A paciência se esgotando, ela tamborilou as unhas na mesa entre eles e lançou um olhar
gelado. Pansy não fazia sentimentalismos, como ele muito bem sabia, a menos que houvesse
algo para ela ganhar. Ela tinha ajudado a conseguir a libertação dele o melhor que pôde — ele
realmente esperava que ela passasse tempo “relembrando” os horrores dos últimos anos?
Ele cedeu à força silenciosa da personalidade dela, sem surpresa alguma para ela com a
declaração seguinte.

— Quero a escritura em nome dela.

Ser demitida pedia vinho.

Muito vinho.

Ela fora direto para a casa da Ginny depois de sair de St. Mungo’s, tendo enviado uma coruja
na noite anterior indicando que ia precisar de apoio e de uma garrafa grande de pinot grigio.
Eram apenas 11 da manhã, mas as duas já estavam na segunda — ou seriam três? — garrafa,
e Ginny gemia dizendo que sua treinadora ia matá-la no dia seguinte se ela aparecesse no
treino de ressaca.

— Pelo menos você tem um emprego para voltar — Hermione informou, alcançando a
segunda garrafa. Estavam sentadas à grande mesa de madeira na cozinha do Grimmauld
Place, só as duas, já que Harry estava no trabalho. A mente de Hermione voltou à cena com
Pomfrey mais cedo naquele dia, uma onda nova de vergonha descendo sobre ela.

Ela só conseguia imaginar a manchete de amanhã dizendo que a “Bruxa Mais Brilhante de
Sua Geração” fora dispensada do cargo de curandeira por uma violação de ética. Ela pode ter
feito várias coisas moralmente questionáveis na vida, mas tudo tivera um propósito maior —
a saber, salvar a pele do Harry — que fora desculpável. Na primeira vez em que ela faz algo
egoísta, algo só para ela, algo para fazê-la feliz, e ela sabia que o mundo bruxo tentaria tomar
isso dela.

Não importaria que eles tivessem sobrevivido a uma guerra — ela não ia corresponder à
reputação, e isso incomodaria as pessoas. Ela sabia, Draco sabia, Harry sabia — o pior,
porém, foi que Pomfrey sabia. Sabia, e tentou convencê-la a repensar a decisão.

Havia algo que não batia em toda aquela interação, além da raiva e vergonha por ter sido
demitida. Algo pareceu… fora do lugar, mas Hermione não conseguia pôr o dedo. Algo
clicava e zumbia no fundo do cérebro, só fora de alcance. Pomfrey tinha dito… algo, mas o
álcool que ela e Ginny consumiram havia atenuado sua memória no momento.

— Não tenho a menor ideia do que vou fazer da vida agora — anunciou para Ginny,
abandonando a linha de pensamento anterior.

Ginny deu de ombros, o gesto exagerado. — Transar o cérebro do Malfoy pra fora? — O tom
era prestativo, como se talvez a ideia não tivesse passado pela cabeça de Hermione nem uma
vez ainda.

Ou cinco vezes — quem estava contando? O homem era um colírio.

Hermione contemplou a sugestão, evocando a imagem dele na mente como estava durante as
atividades daquela manhã mesmo. Corado, um pouco suado, aqueles olhos contendo tamanha
intensidade e obsessão. Ela sempre fora do tipo que se obsessona com as coisas — escola,
trabalho, tarefas —, mas nunca fora o objeto da obsessão. Até ele. Até as notas dele, a
presença dele invadirem sua vida.

E invadindo estava. Tinham se passado apenas dias desde a reconciliação e, ainda assim, ele
estava com ela sempre que podia. Logicamente ela sabia que era rápido, rápido demais, mas
não podia negar que, depois de toda aquela espera, todo aquele maldito limbo, ansiando
poder tocá-lo, prová-lo, simplesmente estar com ele, ela não estivesse igualmente
desesperada para estar perto dele como ele para estar perto dela.

Ela balançou a cabeça em resposta à pergunta de Ginny. — Infelizmente não dá para ganhar a
vida com isso.

Uma pena do caralho.

— Ponto justo — a ruiva concedeu, tomando a garrafa da mão dela para completar o próprio
copo. — A menos que você vire a esposa-troféu dele, aí poderia viver dos cofres dos Malfoy.

— Não é meu estilo, infelizmente — Hermione suspirou dramaticamente. Claramente ela


tinha ambição demais para o próprio bem.

— Não — Ginny concordou magnanimamente —, embora eu tenha a sensação de que não


vai demorar. Ele parece do tipo que faz qualquer coisa para conseguir o que quer.

— Você não faz ideia — ela murmurou. — Ele já soltou indiretas.

— O quê?! — Ginny guinchou, virando a cabeça de lado num estalo. Vinho espirrou por toda
a mesa com o movimento súbito. Ela resmungou um palavrão e puxou a varinha para sumir
com a bagunça; o gesto trêmulo fez tanto o derramamento quanto o próprio copo
desaparecerem.

— Droga — murmurou, antes de voltar para Hermione com os olhos semicerrados. —


Desembucha.

Quando Hermione ergueu as sobrancelhas, olhando de Ginny para a mesa agora impecável,
Ginny acrescentou, num tom indignado: — O outro tipo de desembucha. Conta!

Hermione admitiu o comentário dele de “pretendida” antes de terem aparecido na casa dos
Weasley naquela manhã, detalhando a conversa sobre como ela não estava bem pronta, mas
ele disse, de forma direta, que a esperaria. Ginny ouviu, absorta, a boca entreaberta. Quando
Hermione terminou, a ruiva sardenta pareceu pensativa por alguns momentos, a falta de
vinho e de copo esquecida por ora.

Hermione sorveu o vinho, perdida na própria reverie, antes de Ginny explodir de repente: —
Ok, então qual é o problema? Você não está interessada? Porque, se não está, por que cargas
d’água, pelas Y-fronts largas de Merlin, você ainda está dando corda pra ele?

— Você já viu ele?

— Ele encorpou, isso eu admito — ela concordou. — Então você está interessada — ou isso
é tipo um “wham, bam, thank you, ma’am”?
— O quê? Não!

— Então qual diabos é o problema dele imaginar e possivelmente planejar o futuro em


potencial de vocês dois? — Ela tentou conjurar um novo copo de vinho sem dizer palavras,
mas os movimentos de varinha saíram errados e surgiu um novelo de barbante. Franziu o
cenho para ele e tentou de novo; um giro de punho produziu, do nada, um copo infantil com
bico. Ginny deu de ombros, pegou o copo e desenroscou a tampa antes de espiar dentro para
julgar a limpeza.

— É que… é tão rápido! Não estou convencida de que ele realmente sabe o que quer! Ele
acabou de ser solto—

Ginny alcançou a garrafa. — O sujeito tem andado de vela por você por boa parte de pelo
menos os últimos três anos, desde que te deu isso aí — ela assentiu para a pulseira prateada e
preta no pulso de Hermione, enchendo seu copo com o vinho e recolocando a tampa. Levou-o
aos lábios para um gole breve. — Você não pode me dizer que isso é rápido demais. Você
vem sofrendo por causa disso desde que ele virou seu paciente no ano passado.

— Vocês basicamente estão emocionalmente comprometidos por boa parte de um ano; é só a


parte física que é nova. A menos que esse seja o problema? — As sobrancelhas de Ginny
subiram até a linha do cabelo ao ter o pensamento. — Ah, não, ele é horrível na cama, não é?

— Não! — Hermione gritou, semicerrando os olhos para o sorriso satisfeito de Ginny.

— O homem fez tudo menos te dar um anel. Ah, espera — o sorriso de Ginny cresceu ainda
mais, e Hermione semicerrrou os olhos para ela, a tentativa de olhar feroz ficando aquém. —
O maior medo dele é você deixar ele, pelo amor de Merlin. Tenho certeza de que o resto de
nós está abrigando o medo normal do ressurgimento do Voldemort.

— Olha — Ginny continuou —, quando um homem dá a uma mulher uma joia de salvar a
vida bastante chique, e em plena guerra ainda por cima, acho seguro dizer que ele está sério
com ela. Sem falar em toda a enxurrada de presentes que veio depois.

— Permita discordar — olhe para anéis de promessa!

— Eu disse homem, não menino — Ginny retrucou, apontando para ela com o copo de bico.
— E Draco Malfoy é homem até o último fio.

O alarme apitando de sua varinha a despertou lentamente mais tarde naquela tarde — uma
soneca se fizera necessária depois de tanto vinho —, mas um rebuliço enorme na cama a
trouxe à consciência com tanta brusquidão que quase doeu. A adrenalina disparou nas veias
quando ela percebeu que não estava sozinha. Uma figura grande e em pânico estava sentada
na cama ao lado dela. Hermione saltou para fora da cama, agarrou a varinha do criado-mudo
e girou, recuando, antes de perceber que a figura era loira.

Ela abaixou a varinha, observando Draco vomitar pela lateral da cama. Alarmada, a névoa de
álcool e sono dissipando depressa, ela contornou o colchão, lançando um feitiço diagnóstico
e examinando-o em busca de ferimentos. Ele tremia de leve, arfando entre episódios de
vômito, sentado com a cabeça entre as mãos. Um brilho branco-arroxeado tênue o envolvia.

Episódio de Fulminator? — pensou, frenética.

O diagnóstico mostrou frequência cardíaca elevada, mas não muito mais. Frustrada, ela
desfez o feitiço junto com a pilha de vômito. Aproximando-se devagar, estendeu a mão para
acariciar de leve as costas dele, ficando um pouco de lado caso ele passasse mal de novo e
conjurando um balde à frente dele. Ele não reagiu ao toque dela, ainda respirando pesado, e
ela traçou o mesmo caminho pelas costas largas repetidas vezes.

— Você está bem? — ela perguntou em voz baixa quando já fazia um ou dois minutos desde
que ele havia vomitado. A respiração dele desacelerava, agora puxando ar fundo, claramente
tentando se acalmar. Ele acenou de leve com a cabeça, deixando as mãos pendurarem entre os
joelhos, o tremor diminuindo a cada respiração.

— Isso é… gostoso — ele sussurrou, o brilho roxo ao redor dele permanecendo. Hermione
sentou-se na beira da cama ao lado dele, encostando a coxa na dele. O halo de magia roxa
que o cercava se estendeu para englobá-la no segundo em que a perna dela tocou a dele. Ela
ergueu uma sobrancelha para aquilo, notando que agora estava, essencialmente, dentro seja lá
qual fosse a magia protetora que o circundava.

Os dois ainda vestiam roupas do dia, e ela se perguntou brevemente quando foi que ele
entrara sorrateiro com ela. As calças dele estavam amarrotadas e, em algum momento, ele
tirara o suéter de sempre. Ainda acariciando suas costas, com gotículas de suor salpicando o
rosto e o pescoço dele, ela pousou a outra mão no ombro dele e a deslizou pelo braço. A
camiseta dele estava úmida ao toque.

— Isso já aconteceu… antes? — perguntou suavemente. Ele não olhava para ela e a pele
estava ruborizada, embora ela supusesse que fosse mais pelo vômito do que por
constrangimento. Ele assentiu, fechando os olhos e soltando um suspiro trêmulo.

— O alarme soa como o do hospital — admitiu baixinho. — Às vezes… eu acho que sonhei
tudo. Sair — gesticulou fracamente entre eles —, nós.

Resposta de estresse pós-traumático, forneceu-lhe a mente. Episódio curto, claramente sem


alucinações agora; ansiedade em torno do nosso relacionamento, mas isso a gente já sabia.

Ela sentiu um tanto de alarme sobre como ele reagiria quando tivesse que voltar a St.
Mungo’s. Ele tinha uma consulta de acompanhamento sobre como estava o patrono dentro de
poucas semanas. Ele ia precisar trabalhar a reação a qualquer coisa relacionada ao ambiente
hospitalar caso algum dia tivesse que ser levado às pressas para lá por causa de um ferimento.
Hermione teve uma visão súbita dele tendo uma explosão completa no meio de St. Mungo’s e
engoliu em seco.

Ele acabaria de volta em Azkaban.

— Eu estou bem aqui — ela sussurrou, enroscando um braço nas costas dele e pousando o
outro em sua coxa, inclinando-se para apoiar o queixo no ombro dele. Um dos braços dele a
envolveu e a apertou contra o lado do corpo. Ela sentiu a cabeça dele baixar, o nariz afundar
em seu cabelo. Sentiu o peito dele expandir numa grande inspiração, os músculos das costas
contraindo e relaxando.

Ela percebeu que ele confessava coisas num tom baixo, quase baixo demais para que ela
ouvisse. A voz estava estrangulada, o aperto quase deixando marcas enquanto ele a envolvia.

— …o que foi ouvir você roubar aquele banco. Ouvir você falar com aqueles dois idiotas o
tempo todo. Ouvir você chorar para dormir, os pesadelos, e não poder fazer porra nenhuma a
respeito…

Um olhar para baixo mostrou que o brilho mágico roxo esmaecia quanto mais tempo ele a
segurava perto. Ela se mexeu de leve — a posição era desconfortável e ficava pior pelo modo
como ele a apertava. Resmungando quando ele não cedeu, ela se inclinou contra ele, com
força, numa tentativa de fazê-lo deitar de novo. Ele obedeceu após um instante, rearranjando-
os de modo que ela ficou deitada sobre ele e os braços dele a envolveram pelas costas, as
mãos dela espalmadas no peito dele.

— Ela conseguia ouvir o coração dele batendo, o compasso acalmando quanto mais tempo
ficavam deitados ali, quase fazendo-a adormecer de novo. O sol do fim da tarde era
desorientador — parecia muito mais como manhã naquele instante, depois da soneca. Ela
ouviu um feitiço murmurado de limpeza da boca e o cheiro de menta flutuou até ela.

Adicionar isso à lista de feitiços que ele precisa me ensinar.

— Quando você chegou? — falou baixinho, sem querer interromper a paz do momento, mas
curiosa. Ele passou uma mão do pescoço dela até a lombar, acariciando-a de leve e fazendo
arrepios irromperem por toda a pele. Ela estremeceu suavemente.

— Por volta das duas? — a voz dele subiu no final, incerta. — Você parecia tão em paz,
tipo…

— Tipo o quê? — ela incentivou quando ele foi se apagando. Diante do silêncio contínuo,
ergueu a cabeça. As bochechas dele estavam tingidas de vermelho, a visão fascinante. Um
Draco Malfoy envergonhado era algo com que ela não tinha certeza de que algum dia se
acostumaria.

Ele pigarreou de leve, olhando para qualquer lugar menos para ela. — Tipo tudo o que eu
sempre quis — declarou por fim para a colcha da cama. — Eu sei que você não está nesse
ponto — acrescentou, ansioso, mas parou de falar quando ela alcançou o lado do pescoço
dele e pousou a mão ali. Olhos prateados saltaram para os dela, a incerteza guerreando com a
necessidade dentro deles.

— Eu gosto de ouvir isso — ela confessou, e sentiu-o relaxar sob ela. Ele segurou a parte de
trás da cabeça dela e um de seus braços, puxando-a contra o corpo antes que os lábios dele
colidissem com os dela. O toque e o gosto dele a fizeram sentir como se talvez não tivesse
ficado sóbria de fato, afinal, a realidade escorregando sob o deslizar da língua dele contra a
sua. Ele era implacável, o beijo quase frenético, como se nunca fosse o suficiente, o gosto de
menta e dele sobrepondo todo o resto.
— Você gosta de ouvir muita coisa, não gosta? — ele ronronou quando ela se afastou para
respirar, inclinando a cabeça dela para trás. A boca dele pressionou-se no pescoço dela e ele
os rolou, juntando os quadris ainda vestidos e esmagando-a contra o colchão. Ergueu-se só o
suficiente para tirar a camisa dela, bebendo a visão dela com um dos sutiãs rendados que ele
lhe dera, este em rosa-claro.

— Sabe o que eu gosto de ouvir? — a voz dele era quase um rosnado enquanto se curvava,
mordiscando o peito arfante dela. Ela emitiu um som ofegante e interrogativo, puxando a
barra de trás da camisa dele enquanto ele baixava o sutiã dela, os seios transbordando livres.
A boca quente dele fechou-se sobre um mamilo sob o olhar dela e um ganido saiu-lhe da
garganta.

Ele chupou, forte, e ela gemeu mais alto e jogou a cabeça para trás. Ele parou apenas o
bastante para dizer — Aquilo — em resposta à pergunta anterior, antes de passar para o outro
mamilo. Ela puxou a camisa dele de novo, o centro apertando-se quando sentiu uma das
mãos dele alcançando entre eles para desabotoar sua calça.

— Roupas, fora— — ela arquejou, incapaz de formar sentenças completas enquanto ele
continuava a lamber, mordiscar e sugar os seios dela. Ele se ergueu para encará-la, todo o
semblante escurecendo. Ela fitou-o, confusa.

— Você está tentando me dizer o que fazer? — A voz dele era escura, sedosa, e ela pôde
sentir a calcinha umedecendo ao som do tom dele. Os olhos dele continham a promessa de
punição. Ela engoliu em seco, observando, em suspenso, enquanto ele alcançava atrás de si
para tirar a própria camisa.

Porra.

Ela nem sequer conseguira se despedir de Justin, Colin ou mesmo Fred.

O pensamento provocou uma dor no peito. Fazia apenas alguns dias que havia sido
dispensada e ela flutuava à deriva. Seus dias no momento tinham pouca finalidade além de
ler e Draco, embora este último estivesse rapidamente se tornando sua atividade favorita. Ela
se sentia culpada; a sensação de não ser produtiva e de não estar trabalhando era
desequilibrada e errada, quase provocadora de ansiedade. Tirando um breve período no fim
da guerra, ela sempre tivera um propósito, um motivo para estar em movimento. Sem um…

Não que se arrependesse. Pomfrey fora fria e firme em seus julgamentos, mas Hermione não
se arrependia de sua escolha. Não quando havia uma presença loira grande e constante
basicamente à sua disposição. Nunca pensou que sua natureza independente ficaria bem com
um Sonserino carente e afetuoso, mas o jeito envolvente e possessivo dele era bastante
reconfortante.

E incrivelmente erótico. As obscenidades que saíam da boca dele, o modo como ele
simplesmente não conseguia parar de tocá-la sempre que ela estava por perto…

Não, ela não se arrependeu de trocar um trabalho que a vinha estressando aos poucos até a
morte por ele. Às vezes, raciocinou, tudo bem ser egoísta. Era apenas um conceito estranho
para uma Grifinória que passou a maior parte da vida protegendo o amigo de todo e qualquer
mal, sacrificando a infância e muito mais para ajudá-lo a travar uma guerra em todas as
frentes.

Se ser mimada por um patife arrogante que incendiava seu sangue de mais de uma maneira
era o preço em troca, ela aceitaria, mesmo ao custo de uma carreira.

Justin, ela sabia, provavelmente ficaria bem — ele não era tão ligado a ela a ponto de
provocar um episódio, mas a possibilidade existia dependendo de gostar ou não de quem lhe
seria designado. Colin não era seu paciente já fazia algum tempo, mas ela ainda assim
gostaria de desejar-lhe sorte. Fred, bem…

Fred não dizia nada além do nome de Rowle repetidas vezes desde pouco depois de sua
descoberta. O tom insistente e os olhos arregalados e urgentes eram perturbadores. O
monólogo singular e delirante de um homem quebrado, antes seu amigo, a assombrava.

É o Rowle, é o Rowle…

— O lilás? Ou o marfim, o que você acha?

A pergunta de Ginny a puxou de seus pensamentos sombrios, trazendo Hermione de volta ao


presente com uma brusquidão que a fez sobressaltar de verdade. Dois cartões eram erguidos
para sua inspeção nas cores mencionadas.

Convites. Certo.

O casamento dela com Harry estava todo marcado para dezembro e Ginny insistia que os
convites precisavam ser encomendados e enviados o mais magicamente rápido possível. A
dupla estava no meio de uma papelaria, examinando vários modelos. Harry se esquivara da
tarefa, insistindo que sua presença era necessária em algum tipo de partida de Quadribol que
envolvia Ron e sabe-se lá mais quem. Ele gaguejava algo sobre uma briga entre os
participantes quando ela e Ginny saíram, embora, por ser Quadribol, ela não estivesse
ouvindo de verdade.

— Lilás com detalhes em marfim — disse Hermione com firmeza, na esperança de que sua
segurança pusesse fim a todo o processo de decisão. Aprendera cedo que, se demonstrasse
qualquer vacilo, Ginny poderia levar horas para escolher. Incorporar as duas opções finais era
o jeito mais rápido de cair fora dali.

— Feito — concordou a amiga, levando as amostras até a atendente. Hermione a seguiu


obediente, o olhar pousando numa pilha de pergaminhos lindamente em relevo enquanto
lutava contra a estranheza de Ginny não debater as muitas opções.

Menos de quinze minutos depois, saíam da loja. Ginny enlaçou o braço no dela e começou a
puxá-la rua abaixo, em direção ao ponto de aparatação, e as suspeitas de Hermione
cresceram. Normalmente, a amiga adorava demorar nas lojas, olhar tudo e debater cada
escolha antes de pegar algo e seguir para a loja seguinte para recomeçar. O propósito
obstinado daquela ida parecia… fora do normal.
— Gin? — ela perguntou, cética, quando estavam a poucos passos do ponto de aparatação.
Hermione fincou os pés, forçando a amiga a parar por um segundo. O sorriso que Ginny lhe
lançou a lembrou de Fred e George com tanta força que ela congelou por um instante.

— Eles estão jogando Quadribol, Hermione. Mesmo que eu não fosse jogadora profissional,
eu ia querer assistir.

— Então por que fomos às compras? — Sem entender, e ainda desestabilizada pela
lembrança pré-guerra dos gêmeos, ela se deixou ser puxada de novo. Ginny gargalhou.

— Você não gosta de Quadribol.

— Então por que estamos voltando? — perguntou secamente. Ela tinha razão — Hermione
achava o esporte totalmente entediante e desperdiçara tantas horas na escola assistindo às
malditas partidas para ser uma amiga prestativa. Com certeza não precisava continuar
fazendo isso como adulta?

O sorriso de Ginny era coquete, secreto, e fez Hermione semicerrar os olhos.

— O Draco está jogando.

Ginny aparatou as duas até o campo onde os homens supostamente jogariam uma partida de
Quadribol, mas, ao chegarem, nem vassouras, nem jogadores estavam no ar. Vasculharam a
clareira na área arborizada perto do burrow onde os Weasley jogavam havia anos, mas não
havia sinais de que o grupo sequer tivesse estado ali naquela manhã.

A preocupação revirou no estômago dela enquanto seguiam de volta ao burrow. Ginny


oscilava entre alarme e fúria, murmurando sob o fôlego sobre as várias maneiras de infligir
dor no pobre Harry por tê-la mentido e sobre como fora privada de uma manhã de colírio
para os olhos.

Quando Molly revelou que nenhum deles — Harry, Draco, Ron ou qualquer outro — havia
visitado o burrow naquela manhã, as duas bruxas transtornadas viajaram pela lareira para
Grimmauld, para ver se talvez os rapazes tinham ficado presos de volta à casa. Atravessando
a lareira e desejando saber qual fosse o feitiço de banimento de fuligem que Draco conhecia,
ela e Ginny correram para portas opostas para começar a vasculhar a casa.

Walburga arrulhava em seu retrato, delirando sobre como alguém era bonito. Sem querer
entrar no campo de visão da velha megera e não ouvindo outras vozes vindo da cozinha,
Hermione virou-se para seguir pelo caminho que Ginny tomara. Havia apenas uma pessoa
sobre quem Walburga falara positivamente, o que significava que, se ele não estava na casa,
ao menos estivera ali em algum momento daquela manhã.

Ela encontrou Ginny espreitando logo fora da sala de estar que tinha a parede com a árvore
genealógica, uma expressão de descrença divertida no rosto. Quando percebeu Hermione,
Ginny levou um dedo aos lábios e fez sinal para que ela se aproximasse. Vozes masculinas
conversavam lá dentro, e o queixo de Hermione caiu quando ela percebeu o que estava
acontecendo.
— …o meu não é lá grande coisa, mas eu te mostro, tá? — Essa era a voz de Ron. Houve um
sussurro de magia e uma luz azul brilhante iluminou o aposento, derramando-se pelo corredor
onde as duas escutavam. Ela se apagou rapidamente.

— Nunca consegui manter por muito tempo, mas dá conta do recado — ele continuou.
Houve um resfôlego de riso.

— Tá tudo no pulso — ele recomeçou, mas mais risadas afogaram o resto do que ele dizia.
Hermione e Ginny trocaram olhares.

— Ele é tão ruim quanto a Luna — Ginny soprou, e Hermione assentiu, contendo um sorriso.

— Tudo depende da memória — agora a voz de Harry. — A memória em si não precisa ser
particularmente forte ou nítida, mas o sentimento precisa. Felicidade incondicional. Você tem
que realmente saber que estava feliz naquele momento. — Houve uma pausa silenciosa e
então: — Expecto Patronum!

Outro jorro de luz azul e branca. Hermione conseguiu visualizar o cervo saltando pelo
aposento, como vira tantas vezes antes. Seguiu por um bom tempo, nenhum dos presentes
falando, antes de lentamente se dissipar. Tudo ficou quieto e imóvel por vários longos
momentos, e então uma nova voz se somou.

— Expecto Patronum.

Uma onda quente de afeto lavou Hermione quando a voz de Draco lançou o feitiço. Houve
um clarão azul-branco que se apagou depressa, mas um coro de vozes masculinas
encorajadoras veio do aposento de qualquer maneira.

— Seja o que for, tem rabo!

— Manda bem, cara!

— Mais uma e a gente cai fora, beleza?

Uma breve pausa de silêncio e Hermione conseguiu imaginar Draco em sua mente, de pé no
meio da sala de estar, Harry e Ron a um lado observando enquanto ele se preparava.
Erguendo aquela varinha de azevinho, um olhar focado nos olhos cinzentos, antes que sua
voz baixa e firme soasse:

— Expecto Patronum!

O lampejo azul-branco durou vários segundos longos e silenciosos, a magia sussurrando


enquanto o que quer que fosse dançava ao redor antes de desaparecer rápido. Houve um
momento atônito de silêncio quando sumiu.

— Aquilo foi—?

— Nem uma palavra, Weasley.

— Mas—!
— Shhh!

— Ele acabou de mandar eu calar a boca?

Hermione cometeu o erro de cruzar o olhar com o de Ginny e as duas explodiram em


risadinhas. Houve um alvoroço quando os três homens de repente contornaram a moldura da
porta, expressões variadas de alarme no rosto. As bochechas de Draco estavam tingidas de
rosa.

Harry deu-lhe um tapa de aprovação nas costas, sorrindo de orelha a orelha. — Trabalho
fantástico — disse-lhe, incapaz de conter o deleite no rosto. — Não se preocupe, seu segredo
está seguro conosco.

Draco lançou-lhe um olhar venenoso, enquanto Ron parecia ofendido, como se não tivesse a
menor intenção de guardar para si o que quer que o patrono de Draco tivesse acabado de
manifestar. Ele e Harry trocaram uma discussão silenciosa atrás de Draco, envolvendo muito
levantar e abaixar de sobrancelhas, até que os ombros de Ron caíram e ele fez uma careta.
Harry voltou-se para as duas mulheres, que ainda tentavam se acalmar, e abriu a boca para
falar, mas fosse lá o que fosse dizer, foi abafado por um grito estridente.

Revirando os olhos, Harry esgueirou-se pelo grupo para lidar com uma Walburga histérica
(“TRAIDORES DO SANGUE!”). O grupo o seguiu devagar, Ron cutucando Ginny de leve e
perguntando algo que Hermione não conseguiu captar, enquanto Draco passava um braço
pelos ombros dela. Eles desceram em direção à cozinha.

— IMUNDO SANGUE-RUIM! COMO OUSA PROFANAR O LORD DAS TREVAS! —


ela uivava no momento em que todos chegaram ao patamar. Harry lutava com as cortinas, a
brisa invisível dificultando mantê-las totalmente fechadas.

— Melhor época da minha vida — ele bufou para Walburga, forçando-se. — Nada
traumático, não.
Capítulo 26

Julho–Agosto de 1999

— A memória usada durante a primeira conjuração afeta a criatura que aparece?

Draco fez a pergunta no segundo em que atravessou a lareira. Uma escuta rápida na pulseira
dela revelara o farfalhar de papéis e um miado tênue. Desde que fora dispensada, ela passava
a maior parte do tempo trancada no apartamento, trabalhando em algum tipo de projeto. A
pergunta ridícula do Theo estava rondando a mente dele fazia semanas, o pensamento
enlouquecedor apenas encorajado pelo que ele produzira na frente de Potter e Weasley, até
que finalmente não aguentou mais.

Hermione tinha ficado intrigada com a disposição de Potter e do Doninha em ajudá-lo,


fazendo um comentário malicioso sobre como achara que eles deveriam estar jogando
quadribol. Ele se recusara a fazer contato visual com os outros dois quando indicou que eles
ofereceram ajuda, e os dois cabeças-ocas, felizmente, tiveram presença de espírito suficiente
para manter a boca fechada. Duvidava que qualquer um dos três estivesse disposto a admitir
que ele e Weasley tinham entrado num sopapo de mão fechada no segundo em que ficaram
sozinhos.

— O que ele está fazendo aqui? — Weasley exigira de Potter no segundo em que a
Weaselette e a Granger saíram. Claramente a cooperação relutante que exibira naquele lugar
que eles chamavam de lar — o Cativeiro? O Buraco? — o abandonara assim que deixou de
haver uma fêmea presente para manter o idiota na linha. Draco rosnara de volta, recaindo em
velhos hábitos, e fez um comentário venenoso sobre a comida da mãe dele.

Potter lançara um olhar de um para o outro e desarmara ambos. Draco escolheu manter para
si sua habilidade sem varinha, provocando Weasley de novo, que ficara cor de beterraba de
raiva e se atirou contra ele. Draco optou por abrir mão da magia em favor de socar o idiota
ruivo bem no meio da cara.

Infantil e plebeu, também foi bastante catártico. Weasley, mais baixo que ele, mas mais largo
nos ombros, claramente já passara tempo brigando no meio da ninhada que chamava de
família. Além de pequenas rusgas entre colegas de casa que degringolaram em brigas de luta
livre, Draco tinha pouca experiência com violência física. Não duvidava que poderia derrotar
Weasley num duelo, mas se conteve de atordoá-lo com feitiços em favor de continuar
podendo transar com Hermione, sofrendo um lábio sangrando por seus esforços. Os dois
ficaram cobertos de hematomas, praguejando feio um contra o outro entre os golpes, antes
que Potter decidisse imobilizá-los.

— Já terminaram? — Potter perguntou, exasperado. O menino prodígio esperou uma resposta


por um instante antes de perceber que eles não podiam responder e, às pressas, os soltou,
devolvendo as varinhas. Uma espécie de respeito mútuo se instalou no silêncio subsequente,
os feitiços de cura murmurados sendo o único som no cômodo.

— Certo — disse Potter. — Quadribol?


Draco, limpo e curado, em vez disso exigiu que ele demonstrasse o Patrono totalmente
corpóreo. Potter ficou surpreso e o encarou por um momento antes que ele e o idiota ruivo
trocassem um longo olhar silencioso. Potter ergueu a varinha devagar, observando Draco com
mais curiosidade do que cautela.

— Expecto Patronum!

O cervo fora enorme, trotando pela sala de estar decadente com um clarão cegante de luz azul
e branca. Ele pairou perto de Potter depois de completar um circuito, como se aguardasse
instruções, antes que um aceno rápido da varinha o fizesse se dissipar.

Draco foi arrancado da lembrança ao contemplar a visão de sua namorada. Hermione não
apenas estava em casa como também completamente despreparada para ele surgir às pressas
pela lareira sem aviso. Fitando-o do chão da sala com olhos arregalados e boca aberta, havia
dezenas de papéis espalhados pelo chão ao redor dela, junto de penas, vários livros grandes e
de aparência familiar e um tinteiro. Ela ainda usava pijama — um conjunto de flanela sem
forma — apesar de já ser bem depois do almoço. O cabelo estava em completo desalinho, os
cachos voando em direções diferentes quando ela os empurrou impaciente para trás para
olhar para ele. O coração dele apertou com a figura absolutamente linda — e cdf — que ela
fazia.

Hermione nua, esparramada por todo o pergaminho, se contorcendo por ele, implorando por
ele…

Concentre-se, Draco.

Piscando rápido, a expressão dela mudou de surpresa e alarme para uma careta de
concentração. Pondo-se na trilha de pensamento dele sem mais contexto algum, o que ele
admitia em particular ser uma qualidade bastante atraente, os olhos de Hermione saltavam de
um lado a outro, quase como se ela estivesse folheando um texto que só ela podia ver.

— Pode mudar para combinar com o Patrono de alguém por quem você esteja
verdadeiramente apaixonado — disse ela devagar. — Como Snape e Tonks, embora eu nunca
tenha considerado as memórias usadas na primeira conjuração. Pensando agora, o Harry me
disse que pensou nos pais na primeira vez e o Patrono dele é a forma animaga do pai.

Bem, isso explicava o maldito cervo gigante na sala de Potter outro dia. Ele nem precisava
perguntar ao Weasley — testemunhara os modos nojentos do homem à mesa por anos — para
saber no que ele pensara.

Então qual diabos tinha sido o Patrono do padrinho dele? E o pai de Potter era um maldito
animago?

Os olhos dela brilharam quando a ideia ganhou força, sem notar o leve sobressalto dele. —
Remus Lupin usou a memória dos amigos com ele como animagos — ele me contou que foi
a primeira vez que se sentiu verdadeiramente aceito por outros que sabiam da condição dele.

— A McGonagall pode ter pensado em quando se tornou animaga também — admitiu ele,
reiterando brevemente o que Theo mencionara quando Hermione lhe lançou um olhar
intrigado. Ele omitiu as partes mais picantes da teoria do Theo.

— Não sei no que o Ron pensou — ela divagou, ausente, com olhar pensativo. Ele se absteve
de comentar suas suspeitas pessoais para não irritá-la. — Ou a Luna, embora eu pudesse
perguntar. A ideia tem mérito, de que a memória usada influencia a forma que assume na
primeira vez em que você conjura, já que é essencialmente uma manifestação física da
própria felicidade. Embora não seja como se você pudesse simplesmente escolher qual
memória é a mais feliz da sua vida, ou a mais cara, para tentar influenciar o formato do
próprio Patrono…

Ele engoliu pesado, cortando-a para se atrever a perguntar: — No que você pensou? Na
primeira vez.

— Pensei em acampar com meus pais.

Um pequeno sorriso triste brincou no rosto dela, a lembrança claramente um pouco


manchada agora. Ela contou brevemente sobre a viagem — as maiores árvores que já tinha
visto, explicando o que eram s’mores e como os fizeram, e toda a vida selvagem que tinham
encontrado. Ela parou no meio de contar sobre um sapo-touro enorme que o pai dela se
esforçou ao máximo para capturar, fazendo sua versão mais jovem dar gritinhos de riso.

Os olhos de Hermione se arregalaram e a boca formou um “o”. — Havia lontras no rio —


disse devagar, a percepção raiando. — Perto do nosso acampamento. A gente ficava vendo
elas brincar sem parar — lembro que tinham filhotinhos com elas. Eu nunca pensei…

De repente ela remexeu na bagunça de papéis em busca de um pedaço em branco de


pergaminho e de uma pena e começou a rabiscar freneticamente. Draco deu a volta na
bagunça até conseguir ler por cima do ombro dela, observando enquanto ela compilava uma
lista de pessoas e seus Patronos, junto com uma coluna para quais memórias foram usadas
durante a primeira conjuração.

— O da Weaselette é um cavalo? — Ele fez uma pausa para analisar o que parecia ser
páginas de um livro explodidas por todo canto. — E o que é tudo isso então?

Ela lhe lançou um olhar sombrio por cima do ombro. — Minha pesquisa de pacientes, estou
organizando. George… teve uma recaída — admitiu, o rosto abatendo.

Harry tinha chamado pela lareira logo cedo naquela manhã. George acordara no apartamento
que ele e Angelina dividiam atualmente sem lembrança além de onde originalmente haviam
recuperado as memórias dele até — algum ponto antes da guerra. Ele ficara alarmado,
embora bastante satisfeito por despertar ao lado de Angelina, que insistiu para que ele fosse a
St. Mungo’s.

O curandeiro designado a ele não fazia ideia do que acontecera. Harry reiterara para ela que
era como se a memória dele tivesse resetado, que George parecia não recordar nada após
certo ponto no tempo, exatamente como quando fora liberado no setembro passado.
Hermione desenterrou suas notas, xingando-se por não ter copiado o prontuário de George
quando teve a chance, e replicou o que conseguia lembrar do diagnóstico e tratamento
anteriores dele. Sabia que ele provavelmente fora atingido pelo mesmo feitiço de memória
que pegara o Fred. Embora o do Fred fosse pior, ela vinha trabalhando sob a suposição de
que era algum tipo de Obliviação.

Mas Obliviate não reseta daquele jeito. Isso era só um revés temporário? Alguns efeitos
colaterais de longo prazo de dano de feitiço?

— Não vai bancar a toda-poderosa — acrescentou ela, distraída, reagindo ao tom mordaz de
Draco quanto à forma do Patrono de Ginny. — O que acontece se o seu acabar sendo uma
doninha?

— Essa está longe de ser minha memória favorita — ele fez biquinho para ela, embora
parecesse incerto o suficiente para que ela lembrasse do comentário sobre cauda que um dos
garotos fizera quando ela e Ginny espionaram eles no Grimmauld. Ele ainda não admitira
para ela no que tinha se transformado, e ela hesitava em pressioná-lo. Queria que ele contasse
quando estivesse pronto e, a julgar por aquele olhar, não estava ainda. Ela voltou à lista,
tentando esconder um pequeno sorriso enquanto continuava a rabiscar. Draco lançou um
olhar aos papéis ao redor.

— Nesse caso, definitivamente não vai ser um hipogrifo.

Ele ignorou a provocação, ainda vasculhando o caos de documentos. — E um dragão? —


perguntou, distraído, quando um dos documentos chamou sua atenção. Ela olhou para ver
que ele pegara um pergaminho detalhando o feitiço que ela desenvolvera para contrariar os
feitiços de transfiguração pelos quais vários pacientes haviam passado.

Ela bufou, terminando a lista e virando-se para encará-lo de frente enquanto enrolava o
pergaminho. — Criaturas mágicas como Patrono são incrivelmente raras, e a menos que sua
memória favorita inclua o uso excessivo do seu nome, duvido.

— Eu me lembro de um uso excessivo do meu nome na outra no—

Hermione bateu nele com o rolo. Ele se encolheu, o golpe mais brincalhão do que dolorido, e
lhe lançou um sorriso de canto ao ver a irritação dela. Ele percorreu o pergaminho na mão
mais uma vez antes de inspecionar o desastre da sala de estar. Livros, pastas e pedaços de
pergaminho cobriam o sofá e a mesinha baixa à frente dele. Outro papel perto de seu pé
chamou sua atenção enquanto ela voltava à lista. Ele exigiu, de repente: — Isto é o meu
prontuário?

Um olhar culpado cintilou no rosto dela antes de ser substituído por um ar cdf. — Eu queria
cópias de todo o meu trabalho caso um dia eu decida escrever um livro. Além disso, talvez eu
não seja mais sua curandeira oficial, mas achei que seria bom ter uma cópia completa do seu
arquivo. — Ela franziu o cenho para a lista, resmungando enquanto anotava mais alguma
coisa nela: — Eu não vou confiar sua saúde e liberdade às mãos de Hannah Abbott.

Draco não sabia se ficava eufórico com a possessividade dela ou indignado por ela ter feito
cópias ilegais de seus registros médicos.

Bem sonserina da sua parte, querida.


— Você comeu hoje? — Draco perguntou abruptamente, mais uma vez avaliando o estado de
vestimenta dela. Viu a pena parar e um olhar culpado percorreu os traços dela.

— Certo — ele arrastou. — Take away?

Por mais que quisesse levá-la para jantar, a algum lugar caro e de preferência com ela
naquele vestido que usara na noite em que ele resolvera o caso McLaggen, ele a conhecia.
Ela estava absorvida na tarefa, aquele cérebro ardiloso funcionando a mil, e não apreciaria ser
“sequestrada” para uma refeição fora.

O sorriso que ela lhe deu em resposta — meio grata, meio carinhosa — fez o coração dele
bater três vezes mais rápido. Ele a encarou por um segundo a mais do que devia, enfeitiçado,
antes de lembrar que deveria estar alimentando-a.

Menos de meia hora depois, graças à Aparatação e a alguns Galeões para agilizar o serviço,
ele estava empoleirado no único espaço limpo do sofá dela e a observando por entre
pálpebras semicerradas. Ela erguia um garfo de purê até a boca, alternando mordidas com
anotações em um dos documentos da pilha e resmungando para si mesma. Draco sorveu um
gole de vinho, os olhos escurecendo enquanto seguiam a curva do pescoço dela, observando
os lábios se fecharem em torno do garfo e a língua surgir logo depois.

Ele se remexeu no sofá, tentando se concentrar em algo além do ponto que enrijecia nas
calças enquanto Hermione rabiscava furiosamente, felizmente alheia à direção que os
pensamentos dele tomavam. Ele estava prestes a dizer “que se dane” e agarrá-la, inclinando-
se para se levantar do sofá, quando a voz suave dela soou.

— Você queria ir ao aniversário do Harry na semana que vem?

A menção a Cabeça-de-cicatriz foi como um balde de água fria em sua excitação, seus olhos
se fechando brevemente de nojo. Sem dúvida isso significaria mais exposição aos Weasley,
com potencial para efeitos colaterais pavorosos.

Eu sabia que não seria fácil com a Granger.

— Claro — respondeu, um tanto pomposo na tentativa de esconder a enorme relutância de


ficar preso numa sala com o equivalente humano a um par de Vermes-da-lama e suas
respectivas famílias. Os olhos de Hermione se estreitaram levemente diante da resposta por
demais suave.

— Andromeda e Teddy vão estar lá — ela ofereceu em voz baixa. Ele demorou um momento
se perguntando por que isso era relevante até que a ficha caiu.

Sua tia e seu primo.

Certo.

Andromeda tinha fugido com Ted Tonks antes mesmo de seus pais se casarem, quanto mais
de o terem. Ele nunca chegara a conhecer Ninfadora, muito menos o filho dela. Sua mãe
falava tão pouco da irmã que Draco esquecia que elas sequer existiam metade do tempo. Com
sorte, Andromeda não o amaldiçoaria no ato — o pouco que ouvira sobre ela ao longo dos
anos era que era poderosa.

— Perguntei à Andromeda sobre a pulseira — Hermione admitiu. Os olhos dele dispararam


para ela. — Ron, Harry e eu estávamos tentando descobrir quem a mandou. Ela confirmou
que era uma herança da família Black.

Draco assentiu. — Eu a tirei dos cofres dos Black — hesitou por um momento antes de
adotar um tom casual. — Nunca perguntei como você descobriu.

Hermione pousou os pergaminhos e o jantar antes de serpentear pelo caos espalhado até ele.
Pôs um joelho de cada lado dos quadris dele, afundando no colo enquanto ele colocava a taça
de vinho na mesinha de centro. Ele se recostou quando ela enfiou as mãos no cabelo dele,
puxando e brincando com as mechas loiro-brancas enquanto ele gemia, satisfeito.

— Walburga te dedurou — Hermione observava as próprias mãos correndo pelos fios quase
brancos enquanto falava. Ele emitiu um som de descrença na garganta, os olhos se fechando
de prazer quando as unhas dela arranharam seu couro cabeludo. — Me deu uma bronca por
estar com um tesouro da família Black, então perguntei à Andromeda sobre isso.

Draco suspirou teatralmente, os olhos ainda fechados. — E eu aqui achando que tinha
coberto todos os rastros — murmurou. — Não acredito que uma pintura assombrada foi a
minha ruína.

— Não é assombrada. Embora possa estar apaixonada por você — informou Hermione,
lembrando-se dos arrulhos da velha bruxa por Draco. — Talvez até mais do que e—

Ela parou de murmurar de repente, um rubor subindo às faces enquanto as mãos congelavam
no cabelo dele. Draco entreabriu um olho de onde estava sob ela, um sorriso incrivelmente
presunçoso tomando-lhe os traços. Fechou o olho de novo, o sorriso firmemente no lugar, e
não disse nada. Hermione pigarreou, sem graça, antes de retirar as mãos. Um pequeno som de
protesto soou na garganta dele e suas mãos subiram para pousar nos quadris dela.

— Eu espero — disse a ela, paciente, antes de puxá-la para frente e selar os lábios nos dela.

Blaise e Theo estavam na soleira da porta de Andromeda, acompanhados por outro homem
que ela não reconheceu. Ele estava vestido de modo bastante estranho, com cartola e fraque
— um contraste gritante com o visual arrumado porém casual do casal. Draco chegara com
Hermione momentos antes, ainda pairando na entrada e cumprimentando os demais.

— Ah, olá — Hermione os cumprimentou educadamente após um olhar interrogativo para


Blaise. Ela mirou a cartola com um toque de apreensão ao avançar para dentro da casa a fim
de abrir espaço para os três homens.

— E você é…?

— Ele é a atração! — Theo disse alegremente, empurrando o homem à frente deles sem lhe
dar chance de se explicar. Ele arrastava atrás de si uma grande mala com rodinhas, e o
estômago de Hermione afundou quando uma suspeita lhe subiu. Ela os seguiu rumo à sala de
estar, tentando captar o olhar de Blaise num esforço de fazer uma pergunta silenciosa sobre
que diabos estava acontecendo. Até onde sabia, os dois não tinham sido convidados e Harry
não mencionara qualquer tipo de atração especial.

Draco a puxou de lado, e ela observou Theo orientar o outro homem sobre onde se instalar,
com uma mesa já arranjada num dos cantos. Ela não ouviu uma palavra do que Draco disse
enquanto via o homem tirar um conjunto de anéis, baralhos e um pedaço de corda. Hermione
gemeu, levando as mãos à cabeça e cortando Draco no meio da frase.

— Eles contrataram um mágico trouxa — disse às próprias mãos, arrastando-as pelo rosto e
inclinando a cabeça para trás para encarar Draco. Ele a olhou, sem reação.

— Achei que trouxas não tinham magia? — Ele formulou como pergunta, nitidamente
tentando evitar com cuidado qualquer ofensa ao estatuto de Nascida Trouxa dela. Theo agora
observava o homem com fascinação absorta enquanto ele continuava a desempacotar,
fazendo perguntas que ela não conseguia ouvir do outro lado da sala. Blaise afundou-se numa
poltrona próxima, de olho em Theo enquanto conversava rapidamente com Ginny.

O que quer que ela fosse dizer a seguir foi interrompido por um coro de saudações em alto
volume. Ron e Luna tinham chegado, a última segurando um presente grande e embrulhado e
o primeiro envolvendo Molly num abraço. Ginny se apressou até eles enquanto Arthur
avançava para cumprimentá-los em seguida, o sorriso tenso. George ainda estava no hospital,
agitado com a notícia de que lhe faltava um grande trecho de tempo — e que não era a
primeira ocorrência. Angelina optara por passar o dia com ele, já que todo o resto estaria na
casa de Andromeda para a festa.

O trouxa foi momentaneamente esquecido quando Andromeda e Teddy entraram no caos.


Harry abandonou imediatamente o melhor amigo e os futuros sogros para erguer o garoto de
um ano. A cor dos cabelos do pequeno mudou na hora de castanho-arenoso para preto
desgrenhado, um sorriso largo crescendo no rosto ao ver Harry. O olhar de anseio que Ginny
lançou naquela direção não passou despercebido por Hermione.

Ela voltou o olhar para Draco e o encontrou fixado na tia, o grande grupo de pessoas
derivando rumo a uma mesa do outro lado do cômodo, repleta de quitutes. Hermione mordeu
o lábio, percebendo que as guloseimas eram todas bruxas, enquanto um prato de ratos de gelo
guinchava audivelmente; seus olhos voltaram ao trouxa, que gaguejava nervoso algo para
Theo enquanto erguia um cilindro preto longo e fino com as extremidades brancas.

Pouco depois, Arthur juntou-se a Theo, exclamando de alegria diante da versão trouxa de
uma varinha mágica. Hermione abandonou um Draco ainda silencioso pela emergência mais
premente do que provavelmente estava prestes a ser uma grande violação do Estatuto de
Sigilo. A casa de Andromeda tinha mais em comum com um lar trouxa típico graças à
influência de Ted anos antes, mas pertencia só à Andromeda havia muitos anos. O homem
certamente notaria coisas como o vidro-de-inimigos pendurado numa parede, as biografias de
bruxas e bruxos famosos empilhadas numa mesa, ou a louça se lavando sozinha na cozinha.

— Observe bem agora, Potter, você pode aprender uma ou duas coisas.
Harry lançou a Theo um olhar incrédulo quando Hermione se aproximou. — Eu literalmente
matei o Voldemort! Isso — gesticulou para o homem — é um show de mágica para crianças
trouxas!

— Acertou por acaso — Theo revirou os olhos em resposta aos gestos enfáticos de Harry. O
trouxa parecia incrivelmente nervoso, provavelmente acreditando ter acabado de testemunhar
uma confissão de assassinato, enquanto Harry parecia prestes a tentar uma repetição, mas
desta vez com Theo na outra ponta da varinha. — Desde quando status de sangue passou a
importar pra você, hein?

— Chega — sibilou Hermione, ignorando o comentário arrastado de Blaise sobre como, se


era um show para crianças, claramente era apropriado para os dois. Ela agarrou cada um pelo
cotovelo e os arrastou para o outro lado da sala, lançando um olhar apologético por sobre o
ombro ao trouxa. — Er… acho que vamos dispensar o show hoje, obrigado.

O homem, suando profusamente, assentiu aliviado e começou a guardar apressado os


apetrechos. Draco observou, divertido, a tia momentaneamente esquecida, enquanto Potter e
Theo levavam uma bronca daquelas da Granger, os dois se encolhendo mais a cada palavra
furiosa sussurrada. Ela exigiu algo e ambos balançaram a cabeça, Potter lançando-lhe um
olhar bastante suplicante, antes que ela se virasse nos calcanhares e voltasse até o trouxa.

Dez minutos e um feitiço de memória modificado depois, o trouxa tinha sido dispensado e a
Granger estava novamente ao lado dele. Os braços cruzados, ela fuzilava Theo com o olhar
como se ele tivesse chutado aquela monstruosidade laranja que ela chama de gato. Theo a
ignorava em favor de sentar-se no colo de Blaise e puxar conversa com Lovegood, exibindo
níveis exagerados de afeto pelo namorado numa tentativa de deixar Weasley desconfortável.
Estava funcionando, mas não só com Ron. Blaise parecia que preferiria estar em qualquer
outro lugar a ouvir aquela conversa, suas tentativas nada sutis de escapar dos braços do
namorado sendo ignoradas.

A diversão dele foi interrompida pela tia distante. Andromeda, lembrando tanto Bellatrix à
primeira vista que ele sobressaltou, o avaliava de alto a baixo. A expressão era nitidamente
mais pensativa e menos assassina do que seria a das irmãs, o cabelo um tom mais claro e a
estatura ligeiramente menor. Ela ergueu uma sobrancelha quando encontrou os olhos dele e
então se virou para Hermione.

— Então suas suspeitas estavam certas — murmurou, o tom brincalhão. Hermione assentiu,
um leve rubor vermelho subindo-lhe às faces.

— Estou feliz por você — comentou displicente, dando um tapinha no ombro de Hermione.
— Embora — acrescentou, quase como um pós-escrito, ao fazer contato visual com Draco
outra vez. — Isso não foi muito apropriado da sua parte, sobrinho. Eu esperava mais do filho
de Narcissa quanto a reivindicar uma noiva.

Hermione engasgou com o próprio ar, tossindo e arfando. Draco espelhou a expressão da tia,
erguendo uma sobrancelha, a irritação crescendo entre a audácia dela e o fato de que ele
adoraria fazer bem mais, mas não o fizera por respeito ao atual estado de “não pronta” de sua
namorada. Pela barba de Merlin, ele tinha tantos planos do caralho para quando ela
finalmente concordasse com mais alguma coisa.
Ele abriu a boca para retrucar, um sentimento feroz crescendo no peito, mas Hermione
envolveu a cintura dele com um braço e pousou o outro no peito, inclinando-se nele. Foi o
gesto mais afetuoso que ela fizera na presença dos amigos. Ela nunca se esquivara de toques
rápidos ou beijos de canto dele, mas também ainda não tinha iniciado nada na frente deles.
Ele vinha mantendo as atenções castas por causa dela. O maxilar dele se fechou num estalo, a
ira esvaziando enquanto ele passava um braço em torno dela e a puxava ainda mais para
perto, até que estivesse praticamente colada ao seu lado.

— Eu não concordei em ser a noiva dele — Hermione disse com brandura. Ela não se
ofendeu com as palavras de Andromeda, mas percebia, pela rigidez de Draco, que ele se
ofendera. Bobagem de sangue-puro, tudo isso.

Os olhos de Andromeda desceram, de propósito, para a pulseira brilhando no pulso da mão


que estava pousada no peito de Draco. Hermione enrubesceu; o olhar transmitia, sem
palavras, que ela exibia abertamente uma declaração de intenção — uma que vinha da própria
família de Andromeda.

— Acredite em mim — Draco murmurou em tom sombrio em resposta ao olhar dela. — Vai
haver “mais”.

Andromeda lançou-lhe um olhar presunçoso e Hermione percebeu, tardiamente, que seu


comentário inicial provavelmente fora um ardil para sondar os sentimentos de Draco sem
perguntar diretamente. Ela bufou, irritada por não ter percebido antes, mas desviou a
conversa para perguntas sobre Teddy, na tentativa de iniciar uma reconciliação agradável com
a tia de Draco.

O resto da festa transcorreu esplendidamente e sem mais potenciais implicações legais,


embora Hermione se perguntasse em silêncio se Harry não estaria prestes a enfrentar alguma
retaliação particularmente astuta e desagradável de Andromeda depois de soltar palavrões
diante de Teddy, que imediatamente os repetiu. Ele passou o resto da festa praguejando em
ofidioglossia até Teddy começar a imitar os sons de silvo também. Harry devolvera o menino
para ela, murchando levemente sob o olhar que recebeu em resposta.

Mais tarde, depois que caíram na cama e se exauriram de mais de uma maneira, ela estava
deitada de lado enroscada contra Draco em meio aos lençóis emaranhados. Passava a mão
pelo peito dele, traçando distraidamente a profusão de cicatrizes, enquanto ele mantinha uma
mão atrás da cabeça e a outra pousada em suas costas, mantendo-a junto de si.

— Está preocupado com a consulta?

Faltavam apenas alguns dias e ele ainda não lhe dissera o que se manifestara na sala do
Grimmauld com Harry e Ron. Draco soltou um longo suspiro, mexendo-se desconfortável
antes de responder.

— O que mais me preocupa é ser trancafiado de novo se eu tiver um ataque de pânico no


momento em que puser o pé naquele maldito hospital.

Hermione, em segredo, também vinha se perguntando sobre isso, baseando-se em quantas


vezes ele acordara ultimamente, tateando para alcançá-la na cama e puxando-a para perto,
suado e trêmulo. Continuava a sonhar que ainda estava preso lá dentro, que jamais fora
libertado.

Eu aposto que o trasgo dele já mudou.

— Quer que eu vá com você?

Ela ergueu o rosto para encarar os olhos dele ao fazer a oferta, querendo que visse a seriedade
de suas palavras. O olhar que ele lhe devolveu estava carregado de adoração e de algo muito,
muito mais do que ela estava preparada para lidar. Hermione sentiu o calor inundar-lhe as
faces.

— Vou ficar bem — ele prometeu, mas Hermione não se convenceu. Eram sintomas clássicos
de TEPT; visitar o local do trauma estava fadado a provocar um episódio. Se ele não a
deixaria acompanhá-lo…

— E se a gente trocasse? — ela perguntou, erguendo o pulso. — Assim eu poderia ouvir caso
algo aconteça. A pulseira iria te proteger, e se você se alterasse, eu poderia ir te buscar.

Ele ficou absolutamente imóvel antes de responder com um baixo e sombrio: — Não.

— Draco — ela tentou, mas ele a interrompeu.

— Eu não vou te deixar desprotegida. — Uma grande mão calejada acariciou-lhe a coluna
nua. — Além disso, fica melhor em você — acrescentou num murmúrio. — Especialmente
quando é a única coisa que está usando.

— Draco…

— Diga de novo — ele sussurrou, rolando de modo que ela ficasse por baixo dele. Ela
colocou as mãos no peito dele, não querendo se deixar distrair tão facilmente.

— Por favor, Draco — estou preocupada.

— Gostei das duas primeiras palavras dessa frase.

— Draco…

Ele suspirou teatralmente diante do tom de advertência dela, inclinando a cabeça enquanto se
mantinha acima dela. — Eu tenho condições — murmurou por fim. — Podemos discutir
depois. Agora, quero voltar à situação atual — você, debaixo de mim, implorando.

As condições dele incluíam que ela não devia sair do apartamento a menos que fosse
absolutamente necessário enquanto ele estivesse na consulta — ele não queria que ela
estivesse em nenhum outro lugar sem as proteções que o lar oferecia. Quando ele, ansioso,
revisou as proteções que sabia que o local possuía, Hermione teve vontade de colar a maldita
pulseira no pulso dele com o mesmo feitiço que pregara Walburga à parede do Grimmauld.
Se aquilo podia evitar que ela se deixasse morrer de fome, já que protegia o usuário até de si
mesmo, também poderia potencialmente evitar que ele Fulminasse. Draco, contudo, não
percebeu isso, preferindo apontar que a troca de joias era uma declaração da intenção dela de
se casar com ele, na manhã de sua consulta de agosto. Hermione o ignorou.

— Bem, você sempre foi bonito. Agora tem o acessório para combinar.

— Cuidado, Granger — ele rosnou. Acordara naquela manhã acreditando, mais uma vez, que
toda a sua vida após a libertação não passara de um sonho.

Sério que eu sonhei com uma visita à casa dos Weasley?

…Talvez eu devesse mesmo ser trancafiado.

— Você vai ficar bem aqui — exigiu, quando estavam diante da lareira. Hermione assentiu,
gesticulando para a pilha trêmula de anotações sobre a mesa de centro.

— Pretendo revisar toda a minha pesquisa de novo e não falar com ninguém.

— Nenhuma saída — disse firme. — Nenhuma visita. Ninguém entra ou sai.

— Eu prometo. Draco, vai dar tudo certo — ela tentou tranquilizá-lo. — Contanto que você
mantenha a calma, o pior que vão dizer é que precisa se esforçar mais um pouco no Patrono.
Falando nisso, perguntei à Ginny sobre o dela.

Ele estava rígido, distraído, e ela quis aliviar o clima de sua partida. — E por que, diga-me, a
“manifestação da felicidade” da Weaselette é um cavalo?

— Os trouxas equiparam montá-lo à sensação de voar. A memória que ela usou na primeira
conjuração foi quando costumava invadir o galpão para roubar as vassouras dos irmãos.

Os lábios dele se entreabriram, incrédulo. — Então somos todos apenas um grande grupo de
delinquentes adolescentes? — exigiu. Hermione bufou.

— “No amor e na guerra, vale tudo”?

— Nesse caso… — a voz dele baixou e a boca se curvou num sorriso astuto. Com um floreio
do pulso, conjurou sem varinha um pedaço de pergaminho dobrado e o estendeu a ela.

— Para você, enquanto está incapaz de me ferir — disse presunçoso. Piscando enquanto
entrava na lareira, desapareceu um segundo depois. Hermione, confusa, desdobrou o
pergaminho. Era a escritura de compra e transferência de posse de seu atual apartamento para
ela, pago integralmente.

Hermione chegou a avaliar os méritos de invadir o St. Mungo’s atrás dele, antes de lembrar
que deveria estar ouvindo o furão crescido em vez disso. Adiou a iminente decapitação dele
em favor de garantir que permanecesse livre tempo suficiente para vê-la, lançou o feitiço que
ele lhe ensinara no dia anterior e se acomodou para ouvir a consulta.
Ela puxara o prontuário dele para revisar junto de Hannah enquanto falava com Draco,
folheando seus próprios relatórios e os de outros curandeiros da época em que ele fora
transferido, quando notou. Puxando a folha de transferência de quando ele fora levado ao St.
Mungo’s em outubro, junto com sua advertência oficial e a entrevista com Pomfrey em
dezembro, Hermione comparou lado a lado. Os laços entintados dos P’s, a inclinação dos
Y’s…

As assinaturas de Pomfrey não batiam.


Capítulo 27

As assinaturas não batiam.

Papéis caíram de suas mãos enquanto ela vasculhava freneticamente todo o arquivo dele.
Cada aprovação de tratamento, todos os malditos formulários de transferência de paciente de
quando ele vinha “percorrendo” a equipe para chegar até ela, as autorizações para suas
reuniões particulares de proteção, tudo. O prontuário dele tivera supervisão demais, fora de
perfil alto demais para que qualquer coisa não autorizada acontecesse por muito tempo sem
ser notada.

A assinatura mudou em dezembro, dias antes de ela ter sido advertida por silenciar as
conversas entre ela e Draco. Todas as assinaturas depois disso combinavam com a do aviso, e
todas as anteriores combinavam com a transferência dele de Azkaban. Duas assinaturas
separadas e distintas. Não era, então, uma falsificação pontual qualquer por outro membro da
equipe.

Pomfrey deve ter sido substituída no começo de dezembro.

Os pensamentos de Hermione giraram. Supondo que a segunda Pomfrey não fosse a


verdadeira (a primeira sequer era?), o que ela queria? Isso significava que “Pomfrey” fazia
parte do grupo de justiça vigilante como ela e Harry suspeitaram no início, ou outra coisa? A
Pomfrey original fazia parte dos vigilantes e então fora substituída por alguém se
polissuqueando no lugar dela? Ou tinha sido morta ou capturada por alguém que queria
acesso a um de seus pacientes?

Se fosse esse o caso, por que diabos a falsa Pomfrey ainda estava ali oito meses depois?
Algum tipo de golpe de longo prazo?

Se quem quer que estivesse se passando por Pomfrey quisesse informações que acreditasse
que Draco tinha, impedir que ela silenciasse as conversas era uma coisa, mas então por que
ele foi solto? Eles não ofereceram absolutamente resistência alguma quando ela apresentou
suas recomendações, levando-a a favorecer a teoria de que Draco seria um alvo mais fácil
quando não estivesse trancado num andar seguro de hospital com monitoramento 24 horas
por dia.

Embora não tivesse sido esse o caso quando os atendentes o estavam machucando.

Não estava fechando a conta. Hermione se perguntou distraidamente se tinha se exaltado


tanto com a visita de Draco a ponto de uma alucinação induzida por ansiedade sobre
assinaturas que não batiam, enquanto fazia os papéis voltarem ao arquivo com um aceno.

Ela precisava de uma segunda opinião.

Quebrando tanto sua promessa a Draco quanto provavelmente uma lei do Ministério, ela
atravessou a lareira para um Grimmauld Place vazio e então diretamente para o escritório dos
Aurores no Ministério, assustando pra caramba vários estagiários e um subchefe sênior.
Ainda com seu pijama de flanela rosa e agarrando a pasta de Draco, ela apontou um olhar
fulminante — e a varinha — para a pessoa mais próxima. O estagiário ficou boquiaberto, sem
ousar alcançar a própria varinha diante do espetáculo de completa loucura que ela sabia estar
apresentando.

— Tragam Harry Potter. Agora.

Ele voltou lentamente à consciência, o crânio latejando. Estava deitado em algo duro — o
chão? — e o cheiro de limpador químico forte era avassalador. Tinha caído daquela desgraça
que eles chamavam de cama de paciente?

Ele entreabriu os olhos, fechando-os imediatamente contra a iluminação industrial e


brilhante. Merda, aquilo não estava ajudando sua cabeça em nada. O pouco que vislumbrou
lhe disse que aquele não era seu quarto. Pensamentos rodopiavam, vertiginosos mesmo
deitado de costas. Estivera fazendo algum tipo de tratamento em outra seção? Se sim, onde
diabos estava Granger? Ela e aquela boquinha esperta e perfeita deveriam estar
supervisionando-o.

A boca dela…

O cérebro dele foi violentamente assaltado por imagens de todo tipo de coisa que aquela boca
podia — havia? — feito com ele. Sem saber se era uma torrente de fantasia lúbrica ou
memória de verdade, tentou ordenar aquilo enquanto se erguia devagar, levando uma mão à
nuca para apalpar o estrago. Um círculo prateado brilhante no chão chamou sua atenção e o
coração parou.

Não.

O que diabos a pulseira da Granger, aquela que ela não deveria saber que ele tinha qualquer
coisa a ver, estava fazendo ali? Ele a arrebatou do chão, inspecionando-a. O fecho estava
quebrado, os diamantes e ônix estilhaçados em minúsculos cacos por toda parte. O peito
apertou, os pulmões congelaram — o que diabos tinha acontecido com Granger?

E onde diabos estava o anel dele?

— Isso é uma palhaçada — vocês vão prender ela ou não?

— Ah, eu posso falar agora?

Hermione lançou um olhar a Harry que instintivamente o fez encolher, esperando uma
pancada certeira na cabeça com algum livro pesado, antes de se endireitar e tentar retomar a
postura de Auror digno. Alisou a gravata com a mão, evitando encontrar os olhos dela.

— Precisamos de mais provas do que um conjunto de assinaturas que não batem, Hermione.
E se ela feriu uma das mãos e isso afetou permanentemente a caligrafia?
A carranca dela se aprofundou e os joelhos dele vacilaram. Harry cruzou um tornozelo sobre
o outro na tentativa de conter o tremor. Conhecia Hermione zangada há tempo demais para
suprimir totalmente a reação. Ela não respondeu, concentrada em ouvir o anel no dedo.
Estava posta com os cotovelos colados às laterais, a varinha numa mão, a cabeça inclinada
para a outra como se o anel de prata fosse uma caixa de som trouxa.

— Por que diabos ele está se encontrando com a falsa Pomfrey? Achei que seria a Hannah —
bufou, lançando a Harry outro olhar de desprezo com um toque de pânico.

— Se ela tivesse se machucado a esse ponto, seria de conhecimento público, especialmente


se tivesse afetado a assinatura. O segundo conjunto parece que tentou imitar, mas mal.

— Não estou dizendo que não acredito em você, Hermione, só precisamos de mais base.
Caligrafia ruim não é crime. — Harry fez uma pausa por um momento antes de acrescentar
em voz baixa: — Se fosse, você teria jogado eu e o Ron em Azkaban anos atrás.

Ela o ignorou. — Ah, seu homem esperto — agora ela murmurava, num tom que Harry
achou incrivelmente inadequado por soar muito mais afetuoso do que ele gostaria de
imaginar quando se tratava dela e seu ex-arqui-inimigo. — Ele entendeu. A gente precisa ir.

Ela se levantou, pronta para fazer exatamente isso, e Harry se lançou para fora de sua própria
cadeira.

— Ir…? Espera, Hermione. A gente não pode só—

Mas ela já não o ouvia mais, se é que ouvira em algum momento, e empalidecera muito.
Aqueles olhos escuros encontraram os dele e ele praguejou violentamente ao ver a expressão
em seu rosto, o coração afundando de um jeito completamente diferente de como vinha
afundando com as expressões anteriores.

Um estalo ensurdecedor ecoou pelo escritório, objetos caindo no chão e móveis sacudindo
como se um terremoto estivesse acontecendo, enquanto Hermione Granger despedaçava as
proteções do DMLE e desaparecia.

A dor de cabeça era lancinante e o cérebro parecia mingau. Era uma tortura manter os olhos
abertos nem que fosse por frestas. Parecia que uma explosão havia acontecido. Havia um
zumbido tênue nos ouvidos enquanto ele vasculhava o aposento com o olhar. Pedaços de
entulho das paredes e do teto estavam espalhados, as roupas cobertas de pó. Não podia ter se
passado muito tempo — ou ainda havia uma névoa fina de poeira suspensa no ar, ou sua
visão estava turva.

A visão piorava com o esforço de semicerrar os olhos para suportar a luz. Definitivamente
não era o quarto dele no hospital, embora, pelo cheiro e aspecto das partes intactas do espaço,
ainda estivesse em St. Mungo’s.

Ele não lembrava o que estava fazendo naquela sala e não sabia o que fazer a seguir. Deveria
achar alguém? Esperar ser achado parecia mais plausível, não tinha certeza nem se
conseguiria ficar de pé. Tinha algum lugar onde precisava estar? Onde estava sua varinha?
Onde diabos estava Granger?

Ela ouvira as duas magias que tinham lançado um contra o outro. Uma de sua própria
criação, e uma que até agora fora sua ruína profissional.

Ele sacou, o idiota, idiota genial. Pomfrey, quem quer que fosse de fato, tinha sido
presunçosa demais com ele. Provocação estava fora do caráter dela; ainda mais do que o
tratamento injusto que ela vinha recebendo nos últimos meses. Draco lançara aquele feitiço
de reversão de transfiguração dela, estivera lendo suas notas com ele no outro dia, e percebeu
que não podia ser a Pomfrey de verdade.

Isso pode ter custado a ele.

Pode ter custado a ele… ela.

Ela corria. O anel estava absolutamente silencioso, nenhum som passando. Ela conseguira
atravessar as proteções antiaparatação do Ministério com força bruta e puro poder, mas isso
lhe cobrara um preço e só conseguira ir até a entrada de St. Mungo’s. Subiu correndo os
quatro lances de escada, incapaz de ir rápido o suficiente, arfando e forçando e esperando—

No segundo em que ouviu da boca da falsa Pomfrey, soube imediatamente que era o mesmo
que pegara Fred e George. Tinha que ser.

Sileo.

“Reiniciar”, em latim.

Tinha de haver algum tipo de período de tempo associado à conjuração do feitiço, algum tipo
de intenção como nas magias de memória, porque Fred e George operavam em cronogramas
diferentes.

A pulseira vai impedir. A pulseira vai impedir.

Hermione se agarrou a esse pensamento frenético enquanto voava pelo corredor.

Merlin, parecia que o crânio ia se partir ao meio.

Ele piscou e, como uma maldita alucinação, ela estava ali, verificando-o freneticamente tanto
com feitiços diagnósticos quanto com as próprias mãos, apalpando-o enquanto ele a
encarava. Ela dizia algo, fazia-lhe uma pergunta, mas ele não conseguia processar por cima
do zumbido nos ouvidos.

Ela parecia tão preocupada, tão aberta, emoldurando o rosto dele com as mãos e
perscrutando-lhe os olhos. Ela o tocava, e o coração dele acelerou. Porra, as mãos dela eram
boas. O que não daria para tê-las na pele nua, por todo o corpo, o tempo todo…

Ela puxou uma mão de volta e um lampejo prateado o trouxe abruptamente de volta antes que
pudesse seguir mais aquela linha de pensamento. O anel dos Black. Por que diabos ela estava
com ele? O que caralhos estava acontecendo? Ele tentou agarrar a mão dela, querendo
confirmar que era mesmo o anel dele, mas os membros não cooperavam e ele errou. Os olhos
dela saltavam pelo diagnóstico, os zigue-zagues amarelos e verdes tão familiares, e então já
não estavam mais a sós.

Aurores inundaram a sala, varinhas erguidas, e a audição dele clareou o suficiente para
escutar ela dizer algo a Potter sobre concussões e feitiços de memória. Ela estava alterada,
respirando rápido, enquanto Potter dizia algo sobre “custódia” e ela começava a discutir.

— …tenho que levá-lo, e a você também. Você destruiu as proteções do Ministério—

— …podia ter matado ele, Harry—

— …olha, a Pomfrey sumiu—

— Aquilo não era a Pomfrey!

A voz dela estava estridente, cortante, e fez a dor de cabeça dele palpitar ainda mais. Ele
gemeu e desabou para a frente, levando as mãos às têmporas. Sabia que estava faltando…
alguma coisa. Os pensamentos não pareciam no lugar, a resposta altamente emocional de
Granger sugerindo que tinham um relacionamento muito mais próximo do que o de
curandeira e paciente.

Não que ele se importasse de brincar de médico com ela, um dia.

Um nome flutuou pela mente enquanto ele sentia a cabeça começar a pender. Piscou
depressa, tentando clarear a visão que escurecia.

— Rowle — arfou, enquanto o preto invadia pela periferia do campo de visão. A cabeça de
Granger virou na direção dele num estalo, cachos voando, exatamente quando tudo ficou
escuro.

— Se você ousar encostar um dedo em mim, Harry Potter, eu vou fazer o que Voldemort
nunca conseguiu!

— Sabe — Harry respondeu num tom conversacional —, ameaçar um Auror é tecnicamente


um cri—

— Eu vou te mostrar o que é crime. O que eu fiz com a Rita Skeeter vai parecer férias
quando eu terminar com você!

— Ameaças e confissões de uma vez só, é isso?

Ele se viu na mira de uma varinha de madeira de videira firme e de olhos castanhos furiosos.
As olheiras sob os olhos dela e o pijama de flanela rosa só acrescentavam ao ar desesperado e
desequilibrado que ela exalava. Ele ergueu as mãos num gesto de rendição.

— Não estou aqui para te levar presa, Hermione, relaxa.


Ela não abaixou a varinha; o olhar de cálculo e suspeita não vacilou. Seus cachos eram um
emaranhado, as roupas amarrotadas de dormir numa cadeira ao lado do leito de Draco pelos
últimos três dias — isso se ela tinha dormido. Ele teve sorte dela sequer ter atendido a porta;
tirando a equipe, ela não deixara ninguém entrar além dos pais dele.

— Pegamos o Rowle. Entre isso e a doação do Lucius para o gabinete dos Aurores, feita
inteiramente pela bondade do coração dele, estou certo, você foi inocentada de todas as
acusações — ele despejou, cansado. — O nome Malfoy não pesa mais nada, mas os Galeões
deles claramente pesam. Agora — posso, por favor, entrar?

Ela baixou a varinha e deu um passo para trás, os ombros caindo mesmo que o olhar
semicerrado não arrefecesse. Harry abaixou os braços e entrou, fingindo não notar a explosão
de pergaminhos pairando no ar por falta de superfícies disponíveis no quarto do hospital.

— Como ele está?

— Ainda não acordou. — A voz dela era seca, factual. Harry a seguiu enquanto ela voltava
para a cadeira ao lado da cama, onde fazia vigília. Os papéis flutuando a poucos pés acima
dela estremeceram.

— Rowle estava sob um Voto Perpétuo — Harry ofereceu em voz baixa, apoiando-se no fim
do leito enquanto ambos fitavam a forma adormecida nele. — Então ele só pôde nos dizer até
certo ponto, mas… — ele fez uma careta. — Pomfrey está morta.

Hermione arfou, o rosto se contraindo de dor. — Dezembro? — perguntou, exausta, e ele


assentiu.

Rowle admitira que a Comissão ainda estava em operação, embora agora no submundo. Seus
membros tinham se infiltrado em áreas do Ministério; pesquisa e desenvolvimento, políticas
médicas e legislação. Ele não pôde dar nomes e todos estavam sob investigação, o que era um
pesadelo administrativo. Havia gente deles dentro de St. Mungo’s; curandeiros, atendentes,
conselheiros. Eles eram donos de meios de comunicação, empresas de poções, lobistas. Em
vez da experimentação flagrante que faziam durante a guerra, agora tentavam mudar as
coisas sutilmente nos níveis de política e cultura da sociedade bruxa, ainda deslocando tudo
para ser o mais antinascidos-trouxas possível.

A expressão de Hermione escureceu enquanto ele falava, e Harry passou a mão pelos cabelos
desastrosos. — Foram dias longos — disse sombriamente. — Olha, ele disse mais alguma
coisa antes de chegarmos à cena? Rowle é… bem, ele não é a vassoura mais veloz do galpão,
e duvidamos muito que fosse o cérebro por trás da operação. Umbridge não fala há meses,
nem uma palavra, então é improvável que esteja chefiando por dentro.

Ela balançou a cabeça. — Tudo que consegui foi “Rowle”. Eu— — ela parou, os olhos se
arregalando.

— Fred sabia — começou devagar, em resposta ao gesto de “continue” de Harry. — Ele vem
dizendo isso há meses, só não tínhamos contexto. “É o Rowle”, repetidas vezes.
Harry rabiscou uma nota no pergaminho enquanto ela tagarelava, teorizando sobre o feitiço
de memória que ouvira Rowle lançar em Draco. Se tinha pegado, ou se a pulseira o protegera
antes de se desintegrar, ainda estava por ver.

— Narcissa encontrou um curandeiro da mente especialista em restauração de memória —


ele deve chegar ao país hoje. Supostamente o mesmo que trabalhou no Lockhart, então a
eficiência dele ainda é incerta, mas ele pode ver o Fred e o George também.

A agonia da espera estava matando-a. Por isso não conseguia ir para casa, mal conseguia
comer ou dormir. Ela precisava saber se ele sequer iria lembrar dela. Harry murmurou algo
sobre falar com Molly, mas ela mal ouviu.

Se as memórias dele sobre ela realmente tivessem sumido, e se pudessem ser restauradas,
então a solução talvez pudesse ser aplicada ao Fred e ao George também. Havia ifs demais e
whens de menos para ela naquele momento. Se não pudessem ser restauradas…

Ela não podia contemplar essa hipótese, não suportava perdê-lo depois de tudo que tinham
passado, depois de todo o tempo que ele esperara por ela. Ambos mereciam alguma
felicidade, pensou amargamente. Ela não perderia mais uma família. Umbridge e aquela
maldita Comissão arruinaram tantas vidas—

— E se… — ela hesitou, e Harry ergueu os olhos das anotações. — Olha, isso pode ser só a
falta de sono falando, mas e se Umbridge não é… Umbridge.

Harry piscou para ela.

— Se Pomfrey não era realmente Pomfrey, e se o motivo de Umbridge não falar, nem sob
Veritaserum, é porque ela na verdade não sabe nada?

Era escuro e reconfortante, cercado por todos os lados por uma leve pressão, quase como ele
imaginaria que seria estar dentro de um casulo. Era silencioso, também. Sem zumbido nos
ouvidos, sem guincho de banshee, sem ninguém chamando seu nome sem parar.

Não sabia há quanto tempo estava ali, mas era muito mais pacífico do que qualquer lugar
onde estivera até agora. Os sonhos eram brilhantes demais, felizes demais. Ele não se
lembrava de jamais ter se sentido tão feliz, nunca, em vida desperta. Era uma crueldade,
provocá-lo com o que nunca poderia ter, e eles pareciam e soavam tão reais como sonhos
costumam ser.

Em que mundo Granger realmente o teria querido?

Hermione estava de saco cheio de estar certa.

Seria muito bom se alguém pudesse prová-la errada, só desta vez. Era pedir demais, sério?
Nesta única ocasião, será que ninguém podia ser mais esperto que ela e ter uma resposta
diferente?
Umbridge não estava nem um pouco presa, como o Mundo Mágico fora levado a acreditar.
Acontece que Yaxley fazia uma mulher muito convincente parecida com um sapo sob aqueles
feitiços de transfiguração espertíssimos. Ela vinha tocando a operação toda de algum lugar
desconhecido enquanto ele se sentava atrás das grades, capaz de evitar responder sob
Veritaserum porque, na verdade, não sabia de nada.

Com todo o Ministério em convulsão no momento, o gabinete dos Aurores mal conseguia dar
conta das ameaças ao Estatuto de Sigilo, que dirá ir atrás de uma criminosa de guerra
foragida que podia estar com a aparência de qualquer caralho de pessoa agora. Não é como se
pudessem sair por aí lançando o feitiço de reversão em cada indivíduo na Grã-Bretanha — e
isso se Umbridge ainda estivesse no maldito continente.

Ela ficou constantemente ao lado do leito de Draco, a falta de emprego e a preocupação


impedindo-a de ir a qualquer outro lugar, embora Narcissa finalmente a tenha convencido a ir
para casa tomar banho e trocar de roupa. Depois da segunda semana, Blaise e Theo a
arrastaram para o apartamento deles, colocando-a no quarto de Draco com ordens estritas
para não sair até dormir pelo menos seis horas seguidas.

Ela dormiu doze.

O quarto dele estava coberto de fotografias da câmera que ela lhe dera de aniversário. Havia
fotos dele, Theo e Blaise claramente tiradas com temporizador, em que começavam todos
posudos e formais e aos poucos descambavam para uma briga, graças ao Theo, antes de
reiniciar o ciclo. Várias eram fotos dela — irritada por estar de pijama sendo fotografada; o
nariz enterrado num livro com uma careta de concentração, completamente alheia; aquela em
que ela sorria sem jeito durante o jantar com os pais dele, quando ele a recebera pela primeira
vez. Havia várias do aniversário do Harry também — ela segurando Teddy; ela dando uma
descompostura em Theo e Harry por causa do mágico trouxa (que pairava nervoso ao fundo);
Andromeda lançando-lhe um olhar incrédulo quando o pegou batendo uma foto.

Era tudo tão normal que fazia o coração dela doer.

Ele merecia uma vida normal. Todos eles tiveram a infância roubada pela guerra, e agora isso
lhes roubava também uma vida adulta feliz. Ela queria mais para ele, mais para os dois, do
que ser roubados de um amor que parecia ter apenas começado.

O pensamento foi como uma facada no peito. Ela estava apaixonada por ele, e tinha tido
medo demais de mergulhar de cabeça. Tinha estado insegura demais de si mesma. Ele vinha
oferecendo tudo de si, claro em suas intenções e dedicação, e ela tinha hesitado tanto.

Ela finalmente percebeu que estava apaixonada por ele.

E ele talvez nem se lembrasse de amá-la.

A cabeça dele ainda latejava, mas a dor agora era mais surda, menos intensa. Era como se
seus pensamentos estivessem debaixo d’água – escorregadios e confusos. Como se nadasse
em direção à superfície, mas através da lama. Sentia como se ao mesmo tempo tivesse
passado muito tempo e apenas alguns segundos desde a última vez que abrira os olhos.
Sua visão tinha dificuldade em focar, mas a primeira impressão vaga era de que ainda estava
no maldito hospital.

Será que algum dia vou sair dessa porra de lugar?

Draco se mexeu na cama, a visão clareando o suficiente para perceber que havia outra pessoa
no quarto. Theo estava recostado em uma cadeira próxima, lendo um livro com uma perna
cruzada sobre o joelho oposto. Não era o quarto normal dele em St. Mungo’s – seria sequer o
mesmo andar?

— Por que—? — Ele arranhou, a garganta e a boca secas demais para dizer mais. Estendeu a
mão para o copo d’água na mesinha ao lado, mas os músculos estavam fracos e rígidos pelo
desuso. A cabeça de Theo se ergueu em surpresa, um leve sorriso curvando seus lábios. Ele
conjurou um patrono, informando que Draco estava acordado, e o animalzinho cintilante
voou para longe enquanto ele se aproximava da cama. O lampejo de azul e branco pareceu
familiar, sua magia coçando para imitá-lo.

Não que pudesse. Nunca conseguira conjurar um patrono em toda a sua vida.

Theo o ajudou a beber um pouco antes de devolver o copo à mesa.

— Como está se sentindo?

A expressão dele era interessada, curiosa, enquanto observava Draco se ajeitar até apoiar-se
no encosto. Algo parecia errado – não que Theo não fosse bem-vindo, mas… onde estavam
seus pais?

Não deveria haver alguém além do Theo aqui?

Não deveria eu estar em outro lugar? Num apartamento claro, cheio de janelas, com uma
sabe-tudo de cabelos desgrenhados—

— O que aconteceu? — Draco arrastou a voz.

— Rowle atacou você.

Ele tinha uma vaga impressão do rosto transtornado de Rowle, mas não conseguia puxar
muito mais. Um turbilhão de outras imagens lhe atravessou a mente.

— No hospital?

Theo assentiu. — Você se lembra por que estava em St. Mungo’s?

— Eu tinha sido transferido de Azkaban.

A expressão de Theo tentou permanecer neutra, mas falhou. Ele empalideceu levemente,
mudando de postura e cruzando os braços. Soltou um longo suspiro.

— Certo. Isso é… bem. Certo.


Draco ignorou o gaguejar dele enquanto algumas imagens embaralhadas em sua mente
ficavam mais nítidas.

— Onde está a Granger?

Um enorme alívio se estampou no rosto de Theo.

— Oh, graças a Merlin — ele exalou, apoiando ambas as mãos na cama como se precisasse
se firmar. — Às vezes sua namorada me assusta mais do que o lorde das trevas.

— O qu-… namorada?

Theo fechou os olhos com força e praguejou contra si mesmo. Antes que pudesse tentar se
esquivar, Draco já se agarrava à ideia. Estava claramente perdendo pedaços de tempo.

— Como ela está? — exigiu, cerrando os punhos. Não tinha certeza se conseguiria ficar de pé
ainda. Onde diabos estava a Granger? Por que não estava ali, se eles realmente estavam
namorando? Ela ainda o tratava? Aqueles sonhos eram, na verdade, lembranças?

— Sua mãe? Está arrasada, na verdade. Eu tive que consolá-la, veja bem — Theo suspirou
longamente, com todo o dramatismo, voltando instantaneamente ao seu jeito difícil de
sempre.

— Theo—

— Blaise e eu também estávamos muito preocupados que você não fosse se lembrar de nós,
consumidos pela angústia—

— Theo—

— Claro que isso não se compara a como seu pai tem se saído—

— Quando eu sair dessa cama—

— Sim, sim, você vai transar com a Granger até ela perder os sentidos. Sua boca está
assinando cheques que seu pau não pode compensar. Será que ele ainda funciona? — Theo
agarrou as cobertas como se fosse olhar por baixo para conferir por si mesmo. Draco tentou
arrancá-las de suas mãos, os músculos protestando em dor.

— Cai fora, Theo.

— Pensei que você quisesse saber como a Granger estava.

— Ela está aqui para te substituir, Theodore — uma voz correta soou da porta, e a respiração
dele travou. O sorriso presunçoso de Theo não registrou, nem sua saída imediata do quarto.
Granger entrou devagar, observando-o hesitante enquanto se aproximava, uma prancheta na
mão.

— Como está se sentindo? — A voz dela era suave, e ela lançou um diagnóstico. A
familiaridade da rotina se derramou sobre ele. Já tinham feito aquilo antes, muitas vezes pela
sensação, embora ele não conseguisse invocar uma imagem específica no momento.

— Um pouco desorientado — admitiu secamente. As linhas e curvas eram em sua maioria


verdes, mas ela franziu o cenho para duas que apareciam amarelas. Flashes de uma promessa,
de desespero e de joias de prata estilhaçadas atravessaram sua mente. De espera e mal-
entendidos e angústia. De bilhetes e fotografias e—

— Você está um pouco desidratado — ela murmurou, interrompendo inadvertidamente a


enxurrada. — Ainda com concussão. Você sofreu um pequeno acidente.

Ela não usava as vestes de curandeira, e algo lhe dizia que não estava de serviço. Havia mais
coisa ali, mas estava fora de seu alcance. O rosto de Rowle, contorcido em fúria, atravessou
sua visão.

— Calma — ela o acalmou, observando um pico vermelho no gráfico translúcido diante dela.
— Você está seguro, Draco.

Draco…

Ecos de seu nome dito tanto em reprimenda quanto em êxtase soaram em seus ouvidos. Isso
tinha que ser lembrança e não sonho ou alucinação, pensou sombriamente. Ele não conseguia
lembrar há quanto tempo estavam namorando — ou se aquilo não passava de uma pegadinha
do Theo — ou sequer em que mês estavam.

— Você não é mais minha curandeira.

Ele dissera como afirmação, mas soara como pergunta. Hermione hesitou, engolindo em seco
antes de responder num tom falsamente casual.

— Não sou — concordou, e o sorriso não chegou aos olhos. — Seu curandeiro deve chegar
logo — creio que o Theo foi buscá-lo.

— Nós estamos namorando.

Ele usou o mesmo tom de antes. Ela assentiu, os olhos buscando os dele, o rosto quase…
esperançoso? Seus pensamentos estavam embaralhados, as memórias fora de ordem, mas
uma coisa em particular se destacava. Sua mente gritava aquilo para ele.

— O especialista acha que você vai perder algum tempo, mas não sabia dizer quanto —
provavelmente a pulseira impediu o Rowle de exercer a intenção completa do feitiço—

Ele tentou organizar as poucas imagens que faziam sentido enquanto ela falava, enchendo
novamente o copo e entregando-o a ele. Estariam morando juntos? Ele pegou o copo, as mãos
mais firmes e ganhando força. Ela não usava anel, então não casados ainda, mas isso era fácil
de resolver. Algo o incomodava no fundo da mente, algo errado sobre como voltara a si da
primeira vez, quando Granger o tocara — o pensamento indistinto, mas tão alto—

Sentou-se de repente, fazendo o copo desaparecer sem varinha e agarrando-lhe os braços para
puxá-la contra si.
— Você quebrou sua promessa — rosnou para ela, observando aqueles olhos castanhos se
arregalarem em alarme.
Capítulo 28

Agosto de 1999

— Você quebrou sua promessa — ele rosnou para ela, observando aqueles olhos castanhos se
arregalarem em alarme.

A adrenalina corria pelo sistema dele e lhe dava força temporária. Ele a cortara no meio da
frase e aqueles olhos âmbar, arregalados, o encaravam enquanto ela inspirava com força. —
Você devia ter ficado onde estava.

Ela podia sentir como ele tremia, aqueles olhos prateados quase maníacos. A explosão de
magia sem varinha foi uma surpresa intensa, dado o estado em que ele estivera nas últimas
semanas. — E-eu te ouvi falando com ela—ele — sussurrou, gaguejando um pouco pelo
choque de ele tê-la agarrado tão de repente. — Eu ouvi os feitiços — a voz dela falhou, os
olhos castanhos marejando enquanto saltavam entre os dois dele.

— Eu achei que tinha te perdido — sussurrou, uma lágrima rompendo e descendo por uma
das faces. — Eu achei que— — ela engasgou, tentando forçar as palavras para fora, as mãos
se fechando em punhos aos lados enquanto os braços continuavam imobilizados. — Eu achei
que você não ia se lembrar de mim, que não ia me a—

— Eu te amo há muito mais tempo do que me atrevo a admitir — disse ele, sombrio,
enfático, aqueles olhos prateados fitando a alma dela enquanto mais lágrimas caíam. O aperto
dele se firmou quase ao ponto de deixar marcas, mas ela estava além de se importar. — Um
feitiço não pode apagar o que eu sinto quando estou perto de você. Eu não preciso das
memórias específicas, Granger — amar você é parte do que eu sou.

Dezembro de 1999

— Você fez biscoitos de gengibre?

Hermione encarou os pequenos biscoitos em forma de pessoa, marronzinhos, pousados no


prato com tema de Natal que Draco estendia para ela. O aroma que tomava o apartamento era
tão nostálgico e natalino que ela foi tomada pelo sentimento agridoce de lembranças felizes
de Natal e a tristeza de que, quanto aos pais, isso era tudo que restaria.

Os olhos de Draco passaram do prato para o rosto dela, percebendo a emoção na voz. O olhar
dele correu por cada traço enquanto ele continuava segurando o prato estendido. Limpou a
garganta de leve.

— Pensei que você pudesse… querer alguns?

Foi cuidadosamente formulado como pergunta, o olhar nos olhos dele levemente alarmado
por talvez ter feito uma grande besteira. Os olhos dela se encheram de lágrimas com a
consideração dele — ela mencionara muitas vezes como o Natal nunca mais parecera o
mesmo desde que não conseguia passá-lo com os pais, como a mãe assava gingerbread todo
ano…

Hermione se atirou nos braços dele, quase o fazendo deixar o prato cair, e chorou no suéter
dele.

— Olha, eu sei que você não queria ir à casa do Harry no Ano-Novo—

— Tudo que eu disse, Granger — ele começou, enfatizando os aspectos mais afetados do
sotaque — foi que meus pais dão um baile muito elegante. Com bebidas muito melhores do
que cabeça-de-cicatriz vai te—

— Eu fiz ele comprar Ogden’s!

Uma sobrancelha prateada arqueou sobre olhos de ardósia. — Você está tentando me fazer
perder mais memórias? — perguntou secamente. — Pelo que me lembro, eu também
mencionei que há áreas muito mais privadas na Mansão nas quais se pode beijar à meia-noite.
Eu, contudo, sou inteiramente adaptável e perfeitamente confortável com exibicionismo.

Hermione bufou, exasperada, enquanto enfiava os braços num longo casaco trouxa preto.
Draco parecia ter mantido a maior parte das memórias, bem como sua personalidade
libidinosa, mas o feitiço de memória reorganizara completamente a linha do tempo na cabeça
dele. Como ele aparentemente tinha uma imaginação bastante vívida, isso às vezes o impedia
de distinguir se algo fora real, fantasia ou um sonho muito nítido e, por isso, dificultava para
ele localizar exatamente quando algo acontecera.

Ela tocou os brincos para ter certeza de que ainda estavam no lugar e então pegou a bolsa. O
especialista que Narcissa contratara fizera maravilhas por ele, assim como por Fred e George.
Descobriram que as memórias não estavam completamente perdidas, apenas enterradas fundo
e muito fora de ordem, deixando o sujeito extremamente confuso e facilmente influenciável.
Estavam trabalhando para tornar cada vez mais curto o período a partir do qual as memórias
“reiniciavam” para Fred, e vinham tendo um sucesso incrível. Fred fora autorizado a sair do
hospital para visitas curtas e supervisionadas à Toca. A fala dele ainda não se recuperara,
embora fosse claro que lembrava de George pela forma como permanecia colado a ele
durante tais visitas. As trocas entre os dois eram sem palavras, e ainda assim Hermione (e
Molly) não conseguiam observar a dupla sem que os olhos marejassem.

Por causa da pulseira, Draco parecia ter escapado com as memórias intactas, porém
embaralhadas, mas permanecia no fundo da mente de Hermione a possibilidade de que um
dia ele pudesse “reiniciar”, e eles não saberiam qual seria o período de tempo até acontecer.

Enquanto isso, eles tiravam muitas fotos — tanto trouxas quanto mágicas. Hermione lançou
um olhar às dezenas que cobriam a parede junto à porta e se preocupou momentaneamente
com o espaço disponível que se esvaía rapidamente. Havia imagens deles dançando no
casamento de Harry e Ginny; passeios para jogos profissionais de quadribol; uma de Draco
segurando um Teddy muito loiro enquanto Andromeda observava com carinho; tudo e
qualquer coisa que haviam feito desde agosto, junto de quaisquer fotos que Draco tirara
antes.
Draco franziu o cenho quando ela tentou passar por ele rumo à porta do apartamento. — Esse
traje está faltando alguma coisa.

— O quê? — Ela parou e devolveu o olhar, irritada. Já estavam atrasados por causa da
necessidade que ele tinha de se arrumar, e embora ela tivesse que admitir que ele estava
muito elegante num terno preto, estava exageradamente bem-vestido para Grimmauld Place.
Ele insistira para que ela também usasse algo um pouco mais arrumado do que normalmente
usaria, no caso de decidirem dar um pulo no evento dos pais dele ao longo da noite. O vestido
prateado caía mais baixo do que ela gostaria na frente, mas o olhar incandescente de Draco
seguindo o decote quando a viu pela primeira vez valera a pena.

— Você não tem um fiapo de joia, além dos brincos.

— Você arruinou minha pulseira, que eu tão gentilmente te emprestei.

— Que falta de consideração da minha parte — ele arrastou. — Por sorte, tenho algo que
talvez compense. Feche os olhos.

Ela obedeceu, à contragosto, não sem antes lhe lançar um olhar escuro. Houve um sussurro
de magia e um farfalhar de tecido, junto de um baque suave. Ele murmurou algo, que ela não
chegou a entender, e então disse para ela abrir os olhos.

Ele estava de joelhos diante dela, uma caixinha de anel aberta na mão, mas não foi isso que
fez os olhos dela se arregalarem e as lágrimas ameaçarem cair. Foi a lontra branco-azulada
empoleirada diante dele, um espelho do próprio patrono dela, tentáculos de magia se
derramando dela pelo aposento. A lontra inclinou a cabeça para ela.

Ele não indicara ter tido qualquer progresso em conjurar um patrono desde o incidente em
agosto, e ainda não lhe mostrara nem dissera que forma ele tinha tomado. Ela ficou pasma, os
olhos grudados na lontra em vez de nele.

— Hermione Jean Granger — a voz dele falhou e precisou limpar a garganta antes de
continuar. Os olhos dela saltavam entre ele e a lontra, agora dando voltas no lugar. — Você é
o que me faz feliz. Toda vez que eu conjuro essa droga de feitiço, eu penso em você. Quero
continuar pensando em você, assim, pelo resto da minha vida. Quer se casar comigo?

— É uma lontra — ela arrulhou, em vez de responder. — Parece exatamente com a minha.

Os olhos dele fixaram-se na lontra por um momento, antes de voltarem aos dela, as
sobrancelhas se aproximando devagar. — Sim.

— Mas isso… isso significa…

— Eu sei o que significa — ele declarou, impaciente. — Venho dizendo que estou
apaixonado por você há meses. Granger, eu literalmente acabei de te pedir em casamento.
Você vai me dar uma resposta?

— Então por que sua mão está parcialmente desiludida, hein?


Hermione fez uma careta para a taça de vinho. Claro que Ginny — agora uma Potter novinha
em folha, depois do lindo casamento de inverno — notaria. Ela era tão boa quanto a mãe para
farejar gravidezes e noivados.

— Eu te conto amanhã — murmurou em resposta, olhando ao redor da festa de Ano-Novo


antes de arquear significativamente as sobrancelhas para Ginny. Grimmauld Place atualmente
abrigava muita gente do DMLE — Hermione tinha acabado de começar a trabalhar na seção
de políticas do DMLE, mas não demorara a perceber que a fofoca corria tão solta num
gabinete de Aurores quanto num dormitório escolar. Não era preciso estar procurando para
estar obviamente de ouvido em pé.

O objetivo dela era eliminar e alterar quaisquer leis remanescentes pró-sangue puro,
liderando uma mudança cultural para tentar garantir que o que a Comissão fizera nunca
acontecesse de novo. Também queria estar mais perto da linha de frente na caçada a
Umbridge, que ainda estava solta e dizia-se estar em algum lugar da América do Sul, bem
como da faxina completa em andamento no Ministério após as revelações de Rowle. Harry
estava atolado até as sobrancelhas com trabalho relacionado a ambos — um projeto que
provavelmente levaria anos.

— Justo — Ginny assentiu e em seguida mudou de assunto para algo mais alegre. — Como
vai o livro?

Toda a pesquisa que Hermione coletara sobre feitiços de transfiguração e de memória, e os


feitiços correlatos que ela mesma projetara, estava sendo compilada num trabalho de pesquisa
médica. Ainda estava muito no início, mas três grandes editoras bruxas já demonstraram
interesse.

— Devagar — ela resmungou. — Nunca mais vou admitir isso em voz alta, mas… — as
faces coraram — …talvez eu tenha feito anotações demais.

Ginny soltou uma gargalhada enquanto Hermione virava o resto da taça e então varria a
multidão em busca do noivo. Pelo menos, pensou distraidamente enquanto olhava em volta,
ela sabia que conseguiria morar com ele. Ele se mudara pouco depois de receber alta do
hospital, a combinação das respostas traumáticas de ambos os tornando quase inteiramente
codependentes. Hermione praticamente podia ouvir Moody gritando “VIGILÂNCIA
CONSTANTE” no ouvido dela a todas as horas do dia, durante o primeiro mês depois do
ataque a ele. Alucinações auditivas eram o menor de seus problemas quando um certo loiro
estava em questão.

Yaxley estava em algum lugar de Azkaban aguardando julgamento, mas com o Ministério
ainda fazendo a limpa e pequenos grupos rebeldes ainda à solta, Hermione tentava se manter
alerta sem descambar para uma reclusa em pânico com a ideia de que qualquer um dos dois
pudesse ser alvo outra vez.

Houve um estalo violento de aparatação que assustou Hermione o suficiente para quase
arremessar a taça pelo salão. Várias pessoas próximas também arfaram e recuaram ao som e
ao aparecimento súbito de Kreacher. Hermione lançou um olhar feroz ao elfo, que retribuiu a
expressão assim que se dignou a notar. Ele segurava um pequeno pedaço de pergaminho
dobrado numa mão encardida.
— Falando em bilhetes — comentou Ginny, divertida. Hermione o arrancou da mão de
Kreacher e assentiu de forma seca, dispensando-o sem palavra alguma. Tentou controlar os
batimentos enquanto desdobrava o papel, varrendo o salão apinhado outra vez. Onde diabos
estava Draco?

Eu esqueci qual é o seu gosto.

Ela tentou conter o rubor, tentou mesmo, mas percebeu que falhara quando Ginny lhe lançou
um sorriso conspiratório. Hermione dobrou o bilhete e o enfiou na bolsa sem deixar Ginny
ler, o que fez a amiga sorrir ainda mais.

— Ooooh, agora eu quero mesmo saber o que dizia.

Hermione fez cara de inocente e escolheu ignorar o panaca usando o estado mental como
desculpa para tentar levá-la para a cama.

Como se ele precisasse de ajuda para isso. Além do mais, você nem está de calças.

Uma mão na base de suas costas avisou Hermione da presença dele. Ele se inclinou, um
sorriso brincando nos lábios, enquanto dizia a Ginny que precisava “roubar” Hermione por
um instante.

— Bom, espero sinceramente que demore mais do que um instante, pelo bem da Hermione
— respondeu Ginny, seca, antes de sair à procura de Harry.

Draco olhou na direção dela, mas se recompôs rápido. Os olhos dele percorreram Hermione
de cima a baixo, notando o vestido cintilante, as faces ruborizadas e a taça vazia.

— Pronta para ir? Acho que minha memória precisa de uma… refrescada…
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