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Aspectos Processuais Da Defesa Do Consumidor em Juízo

O documento aborda a defesa do consumidor em juízo, destacando a importância do Código de Defesa do Consumidor e suas disposições sobre o ônus da prova. Ele explica as diferentes formas de inversão do ônus da prova, incluindo a convencional, legal e judicial, e os requisitos necessários para sua aplicação. Além disso, discute a dinâmica da distribuição do ônus da prova em ações de consumo, visando proteger os direitos dos consumidores.
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Aspectos Processuais Da Defesa Do Consumidor em Juízo

O documento aborda a defesa do consumidor em juízo, destacando a importância do Código de Defesa do Consumidor e suas disposições sobre o ônus da prova. Ele explica as diferentes formas de inversão do ônus da prova, incluindo a convencional, legal e judicial, e os requisitos necessários para sua aplicação. Além disso, discute a dinâmica da distribuição do ônus da prova em ações de consumo, visando proteger os direitos dos consumidores.
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Defesa do consumidor em juízo

Aspectos processuais da defesa do consumidor em juízo.


Prof. Guilherme Andrade
1. Itens iniciais

Propósito
A tutela dos direitos do consumidor é de fulcral importância prático-teórica para o aluno não só em razão de
algumas peculiaridades que a tornam diferente dos demais direitos, mas também nomeadamente em função
do domínio das técnicas processuais adequadas e aptas a salvaguardar os direitos dos consumidores em
juízo.

Preparação
Antes de iniciar seus estudos, tenha em mãos as seguintes legislações: Código de Defesa do Consumidor (Lei
n.º 8.078/1990) e Código de Processo Civil (Lei n.º 13.105/2015)

Objetivos
• Analisar os conceitos, as características e as regras da inversão do ônus da prova nas ações de
consumo.
• Identificar as características das ações coletivas de consumo.

Introdução
O Código de Defesa do Consumidor (CDC) outorgou uma série de direitos ao consumidor, inclusive para a
facilitação da sua defesa em sede judicial.

Assim, por exemplo, o CDC prevê a possibilidade de inversão do ônus da prova em favor do consumidor. Em
que pese ela ser amplamente conhecida no meio jurídico, muitos advogados e estudantes não conhecem a
real profundidade do tema, sendo imprescindível diferenciar esse instituto de outras espécies de inversão da
prova, bem como conhecer seus requisitos.

Posteriormente, debateremos a proteção dos direitos do consumidor de forma coletiva, sendo certo que o
CDC tipificou um regramento específico para ações coletivas na tentativa de proteger situações que talvez
não justificassem o ajuizamento de uma demanda individual.
1. Ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor

Aspectos gerais do ônus da prova no CDC


A Lei 8.078/1990 (Código de Defesa do Consumidor) criou uma série de direitos básicos do consumidor em
seu artigo 6º, considerando o reconhecimento de sua vulnerabilidade no mercado de consumo (art. 4º, I).

Entre esses direitos básicos, estabeleceu o


Código de Defesa do Consumidor, no inciso VIII
do artigo 6º, “a facilitação da defesa de seus
direitos, inclusive com a inversão do ônus da
prova, a seu favor, no processo civil, quando, a
critério do juiz, for verossímil a alegação ou
quando for ele hipossuficiente, segundo as
regras ordinárias de experiências”.

No entanto, para entender mais sobre o


instituto da inversão do ônus da prova, torna-se
imprescindível conhecer melhor o próprio
instituto do ônus da prova.

Ônus da prova subjetivo e ônus da prova objetivo


Ônus é o encargo cuja inobservância pode colocar o sujeito numa situação de desvantagem. Não é um dever;
por isso mesmo, não se pode exigir o seu cumprimento. Normalmente, o sujeito a quem se impõe o ônus tem o
interesse em observá-lo justamente para evitar essa situação de desvantagem que pode advir da sua
inobservância (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2018).

O ônus da prova, portanto, é o encargo que se atribui a um


sujeito para a comprovação de determinado fato a fim de
que, caso não se desincumba desse encargo, esse sujeito
poderá ser colocado em uma situação de desvantagem
processual.

A doutrina divide o ônus da prova em dois aspectos:


subjetivo e objetivo. O ônus subjetivo da prova está
relacionado a saber quem será o responsável pela produção
da prova de acordo com a previsão legal, isto é, sobre quem
recairá o ônus de comprovar determinado fato. Nesse
sentido, como regra, estabelece o artigo 373 do CPC. Observe a seguir.

Artigo 373 do CPC

Art. 373. O ônus da prova incumbe:

I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito.


II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor.

Como regra, portanto, o ônus subjetivo da prova compete ao autor, quanto aos fatos constitutivos de seu
direito, e, ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor.
O ônus objetivo da prova, por sua vez, é visto
como uma regra de julgamento direcionada ao
juiz a ser aplicada apenas no momento de
proferir a sentença e tão somente no caso de a
prova até então produzida se mostrar
inexistente ou insuficiente.

Nesse sentido, o ônus objetivo da prova


determina que, diante da inexistência ou
insuficiência da prova, o magistrado verifique
quem era a pessoa que deveria se desincumbir
do encargo probatório (ônus subjetivo) e julgue
de forma contrária a essa.

Exemplo
Se o ônus subjetivo da prova competia ao autor (art. 373, I, do CPC), mas o magistrado entender que
não foram produzidas provas suficientes quanto ao fato constitutivo do direito, aplicando o ônus objetivo
no momento do julgamento (regra de julgamento), ele deverá julgar de forma contrária ao autor.

Regras de distribuição do ônus da prova


Conforme adiantamos anteriormente, o artigo 373 do Código de Processo Civil (CPC) estabeleceu um padrão
a respeito das regras sobre o ônus subjetivo da prova, competindo ao autor fazer prova quanto aos fatos
constitutivos de seu direito e ao réu, comprovar a existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do
direito do autor. Trata-se da regra ou da teoria estática da distribuição do ônus da prova.

Ocorre que, algumas vezes, o autor, por


exemplo, poderia se deparar com situações em
que a produção da prova fosse extremamente
difícil ou mesmo impossível. Isso acabaria
prejudicando o seu direito, já que ele não
conseguiria comprovar a existência do fato
constitutivo nos termos do artigo 373, I, do
CPC, sendo que, nessa mesma situação, o réu
poderia se desincumbir desse encargo com
facilidade.

Pense, por exemplo, em uma situação na qual o


autor pretenda discutir a legalidade de determinada cláusula de um contrato que esteja na posse do réu.
Nesse caso, é evidente que, por estar em sua posse, ele pode se desincumbir do encargo de juntar aos autos
o contrato de maneira fácil.
Pensando em situações como essas, o próprio CPC
incorporou a teoria da carga dinâmica ou teoria da
distribuição dinâmica do ônus da prova em seu §1º, que
permitirá a estipulação de forma distinta do ônus da prova
(distinta do caput do artigo 373 do CPC) quando, entre
outras hipóteses, for impossível ou excessivamente difícil
para uma das partes cumprir seu encargo probatório ou
quando a outra parte puder comprovar o fato pretendido de
modo mais fácil.

Com efeito, segundo o §1º do artigo 373 do CPC:

Art. 373. § 1º

Art. 373. § 1º Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à
impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior
facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de modo
diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade
de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído.

Observa-se, portanto, que, diante das circunstâncias do caso concreto, o magistrado poderá distribuir de
forma distinta o ônus da prova se verificar que a produção da prova é excessivamente difícil para uma das
partes ou se a outra puder mais facilmente produzi-la, devendo, em qualquer das hipóteses, dar oportunidade
de a parte se desincumbir desse encargo “novo”.

Vale ressaltar que a distribuição dinâmica do ônus da prova não pode gerar situação em que a
desincumbência do encargo pela parte seja impossível ou excessivamente difícil (art. 373, §2º, do CPC).

Inversão do ônus da prova


Existem três espécies de inversão do ônus da prova: convencional, legal e judicial.

O que é a inversão do ônus da prova?


Neste vídeo, falaremos sobre as diferentes formas de inversão do ônus da prova.

Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Inversão convencional
A inversão convencional, como o nome já deixa claro, ocorre em razão de uma convenção entre as partes, isto
é, de um acordo de vontades, modificando a previsão legal originária quanto ao encargo na produção da prova
(art. 373, §3º, do CPC).

Atenção
A inversão convencional, todavia, não poderá ser admitida quando recair sobre direito indisponível da
parte (inciso I) ou quando tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito (inciso II).

Enquadram-se nessa segunda vedação os casos em que a inversão do ônus da prova possa transformar a
produção dela em uma “prova diabólica”, que é a prova impossível ou extremamente difícil de ser realizada,
como ocorre, muitas das vezes, nos casos de provas de fatos negativos.

É extremamente difícil (ou até impossível na maioria das vezes) provar que um fato “não ocorreu”.
Nessas situações, nos termos do artigo 373, II, do CPC, não é admissível a inversão convencional do
ônus da prova.

Além das vedações à inversão convencional mencionadas acima, é relevante mencionar uma proibição
específica prevista no artigo 51, VI, do Código de Defesa do Consumidor (CDC). Veja a seguir:

Artigo 51, VI, do CDC

Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de
produtos e serviços que:

VI - estabeleçam inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.

Repare que o dispositivo legal não veda a pactuação da inversão do ônus da prova nas relações
consumeristas, proibindo tão somente que essa inversão seja feita em prejuízo do consumidor.

Ou seja, não será admissível a inversão convencional do


ônus da prova que atribua ao consumidor um ônus
probatório que seria legalmente do fornecedor de produtos
ou serviços, pois, nesse caso, a inversão seria feita em
prejuízo do consumidor, o que é vedado pelo artigo 51, VI,
do CDC.

Fato é que, na prática, a inversão convencional do ônus da


prova não ocorre, não sendo realmente crível imaginar que
as partes tenham tamanha boa vontade em modificar uma
previsão legal capaz de causar prejuízo no plano prático.

Inversão legal
A inversão legal do ônus da prova ocorre quando a própria lei inverte esse ônus (aquele originalmente previsto
no artigo 373 do CPC) sem necessidade de uma decisão judicial nesse sentido. Trata-se da conhecida
“inversão ope legis” do ônus da prova.

No CDC, é possível visualizar três previsões de inversão ope legis do ônus da prova.
A primeira delas está prevista no artigo 12, §3º,
do CDC, que estipula o seguinte: nos casos em
que houver um fato (defeito) do produto,
competirá ao fornecedor comprovar a culpa
exclusiva do consumidor ou de terceiro, ou que
o defeito, em verdade, não existe.

Vê-se, portanto, que a lei criou uma


responsabilidade objetiva do fabricante pelo
fato (defeito) do produto, o qual responderá
pelos danos causados independentemente da
demonstração de culpa, salvo se o próprio
fabricante comprovar: que não colocou o produto no mercado; que, embora tenha colocado o produto no
mercado, o defeito inexiste; ou que a culpa é exclusiva do consumidor ou de terceiro.

Dessa forma, o CDC afasta a regra do artigo 373 do CPC, que atribui o encargo probatório ao autor,
e transfere esse ônus para o fornecedor de produtos, o qual, para afastar sua responsabilidade
pelos danos causados, tem de comprovar uma das situações mencionadas no §3º do artigo 12.

A segunda hipótese de inversão legal do ônus da prova é semelhante e está prevista no artigo 14, §3º, do
CDC:

Artigo 14, §3º, do CDC

Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela


reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços,
bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.

§ 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar:

I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;


II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

Veja que o dispositivo legal supratranscrito também inverte o ônus da prova nos casos de danos causados por
fatos (defeitos) do serviço, atribuindo ao fornecedor de serviços o encargo de provar que o defeito não existe
ou que a culpa é exclusiva do próprio consumidor ou de terceiro, sob pena de ser responsabilizado por todos
os danos causados.

Atenção
Em que pese a confusão feita por alguns, vale esclarecer que as hipóteses de inversão legal do ônus da
prova dispensam a presença dos requisitos previstos no inciso VIII do artigo 6º do CDC, sendo certo
que, em casos de danos causados por fato (defeitos) do produto ou serviço, a regra é que compete ao
fornecedor o ônus de comprovar a inexistência de defeito ou a culpa exclusiva do consumidor ou de
terceiros, nos termos dos artigos 12, §3º e 14, §3º (AgInt no AREsp n. 1.604.779/SP, relator Ministro
Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 20/4/2020, DJe de 24/4/2020).

Por fim, o CDC prevê uma terceira hipótese de inversão legal do ônus da prova relacionada à publicidade
consumerista. Diz o artigo 38 do CDC que “o ônus da prova da veracidade e correção da informação ou
comunicação publicitária cabe a quem as patrocina”.

Inversão judicial
A inversão judicial do ônus da prova está prevista no artigo 6º, VIII, do CDC. Observe a seguir:

Artigo 6º, VIII, do CDC

Art. 6º São direitos básicos do consumidor:

VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor,
no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele
hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências.

Diferentemente da inversão legal do ônus da prova, a inversão desse ônus mencionada no artigo 6º, VIII, do
CDC não é automática, dependendo do preenchimento dos requisitos legais.

Nesse sentido, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) possui o entendimento consolidado de que “a inversão do
ônus da prova, nos termos do art. 6º, VIII, do Código de Defesa do Consumidor, não é automática,
dependendo da constatação, pelas instâncias ordinárias, da presença ou não da verossimilhança das
alegações e da hipossuficiência do consumidor” (AgInt no AREsp n. 1.738.687/PB, relator Ministro Antonio
Carlos Ferreira, Quarta Turma, julgado em 23/5/2022, DJe de 26/5/2022).

Da leitura do referido inciso, extraem-se estes dois requisitos alternativos para que o magistrado
possa inverter o ônus da prova no caso concreto: a verossimilhança da alegação do consumidor e a
hipossuficiência do consumidor.

Por verossimilhança da alegação, entenda-se a aparência de veracidade das alegações do consumidor diante
do que ordinariamente ocorre no cotidiano. Isto é, de acordo com as máximas de experiência subministradas
pela observação do que ordinariamente acontece (art. 375, CPC), o magistrado deverá analisar se as
alegações do consumidor têm indícios de veracidade e, caso a resposta seja positiva, terá de inverter o ônus
da prova.

O segundo requisito (alternativo, repita-se) é a hipossuficiência do consumidor. No entanto, não se trata aqui
de uma hipossuficiência econômica, e sim de uma hipossuficiência técnica diante do fornecedor de produtos
ou serviços no que se refere à produção da prova.
Segundo o STJ, “a hipossuficiência a referida
pela Lei 8.078/90 na parte em que trata da
possibilidade de inversão do ônus da prova está
relacionada, precisamente, com o exercício
dessa atividade probatória, devendo ser
compreendida como a dificuldade, seja de
ordem técnica, seja de ordem econômica, para
se demonstrar em juízo a causa ou a extensão
do dano” (REsp n. 1.325.487/MT, relator
Ministro Sidnei Beneti, Terceira Turma, julgado
em 28/8/2012, DJe de 14/9/2012).

Dessa forma, constatada a hipossuficiência


técnica do consumidor, poderá o magistrado
inverter o ônus da prova com base no artigo 6º,
VIII, do CDC.

Atenção
Vale registrar, por fim, que “a inversão do ônus da prova não dispensa a comprovação mínima, pela parte
autora, dos fatos constitutivos do seu direito" (AgInt no AREsp n. 1.951.076/ES, relator Ministro Luis
Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 21/2/2022, DJe de 25/2/2022).

Sendo assim, é imprescindível que o autor-consumidor faça prova mínima do seu direito, não sendo
consequência automática a procedência do pedido com a simples inversão do ônus da prova.

Momento da inversão do ônus da prova


Uma questão extremamente relevante refere-se ao momento adequado para a inversão do ônus da prova.
Para uma parcela da doutrina, o momento adequado para que o juiz o inverta é na própria sentença, já que,
sendo o ônus da prova uma regra de julgamento, não faria sentido fazer essa inversão em momento anterior.

No entanto, é evidente que, se o juiz inverter o ônus da


prova no momento da sentença, acabará ferindo o princípio
do contraditório e da ampla defesa, pois pegará de surpresa
a parte contra a qual foi invertido esse ônus, a qual não
poderá se desincumbir do respectivo encargo.

Se o CPC estipula uma regra a respeito do ônus da prova,


uma eventual modificação dela, atribuindo o encargo a uma
parte distinta da originalmente prevista na lei, deverá ser
acompanhada do direito de a parte se desincumbir desse
novo encargo, sob pena de cerceamento de defesa.

Nesse sentido, outra parcela significativa da


doutrina defende que a decisão de inversão do
ônus da prova deve ocorrer no momento de
saneamento do processo, permitindo, em
tempo, que a parte contra a qual ele foi
invertido se desincumba do novo encargo.

Nessa mesma linha, o STJ possui o


entendimento consolidado. Veja a seguir:
REsp n. 1.286.273/SP

Para o STJ, “a inversão do ônus da prova prevista no art. 6º, VIII, do CDC, é regra de instrução, e não
regra de julgamento, motivo pelo qual a decisão judicial que a determina deve ocorrer antes da etapa
instrutória, ou, quando proferida em momento posterior, garantir a parte a quem foi imposto o ônus a
oportunidade de apresentar suas provas” (REsp n. 1.286.273/SP, relator Ministro Marco Buzzi, Quarta
Turma, julgado em 8/6/2021, DJe de 22/6/2021).

Vem que eu te explico!


Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.

Ônus da prova subjetivo e ônus da prova objetivo

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Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.

Regras gerais sobre ônus da prova

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Momento da Inversão do ônus da prova

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Verificando o aprendizado

Questão 1

(Prefeitura de Registro/SP – Vunesp – advogado – 2016) É considerado direito básico do consumidor a


facilitação de sua defesa em juízo por meio da possibilidade da inversão do ônus da prova. Dentro do que
dispõe o Código de Defesa do Consumidor acerca dessa disciplina, é correto afirmar que:

a inversão do ônus da prova é automática, sendo que, em todas as ações relativas aos direitos do consumidor,
o juiz tem a obrigação de concedê-la.

para que haja a inversão do ônus da prova, o juiz deve se basear nos termos da lei, sem levar em
consideração as suas máximas de experiência.

C
só haverá a inversão do ônus da prova se cumulativamente as alegações do consumidor forem verossímeis e
ele for considerado hipossuficiente.

a inversão do ônus da prova poderá favorecer o fornecedor, dado o princípio da isonomia aplicado às relações
de consumo que forem abordadas em juízo.

ficará a critério do juiz deferir a inversão do ônus da prova exclusivamente ao consumidor sempre que o direito
debatido for verossímil ou o consumidor hipossuficiente, levando-se em consideração as suas máximas de
experiência.

A alternativa E está correta.


A inversão do ônus da prova prevista no artigo 6º, VIII, do CDC não é automática: ela depende da
demonstração da verossimilhança das alegações da parte autora ou de sua hipossuficiência, tratando-se
de direito básico do consumidor.

Questão 2

De acordo com as normas previstas no Código de Defesa do Consumidor, se um produto defeituoso causar
danos ao consumidor:

competirá ao consumidor demonstrar a verossimilhança das suas alegações a fim de que seja invertido o ônus
da prova e possibilitada a responsabilização civil do fornecedor.

a inversão do ônus da prova será automática em razão da lei.

não caberá a inversão do ônus da prova, a qual só é possível em casos de vícios do produto.

o fornecedor responderá subjetivamente pelos danos causados, competindo ao consumidor a demonstração


da culpa.

competirá ao consumidor demonstrar que o dano não foi causado por sua exclusiva culpa.

A alternativa B está correta.


Sabe-se bem que, para que ocorra a inversão judicial do ônus da prova, é necessário que o consumidor
demonstre a verossimilhança das suas alegações ou que seja considerado hipossuficiente, nos termos do
artigo 6º, VIII, do CDC.

No entanto, em casos de danos causados por defeitos (fato) dos serviços, a própria lei já faz uma inversão
do ônus da prova (inversão ope legis), estipulando que competirá ao fornecedor, para eximir-se da
responsabilidade civil, comprovar que o defeito inexiste ou que a culpa é exclusiva consumidor, nos termos
do artigo 14, §3º, do CDC.
2. Ações coletivas de consumo

Microssistema de proteção de direitos coletivos de


consumo
O Código de Defesa do Consumidor (CDC) preocupou-se com a situação de vulnerabilidade do consumidor no
mercado de consumo, prevendo uma série de direitos básicos, bem como proibições e vedações aos
fornecedores.

No entanto, de nada adiantaria prever direitos


do consumidor e proibições aos fornecedores
se não fossem assegurados os meios
necessários para a tutela desses direitos em
caso de violação ou ameaça de violação. Sendo
assim, o CDC previu que “a defesa dos
interesses e direitos dos consumidores e das
vítimas poderá ser exercida em juízo
individualmente, ou a título coletivo” (art. 81,
caput).

Obviamente, ainda que não existisse a previsão


mencionada no artigo 81 do CDC, a defesa
individual dos consumidores poderia ser realizada da forma ordinária, na qual cada consumidor buscaria em
juízo a tutela de seus direitos.

Contudo, há determinadas situações em que a defesa individual pode ser insuficiente ou inadequada a fim de
proteger uma grande quantidade de consumidores ou a sociedade de modo geral. Por isso, o CDC
contemplou também a tutela jurisdicional dos direitos e interesses do consumidor de forma coletiva, conforme
se extrai do artigo 81 e dos artigos seguintes.

Atenção
Em tempo, é imprescindível ressaltar que as regras referentes à tutela coletiva do consumidor previstas
no CDC estão inseridas em um microssistema de proteção de direitos coletivos do qual também fazem
parte a Lei de Ação Civil Pública (Lei n.º 7.347/1985), a Lei de Ação Popular (Lei n.º 4.717/65) e a Lei de
Improbidade Administrativa (Lei n.º 8.429/1992), entre outras, motivo pelo qual há uma interlocução
entre as referidas normas.

O artigo 90 do CDC dispõe nesse sentido. E, em sentido contrário, estabelece o artigo 21 da Lei de Ação Civil
Pública. Observe atentamente seguir.

Artigo 21Lei de Ação Civil Pública


Artigo 90Código de Defesa do Consumidor
Art. 21. Aplicam-se à defesa dos direitos
Art. 90. Aplicam-se às ações previstas neste
e interesses difusos, coletivos e
título as normas do Código de Processo Civil
individuais, no que for cabível, os
e da Lei n° 7.347, de 24 de julho de 1985,
dispositivos do Título III da lei que
inclusive no que respeita ao inquérito civil,
instituiu o Código de Defesa do
naquilo que não contrariar suas disposições.
Consumidor.
Desse modo, ainda que não exista, por exemplo, um dispositivo específico no CDC, poderão ser utilizadas
outras normas do microssistema.

Atenção
Contudo, considerando que o presente trabalho não permite um aprofundamento completo e teórico a
respeito desse microssistema de tutela coletiva, o objetivo é traçar os aspectos principais e primordiais
das ações coletivas de consumo.

Direitos protegidos coletivamente


Espécies de direitos coletivos
Neste vídeo, abordaremos as espécies de direitos coletivos, diferenciando-as.

Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.

Segundo o parágrafo único do artigo 81 do CDC:

A defesa coletiva será exercida quando se tratar de:

I - Interesses ou direitos difusos

Interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste código, os transindividuais, de
natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de
fato.

II - Interesses ou direitos coletivos

Interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos deste código, os transindividuais, de
natureza indivisível de que seja titular grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a
parte contrária por uma relação jurídica base.

III - Interesses ou direitos individuais homogêneos

Interesses ou direitos individuais homogêneos, assim entendidos os decorrentes de origem comum.

Basicamente, a tutela coletiva dos consumidores ocorrerá quando se tratar de direitos difusos, direitos
coletivos ou direitos individuais homogêneos, sendo imprescindível entender cada um desses direitos.

Direitos difusos
Trata-se de direitos cuja titularidade pertence a uma coletividade de um número de pessoas que não pode ser
identificado ou determinado. Por isso, o inciso I do parágrafo único do artigo 81 do CDC que direitos difusos
são aqueles transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas
por circunstâncias de fato. Com efeito, por pertencer a toda àquela coletividade de sujeitos, de forma
simultânea e indistinta, eles não podem ser compartilhados ou divididos.

Exemplo
Caso determinado fornecedor de produtos insira no mercado de consumo um medicamento lesivo à
saúde dos consumidores, o interesse ou direito protegido é a própria saúde pública da sociedade. De
modo geral, trata-se de um direito pertencente a toda coletividade e que não pode ser fracionado para
um consumidor ou um grupo de consumidores especificamente.

Por fim, os direitos difusos têm por origem uma circunstância fática que provoca a ligação entre os seus
titulares. Não há anteriormente uma relação jurídica base vinculando os seus titulares entre si ou com a parte
contrária. Essa circunstância é que provoca essa ligação.

A título de exemplo, imagine a hipótese de uma propaganda


enganosa. Antes de sua divulgação, não havia um vínculo
entre os consumidores abstratamente considerados.

No entanto, a partir do momento em que a propaganda


enganosa é divulgada, toda a coletividade de consumidores
é afetada, nascendo, nesse momento (em razão dessa
circunstância fática), o vínculo entre os consumidores
afetados pela violação das normas consumeristas. Isso
autoriza o ajuizamento da ação coletiva para a proteção dos
respectivos direitos, nos termos do artigo 81, parágrafo
único, I, do CDC.

Direitos coletivos (em sentido estrito)


Segundo o inciso II do parágrafo único do artigo 81 do CDC, direitos coletivos são aqueles transindividuais, de
natureza indivisível, de que seja titular grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte
contrária por uma relação jurídica base.

Os direitos coletivos também são direitos metaindividuais, isto é, não pertencem a um indivíduo
especificamente (transindividual, de natureza indivisível).

No entanto, diferentemente do que ocorre com os direitos difusos, em que os titulares são a coletividade de
pessoas abstratamente consideradas, os coletivos pertencem a uma coletividade de pessoas que já possuía
uma ligação (antes do dano ou da ameaça de dano) entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica
base.

O vínculo entre os titulares ou com a parte contrária é preexistente à lesão ou à ameaça de lesão ao direito.
Exemplo
Uma escola aumenta abusivamente o preço das mensalidades. Nesse caso, é nítido que os alunos (e
seus pais) são os afetados pelo aumento abusivo, e não toda a coletividade de consumidores. Nessa
hipótese, já existia uma relação jurídica base entre os alunos-consumidores afetados e a respectiva
escola, sendo certo que é possível determinar ou delimitar os respectivos titulares, o que não ocorre
propriamente com os direitos difusos.

Direitos individuais homogêneos


Segundo o inciso III do parágrafo único do artigo 81 do CDC, direitos individuais homogêneos são aqueles
decorrentes de origem comum. A redação do dispositivo legal não ajuda a compreender a exata dimensão do
que seja um direito individual homogêneo, trabalho esse relegado para a doutrina e a jurisprudência.

Em primeiro lugar, é importante deixar claro que os direitos individuais homogêneos, diferentemente
dos coletivos em sentido lato (direitos difusos e direitos coletivos em sentido estrito), podem ser
divididos.

Isso significa que seu objeto é perfeitamente divisível e que seus titulares são identificáveis e determinados.
Trata-se, portanto, de direitos individuais cujo tratamento coletivo é dado em razão da sua origem comum e
do considerável número de pessoas afetadas.

Com efeito, os direitos individuais homogêneos


são aqueles decorrentes de uma origem
comum. Essa origem pode ser de fato ou de
direito, não significando necessariamente uma
unidade factual e temporal.

Os consumidores podem ser vítimas, por


exemplo, de uma prática lesiva que se perpetua
ao longo do tempo, sendo atingidos em
momentos distintos e em várias regiões do
país. Da mesma forma, é possível que os
consumidores, mesmo diante de fatos distintos,
postulem em juízo a tutela de algum direito com base em um mesmo fundamento jurídico.

Atenção
Nesse sentido, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) possui o entendimento de que “a origem comum, que
caracteriza o interesse individual homogêneo, refere-se a um específico fato ou peculiar direito que é
universal às inúmeras relações jurídicas individuais, a partir dos quais haverá conexão processual entre
os interesses, caracterizada pela identidade de causa de pedir próxima ou remota” (REsp n. 1.570.698/
MT, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 11/9/2018, DJe de 13/9/2018.).

Com base nessa compreensão, o STJ entendeu que existe um direito individual homogêneo a ser tutelado por
ação coletiva, em razão da sua origem comum, com uma pretensão quanto à ilegalidade da cobrança de
tarifas de manutenção de contrato de cartão de crédito em um caso específico (REsp n. 1.570.698/MT,
relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 11/9/2018, DJe de 13/9/2018.).
No entanto, apesar de não estar expresso no
inciso III do parágrafo único do artigo 81 do
CDC, não basta a origem comum do direito,
sendo imprescindível, para a tutela coletiva, a
existência de um número razoável de lesados.

Nesse sentido, já decidiu o Superior Tribunal de


Justiça que “o promovente da ação civil pública
deve demonstrar que diversos sujeitos, e não
apenas um ou dois, estão sendo possivelmente
lesados pelo fato de "origem comum", sob pena
de não ficar caracterizada a homogeneidade do
interesse individual a ser protegido (REsp n.
823.063/PR, relator Ministro Raul Araújo, Quarta
Turma, julgado em 14/2/2012, DJe de 22/2/2012).

Legitimidade
O artigo 82 do CDC trata da legitimidade para a propositura das ações coletivas dos consumidores:

Legitimados

São legitimados concorrentes:

I - o Ministério Público,
II - a União, os estados, os municípios e o Distrito Federal.
III - as entidades e órgãos da Administração Pública, direta ou indireta, ainda que sem personalidade
jurídica, especificamente destinados à defesa dos interesses e direitos protegidos por este código.
IV - as associações legalmente constituídas há pelo menos um ano e que incluam entre seus fins
institucionais a defesa dos interesses e direitos protegidos por este código, dispensada a autorização
assemblear.
§ 1° O requisito da pré-constituição pode ser dispensado pelo juiz, nas ações previstas nos arts. 91 e
seguintes, quando haja manifesto interesse social evidenciado pela dimensão ou característica do
dano, ou pela relevância do bem jurídico a ser protegido.

Trata-se de hipótese de substituição processual (legitimidade extraordinária), isto é, quando alguém é


legitimado a pleitear em juízo, em nome próprio, defendendo interesse alheio (da coletividade, do grupo/
categoria ou dos titulares dos direitos individuais homogêneos), nos termos do artigo 18 do Código de
Processo Civil.

O artigo 82 do CDC estipula uma legitimidade concorrente, de maneira que qualquer dos entes
mencionados podem ajuizar a ação coletiva.

Vale ressaltar que, mesmo não estando expresso no artigo 82 do CDC, a Defensoria Pública possui
legitimidade para o ajuizamento de ações coletivas na defesa de direitos coletivos dos necessitados, tendo
em vista o disposto no artigo 5º, II, da Lei n.º 7.347/1985.

Sobre o conceito de necessitado

“O Superior Tribunal de Justiça, ao interpretar os requisitos legais para a atuação coletiva da


Defensoria Pública, adota exegese ampliativa da condição jurídica de ‘necessitado’, de modo a
possibilitar sua atuação em relação aos necessitados jurídicos em geral, não apenas aos
hipossuficientes sob o aspecto econômico” (AgInt nos EDcl no REsp n. 1.529.933/CE, relator Ministro
Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 20/5/2019, DJe de 22/5/2019.).
Sobre a legitimidade do Ministério Público

Cumpre lembrar que, segundo o artigo 129, III, da Constituição, incumbe ao Ministério Público
promover o inquérito civil e a ação civil pública para a proteção do patrimônio público e social, do
meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos.

Pela redação do referido dispositivo legal, pode haver a impressão de que, nos casos de direitos individuais,
não seria possível a atuação do Ministério Público.

No entanto, a interpretação deve ser dada de acordo com o


caput do artigo 127 da Constituição, segundo o qual ao
Ministério Público incumbe a defesa da ordem jurídica, do
regime democrático e dos interesses sociais e individuais
indisponíveis. Dessa forma, mesmo em caso de interesse
individual, o Ministério Público poderá ajuizar a ação quando
esse interesse for indisponível.

Outrossim, se estiver evidenciado um relevante interesse


social do bem jurídico tutelado, atrelado à finalidade da
instituição, mesmo no caso de interesses individuais
homogêneos disponíveis, o MP poderá ajuizar a ação.

Para que possam ter legitimidade, as associações deverão


apresentar dois requisitos: a) estar constituída há pelo menos um ano, nos termos da lei civil; b) incluir, entre
suas finalidades institucionais, a proteção ao meio ambiente, ao consumidor, à ordem econômica, à livre
concorrência, aos direitos de grupos raciais, étnicos ou religiosos ou ao patrimônio artístico, estético,
histórico, turístico e paisagístico.

Primeiro requisito Segundo requisito

O primeiro requisito (pré-constituição há um Quanto ao segundo requisito para o


ano) poderá ser dispensado quando houver: a) reconhecimento da legitimidade das
manifesto interesse social evidenciado pela associações, o Superior Tribunal de Justiça
dimensão ou característica do dano; b) entende que deve existir pertinência temática
relevância do bem jurídico a ser protegido, nos entre suas finalidades institucionais e o
termos do artigo 82, §1º, do CDC, e do artigo interesse tutelado na demanda coletiva (REsp n.
5º, §4º, da Lei n.º7.347/1985. 1.978.138/SP, relator Ministro Antonio Carlos
Ferreira, Quarta Turma, julgado em 22/3/2022,
DJe de 1/4/2022).

Por fim, observe atentamente a obrigatoriedade estipulada no artigo 92 do CDC.

Atenção
Nos termos do artigo 92 do CDC, “o Ministério Público, se não ajuizar a ação, atuará sempre como fiscal
da lei.”. Isto é, caso não seja o autor da ação coletiva, ele atuará obrigatoriamente como fiscal da ordem
jurídica (custos legis).
Procedimento das ações coletivas
Competência
As ações coletivas de consumo devem ser propostas, como regra, no foro do lugar onde ocorreu ou deva
ocorrer o dano, conforme se extrai do artigo 93, I, do CDC. Trata-se de regra de competência absoluta (art. 2º
da Lei n.º 7.347/1985 e RMS n. 64.525/MT, relator Ministro Og Fernandes, Primeira Seção, julgado em
21/10/2021, DJe de 29/11/2021), sendo insuscetível de derrogação por vontade das partes.

Comentário
Caso o dano seja de nível regional (mais de uma comarca), será competente o foro da capital do estado.
Se ele for de âmbito nacional, “a competência será concorrente da capital do estado ou do Distrito
Federal, a critério do autor” (AgInt no AREsp n. 944.829/DF, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira
Turma, julgado em 14/5/2019, DJe de 12/6/2019).

Publicação de editais
Dispõe o artigo 94 do CDC que, “proposta a ação, será publicado edital no órgão oficial, a fim de que os
interessados possam intervir no processo como litisconsortes, sem prejuízo de ampla divulgação pelos meios
de comunicação social por parte dos órgãos de defesa do consumidor”.

Trata-se de mecanismo que visa a permitir a intervenção dos interessados individuais como
litisconsortes facultativos unitários, uma vez que a sentença decidirá a questão de maneira uniforme
para todos os litisconsortes.

Nesse caso, se estiver em discussão um direito individual homogêneo, a sentença vinculará esse interessado
que interveio no processo, seja em caso de procedência, seja em caso de improcedência, conforme dispõe o
§3º do artigo 103 do CDC.

Despesas processuais e honorários advocatícios


O artigo 87 do CDC dispõe o seguinte:

Art. 87

Art. 87. Nas ações coletivas de que trata este código não haverá adiantamento de custas,
emolumentos, honorários periciais e quaisquer outras despesas, nem condenação da associação
autora, salvo comprovada má-fé, em honorários de advogados, custas e despesas processuais.

Parágrafo único. Em caso de litigância de má-fé, a associação autora e os diretores responsáveis pela
propositura da ação serão solidariamente condenados em honorários advocatícios e ao décuplo das
custas, sem prejuízo da responsabilidade por perdas e danos.

Trata-se de disposto legal que busca dar maior facilidade no acesso à justiça, ampliando a proteção dos
direitos coletivos lato sensu dos consumidores, além de evitar que ações pudessem ser extintas em razão do
não pagamento das despesas processuais pertinentes.
No que se refere à dispensa do pagamento de
honorários do perito, todavia, em que pese a
previsão legal (dispensando a antecipação dos
honorários periciais), o STJ firmou o
entendimento de que realmente “não é possível
se exigir do Ministério Público o adiantamento
de honorários periciais em ações civis públicas.

Ocorre que a referida isenção conferida ao


Ministério Público em relação ao adiantamento
dos honorários periciais não pode obrigar que o
perito exerça seu ofício gratuitamente,
tampouco transferir ao réu o encargo de financiar ações contra ele movidas.

Dessa forma, considera-se aplicável, por analogia, a Súmula


n. 232 desta Corte Superior ('A Fazenda Pública, quando
parte no processo, fica sujeita à exigência do depósito
prévio dos honorários do perito'), a determinar que a
Fazenda Pública ao qual se acha vinculado o Parquet arque
com tais despesas” (REsp n. 1.478.173/RS, relator Ministro
Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 5/11/2019,
DJe de 11/9/2020.).

Por fim, também não haverá condenação da parte vencida


ao pagamento de honorários advocatícios, salvo em caso
de má-fé.

Aspectos do processo coletivo


Fase decisória
Sentença
A sentença de procedência nas ações coletivas será genérica, limitando-se o magistrado prolator a fixar a
responsabilidade pelos danos causados, sem, entretanto, estipular o valor a ser pago aos consumidores,
conforme dispõe o artigo 95 do CDC:

Art. 95

Art. 95. Em caso de procedência do pedido, a condenação será genérica, fixando a responsabilidade
do réu pelos danos causados.

As eventuais individualização e quantificação do dano a ser reparado serão apuradas em liquidação de


sentença pelo procedimento comum (art. 509, II, CPC), cabendo ao exequente-liquidante demonstrar, na
liquidação de sentença, seu vínculo com a relação jurídica já decidida na sentença coletiva (demonstração da
sua condição de lesado) e a quantificação do seu dano.

Efeitos e limites da sentença


O artigo 16 da Lei n.º 7.347/1985 limitava a eficácia subjetiva da coisa julgada em ação coletiva ao âmbito de
competência do órgão prolator da decisão nos seguintes termos:
Art. 16

Art. 16. A sentença civil fará coisa julgada erga omnes, nos limites da competência territorial do órgão
prolator, exceto se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas, hipótese em que
qualquer legitimado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento, valendo-se de nova prova.

O disposto legal sofria fortes críticas da doutrina pátria por diversos motivos. No entanto, no julgamento do
Tema 1075 da Repercussão Geral (RE 1101937, Relator(a): Alexandre de Moraes, Tribunal Pleno, julgado em
08/04/2021, Processo Eletrônico Repercussão Geral - Mérito Dje-113 Divulg 11-06-2021 Public 14-06-2021), o
Supremo Tribunal Federal (STF) declarou a inconstitucionalidade do dispositivo legal ante a violação ao
necessário tratamento isonômico de todos perante a Justiça, bem como ao princípio da eficiência na
prestação da atividade jurisdicional.

Desse modo, a sentença proferida em ação coletiva não fica mais restrita ao órgão prolator da decisão judicial.

Fase executória
Observe a seguir em quais termos dispõem os artigos 97 e 98 do CDC.

Art. 97

Art. 97. A liquidação e a execução de sentença poderão ser promovidas pela vítima e seus
sucessores, assim como pelos legitimados de que trata o art. 82.

Art. 98

Art. 98. A execução poderá ser coletiva, sendo promovida pelos legitimados de que trata o art. 82,
abrangendo as vítimas cujas indenizações já tiveram sido fixadas em sentença de liquidação, sem
prejuízo do ajuizamento de outras execuções.

§ 1° A execução coletiva far-se-á com base em certidão das sentenças de liquidação, da qual deverá
constar a ocorrência ou não do trânsito em julgado.

§ 2° É competente para a execução o juízo:

I - da liquidação da sentença ou da ação condenatória, no caso de execução individual;


II - da ação condenatória, quando coletiva a execução.

Pela leitura dos dispositivos supratranscritos, constata-se que a execução da sentença coletiva poderá ser
realizada de forma individual ou coletiva.

A execução coletiva poderá ser promovida


pelos entes legitimados previstos no artigo 82
do CDC.

Para tanto, é imprescindível que, antes disso,


tenha ocorrido a liquidação prévia por parte dos
interessados, já que essa execução coletiva
será instruída com as certidões das sentenças
de liquidação, nos termos do §1º do artigo 98
do CDC.

A competência para a execução coletiva será


do juízo prolator da sentença condenatória, nos
termos artigo 98, §2º, II, do CDC.
No entanto, se o interessado entender por bem ajuizar uma
execução individual (após a liquidação da sentença, como
vimos), terá a faculdade de ajuizar a execução no juízo da
liquidação da sentença ou da ação condenatória, conforme
dispõe o inciso I do §2º do artigo 98 do CDC, ou ainda no
foro do próprio domicílio, como dispõe o artigo 101, I, do
CDC (AgInt no AgInt no REsp n. 1.433.762/SC, relatora
Ministra Regina Helena Costa, Primeira Turma, julgado em
15/3/2021, DJe de 17/3/2021).

Coisa julgada
Nas ações coletivas consumeristas, a coisa julgada material possui algumas peculiaridades, especialmente no
que se refere à sua extensão subjetiva, conforme se extrai do artigo 103 do CDC transcrito abaixo:

Art. 103

Art. 103. Nas ações coletivas de que trata este código, a sentença fará coisa julgada:

I - erga omnes, exceto se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas, hipótese em
que qualquer legitimado poderá intentar outra ação, com idêntico fundamento valendo-se de nova
prova, na hipótese do inciso I do parágrafo único do art. 81;
II - ultra partes, mas limitadamente ao grupo, categoria ou classe, salvo improcedência por
insuficiência de provas, nos termos do inciso anterior, quando se tratar da hipótese prevista no inciso
II do parágrafo único do art. 81;
III - erga omnes, apenas no caso de procedência do pedido, para beneficiar todas as vítimas e seus
sucessores, na hipótese do inciso III do parágrafo único do art. 81.

Pela leitura do dispositivo legal supratranscrito, pode-se perceber que a extensão subjetiva da coisa julgada
material dependerá da suficiência das provas produzidas no processo (coisa julgada secundum eventum
probationis - art. 103, I e II, CDC) ou do resultado do processo (coisa julgada secundum eventum litis - art.
103, III, CDC).

Coisa julgada secundum eventum probationis (art. 103, I e II, CDC)


No tocante aos direitos difusos e coletivos em sentido estrito (art. 103, I e II, CDC), a coisa julgada material
não produz seus efeitos caso tenha a sentença como fundamento a ausência ou a insuficiência de provas,
situação em que qualquer legitimado mencionado no artigo 82 do CDC (inclusive o que ajuizou a primeira
ação) pode ajuizar outra ação valendo-se de prova nova.

Atenção
Nesse caso, julgado improcedente o pedido por insuficiência de provas, não haverá formação da coisa
julgada material. No entanto, se ele for julgado improcedente pelo fato de o magistrado entender que o
direito inexiste (houve suficiência probatória) ou se for julgado procedente, a sentença fará coisa julgada
material e produzirá efeitos erga omnes.

Coisa julgada secundum eventum litis (art. 103, III, CDC)


Quando a ação coletiva, entretanto, versar sobre direitos individuais homogêneos (inciso III do parágrafo único
do art. 81, CDC), a formação da coisa julgada dependerá do resultado do processo ( secundum eventum litis).
Nesse sentido, dispõe o inciso III do artigo 103
do CDC que a sentença fará coisa julgada “erga
omnes, apenas no caso de procedência do
pedido, para beneficiar todas as vítimas e seus
sucessores, na hipótese do inciso III do
parágrafo único do art. 81”.

Para produzir efeitos extrapartes, a sentença,


portanto, dependerá de o pedido ser julgado
procedente, de modo a beneficiar, além das
partes envolvidas no processo, terceiros que
sejam titulares do direito individual homogêneo
discutido. Caso o pedido não seja julgado
procedente (seja qual for o fundamento), essa sentença não produzirá efeitos erga omnes.

No entanto, ao contrário dos direitos difusos e coletivos, “após o trânsito em julgado de decisão que julga
improcedente ação coletiva proposta em defesa de direitos individuais homogêneos, independentemente do
motivo que tenha fundamentado a rejeição do pedido, não é possível a propositura de nova demanda com o
mesmo objeto por outro legitimado coletivo, ainda que em outro Estado da federação”, tendo em vista o
disposto no §2º do artigo 103, o qual somente permite nova propositura a título individual e somente daqueles
que não tiverem intervindo no processo coletivo (REsp 1.302.596-SP – Informativo 575 do STJ).

Vem que eu te explico!


Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.

Legitimidade nas ações coletivas de consumo

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A competência nos procedimentos das ações coletivas

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Fase executória

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Verificando o aprendizado

Questão 1

A respeito da execução da sentença proferida em ação coletiva, assinale a alternativa correta.


A

A execução de sentença coletiva só poderá ser feita de forma coletiva.

A execução coletiva independerá de prévia liquidação do dano por parte dos interessados.

Quando a execução for coletiva, será competente para tanto o juízo da ação condenatória.

Quando a execução for individual, será competente para tanto apenas o juízo da liquidação da sentença ou da
ação condenatória.

A execução da sentença coletiva será sempre feita de forma individual.

A alternativa C está correta.


Segundo o art. 98, §2º, II, CDC, é competente para a execução o juízo "II - da ação condenatória, quando
coletiva a execução".

Questão 2

Em relação à coisa julgada nas ações coletivas, marque a alternativa correta.

Quando o direito em discussão for difuso, a sentença fará coisa julgada ultrapartes, mas limitadamente ao
grupo, à categoria ou à classe, salvo improcedência por insuficiência de provas.

Tratando-se de direitos coletivos, a sentença fará coisa julgada erga omnes, exceto se o pedido for julgado
improcedente por insuficiência de provas.

Se o direito em discussão for indisponível, a sentença nunca fará coisa julgada.

No tocante aos direitos individuais homogêneos, a sentença somente fará coisa julgada erga omnes em caso
de procedência do pedido.

A sentença fará coisa julgada ultrapartes no caso de direitos individuais homogêneos, mas limitadamente ao
grupo, à categoria ou à classe, salvo improcedência por insuficiência de provas.
A alternativa D está correta.
Nos termos do artigo 103 do CDC, a sentença só terá efeito para todos em caso de procedência da
demanda.
3. Conclusão

Considerações finais
Como apontamos neste conteúdo, o CDC previu a possibilidade de inversão do ônus da prova em favor do
consumidor. No entanto, foi necessário diferenciar o instituto de outras espécies de inversão do ônus da
prova, bem como conhecer os requisitos específicos para a sua concessão, abordando o entendimento dos
Tribunais Superiores.

Posteriormente, vimos como ocorre a tutela coletiva dos consumidores em juízo. Para isso, destacamos seus
aspectos principais para uma compreensão geral do tema, o qual vem sendo cada vez mais utilizado na
prática no cotidiano forense.

Podcast

Neste podcast, abordaremos os principais aspectos referentes às ações coletivas de consumo.

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Quanto ao assunto do ônus da prova no direito do consumidor, leia o livro Manual de Direito do Consumidor,
de Claudia Lima Marques e demais autores, publicado por Revistas dos Tribunais.

Para um maior aprofundamento sobre a temática das ações coletivas de consumo, leia A ação civil pública
após 35 anos, de Édis Milaré.

Referências
DIDIER JR., F.; BRAGA, P. S.; OLIVEIRA, R. A. de. Curso de Direito Processual Civil: teoria da prova, direito
probatório, ações probatórias, decisão, precedente, coisa julgada e antecipação dos efeitos da tutela. 13. ed.
v.2. Salvador: Jus Podivm, 2018.

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