DO GOLPE CONTRA AS REFORMAS À LENTA MARCHA DA
REDEMOCRATIZAÇÃO: UMA ANÁLISE DO CICLO AUTORITÁRIO BRASILEIRO
(1964-1985)
A presente resenha crítica centra-se na análise de dois importantes trabalhos
acadêmicos que, juntos, demarcam o ciclo da ditadura militar no Brasil (1964-1985):
1. TOLEDO, Caio Navarro de. 1964: O golpe contra as reformas e a democracia.
Publicado na Revista Brasileira de História (v. 24, nº 47, 2004), este artigo oferece
uma perspectiva robusta e crítica sobre o evento de 1964. Toledo argumenta que o
movimento político-militar representou, essencialmente, um golpe de Estado
destinado a abortar o processo de reformas sociais que ganhava força no governo
João Goulart e a interromper a incipiente democracia política estabelecida em 1945.
O texto serve como ponto de partida para a compreensão das causas da ruptura
institucional.
2. SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. No caminho da
democracia: a transição para o poder civil e as ambiguidades e heranças da
ditadura militar.
Este capítulo (Cap. 18) integra a obra Brasil: uma biografia (Companhia das Letras,
2015) e aborda o desfecho do ciclo autoritário. As autoras se concentram no período
da transição democrática (a partir de meados dos anos 1970 até 1985), analisando
a estratégia de "abertura lenta e gradual" conduzida pelos militares, e,
principalmente, o papel crucial da sociedade civil organizada na aceleração e no
sucesso da redemocratização. O texto foca nas consequências e nas
"ambiguidades" deixadas pela ditadura.
Em conjunto, os artigos estabelecem um diálogo fundamental entre o que foi
perdido em 1964 (a chance de uma democracia de participação ampliada e as
reformas estruturais) e o que foi retomado nos anos 1970 e 1980, com a luta pela
retomada do Estado de Direito.
INTRODUÇÃO
O estudo da História do Brasil Republicano é inseparável da compreensão dos
ciclos de avanço e retrocesso democrático, nos quais a disputa por projetos de
nação se manifesta de forma aguda. Neste contexto, o período compreendido entre
a crise política pré-1964 e a transição para o poder civil em 1985 representa um dos
mais complexos e decisivos da história contemporânea brasileira. É nesse arco
temporal que se insere o debate central desta resenha, que busca analisar a
natureza da ruptura institucional de 1964 e os desafios da retomada democrática.
O presente trabalho tem por objetivo fundamental analisar as teses centrais
apresentadas em dois textos de leitura obrigatória da disciplina. De um lado, será
examinado o artigo de Caio Navarro de Toledo, "1964: O golpe contra as reformas e
a democracia", que oferece uma interpretação sobre as causas e os objetivos da
ação militar. De outro, será analisado o capítulo "No caminho da democracia", das
historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, que aborda o lento e ambíguo
processo de redemocratização.
A tese central desta resenha é que os dois textos se complementam de maneira
crítica, demonstrando como o golpe de 1964 buscou estancar, primordialmente, o
avanço das reformas sociais e a ampliação da democracia (Toledo), e como a
transição subsequente, embora iniciada de forma controlada, foi, em última
instância, impulsionada e rompida pela pressão da sociedade civil organizada
(Schwarcz & Starling).
Para desenvolver essa análise e sustentar a tese proposta, o trabalho será
estruturado da seguinte forma: primeiramente, será apresentada uma análise crítica
individual de cada texto; em seguida, serão estabelecidas as conexões e os
diálogos conceituais entre os autores, focando no elo entre a ruptura e a lenta
marcha da redemocratização; por fim, o trabalho culminará em uma conclusão que
apresentará o posicionamento crítico da/o resenhista sobre as heranças do período
autoritário e o valor da democracia de participação.
ANÁLISE DOS TEXTOS
[Link]álise do Artigo de Caio Navarro de Toledo: "1964: O golpe contra as reformas e
a democracia"
O artigo de Caio Navarro de Toledo oferece uma análise crítica e incisiva sobre o
evento que deu origem ao ciclo autoritário brasileiro. A tese central do autor é clara:
o movimento político-militar de abril de 1964 não pode ser enquadrado como uma
"revolução", como foi defendido por seus protagonistas, mas sim como um golpe de
Estado. Este golpe possuía um duplo objetivo: de um lado, visava interromper a
incipiente democracia política que se desenvolvera desde 1945; de outro, buscava
estancar o avanço de um programa de reformas sociais e econômicas que estava
no centro do debate nacional. (TOLEDO, 2004, p. 13-14).
Para Toledo, a compreensão do golpe exige uma mirada atenta ao contexto
pré-1964. O governo de João Goulart (1961-1964) foi marcado por uma intensa e
tripla crise: uma grave crise econômico-financeira, constante instabilidade
político-institucional e uma profunda crise do sistema partidário. No entanto, o fator
crucial destacado pelo autor é a ampla mobilização política das classes populares.
Operários, camponeses e estudantes, organizados em sindicatos, ligas e frentes,
tornaram-se agentes ativos na arena política, pressionando o governo pela
implementação das Reformas de Base. Essa mobilização, vista como ameaçadora
pelas elites conservadoras, alterava o equilíbrio de forças vigente. (TOLEDO, 2004,
p. 14-15).
A perspectiva de Toledo é endossada por interpretações clássicas, como a de
Florestan Fernandes, que o autor cita implicitamente ao discutir a natureza da
oposição. O golpe visava, na verdade, impedir a transição de uma "democracia
restrita" para uma "democracia de participação ampliada" – ou seja, uma forma de
organização política que daria voz e poder de barganha às classes trabalhadoras.
Para a burguesia e as Forças Armadas alinhadas, as Reformas de Base (agrária,
urbana, educacional) e a participação política popular eram sinônimos de subversão
e desordem. (TOLEDO, 2004, p. 22-25).
Nesse sentido, o golpe atuou como um mecanismo de estancamento. Ele não
apenas derrubou um presidente constitucional, mas também visou desmobilizar e
despolitizar as organizações populares e o debate ideológico em torno da estrutura
social brasileira. A ditadura militar, ao longo de seus vinte e um anos, cumpriu a
função de adiar ou anular as reformas estruturais, preservando os interesses das
classes dominantes e garantindo um regime de "democracia seletiva" que
perduraria até que o debate político pudesse ser retomado de forma controlada. O
texto de Toledo, portanto, estabelece as bases da ruptura autoritária que a resenha
examinará em seu desfecho.
[Link]álise do Capítulo de Schwarcz e Starling: "No caminho da democracia"
O capítulo de Lilia Schwarcz e Heloisa Starling atua como contraponto e
complemento direto ao texto de Toledo, deslocando o foco da ruptura de 1964 para
a lenta e complexa transição que culminou na redemocratização. A tese central das
autoras é que o processo de abertura para o poder civil, iniciado sob a égide do
general Ernesto Geisel e do general Golbery do Couto e Silva, foi concebido para
ser controlado e tutelado pela cúpula militar. Contudo, esse projeto autoritário não
se sustentou, colapsando devido à crescente crise econômica e, mais crucialmente,
à pressão incansável e articulada da sociedade civil. (SCHWARCZ; STARLING,
2015, p. 467).
A análise se aprofunda na estratégia da "abertura lenta, gradual e segura", iniciada
após o período de maior repressão (o "milagre" e o AI-5). Essa descompressão
visava garantir uma transição que preservasse a instituição militar de qualquer
"revanchismo" e assegurasse que os novos civis no poder fossem alinhados com os
interesses do regime. Essa abertura, no entanto, foi paradoxalmente acompanhada
por medidas autoritárias destinadas a conter o crescimento da oposição, como o
notório Pacote de Abril de 1977, que incluía o senador "biônico" (indireto) e
reforçava os poderes do Executivo, frustrando as expectativas democráticas.
(SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 469).
Apesar da rigidez do regime, as autoras destacam a virada da oposição política
institucional. O Movimento Democrático Brasileiro (MDB) soube utilizar as regras e o
espaço concedido pela ditadura para mobilizar a população. A "anticandidatura" de
Ulysses Guimarães à presidência em 1973, por exemplo, foi um ato simbólico que,
embora sem chances reais de vitória, transformou o pleito em um palco para o
debate democrático e para a denúncia do autoritarismo. As vitórias eleitorais do
MDB, especialmente a de 1974, mostraram o desejo popular pelo fim da ditadura.
(SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 470).
O texto confere grande peso ao ponto de inflexão provocado pela repressão. O
assassinato sob tortura do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, e a subsequente
encenação de seu "suicídio" no DOI-Codi de São Paulo, desmoralizaram a versão
oficial da ditadura (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 471). As autoras enfatizam
que este evento foi crucial para alinhar uma ampla frente de oposição que ia além
da política institucional, incluindo a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o movimento estudantil. Este
alinhamento solidificou a resistência e deu um impulso decisivo à transição. As
autoras ecoam a famosa observação feita à época: a partir dali, o "chão da ditadura
começou a tremer" (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 471). A crescente crise
econômica do final dos anos 1970 somou-se a essa mobilização, tornando o
controle da abertura pelos militares insustentável e selando o caminho da
democracia. (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 472).
CONEXÕES E DIÁLOGOS ENTRE OS TEXTOS: O ARCO DA LUTA PELA
DEMOCRACIA
Embora os textos de Caio Navarro de Toledo e Lilia Schwarcz & Heloisa Starling
tratem de momentos distintos (o momento da ruptura e o momento da transição),
eles formam um arco narrativo e analítico coeso que descreve a luta central da
História Republicana: a busca pela Democracia de Participação Ampliada. O diálogo
entre os artigos não só ilumina a natureza do golpe de 1964, mas também explica
as dinâmicas da sua superação. (TOLEDO, 2004; SCHWARCZ; STARLING, 2015).
A primeira grande Conexão reside na dialética entre o que foi impedido e o que foi
reivindicado. Toledo demonstra que o golpe de 1964 teve como principal alvo o
alargamento da democracia e a implementação das Reformas de Base,
impulsionadas pela intensa mobilização das classes populares (TOLEDO, 2004). O
que a ditadura buscou estancar e silenciar — a participação popular e a pauta de
mudanças estruturais — é precisamente o que a sociedade civil retomou na luta
pela redemocratização, a partir de 1975 (SCHWARCZ; STARLING, 2015). As
campanhas por Anistia, pelas Diretas Já e pela Assembleia Constituinte
representaram a reativação daquela mesma demanda por uma democracia mais
inclusiva e socialmente justa, interrompida em abril de 1964.
Uma segunda e vital Conexão é o papel da Crise Econômica e da Luta de Classes.
Toledo aponta a crise econômica e a consequente mobilização popular radicalizada
como o catalisador que serviu de pretexto e motor para a intervenção militar de
1964 (TOLEDO, 2004). Da mesma forma, Schwarcz e Starling destacam que o
fracasso militar em manter o controle da abertura na década de 1970 ocorreu
porque a ditadura "perdeu o trunfo da economia" (SCHWARCZ; STARLING, 2015,
p. 472). O crescimento da inflação, o esgotamento do "milagre econômico" e a crise
da dívida mobilizaram, novamente, a sociedade – desta vez, não apenas as classes
populares, mas também setores burgueses e o empresariado – reforçando a
oposição e dando legitimidade às reivindicações democráticas. Em ambos os
momentos (1964 e 1985), o fator econômico serviu como um limitador intransponível
ao projeto político dominante, impulsionando a participação das classes.
Por fim, a terceira Conexão reside na Lógica Militar que perpassou todo o ciclo. O
projeto autoritário de 1964, detalhado por Toledo, baseava-se na crença de que
caberia às Forças Armadas tutelar a nação (TOLEDO, 2004). As autoras, por sua
vez, mostram que essa mesma lógica permaneceu na transição: a cúpula militar de
Geisel e Golbery tentou garantir uma "abertura controlada", buscando assegurar
uma "democracia dentro de sua relatividade", ou seja, limitada e definida por seus
próprios termos, visando evitar o "revanchismo" (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p.
468). O fracasso dessa "abertura controlada", imposto pela pressão de eventos
como o assassinato de Herzog e a mobilização das Diretas Já, marca o verdadeiro
ponto final no ciclo autoritário que Toledo iniciou a analisar: o momento em que a
sociedade recuperou a autonomia para determinar seu próprio destino político,
desmantelando o projeto de tutela militar.
Dessa forma, os dois textos se somam para oferecer uma visão completa: 1964 foi o
golpe contra a democracia ampliada e as reformas (Toledo), e a redemocratização
foi a retomada dessa luta, que só foi bem-sucedida quando a pressão social
suplantou a abertura controlada (Schwarcz & Starling).
CONCLUSÃO PRÓPRIA E POSICIONAMENTO CRÍTICO
A análise dos textos de Caio Navarro de Toledo e de Lilia Schwarcz & Heloisa
Starling permite traçar um panorama completo e dialético do ciclo autoritário
brasileiro. Toledo estabelece que 1964 não foi uma revolução, mas um golpe de
Estado que visou, sobretudo, impedir a ampliação da participação popular e o
avanço das Reformas de Base (TOLEDO, 2004). Schwarcz e Starling demonstram,
por sua vez, que a superação desse autoritarismo se deu pela ação da sociedade
civil organizada que, apesar de enfrentar uma abertura controlada, conseguiu impor
a vontade popular e forçar o retorno à democracia (SCHWARCZ; STARLING, 2015).
O diálogo entre os autores revela, assim, que o fundamental de 1964 a 1985 foi a
luta pela afirmação da democracia como um valor e um objetivo em si.
O posicionamento crítico que se impõe, contudo, é a necessidade de avaliar a
transição com base nas suas ambiguidades e heranças, um ponto salientado por
Schwarcz e Starling. Embora vitorioso na restauração das instituições civis, o
processo de redemocratização foi marcado pela exigência militar de que "não
haveria revanchismo". Essa condição, solidificada pela Lei da Anistia de 1979
(interpretada para beneficiar os agentes da repressão), preservou a impunidade dos
torturadores e dos envolvidos nos crimes do Estado (SCHWARCZ; STARLING,
2015, p. 468). Os militares saíram, como bem definem as autoras, "intocados do
governo" (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 473). Essa herança deixou uma
cicatriz profunda na jovem democracia, impedindo um acerto de contas com o
passado e comprometendo a plena efetivação da Justiça de Transição no Brasil.
Apesar dessa grave falha, o grande legado da luta das décadas de 1970 e 1980 foi
a consolidação da democracia. O clamor das Diretas Já provou que a população
exigia a democracia não como um meio para uma revolução (socialista ou
conservadora), mas como o único sistema político legítimo para o convívio plural. A
Constituição de 1988, fruto desse processo, representou a institucionalização da
democracia de participação que fora sufocada em 1964.
Em última análise, esta resenha reafirma que a ameaça constante à estabilidade
democrática reside justamente nas demandas que a elite brasileira tentou estancar
em 1964: as reformas estruturais (econômicas, tributárias e sociais). A permanência
de profundas desigualdades no país mantém viva a tensão entre a democracia
formal e a democracia substantiva. A plena consolidação do regime depende,
portanto, da capacidade contínua da sociedade civil de lutar não apenas pelas
regras do jogo (voto, liberdades), mas também pelos objetivos que Caio Navarro de
Toledo identificou como os reais alvos do golpe: a justiça social e a participação
ampliada de todos os setores na riqueza e no poder (TOLEDO, 2004).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. 1.
ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. Cap. 18: No caminho da democracia: a
transição para o poder civil e as ambiguidades e heranças da ditadura militar, p.
467-473.
2. TOLEDO, Caio Navarro de. 1964: O golpe contra as reformas e a democracia.
Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 24, n. 47, p. 13-28, 2004.