Ministério de Minas e Energia
Serviço Geológico do Brasil - CPRM
Governo do Estado do Rio Grande do Norte
Secretaria de Estado da Indústria, do Comércio, da Ciência e da Tecnologia - SINTEC
GEMAS DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE
João Francisco Silveira de Moraes
Superintendência Regional do Recife
1999
Sumário
MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA
Rodolpho Tourinho Neto
Ministro de Estado
José Luiz Pérez Garrido
Secretário Executivo
Luciano de Freitas Borges
Secretário de Minas e Metalurgia
COMPANHIA DE PESQUISA DE RECURSOS MINERAIS - CPRM
Serviço Geológico do Brasil
Geraldo Gonçalves Soares Quintas
Diretor-Presidente
Umberto Raimundo Costa
Diretor de Geologia e Recursos Minerais
Paulo Antonio Carneiro Dias
Diretor de Relações Institucionais e Desenvolvimento
Thales Queiroz Sampaio
Diretor de Hidrologia e Gestão Territorial
José de Sampaio Portela Nunes
Diretor de Administração e Finanças
Marcelo Soares Bezerra
Superintendente Regional do Recife
GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE
Garibaldi Alves Filho
Governador
Nelson Hermógenes de Medeiros Freire
Secretário de Estado da Indústria, do Comércio, da Ciência e da Tecnologia
Paulo Waldemiro Soares Cunha
Coordenador de Rec. Minerais Ciênc. e Tecnol. da Secretaria da Ind., do Com., da Ci-
ênc. e da Tecnologia do RN
SERVIÇO DE APOIO ÀS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS DO RIO GRANDE DO NORTE -
SEBRAE/RN
Luiz Claudio Souza Macedo
Diretor-Presidente
SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM INDUSTRIAL - SENAI/RN
Marcos José de Castro Guerra
Diretor
CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DO RIO GRANDE DO NORTE - CEFET
Francisco das Chagas Mariz Fernandes
Diretor Geral
FUNDAÇÃO NORTE-RIOGRANDENSE DA PESQUISA E CULTURA - FUNPEC
Ana Célia Cavalcanti Fernandes Campos
Superintendente
EQUIPE TÉCNICA
Geólogo Adeilson Alves Wanderley Geólogo João Francisco S. de Moraes
Gerente de Recursos Minerais (CPRM/Recife) Técnico Min. Almir Gomes Freire
Geólogo Antonio José Barbosa Digitalização de Mapas
Supervisor (CPRM/Recife) Coord. Geól. Paulo R. S. de Assunção
Digitalização: Luiz Cláudio Ferreira
Eng. Minas Paulo Eduardo d'Oliveira Ventura Técnico Flávio Renato A. de A. Escorel
Chefe de Fomento e Pesquisa Mineral da
Secretaria de Ind. Com. Ciênc. e Tecnol. do RN Digitação
Clara Fabíola Freire Mariz
Gemóloga Narla Sathler Musse de Oliveira
Centro Federal de Educação Tecnológica Editoração Eletrônica
do Rio Grande do Norte Geólogo Claudio Scheid
Técnico Flávio Renato A. de A. Escorel
Analista de Informações
Dalvanise da Rocha S. Bezerril
Moraes, João Francisco Silveira de
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte. Recife: CPRM,
1999.
72 p. il. 1 mapa in bolso.
1. Geologia Econômica
2. Gemologia
3. Pedras Preciosas
4. Brasil
5. Rio Grande do Norte
I. Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais
II. Título
CDD 553.8
Capa: Da esquerda para a direita, no sentido horário: cristal de berilo com água
marinha; lote de verdelita; lote de água marinha; lote de indicolita.
Sumário
RESUMO ....................................................................................................................................... i
1 - INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 01
2 - METODOLOGIA .................................................................................................................. 05
3 - CONTEXTO GEOLÓGICO REGIONAL .............................................................................. 07
4 - PRINCIPAIS GEMAS DO RIO GRANDE DO NORTE ........................................................ 13
4.1 Grupo do Berilo ................................................................................................................... 16
4.1.1 Água Marinha ................................................................................................................... 17
4.1.2 Esmeralda ........................................................................................................................ 18
4.1.3 Berilo para Coleção .......................................................................................................... 19
4.2 Grupo das Turmalinas ......................................................................................................... 21
4.3 Grupo do Quartzo ................................................................................................................ 22
4.3.1 Ametista ............................................................................................................................ 22
4.3.2 Quartzo Róseo ................................................................................................................. 23
4.4 Lazulita ................................................................................................................................ 23
4.5 Granada ............................................................................................................................... 24
4.6 Coríndon .............................................................................................................................. 26
4.7 Cordierita ............................................................................................................................. 26
4.8 Euclásio ............................................................................................................................... 27
5 - DISTRITOS GEMOLÓGICOS .............................................................................................. 28
5.1 Distrito Gemológico Centro-Sul ........................................................................................... 28
5.1.1 Geologia Local ................................................................................................................. 28
5.1.2 Perspectivas Econômicas ................................................................................................ 30
5.2 Distrito Gemológico Sul ....................................................................................................... 30
5.2.1 Geologia Local ................................................................................................................. 31
5.2.2 Perspectivas Econômicas ................................................................................................ 34
5.3 Distrito Gemológico Extremo Sudoeste .............................................................................. 34
5.3.1 Geologia Local ................................................................................................................. 35
5.3.2 Perspectivas Econômicas ................................................................................................ 36
5.4. Ocorrências em Outras Áreas ............................................................................................ 36
6 - EXPLOTAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO DAS GEMAS ....................................................... 38
7 - CONCLUSÕES .................................................................................................................... 41
8 - RECOMENDAÇÕES ............................................................................................................ 44
9 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................................... 47
10 - DOCUMENTAÇÃO FOTOGRÁFICA ................................................................................. 53
ANEXOS:
Anexo I: Listagem dos Jazimentos de Gemas ......................................................................... 61
Mapa Gemológico do Estado do Rio Grande do Norte
Resumo
O presente trabalho apresenta os resultados do inventário dos jazimen-
tos de gemas do Estado do Rio Grande do Norte, o qual possibilitou a elabora-
ção do mapa gemológico do estado na escala 1:500.000. Nele estão represen-
tados 148 jazimentos de gemas, envolvendo onze espécies distintas. A água
marinha é a gema mais abundante do estado, ocupando o segundo lugar as
turmalinas e em terceiro a esmeralda. Os depósitos de gemas estão distribuí-
dos por 28 municípios, sendo que sete deles concentram 73,6% do total. Os
principais municípios portadores de gemas são Lajes Pintadas, Tenente Ana-
nias, Parelhas e Equador.
Os pegmatitos são as principais rochas hospedeiras das gemas, reunin-
do 87,2% do total de depósitos investigados, abrigando todos os jazimentos de
água marinha e de turmalina-gema. Os pegmatitos com água marinha são rela-
tivamente homogêneos, localmente diferenciados na forma de bolsões, en-
quanto aqueles portadores de turmalina-gema são mais evoluídos, zonados e
com maior número e quantidade de minerais acessórios. Os outros tipos de
hospedeiras são biotitito de natureza máfico-ultramáfica que aloja as ocorrên-
cias de esmeralda, e veios de quartzo que encerram 11 jazimentos. As rochas
encaixantes dos jazimentos são ortognaisses do embasamento, metassedi-
mentos do Grupo Seridó e granitóides porfiríticos do Brasiliano.
Os estudos de campo lograram a descoberta de uma faixa esmeraldífera
que se estende descontinuamente por mais de 30km na direção NNE-SSW,
localizada no extremo sudoeste do estado, estando associada à zona de cisa-
lhamento de Portalegre.
Foram definidas três áreas de grande concentração de jazimentos de
gemas, designadas de Distritos Gemológicos Centro-Sul, Extremo Sudoeste e
Sul, sendo os dois primeiros essencialmente berilíferos, ricos em água mari-
nha, e o último turmalinífero, contendo também outras espécies gemológicas
como lazulita, euclásio, granada, quartzo róseo e água marinha. As áreas des-
ses distritos abrangem principalmente os municípios acima citados.
Conclui-se que o potencial gemológico do Rio Grande do Norte está en-
tre os mais importantes do país, tanto pela quantidade de jazimentos, como
pela qualidade e variedade de suas pedras preciosas e semi-preciosas. A pro-
dução atual de gemas no estado é muito baixa, incompatível com seu poten-
cial, em conseqüência do caráter rudimentar da atividade extrativa, o aprofun-
damento das escavações, a descapitalização do pequeno minerador, a falta de
investimentos e, principalmente, a ausência de incentivos governamentais.
Projeto Gemas do Estado do Rio Grande do Norte / Relatório Final
Introdução
O presente trabalho é fruto do con- centração meridional e área de concentra-
vênio celebrado entre a Companhia de ção setentrional, da qual fazem parte os
Pesquisa de Recursos Minerais, a Secreta- estados da Paraíba, Rio Grande do Norte,
ria de Indústria, Comércio, Ciência e Ceará e Piauí (Limaverde, 1980). O Estado
Tecnologia do Rio Grande do Norte (SIN- do Rio Grande do Norte situa-se na região
TEC), o Serviço de Apoio às Micro e nordeste oriental do Brasil, sendo limitado a
Pequenas Empresas do Rio Grande do leste e norte pelo Oceano Atlântico, a sul
Norte (SEBRAE-RN), o Serviço Nacional pelo Estado da Paraíba e a oeste pelo Es-
de Aprendizagem Industrial (SENAI/RN), tado do Ceará (Figura 1). Seus pontos
Fundação Norte-Riograndense de Pesqui- extremos são limitados pelos paralelos de
sa e Cultura (FUNPEC), e Centro Federal 4º49’53” e 6º58’57” de latitude sul e pelos
de Educação Tecnológica do Rio Grande meridianos de 34º58’03” e 38º36’12” de
do Norte (CEFET), tendo por objetivo o longitude oeste de Greenwich. Ocupa uma
2
estudo dos jazimentos de pedras preciosas superfície de 53.307 km , correspondendo
e a elaboração do primeiro mapa gemoló- a 0,62% do território nacional. Natal, a capi-
gico do estado. tal do estado, é a cidade de melhor infra-
estrutura e Mossoró é a cidade mais impor-
Entre outras razões, a importância tante do interior.
deste relatório é ressaltada pelo pouco
conhecimento das potencialidades gemoló- O acesso ao estado pode ser feito
gicas do estado. Das oito províncias gemo- por vias rodoviárias, aéreas, marítimas e
lógicas reconhecidas no mundo, a do Brasil ferroviárias, contando as ferrovias com dois
se destaca como a de maior área e uma ramais, um de 361km, ligando Nova Cruz-
das mais diversificadas, contando com Natal-Macau e a outra com 242km, que se
grande número de minerais-gema, incluin- estende de Sousa na Paraíba a Mossoró,
do-se entre os mais importantes o diaman- atravessando o extremo oeste do estado
te, o rubí, a safira, a água marinha e a es- na direção norte-sul. O estado é bem servi-
meralda (Franco, 1979). A província gemo- do por rodovias, estando quase todas as
lógica do Brasil foi dividida em quatro sub- cidades interligadas por estradas asfalta-
províncias: Sul, Leste, Central e Nor- des- das. As principais rodovias federais são a
te. Esta última subdividida em área de con- BR-101, que bordeja a região costeira
2
0 50 100 km
CE A RÁ Ocean
o At lânt
ico
Rio
BAHIA
Figura 1 - Mapa de Localização do Estado do Rio Grande do Norte
até Natal, a BR-304 que liga Natal- raíba. O maior aeroporto é o de Natal, con-
Mossoró-Fortaleza, e a BR-405 que cruza o tando ainda com dois menores, em Mosso-
extremo oeste ligando Mossoró com a Pa- ró e Caicó, e vários campos de pouso ser-
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
vindo outras cidades. O porto principal está Todas as cidades do estado têm
em Natal, mas existe um porto salineiro em sistema de abastecimento d’água, energia
Areia Branca e um petrolífero em Macau. elétrica e telefonia DDD e DDI. A captação
de água no interior é feita em açudes e se
As formas de relevo mais destaca- torna crítica no período de longa estiagem.
das do estado são o planalto da Borborema A região noroeste tem no arenito da For-
que juntamente com outras serras apresen- mação Açu o principal aqüífero do estado,
tam altitude entre 500m e 700m; grandes sendo responsável pelo suprimento de
áreas contíguas formam a depressão Ser- Mossoró e de outras cidades vizinhas, por
taneja com altitude média de 300m; os meio de poços tubulares. O aqüífero das
tabuleiros costeiros com altitude média de dunas da região de Natal é responsável por
70m a 100m; e a faixa litorânea ornamen- grande parte da água consumida; além
tada com extensos cordões de dunas. De disso, no interior das dunas existem nume-
acordo com o Plano de Desenvolvimento rosas lagoas de água doce.
Sustentável do RN (SEPLAN/IDEC, 1997)
cerca de 80% da área do estado tem clima A economia do estado está con-
semi-árido, inserida no Polígono das Se- centrada em quase toda a região costeira
cas, onde domina a caatinga como forma- onde se destacam dois grandes pólos de
ção florestal típica. Algumas áreas da parte desenvolvimento: o litoral oriental abran-
central e litoral setentrional chegam a apre- gendo a região metropolitana de Natal on-
sentar clima árido; parte do litoral oriental e de se adensam atividades turísticas, cultu-
áreas serranas têm clima sub-úmido, e rais, industriais e comerciais, e a re- gião
numa estreita faixa da região litorânea, noroeste onde se desenvolvem diversas
entre Natal e Canguaretama, o clima é atividades: petrolífera, salineira, fabricação
úmido. As temperaturas médias estão entre de cimento portland, e de agricultura irriga-
22ºC e 26ºC, variando conforme a altime- da. Esta última consta principalmente de
tria, e a média das precipitações é de fruticultura nos baixos vales dos rios Pira-
650mm, atingindo 1.200mm no litoral. nhas/Açu e Apodi/Mossoró.
Na grande região seca e semi- As indústrias mais importantes do
árida, com rios intermitentes, alta evapora- litoral oriental são têxteis e de confecções,
ção, escassez de água e irregularidade como também a sucroalcooleira. Ainda
pluviométrica, predominam a cultura de merecem citação as indústrias de cerâmica
subsistência de milho e feijão, e áreas de vermelha instaladas nos dois pólos. Entre
pastagem para gado e caprinos. Anterior- os produtos agrícolas se destacam a cana-
mente, também florescia o cultivo de algo- de-açúcar, frutas tropicais (melão, melan-
dão que foi dizimado pela praga do bicudo. cia, manga, abacaxi, banana), feijão, milho,
mandioca, côco da bahia, castanha de
A bacia hidrográfica do rio Pira- caju. A economia do estado também é
nhas-Açu é a maior do estado, atravessan- representada pela pecuária, caprinos, aves
do de sul a norte toda a região central; na e pescados (peixes, lagosta e camarão).
região oeste encontra-se a bacia do rio
Apodí que banha Mossoró; na região leste Para impulsionar o progresso do
existem as bacias do rio Ceará-Mirim, do estado, gerando renda e emprego, o Go-
rio Potengí que banha Natal e a do rio Trai- verno do Rio Grande do Norte está atraindo
rí mais a sul. Todos esses rios são perenes empresas para viabilizar um pólo industrial
apenas na região costeira. no município de Macau, alicerçado na usi-
Segundo o censo demográfico do na em operação de processamento de gás
IBGE, em 1996 o estado contava com natural da Petrobrás e na abundância de
2.558.660 habitantes, distribuídos em matérias-primas da região como gás, areia,
152 municípios, sendo que Natal abrigava sal marinho, águas-mães e calcário. O
um quarto (656.000) dessa população e plano contempla a construção de uma ter-
Mossoró com 206.000 habitantes. melétrica para suprir as necessidades de
fábricas de barrilha, vidros, soda cáustica,
4
magnésio, detergente, plásticos, sal refina- cário, diatomita, rochas ornamentais (grani-
do e outros produtos químicos. to, mármore, quartzito, metaconglomera-
do), gemas (água marinha, turmalina, ame-
O Rio Grande do Norte tem longa tista, granada), tantalita-columbita, ouro,
tradição mineira, uma vez que desde a feldspato, caulim, muscovita, e materiais
2ª Guerra Mundial vem produzindo miné- para construção civil como argila, areia e
rios para exportação como scheelita, tanta- pedras.
lita-columbita, berilo, ambligonita e espo-
dumênio, além de feldspato e caulim para De acordo com os indicadores só-
consumo interno, oriundos de diversas cio-econômicos da SEPLAN/IDEC (1997) o
minas e numerosos garimpos. Até a déca- Rio Grande do Norte vem apresentando
da de 1970 o estado era o maior produtor evolução positiva com o crescimento do
nacional de scheelita, a qual representava PIB de 4,11% em 1995 em relação ao ano
o principal ítem da pauta de exportação. anterior. Em 1995 o PIB foi de 6,895 mi-
Atualmente, todas as minas e garimpos lhões de dólares, representando 1,21% do
estão paralisados, não por esgotamento de PIB brasileiro, enquanto o PIB per capita foi
reservas, mas devido ao incremento da de 2.608,40 dólares.
produção na China, maior produtor mundial
de minério de tungstênio, combinada com a No período 1990-1995 a expectati-
drástica redução da taxa de importação va de vida do povo potiguar ampliou-se de
determinada pelo governo brasileiro. Dessa 54,6 anos para 58,6 anos. Isso se traduz
forma, o minério do Rio Grande do Norte na melhoria da qualidade de vida que é
perdeu competitividade em relação ao aferida pelo Índice de Desenvolvimento
equivalente chinês. Contudo, em razão do Humano (IDH).
vasto e diversificado potencial de recursos
minerais, o estado ocupa a segunda posi- No período de 1970 a 1995 a eco-
ção em valores na produção mineral do nomia norte-rio-grandense ostentou um
Nordeste, e a sexta no ranking nacional. crescimento médio superior ao do Brasil e
Desponta como o maior produtor de sal do Nordeste. Na década de 1970 a econo-
mia estadual cresceu, em média, 10,3% ao
ano, contra 8,6% no Brasil e 8,7% no Nor-
deste.
marinho do país e detém o segundo lugar
o
em petróleo (1 em terra) e terceiro em gás
natural. Além destes, as principais
substâncias minerais produzidas são: cal-
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
Metodologia
O trabalho teve início com o levan- No escritório, os dados geológicos
tamento e aquisição da documentação e econômicos dos jazimentos cadastrados
cartográfica e bibliográfica sobre a geologia no campo foram transferidos para fichas
e recursos minerais do estado, incluindo padronizadas e sua locação precisa foi
relatórios de diversas instituições, como marcada em mapas topográficos e geológi-
CPRM, SUDENE, DNPM, acervo da extinta cos na escala 1:100.000.
CDM/RN, universidades federais de Per-
nambuco e do Rio Grande do Norte, além As amostras de rochas e amostras
de trabalhos publicados em congressos, de minerais coletadas no campo foram
simpósios e periódicos ligados à área das descritas e parte delas foi enviada para
geociências. laboratório, com a finalidade de proceder
análises petrográficas e gemológicas. A
Os dados coligidos sobre ocorrên- caracterização das gemas foi realizada no
cias de gemas foram reunidos em fichas de laboratório de gemologia do CEFET pela
cadastro e efetuou-se sua locação em ma- Profª. Narla Sathler Musse de Oliveira.
pas topográficos na escala 1:100.000.
Após os trabalhos de campo
Em seguida, procedeu-se à execu- efetuou-se a digitalização da base planimé-
ção de quatro etapas consecutivas de trica do estado na escala 1:500.000, plo-
campo com a finalidade de estudar as ocor- tando-se nela todos os jazimentos de ge-
rências de gemas. Em cada cidade eram mas cadastrados. Também foi digitalizada
mantidos contatos e entrevistados minera- a base geológica na mesma escala a partir
dores, compradores e colecionadores de do mapa geológico do estado, editado em
gemas, o que propiciou a investigação de 1998. Da integração desses dados obteve-
muitos jazimentos não incluídos nos traba- se o mapa gemológico na referida escala.
lhos consultados. Estas áreas foram divididas em dois tipos:
área de alto a moderado poten-
Todas as ocorrências estudadas no
campo tiveram suas coordenadas geográfi- cial de gemas e área de moderado a baixo
cas determinadas com o uso de dois equi- potencial gemológico. A primeira é caracte-
pamentos GPS’s (Global Positioning Sys- rizada por grande densidade de jazimentos
tem). de gemas, e a segunda é representada por
número reduzido de jazimentos, mas além
6
de ser contígua ao primeiro tipo, exibe o mentos de gemas do estado, correspon-
mesmo controle lito-estrutural. dentes aos distritos gemológicos Centro-
Sul, Sul e Extremo Sudoeste. Por último,
procedeu-se à redação do texto final do
relatório, sua editoração e impressão dos
mapas.
Ainda foram elaborados três mapas
geológicos na escala 1:100.000, reunindo
as áreas de maior concentração de jazi-
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
Contexto Geológico Regional
Em linhas gerais, o Rio Grande do além de ser responsável por intenso pluto-
Norte é constituído de terrenos antigos nismo dominantemente ácido, culminando
denominados de Complexo Gnáissico- com alcalino, modelou a estruturação atual
Migmatítico ou Complexos Caicó, São das seqüências metassedimentares e do
Vicente e Presidente Juscelino, nos quais Complexo Gnáissico-Migmatítico que são
ocorrem diversos tipos de granitóides intru- marcadas por foliações, eixos de macrodo-
sivos, além de faixas de rochas metasse- bras, falhas e zonas de cisalhamento, to-
dimentares dobradas, perfazendo cerca de das com direção geral NNE.
60% da superfície do estado. A área res-
tante compreende as coberturas não do- O Complexo Gnáissico-Migmatítico
bradas fanerozóicas, englobando a Bacia (APgm) ocupa a maior área dos terrenos
Sedimentar Potiguar, Formação Serra dos cristalinos de leste a oeste do estado e
Martins, que forma chapadas interiores, o representa a etapa de desenvolvimento
Grupo Barreiras, e sedimentos inconsolida- precoce da crosta continental de idade
dos aluvionares e de dunas do Quaternário. Paleoproterozóica (2,40Ga a 2,15Ga), com
núcleos restritos do Arqueano. As áreas
A síntese geológica apresentada a mais representativas desta unidade estão
seguir é baseada nos seguintes trabalhos: em Santa Cruz a leste, Lajes no centro-
Barbosa et al. (1974) abrangendo a região norte, Caicó no centro-sul, Campo Grande
leste do estado; Brasil DNPM(1998), mapa no oeste, e Pau dos Ferros no extremo
de integração geológica do Estado do Rio oeste até a divisa com o Ceará. Este com-
Grande do Norte, escala 1:500.000; Fortes plexo é constituído dominantemente de
(1987) sobre a Bacia Potiguar; e Ferreira ortognaisses granodioríticos, tonalíticos e
(1998), correspondendo à região centro-sul graníticos, de textura equigranular ou au-
do estado (Figura 2). gen, com pronunciado bandamento meta-
mórfico antigo, atestando condições do
As rochas cristalinas mais antigas fácies anfibolito. Incluem metabásicas,
foram afetadas por sucessivas fases de- biotita-paragnaisses, ortoanfibolitos, além
formacionais e o evento tectono-magmático de raras lentes de quartzito, formação ferrí-
mais recente e abrangente é designado de fera, mármore e rochas calcissilicáticas,
Ciclo Brasiliano (750Ma-550Ma), o qual algumas mineralizadas em scheelita. Ocor-
8
o o o o
40 00' 38 00' 36 00' 34 00'
o
4 00'
Ceará
Natal
Rio Grande do Norte
o
6 00'
Paraíba João Pessoa
8 00'
Pernambuco Recife
0 50 100 km
BRASIL DNPM. Mapa Geológico do Estado do Rio Grande do Norte, 1:500.000.
Brasília, DNPM/UFRN/PETROBRÁS/SINTEC-RN (1998).
BARBOSA, A. J. et al. Projeto Leste da Paraíba e Rio Grande do Norte, 1:250.000.
Recife, convênio DNPM/CPRM (1974).
FORTES, F. P. Mapa Geológico da Bacia Potiguar, 1:100.000.
Natal, PETROBRÁS (1987).
FERREIRA, C. A. Folha Caicó, 1:250.000. Recife, CPRM (1998).
Figura 2 - Bases Geológicas Regionais do Rio Grande do Norte
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
rências de barita, amianto, água marinha, caroidal, às quais se associam rochas cal-
esmeralda, berilo, talco e ferro também são cissilicáticas, algumas com forte minerali-
assinaladas. zação scheelitífera, e lentes restritas de
paranfibolitos. Ocorrem ainda níveis de
O plutonismo no Paleoproterozóico ortoanfibolito, serpentinito, formação ferrífe-
(P) é representado por augen gnaisses ra e micaxistos aluminosos a biotita. A área
granitóides com biotita, e proporções variá- de maior exposição da Formação Jucurutu
veis de anfibólio, de natureza subalcali- encontra-se a leste de Jucurutu até próxi-
na/monzonítica ou cálcio-alcalina potássi- mo de São Fernando, na margem direita do
ca. Incluem ortognaisses granodioríticos a rio Piranhas. Faixas estreitas e alongadas
graníticos de afinidade cálcio-alcalina, além desta formação ocorrem entre São Vicente
de fácies leucocráticos, metapegmatitos e e a oeste de Ouro Branco, ao sul de Paraú,
rochas metabásicas subordinadas. Esta em Lucrécia e em Tenente Ananias no
unidade, chamada de granitos G2 por Jar- extremo sudoeste do estado. Ao sul da
dim de Sá (1994) e designada por Ferreira cidade de Currais Novos aflora importante
(op. cit.) de Suite Magmática Poço da Cruz, segmento da Formação Jucurutu bordejan-
é considerada sin a tardi-tectônica a um do o limite norte do maciço granitóide Acari,
evento de deformação tangencial e o me- onde ela apresenta intercalações de már-
tamorfismo é da fácies xisto verde a anfibo- more e calcissilicáticas contendo o maior
lito. jazimento de scheelita do Brasil.
Cobrindo parcialmente o Complexo A Formação Equador (MNse), con-
Gnáissico-Migmatítico ou Caicó jaz uma siderada por alguns como uma variação
extensa seqüência supracrustal essencial- lateral de fácies da Formação Jucurutu,
mente metassedimentar de idade protero- correspondendo a uma sedimentação ma-
zóica (Neo a Mesoproterozóica?) que corta rinha plataformal em ambiente extensional,
a região central do estado segundo duas é composta basicamente de muscovita-
faixas paralelas orientadas na direção quartzito esbranquiçado (qt) e metacon-
NNE, sendo representadas pelas forma- glomerado (mc), ambos cortados por nu-
ções Jucurutu, Equador e Seridó, as quais merosos diques de pegmatitos.
integram o Grupo Seridó. Os contatos des-
te grupo com o Complexo Caicó geralmen- O quartzito exibe foliação bem de-
te são marcados por zonas de cisalhamen- senvolvida, granulação média a fina e tex-
to. A faixa leste, descrita por Archanjo tura equigranular. No estado o quartzito se
(1993) e Jardim de Sá (1994) sob a desig- dispõe segundo uma estreita faixa descon-
nação de Faixa Seridó, é a de maior di- tínua com extensão total de 150km na dire-
mensão, com largura máxima de 63km ção NNE. As maiores extensões aflorantes
entre São José do Seridó e Carnaúba dos estão na porção sul do estado com dois
Dantas, e média de 30km, adentrando-se segmentos, um entre Parelhas e Equador
ao sul pelo estado da Paraíba. O limite formando a serra das Queimadas, que se
norte é encoberto pelos sedimentos da prolonga para sul pelo estado da Paraíba;
Bacia Potiguar, exibindo uma extensão mais a norte, entre Carnaúba dos Dantas e
aflorante contínua de 175km. Os traços Currais Novos, formando a serra das Um-
estruturais mais marcantes são de direção buranas.
NNE-SSW, correspondendo a dobras nor-
mais e invertidas, e zonas de cisalhamento Nestes segmentos a largura média
transcorrentes dextrais com alguma com- aflorante é de 4km, estando em contato
ponente transpressiva e transtensiva. com o xisto da Formação Seridó onde
desenvolve provável zona de cisalhamento,
A base do Grupo Seridó é repre- e na primeira serra compõe uma anticlinal
sentada pela Formação Jucurutu (MNsj) normal com eixo mergulhante para norte,
composta de biotita-paragnaisses com enquanto na serra das Umburanas a estru-
proporções variáveis de anfibólio, epidoto e tura é braquianticlinal. Em Parelhas o quar-
diopsídio, freqüentes intercalações de tzito é lavrado e usado como revestimento
mármores esbranquiçados, de textura sa- de piso e parede. Numa área aflorante ao
10
sul de Cerro Corá forma outra braquianticli- bólio em menor percentagem, de afinidade
nal, e no extremo norte ele se adelgaça subalcalina, monzonítica; os pórfiros são
numa extensa língua constituindo a serra formados por prismas centimétricos de K-
do Feiticeiro, a sudeste de Lajes. feldspato róseos com proeminente gemina-
ção Carlsbad. Esta suíte é a mais difundida
O metaconglomerado tem área de no estado, e ela inclui fácies K-diorito, gra-
ocorrência restrita, desenvolvendo-se em nito equigranular, e rochas básicas subor-
Parelhas na zona periclinal da anticlinal da dinadas.
serra das Queimadas e segue bordejando
o flanco leste dessa estrutura ao longo de Os maciços são alongados na dire-
20km. Ele tem natureza mono a polimicta, ção NNE e formam elevações expressivas
com matriz cinza-esverdeada essencial- como as serras do João do Vale, da Barri-
mente quartzosa. Está sendo lavrado em guda, do Camará e das Porteiras; (Nd)
Parelhas para uso como pedra ornamental. suítes básicas a intermediárias incluindo
gabros, monzogabros, dioritos, monzo e
A Formação Seridó (MNss) é a quartzo-dioritos, granodioritos, usualmente
unidade mais jovem do Grupo Seridó e a com biotita e/ou anfibólio, de afinidade
que ocupa a maior área aflorante em terre- subalcalina/shoshonítica; exibem corpos
nos rebaixados, desde Equador no extremo relativamente pequenos e de formas irregu-
sul onde se estende pela Paraíba, até o lares; (Nc) suíte de biotita-granitos equi-
extremo oposto ao norte de Carnaúba de granulares, localmente porfiríticos, leuco-
Angicos, onde é encoberta pelos sedimen- granitos com muscovita de granulação
tos da Bacia Potiguar. média a grossa, de filiação peraluminosa
ou subaluminosa, e biotita-anfibólio-
A unidade MNss também está bem granodioritos a tonalitos, de natureza cál-
representada desde Angico até a oeste de cio-alcalina. Esta suíte tem larga distribui-
Florânia por uma extensão linear de 75km. ção segundo a direção geral E-W sob a
Ela se compõe de granada-biotita-xistos forma de maciços irregulares individualiza-
aluminosos a feldspáticos, com porcenta- dos; fora desse trend existe um corpo arre-
gens variáveis de cordierita, estaurolita, dondado a leste de Campo Redondo, além
sillimanita, andaluzita, e, raramente cianita. de uma série de corpos alinhados, estreitos
Vênulas e veios de quartzo interfoliados e e alongados, nas zonas de cisalhamento
microdobrados estão sempre presentes. que cortam a Formação Seridó; (Nb) de
Também ocorrem intercalações lenticulares ocorrência restrita, representado por grani-
e esparsas de mármore, calcissilicáticas, to e sieno-granito porfiróide, com anfibólio e
quartzito e ortoanfibolito. Na porção sul é proporções variáveis de piroxênio, de filia-
cortada por enxames de pegmatitos que ção alcalina; (Na) de idade tardi a pós-
geralmente se destacam no relevo. Em tectônico ao Ciclo Brasiliano, ocorre um
Parelhas e noutros municípios, áreas aflo- único plutão de sienogranito alcalino, inclu-
rantes e alteradas do xisto são explotadas indo fácies com faialita e piroxênios, desig-
para o fabrico de telhas e tijolos em diver- nado de Granitóide Brasiliano de Umarizal.
sas olarias. Em alguns locais, exposições
não alteradas do xisto são cortadas em No intervalo entre o Ordoviciano e
placas e usadas como piso e revestimento Jurássico Inferior não são conhecidos re-
de paredes. gistros geológicos no estado. Do Jurássico
Médio ao Cretáceo Inferior desenvolve-se o
Durante o Neoproterozóico houve Magmatismo Rio Ceará Mirim que é repre-
diversificada atividade plutônica, manifes- sentado por enxame de diques de diabásio
tada por intrusões dominantemente graníti- e basalto de afinidade toleítica, os quais
cas, com rochas básicas-intermediárias têm direção geral E-W e cruzam nesta
subordinadas, sin a tardi-tectônicas ao direção toda a região central do estado.
episódio principal do Ciclo Brasiliano. Este
plutonismo é representado pelas seguintes A Bacia Sedimentar Potiguar ocupa
suítes: (Ne) granitóides porfiríticos de gra- toda a região norte do estado, prolongan-
nulação grossa a média, com biotita e anfi- do-se na plataforma marinha, e a oeste
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
continua no estado do Ceará. A porção
emersa no Rio Grande do Norte tem exten- Na faixa norte da bacia ocorre a
são de 250km na direção E-W e largura Formação Quebradas reconhecida apenas
máxima aflorante de 100km na direção em subsuperfície, constituída por folhelho
N-S. A evolução da bacia teve início no síltico arenoso, com finas camadas de car-
Cretáceo Inferior com a deposição da For- bonatos, gradando lateralmente para o
mação Pendências (Kp), constituída de nível superior da Formação Açu. Sobre
arenitos finos, argilosos, intercalados com esta repousa a Formação Jandaíra (Kj) que
siltitos e folhelhos ricos em matéria orgâni- tem a maior área de exposição do grupo, e
ca, depositados em ambiente lacustre as- apresenta como litótipos comuns calcários
sociado com deltas progradantes e planí- cinza a creme, margas e calcarenitos cinza
cies aluviais. Também ocorrem conglome- claros a amarelados, siltitos, folhelhos,
rados e arenitos grosseiros demarcando argilitos e dolomitos cremes. Níveis restri-
antigas escarpas de falha do embasamento tos e descontínuos de evaporitos (gipsita e
cristalino. Esta unidade ocorre fundamen- celestita subordinada) ocorrem na base. Os
talmente em subsuperfície, mas existem calcários cálcicos e magnesianos são usa-
três áreas aflorantes, preenchendo estrutu- dos na indústria de cimento, cal, corretivo
ras de graben encravado em rochas crista- de solo e ração animal; na construção civil
linas, a nordeste de Riacho da Cruz, em como piso, revestimento e pedras; e gipsita
Rafael Fernandes e Coronel João Pessoa. e argilas em cimento e gesso agrícola.
Segue-se no topo a Formação Ala- Soleiras de olivina-basaltos de afi-
gamar que, junto com a formação anterior- nidade alcalina caracterizam o Magmatis-
mente citada, integram o Grupo Areia mo Serra do Cuó com datação do Cretáceo
Branca, ocorrendo apenas em subsuperfí- Superior, 90-85 Ma (K-Ar). Duas pequenas
cie. A Formação Alagamar é representada exposições desse magmatismo são encon-
por arenitos finos a grossos, intercalados tradas a leste da cidade de Açu.
com folhelhos lagunares ricos em matéria
orgânica, depositados em ambiente transi- O Terciário Inferior está represen-
cional. Também ocorrem camadas de car- tado pela Formação Serra dos Martins
bonatos fossilíferos sob influência marinha (Tsm), formando chapadas no interior do
restrita. Esta formação é produtora de pe- estado, destacando-se como a de maior
tróleo e gás. dimensão a Serra de Santana ao norte de
Currais Novos. Consta de arenitos médios
A seguir depositaram-se os sedi- a conglomeráticos, avermelhados ou ama-
mentos do Grupo Apodi, compreendendo relados, com níveis caulínicos e silicifica-
as Formações Açu, Quebradas e Jandaíra, dos, associados a sistemas fluviais. Segue-
a primeira em ambiente continental asso- se o Magmatismo Macau (Tm) datado de
ciado a leques aluviais e sistemas fluviais, 40Ma-25Ma (K-Ar), representado por olivi-
e a última em ambiente marinho de plata- na-basaltos de filiação alcalina, contendo
forma rasa. A Formação Açu (Ka) compõe- xenólitos peridotíticos, sob a forma de der-
se de arenitos finos a grossos, com níveis rames, diques, plugs e necks. São registra-
conglomeráticos, e em direção ao topo das quatro áreas aflorantes dessas rochas,
apresenta intercalações de folhelhos e onde a maior delas se encontra a sudeste
argilitos sílticos. Esta unidade é de grande de Macau. A oeste da cidade de Lajes, em
interesse econômico, pois além de encerrar meio a ortognaisses, surge um neck com
o maior aqüífero do estado, contém os proeminente destaque topográfico, desig-
mais significativos reservatórios de petróleo nado de Pico do Cabugi.
e gás do Rio Grande do Norte. Os arenitos
afloram extensivamente na borda sul da Completam a estratigrafia do Terci-
bacia, desde a divisa com o Ceará até João ário as Formações Guamaré e Tibau (Tt), e
Câmara, segundo uma faixa E-W de o Grupo Barreiras (TQb). A primeira, ocor-
375km. O contato norte é gradacional com rendo apenas em subsuperfície, compõe-
os calcários da Formação Jandaíra e a sul se de calcarenitos bioclásticos depositados
com rochas cristalinas do embasamento. na plataforma e talude, interdigitando-se
12
com a Formação Tibau, constituída de sentados por areias bem selecionadas,
arenitos médios a grossos, imaturos, ama- amareladas, inconsolidadas ou parcialmen-
relados. Afloramentos desta unidade são te consolidadas, que formam paleodunas;
cartografados a leste de Pendências. O paleocascalheiras de paraconglomerados
Grupo Barreiras, que se distribui em largas com seixos de quartzo e fragmentos de
exposições bordejando toda a região cos- rochas, com matriz areno-argilosa averme-
teira do estado, é formado por arenitos lhada; depósitos de praias incluindo areias
finos a médios, ou conglomeráticos, aver- finas e grossas, arenitos e conglomerados
melhados, com intercalações sílticas, argi- de cimento carbonático formando cordões
losas e caulínicas, dominantemente asso- de beach rocks; depósitos de lagoas e de
ciados a sistemas fluviais. planícies fluviais com pelitos arenosos e
carbonosos que podem conter jazimentos
A coluna estratigráfica se encerra de turfa, diatomito e argilas; areias e casca-
com os sedimentos quaternários repre- lhos dos sistemas fluviais atuais.
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
Principais Gemas do Rio Grande
do Norte
Existem vários trabalhos publica- dos minerais de valor gemológico em toda
dos sobre ocorrências isoladas ou indivi- região do Polígono das Secas, ou seja, do
duais de gemas no Estado do Rio Grande norte de Minas Gerais ao Maranhão. No
do Norte, mas o presente relatório é o pri- Rio Grande do Norte foram cadastradas
meiro a reunir num único documento todas 213 ocorrências (incluindo gemas e mate-
as informações disponíveis, complementa- rial para artesanato mineral) e realizados
das pelas investigações realizadas no ensaios tecnológicos em 61 amostras, sen-
campo e por análises de amostras efetua- do 28 (45,9%) de lapidação de água mari-
das em laboratórios de petrografia, gemo- nha. Lamentavelmente, este trabalho não
logia, química e difração de raios X. A foi publicado e no arquivo da SUDENE
Companhia de Desenvolvimento de Recur- existe apenas o rascunho das fichas de
sos Minerais do Estado do Rio Grande do cadastro. Contudo, o aludido projeto ense-
Norte (1989), hoje extinta, realizou o cadas- jou a implantação do ambicioso Programa
tro dos pegmatitos do estado, onde aponta Gemas Nordeste – GENOR (Brasil, 1984)
a presença de gemas em vários corpos. cujos objetivos seriam a criação de cursos
Diniz et al. (1990) apresentam uma síntese médios de lapidação e artesanato mineral,
sobre várias ocorrências de gemas do es- de formação de joalheiros e designers de
tado, e Neto (1996a, 1996b) efetuou o ca- jóias, e pós-graduação em gemologia, liga-
dastramento dos pegmatitos portadores de dos ao Centro Gemológico do Nordeste em
gemas do estado, mas o seu estudo inclui Campina Grande – PB. Contemplava tam-
corpos desprovidos de pedras preciosas ou bém orientação técnica para a preservação
semi-preciosas. O trabalho de Ferreira et e explotação racional de recursos minerais,
al. (1977) sobre o levantamento de pegma- incentivos à lapidação e à comercialização
titos também contribuiu com informações de produtos beneficiados; assistência
de algumas ocorrências de gemas. técnica a oficinas de artesanato mineral,
bijuterias, lapidação e laboratório gemoló-
Em 1981 a SUDENE, juntamente gico, além de setores de marketing e co-
com a Universidade Federal da Paraíba e o mercialização de gemas. Previa ainda es-
apoio de outros órgãos federais e esta- tudos de mercados interno e externo, cria-
duais, iniciou o Projeto Aproveitamento de ção da bolsa de pedras, fomento ao coope-
Recursos Minerais Gemas do Nordeste, rativismo e exportação de pedras acaba-
constando, basicamente, do cadastramento das, implantação de modelos de financia-
14
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
mento às atividades produtivas de gemas, Cassedanne (1991) se refere ainda à ocor-
e a elaboração da Carta Gemológica do rência de brasilianita, fosfato básico de
Nordeste. Apesar de ser bem concebido, sódio e alumínio, nas cores verde, amarelo
de grande alcance social e de ampla ou incolor, nos pegmatitos do Boqueirão,
abrangência, o programa não teve conti- município de Parelhas, e “Alto” do Giz;
nuidade e as metas não foram atingidas ou allanita em pegmatitos dos municípios de
concluídas. Santa Cruz, Angicos e São Rafael, e ônix
em calcário da localidade Fervedouro, mu-
Visando o desenvolvimento do se- nicípio de Santana do Matos. Pode-se
tor, em 1979 o Governo do Estado implan- acrescentar também a amazonita ou jade
tou cooperativas de pequenos mineradores do Amazonas em alguns pegmatitos com
em São Tomé, Cerro Corá, Lajes e Equa- água marinha do município de Tenente
dor, e centros de lapidação e artesanato Ananias e apatita de alguns pegmatitos
mineral nas cidades de Currais Novos, heterogêneos da região de Parelhas-
Parelhas e Tenente Ananias com a finali- Equador. Informações verbais (Geólogo
dade de formar pessoal da região no bene- Júlio Nesi) indicam ocorrência de espo-
ficiamento de pedras preciosas, semi- dumênio róseo no pegmatito da Fazenda
preciosas, confecção de peças de bijuteria Malhada Vermelha ou Saco do Peba, mu-
e artesanato mineral desses insumos pro- nicípio de Parelhas.
duzidos no estado. Com tais iniciativas,
houve geração de emprego e aumento de Como pode ser observado (Fi-
renda e da produção mineral (Nesi, 1981; gura 3), a água marinha é a gema mais
Aguiar et al., 1986). Nos anos 90, com a abundante compreendendo 94 jazimentos
suspensão do apoio técnico e incentivos do ou 63,5% do total, vindo em segundo lugar
governo as entidades interromperam as as turmalinas com 19 jazimentos e a esme-
atividades. ralda em terceiro com 10. Nesta figura a
categoria outros tipos de gemas reúne 11
O estado possui um vasto e diversi- jazimentos, sendo 4 de granada, 2 de co-
ficado número de pedras preciosas e no ríndon, 2 de berilo para coleção, e um de
presente trabalho estão registrados cordierita, euclásio e quartzo róseo.
148 jazimentos, abrangendo onze tipos
distintos de gemas: água marinha, turmali- As ocorrências de gemas distribu-
nas, esmeralda, ametista, lazulita, granada, em-se por 28 municípios do estado, sendo
coríndon, berilo para coleção, quartzo ró- que sete deles (25%) concentram 109 ja-
seo, euclásio e cordierita. Outros minerais zimentos ou 73,6% do total. Os quatro mu-
com características gemológicas são cita- nicípios maiores portadores de gemas são,
dos por Cassedanne et al. (1987) como respectivamente, Lajes Pintadas, Tenente
morganita em pegmatitos litiníferos do mu- Ananias, Parelhas e Equador (Figura 4).
nicípio de Equador; columbita e tantalita; Nos dois primeiros estão concentradas a
mangano-tantalita gema, transparente, maioria dos jazimentos de água marinha e
vermelho forte, no pegmatito heterogêneo os dois últimos reunem todos os jazimentos
do “Alto” do Giz, município de Equador; de turmalinas.
hessonita, variedade de granada alaranja-
da, em vários tactitos scheelitíferos; alabas- No Anexo I mostra-se a listagem
tro associado a gipsita no município de Dix- dos jazimentos de gemas do Rio Grande
Sept Rosado. Mangano-tantalita também é do Norte, numerados seqüencialmente de 1
encontrada no garimpo Malacacheta (coor- a 148, correspondendo à mesma numera-
o o
denadas 6 30´00´´ - 36 33´00´´), município ção contida nos mapas que acompanham
de Carnaúba dos Dantas, associada a mi- este trabalho. Na tabela constam apenas
ca, berilo, ambligonita e cassiterita, em os depósitos efetivamente investigados no
pegmatito heterogêneo encaixado em xis- campo. No texto são citadas ocorrências
tos da Formação Seridó (Silva et al., 1997). contidas na literatura consultada que não
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
11
6
8
10
água marinha
turmalina
esmeralda
ametista
lazulita
19
94 outros tipos
Total de jazimentos: 148
Figura 3 - Jazimentos de Gemas do Rio Grande do Norte
31
39
Lajes Pintadas
Tenente Ananias
Parelhas
Equador
Acarí
5 24 Campo Redondo
6
São Tomé
10
Outros*
14 19
Municípios portadores de gemas: 28
*39 jazimentos distribuídos em 21 municípios
Figura 4 - Principais Municípios Portadores de Gemas
16
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
foram localizadas no campo. Do total de amazonita e/ou topázio; o tipo III caracteri-
jazimentos, 129 (87,2%) têm o pegmatito zado por albita e muscovita, com alguma
como rocha hospedeira das gemas, abran- lepidolita; o tipo IV é complexo, com zone-
gendo todos os depósitos de água marinha, amento definido, exibindo corpos de substi-
turmalina e lazulita; 10 são de esmeraldas tuição com albita e lepidolita, podendo con-
contidas em biotitito máfico e 9 em veios de ter grandes cristais de espodumênio.
quartzo. A maioria desses jazimentos está
encaixada em ortognaisses do embasa- Em linhas gerais, os pegmatitos
mento, enquanto os outros têm como en- com água marinha do Rio Grande do Norte
caixantes metassedimentos do Grupo Seri- se assemelham mais com os tipos I e II,
dó e granitóides porfiríticos da unidade este sem topázio, enquanto os de turmalina
Ne. com o tipo IV. Os pegmatitos com lazulita
parecem enquadrar-se no tipo III. O es-
Como tais granitóides têm ampla quema (Figura 5) mostra também a evolu-
distribuição e estão mais próximos dos ção dos pegmatitos desde o tipo mais sim-
pegmatitos, levanta-se a hipótese de que ples e homogêneo (tipo I) até o tipo mais
eles foram a fonte das soluções pegmatíti- complexo, heterogêneo e zonado (tipo IV).
cas que formaram os numerosos corpos
homogêneos e heterogêneos no final do 4.1 Grupo do Berilo
Neoproterozóico e do Ciclo Tecto-
Orogênico Brasiliano. A este evento tam- O berilo é um silicato de berílio e
bém se associam os fluidos mineralizantes alumínio que apresenta fórmula química
que permearam muitos pegmatitos, enri- Be3Al2 (SiO3)6; constitui o mais abundante
quecendo-os com gemas e numerosos dos minerais de berílio e a principal fonte
minerais econômicos. Admite-se, ainda, deste metal. Suas principais propriedades
que o referido evento propiciou as minerali- físicas são a dureza alta, entre 7,5-8,0,
zações de gemas nos biotititos e veios de cristalização prismática hexagonal geral-
quartzo. mente euédrica, brilho vítreo, cor mais co-
mum verde azulado, índice de refração
Legrand el al. (1993) ressaltam que as 1,576-1,582 e densidade relativa 2,76-2,78.
mineralizações contidas na Faixa Seridó, a Trata-se de um mineral comum encontrado
qual inclui todos os jazimentos de turmali- como acessório, principalmente em
nas e outras gemas, resultam da interação pegmatitos ácidos, rochas metamórficas e
de processos orogênicos, magmáticos e ígneas ácidas.
metamórficos, ensejando intensa atividade
hidrotermal associada às intrusões de gra- O berilo possui uma família de mi-
nitóides brasilianos em vários níveis crus- nerais gemas que são distinguidos pela
tais. Com esta visão integrada dos fenô- cor: água marinha azul, esmeralda verde,
menos, os fluidos magmáticos liberados, morganita rósea e heliodoro amarelo dou-
misturados com os fluidos oriundos das rado. No Rio Grande do Norte ocorrem
reações metamórficas, se propagaram no todas elas, mas a água marinha é larga-
teto das intrusões aproveitando as estrutu- mente dominante. Neste trabalho, o grupo
ras tectônicas regionais. Esta conclusão do berilo é representado pela descrição dos
pode ser estendida para explicar a origem jazimentos de água marinha, esmeralda e
das mineralizações de gemas noutras regi- berilo para coleção.
ões do Rio Grande do Norte. Com base na
textura e paragênese Cassedanne et al. Nos pegmatitos do Rio Grande do
(1987) reconhecem no Brasil quatro tipos Norte o berilo é a mineralização mais
principais de jazidas de água marinha e abundante, ocorrendo em cristais de tama-
turmalina gema em pegmatitos (Figura 5). nho muito variável, desde alguns centíme-
O tipo I é pouco evoluído, com quartzo, tros de comprimento a mais de metro e
biotita e grandes cristais de microclina, pesando mais de uma tonelada; porém as
exibindo textura gráfica proeminente; o tipo dimensões mais freqüentes oscilam de 5cm
II com zoneamento um pouco desenvolvi- a 15cm de comprimento. Nas décadas de
do, alguma albita e muscovita, e pouca 1940 a 1960 o estado foi um dos maiores
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
Tipos I II III IV
pegmatitos com turmalinas
pegmatitos com água marinha peg. com Li-Cs
pegmatitos com mica
Granito Pegmatito gráfico e granítico Microclina, espodumênio (oli-
goclásio) em blocos e cristais Blocos e núcleo de quartzo Zona de substi-
tuição Drusas Cristais de minerais dos elementos raros Muscovita
Figura 5 - Tipologia dos Depósitos Brasileiros de Água Marinha
e Turmalina Gema (Cassedanne et al., 1987)
brilhantes sob a forma de blocos, ocorre
produtores de berilo do país, e este se particularmente em alguns pegmatitos de
destacava como o maior produtor mundial Tenente Ananias, e o mineral pode ser
do mineral. Atualmente não há produção aproveitado como gema.
porque o preço de comercialização não
compensa a extração. Na região de Santana do Matos
também existem vários pegmatitos minera-
4.1.1 Água Marinha lizados em água marinha, encaixados em
ortognaisses. Mas, no município de Acarí
O Brasil detém as mais importantes os pegmatitos portadores da gema estão
jazidas de água marinha do mundo, sendo encaixados nos granitóides da unidade
Minas Gerais o maior produtor nacional. A Ne. Um menor número de pegmatitos
água marinha é também a gema mais contendo água marinha está encaixado no
abundante e valiosa do Rio Grande do biotita-xisto da Formação Seridó. Todos os
Norte, tanto pela quantidade produzida pegmatitos mineralizados em água marinha
como pelo valor da produção. Ocorre em do estado são arrasados, ou seja, não têm
muitos municípios, sendo os de Tenente expressão topográfica, e se encontram no
Ananias e Lajes Pintadas os maiores pro- mesmo nível do terreno das suas encai-
dutores do estado. Em ambos, os pegmati- xantes. Geralmente, a água marinha é
tos portadores da gema são homogêneos e encontrada em bolsões de dimensões vari-
estão encaixados em ortognaisses do em- áveis e formas irregulares, dispostos alea-
basamento. Tais pegmatitos são constituí- toriamente no interior dos pegmatitos. Tais
dos essencialmente de quartzo, feldspato bolsões, chamados de “fogões” pelos ga-
potássico róseo e biotita em livros e lame- rimpeiros, são porções diferenciadas do
las bem desenvolvidas. pegmatito, caracterizadas por maior poro-
sidade, conteúdo e tamanho de minerais
Os principais acessórios são mus- acessórios como muscovita, albita, e clea-
covita, amazonita, albita, cleavelandita, velandita, e por apresentarem fieiras de
berilo, granada, magnetita, e mais raramen- massas argilosas amareladas, enferrujadas
te fluorita. A amazonita em cores verdes ou enegrecidas. Via de regra, o K-feldspato
18
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
dos bolsões exibe corrosão e o quartzo, estado, o qual atualmente está submerso
além do tipo maciço, leitoso a acinzentado, pelas águas de um açude. A esmeralda
apresenta cristais bem formados e desen- deste depósito foi pioneiramente estudada
volvidos da variedade hialina e enfumaça- por Vasconcelos (1984), assinalando que a
da. Tanto nos bolsões como fora deles a gema tem cor verde claro a intermediário
água marinha está intimamente associada em cristais hexagonais com até 2cm de
ao berilo industrial e este ao quartzo (Fo- comprimento por 1cm de diâmetro, ocor-
to 1); o berilo incluso no feldspato róseo, rendo em veios de quartzo e veios aplíticos
via de regra, não cristaliza a água marinha. e pegmatóides, interfoliados em biotita-
No cristal de berilo a gema pode substituí- flogopita-xisto de forma lenticular, o qual
lo inteiramente ou ocupa partes do berilo está encaixado concordantemente em or-
como o núcleo, periferia ou zonas do cris- tognaisses do Complexo Caicó. Com base
tal. em análises gemológicas conclui-se que a
esmeralda de Pitombeiras tem cristalização
Segundo Argentière (1977) a cor satisfatória e razoável aproveitamento para
do berilo é função do teor de BeO; quanto lapidação.
menor este teor mais esbranquiçada é a
cor e mais rara a formação de água mari- Durante os trabalhos de campo
nha. O referido autor assinala que um beri- deste Projeto foram registradas sete ocor-
lo esbranquiçado proveniente de Carnaúba rências da rocha hospedeira da esmeralda,
dos Dantas apresentou 9% BeO, enquanto designada de biotitito máfico, a partir do
noutros berilos verde-azulados da região os jazimento de Pitombeiras e seguindo para
teores variaram de 11,3% a 12,9% BeO. norte, formando um trend descontínuo com
Comumente o berilo contém pequenas extensão de 20km.
quantidades de álcalis, mas a composição
química teórica do mineral puro é 14% A ocorrência (119) do extremo nor-
BeO, 19% Al2O3 e 67% SiO2. te dessa faixa linear encontra-se na área
urbana da cidade de Marcelino Vieira, onde
A cor mais freqüente da água mari- próximo do biotitito aflorante ocorre um veio
nha do Rio Grande do Norte é azul claro, de quartzo impregnado de molibdenita.
sendo o azul médio mais valioso e menos Verificou-se que as lentes alinhadas de
comum. A variação de tonalidade é atribuí- biotitito se dispõem numa zona de cisalha-
da à concentração dos íons de ferro na mento transcorrente dextral, associada à
estrutura cristalina. A água marinha pode extensa zona de cisalhamento de Portale-
ser límpida ou apresentar inclusões sólidas gre, estruturada na direção NNE. Além
e líquidas diversas, sendo também quebra- destas, a cerca de 15km ao norte da cidade
diça e sensível a pressão. O tratamento de Marcelino Vieira existe outra ocorrência
térmico à temperatura de 400ºC torna a cor do biotitito (113) na margem leste do açude
azul mais escura e homogênea, aumentan- de Pau dos Ferros, também relacionada à
do o valor da pedra. zona de cisalhamento de Portalegre.
4.1.2 Esmeralda A análise gemológica de três pe-
quenos fragmentos de esmeralda, obtidos
A esmeralda, variedade gema de de um garimpeiro como procedentes deste
cor verde de berilo, é uma das mais cobi- depósito, revelou cor verde fraco a médio,
çadas e valiosas pedras preciosas. De translúcido a transparente, e ótimo poli-
acordo com Schwarz (1987) sua cor é de- mento com óxido de cromo, indicando ge-
corrente da presença de cromo e vanádio ma de boa qualidade. No leito do rio Apodi,
na rede cristalina, mas o ferro também município de Tabuleiro Grande, aflora uma
exerce influência na cor verde do cristal. lente de rochas metabásicas com anfibólio
e biotita que pode representar um indício
O Rio Grande do Norte não é pro- de esmeralda (110). A esta rocha se asso-
dutor de esmeralda, mas existe um jazi- ciam um corpo pegmatítico e um nível
mento na fazenda Pitombeiras (125), muni- asbestífero, posicionando-se a oeste da
cípio de Paraná, no extremo sudoeste do zona de cisalhamento de Portalegre.
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
(CPRM), revelaram teores elevados de
As melhores e mais significativas MgO, Cr e Ni, e baixo Al2O3 (Tabela 1),
exposições do biotitito hospedeiro da es- evidenciando uma rocha original de nature-
meralda ocorrem na Fazenda Albuquerque za básico-ultrabásica. Os teores relativa-
de Fora (121), município de Tenente Ana- mente altos de Be e Li sugerem interação
nias (Foto 2). Nesta área foi aberta uma metassomática com pegmatitos ácidos, e o
trincheira direcional com 25m de compri- elevado conteúdo de bário prenuncia ativi-
mento, e 15m mais a norte um poço com dade hidrotermal.
13m de profundidade, estando as duas
escavações interligadas por uma galeria. O Na tabela constam também resul-
biotitito verticalizado, de direção N15ºE, tados analíticos da rocha hospedeira de
espessura variável de 5m a 10m, pode ser esmeralda de Santa Terezinha de Goiás,
observado por uma extensão da ordem de os quais mostram igualmente conteúdos
100m. Ele inclui boudins de rocha maciça, expressivos de MgO, Cr e Ni, e baixo
acinzentada e de granulação muito fina, e Al2O3, mas os teores em sílica são meno-
vênulas microdobradas de quartzo conten- res do que os do biotitito do Rio Grande do
do pequenos cristais de berilo verde, al- Norte, provavelmente devido ao enriqueci-
guns exibindo transparência e provável mento desta rocha em segregações quar-
característica gemológica. Parte do biotitito tzosas.
está em contato com um dique de pegmati-
to, e ambos estão encaixados concordan- Ao contrário do biotitito potiguar, a
tes em ortognaisses do Complexo Caicó. A rocha esmeraldífera de Santa Terezinha
análise petrográfica da rocha hospedeira apresenta teores muito altos de perda ao
classificou-a como biotitito com tremolita- fogo (PF), em razão da forte hidratação e
actinolita de textura milonítica, e os boudins ao elevado conteúdo de CO2, uma vez que
são milonitos constituídos de microclina, esta rocha sofreu carbonatação. Da com-
amplamente dominante, quartzo, plagioclá- paração do quimismo das duas litologias
sio e biotita, tendo como acessó-rios mica observa-se ainda que ambas sofreram
branca, opaco, berilo e titanita. aporte de potássio que resultou na forma-
ção de biotita e flogopita.
Uma amostra de biotitito com se-
gregação de quartzo incluindo raros dimi- A importância econômica e pros-
nutos cristais de berilo verde, coletada na pectiva da aludida faixa é reforçada devido
exposição de uma trincheira, foi submetida a certas similaridades com a tipologia dos
a análise gemológica que descreveu berilo principais depósitos de esmeralda do Brasil
de cor verde fraco a médio, transparente a e do mundo, caracterizada pela associação
translúcido, exibindo excelente polimento de rochas máficas e ultramáficas, ou de
com óxido de cromo. As dimensões dos seus derivados metamórficos, fornecedores
cristais não foram suficientes para a carac- de cromo, vanádio e ferro, e de pegmatitos
terização completa da variedade esmeral- fornecedores de berílio, em ambiente for-
da. temente tectonizado; as rochas hospedei-
ras da esmeralda são predominantemente
Outra amostra, obtida de um ga- biotita-flogopita xistos ou actinolita-tremolita
rimpeiro que atuava na área foi descrita xistos (Schwarz, 1987; Santana et al.,
como esmeralda mas continha fraturas e 1995; Lacerda Filho et al., 1998).
inclusões. Um berilo doado por um garim-
peiro da área como procedente do garimpo 4.1.3 Berilo para Coleção
o
Pitombeira II (n 126) foi definido no labora-
tório gemológico como uma esmeralda Nos pegmatitos berilíferos do Rio Grande
verde média a forte, transparente, de ótimo do Norte são encontrados belos cristais
polimento, revelando gema de excelente bem desenvolvidos de berilo que, embora
qualidade. As análises químicas de três
amostras do biotitito, realizadas no LAMIN
20
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
Amostra
JF-05 JF-07 JF-08 (4)
Elemento
SiO2 (1) 51,60 60,50 61,40 33,10 - 44,43
TiO2 0,42 0,63 1,00 0,18 - 0,23
Al2O3 5,20 8,00 11,30 1,22 - 10,43
Fe2O3 2,40 2,60 2,30 1,32 - 3,15
FeO 5,00 4,10 3,20 1,79 - 3,36
MnO 0,17 0,10 0,06 0,03 - 0,14
MgO 19,40 11,70 6,20 20,40 - 29,00
CaO 9,00 5,00 5,00 0,70 - 4,16
Na2O 0,41 1,10 2,30 0,85 - 1,40
K2O 3,80 4,80 5,60 0,69 - 6,26
P2O5 0,40 0,97 0,91 0,04 - 0,14
PF 1,60 0,88 0,65 14,00 - 24,25
Cr (2) 780 610 300 1000 - 5000
Ni 857 382 187 300 - 1000
Co 57 36 24 50 - 100
V 64 80 64 30 - 150
Be 27,9 93,0 18,2 20 - 1000
Ba 240 880 2560 50 - 200
Cu 19 5 5 ----
Li 168 114 56 ----
Mo N (3) N N ----
(1) - Óxidos em % peso.
(2) - Elementos traços em ppm.
(3) N - não detectado.
(4) - Teores de 4 amostras de talco-flogopita-biotita xisto carbonático hospedeiro
da esmeralda de Santa Terezinha de Goiás (Schwarz, 1987).
o
Amostra JF-05: Jazimento n 121, Fazenda Albuquerque de Fora, município
de Tenente Ananias.
o
Amostra JF-07: Jazimento n 123, Sítio Aroeira, município de Paraná.
o
Amostra JF-08: Jazimento n 120, Povoado Panati, município de Marcelino Vieira.
Tabela 1 - Análises Químicas do Biotitito Hospedeiro da Esmeralda do Rio Grande do Norte
não constituam gemas, são comercializa- são encontrados belos cristais de berilo
dos como peças valiosas para colecionado- parcialmente inseridos em prismas de fel-
res e museus. Representando este tipo de dspato róseo.
pedra semi-preciosa foram cadastrados
dois jazimentos no município de Lajes Pin- O garimpo da fazenda Tapera II
tadas, os quais só produziram berilo para (37), localizado a cerca de 2km a sudeste
coleção, através de numerosas escavações da cidade de Lajes Pintadas, consta de um
de garimpeiros. Os cristais selecionados pegmatito com cerca de 100m de compri-
para coleção têm cor azul ou verde e di- mento e 5m de largura, constituído de fel-
mensões variáveis de 10cm a 25cm de dspato gráfico e muscovita, incluindo um
comprimento e diâmetro de 2cm a 6cm, núcleo central de quartzo maciço, leitoso a
sendo extraídas peças individuais, agrega- róseo. O quartzo leitoso contém esporádi-
dos de cristais parcialmente imersos no cos aglomerados de pintas de molibdenita.
quartzo maciço leitoso, e mais raramente Os cristais de berilo nas cores azul e verde
associado a cristais bem desenvolvidos de ocorrem na zona de contato do núcleo de
quartzo hialino e enfumaçado. Também quartzo, como também no seu interior
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
(Foto 3). O garimpo do sítio Riacho Fecha- ciada por colecionadores, é o tipo de tur-
do I, situado a cerca de 1km ao sul da ci- malina mais abundante no mundo, e nos
dade de Lajes Pintadas, tem um pegmatito pegmatitos do Rio Grande do Norte ocorre
fracamente mergulhante com extensão em cristais centimétricos a decimétricos,
aflorante da ordem de 70m e espessura de por vezes em grandes concentrações nas
3m a 4m, composto de feldspato gráfico in- zonas de contato com as encaixantes, ou
cluindo bolsões irregulares de quartzo ma- nas bordas do núcleo de quartzo dos cor-
ciço, leitoso. Eventualmente, o feldspato pos heterogêneos. Os cristais estão inseri-
gráfico contém pequenas massas de mag- dos no quartzo (Foto 4), nos feldspatos e
netita e ninhos de diminutos cristais de nas micas, mas os de maiores dimensões
granada. Os cristais de berilo têm cor azul estão associados ao quartzo e são vendi-
e ocorrem no feldspato gráfico e nos bol- dos para colecionadores. Segundo o Anuá-
sões de quartzo. rio Mineral Brasileiro (1996) as exportações
de schorlita bruta em 1994 somaram 23t,
4.2 Grupo das Turmalinas no valor FOB de 212 mil dólares, o que
representa US$ 9,2/kg.
A turmalina é um borossilicato de
alumínio complexo de dureza 7,5, densida- A turmalina ocupa o segundo lugar
de relativa 3,02 - 3,26, índice de refração em abundância de jazimentos de gemas no
1,616 - 1,652, que cristaliza no sistema estado, sendo superada apenas pela água
hexagonal, cujos prismas apresentam fa- marinha. No presente trabalho foram cata-
ces com finas estrias verticais. O mineral logados 19 jazimentos de turmalinas nas
possui propriedades piroelétricas e piezoe- cores azul, verde e rósea, em cristais ge-
létricas, isto é, desenvolve carga elétrica, ralmente pequenos com 0,5cm a 4cm de
podendo polarizar a luz quando submetido comprimento. Todos os jazimentos estão
a aquecimento, compressão ou vibração. encaixados nos metassedimentos do Gru-
Por essas propriedades a turmalina é usa- po Seridó, sendo que a grande maioria
da na indústria eletrônica e de instrumentos (14), representando 73,7% do total, está
óticos. encaixada em muscovita-quartzitos da
Formação Equador. O metaconglomerado
A turmalina pode formar gemas cu- pertencente a esta mesma formação encer-
jo valor é função da transparência, limpidez ra três jazimentos, e apenas dois jazimen-
do cristal e da cor. É o mineral que exibe a tos estão alojados no biotita-xisto da For-
maior variedade de cores, recebendo em mação Seridó. Nesta formação também se
o
função delas as seguintes denominações: encontra o jazimento n 101, localizado no
acroíta incolor, rubelita ou elbaíta rósea sítio Quintos de Cima, município de Equa-
avermelhada (contém sódio, potássio ou dor, que além de ser um pegmatito porta-
lítio), verdelita verde, indicolita azul, dra- dor de água marinha, contém indicolita.
vita amarela a marrom (menos comum e
contém magnésio), schorlita ou afrizita A vocação das turmalinas gemas
preta, e siberita lilás ou azul violeta. Exis- em pegmatitos intrusivos nos quartzitos da
tem ainda combinações de cores como Formação Equador é também registrada no
róseo no centro do cristal e verde nas bor- estado da Paraíba, onde se encontra a
das, e bicolor com uma zona azul e outra maior jazida de indicolita do Brasil, em São
verde. O Brasil é bem conhecido como José da Batalha, município de Salgadinho.
produtor de turmalinas-gema em várias Pode-se afirmar que a turmalina é um mi-
cores. neral típico de pegmatitos heterogêneos ou
complexos, os quais normalmente apresen-
No Rio Grande do Norte os tam também minerais de lítio e albita. Es-
pegmatitos portadores de indicolita, rubeli- ses pegmatitos se caracterizam por um
ta, verdelita e turmalina bicolor, se distri- zoneamento definido por um ou mais nú-
buem ao longo de 35km entre os municí- cleos de quartzo maciço, envolvidos por
pios de Parelhas e Equador. A schorlita, uma zona com predominância de grandes
variedade opaca e rica em ferro, de menor cristais de feldspatos onde se localizam as
interesse gemológico, porém muito apre- gemas. Em geral, esta zona mostra-se
22
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
fortemente caulinizada nos pegmatitos dores. Existem várias designações para o
encaixados nos quartzitos. quartzo: ametista cor violeta, citrino ama-
relado, enfumaçado ou fumê cinza,
Geralmente, os pegmatitos porta- morion quase preto. Além dessas espécies
dores de turmalinas gemas são concordan- cristalinas, existem as variedades cripto-
tes em direção com a foliação das suas cristalinas como a calcedônia, ágata,
encaixantes, mas discordantes em mergu- ônix, sílex, chert, jaspe, prásio, e amor-
lho. Contudo, seis desses corpos encaixa- fas como as opalas. Segundo Oliveira
dos na Formação Equador são discordan- (1990) o Brasil é o maior produtor mundial
tes, pois eles preenchem fraturas de dire- de ametista e quartzo rosa, sendo o Rio
ção geral E-W. As dimensões dos pegmati- Grande do Sul e Minas Gerais os principais
tos turmaliníferos dessa região são muito responsáveis pela produção desses mine-
variáveis, com dezenas e até algumas cen- rais.
tenas de metros de comprimento, e espes-
suras de um metro a um máximo de 40m, Nos pegmatitos do Rio Grande do
desenvolvendo formas lenticulares a dis- Norte o quartzo ocorre basicamente sob
cóides. duas formas: em grãos vítreos e fragmen-
tos angulosos, milimétricos a centimétricos,
No início da década de 1940 a re- intercrescidos com feldspatos, e em bol-
gião de Parelhas-Equador foi palco de in- sões diferenciados, por vezes de dimen-
tensa atividade extrativa mineral com a sões métricas. O quartzo desses bolsões
produção de berilo e tantalita-columbita, tem hábito maciço e a cor mais comum é
provenientes de numerosos pegmatitos. branco leitoso, e eventualmente exibe
Posteriormente e até o presente, muitos manchas róseas, azuladas, ou cinza. No
desses corpos passaram a ser trabalhados presente trabalho foram cadastrados oito
para a produção de feldspato e caulim, jazimentos de ametista e um de quartzo
ambos de excelente qualidade para a in- róseo (Anexo I). Mas, muitos pegmatitos
dústria de cerâmica branca. Os pegmatitos produtores de berilo, água marinha ou tur-
intrusivos nos quartzitos da Formação malina encerram belos cristais bem desen-
Equador são caracteristicamente cauliniza- volvidos, principalmente dos tipos hialino,
dos. A muscovita também vem sendo apro- enfumaçado e leitoso, por vezes com di-
veitada comercialmente em vários pegmati- mensões decimétricas. Esses cristais for-
tos da região. Esta mica é largamente do- mam agregados e drusas nos bolsões mi-
minante, em especial nos corpos encaixa- neralizados, ou nos bordos e interior do
dos em quartzitos. No começo da década quartzo maciço.
de 1990 despertou-se o interesse pelas
turmalinas gemas e vários corpos torna- 4.3.1 Ametista
ram-se produtores dessas pedras.
Dos oito jazimentos de ametista
4.3 Grupo do Quartzo cadastrados, em seis ela está contida em
veios de quartzo e em dois ela se encontra
O quartzo tem fórmula química em zonas quartzosas de pegmatitos, e
simples SiO2 (óxido de silício), e é o mine- todos eles estão encaixados em ortognais-
ral mais abundante na crosta terrestre, ses. Em dois jazimentos de água marinha
ocorrendo tanto nas rochas ígneas, princi- (40 e 50) do município de Lajes Pintadas, a
palmente as graníticas, quanto nas sedi- ametista também ocorre no pegmatito. No
mentares e metamórficas, sendo o principal da Fazenda Tapera I (40) a ametista, em
constituinte dos arenitos e quartzitos, assim lascas e de qualidade gemológica, ocorre
como dos pegmatitos. O quartzo pode se juntamente com água marinha em bolsões
apresentar na forma de grãos, massas e diferenciados. De um modo geral, a ametis-
cristais, e com as mais variadas cores co- ta desses depósitos têm cores claras e
mo incolor, branco, róseo, azul, cinza, ama- impurezas que não conferem qualidade
relo. Muitos tipos de quartzo são usados para uso como gema. Além disso, os veios
como gema, e os cristais grandes bem de quartzo são estreitos, com espessura
formados são peças valiosas de coleciona- variando de 0,2m a 1,0m e dentro deles a
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
ametista se aglomera em cavidades distri- de quartzo róseo, denominado de Capoeira
buídas aleatoriamente. O jazimento de o
o
III (n 80), no município de Parelhas, cujo
ametista da Fazenda Azeredo (n 1, Ane- pegmatito contém um potente núcleo de
xo I) consta de um veio de quartzo de natu- quartzo com cor rosa dominante. Este pe-
reza cavernosa, de direção E-W e mergu- gmatito tem 750m de comprimento na dire-
lho vertical, com extensão aflorante da ção E-W e 25m de largura, e está encaixa-
ordem de 30m e espessura de 0,6m, en- do discordantemente no metaconglomera-
caixado discordantemente em ortognaisse. do da Formação Equador. O corpo é zona-
Amostras da ametista submetidas a análise do, distinguindo-se das bordas para o cen-
gemológica revelaram cor violeta fraco, tro as seguintes zonas: delgada faixa com
translúcida, sem interesse para lapidação. quartzo, feldspato, schorlita e granada
o
avermelhada; zona espessa de pegmatito
O jazimento do Sítio Baliza (n 115, homogêneo com quartzo, feldspato e mus-
Anexo I) é representado por um pegmatito covita; zona potente com grandes massas
gráfico com largura aflorante estimada de de feldspato róseo incluindo bolsões com
6m e extensão aflorante da ordem de muscovita, albita, clevealandita, ambligoni-
100m, encaixado subconcordante em orto- ta, espodumênio, litiofilita, digenita, turmali-
gnaisse de atitude N30ºE/85ºSE. A ametis- nas coradas, tantalita-columbita e minerais
ta roxa em cristais e fragmentos centimétri- secundários de cobre (Oliveira, 1996); e a
cos, ocorre em cavidades, juntamente com zona mais interna, com 1m a 5m de potên-
cristais bem formados de quartzo, no seio cia, de quartzo róseo. Este pegmatito já foi
de um núcleo de quartzo maciço, leitoso a produtor de feldspato.
cinza, com cerca de 1m de espessura, o
qual faz parte do pegmatito. A análise ge- 4.4 Lazulita
mológica de fragmentos de ametista cole-
tados no antigo rejeito do garimpo classifi- A lazulita é um mineral azul de bri-
cou as pedras com boa transparência, cor lho vítreo que constitui o membro rico em
violeta fraca a média, inclusive exibindo magnésio de uma série isomórfica de fór-
zonação de cor, e mostrando ótimo poli- mula química geral (Mg, Fe)Al2 (PO4)2
mento com trípole, indicando material ade- (OH)2, ou seja, fosfato básico de magnésio,
quado para lapidação de jóias. ferro e alumínio, onde o ferro ferroso subs-
titui o magnésio formando o mineral
Silva et al. (1997) se referem à scorzalita, que também tem cor azul, repre-
ocorrência de ametista do garimpo Mane- sentando o outro membro da série.
o o
one (coordenadas 6 51'15" - 36 37'30"),
situado no município de Parelhas. A ame- Os jazimentos de lazulita do Rio
tista ocorre em pegmatito heterogêneo Grande do Norte se agrupam no município
encaixado no xisto da Formação Seridó. de Parelhas, a cerca de 12 km a sudeste
desta cidade, numa área localizada a leste
No que tange ao aproveitamento da anticlinal da Serra das Queimadas. Nes-
comercial, algumas ametistas adquirem a ta área foram cadastrados seis jazimentos
cor amarela quando submetidas a tempera- os
de lazulita (Tabela anexa n 83 a 88), to-
turas entre 450ºC e 500ºC, e elas são co- dos formados em pegmatitos encaixados
nhecidas no mercado pelos nomes de to- discordantemente em cordierita-granada-
pázio-rio-grande, topázio espanhol, to- biotita xistos da Formação Seridó. Na área
pázio citrino, topázio ouro ou falso existe uma profusão de pegmatitos desta-
topázio (Limaverde, 1980). cados na topografia, que são considerados
estéreis, enquanto os mineralizados estão
4.3.2 Quartzo Róseo arrasados, no mesmo nível do terreno do
xisto encaixante, e todos esses corpos
Vários pegmatitos da região de Pa- preenchem fraturas com direções va-
relhas-Equador e Lajes Pintadas apresen- riando de N55º E a N80ºE. Diniz et al.
tam núcleos de quartzo maciço leitoso com (1990) se referem a presença de lazulita no
zonas e manchas de cor rósea. Neste tra- pegmatito João do Fogo, município de Car-
balho foi cadastrado apenas um jazimento naúba dos Dantas.
24
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
superior ao dobro do ferro, caracterizando
Os pegmatitos a lazulita têm es- a lazulita. Nela identificou inclusões de
pessura variável de 2m a 10m, extensão muscovita, quartzo e schorlita, além de
aflorante de 80m a 160m, sendo constituí- fissuras e microcavidades. Em amostras
dos essencialmente de feldspato branco, deste pegmatito observou-se ao microscó-
quartzo leitoso e muscovita em livros e pio grandes cristais de albita sem gemina-
grandes placas. Além da lazulita os aces- ção, fluorita, quartzo, muscovita, ortoclásio
sórios mais freqüentes, visíveis a olho nú, e carbonato; verificou que a fluorita é pos-
são: schorlita, tantalita, berilo, arrojadita e terior à muscovitização e que o carbonato
ambligonita . Geralmente, os corpos apre- preenche fraturas da albita. Em outras lâ-
sentam enriquecimento em schorlita nos minas o autor descreve um pegmatito for-
bordos, e incluem um núcleo descontínuo mado por feldspatos (albita límpida e sani-
de quartzo leitoso. A lazulita, em massas dina argilizada), quartzo, lazulita, muscovi-
azuis de até cinco quilos, por vezes ocorre ta, apatita e raros opacos. Do estudo ge-
associada a ambligonita, e mais frequen- mólogico conclui-se que a lazulita pode ser
temente ao feldspato, quartzo e muscovita, aproveitada como gema opaca, acentuan-
apresentando-se bem desenvolvida na do pedras polidas em cabuchões de alto
zona de contato com o núcleo de quartzo. brilho.
Esses pegmatitos já foram produtores de
tantalita e berilo, e a muscovita é extraída 4.5 Granada
atualmente em alguns deles. No núcleo de
quartzo do “Alto” Carnaúba dos Bezerras A granada constitui uma família de
(86), no Sítio Carnaúba, foram observadas minerais silicatados que se cristaliza no
pequenas massas de pirita, calcopirita e sistema cúbico em formas geralmente do-
cassiterita. Neste pegmatito encontrou-se decaédricas, transparente a semitranspa-
um bloco de 4kg de lazulita maciça incluin- rente, de brilho vítreo, cujas espécies mais
do uma massa de tantalita com 5cm de comuns são: almandina de cor vermelha
lado, fragmentos de quartzo e lamelas de escura e rica em ferro; grossularita rica
muscovita (Foto 5). em cálcio, nas cores verde, amarela e mar-
rom; espessartita alaranjada e rica em
No pegmatito “Alto” Bela Vista (88), manganês; piropo vermelha amarronzada
no sítio Gamenha, o feldspato dominante e rica em magnésio; andradita preta, verde
tem cor rósea. O corpo Dr. Ulisses II (85), ou amarela, rica em cálcio e ferro; e uva-
também chamado “Alto” Azul, produziu rovita rica em cálcio e cromo, geralmente
blocos de lazulita maciça, azul celeste, em pequenos cristais de cor verde.
pesando até 5 quilos, a qual ocorre na zona
de contato de feldspatos com um núcleo de A granada é um mineral comum
quartzo (Rolff, 1946). nas rochas cristalofilianas do Rio Grande
do Norte, ocorrendo principalmente nos
Leite (1984) assinala a presença de micaxistos da Formação Seridó, sob a for-
arrojadita e apatita, além de lazulita, no ma de diminutos cristais vermelho escuros
pegmatito da Fazenda Preás (83), e que a da variedade almandina. Também é um
lazulita nas cores azul claro e azul escuro acessório freqüente dos pegmatitos, e em
ocorre no contato do núcleo de quartzo e muitas rochas calcissilicáticas formam-se
no seio do pegmatito homogêneo, associa- grandes cristais de grossularita marrom.
do ao feldspato, quartzo e muscovita. Ba-
seado em análises petrográficas, químicas No estado foram cadastrados qua-
e difratograma característico com magnésio tro jazimentos de granada gema, tendo três
os
predominando sobre o ferro no mineral, deles (Anexo I), n 74, 76 e 100, pegmati-
o
concluiu que se trata da lazulita. As porcen- tos como rocha hospedeira e o de n 75 é
tagens médias dos principais óxidos consti- representado por um sill de rocha ácida
tuintes de sete amostras do mineral foram: branca. Dois desses corpos (74 e 75) estão
45,0% P2O5; 28,8% Al2O3; 8,5% encaixados em granada-biotita xistos da
MgO; 6,7%CaO e 3,7% FeO + Fe2O3. Ob- Formação Seridó e os outros dois (76 e
serva-se que o teor médio de magnésio é 100) estão encaixados em muscovita-
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
quartzitos da Formação Equador. O jazi- gráfico e muscovita; uma zona intermediá-
mento da Fazenda Cabeço Branco (74), ria rica em albita, schorlita em prismas com
município de Acarí, corresponde a um pe- até 15cm de comprimento, e muscovita em
queno dique de pegmatito com 0,2m-0,4m livros; observam-se esporádicos ninhos de
de espessura e cerca de 50m de extensão granada avermelhada, opaca a translúcida;
aflorante, preenchendo uma fratura com a zona mais interna é formada por núcleo
atitude N55ºW/80ºSW, cortando o micaxis- descontínuo de quartzo leitoso que atinge
to com atitude N20ºE/85ºNW. O corpo 1m de possança. A granada gema, da
compõe-se de feldspato branco, quartzo e variedade espessartita, ocorre em bolsões
muscovita em lamelas bem desenvolvidas. irregulares geralmente bordejando o núcleo
A granada, em cristais vermelhos, transpa- de quartzo, os quais são constituídos de
rentes a translúcidos, com até 1cm de diâ- albita, quartzo, lepidolita, tantalita e musco-
metro, ocorre dispersa no corpo pegmatíti- vita, além de ninhos de granada verde e
co. Alguns cristais foram descritos como opaca. Cristais milimétricos coletados no
opacos a translúcidos na análise e não rejeito antigo do garimpo foram analisados
constituem gema. no laboratório gemológico, descrevendo cor
alaranjada, opaco e translúcido e classifi-
Na Fazenda Cajueiro (75), municí- cado como gema. Ferreira (1984) também
pio de Acarí, jaz um sill de rocha granitóide identificou nesses bolsões mais duas ge-
branca, de granulação dominante média, mas raras, a gahnita e o euclásio rosa. A
com 0,5m de espessura e 80m de extensão primeira é um espinélio de zinco, com fór-
aflorante, impregnado de cristais de grana- mula ZnOAl2O3, cor verde transparente,
da vermelha, transparente a translúcida, dureza 7,5-8,0, densidade 4,5, boa cristali-
com até 5cm de diâmetro (Foto 6). O con- zação e poucas inclusões. Os teores dos
tato do sill com o micaxisto encaixante é principais componentes deste mineral são
concordante em direção, mas discordante 28,0%Zn e 47,2%Al2O3. O euclásio, mineral
em mergulho. Petrograficamente a rocha do grupo da datolita, é prismático, de brilho
revela certa orientação tectônica e é consti- vítreo, geralmente incolor, nos bolsões da
tuída por quartzo (67%) em agregados, Fazenda Mirador ocorre escassamente em
sillimanita (17%) em feixes aciculares e pequenos cristais de cor rosa pálido, o
plagioclásio (10%), localmente desestabili- maior deles pesando menos de 2g, e quase
zando para mica branca (1%). A granada, sempre substituindo o berilo. Nos bolsões
em cristais bem desenvolvidos, está dis- foram ainda registradas as presenças de
seminada na rocha em concentração da apatita rosa e bicolor (rosa e verde), e zir-
ordem de 4%, e também foi notada a pre- cão. A análise química da espessartita
sença do espinélio pleonasto (1%). Os acusou um teor médio de 28,5% de man-
cristais analisados no laboratório gemológi- ganês.
co não mostraram qualidade para jóias.
O jazimento da Serra do Pinto
Dos quatro jazimentos investiga- (100), município de Equador, é representa-
dos, o da Fazenda Mirador (76), próximo do por um pegmatito com cerca de 10m de
ao povoado Ermo, município de Carnaúba largura, aflorando descontinuamente por
dos Dantas, é o mais importante de todos, 90m, constituído de K-feldspato róseo,
tanto pela qualidade da gema, como pelo albita, quartzo e muscovita. O corpo exibe
porte do depósito. A granada, em belos uma zona irregular de quartzo leitoso com
cristais transparentes alaranjados, com até esporádicas lamelas de biotita, e sua en-
1cm de diâmetro, está hospedada num caixante é o quartzito, localmente silicifica-
pegmatito, em contato brusco e discordante do, com atitude N20ºE/65ºNW. A granada,
com muscovita quartzito (Foto 7). O peg- em cristais róseos avermelhados, transpa-
matito com extensão aflorante de 80m e rentes a translúcidos, com até 2cm de diâ-
espessura máxima de 4m, preenche uma metro, se dispõe em bolsões compostos de
fratura de atitude E-W/90º que corta o quar- quartzo hialino e enfumaçado bem cristali-
tzito com atitude N-S/40ºE. zado, grandes prismas de schorlita,
O pegmatito é heterogêneo com K-feldspato róseo, albita e clevealandita. O
uma zona externa formada de feldspato estudo em laboratório de algumas grana-
26
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
das obtidas no afloramento do pegmatito, cha apresenta textura lepidoblástica, com-
revelou excelente polimento com óxido de posta essencialmente de escamas de fucsi-
cromo em cristais transparentes, de cor ta (46%), entremeadas com faixas de mi-
vermelho médio, concluindo tratar-se de croclina (44%) e plagioclásio (8%), expres-
boa gema para lapidação. sivo conteúdo acessório de rutilo (2%),
além de raros grãos disseminados de co-
4.6 Coríndon ríndon, alguns com hábito prismático. Esta
rocha foi classificada como fucsita xisto
O coríndon é um mineral de alta com rutilo e rubí. A análise mineralógica da
dureza (9), brilho adamantino a vítreo, de rocha revelou a presença de rutilo e grãos
fórmula química simples Al2O3 (óxido de submilimétricos avermelhados de rubí, e a
alumínio), encontrado sob a forma de análise por fluorescência de raios X detec-
grãos, massas informes, ou cristais prismá- tou a presença de cromo, elemento res-
ticos a piramidais. Ele possui duas impor- ponsável pela cor vermelha da gema. As
tantes variedades gemológicas o rubí que características óticas e químicas do mineral
tem a cor vermelha, e a safira cuja cor permite identificá-lo como rubí ou safira
mais distintiva é azul, mas também pode rosa. A ocorrência Alto do Balanço parece
ser incolor, púrpura, dourada ou rósea. No similar a de Baguarí, Minas Gerais, referida
presente trabalho foram cadastrados dois por Cassedanne et al. (1987).
jazimentos de coríndon, incluindo estas
duas gemas. 4.7 Cordierita
o
No jazimento n 6 (Anexo I) locali- A cordierita é um silicato de alumí-
zado na Fazenda Sombra, município de nio e magnésio de brilho vítreo, transparen-
São Pedro do Potengí, o coríndon ocorre te a translúcido, dureza 7-7,5 e cor azula-
em cristais centimétricos, opacos a translú- da, cuja variedade gema é denominada
cidos, alguns com bandas azuis transpa- iolita ou safira d’água. A cordierita é um
rentes da safira, dispersos na encosta de mineral acessório freqüente nos xistos da
uma pequena elevação. A mineralização Formação Seridó, onde se apresenta sob a
parece estar associada às zonas de conta- forma de discos centimétricos revestidos
to de corpos pegmatíticos com rochas ul- por micas.
tramáficas que afloram no local e são cor-
tadas por uma zona de cisalhamento dex- No Rio Grande do Norte foi cadas-
o
tral. As ultramáficas foram classificadas trado um jazimento de iolita (n 77, tabela
petrograficamente como carbonato serpen- anexa), localizado na Fazenda Suçuarana,
tinito e plagioclásio diopsidito (Amaral, município de Parelhas, onde a gema ocorre
1990). em massas centimétricas de cor azul violá-
cea (Foto 9), algumas exibindo faces es-
o
O jazimento de rubí (n 114, Ane- triadas, imersas em veios de quartzo maci-
xo I), o primeiro a ser descrito no estado, ço e granulado, contendo esporádicos
está situado no Sítio Alto do Balanço, mu- prismas de albita, cristais milimétricos de
nicípio de Antonio Martins, extremo sudo- granada vermelha e micas, sobretudo bioti-
este do estado. Trata-se de uma ocorrência ta. Os veios, atingindo espessura máxima
ainda não prospectada ou pesquisada em de 0,5m e extensão aflorante de 60m, es-
que a gema, em minúsculos grãos, está tão interfoliados em granada-biotita xistos
dispersa numa rocha foliada verde, de ati- da Formação Seridó, com atitude local
tude E-W/80ºN, aflorando por cerca de N10ºE/65ºNW. Na zona de contato do xisto
60m e com largura estimada de 6m a 8m, com os veios a iolita, há um enriquecimento
no alto de uma colina, encaixada em or- em granada e biotita em lamelas bem de-
tognaisses com atitude E-W/20ºN, incluindo senvolvidas. O xisto apresenta inúmeras
pequenos corpos de pegmatito. A cor verde vênulas e boudins de quartzo estirados e
da rocha é devido a lamelas orientadas e paralelos à foliação. A cerca de 50m do
bem desenvolvidas de fucsita que se alter- jazimento aflora um pegmatito com cerca
nam com leitos brancos a róseos de fel- de 100m de extensão , encaixado concor-
dspatos (Foto 8). Ao microscópio esta ro- dantemente no xisto. A análise gemológica
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
de amostras de cordierita, coletadas no Ferreira (1997) cita várias minerali-
rejeito do garimpo e no afloramento do zações de euclásio em pegmatitos, todos
veio, descreveu fragmentos de cor azul fazendo parte do Distrito Gemológico Sul
médio a fraco, transparentes, de ótimo (DS), e considera que esta região concen-
polimento com trípole e de boa aplicação tra o maior número de ocorrências da gema
como gema para lapidação. no Brasil, onde ela já foi identificada em
pelo menos doze corpos. No município de
4.8 Euclásio Parelhas o autor se reporta às ocorrências
de euclásio no Alto Antonio Trindade, na
O euclásio é um mineral raro asso- fazenda Quintos de Cima, que produziu
ciado às paragêneses dos pegmatitos gra- 200kg da gema; Alto da Mata que produziu
níticos. Constitui uma das numerosas ge- menos de 2kg de euclásio, mas muita tan-
mas formadas pelo elemento berílio. Qui- talita; Alto Aroeiras, na fazenda Quintos do
micamente é um silicato básico de berílio e Meio, com cristais cinza-azulados semi-
alumínio, de fórmula Be Al SiO4 (OH) e transparentes.
exibe cristais monoclínicos estriados de
brilho vítreo, ricos em faces, com boa cliva- No município de Equador foram
gem, dureza 7,5 e densidade 3. Geralmen- observadas ocorrências no Alto Olho
te são incolores, mas também exibem vá- d’Água dos Mamões ou Manoel das Pos-
rios tons de azul, verde, violeta e róseo. ses, onde os cristais de euclásio, transpa-
Por vezes, as porções externas dos cristais rentes, azuis, euedrais e biterminados atin-
são incolores e na zona interna se concen- gem até 27g; também nos “Altos” da Ja-
tra bela coloração comumente azul. As queira, Favela, Baixa Grande e Amâncios
peças mais valiosas são transparentes, onde o euclásio aparece em agregados
biterminadas e de cor azul. corroidos e porosos.
Neste projeto foi estudado apenas Destaca como grande produtor de
o
um jazimento de euclásio (n 106, euclásio o Alto do Santino, no município de
Anexo I), localizado na fazenda Pau dos Equador, onde os cristais são límpidos e
Ferros, município de Equador, onde a ge- ultrapassam 3cmx2cmx2,5cm e o maior
ma, em minúsculos cristais azuis se encon- cristal encontrado pesou 100g. A gema
tra dispersa num pegmatito com cerca de ocorre em bolsões associados a quartzo
200m de extensão, direção N10ºE e es- hialino e fumê, e muitas vezes em drusas
pessura de 8m a 12m, encaixado em mus- exibindo cristais transparentes incolores,
covita quartzito da Formação Equador, com azuis e roxos.
atitude N-S/40ºW. O pegmatito, como a
maioria desses corpos contidos no quartzi- Outro tipo de ocorrência é o euclá-
to, mostra-se fortemente caulinizado e in- sio na base de cristais de berilo em nítido
clui quartzo em grãos, muscovita, berilo processo de substituição. Sem maiores
esverdeado e azulado em cristais centimé- detalhes, Cassedanne et al. (1987) também
tricos, e pequenas massas ou blocos de se referem a belos cristais de euclásio azul
mangano-tantalita. em quatro pegmatitos caulinizados e litiní-
feros no município de Equador.
28
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
Distritos Gemológicos
O Rio Grande do Norte possui três área. A cidade de Santa Cruz é a mais
áreas que concentram a maioria dos jazi- importante da região e se encontra a cerca
mentos de gemas do estado, representan- de 16km a sudeste de Lajes Pintadas por
do 100 (67,6%) jazimentos do total de 148 rodovia asfaltada (Figura 7). A partir de
cadastrados, e cada uma dessas áreas Natal, o melhor acesso a Lajes Pintadas é
apresenta suas especificidades quanto aos feito pela rodovia asfaltada BR-226 que
aspectos geológicos e gemológicos. De passa por Macaíba, Tangará e Santa Cruz,
acordo com sua posição geográfica no numa extensão total de 130km. O terreno
estado (Figura 6) tais áreas foram de- desse distrito gemológico é acidentado,
signadas de Distrito Gemológico Centro– com elevações que atingem 550m de alti-
Sul (DCS), Distrito Geomológico Sul tude, destacando as serras Manoel Carlos
(DS) e Distrito Gemológico Extremo Su- e da Gameleira. O DCS é especializado em
doeste (DESW). A delimitação das áreas água marinha, e nele foram cadastrados 39
desses distritos está baseada na concen- jazimentos, numerados de 14 a 52
tração e proximidade dos jazimentos de (Anexo I), sendo 37 de água marinha e
gemas que estão alinhados formando 2 de berilo para coleção.
trends controlados por estruturas regionais
representadas por zonas de cisalhamento. 5.1.1 Geologia Local
Elas também estão delimitadas no mapa na
escala 1:500.000 e podem ser ampliadas à O DCS está fundamentalmente en-
medida que novas mineralizações sejam cravado em terrenos de ortognaisses do
descobertas. Nas proximidades dos três Complexo Caicó (APgm), nos quais estão
distritos ocorrem granitos porfiríticos da encaixados numerosos pegmatitos, muitos
unidade Ne os quais, provavelmente, deles hospedeiros de água marinha. Na
constituem a fonte das soluções pegmatíti- porção noroeste da área ocorre granada-
cas e das suas mineralizações. biotita xistos, incluindo veios interfoliados
de quartzo, pertencentes à Formação Seri-
5.1 Distrito Gemológico Centro - Sul dó (MNss), cujo contato com os ortognais-
ses é marcado pela extensa zona de cisa-
O Distrito Gemológico Centro - lhamento dextral de Picuí (Figura 7). A
Sul (DCS) abrange uma área da ordem de estruturação regional tem direção geral
2
374km , principalmente encravada no mu- NNE, mas a unidade APgm apresenta re-
nicípio de Lajes Pintadas, cuja sede ocupa, dobramentos recumbentes e invertidos que
aproximadamente, a porção central da ocasionam contornos sinuosos à foliação.
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
o o
37 00' 36 00'
5 00'
Mossoró
RIO GRANDE DO NORTE
NATAL
DCS o
6 00'
Pau dos Lajes Pintadas
Currais
Ferros Santa Cruz
Novos
DESW
Caicó
Tenente DS
Ananias Parelhas
Equador
0 40 80 120 160 km
DCS - Distrito Gemológico Centro-Sul
DS - Distrito Gemológico Sul
DESW - Distrito Gemológico Extremo Sudoeste
Figura 6 - Localização das Áreas dos Distritos Gemológicos do Estado do
Rio Grande do Norte
No extremo nordeste da área aflo- Apesar da semelhança dos
ram granitos porfiríticos da unidade Ne, pegmatitos com água marinha do DCS com
que destacam-se no relevo formando a os do DESW, como a natureza relativa-
Serra do Ronca. Os pegmatitos mineraliza- mente homogênea, a mineralização con-
dos estão controlados por uma ampla zona centrada em bolsões diferenciados, a pre-
de cisalhamento próximo do contato com a sença de biotita como a mica dominante, o
unidade MNss, e se distribuem segundo mesmo tipo de encaixante e disposição em
um trend de direção NNE, paralelo à folia- trends controlados por zonas de cisalha-
ção regional, com extensão de 21km e mento, existem algumas diferenças.
largura máxima da ordem de 8km. Os cor-
pos pegmatíticos, geralmente, são concor- Os principais pegmatitos minerali-
dantes em direção com a foliação dos orto- zados do DESW exibem deformações co-
gnaisses, mas discordantes em mergulho, mo estrutura dômica, dobras abertas, são
e suas dimensões aflorantes são variáveis, mais ricos em água marinha e apresentam
podendo atingir 200m de comprimento e maiores dimensões que os do DCS. Os
15m de espessura aparente. deste distrito não apresentam aquelas de-
30
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
formações, exibem formas mais regulares, necendo equipamentos (compressores,
lenticular a tabular, e são mais numerosos marteletes, explosivos, motobomba) e al-
que no DESW. Além disso, os corpos têm guma assistência técnica. A partir de 1985
relativamente maior conteúdo de magneti- os recursos escassearam, culminando com
ta, granada e schorlita, e vários deles exi- o fechamento da cooperativa e paralização
bem bolsões irregulares de quartzo da atividade mineira.
maciço leitoso. Em alguns são observados
esporádicas pintas de molibdenita e nos Os corpos não estão exauridos,
bolsões mineralizados ocorrem com fre- mas de uma maneira geral os bolsões com
quência cristais bem formados de quartzo água marinha estão mais profundos e sua
hialino, leitoso ou fumê, centimétrico a de- extração só é rentável com o uso de equi-
cimétrico. Alguns corpos do DESW possu- pamentos. A água marinha do DCS tem cor
em amazonita, mas este mineral não foi azul claro a médio, poucas inclusões e
observado no DCS. fissuras, permitindo bom aproveitamento na
lapidação. Como os pequenos mineradores
Em diversos jazimentos foram cole- estão descapitalizados, a retomada da
tadas dez amostras de berilo com feições produção só será possível com incentivos
de água marinha nos antigos rejeitos de do Governo ou investimento de empresa
garimpagem para a caracterização gemo- privada em uma unidade móvel de lavra
lógica. Da análise das amostras, apenas a capaz de operar vários corpos mineraliza-
o
da Mina do Bigodão (n 42, Anexo I) apre- dos, cuja distância entre eles é muito pe-
sentou aproveitamento como gema pela quena. A mão-de-obra necessária aos tra-
sua transparência, limpidez, cor azul fraco balhos mineiros é abundante nas cidades
e ótimo polimento com óxido de cromo. As de Lajes Pintadas e São Tomé.
demais foram classificadas como berilo
azul médio a fraco, translúcido a opaco, 5.2 Distrito Gemológico Sul
muito fraturado, sem utilidade como gema.
O Distrito Gemológico Sul (DS)
2
5.1.2 Perspectivas Econômicas cobre uma área de 684 km entre as cida-
des de Parelhas e Equador, estendendo-se
Todos os pegmatitos cadastrados para sul até a divisa com o Estado da Para-
no DCS já foram objeto de garimpagem íba (Figura 8). Aquelas duas cidades estão
superficial, segundo a direção dos corpos e interligadas por estrada asfaltada com
em alguns as escavações se estenderam 35km de extensão. O acesso à área tanto
até uma profundidade de 15m acompa- pode ser feito por Campina Grande-PB
nhando o mergulho dos corpos. Atualmente pela rodovia BR-230 por 115km até Equa-
não há atividade mineira na maioria desses dor, ou a partir de Natal pelas BR-226 até
corpos por falta de recursos materiais e Currais Novos; daí seguindo para Acarí
financeiros, estando as escavações par- pela BR-427, e desta até Parelhas pela
cialmente obstruídas. RN-086, num percurso total de 235km.
Na década de 1940 alguns pegma- Dos três distritos gemológicos, o
titos do DCS começaram a ser desmonta- DS é o que apresenta os pegmatitos mais
dos manualmente para a produção de beri- evoluídos e complexos, acarretando mine-
lo, e a tantalita também foi encontrada em ralizações diversificadas. Além do berílio,
o
alguns corpos como Cabaceira IV (n 23), as soluções hidrotermais/pneumatolíticas
o
Bom Destino III (n 45) e Garimpo do Man- transportaram concentrações apreciáveis
o
gano (n 25) que foi produtor de mangano- de boro, lítio, fósforo, tântalo, nióbio, esta-
tantalita. Neste período foram descobertas nho e bismuto, que formaram numerosos
ocorrências de água marinha associada ao minerais econômicos. Nos pegmatitos hete-
berilo. Entre as décadas de 1970 e 1980 rogêneos e complexos desta região Silva
houve um surto de produção de água mari- (1993) listou a presença de 78 minerais
nha no DCS quando o Governo do Estado acessórios não fosfáticos, estando entre os
implantou uma cooperativa de pequenos mais freqüentes a schorlita, berilo, cassite-
mineradores na cidade de São Tomé, for- rita, kaolinita, tantalita-columbita, cassiteri-
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
ta, magnetita, granada, lepidolita, espo-
dumênio, bismuto nativo, sericita, manga- Os terrenos do DS são formados
no-tantalita e fluorita. Apresentou também essencialmente por metassedimentos do
uma relação de 45 minerais fosfáticos, Grupo Seridó, estruturados com macrodo-
citando entre os mais comuns a ambligoni- bras estreitas e alongadas de direção NNE,
ta, apatita, arrojadita, autunita e lazulita. Os exibindo eixos com caimento e terminações
pegmatitos com espodumênio merecem ser periclinais (Figura 8). Na porção oeste da
investigados para a possível presença de área ocorrem ortognaisses do Complexo
duas variedades gemas deste mineral, Caicó (APgm) formando o núcleo de estru-
denominadas de kunzita (cor rosa) e turas antiformais.
hiddenita (cor verde), e aqueles com am-
bliogonita podem conter espécie gema O Grupo Seridó está representado
deste mineral. pelas suas três formações: Jucurutu,
Equador e Seridó. A Formação Jucurutu
Segundo Salim et al, (1997, 1998) (MNsj) é constituída por paragnaisses,
os pegmatitos heterogêneos evoluiram em incluindo níveis subordinados de quartzitos.
duas etapas principais, uma precoce de Ela se dispõe numa faixa restrita emoldu-
diferenciação e cristalização magmática, rando os flancos da Serra dos Quintos,
responsável pela formação da paragênese com estrutura de anticlinório. A Formação
mineralógica essencial dos corpos com Equador (MNse) desenvolve a maior estru-
estrutura interna zonada. A outra etapa é tura da área, um extenso anticlinal com
tardia, ligada a alteração hidrotermal dos eixo de caimento para norte, cuja termina-
minerais precoces, a qual teve início com o ção periclinal se encontra a leste da cidade
processo de albitização/muscovitização de Parelhas (Figura 8). A unidade MNse é
(greisenização) e culminou com um metas- formada por muscovita quartzitos esbran-
somatismo de lítio. A formação dos mine- quiçados, aos quais se intercala um meta-
rais econômicos de Li, Be, Ta-Nb e Sn, conglomerado esverdeado (mc) que se
bem como das massas de quartzo e a cau- dispõe no nariz da anticlinal e parte da sua
linização podem estar relacionadas a este aba leste. Os quartzitos se destacam no
evento hidrotermal. relevo da área integrando a extensa Serra
das Queimadas com altitudes que atingem
As alterações hidrotermais ocorrem 800m, e se prolonga para sul, pelo Estado
principalmente na zona III, onde os feldspa- da Paraíba. Eles são cortados por fraturas
tos potássicos (microclina e ortoclásio) são transversais de direção NW a WNW, e
transformados em plagioclásios sódicos próximo à cidade de Equador são cortados
(albita/cleavelandita) e muscovita. Por outro por uma falha transcorrente sinistral de
lado os feldspatos alteram-se para micas direção geral E-W (Figura 8).
de lítio, principalmente lepidolita. Dentro de
cavidades abertas nesta zona formam-se A Formação Seridó (MNss) é a
tardiamente cristais de quartzo em drusas, unidade de maior distribuição na área e
rosetas de lepidolita, cristais de apatita, e consta de granada-biotita xistos, com veios
às vezes sulfetos e minerais de urânio. centimétricos de quartzo interfoliados. Esta
unidade é cortada por uma importante zona
A gema mais importante do DS é a de cisalhamento dextral de direção NNE-
turmalina, que se apresenta nas cores ver- SSW, que ocorre a leste da cidade de Pa-
de, rósea e azul. A schorlita é a mais abun- relhas, e bordeja todo o flanco oeste da
dante, ocorrendo em cristais centimétricos mega-anticlinal da Serra dos Quintos. No
a decimétricos e tem boa aceitação pelos extremo norte da área aflora uma pequena
colecionadores. No DS foram cadastrados porção do granito porfirítico da unidade
32 jazimentos de gemas, numerados de 78 Ne, desenvolvendo uma estrutura antifor-
a 109 (Anexo I), sendo 19 de turmalina, mal de plunge para sul.
6 de lazulita, 4 de água marinha, 1 de gra-
nada, 1 de euclásio e 1 de quartzo róseo No DS existe um enxame de di-
(Figura 8). ques pegmatíticos paralelos à foliação re-
5.2.1 Geologia Local gional e outros discordantes preenchendo
32
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
fraturas transversais. Muitos corpos que largura máxima de 6m, e produziu ambli-
atravessam os xistos se destacam na topo- gonita, além de berilo e tantalita.
grafia, imprimindo uma feição de muralha,
e são considerados estéreis ou fracamente O Alto Serra das Queimadas I pro-
mineralizados. Os pegmatitos portadores duziu mangano-tantalita, columbita e berilo,
de gemas não exibem expressão topográfi- os quais se concentravam em torno de
ca e estão encaixados nos metassedimen- núcleos de quartzo. No nariz da anticlinal
tos do Grupo Seridó. Dos 32 jazimentos da Serra das Queimadas o metaconglome-
cadastrados, 16 estão encaixados nos rado abriga pegmatitos com turmalina ge-
quartzitos, 12 estão nos xistos e 4 no me- ma (jazimentos 79, 80 e 82) e um com
o
taconglomerado. A maioria dos pegmatitos potente núcleo de quartzo rosa (n 81).
portadores de gemas nas variedades indi-
colita, rubelita e verdelita tem como rocha Adusumilli et al. (1993) descreve-
encaixante os quartzitos da unidade MNse, ram turmalinas procedentes dos garimpos
os
e esses corpos geralmente são cauliniza- Capoeira (n 79 a 81) em cristais maiores
dos e litiníferos (Foto 10). Tais pegmatitos de 10cm de comprimento e cerca de 5cm
são concordantes com a foliação dos quar- de largura, associados a veio de quartzo
tzitos, mas discordantes em mergulho, e maciço, classificando de “heitorita” o tipo
sua extensão aflorante máxima é de 200m azul turquesa, translúcido, com borda de
e a largura máxima de 15m. schorlita ou núcleo violeta ou rosa, indican-
do substituição por lítio, além de gemas
O jazimento Quintos de Baixo transparentes das variedades azul e verde.
o
(n 89) já foi objeto de pesquisa sob o no- Numa área de 488ha, denominada Sítio
me de Mina do Berilo (Diniz et al., 1989), Mulungu, que envolve estes jazimentos
visando a avaliação de reservas de berilo e Oliveira et al. (1992) efetuaram a cartogra-
tantalita numa área de 990 hectares, a qual fia de quatro pegmatitos paralelos entre si,
inclui mais dois depósitos destes minerais, de direção N70º-80ºW e mergulho subver-
designados Alto do Luizão e Serra das tical para nordeste, designados de A, B, C
Queimadas I. Esses jazimentos têm em e D.
comum pegmatitos caulinizados como hos-
pedeiros das mineralizações, muscovita O corpo A é o principal, com exten-
quartzitos da Formação Equador como são superior a 600m e largura variável de
encaixantes, e concordância em direção 10m a 25m. Apresenta vários bolsões de
com as encaixantes, mas discordantes em quartzo leitoso e róseo, e uma zona bem
mergulho. Os pegmatitos são diferencia- desenvolvida de feldspato de excelente
dos, possuindo uma espessa zona caulini- qualidade, incluindo tantalita-columbita e
zada e bolsões de quartzo leitoso. As mine- berilo, principalmente no entorno dos bol-
ralizações se dispõem preferencialmente sões de quartzo. As reservas totais de fel-
entre estas duas zonas. Os “Altos” do Lui- dspato somaram 67.000 toneladas.
zão e Serra das Queimadas I estão a
1,3km a NE e 2,3km a SE da Mina do Beri- O corpo B tem mais de 450m de
lo, respectivamente. Este depósito é o mais extensão e largura média de 15m, e assim
importante dos três, tendo produzido muito como o corpo A, já foi produtor de feldspa-
berilo e secundariamente caulim e tantalita. to, berilo e columbita.
O pegmatito tem extensão aflorante da
ordem de 170m, largura máxima de 15m. O O corpo C possui cerca de 100m
berilo ocorre principalmente na porção mais de extensão e largura média de 3m. Tanto
externa do corpo, rica em muscovita e com este como o corpo B, apresentam turmali-
turmalina em menor quantidade. Observou- nas nas cores azul e verde, algumas exi-
se a presença de indicolita associada a bindo substituição por lepidolita na porção
lepidolita e albita (Foto 11), e por vezes central.
contendo cristais bem formados de quartzo
incolor, leitoso e enfumaçado. O Alto do O corpo D, apesar da extensão su-
Luizão tem cerca de 150m de extensão e perior a 500m, tem característica de peg-
matito homogêneo, com feldspato gráfico e
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
baixo potencial mineralizante. A mica do- lepidolita em grandes lamelas, microclina e
minante desses pegmatitos é a muscovita, quartzo; a zona II compreende a maior
que se apresenta em lamelas centímétricas parte do corpo, tem natureza homogênea,
a decimétricas, livros e rosetas. sendo constituída por microclina e quartzo,
muita schorlita e alguma granada; a zona III
Os pegmatitos de Capoeira tam- é bem desenvolvida com cristais gigantes
bém foram investigados por Pereira et al. de microclina parcialmente substituída por
(1998) que caracterizaram um corpo hete- albita, e caulinizada próximo a superfície,
rogêneo com a zona I (borda), constituída contendo também quartzo e muscovita, e a
essencialmente de muscovita grosseira, zona IV consiste de vários núcleos de quar-
albita e quartzo de granulometria fina, tzo maciço, leitoso a róseo, podendo atingir
granada, turmalina. A zona II é formada 8m de espessura (Foto 13), contendo dru-
por cristais centimétricos de microclina sas de cristais de quartzo e muitos minerais
envoltos em matriz quartzo-feldspática acessórios. A zona III é a mais rica em
grosseira e muscovita. A zona III contém berilo e tantalita. Farias (op. cit.) encontrou
unicamente microclina pertítica atingindo cristais de rubelita e verdelita, além de
dimensões métricas. A zona IV é represen- apatita verde clara e azul na zona IV do
tada por núcleo de quartzo leitoso a róseo pegmatito.
incluindo livros de muscovita centimétrica
tardia. No flanco oeste da anticlinal edifi-
cada nos quartzitos (Formação Equador),
Foram caracterizados corpos de ainda foram cadastrados um jazimento de
substituição semelhantes a greisens, resul- água marinha (nº 99), um de granada (nº
tantes da transformação de feldspatos da 100) e um de euclásio (nº 106). Bordejando
zona III por muscovita verde fina e cleave- o bloco oeste da extensa falha do Rio dos
landita, bordejados por muscovita centimé- Quintos foram cadastrados cinco pegmati-
os
trica verde. Os autores assinalam ainda tos mineralizados em água marinha n 78,
que as principais mineralizações de Ta-Nb, 101 que também encerra turmalina gema, e
os
Be e Sn estão associadas a estes corpos. 103, e dois com turmalinas (n 90 e 107),
Belos cristais de apatita azul procedentes todos encaixados nos xistos.
deste jazimento (Foto 12) estão expostos
no museu de mineralogia do campus uni- Numa zona de domínio dos xistos
versitário de Campina Grande - PB. da Formação Seridó (MNss), situada a
leste da anticlinal da Serra das Queimadas,
O pegmatito Cabeço do Boqueirão em meio a numerosos pegmatitos proemi-
o
(n 82), também conhecido como “Alto” do nentes no relevo, se distribuem seis corpos
os
Boqueirão, foi um dos mais estudados, mineralizados em lazulita (jazimentos n
tanto pelas suas dimensões, como pela 83 a 88, (Anexo I e Figura 8). Em vários
natureza tipicamente heterogênea, exibindo pegmatitos turmaliníferos do DS ocorre um
zonação interna simétrica, grande varieda- tipo de turmalina bicolor em cristais centi-
de de minerais acessórios e pela expressi- métricos, com bordas transparentes de cor
va produção de berilo e tantalita. Este jazi- verde forte a médio, e centro opaco de cor
mento corta a zona de charneira da anticli- rosa médio, resultante da substituição por
nal da Serra das Queimadas, ocupando a lepidolita. A análise gemológica indica que
crista desta serra, próximo a sua extremi- alguns cristais apresentam efeitos interes-
dade norte (Figura 8), a uma altitude de santes para a confecção de jóias, mediante
550m, cujo acesso é íngreme. o seu fatiamento, e eles são conhecidos
como turmalina tipo melancia. No jazimento
o
O corpo tem extensão estimada de Quintos de Baixo (n 89, Anexo I) as bor-
400m, espessura máxima de 30m, atitude das transparentes desses cristais bicolores
N70ºW/90º, discordante do metaconglome- apresentavam cor azul médio. Do jazimen-
o
rado encaixante, com atitude local to Capoeira I (n 79) foram examinadas
N20ºE/40ºNW. Johnston Jr. (1945) e Farias amostras de turmalinas de cores verde
(1977) identificaram quatro zonas no peg- fraco a médio e azul fluorescente, transpa-
matito: a zona I, de bordo, formada por rentes a opacas, cujos cristais muito pe-
34
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
quenos impossibilitaram a descrição gemo- já foram trabalhados, de modo intermitente,
lógica completa. As amostras colhidas nos em décadas passadas. Mas, ainda existe
o
rejeitos do garimpo Maracajá (n 90) foram neles um grande potencial, tanto para pe-
classificadas de turmalina verde escura a dras preciosas como para a produção de
preta, translúcida a opaca, sem interesse outros minerais econômicos como feldspa-
gemológico. Mas, as dos jazimentos Sítio tos, caulim, muscovita, tantalita-columbita,
os
Quixaba e Louro (n 91 e 93) têm cor ver- além de belos cristais decimétricos de
de médio a forte, translúcida a transparen- schorlita, berilo e de quartzo hialino e fumê,
te, ótimo polimento com trípole, mostrando- todos muito apreciados por cole- ciona-
se aceitável para lapidação. dores.
Os estudos das turmalinas da Fa- É inequívoca a vocação dos peg-
o
zenda Bolandeira (n 96) revelaram cor matitos encaixados nos quartzitos da For-
rosa violáceo, boa transparência, e são mação Equador (MNse) para mineralização
consideradas gemas de qualidade. Cristais em turmalinas gemas, fato também confir-
de berilo coletados nos rejeitos de Quintos mado na Paraíba onde a litologia encerra
o
de Cima (n 101) apresentaram zonas ou pegmatitos formando a maior jazida de
“olhos” de água marinha, mas de baixa indicolita do Brasil, localizada em São
qualidade gemológica. José da Batalha.
5.2.2 Perspectivas Econômicas 5.3 Distrito Gemológico Extremo
Sudoeste
Nas décadas de 1940 e 1950 mui-
tos pegmatitos do DS foram trabalhados O Distrito Gemológico Extremo
para a produção de berilo e tantalita (Scor- Sudoeste (DESW) compreende uma área
2
za, 1944; Johnston Jr., 1945; Rolff, 1945, de 459km contida, principalmente, nos
1946; Roy et al., 1964). Atualmente a maio- municípios de Tenente Ananias e Paraná,
ria deles encontra-se com as atividades estando o limite sul da área na divisa com o
mineiras paralizadas. Contudo, alguns es- Estado da Paraíba (Figura 9). A partir de
tão sendo garimpados para tantalita, outros Natal o acesso à área pode ser feito pelas
para a extração de feldspatos, e vários estradas pavimentadas BR-304 até a cida-
corpos encaixados nos quartzitos da For- de de Açú, prosseguindo-se pela RN-233
mação Equador (MNse), próximos da cida- que passa na cidade de Campo Grande e
de de Equador, são minerados para a pro- continua pela BR-226 com destino a Patú,
dução de caulim, que é beneficiado em e daí pelas RN’s 078, 074 e 117, alcançan-
cinco instalações. Alguns pegmatitos por- do-se a cidade de Tenente Ananias por um
tadores de lazulita são também garimpados percurso total de 420km. Alternativamente,
para a extração de muscovita. esta cidade também pode ser alcançada a
partir de Campina Grande pela rodovia
A partir dos anos 80 despertou-se BR-230 por 305km até a cidade de Sousa e
interesse comercial pelas turmalinas gemas daí pela estrada não pavimentada PB-383
e vários pegmatitos, especialmente aqueles por 35km para Tenente Ananias.
encaixados nos quartzitos MNse, passaram
a ser garimpados para a extração da pedra. O DESW é especializado em água
marinha e esmeralda, e os depósitos des-
No jazimento de Quintos de Baixo sas gemas se dispõem segundo duas fai-
o
(n 89), que já produziu berilo e tantalita, xas paralelas distintas de direção NNE,
uma empresa de capital alemão está pes- separadas por uma distância da ordem de
quisando turmalina gema, principalmente 8km. No DESW estão registrados sete
indicolita (a variedade mais valiosa). A jazimentos de esmeralda, numerados se-
área onde se encontram os jazimentos da qüencialmente de 120 a 126, 20 de água
os os
Fazenda Capoeira (n 79 a 81) está sendo marinha (n 127 a 146), e dois jazimentos
os
negociada para pesquisa de turmalinas de ametista (n 147 e 148) - (Anexo I e
gemas. Como observado no campo, todos Figura 9).
os pegmatitos portadores de gemas do DS 5.3.1 Geologia Local
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
(1984; 1991) efetuou o mapeamento topo-
A litologia largamente dominante gráfico e geológico na escala 1:1.000, a
no DESW é representada por ortognaisses cartografia dos trabalhos subterrâneos em
do Complexo Caicó (APgm), onde distribui- escala 1:500 dos principais garimpos, Nova
o o
se a maioria dos jazimentos de gemas. Via Descoberta (n 141), Mina Velha (n 138) e
o
de regra, a unidade APgm exibe expressivo Mina do Meio (n 144), e sondagens a dia-
bandamento constituído por augen de fel- mante que confirmaram a continuidade dos
dspato róseo, alguns deformados em sig- corpos em profundidade. Com esses ele-
móides, grãos de quartzo, alternados com mentos calculou-se as reservas indicadas e
bandas escuras biotíticas e com algum inferidas de feldspato dos três jazimentos.
anfibólio. Os pegmatitos têm direção geral N30ºE e
mergulho de 30º a 40ºNW e vários deles
Nas porções norte e leste da área apresentam eixo com caimento de 5º a
ocorrem as seguintes litologias proterozói- 10ºSW, enquanto o ortognaisse encaixante
cas, todas estruturadas na direção NNE: tem atitude N30ºE/70º-80ºSE.
paragnaisses da Formação Jucurutu (MNsj)
em faixas alongadas; suite de augen gnais- O corpo da Mina do Meio forma
se granitóide (P); e corpos alongados de uma estrutura braquiantiformal, cujo cai-
granitóide porfirítico (Ne) e de biotita grani- mento do eixo na terminação nordeste é de
to equigranular (Nc), ambos intrusivos nas 10º e na terminação oposta é de 5º e o
unidades mais antigas, relacionados ao pegmatito Cedro Norte exibe estrutura dô-
evento tecto-orogênico Brasiliano. mica (Foto 14). Em profundidade, ao longo
do mergulho, os pegmatitos exibem ondu-
Os jazimentos de esmeralda estão lações que podem desenvolver bolsões
associados a zonas de cisalhamento que métricos enriquecidos em água marinha.
acompanham a extensa zona de cisalha-
mento dextral de Portalegre, com direção Os estudos gemológicos de quatro
geral NNE. Ao sul esta falha prossegue pequenos fragmentos encontrados nos
pelo Estado da Paraíba e no Rio Grande do rejeitos dos garimpos, sendo dois
o
Norte ela tem extensão de 115km, cuja fragmentos da Mina Velha (n 138) e dois
o
extremidade norte é encoberta por sedi- de Nova Descoberta (n 141) acusaram
mentos cretáceos da Bacia do Apodí. No boa transparência, as cores variando de
DESW o biotitito máfico hospedeiro da azul fraco a forte, ótimo polimento com
esmeralda se estende descontinuamente óxido de cromo, apropriado para confecção
por cerca de 7km, que é a distância entre de jóias. Mas, as amostras de cristais de
os jazimentos extremos do trend. Mas, fora berilo colhidas nos rejeitos do garimpo do
o
desta área, foram registrados mais três Jorge (n 128) não apresentam qualidade
ocorrências do biotitito bordejando a falha gema, por serem translúcidos a opacos e
Portalegre no prolongamento para norte. muito fraturados.
Os jazimentos de água marinha Barreto (1991) estudou os berilos
compõem um trend com cerca de 12km de dos jazimentos Jorge (128), Gerimum
extensão por 1km de largura onde se dis- (133), Mina Velha (138) e Talhado (139),
tribuem 18 pegmatitos mineralizados. Os salientando que as cores desses berilos
corpos são concordantes em direção com o variam de azul a verde amarelado, em
gnaisse encaixante, mas discordantes em cristais de alguns centímetros a 0,5m de
relação ao mergulho. As dimensões são comprimento, e muitos deles mostram-se
muito variáveis, podendo alcançar 500m de deformados, encurvados e fraturados, com
comprimento como o jazimento Nova Des- algumas fraturas preenchidas por quartzo.
o Observou que embora os pegmatitos sejam
coberta (n 141) e uma largura aflorante
máxima de 30m a 40m como na Mina Ve- homogêneos, eles apresentam fácies dis-
o o tintas e de distribuição irregular, como cor-
lha (n 138) e Rabo Gordo (n 143).
pos de granulação muito grosseira, de gra-
Na Fazenda Talhado, numa área nulação relativamente mais fina, fácies rica
de 80 hectares que concentra nove poten- em granada, e fácies rica em feldspatos e
tes pegmatitos com água marinha, Rêgo bolsões de quartzo. Assinalou ainda que a
36
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
cor azul intensa da água marinha ocorre móveis de lavra e uma instalação central
pela presença de ferro ferroso e férrico, e de beneficiamento do minério.
do zinco.
Antes deste projeto só era conhe-
5.3.2 Perspectivas Econômicas cido um jazimento de esmeralda no Rio
Grande do Norte, o qual presentemente
A descoberta de água marinha no está submerso pelas águas do açude Pi-
o
DESW data de 1943, no município de Te- tombeiras (n 125). A partir deste depósito ,
nente Ananias, naquela época denominado os trabalhos desenvolvidos por este projeto
de Ipueiras. Mas os trabalhos de garimpa- definiram um trend esmeraldífero controla-
gem só foram iniciados em 1954 e intensifi- do pela extensa zona de cisalhamento de
caram-se a partir de 1968 (Rêgo, 1991). Portalegre, ao longo da qual já estão regis-
trados mais nove ocorrências e indícios da
No início dos anos 80 mais de gema. Sem dúvida, a prospecção detalha-
2.000 garimpeiros operavam na área, da ao longo dessa zona ensejará a desco-
quando a produção estimada de água ma- berta de novos corpos esmeraldíferos.
rinha no período de outubro/83 a outu-
bro/84 foi da ordem de 800kg, com teor 5.4 Ocorrências em Outras Áreas
médio inferido de 3g/t de minério, tornando
o Rio Grande do Norte o maior produtor Fora das áreas que delimitam os
nacional da gema. A produção avaliada de três distritos gemológicos, foram cadastra-
berilo industrial foi cerca de 346t, com teor dos 48 jazimentos de pedras preciosas
médio de 1,2kg/t de minério (Rêgo, 1991). distribuídos em 24 municípios do estado,
sendo 33 de água marinha, 6 de ametista,
Em agosto/83 a imprensa do esta- 3 de granada, 3 de esmeralda, 2 de corín-
do noticiou com destaque a extração de um don e 1 de cordierita. Destes municípios, o
cristal de berilo na Fazenda Talhado, com de Acarí é o que detém o primeiro lugar em
40cm de comprimento e pesando 32,5kg, quantidade de jazimentos registrados de
do qual foram obtidos 15,5kg de água ma- gemas, perfazendo 10 depósitos, represen-
rinha, sendo 3,8kg de qualidade extra, com tando 20,8% do total de jazimentos cadas-
cor azul forte. Em valores atuais esta quan- trados nessas áreas, sendo 8 de água ma-
tidade corresponderia a R$152.000,00, rinha e 2 de granada (Anexo I).
considerando-se o preço unitário de
R$40,00/g. Dos 24 municípios citados, 16
apresentam apenas um jazimento de ge-
A partir de 1980 o Governo do Es- ma. Os jazimentos de água marinha do
os
tado passou a fornecer apoio aos garimpei- município de Acarí (n 66 a 73) constam
ros, com trator para remover entulho e abrir de pegmatitos caracteristicamente encai-
estrada, instalação de energia elétrica, xados em granito da unidade Ne (Foto 15)
compressores e marteletes. Com a sus- preenchendo fraturas de direção N40º -
pensão dos incentivos e o aprofundamento 60ºW e mergulho variável de 30ºNE a ver-
das frentes de garimpagem, na metade da tical. Eventualmente, o granito apresenta
década de 1980, a produção entrou em xenólitos lenticulares de dimensões métri-
declínio. Atualmente apenas cerca de uma cas, de rochas máficas de granulação mé-
centena de garimpeiros atuam na área, dia, exibindo ripas orientadas de anfibólio,
existindo grande quantidade de rejeito, as quais também são cortadas por diques
tanto na superfície como nas galerias e pegmatíticos. Os pegmatitos têm extensão
túneis, que também estão parcialmente aflorante de 50m a 120m, espessura de 2m
inundados. A retomada da produção inten- a 10m, e são constituídos essencialmente
siva só é rentável com o uso de equipa- de feldspato róseo com textura gráfica e
mentos mineiros e orientação técnica. A biotita bem desenvolvida em livros. Geral-
grande concentração de corpos mineraliza- mente encerram bolsões de quartzo leitoso
dos, separados entre si por distâncias que maciço, com manchas róseas. Acessoria-
variam de 50m a 250m, favorece a pesqui- mente, ocorrem zonas ricas em albita, in-
sa integrada e a implantação de unidades clusive com textura pertítica, muscovita,
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
berilo em cristais azuis e verdes centimétri- sas de pirita. O corpo mais extenso é o de
o
cos, cristais centimétricos de schorlita, Rodeador (n 9) com 160m, sendo também
pequenas massas de tantalita e magnetita, o menos espesso, com 1m de possança. O
o
e diminutos cristais de granada. do Cirino (n 11) é o mais potente, com
espessura aparente de 15m.
O pegmatito da Fazenda Canoas
o
(n 73) foi descrito por Rao et al. (1996) Foram coletadas onze amostras
que equivocadamente mencionam biotita- nos rejeitos dos antigos garimpos para
xistos como encaixantes do corpo. Desta- estudos em laboratório, as quais represen-
cam como excelentes as características tam dez jazimentos, sendo dez de água
gemológicas da água marinha, em cristais marinha e uma de heliodoro. As amostras
os
com 1cm de comprimento e fragmentos de quatro jazimentos (n 54, 55, 68 e 117)
com 2cm x 2cm, comparando-as às pedras não apresentam qualidade gema em razão,
brasileiras de cor azul médio a claro. principalmente, da presença de muitas
fraturas. Seis amostras foram classificadas
O pegmatito da Mina do Ducado como gemas aproveitáveis para lapidação
o
(n 78) também foi estudado por Rao et al. (jazimentos 8, 9, 61, 63, 64, 65). Essas
(1997) sob a designação de Várzea do pedras têm cor azul fraco a médio, boa
Serrote, onde identificaram dois tipos de transparência e mostraram excelente poli-
berilos-gema: água marinha em cristais e mento com óxido de cromo. Do jazimento
fragmentos de cor azul claro, transparentes da Fazenda Aroeiras (nº 61) foram analisa-
e heliodoro de cor vermelho amarelado a das duas amostras, uma de água marinha
laranja amarelado, na forma de fragmentos e outra de cor amarelo médio a forte,
com até 8mm de comprimento. transparente e classificada de heliodoro.
Trata-se de uma gema de boa aceitação no
A nordeste do município de Santa- mercado de jóias.
na do Matos ocorrem pegmatitos com água
marinha e nesta área foram cadastrados Os três jazimentos de esmeralda,
os
quatro jazimentos (n 9 a 12, Anexo I), situados nos municípios de Tabuleiro
o o
encaixados em ortognaisses da unidade Grande (n 110), Rafael Fernandes (n 113)
o
APgm, localmente granitizados. Os pegma- e Marcelino Vieira (n 119), fazem parte do
titos mostram-se fraturados, têm a forma de mesmo trend esmeraldífero descrito no
sills, compostos de feldspato róseo, por DESW, representando o seu prolongamen-
vezes em grandes massas, quartzo leitoso, to para norte.
incolor e cinza, biotita e muscovita, além de
berilo em cristais centimétricos, alguns A descrição das outras gemas
parcialmente transformados em água- mencionadas no início deste capítulo, como
marinha azul claro. Ainda são observadas ametista, granada, coríndon e cordierita, foi
esporádicas zonas com albita e raras mas- apresentada nos subitens correspondentes
do item 4 deste relatório, sob o título Prin-
cipais Gemas do Rio Grande do Norte.
38
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
Explotação e Comercialização
das Gemas
Com exceção de alguns jazimentos branca, sendo esses minerais considera-
de esmeralda e dos jazimentos de corín- dos os de melhor qualidade no país.
don, os demais já foram explotados por
garimpagem, alguns apenas superficial- Somente a partir de 1985 os peg-
mente e outros tiveram continuidade em matitos do DS começaram a ser trabalha-
subsuperfície, através de túneis e galerias. dos para a produção de gemas, sobretudo
A atividade garimpeira do Rio Grande do as variedades indicolita, verdelita e rubelita.
Norte é intermitente e geralmente se de- O período de 1970 a 1985 foi o de maior
senvolve nos anos em que a estiagem é desenvolvimento da explotação dos peg-
prolongada. Nos anos de "bom inverno", a matitos portadores de água marinha, con-
maioria dos garimpeiros retorna às suas centrados no DCS e DESW, e outros jazi-
lavouras. Quando há coincidência de pe- mentos dispersos em vários municípios do
ríodo de seca com preços atraentes de um Estado.
ou mais minerais dos pegmatitos, os traba-
lhos extrativistas se tornam mais intensos. De um modo geral a garimpagem
dos pegmatitos é feita com o uso exclusivo
A área mineira mais antiga de ope- de ferramentas manuais e aplicação de
ração em pegmatitos é aquela correspon- explosivo formado por nitrato de potássio
dente ao Distrito Gemológico Sul, e histori- misturado com um pouco de óleo combus-
camente obedeceu a ciclos de produção tível. Trata-se de um trabalho penoso, ar-
seletiva, tendo início no final da década de riscado, persistente e de baixa rentabilida-
a
1930, estendendo-se até o término da 2 de, em virtude do caráter aleatório dos
Guerra Mundial, quando muitos corpos bolsões mineralizados. Quando os garim-
foram trabalhados para a produção de beri- peiros dispõem de equipamentos mecâni-
lo e tantalita. Posteriormente, com a queda cos como compressor, martelete, guincho,
na cotação desses minerais, vários pegma- bomba d’água, os corpos são trabalhados
titos passaram a ser explotados para a em maior profundidade, rapidez, e os resul-
produção de caulim e feldspatos, de modo tados são mais promissores. Tais equipa-
a atender à indústria nacional de cerâmica mentos já foram empregados com sucesso
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
em vários pegmatitos portadores de água valor de comercialização do lote de gemas,
marinha de Tenente Ananias e Lajes Pinta- 10% é destinado ao proprietário da terra
das. Esses garimpos, em sua maioria, utili- (superficiário), 50% ao financiador das
zavam martelos sem jato d’água e como os operações extrativas e 40% para os garim-
operadores não usavam máscara protetora peiros que extraíram as gemas. As pedras
contra poeira, muitos deles adoeceram ou brutas vendidas são lapidadas nos estados
morreram de silicose. de Minas Gerais e Rio de Janeiro, trans-
formando-se em jóias com grande valor
Os trabalhos começam com esca- agregado. Presentemente, o preço da tan-
vações superficiais nos pegmatitos e os talita está mais atraente, e nestas duas
blocos desmontados são separados e que- últimas cidades o mineral é vendido por R$
brados com marreta e ponteira na busca de 50,00 a R$ 60,00/kg.
gemas, cristais bem desenvolvidos e outros
minerais econômicos. Quando um núcleo A cidade de Teófilo Otoni - MG é o
ou bolsão de quartzo maciço é encontrado, maior centro de comercialização de pedras
as escavações são feitas bordejando o preciosas do país. Os principais parâme-
núcleo, pois nesta zona de contato, por tros para aquisição das pedras brutas são a
vezes, ocorrem boas mineralizações. cor e o aproveitamento na lapidação. De
um modo geral, o rendimento da lapidação
Ao se deparar com bolsões dife- de água marinha é de 20%, ou seja, um
renciados os garimpeiros procuram des- quilate por grama de pedra bruta; mas po-
montá-los inteiramente, pois neles geral- de alcançar três quilates/grama quando a
mente são encontrados belos cristais e pedra é totalmente límpida e de bom forma-
maior concentração de gemas. Por este to (El-Awar, 1974).
motivo, o avanço das escavações em sub-
superfície apresenta um traçado irregular. O preço para exportação da água
Muitas aberturas subterrâneas são estrei- marinha lapidada tem uma variação muito
tas, com cerca de 60cm de altura e 50cm grande em função principalmente da cor. O
de largura. Os cristais de berilo que contêm preço médio das pedras de cor médio a
água marinha são quebrados cuidadosa- fraco é da ordem de US$35/quilate, e do
mente para recuperar a gema em fragmen- tipo boa a extra pode atingir
tos centimétricos. US$100/quilate; algumas gemas de quali-
dade excepcional alcançam US$500/quilate
A comercialização das gemas é fei- (El-Awar, op. cit). Os tamanhos mais co-
ta em lotes da pedra bruta (Fotos 16, 17 e muns para exportação são de 8 a 18 quila-
18); o preço atual da água marinha no local tes por pedra, mas o mercado japonês
de produção oscila de R$ 20,00 a R$ consome gemas de 2 a 12 quilates.
50,00 o grama, em função da qualidade da
pedra e, principalmente, da sua cor. Quan- As importações brasileiras de água
to mais forte a cor azul mais valorizada é a marinha e turmalinas são insignificantes e
pedra. O peso de cada lote de pedra bruta estima-se que mais de 90% da produção
varia de 100g a 400g e ele consiste de nacional dessas gemas são destinadas à
várias pedras com diferentes dimensões, exportação. A Tabela 2 mostra a evolução
aspectos e valores. Nos anos de grande das exportações das referidas gemas no
produção de água marinha em Tenente período de 1990 a 1996, onde se observa
Ananias e Lajes Pintadas, comerciantes do forte tendência de crescimento de ambas
Rio de Janeiro e de Minas Gerais vinham as gemas, sobretudo da turmalina, tanto na
comprar as pedras nos pró- prios garim- forma bruta como lapidada. As quantidades
pos. Atualmente, com a baixa produção, os exportadas de água marinha bruta em 1996
garimpeiros acumulam vários lotes e viajam foram superiores ao dobro em relação à
para vender naquelas praças. Nos dias de registrada em 1991, acusando um incre-
feira é comum a presença de garimpeiros mento de 116,7%, enquanto a quantidade
oferecendo lotes de pedras, principalmente de pedra lapidada em 1996 foi o dobro da
nas cidades de Tenente Ananias, São To-
mé, Parelhas e Equador. Normalmente, do
40
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
Quantidade: t; Valor US$ 1.000 FOB
ÁGUA MARINHA TURMALINAS (1)
ANO EM BRUTO LAPIDADA EM BRUTO LAPIDADA
QUANT. VALOR QUANT. VALOR QUANT. VALOR QUANT. VALOR
1990 10 942 (2) 3.911 28 494 (2) 4.115
1991 6 99 (2) 2.862 44 502 1 2.653
1992 8 275 1 1.517 42 276 1 2.217
1993 15 289 6 1.736 32 303 5 2.355
1994 26 388 (2) 2.133 68 1.054 11 3.529
1995 25 550 3 5.334 220 826 7 7.443
1996 13 283 2 5.296 197 967 5 7.389
Fonte: Anuário Mineral Brasileiro 1993 a 1997
(1) Diversos tipos, inclusive schorlita
(2) Inferior a 1 tonelada
Tabela 2 - Exportações de Água Marinha e Turmalinas em Bruto e Lapidadas
Brasil: 1990 - 1996.
exportada em 1992. lapidada (US$1.477,8/kg em 1996) aumen-
tou 39%. As variedades lapidadas mais
Em 1996 a tonelagem exportada de valorizadas foram a rubelita, que acusou
turmalina bruta foi sete vezes maior que em US$1.358/kg no ano de 1995, e verdelita
1990, e a lapidada cresceu cinco vezes em US$1.113/kg em 1992.
relação a 1991. Entre 1990 e 1996 o preço
médio da água marinha bruta variou de um Verifica-se que no período de 1990
mínimo de US$14,9/kg em 1994 a um má- a 1996 a quantidade exportada de turmali-
ximo de US$94,2/kg em 1990, enquanto a na bruta cresceu sete vezes, enquanto o
lapidada teve menor média de preço médio unitário caiu 3,6 vezes. Mas,
US$289,3/kg e a maior de US$2.648/kg em de 1994 a 1996 a quantidade exportada de
1996, indicando uma valorização de nove peças lapidadas diminuiu 2,2 vezes, en-
vezes. quanto o preço médio unitário aumentou
4,6 vezes.
O preço médio da água marinha
bruta em 1996 (US$21,7/kg) se manteve A relação entre os preços médios
aproximadamente estável em relação ao unitários da água marinha e da turmalina,
ano anterior, enquanto o preço médio da bruta e lapidada, em 1996 foi de 1 para 122
pedra lapidada cresceu 49%. O preço mé- e 1 para 301, respectivamente. Se neste
dio da turmalina bruta atingiu o recorde de ano as gemas primárias fossem exportadas
US$17,6/kg no ano de 1990 e o mínimo de na forma lapidada, as receitas adicionais
US$3,7/kg em 1995, enquanto o produto respectivas seriam de 6,9 milhões de dóla-
lapidado apresentou um máximo de res e 58,2 milhões de dólares, admitindo-se
US$2.653/kg em 1991 e um mínimo de um aproveitamento de apenas 20% no
US$320,8/kg em 1994. processo de lapidação. Este montante cor-
responderia a 5,1 vezes mais o valor efeti-
O preço médio da turmalina bruta vamente exportado naquele ano de água
em 1996 (US$4,9/kg) teve um acréscimo marinha e turmalina beneficiada.
de 32,4% em relação ao ano anterior e da
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
Conclusões
Da análise do presente trabalho proterozóico e relacionada ao ciclo tecto-
depreende-se que o Rio Grande do Norte orogênico Brasiliano.
possui potencial gemológico que insere o
estado entre os mais importantes do país, Os jazimentos de gemas se distri-
não só pela quantidade de jazimentos, mas buem em 28 municípios, sendo que sete
também pela qualidade e variedade de deles concentram 73,6% do total de jazi-
suas pedras preciosas e semi-preciosas. mentos cadastrados. Os quatro principais
Ele oferece subsídios que servem de base municípios detentores de gemas são Lajes
à implementação de políticas governamen- Pintadas, Tenente Ananias, Parelhas e
tais objetivando o desenvolvimento do se- Equador. Os dois primeiros concentram a
tor, bem como para atrair investimentos maioria dos jazimentos de água marinha e
privados nacionais e estrangeiros. nos dois últimos se encontram todos os
jazimentos de turmalina.
No estado foram cadastrados 148
jazimentos conhecidos e inéditos de ge- As gemas têm o pegmatito como a
mas, abrangendo onze espécies distintas: principal rocha hospedeira, reunindo 87,2%
água marinha, turmalinas de diversas co- do total dos jazimentos. Os outros tipos de
res, esmeralda, ametista, lazulita, granada, hospedeiras são biotitito, onde se alojam as
coríndon (rubí e safira), berilo para coleção, esmeraldas, e veios de quartzo que in-
quartzo róseo, euclásio e cordierita (iolita). cluem nove ocorrências de gemas. As en-
caixantes dos jazimentos são ortognaisses
Outras espécies estão registradas do embasamento, metassedimentos do
na literatura, como amazonita, morganita, Grupo Seridó e granitóides porfiríticos.
heliodoro, mangano-tantalita, brasilianita, Independente da natureza das encaixantes,
allanita, kunzita e ônix. as rochas portadoras de gemas não exi-
bem expressão topográfica.
A água marinha é a gema mais
abundante no estado, ocupando o segundo O Rio Grande do Norte tem um
lugar as turmalinas, e em terceiro a esme- grande número de pegmatitos, estando a
ralda. A grande maioria desses depósitos maior concentração deles na região central
está associada a rochas intrusivas do Neo- do estado, ao longo da Faixa Seridó. Os
42
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
pegmatitos são divididos em homogêneos, to que acompanham a extensa falha trans-
que são caracterizados por mineralogia corrente dextral de Portalegre. A tipologia
simples e uniforme, geralmente estéreis ou dos depósitos de esmeralda do estado
fracamente mineralizados, e heterogêneos apresenta certas similaridades a de jazidas
ou zonados, de mineralogia complexa e reconhecidas no Brasil e no mundo.
normalmente bem mineralizados. Os peg-
matitos portadores de gemas representam O Rio Grande do Norte possui três
uma pequena fração desses corpos. A áreas de grande concentração de jazimen-
maioria desses corpos se dispõe concor- tos de gemas, reunindo 67,6% do total
dante a subconcordante com a foliação cadastrado, as quais foram designadas de
regional das encaixantes e planos de cisa- Distrito Gemológico Centro-Sul, Distrito
lhamento, porém, na região de Parelhas- Gemológico Extremo Sudoeste e Distrito
Equador vários deles são discordantes, Gemológico Sul. Os dois primeiros são
preenchendo fraturas de distensão. essencialmente berilíferos, e o último, tur-
malinífero, mas contendo outras espécies
De um modo geral, os pegmatitos gemológicas como lazulita, euclásio, gra-
mineralizados em água marinha têm estru- nada, quartzo róseo e água marinha.
tura homogênea, mas eventualmente po-
dem apresentar massas de quartzo leitoso, O Distrito Centro-Sul abrange uma
2
e em muitos a gema se concentra, prefe- área de 374km , principalmente no municí-
rencialmente em bolsões diferenciados pio de Lajes Pintadas, e os pegmatitos
irregulares, de dimensões variáveis, por mineralizados se dispõem num trend NNE
vezes métricas. Tais bolsões se caracteri- com 21km de extensão, controlados por
zam pelo maior desenvolvimento dos fel- uma zona de cisalhamento que corta orto-
dspatos e micas, veios argilosos enferruja- gnaisses.
dos ou enegrecidos e aparecimento de
minerais secundários ou de alteração como O Distrito Extremo Sudoeste envol-
2
albita, cleavelandita, muscovita fina e, mais ve uma área de 459km principalmente nos
raramente, fluorita e apatita. Os K-felds- municípios de Tenente Ananias e Paraná;
patos podem estar corroídos e os bolsões nele inserem-se duas faixas paralelas, uma
podem conter cristais bem formados de mineralizada em água marinha, e a outra
quartzo hialino, leitoso e enfumaçado. A em esmeralda, ambas encaixadas em ter-
maioria desses pegmatitos está encaixado renos essencialmente de ortognaisses.
em ortognaisses do embasamento, for-
mando trends relacionados à zonas de O Distrito Sul compreende uma
2
cisalhamento. área de 684km entre as cidades de Pare-
lhas e Equador, onde os pegmatitos porta-
A variedade mais comum de turma- dores de gemas estão encaixados nos
lina nos pegmatitos é a schorlita, que pode metassedimentos do Grupo Seridó.
alcançar dimensões decimétricas. A maio-
ria dos pegmatitos mineralizados em turma- No mapa na escala 1:500.000, em
linas-gema nas espécimes indicolita, verde- anexo, estão delimitadas sete áreas cons-
lita, rubelita e bicolor, se apresenta em sideradas de alto a moderado potencial
avançado estágio de caulinização e está gemológico e seis áreas de moderado a
encaixado em muscovita quartzito da For- baixo potencial gemológico. As primeiras
mação Equador. Esses pegmatitos são são as mais favoráveis à prospecção, reu-
mais evoluídos, litiníferos, de estrutura nindo grande concentração de jazimentos
geralmente zonada, incluindo grande varie- de gemas. As últimas têm número reduzido
dade de minerais acessórios. de jazimentos de gemas, são contíguas às
O presente trabalho ensejou a des- primeiras e exibem os mesmos controles
coberta de uma importante faixa esmeraldí- lito-estruturais. Considerando que a maioria
fera que se estende descontinuamente por dos jazimentos de gemas estão encaixados
mais de 30km na direção NNE-SSW, loca- nos ortognaisses do Complexo Caicó, os
lizado no extremo sudoeste do estado, pegmatitos neles contidos são prospecti-
estando associada à zonas de cisalhamen- vos, particularmente aqueles controlados
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
por zonas de cisalhamento. Da mesma recursos e ausência de apoio e incentivo
forma mostram-se favoráveis os pegmatitos do Governo.
intrusivos na Faixa Seridó e nos granitos
porfiríticos da unidade Ne. Contudo, existem duas empresas
de mineração desenvolvendo pesquisa de
A maioria dos jazimentos de gemas turmalina em pegmatitos do município de
já foi objeto de garimpagem através de Parelhas. O expressivo potencial gemológi-
escavações superficiais dos pegmatitos, co do estado e a mão-de-obra abundante
principalmente para a produção de água com experiência na atividade extrativa mi-
marinha nos municípios de Tenente Ana- neral merecem atenção especial do Gover-
nias e Lajes Pintadas, onde alguns corpos no para retomar a produção, gerando em-
foram trabalhados por aberturas subterrâ- prego e renda, melhorando as condições
neas até uma profundidade máxima de sócio-econômicas de regiões extremamen-
15m. Atualmente a grande maioria dos te carentes, agravadas pela longa es-
jazimentos encontra-se inativo, por falta de tiagem.
44
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
Recomendações
Os depósitos de gemas do Estado produção é muito reduzido, devido ao apro-
do Rio Grande do Norte são de dimensões fundamento dos principais depósitos, a
modestas, mas são importantes para mine- descapitalização do pequeno minerador e,
ração de pequena escala, a qual é desen- principalmente, a falta de incentivos finan-
volvida em várias partes do mundo, propi- ceiros e apoio técnico por parte do Gover-
ciando a diminuição de problemas sócio- no.
econômicos, uma vez que a atividade é
reconhecida como absorvedora de mão-de-
obra, especialmente nos países em desen- A forma como a comercialização de
volvimento. gemas se processa no estado é muito pre-
judicial à sua economia, pois as vendas
são realizadas em bruto, muitas vezes sem
O estado dispõe de diversificada qualquer controle fiscal, e essas gemas são
matéria-prima mineral, mão-de-obra barata beneficiadas e exportadas por outros esta-
e abundante com experiência no extrati- dos. Assim, o estado desempenha apenas
vismo mineral e que, atualmente, não conta a atividade de maior risco e menor rentabi-
com qualquer tipo de assistência governa- lidade.
mental para promover o desenvolvimento
do setor. Apesar disso, a mineração de
pequeno porte é responsável por toda a Por outro lado, o rendimento da
produção de tantalita, columbita, berilo, produção é baixo, em razão da natureza
gemas, mica, cassiterita, feldspato, areia, rudimentar da atividade extrativa, sem
brita, barita e pedras brutas, e por grande aproveitamento racional do depósito por
parte da produção de scheelita, caulim, ausência de pesquisa e mineração organi-
calcário, argila, diatomito e pedra ornamen- zada.
tal.
Diante desses fatos, para modificar
O Rio Grande do Norte já foi gran- o quadro atual de estagnação do setor,
de produtor de água marinha, mas apesar promover o seu desenvolvimento e melho-
do expressivo potencial, o quadro atual de rar as condições sócio-econômicas do pro-
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
dutor e do estado, recomenda-se ao Go- uma escola de artesanato mineral visando
verno as seguintes linhas de ações: a formação de mão-de-obra qualificada e a
oferta de produtos nos mercados interno e
externo. Sobre matéria-prima para confec-
a) Instituir uma comissão de espe- ção de peças artesanais e bijuterias, mere-
cialistas para reestudar o extinto Programa ce citação, além dos minerais de pegmati-
de Gemas Nordeste - GENOR (Brasil, tos, a grande variedade de minerais colori-
1984) visando a sua adequação e implan- dos, como a calcita, granada, diopsídio,
tação no estado, de modo efetivo e exequi- epidoto, vesuvianita, rodonita, fluorita, etc.,
vel, para gerar emprego e renda, desenvol- encontrados em numerosos tactitos ou
ver a mineração e a racionalização de suas escarnitos do Rio Grande do Norte. As
atividades, assim como a valorização dos minas de scheelita do município de Currais
bens minerais. Com base nesses estudos, Novos são um celeiro desses minerais.
instituir o Programa da Pequena Mineração Vale registrar que, atualmente, os
para apoiar, orientar, planejar e fomentar a designers de pedras e joalheiros têm lan-
atividade mineira no estado, celebrando çado no mercado, e com grande aceitação,
convênios e parcerias com diversas entida- muitas novidades em pedras de diferentes
des afins, e captando recursos de institui- formatos, cores variadas como vermelha,
ções financeiras como o BNB e BNDES; rosa, azul, amarela e marrom ou preta, de
grande efeito visual, que vem despertando
interesse em diversos países. As peças
b) Implantar um Centro de Gemo- são também atraentes pelo preço bem
logia em Natal, podendo-se tomar como menor que o diamante, porque são traba-
referências os centros existentes em Minas lhadas com turmalinas, citrino, entre outras,
Gerais, Bahia e no campus de Campina sob a forma de anéis, pulseiras, colares,
Grande - PB. O referido centro poderia ser brincos, gargantilhas e pingentes;
instalado no Centro Federal de Educação
Tecnológica (CEFET), uma vez que ele já
dispõe de laboratório de Gemologia e de c) Reativar ou implantar cooperati-
museu de mineralogia. O centro teria como vas de pequenos mineradores nas áreas
atribuições promover cursos de especiali- de maior concentração de jazimentos de
zação em lapidação, design de jóias, peças gemas como Tenente Ananias, Parelhas e
de bijuteria e artesanato mineral. Desen- Lajes Pintadas, oferecendo assistência
volver pesquisas nos processos de corte, técnica e financeira aos seus integrantes, e
abrasão e polimento, essenciais à viabiliza- mantendo estreita ligação com o Centro
ção econômica de muitas espécies, bem Gemológico. Nessas áreas o controle da
como para otimizar o valor da pedra lapi- produção e a lavra simultânea em diversas
dada, desestimulando a sua venda na for- frentes são facilitadas pela proximidade dos
ma bruta. Promover estudos de mercado, corpos mineralizados, permitindo rápido
exposições e catálogos das pedras produ- acesso e deslocamento de equipamentos,
zidas no estado. Com base nessa estrutura além de favorecer a instalação de uma
técnica e operacional, empreender estudos única unidade central de beneficiamento;
para a implantação de projetos integrados
de mineração, em regime de parceria com
cooperativas mineiras e entidades afins, d) Selecionar pegmatitos minerali-
incluindo prospecção, lavra, beneficia- zados em gemas objetivando o seu apro-
mento, industrialização e comercialização veitamento integral, incluindo os minerais
de gemas lapidadas, dessa forma assegu- essenciais e acessórios, recuperando estes
rando o suprimento regular de matéria- últimos através de cata seletiva. A análise
prima para o centro. Este centro poderá ser de mercado e estudo de viabilidade eco-
desenvolvido em parceria com o SEBRAE, nômica preliminar de aproveitamento dos
SENAI, UFRN e outras entidades. Aprovei- minerais estruturais de pegmatitos da Pro-
tar a experiência do SEBRAE é muito im- víncia da Borborema mostrou-se exeqüível
portante, pois a entidade implantou em para alguns corpos de natureza heterogê-
Brasília, com o apoio de bancos privados, nea (Bezerra et al., 1994);
46
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
e) Considerando o baixo nível de f) Considerando-se que muitas ja-
conhecimento geológico da faixa esmeral- zidas brasileiras de água marinha são detrí-
dífera do estado e a importância econômica ticas, derivadas de pegmatitos, recomenda-
desta gema, propõe-se a criação de um se a prospecção de aluviões e eluviões nos
projeto específico para avaliação dessa distritos gemológicos Centro-Sul e Extremo
faixa, compreendendo uma área de Sudoeste, que constituem áreas de maior
2
175km , sendo 35km de extensão e 5km concentração de jazimentos desta gema.
de largura, ao longo da zona de cisalha- Essa investigação poderá resultar na des-
mento Portalegre. A área tem como limite coberta de depósitos secundários, como
sul a cidade de Paraná, e limite norte a também de novos jazimentos primários.
borda sul do açude Pau dos Ferros;
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
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Inédito.
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Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
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Documentação Fotográfica
Foto 1 - Berilo com água marinha no quartzo do pegmatito Rabo Gordo,
o
município de Tenente Ananias. Jazimento n 143.
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Foto 2 - Biotitito máfico hospedeiro da esmeralda em contato com rocha milo-
nitizada (clara), da Fazenda Albuquerque de Fora, município de Te-
nente Ananias. Notam-se boudins de milonito félsico englobado pelo
o
biotitito. Jazimento n 121.
Foto 3 - Cristal de berilo azulado (30cm x 10cm) no quartzo do pegmatito da
o
Fazenda Tapera II, município de Lajes Pintadas. Jazimento n 37.
Foto 4 - Cristais de schorlita no quartzo do pegmatito da Fazenda Capoeira,
o
município de Parelhas. Jazimento n 79.
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Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
Foto 5 - Bloco de lazulita com 20cm de diâmetro, associado a quartzo e mus-
covita, e incluindo uma massa de tantalita. Pegmatito da Fazenda
o
Carnaúba dos Bezerros, município de Parelhas. Jazimento n 86.
Foto 6 - Cristais de granada em sill granítico com silimanita e plagioclásio.
o
Fazenda Cajueiro, município de Acarí. Jazimento n 75.
Foto 7 - Contato brusco e discordante do pegmatito com espessartita gema, e
muscovita quartzito da Formação Equador. Fazenda Mirador, municí-
o
pio de Carnaúba dos Dantas. Jazimento n 76.
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
Foto 8 - Afloramento de fucsita xisto hospedeiro de rubí. Sítio Alto do Balanço,
o
município de Antônio Martins. Jazimento n 114.
Foto 9 - Veio de quartzo impregnado de cordierita-gema, encaixado em biotita
xisto da Formação Seridó. Fazenda Suçuarana, município de
o
Parelhas. Jazimento n 77.
Foto 10 - Pegmatito caulinizado com turmalina-gema, encaixado em
muscovita quartzito da Formação Equador. Garimpo do
o
Gregório, município de Equador. Jazimento n 97.
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Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
Foto 11 - Cristais de indicolita e rubelita em albita do pegmatito Capoeira II,
o
município de Parelhas. Jazimento n 81.
Foto 12 - Cristais de apatita azul do pegmatito Capoeira I, município de
o
Parelhas. Jazimento n 79.
Foto 13 - Trincheira de explotação do pegmatito Cabeço do Boqueirão, muni-
cípio de Parelhas. No centro, observa-se núcleo de quartzo maciço
leitoso, e no entorno, setor lavrado que produziu berilo e tantalita
o
(zona III). Jazimento n 82.
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Foto 14 - Pegmatito com estrutura dômica mineralizado em água marinha.
Garimpo Cedro Norte, município de Tenente Ananias.
o
Jazimento n 145.
Foto 15 - Afloramento de granito porfirítico Ne incluindo xenólito máfico cor-
tado por pegmatito. O granito é encaixante de vários pegmatitos mi-
neralizados em água marinha. Sítio Saco do Pereiro, município de
o
Acarí. Jazimento n 68.
Foto 16 - Lote de água marinha do pegmatito Mina Velha, município de
o
Tenente Ananias. Jazimento n 138.
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Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
Foto 17 - Lote de verdelita do pegmatito da Fazenda Turmalina, município de
o
Equador. Jazimento n 98.
Foto 18 - Lote de indicolita e rubelita do pegmatito Garimpo Bolandeira,
o
município de Equador. Jazimento n 96.
Gemas do Estado do Rio Grande do Norte
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