Tarefa 2
Tarefa 2
Definição
Otite refere-se a qualquer processo inflamatório ou infeccioso que acomete o ouvido de crianças, desde o recém-nascido até o final da
adolescência. É uma das infecções mais frequentes na infância e constitui um dos principais motivos de consulta em pediatria e
otorrinolaringologia. O termo abrange uma variedade de condições, sendo as mais comuns a otite média aguda (OMA) e a otite média com
efusão (OME), que envolvem a cavidade do ouvido médio. A otite externa, que afeta o conduto auditivo externo, também é frequente nesta faixa
etária.
Classificação
A classificação das otites em crianças é baseada principalmente na localização anatômica, duração, presença de sintomas e características do
líquido no ouvido médio.
Otite Externa: Inflamação/infecção do conduto auditivo externo, frequentemente bacteriana (ex.: "ouvido do nadador").
Otite Média Aguda (OMA): Infecção aguda com presença de líquido (efusão) no ouvido médio, acompanhada de sinais e sintomas agudos de
inflamação (dor, febre, irritabilidade).
Otite Média com Efusão (OME) ou Otite Média Secretora: Presença de líquido no ouvido médio sem sinais ou sintomas agudos de infecção.
Pode ser sequela de uma OMA ou relacionada a disfunção da tuba auditiva.
Otite Média Crônica Supurativa: Perfuração timpânica persistente com drenagem crônica (otorreia).
Persistente/Recidivante: Falha no tratamento ou recorrência precoce (dentro de dias) após término da antibioticoterapia.
Crônica: Duração superior a 3 meses (aplicável principalmente à OME e otite média crônica supurativa).
Complicada: Presença de complicações como mastoidite, paralisia facial, labirintite, meningite, entre outras.
Epidemiologia
A otite média é um problema de saúde global, com altas taxas de incidência na infância.
Prevalência: Até 80% das crianças terão pelo menos um episódio de OMA até os 3 anos de idade. A OME é ainda mais prevalente,
especialmente no inverno.
Pico de Incidência: Ocorre entre 6 e 18 meses de vida, com um segundo pico entre 4 e 5 anos. É rara no primeiro mês de vida.
Impacto Sazonal: A incidência de OMA aumenta significativamente nos meses de outono e inverno, coincidindo com o aumento das infecções
virais do trato respiratório superior.
Custos: Representa uma das maiores causas de prescrição de antibióticos em pediatria ambulatorial, com custos diretos e indiretos substanciais
(consultas, medicamentos, ausência dos pais ao trabalho).
Fatores de Risco
Idade: Lactentes e pré-escolares (tuba auditiva mais curta, horizontal e funcionalmente imatura).
Fatores Genéticos/Familiares: História familiar de otite recorrente. Algumas populações, como indígenas e inuítes, têm maior susceptibilidade.
Alterações Anatômicas: Fenda palatina, síndromes craniofaciais (ex.: síndrome de Down), que afetam a função da tuba auditiva.
Fatores Ambientais:
Aleitamento artificial (comparado ao aleitamento materno exclusivo nos primeiros 6 meses, que é protetor).
Etiologia
Haemophilus influenzae não tipável: Muito comum, frequentemente produtor de β-lactamase. Pode causar infecções mais arrastadas.
Moraxella catarrhalis: Comum, quase sempre produtor de β-lactamase, mas geralmente causa infecções mais leves.
Streptococcus pyogenes (Grupo A): Menos comum, pode estar associado a quadros mais agudos.
Vírus (podem causar OMA primária ou infecção viral que precede a bacteriana): Vírus Sincicial Respiratório (VSR), Rinovírus, Influenza,
Parainfluenza, Adenovírus. A coinfecção vírus-bactéria é frequente.
A etiologia é multifatorial e frequentemente estéril. Pode ser sequela de uma OMA (resíduo inflamatório) ou resultado de disfunção tubária.
Quando há bactérias, geralmente estão em forma de biofilme.
Otite Externa:
Bactérias: Pseudomonas aeruginosa (agente mais comum, especialmente em piscinas) e Staphylococcus aureus.
Fisiopatologia
Colonização e Infecção: A nasofaringe da criança é colonizada por bactérias patogênicas (pneumococo, H. influenzae). Uma infecção viral
respiratória prévia causa inflamação e edema da mucosa nasofaríngea e da tuba, prejudicando ainda mais sua função e servindo como porta de
entrada para as bactérias.
Resposta Inflamatória: A invasão bacteriana do líquido retido no ouvido médio desencadeia uma intensa resposta inflamatória (mediada por
citocinas, prostaglandinas), resultando em:
Resolução ou Complicação: Pode haver resolução espontânea ou com antibioticoterapia. Se a drenagem pela tuba não se restabelece, o líquido
pode persistir (OME). Em casos severos, a infecção pode se estender para estruturas adjacentes (mastóide, ouvido interno, sistema nervoso
central), causando complicações supurativas.
Quadro Clínico
A apresentação varia com a idade da criança e o tipo de otite.
Irritabilidade, choro intenso e inconsolável, principalmente ao deitar (a posição altera a pressão no ouvido médio).
Vômitos, diarreia.
Otalgia (dor de ouvido) é o sintoma principal e mais específico. A criança consegue localizar a dor.
Febre.
Sintomas de infecção de vias aéreas superiores associados (coriza, tosse, congestão nasal).
Hipoacusia condutiva flutuante: É o achado principal. A criança pode apresentar: "desatenção", aumento do volume da TV, pedidos de
repetição, atraso no desenvolvimento da fala e linguagem, pior desempenho escolar.
C. Otite Externa:
Dor intensa no ouvido, exacerbada pela mobilização do pavilhão auricular ou pressionamento do trago (sinal patognomônico).
Diagnóstico
História Clínica: Deve-se pesquisar sintomas de dor, febre, alterações auditivas, sintomas respiratórios associados e histórico prévio de otites.
Otoscopia Pneumática é o padrão-ouro para o diagnóstico de OMA. Permite avaliar a mobilidade da membrana timpânica.
Achados na OMA:
Membrana timpânica hiperemiada (vermelha), mas a hiperemia isolada pode ser por choro ou febre.
Sinais Principais: Abaulamento (protrusão) da membrana timpânica é o achado mais preditivo. Mobilidade reduzida ou ausente à insuflação de
ar. Opacificação da membrana.
Em casos avançados: Níveis hidroaéreos, bolhas atrás da membrana, ou perfuração com otorreia purulenta.
Achados na OME:
Membrana timpânica retraída ou em posição normal, mas opaca, âmbar (cor âmbar) ou azulada (hemotimpano).
Membrana timpânica frequentemente normal (se visível), mas pode estar secundariamente inflamada.
Exames Complementares
Geralmente não são necessários para o diagnóstico de rotina da OMA não complicada.
Complicações
Mastoidite Aguda:
Paralisia Facial Periférica: Por inflamação do nervo facial em seu trajeto no ouvido médio.
Labirintite
Meningite: Abscesso Epidural, Subdural ou Cerebral. Tromboflebite do Seio Venoso Lateral (Sigmóide).
Abscesso de Bezold
Tratamento
A abordagem pode ser expectante (observação vigilante) ou com antibióticos imediatos, dependendo da idade, gravidade e certeza diagnóstica.
Indicada para: Crianças > 6 meses com OMA não grave (otalgia leve, febre <39°C) e diagnóstico incerto OU crianças entre 6 meses e 2 anos
com OMA não grave mas com diagnóstico certo (ex: otoscopia pneumática inequívoca).
Consiste em analgesia sintomática e reavaliação em 48-72 horas. Se houver piora ou não melhora, inicia-se o antibiótico.
NÃO é indicada para: Crianças < 6 meses, OMA grave (otalgia intensa ou febre ≥39°C), crianças com <2 anos com diagnóstico bilateral,
histórico de otites recorrentes, imunodeficiência, ou presença de complicações.
Antibioticoterapia:
Primeira Escolha (maior cobertura para S. pneumoniae):
Amoxicilina em dose alta (80-90 mg/kg/dia), dividida em 2 tomadas. Duração: 10 dias para crianças <2 anos ou com OMA grave; 5-7 dias para
crianças >2 anos com OMA não grave.
Tipo I (anafilaxia): Claritromicina ou Azitromicina (menor cobertura para H. influenzae), ou Clindamicina (boa para pneumococo, mas não
cobre H. influenzae).
Trocar para antibiótico resistente à β-lactamase: Amoxicilina + Ácido Clavulânico em dose alta ou Ceftriaxona IM (por 1-3 dias).
Tratamento Sintomático:
Observação Vigilante ("Wait and See"): Primeira conduta na maioria dos casos, pois a maioria (80-90%) se resolve espontaneamente em 3 meses.
Avaliação Auditiva: Se a efusão persistir por >3 meses, realizar timpanometria e audiometria.
Tratamento Cirúrgico
OME bilateral com perda auditiva significativa (≥25-30 dB) por mais de 3 meses.
Procedimento: Miringotomia com colocação de tubo de ventilação (Tubo de Timpanostomia). A adenoidectomia pode ser associada,
principalmente se houver sintomas nasais ou em recidivas.
Gotas Otológicas Tópicas: Contendo antibiótico (ex.: ciprofloxacino, polimixina B) + corticoide (para reduzir edema e inflamação). Duração de
7-10 dias.
Vacinação:
Vacina Pneumocócica Conjugada (10-valente ou 13-valente): Reduziu significativamente a incidência de OMA por pneumococo, incluindo cepas
resistentes.
Vacina contra Influenza (gripe): Anual, reduz infecções virais que predispõem à OMA.
Vacina contra Haemophilus influenzae tipo b (Hib): Embora a OMA seja causada por cepas não tipáveis, a vacina também exerce algum efeito
protetor.
Identificação e Manejo de Fatores de Risco: Tratar alergias respiratórias, avaliar hipertrofia de adenoides em casos recorrentes.
Educação dos Pais/Cuidadores: Reconhecer os sinais de otalgia em lactentes, importância de completar o curso de antibióticos quando prescritos,
e conhecimento sobre as condutas de observação vigilante.
Acompanhamento: Reavaliação após um episódio de OMA para confirmar a resolução e identificar OME residual. Acompanhamento auditivo e
de desenvolvimento da fala em crianças com otites de repetição ou OME persistente.
Definição
Amigdalite é a inflamação aguda ou crônica das tonsilas palatinas (popularmente conhecidas como "amígdalas"), estruturas de tecido linfóide
localizadas na orofaringe, que fazem parte do anel linfático de Waldeyer (sistema de defesa imunológica da via aérea superior). Em pediatria, o
termo frequentemente se refere à faringoamigdalite, pois o processo inflamatório raramente se restringe apenas às tonsilas, acometendo também a
faringe. Pode ser de origem infecciosa (viral, bacteriana, fúngica) ou não infecciosa, representando uma das causas mais comuns de febre e dor de
garganta na infância.
Classificação
A classificação da amigdalite é baseada principalmente na evolução temporal, nas características clínicas e na etiologia.
Quanto à Evolução Temporal:
Amigdalite Aguda: Inflamação de início súbito, com duração geralmente inferior a 3 semanas.
Amigdalite Recorrente: Múltiplos episódios de amigdalite aguda ao longo do ano. Classicamente definida como: ≥7 episódios em 1 ano, OU ≥5
episódios/ano por 2 anos consecutivos, OU ≥3 episódios/ano por 3 anos consecutivos.
Amigdalite Crônica: Inflamação persistente ou de longa duração (>3 meses), geralmente com sintomas mais brandos e contínuos (dor de
garganta crônica, halitose, gânglios cervicais persistentes).
Quanto à Etiologia:
Infecciosa:
Viral (70-85% dos casos em crianças <5 anos): Adenovírus, Vírus Epstein-Barr (EBV - Mononucleose), Enterovírus, Rinovírus, Coronavírus,
Vírus Influenza e Parainfluenza, Herpes Simples.
Streptococcus pyogenes (Grupo A Beta-hemolítico - GABHS ou "estreptococo"): Agente bacteriano mais importante, devido ao risco de
complicações não supurativas (febre reumática, glomerulonefrite).
Outras: Streptococcus dos grupos C e G, Arcanobacterium haemolyticum, Neisseria gonorrhoeae, Corynebacterium diphtheriae (difteria - raro
com vacinação).
Não Infecciosa: Pode ocorrer em doenças sistêmicas (ex.: neutropenia cíclica, leucemia) ou por irritação (fumo passivo, refluxo gastroesofágico).
Amigdalite Vesículo-ulcerativa: Presença de vesículas e úlceras (comum em infecções por enterovírus e herpes).
Epidemiologia
Idade: É uma das infecções mais comuns na infância. O pico de incidência ocorre entre os 5 e 15 anos. Em crianças menores de 3 anos, as causas
virais são amplamente predominantes.
Sazonalidade: As infecções bacterianas por GABHS são mais frequentes no final do outono, inverno e início da primavera em climas
temperados.
Prevalência: Estima-se que cerca de 15-30% das faringoamigdalites em crianças em idade escolar sejam causadas por GABHS. Crianças em
idade escolar podem ter, em média, 2-4 infecções de garganta por ano.
Transmissão: Ocorre principalmente por contato direto com gotículas de secreção respiratória. É altamente contagiosa em ambientes fechados
(escolas, creches, lares).
Portador Assintomático: Cerca de 15-20% das crianças em idade escolar podem ser portadoras assintomáticas de GABHS na orofaringe, o que
complica a interpretação de testes positivos na ausência de sintomas clínicos.
Fatores de Risco
Exposição: Frequentar creches, escolas ou ter contato domiciliar com alguém infectado.
Sazonalidade: Meses mais frios.
Fatores Locais: Hipertrofia importante das amígdalas (que pode reter patógenos), respiração oral crônica (ressecamento da mucosa).
Etiologia
Lactentes e Pré-escolares (<5 anos): Predomínio Viral (>80%). Adenovírus é uma causa comum de faringoamigdalite exsudativa febril.
Rinovírus, coronavírus e vírus sincicial respiratório geralmente causam sintomas mais leves, associados ao resfriado comum. O EBV (causador da
mononucleose) pode ocorrer, mas é frequentemente assintomático nesta faixa.
Crianças em Idade Escolar (5-15 anos): Maior proporção de causas bacterianas. O Streptococcus pyogenes (GABHS) é o agente bacteriano de
maior relevância clínica. Também é a faixa etária mais acometida pela Mononucleose Infecciosa (EBV), que pode mimetizar uma amigdalite
bacteriana.
Vírus Epstein-Barr (EBV): Causa mononucleose infecciosa, com faringoamigdalite exsudativa marcante, linfadenopatia cervical, febre, fadiga e
esplenomegalia.
Enterovírus (Coxsackie, Echovirus): Podem causar herpangina (vesículas e úlceras no palato mole e úvula) ou doença mão-pé-boca.
Mycoplasma pneumoniae e Chlamydia pneumoniae: Podem causar faringite, muitas vezes associada a tosse e sintomas respiratórios baixos.
Fisiopatologia
Transmissão e Colonização: Os patógenos, principalmente vírus e o GABHS, são inalados ou inoculados por contato direto com secreções
infectadas. Eles aderem ao epitélio das células da mucosa da orofaringe e das criptas amigdalianas (invaginações profundas no tecido linfóide).
Resposta Inflamatória Local: A invasão tecidual ou a produção de toxinas pelos patógenos desencadeia uma intensa resposta inflamatória
mediada por citocinas (ex.: IL-1, IL-6, TNF-alfa). Isso resulta em:
Edema: Aumento do volume das amígdalas, podendo causar obstrução parcial das vias aéreas e dificuldade para engolir.
Exsudato: Extravasamento de fluido, fibrinogênio e neutrófilos, formando as placas brancas ou purulentas características da forma exsudativa.
Ativação Linfocitária: Hiperplasia do tecido linfóide e reação nos gânglios linfáticos regionais (cervicais), que ficam aumentados e dolorosos.
Resposta Sistêmica: A liberação de mediadores inflamatórios na corrente sanguínea causa febre, mal-estar, cefaleia e dor muscular.
O S. pyogenes produz várias enzimas e toxinas que facilitam a infecção e a resposta inflamatória (ex.: estreptolisinas, estreptoquinase,
hialuronidase).
O perigo maior da infecção por GABHS não é a amigdalite em si, mas as complicações não supurativas:
Febre Reumática Aguda: Doença autoimune desencadeada por anticorpos produzidos contra o estreptococo que reagem de forma cruzada com
antígenos de tecidos humanos (coração, articulações, sistema nervoso central, pele). Ocorre tipicamente 2-4 semanas após a infecção de garganta.
Glomerulonefrite Pós-Estreptocócica: Inflamação dos rins por depósito de complexos imunes, ocorrendo cerca de 1-2 semanas após a
infecção.
Quadro Clínico
A apresentação varia conforme o agente etiológico, mas alguns sintomas são comuns.
Dor de Garganta (odinofagia): Sintoma cardinal. Geralmente intensa, de início súbito, piora com a deglutição (disfagia).
Febre: Geralmente alta (>38.5°C), mais comum e elevada em infecções bacterianas, mas também presente em muitas virais.
Exsudato Tonsilar: Placas branco-amareladas, purulentas, sobre as amígdalas. IMPORTANTE: A presença de exsudato não é patognomônica de
infecção bacteriana (pode ocorrer na mononucleose e em infecções virais como por adenovírus).
Linfadenopatia Cervical Anterior: Gânglios aumentados e dolorosos, principalmente na região submandibular e jugulodigástrica.
Predomínio de Sintomas Respiratórios Altos (coriza, congestão nasal, tosse, rouquidão): Fortemente sugestivo de etiologia viral.
Sintomas Altamente Sugestivos de GABHS: Dor de garganta súbita com febre alta, cefaleia, náuseas/vômitos e ausência de
tosse/coriza/conjuntivite. Presença de petéquias no palato ("céu da boca"), língua em "framboesa" (papilas aumentadas e avermelhadas).
Hálito Cetônico/Amigdalar.
B. Quadros Específicos:
Mononucleose Infecciosa (EBV): Faringoamigdalite exsudativa marcante, adenomegalias cervicais volumosas e generalizadas (axilares,
inguinais), fadiga intensa e prolongada, esplenomegalia (aumento do baço - risco de ruptura com trauma), exantema (especialmente se tomar
amoxicilina - exantema morbiliforme).
Herpangina (Coxsackie A): Febre alta, dor de garganta, pequenas vesículas (2-4mm) e úlceras no palato mole, úvula e amígdalas.
Amigdalite por Adenovírus: Febre alta, faringite exsudativa, conjuntivite (olhos vermelhos sem secreção purulenta) - faringoconjuntivite febril.
Diagnóstico
O diagnóstico é fundamentalmente clínico, porém a distinção entre causas virais e bacterianas (principalmente GABHS) .
Escores Clínicos de Predição para GABHS: Auxiliam a decidir a necessidade de teste específico ou antibioticoterapia empírica. O mais usado é
o Escore de Centor Modificado (McIsaac):
Idade: 3-14 anos (1 ponto), 15-44 anos (0 pontos), ≥45 anos (-1 ponto)
Interpretação:
0-1 ponto: Risco baixo (2-10%). Não precisa de teste/antibioticoterapia.
2-3 pontos: Risco intermediário (15-35%). Recomenda-se fazer teste rápido ou cultura.
4-5 pontos: Risco alto (50-60%). Pode-se tratar empiricamente ou fazer teste.
Teste Rápido de Detecção de Antígeno (TR): Coleta de secreção da orofaringe com swab. Resultado em 5-10 minutos. Alta especificidade
(>95%) - um positivo confirma a infecção e indica tratamento. Sensibilidade variável (70-90%) - um negativo, em crianças com alta suspeita
clínica, deve ser confirmado com cultura.
Cultura de Secreção de Orofaringe: Padrão-ouro. Resultado em 24-48h. Identifica a presença e o tipo de estreptococo. Mais sensível que o teste
rápido. Indicada quando há alta suspeita e TR negativo, ou em casos de amigdalite recorrente.
Exames Complementares
Sorologia para EBV: Útil para confirmar mononucleose infecciosa (pesquisa de anticorpos heterófilos - Monoteste - ou anticorpos específicos
como VCA-IgM).
PCR para Patógenos Respiratórios: Disponível em alguns centros para identificar vírus e bactérias específicas, mas não é rotina.
Proteína C Reativa (PCR) ou Velocidade de Hemossedimentação (VHS): Podem estar elevadas, mas são inespecíficas, não diferenciando
vírus de bactéria de forma confiável.
Ultrassonografia Abdominal: Pode ser considerada na suspeita de mononucleose para avaliar esplenomegalia.
Complicações
Abscesso Periamigdaliano: A mais comum. Acúmulo de pus entre a cápsula da amígdala e a musculatura faríngea. Sinais: dor intensa unilateral,
voz "quente de batata", desvio da úvula, trismo (dificuldade de abrir a boca).
Abscesso Retrofaríngeo: Mais comum em crianças pequenas (<5 anos). Coleção purulenta na região retrofaríngea.
Sinusite.
Febre Reumática Aguda: Afeta coração (cardite), articulações (poliartrite migratória), sistema nervoso central (coreia de Sydenham), pele
(eritema marginado, nódulos subcutâneos).
Analgésicos/Antipiréticos: Paracetamol ou Ibuprofeno são a base do tratamento, para alívio da dor e da febre.
Hidratação: Oferecer líquidos frios ou gelados (água, sucos, sorvetes) para alívio da dor e prevenção da desidratação.
Cuidados Locais: Gargarejos com água morna e sal (para crianças maiores que já sabem fazer), pastilhas para garganta (em crianças mais velhas,
com cuidado para risco de engasgo).
NÃO estão indicados: Descongestionantes, anti-histamínicos ou corticosteroides de rotina (os corticoides podem ser usados em casos
selecionados de obstrução importante ou dor muito intensa, sob prescrição médica).
Primário: Prevenir a febre reumática aguda (o antibiótico reduz drasticamente esse risco).
Secundários: Reduzir a duração dos sintomas, prevenir complicações supurativas, reduzir a transmissibilidade.
Penicilina V (Fenoximetilpenicilina):
Dose: 50.000 UI/kg/dia (máx. 1.200.000 UI/dia), dividido em 2-3 vezes ao dia.
Duração: 10 dias completos. É crucial completar os 10 dias para erradicar o estreptococo e prevenir a febre reumática.
Cefalosporinas de 1ª Geração (ex.: Cefalexina): 40 mg/kg/dia, dividido em 2-3 doses, por 10 dias.
Amoxicilina: Pode ser usada, mas o perfil de resistência do GABHS é similar ao da penicilina.
Clindamicina ou Macrolídeos (Azitromicina, Claritromicina): Reservados para alergia grave (anafilaxia) à penicilina. Importante monitorar
resistência local.
Mononucleose (EBV): NÃO usa antibióticos. O tratamento é sintomático. Evitar amoxicilina/ampicilina (risco de exantema). Em casos graves
com obstrução, podem ser usados corticosteroides.
Isolamento e Higiene: A criança com suspeita de GABHS deve evitar escola/creche até completar 24 horas de antibioticoterapia (quando
indicado) e estar sem febre. Lavagem das mãos rigorosa, etiqueta da tosse (cobrir boca/nariz com o cotovelo).
Completação do Tratamento Antibiótico: Se prescrito, é imperativo completar os 10 dias, mesmo com melhora dos sintomas após 2-3 dias.
Acompanhamento: Retorno ao médico se não houver melhora em 48-72h de tratamento sintomático (viral) ou 48-72h após início do antibiótico
(bacteriano), ou se surgirem sinais de alarme como piora da dor, febre persistente, dificuldade respiratória, impossibilidade de ingerir líquidos.
Avaliação de Contatos Domiciliares: Em geral, não se recomenda tratar contactos assintomáticos. Se há histórico familiar de febre reumática,
pode-se considerar.
Vacinação: Não existe vacina para GABHS, mas a vacinação contra Influenza (gripe) pode prevenir um gatilho viral comum para infecções
secundárias.
Medidas Gerais de Saúde: Alimentação balanceada, sono adequado, prática de atividade física para fortalecimento do sistema imune.
Educação dos Pais: Esclarecer que a maioria das dores de garganta é viral e não precisa de antibiótico, explicar os sinais de gravidade e a
importância do seguimento adequado quando o antibiótico é prescrito.
Faringite
Definição
Faringite é a inflamação aguda ou crônica da mucosa e das estruturas linfoides da faringe, região anatômica que se estende desde as coanas
(parte posterior do nariz) até a entrada da laringe e do esôfago. Em pediatria, a faringite raramente ocorre de forma isolada, sendo frequentemente
associada à inflamação das tonsilas palatinas (amígdalas), configurando a faringoamigdalite. É uma das infecções mais comuns na infância,
representando um motivo frequente de consulta em atenção primária, urgências pediátricas e otorrinolaringologia. A importância clínica
central reside na necessidade de diferenciar as causas virais (maioria) da infecção bacteriana por Streptococcus pyogenes do grupo A (GABHS),
devido ao risco de complicações não supurativas como a febre reumática.
Classificação
Faringite Aguda: Inflamação de início súbito, com duração geralmente inferior a 3 semanas. Corresponde à apresentação mais comum.
Faringite Recorrente: Episódios repetidos de faringite aguda. Não há consenso absoluto, mas geralmente considera-se ≥5-7 episódios por ano.
Faringite Crônica/Persistente: Sintomas inflamatórios faríngeos que persistem por mais de 3 meses. Frequentemente associada a causas não
infecciosas.
Quanto à Etiologia:
Infecciosa:
Viral (70-85% dos casos em crianças, >90% em <3 anos): Rinovírus, Coronavírus, Adenovírus, Vírus Influenza e Parainfluenza, Vírus
Sincicial Respiratório (VSR), Enterovírus (Coxsackie, Echovirus), Vírus Epstein-Barr (EBV), Citomegalovírus (CMV), Herpes Simples Vírus
(HSV).
Bacteriana (15-30% dos casos):
Outros: Streptococcus dos grupos C e G, Arcanobacterium haemolyticum, Neisseria gonorrhoeae, Corynebacterium diphtheriae (difteria),
Mycoplasma pneumoniae, Chlamydia pneumoniae.
Não Infecciosa/Inflamatória:
Irritativa: Exposição a fumaça de tabaco (tabagismo passivo), poluição atmosférica, ar condicionado (ressecamento), abuso vocal, ingestão de
alimentos/álcool muito quentes.
Epidemiologia
Idade: A faringite aguda pode ocorrer em qualquer idade, mas a etiológica varia drasticamente:
<3 anos: Predomínio esmagador de causas virais (>90%). Infecções por GABHS são raras antes dos 3 anos (exceto em surtos domiciliares).
5-15 anos: Período de maior incidência de faringite por GABHS, com pico entre 5 e 10 anos. Esta é a faixa etária de maior risco para febre
reumática.
Adolescentes e Adultos Jovens: Aumento da prevalência de mononucleose infecciosa (EBV) e infecções por Mycoplasma.
Sazonalidade:
Faringite por GABHS: Mais comum no final do outono, inverno e início da primavera em regiões temperadas.
Faringite Viral: Pode ocorrer o ano todo, com picos associados à circulação de vírus respiratórios (outono/inverno) e enterovírus (verão/outono).
Prevalência: É uma das principais causas de consulta pediátrica. Estima-se que uma criança em idade escolar tenha, em média, 3 a 5 episódios de
faringite por ano.
Transmissão: Ocorre principalmente por contato direto com gotículas respiratórias (tosse, espirros) ou por contato com secreções em mãos ou
objetos contaminados.
Portador Assintomático: Cerca de 15-20% das crianças em idade escolar podem ser portadoras assintomáticas de GABHS na orofaringe, o que é
um fator de confusão importante na interpretação de testes positivos sem sintomas clínicos compatíveis.
Fatores de Risco
Idade: Crianças em idade escolar (5-15 anos) para GABHS; lactentes e pré-escolares para infecções virais.
Exposição: Frequentar creches, escolas, colégios internos, ou ter contato domiciliar com alguém com infecção estreptocócica ou viral.
Etiologia
A etiologia é ampla
Rinovírus e Coronavírus: Causam o resfriado comum, com faringite leve, coriza, congestão nasal e tosse.
Adenovírus: Causam faringite frequentemente exsudativa, com febre alta, e podem estar associados à conjuntivite (faringoconjuntivite febril).
Vírus Epstein-Barr (EBV): Causa da mononucleose infecciosa. Apresenta faringite exsudativa marcante, adenomegalias cervicais volumosas,
febre, fadiga intensa e esplenomegalia.
Enterovírus (Coxsackie A, Echovirus): Causam herpangina (vesículas e úlceras no palato mole e faringe) ou doença mão-pé-boca.
Vírus do Herpes Simples (HSV): Pode causar gengivoestomatite, com úlceras dolorosas na boca e faringe.
Vírus Sincicial Respiratório (VSR): Mais associado a bronquiolite em lactentes, mas pode causar sintomas de vias aéreas superiores.
Streptococcus pyogenes (GABHS): O agente bacteriano de maior relevância em pediatria. Sua importância transcende a faringite em si, devido
às complicações não supurativas.
Mycoplasma pneumoniae e Chlamydia pneumoniae: Causam "pneumonia atípica", mas frequentemente se apresentam inicialmente com
faringite, tosse persistente e mal-estar.
Arcanobacterium haemolyticum: Pode causar faringite exsudativa e exantema escarlatiniforme, principalmente em adolescentes.
Corynebacterium diphtheriae: Causa da difteria, rara em países com ampla cobertura vacinal, mas potencialmente grave (formação de
pseudomembranas).
Fisiopatologia
Transmissão e Colonização: Os patógenos, principalmente vírus e o GABHS, inalam-se ou inoculam-se por contato direto. Eles aderem aos
receptores específicos nas células epiteliais da mucosa faríngea. A aderência é o passo inicial crucial para a infecção.
Resposta Inflamatória Local: A invasão direta do tecido (vírus, algumas bactérias) ou a produção de toxinas e enzimas extracelulares (como as
do GABHS) desencadeia uma cascata inflamatória.
Resposta Vascular: Liberação de mediadores como histamina, bradicinina, prostaglandinas e leucotrienos causa vasodilatação
(eritema/vermelhidão), aumento da permeabilidade vascular (edema) e extravasamento de plasma e células inflamatórias (exsudato).
Resposta Celular: Recrutamento de neutrófilos, linfócitos e macrófagos para o local da infecção. A ativação linfocitária leva à hiperplasia do
tecido linfóide da faringe (como as amígdalas) e à reação nos gânglios linfáticos cervicais, que ficam aumentados e dolorosos (linfadenopatia).
Sintomas: Essas alterações levam diretamente aos sintomas de dor (odinofagia), dificuldade para engolir (disfagia) e sensação de garganta
"inchada".
Resposta Sistêmica: Os mediadores inflamatórios (ex.: IL-1, IL-6, TNF-alfa) liberados na corrente sanguínea são responsáveis pelos sintomas
constitucionais: febre, mal-estar, cefaleia, mialgia, anorexia e, em crianças, frequentemente náuseas e vômitos.
Mecanismos Específicos das Complicações (GABHS):
Complicações Supurativas (ex.: abscesso periamigdaliano): Extensão direta da infecção para tecidos profundos ou linfáticos.
Febre Reumática Aguda: Teoria da mímica molecular. Anticorpos produzidos contra antígenos do estreptococo (ex.: proteína M) reagem de
forma cruzada com antígenos de tecidos humanos semelhantes no coração (miocárdio, válvulas), articulações, sistema nervoso central (núcleos da
base) e pele, desencadeando uma doença autoimune.
Glomerulonefrite Aguda Pós-Estreptocócica: Deposição de complexos imunes (anticorpo-antígeno) nos glomérulos renais, causando
inflamação.
Quadro Clínico
Dor de Garganta (Odinofagia): Leve a moderada, muitas vezes descrita como "arranhando" ou "queimando".
Sintomas de Infecção de Vias Aéreas Superiores Associados: Coriza clara, congestão nasal, espirros, tosse e rouquidão. Esta é a principal pista
clínica para origem viral.
Cefaleia.
Hiperemia Faríngea Intensa e edema, frequentemente com exsudato purulento (placas branco-amareladas) nas amígdalas/faringe e petéquias
(pequenos pontos hemorrágicos) no palato mole.
Ausência de Sintomas Respiratórios Altos: Tosse, coriza e rouquidão geralmente estão AUSENTES. Esta é uma característica distintiva
importante.
Língua: Pode estar com papilas aumentadas (língua em "framboesa" ou "morango"), principalmente se houver exantema associado (escarlatina).
C. Apresentações Específicas:
Mononucleose Infecciosa (EBV): Tríade clássica: faringite exsudativa intensa, febre e adenomegalias cervicais volumosas (e frequentemente
generalizadas). Fadiga profunda e prolongada, esplenomegalia (risco de ruptura). Pode apresentar exantema, especialmente se administrado
amoxicilina.
Herpangina (Coxsackie A): Febre alta, dor de garganta e pequenas vesículas (2-4 mm) com halo eritematoso que progridem para úlceras,
localizadas no palato mole, úvula e pilares amigdalianos (pouco nas amígdalas propriamente ditas).
Faringoconjuntivite Febril (Adenovírus): Faringite exsudativa, febre alta e conjuntivite bilateral não purulenta (olhos vermelhos com
lacrimejamento).
Escarlatina: É uma apresentação da infecção por GABHS produtor de toxina eritrogênica. Apresenta todos os sintomas de faringite
estreptocócica mais um exantema característico: micropapular, áspero ("lixa"), que começa no tronco e se espalha, com palidez perioral e
descamação fina durante a convalescença.
Diagnóstico
História Clínica e Exame Físico Minucioso: Inclui avaliação da orofaringe (hiperemia, exsudato, vesículas, úlceras), palpação de gânglios
cervicais, pesquisa de hepatosplenomegalia, avaliação da pele (exantema).
Critérios Clínicos de Predição para GABHS (Scores): Ferramentas para quantificar a probabilidade pré-teste e guiar a decisão de testar ou
tratar. O mais utilizado é o Escore de Centor Modificado (McIsaac):
1. Febre >38°C
2. Ausência de tosse
5. Idade: 3-14 anos (1 ponto); 15-44 anos (0 pontos); ≥45 anos (-1 ponto)
Interpretação:
0-1 ponto: Risco baixo (<10%). Não indicado teste ou antibioticoterapia.
2-3 pontos: Risco intermediário (15-35%). Recomenda-se realizar teste rápido ou cultura.
4-5 pontos: Risco alto (50-60%). Pode-se considerar tratamento empírico ou realizar teste.
Teste Rápido de Detecção de Antígeno (TR): Coleta com swab da orofaringe (amígdalas e faringe posterior). Resultado em 5-10 minutos. Alta
especificidade (>95%) – um resultado positivo é confiável e indica tratamento. Sensibilidade variável (70-90%) – um resultado negativo não
exclui completamente a infecção em crianças com alta suspeita clínica, devendo ser confirmado por cultura.
Cultura de Secreção de Orofaringe: É o padrão-ouro. Maior sensibilidade. Resultado em 24-48 horas. Indicada quando o TR é negativo, mas a
suspeita clínica é alta, ou em casos de faringite recorrente.
Exames Complementares
Sorologia para EBV: Para confirmação de mononucleose infecciosa. O Monoteste (anticorpos heterófilos) pode ser negativo em crianças <4
anos; nesses casos, solicitar anticorpos específicos (anti-VCA IgM/IgG).
Complicações
A. Complicações Supurativas (Locais ou Regionais): Podem ocorrer tanto em infecções virais (mais raro) quanto bacterianas.
Abscesso Periamigdaliano:
Abscesso Retrofaríngeo:
Celulite/Cervical:
Sinusite.
Mastoidite.
Febre Reumática Aguda: Doença inflamatória multissistêmica que ocorre 2-4 semanas após a faringite. Afeta coração (cardite valvar –
consequência mais grave), articulações (poliartrite migratória), sistema nervoso central (coreia de Sydenham), pele (eritema marginado, nódulos
subcutâneos).
Glomerulonefrite Aguda Pós-Estreptocócica: Ocorre 1-2 semanas após a infecção. Apresenta hematúria, proteinúria, edema, hipertensão e
redução da função renal.
Tratamento
A base do tratamento é o suporte sintomático. A antibioticoterapia é reservada para infecção confirmada ou de alta probabilidade por GABHS.
Analgésicos e Antipiréticos: Paracetamol ou Ibuprofeno são a primeira linha para alívio da dor e da febre. Devem ser usados em doses e
intervalos apropriados para o peso da criança.
Hidratação: Oferecer líquidos frios ou em temperatura ambiente (água, sucos diluídos, picolés, gelatina) para aliviar a dor e prevenir a
desidratação, especialmente se houver febre e dificuldade para engolir.
Cuidados Locais (crianças maiores): Gargarejos com água morna e sal (½ colher de chá de sal em um copo de água) várias vezes ao dia.
Pastilhas para garganta (apenas para crianças com idade e habilidade segura para não engasgar).
NÃO estão indicados de rotina: Descongestionantes nasais, anti-histamínicos, corticosteroides ou sprays anestésicos tópicos (com risco de
efeitos adversos e reações alérgicas).
Indicado APENAS para faringite por GABHS confirmada (por TR ou cultura) ou de alta probabilidade clínica (score alto).
Primário e mais importante: Prevenir a Febre Reumática Aguda. O tratamento iniciado até 9 dias após o início dos sintomas é eficaz para esta
prevenção.
Secundários: Reduzir a intensidade e duração dos sintomas, diminuir a transmissibilidade e prevenir complicações supurativas.
Dose: 50.000 UI/kg/dia (máximo 1.200.000 UI/dia), dividida em 2-3 doses por dia.
Duração: 10 DIAS COMPLETOS. O cumprimento integral do ciclo é ESSENCIAL para a erradicação do estreptococo e prevenção da febre
reumática.
Dose única. Excelente opção quando há preocupação com adesão ao tratamento oral.
Dose: Crianças com <27 kg: 600.000 UI; ≥27 kg: 1.200.000 UI.
Alergia Não Anafilática (Tardia): Cefalosporinas de 1ª geração (ex.: Cefalexina 40 mg/kg/dia, dividida em 2-3 doses, por 10 dias) ou
Amoxicilina.
Alergia Anafilática/Imediata Grave: Clindamicina (20 mg/kg/dia, dividida em 3 doses, por 10 dias) ou Macrolídeos (Azitromicina 12 mg/kg/dia,
dose única diária por 5 dias, ou Claritromicina 15 mg/kg/dia, dividida em 2 doses, por 10 dias). A resistência aos macrolídeos deve ser
considerada.
Mononucleose Infecciosa (EBV): Tratamento exclusivamente sintomático. EVITAR AMOXICILINA/AMPICILINA (risco de induzir exantema
maculopapular). Corticosteroides (ex.: prednisona) podem ser considerados em casos graves com obstrução das vias aéreas ou complicações
hematológicas.
Isolamento e Higiene: A criança com faringite por GABHS confirmada ou suspeita deve ser afastada da escola ou creche até que complete pelo
menos 24 horas de antibioticoterapia adequada e esteja sem febre (sem uso de antitérmicos). Ensinar e praticar lavagem frequente das mãos com
água e sabão e etiqueta da tosse (cobrir boca/nariz com o cotovelo ou lenço descartável).
Completar o Curso Antibiótico: Se prescrito, é imperativo completar os 10 dias de antibiótico, mesmo que a criança melhore significativamente
após 2-3 dias. A interrupção precoce favorece recidivas e não previne a febre reumática.
Acompanhamento e Sinais de Alarme: Orientar os pais a retornarem se não houver melhora em 48-72h com tratamento sintomático, ou se 48-
72h após início do antibiótico a febre e a dor persistirem. Procurar atendimento imediato em caso de: dificuldade respiratória, incapacidade de
engolir líquidos (risco de desidratação), rigidez de nuca, dor intensa unilateral na garganta ou trismo.
Rinite em Pediatria
Definição
Rinite é definida como um processo inflamatório da mucosa nasal, caracterizado pela presença de um ou mais dos seguintes sintomas:
congestão/obstrução nasal, rinorreia (coriza), espirros e prurido (coceira) nasal. É uma das condições mais prevalentes na prática pediátrica,
afetando significativamente a qualidade de vida, o sono, o desempenho escolar e podendo estar associada a diversas comorbidades. Em crianças, a
rinite assume particular importância por interferir no desenvolvimento craniofacial, na alimentação (especialmente em lactentes, que são
respiradores nasais obrigatórios) e por ser um fator de risco importante para outras condições, como otite média, sinusite e asma.
Classificação
A classificação da rinite é complexa e pode ser abordada por vários critérios. A mais utilizada atualmente é a do ARIA (Allergic Rhinitis and its
Impact on Asthma), que se complementa com outras formas.
Rinite Alérgica (RA): Resposta inflamatória mediada por IgE a alérgenos inalantes.
Sazonal: Sintomas ocorrem em épocas específicas do ano (ex.: pólens de gramíneas, árvores).
Perene: Sintomas presentes durante todo o ano (ex.: ácaros da poeira, epitélios de animais, baratas, fungos).
Rinite Não Alérgica: Inflamação nasal sem envolvimento de mecanismos alérgicos IgE-mediados.
Rinite Vasomotora (ou Idiopática): Hiperreatividade nasal inespecífica a estímulos como mudanças de temperatura, umidade, odores fortes,
fumaça.
Rinite Medicamentosa: Uso crônico (>5-7 dias) de descongestionantes tópicos (fenilefrina, oximetazolina) - rinite de rebote; também por
medicamentos sistêmicos (anti-hipertensivos, antidepressivos).
Rinite por Alimentos (Gustativa): Corrida após ingestão de alimentos quentes ou picantes.
Intermitente: Sintomas presentes <4 dias por semana OU <4 semanas consecutivas.
Leve: Sono normal; atividades diárias normais (esporte, lazer, escola); nenhum sintoma incômodo.
Moderada a Grave: Presença de um ou mais dos seguintes: distúrbio do sono; prejuízo das atividades diárias; sintomas incômodos.
Epidemiologia
Prevalência: A rinite alérgica é uma das doenças crônicas mais comuns na infância. Sua prevalência varia globalmente, afetando entre 15% a
40% das crianças, com tendência de aumento nas últimas décadas, especialmente em áreas urbanizadas.
Idade de Início: Pode começar em qualquer idade, mas o diagnóstico de rinite alérgica é mais comum a partir dos 2-3 anos, com pico de
incidência na idade escolar e adolescência. Sintomas de rinite perene (ex.: ácaros) podem aparecer mais precocemente.
Distribuição por Tipo: A rinite alérgica representa a maioria dos casos de rinite persistente em crianças. Entre as não alérgicas, a rinite
infecciosa aguda (resfriado comum) é extremamente frequente, com crianças pequenas podendo apresentar de 6 a 8 episódios por ano.
Comorbidades: Está fortemente associada a outras condições atópicas. Cerca de 30-40% das crianças com rinite alérgica têm asma, e até 80%
das crianças com asma têm rinite. Também está associada a conjuntivite alérgica, otite média com efusão, sinusite, distúrbios do sono (ronco,
apneia) e prejuízo no desenvolvimento da arcada dentária (respiração oral crônica).
Impacto: Causa absentismo escolar, redução no rendimento escolar, distúrbios do sono e fadiga diurna, com significativo impacto na qualidade
de vida da criança e da família.
Fatores de Risco
Genéticos/Atopia: História familiar de atopia (rinite alérgica, asma, dermatite atópica) é o fator de risco mais importante.
Exposição a Alérgenos Internos: Ácaros da poeira doméstica, epitélios de animais de estimação (gato, cachorro), baratas, fungos (mofo) em
ambientes úmidos.
Exposição a Alérgenos Externos: Pólens (gramíneas, árvores, ervas daninhas), fungos atmosféricos.
Exposição a Irritantes: Fumaça de tabaco (tabagismo passivo), poluição atmosférica (ozônio, dióxido de nitrogênio, partículas finas), produtos
químicos (perfumes, cloro de piscinas).
Infecções Virais Precoces: Podem modular o sistema imune e influenciar o desenvolvimento de atopia.
Outros: Sexo masculino (maior prevalência na infância), nascimento durante a estação polínica, presença de refluxo gastroesofágico.
Etiologia
A. Rinite Alérgica:
Alérgenos Inalantes:
Interiores/Perenes: Ácaros (Dermatophagoides pteronyssinus, D. farinae), alérgenos de animais (Fel d 1 do gato, Can f 1 do cão), baratas
(Blattella germanica), fungos (Alternaria, Aspergillus, Penicillium, Cladosporium).
Exteriores/Sazonais: Pólens de gramíneas (capim, grama), árvores (cedro, bétula, oliveira, plátano) e ervas daninhas (ambrosia, artemísia).
Esporos de fungos (Alternaria, Cladosporium).
B. Rinite Infecciosa:
Viral (a maioria esmagadora): Rinovírus (principal agente do resfriado comum), Coronavírus, Vírus Sincicial Respiratório (VSR), Adenovírus,
Influenza, Parainfluenza, Enterovírus.
Bacteriana: Pode ocorrer como infecção bacteriana primária (rara) ou, mais frequentemente, como superinfecção bacteriana de uma rinite viral,
levando à sinusite bacteriana. Agentes: Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae, Moraxella catarrhalis.
Irritantes/Desencadeantes Inespecíficos: Fumaça, odores fortes, mudanças bruscas de temperatura e umidade, ar condicionado.
Medicamentos: Descongestionantes tópicos (causa mais comum de rinite medicamentosa), anti-hipertensivos (betabloqueadores, inibidores da
ECA), AAS, antidepressivos.
Refluxo Gastroesofágico (RGE): Irritação direta da mucosa nasofaríngea pelo conteúdo ácido.
Fisiopatologia
O mecanismo fisiopatológico difere radicalmente entre a rinite alérgica e as não alérgicas.
1. Fase de Sensibilização: Em um indivíduo geneticamente predisposto, a exposição inicial a um alérgeno (ex.: pólen) leva à produção de
Imunoglobulina E (IgE) específica. Essa IgE se liga a receptores de alta afinidade (FcεRI) na superfície de mastócitos e basófilos presentes na
mucosa nasal.
2. Fase de Re-Exposição e Reação Imediata (Minutos): Quando o alérgeno é inalado novamente, ele se liga à IgE específica na superfície dos
mastócitos, causando sua desgranulação. Esta libera mediadores pré-formados (principalmente histamina) e sintetiza novos (leucotrienos,
prostaglandinas, fator de ativação plaquetária).
Histamina: É o principal mediador, causando: prurido (via estimulação de terminais nervosos), espirros (reflexo), rinorreia aquosa (aumento da
permeabilidade vascular e estimulação glandular) e, em menor grau, congestão.
3. Fase de Reação Tardia (4-8 horas depois): É mediada pela migração de células inflamatórias (principalmente eosinófilos, neutrófilos e
linfócitos T) para a mucosa nasal, recrutadas por citocinas (IL-4, IL-5, IL-13) e quimiocinas liberadas durante a fase imediata.
Eosinófilos: Liberam proteínas básicas (proteína catiônica eosinofílica) que causam dano epitelial, hiperreatividade nasal não específica e
congestão nasal persistente, que é o sintoma predominante nesta fase.
4. Remodelação: Na rinite persistente não controlada, o processo inflamatório crônico pode levar a alterações estruturais na mucosa
(espessamento da membrana basal, hiperplasia glandular, metaplasia), perpetuando os sintomas.
Vasomotora/Idiopática: Disfunção do sistema nervoso autônomo, com predomínio do tônus colinérgico (parassimpático) sobre o adrenérgico
(simpático), levando à vasodilatação e hipersecreção glandular em resposta a estímulos inespecíficos (temperatura, odores).
Medicamentosa (por Descongestionantes Tópicos): Uso prolongado causa efeito rebote (congestão de ricochete) por down-regulation dos
receptores alfa-adrenérgicos, resultando em vasodilatação paradoxal e edema quando o medicamento é interrompido.
Quadro Clínico
A apresentação clínica varia conforme o tipo de rinite, mas os sintomas nasais cardinales estão sempre presentes.
A. Rinite Alérgica:
Sintomas Cardinales:
Prurido Nasal: Coceira no nariz, muitas vezes acompanhada de "saudações alérgicas" (a criança esfrega a ponta do nariz para cima com a palma da
mão - "saluto allergico").
Obstrução/Congestão Nasal: Sensação de nariz entupido, que pode ser bilateral ou alternante. Pode levar à respiração oral, roncos noturnos, voz
anasalada.
Sintomas Oculares Associados (Rinoconjuntivite Alérgica): Prurido ocular, lacrimejamento, hiperemia conjuntival, edema palpebral.
Outros Sinais e Sintomas:
Rinorreia: Inicialmente serosa/transparente, tornando-se mais espessa, mucoide ou purulenta (amarelada/esverdeada) após alguns dias. A cor da
secreção NÃO define etiologia bacteriana.
Obstrução Nasal.
Espirros.
Sintomas Associados: Dor de garganta, tosse (que pode durar semanas), rouquidão.
C. Rinite Vasomotora/Idiopática:
Obstrução nasal paradoxal e intensa, que melhora temporariamente com uma nova aplicação do spray, mas retorna de forma pior (efeito rebote).
Diagnóstico
Características dos Sintomas: Qual a queixa principal (obstrução, coriza, espirros)? Tipo da secreção? Presença de prurido?
Temporalidade: Intermitente ou persistente? Sazonal (primavera/outono) ou perene? Relação com ambientes específicos (casa, escola, campo)
ou atividades (limpeza, contato com animais).
Inspeção Externa: "Olheiras alérgicas", pregas de Dennie-Morgan, respiração oral, "saluto allergico", lábios ressecados.
Mucosa: Pálida, edemaciada, azulada ou acinzentada (alérgica) VS. hiperemiada e edemaciada (infecciosa).
Exames Complementares
Testes Cutâneos de Puntura (Prick Test): Padrão-ouro. Rápidos, seguros, de baixo custo e altamente sensíveis. Realizados no antebraço ou nas
costas com extratos de alérgenos. A leitura é feita em 15-20 minutos. É o exame de escolha em crianças.
Dosagem de IgE Específica no Soro (RAST/ImmunoCAP): Indicado quando os testes cutâneos não são viáveis (dermatite extensa, uso de anti-
histamínicos que não podem ser suspensos, risco de anafilaxia). Menos sensível e mais caro que o prick test.
Citologia do Raspado Nasal: Coleta de secreção nasal para pesquisa de eosinófilos (>10-20% sugere RA ou NARES) ou neutrófilos (>50%
sugere infecção). Tem utilidade clínica limitada.
Endoscopia Nasal: Reservada para casos refratários ou com suspeita de complicações (sinusite crônica, pólipos, corpo estranho, malformações).
Permite visualização direta das estruturas nasais e do meato médio.
Testes de Imagem: A radiografia simples de seios da face tem valor limitado. A tomografia computadorizada é reservada para avaliação de
sinusite crônica refratária ou suspeita de complicações.
Complicações
A rinite, especialmente quando não controlada, é um fator de risco para várias comorbidades:
2. Otite Média
Conjuntivite Alérgica.
Tratamento
O tratamento deve ser escalonado e individualizado, baseado no tipo de rinite, gravidade e impacto na qualidade de vida. O pilar do tratamento da
RA é o controle ambiental.
A. Medidas de Controle Ambiental (Evitação de Alérgenos e Irritantes):
Ácaros da Poeira: Usar capas antiácaros em colchões e travesseiros; lavar roupa de cama em água quente (>55°C); reduzir umidade ambiente
(<50%); aspirar com filtro HEPA; remover tapetes, cortinas e bichos de pelúcia do quarto.
Animais de Estimação: Idealmente, retirá-los de casa. Se não for possível, mantê-los fora do quarto da criança e banhá-los semanalmente.
Pólens: Manter janelas fechadas durante a estação polínica (principalmente ao amanhecer e entardecer); usar ar-condicionado com filtros; tomar
banho e trocar de roupa ao chegar em casa.
Fungos (Mofo): Controlar vazamentos e umidade; usar desumidificadores; limpar superfícies com soluções fungicidas.
Irritantes Universais: Eliminar completamente a exposição à fumaça do tabaco. Evitar odores fortes.
B. Tratamento Farmacológico:
De 2ª Geração (não sedativos): Primeira linha para sintomas de prurido, espirros e rinorreia. Loratadina, Cetirizina, Desloratadina,
Fexofenadina, Levocetirizina. São preferíveis por terem menor efeito sedativo e não afetarem o desempenho escolar.
De 1ª Geração (sedativos): Difenidramina, Dexclorfeniramina. Devem ser evitados em crianças por causar sedação significativa e prejuízo
cognitivo.
2. Corticosteroides Nasais Tópicos (CSNT): Medicação mais eficaz para o controle global da rinite alérgica, especialmente para obstrução nasal.
São a base do tratamento da RA moderada a grave.
Segurança: Perfil de segurança excelente em doses recomendadas. Raros efeitos locais (secura, sangramento nasal). Não há supressão
significativa do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal ou efeito no crescimento nas doses padrão.
3. Antagonistas de Leucotrienos:
Montelucaste: Indicado principalmente quando há associação com asma. Eficácia moderada para sintomas nasais e oculares.
Azelastina, Olopatadina: Rápido início de ação (minutos) para prurido, espirros e rinorreia. Podem causar gosto amargo e sedação leve.
Isotônica ou Hipertônica. Auxilia na lavagem mecânica de alérgenos e secreções, melhora a função ciliar e pode reduzir a necessidade de
medicamentos. É uma medida adjuvante segura e eficaz para todos os tipos de rinite.
Cuidados Gerais
Educação do Paciente e da Família: Explicar a natureza crônica da rinite alérgica, a importância da adesão ao tratamento contínuo (especialmente
aos CSNT), a diferença entre controle de sintomas e tratamento de base, e o papel das medidas de evitação.
Acompanhamento Regular: A rinite é uma condição dinâmica. Acompanhar a resposta ao tratamento, ajustar terapias, reavaliar o controle
ambiental e monitorar o desenvolvimento de comorbidades (ex.: asma).
Abordagem Integrada das Vias Aéreas: Avaliar e tratar sempre a via aérea como um todo. "Trate o nariz para controlar os pulmões". Toda criança
com rinite deve ser questionada sobre sintomas de asma e vice-versa.
Promoção da Respiração Nasal: Encorajar a criança a manter os lábios fechados e respirar pelo nariz. Em casos de respiração oral estabelecida, a
avaliação por ortodontista/odontopediatra pode ser necessária.
Cuidados com Higiene Nasal: Ensinar a técnica correta de lavagem nasal com soro fisiológico, especialmente em lactentes e crianças pequenas.
Uso Racional de Medicamentos: Evitar a automedicação, especialmente com descongestionantes tópicos. Enfatizar que antibióticos não têm
utilidade no tratamento da rinite alérgica ou viral não complicada.
Atenção à Qualidade do Sono: Investigar sempre a presença de roncos, sono agitado e apneias, que podem indicar obstrução significativa ou
síndrome da apneia obstrutiva do sono.
Vacinação: Manter a caderneta de vacinação em dia, incluindo a vacina anual contra a influenza.