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Inquerito

O capítulo aborda a instauração e condução do Inquérito Policial, detalhando como ele é iniciado e as diferentes formas de notitia criminis. A relação entre a forma de instauração e a ação penal é discutida, destacando a importância do Ministério Público como fiscal da legalidade. O conteúdo é relevante para advogados e promotores, pois a legalidade do ato inaugural da investigação pode impactar todo o procedimento.
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Inquerito

O capítulo aborda a instauração e condução do Inquérito Policial, detalhando como ele é iniciado e as diferentes formas de notitia criminis. A relação entre a forma de instauração e a ação penal é discutida, destacando a importância do Ministério Público como fiscal da legalidade. O conteúdo é relevante para advogados e promotores, pois a legalidade do ato inaugural da investigação pode impactar todo o procedimento.
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Capítulo 2: Instauração e Condução do Inquérito

Se o primeiro capítulo nos apresentou a "identidade" do Inquérito Policial


— o que ele é e quais são seus traços essenciais —, este capítulo nos levará
ao seu aspecto dinâmico: como ele nasce e como ele é conduzido na prática. A
instauração de um inquérito não é um ato discricionário ou casual; o "pontapé
inicial" formal da persecução penal, um momento regrado por lei que define o
marco a partir do qual o Estado começa a mobilizar seu aparato investigativo.
Compreender os diferentes gatilhos que podem dar início a uma investigação é
fundamental, pois cada um deles carrega consigo consequências jurídicas
específicas que repercutirão em todo o procedimento.

Neste percurso, o leitor encontrará um guia detalhado sobre as


diferentes formas de instauração do inquérito, a chamada notitia criminis.
Analisaremos como a investigação pode começar "de ofício" pela própria
autoridade policial, por meio de uma requisição do Ministério Público ou do
Judiciário, a partir de um requerimento da vítima ou, de forma coercitiva, pela
prisão em flagrante. Avançaremos para um ponto de conexão crucial: a relação
entre a forma de instauração e a natureza da ação penal, explicando por que
em alguns crimes a iniciativa da polícia é imediata e obrigatória, enquanto em
outros ela depende da manifestação da vítima. Por fim, abordaremos o papel
indispensável do Ministério Público, não apenas como destinatário final do
inquérito, mas como fiscal da legalidade e controlador externo da atividade
policial durante toda a sua condução.

O domínio deste conteúdo é de extrema relevância prática. Para o


advogado que exercerá a defesa do acusado, por exemplo, verificar a
legalidade do ato inaugural da investigação é um passo estratégico, pois uma
falha nesse momento — como a instauração de um inquérito para um crime
que exige representação sem que ela tenha sido oferecida — pode macular
todo o procedimento. Para o futuro promotor de justiça, é essencial saber
quando e como requisitar a abertura de uma investigação e fiscalizar sua
condução.
2.1. Formas de Instauração (Notitia Criminis):

O Inquérito Policial não surge do vácuo. Para que a máquina


investigativa do Estado comece a operar, é preciso que a autoridade policial
tome conhecimento da ocorrência de um fato com aparência de crime. A esse
ato de tomar conhecimento dá-se o nome de notitia criminis (notícia do crime).
A forma como essa notícia chega à polícia é de suma importância, pois, como
veremos, ela está diretamente ligada à natureza da infração penal e define se a
autoridade policial tem o dever ou apenas a faculdade de agir. A doutrina
classifica a notitia criminis em três modalidades principais.

2.1.1. Notitia Criminis de Cognição Direta (ou Imediata)

Ocorre quando a própria autoridade policial toma conhecimento do fato


criminoso em suas atividades rotineiras, sem que tenha sido provocada por
terceiros. É a polícia descobrindo o crime por conta própria.

 Forma de Instauração: De Ofício.


 Previsão Legal: Artigo 5º, inciso I, do CPP.
 Aplicação: Esta forma de instauração é um dever da autoridade policial e se
aplica aos crimes de ação penal pública incondicionada (aqueles que, pela sua
gravidade, o Estado tem interesse em processar independentemente da
vontade da vítima, como homicídio, roubo, corrupção, etc.).
 Exemplo Prático: Policiais em patrulha encontram um corpo com marcas de
violência em um terreno baldio. Diante da evidente materialidade de um crime
de homicídio, o delegado tem a obrigação de instaurar o inquérito de ofício
para apurar o fato.
2.1.2. Notitia Criminis de Cognição Indireta (ou Mediata)

Esta é a modalidade mais comum. Acontece quando a notícia do crime


chega à autoridade policial por meio de um terceiro. A comunicação é feita por
alguém de fora da instituição policial. Ela se subdivide em:

a) Requisição da Autoridade Judiciária ou do Ministério Público: Trata-se


de uma ordem, uma determinação formal para que o inquérito seja
instaurado. O delegado não tem a faculdade de avaliar a conveniência;
ele deve cumprir, salvo se a ordem for manifestamente ilegal.

o Previsão Legal: Artigo 5º, inciso II, do CPP.


o Exemplo Prático: Um promotor de justiça, ao analisar um processo de
inventário, descobre documentos que indicam que a assinatura do
falecido foi falsificada. Ele, então, requisita à Polícia Civil a instauração
de um inquérito para apurar o crime de falsificação de documento.

b) Requerimento do Ofendido ou de seu Representante Legal: É o


pedido formal feito pela vítima ou por quem a represente. Este ato é
crucial nos crimes que não são de ação penal pública incondicionada.

o Previsão Legal: Artigo 5º, inciso II, e § 4º do CPP.


o Aplicação: É indispensável nos crimes de ação penal privada (ex:
calúnia, injúria, difamação) e nos de ação penal pública condicionada à
representação (ex: ameaça, estelionato em regra). Nesses casos, o
requerimento contém a manifestação de vontade da vítima em ver o
autor do fato processado (a representação).
o Exemplo Prático: A vítima de um golpe de estelionato comparece à
delegacia e, por meio de um boletim de ocorrência e de um termo
próprio, tratando-se de uma pessoa de 25 anos, requer a instauração
de inquérito e representa criminalmente contra o autor do fato.

Atenção: O estelionato é, por regra geral, um crime de ação penal pública condicionada à
representação da vítima, mas se tornou incondicionado em casos específicos previstos no Código Penal,
como quando a vítima é a Administração Pública, menor de 18 ou maior de 70 anos, incapaz ou pessoa
com deficiência, conforme alterações do "Pacote Anticrime" (Lei 13.964/2019) e Lei nº 15.229/2025, que
alteraram a redação do §5º do art. 171 do Código Penal.
c) Delatio Criminis (Comunicação por Terceiro): É a comunicação feita
por qualquer pessoa do povo. Diferente da requisição, não é uma
ordem. Diferente do requerimento, não parte da vítima.

o Previsão Legal: Artigo 5º, § 3º, do CPP.


o Aplicação: Qualquer cidadão que tenha conhecimento de um crime de
ação pública pode comunicá-lo à polícia. Se a comunicação for
anônima (delatio criminis inqualificada), a jurisprudência entende que
ela não pode, por si só, fundamentar a instauração do inquérito,
exigindo uma verificação preliminar das informações (VPI) para
confirmar a existência de indícios mínimos.
o Exemplo Prático: Um cidadão liga para o disque-denúncia e informa
sobre um ponto de venda de drogas em sua rua. A polícia, a partir
dessa informação, realiza diligências preliminares e, confirmando a
suspeita, instaura o inquérito.

2.1.3. Notitia Criminis de Cognição Coercitiva

Ocorre quando a autoridade policial toma conhecimento do crime no


exato momento em que ele está sendo executado, resultando na prisão em
flagrante do autor.

 Forma de Instauração: Auto de Prisão em Flagrante.


 Previsão Legal: Artigos 301 e seguintes do CPP.
 Aplicação: A lavratura do auto de prisão em flagrante já é, em si, a peça
inaugural do Inquérito Policial. A situação de flagrância é a própria notícia do
crime, e a prisão dá início imediato e compulsório à apuração formal.
 Exemplo Prático: Uma guarnição da polícia militar surpreende um indivíduo
arrombando a porta de uma loja durante a madrugada e o prende. Na
delegacia, o delegado lavra o auto de prisão em flagrante, que dará início ao
inquérito para apurar a tentativa de furto qualificado.
2.2. O Inquérito nos Diferentes Tipos de Ação Penal: Pública
incondicionada, pública condicionada à representação e ação penal
privada.

A instauração e a condução do Inquérito Policial não seguem um modelo


único para todos os crimes. A forma como a investigação se inicia e se
desenvolve está intrinsecamente ligada à natureza da ação penal
correspondente à infração apurada. A "chave de ignição" do inquérito, por
assim dizer, muda conforme o interesse protegido pela norma penal. É a lei
que define quem tem a legitimidade para provocar o sistema de justiça, e essa
definição impacta diretamente a atuação da autoridade policial. Vamos analisar
como o inquérito se comporta em cada cenário.

2.2.1. Ação Penal Pública Incondicionada

Esta é a regra geral no nosso ordenamento. Abrange os crimes que, por


sua gravidade e repercussão social, o Estado tem o dever de processar,
independentemente da vontade da vítima. Exemplos clássicos são o homicídio,
o roubo, a corrupção e, após recentes alterações legislativas, a injúria racial.

 Iniciativa do Inquérito: A investigação é regida pelo princípio da oficiosidade. A


autoridade policial, ao tomar conhecimento do fato, tem o dever de instaurar o
inquérito de ofício (art. 5º, I, do CPP).
 Papel da Vítima: A manifestação da vítima é irrelevante para o início ou
prosseguimento da investigação. Mesmo que a vítima se retrate ou perdoe o
agressor, o inquérito continuará, pois o titular do direito de punir é o Estado,
representado pelo Ministério Público. Como destaca o Superior Tribunal de
Justiça, a vítima de crime de ação penal pública incondicionada não tem o
direito de impedir o arquivamento do inquérito, pois a titularidade da ação é do
Ministério Público (STJ - AgRg no RMS 65113/SP).
2.2.2. Ação Penal Pública Condicionada à Representação

Aqui, o Estado ainda é o titular da ação penal, mas sua atuação está
condicionada a uma manifestação de vontade da vítima (ou de seu
representante legal), chamada de representação. A lei entende que, em certos
crimes, a exposição causada pelo processo pode ser mais danosa à vítima do
que o próprio crime, deixando a ela a decisão de autorizar ou não a persecução
penal. Exemplos incluem o crime de ameaça e, como regra geral após a Lei
13.964/2019, o estelionato.

 Iniciativa do Inquérito: A autoridade policial não pode agir de ofício. A


instauração do inquérito depende da representação da vítima, que funciona
como uma "condição de procedibilidade". Sem ela, qualquer ato investigativo
formal é nulo. A representação pode ser feita diretamente à autoridade policial,
ao Ministério Público ou ao juiz, que a remeterá à polícia.
 Prazo para Representar: A vítima tem um prazo decadencial de 06 meses para
oferecer a representação, contados a partir do dia em que descobre quem é o
autor do crime (art. 38 do CPP). Se não o fizer nesse prazo, perde o direito de
ver o autor processado. A identificação da vítima e o conhecimento da autoria
são, portanto, marcos essenciais.

2.2.3. Ação Penal Privada

Nesta modalidade, o Estado transfere ao particular (a vítima) a


titularidade do direito de processar o autor do fato. São crimes que, em geral,
ofendem a esfera íntima do indivíduo, como os crimes contra a honra (calúnia,
difamação e injúria, com exceções).

 Iniciativa do Inquérito: A instauração do inquérito depende de requerimento de


quem tenha qualidade para intentar a ação penal (art. 5º, § 5º, do CPP). A
polícia não pode agir de ofício nem por requisição do MP. A investigação é
regida pelos princípios da oportunidade e conveniência, cabendo à vítima
decidir se deseja ou não provocar a atuação estatal.
 Papel da Vítima: A vítima é a protagonista. Ela deve requerer a instauração do
inquérito e, posteriormente, contratar um advogado para oferecer a queixa-
crime (a peça inicial da ação penal privada). Se a vítima permanecer inerte, o
Estado nada poderá fazer.
 Ação Penal Privada Subsidiária da Pública: Existe uma situação híbrida
importante. Se, em um crime de ação penal pública, o Ministério Público não
oferecer a denúncia no prazo legal, a vítima pode, excepcionalmente, iniciar a
ação por meio de uma queixa-crime. Contudo, essa possibilidade só existe se
houver inércia comprovada do MP, e não quando o órgão promove o
arquivamento ou requisita novas diligências.

Em resumo, a natureza da ação penal funciona como um semáforo para


a autoridade policial: na ação pública incondicionada, o sinal está sempre
verde; na condicionada, o sinal está amarelo, aguardando a autorização
(representação) da vítima; e na privada, o sinal está vermelho, e só a vítima
(pelo requerimento) pode fazê-lo abrir.

2.3. O Papel do Ministério Público: O controle externo da atividade


policial e a titularidade da ação penal.

Se a Polícia Judiciária é o motor da investigação, o Ministério Público


(MP) é o seu navegador e principal destinatário. A relação entre essas duas
instituições é um dos eixos centrais da persecução penal. O MP não é um mero
espectador que aguarda passivamente a conclusão do Inquérito Policial; ele
atua como um fiscal permanente da legalidade dos atos e, principalmente,
como o titular exclusivo da ação penal pública. Para compreender a dimensão
e a importância de suas funções, é imprescindível, antes de tudo, entender o
que é o Ministério Público.
2.3.1 A Natureza Jurídica do Ministério Público

Muitos estudantes, no início do curso, tendem a associar o Ministério


Público ao Poder Judiciário ou ao Executivo, mas essa é uma imprecisão. A
Constituição de 1988 conferiu ao MP um status único e de extrema relevância,
que o posiciona de forma autônoma no desenho do Estado.

O artigo 127 da Constituição Federal define o Ministério Público como


uma "instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado,
incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos
interesses sociais e individuais indisponíveis". Vamos decifrar essa definição:

 Instituição Permanente e Autônoma: O MP não pertence a nenhum dos três


Poderes (Executivo, Legislativo ou Judiciário). Ele possui autonomia funcional
e administrativa, o que significa que seus membros não estão subordinados a
juízes, governadores ou ao Presidente da República. Essa independência é a
garantia de que sua atuação será pautada apenas pela lei e pela Constituição.
 Essencial à Função Jurisdicional: Embora não seja parte do Poder Judiciário,
ele é vital para que a justiça funcione. No processo penal, por exemplo, sem a
atuação do MP para promover a acusação, o Judiciário permaneceria inerte na
grande maioria dos crimes.
 Defensor da Sociedade: Sua missão transcende a acusação criminal. O MP
atua na defesa do meio ambiente, do consumidor, do patrimônio público, dos
direitos de crianças, idosos e pessoas com deficiência. Por isso, ele é
frequentemente chamado de "fiscal da lei" ou "advogado da sociedade".

Essa autonomia é assegurada por três princípios institucionais: a


unidade (o MP é um só órgão, embora dividido em ramos), a indivisibilidade
(um membro pode ser substituído por outro sem prejuízo para a atuação) e a
independência funcional (cada promotor ou procurador tem liberdade para
atuar segundo sua convicção, com base na lei e nas provas, sem interferência
hierárquica).
2.3.2 O Ministério Público como Titular da Ação Penal (Dominus Litis)

A principal função do MP no contexto do Inquérito Policial deriva do


artigo 129, I, da Constituição: ele é o titular privativo da ação penal pública. Isso
o torna o dominus litis (o "dono da lide", o senhor da ação). Todo o trabalho
investigativo da polícia é, em última análise, direcionado a ele. Ao receber os
autos do inquérito, o membro do Ministério Público tem três caminhos a seguir:

1. Oferecer a Denúncia: Se entender que há justa causa (prova da materialidade


e indícios suficientes de autoria), ele oferecerá a denúncia ao Poder Judiciário,
dando início à ação penal.
2. Requisitar Novas Diligências: Caso considere que a investigação está
incompleta, ele pode requisitar o retorno dos autos à delegacia, indicando as
diligências que ainda são necessárias para a formação de sua convicção.
3. Promover o Arquivamento: Se concluir pela ausência de justa causa (por
atipicidade do fato, extinção da punibilidade ou falta de indícios mínimos), ele
promoverá o arquivamento do inquérito. Com as alterações do "Pacote
Anticrime" (Lei 13.964/2019) no artigo 28 do CPP, o arquivamento ordenado
pelo próprio MP deve ser comunicado à vítima, ao investigado e à autoridade
policial, com a possibilidade de revisão pela instância superior do próprio
Ministério Público.

2.3.3 O Ministério Público e o Controle Externo da Atividade Policial

Além de ser o destinatário do inquérito, o MP exerce o controle externo


da atividade policial, conforme previsto no artigo 129, VII, da Constituição. Isso
não significa que o MP seja hierarquicamente superior à polícia, mas sim que
ele tem o poder-dever de fiscalizar a legalidade, a regularidade e a eficiência
do trabalho policial.

Esse controle se manifesta de várias formas:

 Realizando visitas periódicas às delegacias de polícia.


 Tendo acesso a quaisquer documentos relativos à atividade-fim policial.
 Requisitando a instauração de inquéritos policiais.
 Apurando a ocorrência de eventuais abusos ou omissões por parte de policiais.

O objetivo do controle externo é duplo: garantir que a investigação


criminal seja conduzida com respeito aos direitos fundamentais do cidadão e
assegurar que a apuração dos fatos seja a mais completa e correta possível,
fornecendo um subsídio de qualidade para a futura ação penal.

Exercício Prático – Tema Polêmico: Denúncia Anônima

Cenário: A autoridade policial instaura um inquérito para investigar um suposto


esquema de pirâmide financeira com base, unicamente, em uma denúncia anônima
detalhada recebida por e-mail.

o Questão: É lícita a instauração de inquérito policial com base exclusiva


em denúncia anônima? Quais procedimentos deveriam ser adotados
pela autoridade policial para validar as informações antes de iniciar
formalmente a investigação?

Decisão de Apoio: Estudo do STJ - AgRg no RHC 139242/SP, que considera nula a
instauração de inquérito baseada apenas em delação apócrifa, sem investigações
preliminares.

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