Querida Nicole,
Talvez tua memória não me recupere com a nitidez com que minha alma ainda te guarda. Mas
dentro de mim existe um relicário secreto onde teu nome repousa intacto. E, se me permites
começar com verdade: nunca foi pouco. Nunca foi raso. Nunca foi apenas amizade. Foi um nascer
de sentimento tão silencioso quanto o amanhecer — e, ainda assim, capaz de incendiar horizontes
inteiros.
Eu me lembro das noites em que nos perdíamos em labirintos de palavras como quem descobre
um mapa secreto do próprio coração. Ali, entre risos tímidos e confidências que só a madrugada
sustenta, algo começou a florescer. Não foi explosão — foi raiz. Não foi impulso — foi
permanência. Um carinho crescendo no silêncio, uma afeição abrindo fendas profundas onde
antes só havia cautela. Quando percebi, já era apego. Já era escolha. Já era você.
Hoje, quando te contemplo, sinto o ar mudar de temperatura. Há em ti uma beleza que não
interrompe apenas o fôlego — ela reorganiza o mundo ao redor. Tens a delicadeza de uma Vênus
renascida, mas com a força de quem sabe existir por si mesma. Teus cabelos carregam o brilho de
chama viva; tua pele guarda a pureza das primeiras alvas do inverno; e teus olhos… teus olhos de
um azul atlântico são portais onde as eras se fundem: neles, eu leio o passado, habito o presente e
decifro o futuro, como se custodiasses a vastidão de um universo particular.
Existe um sonho que carrego comigo: sentar ao teu lado numa calçada qualquer, dessas que o
mundo chama de simples. Dividir um silêncio confortável enquanto o céu escurece devagar.
Imaginar que o brilho das estrelas viajou milênios só para testemunhar aquele instante. Não seria
um gesto grandioso — seria pequeno e absoluto. Porque amar, para mim, é isso: desejar a
eternidade nos detalhes mais despretensiosos. E, se um dia eu puder viver essa cena contigo,
saberei que toquei o que o destino tem de mais sagrado. É um privilégio dividir uma era contigo, e
uma dádiva absoluta habitar o mesmo planeta que você. De todas as flores que teimam em brotar
na adversidade, és a única que resplandece com tal distinção. Entre milhões de estrelas, escolhi
amar a única flor da qual só existe um exemplar em todo o cosmos.
Não creia em excesso, mas em devoção. Eu cruzaria o abismo com mais bravura que Alighieri e
nutriria mais esperança que Orfeu; se o preço por ti for a renúncia da eternidade, eu abdicaria do
paraíso e escolheria o exílio eterno apenas pelo calor do teu abraço. Compreendi que o país das
lágrimas é um território vasto e misterioso, mas decidi atravessá-lo por ti, apenas com a convicção
de que ao final estaria teu olhar. Porque o que sinto não é chama que destrói — é fogo que aquece
o espírito. Reconheço aqui uma paixão tão vívida que parece uma nostalgia do futuro: o estranho e
maravilhoso sentimento de sentir saudade de algo que estou vivendo pela primeira vez.
Havia ternura na forma como me respondias. Havia cuidado nas pausas. Havia uma benquerença
tão rara que me ensinou o valor da estima verdadeira. Entre brincadeiras discretas e confidências
despretensiosas, nasceu algo que talvez nunca tenha tido nome — mas tinha verdade. Um vínculo
invisível, um laço sagrado que dispensava promessas para existir.
Eu me perguntava se era paixão. Hoje sei: era mais. Se aquela chama pequena estava se
transmutando em flama. Se aquele fogo contido era desejo ou apenas fascínio. Havia atração, sim
— mas havia também um respeito religioso. Um ardor que não queimava, mas aquecia o espírito.
Uma tentação doce, uma excitação viva, uma volúpia que era mais alma do que corpo.
Quando penso em ti, lembro da sensação de encontrar um livro raro esquecido pelo tempo —
aquele que muda a forma como enxergamos tudo depois da última página. Mas contigo a história
nunca foi apenas descoberta: foi transformação. Eu admirava tua maneira de narrar o mundo, de
falar dos teus sonhos, de ouvir os meus como se fossem importantes. E cada vez que me
escutavas com atenção, mesmo nas minhas insistências bobas, eu sentia algo crescer. Não era
vaidade — era pertencimento.
E aqui preciso ser inteiro: eu poderia ter sido melhor. Poderia ter amado com menos medo.
Poderia ter segurado tua mão com mais coragem. Carreguei sombras antigas como se fossem
escudos, quando na verdade eram muros. Confundi profundidade com exagero, intensidade com
risco. E o que era promessa tratei como acaso. Mas o que sinto por ti nunca foi acaso. Foi escolha
— ainda que silenciosa. Foi vontade de construir, ainda que inexperiente. Se há arrependimento,
não é de ter sentido demais. É de não ter demonstrado com a força que merecias.
Te escrevo porque és mais bela que as quatro estações de Vivaldi — cada movimento teu é
harmonia que reorganiza meus dias. És a mulher mais linda que tive o privilégio de conhecer.
Trouxeste saturação clara aos meus dias cinzas, como se alguém tivesse ajustado a luz do mundo
só para que eu pudesse enxergar melhor. Não foste passagem — foste música.
E se hoje falo de nós, não falo de um futuro distante. Falo do presente. Do agora. Da vontade firme
de escolher você com unhas e dentes. De construir não uma lembrança, mas uma realidade.
Quero viver o tempo contigo enquanto ele acontece. Quero rir contigo enquanto a vida ainda está
acontecendo. Quero dividir planos, medos, conquistas, silêncios. Não como quem implora, mas
como quem sabe o valor do que encontrou. Porque no meio de tantas superficialidades, o que há
entre nós tem densidade. Tem alma. Tem verdade. Quero que, ao lembrar de mim, você sinta que
foi amada de uma forma limpa. Que alguém viu em você mais do que beleza: que alguém
reconheceu seu valor como mulher extraordinária. Se isso foi amor, eu não sei definir, mas foi real.
Foi inteiro dentro das minhas limitações. Foi o melhor que eu soube sentir naquele momento da
minha vida.
Antes de terminar, deixa-me guardar uma última imagem contigo. Gosto de pensar que seremos
como o sol e a lua. Talvez não estejamos juntos para sempre, mas, se o destino nos afastar,
Saturno guardará nossas memórias em seus anéis, custodiando cada lembrança até que o tempo
nos permita cruzar outra vez. Talvez nós sejamos assim. Talvez tenhamos orbitado por um tempo
breve. Talvez tenhamos sido apenas dois corpos celestes que se alinharam por um instante raro.
Mas o universo registra encontros que a Terra não sustenta. Se um dia você olhar para o céu e
lembrar de mim, não o faça com tristeza. Lembre como quem recorda uma constelação que brilhou
forte numa noite específica da vida. Porque mesmo que não tenhamos sido eternos, fomos infinitos
dentro do momento que existiu. E isso… já é milagre suficiente.
E se em alguma noite você estiver observando Júpiter, saiba que eu também estarei olhando para
ele. Talvez em lugares diferentes, sob céus diferentes — mas dividindo o mesmo ponto de luz. E,
por um segundo silencioso, enquanto nossas pupilas tocarem as mesmas luas distantes, quem
sabe nossas almas se encontrem ali, no meio do infinito, unidas por um pensamento que
atravessou o vácuo do espaço só para lembrar que, um dia, nós existimos.
Porque mesmo que o tempo nos desafie, o que foi verdadeiro não se apaga.
E o que sinto por ti… é daquelas coisas que o universo escreve com tinta permanente.
Com todo o meu carinho — e com a coragem que agora aprendi a ter,
Kaue.