“EU POSSO FALAR QUALQUER COISA COM ESSA VOZ”: O ENGAJAMENTO
POLÍTICO DE NINA ROSA NO SAMBA CARIOCA
Bruna Aparecida Gomes Coelho (UFRJ)1
RESUMO
Nina Rosa é uma cantora carioca conhecida no mundo do samba por se envolver em
diversos nichos dessa cultura, como os blocos de carnaval e as rodas de samba. A partir de
uma entrevista concedida ao canal Portela Cultural (YouTube) e de algumas músicas
gravadas pela artista, analisamos suas escolhas de repertório e como isso se relaciona com
sua trajetória de vida. Por ser mulher, negra, sambista, Nina escolheu cantar contra o
racismo, contra o machismo, mas também cantar sobre aquilo que lhe remete ao afetivo.
Nina Rosa representa a mudança de posicionamento das mulheres do samba, as quais
optaram por criar espaços em que possam divulgar seus trabalhos e fortalecer suas lutas.
PALAVRAS-CHAVE
História das Mulheres; História da Música; Nina Rosa; Samba; Engajamento Político.
Nasce uma mulher sambista
Nina Rosa foi criada na cidade do Rio de Janeiro e desde cedo se envolveu com a
música. Quando estudou no Colégio Franco-Brasileiro teve uma professora que lhe
ensinou sobre músicas indígenas, africanas e outros ritmos brasileiros, além de ter
sido aluna da Escola de Música Villa-Lobos, onde aprimorou seus conhecimentos de
percussão. A família teve sua parcela de influência para a cantora: o pai tinha uma
loja de discos e a avó era mangueirense de coração e levava a neta aos ensaios da
Mangueira e a blocos de carnaval. Contudo, Nina começou a cantar
profissionalmente apenas quando estava estudando na Universidade Estadual do
Rio de Janeiro (UERJ), no início dos Anos 2000. Nesse período ela fundou com
alguns amigos o grupo Samba de Maria, que se apresentava em regiões próximas à
UERJ, como o bairro de Vila Isabel.
Cantora, compositora e percussionista, Nina Rosa faz parte da nova geração de
talentos da música popular brasileira que conseguiu despontar no cenário do samba
devido à sua potente interpretação e notável voz. Já fez apresentações por todo país
e esteve ao lado de grandes nomes como Leci Brandão e Nei Lopes. Soma-se ao
seu repertório canções de variados estilos como samba-canção, samba-de-roda,
bossa-nova, coco, jongo, baião, ijexá e até a defesa de sambas de enredo –
Histórias Para Ninar Gente Grande, samba de enredo da Mangueira em 2019, foi
defendido por Nina ao lado da pequena Cacá Nascimento. Ao longo dos anos foi
construindo seu nome musical e no universo sambista das rodas, blocos e escolas
de samba, sendo hoje uma das expoentes do samba carioca.
As escolhas artísticas de Nina Rosa
Para compreendermos o engajamento político presente na obra de Nina Rosa
analisaremos uma entrevista concedida no dia 4 de agosto de 2020 para o canal
Portela Cultural (YouTube), em que a cantora foi entrevistada por Dandara Luanda,
e as seguintes canções gravadas pela artista: Pra Matar Preconceito, Negra Linda,
Vale Saída.
Em determinado momento da conversa a entrevistadora afirmou que, em sua
perspectiva, Nina não desvinculava sua arte de seu posicionamento político, ao que
a cantora respondeu da seguinte maneira:
Você está totalmente certa [...] e é como muita gente me vê também.
[...] Eu acho que a postura em cantar, em chegar em algum lugar e
dizer “eu sou mulher negra, preta, eu sou mulher que mereço espaço
e respeito, sou mulher trabalhadora da música, do samba”. São
essas mensagens que eu passo, que são muito simples, mas a
sociedade complica isso de uma forma que eu acho que quando
você está com o microfone na mão é uma boa maneira de você
explicar para um tantinho mais de gente. (Nina Rosa, 4 ago. 2020).
É evidente que a cantora avalia que sua música é uma forma de defender seu
espaço na sociedade. Em outro momento, a entrevistadora levantou a questão sobre
existir uma resistência às mulheres dentro do samba e questionou Nina sobre como
a artista lida com tal problema. A cantora fez a seguinte análise:
Eu acho que essa coisa do machismo é em decorrência da
sociedade. É o machismo estrutural. Então ele vai acontecer em
qualquer lugar da sociedade, inclusive no samba que é o lugar de
tantas mulheres, de tantas matriarcas, de tantas tias importantes. [...]
Eu caminho pelo samba como eu tenho que caminhar, como eu
gostaria de caminhar: se pisar no calo a gente canta mais uma
música, a gente ganha o samba. (Nina Rosa, 4 ago. 2020).
Nina admite que precisou aprender a andar nesse território marcadamente
masculino, construindo sua trajetória e vencendo as adversidades através da própria
música. O que ainda acontece, muitas vezes, é uma necessidade de se afirmar
diante dos seus iguais, enfrentando e vencendo desafios para ser reconhecida pelos
seus pares.
Portanto, em sua fala a artista demonstra o interesse por combater duas questões
importantes, que são o machismo e o racismo. Isso é perceptível em duas músicas
gravadas por ela: Pra Matar Preconceito (Manu da Cuica e Raul DiCaprio) e Negra
Linda (Déa Santtos e Hamilton Fofão). A primeira foi gravada em 2016, em parceria
com Marina Iris, e deu origem a um clipe roteirizado pelo Coletivo Bando. Já a
segunda faz parte do primeiro EP do grupo musical Muxima Muato, que foi fundado
em 2018 e do qual a cantora é integrante. O EP recebeu o título de Coração de
Mulher, que é a tradução de Muxima Muato (dialeto africano quimbundo) para o
português.
A música Pra Matar Preconceito já diz a que veio nos primeiros versos: “Na rua me
chamam de gostosa / E um gringo acha que eu nasci pra dar / No postal mais
vendido em qualquer loja / Tô lá eu de costas contra o mar”. Após essa abertura que
fala da objetivação do corpo feminino, especialmente negro, a letra centraliza a
condição da mulher negra e a visão que a sociedade tem sobre elas.
Posteriormente, ao citar importantes nomes como Ciata, Dandara e Quelé, a poesia
remete a importantes figuras femininas da resistência negra. A canção afirma que
ninguém pode dizer o lugar dessas mulheres, e que sua história de resistência é
muito antiga. Há como objetivo conseguir demonstrar a força e altivez dessas
personagens que sobreviveram ao longo dos séculos, construindo suas histórias e
contribuindo para a libertação de seu povo não apenas das correntes físicas, mas
também das correntes sociais e culturais.
A canção Negra Linda é um jongo que exalta a beleza da mulher negra e ao mesmo
tempo suas raízes: “Negra, Linda, Joana, Axé, Saravá / Força, fé em Oxalá / Ginga,
Maria, Jongo, Benguela, Alujá / Chega de negro só penar”. As palmas e o coro no
fundo evidenciam o clima de roda de jongo, reforçando a imagem das raízes
africanas presentes na canção ao mencionarem elementos que compõem as
religiões de matriz africana e citarem povos que foram trazidos da África. É uma
música que remete ao ouvinte um sentimento de empatia e reconhecimento da luta
do povo negro.
Durante a entrevista, Nina pontuou que sua obra artística também tem relação com
o amor, que é um componente principal da última canção mencionada neste texto.
Vale Saída é um samba cadenciado escrito por Ivan da Gamboa e gravado por Nina
em 2020, narrando o possível fim de uma história de amor: “Não me procura mais,
se quer olha pra mim / Nenhuma graça faz, não sei amar assim / Decide o que fazer:
se vai dar atenção / Ou dar um vale saída das garras do teu coração”. Como a
própria artista afirmou em sua entrevista, ela também gosta de cantar sobre a
natureza, o amor e outros temas que atravessem a sua sensibilidade.
Conclusão
Existe uma movimentação no samba carioca em que as mulheres têm buscado criar
seus próprios espaços para se apresentarem como artistas, não esperando mais a
boa vontade de territórios já ocupados e estabelecidos em sua maioria por homens.
É o caso do Encontro Nacional de Mulheres na Roda de Samba, que teve sua
terceira edição em 2020 e contou com a participação de mulheres de outros países.
Um evento criado por mulheres e feito por mulheres para o público em geral, que se
tornou palco para homenagear as grandes mulheres sambistas, além da
oportunidade delas apresentarem suas pautas, projetos e trabalhos musicais. Um
ambiente para terem voz, como a própria Nina disse: “Eu posso falar qualquer coisa
com essa voz, mas é importante que a gente tenha voz” (Nina Rosa, 4 ago. 2020). A
artista busca fazer parte desses novos projetos e ocupar esses territórios como, por
exemplo, integrando o bloco carnavalesco “Comuna que Pariu!” (do qual é instrutora
de percussão) e os grupos “Vibra Negra Voz” e “É Preta”.
Nina Rosa e seu engajamento político no samba carioca é um exemplo dessa nova
geração de mulheres sambistas que não ficam mais esperando que as
oportunidades surjam, mas que as criam e se beneficiam delas. Por se reconhecer
enquanto mulher negra do samba, a cantora faz escolhas artísticas que refletem
suas lutas sociais e culturais, pois o palco se tornou um momento para conversar
com o público e ampliar sua voz, fazendo com que outras pessoas ouçam seu
discurso e entendam suas lutas. Desta forma, as fontes apresentadas neste breve
texto exemplificam o seu olhar sobre questões que permeiam o seu cotidiano, como
essa luta contra o machismo e o racismo. É importante ressaltar também a busca
dessas mulheres por recontar a história pela ótica de suas ancestrais, as quais
foram relegadas muitas vezes ao esquecimento ou até mesmo ao silenciamento na
construção desse importante universo cultural que é o samba carioca2.
1 Bruna Aparecida Gomes Coelho é doutoranda em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ). Desenvolve pesquisas sobre as mulheres do samba, dando visibilidade ao seu engajamento político e
cultural. Este trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (CAPES). E-mail para contato: [Link]@[Link].
2 PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. [Tradução Ângela M. S. Côrrea]. – São Paulo : Contexto,
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