Regras para Citação:
LOUREIRO, J. V. O Reformismo Político Pombalino e seus Reflexos na Experiência
Jurídica da Colônia Brasileira. Revista dos Estudantes de Direito da Universidade de
Brasília, n. 7, p. 382-398, 2008.
O REFORMISMO POLÍTICO POMBALINO E SEUS REFLEXOS NA EXPERIÊNCIA JURÍDICA DA COLÔNIA
*
BRASILEIRA
João Vitor Loureiro**
RESUMO: Questiona o conceito de despotismo esclarecido para a compreensão da história moderna.
Aborda, dentro de tal contexto, os impactos das políticas reformistas empreendidas pelo Marquês de
Pombal para a colônia brasileira do século XVIII e seus principais reflexos no modo de compreensão do
Direito então vigente.
PALAVRAS-CHAVE: Despotismo esclarecido. Direito colonial. Pombalismo. Experiência jurídica. Ideologia.
1. Luzes no ocidente. O Estado moderno e o despotismo esclarecido.
Os últimos anos nos quais a chama do Antigo Regime ainda permanecia acesa pela
Europa Ocidental marcaram-se por um sem-número de confrontos ideológicos, que
desafiavam as instituições políticas então vigentes e que confluíram em concepções de
governo marcadas por hibridismos e pragmatismos. O florescimento da crítica trazida pelo
pensamento iluminista ao Estado moderno fez resultar em experiências de modelos políticos
em diversas nações européias que assumiram cursos históricos marcados pela diversidade1 e
que, no entanto, apresentavam consideráveis semelhanças entre si.
Com isto, a historiografia tradicional consagrou a expressão despotismo esclarecido
para designar, de modo geral, as muitas formas de governo que, situadas em meio a um
período que anunciava o fim do Estado Absoluto, a gênese do Estado de Direito, o triunfo do
Liberalismo e a dissolução do Colonialismo nas Américas, constituíram modelos de
conciliação institucional e administração tributários de ideais como anticlericalismo,
progresso, humanismo e racionalismo.2
Ressalte-se, ainda, que a marca da centralização política de tal regime repousava na
figura de um rei, ocupante da posição soberana de monarca absoluto. Tal monarca, por sua
vez, mobilizava um corpo de ministros conselheiros, confiados à modernização do Estado,
tendo em vista os ideais-anseios de uma burguesia progressivamente desperta a seu
fortalecimento político. Assim, tais governos buscavam um aparente arranjo de forças,
conciliando ideais nascentes em meio a novos grupos sociais a experiências políticas
reformistas.3 É esse Estado contraditório e mutante, palco do antagonismo que se interpõem
*
Artigo apresentado sob a forma de comunicação originalmente intitulada “Ideologia e contradição no regime jurídico
colonial pombalino”, no III Congresso Brasileiro de História do Direito, realizado pelo Instituto Brasileiro de História
do Direito e pelos Programas de Pós-Graduação em Direito e em História da Universidade Federal do Paraná- UFPR,
de 12 a 15 de setembro de 2007.
**
Graduando em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
1
FALCON, 1993, p. 7.
2
Idem, p. 20.
3
HESPANHA, 2007, p. 1.
poder e liberdade, a que alguns historiadores deram o nome de Estado barroco.4 Um Estado
que induz o leitor a compará-lo ao homem-artista setecentista, incoerente e ideologicamente
dividido entre as coisas espirituais e temporais de seu tempo.
O que se verifica, em tal período, é que a aparente incoerência entre ideais
iluministas e monarquia absoluta revelava-se como uma adequação pragmática às
transformações sociais de então. Exemplo maior desse período se estampa no governo de D.
José I, rei de Portugal (1750-1777), aconselhado por Sebastião José de Carvalho e Melo,
Marquês de Pombal e Conde de Oeiras5. Seu governo, marcado por inúmeras reformas
políticas, foi capaz de pôr em marcha a modernização do Reino Português às custas da
exploração mercantilista e de uma ferrenha política colonial, tendente à unificação
administrativa6, em sua principal colônia, o Brasil.
Personalidade de extrema relevância à história portuguesa e à história colonial
brasileira, o Secretário dos Negócios Estrangeiros e da Guerra de D. José I foi caracterizado
por Antônio Ribeiro dos Santos, um dos colaboradores mais próximos de Pombal na área da
reforma educacional e eclesiástica, como uma figura que “quis civilizar a nação e, ao mesmo
tempo, elevar o poder real do despotismo.”7 Ou ainda, segundo outra descrição, como uma
personalidade em que tudo “se cumpriu à custa de repentes e assomos, ímpetos e
explosões.”8
É pela vontade e braços dessa espécie de ‘super ministro’ que Portugal passa a viver
um período de reformas no sentido de sua modernização: Lisboa é reconstruída após o
terremoto de 1755, a escravidão é abolida no Reino, as velhas tradições escolásticas de
ensino são substituídas e reformuladas, a indústria é incentivada, o Tribunal de Inquisição
torna-se subordinado ao Estado, suprimem-se as perseguições aos “cristãos-novos”9. Porém,
há que se destacar a existência de uma capa de aparências a revestir o período pombalino,
progressivamente rompida à medida que novas políticas iam fazendo o governo de D. José I
abandonar uma administração organizada exclusivamente em torno de favorecimentos
pessoais e privilégios, em direção a uma administração organizada em torno de méritos
pessoais e fidelidade política, e marcada por uma sensível centralização das decisões de
governo.10
E é pela mesma vontade e pelos mesmos braços que o Marquês concebe uma nova
política colonial ao Brasil. O preço das reformas modernizadoras em Portugal a ser pago seria
o engendrar de uma total reorganização administrativa das colônias, e especialmente da
colônia americana que, àquele momento, havia descoberto o eldorado das Minas Geraes e
vivia a corrida do ouro e a marcha da interiorização territorial, prometendo vultosos lucros à
metrópole. Valores feito a liberdade, tão propagados pelo ideário ilustracionista e em franca
aterrissagem no horizonte europeu da segunda metade do século XVIII, pareciam estar
distantes da realidade brasileira de então. Ainda que as políticas pombalinas tenham atuado
no sentido de uniformizar a administração e proporcionar uma maior coordenação das
atividades coloniais, verifica-se largo abismo entre o Brasil e Portugal de tal período e,
especialmente, entre o perseguido pela vontade do governante e o efetivamente praticado,
conforme ressalta HESPANHA:
Mesmo quando - como acontece no período pombalino -, no plano da
teoria política, já na Europa e no Reino se propõe como ideal um governo
dominado pelo princípio da unidade e da disciplina, as dificuldades da sua
4
AVELLAR, 1983; p. 88.
5
MAXWELL, 1997, pp. 1-2.
6
AVELLAR, 1983, p. 21.
7
MAXWELL, Op. cit., p. 3.
8
TEIXEIRA SOARES, 1983, p.4.
9
ZIRAVELLO, 2000, pp. 210-217.
10
HESPANHA, 2007, p. 5.
realização, mesmo na metrópole, são imensas. Pela simples razão de que se
tratava de mudar, radicalmente, concepções políticas ou, simplesmente,
maneiras espontâneas de pensar e de organizar, que vinham moldando as
mentalidades desde há séculos.11
Aparentemente, esse repensar da política colonial portuguesa no Brasil introduziu
noções completamente alheias aos domínios econômicos, jurídicos, políticos e culturais até
então constituídos; jamais se havia visto uma presença tão marcante da metrópole nas
relações individuais, nas relações de comércio, nas relações de ocupação territorial, de
educação e tutela de indígenas, jamais se havia visto, enfim, o tamanho do Estado12 e a
abrangência do Direito em seu aspecto objetivo. Ousando dizer que, em tal período,
introduz-se no Brasil a idéia de Direito atarraxada - a seu próprio modo, apanágio brasileiro -
à própria concepção de Estado.
Porém, a dimensão que alcança o reformismo pombalino na colônia somente pode
ser considerada diversa à experiência até então constituída se observado sob certas
restrições. Não há uma ruptura completa dos padrões de organização político-administrativa
da colônia, antes de tudo, o destaque do governo está concentrado em esforços fiscalistas de
arrecadação, no claro intuito de financiar as atividades do Estado.13 Daí se falar em uma
presença mais evidente da Coroa nos diversos aspectos da vida colonial e de uma
reorganização administrativa gradativa, que assume as formas conjunturais oferecidas pelo
contexto da crise do colonialismo americano.14
Por ora, há que se considerar, para uma compreensão mais adequada do real
significado da reorganização administrativa empreendida por Pombal, que a idéia de Estado
Colonial é algo como uma unidade abstrata, nele não se precisando parcelas, poderes ou
funções: a atividade do Estado pode ser, nesse sentido, figurada: o Estado é personalizado -
através de símbolos feito a Coroa Portuguesa - e constitui-se em um todo institucional que
“abrange o indivíduo, conjuntamente, em todos seus aspectos e manifestações.”15 Portanto,
esse Estado, concentrado em atividades e personalizado em simbologias, possui marcas de
presença ou ausência: é sua atuação permanente ou sua negligência diante dos diversos
aspectos da vida das populações habitantes da colônia que contribuirão à delimitação de
esferas de compreensão subjetivas acerca do público e do privado, por exemplo. Contudo, a
concepção de uma idéia de Estado Colonial parece, à primeira vista, ignorar uma das
dimensões históricas sobre as quais se fundam o colonialismo: a completa separação
existente entre Metrópole e Colônia. Ou seja, falar em um Estado Colonial em todo o espaço
geográfico do Ultramar e do Reino significaria desconsiderar as perceptíveis diferenças
sociais, econômicas, políticas e culturais entre Metrópole e Colônia. Não é o que se propõe,
contudo. Considera-se aqui o “Estado como um todo dinâmico, passível de ser observado sob
vários ângulos, mas sempre conservando uma unidade indissociável”16: tal unidade, nesse
chamado Estado Colonial, é a autoridade metropolitana, existente tanto no Reino quanto nas
Possessões ultramarinas.
O Estado, no panorama político do Antigo Regime, está diretamente ligado às áreas
de atuação do poder real, zonas multifacetadas em áreas de exercício do poder17, que
formam esse complexo concentrado. Conforme alude HESPANHA:
11
HESPANHA, 2005, p.2.
12
AB'SABER, 2003, p. 364.
13
AVELLAR, Op. cit., p. 53.
14
FALCON, Op. cit., pp. 30-31.
15
PRADO JR, 1977; p. 299.
16
DALLARI, 2003; p.7.
17
HESPANHA, 2006, p. 343.
Estas imagens constituem, para toda a época moderna, uma constante,
mas a sua combinação e hierarquização vão evoluindo, provocando novos
entendimentos da actividade governativa da coroa, alguns deles com
tradução institucional, processual e de pessoal político.18
É nesse cenário que as reformas pombalinas serão empreendidas, especialmente no
Brasil, a colônia mais rica de Portugal, onde a realização dos precisos objetivos de
levantamento de fundos para a modernização metropolitana poderiam ser atendidos.
2. Reorganização administrativa. A colônia e o Direito.
O que transformou por completo as relações entre a colônia brasileira e a metrópole
portuguesa durante o governo de Pombal foi, precisamente, a pungente reorganização
administrativa. Tal reorganização acentuou a unidade indissociável do Estado multiterritorial
através de progressiva intensificação da presença da autoridade metropolitana no Brasil.
Assim, Pombal
Desde o início, volta suas idéias e prodigiosa atividade para os domínios
ultramarinos. Afirmará um dia que as colônias foram estabelecidas “com o
preciso objeto da utilidade da metrópole a que eram pertencentes”
(documento de 1776); e sabemos que essa utilidade não se opõe apenas à
das outras potências (sentido primordial naquele texto), mas inclui a
exploração imperialista.19
Ora, resgatar ao máximo o objetivo da colônia significava resgatar o prestígio do poder
real, assegurando proventos ao Tesouro nacional. Para tanto, uma administração planejada,
unitária, controladora e fiscalista20 que se fizesse presente na colônia seria indispensável. E foi
precisamente o que a administração pombalina fez. Um corpo de magistrados, fiscais,
funcionários reais e burocratas tornou-se recorrente no quotidiano dos habitantes da colônia,
o que representaria mudanças significativas na experiência jurídica de tais populações.
Até então, a sociedade brasileira, organizada num sistema insular de ocupação, tinha
por característica, também percebida nas demais possessões portuguesas e nas demais
sociedades de tal período, o predomínio das relações de graça e mercê21, denunciadas por
HESPANHA como marcas dos pactos e compromissos interpessoais:
Todo o espaço colonial é, de facto, um espaço de pactos. De muitos e
incontáveis pactos. Alguns quotidianos e trivializados pela recorrência ou
pelo seu carácter banal – como as meras trocas de favores privados.[...] Na
verdade, há aqui uma convergência entre a vontade e a natureza. Aquelas
trocas de graças e favores estavam já na natureza das coisas: beneficiar os
amigos, proteger e representar os subordinados, e responder por eles; dar
corpo, enfim, aos laços simbióticos que unem de muitas maneiras os
sujeitos do corpo político. Se lhes chamamos pactos é mais pela sua
natureza sinalagmática, que já levava a que alguns juristas lhes chamassem
quasi-contratos, como que geradores de obrigações mútuas.22
18
Idem, p. 344.
19
AB'SABER, Op. cit., p.50.
20
Idem, p. 364.
21
HESPANHA, 2005, p. 5.
22
Idem, p. 9.
A configuração dada a tal cultura quase-contratual, de relações privadas
determinadas por trocas de favores, amiguismos e compromissos pessoais, na colônia
brasileira, funcionou perfeitamente aos objetivos de uma elite então em formação. Isto é,
tais pactos criavam uma espécie de jogo de forças entre suas partes pactuantes, ao instituir
vínculos de clientelismo e subordinação. O que justificava a representação de personagens
diversificados em muitas representações pictóricas da história colonial brasileira: uma elite
detentora de vastas porções de terras, cujo estandarte era o patrimonialismo23, e uma
porção majoritária de homens pobres (artesãos livres, escravos, etc.) afastados da
oficialidade, das letras e do prestígio econômico, e sensivelmente subordinados à autoridade
e prestígio concentrados nas mãos da elite colonial.
Some-se a tal configuração a coexistência, na colônia brasileira, de sistemas jurídicos
distintos, cujo funcionamento baseava-se em fontes próprias: assim é o caso dos muitos
Direitos indígenas, comumente ignorados pela historiografia jurídica tradicional, e ignorados
também pela oficialidade jurídica estatal, conforme denuncia WOLKMER:
Naturalmente, a legalidade oficial imposta pelos colonizadores nunca
reconheceu devidamente como Direito as práticas tribais espontâneas
que organizaram e ainda continuam mantendo vivas algumas dessas
sociedades sobreviventes. Vale dizer que o máximo que a justiça estatal
admitiu, desde o período colonial, foi conceber o Direito indígena como
uma experiência costumeira de caráter secundário. 24
Convivem, ainda, além do Direito oficial do Estado Colonial, o Direito Eclesiástico e
Canônico, sistemas jurídicos desenvolvidos no seio da Igreja, braço fundamental da
colonização, e sistemas jurídicos extra-oficiais, de populações marginais, constituídas em
afastamento da autoridade metropolitana e de sua ordem institucional. Exemplo destas
populações são as quilombolas. Portanto, o espaço brasileiro é, antes de tudo, um espaço de
pluralismo jurídico: nele convivem forças diversas, espelhos das multiculturas.
Paralelamente, tal espaço elege um sistema oficial e estigmatizado pela artificialidade: não
há força nem centralidade suficientes para abarcar ou sobrepujar o outro, o não-oficial, a
diversidade colonial.
Assim é que o governo de Pombal e a acentuada reorganização administrativa da
colônia brasileira procederam à completa transformação da experiência jurídica, dos modos
de compreensão e funcionamento do direito: a vassalagem tropical, marcada por trocas de
favores, amiguismos e compromissos interpessoais, passou a viver nova experiência, na qual
a autoridade não se resumia a núcleos mais ou menos organizados de uma aristocracia local
polipotente, de “homens bons”, verdadeiros senhores sobre o destino dos colonos e
habitantes locais; mas de um corpo único e hierarquizado, composto por órgãos e pessoas
representantes do Estado no Ultramar, constituindo em verdadeira “uniformização dos
padrões administrativos régios.”25 O sistema jurídico criado nesse meio baseia-se na
artificialidade: não é um sistema calcado no princípio da segurança, uma vez que encontra
fundamento na força da fiscalização e de organismos militares e tenta, a seu modo,
desconstituir o alheio, o diverso, e se sobressair como a voz da metrópole.
Tem-se, portanto, num mesmo espaço geográfico e jurídico a oficialidade e a extra-
oficialidade: fiscais, alvarás e legislações extravagantes em meio a práticas comuns de pactos
sociais e trocas de favores pessoais. As políticas empreendidas pelo gabinete pombalino na
reorganização da administração colonial refletiram na formação jurídico-cultural do Brasil,
dada a inserção de um sem-número de cabedais de ordenanças e regimentos: “a legislação
23
WOLKMER, 2002, p. 48.
24
Idem, p.52.
25
AVELLAR, Op. cit., p. 51.
agora é numerosa, a iniciativa do governo incessante.”26 É esse quadro que convive com a
demora dos feitos judiciais, a baixa experiência de operadores jurídicos, a escassa formação
de juristas letrados e a total inexistência de instâncias jurisdicionais que uniformizassem a
jurisprudência dos diversos centros da colônia.
No que concerne à interpretação e aplicação do Direito pelos operadores jurídicos de
tal período, observa-se que a constituição de um chamado sistema jurídico pode ser criticada
pela vazia certeza e fundamentação: não há fontes assentes, não há normas gerais, o que se
verifica é um esparsa legislação em confronto com um sem-número de costumes e práticas
sociais.27 Assim, a solução de conflitos tinha por vista o caso concreto, partido em teses
contrárias e doutrinas da tradição romana diversas, o que acabava resultando em soluções
diversas, sem qualquer revestimento de coerência ou compromisso com alguma ordem
suposta. HESPANHA define muito bem os contornos dessa atividade interpretativa:
A regra mais geral de conflitos no seio desta ordem jurídica pluralista não é,
assim, uma regra formal e sistemática que hierarquize as diversas fontes do
direito, mas antes o arbítrio do juiz na apreciação dos casos concretos
("arbitrium iudex relinquitur quod in iure definitum non est", fica ao arbítrio
do juiz aquilo que não está definido pelo direito). É ele que, caso a caso,
ponderando as consequências respectivas, decidirá do equilíbrio entre as
várias normas disponíveis.28
Tão-logo, o Direito da colônia, multissistêmico e plural, operado pela baixa
experiência dos magistrados confiados na jurisdição no ultramar e na completa divergência
quanto ao uso de suas fontes, consistia em uma aparente desordem.29 Porém, e
especialmente com as reformas pombalinas, assumirá o perfil de oficial, ganhando subsídios
interpretativos e instâncias jurisdicionais mais complexas. Tais reformas seguem, portanto, a
ser analisadas.
3. O impacto das reformas pombalinas.
No olho do furacão setecentista, à colônia brasileira coube a tarefa de sustentar a
tentativa de desenvolvimento português, com a progressiva determinação do governo de
Pombal em intervir, de forma clara e incisiva, em ampla extensão do território brasileiro,
numa política capaz de articular os fragmentados e dispersos centros da colônia com a
metrópole.
A marca do período pombalino na colônia é a paulatina substituição dos núcleos de
poder fragmentados e dispersos por uma autoridade estatal metropolitana. O que pôde ser
sentido em vários atos de governo: a definitiva extinção do regime de capitanias hereditárias
(uma vez que algumas poucas que obtiveram relativo sucesso ainda existiam até meados do
século XVIII), o que representou a desconstituição do poder dos donatários; a criação da
Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão (1755) e da Companhia de Comércio de
Pernambuco e Paraíba (1757), que ao mesmo tempo implementou uma política mercantilista
acentuada em tais regiões e garantiu a presença do Estado nas relações comerciais
desenvolvidas, assegurando o monopólio das atividades mercantis e o incentivo das
atividades agrícolas e extrativistas na região.30 No Distrito Diamantino, região do Tejuco, a
presença metropolitana pusera o regime de contratação sobre proteção e fiscalização
imediata da Coroa e, posteriormente, criara o regime da Real Extração, numa política
26
AB'SABER et. al., 2003, p. 54.
27
HESPANHA, 2005, p. 4.
28
HESPANHA, 2005, p. 11.
29
Idem, p. 2.
30
ZIRAVELLO, 2000, p. 213.
extrema de fiscalização das atividades coloniais. Na região aurífera, instituiu-se a cobrança da
derrama, imposto obrigatório incidente sobre os locais, a fim de suprir a decadência da
produtividade de tal região.31
Não obstante, discute-se o caráter dos atos de governo dessa política, se expressões
de ideais iluministas ou se meras intervenções de cunho pragmático. Tome-se como exemplo
a criação do Diretório dos Índios, por meio do Alvará de 3 de maio de 1757, em substituição
ao que representavam as missões jesuíticas, o que significaria, pouco tempo depois, na
expulsão, em 21 de julho de 1759, da Ordem de Santo Inácio de Loyola do Brasil. Pombal
criara uma instituição que promoveria a “liberdade” dos povos indígenas, libertando-os da
catequização inaciana e fazendo-os alcançar a graça civilizatória e emancipatória. É a
liberdade que abre o caminho rumo à civilização, em níveis de pensamentos das luzes:
“secularizar para civilizar.”32 Evidencia-se que, antes de ideológico, antes ser uma política
exemplificativa do ideário ilustrado, a criação do Diretório dos Índios veio substituir um
núcleo de poder que ameaçava os interesses da Coroa: as missões jesuíticas que, resolutas
em não se submeterem à autoridade portuguesa e ao que havia sido decidido por meio de
numerosos tratados e negociações internacionais, rebelaram-se em episódio histórico,
conhecido como Guerra dos Sete Anos33. Após o fim de tal guerra, com o intuito de substituir
a tutela dos jesuítas aos povos indígenas - massacrados, dizimados e desestruturados em sua
organização social original - a Coroa Portuguesa cria o Diretório mais no sentido de se fazer
presente na colônia que de preservar liberdades efetivas, e acaba por pulverizar uma
experiência social e jurídica complexa, que articulava entre si as chamadas “subculturas”
(vistas pelo ângulo europeu) a legislações religiosas, conforme explicita WOLKMER:
Na verdade, os jesuítas se constituíram, ao mesmo tempo, em juízes e em
tribunais superiores das causas indígenas, no interior das reduções. Tendo
em vista que as Missões eram parte da Coroa Espanhola, a legislação
aplicada nas reduções eram as Leis das Índias. À insuficiência ou
inadequação das Leis das Índias na resolução de casos concretos,
facultava-se aos jesuítas da América, por concessão do Papa Paulo III, a
elaboração de estatutos ou normas para suprir essa falta. 34
Outra medida que trouxe resultados visíveis à experiência jurídica brasileira durante o
governo de Pombal, foi a criação do Tribunal da Relação do Rio de Janeiro, transformada em
nova capital da colônia, em contacto direto com a metrópole e palco das transformações
políticas vividas em finais do século XVIII no Vice-Reino. Assim:
O Rio já era a capital eminente das minas e das guerras no Sul (as únicas
que realmente ameaçam a integridade nacional); crescera bastante; em
1751, quando vai receber o novo Tribunal da Relação, há muito reclamado,
a população de 50.000 almas já é superior à da Bahia, (46.000 em 1757).
Agora a nova capital vai ser também o centro da evolução para a
autonomia.35
O órgão judiciário criado possuía, portanto, um funcionamento complexo: servia tanto
como órgão de apelação, de recurso judicial, quanto de proposição de novas ações; sua
composição era de juízes formados na Metrópole, que deviam demonstrar sua obediência aos
ideais da Coroa, resultando num corpo de magistrados leais a interesses oficiais, e que
31
Idem, pp. 224-225.
32
FALCON, 1993, p. 398.
33
MAXWELL, Op. cit., p. 122.
34
WOLKMER, Op. cit, 55.
35
AB’SABER et. al., Op. cit, p. 54.
desempenhavam sua atividade centrados em trocas de favores e agraciamentos pessoais. Com
isto, a colônia brasileira encarou um Tribunal corporificado, burocratizado e complexo,
estruturado em torno de figuras que representavam verdadeiro compromisso com a ordem
jurídica oficial da metrópole36. Sem contar que o Tribunal da Relação não se constituiu em
instância de uniformização jurisprudencial, antes de tudo, seu caráter era o de promover uma
ordem artificializada e tendente à descentralização, uma vez em substituição ao Ouvidor-
Geral.
No período pombalino, a reforma jurídica passa por uma completa transformação
institucional: de órgãos a operadores, de instituições a percepções, e tal reforma não foi
influenciada substancialmente por problemas coloniais, mas foi resultado da transmutação
ideológica de Portugal e da Europa do Século das Luzes: acrescente-se ao rol de medidas
pombalinas que influenciaram o Direito de então a reestruturação do ensino jurídico em
Portugal, com a publicação do Verdadeiro Método de Estudar, por Luis Antônio Verney, que
abriu caminho à sobrepujança do racionalismo jurídico e da escola do direito natural37; o
fetiche das luzes alcançou seu auge com a promulgação da chamada Lei da Boa Razão, de 18
de agosto de 1769, a qual consagrava o princípio da recta ratio, extremamente caro à ideologia
iluminista38. Abandonava-se, assim, a velha tradição de um direito romano enquanto
paradigma, solucionador de todos os conflitos e mergulhava-se na diversidade de um direito
nacional e de um direito das gentes, não mais exclusivamente amparado por comentários e
glosas doutrinários, mas voltado à história portuguesa e dotado de coerência e lógica, ao
invocar a Boa Razão como instrumento do processo de decisões judiciais.
Assim, as reformas de Pombal alcançam a formação dos magistrados confiados na
jurisdição na colônia, introduzindo novas fontes crítico-hermenêuticas ao Direito do Império
Colonial Português; no entanto, ressalte-se que as mudanças na mentalidade de tais
magistrados ocorreram de forma gradativa, uma vez que também dependiam das novas
doutrinas de ensino do Direito em Coimbra39, centro de sua formação. Contribui-se,
decisivamente, a uma mudança de padrão decisório, que volta sua atenção ao direito local, ao
direito nacional e fundado sobre a idéia de racionalidade, progressivamente reestruturando a
condição da magistratura colonial, assim denunciada pelo Marquês de Lavradio, Vice-Rei do
Brasil, em seu relatório de 19 de junho de 1779:
São igualmente necessários mais Juízes de fora (...) sendo preciso para a
nomeação destes Ministros que tenha precedido um escrupuloso exame
sobre o seu merecimento e talento, não julgando eu serem bastantes o
único conhecimento das Leis e do Direito Civil; é preciso que sejam homens
cheios de espírito pátrio, e de um gênio que esperançasse ser eles capazes
de procurar e promover o adiantamento e felicidade dos povos.40
Não bastasse tal precariedade jurisdicional, ressalte-se que vigem no Brasil pombalino
as Ordenações Filipinas, que coexistem com o sem-número de leis editadas em tal período, e
que, no que tange à matéria penal, foram consideradas extremamente severas41. Porém, há
que se ressaltar forte marca de distância entre prescrição legal e aplicação legal, importando
em impunidades e engessamento do sistema na resolução efetiva de conflitos judiciais,
constituído com certas restrições e sob modelos ideais, oficiais e enraizados na tradição
européia, contudo; inadequados a lidar com a diferença cultural brasileira e resultar em
efetivo e congruente sistema de jurisdição.
36
WOLKMER, Op. cit., p. 66.
37
AB'SABER et. al. , Op. cit., p. 95.
38
FALCON, 1993, pp. 431-432.
39
WOLKMER, Op. cit., p. 65.
40
AVELLAR, 1983, p. 256
41
Idem, pp. 150-151.
4. Conclusão
Objetivou-se, portanto, demonstrar que as reformas empreendidas pelo gabinete do
marquês de Pombal conciliaram ideais fundantes do iluminismo a uma política fiscalista e
centralizadora da administração da colônia brasileira, o que, além de se constituir em
importante passo da formação política nacional, trouxe resultados sensíveis ao processamento
e compreensão do Direito colonial no Brasil.
A racionalização da máquina administrativa e a acentuação de seu funcionamento no
Brasil, por mais frustrados que tenham sido seus resultados, e por mais difícil que fosse
adequar o complexo aparato cultural brasileiro às pretensões européias de tal período,
consistiram num modelo do governo de gabinete de Sebastião José de Carvalho e Melo,
Marquês de Pombal. Enquanto tal governo tentava produzir em Portugal a modernização do
Estado, no Brasil, conseguiu criar a percepção do funcionamento de sua máquina
administrativa, tendente a desafiar relações coloniais seculares e a instigar a própria crítica ao
colonialismo: é em meio ao recrudescimento das políticas coloniais pombalinas e ao ideário
anunciado no século XVIII que movimentos anticolonialistas, como a Conjuração Mineira,
tomam o cenário nacional. E é com o governo pombalino que questões históricas da
identidade jurídico-cultural brasileira passam a ser levantadas: a Justiça, os métodos de
interpretação, a efetividade do Direito, a impunidade, a formação da magistratura e tantos
outros.
De qualquer maneira, o estadista português deixou sua marca profunda nas relações
metrópole-colônia, além de ter posto em prática medidas antagônicas, motivadas por
diferentes tons: da promoção de liberdades à opressão colonial, o que se verificou foi um
período de semear ideológico, tanto no Brasil quanto em Portugal, cada um a seu ritmo,
diferentes em condições e percepções e desafiados, diferentemente, a seu ingresso na História
Contemporânea.
[Link]ÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AB'SABER, Aziz Nacif [et. al]. História geral da civilização brasileira. Tomo I, vol. 2:
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