Yuri nasceu sob a luz suave da lua cheia, em meio ao silêncio acolhedor
de uma noite fria. Era filho de dois seres poderosos — sua mãe, uma
vampira de beleza sombria e presença forte, era respeitada por seu
domínio sobre as artes, especialmente pintura e encantamentos
ancestrais. Seu pai, um demônio influente, possuía prestígio entre os
clãs pelas alianças políticas que tecia, sempre ambicioso e persuasivo,
com um charme natural que abria portas e manipulava corações. A
união entre vampira e demônio não era comum, mas por algum tempo,
parecia funcionar. Eles se amavam — ou ao menos, isso foi o que todos
pensaram. A casa onde viviam era imensa, rodeada por jardins
encantados e fontes mágicas, protegida por barreiras e selos antigos.
Havia beleza, poder e conforto. E havia Yuri, um bebê curioso e calmo,
que logo demonstrou inteligência incomum.
Durante os dois primeiros anos de vida, Yuri cresceu sob o olhar
amoroso da mãe. Ela lhe contava histórias antigas de vampiros
honrados, pintava retratos com ele nos braços, e ensinava canções
antigas em línguas esquecidas. Seu pai, embora mais ausente, ainda
participava dos momentos familiares. Mas bastou um erro para que tudo
desmoronasse. Quando Yuri completou dois anos, descobriu-se que o
pai tivera um caso com uma fada — uma mulher de aparência etérea,
sorriso controlado e intenções veladas. E mais do que isso: ela estava
grávida. A notícia caiu como veneno no coração da vampira.
A discussão foi violenta. Não apenas em palavras, mas em magia e
fúria. Os gritos da mãe de Yuri ecoaram pela mansão, acompanhados
de explosões mágicas que fizeram os quadros caírem das paredes e os
espelhos se estilhaçarem. Yuri, ainda pequeno, foi escondido por uma
das criadas. Ninguém esqueceu aquela noite. No dia seguinte, sua mãe
havia partido. Não deixou cartas, não se despediu. Ela desapareceu. O
pai mandou buscar por ela, mas nenhum vestígio foi encontrado. O
tempo passou, e logo ela foi dada como morta. Mas Yuri, mesmo tão
novo, nunca aceitou aquilo.
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Com a ausência da mãe, tudo mudou. A mansão, antes viva, tornou-se
fria e silenciosa. Pouco tempo depois, a fada — a mesma amante —
assumiu seu lugar como senhora da casa. A nova esposa do pai. E com
ela veio Aurélia, a irmã que Yuri jamais desejou ter. Desde seu
nascimento, Aurélia era tratada como uma bênção, uma criança “pura”,
nascida da junção de fada e demônio, símbolo da nova era da família.
Todos os olhares eram para ela. E Yuri, agora órfão de mãe, foi
lentamente empurrado para a sombra.
Sua madrasta nunca o tratou com carinho. Seus gestos eram frios, suas
palavras afiadas, e o sorriso que dava às visitas nunca era oferecido a
Yuri. No início, ele tentou agradá-la. Ofereceu desenhos, flores do
jardim, pequenas coisas que achava que poderiam fazê-la gostar dele.
Mas tudo era descartado. Aos poucos, ele percebeu: ela nunca o
aceitaria. Era um lembrete vivo da mulher que ela substituíra. E seu pai,
que antes o segurava nos braços, passou a olhá-lo com rigidez. A
semelhança entre Yuri e a mãe era quase assustadora. Os mesmos
olhos, a mesma postura, a mesma quietude intensa. Ele era uma
lembrança constante da perda.
Aurélia crescia cercada de afeto. Tinha os melhores tutores, presentes,
festas. Era elogiada a cada gesto, mesmo os mais simples. Yuri, por
outro lado, era criticado por tudo. Se falava, era insolente. Se se calava,
era desrespeitoso. Se estudava, era frio. Se expressava emoções, era
fraco. Começou a se fechar cada vez mais. Suas únicas companhias
eram os livros antigos que encontrava na biblioteca, os cadernos em
branco que preenchia com histórias, e os materiais de arte esquecidos
da mãe. Com o tempo, tornou-se um excelente escritor, desenhista e
leitor. Passava horas colorindo cenas de mundos que não existiam, onde
ele era livre, amado, respeitado.
Um dia, quando tinha por volta de dez anos, uma discussão entre ele e
Aurélia saiu do controle. Era mais uma provocação dela, alimentada pela
madrasta. Yuri não aguentou e respondeu. Ela o atacou com magia.
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Desesperado, ele se defendeu como pôde, mas acabou ferido no rosto.
Um corte abaixo do olho esquerdo e outro acima do olho direito. Sangue,
dor, e mais silêncio. A madrasta o acusou de ser agressivo. O pai não
quis ouvir explicações. Yuri foi punido. As cicatrizes ficaram — e com
elas, a raiva.
Depois disso, Yuri deixou de tentar. Tornou-se um fantasma dentro de
casa. Vivia para os livros, para seus mundos secretos. A única coisa que
o conectava à infância era a lembrança da mãe. Sonhava com ela.
Escrevia cartas para ela. Procurava pistas de que ela ainda estivesse
viva. Nunca deixou de acreditar que um dia ela voltaria. À noite, às
vezes olhava pela janela, imaginando-a surgindo pelas sombras do
bosque, vindo buscá-lo.
Aurélia, com o tempo, começou a demonstrar certa culpa. Em momentos
isolados, tentava conversar. Mas havia uma barreira entre eles que
nunca se quebrou. Ela era a herdeira do novo mundo da família. Ele, o
fantasma do antigo. Às vezes, ela parecia querer entender. Outras,
apenas cumprir uma obrigação. Para Yuri, ela era suportável — e só em
raros momentos.
Conforme foi crescendo, Yuri desenvolveu um olhar apurado para a
falsidade das pessoas. Passou a analisar os mínimos gestos, os
silêncios, os sorrisos falsos. Tornou-se desconfiado, introspectivo, com
uma fala cortante quando pressionado. Não aceitava ordens sem
questionar. Detestava mentiras. E, acima de tudo, aprendeu a esconder
seus sentimentos com maestria, demonstrando emoções falsas fazendo
com que pensassem que ele tem tais sentimentos.
Ele sabia que não pertencia àquela casa. Não era amado, não era
desejado, e mesmo assim, resistia. Encontrava força nas palavras que
escrevia. Nas histórias que criava, ele era livre. Seus personagens
tinham famílias verdadeiras, lares seguros. Às vezes, escrevia sobre
uma figura materna que voltava, que destruía tudo e o levava embora.
Outras vezes, criava mundos onde não existia dor. Tudo o que a
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realidade não lhe oferecia, ele construía com tinta, papel e imaginação.
Seu ódio pelo pai crescia como veneno. Aquele homem que deveria
protegê-lo virou o primeiro traidor. Sua madrasta era o símbolo da
mentira. Aurélia era uma ferida aberta — não por quem ela era, mas por
tudo que representava. E mesmo assim, Yuri continuava. Nunca se
rendeu. Nunca se quebrou completamente.
E ali, entre histórias escritas à luz de velas, desenhos presos nas
paredes de seu quarto, e sonhos que ninguém poderia arrancar, Yuri
moldava sua verdadeira força: a de alguém que foi rejeitado, mas nunca
deixou de existir. A de alguém que teve tudo para cair, mas escolheu
resistir. A de alguém que, mesmo sozinho, ainda acreditava que seu
destino não terminaria ali.
Porque um dia, ele sairia daquela casa. E nesse dia, o mundo finalmente
veria quem Yuri realmente era.