>> LIVRO 1 <<
Textos que compõem a Disciplina 1
TENDÊNCIAS MUNDIAIS
DA CRISE DO CAPITAL E
OFENSIVA CONSERVADORA
Brasília (DF) | 2026
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Tendências mundiais da crise do capital e ofensiva
conservadora / edição Conselho Federal de Serviço
Social (CFESS), Associação Brasileira de
Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS).
-- Brasília, DF : Conselho Federal de
Serviço Social - CFESS, 2026. -- (Trabalho
profissional: questão social e fundamentos
teórico-históricos e ético-políticos do serviço
social ; 1)
Vários colaboradores.
Bibliografia.
ISBN 978-65-86322-21-7
1. Direitos humanos 2. Extensão universitária
3. Política social 4. Serviço social - Estudo e
ensino I. Conselho Federal de Serviço Social
(CFESS). II. Associação Brasileira de Ensino e
Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS). III. Série.
26-337020.0 CDD-361.07
Índices para catálogo sistemático:
1. Serviço social : Estudo e ensino 361.07
Eliane de Freitas Leite - Bibliotecária - CRB 8/8415
ORGANIZAÇÃO DO
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO
Coordenadora Geral
Sâmya Rodrigues Ramos (UERN)
Coordenadora Pedagógica
Ivanete Boschetti
Coordenação pelo CFESS
Kelly Melatti, Mirla Cisne e Marciângela Gonçalves
Representação ABEPSS
Inêz Stampa
Representação UERN
Cláudio Lopes de Vasconcelos e Giann Mendes Ribeiro
Representação Funcitern
Rafael Ramon Fonsêca Rodrigues
Assessoria
Adriane Tomazelli e Natália Faraj
PRODUÇÃO EDITORIAL
Edição: CFESS e ABEPSS
CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL (CFESS)
Presidenta Kelly Rodrigues Melatti (SP) | Vice-presidenta Marciângela
Gonçalves (AL) | 1ª Secretaria Emilly Marques (ES) | 2ª Secretária Alana
Barbosa Rodrigues (TO) | 1º Tesoureiro Agnaldo Engel Knevitz (RS) | 2ª
Tesoureira Larissa Gentil Lima (MT) | Conselho Fiscal Jussara de Lima
Ferreira (RJ), Angelita Rangel Ferreira (MG), Elaine Amazonas Alves
dos Santos (BA) | Suplentes Ubiratan de Souza Dias Junior (SP), Mirla
Cisne Álvaro (RN), Karen Albini (PR), Tales Willyan Fornazier Moreira
(MG), Adriana Soares Dutra (RJ), Iara Vanessa Fraga de Santana (CE),
Raquel Ferreira Crespo de Alvarenga (PB)
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENSINO E PESQUISA EM SERVIÇO
SOCIAL (ABEPSS)
Presidenta Joana Valente Santana (UFPA) Secretária Vera Lúcia Batista Gomes
(UFPA) Tesoureira Solange Maria Gayoso da Costa (UFPA) Coordenação
Nacional de Graduação Zaira Sabry Azar (UFMA) Coordenação Nacional de
Pós-Graduação Inez Terezinha Stampa (PUC-RJ) Coordenação de Relações
Internacionais Sandra de Faria PUC-GO) Suplentes de Diretoria Débora
Rodrigues Santos (UFRB) e Cristiana Costa Lima (UFMA) Rep. Nacional
Discente de Graduação (Titular) Katiane de Jesus Souza (UFPA) Rep.
Nacional Discente de Graduação (Suplente) Arthur Beserra Moraes (Unirio)
Rep. Nacional Discente de Pós-Graduação (Titular) Leonardo Costa Miranda
(UFPA) Rep. Nacional Discente de Pós-Graduação (Suplente) Dafne Dias
Lages Monteiro (UFPI) Conselho Fiscal Teresa Cristina Moura Costa (UFPI
Rosemeire dos Santos (UFT) e Jeffeson William Pereira (UFAM)
Colaboração: UERN e FUNCITERN
Projeto gráfico, capa e diagramação: Rafael Werkema
Revisão: LCR Serviços Cinematográficos
Ano: 2026
ISBN: 978-65-86322-21-7
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO >> CFESS e ABEPSS 7
AULA INAUGURAL | Trabalho Profissional: Questão Social e
Fundamentos Teóricos-Históricos e Ético Políticos do Serviço
13
Social >> Maria Carmelita Yazbek
AULA 1 | Crise estrutural e impactos na produção e reprodução
social >> Elaine Behring
25
AULA 2 | Crise da democracia burguesa e avanço mundial da
extrema direita >> Ana Elizabete Mota
49
AULA 3 | Impactos ideopolíticos da crise na organização dos
movimentos populares e nos projetos societários >> Marcelo Braz
71
AULA 4 | Ofensiva do capital sobre o Estado, os direitos e as
políticas sociais >> Ivanete Boschetti 97
ANEXOS >> Ementário do Curso 121
>> Links das aulas em vídeo
132
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
APRESENTAÇÃO
Os capítulos ora disponibilizados nesse primeiro livro, compõem um
conjunto de cinco coletâneas, que agregam os textos inéditos, elaborados ex-
clusivamente para o Curso de Especialização “Trabalho Profissional: questão
social e fundamentos teórico-históricos e ético-políticos do Serviço Social”,
iniciado em setembro de 2025 e realizado pelo Conselho Federal de Serviço
Social – CFESS e Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço So-
cial - ABEPSS, em acordo de cooperação técnica firmado com a Universidade
do Estado do Rio Grande do Norte - UERN e Fundação para o Desenvolvi-
mento da Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Rio Grande do Norte
– FUNCITERN.
Em sua dimensão acadêmica, o Curso está vinculado à Faculdade
de Serviço Social da UERN (FASSO/UERN), que oferta Curso de Graduação
em Serviço Social e Programa de Pós-Graduação em Serviço Social e Direitos
Sociais (PPGSSDS), em nível de Mestrado.
Essa é a terceira edição do Curso de Especialização, depois das boas
avaliações tidas nas edições de 1999 e 2009. Mediado pelo uso de tecnologia
remota, tem sua vigência prevista até fevereiro de 2027, foi uma deliberação do
50º Encontro Nacional CFESS/CRESS e concretiza uma iniciativa da Política
de Educação Permanente, comprometida com a regular e sistemática qualifi-
cação do trabalho profissional e das atribuições e competências determinadas
na Lei de Regulamentação Profissional (Lei 8.662/1993).
APRESENTAÇÃO | CFESS E ABEPSS >7<
O Projeto Pedagógico do Curso atribui centralidade aos fundamen-
tos teórico-históricos da profissão e as dimensões do trabalho profissional,
considerando as transformações societárias, as novas morfologias do traba-
lho em contexto de crise do capital e as recentes requisições postas às(aos)
profissionais nas relações de trabalho, determinadas pela agudização da
questão social1, de suas particulares expressões determinadas pela formação
social brasileira e pelo avanço de forças conservadoras e reacionárias que
disputam os valores e princípios estruturantes do Projeto Ético-Politico do
Serviço Social brasileiro.
Os conteúdos que estruturam o curso e seus componentes curricu-
lares têm como fio condutor a relação entre o trabalho profissional, as ex-
pressões da questão social (Iamamoto & Carvalho, 1982; Netto, 2021), que se
apresentam como matéria de intervenção profissional, e os compromissos éti-
co-políticos profissionais estabelecidos no Código de Ética Profissional (1993).
O curso está configurado em seis disciplinas que se desdobram em
am aulas e articulam transversalmente as temáticas abordadas. Os eixos
centrais presente no curso tratam das determinações de exploração das
relações sociais de classe, sexo/sexualidade/gênero e raça-etnia, mediadas
por opressões geracionais e de deficiências, como unidades indissociáveis da
sociabilidade capitalista. Tal como disposto nas Diretrizes Curriculares da
ABEPSS, reafirmam o Serviço Social como especialização do trabalho coleti-
vo, inerente ao processo de produção e reprodução das relações sociais e das
determinações estruturais da questão social e suas expressões históricas, que
constituem o objeto do trabalho da(o) assistente social, em seus diversos es-
paços de inserção profissional. Os conteúdos conectam os fundamentos teó-
rico-históricos e ético-políticos a temas e pautas que reivindicam posturas
ético-políticas e intervenções técnico-operativas comprometidas, ao mesmo
tempo, com as necessárias mediações para acesso aos direitos e políticas so-
ciais destinados à satisfação das necessidades sociais da classe trabalhadora,
respeito à diversidade humana e competência na realização das atribuições
profissionais.
1 A concepção de questão social que orienta o Curso é aquela estabelecida nas
Diretrizes Curriculares da ABEPSS
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
Cada disciplina tem um conjunto variável de aulas2, ministradas
sincronicamente pelas(os) autoras(es) dos textos. Cada texto corresponde à
uma aula e serão publicados em livros após o encerramento de cada discipli-
na. Ao todo serão 5 livros3 (um para cada disciplina), tendo textos que foram
concluídos pelas(os) autoras(es) em fevereiro de 2025 e revisados em data
anterior à publicação.
Este primeiro livro, assim, reúne os textos elaborados para a Discipli-
na 1 já concluída pelas(os) assistentes sociais matriculadas(os) no curso, além
do texto elaborado e apresentado pela professora Maria Cramelita Yazbek
na aula inaugural.
Intitulada “Tendências Mundiais da Crise do Capital e Ofensiva
Conservadora”, essa disciplina contou com 04 aulas, cujos textos estão publi-
cados aqui em forma de capítulos, conforme indica o sumário. O primeiro,
de autoria de Elaine Rossetti Behring (UERJ) aborda a crise estrutural no
contexto da decadência do sistema capitalista, a produção e reprodução da
questão social, a ofensiva destrutiva do capital pela valorização do valor, os
limites históricos e materiais do capitalismo, e as principais manifestações
contemporâneas da crise na ordem econômica mundial.
O segundo capítulo, elaborado pela professora Ana Elisabete Mota
(UFPE), discute a reação burguesa à crise do capitalismo, a crise do regime
democrático-eleitoral burguês, o avanço mundial de forças organizadas da
extrema direita, as políticas conservadoras e sua ofensiva às conquistas civi-
lizatórias e a ascensão de partidos com discursos xenofóbicos.
Na sequência, o terceiro capítulo, de autoria do professor Marcelo
Braz (UFRN) discute a decadência ideopolítica da ordem burguesa, os mo-
vimentos sociais e sua relação com as classes sociais e projetos societários, a
expansão do irracionalismo e sua política contrarrevolucionaria, os ataques
às lutas e conquistas sociais da classe trabalhadora e as lutas dos sujeitos
políticos pela emancipação humana.
2 A estrutura curricular completa do Curso está em anexo.
3 Os textos que compõem as disciplinas V e VI serão publicados no mesmo livro.
APRESENTAÇÃO | CFESS E ABEPSS >9<
A disciplina se encerra com o texto apresentado pela professora Ivane-
te Boschetti (UFRJ) debatendo os sentidos do Estado, dos direitos e da eman-
cipação política e humana no capitalismo, a contraofensiva do capital e a ex-
propriação dos direitos conquistados pela classe trabalhadora, e as tendências
mundiais de corrosão das políticas sociais e sistemas de proteção social.
Ao final de cada capítulo apresentamos indicações complementares de
livros, artigos, entrevistas, debates e filmes disponibilizadas como recurso peda-
gógico na plataforma do curso em cada aula. O repertório que compõe o que
chamamos de “Biblioteca Virtual”, foi construído com sugestões das(os) auto-
ras(es), das supervisões pedagógica4 e da coordenação pedagógica5 do curso.
Desejamos boa leitura e esperamos que a disponibilização ampla
desse conteúdo possa constituir mais um componente para o aprimoramen-
to profissional, para a troca entre equipes, nos espaços de formação profis-
sional, de organização política no âmbito dos Cress e possa contribuir para o
fortalecimento do nosso Projeto Ético Político Profissional.
Conselho Federal de Serviço Social - CFESS
Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social - ABEPSS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
IAMAMOTO, M, & CARVALHO, R. Relações sociais e serviço social no Brasil.
São Paulo, Cortez, 1982
NETTO, J. “Cinco notas a propósito da ‘questão social’”. In Revista Tempora-
lis, n0 03, ABEPSS, Brasília, 2001
4 Supervisoras Pedagógicas do Curso: Ana Cristina Muricy de Abreu; Luciane
Amaral e Kathiuscia Aparecida Freitas Pereira Coelho.
5 Professora Ivanete Boschetti.
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<< CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO >>
TRABALHO PROFISSIONAL: QUESTÃO SOCIAL E
FUNDAMENTOS TEÓRICO-HISTÓRICOS E ÉTICO-
POLÍTICOS DO SERVIÇO SOCIAL
<< AULA INAUGURAL>>
Conteúdo ministrado em
11/9/2025
<< Maria Carmelita Yazbek >>
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CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
AULA INAUGURAL
Curso de Especialização: “Trabalho Profissional: Questão Social e Fun-
damentos Teóricos-Históricos e Ético Políticos do Serviço Social”
Maria Carmelita Yazbek
Conteúdo da Aula ministrada pela professora no dia 11 de Setembro 20251
Muito boa noite aos que partilham este momento tão especial, cur-
sistas, docentes, tutores e monitores.
É com grande alegria, que apresento minhas saudações à Kelly
Mellati presidenta do CFESS, à professora Joana Valente da ABEPSS, à Mir-
la Cisne conselheira do CFESS e docente da UERN e à Ivanete Boschetti
coordenadora pedagógica deste curso, que aqui representam as entidades
organizativas dos assistentes sociais brasileiros que nos ofertam como um
presente, esse curso de Especialização: “Trabalho Profissional: Questão So-
cial e Fundamentos Teóricos-Históricos e Ético Políticos do Serviço Social”.
Trata-se da terceira edição do curso que se insere na Política de Educação
Permanente do Conjunto CFESS-CRESS e cujos frutos ainda podemos ob-
servar cotidianamente e que tem como fundamento a qualidade do trabalho
profissional e dos serviços prestados e a afirmação dos princípios ético-políti-
cos e técnico-operativos da profissão.
Gostaria ainda de assinalar que estas poucas reflexões que irei de-
senvolver estão carregadas de gratidão, reconhecimento e afeto pelo que nos
aponta este curso na luta por processos profissionais numa direção eman-
cipadora. Se hoje o capitalismo investe de forma ultraconservadora e sem
precedentes sobre o trabalho e a humanidade, nós através de nossas orga-
nizações políticas e nossos intelectuais orgânicos enfrentamos e iluminamos
os desafios do tempo presente.
1 Aula em vídeo disponível no Canal do Cfess no Youtube: [Link]
com/watch?v=iuMei-s-MZY
AULA INAUGURAL | Conteúdo ministrado no dia 11/9/2025 >> Maria Carmelita Yazbek > 13 <
Sou docente há mais de 50 anos, acompanhei o processo formativo
de muitas gerações e entendo que essa proposta é privilegiada, necessária e
desejável e se constitui ferramenta teórica, política, para os que buscam, no
âmbito do trabalho profissional, mudanças sociais, em nossa realidade. ”Mu-
danças que, contraditoriamente, tem que ser arrancadas de dentro da ordem
capitalista, na perspectiva de sua superação.” (Frigoto, 2025:10)
O que nos aponta esse conjunto de módulos é uma perspectiva
emancipatória em que são enfrentados desafios para o pensamento crítico
no contexto atual da crise capitalista dentro do neoliberalismo e sua lógica
de mercado e do ultraconservadorismo igrejista e familista.
Como referem as organizadoras a “especialização viabilizará a assis-
tentes sociais a possibilidade de acesso a debates contemporâneos e atuali-
zados sobre os fundamentos teórico-históricos e ético-políticos necessários
para a realização do trabalho cotidiano com qualidade, favorecendo o acesso
a conteúdo e informações atuais para a categoria”. Trata-se de um curso que
nos apoiará na imprescindível tarefa de decifrar e intervir sobre a realidade ,
para usar uma feliz e sabia expressão de Iamamoto.
O conhecimento é tema obrigatório na sociedade contemporânea.
Fala-se em sociedade do conhecimento, sociedade da informação, surgem
novas tecnologias, novas linguagens e novas experiências de espaço e tempo,
novas possibilidades de acesso ao conhecimento... Sabemos que informação
não é sinônimo de conhecimento e que a aquisição de conhecimentos não é
educação, mas entendo que a Educação Permanente implica em uma nova
visão da educação e da formação de pessoas, porque o conhecimento implica
em uma gestão criativa dessa informação, no estabelecimento de conexões e
atualização constante. Nesse contexto, associa-se à educação a necessidade
de revisão contínua dos saberes, como coloca a proposta, e ao seu crescen-
te grau de complexidade que vê-se assim confrontado com exigências cada
vez maiores de criatividade e desenvolvimento de um intelecto habituado ao
pensamento crítico e à aprendizagem autônoma.
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
Porque inicio destacando esse aspecto? Isso porque que na socieda-
de contemporânea o poder social das práticas tem muito a ver com o co-
nhecimento que as orienta. O conhecimento ratifica, legitima determinados
processamentos do trabalho profissional e, obviamente, deslegitima outros.
Trata-se da relação conhecimento e hegemonia ou do conhecimento hege-
mônico. Porque não há um só conhecimento e sim vários conhecimentos, o
que torna necessário analisar as relações sociais do conhecimento, as teorias
sociais em que se sustentam e seu entrelaçamento com a política. E, no caso
do Serviço Social, com seus Fundamentos de várias ordens e especialmente
com sua inserção no movimento da história.
Estamos diante de uma enorme estrutura transnacional de poder e
dominação que ganha visibilidade com o avanço do neoliberalismo, do pen-
samento conservador e seu ideário.
Contexto em que é preciso dar uma especial atenção aos “processos
de conhecimento que fundamentam os interesses dominantes”. Uma socie-
dade da comunicação, da informação das mídias globalizadas não existe
sem conhecimentos que a legitimem. Sem a formação de seus quadros. Sem
processos educativos que os preparem. A resistência a esse processo também
exige conhecimentos comprometidos com outra ordem societária.
Se o conhecimento não é neutro, mas, social, no sentido aqui referi-
do é preciso avançar em um conhecimento “contra hegemônico ou que pre-
tenda ser contra hegemônico”. A Hegemonia é a capacidade de dar a direção,
pautar o debate, definir a agenda e, nesse sentido, os processos formativos e
a educação permanente e os conhecimentos que dela advém, não são abs-
trações, desvinculadas das condições sociais em que se constroem.
Lembro aqui o professor Otávio Ianni, um artesão do pensamento crítico,
que em uma apresentação na PUCSP há muitas décadas, afirmou a beleza
de conhecer, de decifrar a realidade a partir do pensamento fundamentado
em uma Teoria Social, e, portanto, um pensamento que não é indiferente do
ponto de vista social e político. Para ele construir “uma interpretação dos
AULA INAUGURAL | Conteúdo ministrado no dia 11/9/2025 >> Maria Carmelita Yazbek > 15 <
dados de uma pesquisa é como a elaboração de uma sinfonia: a partir da
descoberta do tema ... (o pesquisador) vai compondo seu trabalho, sua inter-
pretação , suas conexões de sentido, a explicação científica, o todo que se es-
conde atras do factual, a universalidade contida no singular no discreto e até
no minúsculo.” (Ianni, 2011) Faz parte de nosso compromisso social e político
o exercício do pensamento crítico, a busca de novas teses, novos caminhos. É
nesse sentido que um curso como este é uma viagem fantástica em termos
de reflexão, de interrogação de questionamento. Uma reflexão que além de
individual é antes de tudo uma aventura coletiva. Uma reflexão que é tam-
bém prospecção sobre o futuro, um olhar para a frente sem indiferença, “um
ousado e arrojado modo de se conceber e fazer a formação de pessoas para
e pelo trabalho”, tendo como horizonte uma perspectiva de totalidade. sem
dúvida uma das categorias centrais do pensamento marxiano.
Otávio Ianni (2011:397) afirmava que construir essa totalidade é um
desfecho, é uma síntese da proposta de Marx, isto é, como se explica um acon-
tecimento, como se constrói a análise, a explicação o núcleo, o desfecho da
reflexão dialética E. explicar dialeticamente e construir a categoria ou as ca-
tegorias que resultam da reflexão sobre o acontecimento, implica em que o
pesquisador se coloque diante do que está problematizando, sempre interro-
gando-o sobre todos os aspectos, sobre todas as perspectivas, pois a realidade
é complexa, é heterogênea, é contraditória, é trama de mediações; apresenta
diversas facetas, diversas peculiaridades. A reflexão deve observar, deve exa-
minar essa realidade, o acontecimento que está em questão e tratar de basear
a compreensão global, que implica em compreender a realidade como uma
totalidade em sua integridade, em seu movimento histórico e contraditório.
Movimento no qual e através do qual se engendram como totalidade, as rela-
ções sociais que configuram a ordem capitalista. E, para Marx explicar a reali-
dade não é apenas descobrir os nexos que a constituem mas ajudar essa rea-
lidade a se constituir. Portanto, o pensamento entra na constituição do real.
É essa proposta que entendo permeia essa especialização porque en-
tendo que a investigação o conhecimento da totalidade é o conhecimento das
determinações de múltiplas ordens que interagem, é encontrar suas relações
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
é buscar as mediações históricas que a constituem. E mais, como afirmei essa
totalidade constitui uma instância contraditória, prenhe de disputas e ten-
sões, que se tornaram constitutivas do processo histórico global, que se ins-
taura com o desenvolvimento das relações sociais capitalistas perpassado por
múltiplas contradições (unidade e antagonismo) que hoje se expressam entre
classes, raça-etnia, sexualidade, gênero, descapacitismo, e outras.
Neste sentido, esta compreensão da totalidade, que a formação in-
vestigação possibilita, visa explicar o vínculo da profissão com a globalidade
das relações sociais capitalistas, onde se insere de modo contextualizado,
mediado e vinculado.
Assim, a proposta do curso de Especialização: Trabalho Profissional:
Questão Social e Fundamentos Teóricos-Históricos e Ético Políticos do Ser-
viço Social constitui uma totalidade a decifrar....e sobre a qual intervir.
Em uma conjuntura sob vários aspectos é extremamente adversa.
A questão social, constitutiva da sociedade capitalista amplia seu fosso de
desigualdade e injustiça, assumindo novas configurações e expressões, em
um mundo dominado pelo capital financeiro e pelo capital plataformizado,
pelos interesses das grandes corporações, das mídias, do conhecimento plane-
tarizado, saturado, instrumentalizado e a serviço da minoria, e por outras trans-
formações societárias que nos colocam frente a um quadro de pelo menos
1,1 bilhão de pessoas em 112 países são consideradas multidimensionalmente
pobres em novo relatório apoiado pelas Nações Unidas.
Efetivamente, a profundidade da crise provocada pelos processos de
restrutuação produtva e pela financeirização e plataformização do capita-
lismo (Cf. Antunes, 2023), vem exigindo enfrentamentos de dilemas, desa-
fios e tendências desses processos contemporâneos que configuram uma
reestruturação vasta e dramática do capitalismo global, impulsionada pelo
capital financeiro , pela reestruturação produtiva e particularmente por sua
incorporação das Tecnologias de Informação e Comunicação – TICs nas re-
lações de trabalho. Efetivamente, amplia-se no mundo do trabalho o avanço
AULA INAUGURAL | Conteúdo ministrado no dia 11/9/2025 >> Maria Carmelita Yazbek > 17 <
dessas novas tecnologias, das grandes empresas que as operacionalizam, da
Internet das Coisas, da Inteligência Artificial (IA),e a ampliação do uso de
recursos informacionais, em multiplas esferas da vida social e profissional.
Processo que expande e desloca as bases da acumulação e sobretudo cria
trabalhadores descartáveis, com altas taxas de desemprego, insegurança e insta-
bilidade nos empregos, crescimento do trabalho informal e precário, redução de
salários, precarização das relações de trabalho, incluindo terceirizações e contratos
por prazos determinados, entre outros aspectos, tornando cada vez mais difícil
construir no horizonte uma perspectiva de esperança para a Humanidade.
Alguns impactos sociais dessas mudanças são facilmente observá-
veis no cotidiano do trabalho do assistente social expressas crescimento das
massas descartáveis sobrantes e sem proteção que alcançam as Políticas So-
ciais que constituem o âmbito do trabalho profissional.
Cenário que, é agravado pelas históricas “desigualdades sociais, ét-
nico-raciais e de gênero impostas desde o sistema colonial,” que coexistem
com o avanço da financeirização e com a expansão tecnológica.
Em síntese, não podemos esquecer que, particularmente no caso bra-
sileiro, agravam essas transformações,tem como base “o caráter predatório das
relações coloniais e do escravismo que assentaram as bases de uma estrutura
social racista e que deixou, sem dúvida suas marcas na história do país e implan-
tou bases importantes na construção da lógica que vem presidindo a expansão
do capitalismo dependente na periferia em tempos mais recentes, bem como
as características próprias a questão social brasileira.” (YAZBEK, 2019:90)
Este curso se concentra no desvendamento desse novo tempo
na acumulação capitalista que vem gerando o que Dowbor denomina de
“crise civilizatória”, caracterizada “por um aumento radical da desigualda-
de, uma explosão de fortunas no topo da pirâmide social e um ritmo mais
fraco de crescimento, apesar dos impressionantes avanços tecnológicos.”
(DOWBOR,2022: 27)
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
Agrava esse quadro a expansão da extrema direita, apoiada por
uma agenda neoliberal que revela uma face hiperautoritária (Cf. DARDOT
e LAVAL, 2016) e por uma regressão conservadora de traços fascistas, que
se expressa no crescimento contínuo do irracionalismo, caracterizado por
um crescente obscurantismo, pela naturalização da desigualdade, pelo
acirramento dos preconceitos, do racismo, da homofobia, da criminaliza-
ção das famílias pobres, do feminicídio e da criminalização dos pobres e
pretos e dos movimentos sociais. Assim, uma primeira responsabilidade
do profissional é refletir sobre os fundamentos do que está acontecendo,
buscando clareza na construção de nossas explicações, na construção de
nossa consciência social e política do contemporâneo, na perspectiva de
delinear resistências, construir novos caminhos, perspectivas, alternati-
vas, e utopias coletivas.
Nesse contexto, entendo impossível problematizar as condições do
exercício profissional e da produção de conhecimentos no Serviço Social,
sem conhecer essa realidade e as características que configuram o modo de
operar do capitalismo contemporâneo e que vão montar o labirinto de pro-
blemas de um país.
Contexto em que se move a Profissão Serviço Social e seu pro-
cesso de formação, nos deparamos cotidianamente com expressões per-
versas da Questão Social, em termos de classe, raça etnia, genero etc:
Questão Social que, fundamentalmente expressa as desigualdades que
constituem o capitalismo contemporâneo, a partir da divisão da socie-
dade em classes, com suas múltiplas desigualdades mediadas por dispa-
ridades nas relações de gênero, características étnico-raciais, descapaci-
tismo, mobilidades espaciais, formações regionais e disputas ambientais,
colocando em causa amplos segmentos da sociedade no acesso aos bens
da civilização. Dispondo de uma dimensão estrutural, a ‘questão social’
atinge visceralmente a vida dos sujeitos numa luta aberta e surda pela
cidadania, no embate pelo respeito aos direitos civis, sociais e políticos e
aos direitos humanos” (Iamamoto, 2018, p.72).
AULA INAUGURAL | Conteúdo ministrado no dia 11/9/2025 >> Maria Carmelita Yazbek > 19 <
COMO SE APRESENTA HOJE GLOBALMENTE A QUESTÃO SOCIAL?
Em termos mundiais, Cf. a OXFAM a Riqueza dos bilionários au-
mentou em US$ 2 trilhões no ano de 2024, três vezes mais rápido que no
ano anterior (04 por semana) .A captura da nossa economia global por um
seleto grupo privilegiado atingiu níveis antes inimagináveis. A falha em de-
ter os bilionários agora está gerando futuros trilionários. Não apenas a taxa
de acumulação de riqueza dos bilionários acelerou — por três vezes — mas
também seu poder”,
A história da colonização, do racismo e da exploração deixou um
legado duradouro de desigualdade. Hoje, a expectativa de vida média dos
africanos ainda é mais de 15 anos mais curta do que a dos europeus. Pes-
quisas mostram que os salários no Sul Global são de 87 a 95% mais baixos
do que os salários no Norte Global para trabalho de habilidade equivalente.
Apesar de contribuir com 90% da mão de obra que impulsiona a economia
global, os trabalhadores em países de baixa e média renda recebem apenas
21% da renda global.
Globalmente, as mulheres estão mais frequentemente nas formas
mais vulneráveis de emprego informal, incluindo o trabalho doméstico, do
que os homens. Trabalhadores migrantes em países ricos ganham, em mé-
dia, cerca de 13% a menos do que os nacionais, com a disparidade salarial
subindo para 21% para mulheres migrantes.
Por outro lado em outubro de 2024, a ONU estimava que pelo
menos 1,1 bilhão de pessoas viviam em situação de pobreza no mundo.
No Brasil, 6 em cada 10 habitantes são pobres E a pobreza não é apenas
uma condição de não acesso a bens materiais, mas é também uma condi-
ção espiritual caracterizada pelo não acesso não acesso a possibilidades,
informações e esperanças.
Podemos dizer assim, que vivemos em uma sociedade excludente
cuja gênese foi marcada por relações de dominação racial explícita, colonia-
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
lismo, escravismo e patriarcado, ou seja, constituída pelos pilares da cultura
branca, machista e homofóbica.
Finalmente, é a partir da interlocução com essa realidade com
seus impactos em todos os domínios da nossa vida social, econômica,
política e cultural, que nos colocamos como profissionais, na direção
inaugurada por Iamamoto (1982) que estabelece que a profissão só pode
ser desvendada em sua inserção histórica na sociedade. Assim sendo, é
preciso ultrapassar a análise do Serviço Social em si mesmo para situá-lo
no contexto de relações mais amplas que constituem o movimento histó-
rico da sociedade capitalista. “Situar o Serviço Social na história nos supõe
impregnar de história o Serviço Social na sociedade contemporânea. O
pressuposto é que história na sua processualidade — no seu vir a ser — é o
“terreno” da análise do Serviço Social, o que conclama uma perspectiva de
totalidade na leitura dos processos histórico-sociais.” (YAZBEK e IAMA-
MOTO, 2019 : 14)
Nesta perspectiva o Serviço Social só pode ser entendido no mo-
vimento histórico da sociedade, no complexo processo de (re)produção
das relações sociais capitalistas. Este é entendido como reprodução da
totalidade da vida em sociedade, na sua processualidade. Ele inclui não
apenas a reprodução da vida material, visto que a reprodução do capital é
relação social que implica a reprodução ampliada da vida social com suas
tensões e conflitos. Envolve a reprodução espiritual, isto é, das formas de
consciência social — jurídicas, políticas, religiosas, artísticas, entre outras
— através das quais os homens tomam consciência da vida social. Esse
processo de (re)produção contém a possibilidade do novo, pois se trata de
uma totalidade histórica em constante movimento, resultante da ação
dos sujeitos e de suas lutas, sujeitos que são produto da história e a cons-
troem coletivamente. O mesmo movimento que cria as condições para a
reprodução contraditória da sociedade de classes, racista, misógina, ho-
mofobica, cria e recria os conflitos resultantes de suas relações sociais e
a possibilidade de sua superação (Marx, 1974a, 1974b, 1974c; Iamamoto e
Carvalho, 1982, Yazbek, 2000, 2018a, 2018b).
AULA INAUGURAL | Conteúdo ministrado no dia 11/9/2025 >> Maria Carmelita Yazbek > 21 <
Nessa perspectiva, situar o Serviço Social na história requer romper as
fronteiras do Serviço Social em seus supostos “componentes internos” — não para
perdê-los, mas para elucidar com maior rigor as características dessa especializa-
ção do trabalho coletivo e área de conhecimento na sociedade. Exige-se conside-
rar os determinantes societários que inscrevem o Serviço Social na divisão social e
técnica do trabalho da sociedade na cena contemporânea, estabelecendo limites
e possibilidades ao trabalho do(a) assistente social, à seu processo de formação, à
sua produção acadêmico-profissional e à organização dessa categoria profissional.
Tem como horizonte o processo de construção de direitos não ape-
nas como construção técnica, mas questão essencialmente política, lugar de
contradições e resistência e não se faz apenas por decretos, protocolos, nor-
mas e regulamentos, embora fundamentais. De que estou tratando? Estou
tratando das disputas políticas no espaço das políticas sociais, mediações
centrais no atendimento das necessidades e direitos da população. Estou
tratando da questão de construir hegemonia na condução do processo de
construção dos serviços sociais e não apenas realizar gestões bem sucedidas
de necessidades. Mesmo em ações de parceria entre público e privado devem
ser atribuídos conteúdo e forma pública para políticas que atendam às ne-
cessidades de nossos usuários, realizem seus direitos e fortaleçam suas lutas.
Os aspectos a serem trabalhados estão absolutamente conectados
e é preciso apontar derivações analíticas delas decorrentes: Este projeto nos
dá norte. Ele nos desafia a decifrar a história e acumular forças políticas e
competência profissional para sua viabilização que tem como fundamento
a qualidade dos serviços prestados à população e a afirmação dos princípios
ético-políticos e técnico-operativos da profissão.
REFERÊNCIAS
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de neoliberal. São Paulo: Boitempo Editorial, 2016.
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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AULA INAUGURAL | Conteúdo ministrado no dia 11/9/2025 >> Maria Carmelita Yazbek > 23 <
<< DISCIPLINA 1 >>
TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO
CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
<< AULA 1 >>
Crise estrutural e impactos na
produção e reprodução social
<< Elaine Behring >>
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CRISE ESTRUTURAL E IMPACTOS NA PRODUÇÃO
E REPRODUÇÃO SOCIAL
Elaine Behring
O medo é uma linha que separa o
mundo. O medo é uma casa aonde ninguém
vai. O medo é como um laço que se aperta em
nós. O medo é uma força que não me deixa
andar.
(Trad. Lenine, Pedro Guerra e
Rodney D’Assis, 2006)
ATENTEM AOS SINAIS
Paira no ar e nos espíritos um sentimento de fim do mundo. Afinal,
são muitos os sinais e sintomas do que alguns já estão caracterizando como
policrise (NIEP Marx, 2025). Cresce de forma espantosa a desigualdade social
– com suas dimensões de classe, raça e gênero. Segundo o último relatório
da OXFAM (2025), salta aos olhos a concentração de riqueza em bilionários
– majoritariamente homens brancos –, que aumentou em US$ 2 trilhões em
2024. E boa parte dessa riqueza é extraída do sul global, o que aponta uma
dimensão imperialista e neocolonialista, no contexto de um capitalismo que
se desenvolve de forma assimétrica, desigual e combinada. Enquanto isso, o
pauperismo não se modificou de forma substancial: “o número de pessoas que
vivem abaixo da linha de pobreza do Banco Mundial de US$ 6,85 (PPP) hoje é
AULA 1 | Crise estrutural e impactos na produção e reprodução social >> Elaine Behring
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
o mesmo que em 1990: quase 3,6 bilhões de pessoas.” (2025, p. 9), ou seja, cerca
de 44% da humanidade. Essa população está concentrada abaixo da Linha do
Equador, já que apenas 8% da população mundial vive em países com baixa
desigualdade, ao norte. Já os 1% mais ricos detêm 45% da riqueza mundial.
Fundamental é registrar que o pauperismo se concentra nas mulheres, e den-
tre elas, as racializadas: “uma em cada dez mulheres no mundo vive na pobre-
za extrema (abaixo de US$ 2,15 por dia PPC); 24,3 milhões de mulheres a mais
do que homens vivem na pobreza extrema.” (Oxfam, 2025, p. 9).
Nos atinge duramente a crise climática e ambiental, com desastres em
sequência – fogo em biomas fundamentais, a exemplo da nossa Amazônia; chu-
vas torrenciais e secas prolongadas; degelo nas regiões polares e aquecimento
dos oceanos; e ameaças virais, a exemplo do coronavírus que ceifou, em 2020 e
2021, milhões de vidas com maior ou menor intensidade, a depender do nível de
negacionismo dos ocupantes dos Estados nacionais. O impacto humano, seja
em mortes, seja em radicalização das expressões da questão social (Iamamoto,
2007; Netto, 2001), tem sido tremendo e desigual territorialmente. E os passos
das organizações internacionais, governos e sociedade civil são tímidos e/ou di-
retamente boicotados pelos grandes oligopólios e Estados que os abrigam, para
que o planeta não esquente, chegando a temperaturas irreversíveis e inviabili-
zando a presença humana, caso não exista um freio de emergência (Lowy, 2021).
O sóciometabolismo do capitalismo, mantendo-se os padrões atuais, é ecolo-
gicamente inviável, pois o planeta está aquecendo aceleradamente. Em 2024,
ultrapassamos a simbólica meta de 1,5° dos acordos internacionais, chegando a
1,6°, acima dos níveis pré-industriais ([Link]
czj3yem097po). Trata-se de uma ruptura metabólica, que aponta os limites na-
turais e históricos do modo de produção capitalista, nestes tempos de capitalo-
ceno, que deixam para trás o antropoceno (Sá Barreto, 2022). Os apologetas da
energia fóssil, do consumo conspícuo e desmesurado, da busca de outros plane-
tas para poucos viverem, enquanto se destrói a Terra, as pessoas e demais seres
que nela vivem, são os verdadeiros exterminadores do futuro.
Persiste um ambiente tóxico de políticas econômicas de austeridade
fiscal neoliberais, que direcionam o fundo público para a remuneração das
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instituições financeiras, detentoras de títulos da dívida pública dos Estados
nacionais, deixando as políticas sociais e os direitos humanos à míngua. O Re-
latório OXFAM informa que “quatro em cada cinco países reduziram a parcela
de seus orçamentos destinada à educação, à saúde e/ou à proteção social e à
tributação progressiva; e nove em cada dez regrediram em termos de direitos
trabalhistas e salários-mínimos” (2025, p. 10). Desta forma, os Estados nacio-
nais hegemonizados por interesses burgueses, especialmente das instituições
financeiras (Chesnais, 2006 e 2011), são uma parte substancial da crise, dada
sua incapacidade cada vez maior de cumprir um papel anticíclico ou de re-
gulação. Nesse sentido, o fundo público faz a gestão das crises, assegura as
condições gerais de produção e reprodução do capitalismo decadente, e inten-
sifica e media os ritmos do metabolismo do capital (Behring, 2021), deixando
de financiar atividades fundamentais para a reprodução da força de trabalho,
em um contexto de aumento exponencial do exército industrial de reserva e de
recrudescimento das expressões da questão social.
Gayraud (2014) nos chama a atenção para uma dimensão crimino-
sa no capitalismo atual, conduzida por colarinhos brancos em articulação
com máfias, narco-bancos e similares. Uma verdadeira economia política
das sombras, que se funda na apropriação privada do fundo público, seja
via isenções fiscais injustificáveis e licitações viciadas, ou por meio de dutos e
gambiarras de recursos pela corrupção. É uma rede que mobiliza pirâmides
financeiras e “laranjas”, sob os quais se disfarçam o tráfico de armas, drogas
e toda sorte de coisas ilícitas, erigindo uma impressionante máquina de “la-
vagem” de dinheiro articulada aos paraísos fiscais.
Mas há, ainda, outros sintomas graves. As guerras têm sido histori-
camente uma saída para as crises cíclicas do capitalismo. Iremos sustentar,
adiante, que não estamos diante de um ciclo, mas de uma crise estrutural.
Nesse cenário, como afirma Menegat (2024), “a guerra não tem paz” no capi-
talismo. A corrida armamentista, com grande sustentação do fundo público,
tem sido intensamente mobilizada, em guerras localizadas dilacerantes e com
ameaças de generalização, em função das disputas imperialistas, em contexto
de importantes alterações na geopolítica internacional, advindas da decadên-
AULA 1 | Crise estrutural e impactos na produção e reprodução social >> Elaine Behring
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
cia da hegemonia norte-americana. O genocídio em Gaza aos olhos e com a
aquiescência de parte do mundo, a invasão da Ucrânia pela Rússia, as tensões
em torno de Taiwan, são acontecimentos recentíssimos. Mas a lista de confli-
tos é extensa nesse início de século XXI. A guerra é um componente decisivo na
produção e reprodução do capitalismo. E é também uma das causas principais
de uma imensa tragédia humanitária: os fluxos migratórios em fuga das balas,
das ditaduras, mas também da pobreza e da fome, os quais encontram cada
vez menos acolhimento. Com a posse de Trump no governo dos EUA, em 2025,
estamos assistindo à descartabilidade humana em grande escala, e o ambien-
te se tornou ainda mais ameaçador com a guerra econômica de tarifas.
O dito até aqui nos leva a pensar sobre a dimensão política e ide-
ológica da crise. Observamos a ocupação de espaços de poder por projetos
societários antidemocráticos e violentos sobre “os de baixo”, orientados
pelo neofascismo (Mattos, 2020), pelo neoliberalismo, pelo racismo e pelo
patriarcado, encarnados nas classes dominantes e seus arautos. A “caça
apaixonada do valor” (Marx, 1988, p. 126), como nunca, não encontra li-
mites legais e institucionais, nessa “economia política da barbárie” (Me-
negat, 2024). As promessas da modernidade - de igualdade, fraternidade e
liberdade - estão cada vez mais distantes, mesmo nos limites estreitos da
quase inexistente burguesia ilustrada e seu Estado Democrático de Direito,
também em crise, blindado às necessidades das maiorias, e hegemonizado
por lumpemburguesias predadoras e autocráticas (Demier, 2017). E há uma
tragédia, quiçá maior: a ofensiva burguesa sobre a consciência da classe
trabalhadora e seus segmentos, que busca paralisar o dissenso e a resis-
tência, remete às saídas individualistas, e dificulta a organização política
coletiva para um contraponto efetivo às tendências destrutivas desencade-
adas para perenizar o lucro de uns poucos em detrimento da vida de mui-
tos(as). O capital disputa corações e mentes para o empreendedorismo e a
“prosperidade” individuais, mobilizando o poder simbólico e real do medo,
e difundindo a ignorância e o imediatismo. Em tal empreitada, vale tudo:
desde o uso abusivo e mercantilização da fé, até a desinformação generali-
zada por meio de fakenews e similares. Mas, medo de quê? Do desemprego,
da fome, da guerra, da prisão, do cancelamento, da expulsão, da solidão, da
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depressão e da medicalização (Kehl, 2009), enfim, da morte, aqui parafra-
seando o estado hobbesiano de natureza, no qual se instaura a guerra de
todos contra todos. O medo é o solo do ressentimento (Kehl, 2004), que, por
seu turno, alimenta o salvacionismo messiânico do neofascismo, como em
Trump, Musk e, aqui entre nós, o bolsonarismo e seu hermano Milei, além
de outros similares ao redor do mundo.
Esses são alguns dos sinais principais - cada vez mais fortes e próxi-
mos, que não vêm encontrando um contraponto à altura - de que o mundo
da produção e reprodução do capital não vai nada bem, ainda que existam
pessoas que vejam nisso suas janelas de oportunidades para superlucros. É
preciso, contudo, ir além desses elementos aparentes dos processos em cur-
so, para compreender as contradições do capitalismo em crise e em decadên-
cia, em uma perspectiva de totalidade.
A EXPLICAÇÃO DAS CRISES EM MARX: BREVE RESGATE
As linhas que seguem são uma síntese atualizada da análise mais
extensa da crise que fizemos em Behring, 2021. A crise atual do capitalismo
e as saídas destrutivas que as classes dominantes encontram para perenizar
suas luxuosas condições de existência (Mészáros, 2002), são explicadas pela
crítica da economia política clássica e contemporânea. Para Marx (2009), o
capitalismo tende intrinsecamente às crises, a bloqueios no processo de re-
produção, contestando as teses liberais de que o capitalismo se direciona
ao equilíbrio. Seu elemento detonador pode ser uma queda geral dos preços
de revenda, tornando a reprodução difícil em razão das perdas; uma alta
imprevista das matérias-primas; a falta de provisão de meios de produção,
entre outros. E o bloqueio da reprodução conduz à diminuição da massa
de trabalho empregada, com impactos de baixa de salários, alimentando a
crise. Entre o instante do investimento nos fatores de produção e o momen-
to de seu retorno na forma de lucros podem se produzir catástrofes, dando
ensejo à destruição de capital, o que é uma espécie de drama crônico e cíclico
AULA 1 | Crise estrutural e impactos na produção e reprodução social >> Elaine Behring
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
do capitalismo. Esse é o momento em que os detentores de capital na for-
ma monetária, ou seja, em liquidez nas instituições financeiras, em especial,
aproveitam para adquirir títulos e propriedades a baixo preço. As crises, his-
toricamente, engendraram a mudança dos proprietários da riqueza: “trans-
ferências de riqueza de uma mão a outra” (Marx, 2009, p. 83).
O dinheiro, em seu papel de equivalente geral, é uma forma de exis-
tência essencial e necessária do valor de troca das mercadorias. O objetivo
central do capitalismo é o lucro que advém da metamorfose da mercadoria
em dinheiro, quando se realiza a mais-valia. Porém, “a crise é justamente o
momento da perturbação e da destruição do processo de reprodução” (Marx,
2009, p. 92). Vale lembrar que a compra e a venda são momentos separados
de um mesmo processo, tal como a produção e o consumo, o que caracteriza
a produção burguesa. Porém, podem existir sérias dificuldades para a sua
continuidade, tanto temporais quanto espaciais, engendrando a superpro-
dução de mercadorias e/ou a superacumulação de capitais na forma mo-
netária, decorrentes da interrupção do processo. A superprodução acontece
em razão das dificuldades de encontrar meios de pagamento nos quais se
transmutam as mercadorias, em razão da separação e, na crise, da verdadei-
ra oposição entre produção e circulação, em um modo de produção que se
organiza para o lucro e não para as necessidades.
As crises, portanto, restabelecem violentamente a unidade das fases
do processo de produção e reprodução social, que estavam relativamente au-
tonomizadas pela dinâmica mesma da economia política burguesa. No inte-
rior do processo, operam diferentes capitais em diversas formas de existência,
impostas pela divisão social do trabalho, o que determina a amplitude e o con-
teúdo da crise. A interveniência dos papéis – títulos de dívida – nas transações
de compra e venda torna mais complexo todo esse processo: “As interações
entre dívidas e obrigações recíprocas e entre compras e vendas podem trans-
formar a possibilidade de crise em crise real” (Marx, 2009, p. 115). As crises mo-
netárias se caracterizam pela não realização de uma série de pagamentos em
um intervalo de tempo determinado. Marx aponta que os economistas ado-
ram encontrar aí as causas das crises, quando são, na verdade, suas expressões.
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Para ele, a dinâmica da crise deve ser analisada a partir das condições gerais da
produção capitalista.
Neste passo, ele faz ponderações importantes sobre a crise de su-
perprodução. Os que produzem _ os/as trabalhadores/as _ não são consumi-
dores/as dos artigos que serão consumidos na produção (meios de produção
e matérias-primas), e muitas vezes sequer do que produziram, dependendo
do ramo de produção. Os/as trabalhadores/as produzem, de fato, a mais-va-
lia além de suas necessidades, para estarem em condições de consumir ou
comprar no estrito limite dessas mesmas necessidades, que são históricas e
sociais. Por outro lado, o capitalismo tem tendência de crescimento perma-
nente da produção. Seu limite, na verdade, é sempre dado pela dinâmica da
taxa de lucro. E nesta, opera a tendência histórica de queda, decorrente da
competição entre os capitais em torno da taxa de lucro, que tende a alterar
a composição orgânica do capital, expulsando força de trabalho, daí decorre
o desemprego e a formação de uma superpopulação relativa, como condição
de existência do capital.
É importante reiterar que a crise para Marx é, sobretudo, de super-
produção. Mesmo quando existem massas de valores na forma monetária
– superacumulação –, isso expressa o processo da superprodução em grande
escala (Marx, 2009, p. 163). Para ele, a crise geral do mercado mundial é um
momento em que todas as contradições da produção burguesa eclodem, fa-
zendo aparecer abalos menores que estavam dispersos e isolados. Diferente-
mente das análises que separam a esfera financeira da chamada economia
real, pensamos, com Marx, que as razões da crise atual devem ser buscadas
nas contradições que operam no coração do mundo do capital. A dupla exis-
tência da mercadoria, em valor de uso e de troca, é portadora da possibilida-
de de sua cisão, da mesma forma que a relação intrínseca entre produção e
circulação e as suas disjunções no espaço e no tempo.
Portanto, como condição de existência, o capital tende à arritmia, a um
desequilíbrio lógico, tal como Marx mostrava nas Teorias da mais-valia e em O
Capital. Essa disjunção da unidade da mercadoria e da relação entre produção
AULA 1 | Crise estrutural e impactos na produção e reprodução social >> Elaine Behring
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
e consumo encontra prolongamento na separação entre lucro e juros, entre
capital funcionante e capital portador de juros, no momento da repartição da
mais-valia socialmente produzida. Para extrair mais-valia, é necessário vender, e
o poder de compra também é achatado, tendo em vista uma maior extração de
mais-valia, engendrando novas contradições. O crédito pode alimentar a reno-
vação do ciclo, mas esse processo também encontra seus limites, caso a cadeia
de pagamento aos credores sofra algum abalo. O capital portador de juros e seu
partner, o capital fictício, são as expressões mais alienadas e mais características
do capital, constituindo-se nas formas mais aparentemente autônomas do pro-
cesso metabólico do capital.
A superacumulação, que implica excesso de liquidez de capital na
forma de dinheiro ou nos “papeizinhos”, como diz ironicamente Marx, em O
Capital, é o anúncio da crise. Assim, “saturação do mercado (superprodução)
e superacumulação do capital são o verso e reverso de um mesmo fenôme-
no” (Bensaid, 2009, p. 13) e, quando se encontram no espaço e no tempo,
produzem cataclismas. A fixação do capital em várias formas, mas especial-
mente no capital portador de juros e sua expressão mais fantasmática, o
capital fictício, tende a mascarar a dificuldade estrutural da reprodução so-
cial. A ação do Estado, por meio do fundo público, passa a operar, de forma
crescente e estrutural, para amortecer a espiral da crise, a partir das suas
múltiplas intervenções.
A CRISE ATUAL É ESTRUTURAL: TEMPOS DE CAPITALISMO
DECADENTE
O capitalismo do pós-guerras no século XX, viveu seus trinta anos de
“glória”, de crescimento fundado no fordismo-keynesianismo (Harvey, 2003;
Behring & Boschetti, 2006), e que geraram uma mais-valia monumental, boa
parte dela apropriada, na repartição, na forma de juros, pelo mundo da fi-
nança. Tivemos a viragem do ciclo para uma onda longa com tonalidade
de estagnação, a partir do final dos anos 1960, e mais intensamente após o
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
efeito catalisador (Mandel, 1982 e 1990) produzido pelo detonador da crise
do petróleo de 1973-1974, principal fonte de energia neste capitalismo fóssil,
e pela ruptura unilateral dos acordos de Bretton Woods, impondo o dólar
como moeda forte no mercado mundial. Já a partir dos anos 1980, temos
uma monumental reação burguesa à queda das taxas de lucro e ao novo
ambiente econômico de estagnação, conduzida pelos detentores de capital
na forma monetária. O imenso capital acumulado nos chamados “anos de
ouro” se tornou capital de empréstimo, via crédito, e de investimento externo
direto (IED), ainda que, em muitas situações, não crie ativos novos, mas ope-
re, pelo mundo todo, mudanças de mãos da propriedade (como sinalizamos,
com Marx, nas linhas anteriores), concentrando-a mais que nunca, inclusive
pelo mecanismo das privatizações (Chenais, 1996; Behring, 2003). Todo esse
processo foi estimulado pela desregulamentação dos mercados orientada
pela ortodoxia neoliberal, essa “nova razão do mundo” (Dardot; Laval, 2016).
Bensaid analisa que o capital não sabe prosperar indefinidamente a
crédito (2009, p. 19). Qualquer ameaça mais consistente de não cumprimento
das obrigações assumidas inicia a cadeia de falências e concordatas, pelas
dívidas acumuladas e aumentadas pela sanha insaciável dos juros, a parte
do butim dos banqueiros, acionistas, e dos especuladores detentores de tí-
tulos, como se viu em 2008/2009. Essa profunda e endêmica debacle recente,
se iniciou justamente com a disjunção entre compra e venda, pela interve-
niência do crédito na venda de moradias _ a questão imobiliária nos EUA _,
automóveis e bens de consumo durável, com prazos e juros além do poder de
compra em médio prazo. O crédito movimentou aparentemente a produção
estagnada na viragem do ciclo, mas como uma folia de curto prazo, e antes
do advento desse seu momento violento, generalizado e agudo, já no primei-
ro decênio do século XXI.
Como tendência que se impõe e se torna visível pela sua negação
ou por suas causas contrariantes (Marx, 2007; Behring, 2021), a reação bur-
guesa à tendência de queda da taxa de lucro desde os anos 1970, se deu,
portanto, por meio dos seguintes expedientes: aumento da exploração do
trabalho pela reestruturação produtiva e pressão sobre os salários, combi-
AULA 1 | Crise estrutural e impactos na produção e reprodução social >> Elaine Behring
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
nada à expropriação de direitos (Fontes, 2010; Boschetti, 2018), na busca pela
ampliação da taxa de mais-valia; pelo movimento predatório imperialista,
que permite explorar o diferencial de produtividade do trabalho e baixar os
custos das matérias-primas, reprimarizando fortemente as exportações de
alguns países, tendo em vista as suas vantagens comparativas e a sustenta-
ção no mercado mundial, como é o caso do Brasil (Katz, 2016; Osório, 2014),
instituindo, assim, um novo padrão de reprodução do capitalismo, neocolo-
nialista, e que aprofunda a dependência (Marini, 2005); pela aceleração da
rotação do capital, acionando a publicidade, o marketing, o crédito, a gestão
ótima dos estoques de mercadorias, a obsolescência planejada das merca-
dorias, o que remete ao debate sugerido por Mèszáros (2002) acerca da taxa
decrescente do valor de uso das mercadorias, movimentos estes que buscam
compensar a baixa da taxa de lucro pelo aumento de sua massa (Bensaid,
2009, p. 25); pelo incremento da intervenção estatal, via constituição e alo-
cação do fundo público, socializando as perdas, redirecionando as despesas,
realizando renúncia fiscal e desencadeando uma série de outras medidas
para o capital, bem como, com centralidade, fortalecendo a indústria de ar-
mamentos (Behring, 2021).
Esse conjunto de medidas contrarreformistas, no entanto, não foi ca-
paz de se contrapor à eclosão da terceira maior crise generalizada do capita-
lismo em 2008-2009, ainda que tenha produzido um crescimento espetacu-
lar da desigualdade de renda e patrimônio mundo afora, como vimos acima.
Houve queda significativa do peso dos salários na renda nacional da maioria
dos países, no mesmo passo do crescimento da concentração da riqueza. O
ritmo da rotação mantido nos últimos anos pelo mecanismo do crédito, por
vezes irresponsável e até criminoso, caiu e mostrou que não é eterno. Quando
a crise advém, revela sua natureza real de uma crise latente de superprodução,
escamoteada pelo incremento do crédito, o que fez com que muitos a carac-
terizassem como crise das finanças, como se o mundo das finanças fosse uma
forma desviante do capitalismo, e não uma forma essencial.
As saídas do momento agudo da crise passaram visceralmente
pelo fundo público, com o aumento das dívidas públicas dos Estados para
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cumprirem seu papel monumental de “almofadas amortecedoras” (Mandel,
1978). Mesmo assim, é possível afirmar que essa injeção de trilhões de dóla-
res, euros e reais na economia mundial (e nacional) não conteve os elemen-
tos de crise, a ponto de gerar um novo ambiente de crescimento econômico.
Permanecemos na onda longa com tonalidade de estagnação, que se tornou
ainda mais dramática em razão da pandemia de 2020, ao interromper a rota-
ção _ as metamorfoses do capital _, em razão da elevada queda do emprego,
da renda e do consumo, e radicalizada em função das expressões e tendên-
cias debatidas na primeira parte deste texto. A hecatombe de 2008-2009 tra-
tou de mostrar as reservas dos Estados e sua disponibilidade para salvar as
instituições bancárias e algumas empresas. No entanto, a crise continuou
pelo forte endividamento dos Estados, que lançaram planos de austeridade
e punção fiscal sobre os trabalhadores para se sustentarem, com um custo
social altíssimo, e com baixo contraponto na forma das políticas sociais se-
letivas e focalizadas, além da sua mercantilização direta, à imagem e seme-
lhança do neoliberalismo.
Vejam, para os intelectuais liberal-burgueses mais ortodoxos, a crise
é uma espécie de “lipoaspiração” do sistema capitalista, um ajuste inevitável
advindo dos mecanismos naturais do mercado, ao qual se sucederá a recupe-
ração do equilíbrio, tendência na qual os liberais depositam sua fé inabalável
desde a Lei de Say, conhecida como a lei da oferta e da procura. Para tanto,
é fundamental que haja redução de custos – nas empresas e, especialmente,
no Estado _, e todos façam o seu dever de casa, a “sua parte de sacrifício”. Sim,
porque a crise, para este ponto de vista, é de todos, e a saída exige o engaja-
mento e a colaboração de todos também, o que confirma as importantes e
atuais teses de Mota (1995) acerca de uma cultura da crise.
Para os keynesianos e variações, a crise é de falta de regulação, como
se a desregulamentação tivesse sido uma espécie de capricho, de revanche
liberal irresponsável. O processo de desregulamentação, de fato, permitiu,
com o ascenso dos neoliberais, a presença de investidores gananciosos e ines-
crupulosos, exponenciando o capital fictício e a concessão irresponsável de
créditos, em especial os empréstimos subprime para casa própria de assala-
AULA 1 | Crise estrutural e impactos na produção e reprodução social >> Elaine Behring
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
riados de baixa renda: as chamadas hipotecas tóxicas. Então, nessa perspec-
tiva, a crise seria de excesso de crédito sem escopo por parte dos devedores,
gerando inadimplência e incapacidade dos bancos e instituições financeiras
de sustentarem essa grande oferta em condições de inadimplência. A saída
da crise estaria, portanto, condicionada a fortes doses de regulação, o que
Katz (2008) chama de “fantasia da regulação”.
A hipótese explicativa da crise atual e estrutural que subscrevemos
tem seus fundamentos na tradição marxista. Nessa perspectiva, a crise não é
uma disfunção, nem um problema de regulação, mas é parte constitutiva do
movimento contraditório do capital. Estamos, pois, mergulhados(as) nos úl-
timos quarenta anos nessa dinâmica, com recuperações breves, mas em meio
a uma tendência geral de baixo crescimento e saídas destrutivas (Mészáros,
2002). Houve a grandiosa reação burguesa desencadeada por meio de vários
ataques ao trabalho, tais como: a combinação entre reestruturação produtiva
acompanhada da quebra da espinha dorsal do movimento da classe trabalha-
dora acima e abaixo da linha do Equador; o neoliberalismo, com a contrarre-
forma do Estado por via dos chamados ajustes estruturais; a mundialização do
capital, com a deslocalização de empresas para reduzir os custos da produção
e o valor da força de trabalho, o deslocamento do investimento externo dire-
to, a política concentradora de patentes e o espraiar de relações capitalistas
pelos antigos espaços do “socialismo real”, a partir de 1989. No entanto, dado
o caráter estrutural de uma crise que aponta os limites históricos e sociais do
modo de produção capitalista, tais saídas se mostraram ineficazes e fortemen-
te destrutivas da natureza e da humanidade. Pois, se a reação burguesa pro-
piciou alguma retomada das taxas de lucro, não houve a retomada das taxas
de crescimento, ou seja, não adentramos num ciclo virtuoso de crescimento
do emprego e da renda, hipótese que parece cada vez mais distante. Por outro
lado, a retomada das massas de lucro deu-se a partir de uma dinâmica de ex-
cesso de liquidez de capitais, ou seja, azeitando as instituições financeiras, sem
dúvida as que mais se beneficiaram desse processo. Esses grandes volumes de
capitais não encontram caminhos de valorização, embora os busquem deses-
peradamente e com rentabilidade máxima, no contexto de um capitalismo
tóxico, nos termos de Husson (2009).
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Evidentemente, há resistências operando no âmago dos processos
que buscamos analisar, já que o capital é uma relação social, como reite-
ra Marx em inúmeras passagens de sua obra. O valor é efetivamente de-
terminado pela condição geral da luta de classes. Outros textos deste curso
tratarão dessa dimensão. Temos vivido tempos de defensiva da classe tra-
balhadora. No entanto, a “velha toupeira” pode emergir de forma abrupta
e inesperada, vencendo o medo e realizando sínteses que nos permitam pen-
sar em um mundo humanamente emancipado, liberto da lógica que coloca
o lucro acima da vida.
QUESTÕES PARA REFLEXÃO
1. Como você percebe os sintomas da decadência do capitalismo em
seu trabalho profissional?
2. O capitalismo é um modo de produção e reprodução que tende
à arritmia. Porém, dos anos 70 do século XX aos dias de hoje, vivemos
uma crise estrutural. Comente com suas palavras essa afirmação.
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O Último Pub. Dir. Ken Loach, 2023. (Prime Vídeo, Apple TV)
Seaspiracy: Mar Vermelho, 2021. Aventura/Documentário (Netflix)
Parasita. Dir. Bong Joon-ho, 2019. (HBO Max)
Série Succession, 2018. (HBO Max e Amazon Prime Vídeo)
Eu, Daniel Blake. Dir. Ken Loach, 2016. (Prime Vídeo)
Série 3%, 2016. (Netflix)
Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade. Dir. Kip Andersen e Keegan
Kuhn, 2014. Documentário (Netflix)
Catastroika. Dir. Aris Chatzistefanou e Katerina Kitidi, 2012. Documentário.
(MUBI)
Dividocracia (Debtocracy). Dir. Aris Chatzistefanou e Katerina Kitidi, 2011.
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
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TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO
CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
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Crise da democracia burguesa
e avanço mundial da extrema
direita
<< Ana Elizabete Mota >>
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CRISE DA DEMOCRACIA BURGUESA E AVANÇO
MUNDIAL DA EXTREMA DIREITA
Ana Elizabete Mota
INTRODUÇÃO
Este ensaio problematiza a crise do regime democrático no âmbito
da reação burguesa à crise do capitalismo, expressão da relação entre os im-
perativos da acumulação capitalista e as contradições da democracia liberal.
Envolve as estratégias de dominação burguesa e a luta das classes trabalha-
doras e subalternas, por direitos e igualdade no acesso à riqueza socialmente
produzida. Destacamos que a composição das classes subalternas implica
relações de exploração e opressões de gênero, raça, etnia e sexualidades, ra-
zão das lutas incorporarem particularidades relativas à diversidade de com-
posição dessas classes.
A partir da segunda metade do século XX, com o aprofundamento
da crise do capital iniciada nos anos 1970 e potencializada nos anos 2000 do
século XXI, emergem claras sinalizações da crise do regime liberal democrá-
tico, determinadas pela crescente blindagem às pressões das classes traba-
lhadoras (Demier, 2017, 2019, 2024) e pela tendência de “desdemocratização”
do regime democrático (Streeck, 2018, p. 55), (Miguel, 2020, 2022). Nessa con-
textualidade, destacamos que a “democracia adaptada ao mercado” (Stre-
eck,2023, p.32-33) tem suas regras redefinidas pela agenda neoliberal que
requer novos ordenamentos, escancarados pela ofensiva da extrema direita.
Nesse processo, identificamos a emergência de conservadorismos
de novo tipo, assim como uma ressignificação dos modus operandi da demo-
cracia burguesa, mediados por ideologias neofascistas (Badaró Matos, 2020)
e medidas de austeridade contrarreformistas e ultraneoliberais. Ao final do
ensaio destacaremos o peso da formação de culturas e sociabilidades con-
AULA 2 | Crise da democracia burguesa e avanço mundial da extrema direita
>> Ana Elizabete Mota > 51 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
servadoras, suas inflexões na democracia liberal do século XXI e os desafios
ao seu enfrentamento.
A REAÇÃO BURGUESA À CRISE DO CAPITAL E O REGIME
DEMOCRÁTICO-LIBERAL
Consolidado no pós-Segunda Guerra Mundial, o regime democrá-
tico-liberal adquiriu particularidades nos países centrais e periféricos, me-
diadas pelo desenvolvimento do capitalismo, pela desigualdade social que
lhe é inerente e pela luta social das classes trabalhadoras e subalternas por
direitos civis, sociais e políticos.
Contemporaneamente, o exercício e a compreensão da democracia
adquirem significados deshistoricizados, posto que destituídos de uma visão
crítica e, por vezes, restritos às formas de atuação dos governos, à indepen-
dência dos poderes e à existência do sufrágio universal. Poderíamos dizer
que o debate e as visões correntes imprimiram à concepção de democracia
uma dimensão instrumental, apartando-a da relação entre dominação, ex-
ploração e subordinação, inerentes ao capitalismo e suas expressões na atual
dinâmica econômica e ideopolítica deste século.
Há um reconhecimento generalizado da crise da democracia libe-
ral, ainda que as abordagens sejam distintas na ciência política clássica e no
pensamento neofoucaultianos, como discorrem Miguel (2018, 2022), Matos
(2017, 2020), Demier (2016, 2017, 2024), além das reflexões de Carlos Nelson
Coutinho, particularmente sua publicação de 1980, no período da luta contra
a ditadura e desmonte do regime soviético, com o ensaio A democracia como
valor universal (Coutinho, 1980).
A abordagem aqui adotada é de que o regime democrático liberal
e a chamada democracia eleitoral são resultantes da luta entre as classes
fundamentais; contudo, dialética e contraditoriamente, enquanto a classe
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
proprietária e dominante tende a apropriar-se e adaptar a cultura e os insti-
tutos democráticos aos seus interesses, as classes populares resistem e lutam
para conquistar, assegurar e expandir os seus interesses e direitos. Portanto,
falar em crise da democracia significa invocar a dinâmica capitalista, a luta
de classes, a correlação de forças existente no âmbito da relação entre do-
mínio e resistência. Trata-se de um regime no qual a dominação política de
classe é resultado de um processo histórico tenso, conflitivo e marcado por
disputas de classe.
A conjuntura que se arrasta desde a segunda metade da década de
1970 do passado Século, de crise capitalista e restauração dos mecanismos
de acumulação (Braga,1996), situa-se numa processualidade que Gramsci1
qualificou de crise orgânica, na qual o imbricamento das dimensões econô-
micas, ideopolíticas e culturais incidem sobre a direção da burguesia, expon-
do contradições relacionadas à hegemonia dos dominantes (Demier, 2024).
Processo que permite identificarmos renovadas estratégias de dominação
burguesa, amparadas emergência de novos tipos de conservadorismos e no
modus operandi da democracia liberal (Mota; Rodrigues, 2020; Demier, 2024;
Miguel, 2022). Seus protagonistas são frações da classe dominante que se
pretendem dirigentes na própria classe e em todas as classes, para tornar o
seu projeto universal, orgânicos à direita e à extrema direita, particularmen-
te vinculadas ao capital financeiro e rentista (mas não somente), no âmbito
das relações de produção e reprodução social. Em outras palavras, investem
em pautar a sociabilidade e condições de vida dos segmentos da pequena
burguesia, dos médios assalariados e setores pauperizados e precarizados,
subsumidos (formal e realmente) às relações de exploração, dominação e
opressão das classes proprietárias.
Como abordado em outra ocasião (Mota, 2024), a despeito das qua-
lificações históricas e teóricas que circulam nos meios acadêmicos e políticos
1 Uma das características da crise orgânica é a concomitância entre a crise econô-
mica (de acumulação) e a emergência de uma crise política, determinada pelo acirramen-
to dos conflitos entre as classes e, no seu interior, entre as frações de classe. Na concepção
de Gramsci, essa crise orgânica afeta o conjunto das relações sociais e é a condensação
das contradições inerentes à estrutura social. Para uma síntese do conceito: Cfe. Liguori;
Voza, 2017, p. 162-164.
AULA 2 | Crise da democracia burguesa e avanço mundial da extrema direita
>> Ana Elizabete Mota > 53 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
sobre a extrema direita – dentre elas, seu traços neofascistas à moda do sé-
culo XXI, parece-me inconteste que sua ofensiva se espraia como ideologia
e cultura anticivil, relacionada aos mecanismos (ofensivos ou de resistência)
através dos quais, as classes sociais enfrentam a crise do capital, consideran-
do suas posições e condições na dinâmica contraditória da sociedade, e que
redefinem as práticas do regime democrático-eleitoral burguês. Dentre eles,
a legitimação, por meio do escrutínio universal da eleição de líderes ultra-
conservadores, o crescimento exponencial dos partidos da extrema-direita,
como são exemplares os casos do Reino Unido, Alemanha, países Escandina-
vos, Itália, Portugal, França, Polônia, Hungria, Turquia, Índia e as eleições de
Bolsonaro no Brasil e Trump nos Estados Unidos, qualificadas como expres-
são da vontade da maioria.
Nesse mesmo diapasão, destacamos as “novas” modalidades de gol-
pes de Estado, as perseguições políticas a militantes de oposição, as restrições
de direitos e liberdades, os cortes abruptos e desmonte dos serviços públicos
e de políticas sociais, a guerra cultural anticomunista, antifeminista e o ex-
purgo ideológico de servidores públicos, para citar alguns feitos. Mas o que
chama especial atenção é a capacidade que têm de realizar tais façanhas por
dentro da ordem, usando as regras existentes para possibilitar que a exceção
se transforme no novo normal (Loff; Vieira; Guerra, 2021, p. 259), cuja ideia
central é internalizar o que era considerado aceitável como inaceitável ou
imponderável sob a cultura e prática de um permanente estado de exceção.
Evidente que, histórica e sistematicamente, a emergência das crises
mobiliza estratégias classistas no seu enfrentamento e implica, invariavel-
mente, mecanismos e diretrizes atinentes à luta de classes. Na atualidade,
para a burguesia, esse movimento materializa-se na defesa do neoliberalis-
mo e da financeirização, como ideários econômicos e políticos expressos na
centralidade do mercado, no apagamento dos controles sociais públicos e na
supressão de bens e serviço públicos por força das privatizações e mercan-
tilização. A principal diretriz é construir culturas e práticas “democráticas”
ajustadas à liberdade dos mercados e dos sujeitos individuais.
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Para as classes trabalhadoras e subalternas, as crises do capital –
em face dos seus impactos no mundo do trabalho e na atuação do Estado,
incidem, antes de tudo, sobre suas condições de vida, provocando ranhuras
na cultura política que, pelo menos no Brasil pós-exaurimento da ditadura
empresarial-militar, comportava lutas e reivindicações sociais por condições
de trabalho, salários, direitos políticos, sociais e civis, educação, saúde e pre-
vidência públicas, bem como por sua gestão democrática das políticas.
A dimensão econômico-política e social dessas conquistas (parti-
cularmente novos direitos, serviços e financiamento público) podiam com-
portar, tendencialmente, características anticapitalistas, ao confrontar o ge-
nético antirreformismo da burguesia brasileira e obstaculizar a apropriação
do fundo público, tanto em termos legais quanto constitucionais, definindo
regras para o financiamento de políticas sociais (Mota, 1995); exatamente a
antítese do que acontece com a austeridade fiscal, as contrarreformas e as
medidas de exceção, tornadas, sem dúvidas, o novo normal da velha ordem.
Na atualidade, a fragmentação partidária, sindical e político-organi-
zativa dos trabalhadores e trabalhadoras afeta profundamente o campo das
esquerdas: seja pela diversificação de pautas, ausência de unidade tática e estra-
tégica, seja pela ressignificações teórico-política de valores, princípios, diretrizes
e modos de vida, herdeiros dessa sociabilidade desdemocratizada e das muitas
frentes da guerra cultural. E, mais ainda, mediadas pelo desalento e cansaço das
classes subalternas na espera de mudanças que transformem seu cotidiano e
suas condições de vida: nunca realizadas após as campanhas eleitorais.
Segundo Lukács (2013), o principal trunfo fascista para cooptação
das massas “é a manipulação da ontologia do cotidiano” no contexto capita-
lista (Lukács, 2013, p. 561). Trata-se, sem dúvidas, do peso das categorias ide-
ologia e reificação no processo de produção e reprodução social, tema funda-
mental nesse debate porque cultura e ideologia se constituem nos principais
pilares que mediam, contraditória e dialeticamente, a relação entre a base
material e as superestruturas jurídico-políticas, formadoras de instituciona-
lidades e sociabilidades classistas.
AULA 2 | Crise da democracia burguesa e avanço mundial da extrema direita
>> Ana Elizabete Mota > 55 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
Na ambiência do século XXI, a redefinição das bases materiais e cul-
turais da sociabilidade requerida pelo capital, confronta-se diretamente com
a direção progressista das lutas sociais, quer no horizonte da emancipação
política (conquista democráticas e exercício de direitos), quer no das lutas
libertárias e/ou anticapitalistas (dos e das trabalhadoras, dos e das ambien-
talistas, das feministas, das liberdades sexistas e antirracistas), operando in-
flexões em todas as esferas da vida - econômica, política, social, ambiental
e cultural, ainda que não elimine contradições, nem resistências. Aqui repo-
nho a ambiência da crise orgânica.
Nesse diapasão, pensadores diversos (Feierstein et al., 2023) apon-
tam a capacidade da nova direita de apropriar-se das insatisfações e desa-
lentos dos jovens como um dos traços dessa investida mundial, que também
se espraia no Brasil e demais países latino-americanos. Abordagem que nos
faculta apontar determinações, concluindo, de acordo com a lição gramscia-
na dos Cadernos do Cárcere (p. 13), que a crise capitalista, teorizada como
crise orgânica é uma determinação mediata da crise da democracia liberal.
Supõe que um determinado padrão de dominação de classes foi abalado
(não cancelado), a exemplo do Estado social, potenciada, certamente, pela
fragmentação (estratégica/tática) das pautas e lutas sociais à esquerda, pe-
las radicais mudanças nos processos e relações de trabalho, pela dinâmica da
financeirização, pelo realinhamento de forças políticas, derruição de lideran-
ças e criação de outras.
OFENSIVA DA DIREITA E DESTRUIÇÃO DE CONQUISTAS CIVILIZATÓRIAS
Na sua fase gloriosa, o capitalismo necessitava da democracia para
consolidar o pacto de classes do pós-guerra; na atualidade, ele desdenha da
cultura democrática do pós-segunda guerra e aposta em novos arranjos da
democracia-liberal ajustados às necessidades da acumulação financeirizada
e aos mecanismos de austeridade, para contrarreformar o Estado, adotando,
como universal, uma espécie de pensamento único: menos Estado social, mais
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mercado, menos emprego, mais empreendedorismo, menos proteção e mais
auxílios focais, menos consensos e mais coerção, com aderência a argumentos
morais, conservadores e anti-intelectuais. As classes dominantes e seus pre-
postos, oferecem um sistema de crenças coerente o suficiente para dar suporte
material e ideológico a segmentos das classes subalternas. Ou seja: mobilizam
condições objetivas e subjetivas para sua passivização frente aos interesses
materiais e políticos dos dominantes.
Segundo Wendy Brown (2019, p. 16-17), referindo-se aos países cen-
trais e, particularmente, aos Estados Unidos e à Europa, é necessário com-
preender não somente as condições econômicas, mas as raízes e as forças da
situação atual, determinantes da cultura política e da produção subjetiva
neoliberais, que a geraram: a ascensão das formações políticas nacionalistas
autoritárias, se “deve à raiva instrumentalizada dos indivíduos abandona-
dos economicamente e ressentidos racialmente, mas também delineada por
mais de três décadas de assaltos neoliberais à democracia, à igualdade e à
sociedade” (Ibidem, p. 17).
As ideias conservadoras adquirem capacidade de mobilização de
massas (nacionalismo, anticomunismo, anti-intelectualismo, militarismo,
racismo, machismo, heterossexismo e religiosidade) e tendem a despertar
motivações nos médios assalariados, profissionais liberais e segmentos das
classes subalternas:
Por meio de uma ampla rede de organi-
zações culturais, movimentos políticos, instituições
educacionais, meios midiáticos e redes sociais (...) di-
fundem e naturalizam capilarmente sua concepção
do mundo e seus valores, constituindo (...) as trinchei-
ras da dominação de classe (Casimiro, 2020, p. 23).
Traverso (2021, 2023, p. 17-27), afirma que a atual conjuntura se re-
laciona com as derrotas revolucionárias do século XX, com a governança
neoliberal mundial e aposta em forças ditas antissistêmicas e na aversão à
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
esquerda. Seu projeto é “nacionalista, antifeminista, homofóbico, xenófobo
e alimenta uma clara hostilidade contra a ecologia, arte contemporânea e
o intelectualismo” (Ibidem, p.23).
Para a feminista de esquerda, Judith Butler (2023), o eixo ideopolíti-
co da extrema direita é o antifeminismo, dado que reconstitui o patriarcado
e renega as denominadas políticas e teorias de gênero. Tem crescido em todo
o mundo o pensamento conservador das igrejas católicas e evangélicas, sob
a defesa da família tradicional.
Para Stefanoni (2021), pesquisador e periodista argentino, trata-se
de uma direita que se apresenta como rebelde sob o discurso de pseudo práti-
cas antissistêmicas, com a centralidade do discurso anticorrupção e da nova
política. Essa rebeldia é um traço particular das estratégias da extrema direi-
ta: são rebeldes na forma, mas reacionárias no conteúdo.
Utilizando as categorias neofascismo e autocracia burguesa para
tratar a extrema direita, particularizando a experiencia do bolsonarismo no
Brasil, Badaró Matos (2020), compreende o neofascismo como uma ideolo-
gia portadora de traços fascistas que não são uma reprodução do fascismo
da primeira metade do século XX.
Em resumo: a ofensividade da extrema direita incide na esfera eco-
nômica, sociocultural, ambiental e de costumes, sob uma suposta ameaça do
comunismo e no combate moral e legal às lutas sociais contra todas as formas
de exploração, discriminação e opressões originarias dos trabalhadores e tra-
balhadoras, especialmente das mulheres (a exemplo do aborto), dos jovens das
periferias, das pautas étnico-raciais, sexistas, anticapacitistas, dentre outras.
Concordamos com Matos (2020, p. 79), quando diz que “é possível
pensar que os neofascismos ganham fôlego, na média duração, com a crise social
decorrente das políticas neoliberais do século XX e sua ascensão ganha novas di-
mensões após a crise capitalista global em 2008”.
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A permeabilidade que esse conservadorismo reacionário tem jun-
to às classes subalternas, permite-nos qualificá-lo como uma mediação do
avanço da extrema direita e da crise da democracia-eleitoral. E isso não é
casual: trata-se de um processo socialmente determinado, como tratou Ja-
merson Souza (2020, p. 78): “Em momentos de crise do capital, o conserva-
dorismo termina por ganhar fôlego e expressão entre as classes dominadas e
no senso comum, pois concentra esforços no sentido de dar vazão ao ressen-
timento generalizado entre as frações menores da pequena burguesia, dos
trabalhadores e do lumpemproletariado, por meio da indicação abstrata de
razões para a crise e as dificuldades práticas do cotidiano”.
São necessários elementos irracionais e uma visão fatalista e confor-
mista da vida, para manter os sujeitos passivos e fiéis à ordem. Trata-se de
valorizar o presente, sem pretensões futuras, apenas adaptadas às condições
existentes, generalizando-se o medo do desemprego, o trabalho a qualquer
custo, o fim do horizonte das aposentadorias, a convivência com a precarie-
dade dos serviços públicos etc.
Assim, a prioridade é garantir a sobrevivência, afastando os sujeitos
de quaisquer perspectivas mais amplas e significativas de ação e inserção polí-
tica e social (Castro, 2021). A subjetividade da classe trabalhadora deve ater-se
à sua sobrevivência imediata, ajustando-se – objetiva e subjetivamente - aos
imperativos da sociabilidade capitalista. Paramentada pela consciência indivi-
dual do consumidor (Mota, 1995) e do salve-se quem puder. Por vezes, negam
a organização da classe trabalhadora e descuram da mobilização para os em-
bates; embora, a precarização da sua vida possa atingir limites concretos da
sobrevivência, ao ponto de insurgirem-se – desorganizada e espontaneamente
– à ordem: do que é exemplar, as jornadas de junho de 2013, no Brasil. Assim
como as exaustivas jornadas de trabalho à base da escala 6x1, atual objeto
nacional de luta dos e das trabalhadoras brasileiras.
Nesse contexto, a categoria cultura da crise (Mota, 1995), trabalhada
por mim como mediação de formas de ser e viver, parece explicitar a imple-
mentação de consensos objetivos e subjetivos que selam o nexo entre crise,
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
sociabilidade e constituição de hegemonia no interior das estratégias das clas-
ses dominantes e do consentimento das classes subalternas. Pode-se aventar
que, nessa nova etapa da hegemonia burguesa, o neofascismo impõe novos
elementos à essa cultura da crise em andamento no Brasil desde os anos 1990
e, com relativo êxito, consegue legitimar medidas e iniciativas que respondem
positivamente à remoção de obstáculos à expansão do capital.
Constitutivo de hegemonia, esse ambiente permitiu que as necessida-
des da acumulação capitalista, justificasse a utilização de estratégias antide-
mocráticas para implementar medidas de austeridade que incidem no mundo
do trabalho e dos trabalhadores/as, nos mecanismos de proteção social públi-
cos, no cotidiano e no senso comum das classes subalternas.
Ainda que, submetidos às expropriações de direitos, à mercantiliza-
ção de serviços e a formas diversas de opressões, as classes subalternas ainda
resistem contra a exploração, as condições de trabalho, o arrocho salarial, o
racismo, o machismo, os assédios morais e no trabalho etc. Mas, vale dizer,
somente em face da visibilidade pública e política que têm, suas pautas são re-
conhecidas ou suportadas no limite da ordem, inclusive através dos aparelhos
privados de hegemonia.
Nesse sentido, as medidas de austeridade são uma mediação insupri-
mível da crise democrática, dada a essência autoritária e antidemocrática do
neoliberalismo como tratou Brown (2019, p. 41-59), ao discorrer sobre o pensa-
mento de Friedrich Hayek. Não se pode menosprezar o potencial de capilarida-
de dessa cultura regressiva na sociedade brasileira (Mota, 2018), uma vez que seu
discurso reacionário e de ódio converge com as particularidades de uma forma-
ção social marcada pela desigualdade social, pelo patrimonialismo, patriarcado,
racismo, machismo, misoginia, homofobia e antirreformismo radical.
Essa contextualidade se presentifica, também, no atual governo
brasileiro – um governo de coalizão, sem maioria no Congresso e que, no
limite, representou a resistência ao neofascismo, na conjuntura de 2022, com
a eleição de Lula da Silva e que ainda contém embriões dessa resistência
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neofacista, mas com novas e complexas contradições de cunho neoliberal
que requerem problematizações, identificação de dilemas e desafios. Isso
porque, também no Brasil a tensão entre neoliberalismo e crise da demo-
cracia, apresenta-se nos arranjos econômicos, particularmente para cumprir
com o pagamento dos juros da dívida pública, a ortodoxia do déficit público,
os ajustes fiscais e isenções tributárias que atingem frontalmente o financia-
mento das políticas sociais.
De outra parte, a mediação da ofensiva da extrema direita e a fragmen-
tação das esquerdas (partidos, sindicatos, movimentos), além da atuação
da mídia corporativa, medeiam tais tensões. Sem descurar dos impactos da
uberização do trabalho, das condições de vida e socialidade de jovens ope-
rários, autônomos e populações pauperizadas e sobrantes na formação da
consciência política e organização coletiva.
O consentimento de parcelas das classes subalternas e trabalha-
doras à agenda político-moral e econômica da direita, baseada no funda-
mentalismo religioso conservador, no ultraneoliberalismo e na moralização
da sociedade, após mais de quatro décadas de neoliberalismo, não pode ser
desprezível. Segundo Clara Mattei (2023), a maior vitória da austeridade não
foi econômica: crescimento e pagamento das dívidas, mas política… aceitem
a ordem do capital! Isso porque a burguesia monopolista necessita cada vez
mais de contrarreformas, austeridade e expropriações para realizar a acu-
mulação capitalista que, segundo a reflexão de Demier (2024), o crescimento
do neofascismo representa a melhor expressão disso.
CONCLUSÃO
Do meu ponto de vista, o momento permite invocar uma célebre for-
mulação gramsciana para qualificar o atual momento como de transição, no
qual, o velho não morreu e o novo não nasceu. Explico-me: transita-se entre
o espólio de um dado modo “de ser e viver” - a herança fordista-keynesiana (o
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
ethos da integração pelo trabalho e do Estado Social) que deve ser particula-
rizada na periferia capitalista; e a peleja para parir o novo, que está encapsu-
lado pelas novas determinações da acumulação (supercapitalização dos servi-
ços, financeirização, apropriação do fundo público, mercantilização da esfera
pública, uberização do trabalho e expropriações de toda ordem) sob a batuta
da austeridade neoliberal, afetando diretamente o trabalho e os trabalhadores,
a divisão social e internacional do trabalho e a eversão de mecanismos civiliza-
tórios e de proteção social, numa avassaladora criação de meios e estratégias
de exploração, expropriação e dominação que tem por objetivo a destruição de
resistências político-organizativas das classes subalternas. O propósito é fazer as
classes subalternas assumam como seus, os projetos da classe que os explora e
domina – a construção de uma sociabilidade requerida pelo capitalismo do Sec.
XXI: a democracia desdemocratizada (Miguel; Vitullo, 2020) (Streeck, 2018, 2023)
e, numa outra abordagem, a democracia blindada, teorizada por Demier (2024).
Esses processos são atravessados pela pequena e grande política no
âmbito da constituição da hegemonia das classes dominantes e da ressigni-
ficação das formas e conteúdo democráticos, que se apresentam sob um su-
posto novo modo de fazer política. Dá-se o esvaziamento político e material
das conquistas civilizatórias, incidindo nos direitos trabalhistas, sociais e em
medidas legais e institucionais de desregulação do Estado sobre os movi-
mentos do capital, utilizando-se de meios que redefinem a instrumentalida-
de capitalista do regime político-democrático.
Esses meios, condições e estratégias têm tamanha incidência obje-
tiva que, por vezes, conseguem tornar subjetivas a objetividade da ordem
burguesa, afetando todas as expressões da sociabilidade que particularizam
as atuais formas de ser e de viver das classes trabalhadoras e dos segmentos
pauperizados nesta sociedade.
Articulada em escala transnacional desde o final da guerra fria, a
direita ganhou amplitude e novas dimensões com a crise de 2008, criando
outros meios de restaurar lucros capitalistas e avançando na implementação
de políticas que operaram novas expropriações (Mota, 2018), ampliando a
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pilhagem do fundo público (Behring, 2018) assim como a mercadorização do
trabalho no setor público (Alison, 2022).
Avançou-se na supercapitalização, segundo a perspectiva mande-
liana, com a criação de novos mercados à custa das privatizações, parcerias
público/privadas com empresas, entidades de direito privado e/ou terceiro
setor, por meio da mercantilização de bens e serviços originalmente públicos
(educação, saúde, previdência, energia, extrativismo, comunicações), trans-
formados em grandes negócios.
Essa conjuntura, marcada por iniciativas que atingem as condições
de vida e o acesso aos meios de sobrevivência das classes trabalhadoras e seg-
mentos pauperizados, revela a ofensiva do capital, levada a efeito pelas classes
proprietárias e dominantes, em resposta aos seus interesses e necessidades,
plenas de apelos ideológicos, culturais e religiosos. Utilizando-se de mídias
corporativas, dos discursos das igrejas conservadoras e das fake news ocorre
um verdadeiro espetáculo de mentiras, anti-intelectualismo, reacionarismo e
comunicação popular. Uma espécie de contrarrevolução midiática e reacioná-
ria para atingir jovens, pequenos comerciantes, trabalhadores autônomos e
segmentos médio-assalariados insatisfeitos.
QUESTÕES PARA REFLEXÃO
1. Com base nas sistematizações e indicações do texto sobre a ofen-
siva da extrema direita mundial, identifique nas mídias (jornal, TV, blogs,
redes, revistas) propostas e afirmações da extrema direita e relacione-as
com aspectos abordados no texto. Importante observar suas vinculações
com o neoliberalismo e os argumentos morais porventura existentes.
2. Com base na observação de fatos recentes, tais como eleições
parlamentares, identifique aspectos da realidade que informam ou su-
põem o uso instrumental da democracia pelas classes dominantes.
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
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CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
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JORNAL DA USP. Ascensão da extrema direita no mundo reflete crise
da democracia. DISPONÍVEL EM [Link]
da-extrema-direita-no-mundo-reflete-crise-da-democracia/
TEMPERO DRAG. Rita Von Hunty . [Link]
TemperoDrag
AULA 2 | Crise da democracia burguesa e avanço mundial da extrema direita
>> Ana Elizabete Mota > 69 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
Filmes
“A Democracia Resiste”. Julia Duailibe e Rafael Norton. Globoplay, 2024
“Decodificando a Extrema Direita”. Michel Gherman. Youtube, 2024 Em
[Link]
“The Rise of the Nazis”. Série documental, BBC, Youtube, 2019-2023 Em
[Link]
“Democracia em Vertigem”. Petra Costa, Netflix, 2019
“White Right: Meeting the Enemy”. Entrevistas da jornalista Deeyah Khan
com líderes neonazistas e nacionalistas brancos nos EUA e Europa, Netflix, 2017
“A Onda” (Die Welle). Amazon Prime Video, 2008
“Olga”. Jayme Monjardim. Prime Video, 2004
“O Ovo da Serpente”. Ingmar Bergman, Youtube, 1977. Em [Link]
[Link]/watch?v=nIl9eI7l7zo
“Novecento (1900)”. Bernardo Bertolucci. Prime Video, 1976
“Amarcord”. Frederico Felini. HBO Max, 1973
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<< DISCIPLINA 1 >>
TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO
CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
<< AULA 3 >>
Impactos ideopolíticos da
crise na organização
dos movimentos populares e
nos projetos societários
<< Marcelo Braz >>
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IMPACTOS IDEOPOLÍTICOS DA CRISE NA
ORGANIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS POPULARES E
NOS PROJETOS SOCIETÁRIOS
Marcelo Braz
A DINÂMICA DA CRISE, A DECADÊNCIA IDEOLÓGICA BURGUESA E
A BARBÁRIE CONTEMPORÂNEA
É a dinâmica da crise que engendra determinados impactos que in-
fluenciarão os rumos dos projetos societários e, a partir deles, das organiza-
ções políticas ligadas aos segmentos populares. Sendo a crise o determinan-
te, é preciso retomar o debate sobre ela.
Para tanto, consideramos os seguintes pressupostos: a) o modo de
produção capitalista, desde a vigência de seu derradeiro estágio monopolis-
ta, alcançou seu pleno desenvolvimento que não mais oferece possibilida-
des civilizatórias e vem aprofundando a sua contradição central fundada no
choque entre as relações sociais de produção (que têm a ver com o regime
de propriedade dos meios de produção fundamentais e da riqueza social-
mente produzida) e o desenvolvimento das forças produtivas - que resulta
de processos de trabalho que põem em ação a força de trabalho (que é a
força produtiva ativa) e os meios de produção fundamentais (os meios de
trabalho e o objeto de trabalho). O aprofundamento da apropriação priva-
da dos meios de produção e da riqueza social tem travado cada vez mais
o desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, especialmente em
seu sentido civilizatório; b) a natureza tardo-periférica (própria de um de-
senvolvimento tardio na periferia do capitalismo) do Brasil não coloca ne-
nhum óbice ao desenvolvimento dos traços deletérios do capitalismo entre
nós, antes os potencializa, pois que se combinam com as heranças arcaicas
- oriundas do passado colonial, da escravização do trabalho, da prevalência
de classes dominantes retrógradas - que persistem no país; c) vivemos uma
quadra contrarrevolucionária que se expressa na dificuldade de expansão de
AULA 3 | Impactos ideopolíticos da crise na organização
dos movimentos populares e nos projetos societários >> Marcelo Braz > 73 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
um projeto societário alternativo capaz de alcançar as massas trabalhadoras,
ainda que as lutas de classes continuem a produzir, não sem dificuldades,
novas formas de organização política dos variados segmentos que compõem
a diversa classe trabalhadora. Este último pressuposto, por conta do tema
deste texto, é de suma importância para nós.
É absolutamente imperioso que recuperemos, aqui, um aspecto cen-
tral que está presente no debate sobre a crise, por ser ele um eixo fundamen-
tal para as nossas pretensões. Ele diz respeito ao caráter da atual crise. A sua
relevância se deve ao fato de não estarmos diante de apenas mais uma crise,
uma vez que suas consequências não são meramente conjunturais e seus
impactos, que não se limitam a aspectos ideopolíticos, alcançam o conjunto
da vida social.
Estamos a viver uma crise insuperável, como bem definiu o francês
François Chesnais (2003). Isso significa dizer que o capital já não consegue
mais encontrar mecanismos capazes de afastar os vetores principais que
vêm reiterando, desde os anos 1970, as conjunturas de crise, intervaladas por
espasmos de crescimento. Tal quadro tem acentuado o caráter destrutivo da
produção capitalista, de modo que o metabolismo social, comandado pelas
forças do capital, faz predominar, de uma maneira incomparável, tendências
altamente destruidoras da exploração da natureza, que concorrem até mes-
mo para criar sérios obstáculos à própria reprodução da vida social.
Esgotaram-se os mecanismos estruturais de autorregulação do sis-
tema sócio metabólico do capital, uma vez que o caráter permanente da
crise sobressai em detrimento da sua forma cíclica de se expressar, o que
vem conferindo à crise um caráter estrutural e rastejante, como denominou
Mészáros (2002). É por isso que a atual crise é também uma crise civilizatória
que aponta para uma profunda decadência generalizada, e não apenas ideo-
lógica, da ordem burguesa, o que significa dizer que a barbárie é a resultante
do capitalismo contemporâneo. Mas como vem ocorrendo a barbarização da
vida social em nossos tempos?
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Ela se expressa nas guerras entre países dominantes em torno da
partilha territorial e econômica do mundo e nas agressões bélicas realizadas
pelas grandes potências imperialistas, que atentam contra a autodetermina-
ção dos povos e a soberania de diversas nações; no fortalecimento de medi-
das que edificam, em lugar de um Estado de bem estar social, uma espécie
de “Estado Penal” (Wacquant, 1999) que se viabiliza por meio de uma guerra
civil, aberta ou velada, que marca os grandes centros urbanos, cujas popula-
ções são vitimadas e enganadas por argumentos em torno da segurança “pú-
blica”, por políticas de militarização crescente da vida social, que ampliam as
forças policiais e criando um mercado de segurança privada cujos negócios
são altamente lucrativos. Em meio a esse estado de guerra permanente, cres-
ce o encarceramento das chamadas “classes perigosas”, quer dizer, daqueles
contingentes que formam as colunas do exército industrial de reserva, que
vivem o desemprego recorrente, a precarização dos meios de vida, a ruptura
dos vínculos de sociabilidade, o que, no Brasil, envolve principalmente ho-
mens e mulheres negros e pardos. Entre eles, os mais jovens, que são objeto
de políticas de extermínio por parte das chamadas forças de “segurança”.
A barbárie se verifica também, como já foi dito, na produção destru-
tiva que exaure os recursos naturais e altera perigosamente o funcionamento
metabólico da natureza, o que tem se evidenciado nas profundas alterações
climáticas, na crise energética, nas dificuldades de acessar recursos hídricos,
entre outros fatores. Não está em jogo “apenas” o meio ambiente, e não se
trata meramente de um problema ecológico. Trata-se mesmo de um cenário
em que a humanidade, sob o comando do capital, se vê diante da possibili-
dade real de extinção das condições naturais que viabilizam a sua existência.
Também se pode notar a barbarização da vida social ao olhar a obscena con-
centração de riqueza que caracteriza a contemporaneidade, cujo resultado é
a manutenção de extremas assimetrias sociais, especialmente no Brasil: um
verdadeiro “monumento à desigualdade social”, como disse o grande histo-
riador Eric Hobsbawm em visita ao nosso país.
Esse aprofundamento das assimetrias sociais, que indicam o agra-
vamento da “questão social” no capitalismo contemporâneo, se relaciona di-
AULA 3 | Impactos ideopolíticos da crise na organização
dos movimentos populares e nos projetos societários >> Marcelo Braz > 75 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
retamente à chamada lei geral da acumulação capitalista, por meio da qual
se verifica a polarização social que a caracteriza: a expansão da produção e
da acumulação da riqueza em um polo (o do capital) resulta na expansão da
pobreza no outro polo (o do trabalho). Esse quadro, que é a resultante inva-
riável do desenvolvimento capitalista, agudiza-se. Por isso, falamos no recru-
descimento da “questão social” que vem sendo objeto de um padrão de in-
tervenção, predominante na atualidade, pautado pelas políticas neoliberais.
Por meio delas, combinam-se a redução das funções coesivas do Estado com
a criminalização da pobreza, associação que tem acionado diretrizes como:
a restrição do alcance das políticas sociais, limitando-as à assistência social;
a criação de mensuradores de “vulnerabilidades” que levam à adoção de me-
didas de focalização nos mais pobres; a transferência de responsabilidades
estatais para a sociedade civil e, até mesmo, para as famílias, configurando
uma tendência conservadora que vem sendo chamada de familismo; a “ex-
propriação de direitos”, como vem sendo denominado por alguns estudiosos;
entre outros expedientes.
São muitas as evidências da barbárie provocada pelo modo de pro-
dução capitalista. Apontamos acima apenas algumas delas que, se não con-
sideradas, tornarão inepto qualquer esforço analítico como o que tentamos
aqui para pensar os impactos ideopolíticos na organização de movimentos
sociais e nos projetos societários. Isso porque, quando falamos de crise, de
decadência ideológica burguesa e de barbárie, é de um projeto de sociedade
que estamos tratando. E é de condições objetivas que impactam os rumos de
qualquer organização política que estamos a pensar.
E é por isso que a crise atual não é mais apenas uma crise, justamen-
te pelo aprofundamento desses traços característicos que a constituem e
marcam a contemporaneidade. Eles estão na base das dificuldades para a es-
truturação de projetos societários que apontem para a emancipação huma-
na, por meio de organizações políticas que canalizem as demandas sociais
nesse sentido, e dotem os movimentos sociais e populares de uma direção
social transformadora. É a partir da consideração do peso dos elementos que
estão no cerne dos nossos tempos que poderemos ter um melhor entendi-
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
mento dos impactos ideopolíticos da crise na organização política da classe
trabalhadora, como propõe o tema do nosso texto.
A estes traços constitutivos do capitalismo contemporâneo so-
mam-se os limites que as forças políticas vinculadas aos interesses sociais
da classe trabalhadora encontram para enfrentar as tendências da barbá-
rie capitalista, que têm a ver com a dificuldade de se estruturar um projeto
societário alternativo que seja capaz de mobilizar as massas trabalhadoras.
Vivemos um tempo histórico bastante adverso desde os anos 1990, quando
se deu a dissolução das experiências socialistas do século XX, o que criou as
condições subjetivas para a difusão de uma hegemonia incomparável das
forças do capital, estabelecendo uma onda longa contrarrevolucionária. Em
sua base, reproduzem-se valores antissociais que cimentam aquela hegemo-
nia: as tendências irracionalistas; o individualismo; a meritocracia; as inú-
meras formas de intolerância e de preconceito; as variadas modalidades de
violência contra a vida, potencial ou declarada; o predomínio de formas de
sociabilidade virtual em detrimento de vivências coletivas reais e efetivas.
Essa ambiência ideocultural profundamente desumanizadora res-
tringe as possibilidades e as capacidades humano-sociais que nos particula-
rizam, promovendo verdadeiras regressões do ser social que nos compõe. A
ela soma-se a cultura pós-moderna própria do capitalismo contemporâneo,
que valoriza o presentismo contra a história, a efemeridade contra o dura-
douro, o relativismo em detrimento da verdade, as micronarrativas em lugar
das grandes narrativas. E é esse caldo de cultura que alimenta, no mundo
contemporâneo, inclusive no Brasil, o desprezo ou mesmo o falseamento da
história; o apego à fugacidade e ao transitório que leva ao menosprezo dos
projetos coletivos de longo alcance, a descrença na verdade e no conheci-
mento científico, ao mesmo tempo em que se promovem a mentira, as falsas
notícias e o ódio à ciência.
Não é à toa que esse ambiente tem favorecido os grupos de extre-
ma-direita e alimentado até mesmo o ressurgimento de movimentos fas-
cistas e nazistas em todo o mundo. A eles voltaremos no final do texto. Por
AULA 3 | Impactos ideopolíticos da crise na organização
dos movimentos populares e nos projetos societários >> Marcelo Braz > 77 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
ora, é mais importante avançarmos no entendimento do capitalismo con-
temporâneo no sentido de identificar como a reorganização dos processos
produtivos contemporâneos impactou o ser concreto da classe trabalhadora.
AS MUDANÇAS NOS PROCESSOS PRODUTIVOS DO CAPITAL E
OS IMPACTOS IDEOPOLÍTICOS NAS FORMAS DE ORGANIZAÇÃO
POLÍTICA DAS MASSAS TRABALHADORAS
A história do capitalismo até aqui é também a história das formas
de organização política da classe trabalhadora ou, se quisermos, é um capí-
tulo da história das lutas de classes. Elas assumiram formas específicas de
acordo com os momentos históricos em que surgiram, sempre expressando
respostas políticas dos trabalhadores ao jugo da exploração capitalista, em
um movimento em que a classe deixa de ser apenas uma classe explorada
pelo capital (classe-em-si) e passa, após um processo que envolve a constru-
ção de formas de consciência de classe, a ter uma existência como classe-pa-
ra-si. E não é diferente na contemporaneidade em que os trabalhadores se
deparam com estratégias capitalistas que os prejudicam imensamente.
As consequências econômicas decorrentes da crise atual fazem com
que os capitalistas adotem estratégias produtivas que impactam drastica-
mente os trabalhadores ao reorganizar os padrões de produção vigentes e
modificar processos de trabalho. As medidas adotadas alteraram profunda-
mente o ser da classe trabalhadora, fragmentando-a e gerando inúmeras
consequências para as suas formas de organização política. Esse processo,
iniciado nos anos 1970 e intensificado a partir dos anos 2000, tem a ver como
uma profunda reestruturação produtiva do capital. A base eletromecânica,
que vigorou no período fordista-taylorista ao longo do século XX, foi cedendo
lugar gradualmente a sofisticados mecanismos eletroeletrônicos. Posterior-
mente, em um salto tecnológico mais recente, esses mecanismos passaram a
conviver com inovações informacionais e comunicacionais, conduzindo-nos
ao que alguns especialistas denominam de capitalismo digital.
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
Não podemos, no espaço de poucas páginas, ir além de alguns apon-
tamentos sobre os vetores que vêm redirecionando a estrutura produtiva e,
assim, reconfigurando o capitalismo atual. Nossa tarefa é discutir como eles
modificam a morfologia da classe trabalhadora e, a partir dela, discutir as
principais consequências (“os impactos...”) postas ao movimento organizado
da classe trabalhadora, expresso em variados tipos de movimentos sociais
e populares. É o que veremos a seguir, tentando pensar o presente com os
olhos atentos ao retrovisor da história, para que sejamos capazes de, pelo
menos, antecipar alguns caminhos do futuro.
Até a primeira metade do século XIX, os trabalhadores, ainda que já
estivessem diante dos avanços típicos da grande indústria capitalista (a in-
dústria moderna), conseguiam manter conhecimentos laborais que vinham
das variadas formas de trabalho artesanal que antecederam ao modo de
produção capitalista. Nesse momento, em que a classe trabalhadora já não
tinha mais alternativa a não ser vender a sua força de trabalho ao capitalista
em troca de salário, ainda se preservavam, entre as massas laboriosas, boa
parte dos conhecimentos voltados para o desenvolvimento da produção, de
modo que a etapa de concepção/elaboração/planejamento do processo de
trabalho não se separava inteiramente da sua execução. É por isso que a
subsunção (uma forma de submissão) do trabalho ao capital, que já estava
posta, ainda não se completara, limitando-se a uma subsunção formal.
Somente quando a grande indústria se consolidou e, em sua base,
se difundiu a introdução da maquinofatura como forma dominante da pro-
dução capitalista, é que se observou o inteiro domínio do capital sobre os
trabalhadores, cujos conhecimentos se dissolveram sob a hegemonia das
chamadas máquinas-ferramenta, introduzidas no espaço fabril. Em larga
medida, elas passaram a reproduzir (e substituir) os movimentos que antes
eram operados pelo trabalho vivo. Nesse momento, já na entrada da segun-
da metade do século XIX, a submissão é completa e o trabalhador vira um
apêndice da máquina, dando-se, então, o que chamamos de subsunção real.
O que temos na contemporaneidade é uma ampliação radical dessa forma
de subsunção, muito mais profunda do que aquela que se desenvolveu no
AULA 3 | Impactos ideopolíticos da crise na organização
dos movimentos populares e nos projetos societários >> Marcelo Braz > 79 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
século XIX e avançou, instaurando novas formas para o século XX. Desde o
final deste século até hoje, presenciamos um inteiro domínio do capital sobre
o trabalho, o que tem provocado impactos ideopolíticos na organização das
lutas sociais.
Tal processo não ocorreu sem embates. Ao contrário, ele se desen-
volveu como desdobramento das relações antagônicas entre capital e traba-
lho. E não é apenas a classe trabalhadora que reage a seu oponente. Os ca-
pitalistas também o fazem, incrementando novos mecanismos de controle
da força de trabalho e introduzindo novas tecnologias que se materializam
em forma de sofisticados equipamentos, máquinas inteligentes, robôs, entre
outros meios de trabalho que funcionam à base de comandos eletrônicos
e/ou informacionais, todos eles poupadores de trabalho vivo que tendem a
reforçar o processo de subsunção real do trabalho ao capital. É importante
lembrar que os avanços tecnológicos são fortemente impulsionados pela ne-
cessidade que tem o capital de dar respostas políticas às reivindicações ope-
rárias. Isso quer dizer que as lutas de classes funcionam como um dínamo
dos avanços tecnológicos do capital, confirmando uma reflexão d’O Capital,
no qual o seu autor, após analisar séries históricas para testar suas hipóteses,
notou que a cada nova greve os capitalistas saíam com uma nova máquina.
As estratégias atuais adotadas pelo capital resultaram num declínio
do movimento operário tradicional em todo o mundo, principalmente na-
queles países que conheceram processos de industrialização mais robustos,
inclusive os de desenvolvimento tardio, como é o caso brasileiro. Tal declínio
pode ser observado por meio de vários indicadores, tais como: a diminuição
do número de greves e a baixa adesão a elas quando deflagradas; o rebaixa-
mento das taxas de sindicalização dos trabalhadores; o envelhecimento e a
não renovação de lideranças operárias; a despolitização dos novos trabalha-
dores que se expressa em desmobilização e desinteresse pelas organizações
de classe, especialmente pelos partidos políticos. Em decorrência dessa cons-
tatação, nota-se que as tentativas do movimento operário-sindical voltadas
para a mobilização da classe têm se mostrado ineficazes, denotando uma
ineficiência dos métodos e dos modelos de organização política adotados.
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
É por isso que analistas têm se debruçado, nas últimas décadas, so-
bre a compreensão das novas lutas que assinalam um crescimento indiscu-
tível de “novos sujeitos” portadores de inúmeros interesses sociais. Em torno
dessa realidade surgiram ideias muito problemáticas dedicadas à sua com-
preensão, muitas delas pondo em dúvida a centralidade da classe como ele-
mento universalizador das lutas sociais, ou seja, como aquele capaz de criar
uma convergência ou uma unidade ideológica em torno da exploração a que
está sujeita a imensa maioria na sociedade capitalista que, não dispondo dos
meios de produção fundamentais, é compelida a vender sua força de traba-
lho em troca de um salário.
Entre nós, coube ao sociólogo brasileiro Ricardo Antunes o papel de
rechaçar essas ideias com base em evidências científicas colhidas por amplas
pesquisas desenvolvidas nas últimas décadas. De modo geral, apoiado pela
teoria social marxiana, especialmente numa ontologia do ser social, Antu-
nes nos mostra que o trabalho continua sendo o núcleo central da atividade
humana, a partir do qual se dão as possibilidades de desenvolvimento do ser
social, historicamente determinadas pelas condições postas pelo regime de
propriedade dos meios de produção fundamentais em cada sociedade. As
profundas alterações do modo de produção capitalista modificaram as fun-
ções técnicas do processo de trabalho, adicionando novos elementos para
pensar as formas de exploração do trabalho e de extração da mais-valia, mas
não são capazes de mudar a centralidade ontológica do trabalho para o ser
social.
A expansão do complexo “maquínico-informacional-digital” (Antu-
nes, 2020, p. 9) alcança a indústria, os serviços e a produção agroindustrial,
impactando as formas de produção e as relações de trabalho. As tecnologias
de informação e de comunicação (TIC) estão presentes em variados negócios
capitalistas que passam a se desenvolver por meio de plataformas digitais
e aplicativos que abrangem “os serviços em geral (telemarketing e call-cen-
ter, educação, bancos, hipermercados e atividades de fast-food); a indústria
(com destaque para a automobilística) e a agroindústria (extração mineral)”
(p. 10). Disso decorrem diversos tipos de trabalho precarizado (terceirizado,
AULA 3 | Impactos ideopolíticos da crise na organização
dos movimentos populares e nos projetos societários >> Marcelo Braz > 81 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
informal e flexível), que se expandem por meio da “uberização” e de formas
de trabalho intermitente, estabelecendo uma relação do trabalhador com
as empresas predominantemente de prestação de serviços em que impera a
desproteção social.
Por outro lado, a expansão das tecnologias informacionais e digitais
vem apontando para o desenvolvimento da chamada indústria 4.0 que deve-
rá ocasionar “processos produtivos ainda mais automatizados e robotizados
em toda a cadeia de valor, de modo que a logística empresarial será toda
controlada digitalmente”. Disso resultará a ampliação do trabalho morto por
meio do “maquinário digital – a internet das coisas, a inteligência artificial, a
impressora 3D, o big data etc.(...)” e a “consequente redução do trabalho vivo”
(Antunes, p. 13-14). Além disso, a expulsão da força de trabalho dos processos
produtivos continuará a engrossar as fileiras do exército industrial de reserva,
especialmente a sua camada estagnada. Ela se compõe de trabalhadores que
vivem um afastamento mais duradouro dos processos produtivos, que estão
mais permanentemente na instabilidade e que, muito eventualmente, con-
seguem retomar vínculos empregatícios, tornando-se uma massa sobrante
da força de trabalho que busca meios de vida informais e precários, inclusive
os que envolvem a falácia do empreendedorismo. As consequências sociais
dessas mutações são imensas. Para além delas, vamos agora nos deter sobre
as suas consequências ideopolíticas.
Há uma questão envolvendo um desenvolvimento de novo tipo das
forças produtivas que passariam a ser impulsionadas por modificações técni-
cas que alargam e diversificam as formas de trabalho intelectual. Entre elas,
verifica-se a expansão de determinados tipos de “trabalho imaterial” pró-
prios ao chamado capitalismo digital. Esse quadro tornaria a classe operária
um segmento condenado ao encolhimento crescente, o que levaria, conse-
quentemente, à perda de sua centralidade política que supostamente teria
se deslocado para outros estratos de trabalhadores. O debate aqui está no
problema da identificação do sujeito histórico da revolução.
Já no tempo de Marx, no século XIX, a grande indústria capitalista
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
havia se desenvolvido extraordinariamente. Em um dos capítulos do Livro
I d’ O Capital (precisamente o capítulo XIII), o pensador alemão demonstra
a enorme capacidade produtiva da moderna indústria capitalista, garanti-
da pelos formidáveis progressos técnico-científicos e tecnológicos, em que
se identifica a tendência inerente ao desenvolvimento industrial capitalista
de expandir o trabalho social por meio de mecanismos que combinam for-
mas de trabalho manual com trabalho intelectual. Assim, ele nos mostra
que na complexa divisão social do trabalho, típica da era da maquinofatura,
a produção de mercadorias passou a se realizar por meio de um trabalho
social combinado, que criou a figura do que Marx denominou trabalhador
coletivo da grande indústria, que é para nós uma categoria analítica muito
importante.
Ora, não restam dúvidas de que esse tipo de expansão da produção
mercantil, que tem como suporte um trabalho social combinado, se encon-
tra hoje muitíssimo mais complexificada. Diante dessa complexificação a
função do sujeito revolucionário ainda caberia à classe operária atuante no
chão da fábrica e diretamente envolvida com a produção material ou envol-
veria, além dela, os trabalhadores dos laboratórios e centros de pesquisa das
empresas capitalistas, ou seja, o trabalhador coletivo da grande indústria?
A tendência atual de desterritorialização da produção industrial capitalista
cria uma grande fábrica mundial. No âmbito dessa imensa fábrica global,
quais setores produtivos podem desempenhar o papel político de sujeito
histórico da revolução? Essas são questões pelas quais se bate boa parte da
intelectualidade crítica do capitalismo. Sobre elas há poucas respostas con-
clusivas e muitas polêmicas que não cabem no espaço deste texto.
Um outro problema diz respeito às formas atuais de extração da
mais-valia. Se no tempo de Marx já se podia notar que a prevalência da for-
ma absoluta dava lugar, com o incremento tecnológico, à forma relativa, no
capitalismo contemporâneo percebe-se uma maior tendência de combina-
ção das duas formas, inclusive nos países mais desenvolvidos. A tendência
de precarização do trabalho criou um amplo segmento de trabalhadores
que vivem em condições bastante adversas, marcadas por vínculos temporá-
AULA 3 | Impactos ideopolíticos da crise na organização
dos movimentos populares e nos projetos societários >> Marcelo Braz > 83 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
rios, parciais e instáveis. Esse amplo estrato de trabalho precário – maior ou
menor, a depender do grau de adesão dos governos às políticas neoliberais
hegemônicas no mundo burguês – compõe parte considerável do exército
industrial de reserva contemporâneo, precisamente a sua camada flutuante.
Isso significa que o movimento operário-sindical tende a seguir uma postura
mais recuada e está mais sujeito a ser cooptado, justamente por se encontrar
diante de uma realidade que coloca os trabalhadores na defensiva porque os
divide e fragmenta, dificultando a construção da pertença de classe.
A FRAGMENTAÇÃO DA CLASSE, OS IMPASSES POSTOS À
ORGANIZAÇÃO POLÍTICA DOS TRABALHADORES E OS
MOVIMENTOS SOCIAIS
Em meio ao debate que o tema suscita, reafirmamos o que já dissemos
ao longo dessas páginas. A classe trabalhadora se diversificou e as lutas sociais,
de fato, extrapolaram bastante o espaço fabril. Ainda que a classe operária con-
tinue tendo papel central, o palco das lutas de classes se tornou mais amplo,
alcançando os variados espaços para além daqueles ligados à esfera produti-
va, abrangendo, inclusive, os que dizem respeito à própria reprodução social da
força de trabalho, o que compreende demandas ligadas às necessidades sociais
as mais diversas, tais como saúde, educação, transporte, saneamento etc. Des-
se universo, que se amplia no capitalismo contemporâneo desde os anos 1970,
multiplicaram-se movimentos sociais que passaram a representar as reivindica-
ções que dali surgiram. Não à toa, uma cientista social brasileira (Doimo, 1995)
identificou em seus estudos, nos anos 1990, a designação de mais de uma dezena
de conceitos atribuídos a essas novas lutas sociais no Brasil. Elas foram concei-
tualizadas por denominações como “novos movimentos sociais”, “movimentos
sociais urbanos”, “movimentos populares urbanos”, “movimentos populares” (tal
como aparece no título de nosso texto), entre outros.
O reconhecimento de variados sujeitos coletivos no âmbito das lu-
tas sociais expressa uma diversidade de demandas sociais inerentes à socia-
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bilidade capitalista, indicando o florescer de novas particularidades sociais
que se organizam e buscam afirmação política. Por outro lado, como vimos,
essa tendência resulta também numa fragmentação das lutas que dificulta,
sobremaneira, a tarefa da constituição de instâncias mediadoras de caráter
universalizante – tarefa que, historicamente, sempre coube aos partidos po-
líticos. Ou seja, complexificou-se o desafio de enlaçar cada uma das deman-
das, postas por cada um dos novos sujeitos coletivos, a uma universalidade
concreta que a todos determina.
Por outro lado, a centralidade da classe deve ser pensada em articu-
lação com outros determinantes que variam segundo as realidades nacio-
nais. No Brasil, por exemplo, o determinante de classe se articula, indelevel-
mente, à questão racial que marcou, historicamente, a estrutura de classes
no país. E, em todo o mundo, não se pode avançar na análise das lutas de
classes se não se vincular a elas o patriarcado que particulariza, também his-
toricamente, as formas de exploração das mulheres na sociedade capitalista.
No capitalismo, esse universal-concreto que a todos enlaça é dado
pela classe social. Nesta sociedade, a despeito de uma miríade enorme de su-
jeitos sociais, de segmentos e de camadas de classes, continuará sempre pre-
valecendo a existência de duas classes fundamentais a partir das quais todos
estes segmentos orbitam: a classe trabalhadora (que é a classe explorada) e
a classe dos capitalistas (a burguesia, que é a classe exploradora, proprietária
dos meios de produção). Se o antagonismo de classe, que é a principal mola
propulsora das lutas sociais, for ladeado ou mesmo apagado de nossas aná-
lises, o resultado será o relativismo teórico que é incapaz de identificar os
vetores determinantes que dinamizam os movimentos sociais.
O desafio diante da imensa fragmentação contemporânea consiste
na criação de novas formas de organização política que atuem como ele-
mentos de mediação capazes de atuar no universo dos vários sujeitos e suas
lutas sociais no sentido de desfragmentá-las. Tal tarefa é necessária para se
alcançar a síntese fundamental entre as diversas demandas sociais, ou seja,
a mediação universal, possível apenas aos partidos políticos.
AULA 3 | Impactos ideopolíticos da crise na organização
dos movimentos populares e nos projetos societários >> Marcelo Braz > 85 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
As transformações societárias do capitalismo contemporâneo di-
ficultam imensamente esse caminho. Mas é certo que apenas os partidos,
como instrumentos políticos da classe trabalhadora, podem realizar a me-
diação universal, desde que sejam capazes de empalmar projetos societários
que, como vimos, encontram muitas dificuldades de serem estruturados na
atualidade marcada por um momento histórico de crise estrutural e de de-
cadência ideológica burguesa.
Na atual quadra histórica que examinamos, surgiram movimentos
sociais de novo tipo que tinham em comum, justamente, uma dificuldade
para conectar as bandeiras que levantavam com as questões mais amplas
pertinentes às realidades nacionais em que atuavam. Alguns deles, que se
expandiram nos anos 2010, chegavam mesmo a recusar essa ampliação das
pautas, rechaçando a presença de partidos políticos em seus atos políticos e
enaltecendo o que, supostamente, seriam formas de exercício de democracia
direta em que se prescindiam de elementos de mediação e da escolha de re-
presentantes que pudessem atuar como dirigentes do movimento, revelando
características políticas pretensamente anárquicas.
O exemplo notório desse tipo de movimento social se deu em 2011,
nos EUA, onde se deram mobilizações políticas contra o mercado, tendo
como epicentro o distrito financeiro de Manhattan, e ficaram conhecidas
como Occupy Wall Street. O “modelo” que ali se desenvolveu repercutiu em
efêmeras manifestações em outros países, como o movimento 15-M ou Indig-
nados na Espanha, em 2013, envolvendo, quase sempre, jovens de camadas
médias urbanas. Seus desdobramentos naquela conjuntura acabaram por se
resumir a uma espécie de “movimentismo” em que o movimento parecia ser
tudo e pouco importava a inexistência de um objetivo final. Tais caracterís-
ticas também foram notadas nas chamadas Jornadas de Junho ocorridas no
Brasil, também em 2013.
A pauta do transporte público foi a fagulha que incendiou o Brasil
naquele junho de 2013, culminando em massivos movimentos de rua que se
repetiram por semanas. Ali se notou claramente a ausência de uma força po-
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
lítica capaz de superar o espontaneísmo que produziu aquelas mobilizações
políticas e, mais importante, que fosse capaz de dirigir os rumos das manifes-
tações que acabaram sendo objeto da manipulação de movimentos conser-
vadores, francamente apoiados pelos monopólios dos meios de comunicação
dominantes no país. Ou seja, aquelas jornadas careceram da atuação de uma
instância de caráter universalizante que, valendo-se de um projeto societário
alternativo ao do capital, pudesse elevar politicamente aquelas lutas.
E foi a partir daquelas agitações políticas de 2013 que o Brasil pas-
sou a conviver com a ascensão de forças políticas conservadoras de variados
tipos, inclusive as de orientação fascista e nazista que se organizam em gru-
pelhos ligados à extrema-direita. Suas reivindicações se ligam à defesa dos
valores retrógrados em todos os níveis, tais como ataques à Constituição -
exatamente o documento que nos levou a melhorias sociais -, pautas homo-
fóbicas, xenófobas, misóginas e racistas (como a proposta que quer acabar
com as cotas raciais nas universidades), posições contrárias à diversidade, tal
como, inclusive, vêm se dando neste momento nos EUA. A principal forma
de difusão de suas propostas passa pelas redes sociais por meio das quais
propagam, inclusive, inverdades de todo tipo, negacionismo anticientífico
e deturpação da história, especialmente quando se referem à ditadura que
vigorou no Brasil entre 1964 e 1985. Estimulam movimentos, inclusive de na-
tureza golpista, que ameaçam a democracia e defendem, justamente, a volta
da ditadura que, como todos sabem, além de violar direitos, do arbítrio como
regra, da repressão e do terrorismo de Estado como política, praticou seques-
tros, torturas, assassinatos (quase todos sem punição até hoje), dos quais é
exemplar o caso do deputado Rubens Paiva que repercutiu muito recente-
mente por conta do premiado filme “Ainda estou aqui”. Morto pelos facíno-
ras da ditadura, com a aquiescência da cúpula militar que ocupava o poder
central em Brasília, sua família até hoje sequer pôde velar o seu corpo que
entrou na lista das centenas de desaparecimentos promovidos pelo violento
regime ditatorial que, além da violência, aprofundou a desigualdade social.
Este quadro político em que as forças retrógradas da extrema-di-
reita são capazes de influenciar os rumos do país, tendo inclusive ocupado
AULA 3 | Impactos ideopolíticos da crise na organização
dos movimentos populares e nos projetos societários >> Marcelo Braz > 87 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
a Presidência da República entre 2019 e 2023 - período em que a pandemia
mundial levou a óbito mais de 700 mil brasileiros e brasileiras vitimados pelo
coronavírus, boa parte das mortes evitáveis não fosse a negligência do go-
verno Bolsonaro –, tem se alimentado de uma conjuntura mundial que tem
favorecido o aparecimento de lideranças nesse campo político mais conser-
vador. São líderes políticos – como Marine Le Pen na França, Viktor Orbán
na Hungria, Meloni na Itália, Milei na Argentina e, especialmente, Trump
nos EUA, entre outros – que navegam justamente na crise estrutural e na
decadência que marcam a ordem burguesa contemporânea. Difundem pro-
postas xenófobas que atraem trabalhadores arruinados pela crise, que aca-
bam sendo cooptados por um discurso chauvinista, falsamente patriótico,
que promove o ódio e a intolerância como políticas.
Apesar dessas excrescências, que expressam, na verdade, graves
ameaças à democracia, o movimento organizado da classe trabalhadora
continua a produzir lutas sociais das mais diversas e em todos os espaços da
vida social, dos quais é exemplo muito recente o movimento contra a escala
6x1. Ele abrange um contingente enorme de trabalhadores que atuam nos
serviços e no comércio que são objeto de jornadas de trabalho extensas que
avançam por finais de semana e feriados, tendo como contrapartida apenas
um dia de descanso semanal, quase nunca no sábado ou no domingo. Des-
taque-se, também, a força que a luta antirracista passou a ter entre nós, co-
locando em relevo tema candente que marca a história do Brasil. Ou, ainda,
a revitalização do movimento feminista que, em suas variadas expressões,
vem dando vazão às reivindicações da luta das mulheres brasileiras contra o
patriarcado, suas expressões misóginas e suas dolorosas formas de violência.
Entre tantos, estes são alguns bons exemplos que nos mostram a
continuidade das lutas sociais por um mundo melhor, apesar dos tempos
conservadores que ainda marcam a contemporaneidade, mas que não tar-
darão a ser superados.
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QUESTÕES PARA REFLEXÃO
1. Discuta como a crise contemporânea e as estratégias capitalistas al-
teraram o ser da classe trabalhadora.
2. A partir do que se discutiu na primeira questão, comente os princi-
pais impactos ideopolíticos postos aos projetos societários e às lutas
sociais contemporâneas.
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Marcelo Badaró Mattos. Classe trabalhadora ontem e hoje. Trilhas
da Democracia. Entrevista. Disponível em [Link]
watch?v=-bexP7z7FYI
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AULA 3 | Impactos ideopolíticos da crise na organização
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“7 Prisioneiros”. Dir. Alexandre Moratto, Brasil, 2021. Netflix
“Parasita”. Ed. Bong Joon-ho, Coréia do Sul, 2019, Globoplay
“Passámos por Cá”. Dir. Ken Loach, Inglaterra, 2019, Looke
“American Factory” (documentário). Dir. Julia Reichert, Steven Bognar,
EUA, 2019. Netflix
“Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar”. Dir. Marcelo
Gomes, Brasil, 2019. Apple TV
“Chão de Fábrica — a história do novo sindicalismo” (série documental).
Dir. Renato Tapajós e Hidalgo Romero, Brasil, 2018. TVT
“Escravidão no século XXI” (série documental). Bruno Barreto, Brasil, HBO
Vídeo bastidores, 2018.
“Requiem for the American Dream” (O Fim do Sonho Americano”.
Documentário com Noam Comsky, EUA, 2016. Prime Video.
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
“O Patrão: Radiografia de um Crime”. Dir. Sebastián Schindel, Argentina,
2015. Netflix
“Junho, o mês que abalou o Brasil”. Dir. João Wainer, Brasil, 2014. Youtube,
Amazon Prime
“Expresso do Amanhã”. Dir. Bong Joon-ho, Coréia do Sul, 2013, Mercado
Play
“O Corte”. Dir. Costa-Gavras, França, 2005, Prime Video.
“Pão e Rosas”. Dir. Ken Loach, Inglaterra, 2000. Youtube
“Eles não Usam Black-tie”. Dir. Leon Hirszman, Brasil, 1981. Globoplay
AULA 3 | Impactos ideopolíticos da crise na organização
dos movimentos populares e nos projetos societários >> Marcelo Braz > 95 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
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<< DISCIPLINA 1 >>
TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO
CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
<< AULA 4 >>
Ofensiva do capital sobre
o Estado, os direitos e as
políticas sociais
<< Ivanete Boschetti >>
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OFENSIVA DO CAPITAL SOBRE O ESTADO,
OS DIREITOS E AS POLÍTICAS SOCIAIS
Ivanete Boschetti
O mar da história é agitado. As ameaças e as
guerras havemos de atravessá-las, rompê-las ao meio,
cortando-as como uma quilha corta as ondas.
(Vladímir Maiakóvski, 1987)
INTRODUÇÃO - Direitos sociais no capitalismo: essência e resistência
O tempo presente deixará como marca, nos países capitalistas do
ocidente, um intenso processo de redução ou destruição dos direitos sociais
conquistados pela classe trabalhadora por meio de árduas lutas desde o final
do século XIX, movidas nas malhas das particularidades nacionais. Desde a
agudização da crise do capital, na viragem dos anos 1960/70, sucede-se a in-
tensificação dos processos contrarreformistas, que avançam com apetite voraz
sobre os direitos concretizados pelas políticas sociais. Não se trata, contudo,
de “meras” medidas econômicas para equilíbrios fiscais das contas públicas,
como bradam e reivindicam os tecnocratas liberais. Trata-se, efetivamente, de
uma veloz e brutal contraofensiva do capital, efetivada pelo Estado, que expro-
pria importante parcela da riqueza socialmente produzida e subjuga a classe
trabalhadora às mais draconianas formas de exploração e opressão.
O texto problematiza o sentido e tendência desses processos, com
implicações profundas para a vida de trabalhadores e trabalhadoras que só
AULA 4 | Ofensiva do capital sobre o Estado, os direitos e as políticas sociais >> Ivanete Boschetti
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
dispõem da sua força de trabalho para sobreviver. Lutar pela ampliação dos
direitos e mediar o acesso aos bens e serviços públicos (nem sempre legal-
mente reconhecidos como direitos), tão necessários à reprodução humana,
faz parte das principais demandas postas ao cotidiano profissional, mas estas
estão cada vez mais inacessíveis. Por isso, robustecer sua defesa e fortalecer
a resistência aos movimentos destrutivos requer compreender sua essência
e funcionalidade para a reprodução do capitalismo e da cidadania burguesa.
FUNDAMENTOS TEÓRICO-HISTÓRICOS DOS DIREITOS SOCIAIS NO
CAPITALISMO
A defesa intransigente dos direitos humanos, direitos civis, políticos
e sociais constitui um dos princípios basilares do Código de Ética Profissional
e das atribuições e competências estabelecidas na Lei de Regulamentação,
dois importantes pilares do nosso Projeto Ético-Político-Profissional. Ainda
que diferenciados em suas nomenclaturas e muitas vezes também em sua
operacionalização, todos os direitos são direitos humanos e assim serão aqui
abordados.
Desde a aclamada “teoria da cidadania” de Marshal (1967) - segundo
a qual a cidadania atingiu sua completude no capitalismo no século XX, com
a confluência dos direitos civis (século XVIII), políticos (XIX) e sociais (XX) – a
cidadania burguesa é ovacionada como capaz de abalar as desigualdades e
garantir a liberdade e igualdade formal na democracia capitalista. Para esta
perspectiva, a cidadania conseguiu reduzir a desigualdade de classe com a
expansão dos direitos sociais no século XX, ao estabelecer a igualdade de
status aos cidadãos de uma mesma comunidade/Estado-nação, sem jamais
ter a intenção de garantir “igualdade absoluta”.
A “cidadania marshalliana”, assim, não é e não pode ser referência
para os princípios e valores do nosso Projeto Ético-Político-Profissional. Em-
bora os diretos possam conflitar eventualmente com os interesses da acu-
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
mulação, não estabelecem com estes uma relação antagônica. Ao discutir os
direitos no capitalismo, Marx (2012) demonstrou a incompatibilidade entre
igualdade de direitos e desigualdade de classes, pois a igualdade formal dos
direitos no capitalismo é expressão do direito burguês e não reconhece a
distinção de classe, ou a aceita como algo necessário e meritório. Para Marx,
os direitos no capitalismo reconhecem homens e mulheres como cidadãos
políticos (nos termos marshallianos, adquirir status político de cidadania),
sem a necessidade de libertá-los/as das condições objetivas que obrigam a
classe trabalhadora a vender compulsoriamente sua força de trabalho para
sobreviver. Na tradição marxista, portanto, a emancipação política é o reco-
nhecimento de direitos no âmbito do Estado político, do Estado como re-
pública, sem que isso implique qualquer superação das relações capitalistas
(Marx, 2010). O autor reconhece que os direitos de cidadania no capitalismo,
ou seja, a emancipação política, são um “grande progresso” em relação às
sociedades estamentais, mas também é enfático ao afirmar que esta não é a
“forma definitiva da emancipação humana” (Marx, 2010, p. 41-42).
A essência da emancipação política é a relação entre Estado polí-
tico e sociedade burguesa, ou, em outras palavras, o reconhecimento legal/
formal dos direitos de cidadania pelo Estado no capitalismo. Na perspectiva
marxiana, a emancipação política adquire concretude a partir da dissolução
da sociedade feudal e da instituição da sociedade burguesa, quando o Estado
político se constitui como “assunto universal”, como Estado republicano real
(Marx, 2010, p. 52). A emancipação política é a superação da predominância
do direito natural, civil, individual, e o reconhecimento dos direitos políti-
cos, coletivos, de toda comunidade política pela sociedade burguesa. Esses
direitos, contudo, não libertam trabalhadores e trabalhadoras das relações
de subserviência capitalista e não são capazes de instituir a emancipação
humana. Nas palavras do próprio Marx “A emancipação política é a redução
do homem, por um lado, a membro da sociedade burguesa, a indivíduo ego-
ísta independente, e, por outro, a cidadão, a pessoa moral” (Marx, 2010, p. 54).
A emancipação humana, ao contrário, só se concretiza quando ho-
mens e mulheres se emanciparem da sociedade burguesa, quando supera-
AULA 4 | Ofensiva do capital sobre o Estado, os direitos e as políticas sociais >> Ivanete Boschetti
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
rem todas as formas de exploração e opressão. Para Daniel Bensaïd (2010, p.
87), a emancipação política em Marx não é uma etapa para a emancipação
humana, nem tampouco é irrisória ou pouco significativa. Para este autor,
Marx reconhecia o significado histórico da conquista de direitos democráti-
cos e de determinadas liberdades na sociabilidade capitalista. Contudo, tam-
bém mostra inegavelmente que a emancipação política é a única possível
nesta sociabilidade, enquanto a emancipação humana só é possível com a
superação da sociabilidade capitalista e não pode ser confundida com a ci-
dadania ou com a emancipação política.
A emancipação humana pressupõe superar os “grilhões” que sujei-
tam a classe trabalhadora ao capitalismo, a propriedade privada dos meios
de produção e a obrigatoriedade da venda de sua força de trabalho para
sobreviver. Ao se referir à emancipação humana, Mandel é taxativo: “O pré-
-requisito dessa emancipação é a conquista do poder político e a demolição
do aparelho de Estado burguês pelos produtores associados” (1982, p. 350).
Com diferenças abissais entre os países do capitalismo central e pe-
riférico, determinadas pelo desenvolvimento desigual das forças produtivas
e por suas particularidades nacionais, a emancipação política se expandiu
com o desenvolvimento do Estado Social no capitalismo (Boschetti, 2016). É
certo que o século XX, especialmente após a Grande Crise de 1929 e até me-
ados dos anos 1970, viu o Estado Social se alargar como importante vetor da
emancipação política. Esse alastramento do Estado Social, principalmente
nos espaços geopolíticos em que se realizou mais plenamente, como a Eu-
ropa ocidental, possibilitou certa distribuição horizontal de parte do fundo
público, provocou redução das desigualdades de rendimentos, permitiu o
acesso da classe trabalhadora a certos bens e serviços antes inacessíveis, mas
não a libertou das relações de exploração e opressão, portanto, de se subme-
ter aos imperativos do capital.
A história comprovou a análise de Marx e da tradição marxista,
uma vez que não será por meio dos direitos ou da emancipação política
que se alcançará a emancipação humana. Mas apreender a essência da
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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emancipação política, com seus direitos e cidadania burguesa, possibilita
perceber a natureza contraditória do Estado Social no capitalismo e deci-
frar sua constituição e funções sob condições histórico-sociais específicas.
Isso nos motiva a reconhecer que a relação entre Estado, direitos e política
social é uma relação social determinada e condicionada pelas relações ca-
pitalistas. Conforme sinaliza Pachukanis, ainda que sejam mistificados e
fetichizados como direitos igualitários, o capitalismo forjou a “mais desen-
volvida, universal e acabada mediação jurídica” (2017, p. 65), que garante
a reprodução do capital como relação social, sendo a cidadania burguesa
uma expressão dessa forma jurídica.
Nesses termos, é possível afirmar que o reconhecimento jurídico dos
direitos sociais no capitalismo e sua materialização pelo Estado Social re-
gulam formas específicas de reprodução da força de trabalho (empregada
ou não), da futura força de trabalho (caso de crianças e jovens), da força de
trabalho já exaurida pelo tempo e pela exploração (caso de idosos/as) ou das
pessoas impossibilitadas de trabalhar por diversos fatores, como doenças ou
deficiências. Os tipos, formas e alcance dos direitos realizados pelo Estado
Social, portanto, estruturam determinadas relações e formas de reprodução
social (Boschetti, 2018a).
Ainda que possa (ou queira) parecer um poder público neutro, aci-
ma das classes sociais, o Estado Social é uma dimensão constitutiva e de-
terminante da sociedade burguesa e participa, direta e indiretamente, da
reprodução ampliada do capital (Mandel,1982; Behring, 2018). Erigido no
capitalismo tardio, no contexto da democracia burguesa, a emergência e
ampliação dos direitos sociais que compõem o Estado Social não podem ser
explicadas tão somente como instrumentos de dominação e acumulação.
São também resultado de longo e secular conflito de classes, crivado por
perspectivas revolucionárias e reformistas, conforme sinalizou Marx ao se
referir à luta pela regulação da jornada de trabalho na Inglaterra: “a criação
de uma jornada normal de trabalho é, por isso, o produto de uma longa e
mais ou menos oculta guerra civil entre as classes capitalista e trabalhadora”
(Marx, 2013, p. 370).
AULA 4 | Ofensiva do capital sobre o Estado, os direitos e as políticas sociais >> Ivanete Boschetti
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
Reconhecer que a luta de classes foi e é decisiva nos processos de
conquistas de direitos regulados pelo Estado Social, como forma de “prote-
ção” às investidas do capital, contudo, não significa desconhecer seu signifi-
cado como fenômeno próprio da sociedade capitalista, nem tampouco mis-
tificar suas funções na reprodução das relações sociais, idealizando-o como
propulsor do bem-estar e da igualdade. Significa reconhecer que, sem a luta
da classe trabalhadora por direitos e melhores condições de vida, o movi-
mento do capital será sempre no sentido de restringir os direitos ao mínimo
vital para sua reprodução e acumulação. Compreender a essência dos direi-
tos sociais significa entender sua natureza contraditória, pois, por um lado,
a ampliação das legislações sociais resultou das lutas e pressões da classe
trabalhadora; por outro, também atendeu aos interesses da reprodução am-
pliada do capital e integração da força de trabalho (Mandel, 1982).
A expansão dos direitos trabalhistas e sociais, decorrente da luta
da classe trabalhadora, foi fundamental para satisfação das necessidades
humanas, a exemplo de patamares mínimos de salário, jornadas reduzidas,
férias remuneradas, aposentadorias, seguro saúde, seguro-desemprego, edu-
cação, moradia, transporte, assistência social, entre outros. Mas, ao mesmo
tempo, não existe Estado Social sem financiamento robusto, e sua expansão
impõe aumento do gasto social público e maior tributação sobre o capital,
sendo acusado de ser um “peso” para o processo de acumulação e lucrativi-
dade do capital, especialmente em períodos de crise. Ou seja, quanto mais
expandido o Estado Social, maior a necessidade de extração da mais-valia
socialmente produzida para sustentar os bens e serviços sociais - daí o fer-
renho ataque burguês, de cariz neoliberal, aos direitos sociais. O capitalismo
precisa do Estado Social para participar do processo de garantia das condi-
ções gerais de sua reprodução, mas não consegue conviver (sem crise) com
a crescente intervenção estatal. O processo de acumulação de capital busca
incessantes formas de impor limites a esse processo, o que se revela uma
contradição insolúvel na sociabilidade capitalista (Boschetti, 2016).
Para a classe trabalhadora, a luta e conquista de direitos sociais têm
o sentido de possibilitar o acesso a uma parte do valor socialmente criado
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
sob a forma de bens e serviços públicos, o que requer ampliar a “parcela do
capital total que o Estado redistribui, gasta e investe” (Mandel, 1982, p. 342).
Para o capital, o crescimento do Estado Social só faz sentido se não provocar
a queda ou redução das taxas de lucro. Trata-se de uma equação impossível
de ser assegurada sem crises, pois o crescimento da “redistribuição” horizon-
tal de rendimentos sociais por meio do Estado Social impõe a necessidade de
maior apropriação pelo Estado de frações da mais-valia e dos salários, para a
composição do fundo público.
Em contexto de agudização da crise estrutural do capitalismo (ver
textos anteriores nessa disciplina), a disputa de classe em torno das taxas de
mais-valia se torna mais explosiva e o caráter estruturalmente capitalista do
Estado Social se revela com toda a sua força. Por um lado, se desmascara a
imagem mistificadora do Estado árbitro, representante dos interesses nacio-
nais, neutro, ou produtor de bem-estar, já que suas ações revelam seu caráter
de mantenedor e reprodutor das relações de produção. Por outro, a sua exi-
gente função de garantir as condições gerais de produção remodela sua forma
de gerir e participar da reprodução da força de trabalho (e de não trabalha-
dores), por meio da restrição de sua participação na socialização dos custos e
redução da “redistribuição” horizontal de frações do trabalho excedente e do
trabalho necessário por meio das políticas sociais (Mandel, 1982; Gough, 1982).
Desde os anos 1970, as transformações no âmbito do Estado Social ca-
pitalista foram na direção de nítido processo de destruição de suas poucas ten-
dências universalistas (Boschetti, 2012). A destruição e/ou redução dos direitos
que vêm se intensificando desde então constituem uma avalanche expropria-
tória de parte do fundo público (Boschetti, 2017), antes acessado pela classe tra-
balhadora. No capitalismo periférico e dependente, especialmente na América
Latina e Caribe, em que sua participação na reprodução da força de trabalho
sempre foi mais restrita e, portanto, mais favorável ao capital, os ataques recen-
tes recolocam bárbaras formas de superexploração da força de trabalho (Carca-
nholo, 2013; Luce, 2013). A ofensiva burguesa em sua luta pela recomposição das
taxas de lucro provoca um verdadeiro processo de expropriação dos direitos, que
recoloca sob novas bases a reprodução da força de trabalho (Boschetti, 2023).
AULA 4 | Ofensiva do capital sobre o Estado, os direitos e as políticas sociais >> Ivanete Boschetti
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
CONTRAOFENSIVA DO CAPITAL E EXPROPRIAÇÃO DE DIREITOS
A crise do capital, conforme abordada nos textos anteriores do curso,
está sendo fortemente potencializada pela extrema-direita, com investidas
virulentas contra as conquistas civilizatórias que se materializaram na cida-
dania burguesa. Espraiam-se mundialmente retóricas negacionistas, xeno-
fóbicas, LGBTfóbicas, contrárias aos direitos sociais e que recusam a diver-
sidade humana. A irrupção de guerras, genocídios, deslocamentos forçados
de milhões de pessoas obrigadas a deixar suas casas impõe medo, desespe-
rança e se soma a um ataque sem precedentes às condições de vida da classe
trabalhadora, num ambiente de perseguição implacável à população pobre,
negra, LGBTQIA+ e povos originários, acusados de serem responsáveis pelos
aumentos de gastos públicos com políticas sociais. Estamos vivendo, hoje,
uma contraofensiva monstruosa do capital e da extrema-direita, por meio
do Estado, àquilo que a própria democracia burguesa instituiu como eman-
cipação política, e que expõe a profunda decadência ideológica da burguesia
(Martini; Boschetti, 2024).
Sintetizamos aqui a perspectiva que vimos desenvolvendo na última
década sobre a relação entre expropriação de direitos, contrarreformas das
políticas sociais e o papel do Estado Social capitalista na reprodução am-
pliada do capital, especialmente em um contexto de agudização da crise e
avanço da extrema-direita com traços neofascistas. Trata-se de uma relação
determinada estruturalmente pelo capitalismo em crise, mas que se concre-
tiza em particularidades nacionais, como vem se evidenciando no Brasil des-
de o golpe contra a presidenta Dilma em 2015.
Seguimos Marx (1984, p. 262), para quem “a expropriação rouba dos
trabalhadores seus meios de produção e todas as garantias de sua existência”,
e entendemos que a destruição de direitos, especialmente dos direitos sociais,
reconfigura a participação do Estado social na socialização dos custos da re-
produção da força de trabalho (e de não-trabalhadores), agindo de forma mais
contundente para garantir a acumulação de capital. Assim entendidos, os pro-
cessos expropriatórios de direitos intensificam a disponibilização de trabalha-
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
dores e trabalhadoras para a superexploração e renovam formas de acumula-
ção e extração de mais valor, a exemplo da mercantilização de políticas sociais
que asseguravam prestação de serviços e bens públicos (trabalho, previdência,
saúde, educação, moradia, lazer, entre outras). A destruição e/ou redução de
direitos (e sua mercantilização) são, portanto, processos de expropriação mas-
siva de bens coletivos, que suprimem meios comuns necessários à reprodução
da força de trabalho, o que provoca agressiva reapropriação, pelo capital, de
parte do fundo público antes destinado aos direitos conquistados pela classe
trabalhadora (Behring, 2021; Boschetti, 2017).
O Estado, ao propor, aprovar e materializar as leis que suprimem
direitos sociais, garante as ferramentas necessárias para sustentar as bases
sociais da acumulação, conforme sinalizam Fontes (2010; 2018) e Bensaïd
(2017), para quem as leis vêm se tornando os principais instrumentos de ex-
propriação, institucionalizando a violência estatal contra os direitos. Essa
violência estatal institucionalizada destrói as “barreiras sociais ao contrato
voluntário com o capital” como sinalizou Marx (2013, p. 373-374) e obriga a
classe trabalhadora a “vender a si e a suas famílias” sem nenhuma mediação
protetiva pública. Sem dispêndio público em sua reprodução, trabalhadores
e trabalhadoras obrigam-se a vender sua força de trabalho a qualquer cus-
to, sujeitando-se às mais brutais formas de exploração e, portanto, gerando
mais excedente e mais acumulação.
A redução dos sistemas públicos de seguridade social e, em decor-
rência, da expansão dos sistemas privados de saúde e previdência social, que
se sucedem desde os anos 1990, em praticamente todos os países capitalistas,
concretizam-se formas de expropriação social, por meio da “alienação dos
domínios do Estado” (Toussant, 2011), e diversos mecanismos, a exemplo:
a) a redução do fundo público nas políticas sociais e sistemas de se-
guridade social restringe a participação do Estado no processo de distribui-
ção de parcelas do excedente e do trabalho necessário e desloca importante
fração para a acumulação, por meio de pagamento de juros e amortizações
da dívida pública, ou por subvenções aos fundos de pensões públicos (regi-
AULA 4 | Ofensiva do capital sobre o Estado, os direitos e as políticas sociais >> Ivanete Boschetti
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
mes fechados de seguros administrados por Fundos de Pensões) e privados
(regimes abertos de seguros instituídos majoritariamente por bancos ou se-
guradoras privadas), além do estímulo aos planos privados de saúde, favo-
recendo a redistribuição social global da mais-valia com vantagens para um
grupo específico de capitalistas;
b) a supressão ou diminuição de direitos sociais de saúde e previdên-
cia obriga a classe trabalhadora a despender parte de seu salário com a com-
pra desses bens e serviços no mercado, operando a transformação dos direitos
em mercadorias. Opera-se aqui uma dupla subsunção do trabalho ao capital:
subtração de direitos sociais de subsistência que obriga os trabalhadores e tra-
balhadoras a disponibilizarem sua força de trabalho no mercado; e a mercan-
tilização de direitos que passam a ser mercadorias disponíveis no mercado;
c) a destruição ou redução de direitos do trabalho e outros derivados,
como aposentadoria, seguro-desemprego e seguro-saúde, reduz a participa-
ção do Estado Social na reconstituição física da força de trabalho, e obriga
a classe trabalhadora a oferecê-la no mercado a qualquer custo e em qual-
quer condição. O Estado Social reduz cada vez mais sua função de proteção
social e satisfação das necessidades sociais e intensifica sua funcionalidade
ao capital, limitado o aumento das despesas públicas pela via da restrição/
redução dos direitos, estimulando a oferta mercantil destes serviços e asse-
gurando a subsunção da classe trabalhadora, em flagrante contraofensiva
do capital, mediada pelo Estado.
PARTICULARIDADES NO CAPITALISMO DEPENDENTE E PERIFÉRICO
Estas tendências gerais são determinações estruturais na universa-
lidade do modo de produção capitalista, mas se reproduzem em condições
particularizadas pelas formações sociais nacionais. Nos países de capitalismo
periférico, como o Brasil, a incorporação ao capitalismo mundial foi condi-
cionada pela dominação externa, conforme Fernandes (2009), de forma que
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a riqueza, extraída e produzida, gerou excedentes econômicos e acumulação
de capital para as nações capitalistas colonizadoras e imperialistas.
O desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo nestas para-
gens marca de maneira indelével nossa formação social e suas particularida-
des, que ainda agem na reprodução da desigualdade econômica e social. Traços
como heteronomia e dependência, economia escravista, extremada concentra-
ção de renda, propriedade e poder, a não incorporação de uma ampla parcela
da população nacional – especialmente nativa e escravizada – na ordem econô-
mica, social e política, são responsáveis pela reprodução de uma desigualdade
persistente e insuperável entre as classes, mas também de gênero/sexualidade e
raça/etnia, consolidando um sistema heteropatriarcal e racista.
São traços estruturais que forjarão historicamente o que Ianni (1989, p.
147) designou como uma “vasta fábrica de desigualdades e antagonismos que
constituem a questão social”. Esses elementos, alavancas do capitalismo, encon-
tram resistência nas lutas sociais, protestos, reivindicações e greves em torno do
acesso à terra, emprego, salário, condições de trabalho nas fábricas e no campo,
lutas por direito ao trabalho, a saúde, a previdência, a assistência social, a ha-
bitação, a educação, a segurança, ao lazer, conformando as particularidades e
expressões da “questão social” no Brasil, mas que não podem ser descoladas das
determinações estruturais do modo de produção capitalista. As particularidades
do capitalismo periférico e dependente, portanto, ao mesmo tempo em que se
forjam no processo de formação da nação, são também processos constituin-
tes da totalidade capitalista, não podendo ser dela apartada. É nessa perspec-
tiva que autores/as (Carcanholo, 2013; Luce, 2013; Ferreira e Fagundes, 2021), na
esteira de estudos de Marini (1990), tematizam a superexploração da força de
trabalho, a transferência de valor e a cisão entre os ciclos do capital como fun-
damentos do capitalismo dependente, necessário para compreender a unidade
exploração/opressão do capitalismo (Pinheiro, 2023).
Para Carcanholo (2013), a superexploração não é um superlativo
para designar “mais exploração”, mas sim uma categoria teórica que expres-
sa o movimento concreto de exploração da força de trabalho, que possibili-
AULA 4 | Ofensiva do capital sobre o Estado, os direitos e as políticas sociais >> Ivanete Boschetti
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
ta elevar a taxa de mais-valia. Nessa mesma direção, Luce (2013, p. 149-155)
sintetiza algumas expressões concretas de superexploração no Brasil, que
exacerbam as expropriações de direitos. A remuneração da força de trabalho
abaixo de seu valor converte o fundo de consumo em fundo de acumulação,
o que expropria parte do trabalho necessário. O prolongamento da jorna-
da de trabalho gera desgaste prematuro da corporeidade físico-psíquica e
permite que o capital se aproprie de anos de vida futuros sendo esta uma
forma de expropriação da própria vida. A imposição de metas e intensidade
do trabalho impõe ritmos mais elevados e leva ao esgotamento prematuro
da força de trabalho, expropriando suas condições de saúde física e mental.
O aumento histórico-moral do valor da força de trabalho sem aumento real
da remuneração impõe o endividamento ou a submissão a uma carga extra
de trabalho como única forma de acessar bens de consumo que se tornaram
bens necessários, expropriando da classe trabalhadora as condições de ga-
rantir suas necessidades básicas e vitais à sua reprodução.
As desigualdades sociais, potencializadas pela superexploração, não
atingem a todos. Nossa inserção como classe trabalhadora determina nossa
forma de acesso às mercadorias, aos bens e serviços públicos, à propriedade,
à saúde, à alimentação, à moradia e mesmo à liberdade de escolhas, que de-
pendem fundamentalmente das condições materiais de existência. Mas estes
acessos são, estrutural e conjunturalmente, determinados pelas particularida-
des da formação social e de elementos da diversidade humana, que impõem
tanto a exploração de classe, como diferentes formas de opressão, devido à sin-
gularidade e diversidade humana. Dados da Oxfam (2024) demonstram que
as desigualdades se aprofundaram em todos os países, especialmente após a
pandemia da Covid-19, mas atingem sobretudo as mulheres negras nos países
de capitalismo dependente e se agravam com as opressões de sexo-gênero e
raça-etnia, provocadas pelo sistema heteropatriarcal e racista, que dissemina
o machismo, a misoginia e o racismo. No Brasil, as mulheres negras são as que
possuem os piores trabalhos, menores rendimentos, menos acesso à previdên-
cia social e são maioria entre quem recebe Bolsa Família, um benefício cujo
valor médio (R$ 673,62 em fevereiro de 2025) equivale a 44,37% do salário-mí-
nimo e ao menor valor dos direitos previdenciários.
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RESISTIR, SONHAR E LUTAR
Por realizar suas atividades profissionais majoritariamente na esfera
das políticas sociais, o Serviço Social se depara e sofre cotidianamente com
os sucessivos e agressivos ataques aos direitos e às políticas sociais, provo-
cados pela violenta contraofensiva burguesa às conquistas sociais da classe
trabalhadora. As políticas de favorecimento ao capital, especialmente em
contexto de agudização da crise, estão transformando o que resta do Esta-
do Social em poderoso instrumento de expropriação dos direitos. A eman-
cipação política da democracia burguesa está em franca decadência. Daí a
importância de compreendermos os fundamentos ontológicos do trabalho
e dos direitos e a condição atual da política social e sua relação com a repro-
dução das desigualdades de classe, sexo-gênero e raça-etnia.
Tendo como Projeto Ético-Político a defesa da emancipação huma-
na, e não somente da emancipação política nos marcos da cidadania burgue-
sa, temos um imenso desafio de entender os fundamentos teórico-históricos
da nossa profissão, pois só assim poderemos realizar nossas competências
e atribuições com valores e princípios sintonizados com a agressividade do
tempo presente. Não podemos sucumbir ao risco de cair no tecnicismo e
pragmatismo que tendem a “autonomizar” a dimensão técnico-operativa da
profissão de seus fundamentos teórico-históricos e ético-políticos.
O nosso Projeto Ético-Político Profissional só tem sentido se inserido
no fortalecimento das lutas da classe trabalhadora em perspectiva antica-
pitalista. Devemos disputar mentes e corações para fortalecer as lutas em
defesa dos direitos, não com intuito final de consolidar esse Estado Social
cada vez mais funcional ao capital, mas como luta estratégica para fortalecer
a consciência crítica e impor limites aos processos expropriatórios. Sonhar,
pensar e lutar é um requisito para não cair no pragmatismo e no possibilis-
mo, que submetem qualquer política à lógica mercantil.
Que os meus ideais sejam tanto mais for-
tes quanto maiores forem os desafios, mesmo que
AULA 4 | Ofensiva do capital sobre o Estado, os direitos e as políticas sociais >> Ivanete Boschetti
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DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
precise transpor obstáculos aparentemente intrans-
poníveis. Porque metade de mim é feita de sonhos
e a outra metade é de lutas (Vladímir Maiakóvski,
1987, [s.p.]).
QUESTÕES PARA REFLEXÃO
1. Procure demonstrar a diferença entre emancipação política e
emancipação humana e a relação dos direitos sociais com a emancipa-
ção política.
[Link] fazer a relação entre as demandas que chegam ao seu
cotidiano profissional, as possibilidades de assegurar o acesso da po-
pulação às políticas sociais com as quais trabalha e a expropriação de
direitos.
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cabem-no-estado-ebook-gratuito/
MARINI, R. M. A Dialética da Dependência. Editora Era, México, 1990,
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Artigos e Capítulos de Livros
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CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
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AULA 4 | Ofensiva do capital sobre o Estado, os direitos e as políticas sociais >> Ivanete Boschetti
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Artigos em Páginas Eletrônicas ou Blogs
GONÇALVES, G. L. Teorema da expropriação capitalista. Blog A Terra
é Redonda. Disponível em [Link]
expropriacao-capitalista/
Vídeos/Conferências/Debates/Entrevistas
Eleutério Prado, Guilherme Leite Gonçalves e Virginia Fontes. Teorema
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Virgínia Fontes. Atuais formas de expropriação/exploração do capital.
Disponível em [Link]
Virgínia Fontes. O que é ACUMULAÇÃO PRIMITIVA? Disponível em
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CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
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CEBRAP. 2024: Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades.
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Fórum Econômico Mundial. Relatório Global sobre a Desigualdade
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MARXISMO21. Página com várias referências bibliográficas. Disponível em
[Link]
Filmes
“My Name Is Joe”. Dir. Ken Loach, Inglaterra, 1998. Prime Video
“Cidade de Deus”. Dir. Fernando Meirelles e Kátia Lund, Brasil, 2002. Netflix
“Diários de Motocicleta”. Dir. Walter Salles. EUA, 2004, Prime Video
AULA 4 | Ofensiva do capital sobre o Estado, os direitos e as políticas sociais >> Ivanete Boschetti
> 119 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
“Saneamento Básico, o filme”. Dir. Jorge Fernando, Brasil, 2007, Netflix
“Capitalismo, uma História de Amor”. Dir. Michael Moore . EUA, 2009,
Prime Video.
“Inside Job – A Verdade da Crise”. Dir. Charles Ferguson, EUA, 2010, Netflix
“Elefante Branco”. Dir. Pablo Trapero, Argentina, 2012
“Elysium”. Dir. Neill Blomkamp, EUA, 2013. Prime Vídeo
“O Som ao Redor”. Dir. Kleber Mendonça Filho, Brasil, 2013, Netflix
“Que Horas Ela Volta?”. Dir. Anna Muylaert, Brasil, 2015, Netflix
“Eu, Daniel Blake”, Dir. Ken Loach, Inglaterra, 2016, Prime Video
“Bacurau”. Dir. Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles, Brasil, 2019,
Globoplay
“Des-Igualdade”. Dir. André Corrêa, Brasil, 2022, Prime Video
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
EMENTÁRIO DO
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO
DISCIPLINA I > TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E
OFENSIVA CONSERVADORA
Crise estrutural e impactos na produção e
Aula 1 >
reprodução social
Docente/autoria > Elaine Rossetti Behring (UERJ)
Ementa > Crise estrutural no contexto da decadência do sistema
capitalista. Produção e reprodução da questão social. A ofensiva
destrutiva do capital pela valorização do valor. Limites históricos e
materiais do capitalismo. Principais manifestações contemporâneas da
crise na ordem econômica mundial.
Crise da democracia burguesa e avanço
Aula 2 >
mundial da extrema direita
Docente/autoria > Ana Elizabete Mota (UFPE)
Ementa > A reação burguesa à crise do capitalismo. A crise do
regime democrático-eleitoral burguês. O avanço mundial de forças
organizadas da extrema direita. As políticas conservadoras e sua ofensiva
às conquistas civilizatórias. A ascensão de partidos com discursos
xenofóbicos.
Impactos ideopolíticos da crise na organização
Aula 3 > dos movimentos populares e nos projetos
societários
Docente/autoria > Marcelo Braz (UFRN)
Ementa > A decadência ideopolítica da ordem burguesa. Os movimentos
sociais e sua relação com as classes sociais e projetos societários. A
expansão do irracionalismo e sua política contrarrevolucionária. Os
ataques às lutas e conquistas sociais da classe trabalhadora. Sujeitos
políticos e a luta pela emancipação humana.
ANEXOS | Ementário do Curso
Ofensiva do capital sobre o Estado, os direitos e
Aula 4 >
as políticas sociais
Docente/autoria > Ivanete Boschetti (UFRJ)
Ementa > A reação burguesa à crise do capitalismo. A crise do
regime democrático-eleitoral burguês. O avanço mundial de forças
organizadas da extrema direita. As políticas conservadoras e sua ofensiva
às conquistas civilizatórias. A ascensão de partidos com discursos
xenofóbicos.
DISCIPLINA 2 > FORMAÇÃO SOCIAL BRASILEIRA: CAPITALISMO
DEPENDENTE E PERIFÉRICO, SISTEMA HETEROPATRIARCAL-RACISTA E
PROJETO ÉTICO-POLÍTICO PROFISSIONAL
Particularidades da formação social no contexto
Aula 1 > do capitalismo dependente, heteropatriarcal e
racista brasileiro
Docente/autoria > Cristiane Luíza Sabino de Souza (UFSC)
Ementa > A lei do valor no modo de produção capitalista e a
particularidade do capitalismo dependente heteropatriarcal e racista
brasileiro. Elementos determinantes da formação social: colonização,
dependência, escravização, superexploração, sexismo e racismo.
Fundamentos da questão social e suas
Aula 2 > particulares expressões no sistema capitalista
dependente, heteropatriarcal e racista brasileiro
Docente/autoria > Paulo Wescley Maia Pinheiro (UFMT)
Ementa > Fundamentos histórico-estruturais da questão social e suas
particularidades na reprodução social no capitalismo dependente
brasileiro. Trabalho, acumulação e superexploração. A unidade dialética
entre exploração e opressões de classe, sexo-gênero e raça-etnia no
sistema capitalista heteropatriarcal e racista brasileiro.
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
Autocracia burguesa e interdição democrática:
Aula 3 > Estado e classes sociais no capitalismo
dependente e periférico
Docente/autoria > Virginia Fontes (Fiocruz)
Ementa > Estado e dominação burguesa nas raízes do autoritarismo no
Brasil. Particularidades da decadência ideológica da burguesia brasileira
e interdição democrática. O Estado no capitalismo dependente e a
restrição aos direitos democráticos. Estado autocrático e repressão às
lutas sociais. Cidadania burguesa, emancipação política e os limites dos
direitos sociais no Brasil
Particularidades da crise no Brasil, conquistas
Aula 4 >
democráticas e limites da cidadania burguesa
Docente/autoria > Juliana Fiuza Cislaghi (UERJ)
Ementa > Particularidades da crise no capitalismo dependente
e periférico brasileiro. Manifestações e efeitos no contexto do
desenvolvimento desigual e combinado e reprodução das desigualdades
sociais. Luta de classes e conquistas democráticas. Ajuste Fiscal e
dinâmica do fundo público e financiamento das políticas sociais.
O Serviço Social no Brasil: das origens
Aula 5 > conservadoras aos fundamentos do Projeto
Ético Político Profissional
Docente/autoria > Marilda Iamamoto (UERJ)
Ementa > Determinantes histórico-estruturais da emergência do Serviço
Social no capitalismo dependente. Resistência classista e condições
histórico-políticas e sociais que possibilitaram a construção coletiva do
Projeto Ético-Político Profissional. As bases do Projeto Ético Político e
compromisso com a emancipação humana.
ANEXOS | Ementário do Curso
Princípios, valores e compromissos do Projeto
Aula 6 > Ético-político profissional do Serviço Social
brasileiro
> Silvana Mara de Morais dos Santos (UFRN)
Docente/autoria
> Sâmya Ramos (UERN)
Ementa > O sentido, dimensões e relevância dos princípios e valores
estabelecidos no Código de Ética Profissional. Compromissos teóricos e
ético-políticos com a diversidade humana, as lutas classistas e os direitos
democráticos. O Projeto Ético Político, as críticas aos limites da cidadania
burguesa e o horizonte de superação da questão social.
DISCIPLINA 3 > O TRABALHO DA/O ASSISTENTE SOCIAL EM
CONTEXTO DE CRISE DO CAPITAL
Questão social e reprodução das
Aula 1 > desigualdades de classe, sexo/gênero e raça-
etnia
Docente/autoria > Josiane Soares Santos (UFRN)
Ementa > Expressões atuais da questão social no Brasil, em contexto de
crise do capital e reprodução das desigualdades de classe, sexo/gênero
e raça-etnia no Brasil. Principais demandas ao trabalho profissional,
contradições e mediações vitais ao Projeto Ético Político Profissional e à
garantia de direitos.
Conquistas democráticas e o projeto de
Aula 2 > seguridade social defendido pelo Serviço Social
brasileiro
Docente/autoria > Mossicleia Mendes (UFRJ)
Ementa > A Seguridade Social defendida pelo Serviço Social na Carta
de Maceió e suas possibilidades na ampliação de direitos sociais. Os
processos destrutivos da Seguridade Social no Brasil e impactos na
expropriação de direitos. Os desafios e compromissos do Serviço Social na
defesa da Seguridade Social.
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Padrão de reprodução do capital no
neoliberalismo, ofensiva sobre os direitos do
Aula 3 >
trabalho e implicações para as condições de
trabalho de assistentes sociais
Docente/autoria > Raquel Raichelis (PUC/SP)
Ementa > Produção e reprodução do capital no neoliberalismo e
ultraneoliberalismo. Ofensiva burguesa aos direitos do trabalho no Brasil
e as contrarreformas destrutivas de direitos. Precarização do trabalho
e desigualdade de classe, sexo/gênero e raça-etnia. Implicações para as
condições de trabalho de assistentes sociais.
Dívida pública, usurpação do Fundo Público e
Aula 4 > consequências para a Seguridade Social e o
trabalho profissional
Docente/autoria > Giselle Souza (Unirio)
Ementa > Produção da riqueza e constituição do Fundo Público. Fundo
Público e composição do orçamento público. Destinação do Fundo
Público para remuneração dos juros e amortização da dívida pública e
implicações na implementação das políticas sociais, particularmente na
seguridade social. Impactos sobre o trabalho profissional nas políticas
sociais.
O trabalho da/o assistente social em contexto
Aula 5 >
de contrarreforma da previdência social
Docente/autoria > Rivânia Moura (UERN)
Ementa > Importância da previdência social pública na reprodução
social da classe trabalhadora. Ofensiva burguesa, financeirização,
contrarreformas da previdência social, redução de direitos e desigualdade
de classe, sexo/gênero e raça-etnia. Demandas, atribuições, dificuldades e
possibilidades do trabalho da/o assistente social na previdência social.
ANEXOS | Ementário do Curso
O trabalho da/o assistente social no Sistema
Aula 6 >
Único de Assistência Social (SUAS)
> Abigail Torres (SP)
Docente/autoria
> Kelly Melatti (SP)
Ementa > Contradições e significado da assistência social no capitalismo
e na reprodução social da classe trabalhadora. Importância e condições
de materialização do SUAS no contexto da Seguridade Social brasileira.
Demandas, atribuições, dificuldades e possibilidades do trabalho da/o
assistente social na Política de Assistência Social.
O trabalho da/o assistente social no Sistema
Aula 7 >
Único de Saúde (SUS)
> Maurilio Castro Matos (UERJ)
Docente/autoria
> Maria Ines Souza Bravo (UERJ)
Ementa > A relevância do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil no
contexto da Seguridade Social. Sucessivas investidas de privatização,
contenção e empecilhos à sua universalização com qualidade. Lutas
profissionais em defesa do SUS. Demandas, atribuições, dificuldades e
possibilidades do trabalho da/o assistente social no SUS.
O trabalho da/o assistente social na Educação
Aula 8 >
(escolas e instituições de ensino federais)
Docente/autoria > Eliane Bolorino (Unesp/Franca)
Ementa > A importância e luta do Serviço Social pela inserção de
assistentes sociais nas escolas públicas e privadas e nas instituições de
ensino federais. Demandas, atribuições, dificuldades e possibilidades do
trabalho da/o assistente social na educação.
O trabalho da/o assistente social no campo
Aula 9 >
“Sociojurídico”
Docente/autoria > Silvia Tejadas (RS)
Ementa > Os diversos espaços sócio-ocupacionais da/o assistente social
do campo “sociojurídico”. Contradições e mediações entre o controle
e a garantia de direitos. A relevância do trabalho profissional na
mediação para acesso aos direitos. Demandas, atribuições, dificuldades e
possibilidades do trabalho da/o assistente social no campo “sociojurídico”.
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
DISCIPLINA 4 > EXPRESSÕES ATUAIS DA QUESTÃO SOCIAL NO BRASIL,
TRABALHO E COMPROMISSOS ÉTICO-POLÍTICOS DO SERVIÇO SOCIAL
Questão ambiental e climática, expropriação
dos bens comuns da natureza, impacto para os
Aula 1 >
povos originários, trabalho e compromissos ético-
políticos do Serviço Social
> Maria das Graças e Silva (UFPE)
Docente/autoria
> Iara Fraga (UECE)
Ementa > Questão ambiental como dimensão da questão social.
Acumulação, expropriação e mercantilização dos bens da natureza e
impactos na destruição da biodiversidade humana, de flora e fauna.
Expressões atuais da questão ambiental, o racismo ambiental, ataques
aos povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas, pescadoras,
marisqueiras. Trabalho e compromissos ético-políticos do Serviço Social
no enfrentamento às expressões da questão ambiental.
Questão racial, violência contra a juventude
Aula 2 > negra, encarceramento, e trabalho e
compromissos ético-políticos do Serviço Social
Docente/autoria > Márcia Campos Eurico (PUC- SP)
Ementa > Questão racial como determinação da questão social.
Expressões concretas da questão racial no Brasil recente, com ênfase
nas desigualdades vivenciadas pela população negra, destacadamente
as mulheres, no acesso aos direitos, trabalho, emprego, educação, saúde,
previdência, assistência social, lazer. Violência contra a juventude negra,
encarceramento. Trabalho e compromissos ético-políticos do Serviço
Social nas lutas antirracistas.
Questão urbana, degradação da vida da
Aula 3 > população em situação de rua, trabalho e
compromissos ético-políticos do Serviço Social
Docente/autoria > Joana Valente Santana (UFPA)
Ementa > Questão urbana como dimensão da questão social. Expressões
concretas da questão urbana no Brasil recente. A imposição de padrões
de mercantilização, segregação e violência na produção do espaço
urbano e a reprodução de desigualdades de classe, sexo/gênero e raça-
etnia. A degradação da vida da população em situação de rua, trabalho e
compromissos ético-políticos do Serviço Social na luta pelo direito à cidade.
ANEXOS | Ementário do Curso
Conservadorismo familista, trabalho e
compromissos ético-políticos do Serviço Social
Aula 4 >
no acesso ao direito protetivo e à convivência
familiar
Docente/autoria > Solange Maria Teixeira (UFPI)
Ementa > Determinantes do sistema heteropatriarcal, racista e sexista
na concepção familista conservadora no Brasil. Expressões concretas
do familismo nas políticas sociais. A responsabilização da mulher na
reprodução social e a feminização do cuidado. Trabalho e compromissos
ético-políticos do Serviço Social no acesso ao direito protetivo e à
convivência familiar em sua diversidade.
Laicidade, intolerância religiosa, trabalho e
Aula 5 >
compromissos ético-políticos do Serviço Social
> Luciano Alves (SP)
Docente/autoria
> Lucia Soares (RJ)
Ementa > Laicidade e Estado laico na defesa dos direitos e da igualdade
na democracia burguesa. Distinção entre intolerância religiosa e racismo
religioso. Expressões concretas de manifestações de preconceito, racismo
e violências contra religiões afro-brasileiras ou de matriz africana no
Brasil. Trabalho e compromissos ético-políticos do Serviço Social nas
lutas contra o preconceito, a discriminação, e pela igualdade.
Misoginia, relações de sexo/gênero, trabalho e
Aula 6 >
compromissos ético-políticos do Serviço Social
> Mirla Cisne (UERN)
Docente/autoria
> Verônica Ferreira (UFRN)
Ementa > Determinantes estruturais da exploração e opressões das
mulheres no sistema patriarcal e racista brasileiro. Fundamentos
feministas sobre Reprodução Social. O significado político e teórico
das relações sociais de sexo/gênero, raça-etnia e de classe nos estudos
feministas. Expressões concretas de misoginia, violências e feminicídio
no Brasil. Trabalho e compromissos ético-políticos do Serviço Social nas
lutas feministas contra o machismo, a misoginia e a violência.
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
LGBTQIA+fobia e diversidade humana, trabalho
Aula 7 >
e compromissos ético-políticos do Serviço Social
> Guilherme Almeida (UFRJ)
Docente/autoria
> Bruna Irineu (UFMT)
Ementa > Determinantes estruturais da exploração e opressões da
população LGBTQIA+ no sistema heteropatriarcal e racista brasileiro.
Fundamentos e valores da diversidade humana e dos direitos humanos
em contexto de decadência ideológica da democracia burguesa.
Expressões concretas das diversas e violentas expressões de LGBTfobia
no Brasil. Trabalho e compromissos ético-políticos do Serviço Social nas
lutas pela diversidade humana, pela igualdade e contra a LGBTfobia.
A luta anticapacitista: trabalho e
Aula 8 >
compromissos ético-políticos do Serviço Social
Docente/autoria > Daiane Mantonoelli (SC)
Ementa > Direitos Humanos, diversidade e reprodução das
desigualdades impostas às pessoas com deficiência no capitalismo.
Expressões concretas das diversas expressões de capacitismo no Brasil.
Trabalho e compromissos ético-políticos do Serviço Social nas lutas
anticapacitista e na garantia de direitos.
Repressão aos movimentos populares, trabalho
e compromissos ético-políticos do Serviço Social
Aula 9 >
com as lutas contra a exploração e todas as
formas de opressão
> Maria Lucia Duriguetto (UFJF)
Docente/autoria
> Susana Maria Maia (UFF/Rio das Ostras)
Ementa > Ofensiva do capital às lutas da classe trabalhadora em
contexto de crise. Expressões da criminalização e repressão aos
movimentos populares no Brasil. Compromissos ético-políticos do
Serviço Social com as lutas sociais anticapitalistas e de defesa de direitos
nos movimentos sindical, indígena, mulheres, LGBT e antirracistas.
ANEXOS | Ementário do Curso
Ataques reacionários e críticas ao Projeto Ético-
político do Serviço Social: expressões e desafios
Aula 10 > na formação e no trabalho profissional
10.1 > As lutas do Conjunto CFESS/CRESS
10.2 > As lutas da ABEPSS
> CFESS
Docente/autoria
> ABEPSS
Ementa > O avanço do pensamento conservador e reacionário no Serviço
Social brasileiro em anos recentes e seus ataques ao Projeto Ético Político
do Serviço Social. A defesa da hegemonia dos princípios e valores do
Projeto Ético Político Profissional no âmbito da formação e do trabalho
profissional. Os desafios e frentes de lutas do Conjunto CFESS-CRESS.
Os desafios e frentes de lutas da ABEPSS.
DISCIPLINA 5 > SUBSÍDIOS À ELABORAÇÃO DO TRABALHO FINAL
Importância do pensamento crítico na análise
Aula 1 >
da realidade
Docente/autoria > Hamida Assunção (UFAM)
Ementa > A produção de conhecimento na perspectiva crítica e
articulada ao Projeto Ético-político profissional. A importância da
atitude investigativa para a produção de conhecimento crítico e para
o enfrentamento ao conservadorismo na formação e no trabalho
profissional.
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Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
DISCIPLINA 6 > TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO: ARTIGO
CIENTÍFICO OU PROJETO DE INTERVENÇÃO
Orientações para elaboração de Artigo
Aula 1 >
Científico
Docente/autoria > GT Gestor do Curso
Ementa > Como formular um tema para abordar no artigo. Como
articular os conteúdos vistos no curso e os interesses e experiências
profissionais. Elementos fundamentais para relacionar o trabalho
profissional à formulação teórico-crítica: totalidade, contradição,
mediação. Síntese das normas técnicas da ABNT para artigo científico.
Orientações para elaboração do Projeto de
Aula 2 >
Intervenção
Docente/autoria > Eblin Farage (UFF/RJ)
Ementa > Importância do projeto de intervenção para o trabalho
profissional. Fundamentos teóricos e sócio-históricos para
reconhecimento das expressões da questão social no cotidiano
profissional. Identificação das demandas sociais e institucionais no
cotidiano profissional. Articulação entre demandas e competências e
atribuições profissionais. Elementos instrumentais para estruturar um
projeto de intervenção.
ANEXOS | Ementário do Curso
LINKS PARA AS AULAS EM VÍDEO
AULA INAUGURAL | Trabalho Profissional: Questão Social
e Fundamentos Teóricos-Históricos e Ético Políticos do
Serviço Social >> Maria Carmelita Yazbek
[Link]
AULA 1 | Crise estrutural e impactos na produção e
reprodução social >> Elaine Behring
[Link]
AULA 2 | Crise da democracia burguesa e avanço mundial
da extrema direita >> Ana Elizabete Mota
[Link]
AULA 3 | Impactos ideopolíticos da crise na organização
dos movimentos populares e nos projetos societários >>
Marcelo Braz
[Link]
AULA 4 | Ofensiva do capital sobre o Estado, os direitos e
as políticas sociais >> Ivanete Boschetti
[Link]
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
Teórico-Históricos e Ético-Políticos do Serviço Social >> CFESS - ABEPSS - UERN - FUNCITERN
AULA 1 | Crise estrutural e impactos na produção e reprodução social >> Elaine Behring
> 133 <
DISCIPLINA 1 | TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CRISE DO CAPITAL E OFENSIVA CONSERVADORA
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO-SENSU | Trabalho Profissional: Questão Social e Fundamentos
> 134 <
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