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2007
RESUMO – (Caracterização etnobotânica dos sistemas de manejo de samambaia-preta (Rumohra adiantiformis (G. Forst)
Ching - Dryopteridaceae) utilizados no sul do Brasil). A samambaia-preta (Rumohra adiantiformis (G. Forst) Ching- Pteridophyta) é
utilizada comercialmente na produção de arranjos florais. A extração desta espécie é fonte de renda de muitas famílias da região sul do
Brasil. O objetivo deste estudo foi caracterizar os sistemas de manejo da espécie utilizados no Estado do Rio Grande do Sul (RS) através
do uso de entrevistas semi-estruturadas e observação participante com famílias extrativistas do município de Maquiné-RS. Foi verificada
a ocorrência de uma grande diversidade de técnicas de manejo, a partir da qual foi proposta uma tipologia de sistemas de manejo. A
tipologia consiste em quatro sistemas de manejo principais, de acordo com o manejo da paisagem e das populações de samambaia
empregados. Constatou-se uma associação entre a situação fundiária e os sistemas de manejo utilizados. Nas terras arrendadas é realizada
apenas a coleta das frondes, enquanto nas terras próprias são realizadas intervenções como podas, derrubadas de árvores, retirada de
frondes mortas, pisoteio da área após coleta, além de interação com sistemas de agricultura de coivara e criação de gado. A tipologia dos
sistemas de manejo elaborada, em associação com outros estudos sobre a sustentabilidade do extrativismo de samambaia-preta, vem
fundamentando a regulamentação desta atividade no Rio Grande do Sul.
ABSTRACT – (Ethnobotanical characterization of leatherleaf fern (Rumohra adiantiformis (G. Forst) Ching - Dryopteridaceae)
management systems used in southern Brazil). The leatherleaf fern (Rumohra adiantiformis (G. Forst.) Ching) is commercially used in
flower arrangements. The harvesting of this species is an income source for many families from southern Brazil. The aim of this study
was to characterize species management systems used in Maquiné municipality, Rio Grande do Sul state (RS), through semi-structured
interviews and participant observation with harvesters’ families. A great diversity of management techniques was verified. Based on
these management techniques, we propose a typology of the management systems. This typology consists in four main types of
management systems, according to landscape management and leatherleaf fern population management used. An association between
land tenure and the management system adopted was observed. On rented lands, only the fronds are harvested, while on private
property harvesters use techniques such as trimming, tree-felling, removal of dead fronds, treading on the area after harvesting, and
interaction with shifting cultivation and cattle. The typology of management systems presented here, in association with other studies
on sustainability of leatherleaf fern harvesting, has provided support for the regulation/legalization of this activity in Rio Grande do Sul.
Key words: sustainable management, harvesting, leatherleaf fern, non-timber forest products
1
Universidade Federal de Santa Catarina, Núcleo de Pesquisas em Florestas Tropicais, Laboratório de Ecologia Humana e Etnobotânica-
UFSC/ ONG Anama, Centro de Ciências Agrárias, Núcleo de Pesquisas em Florestas Tropicais, Rodovia Admar Gonzaga 1346, Bairro
Itacorubi, 88034-001 Florianópolis, SC, Brasil
2
Universidade Federal de Santa Catarina, Laboratório de Ecologia Humana e Etnobotânica, Centro de Ciências Agrárias, Campus Universitário
Trindade, 88010-970 Florianópolis, SC, Brasil
3
Autor para correspondência: msreis@[Link]
824 Baldauf, Hanazaki & Reis: Caracterização etnobotânica dos sistemas de manejo de samambaia-preta...
exploração controlada das populações de uma dada pequenos agricultores familiares locais em áreas de
espécie, visando à obtenção de um produto direto ou Mata No caso do Litoral Norte deste estado, o
indireto (Reis 1996). O manejo de qualquer espécie extrativismo de produtos florestais não-madeireiros,
em seu ecossistema exige a geração de conhecimentos assim como a venda da força de trabalho como diaristas
sobre sua autoecologia, especialmente no que se refere ou em empreitadas, tem permitido a manutenção de
à demografia e biologia reprodutiva (Reis et al. 2000). parte destes agricultores na região (Anama 2002).
No entanto, toda sociedade humana acumula um Entre as décadas de 1960 e 1970 a mecanização
acervo de informações sobre o ambiente que a cerca da agricultura decorrente da “revolução verde”
(Amorozo 1996). Desta forma, as comunidades que propiciou o desenvolvimento da horticultura nas áreas
utilizam determinado recurso vegetal já possuem de várzea da região. Neste mesmo período os produtos
inúmeros saberes acerca dos ciclos da planta em agrícolas tradicionais como milho, feijão e mandioca,
questão, bem como dos aspectos que beneficiam ou cultivados nas áreas de encosta, sofreram uma
desfavorecem a ocorrência de populações da espécie. crescente desvalorização. Tais fatores provocaram
Estes saberes são oriundos de experiências práticas declínio da agricultura tradicional na região,
através da vivência nos ecossistemas e podem fundamentada no sistema de coivara, assim como
complementar o conhecimento científico sobre o contribuíram para a regeneração florestal nas áreas
manejo de populações naturais (Berkes et al. 1998). de encosta. Assim, ocorreu um grande êxodo rural no
Neste contexto, o manejo pode ser entendido como a período, sendo que os agricultores familiares que
gestão de um dado recurso baseada em um enfoque permaneceram nas encostas não tinham muitas
técnico-científico e/ou em práticas tradicionais (Diegues possibilidades de trabalho e geração de renda (Anama/
2002). PGDR-UFRGS 2000).
Muitos dos trabalhos desenvolvidos até o momento Neste cenário, o surgimento do extrativismo de
em etnobiologia reforçam o importante conhecimento samambaia-preta (Rumohra adiantiformis (G. Forst)
que os povos das florestas tropicais possuem acerca Ching) na década de 1970 representou uma importante
do ambiente onde vivem, sendo que estes alternativa econômica para as famílias agricultoras, a
conhecimentos abrangem não só um grande número qual se expandiu nas décadas de 1980 e 1990 (Anama
de espécies úteis, mas também percepções sobre 2002). A samambaia-preta é utilizada mundialmente
processos ecossistêmicos (Posey 1987; Balée 1994; como folhagem na produção de arranjos florais, sendo
Hanazaki et al. 2000). Entretanto, Diegues e Arruda que a grande preferência pela espécie decorre do fato
(2001) destacam que grande parte dos trabalhos de suas frondes apresentarem grande durabilidade após
realizados ainda está concentrada nos sistemas de a coleta. A maior parte da produção mundial
manejo tradicionais de populações indígenas, o que comercializada é oriunda da Flórida, onde a espécie é
reforça a necessidade da realização de estudos com cultivada sob condições controladas (Milton & Moll
outros grupos culturais. 1988). No Brasil, provavelmente mais da metade do
Uma vez que em ambientes tropicais as atividades mercado nacional é abastecido pelas folhas extraídas
de manejo de paisagens e populações naturais estão no Rio Grande do Sul, na quase totalidade das vezes
extremamente relacionadas às atividades agrícolas e através da extração direta em seu ambiente natural
de domesticação de plantas (Clement 1999), o estudo (Anama 2002).
de grupos de tradição agrícola pode fornecer Com o Decreto Federal nº 750, de 10 de fevereiro
importantes subsídios para o estabelecimento de de 1993, a continuidade do sistema da agricultura de
estratégias de conservação de um grande número de coivara nas áreas de Mata Atlântica ficou ainda mais
espécies, sobretudo de produtos florestais não- ameaçada, uma vez que este decreto proíbe o corte, a
madeireiros (PFNMs). O extrativismo de PFNM exploração e supressão de vegetação primária ou nos
contribui para a subsistência da maioria absoluta dos estádios avançado e médio de regeneração da Mata
agricultores familiares no Brasil hoje, tanto na Amazônia Atlântica. A partir de tal legislação, os órgãos
como no resto do país, sendo muitas vezes de fiscalizadores do RS passaram a agir com rigor nas
fundamental importância para sua reprodução social áreas de pousio, multando os agricultores que
(Clement 2006). derrubavam as capoeiras.
No Rio Grande do Sul as práticas extrativistas são, Neste contexto intensificou-se o extrativismo de
em muitos casos, decorrentes de um longo processo samambaia-preta no Litoral Norte do Rio Grande do
de empobrecimento de uma parte significativa de Sul, associado à redução da mão-de-obra na economia
Acta bot. bras. 21(4): 823-834. 2007. 825
familiar, devido ao êxodo rural e às dificuldades no uso atividades econômicas não agrícolas, entre elas o
da terra impostas pela legislação ambiental (Anama extrativismo de produtos florestais como a samambaia-
2002). Esta atividade possibilitou a permanência na preta. Os atores sociais que extraem este recurso são
terra dos agricultores familiares na região e a conhecidos localmente como “samambaieiros”. As
manutenção da organização social vinculada às famílias de samambaieiros vivem nas encostas, em lotes
relações familiares de produção. Concomitantemente pequenos de terra não apropriados a cultivos anuais.
ao aumento da importância do extrativismo na região, Em grande parte são formadas por agricultores
foram se desenvolvendo inúmeros saberes associados tradicionais que não conseguiram se inserir no processo
a esta prática. de modernização da agricultura que ocorreu em todo
Os objetivos deste trabalho foram a realização de o país. Impossibilitados de adotar os pacotes
uma caracterização etnobotânica do extrativismo de tecnológicos impostos e, mais recentemente, balizados
samambaia-preta no município de Maquiné, bem como pela legislação ambiental restritiva em relação ao uso
a elaboração de uma tipologia dos sistemas de manejo das capoeiras, estes agricultores adotaram as práticas
utilizados a fim de fundamentar o processo de extrativistas como uma alternativa de garantir sua
licenciamento da atividade extrativista na região de reprodução social.(Anama 2002).
estudo. A hipótese central é a de que a diversidade de O extrativismo de samambaia-preta envolve cerca
práticas utilizadas pelos extrativistas compõe diferentes de 3.000 famílias do Litoral Norte do Rio Grande do
sistemas de manejo da espécie no Litoral Norte do Sul, sendo que atualmente é exercido pelas famílias
Rio Grande do Sul. mais jovens, uma vez que os mais idosos têm sua fonte
de renda na aposentadoria rural. Muitos deles, antes
da aposentadoria, foram extrativistas, sendo os
Material e métodos
pioneiros nesta atividade na localidade. Nos núcleos
Área de estudo – A região de estudo está situada na familiares onde a extração da samambaia é a principal
Bacia Hidrográfica do Rio Maquiné, cuja área fonte de renda, percebe-se que a atividade de coleta
aproximada é de 546 km 2. Localiza-se entre as muitas vezes representa o ofício fixo das mulheres,
encostas da Serra Geral e a planície costeira do Rio enquanto os homens participam quando não há ofertas
Grande do Sul e pode ser subdividida em 14 sub-bacias mais rentáveis tais como empreitadas, carpintaria e
principais: Água Parada, Pinheiro, Pavão, construção civil (Anama/PGDR-UFRGS 2003).
Escangalhado, Lajeado, Ouro, Ligeiro, Maquiné Coleta e análise dos dados – Os dados relacionados
“Calha”, Encantado, Solidão, Forqueta “Alto”, Garapiá aos sistemas de manejo da samambaia-preta foram
dos Severinos, Forqueta “Calha” e Garapiá dos Leões. obtidos por meio de entrevistas semi-estruturadas. As
A vegetação natural da bacia do rio Maquiné é entrevistas abordaram aspectos relacionados ao manejo
constituída predominantemente por Floresta Ombrófila da paisagem nas áreas de coleta e às práticas de manejo
Densa, mas por situar-se em zona de transição das populações de samambaia, procurando-se registrar
fitogeográfica, apresenta também elementos de o conhecimento associado a estas práticas. Através
Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Ombrófila das entrevistas também se buscou a compreensão da
Mista e Campos de Altitude (Sevegnani & Baptista evolução dos principais sistemas de manejo na região
1996). Atualmente a cobertura da terra na região é de estudo. Para a caracterização da atividade
extremamente heterogênea, apresentando um mosaico extrativista também foi utilizada a técnica da
de vegetação primária, vegetação secundária em observação participante (Viertler 2002). Foram
diversos estádios de desenvolvimento e áreas agrícolas. acompanhadas as etapas de coleta, transporte,
Segundo o censo do IBGE (2000), Maquiné possui armazenagem e confecção das unidades de
uma população de aproximadamente 7.304 habitantes, comercialização de samambaia.
dos quais 5.379 encontram-se na zona rural e 1.925 na No município de Maquiné, o extrativismo de
zona urbana. A estrutura fundiária do município é samambaia ocorre em grande parte das sub-bacias,
caracterizada por pequenas propriedades familiares, não havendo registros apenas nas sub-bacias Pavão e
sendo que 70% das propriedades têm menos de 20 ha, Escangalhado (Baldauf et al. 2005). Desta forma,
as quais ocupam apenas 20% da área total do município, foram amostradas as doze sub-bacias com registro de
o qual possui 622 m2. atividade extrativista no município. O número de
Nas últimas décadas, os agricultores desta região famílias extrativistas em cada sub-bacia foi definido a
passaram a dedicar-se cada vez mais à realização de partir de informações locais, variando entre uma e treze
826 Baldauf, Hanazaki & Reis: Caracterização etnobotânica dos sistemas de manejo de samambaia-preta...
famílias. O esforço amostral foi de pelo menos 20% espécie na região de estudo.
das famílias por sub-bacia, visando atingir a
representatividade geralmente utilizada em estudos que Resultados e discussão
se valem de tipologias (Embrapa 1991; Miranda et al.
1995; Anama/PGDR-UFRGS 2000) e totalizando trinta A atividade extrativista – A extração de samambaia é
entrevistas. a atividade principal dos entrevistados (50%), seguida
As informações obtidas nas entrevistas foram da agricultura com 36,6%. Os demais entrevistados
quantificadas usando estatísticas descritivas e, nos atribuíram a mesma importância às duas atividades,
casos de comparações, foi usado o teste Mann-Whitney exceto um deles cuja principal atividade é o trabalho
(p < 0,05). Também foram utilizadas técnicas de análise de pedreiro. No entanto, os informantes que atualmente
multivariada para ordenação dos extrativistas em consideram a extração de samambaia como sua
relação às principais características dos sistemas de principal atividade, no passado se dedicavam à
manejo empregados na região. As técnicas de agricultura, mantendo hoje apenas pequenos cultivos
ordenação multivariada permitem o estudo dos fatores para subsistência (Tab. 2). Estes valores estão de
que determinam a formação de grupos de similaridade acordo com o trabalho de Ribas & Miguel (2004), que
(Peroni 2002). Em função da predominância de apontaram que a maioria da população envolvida na
descritores binários foi utilizada a análise de extração da samambaia tem nesta atividade sua
correspondência a fim de verificar quais fatores principal fonte de renda.
interferem na formação de grupos distintos de Conforme relatado pelos extrativistas mais antigos,
extrativistas. Foram usados os programas SPSS na década de 1970 começou a ocorrer a vinda de
(Statistical Package for Social Sciences) versão 10.0 coletores de samambaia procedentes de outras
(SPSS Inc.1999) e MVSP (Multivariate Statistical localidades do Rio Grande do Sul, que arrendavam áreas
Package) versão 3.12 d (Kovach 2001). de capoeira dos moradores locais: “vinham em grupos
Para caracterizar os sistemas de manejo utilizados e tiravam toda a samambaia”. Em seguida, os próprios
no município de Maquiné foram previamente definidos moradores passaram a coletar a samambaia para estas
descritores quantitativos e binários (Tab. 1). Os pessoas, ocorrendo uma especialização na cadeia
descritores que apresentaram correlações maiores que produtiva com a presença de figura do atravessador
0,60 com os eixos principais um e dois foram (“puxador”), ou seja, aquela pessoa que recolhe as
considerados como variáveis discriminantes para a samambaias coletadas pelos moradores e entrega a
formação de uma tipologia dos sistemas de manejo da outros intermediários.
Tabela 1. Descritores ecológicos utilizados na caracterização dos sistemas de manejo utilizados por extrativistas de samambaia-preta
(Rumohra adiantiformis (G. Forst) Ching) do município de Maquiné, RS.
FCO quantitativa/ discreta Freqüência de corte utilizada por extrativista (número de cortes anuais/área)
IAG binária Interação com agricultura: área destinada aos cultivos é a mesma onde é realizada
a coleta de samambaia
IGD binária Interação com gado: área destinada à criação de bovinos é a mesma onde é
realizada a coleta de samambaia
DER binária Realização de derrubada das capoeiras nas áreas de coleta de samambaia
QUE binária Realização de queimadas nas áreas de coleta de samambaia
POD binária Realização de podas e roçadas nas capoeiras das áreas de coleta de samambaia
MSA binária Realização de práticas de manejo das populações de samambaia (pisoteio das
áreas com samambaia após a coleta, retirada de frondes senescentes)
SOR binária Coleta de frondes que apresentam soros (férteis)
DAN binária Coleta de frondes que apresentam danos (sapecada, comida, torta...)
DIN binária Diminuição ou suspensão da coleta do período do inverno
BRO binária Coleta durante o período de brotação da samambaia (fim do inverno/início da
primavera)
QDU binária Realização da prática de quebrar uma fronde em duas (ambos os pedaços são
colocados na mala de samambaia)
Acta bot. bras. 21(4): 823-834. 2007. 827
Tabela 2. Atividade principal, número de malas por coleta, número de coletas por semana e área manejada por extrativistas de samambaia-
preta (Rumohra adiantiformis (G. Forst) Ching) do município de Maquiné, RS.
1 A 250 2 12
2 A 110 2 108
3 A 100 5-6 18
4 A+S 250 2 24
5 A 80 1 não sabe
6 A+S 100 1 25
7 S 250 7 não sabe
8 A 200 2 80
9 A 70 1 200 (não tem em toda área)
10 A 50 3 90
11 S 250 1 3
12 S 200 2 não sabe
13 A 120 1 15
14 S 200 3 não sabe (5 propriedades)
15 A+S 100 2 12
16 S 100 3-4 5000
17 S 200 2 2,5
18 A 80 1 2
19 A 500 1 “é pequena”
20 A 200 5 não sabe
21 S 800 3 não sabe
22 S 150 2 10
23 S 500 5 não sabe
24 S 150 3-4 40
25 S 500 3 “é bastante”
26 S 50 4 6 (“só manchas”)
27 P 80 4 15 (“só umas bolinhas”)
28 S 800 6 não sabe
29 S 500 7 não sabe
30 S 100 3 não sabe (arrenda várias propriedades)
*Número referente a cada entrevistado; **Atividade principal informada pelo entrevistado: A = agricultor; S = samambaieiro; A+S = considera
as duas atividades igualmente importantes; P = pedreiro
Atualmente, a coleta é efetuada em terras próprias do livre acesso à propriedade para coleta das frondes
e em terras arrendadas, sendo que 36,7% dos de R. adiantiformis. Os extrativistas consideram que
entrevistados coletam exclusivamente em terras a ocorrência da espécie está restrita aos estádios
próprias, 36,7% em terras arrendadas e 26,6% coletam sucessionais iniciais, vindo a desaparecer na medida
em ambas. O arrendamento da terra pode ser anual em que “a capoeira engrossa”. São unânimes ao
ou o arrendatário pode pagar um percentual por afirmar que “o que vai acabar com a samambaia não
quantidade comercializada, em geral entre 5 a 10% da é o samambaieiro, é o capoeirão”. Identificam como
renda bruta obtida com a venda da samambaia. Não principais locais de coleta as áreas onde havia cultivos
foram encontradas situações como as descritas por agrícolas (roças) no passado.
Ribas et al. (2002), onde o valor do arrendamento Os samambaieiros costumam manter trilhas
atingia valores próximos a 30% da renda bruta oriunda abertas para acesso às áreas de coleta, nas quais
da venda das frondes. ocorrem as “bolas” ou “malhas” de samambaia
Em alguns casos, o proprietário cede uma dada (áreas com alta densidade de frondes). Essas
área para extração sem cobrar nada ou em troca de trilhas, muitas vezes também são locais de
algum serviço na propriedade. Uma outra situação, cada extração, visto que as roçadas periódicas
vez mais freqüente, é a relação entre samambaieiros favorecem a implantação e desenvolvimento de
e proprietários de sítios de lazer na região, onde os populações de samambaia, possivelmente a partir
primeiros se comprometem a “cuidar da área” em troca de uma maior entrada de luz.
828 Baldauf, Hanazaki & Reis: Caracterização etnobotânica dos sistemas de manejo de samambaia-preta...
exploração “quando a capoeira engrossa”. Ao serem foi substituída por pastagem para bovinos. Estas áreas
questionados sobre esta estratégia, eles relatam dois são periodicamente queimadas e as “bolas” de
motivos principais: a legislação ambiental (“o Ibama”) samambaia aparecem durante a regeneração da
e o fato de não valer a pena, do ponto de vista vegetação.
econômico, gastar tanto tempo com esta atividade. Também foi verificada uma relação entre o tipo
Alguns extrativistas afirmaram realizar pequenas de manejo utilizado e a situação fundiária da
intervenções como podas e roçadas na vegetação para propriedade onde a samambaia é coletada. Em geral,
aumentar a incidência de luz nas áreas de coleta de quando as terras utilizadas para a extração são
samambaia-preta. Contudo, parte destes informantes arrendadas, a intervenção na paisagem é superficial,
relatou que já usou esta estratégia e não foi bem limitando-se a pequenos desbastes ou podas na
sucedida, uma vez que, após as podas, as árvores vegetação. Já na extração em terras próprias, é possível
brotavam novamente, aumentando ainda mais a sombra encontrar sistemas de manejo da paisagem mais
sobre as populações de samambaia. intensos, visto que muitas vezes a coleta de samambaia
Uma associação evidenciada nas entrevistas é a está inserida em um sistema agropastoril.
extração de samambaia em áreas de pousio agrícola. Além do manejo das áreas de capoeira nas quais
Neste sistema, de maneira geral, as áreas em estádios são realizadas as coletas das frondes, também foi
sucessionais médios ou avançados (capoeirão) são constatada a existência de práticas que visam assegurar
desmatadas e queimadas no período do inverno e em ou intensificar a brotação de novas frondes, bem como
seguida são implementados cultivos anuais (geralmente garantir uma boa produtividade das áreas. Estas
milho e feijão). Após a realização das colheitas, as áreas práticas são aqui denominadas de “práticas de manejo
são deixadas em pousio. de populações de samambaia”, sendo que as duas
Conforme os entrevistados, após um ano de principais técnicas são o pisoteio das “bolas” de
abandono das áreas cultivadas, as malhas de samambaia samambaia e a retirada de frondes senescentes após
começam a aparecer. Todavia, estes não consideram a coleta.
recomendável a coleta no primeiro ano, visto que neste O pisoteio das “bolas” de samambaia geralmente
período a samambaia estaria fraca e com frondes é realizado imediatamente após a coleta. Após a
pequenas. De acordo com a maioria dos extrativistas, retirada das frondes os extrativistas caminham por cima
somente a partir do segundo ano de pousio que se torna das áreas onde recém coletaram a fim de estimular a
possível começar a coletar as frondes sem prejudicar vinda de uma nova brotação. Já a retirada das frondes
a planta. velhas após a coleta (realizada exclusivamente por
Nestes casos, o manejo da paisagem é bastante mulheres) tem por objetivo “dar mais força” para a
intenso, pois se baseia no sistema tradicional de planta brotar novamente.
derrubada e posterior queima da vegetação da capoeira,
mantido historicamente pelos agricultores da região. Análise de correspondência – Os três primeiros eixos
Conforme relatado pelos entrevistados, esta associação produzidos pela análise de correspondência correspon-
entre sistemas de cultivo de plantas anuais e dem a 69,4% da variação total dos dados. De acordo
extrativismo de samambaia já foi bem mais freqüente com Prado et al. (2002), quando os dois ou três
na região, diminuindo consideravelmente devido às primeiros eixos explicam grande parte da variação (60
restrições impostas pela legislação ambiental. Estas a 90%), torna-se possível usá-los para descrever todo
restrições também implicaram em uma redução das o sistema sem grande perda de informação. Não foi
áreas cultivadas na região. Os agricultores-extrativistas procedida a interpretação do terceiro eixo, uma vez
que ainda praticam este sistema de manejo salientam que este não apresenta descritores com correlações
que “derrubam só uma parte da área para botar roça, acima do valor mínimo estabelecido.
o resto deixam virar mato”. Os entrevistados que não No eixo um a ordenação está associada aos
utilizam mais este sistema, implementam suas roças descritores “freqüência de corte” (FCO), “realização
sempre no mesmo local, a fim de evitar a formação da de derrubadas” (DER), “realização de queimadas”
capoeira. Este motivo também levou a redução do (QUE) e “interação com agricultura” (IAG). Um
tempo de pousio das parcelas agrícolas, primeiro agrupamento (13 entrevistados - grupo A) é
descaracterizando o sistema de agricultura tradicional. formado por extrativistas que apresentaram valores
Uma outra estratégia encontrada na região foi a mais altos de FCO e pouca associação com DER, QUE
extração de R. adiantiformis em áreas onde a capoeira e IAG. Um segundo grupo (11 entrevistados - grupo B)
830 Baldauf, Hanazaki & Reis: Caracterização etnobotânica dos sistemas de manejo de samambaia-preta...
é formado a partir da associação de alguns extrativistas maior intensidade de coleta à existência de períodos
com estes três últimos descritores e valores menores de alta pluviosidade, nos quais a brotação seria mais
de FCO. Ainda ocorre a formação de um terceiro rápida.
grupo (seis entrevistados - grupo C), este mais O grupo B, associado aos descritores DER, QUE
relacionado ao eixo dois, portanto associado aos e IAG, evidencia a já mencionada interface do
descritores “realização de podas e roçadas na extrativismo com as práticas agrícolas, visto que a
capoeira” (POD) e “realização de práticas de manejo derrubada da capoeira e o uso do fogo estão associados
das populações de samambaia” (MSA) (Fig. 1). ao sistema local de agricultura de coivara. Também é
O grupo A é predominantemente composto por possível constatar um pequeno grupo de agricultores
entrevistados cuja principal atividade é a extração de cuja atividade extrativista está associada à criação de
samambaia. É formado por extrativistas que não gado (ainda que o descritor IGD não tenha sido utilizado
realizam nenhuma intervenção na paisagem para na análise por apresentar valor inferior ao
manter a produtividade da área (com exceção do estabelecido).
entrevistado nº 26), tampouco realizam algum manejo Em relação ao eixo dois, ocorreu a formação do
das populações da espécie. Os membros deste grupo grupo C, onde estão agrupados todos os extrativistas
utilizam as freqüências de corte mais elevadas que realizam pequenas intervenções na paisagem
encontradas neste estudo (em média 4,9 cortes anuais, (podas e roçadas) nas áreas onde coletam e/ou
variando de dois até 12 cortes anuais em uma mesma executam alguma prática de manejo das populações
área). de samambaia, além de empregarem uma menor
Ao serem questionados acerca do uso de um freqüência de cortes em uma mesma área (em média
número mais elevado de cortes do que o empregado 2,9, variando de 1 a 5 cortes anuais em uma mesma
pela maioria dos coletores na região, os membros deste área).
grupo respondem que estão cientes que uma alta Portanto, é possível afirmar que os sistemas de
freqüência de corte provoca o enfraquecimento do manejo de R. adiantiformis na região de estudo se
rizoma e a diminuição do tamanho das frondes, no diferenciam principalmente pelo manejo da paisagem
entanto, alegam motivos de ordem econômica para (derrubadas, queimadas, podas e roçadas) e pelo uso
fazê-lo. Além disso, alguns extrativistas associam uma de práticas de manejo nas populações de samambaia
(técnicas como o pisoteio das malhas e retirada de
frondes senescentes). Este cenário reflete a idéia de
3.3
que o manejo de plantas pode ser entendido como
2.7 9
C resultado da integração de dois tipos de manipulação:
2.0 18
30
a manipulação da vegetação em massa e a manipulação
1.3
28
21
POD
de plantas individuais (Alcorn 1991). Desta forma, no
manejo da samambaia-preta são realizadas tanto
14
Eixo 2
10
0.7 22 B
0.0
A 26
4
24 intervenções em massa na capoeira (dentro do contexto
3
da agricultura de coivara) quanto práticas de
7 25
1915 DIN QDU 11 13
-0.7 29 17 20 2 12 8
16
23
FCO
6
IGD
5 manipulação nas “bolas” de samambaia, sendo que
-1.3 1
estas últimas têm por finalidade promover uma maior
27
-2.0
-2.0 -1.3 -0.7 0.0 0.7 1.3 2.0 2.7 3.3 regeneração das frondes da espécie. A intensidade e
Eixo 1 os tipos de manipulação das plantas e das paisagens
servirão como elementos diferenciadores dos sistemas
Figura 1. Diagrama de ordenação dos extrativistas e descritores
dos sistemas de manejo de samambaia-preta (Rumohra de manejo.
adiantiformis (G. Forst) Ching) no município de Maquiné, RS
Tipologia dos sistemas de manejo – Com base nos
produzido pela Análise de Correspondência, contendo os eixos 1
e 2. Os números representam os extrativistas entrevistados. FCO: resultados das entrevistas e da análise de
freqüência de corte; IAG: interação com agricultura; IGD: interação correspondência foi elaborada uma tipologia dos
com gado; DER: prática de derrubada; QUE: uso de queimadas; sistemas de manejo de samambaia-preta. Cabe salientar
POD: uso de podas/roçadas; MSA: manejo das populações de que um extrativista pode se valer de mais de um sistema
samambaia; SOR: coleta de frondes férteis; DAN: coleta de frondes
com danos; DIN: diminui coleta no inverno; BRO: diminui coleta
de manejo para explorar as populações de samambaia,
na brotação; QDU: quebra a fronde em duas partes; A: grupo A; sendo assim o resultado da soma das freqüências de
B: grupo B; C: grupo C (conforme texto). cada sistema de manejo ultrapassa 100,0%. A tipologia
Acta bot. bras. 21(4): 823-834. 2007. 831
Tabela 3. Correlação dos descritores dos sistemas de manejo utilizados por extrativistas de samambaia-preta (Rumohra adiantiformis
(G. Forst) Ching) no município de Maquiné, RS com os três primeiros eixos da ordenação produzida por Análise de Correspondência. Os
valores em negrito foram utilizados na interpretação do eixo.
QUE Realização de queimadas nas áreas de coleta de samambaia 0,78 0,02 0,09
IAG Interação com agricultura 0,69 0,06 0,06
DER Realização de derrubada das capoeiras nas áreas de coleta de samambaia 0,67 0,01 0,05
FCO Freqüência de corte 0,65 0,10 0,05
POD Realização de podas e roçadas nas capoeiras das áreas de coleta de samambaia <0,01 0,68 0,11
MSA Realização de práticas de manejo das populações de samambaia (pisoteio das malhas, 0,02 0,66 <0,01
retirada de frondes senescentes)
IGD Interação com gado 0,34 0,11 0,27
SOR Coleta de frondes que apresentam soros (férteis) <0,01 0,04 0,01
DAN Coleta de frondes que apresentam danos (sapecada, comida, torta...) 0,02 0,08 <0,01
DIN Diminuição ou suspensão da coleta do período do inverno 0,04 0,01 0,23
BRO Coleta durante o período de brotação da samambaia 0,01 0,02 0,11
QDU Realização da prática de quebrar uma fronde em duas <0,01 0,11 0,56
dos sistemas de manejo de R. adiantiformis dos informantes. Este sistema é baseado na agricultura
empregados no município de Maquiné é descrito a de coivara, caracterizada pela derrubada e posterior
seguir: queima da vegetação para implantação de cultivos
a) Sistema de manejo um (SM1): utilizado por 40,0% anuais. Após alguns ciclos de cultivo, é iniciado o
dos entrevistados. Neste sistema, o extrativista período de pousio, no qual ocorre a extração da
praticamente não intervém na paisagem para manter samambaia. Geralmente, a coleta da fronde é iniciada
a produção das áreas onde se localizam as populações a partir do segundo ano de pousio e pode ter
de samambaia. As intervenções limitam-se à coleta continuidade por vários anos, até que a ocorrência da
das frondes e a roçadas eventuais para manutenção espécie comece a diminuir, devido ao excesso de
das trilhas. Também não são realizadas práticas de sombreamento. O SM3 é utilizado exclusivamente em
manejo nas populações de samambaia. Ocorre tanto terras próprias, onde a paisagem é formada por
em terras próprias como arrendadas e é realizado mosaicos de vegetação em diferentes estádios
principalmente pelos informantes que consideram a sucessionais e apresenta as menores freqüências de
extração de samambaia como sua atividade principal, corte empregadas na região. Uma variante deste
sendo também caracterizado pela aplicação das sistema é empregada por um dos informantes. Nesta
freqüências de corte mais elevadas. variação a exploração da samambaia só inicia no quarto
b) Sistema de manejo dois (SM2): utilizado por 20,0% ano de pousio e a coleta das frondes é realizada somente
dos entrevistados. O manejo da paisagem onde são no período do inverno, época em que existe grande
feitas as coletas é realizado através de podas de demanda pela espécie.
algumas árvores e roçadas na capoeira. Neste sistema d) Sistema de manejo quatro (SM4): este sistema,
também são realizadas técnicas de manejo das utilizado por 16,6% dos extrativistas, está centrado na
populações, as quais visam estimular a brotação da criação de bovinos enquanto estratégia para impedir o
samambaia. As técnicas utilizadas são a retirada de estabelecimento do processo de sucessão florestal.
frondes senescentes e o pisoteio das malhas de Assim como no sistema anterior, as áreas com capoeira
samambaia durante e após a coleta. grossa são derrubadas, queimadas e neste caso,
Este sistema é empregado predominantemente substituídas por pastagem perene para o gado. Estas
pelos extrativistas que coletam em terras próprias, parcelas são queimadas de forma periódica e a samam-
ocorrendo mais raramente em terras arrendadas. A baia é extraída durante a regeneração da área. O SM4
freqüência de corte utilizada é intermediária, sendo o é implementado exclusivamente em terras próprias,
valor mais comum o de três cortes anuais. sendo que são utilizadas tanto freqüências baixas (1-2
cortes anuais), quanto freqüências relativamente altas
c) Sistema de manejo três (SM3): é usado por 30,0% (até cinco cortes anuais) de coleta das frondes.
832 Baldauf, Hanazaki & Reis: Caracterização etnobotânica dos sistemas de manejo de samambaia-preta...
meus filhos e ensinaria eles como tirar certinho, o jeito, Clement, C. 1999. 1492 and the loss of Amazoniam crop
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