CAPÍTULO I: INTRODUÇÃO
1. Introdução
O trabalho tem o tema: A importância de uso das fontes orais no ensino de História. Caso: 9ª
Classe, Escola Secundária Geral de Quelimane, (2021-2023). A oralidade em muitos locais
onde existe poucos documentos escritos ou quase inexistentes admite ainda como fonte
essencial para a reconstrução da história do tal povo, na África em particular admite se muito
este tipo de fontes devido o aperfeiçoamento tardio da escrita.
O decorrer da evolução das sociedades humanas, têm deixado ao logo do tempo vários
vestígios que justificam a sua existência num determinado lugar. Esses locais por vezes têm
ganhado uma expressão histórica devido a sua relevância. Porém, a relevância histórica desses
locais as vezes não verifica-se devido a vários factores, dentre eles, a conservação e a
valorização como um local histórico.
A história como ciência é feita de diversas fontes como as escritas, arqueológicas ou materiais
e as orais, e estas fontes estão distribuídas duma maneira irregular no tempo e no espaço. Em
África também encontramos esses problemas onde abundam mais as fontes orais, devido a
conjugação de vários factores como elevados custos para a realização das escavações
arqueológicas e aliado ao facto de inexistência do capital humano qualificado para realizar as
mesmas. Então neste trabalho procura se reconstruir a história da África, onde a fonte oral é a
mais disponível para nos informar a respeito da história local.
Está-se ciente de inexistência duma fonte que possa dar uma informação mais genuína sobre
uma história dum dado povo, visto que não existe uma fonte superior que a outra, todas estão
sujeitas a equívocos e fabulações, assim sendo abre se a mão para recorrer se a tudo o que
possa dar uma informação ao historiador acerca da história.
Ao preservarmos e usarmos as fontes orais esteremos a desafiar em contextos cada vez mais
globalizados, da história local na região.
A monografia é composto por (5) cinco capítulos: sendo o primeiro, que é a parte da
introdução. Neste temos como assuntos abordados, a introdução, justificativa, a delimitação
da pesquisa, problematização, objectivos, hipóteses, delimitação temporal, referencial teóricos
e universo de amostra.
Já no segundo capítulo, aborda a revisão bibliográfica e definição de conceitos, a partir dos
conceitos básicos sobre o tema em estudo.
No terceiro capítulo, aborda sobre aspectos de metodologias de trabalho. No quarto capítulo, a
discussão dos dados do trabalho.
No quinto que é o último capítulo, aborda sobre a conclusão e sugestões.
1.2. Delimitação espacial e temporal do tema
O estudo delimita-se à análise das fontes orais no ensino de História. Os sujeitos envolvidos
são os alunos e os professores que ministram as aulas nessa disciplina.
As razões da escolha desta escola é por ter sido o local onde fiz as práticas pedagógicas, das
disciplinas curriculares desde 2021 à 2023, incumbidas pela UnISCED, por sua vez detectar o
problema em estudo e ser residente na cidade de Quelimane, Província da Zambézia.
1.3. Contextualização
A valorização e o uso das fontes históricas é um desafio importante, especialmente no ensino
de história. Neste contexto, é necessário aplicar estratégia relevante no ensino da educação
para garantir a preservação das tradições culturais moçambicanas.
Sabe-se de antemão, que o tema em pesquisa é socialmente útil que o seu sucesso pode
contribuir bastante na solução de vários problemas encontrados no seio dos alunos, que se
caracterizam do não conhecimento da sua história, o que implica o desconhecimento da sua
cultura, da sua identidade, apesar de não existir de um povo sem história, sem cultura e
mesmo sem identidade.
O alcance dos objectivos do milénio na área da educação em particular para os jovens, são
obrigados em saber a sua história e melhor construí-la.
1.4. Justificativa
A escolha do tema está aliado ao facto de exiguidade de fontes escritas sobre o local e para
África e Moçambique em particular fonte oral ainda é considerada uma das principais para a
reconstrução da história de Moçambique, devido a raridade de documentos escritos sobre a
região, aos custos elevados para a realização de escavações arqueológicas aliado a exigência
desta mesma fonte que é a existência de pessoal qualificado para a realização das escavações
arqueológicas, assim surgindo a necessidade de averiguar neste período em estudo de 2021-
2023 que conteúdos podem se recolher através do uso da oralidade para reconstruir-se a
história oral.
Através dessa pesquisa, será possível analisar as práticas de ensino da história oral adoptadas
na escola, bem como avaliar o impacto dessas práticas na valorização da história oral e das
tradições culturais locais.
Ao realizar este estudo de caso, espera-se a promoção da diversidade cultural e o
fortalecimento da identidade cultural moçambicana. Além disso, os resultados obtidos
poderão servir de base para aprimorar as práticas educacionais, desenvolver políticas públicas
mais efectivas e proporcionar oportunidades igualitárias de aprendizagem para todos os
alunos, garantindo a promoção de uma educação inclusiva e culturalmente sensível na história
oral de Moçambique.
A pesquisa procura uma metodologia que servira de instrumento do aluno, assim como da
comunidade em geral, que lhe identifique. É importante investigar o tema porque pode ajudar
aos professores a melhorar a qualidade de ensino, na medida em que-se vai estabelecer as
razões das dificuldades e por conseguinte os alunos podem ser capazes perceber a matéria
com facilidade, saber esclarecer para as futuras gerações vindouras, uma vez que o aluno de
hoje é pai do amanhã e a educação oral, contribui na preservação cultural.
Por conseguinte, esta pesquisa poderá servir de um instrumento de consulta aos leitores
enriquecerem os seus conhecimentos, recorrendo as informações científicas para interpretar os
conhecimentos históricos e sócio- culturais do dia à dia do seu meio, mesmo da utilização de
recursos tecnológicos para melhorar a sua qualidade de conhecimento.
É importante frisar que o trabalho não esgota todos conhecimentos sobre o tema é apenas uma
ficha que resulta de motivações pessoais e uma necessidade de compreender alguns assuntos
de dinâmica social, não vedando assim a necessidade de existência de mais trabalhos que
possam enriquecer o mesmo.
1.5. Problematização
Mesmo ciente da credibilidade insatisfatória da fonte oral na África em particular em
Moçambique ainda são mais utilizadas com frequência estes tipos de fontes devido várias
razões como o caso do aperfeiçoamento tardio da escrita dos povos que nesta região habitam,
sendo assim coloca-se se a fonte oral na dianteira para perceber os aspectos históricos destes
povos. Actualmente, no local em estudo os professores não ensinam os conteúdos da história
oral durante o processo de ensino-aprendizagem, uma vez que as fontes orais contribuem
assim para o enriquecimento de assuntos inerentes a história local, que é uma das
componentes essenciais no ensino, mas que esta, não é aproveitada pelos professores e a
comunidade académica que aí se encontra.
A autora do trabalho, durante o período de estágio integral das práticas pedagógicas referentes
as cadeiras currículares, na Escola Secundária Geral de Quelimane, no período comprendido
entre 2021 à 2023, constatou que os professores no momento das aulas da disciplina de
história, não leccionam os conteudos que abordagem sobre as fontes orais, uma vez que
constitui-se uma das prioridades da escola na preservação da identidade cultural, nesta era da
globalização. Então, nesta linha do pensamento surge a seguinte questão para a pesquisa:
Até que ponto a fonte oral pode reconstruir a história local na preservação da identidade
cultural em Moçambique?
1.6. Objectivos
1.6.1. Geral
Analisar o papel das fontes orais para a reconstrução da história local em
Moçambique.
1.6.2. Específicos
Identificar os modelos de educação no ensino de história sobre as fontes orais;
Caracterizar as fontes orais na preservação da identidade cultural no contexto actual da
globalização;
Propor várias estratégias para o melhorar o ensino das fontes orais na reconstrução da
história local em Moçambique.
1.7. Hipóteses
1.7.1. Hipótese principal
Se valorizar as fontes orais na educação do ensino de história, surtirá efeitos
desejados.
1.7.2. Hipóteses secundárias
Se planificarmos para o ensino das fontes orais em Moçambique, surtirá efeitos
desejados;
Educação de história sobre as fontes orais, deve ser ensinadas nas matérias que
abordam sobre a história local, na valorização e preservação da identidade sócio-
cultural;
Os professores de história nas suas aulas devem planificar conteúdos que abordam
sobre as fontes orais para a valorização e preservação da história local.
1.8. Relevância do tema
Abordagem deste tema reveste grande valor educacional na medida em que, a educação é e
sempre será a primeira prioridade social e cultural de um Estado, Nação ou comunidade,
como forma de transformar a mentalidade dos cidadãos ou da população, através da formação,
visando construir uma sociedade próspera.
1.8.1. Relevância social
O estudo das fontes orais em Moçambique, com foco na Escola Secundária Geral de
Quelimane, possui uma relevância social significativa.
Esse estudo também é socialmente relevante por promover o desenvolvimento académico e
oferecer oportunidades futuras para os alunos. Ao aprender mais as crianças acabam
conhecendo e valorizando a sua história local.
Portanto, o estudo permite preservar a identidade cultural em Moçambique tem importância
socio-cultural.
1.8.2. Relevância científica
Esse estudo pode gerar conhecimento científico sobre a relação entre educação no ensino de
história das fontes orais e identidade cultural em Moçambique, preenchendo uma lacuna na
literatura académica existente. Ao considerar a perspectiva específica da Escola Secundária
Geral de Quelimane, será possível obter resultados e conclusões que contribuam para o
avanço do conhecimento nessa área.
A relevância científica desse estudo está em contribuir com o conhecimento académico sobre
a relação entre educação no ensino de história das fontes orais e história local, na preservação
da identidade cultural em Moçambique, além de fornecer orientações práticas para a área da
educação no país.
1.9. População e o universo da amostra
Neste trabalho foi utilizado o critério de amostragem não probabilística. Para definir a
amostra seleccionada, mas especificamente, utiliza-se a amostra não probabilística, onde o
critério de amostra probabilística no qual é um procedimento em que todos elementos tem
uma probabilidade conhecida e superior de integrar na amostra.
O guião de inquérito foi elaborado para todos os (6) seis professores da disciplina de história,
e (60) sessenta alunos da 9ª classe duma forma aleatória, perfazendo um universo de (66)
sessenta e seis pessoas.
1.10. Referencial teórico
Esta pesquisa identifica-se mais com Joseph Ki-Zerbo, na medida em que ele vai dar uma
extrema importância a fonte oral para a reconstrução da história de África ou dos povos sem
escrita do que qualquer outra fonte. Ele afirma que esta fonte vai aparecer como repositório
ou vector e avança mais afirmando que a fonte oral é um museu vivo de história e em muitas
vezes o que é esmagado pela superfície de uma folha de papel, então são todos esses
argumentos sábios que fizeram com que eu tenha o autor como minha referência para a
pesquisa, ele traz elementos que deixam com muita ansiedade em descobrir o real papel desta
fonte como reconstrutor do passado do Homem e as suas realizações em especial no local em
estudo. (Ki-Zerbo, 1957, p.440).
O capítulo a seguir aborda da revisão da literatura e definiçao de conceitos.
CAPÍTULO II: REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Contextualização
Neste capítulo, aborda sobre a revisão da literatura, e a definição dos conceitos, que serviram
para sustentar o trabalho em estudo.
Para Lakatos (1993), "revisão da literatura é, de uma forma geral, o aproveitamento das
diferentes discussões e conclusões constantes nas obras literárias de temas similares de um
trabalho. Ela serve como base de suporte teórico para a elaboração de qualquer pesquisa
científica".
Na minha análise a sua principal importância é a de conferir qualidade técnica e rigor
científico à pesquisa assim como qualquer outro trabalho de pesquisa.
2.2. Revisão da Literatura e Definição dos Conceitos
Na perspectiva de Bueno (2008, p.2), as fontes orais permitem, de uma forma organizada, o
conhecimento e a compreensão de valores sociais, religiosos e educacionais, normas e
comportamentos veiculados por esta oralidade. A tradição oral constitui um património da
comunidade negra.
Segundo Obenga (2010, p.101), na África existem inúmeros casos em que a tradição oral
orienta, por assim dizer, escavações arqueológicas, esclarecendo paralelamente a crónica
escrita. Um período mal conhecido da história africana pode ser reconstituído pela memória
dos homens.
O único e precioso elemento que as fontes orais têm sobre o historiador, e que nenhuma outra
fonte possui em igual medida, é a subjetividade do expositor. A fala e a escrita, por muitos
séculos, não existiram separadamente: se muitas fontes escritas são baseadas na oralidade, a
oralidade moderna encontra-se saturada de escrita (Portelli, 1997, p.31).
Nesta vertente, Gomes (1988, p.321) afirma que:
“Nos meios atrasados, onde a população é predominantemente analfabeta, a tradição oral
desempenha um papel assaz importante. Graças à grande capacidade de memorização dos
analfabetos, um património cultural, literário, coreográfico, por vezes rico, é conservado pelo
sistema de tradição oral durante gerações e gerações.”
Do exposto, pode-se afirmar que a história oral não possui um sujeito unificado, sendo
contada a partir de múltiplos pontos de vista. A imparcialidade tradicionalmente reclamada
pelos historiadores é substituída pela parcialidade do narrador. Pode-se ainda aferir que a
tradição oral desempenha um papel importante nas sociedades que conheceram tardiamente a
escrita.
2.2.1. História local e contexto de pesquisa
A História Local, segundo Goubert (2015, p.11), é aquela que diz respeito a uma ou poucas
aldeias, a uma cidade pequena ou média (um grande porto ou uma capital estão além do
âmbito local) ou a uma área geográfica que não seja maior do que a unidade provincial
comum (como um country inglês, um contado italiano, uma land alemã ou um pays francês).
O tema já foi palco de estudo por vários autores, que procuraram legitimar a oralidade como
fonte de produção do conhecimento histórico, com maior destaque para a história da África,
devido à escassez de fontes escritas sobre a região.
2.2.2. A tradição oral na construção do conhecimento histórico
Lahr (1945), na sua obra História da Filosofia, discute a definição da fonte oral, chamando de
tradição oral a transmissão de testemunhos feita oralmente e fixada ulteriormente por meio de
monumentos ou escritos. Toda narração escrita mais de um século após o acontecimento pode
ser considerada tradicional. Embora seja o modo de transmissão mais exposto a alterações e
exageros, o autor adverte que seria erro negar-lhe credibilidade, devendo-se, porém, aplicar-
lhe uma crítica rigorosa para aferir até que ponto é fiável.
Ki-Zerbo (1972), em História da África Negra, vol. I, ressalta que a tradição oral ainda é
muito discutida como fonte histórica, embora cada vez menos. Os historiadores mais
reticentes continuam a negar qualquer utilidade à tradição oral, mas a maioria dos
historiadores africanos já admite a sua validade, mesmo que alguns a considerem menos
consistente do que as fontes escritas. O autor mostra que, gradualmente, se vem superando a
recusa dessa fonte por parte de alguns estudiosos.
Bloch (1974), em Introdução à História, procura demonstrar a infinidade dos testemunhos
históricos, afirmando que “tudo quanto o homem diz, ou escreve, tudo em que toca, pode e
deve informar a seu respeito”.
Em História e Historiadores (Bloch, 1998), o autor avança que uma recordação, por mais
pessoal que seja, está em relação com um conjunto de noções compartilhadas por muitos
outros — pessoas, grupos, lugares, toda a vida material e moral da sociedade. Essas categorias
de origem social permitem localizar as imagens do passado no tempo e no espaço, nomeá-las
e compreendê-las. A memória depende em grande medida do discurso interior; as memórias
coletivas nunca nos falham. O homem avisado, que sabe que são raros os testemunhos exatos,
é menos pronto a acusar de mentira o amigo que se equivoca.
Gomes (1988), em Introdução ao Pensamento Histórico, aborda a tradição oral sob o ponto
de vista das limitações enfrentadas pelos antigos historiadores ao utilizarem esse tipo de fonte,
principalmente pela ausência de métodos modernos de investigação científica. O autor
acrescenta que as questões temporais eram curtas, visto que, utilizando apenas a fonte oral,
não se podia ir muito longe na reconstituição do passado. Contudo, reconhece a aplicabilidade
dessa fonte em populações atrasadas ou predominantemente analfabetas.
2.2.3. A valorização da tradição oral na historiografia africana
Ki-Zerbo (2010), em Metodologia e Pré-História da África, dá ênfase à importância da fonte
oral, considerando-a repositório e vetor do capital de criações socioculturais acumuladas pelos
povos sem escrita — um verdadeiro museu vivo. Para ele, a história falada constitui um fio
frágil para reconstituir os corredores obscuros do tempo, cujos guardiões são os velhos de
cabelos brancos e memória cansada, verdadeiros ancestrais em potencial, derradeiras ilhotas
de uma paisagem outrora imponente.
Em poucas palavras, a tradição oral não é uma fonte aceita apenas por falta de outra melhor. É
uma fonte integral, com metodologia própria e consolidada, que confere à história africana
uma notável originalidade. Assim, a recomposição do passado está longe de ser puramente
imaginária.
Obenga (2010), em Fontes e Técnicas Específicas da História da África, discute a contestação
sofrida pela fonte oral, durante muito tempo desprezada. Afirma que, em muitos casos, ela
constituía a fonte mais imediatamente disponível. Em vários contextos africanos, a tradição
oral orienta as escavações arqueológicas e complementa as crónicas escritas. Assim, períodos
pouco conhecidos da história africana (séculos VII a XIII) podem ser restituídos à memória
dos homens.
O autor chama atenção para o fato de que a história africana não pode mais ser feita como no
passado, quando a tradição oral — manifestação do tempo — era afastada da investigação
histórica. Destaca ainda a necessidade de compreender como a tradição oral apresenta o
tempo e os acontecimentos através do tempo.
Vansina (2010), em A Tradição Oral e Sua Metodologia, afirma que uma sociedade oral
reconhece a fala não apenas como meio de comunicação diária, mas também como
instrumento de preservação da sabedoria ancestral. Define tradição oral como um testemunho
transmitido verbalmente de geração em geração. A oralidade, portanto, é uma atitude diante
da realidade, e não a ausência de escrita.
Para o autor, as tradições orais desconcertam o historiador contemporâneo, acostumado a lidar
com abundância de evidências escritas. Elas exigem retorno contínuo às fontes, sobretudo nos
processos de ensino e aprendizagem da História.
2.2.4. A ampliação do conceito de documento histórico
O Manual de Ensino a Distância da Universidade Pedagógica (s/d), na obra Didáctica de
História e Geografia – Ciências Sociais: O Homem no Meio Sócio-Geográfico, mostra que os
documentos que compõem a história vão além dos escritos, apoiando-se em Lucien Febvre,
quando afirma que a história é feita de documentos escritos, sem dúvida, quando existem —
mas pode e deve ser feita com tudo o que o engenho do historiador permitir. “Com palavras,
sinais, paisagens e telhas pode-se construir o passado humano.”
2.2.5. História oral e debates teórico-metodológicos contemporâneos
Ferreira (2002), em História, Tempo Presente e História Oral, apoiando-se em Patrick
Hutton, destaca que o interesse dos historiadores pela memória foi, em grande medida,
inspirado pela historiografia francesa, especialmente a história das mentalidades coletivas
surgida na década de 1960. Esses estudos, voltados à cultura popular, vida familiar, hábitos
locais e religiosidade, já implicavam a noção de memória coletiva, ainda que indiretamente.
De início, a história oral desenvolveu-se fora da comunidade tradicional de historiadores, pois
o fetichismo do documento escrito, a crença na objetividade das fontes e o foco nos períodos
remotos limitaram o espaço para a discussão sobre fontes orais. Contudo, transformações
recentes na historiografia, especialmente na história do século XX, abriram novos debates
sobre o papel das fontes históricas, permitindo à história oral ocupar um espaço de destaque.
As críticas dos historiadores tradicionais estimularam os praticantes da história oral a
refletirem e aperfeiçoarem seus métodos, resultando num saldo positivo. Mesmo
reconhecendo suas dificuldades, a história oral apresenta um potencial de pesquisa
extremamente rico, que deve ser explorado de forma crítica e rigorosa.
2.2.6. A história oral como narrativa e suas especificidades
Portelli (1997), em O Que Faz a História Oral Diferente, ressalta que as fontes orais, embora
frequentemente reduzidas a transcrições escritas, têm valor próprio. A destruição dos registos
sonoros representa simbolicamente a destruição da palavra falada.
As fontes orais informam sobre povos iletrados ou grupos sociais cuja história foi distorcida
ou negligenciada. Além disso, revelam aspectos da vida diária e da cultura dessas
comunidades.
A história oral é essencialmente narrativa. A análise de seus materiais deve considerar
categorias da teoria narrativa literária, pois a história oral conta menos sobre os eventos e
mais sobre os significados atribuídos a eles. Isso, contudo, não reduz sua validade factual.
As fontes orais não são objetivas — mas nenhuma fonte o é. A sacralidade da escrita muitas
vezes nos faz esquecer que toda fonte é parcial. A não objetividade das fontes orais decorre de
características próprias: são mais variáveis, artificiais e parciais.
2.2.7. A Importância da Fonte Oral na Construção da História Local
A fonte oral, na África mais do que em outros lugares, é parte integrante da base documental
do historiador, que desse modo vê o seu campo de investigação ampliado. Assim, a história
africana não pode mais ser feita como no passado, quando a tradição oral — que é uma
manifestação do tempo — era afastada da investigação científica.
2.2.8. Memória e Identidade Social
Segundo Pollak (1989, p.12), a memória é constituída por acontecimentos, pessoas,
personagens e lugares.
Os acontecimentos podem ter sido vividos pessoalmente, ou pelo grupo, ou pela coletividade
à qual a pessoa sente pertencer.
As pessoas ou os personagens podem ou não ter participado do acontecimento naquele
espaço-tempo, mas contribuem para forjá-lo na memória. Já os lugares são aqueles
particularmente ligados a uma lembrança que favorece um sentido de pertencimento.
Portanto, a fonte oral pode acrescentar uma dimensão viva à historiografia, trazendo novas
perspectivas, pois o historiador, muitas vezes, necessita de documentos variados — não
apenas os escritos. Vale aqui mostrar a evolução de uma prática importante que compõe parte
essencial da historiografia contemporânea. Assim, o objetivo deste capítulo é demonstrar a
importância do uso da oralidade como fonte de produção de conhecimento histórico.
De acordo com Ki-Zerbo (2010, p.29), “a recomposição do passado está longe de ser
integralmente imaginária; encontram-se aí fragmentos de lembranças, filões de história, seja
como for, a validade da tradição oral está amplamente provada nos dias atuais.”
Como sustenta Alberti (1989, p.4):
“A história oral apenas pode ser empregada em pesquisas sobre temas
contemporâneos, ocorridos em um passado não muito remoto, isto é, que a
memória dos seres humanos alcance, para que se possa entrevistar pessoas
que dele participaram, seja como atores, seja como testemunhas. É claro que,
com o passar do tempo, as entrevistas assim produzidas poderão servir de
fontes de consulta para pesquisas sobre temas não contemporâneos.”
Do texto exposto acima pode-se aferir que a oralidade, conforme a citação, centra-se na
memória humana e na sua capacidade de rememorar o passado enquanto testemunha do
vivido.
Podemos entender a memória como a presença do passado — uma construção psíquica e
intelectual composta de fragmentos representativos desse mesmo passado, nunca em sua
totalidade, mas de forma parcial, em decorrência dos estímulos que orientam sua seleção.
Para Camargo apud Albert (2004, p.13), “a história oral é legítima como fonte porque não
induz a mais erros do que outras fontes documentais e históricas. O conteúdo de uma
correspondência não é menos sujeito a distorções factuais do que uma entrevista gravada.”
2.2.2 – A História e a Sua Composição na Oralidade
Segundo Hutton apud Ferreira (2002, p.320), o interesse dos historiadores pela memória foi,
em grande medida, inspirado pela historiografia francesa, sobretudo pela história das
mentalidades coletivas, que emergiu na década de 1960. Nesses estudos, que focalizavam
principalmente a cultura popular, a vida familiar, os hábitos locais e a religiosidade, a questão
da memória coletiva já estava implícita, embora não fosse abordada diretamente.
Para Alberti (1989, p.41), esta dificuldade está relacionada ao fato de a história oral não
pertencer a um campo estrito do conhecimento. Segundo a autora,
“sua especificidade está no próprio fato de se prestar a diversas abordagens, de se mover num
terreno pluridisciplinar”.
O próprio autor, ao se propor a conceituar a história oral, usa a palavra “arriscando” quando o
faz (Alberti, 1989, p.52):
“...um método de pesquisa (histórica, antropológica, sociológica) que privilegia a realização
de entrevistas com pessoas que participaram de, ou testemunharam acontecimentos,
conjunturas, visões de mundo, como forma de se aproximar do objeto de estudo. Trata-se de
estudar acontecimentos históricos, instituições, grupos sociais, categorias profissionais,
movimentos...”.
Talvez, em virtude dessa abrangência, a história oral comporte três tipos de abordagens, a
saber: história oral de vida, história oral temática e tradição oral.
Conforme Camargo (1989), a história oral de vida garantiu “o rigor, a fidedignidade e a
riqueza que a técnica que a história oral por si mesma não possuía”, e segue afirmando que
“nada mais consistente do que uma longa vida que se decifra, com a chancela de um
gravador”.
A história oral de vida tem aumentado seu âmbito de atuação, sendo enfaticamente
reivindicada por várias disciplinas como História, Antropologia e Sociologia.
Não é nosso objetivo discutir a quem pertence esse método, contudo, concordamos com a
autora quando afirma que as vantagens desse método são expressas em duas possibilidades
que a história de vida proporciona.
A primeira é a produção de uma nova documentação, onde se tem a oportunidade de
incorporar à literatura a versão que “os oprimidos e desprivilegiados têm dos grandes e dos
pequenos acontecimentos” (Idem).
A segunda possibilidade é o estabelecimento de um diálogo entre informante e analista, em
que é possível alcançar um ponto de intersecção no qual ambos possam compartilhar algo
novo, que se apresenta pela primeira vez ao analista e se reapresenta ao informante através de
sua memória (Debert, 1988, p.19).
Com efeito, a história da África, como a de toda a humanidade, é a história de uma tomada de
consciência. Nesse sentido, a história da África deve ser reescrita.
Como afirma Ki-Zerbo (1982, p.21):
“Até o presente momento, ela foi mascarada, camuflada, desfigurada,
mutilada.”
Com essas palavras, o autor prepara o terreno para colocar em evidência a importância da
fonte oral como instrumento de busca do passado humano.
2.3 – A Importância da Oralidade
Em muitas áreas ou regiões em que quase não existem documentos escritos sobre a história
local, a fonte oral pode nos orientar a obter informações sobre o passado, ainda que, em
muitos casos, os oradores não usem uma cronologia exata, apoiando-se mais no tempo
histórico, cabendo ao pesquisador formar raciocínios lógicos sobre as informações
concedidas.
Assim, a fonte oral é importante na medida em que — como questiona Bâ (2010, p.168):
“Não faz a oralidade nascer a escrita, tanto no decorrer dos séculos como no próprio
indivíduo?”
E o mesmo autor responde:
“Os primeiros arquivos ou bibliotecas do mundo foram o cérebro dos homens. Antes
de colocar seus pensamentos no papel, o escritor ou o estudioso mantêm um diálogo
secreto consigo mesmo; antes de escrever um relato, o homem recorda os fatos tal
como lhes foram narrados ou, no caso de experiência própria, tal como ele mesmo os
narra. Nada prova a priori que a escrita resulta em um relato mais fidedigno do que o
testemunho oral transmitido de geração a geração.”
Do conteúdo acima, pode-se afirmar que mesmo a fonte escrita parte antes de uma visão oral
— ou seja, tudo o que vai para o papel nasce primeiro do diálogo do escritor consigo mesmo
ou com outros. Assim, tanto a fonte oral como qualquer outra merecem atenção especial, pois
não existe uma mais fidedigna que a outra.
A memória oral é um recurso precioso. Ela toma a palavra e faz a mediação entre a nossa
geração e as passadas, sendo o intermediário formal da cultura. A memória oral de um povo
rema contra a maré — as pessoas hoje se agarram aos fiapos da sua memória familiar para
não deixar morrer a memória coletiva, sua história de vida e de povo construtor da história
(Bueno, 2008, p.4).
A memória oral interrompe o ciclo e traz a vida. Ela nos permite recolher toda a existência
passada.
Recordar com o coração não é apenas emergir no tempo, mas sair do tempo, é caminhar no
mundo das ideias. Ao avaliarmos a história de vida, estamos diante do poder da significação,
em que cada pessoa é única e realiza momentos de significações muito pessoais (Bueno,
2008, p.3).
Não obstante suas limitações, a história oral deve ser entendida como um método capaz de
produzir interpretações sobre processos históricos referidos a um passado recente, o qual,
muitas vezes, só é conhecido por intermédio de pessoas que participaram ou testemunharam
algum tipo de acontecimento.
Quando uma pessoa relata suas lembranças, transmite emoções e vivências que podem e
devem ser partilhadas, transformando-as em experiência, para fugir do esquecimento.
No momento em que uma entrevista é realizada, o entrevistado encontra um interlocutor com
quem pode trocar impressões sobre a vida ao seu redor; é um momento no qual lembranças
são ordenadas com o intuito de conferir, com a ajuda da imaginação ou da saudade, um
sentido à vivência do sujeito que narra sua história (Santos, p.3).
Ainda Hallett apud Patai (2010, p.13) avança:
“Nenhum documento pode nos dizer mais do que aquilo que o autor
pensava, o que ele pensava que havia acontecido, queria que os outros
pensassem que ele pensava, ou mesmo apenas o que ele próprio
pensava pensar. Nada disso significa alguma coisa, até que o
historiador trabalhe sobre esse material e decifre-os.”
Diante do conteúdo acima, pode-se afirmar que a fonte oral é de plena importância para a
reconstrução do passado humano, na medida em que ela fornece as bases sobre a história de
um povo.
Outros autores avançam que, onde não há registros escritos sobre o local, as fontes orais
orientam a elaboração dos documentos históricos.
Com a nacionalização do setor da educação após a independência, foi necessária uma reforma
total sobre os documentos que eram considerados coloniais. Nesse processo, muita história
escrita se perdeu, transformando-se em “cinzas”.
Numa situação como essa, resta recorrer aos idosos que guardam informações orais locais, o
que representa o emprego da oralidade como ferramenta de preservação da memória histórica.
2.4 – A Contribuição da Fonte Oral para a Reconstrução da História Local
Em primeiro lugar, importa salientar que, conversando com as pessoas envolvidas na
pesquisa, pode-se observar que as mesmas se entregaram à rememoração.
Ao ouvir cada depoimento, constatou-se que o sujeito possui habilidades e arte própria de
desenvolver a memória: ele não apenas lembra de imagens, ele evoca, dá voz, faz falar, revive
o conteúdo de suas vivências.
Enquanto evoca, ele vive novamente, com intensidade renovada, a sua experiência.
A memória e a conservação de si própria vêm à tona nos relatos. Ao ouvir a voz do narrador,
revivem-se momentos de vida junto aos mesmos; observam-se falas que produzem imagens e
sentimentos do tempo.
O que relatavam eram momentos familiares muito pessoais, cuja melodia do passado era
interpretada pelo presente.
Tendo como ponto de partida a história de vida, é possível acompanhar as transformações e
evolução da sociedade.
A rede de informações fortalece as relações de aprendizagem informal e transmite distintos
conhecimentos e modos de vida.
Na tradição oral, as palavras transformam-se em ação, em atividade comunicativa e em
relação de cumplicidade entre o contador e o ouvinte.
Nesse ato de contar circulam, além da cumplicidade, palavras que não foram herdadas
aleatoriamente, mas sim transmitidas pela cadeia dos ancestrais, os grandes depositários das
palavras nas comunidades orais, sendo o testemunho vivo dessas sociedades (Portelli, 1997).