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DISCURSO pronunciado, na capital da
Paraíba, em 8 de setembro de 1933
Ao sentir-me emcontacto com o povo paraibano,
satisfaço velha aspiração e cumpro, ao mesmo tempo,
o solene compromisso de trazer-lhe, pessoalmente,
o testemunho do meu apreço e admiração.
Embora retardada, por motivos imperiosos,
a visita que realizo agora, de ha muito estava feita
em espirito.
A Paraíba, terra de homens notáveis, que ilus-
traram o renome da Pátria, na gloria das armas,
das letras e da administração publica; berço de
Vidal de Negreiros— herói de uma epopéia, de João
Pessoa — o grande presidente sacrificado;— a Pa-
raíba surgia, aos meus olhos de filho do Sul,
em relevos de contornos nítidos. Ao longe, divisava
a terra calcinada pelo sol, incendida a luz esbra-
seante dos trópicos; a gente, brava e intemerata
na sua fé, apesar de ferida pelo ódio e sitiada
pela insidia.
O quadro por mim antevisto correspondia,
no Rio Grande do Sul, a uma impressão coletiva.
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Explica-se, assim, a intensa e constante vi-
bração com que o povo gaúcho mantinha unanime
repudio ás provações impostas ao povo paraibano.
Não ha expressões capazes de traduzir, com
verdade, o estado de alma de populações que,
tão afastadas geograficamente, se conservassem
unidas por uma mesma corrente de idéias e senti-
mentos.
Creio não exagerar afirmando: no momento
de maior tortura para a Paraíba, quando o homem
—símbolo da sua resistência heróica — tombava
traiçoeiramente trucidado, o Rio Grande do Sul
sentiu comoção idêntica cie desespero e cólera á
experimentada pelos denodados paraibanos.
Possuíamos, apesar da distancia, senso seme-
lhante da situação. Compreendíamos que os nossos
males políticos provinham, principalmente, da falta
de alicerces morais, sobre os quais se desenvolvesse,
com segurança, a ordem administrativa e se erigis-
se solidamente o edifício da nossa economia, e que
a mutação, imposta pelos acontecimentos, devia
assinalar-se por uma serie preliminar de demolições
inevitáveis.
A Paraíba iniciou-as, ferindo de morte o con-
ceito perigoso, amplamente generalizado na vida po-
lítica do país, representando-o como dividido entre
Estados fortes e Estados fracos.
Não se pôde negar que da aceitação dessa dua-
lidade, como principio norteador da nossa existência
federativa, decorreram inúmeros males.
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E' natural que certos Estados, pela sua situação
geográfica, condições de solo e clima e pela ação de
determinados fatores sociais, se avantajem aos de-
mais na rapidez e opulencia do seu progresso. E' na-
tural, também, que esses Estados encontrem na sua
expansão louvável estimulo patriótico para desen-
volvê-la cada vez mais, pois que o engrandecimento
das partes importa o enriquecimento do todo, isto
é, da Nação.
Erro, porém, é transformar-se esse aspecto eco-
nômico em regra de política nacional. Só uma falsa
ou falseada compreensão da essência do regime
federativo, tal como nós o temos, poderia justificar
tão absurdo critério.
A união se fez e existe, justamente, para am-
parar e promover o progresso de todas as unidades.
Si assim não fosse, que vantagem poderíamos au-
ferir do regime federativo ? A classificação, por-
tanto, entre Estados fortes e fracos, é uma aberração
no regime que adotamos.
Si essa tem sido a orientação seguida, com
poucas exceções, pela maioria dos Governos centrais,
nada é para estranhar que alguns Estados se quei-
xem de abandono e negligencia por parte da
União.
De maneira mais precisa, poderíamos dizer que
a política da União, em face dos Estados, deve
caracterizar-se por nobre afirmação de altruísmo,
capaz de ajustar as diferenças e neutralizar os surtos
inevitáveis de egoísmos regionais.
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Para a União, não devem existir Estados fracos
ou fortes; existem, sim, necessidades e deficiências
mais ao Norte, mais ao Centro, mais ao Sul, defi-
ciências e necessidades que lhe cumpre prover e re-
mediar sem exclusivismos ou preferencias, que só
teem servido para enfraquecer os laços de coesão
nacional, base e supremo escopo de sua finalidade
política.
O acontecimento periódico em que, por vezes,
com mais evidencia, se refletia essa anomalia da
nossa vida política, era a substituição do primeiro
magistrado da Republica. A falta de correntes par-
tidárias que orientassem a opinião, quando se tra-
tava de renovar o mandato presidencial, o espe-
táculo deprimente, cujo epílogo era quasi sempre
a farça eleitoral que a nação testemunhava cons-
trangida, consistia num digladiar de ambições pes-
soais, amparadas na influencia dos Estados chamados
fortes sobre os demais, que se viam arrastados á
submissão, ante a ineficácia de qualquer protesto.
A experiência da ultima campanha presiden-
cial está bem viva para ilustrar o asserto. O simples
fato de um pequenino Estado, no uso elementar
de uma prerrogativa institucional, ter ousado des-
garrar do rebanho, que, como de costume, o deten-
tentor do poder quadrienal, arvorado em supremo
pastor, apascentava sob o seu cajado oligarquico,
foi causa de vinditas e injustiças que não só cul-
minaram em um atentado pessoal, mas estimularam
o país á reação pelas armas.
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A significação dessa atitude foi, porém, de tal
alcance, que teve o prestigio de modificar os roteiros
clássicos de toda a vida política do país. Apesar
de considerado Estado fraco, a Paraíba, pela beleza
moral do seu gesto, pela energia com que afirmou
o seu veto ao conluio das oligarquias imperantes,
afeitas ao menoscabo sistemático da vontade na-
cional, cooperou decisivamente para que se impri-
missem novos rumos á solução do magno problema
da nossa existência federativa.
A Paraíba era, naturalmente, o Estado do
Norte mais indicado para acompanhar Minas e
Rio Grande do Sul, na campanha da Aliança Li-
beral. Longe de mim pensar que o desassombro,
a bravura e a tenacidade constituem privilegio do
povo paraibano. Todos os filhos do Norte são pa-
triotas e valorosos. Mas, no momento, esta prepon-
derância lhe cabia, porque, identificado em idéas e
sentimentos com o seu grande Presidente, formavam,
ambos, um bloco inamolgavel, sobre o qual os golpes
do poder central poderiam provocar revolta, porém
jamais desagregação. João Pessoa e o povo parai-
bano estavam unidos para a vida e para a morte,
podendo, por isso, oferecer a resistência que assom-
brou o país. A mesma gente destemerosa compõe
a população dos outros Estados. Desenraízados,
porém, os seus governantes das simpatias populares,
escravizavam-se ao poder central, e, ao menor aceno
deste, rolariam das posições, em meio da indiferença
ou, talvez, da alegria dos seus governados.
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Si outros resultados relevantes não proviessem
de tão grande exemplo de civismo, a só gloria de
haver provocado semelhante mudança bastaria para
ainda mais enaltecer, perante a conciencia da
nação, o justo renome do povo paraibano.
Saímos de um unitarismo absorvente, no Im-
pério, para cairmos nos exageros de um federalismo
mal compreendido e mal executado, na Republica.
Si ha Estados menos favorecidos pela natureza, com
populações mais pobres, é justo não fazer pesar
sobre elas os ônus de uma maquina administrativa
igualmente dispendiosa. Desafogá-las de encargos
fiscais exagerados significa tornar-lhes o trabalho
mais prospero e remunerador.
A futura organização constitucional do país
precisa refletir as particularidades da nossa vida, do
nosso meio, das nossas necessidades. Embora julgue
conveniente mantermos o regime representativo
presidencial e a forma federativa, por considerá-los
mais adaptáveis á nossa índole e formação polí-
tica, não devemos, entretanto, aferrar-nos aos
princípios dos modelos chamados clássicos, cuja
rigidez não permite abranger os múltiplos e com-
plexos aspectos da vida social contemporânea
Para nos convencermos disso, basta examinar os
padrões constitucionais dos países que sofreram,
ultimamente, abalos mais profundos. Si não cor-
respondermos a esses imperativos, a revolução terá
falhado, em um dos seus objetivos mais impor-
tantes.
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Representa fato incontroverso — e os consti-
tuintes terão de levá-lo em conta — a decadência
da democracia liberal e individualista e a prepon-
derância dos governos de autoridade, em conse-
qüência do natural alargamento do poder de
intervenção do Estado, imposto pela necessidade
de atender maior soma de interesses coletivos
e de garantir estavelmente, com o recurso das
compressões violentas, a manutenção da ordem
publica, condição essencial para o equilíbrio de todos
os fatores preponderantes no desenvolvimento do
progresso social. A chave de toda organização polí-
tica moderna é a segurança e eficiência desse equi-
líbrio. Onde ele faltar ha perturbação, entrechoques
e dispersão de energias. Si é verdade, como se afirma,
que o principio de coexistência social evoluiu, des-
locando-se do indivíduo para a coletividade, o
máximo que se deve aspirar, nos momentos contur-
bados e incertos do mundo atual, é a ordem para o
trabalho e o respeito para o cidadão, visando con-
ciliar, no interesse de todos, a liberdade com a
responsabilidade.
A analise direta das nossas realidades sociais
e o reconhecimento da necessidade de corrigirmos
os graves erros do passado impõem-nos a escolha
de novas diretrizes, projetadas em ampla avenida
aberta, rumo ao futuro, e cuja perspectiva abranja
o total aproveitamento das riquezas do país, aban-
donada para sempre, como caminhos escusos e in-
certos, a multidão de atalhos e vielas ilusoriamente
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demarcados com a promessa de idêntico fim, pelos
falsos mentores da nacionalidade.
Á luz desse critério, um dos problemas que pri-
meiro e de modo lógico se apresentam, com solução
por demais procrastinada, é o genericamente clas-
sificado como problema do Nordeste.
Das incertezas clirnatericas dessa região sofre-
dora, a Paraíba é uma das maiores vitimas. Senti-
nela do extremo Nordeste da Pátria, comprimida
entre o mar e o sertão periodicamente transformado,
pelo flagelo da seca, em fornalha infernal, onde
tudo se estiola, definha e morre, as suas populações
sofrem e resistem, conquistando apenas a gloria sem
conforto de lutadores desconhecidos, no conflito
perpetuo com as inclemencias da natureza.
A literatura nacional, idealizando a realidade,
tem descrito o que ha de doloroso na tragédia das
grandes estiagens. Primeiro — a esperança — o ser-
tanejo mantém-se fiel ao torrão ressequido até que
se exhaure a ultima gota dágua, sempre esperando,
em troca do dia que passa, de fome e sede, o amanhã
da chuva salvadora. Depois — a retirada — pun-
gente procissão de calvários infinitos, que um dos
vossos fotografou, com realidade tão aflitiva, nas
páginas comburentes d' "A Bagaceira".
O deslocamento em massa dos flagelados, ocor-
rência dolorosa em que se evidencia a tempera de
aço dos homens fortes do sertão, além dos prejuízos
morais que acarreta, reduz á mais extrema miséria
fisica valioso elemento humano, capital inestimável,
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principalmente num país, como o nosso, de fraca
densidade de população. Acresce tratar-se, como
já tive ensejo de dizer, de brasileiros cuja fortaleza
e energia são tão grandes, que lhes teem permitido
resistir, sozinhos, á conjugação dantesca do clima
e da nossa inclassificavel imprevidencia.
Compreende-se que as secas, como fenômenos
naturais, não possam ser evitadas, mas é crime
não lhes neutralizar os efeitos devastadores, pela
execução de uma serie de medidas previdentes.
A solução de problemas dessa natureza não
é impossível, nem constitue novidade. Desde tempos
imemoriais o efeito nefasto das estiagens periódicas
já fora corrigido pelo esforço inteligente do homem,
e a mais velha das civilizações perpetuou-se, altean-
do-se pela cultura, em combate continuado a fla-
gelos semelhantes.
Na atualidade, com os progressos da engenharia
e da técnica moderna, mais fácil se torna a correção
dessas anomalias climatericas.
Aperfeiçoados os conhecimentos meteoroló-
gicos, que permitam prever com maior segurança
os fenômenos atmosféricos; desenvolvidos os pro-
cessos mecânicos, que tornam possível a execução
rápida de grandes obras de canalização e barragem
capazes de proporcionar o aparelhamento de um
sistema completo de irrigação e de açudagem,
bem como de meios de locomoção e desenvolvimento
agrícola, ao nosso alcance todos estes fatores, a
dificuldade principal a enfrentar consiste, sem
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duvida, no financiamento dos respectivos tra-
balhos.
Essa dificuldade, já de si relevante, pelos
elevados recursos que exige, assume, no caso, maior
vulto, si considerarmos a precariedade da nossa
situação financeira. Contudo, não devemos jamais
esquecer o conceito contundente de Euclides da
Cunha, afirmando termos com o Nordeste uma
divida de quatrocentos anos, até hoje não resga-
tada. Periodicamente, somos obrigados a empregar
milhares de contos no socorro aos flagelados, cuja
desgraça não pôde ser indiferente aos nossos senti-
mentos de solidariedade humana, quando muito
mais útil, a eles e á nação, seria livrá-los dos efeitos
morais e materiais da catástrofe que os vitima,
roubando ao país, durante tão longo período de
incúria, cerca de um milhão de brasileiros, validos
para o trabalho fecundo e para a defesa da Pátria.
O problema secular que o Norte apresenta, da
conciliação do homem com a terra, tem sido, no
Brasil, completamente descurado. Na Republica,
as primeiras tentativas dignas de menção ocorre-
ram nos governos de Rodrigues Alves e Nilo Pe-
çanha, isso mesmo constando de obras isoladas, úteis
a determinadas zonas.
Na Presidência do Dr. Epitacio Pessoa, surgiu
o primeiro plano de conjunto, cogitando de dar so-
lução definitiva á velha aspiração dos Estados nor-
destinos. A má execução dos trabalhos iniciais,
falhos da previa segurança de continuidade, redu-
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ziram de muito as vantagens auferidas pelas zonas
devastadas, em flagrante desproporção com o vulto
das despesas feitas, fruto de inhabil direção no
desenvolvimento metódico e gradativo das obras.
Disso, porém, não se pôde atribuir culpa ao ilustre
paraibano, que, na Presidência da Republica, tentou
resolver o problema máximo do Nordeste e a quem
devemos render, por isso, o justo preito de nossa
homenagem.
Cumpre acabar de vez com a providencia mu-
çulmana de aguardar a catástrofe para acudir-lhe
aos efeitos, distribuindo esmolas. A respeito, man-
tenho o pensamento já externado quando candi-
dato. Na impossibilidade da execução imediata de
um plano completo, impunha-se-nos rever os exis-
tentes, expurgando-os de demasias e corrigindo-os
de acordo com a experiência. Foi isso que se fez,
expedindo-se o Decreto 19.926, de 20 de Fevereiro de
1931, que fixou as diretrizes para a solução defini-
tiva do problema, parceladamente, por etapas. Ha-
vemos de nos convencer que não ha outra solução
possível. Para atingi-la, basta garantir a continui-
dade das obras planejadas, consignando-se anual-
mente, para custeá-las, embora reduzida em épocas
de crise, uma verba cuja aplicação se faça integral
e proveitosamente.
Coerente com este critério, o Governo Provi-
sório, mesmo assoberbado de dificuldades financei-
ras, vem procurando manter em atividade os ser-
viços contra as secas, imprimindo-lhes orientação
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pratica, de benefícios imediatos. Este desejo de re-
solver o problema primordial do Nordeste foi um dos
fatores que, prevalecendo sobre qualquer outro, me
induziram a confiar a pasta da Viação, onde sua per-
sonalidade se firmou com relevo próprio, ao Dr.
José Américo de Almeida, inteligência lúcida,
caráter sem jaca, perfeitamente familiarizado com
as necessidades ambientes e digno continuador do
programa, idéias e métodos administrativos de João
Pessoa.
O vosso ilustre conterrâneo tem correspondido,
de forma elevada, á confiança que nele depositei.
Sobreleva-se, comprovando este asserto, a sua in-
tegral dedicação á tarefa ingente de prevenir e sua-
vizar os males do flagelo que vitima o Nordeste.
Nesse sentido, a obra realizada pelo Governo
Provisório, por intermédio do Ministério da Viação,
vem sendo providencial e, ao mesmo tempo, segura
e metódica. A assistência aos flagelados, aprovei-
tando-lhes a atividade em obras publicas, destina-
das a melhorar o bem-estar coletivo, pela abertura
de estradas e construção de açudes, além de lhes ga-
rantir o sustento individual e o de suas famílias, como
justa remuneração e não como simples esmola, é tam-
bém preventiva, porque prepara as zonas assoladas
para resistirem aos efeitos dolorosos das estiagens.
E' oportuno, ainda, observar que os açudes
agora construídos não são, como as antigas represas,
apenas depósitos de água estagnada, de precário ren-
dimento para a região que serviam. Consoante o
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plano estabelecido pela Inspetoria das Secas, pra-
tica-se a açudagem nas zonas onde seja possível
a irrigação, destinada a fertilizar as terras marginais
pois, somente assim, tais obras poderão preencher,
com real beneficio, os fins colimados.
Sendo de interesse geral do país, o assunto in-
teressa particularmente á Paraíba. Além de ligar-se
ao seu progresso, constituía constante preocupação
do seu grande Presidente, que, administrador de
larga visão, chegou a cogitar de enfrentá-lo com
os próprios recursos do Estado. Esse é mais um as-
pecto marcante da personalidade de João Pessoa que
o singulariza entre todos os governadores dos Estados
nordestinos. Enquanto os demais, sentindo igual-
mente os efeitos devastadores da catástrofe periodics
que assola estas regiões, só cuidavam de aumentar os
recursos dos erários estaduais por meio de emprés-
timos, despendidos perdulariamente, ele procurava
amealhar economias, para empregá-las em obras de
real proveito, destinadas a melhorar as condições de
vida do povo paraibano.
Até nisso a sua personalidade se integrava nas
aspirações e sofrimentos da sua terra e da sua gente.
Compreendo, assim, que tenhais legitimo or-
gulho em reconhecer nele o homem símbolo das
vossas qualidades representativas de alma e de ca-
ráter. A tenacidade na resistência; a energia paci-
ente e inamolgavel; o destemor levado ao supremo
limite de despreso pela vida; a fortaleza de animo
jamais desfalecente; a inteligência lúcida e prag-
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matica; o conceito inflexivel da honestidade e da
honra pessoal; o desprendimento idealista em face
das ambições comuns; alto sentimento de justiça e
igual nobreza de coração, tudo isso conformou a sua
personalidade á vossa imagem, porque ele bem
parecia, como observa Carlyle, uma força impetuosa
da natureza.
Não ha cores suficientemente fortes e capazes
de representar a vivo o quadro do sacrifício dessa
organização invulgar de homem publico, na hora de
depressão moral que atravessava a nacionalidade.
Sendo um espirito integro de juiz, servidor in-
flexivel da lei, lançou-se na luta política como quem
pratica um sacerdócio. Uma vez nela envolvido,
não mediu conseqüências na defesa de uma atitude
que corporificava, simultaneamente, direito impos-
tergavel e alevantado exemplo de dignidade cívica.
A insidia, aliançada á prepotência, envolveu-o
num verdadeiro circulo de vindita. Negou-se-lhe,
primeiro, a autoridade de falar em nome da Paraíba,
conspurcando a manifestação da vontade do seu
povo e acintosamente imolando os seus legítimos
representantes. Como isso não bastasse, para aba-
ter-lhe o animo de lutador, oficializou-se o cangaço
no reduto de Princesa, afim de obrigá-lo a capitular
pela força ou á mingua de recursos. Enquanto so-
bejavam aos desordeiros os elementos bélicos, que
abundantamente lhes fornecia o Governo da União e
dos Estados vizinhos, impedia-se-lhe a aquisição e
recebimento de armas e munições, legitimamente
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destinadas á manutenção da ordem e á defesa da
autoridade legal. Assistimos, assim, a este espetá-
culo: o Governo Federal, cuja função precipua é
manter a ordem em todo o território da Republica,
convertera-se em instigador e protetor da desordem,
negando-se a reconhecer ao poder constituído de
um Estado da Federação a faculdade elementar
de defender-se.
Foi nessa situação extremamente delicada,
quando João Pessoa ainda resistia impávido á arre-
metida subversiva que o sitiava, tentando manter-se
escudado na lei, dentro da ordem; foi nesse transe
decisivo, capaz de acelerar a reação nacional já
em marcha, que a morte o surpreendeu, emboscada
na traição e inspirada em torva vingança.
A Paraíba perdeu o seu grande Presidente —
perda irreparável, que lesou a própria Nacionali-
dade, diminuindo-lhe em muito o patrimônio cí-
vico. Mas não ficou ao desamparo. Teve o conforto
da solidariedade dos seus aliados e viu reproduzir-se,
na atitude e na ação de outros filhos, a ascendência
moral de João Pessoa. Vitoriosa a revolução, a
continuidade dessa ascendência ficou assegurada
com José Américo de Almeida, a voz mais autori-
zada para falar em nome da Paraíba, não só como
decidido colaborador de João Pessoa nas horas de
provação e sacrificio, em que foi tão intemerato
quanto o mestre, senão pela natural preponderância
do seu nome e valia dos serviços prestados á sua
terra. Manteve-a, depois, na interventoria do Esta do,
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a situação do Dr. Antenor Navarro, auxiliar e dis-
cípulo do grande Presidente, energia moça e com-
bativa, cujo trágico desaparecimento de novo en-
lutou a Paraíba. No seu sucessor, o Dr. Gratuliano
de Brito, que, por uma espécie de aclamação ple-
biscitaria das forças políticas do Estado, ascendeu
àquele alto posto, encontrou-se felizmente um conti-
nuador capaz de levar adiante a notável obra de
administração iniciada com tanta segurança e pre-
vidência pelo inolvidavel paraibano.
O nome de João Pessoa é hoje objeto de culto
cívico nacional — destino histórico compartilhado
pelo povo paraibano, com ele solidário nas horas de
amargura e de heroísmo — culto que encerra o re-
conhecimento da mais pura gloria, pois mostra que,
para a vitoria de um ideal, nem sempre é preciso
matar: basta, ás vezes, que se saiba morrer.
De povo e homens assim tudo se ha de esperar,
em prol das alevantadas e nobres causas.
Sei, por isso, que posso contar com a fidelidade
da Paraíba aos princípios da revolução, para asse-
gurar ao movimento de Outubro todas as suas le-
gitimas conseqüências, em beneficio do engrande-
cimento do Brasil.