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Matos

O ensaio analisa os conceitos de urbano e cidade em Moçambique, destacando a associação feita pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE) que limita o urbano aos limites político-administrativos das cidades e vilas. Essa confusão entre urbano e cidade resulta em interpretações errôneas sobre as características dos espaços urbanos e a população residente. A pesquisa se baseia na dualidade das cidades moçambicanas, conforme discutido por Araújo, e critica a superestimação da população urbana em censos anteriores.
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O ensaio analisa os conceitos de urbano e cidade em Moçambique, destacando a associação feita pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE) que limita o urbano aos limites político-administrativos das cidades e vilas. Essa confusão entre urbano e cidade resulta em interpretações errôneas sobre as características dos espaços urbanos e a população residente. A pesquisa se baseia na dualidade das cidades moçambicanas, conforme discutido por Araújo, e critica a superestimação da população urbana em censos anteriores.
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Resumo: O presente ensaio pretende problematizar os

CIDADE E URBANO EM conceitos de urbano e cidade adoptados em Moçambique.


MOÇAMBIQUE: UMA REFLEXÃO A Os dados apresentados pelo Instituto Nacional de Estatísticas
de Moçambique (INE) associam o urbano à cidade, ou seja, o
PARTIR DOS ESPAÇOS URBANOS DA urbano tem limites e o mesmo coincide com os limites político-
administrativos das cidades e das vilas moçambicanas.
PROVÍNCIA DA ZAMBÉZIA Esta coincidência de dois conceitos, que em princípios são
diferentes, mas que um influencia significativamente no outro,
acaba por carregar consigo interpretações equivocadas, não
só das características que os espaços urbanos moçambicanos
vão apresentar, como também no tamanho da população
CITY AND URBAN IN MOZAMBIQUE: residente nas áreas urbana e nas cidades.
Palavras-chave: Cidade. Urbano. Moçambique.
REFLECTIONS FROM URBAN SPACES OF
Abstract: This essay aims to problematize the concepts of
ZAMBEZE PROVINCE urban and city adopted in Mozambique. The data presented
by Mozambique National Institute of Statistical (INE) associate
the urban with the city. For this institution the urban has
limits and it coincides with the political-administrative
limits of Mozambique cities and towns. This coincidence of
two concepts, which in principles are different, but which
significantly influence the other, ends up carrying with it
Elmer Agostinho Carlos de Matos 1 misinterpretation, not only of the characteristics that the
Mozambican urban spaces will present, but also in the size of
the population living in the urban areas and cities.
Keywords: City. Urban. Mozambique.

Doutor em Geografia. Professor no Departamento de Geografia da 1


UEM, Moçambique. ORCID: [Link]
E-mail: elmermats@[Link]
108 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.46

Introdução
A referência à cidade em Moçambique está estritamente relacionada com a forma de
construção e concepção da visão urbano-ocidental. A cidade moçambicana é resultado de um
processo pastiche e desigual, que se encarregou de dividi-la em duas áreas, distintas, mas com-
plementares, denominadas por Araújo (1999; 2003) de cidade de cimento e cidade de caniço.
A produção teórica desenvolvida por Araújo (1999; 2003) terá influenciado a noção de
urbano utilizada pelo Instituto Nacional de Estatísticas de Moçambique (INE). Pesembora o au-
tor tenha criticado o conceito de urbano utilizado pelo INE, a base de trabalho dessa instituição
parece fazer referência à dualidade das cidades moçambicanas, discutida por Araújo (2003).
De acordo com Araújo, as cidades moçambicanas, assim como os espaços urbanos são duais,
com um centro, que resulta da implantação da cidade ocidental e uma periferia, adjacente ao
centro e envolvendo a área central, constituindo a forma de produção de cidade à moda local.
Com o alcance da independência, que significou, também, a ocupação da cidade oci-
dental pelos moçambicanos, a realidade dos espaços urbanos alterou-se, principalmente na-
quilo que Araújo (2002) denominou de urbanidades, onde se verificou a inclusão de mais uma
área, ou seja, a periferia dividiu-se em duas áreas, a qual Araújo intitulou de área suburbana e
a periurbana. Para o autor,
os bairros da área periurbana distinguem-se dos suburbanos,
não por estarem na periferia dos limites administrativos da
cidade, mas porque a densidade de ocupação residencial do
espaço ainda é baixa e a atividade agrícola ainda está presente
em todos eles ocupando áreas consideráveis, mas que vão
diminuindo de ano para ano para dar lugar à construção de
novas residências (ARAÚJO, 1999, p.179).

O presente ensaio pretende problematizar os conceitos de urbano e cidade adaptados


em Moçambique. Os dados apresentados pelo INE associam o urbano à cidade, ou melhor, o
urbano tem limites e o mesmo coincide com os limites político-administrativos das cidades e
das vilas. Esta coincidência de dois conceitos, que em princípios são diferentes, mas que um
influenciam significativamente no outro, acaba por carregar consigo interpretações equivoca-
das, não só das características que os espaços urbanos moçambicanos vão apresentar, como
também no tamanho da população residente nas áreas urbana e nas cidades.
O tamanho da população das cidades moçambicanas pode estar a ser superestimado
pelo INE, fenômeno já denunciado por Matos e Medeiros (2010), ao analisar o crescimento
e a distribuição espacial da população na cidade de Mocuba. Os autores perceberam que o
tamanho da população da cidade de Mocuba, apresentado no censo de 1997, não constituía a
verdade, visto que a população da cidade (entenda-se do município de Mocuba) encontrava-
-se duplicada. Esse erro aparece em publicações de outros autores, como de Hansine (2017),
Lima (2016) e no relatório da Associação Nacional dos Municípios de Moçambique (BANCO
MUNDIAL, 2010).
Para discutir as implicações dos equívocos nas definições de urbano e cidade recorrer-
-se-á às publicações do INE, especificamente os resultados dos Recenseamentos Gerais da Po-
pulação e Habitação realizados nos anos de 1997, 2007 e 2017. Importa referir que os resulta-
dos do recenseamento de 2017 ainda não estão disponíveis na sua totalidade, o que tornará
as análises limitadas para o ano de 2007. O debate será levantado tendo como base os espaços
urbanos da província da Zambézia, com algum enfoque para a cidade de Mocuba, que é o se-
gundo principal centro urbano da província. Recorrer-se-á ao modelo desenvolvido por Araújo,
tanto para discutir as características do urbano em Moçambique, como para analisar a evolu-
ção da população do município de Mocuba.
109 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.46

Administrativamente o território moçambicano subdivide-se em províncias, distritos,


postos administrativos e localidades. Moçambique conta com 11 províncias, incluindo a Cida-
de de Maputo que tem o estatuto de província. As províncias subdividem-se em distritos. Os
distritos em postos administrativos e estes em localidades. Existem, no país, 53 municípios, dos
quais 23 são cidades e 30 são vilas.
A província da Zambézia localiza-se na região central do país e conta com três (3) cida-
des e sete (7) vilas. O Ministério para a Administração Estatal1 (MAE) definiu para a província
da Zambézia sete (7) municípios, dos quais três (3) cidades e quatro (4) vilas. A cidade de Queli-
mane é a capital da província. As cidades de Mocuba e Gurué são a 2ª e 3ª cidade da província,
quer em termos de tamanho populacional, como pela importância econômica e política.

O urbano em Moçambique
Araújo, em sua publicação de 2003, lançou o modelo de organização espacial dos espa-
ços urbanos moçambicanos. O modelo, que se destina a compreender a organização interna
das cidades, apresenta-se, igualmente, importante para a compreensão dos espaços urbanos.
Antes da publicação da sua obra de 2003, Araújo ensaia, em 1999, a aplicação dos indicadores
do modelo para compreender a organização interna da cidade de Maputo, cidade capital de
Moçambique. Em 2002, mesmo antes de ter apresentado, formalmente, o modelo para o con-
texto moçambicano, o autor apresenta uma crítica à urbanização moçambicana, mostrando
que a mesma não se enquadrava nos padrões de urbanização conceptualizados e aceitos à
nível internacional.
Em 2005, Araújo faz um exercício para a cidade de Matola, tentando compreender as
desigualdades internas, socorrendo-se de alguns dos indicadores que o levaram a construir o
modelo. Nesse exercício, o autor não faz referência, explicitamente, a aplicação do modelo de
organização espacial dos espaços urbanos, provavelmente pelo facto da cidade da Matola ter
sido construída como uma cidade satélite ou dormitório da cidade de Maputo, podendo distor-
cer o modelo. Influenciados pelo modelo de Araújo (2003), Matos e Medeiros (2010) aplicaram
os indicadores do modelo para a compreensão da organização espacial da cidade de Mocuba.
Araújo compreende os espaços urbanos moçambicanos como sendo divididos, mas co-
municantes e dependentes um do outro. Os mesmos são resultantes de um processo histórico
1 Recentemente passou a designar-se por Ministério para a Administração Estatal e Função Pública.
110 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.46

associado à colonização. Esses espaços apresentam rugosidades que persistem no tempo e no


espaço. Segundo Araújo (2003, p.167),
os actuais espaços urbanos em Moçambique são resultantes
de um processo alógeno, em que a concentração de atividades
económicas foi decidida e imposta em função de interesses
exteriores (coloniais), como sucedeu, igualmente, em toda a
África Subsaariana.

Para Araújo, o espaço urbano apresenta um centro e uma periferia, sendo que o centro
é a cidade de cimento, planificada, de desenvolvimento vertical e com infraestruturas e ser-
viços. A periferia é a cidade de “caniço”, não planificada, de desenvolvimento horizontal, de
construção espontânea e de material precário e sem infraestruturas e serviços urbanos bási-
cos. A quando da sua constituição, estas duas realidades eram marcadas, fortemente, pela cor
da pele dos seus residentes. Com o alcance da independência, a tomada da cidade de cimento
pelos moçambicanos, a cor dos seus ocupantes deixou de ser uma das principais características
distintivas, observando-se uma degradação dos conteúdos urbanos. É nesse período que a pe-
riferia passa a contar com mais um anel, resultante da reclassificação dos limites das cidades e
vilas, ou seja, à cidade é incluída mais um espaço, com características rurais, mas que serve de
expansão da cidade, num movimento que confunde o urbano com a cidade.
A forma de organização dos espaços urbanos moçambicanos, desenvolvido por Araújo
(2003), aparece, implicitamente, em relatórios do governo, como o do Ministério para a Co-
ordenação da Ação Ambiental2 e o do Ministério da Administração Estatal, quando dividem a
cidade em área urbanizada, área não urbanizada e área de ocupação dispersa. Estas três áreas
apresentam uma relação direta com as áreas de cidade de cimento, cidade de caniço (que é
considerada de área suburbana) e a área periurbana, respectivamente. Esta forma de olhar a
cidade perpassa vários trabalhos realizados em Moçambique, mesmo naqueles que trabalham
a urbanização sob outros prismas, como acontece na tese de doutoramento de Baia (2009) “Os
conteúdos da urbanização em Moçambique: considerações a partir da experiência da cidade
de Nampula”; na tese de doutoramento de Lima (2016), com o tema “Conflitos entre sabe-
res na urbanização: as tradições das comunidades e o planeamento territorial na cidade de
Mocuba”; e na reflexão apresentada por Hansine (2017) ao discutir “o crescimento urbano, a
urbanização e a fecundidade em Moçambique: uma análise conceptual e teórica”.
Torna-se difícil entender a organização do espaço urbano moçambicano sem a compre-
ensão dessas três realidades. A cidade de cimento é a cidade colonial, com a forma urbano-oci-
dental, mas podendo ter mesclagens na sua função, resultante de um processo histórico que
acompanhou a evolução sociocultural e político-econômica do país pós-independência. Essa
dinâmica terá produzido formas alternativas de apropriação do espaço urbano, principalmente
do núcleo central, que outrora era excludente e, hoje, tomado pelos excluídos que procuram
encontrar formas de se (re)produzirem, numa sociedade que os excluí. Estas formas alternati-
vas de apropriação da cidade, principalmente pelos segmentos populacionais precariamente
incluídos, são marginalizadas no debate de assuntos ligados ao urbano e à cidade.
A definição de áreas urbanas ou de cidade adotadas no país é determinada pelo MAE.
O MAE define as áreas urbanas tendo como principais indicadores os aspectos políticos, eco-
nômicos, sociais e culturais, densidade da população, número e tipo de indústrias, grau de de-
senvolvimento de atividades de comércio, educação e saneamento (BANCO MUNDIAL, 2010).
Estes indicadores permitem diferenciar as cidades de acordo com o seu nível de desenvolvi-
mento. Contudo, não fica claro qual o peso de cada um dos indicadores e como se relacionam
para a definição de uma cidade ou de uma vila ou mesmo do espaço urbano.
Com base nos indicadores definidos pelo MAE, os espaços urbanos são categorizados
em cidades do Tipo A, do Tipo B, do Tipo C, do Tipo D e as vilas. São essas cidades e vilas que
formam o espaço urbano moçambicano e que são adotados de forma acrítica pelo INE. Sendo
assim, inicia-se a primeira distorção do conceito de urbano, por via da assunção de que urbano
e cidade são sinônimos e que o urbano tem como limite o espaço definido pela divisão político-

2 Recentemente denominado Ministério para a Terra e Ambiente.


111 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.46

-administrativa das cidades e vilas.


Esta associação do urbano à cidade, como tendo os mesmos limites, é a base para a
definição de espaços urbanos no país. Araújo já se referia a esse aspecto na sua publicação
de 2002, quando verificou que “em 1997 definiu-se como população urbana toda a que tem a
sua residência permanente dentro dos limites administrativos dos aglomerados humanos que
são classificados como cidades e vilas” (ARAÚJO, 2002, p.6). Em 2017, o INE (2019, p.11) refere
que “de acordo com a divisão político-administrativa de 1986, considerou-se como população
urbana aquela que reside nas 23 cidades e 69 vilas”. Esta associação direta entre a cidade e o
urbano acaba por colocar em causa os conteúdos da urbanidade, já que os mesmos incorpo-
ram os espaços de ocupação dispersa e com características rurais.
Implicitamente (e/ou intencionalmente) a delimitação dos limites de cidades e vilas
ajusta-se ao modelo desenvolvido por Araújo, pois essas áreas incluem o terceiro anel, a cha-
mada área periurbana, que de urbano muito pouco tem, como foi referido por Araújo (1999;
2002, 2003). A incorporação desses espaços rurais aos limites das cidades e vilas é justificada
com a necessidade de expansão do tecido edificado das cidades e vilas, por forma a permitir
que mais gente habite os espaços urbanos (atendendo as necessidades de mais espaço para a
(auto)construção de habitação dos novos residentes).
O trabalho de Matos e Medeiros (2010) aponta diferenças substanciais no tamanho da
população recenseada na área da cidade de Mocuba (que para o INE constitui o espaço urbano
de Mocuba) e a recenseada no município de Mocuba (área municipal). De acordo com Boletim
da República, de 18 de fevereiro de 1997, que cria as autarquias, refere que “os municípios
correspondem à circunscrição das cidades e vilas” (MOÇAMBIQUE, 1997, p.3), ou seja, a área
do município é a mesma da área de uma cidade ou de uma vila. Sendo assim, a delimitação da
área do município deve coincidir com a delimitação da área da cidade (ou do espaço urbano).
É importante referenciar que nem todas as vilas são municípios, pois há vilas que não reúnem
as condições base para se tornarem município, o que implica a existência de população urbana
acima do número de habitantes que residem nos municípios.
Esta confusão entre o espaço considerado de cidade e o de município está associado à
confusão dos conceitos de urbano e cidade e, acabam por influenciar no número de habitantes
de algumas cidades. Observando a tabela 1 verifica-se que o tamanho da população residen-
te nas cidades de Mocuba e Gurué não é o mesmo que reside nos respectivos municípios.
Para além de superestimar o tamanho da população dessas cidades, colocando-as entre as
10 maiores cidades de Moçambique, no ano de 2007, superando algumas capitais provinciais
como a cidade de Tete, Pemba e Lichinga, a mesma altera substancialmente os conteúdos da
urbanidade dessas cidades (como se pode verificar nas tabelas 2, 3 e 4). Curiosamente, mesmo
com esse suposto tamanho populacional, as duas cidades são classificadas como cidades do
Tipo D, enquanto que as três cidades (Tete, Pemba e Lichinga) são classificadas como cidades
do Tipo C.

Tabela 1: Evolução da população urbana na província da Zambézia (1997-2007)

Cidade/Vila População Variação Taxa de crescimento


1997 2007 médio
Cidade de Quelimane 150116 193343 43227 2,56
Cidade de Mocuba 124650 168736 44086 3,07
Município de Mocuba 54802 77889 23087 3,58
Cidade de Gurué 99335 145466 46131 3,89
Município de Gurué 41044 56913 15869 3,32
Vila de Alto Molócuè 13441 42200 28759 12,12
Vila de Chinde 16903 15116 -1787 -1,11
Vila de Pebane 8940 14779 5839 5,16
112 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.46

Vila de Namacurra 2873 19497 16624 21,11


Vila de Morrumbala 10890 20727 9837 6,65
Vila de Milange 16666 30257 13591 6,14
Vila da Maganja 10519 15410 4891 3,89
Urbano Zambézia 390047 679073 289026 5,70
Fonte: Censos (1997; 2007)

A não clarificação (e harmonização) dos conceitos de urbano, cidade e de município


aplicados no país influenciam, não só no tamanho da população urbana, como também in-
fluenciam no conteúdo da urbanidade desses espaços, já que os mesmos incorporam um anel
marcadamente rural. Para a análise dos conteúdos da urbanidade recorrer-se-á aos indicado-
res utilizados por Araújo no seu modelo de organização dos espaços urbanos em Moçambique.
Araújo (1999; 2003) trabalha com: i) tipo de atividade econômica desenvolvida pelo chefe do
agregado familiar; ii) tipo de habitação; iii) condições de abastecimento de água; e iv) sanea-
mento do meio.
Os indicadores utilizados por Araújo e adotados nesta análise concebem a cidade numa
perspectiva ocidental, o que pode não representar o tipo de cidade moçambicana. Contudo,
considera-se oportuno trabalhar com os mesmos indicadores, mas ressaltando as cautelas que
se deve ter na sua análise e na associação aos conteúdos da urbanidade. As atuais cidades
moçambicanas, assim como a construção social de cidade predominante no país impele para
a perfilhação desses indicadores como forma de compreender se os mesmos consolidam os
conceitos de cidade e urbano adotados pelas instituições governamentais ou se se está cami-
nhando na direção de concepção de formas alternativas de produção de cidade.
Independentemente da crítica que se pode colocar aos indicadores, fica patente que a
ideia de cidade e/ou urbano está associada a uma transição de predomínio de atividades do
sector primário para as do sector secundário e terciário. Esta transição, transporta consigo
alterações sociais e culturais, com implicações na forma de organização do espaço e de sua
produção, afetando as formas de edificação da habitação, dos sistemas de abastecimento de
água e de saneamento.
Araújo (1999; 2003) refere que para analisar as características dos espaços urbanos é
preciso verificar a principal atividade econômica do chefe do Agregado Familiar (AF). Os dados
do censo de 2007 evidenciam que cerca de 35% dos chefes de AF residentes nas áreas urbanas
encontravam-se a desenvolver atividades do sector primário. Quando analisado ao nível das
cidades e vilas, constata-se que os dados demonstram que as cidades, consideradas pequenas,
e as vilas são, ainda, dominadas por atividades do sector primário.
As cidades e vilas da província da Zambézia apresentam dados acima da média nacional.
Mais de 60% dos chefes dos AF indicaram, como principal ocupação, as atividades do sec-
tor primário, com exceção da cidade de Quelimane (35,5%) que se encontra abaixo da média
nacional (31,2%). Situação curiosa é o facto das cidades de Mocuba e Gurué apresentarem
percentuais iguais ou acima dos percentuais registados nas vilas, ou seja, existem mais chefes
de AF desenvolvendo atividades do sector primário nas cidades de Mocuba (71,8%) e Gurué
(82,3%) do que nas vilas.
Se analisado os outros indicadores, verificam-se diferenças substanciais nos conteúdos
da urbanidade. Uns que podem ser considerados característicos da cidade ocidental e outros
que caracterizam as formas locais de garantir o aprovisionamento das infraestruturas e servi-
ços sociais básicos. Essas diferenças poderiam estar relacionadas com as formas de ver a dua-
lidade urbana desenvolvida por Araújo, sendo a cidade alógena e a cidade nativa (se é que se
pode assim chamar). São duas realidades diferentes, que compõem o mesmo espaço da cidade
ou vila, mas com formas de produção dissímeis.
De acordo com o modelo de Araújo (2003), as desigualdades socioespaciais vão se
agudizando à medida que se desloca do centro para a periferia. Apesar de considerar-se três
realidades sócio espaciais, importa referir que a noção de cidade está intrinsecamente asso-
ciada ao modelo de cidade ocidental. Esta percepção de cidade, como centro de tudo e com
113 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.46

feições urbanísticas ocidentais, molda a construção das noções de cidade nas três realidades
do espaço urbano. Analisar esses indicadores também significa encontrar formas de reivindicar
o direito à cidade3 (ou aos conteúdos da urbanidade que se concentram na cidade de cimento).
Os dados das tabelas 2, 3 e 4 revelam, para além da degradação dos conteúdos dos
indicadores selecionados, que os espaços urbanos congregam infraestruturas que caracteri-
zam a cidade ocidental, como também as que caracterizam as possibilidades socioeconômicas
nativas de os suprir. Os tipos de infraestruturas que são oferecidas em cidades ocidentais são
o esgoto, a água encanada e a flat/apartamento (como também pode-se incluir a casa con-
vencional, que é uma moradia). A presença desses elementos influencia arranjos próprios de
organização do espaço urbano (ocidental). Ou seja, a prestação dos serviços urbanos, com
essas características, implica a sua adequação às funções para as quais se pretende garantir.

Tabela 2: Tipo de habitação em % (ano de 2007)

Cidade/Vila Flat/Ap Casa Convencional Palhota Casa Mista Casa precária


Cidade de Quelimane 1,4 10,7 42,9 43,5 1,5
Cidade de Mocuba 0,1 6,7 82,4 9,7 1,1
Cidade de Gurué 0,1 9,2 50,3 38,8 1,6
Vila de Alto Molócuè 0,1 10,5 79,5 9,4 0,5
Vila de Chinde 0.0 9,0 80,2 10,0 0,8
Vila de Pebane 0,1 3,9 87,5 8,1 0,4
Vila de Namacurra 0,0 2,9 86,3 10,4 0,4
Vila de Morrumbala 0,1 8,0 77,3 13,4 1,2
Vila de Milange 0,1 21,0 53,5 24,0 1,4
Vila da Maganja 0,1 3,1 87,4 9,1 0,3
Nacional 2,5 35,3 36,5 24,7 1,0
Fonte: Censos (2007)

Para os grupos populacionais que habitam a periferia da cidade, a garantia de sobrevi-


vência fica na responsabilidade de cada família. Em outras palavras, as modalidades de usu-
fruto dos serviços de acesso à água, de saneamento do meio e de habitação são ajustáveis à
capacidade econômica, bem como da criatividade engendrada por cada família. Sendo assim,
as famílias, sem condições financeiras e sem o apoio do poder público, reinventam formas de
garantir esses serviços, muitas delas resultantes das experiências que lembram os seus an-
teriores espaços de residência (o rural). Essas experiências são materializadas nas formas de
construção de habitação do tipo palhota, na recorrência aos poços e cursos hídricos existentes
e na construção de latrinas com materiais que a natureza oferece.

Tabela 3: Condições de abastecimento de água nas habitações em % (ano de 2007)

Água Fonte segura Fontes inseguras


Cidade/Vila
encanada Fontanário Furo Poço Rio/Lagoa Outros
Cidade de Quelimane 19,8 66,1 2,2 10,8 0,7 0,3
Cidade de Mocuba 5,7 10,9 5,9 54,2 22,9 0,4
Cidade de Gurué 8,9 7,1 6,1 57,6 20,1 0,2
Vila de Alto Molócuè 1,1 4,4 20,0 65,1 7,8 0,6
Vila de Chinde 0,1 0,8 40,6 40,4 17,4 0,6

3 Inspiração da obra de Lefevbre, Henri. O direito à cidade. Tradução de Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro,
2001.
114 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.46

Vila de Pebane 0,2 3,6 85,5 8,6 0,1 1,9


Vila de Namacurra 3,9 21,9 42,8 30,9 0,4 0,0
Vila de Morrumbala 4,8 18,6 30,8 44,6 1,1 0,3
Vila de Milange 12,6 21,5 11,7 50,1 3,1 1,0
Vila da Maganja 0,3 20,7 27,5 44,2 4,3 3,2
Nacional 32,6 24,9 10,4 26,5 4,4 1,1
Fonte: Censos (2007)

A integração da população da periferia ao espaço urbano foi, por um lado, a partir


de uma luta constante para se aproximar o máximo possível do centro, beneficiando-se dos
equipamentos sociais básicos existentes, assim como de oportunidades de trabalho, forjando
arranjos sócio espaciais resultantes da materialização das suas experiências, associadas à ca-
rência de espaço. A consequência foi a produção de um espaço não ordenado à moda urbano
ocidental, desprovido dos serviços sociais básicos, com uma maior presença de palhotas (com
transição para casa mista), de latrinas (num primeiro momento tradicionais e depois melhora-
das) e de poços caseiros e rios e lagos (mais tarde, com a intervenção do poder público, a dis-
ponibilização de fontanários e de furos). Por outro lado, surge um outro arranjo sócio espacial,
resultante de integração de espaços de fraca densidade populacional e de práticas de ativida-
des do sector primário. Este espaço apresenta as mesmas carências descritas anteriormente.
Contudo, como é um espaço que vem sendo incorporado, tardiamente, ao espaço da cidade,
as iniciativas de fragmentação da terra à moda ocidental vão ganhando força, mas a população
que nela reside encontra-se distante (física e economicamente) dos serviços sociais básicos e é
praticamente constituída por agricultores.

Tabela 4: Condições de acesso a eletricidade e saneamento em % (em 2007)

Cidade/Vila Acesso a Saneamento


Eletricidade Esgoto Latrina Latrina Sem
tradicional saneamento
Cidade de Quelimane 35,5 8,9 35,2 5,7 50,2
Cidade de Mocuba 12,4 1,9 11,7 28,3 58,1
Cidade de Gurué 6,0 1,0 4,7 34,0 60,3
Vila de Alto Molócuè 33,1 1,2 9,5 53,0 36,3
Vila de Chinde 2,3 1,0 5,4 7,8 85,7
Vila de Pebane 4,7 0,8 6,4 33,6 59,2
Vila de Namacurra 4,5 0,7 4,2 28,6 66,5
Vila de Morrumbala 16,4 1,0 10,9 42,2 45,9
Vila de Milange 28,9 1,9 22,4 64,1 11,5
Vila da Maganja 12,7 0,7 7,4 41,3 50,6
Nacional 32,2 11,1 30,9 34,6 23,4
Fonte: Censos (2007)

Ao considerar-se que os conteúdos da urbanidade vão se degradando, pretende-se re-


alçar que as condições de vida na periferia urbana tendem a ser menos favoráveis à garan-
tia de uma vida condigna. O destaque na degradação não está, necessariamente, relacionado
com a materialização das experiências transportadas do espaço rural, que muitas vezes não se
adéquam à forma como é (des)governada a cidade, mas às situações que se verificam na de-
terioração das condições de vida, como o percentual de população que ainda recorre a fontes
inseguras de abastecimento de água e o percentual de famílias que não se beneficia de um
sistema de saneamento.
115 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.46

O município de Mocuba e o modelo de Araújo


Num exercício desenvolvido por Matos e Medeiros (2010) para o município de Mocuba,
socorrendo-se do modelo de Araújo (2003), foi possível dividir a cidade em três anéis. Sendo
que o anel central é o que corresponde à cidade colonial e os dois anéis restantes correspon-
dem às formas locais de produção da cidade, ou de sua integração à cidade. Para a aplicação do
modelo, os autores utilizaram os dados do censo de 1997 e o levantamento numérico efetuado
pelo município de Mocuba, para o ano de 20084.

Uma das preocupações levantadas por Araújo (2003; 2002) é o facto de tempos em tem-
pos os limites das cidades serem alterados, com o propósito da cidade acompanhar a suposta
urbanização, ou para acrescentar espaços que acomodem uma futura expansão da população
da cidade. Se analisado os dados apresentados pelos censos de 1997, 2007 e 2017 verifica-se
que em cada censo realizado o número de bairros foi aumentando. Em 1997 o município de
Mocuba contava com 13 bairros. No censo de 2007 o número de bairros passou para 16, em
função da reclassificação dos limites político-administrativos, tendo sido incorporado novos
espaços para acomodar os interesses expansionistas do município.
No censo realizado no ano de 2017 mais bairros foram acrescidos. Esses novos bairros
já dispõem de informação e reconhecimento pelo INE, mesmo não sendo, ainda, reconhecidos
formalmente pelo governo municipal ou pela autoridade competente (MAE). Os novos bairros
já são alvos de planeamento e gestão do município. Os bairros de Pedreira e Derruba resultam
de uma reclassificação dos limites da cidade, representando, mais uma vez, a incorporação de
espaços rurais aos limites administrativos do município. O bairro de Nadegudo resulta de uma
subdivisão do bairro Samora Machel. Assim como sucedeu ao bairro de Nadegudo, os bairros
Marmanelo 2 e Toma de Água 2 resultam, igualmente, de uma divisão de bairros já existentes.
Os dados da tabela 5 mostram que em 20 anos o tamanho da população do município
de Mocuba mais que duplicou, passando dos 54 806 habitantes para 115 021 habitantes. Este
aumento da população é influenciado, em termos absolutos e relativos, pela área periurbana,
que contribuiu com cerca de 30 mil habitantes e, com um crescimento populacional de acima
de 6% ao ano. A reclassificação dos limites administrativos permitiu contribuir, em cada censo
realizado, mais de 4% da população da cidade.
4 Os dados do censo de 2007 só foram publicados no ano de 2010.
116 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.46

Tabela 5: Evolução da população do município de Mocuba entre os anos de 1997 e 2017

Anos Taxa de Crescimento Médio


Bairro
1997 2007 2017 1997-2007 2007-2017
3 de Fevereiro 1986 1639 1640 -1,90 0,01
25 de Setembro 4311 4764 5030 1,00 0,55
Cidade de Cimen-
6297 6403 6670 0,17 0,41
to
CFM 6087 7707 8008 2,39 0,38
Central 5006 5766 6231 1,42 0,78
Toma de Água 2496 6666 9412 10,32 3,51
16 de Junho 2054 2577 3411 2,29 2,84
Marmanelo 7764 11411 15620 3,93 3,19
Sacra 2712 2827 2074 0,42 -3,05
Lugela 2116 2643 2380 2,25 -1,04
Carreira de Tiro 1 3717 2599 5436 -3,51 7,66
Carreira de Tiro 2 - 1154 1710 - 4,01
Aeroporto 1 5147 6871 12043 2,93 5,77
Área Suburbana 37099 50221 66325 3,08 2,82
Aeroporto 2 1578 3378 8910 7,91 10,19
Samora Machel 9832 14656 20025 4,07 3,17
Macuvine - 1290 2431 - 6,54
Muanaco - 1213 1591 - 2,75
Naverua - 730 3569 - 17,20
Derruba - - 2829 - -
Pedreira - - 2671 - -
Área Periurbana 11410 21267 42026 6,43 7,05
Município Mocu-
54806 77869 115021 3,58 3,98
ba
Fonte: Censos (1997; 2007; 2017)

Durante os 20 anos registou-se um crescimento significativo da área do município. Em


2007 o aumento de área para o município representou perto de 28% e, em 2017 foram acres-
centados mais 33%, ou seja, de 1997 a 2017 a reclassificação dos limites administrativos per-
mitiu um crescimento espacial de 61% da área do município (tabela 6).
É interessante notar que a área periurbana do município representa mais de três quar-
tos da área total do município e, alberga pouco mais de 35% da população, mas com uma den-
sidade populacional de 8 habitantes por hectare. É a área suburbana que concentra o maior
percentual da população da cidade e apresenta a maior densidade populacional (tabela 6).
Esta tendência segue a distribuição espacial apresentada por Araújo (2003), quando demons-
tra que a área suburbana é a que concentra mais população e tende a ser a que apresenta as
maiores densidades populacionais pelo facto de ser uma área que alberga população de renda
baixa e que pretende estar o mais próximo do centro da cidade, que é o espaço que oferece as
mais diversas oportunidades de trabalho, não só formais como também as do circuito inferior.
117 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.46

Tabela 6: Peso e densidade populacional por bairro e área de residência

Peso da população Densidade populacional/ha


Bairro
1997 2007 2017 1997 2007 2017
3 de Fevereiro 3.6 2.1 1.4 34.7 28.6 28.6
25 de Setembro 7.9 6.1 4.4 34.6 38.2 40.3
Cidade de Cimento 11.5 8.2 5.8 34.6 35.2 36.6
CFM 11.1 9.9 7.0 52.5 66.5 69.1
Central 9.1 7.4 5.4 76.4 88.0 95.1
Toma de Água 4.6 8.6 8.2 16.7 44.7 63.1
16 de Junho 3.7 3.3 3.0 40.2 50.4 66.8
Marmanelo 14.2 14.7 13.6 68.3 100.4 137.4
Sacra 4.9 3.6 1.8 73.9 77.0 56.5
Lugela 3.9 3.4 2.1 98.4 122.9 110.7
Carreira de Tiro 1 6.8 3.3 4.7 12.5 8.8 18.3
Carreira de Tiro 2 - 1.5 1.5 - 15.9 23.5
Aeroporto 1 9.4 8.8 10.5 14.0 18.7 32.8
Área Suburbana 67.7 64.5 57.7 28.7 38.9 51.4
Aeroporto 2 2.9 4.3 7.7 7.1 15.2 40.1
SamoraMachel 17.9 18.8 17.4 11.5 17.1 23.4
Macuvine - 1.7 2.1 - 3.1 5.9
Muanaco - 1.6 1.4 - 2.7 3.5
Naverua - 0.9 3.1 - 0.8 3.8
Derruba - - 2.5 - - 2.5
Pedreira - - 2.3 - - 2.5
Área Periurbana 20.8 27.3 36.5 2.3 4.2 8.3
Município Mocuba 100 100 100 8.4 11.9 17.6
Fonte: Censos (1997; 2007; 2017)

A fraca densidade populacional da área periurbana está relacionada com o facto de ser
um espaço que está sempre em crescimento à custa do rural, contendo formas específicas de
produção e organização do espaço, como formas, ainda primárias, de relacionamento entre
o homem e a natureza e uma organização do espaço residencial e produtivo que permite o
desenvolvimento da agricultura de subsistência. A densidade vai aumentando com o passar do
tempo, visto que a área se torna num espaço apetecível para os jovens recém empregados que
se preocupam em construir a casa própria. Sendo assim, o espaço mistura formas de organi-
zação espaciais urbanas com as rurais, e esta vai desaparecendo à medida que a demanda por
casa própria for aumentando.
Os dados censitários mostram uma tendência de redução do peso da população ao nível
das áreas urbanas e suburbanas. A área periurbana vai ganhando peso populacional no municí-
pio. Analisando a evolução da densidade populacional nas três áreas do município, percebe-se
que a área central foi a que menos alterou o número de habitantes por hectare. As restantes
áreas apresentaram um aumento da densidade populacional ao longo desses 20 anos, sendo
que a suburbana é a área mais densificada e, a periurbana, apesar de aumentar, ainda ostenta
densidades populacionais próxima das áreas rurais. Os bairros que fazem parte da área periur-
bana exibem uma densidade populacional de aproximadamente 4 habitantes por hectare, com
exceção do bairro Samora Machel.
Araújo (2003) verificou, a partir dos dados do censo de 1997, um novo fenômeno nas
118 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.46

cidades moçambicanas, que é a alteração da estrutura sexual, começando a verificar-se cida-


des mais femininas. Para o caso da cidade de Mocuba a alteração acontece no censo de 2017,
influenciada, principalmente, pelas alterações nas áreas suburbanas e periurbanas (tabela 7).
De 1997 a 2017 o percentual de mulheres no município foi aumentando, chegando a superar
o sexo masculino no ano de 2017.
Analisando a razão de sexo pelas três áreas da cidade percebe-se que é nos bairros da
área periurbana, que foram incluídos ao município devido à reclassificação dos limites admi-
nistrativos, que apresentam uma estrutura sexual mais feminina, ou seja, são espaços que
eram rurais e, de um dia para o outro maquiaram-se em urbanos. De acordo com Araújo (2003,
p.178) “em geral, quem primeiro se dirige para a cidade para tentar melhorar as condições de
vida, são os homens em idade de trabalhar. No local de origem ficam os restantes membros
do agregado familiar, maioritariamente mulheres e crianças”. Isto pode explicar o aumento da
população feminina na cidade de Mocuba, sendo que num primeiro momento, influenciado
pela guerra civil (1976-1992), a migração para a cidade foi mais masculina e, com o reestabe-
lecimento da situação e a incorporação das áreas rurais, que eram mais femininas, a estrutura
sexual inicia um processo de inversão.

Tabela 7: Razão de sexo entre os anos 1997 e 2017

Razão de sexo
Bairro
1997 2007 2017
3 de Fevereiro 123,4 115,4 114,9
25 de Setembro 132,6 105,6 97,7
Cidade de Cimento 129,6 107,8 101,7
CFM 113,1 100,9 92,0
Central 112,0 103,0 94,3
Toma de Água 107,3 101,8 93,7
16 de Junho 104,8 102,2 100,5
Marmanelo 110,1 102,4 93,9
Sacra 114,0 102,9 100,8
Lugela 110,8 103,9 94,0
Carreira de Tiro 1 112,2 97,0 95,9
Carreira de Tiro 2 - 94,3 82,9
Aeroporto 1 103,3 98,8 97,6
Área Suburbana 109,9 101,3 94,7
Aeroporto 2 102,8 95,3 92,9
SamoraMachel 116,5 103,7 95,3
Macuvine - 96,9 90,7
Muanaco - 98,5 104,0
Naverua - 90,1 92,9
Derruba 89,7
Pedreira 94,8
Área Periurbana 114,5 101,1 94,2
MunicípioMocuba 113,0 101,7 94,9
Fonte: Censos (1997; 2007)
119 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.46

Cidade e urbano em Moçambique


Moçambique continua a ser um país rural, com uma população urbana de 33% e em
crescimento (INE, 2019). Tal como acontece no Brasil5, o Instituto Nacional de Estatística consi-
dera população urbana toda aquela que reside em espaços classificados como cidades e vilas.
Esta definição, que não discute os indicadores incorporados à definição, acaba por herdar uma
classificação que inclui os chamados espaços de ocupação dispersa, ou mesmo, espaços rurais.
A realidade dos espaços urbanos moçambicanos é fruto de um processo histórico que
consolida arranjos espaciais (re)produtores de desigualdades, onde apenas o núcleo central
apresenta as condições de urbanidade próximas dos conceitos de urbano e cidade definidos
no ocidente. Discutir a produção do espaço urbano em Moçambique passa por compreender
como as dinâmicas locais moldam a organização sócio espacial, reproduzindo formas de or-
ganização espacial que mesclam as rugosidades e as diferentes formas de produção e apro-
priação “informal” do espaço, em função de uma inclusão precária de vastos segmentos da
população.
Independentemente da aceitação ou não dos conteúdos da urbanidade trabalhados por
Araújo, os espaços urbanos moçambicanos evidenciam formas de apropriação do mesmo que
atendem a uma lógica precária de inclusão. Ou seja, os dois anéis periféricos da cidade são
resultado de uma produção local, que reflete os contextos conjunturais de produção da cidade
nativa. A luta para viver na cidade, entendendo a cidade como o espaço colonial, que oferece
as mais diversas oportunidades econômicas, vai produzindo formas alternativas de apropria-
ção, resultando em arranjos espaciais de (re)existência à cidade.
A maioria dos espaços urbanos moçambicanos são dominados pela prática da agricul-
tura de subsistência. Os dados apresentados ao longo do artigo evidenciam que mais de três
quintos da população que reside nas cidades e vilas desenvolvem a agricultura como a prin-
cipal atividade do chefe do agregado familiar. É importante realçar que o número de famílias
que desenvolve a agricultura é bastante superior aos 3/5, pois as famílias que não indicaram
as atividades do sector primário como a sua principal atividade têm a agricultura como ativi-
dade secundária. Estudo realizado por Matos e Medeiros (2010) para o município de Mocuba
demonstrou esse cenário, onde perto de 50% dos inquiridos indicavam a agricultura como a
principal atividade do AF, mas o percentual de praticantes alcançava os 75%.
Os dados da importância das atividades do sector primário são mais presentes em vilas
e reduzem significativamente em cidades maiores, como a cidade da Matola (11%), de Nam-
pula (24,1%) e da Beira (29%) que são os principais centros urbanos do Sul, Norte e Centro
do país, respectivamente6. Esta é uma das características dos espaços rurais moçambicanos
e, pode-se, facilmente, relacioná-la às abordagens defendidas por Negrão (2002) que destaca
o facto da família rural moçambicana nunca abandonar a prática da agricultura por ser uma
atividade que oferece segurança, podendo ser controlada pela família, ao mesmo tempo que
dispensa a aquisição de produtos agrícolas em mercados locais. Igualmente, a agricultura de-
sempenha a função de obtenção de rendimentos com a venda do excedente.
Como os espaços urbanos moçambicanos, muitos deles são filhas do Estado (ARAÚJO,
2003), constata-se que os anéis que constituem a periferia do espaço urbano apresentam ca-
racterísticas rurais, principalmente o terceiro anel que é resultado de um processo que con-
funde urbano com cidade. Esse processo inclui a chamada área de ocupação dispersa, com
características rurais e com escassez de infraestruturas e serviços urbanos, alterando, substan-
cialmente os conteúdos urbanos do espaço. Se analisado os indicadores discutidos ao longo
do artigo, perceber-se-á que as condições de vida da população dos espaços urbanos tendem
a ser precárias, com problemas graves de acesso a habitação condigna, um sistema de sanea-
mento adequado e com acesso à energia elétrica, ou seja, as condições dos espaços urbanos
apresentados ao longo do texto assemelham-se às características dos espaços rurais moçam-
bicanos que não se beneficiam dessas infraestruturas e serviços sociais básicos, considerados
de pertença do meio urbano.
A construção histórica do urbano ou de cidade no país gerou desigualdades acentuadas
entre o urbano e o rural, com o primeiro concentrando as infraestruturas e serviços. À medida
5 Veja SOUZA, Marcelo L. de. ABC do desenvolvimento urbano. 5ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.
6 Excluímos a cidade de Maputo que é o princpal centro urbano do do país.
120 Revista Humanidades e Inovação v.8, n.46

que se desloca para a periferia a tendência é a degradação dessas infraestruturas e serviços.


O que significa que viver fora da cidade é sinônimo de estar condenado à pobreza. Quando
essas características de precariedade começam a caracterizar os espaços urbanos significam
que a pobreza tende a avançar para a cidade, principalmente nos espaços periféricos, o que
descaracteriza o conceito de urbano e cidade construído historicamente. E isto se deve pelo
facto da reclassificação dos limites administrativos não ser acompanhado de investimentos em
infraestruturas sociais básicas, mas apenas por processos de “esquadrinhamento” do espaço,
sem ter em conta os conteúdos da urbanidade que permitem a melhoria das condições de
vida. Esse processo incorpora novos cidadãos aos limites da cidade, mas os renega o direito
à cidade, deixando que cada um o conquiste de acordo com as suas lógicas e processos. Esta
forma de produção da cidade/urbano consolida os arranjos sócio espaciais desiguais herdados
do período colonial.
A ideia de ter um espaço sempre disponível ao apetite da cidade apresenta-se como
uma violação do habitante rural, que lhe é retirado o direito de manter a sua forma de relacio-
namento com o espaço, sua forma de organização do espaço (residencial e produtivo), assim
como as diversas formas de (re)produzir a sua existência. A reclassificação urbana, que lhes
nega todos os direitos à cidade, lhe retira, igualmente o direito ao campo, materializado na
sua forma de organização do espaço, em que se privilegia a proximidade do espaço residencial
ao produtivo e as relações afetuosas com os objetos locais. O mesmo processo retira ao novo
residente a terra que serviria de herança para os seus descendentes.
Incluir o espaço rural à cidade implica num processo de ocupação do mesmo que segue
os planos de urbanização definidos, com ruas retilíneas, talhões definidos em função da “habi-
tação urbana”, limitação do espaço por cada residente rural e destruídos os objetos sagrados.
Esse processo está associado à especulação fundiária, que transforma a terra em solo urbano,
portanto com valor de troca, impelindo o residente rural para outros espaços fora dos atuais
limites da cidade. Os que permanecem veem os custos de transporte incrementados, não só
para a cidade de cimento que concentra as infraestruturas e os serviços sociais básicos, mas
também para os novos espaços de produção agrícola, já que os atuais foram tomados pelo
avanço da cidade.
A proposta de problematizar os espaços urbanos em Moçambique não só deve se limi-
tar a ideia de existência de novas formas de urbano, ajustadas à realidade moçambicana. É pre-
ciso discutir se os novos residentes gostariam de pertencer aos limites da cidade (ou vila), sem
que lhe fosse concedido os mesmos direitos de quem habita a cidade de cimento. Ou, se não
estariam confortáveis em conservar a sua história, materializada nas formas de organização e
produção do espaço. Em outras palavras, podendo continuar a ser rurais, mas beneficiando
dos conteúdos urbanos e preservando a sua história. Então, por que incluir uma área rural ao
espaço urbano que alterará os conteúdos urbanos, como um todo, e destrói a história daquela
área, renegando aos novos residentes o direito à cidade e o direito ao campo?

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Recebido em 28 de abril de 2021.


Aceito em 25 de maio de 2021.

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