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História A: Atual E Completo

O documento é um guia para alunos do 12º ano de História A, oferecendo orientações sobre métodos de estudo, conteúdos essenciais e questões para exame. Inclui 200 questões com respostas detalhadas e um teste diagnóstico com feedback online. O objetivo é facilitar a aprendizagem e preparar os alunos para o Exame Nacional de História A, abrangendo conteúdos dos 10º, 11º e 12º anos.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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História A: Atual E Completo

O documento é um guia para alunos do 12º ano de História A, oferecendo orientações sobre métodos de estudo, conteúdos essenciais e questões para exame. Inclui 200 questões com respostas detalhadas e um teste diagnóstico com feedback online. O objetivo é facilitar a aprendizagem e preparar os alunos para o Exame Nacional de História A, abrangendo conteúdos dos 10º, 11º e 12º anos.
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HISTÓRIA A

António Ribeiro
Lia Ribeiro

REVISÃO CIENTÍFICA
Manuel Loff
llídio Silva

ATUAL E COMPLETO

Explicação de todos os conteúdos

200 questões com resposta detalhada

Teste diagnóstico
com feedback online imediato

LpYà EDUCAÇAO
HISTÓRIA A
Avelino Ribeiro

REVISÃO CIENTÍriCA
Manuel Loff
llídio Silva

LpYd EDUCAÇAO
Testes e Exame História A - 12? ano é um instrumento orientador c facilitador
da aprendizagem dos alunos de 12? Ano - História A - tendo em vista, funda-
mentalmcnte, a condensação de informação histórica relevante conciliando a
aquisição de conhecimentos e o desenvolvimento das competências necessárias
para o sucesso e a excelência nos testes e no Exame Nacional de História A, que,
em 2013-2014, integrará conteúdos programáticos dos 11? e 12? anos c, a partir
de 2014-2015, dos 10?, 11? e 12? anos de escolaridade.

Os alunos de História A do 12? ano encontrarão neste trabalho, que abrange


os programas destes 3 anos do ensino secundário:

• orientações sobre métodos de trabalho;

• conteúdos essenciais que serão objeto de estudo e avaliação nas aulas,


nos testes e no Exame Nacional;

• exercitação das aprendizagens através de questões orientadoras do


estudo, na banda externa das páginas, e questões para exame, no final
de cada módulo;

• propostas de resolução das questões-tipo, dos testes e das questões para


exame em [Link]

• recolha dos exames nacionais de História desde 2007 e respetivas pro­


postas de resolução em [Link]

Não obstante estes apoios, importa ter em conta que 0 objetivo da excelên­
cia exige um grande investimento pessoal no trabalho e capacidade de orga­
nizar os saberes, com autonomia e alguma originalidade, em contextos inter-
pretativos coerentes, críticos e reflexivos.

A História c uma ciência fascinante. Sem ela vaguearíamos num mundo sem
referências, perderíamos o norte, a identidade. Mas também c verdade que,
se o seu estudo não requer capacidades específicas de ordem anormalmcnte
elevada, exige muito de cada um.

Bom trabalho!

0 Autor
3

ÍNDICE

1. Como estudar para obter resultados de excelência..................................................................... 6


2. Como abordar um teste escrito ou exame..................................................................................... 7
3. Prova de Exame Nacional de 12? Ano - História A..................................................................... 8
4. Interpretação das questões dos testes e do Exame Nacional de Historia A........................ 9

10? Ano
Módulo 1 I Raízes medí terra nicas da civilização europeia - cidade, cidadania
e império na antiguidade clássica

Unidade 1 - O modelo ateniense........................................................... .......................................... 10

Unidade 2 - O modelo romano.................................................... .......... .......................................... 15

Unidade 3 - O espaço civilizacional greco-latino à beira da mudança............................. .... 20

QUESTÕES PARA EXAME............................................... ................................................................ .... 22

Módulo 2 I Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental nos séculos XIII a XV -


espaços, poderes e vivências

Unidade 1 - A Identidade civilizacional da Europa Ocidental............................................. .... 25

Unidade 2-0 espaço português - a consolidação de um reino cristão ibérico............ 32

Unidade 3 - Valores, vivências e quotidiano..................................... .......................................... 41

QUESTÕES PARA EXAME..................................... .......... ................................................................ .... 46

Módulo 3 I A abertura europeia ao mundo - mutações nos conhecimentos,


sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

Unidade 1 - A geografia cultural europeia de Quatrocentos e Quinhentos...................... 48

Unidade 2-0 alargamento do conhecimento do mundo......................................................... 51

Unidade 3 - A produção cultural...................... 54

Unidade 4 - A renovação da espiritualidade e religiosidade............................................... 62

Unidade 5 - As novas representações da Humanidade....................................................... . 66

QUESTÕES PARA EXAME..................................... .......... ................................................................ .... 69

11? Ano
Módulo 4 I A Europa nos séculos XVII e XVIII - sociedade, poder e dinâmicas
coloniais

Unidade 1 - A população da Europa nos séculos XVII e XVIII: crises e crescimento..... 71

Unidade 2 - A Europa dos estados absolutos e a Europa dosparlamentos.................... 74

Unidade 3 - Triunfo dos estados e dinâmicas económicas nos séculos XVIIe XVIII....... 80

Unidade 4 - Construção da modernidade europeia................................................................ 87

QUESTÕES PARA EXAME......... ................................................................ .......................................... 91


4 índice

ÍNDICE

Módulo 5 I O Liberalismo - ideologia e revolução, modelos e práticas nos séculos


XVIII e XIX

Unidade 1 - A Revolução Americana, uma revolução fundadora.................. ....... ................. 93

Unidade 2 - A Revolução Francesa - paradigma das revoluções liberais e burguesas... 95

Unidade 3 - A geografia dos movimentos revolucionários na primeira metade do século


XIX: as vagas revolucionárias liberais e nacionais............................................. 99

Unidade 4 - A implantação do liberalismo em Portugal........................................................... 101

Unidade 5 - O legado do liberalismo na primeira metade do século XIX........................... 106

QUESTÕES PARA EXAME................................................................................................................... . 109

Módulo 6 I Economia e sociedade; nacionalismos e choques imperialistas

Unidade 1 - As transformações económicas na Europa e no Mundo..................................... 111

Unidade 2 - A afirmação da sociedade industrial e urbana..................................................... 119

Unidade 3 - Evolução democrática, nacionalismo e imperialismo....................................... ... 125

Unidade 4 - Portugal, uma sociedade capitalista dependente............................................... 128

Unidade 5 - Os caminhos da cultura............................................................................................. 132

QUESTÕES PARA EXAME.................................................................................................................... 137

12? Ano
Módulo 7 I Crises, embates ideológicos e mutações culturais na primeira
metade do século XX

Unidade 1 - As transformações das primeiras décadas do século XX.................................. 139


1.1. Um novo equilíbrio global.................................................................................................... .... 139
1.2. A implantação do marxismo-lemnismo na Rússia: construção do modelo soviético ... 144
1.3. A regressão do demoliberalismo............................................................................................. 147
1.4. Mutações nos comportamentos e na cultura....................................................................... 149
1.5. Portugal no primeiro pós-guerra............................................................................................. 160

Unidade 2 - O agudizar das tensões políticas e sociais a partir dos anos 1930.............. 165
2.1. A Grande Depressão e 0 seu impacto social....................................................................... 165
2.2. As opções totalitárias............................................................................ .................................... 168
2.3. A resistência das democracias liberais................................................................................... 171
2.4. A dimensão social e política da cultura................................................................................ 173
2.5* Portugal e 0 Estado Novo......................................................................................................... 181

Unidade 3 - A degradação do ambiente internacional.............................................................. 187


3.1. A irradiação do fascismo no mundo...................................................................................... 187
3.2. Reações aos totalitarismos fascistas..................................................................................... 188

QUESTÕES PARA EXAME.................................................................................................................... 190


5

Módulo 8 I Portugal e o inundo da Segunda Guerra Mundial ao início


da década de 1980 - opções internas e contexto internacional

Unidade 1 - Nascimento e afirmação de um novo quadro geopolítico................................. 196


1.1. A reconstrução do pós-guerra................................................................................... .............. 197
1.2, 0 tempo da Guerra Fria - a consolidação de um mundo bípolar.................................. 203
1.3, A afirmação de novas potências.............. ................................................................ .............. 214
1.4. 0 termo da prosperidade económica: origens e efeitos................................................... 22o

Unidade 2 - Portugal: do autoritarismo ã democracia............................................................. 224


2.1. Imobilismo político e crescimento económico do pós-guerra a 1974........................... 224
2.2. Da revolução à estabilização da democracia............................. ......................................... 234
2.3. O significado internacional da revolução portuguesa....................................................... 243

Unidade 3 - As transformações sociais e culturais do terceiro quartel do século XX..... 245


3.1. A importância dos polos culturais anglo-americanos. A reflexão sobre a condição
humana nas artes e nas letras. 0 progresso científico e a inovação tecnológica..... 245
3.2. A evolução dos media..... ................................................................ ......................................... 249
3.3. Alterações na estrutura social e nos comportamentos...................... .............................. 252

QUESTÕES PARA EXAME......... ................................................................ ......................................... 257

Módulo 9 I Alterações geostratégicas, tensões políticas e transformações


socioculturais no mundo atual

Unidade 1 - O fim do sistema internacional da Guerra Fria e a persistência da dicotomia


norte-sul.......................................................................................................... .............. 261
1.1. 0 colapso do bloco soviético e a reorganização do mapa político da Europa de Leste.
Os problemas da transição para a economia de mercado............................................... 262
1.2. Os polos do desenvolvimento económico............................................................................ 265
1.3. Permanência de focos de tensão em regiões periféricas........ ......................................... 279

Unidade 2 - A viragem para uma outra era................................................................................ 288


2.1. Mutações sociopolíticas e novo modelo económico......................................................... 288
2.2. Dimensões da ciência e da cultura no contexto da globalização................................... 301

Unidade 3 - Portugal no novo quadro internacional................................................................. 309


3.1. A integração europeia e as suas implicações..................................................................... 309
3.2. As relações com os países lusófonos e com a ãrea ibero-americana............................ 311

QUESTÕES PARA EXAME..................................... ................................................................ .............. 316

Provas/Questões para Exame


• Prova A (ii.D/i2“ anos) .......................................... 320
• Prova B anos)....................................................... 323
• Prova C (io"/n.u/i2" anos)........................................................ 326
1. Como estudar para obter resultados de excelência

Questões... Respostas... Para reter...

1. Tenho tanto para Primeira decisão: elabore um plano de estudo A planificação do trabalho é tanto
estudar... com alguma antecedência mais importante quanto maior for
Por onde devo No plano devem constar: a dimensão e complexidade da
começar? tarefa a realizar.
- a calendarização dos dias e das horas que vai
dedicar à preparação do teste ao exame;
- a registo das restantes tarefas que tem de
realizar na escola e fora dela.

2. Tenho tanto para Nas aulas: Não deixe ficar para trás nenhuma
estudar... - sinalize no manual os conteúdos mais matéria por não gostar ou por não
Como poderei saber importantes que, no caso da Historia, são os a compreender! Os amigos [e o
tudo? conteúdos designados por estruturantes1' no professor é um deles] são para as
Programa da diisciplina; ocasiões!
- preste muita atenção às indicações dD
professor sobre a avaliação formativa c à Procure sempre entender o que
estrutura e conteúdos dos testes e exames; está a estudar. Optar por decorar
- anote as matérias em que tem dúvidas e que os conteúdos não contribui para a
precisam de um estudo mais atento compreensão dos mesmos.

No trabalho de casa:
- comece por reler, com atenção, os seus Só interiorizamos os
apontamentos e notas que registou nas conhecimentos que, de algum
aulas; modo, compreendemos e fazem
- interrogue-se rcgullarmente sobre o que é sentido para nós.
mais importante saber sobre as matérias
que está a estudar; Estudar é, essencialmente,
- à medida que vai lendo sublinhe as palavras organizar e integrar as novas
e/ou expressões c afirmações mais informações nos conhecimentos
significativas para as matérias em estudo e que já possuímos.
tome notas;
- à medida que vai estudando procure Procure conhecer-se cada vez
estabelecer mentalmente relações cditi ds melhor - descobrir as suas
conhecimentos do que já dispõe; deste modo, qualidades e dificuldades.
ser-lhe-á mais fácil reter du memorizar os A motivação, o empenho e a
novos conhecimentos adquiridos; se estudar persistência permitem superar
em grupo discuta com os[as] colegas os todas [ou quase todas] as
pontos que considera mais importantes e dificuldades.
sobre os que tem dúvidas;
- para facilitar a memorização e a
0 trabalho intelectual é física e,
compreensão, recorra a algumas técnicas:
sobretudo, mentalmente
■ elaboração dle esquemas e/ou de pequenas esgotante. Por isso, deve evitar
sínteses; horários prolongados de estudo,
■ anotação de palavras e/ou expressões fazendo regularmente pequenos
s ignifi cantes; intervalos (Note Bem: nunca faça
■ organização de um glossário; “diretas”).

■ debate das matérias com um[a] colega;


■ estudo intervalado.
Como abordar um teste escrito ou exame

Propostas... Para reter...

a] Comece por ler todo o teste ou exame antes de começar a responder; Escrever é um ato de
desta forma, ficará desde logo com uma ideia geral sobre as matérias comunicação e, quanto melhor
e as questões que irá abordar, o seu grau de dificuldade e a questão o fizermos, melhor será a
do tempo. nossa capacidade de sermos
compreendidos da forma que o
b] Nesta primeira leitura assinale, sublinhando ou anotando, os elementos pretendemos ser.
fundamentais dos documentos - palavras e/ou expressões, dados
quantitativos, pormenores das figuras...
Podemos aprender a escrever
c] Antes de iniciar cada resposta, anote e ordene os tópicos de conteúdo bem se criarmos um hábito de
que considera adequados à questão e depois siga-os na elaboração da ler e escrever regularmente.
sua resposta.

d] Na redação das respostas tenha presente que irá ser avalliado, tendo em Escrever bem requer esforço,
consideração os seguintes aspetos: dedicação e concentração.
Também ajuda (e muito] ter
sempre um dicionário e uma
- formulação da questão, em particular do verbo que a introduz, pois gramática por perto.
este define o alcance da mesma. [Consulte o significado dos
verbos mais utilizados nos testes/exames na pág. 9);
Não tenha receio da escrita,
- relevância da informação na resposta à questão formulada; dos testes. Aproveite-os para
avaliar e melhorar o seu
- mobilização de informação circunscrita ao assunto em análise;
desempenho.
- articulação (obrigatória] com as fontes;

- forma como a fonte é explorada, sendo valorizada a interpretação Não tenha medo de errar; o erro
e não a mera transcrição; deve ser encarado como um
instrumento para a melhoria.
- correção na transcrição de excertos das fontes e pertinência
desses excertos como suporte de afirmações ou argumentos;
Confie em si próprio, nas suas
- utilização adequada da terminologia específica da disciplina.
capacidades.

e] Em todas as respostas, para além das competências específicas


referidas na alínea anterior, são também avaliadas competências de
comunicação escrita em língua portuguesa, tendD em consideração;

- a estrutura ou a organização do discurso;

- a correção da sintaxe, da pontuação e da ortografia;

- a forma legível da escrita.

NOTA:

0 domínio da comunicação escrita em língua portuguesa representa cerca de 10%


da cataçãa em todos os itens da Prava de Exame Nacional da disciplina de
Historia A. contribuindo, desta forma, para valorizar a classificação atribuída ao
desempenho de competências específicas da disciplina.
3. Prova de Exame Nacional de 12? Ano - História A

OBJETO DE AVALIAÇÃO

• Competências

A Prova de Exame Nacional de História A tem como objeto de avaliação os saberes c competências defi­
nidos nos programas c que foram sendo desenvolvidos ao longo do ciclo de estudos do Ensino Secundá­
rio, concretamente:

- analisar fontes de natureza diversa, distinguindo informação explícita c implícita, assim como os res­
petivos limites para o conhecimento do passado;

- analisar textos historiográfícos, identificando a opinião do autor c tomando-a como uma interpretação
suscetível de revisão, em função dos avanços historiográfícos:

- situar cronológica e espacialmente acontecimentos e processos relevantes, relacionando-os com os


contextos em que ocorreram;

- identificar a multiplicidade de fatores e a relevância da ação de indivíduos ou grupos relativamente a


fenómenos históricos circunscritos no tempo e no espaço;

- caracterizar aspetos relevantes da História de Portugal, europeia c mundial;

- rellacionar a História de Portugal com a História europeia e mundial, distinguindo articulações dinâmicas
e analogias/especificidades, quer de natureza temática quer de âmbito cronológico, regional ou local;

- mobilizar conhecimentos de realidades históricas estudadas para fundamentar opiniões, relativas a pro­
blemas nacionais e do mundo contemporâneo;

- elaborar e comunicar, com correção linguística, sínteses dos assuntos estudados:

• estabelecendo os seus traços definidores;

■ distinguindo situações de rutura e de continuidade;

■ utilizando, de forma adequada, terminollogia específica.

• Conteúdos

Os conteúdos a avaliar no Exame Nacional da disciplina de História A no ano letivo de 2013-2014 repor-
tam-se às matérias estudadas nos 11.“ e 12? anos, a partir de 2014-2013 nos 3 anos do ciclo de estudos
do Ensino Secundário (1D“/11“/12?].

De entre os conteúdos a avaliar, assumem particular importância as matérias consideradas pelos pro­
gramas da disciplina como aprendizagens estruturantes que devem merecer especial atenção

Assim, na prova de exame nacional as questões incidem sobre os conteúdos de aprofundamento, as apren­
dizagens e os conceitos estruturantes assinalados na abertura de cada unidade com um [*] e dois [**]
astericos, respetivamente.
4 Interpretação das questões dos testes e do Exame Nacional de Historia A

A carreta interpretação das perguntas ou questões dos testes e do exame nacional de História A é funda­
mental para compreender o seu alcance c adequar os conteúdos das respostas ao solicitado
Importa, pois, compreender corretamente os significados dos verbos que introduzem as questões

Verbos Respostas pretendidas / Competências a mobilizar

Pretende-se que separe os elementos (partes] associados a um determinado facto


Analise.. histórico ou a uma fonte histórica e/ou historiográfica (texto, quadro, gráfico, mapa...]
e que explicite as suas inter-relações; analisaré decompor, examinar, explicitar, comparar..

Pretende-se que faça um julgamento do valor ou da importância dos dados ou do facto


Avalie._ histórico em apreço, que assuma uma atitude crítica; avaliar é julgar, apreciar, estimar,
verificar...

Pretende-se que apresente os elementos definidores, específicos, que distinguem os


Caracterize... factos ou dados históricos apresentados; caracterizar é definir, descrever, distinguir,
rotular, listar...

Pretende-se que clarifique as diferenças entre os dados ou factos históricos


Distinga...
apresentados; distinguir é analisar, calcular, comparar...

Pretende-se que mencione princípios, dados ou elementos sobre o assunto solicitado;


Enuncie...
enunciar e identificar, reconhecer, reproduzir, resumir...

Pretende-se que clarifique factos, dados ou situações; explicitar é clarificar, diferenciar,


Explicite.-
interpretar, explicar

Pretende-se que interprete c exponha de forma inteligível uma ideia, um determinado


Explique...
facto ou dado histórico; explicar ê decompor, descrever, explicitar, justificar..

Pretende-se que mencione dados ou elementos: identificar é nomear, listar, rotular,


Identifique...
categorizar

Pretende-se que explique a informação histórica associada aos documentos apresentados


Interprete».
com base em conhecimentos prévios; interpretar ê explicar, descrever, resumir.

Pretende-se que apresente as razões ou argumentos para sustentar uma afirmação,


Justifique...
uma hipótese explicativa, um facto histórico; justificar é fundamentar, suportar, defender.

Pretende-se que identifique, mencione dados, factos: referir é identificar, nomear,


Refira...
mencionar.

Pretende-se que estaheleça relações, associações entre os dados ou factos apresentados;


Relacione...
relacionar é comparar, confrontar, associar...
10

10? Ano Módulo 1

Raízes mediterrânicas da civilização europeia - cidade,


cidadania e império na antiguidade clássica
1. 0 modelo ateniense
2. 0 modelo romano
3. 0 espaço civilizadonal greco-latino à beira da mudança

Contextualização

As civilizações antigas grega e romana e d Mediterrâneo - espaço de encontro e de sínteses


de povos e culturas que lhes serviu de berço, constituem a matriz civilizacional de uma

Cronologia Eurnpa que acolheu e difundiu, à escala do globo, o berança político-cultural clássica que
tem no democracia e no humanismo dos Gregos, e nD universalismo e no pragmatismo dos
As grandes etapas da Romanos, os seus pilares cruciais.
evolução política em Atenas

583 a. C.
A oligarquia substitui Unidade 1 0 modelo ateniense
a monarquia. Crise política:
legislação de Drácon
SUMÁRIO
[624 a. C.J e Sólon
[594 a. C.J.
LI A democracia antiga; os direitos dos cidadãos e o exercício dos poderes
550 a. C 1.2 Uma cultura aberta à cidade
Tirania: PisístratD
[560-527 a. C.J; Hípias
APRENDIZAGEN5 RELEVANTES
e Hiparco [527-514 a. C.J.

510 a. C.
- Identificar os elementos definidores dia polis grega.
Democracia: reformas de - Caracterizar o modelo democrático ateniense: as suas limitações, os fundamentos e os
Clístenes (510-507 a. C.J:
mecanismos de funcionamento. Analisar o funcionamento da democracia ateniense, real­
Péricles e Efialtes (462 a. C.].
çando as suas qualidades e limitações
443-429 a. L
0 “Século de Péricles". C0NCEIT05/N0ÇÕE5
Polis, Agora; Democracia antiga; Cidadão”; Meteco; Escravo; Urdem arquitetónica

** Aprendizagens e conceitas estruturantes

1.1. A democracia antiga: os direitos dos cidadãos e o exercício de


poderes

O desenvolvimento da democracia na cidade-estado de Atenas resulta de um processo


longo e complexo de luta pela liberdade e igualdade dos cidadãos, traduzido na imple­
mentação de reformas políticas, sociais e económicas sucessivas a partir do século VII a. C.
Fig. 1. Péricles eliminou protagonizadas sobretudo pelos legisladores Drácon, Sólon e Clístenes, atingindo a polis[l}
a posição Dligárquica
ateniense o seu apogeu na segunda metade do século V a. C., sob o governo de Péricles
à democracia e projetou
o prestígio e o poderio de (Fig. i), de 443 a 429 a. C.
Atenas no mundo gregü.
0 período de 443-429 a. C.,
durante o qual teve uma
posição política dominante,
foi já denominado de "■ A pnftó Sreya caiai,lerizava-se pela sua independência [autanomia/híiErdade], pela autossuficiência económica
“séculü de Péricles*’. .autarcia] e pela especificidade du reçjime e culto ícomunidadE político religiosa].
11

- 0 funcionamento da democracia direta

As democracias antigas^1, de que a ateniense é o melhor exemplo, apresentavam


características muito diversas das democracias atuais. A palavra “democracia” tem ori­
gem no vocábulo grego demokratiã, “domínio do povo”: eram os próprios cidadãos reu­
nidos em assembleias que tomavam as decisões sobre todos os assuntos de interesse
público. Os cidadãos não delegavam os poderes, exerciam-nos efetivamente. Denomi-
nam-se, por isso, democracias diretas.

Em Atenas, no século V a. C., era a Assembleia Popular ou Eclésia, constituída pela


totalidade dos cidadãos* atenieneses, quem tomava as decisões. Tinha poderes para * Cidadão: em Atenas,
gozava deste estatuto
decidir sobre todos os assuntos de interesse geral. Reunia-se regularmente uma vez por
todo adulto do sexo
mês e quando especialmente convocada para resolver algum assunto importante. masculino filho de pais
naturais da Ática [região
A iniciativa legislativa estava confiada à Boulé, uma assembleia composta por 500 da Grécia onde está
situada Atenas], que não
membros (bouleutas) escolhidos por sorteio (50 por tribo), que preparava as propostas
tivesse sido
de lei (probouleumata) discutidas e aprovadas nas sessões da Eclésia. expressamente privado
düs seus direitos civis por
Os magistrados eram considerados como servidores do povo. Uns eram escolhidos ter cometido algum crime
grave.
por sorteio; outros eram eleitos após um apertado processo de controlo moral e político
(docimasia) e controlados no exercício dos seus mandatos, em regra, anuais.

De todas as magistraturas, a mais antiga era 0 Arcontado que, em Atenas, substituíra


a monarquia no ano de 683 a. C. INo século Va. C. o poder executivo estava entregue a
9 arcontes e 1 secretário, eleitos pela Eclésia. As funções do Arcontado, de início muito
importantes, foram diminuindo à medida que a democracia evoluiu, perdendo poderes em â Questão

proveito dos estrategos^, 0 mesmo acontecendo ao Areópago, 0 tribunal ou conselho


1. Relativamente à
mais antigo de Atenas. democracia ateniense,
refira:
A aplicação da justiça encontrava-se também nas mãos do demos. Com exceção de ■ três características de
alguns tipos de crimes, 0 seu exercício pertencia ao Tribunal Popular ou Helieu, consti­ natureza democrática;

• três limites da participação


tuído por 6000 heliastas (cidadãos maiores de 30 anos, sorteados em numero de 600
democrática.
por cada uma das 10 tribos).

- Os limites da participação democrática

0 regime democrático ateniense na Época Clássica baseava-se na isonomia (igualdade

perante a lei), na ísocracia (igualdade de participação nos negócios públicos) e na ise-


goria (igualdade de direitos na defesa pública dos seus pontos de vista). Mas também a
liberdade individual e a filantropia (amor pelo homem, com correspondência no termo
cristão caridade). A introdução da mistoforia^1 reforçou o caráter democrático do regime
ao permitir uma participação mais alargada dos cidadãos. Contudo, a democracia direta
dos atenienses tinha limitações importantes:

zl DEmncracias antigas: ern Atenas, □ puder suberanu estava na Assembleia Popular ou EiJésid, constituída por todus
US cidadãos, que tomava dedsues pur maiuiia. Q Luriceitu rnuderriu de dernuLrdLid representa luva uu parla rnerilar íui
desenvolvido nu sémlu XVIII pur pensadores rurnu Muntesquieu "divisão dE podEresll, Rousseau (sotiErania popular] ou
Vultaire (igualdade de direitos entre todos os homens].
M EstraÍEgos: erri Aterias, a partir de 501 a. C.. QS dez maqisliadus que se em arredavam du rurriandu dus impus de
hoplitas (soldados de infantaria]. Lrarn eleitos pela Eclésia.

' Mistoforia: subsídiu de paitiLipaçãú rias assembleias concedido pelu Estado aos i idadaus mais pobres; o objetivo
era íurnbater o absentismo, estimulando a partuipa^au dus cidadãos na vida pulíiiia.
- dos prováveis 400000 habitantes da Ática no século V a. C., apenas uma minoria

de cerca de 40000 indivíduos seriam cidadãos de pleno direito - os escravosC5)


(c. 200 000) e os metecos ou estrangeiros residentes em Atenas (c. 70000) não per­
tenciam ao restrito número dos cidadãos com direitos de participação política, tal
como as mulheres, que estavam também excluídas da vida públíca;

- a ameaça de uma acusação de ilegalidade (graphê paranomori)1® limitava iniciati­


vas suscetíveis de serem consideradas inconvenientes ou perigosas pela Eclêsia,

Documento 1 apesar da liberdade de tomar a palavra reconhecida a qualquer cidadão;

- ostracismo(7\ mecanismo penal instituído para impedir abusos de poder e defender


Principais jogos (festivais
religiosos e atléticos]: a democracia, não raras vezes foi utilizado para silenciar ou afastar cidadãos críti­
- Jogos Olímpicos em cos ou indesejáveis;
honra de Zeus, em Olímpia:
- as desigualdades sociais, a escravatura e a política externa imperialista.
- Jogos Píticos, em honra
de Apoio, em Delfos.
de 4 em 4 anos:

- Jogos ístmicos. em honra


1.2. Uma cultura aberta à cidade
de Püseidon, no Istmo de
Corinto; - As grandes manifestações cívico-religiosas
- Jogos Nemeus, em honra
Como em muitas outras cidades gregas, as festas dos atenienses correspondiam não
de Zeus, em Némea,
de 2 em 2 anos. apenas a uma necessidade de lazer e diversão, mas contribuíam sobretudo para um
reforço da coesão da comunidade ã volta de uma divindade protetora.

A organização das festividades era responsabilidade


dos magistrados. Os atenienses prestavam culto aos
mesmos deuses1*' que todos os outros gregos, mas a
1 - Cávea nova
2 - Cávea antiga sua particular devoção ia para aqueles que tinham a seu
3 - Orquestra
cargo a proteção da sua cidade: os deuses e heróis epó-
4 - Cena
5 - Corredor de nimos'9\ fundadores da polis e dos genéllc,h
acesso lateral
6 - Muros de As festividades mais importantes eram as Panate-
contenção neias - as Pequenas (anuais) e as Grandes Panateneias
(de quatro em quatro anos), em honra de Atena -, e as
Fig. 2. PI anta do teatro de
Dionísias, em particular as Grandes Dionísias, porventura as mais populares, que celebra­
Epidauro [sec. IV a. C.].
A cávea [bancadas vam 0 deus Dioniso, deus das festas, do vinho, dos prazeres. Estas grandes manifesta-
escalDnadas, escavadas na çoes cívico-religiosas, durante as quais se realizavam competições desportivas e cultu­
encosta de uma colina],
a orquestra [espaçü rais, estavam abertas a toda a cidade, incluindo os metecos e as mulheres.
central ou semicircular
destinado à atuação de
atores e do coro)
e a cena [servia de fundo]
eram três elementos Escravos: homens não-livres. Os escravos faziam os trabalhos domésticos e desempenhavam também tareias eco­
essenciais dü teatro grego. nómicas. Isto tornava naturalrnenle a vida do iidadão mais Facilitada e libertava-o para as tarefas ntelectuais e da
Expressou-se na tragédia, política.
uma forma literária £>ruph£ pürüfíümofí: lei ou proposta de lei contrária as outras leis.
derivada do cultD a Dioniso r Ostracismo: pena de condenarão ao exílio temporário [por urri período de IÜ anos], que exigia 6000 votos, expres­
[destacaram-se Ésquilü. sos em ostrüítJ. ou seja, Fragmentos de r erarnica onde era inscrito o nome do cidadão que se pretendia expulsar da
Sófocles e Eurípedes], e na cidade. Foi decretado em Atenas no anu de blO a. L.
comédia [crítica social ÍH- Deuses: representavam forças da Natureza e eram revestidos de forma humana: como os humanas possuíam
e política], na qual se defeitos e virtudes, distinguiam-se destes pela beleza, eterna juventude e imortalidade. As suas histórias consti­
destaca para Aristófanes. tuíam a mitologia grega.
Bl Epóniimn: "aquele que dá seu norrit1". A divindade epóri ma de Atenas era a deusa Ateria.
M Génos. grupo de Famílias aristocráticas que se Lurisideravarn descendentes de um rriesrnu antepassado.
Unidade í - O modelo ateniense 13

- A educação para o exercício público do poder Cronologia

O sistema de educação procurava conciliar num só programa duas tendências: uma, 0 teatro: autores e obras

maís antiga, visando a formação de homens vigorosos, guerreiros e atletas com uma mais importantes

sólida preparação moral; a outra, virada para a formação intelectual. A formação para o Ésquilo [525-456 a. C):
Os Persas [472 a. C],
exercício da cidadania é essencial para o funcionamento do regime democrático.
Os Sete contra lebas
(467 a. C.J, Oréstia
Os rapazes iniciavam os seus estudos por volta dos 7 anos de idade, quando saíam da
(458 a. C.)
companhia das mulheres (do gineceu, espaço feminino) e iniciavam a sua aprendizagem
Sófocles [497-405 a. CJ:
em escolas privadas. Os mais ricos eram acompanhados no seu percurso escolar por um Antígana [442 a. C.J,
Rei Édipo [427 a. C.J,
pedagogo, um escravo culto. Na escola, a aprendizagem ficava a cargo de três mestres -
tlectra [420-410 a. C.)
0 paidotribes, professor de ginástica, o kitharistês, que ensinava música, e 0 gramático,
Eurípedes [4 B 0-4 06 a. C.J:
responsável pelo ensino da leitura, escrita, aritmética e literatura. Esta aprendizagem Medeia [431 a. C.J,
prolongava-se até aos 13 ou 14 anos. Hipõlito [428 a. C.].
As Troianos (415 a. C.)
A partir dos 15 anos, a educação prosseguia no ginásio (aprendizagem de Matemá­
Artstófanes [445-3S5 a. C):
tica e Filosofia) e na palestra^"1. Os mais abastados que pretendessem prosseguir os estu­ A Assembleia dos
Mulheres [392 a. C.J, As
dos faziam-no junto de um mestre disponível para os orientar.
Rãs [405 a. C.J, /Is Aves

A partir do século V a. C., em Atenas, este modelo de educação orientado para a for­ (414 a. C.J, As Vespas
(422 a. C.J, As Nuvens
mação integral do jovem, futuro cidadão, sofreu a concorrência dos sofistas, professores (423 a. C.)
itinerantes que privilegiavam a retórica"21 (a arte da persuasão) e a dialética (a arte do
debate), habilidades importantes para 0 cidadão interessado em fazer valer as suas ideias
e levar os restantes a segui-las, ou seja, fazer demagogia e alcançar 0 sucesso político.

- A arquitetura como expressão do culto público e da procura da harmonia

0 objetivo primordial dos Gregos era criar edifícios simultaneamente funcionais e


belos. Na Grécia encontramos edifícios públicos destinados a fins religiosos, como os
templos e os teatros, e construções civis, normalmente situados na agora*, como giná­
sios, palestras, estádios e pórticos.
Fig. 3. Esquema simplificado
da ordem dórica [A] e da
De todos estes edifícios, 0 templo foi 0 que mereceu uma maior atenção dos Gregos. ordem jónica (B).
A planta do templo era constituída por uma sala única, a naos ou celta, onde se encon­
trava a estátua da divindade, 0 pronaos ou pórtico que dava acesso ao seu interior, um
* Açora: praça pública
opistódomos, fachada posterior do templo, e o peristilo formado por colunas (colunata) e local de convívio

envolvendo o conjunto. localizada na parte baixa


de Atenas; era aí que se

O esquema de construção do templo assentava numa relação racional e coerente de realizava 0 mercado e que
se situavam construções
elementos horizontais e verticais que transmitiam a ideia de ordem e proporção. As relacionadas com a vida

ordens arquitetónicas* gregas mais antigas são a dórica e a jónica, contemporâneas mas política.

originárias de regiões distintas da Grécia. Tal facto explica as diferenças de pormenor


observadas num e noutro caso. A coluna dórica (Flg. 3) não tem base e assenta diretamente * Ordens arquitetónicas:
conjunto de regras formais
sobre 0 estllóbata, 0 fuste apresenta caneluras de aresta viva e o capitel, constituído pelo
e de proporção que
équlno e 0 ábaco, é multo sóbrio. 0 entablamento (Fig. 4) é formado pela arqultrave lisa, ligavam entre si, de uma
forma preestabelecida,
pelo friso (dividido em tríglifos e métopas) e encimado por uma cornija.
todas as partes de um
edifíciD. normalmente um
,1L Palestra: siyriiíiLd lula em gregú. Funcionava tomo escola de treino físiru e também corno local de convívio social templo.
masculino, já que mulheres nau eram admitidas. Ceralmente, eram anexas aos yymnosium (de yymrws, nu erri
grego], local íeLhado para treino.

Retórica: [Link]. a mesma ruisa que urdiária. Puíém, numa linguagem mais precisa, a retórica designa a
üfte teórica de persuadir pele puitiwu, ao passo que a oratória cuida da sua aplicação nu prdtiLu.
14

A ordem jónica distingue-se da dórica pela coluna ter base, pelo seu fuste ser mais
alto e elegante, com caneluras de aresta chata, e por ter um capitel mais elaborado, com
volutas. A arquitrave é tripartida, dividida por três filas horizontais, o friso é liso e fre­
quentemente decorado com pinturas ou esculturas. Por vezes, as colunas são substituí­
das por figuras femininas (Cariátides) ou masculinas (Atlantes).

Nos finais do século V a. C., surge uma nova ordem arquitetónica, a ordem coríntia,
estruturalmente idêntica à ordem jónica mas diferenciando-se desta por uma maior abun­
dância decorativa e monumentalidade. A diferença mais significativa reside no capitel
(Fíg. 5)1 muíto elaborado, decorado com folhas de acanto e folhas de água.

cornija

Capitel dórico.

métopa
friso

tríklifb

a rq ui trave — entablamento

Capitel jónico.

ábaco
capitel
equino

Hg. 4. Pormenor do
caneluras de
Pártenon, templü
aresta viva fuste consagrado à deusa
Ate na construído no
Capitel coríntio. séc. V a. C. na acrópole
de Atenas.
Fiç. 5. Capitéis das ordens
arquitetónicas gregas.
- A escultura como expressão do culto público e da procura da harmonia

Na Grécia Antiga, a escultura toma como tema principal 0 homem; o antropomorfismo


é a expressão dominante deste género artístico. Deuses, heróis e atletas, os temas pri­
vilegiados da escultura, estão intimamente ligados à religião e partilham entre si a forma
o_ Questão
humana (como escreveu Protágoras, c. 492-422 a. C., “0 homem é a medida de todas as
1. Que características coisas*). Os deuses gregos são concebidos à imagem e semelhança do homem, mas do
distinguem as ordens
arquitetónicas dórica.
homem ideal, anatomicamente perfeito. Tanto na vida como na arte, 0 grego busca a
jónica e coríntia? harmonia e a perfeição.
Unidade 2 0 modelo romano Cronologia

Fases da expansão romana


SUMARIO 35D-218 a. C.
Roma domina a Península
2.1. Roma, cidade ordenadora de um império urbano* Itálica.
254-145 a .C
2.2. A afirmação imperial de uma cultura urbana pragmática*
Guerras Púnicas: vitória
2.3. A romanização da Península Ibérica, um exemplo de integração de uma região periférica no de Roma e domínio do
universo imperial* Mediterrâneo Ocidental.
58-52 a. C.
Conquista da Gália por Júlio
APRENDIZAGEN5 RELEVANTES
César.

- Interpretar a extensão do direito de cidadania romana como um processo de integração 115 d. C.


Cl ImpériD atinge a sua
da pluralidade de regiões no Império*.
extensão máxima.
- Identificar na romanização da Península Ibérica os instrumentos de aculturação das popu­ A carreira de Augusto:
lações submetidas ao domínio romano*. 44-43 a. C
Obtém do Senado poderes
- Distinguir formas de organização do espaço nas cidades do Império, tendo em conta as de Propretor.
É designado Cônsul.
suas funções cívicas, políticas e culturais**.
27 a. C
- Reconhecer a importância do legado político e cultural iromano para a formação da civili­ Adota a designação de
zação europeia ocidental*. “Príncipe" [Prínceps).

27-23 a. C.
CONCEITOS/MOÇÕES 0 Senado confere-lhe
o títulü de “Imperador"
Urbe**, Império’*, Fórum, Direito**, Magistratura. Urbanismo**, Pragmatismo, Romanização**, [Imperator] e “Augusto"
Município, Aculturação’* [At/gustus].
23 a. C.
* Conteúdos de aprofundamento 0 Povd e o Senadü
** Aprendizagens e conceitos estruturantes conferem-lhe o “Püder
Tribunício" [Tribunida
Potestus).

12 a. C
2.1. Roma, cidade ordenadora de um império urbano É “Sumo Pontífice"
[Pontifex Maximus].
Constituído ao redor do Mediterrâneo e da relação de forças que se desenvolveram no
1D a. C.
seu seio, o Império Romano levou a cabo a unificação de um espaço vastíssimo que, no seu Recebe o título de “Pai da
Pátria" [Pater Patriae].
apogeu (séculos I e II d. CJ, se estendia, de Ocidente para Oriente, da Península Ibérica a
Mesopotâmia, e, de norte para sul, das Ilhas Britânicas ao Egito. 5- Lfljss de pedra
4 Aroí.i
3 Pedras miúdai
Ao redor do Mar Mediterrâneo erguiam-se os seus principais cen­ 2 Pedras sonde?

tros urbanos: Roma, Cartago, Atenas, Antioquía, Alexandria...

As províncias do Império encontravam-se ligadas por uma


rede viária complexa (Fig. 1) e inovadora, ajustada às necessida­
des militares e às atividades civis, como o comércio e a desloca­
ção dos indivíduos. As vias romanas modificam a paisagem e os
acidentes topográficos não as param nem as desviam, ligando os
territórios mais remotos do Império entre si e cada um deles a
Roma, no centro. Fig. 1. A rede viária romana,
concebida de forma
engenhosa e tecnicamente
- A unidade do mundo imperial: o culto a Roma e ao imperador evoluída, articulava os
principais portos e as ddades
O domínio do Mediterrâneo e a construção do Império* acarretaram elevados custos do ImpériD e ligava-os a

à sociedade romana e importantes consequências políticas. A vastidão dos seus domí­ Roma, constituindo desta
forma um instrumento
nios fez com que a Constituição da Roma Republicana, assente no modelo da polis grega, indispensável para

se tornasse cada vez menos eficaz para o governo do Império* que já não pode dispen­ a exploração económica das
regiões dominadas e para a
sar o exército e os seus generais. afirmação do domínio imperial.
* Império: na Roma antiga, É assim que se impoe Júlio César, o conquistador da Gália, que governa sozinho
imperium era a püder
supremo militar e civil do
durante alguns meses, nos anos 45 e 44 a. C., após uma sangrenta guerra civil, inves­
rei, e posteriormente düs tido de amplos poderes ditatoriais. Esta experiência política termina abruptamente no
altos magistrados da
República. Com Augusto,
ano de 44 a. C. com o seu assassinato às mãos dos seus adversários republicanos. No
o imperium passou entanto, a conservação do Império reclamava cada vez mais 0 estabelecimento de um
a constituir a base de
legitimação ou
regime monárquico.
fundamentação do seu
Caberá a Augusto (63 a. C.-14 d. C.), sobrinho-neto e herdeiro do ditador assassinado,
poder e autoridade e do
domínio Romano sobre os após derrotar Marco António, Iniciar 0 regime de Principado411.
povos submetidos a Roma
(Império Romano]. Convictos de que essa era a melhor forma de garantir a coesão do Estado e do Impé­
rio, as autoridades romanas empenharam-se em promover a disseminação dos valores
da romanidade. 0 culto ao Imperador e o modo de vida romano foram difundidos de um
extremo ao outro do Império (Fíg. 2), nas cidades fundadas à imagem de Roma, com
forum, templos e banhos públicos, que as elites
A O Provindas Senatoriais
N Arovinuo Impcrfoit cultas adotaram e tinham orgulho em ostentar.
Conquistas de Augusto

Acampamento legionário; do Augusto


- A unidade do mundo imperial: a
OC/AftfD
\ y flSErara
.ú 7 : .4 M ' C f?
■■ ■ jW 1 - -■ codificação do Direito

A ideia de lei, imprescindível na vida e no


Lusitânia Tr
hispAnía Jr" pensamento dos Romanos, constitui um dos
seus legados mais importantes. A base do
Cesareia direito civil, aquele que se aplicava aos cida­
Mauritânia Hurnídi?i

Judleia
dãos romanos, era o costume que, segundo a
AFRICA
Alexandria tradição, tinha sido codificado na Lei das Doze
& ICOkm
1_________ 1

Tábuas (449 a. C.).


Fig 2. A expressão do
Império Romano no tempo Posteriormente, este corpo legislativo, que era a base de todo 0 direito público e
de Augusto: “Hoje, não
existe ninguém nü mundü privado ’1 em Roma, acabaria por cair em desuso, ultrapassado pela atividade jurídica do
civilizado que não Senado e dos magistrados, em particular os pretores que, através da publicação de
reconheça Roma a senhora
do Universo e recuse
numerosos éditosü\ criaram uma grande quantidade de regulamentos que acabaram por
obedecer-lhe**. tornar-se numa espécie de grande código de direito civil. Sob o Império, 0 Direito tor­
Dionísio de Halicarnassa
no u-se essencialmente um instrumento para servir os objetivos de centralização política
e administrativa dos imperadores e de afirmaçao e coesão do Império.

- A unidade do mundo imperial: a progressiva extensão da cidadania

A concessão do direito da cidadania, que inicialmente era um privilégio que se limi­


tava aos Romanos propriamente ditos, vai progressivamente alargar-se às populações
que viviam sob os seus domínios. Primeiro à Itália, no decurso ainda do século I a. C.;
logo de seguida, a um número cada vez maior de povos e cidades, num processo que

ri- Principado (princeps, primus inter pares - príncipe, o primeiro entre iguais]: regime que se baseia nu principie da
aceitaçãu uu consenso geral e que representa urn compromisso entre república e monarquia. Cl príncipe recebe fur-
rridlrnente □ puder da povo e du Senado. As suas prindpais r aracterísticas S3O: rEforço do padEr exEcutivo [ourxariíos]
e respeita pelas formas tradicionais (mores muiururn].
Direito público e direito privadoi: ú primei ru regula as relações entre os cidadãos e ü bstadu: ú segunda as relações
entre os cidadãos. Havia ainda o /us gentium [a letra, direito das gentes] que regulava as relações de Ruma curn os
puvus du Império. A influência du dneitu rurnanu sobre us direitos nacionais enrupeus perdura até a atualidade.
[í| Editas: urdens/leis escritas e comunicadas através de anúncios públicos.
conheceu um desenvolvimento gradual até à sua generalização nos primeiros anos do Documento 1
século III, pelo Édito de Ca r ac ala de 212 d. C. A cidadania romana foi concedida a todos
A generalização da cidadania
os homens livres do Império integrando a pluralidade dos povos no Estado imperial. romana: Édito de Laracala
[212]
Contrariamente ao conceito grego, para os Romanos a cidadania é uma noção aberta.
To do 5 05 que habitam
0 critério determinante para um novo cidadão é a adesão aos valores da cidade. Esta 0 mundo romano são
considerados cidadãos
liberalidade de Roma na atribuição da cidadania constituiu 0 melhor fator de coesão do
romanos por determinação
Império. do imperador.
Digesto, V, 17

2.2. A afirmação Imperial de uma cultura urbana pragmática


- A padronização do urbanismo* * Urbanismo: ordenamento
das construções e do
Urbs Orbfâ, Roma é 0 centro do Mundo, a cidade por excelência à volta da qual tudo espaço citadino.

gravita e ã imagem da qual se erguem novas cidades, segundo o seu modelo político,
cultural e urbanístico. Pode assim falar-se de um tipo de “cidade romana” com um pla­
neamento urbanístico de caráter utilitário, edificada a partir do traçado das vias e tendo
como centro o forum* com os templos, a basílica e a cúria. * Forum nome dado pelüs
romanos à praça principal
Outras construções com fins práticos, como aquedutos, fontes, termas1^ e esgotos, ou da cidade. 0 seu centra
político, religioso,
recreativos, como ginásios, teatros e anfiteatros, ou ainda obras de caráter comemora­ económico e social.
tivo, como arcos de triunfo e colunas monumentais, completavam um conjunto arquite­ 0 mesmo que ágora para
os Gregos.
tónico imponente, sólido e funcional, características próprias de um povo positivo e com
grande sentido de pragmatismo*. * Pragmatismo:
pensamentü/atitude que
A admiração por Roma, pelos seus modelos urbanísticos e artísticos e pelo modo de condiciona a validade de
uma ideia ou conhecimento
vida dos Romanos levou os povos do Império, em particular as suas elites, a aceitarem
à sua utilidade ou
a supremacia romana, colaborando deste modo na pacificação e na unidade imperial, ou aproveitamento. Por outras
palavras, dá prioridade ao
seja, na pax Tomana'^, um instrumento fundamental para a segurança e prosperidade do
efeito útil. 0 pragmatismo
Império. dos Romanos revela-se em
áreas muito diversas: na
religião, na arte, na
- A fixação dos modelos arquitetónicos
literatura, nü direito,
na política interna e externa.
Os Romanos não criaram um estilo arquitetónico próprio. Expressão do seu espírito
pragmático, a arquitetura romana é essencialmente uma síntese de influências etruscas
e gregas. O plano do templo é herdado dos Etruscos, tal como 0 arco de volta perfeita
(ou arco romano), um dos elementos fundamentais da sua arquitetura aplicado às pon­
tes, aquedutos e edifícios públicos e privados. A decoração é grega, sendo a ordem corín-
tia a preferida pela sua exuberância e dimensões mais conformes à escala de grandeza
do Império. Não obstante, também inovaram. São criação romana as ordens toscana e
compósita, esta integrando elementos das ordens jónica e coríntia e dois novos materiais
de construção: 0 cimento (opus caementicium), extremamente resistente, e 0 ladrilho
(opus luterícium) (Fig. 3). Combinados, possibilitaram a construção de abóbadas de gran­
des dimensões e, não obstante, leves. ©_ Questões

1. Que instrumentos
utilizou Roma no processo
Urbs Orbi: cidade do Mundo.
de unificação do seu
Termas: edifícios públicos ou privados destinados d banhos, cujo esquema basicu é constituído por uni vestiário e
Império?
três salas de banhos curn piscinas de água fria. Lépida e queriLe, e a sala da caldeira.
1:1 Pax romano: a Paz fftJx] era, para os Romanos, o principal objetivo du que consideravam ser a missão sagrada de 2. Qual 0 papel do Direito
Ruma: furmar urn vasto império de abundância e bem-estar, sob 0 governo romano. nesse processo?
- A fixação dos modelos escultóricos

Na línha da escultura grega e helenística, entre os Romanos também se destacou d


relevo histórico de caráter monumental e narrativo, no qual se faz a exaltação da ordem
política imperial (Fig. 4), A preocupação de perpetuar na pedra esculpida os acontecimen­
tos notáveis de uma época ou de um reinado (historicismo) inspirou outras realizações
do mesmo tipo, como 0 Altar da Paz (Ara Pacis), de Augusto, 0 Arco de Tito, ou as colu­

Fiç. 3. Mosaico romano nas comemorativas dos imperadores Trajano e Marco Aurélio. Mas a característica mais
(ConímbrigaJ. original da escultura romana é o retrato. A preocupação da representação detalhada dos
traços fisionómicos e do vestuário manifesta um apurado realismo, que chega a deixar
transparecer 0 próprio caráter psicológico das personagens retratadas.

- A apologia do Império na épica e na historiografia

Do mesmo modo que a arquitetura e a escultura, a preocupação central da poesia


épica e da historiografia passa pela glorificação da grandeza de Roma e do Império. Des­
tacaram-se Virgílio (70-19 a. C.), autor de Eneida, 0 grande poema épico e étnico dos roma­
nos, a obra onde se diviniza 0 seu passado e se justifica 0 Império, Horácio (65-8 a. C.)
e Ovídio (43 a. C.-17 d. C.) que cantam nos seus versos os valores romanos e os feitos
gloriosos do imperador Augusto.

Fiç. í|. Busto de Marco A historiografia segue a mesma linha: Tito Lívío (59 a. C.-17 d. C.), 0 grande historia­
Aurélio [121-180 d. C.J.
dor romano, autor de Ab Urbe Condita^, um trabalho monumental sobre a história de
Roma, exalta as virtudes romanas e a proteção dos deuses na realização do seu destino
â Questão glorioso; Tácito (56/57-120 d. C.), autor de Histórias e Anais, evidencia dotes narrativos
e de análise psicológica; Suetónio (c. 69-140 d. C.), autor de Vidas dos Dozes Césares,
L Quais ds objetivos da
épica e da historiografia uma coleção de biografias imperiais.
romana?

- A formação de uma rede escolar urbana uniformizada

No início da época imperial, a par do interesse pelas artes e literatura, cresce a preo­
cupação com a formação intelectual dos jovens. 0 objetivo da instrução é promover e
reforçar o projeto imperial, romanizar, pelo que era importante criar uma rede escolar
urbana uniformizada, coerente. Os mestres eram normalmente escravos ou libertos, fre­
quentemente gregos. 0 Htterator, “aquele que ensina as letras", ensinava as crianças,
rapazes e raparigas, a ler, a escrever e a contar. Esta escola (íurfus) para as crianças dos
7 aos 11 anos funcionava em sala ou ao ar livre.

ü segundo grau de ensino (“secundário") começava por volta 12 anos e la até aos 15
anos e estava a cargo do grammaticus. Estudava-se o latim e 0 grego, poesia e noções de
história, geografia, astronomia e física. No terceiro grau de ensino (“superior”) os alunos
possuíam mais de 16 anos. A prioridade era 0 estudo dos prosadores e da retórica. Tal
como entre os gregos, a educação romana fundamentava-se largamente no ensino das
Humanidades^, tendo em vista a formação de oradores eloquentes e moralmente bem
formados.

w Ab Urbf Condita: desde a funda^au da Cidade.

IH- Humanidades [da palavra llatina bumortjttrs]: está associada a reflexão íiIusuíilj e às atividades culturais, em espe­
cial literárias. Daí que a palavra significasse também “ nstrução", “eduLa^au", “cultura’, “letras" e "artes liberais".
2.3. A romanização da Península Ibérica, um exemplo Cronologia

de integração de uma região periférica no universo imperial 21B-201 a. C.


II Guerra Púnica: os
Até ao séc, II a. C, d território da Península Ibérica esteve à margem da expansão Romanos instalam-se
imperialista romana. A situação alterou-se em 218 a. C. quando, no contexto da II Guerra na Península Ibérica.

Púnica, os Romanos invadem a Península Ibérica para combater os Cartagineses. Roma 197 a. C.
Conquista romana de Cádis
venceu Cartago e, apercebendo-se da importância económica e estratégica da Península, aos cartagineses.

promoveu a sua conquista e ocupação. Ainda antes do fim da Guerra, em 206 a. C., os A Hispãnia fica sob
0 controlo de Roma.
Romanos procederam pela primeira vez à divisão da Hispãnia em duas províncias, a
155 a. C
Citeríor e a Ulterior. Início da guerra lusitano-
-romana.
Pacificados os resistentes Celtiberos e Lusitanos, 0 imperador Augusto fixou a orga­ 29 a. C.
nização administrativa da Hispãnia, dividindo a Ulterior em duas províncias - a Lusitânia Roma impõe 0 seu domínio
ao espaço hispânico.
(capital Emérita Augusta) e a Bética (capital Cordoba) -, dando ã Citerior 0 nome de Tar-
EU a C.
raconense estas em Conventos (leis e justiça). Paralelamente estimulou a fixação de vete­
Augusto divide a província
ranos das legiões e emigrados de Itália (fundação de colónias), que impulsionaram a Ulterior em duas: Lusitânia
(capital - Lmerita Augusto,
romanização*. A presença de mercadores e funcionários dinamizou o comércio e a circu­
Mérida) e Bética [capital -
lação monetária. As villae, grandes unidades de exploração agrícola, abasteciam de Cordoba], dando à Citerior
0 nome de Tarracünense.
cereais, vinho, azeite e carne as despensas romanas, a par de outras atividades como 0
19 a. C.
fabrico da cerâmica, a mineração, a pesca e a extração do sal.
Conquista definitiva da
Península Ibérica.
As cidades peninsulares indígenas possuíam estatutos político-jurídicos distintos.
74 ri.C
Dividiam-se em dois tipos:
0 imperador VespasianD
- estipendiarias - resistentes à conquista, pagavam um tributo (stipendium), mas aos concede 0 direito de
cidadania [Jus latii minus]
habitantes, livres, era-lhes permitido manter leis próprias e a propriedade da terra;
aos hispânicos.

- livres, podendo ser federadas e, como federadas, em alguns casos imunes, isto é, 212

isentas de tributos. Caracala cria a província


da Gollaecia (Galiza).

A algumas cidades, como dissipo (Lisboa), foi atribuído □ estatuto de município


(municipium), dispondo os seus habitantes de direitos de cidadania e autonomia em
graus variáveis. * Romanização: processo
de transformação cultural
Seguindo 0 modelo da Roma Imperial, nas cidades peninsulares construíram-se edifí­ e civilizacional [aculturação]
dos povos submetidos ao
cios públicos utilitários e de lazer, como 0 fórum, templos, ter mas, aquedutos, teatros e
domínio de Roma com
anfiteatros, difundiu-se a língua (latim) e os costumes romanos, entre outros meios ou expressão na adoção, mais
ou menos profunda
instrumentos de um processo de aculturação'*1 exemplar e de integração de uma região
e duradoura, da cultura
periférica no universo imperial romano facilitada pelo engenhoso sistema de comunica­ romana.

ções romano.

■' Acultuiração: processo pelo qual urn grupo entra em contacto com uma cultura diferente da sua e a assimila lutai
ou parLíalmente.
20

Cronologia Unidade 3 0 espaço civilizacional greco-latino à beira da mudança


aia
SUMÁRIO
Édito de Milão, dü
Imperador Constantino: - 0 império universal romano-cristão
tolerância para todas
as religiões. - A Igreja e a transmissão do legado político-cultural clássico
318-301 - Prenúncios de uma nova geografia política; a presença dos Bárbaros1’ no Império
Propagação do Arianismo.
325
APRENDIZAGEN5 RELEVANTES
ConcíliD de Niceia: formula
o Credü e reafirma - Reconhecer a importância do legado político-cultural clássico como uma das matrizes da
a divindade de Cristo.
formação dia civilização europeia ocidental."
381
ConcíliD de Constantinopla:
confirmação düs acordos C0NCEIT05/N0ÇÒE5 E55ENEIAIS
de Niceia. Igreja romano-cristã; Civilização’*; lÉpoca Clássica
391
Teodósio impõe o
* Conteúdos de aprofundamento
Cristianismo como religião
oficial do ImpériD e proíbe ** Aprendizagens e conceitos estruturantes
os antigos cultos aos
deuses.

- 0 império universal romano-cristão


* Igreja Romano-Cristã:
0 Imperador Constantino (306-337) (Fig. 1), depois de restaurar a umidade Imperial,
comunidade dos fiéis que
seguem o Cristianismo pelo Édito de Milão, de 313, concede a liberdade religiosa e a igualdade de direitos aos
e respeitam a autoridade cristãos e decreta a restituição dos bens anteriormente confiscados à Igreja.
do Papa de Roma.
No entanto, os problemas não terminaram para 0 Cristianismo. As diversas maneiras
de entender a Fé provocaram várias divisões. As heresias(L: donatista e ariana1^ consti­
\ %
tuíram um sério problema para a unidade da fé cristã. Para ultrapassar a questão, Cons­
tantino interveio para por ordem na organização da Igreja promovendo a convocação de
um concílio ecuménico1^ , o Concilio de Niceia (325), que condenou o Arianismo e defi­

niu o Credo (dogma) da fé cristã. Superada a crise, 0 Cristianismo pôde reafirmar o seu
caráter católico (universal), integrando a totalidade dos homens numa única sociedade,
a da comunidade dos fiéis de Cristo, sob 0 primado da Igreja Romano-Cristã*.

- A Igreja e a transmissão do legado político-cultural clássico


Fig 1 Constantino,
Ultrapassados os problemas de unidade do dogma cristão e dispondo a Igreja de uma
o Grande, restabeleceu
a unidade imperial organização mais sólida, os Padres da Igreja ou patrística, como são designados os escri­
e governou d Império de
tores cristãos dos primeiros séculos, vão dedicar-se a uma intensa atividade intelectual
324 a 337. Em 313, pelo
Édito de Milão, concedeu e doutrinal. Entre os mais importantes Padres da Igreja, destacaram-se Tertuliano, Ata-
a liberdade religiosa násio, Basílio, Gregõrio de Nazianzo, Gregório de Nisa e João Crisóstomo.
e a igualdade de direitos
aos cristãos.
[l) Heresia: desvio doutrinário.
B IDnnatismn: movimento usrnátuu triado pelo bispo Dona to, que dividiu d Igreja do Norte de África no séLuiu IV.
Qs doriatistas defendiam que os Sacramentos nãu eram válidos em si mesmos rrids que a sua validade dependia da
dignidade do saLerdote que us ministrava.
Questão
H Arianismo: heresia propagada por Ário [3I8-3B1] e seus adeptos, que negava a divir dade de Jesus e que deu origem
a uma das mais graves crises da Igreja Primitiva.
1. Qual o papel de
[qi Ecuménico: universal; “loricíliu ecuménico" porque nele tiveram assento prelados representantes de tudu a rnundo
Constantinü na afirmação
cristão. A intervenção de Constantino instaurou urn nuvu sistema de relações entre a IgrEja e u poder político. o r esa-
do Cristianismo no Império ropapisrno [ingerência do poder político nos assuntos da Igreja] que, no futuru. iria i onstituii urna fonte de novus pro­
Romano? blemas para a Igreja.
Unidade3 - O espaço dvHizadonal greco-latino à beira da mudança 21

Mas o papel dos Padres não se limitou ao plano doutrinal.. Alguns deles revelam urna
grande simpatia pelas línguas e filosofia da Época Clássica* que pensavam poder servir * Época Clássica:
período áureo
o objetivo da propagação do Cristianismo. Neste particular, sobressaíram Lactâncio,
das civilizações grega
Santo Ambrõsio, 5. Jerónimo e Santo Agostinho (Fig, 2), estudiosos dos filósofos heléni­ (sécs. V-IV a. C.) e romana
cos e das leis romanas. (sécs. I a. C.-ll d. C).

- Prenúncios de uma nova geografia política: a presença dos "Bárbaros"


no Império

Os primeiros ataques dos Bárbaros (século III) obrigaram os imperadores a reorgani­


zar 0 sistema defensivo do Império. Esta reorganização permitiu mantê-los em res­
peito, sempre que estes procuram retomar a ofensiva. 0 Império assim protegido
pode continuar a subsistir, mas a abertura das fileiras do exército romano aos
Bárbaros ou a sua instalação no seu território trouxe novos problemas:
0 exército romano vai-se transformando num exército de mercenários15* e os

Bárbaros vão-se instalando nos territórios do Império, como "federados


julgando resolver, assim, a "questão bárbara".

As grandes invasões que conduziram à queda de Roma ocorreram no início


do século V: sob pressão dos Hunos, os Germanos invadiram a Itália e, em 410,
Roma foi pilhada pelos Visigodos, de Alarico. Em 452, os Hunos, comandados, por
Átila, penetraram na Itália mas Roma foi poupada. Ao mesmo tempo, instalam-se por

todo o Império diversos reinos bárbaros: os Visigodos, na Híspãnia, os Francos no Norte Fig. 2. Santo Agostinho
da Gália, os Vândalos na África, etc. Em 476, Odoacro, chefe dos Hérulos, afasta 0 último (354-430) ensinando os
seus discípulos. 0 seu
Imperador Romano, Rómulo Augústulo (475-476) e provoca a queda e a desagregação pensamento sobre
a questão da relação
do Império Romano do Ocidente.
entre ciência e fé pode
Limites de ijHXfses
resumir-se na célebre

* [jr::-r^r d-::-. prtftffrw


pretnrianos- do Oriente
Di&Lêse pintei tas
prítnriãriir. d-í Itãlift < África
frase: Compreende para
que possas crer, crê para

Xh k Droresedos prefeitos
pretorianos das Gálias
Tefiitórios povoados por
Francos.. OstnogixicH eVtsiqodos
que possas compreender.

*'4 Sfrmío 1

DÁC1A
Andrinoplk
^Cdoedónia
Questão

f1 1. Que fatores explicam 0


declínio do Império
ÁFRICA alsflc
Romano do Ocidente?
Alcundric

Fmntóro do império Kmunr


Cnont» o dú Ckfcfcrnc 395 d. C

Fig. 3. 0 Império Romano no século IV.

,s] Mercenários: aquele que serve uu trabalha por urn preço ou salário ajustado. Aqui, soldados. que combalem pur
dinheiro, muitas dos quais recrutadas entre as povos Bárbaros.
■h] Federados: ptwüs inteiras que se encontravam ligados a Roma por meio de urn tratado [fuedus]. Estes povos Lon-
servavam as seus lusiurnes, a sua organização social e política; ocupam as terras romanas e ern compensação for­
necem ao governo imperial urn Lertu número de soldados.
Questões para Exame

Documento 1 I A democracia ateniense na Época Clássica

Não é a habitação que constitui o cidadão: os estrangeiros [metecos] e os escravos não são "cidadãos”,
mas “habitantes”. (...) Não participam, portanto,, senão dama maneira imperfeita nos direitos de cidada­
nia, Quase a mesma coísa acontece com as crianças, que não têm ainda idade para estarem inscritos no
recenseamento dos cidadãos (...). Com maioria de razão se devem delíberadamente riscar desta lista os
infames e os proscritos. 0 que constitui propriamente o cidadão, a sua qualidade verdadeiramente carac­
terística, é o direito de sufrágio nas Assembleias e de participação no exercício do poder público na sua
pátria.

Aristóteles, Tratado da Política, II, Cap. IV.

Documento 2 I 0 regime político ateniense

Direi em primeiro lugar que é justo que, em Atenas, os pobres e a multidão gozem de mais benefícios
do que os ricos e os bem-nascidos, porque é o povo que embarca nos navios e que faz o poder da cidade.
(...) Também é justo que todos igualmente participem nas magistraturas, sorteadas ou eletivas, e que todo
o cidadão que o peça possa tomar a palavra.
Pseudo Xenofontc, República Ateniense, i, 2.

Documento 3 I 0 exercício do direito de voto

Fig. 1. Uma eleição sob a proteção divina de Atenas, os cidadaos depositavam 0 voto numa urna
(pintura sobre cerâmica, século V a. C.).
Documento 4 I A arquitetura e escultura gregas, expressão do culto público e procura da harmonia

Fig, 2. Fachada principal do Pártenon (448-436 a. C.) na Acrópole Fíg^ 3- Estátua do deus Hermes com 0
ateniense. pequeno Dioniso, de Praxílcles (35O_33°
a. C-),

1.1. Caracterize 0 regime democrático ateniense nos séculos V e IV a. C. tendo em conta os tópicos a seguir
enunciados:

- os fundamentos da democracia;

- os limites da participação democrática.

Para além dos seus conhecimentos, deve integrar na sua resposta os dados dos documentos 1 a 3.

1.2. Explicite na análise das figuras 2 e 3 a afirmação que titula o documento 4.

Documento 5 I 0 sentido pragmático dos Romanos

Fig. 4. Pormenor dc uma via romana. Fíg^ 5- Ruínas romanas dc Conímbriga.


Documento 6 I A romanização da Península Ibérica

Aos aldeamentos do Centro e Norte da Península e às “cidades" (pppídd) indígenas do sul, os Roma­
nos vão contrapor as suas cidades (urbes), com os seus sistemas próprios de governo e os seus monu­
mentos.
A habitação privada vai sofrer também alterações, embora o novo modelo de casa tenha sido mais
característico do colono romano ou do indígena romanizado de médio ou alto poder económico. Os aldea­
mentos (vici) continuaram a ter a sua tradicional habitação indígena, com algumas modificações, sobre­
tudo a nível de materiais (cobertura de telhado em telhas planas - tegullae (...) - de cerâmica, substituindo
a tradicional cobertura de fibras vegetais, e a utilização de cimentos e argamassa), captação e abasteci­
mento de águas, vias de acesso e um ou outro eventual monumento de tipo religioso ou dedicatório. (...).
Conímbriga é um dos poucos locais onde podemos estudar a casa (domus) romana com alguma segurança.
Aqui as casas ricas desenvolvem-se em torno de um peristilo com um tanque central e zonas ajardinadas.
(...). Os únicos exemplares de “ilhas" (msí/fàe) que conhecemos são os escavados em Conímbriga. (...).
O templo mais conhecido é o impropriamente chamado templo “de Diana”, na cidade de Évora. Seria dedi­
cado, mais provavelmente, ao culto do imperador e de Roma (...). Uma das zonas importantes das cida­
des romanas era o fórum, grande praça retangular ou subquadrangular à volta da qual, ou perto da qual,
se concentravam alguns edifícios públicos: templo, basílica, cúria, mercado. (...) A estes (...) deveremos jun­
tar vários balneários, públicos ou privados (...).

SARAIVA, J. H.(dir.), História de Portugal, vot. 1, Lisboa, Publ. Alfa, pp. 374-376.

2.1. A partir dos dados dos documentos $e6, explicite o sentido pragmático dos Romanos.

2.2. Analise o processo de romanização da Península Ibérica.

A sua resposta deve abordar, pela ordem que entender, os seguintes tópicos de desenvolvimento:

- os objetivos da conquista da Península;

- os instrumentos utilizados no processo de romanização;

- os fatores do seu sucesso.

A sua resposta deve integrar, para além dos seus conhecimentos, os dados disponíveis nos documentos
Unidade 1 - A identidade civilizacional da Europa 0 cidental

10? Ano

Dinamismo civilizacional da Europa Ocidental


nos séculos XIII a XV - espaços, poderes e vivências
1. A identidade civilizacional da Europa Ocidental
2. 0 espaço português - a consolidação de um reino cristão ibérico
3. Valores, vivências e quotidiano

Contextualizaçâo

Unida no c pelo Cristianismo e o sistema feudal, a Europa □cidental nos séculos XIII e XIV
apresenta contudo uma grande diversidade política - impérios, reinos, senhorios e comunas.
É o tempo da conflituosa ordenação das relações entre ds poderes espiritual e temporal, do
renascimento das cidades e das novas formas de sociabilidade, cultura e mentalidade que
tiveram a sua origem nesta fase mais dinâmica c criativa da história medieval da Europa
Ocidental. É ainda o tempo da afirmação de Portugal comD entidade política autónoma.

Unidade 1 A identidade civilizacional da Europa Ocidental

SUMARIO Cronologia

1.1. Poderes e crenças - multiplicidade e unidade Sécs. VIII-XV


1.2. 0 quadro económico e demográfico - expansão e limites do crescimento Reconquista Cristã na
Península Ibérica.
APRENDIZAGENS RELEVANTES Sécs. XI-XIII
As Cruzadas no Oriente.
- Reconhecer na sociedade europeia medieval fatores de coesão que se sobrepuseram às
permanentes diversidades político-regionais, distinguindo a importância da Igreja nesse Sécs. XI-XIII
Colonização do norte e
processo.
leste da Germânia.
- Reconhecer no surto demográfico do século XIII, na expansão agrária que d acompanhou
12D4-12B1
e no paralelo desenvolvimento urbano o desencadear de mecanismos favorecedores de 0 ImpériD Latino do
intercâmbios de ordem local, regional e civilizacional. Oriente.

- Reconhecer o senhorio como o quadro organizador da vida económica c social dD mundo Fins séc. XIII
rural tradicional, caracterizando as formas de dominação exercidas sobres as comunida­ Avanço turco sobre d
Império Bizantino.
des campesinas**.
Séc. XIV
CONCEITOS/NOÇÕES Termina d movimento de
expansão para o leste.
Reina**; Senhorio**; Comuna; Papado; Igreja Ortodoxa grega; Islão; Burguesia; Economia monetária
Fomes, pestes (Peste
* Conteúdos de aprofundamento
Negra, 1347-1350] e
guerras (Guerra dos Cem
** Aprendizaçens e conceitos estruturantes
Anos, 1337-1453].

1.1. Poderes e crenças - multiplicidade e unidade

- Uma geografia política diversificada; impérios, reinos, senhorios e comunas

A partir sensivelmente do ano mil, foram desaparecendo as incertezas da Alta Idade


Média e a Europa Ocidental recuperou a estabilidade e a prosperidade. No plano político,
a consolidação do feudalismo proporcionou novas bases de autoridade aos príncipes
medievais nas suas lutas contra o Sacro Império Romano-Germânico01 que, desgastado
* Papado: instituição pelas suas lutas contra o Papado*, começa no século XII a dar sinais de fragilidade, per­
pontifícia. Considerados
como representantes de mitindo deste modo a formação de reinos* e ducados fortes. Noutras regiões do Ocidente
Deus, na Idade Média os europeu, em França, na Inglaterra e na Península Ibérica - nos reinos de Castela, de Ara-
Papas juntavam ao seu
enorme prestígio e gão e de Portugal verificou-se um processo de afirmação das monarquias hereditárias
autoridades espirituais um assentes numa administração central cada vez mais complexa e controladora.
imenso poder temporal.

* Reino: estado governado Diferentemente, no norte da Península Itálica e no Mar Báltico, áreas comerciais muito
por um regime monárquico ativas, fortalece-se a autonomia política das cidades-estados onde a aristocracia mercan­
ou realeza.
til controla o governo. Veneza e Génova sustentam o seu poder numa hegemonia comer­
* Comuna: cidade
emancipada da tutela cial e militar que vão construindo no Mediterrâneo. Lubeck, sede da Liga Hanseática
senhorial; situação (1241) - uma poderosa associação comercial e militar das cidades alemãs impõe 0 seu
alcançada através de um
processo de luta ou domínio no Mar do Norte. Na Flandres e no Norte de França, 0 movimento comunal, expri­
simplesmente através da mindo as aspirações de liberdade dos burgueses das cidades, libertou diversas cidades
compra de uma carta de
franquia, a carta comunal. da dependência dos senhores feudais e transferiu para as elites mercantis 0 governo des­

‘ Senhorio banal: designa tas cidades emancipadas, as comunas*.


um conjunto de poderes de
origem e natureza pública Na Europa Central e Oriental e em muitos pontos do Ocidente europeu, encontramos,
exercidos pelo senhor num no século XIII e durante bastante tempo mais, os senhorios banais*, ou seja, vastas áreas
território. 0 titular
acumulava no senhorio onde os senhores exerciam 0 direito de bannum[i\ um direito que no passado pertencia
esse poder jurisdicional ou exclusivamente ao monarca.
político, rendas e, muitas
vezes, património.
- Imprecisão de fronteiras internas e externas

Na Idade Média, as fronteiras dos estados europeus estavam longe de estar estabili­
zadas. ü mesmo se verificava relativamente ao exterior. Além disso, o seu traçado não
era rígido nem definitivo. Nos finais do século XIII, Portugal era uma notável exceção,
pois 0 seu território ficou praticamente definido. O mesmo não se passava no resto da
Península Ibérica onde a presença muçulmana irá prolongar-se até ao século XV.

Na Alemanha, as sucessivas tentativas do Papado e dos imperadores do Sacro Impé­


rio para realizar 0 sonho de formar uma monarquia universal cristã, integrando todos os
povos do Ocidente, levaram ao aparecimento de numerosos estados. 0 sonho de uni­
dade deu lugar à fragmentação política e à rivalidade entre os príncipes ávidos de esten­
derem as suas fronteiras e reforçarem 0 seu poder. No século XIII, o Império transfor-

mara-se numa confederação de estados sob a presidência distante do imperador, num


mosaico de estados praticamente autônomos.

Na Itália, 0 conflito entre 0 Papado e 0 Sacro-lmpérioü) favoreceu a independência


das cidades e os conflitos no interior destas pelo controlo do poder. Em França, os

Saicro limpéno Romana Germânica: império fundadn ipur Liãu I, cnruadu como imperador pelo papa, em 962, nascido
da união dos territórios urienlais du fragmentado Impérid Carolíngio dividido apâs a rrmr te du seu íuridadur Carlos
Magno; subsistiu até 1006, quando Foi abolido por Napoleão Bonaparte.
Direita de bcjrtntr/m poder de curnaridar, ohrigar e castigar homens livres; nu seja, poderes de caráter militar e indi­
ciai e a irnpnsiçãu de serviços e tributos.
N Ü papa InncêriLio III [IIÜ0-I2I6] pretendeu irnpnr rin Ocidente uma espécie de teotracia, prucurandu submeter tndus
os príncipes a sua autoridade, ou seja, a aulnridade dn representante de Deus na ferra. Estas píetensdes prnvuca-
rarri urn grave conflito itirn l-rederico II. imperador du Sacro-Império.
Unidade 1 - A identidade civiUzacional da Euro pa 0cidental 27

monarcas feudais recorrem à guerra para unificar o território sob a sua autoridade pro­
curando retirar aos ingleses os domínios que possuem no continente, nomeadamente na
Normandia e na Aquitânia.

As fronteiras externas da Europa estavam também longe de uma estabilização, O longo


período de crescimento económico e demográfico dos séculos XI-XIII impulsionou a
expansão da Europa muito para além dos seus limites geográficos do ano mil. No
extremo ocidental, no sul e no oriente o domínio muçulmano era um fortíssimo obstá­
culo. Por isso, o conflito tornou-se inevitável: na Península Ibérica, a Reconquista Cristã,
iniciada no século Vllll, empurrou os Muçulmanos para o norte de África; no oriente, as

Cruzadas permitiram abrir a navegação mediterrânica e os mercados orientais aos Euro­


peus; a norte e a leste, o movimento de colonização estendeu a fronteira da Europa muíto
para além do limite tradicional do rio Elba.

0 avanço turco a Oriente nos finais do século XIII, a paragem dos arroteamentos e o
regresso da "trilogia sinistra" (fome, peste e guerra) no século XIV iriam interromper de
forma dramática o surto expansionista dos séculos anteriores.

- A organização das crenças: o poder do Bispo de Roma na Igreja ocidental

A Igreja de Roma emergiu da queda do Império Romano do Ocidente, no século V, Cronologia


como a úníca força organizada e com força e capacidade para se impor numa Europa
1D54
onde os povos "bárbaros” recém-insta lados procuravam assimilar o legado civiUzacional
Cisma entre a Igreja de
romano. 0 processo de cristianização destes povos deu à Igreja de Roma um enorme Roma e de Bizâncio.
prestígio e autoridade que ela soube capitalizar para influenciar a organização e os com­ 1075-1122
A Questão das
portamentos das sociedades europeias e dos poderes políticos.
Investiduras.
1198-1216
A Igreja defendia uma organização social triangular: três ordens bem delimitadas,
Pontificado de Inocêncio III.
sendo cada uma delas investida de uma função particular. No topo, os oradores, o clero,
1209-1229
seguido da ordem dos guerreiros, a nobreza, que têm por missão defender o conjunto Cruzada contra os
Albigenses [movimento
do povo, e, finalmente, os mantenedores, o povo, vivendo sob a obrigação de alimentar
herético] no sul de França.
as outras duas. Cada uma das três ordens devia, portanto, cooperar na manutenção da 1229
concórdia num mundo ordenado por Deus e, por isso, imutável. Fundação da Ordem dos
Franciscanos.
O crescimento económico e o renascimento urbano iniciado no século XI acabariam 1231
GregóriD IX cria a
por mostrar o desfasamento entre este modelo de organização social e a nova realidade.
Inquisição papal.

O resultado foi a desorganização do sistema de relações que a teoria das três ordens
quisera eternizar. Os antagonismos sociais surgiram tanto nos campos como nas cidades
onde o contraste entre a riqueza de uns e a miséria de outros se tornava cada vez mais
escandaloso. No seio da própria Igreja surgiram movimentos reformadores: uns heréti­ O Questões
cos, outros auto reformadores, como as Ordens Mendicantes e as Confrarias, defendendo
1. Qual o modelo de
novas formas de religiosidade mais próximas dos ideais evangélicos da Igreja primitiva.
organização social
Ao mesmo tempo, a difusão de uma cultura laica, ã margem dos padrões da moral reli­ defendido pela Igreja?
Quais os seus objetivos?
giosa, retirou o monopólio do ensino e da cultura ao clero.
2. Como se explicam ds
No domínio do pensamento político, a Igreja impõe o ideal da reconstituição da uni­ frequentes conflitos nas
relações entre o PapadD e
dade imperial no Ocidente e alimenta o sonho da constituição de uma comunidade polí­
o Império aD longo da
tico religiosa unida sob a autoridade do Papa e do Imperador. Mas a pretensão da Igreja Idade Média?
28

de afirmar a superioridade do poder espiritual sobre o temporal marcaria negativamente


as relações entre os dois poderes ao longo de toda a Idade Média.

As lutas dos papas Gregõrio VII (Fig. i). no século XI, e de Inocêncio III, no século XIII»
com os imperadores do Sacro-Império marcaram decisivamente essas relações: a ideia
Imperial não desapareceria, mas o projeto universalista que a Igreja tentara encarnar
estava, definitivamente, comprometido.

- 0 reforço da coesão interna face a Bizâncio e ao Islão*

Fiç. 1. Iluminura de 1114, ü Cristianismo constitui após a queda de Roma a base da unidade da Europa medie­
representando Henrique IV
val, mas esta unidade era muito relativa. Com efeito, a cristandade conheceu vários con­
no momento em que
suplica a presença de flitos envolvendo papas e imperadores, reis e clérigos, tendo na sua origem questões de
Gregório VII para que
natureza política e social misturadas com outras do foro religioso. Destas querelas resul­
este lhe levantasse
a excomunhão. taram naturais quebras de prestígio e a rutura entre Roma e Bizâncio no ano de 1054,
quando o patriarca Bizantino e 0 legado do papa lançaram anátemas^ recíprocos, culmi­
nando numa série de crises motivadas por divergências doutrinais e de autoridade.

Confinada ao Ocidente, a Igreja Romana procu­


rou reforçar a coesão combatendo os movimentos
heréticos, como o dos Cátaros ou Albigenses(5), no
século XII, criando a Inquisição para reprimir as
heresias, apostando ao mesmo tempo na pregação
e no exemplo das novas Ordens Mendicantes.

Relativamente ao Islão, a Igreja ocidental, fun­


dada na sua vocação universal, mobilizou as suas
energias na luta contra aqueles que considerava
Fiç. 2. Partida do rei
francês Luís IX (1215-12701 como infiéis, inimigos do Cristianismo, e pregou a Guerra Santa (Cruzada) (Fig. 2), tanto
para a Cruzada (1248-1254).
na Península Ibérica (Reconquista Cristã) como no Oriente, na Terra Santa, lugar sagrado
de peregrinação.

’lslão: religião dos


muçulmanos. A palavra 1.2. 0 quadro económico e demográfico - expansão e limites do
“islão" significa
crescimento
“submissão". 0 muçulmano
é aquele que se submete
à doutrina de Alá revelada - A expansão agrária
ao profeta Maomé e escrita
no livro sagrado, 0 Corão. Depois de um período terrível marcado pelas incertezas da vida (fomes, insegurança,
cujo significado em árabe pestes) e pelas ameaças externas (os Vikings, no norte, os Magiares, no centro, os Muçul­
é “recitação".
manos a oriente e a sul), as primeiras décadas do século XI significaram para a Europa
o regresso da paz e 0 início de um longo período de expansão económica e de estabili­
dade que se prolongará até aos finais do século XIII.
â Questões

1. ComD procurou a Igreja


ocidental reforçar a sua
Anátemas: excurnunhues.
coesão interna?
[í,) Cátaros ["purus"] ou Altngenses: criticavam a Igreja Católica, na sua pratica e nas suas riquezas, rejeitavam us
2. Que atitude assumiu sacramentos e u culto, negavam a encarnaçaij de Crus to e currihatiam o cdsdmenio e a jjrucriaçau. Falhadas as pre­
relativamente ao Islão? gações de S. Eerriardu.. u Papa pregou curitra eles urna cruzada que se transformou numa guerra sangrenta e que
Porquê? termina em 1229.
Na origem destas mutações encontra-se um significativo cres­
cimento demográfico que impulsiona os movimentos das Cruza­
das (Oriente), da Reconquista na Península Ibérica e a coloniza­
ção alemã do leste europeu. Mas também explica o
arroteamento1^ de extensas áreas no interior da Europa que até
então se encontravam cobertas por matagais e florestas ou ato­
ladas em pântanos.

Os agentes destas transformações são, nomeadamente, os


Fig. 3. Progressos técnicos
senhores laicos e eclesiásticos e os próprios reis que levaram a cabo profundos arrotea­ agrícolas depois dü ano
mentos coletivos. mil: a utilização de
instrumentos em ferro
As Ordens Monásticas revelam-se instituições empreendedoras, na tarefa de coloniza­ e dü cavalo, de estrume
animal e de novos
ção e de ocupação dos solosl7\ Do mesmo modo, reis e eclesiásticos unem-se para fun­
engenhos de irrigação
dar novas aldeias. Fundam-se assim terras novas e aldeias livres, para onde se procura (nora e picota).

atrair as gentes mais variadas, até mesmo servos em fuga dos seus senhores com pro­
messas de terras e a garantia da sua liberdade pessoal.

Ao mesmo tempo, ocorre uma **revolução” das técnicas agrícolas (Hg. 3):

- a substituição do arado pela charrua, cuja grelha assimétrica permitia não só abrir n Questões
o solo mas também revirá-lo, arejando-o e facilitando uma melhor distribuição dos
1. Que condições
nutrientes; favoreceram a expansão
agrária na Europa Ocidental
- a introdução da rotação trienal (seguindo a sequência: trigos de inverno, trigos de
nos séculos XI-XIII?
primavera, repouso) favoreceu o aumento da produção e da produtividade;
2. Qual a relação entre
- o uso preferencial do cavalo em vez do boí; embora mais caro e mais difícil de man­ 0 aumento da produçãD
agrícola e 0 crescimento
ter, o cavalo permite ganhos de tempo no trabalho. demográfico então
verificado?
Apesar de a produtividade da terra continuar reduzida, do século XI ao XIV, a Europa
conseguiu ultrapassar a ameaça das fomes cíclicas, facto que esteve na origem do cres­
cimento demográfico, até então contido, devido à insuficiência da produção agrícola. No
entanto, 0 equilíbrio demográfico continuava a ser frágil. As sociedades europeias ainda
não estavam suficientemente protegidas das crises de subsistências e da penúria de
homens.

- Dinamização das trocas regionais e afirmação das grandes rotas do comércio


externo
Cronologia

12DD
0 comércio mediterrànico Instituição da feira de
Bruges.
0 longo período de expansão económica que caracterizou 0 Ocidente cristão nos sécu­
1260-1266
los XI-XIII e 0 movimento das Cruzadas, conjugado com o enfraquecimento do domínio Primeira viagem dos
muçulmano e a melhoria dos meios de transporte marítimos (desenvolvimento da constru­ venezianüs NíccoId e Mateo
Polo à Ásia.
ção naval, adoção de novos Instrumentos e técnicas de orientação e navegação como a
1204
Os Genoveses derrotam
a frota de Pisa e afastam
esta cidade da disputa dü
1:1 ArrotEarnento:: d estirava rneriLü; tran$foirrnaç3u de áreas Incultas, bravias, em terras cultivadas, produtivas. comércio nD Mediterrâneo
Oriental.
Llunp, Cister e as Ordens Militares promovem ativarnenie u arroteamento' de novas terras.
bússola, o portulano(H: e a vela triangular), permitiram que os
“italianos" estabelecessem uma rede comercial no Mediterrâ­
neo que durante vários séculos lhes assegurou a prosperidade
económica, constituindo-se como uma ponte privilegiada entre
a Cristandade e os mundos Bizantino e Muçulmano.

Na Ligação do Atlântico ao Oriente, os portos mediterrâni-


cos de Barcelona, Génova, Marselha, Tunes, Veneza, Constan­
tinopla e Alexandria constituíam as escalas mais importantes.
Estas correntes comerciais marítimas eram aínda reforçadas
por rotas terrestres que do Oriente confluíam para as margens
do Mar Negro e destas para o Norte da Europa. De entre as
Fig. 4. 0 porto de Génova
no século XV. cidades mediterrânicas, Veneza é a mais importante, embora nos séculos XII e XIII tivesse
de enfrentar a concorrência de Pisa e Génova (Hg. 4), que lhe disputavam o lucrativo
comércio no Mediterrâneo Oriental.

ü Mediterrâneo Oriental era de importância vital para as cidades italianas mas tinha
igualmente um grande interesse comercial para a Europa. Com efeito, era a partir do
comércio nesta área que, através dos “italianos", os Europeus tinham acesso aos produ­
tos de luxo asiáticos (especiarias, tecidos e fazendas de algodão e de seda, pérolas e
pedras preciosas...), às matérias-primas da Ásia Menor (alúmen e metais), aos couros,

peles e cereais da Rússia e da Roménia, aos escravos da Rússia, ao peixe salgado, vinhos
e sal do Mar Negro. Por outro lado, estes mercados absorviam artigos industriais, sobre­
tudo panos e tecidos, objetos de metal, bronze, estanho ou ferro produzidos nas cida­
des da Tlandres, da Inglaterra e do sul da Alemanha. Do norte de África, provinha 0 ouro

tão necessário à cunhagem de moedas.

Questões 0 comércio no Ocidente: principais centros urbanos e rotas comerciais

1 Quais as grandes rotas No Mar do Norte e no Mar Báltico as cidades alemãs adquirem autonomia política e
do comércio mediterrânico tornam-se polos comerciais muito dinâmicos, estendendo a sua influência para além dos
no século XIII?
limites da sua jurisdição e estabelecendo acordos comerciais com outras cidades. Foi
2. Qual a importância do
neste contexto que se constituiu, em 1241, a poderosa Liga Hanseática, com sede em
comérciD do Mediterrâneo
Oriental para a Europa? Lubeque, que passou a organizar a proteção militar dos seus pesados navios de carga,
as koggé9\ carregados sobretudo com produtos em quantidade e relativamente baratos
(cereais, madeira, sal). De simples associação criada para a defesa da navegação no Mar
Báltico, a Hansa transformou-se numa importante confederação política e comercial de
cidades mercantis, monopolizando 0 comércio nesta área e estendendo a sua influência
a todo o norte europeu.

À margem da Hansa, algumas cidades do sul da Alemanha conheceram também um

grande desenvolvimento. Ravensburgo, Nuremberga e Augsburgo, entre outras, puderam


beneficiar, a partir do século XIII, de um período de prosperidade, graças às boas comu­
nicações com o norte de Itália e com a França, ao incremento da Indústria têxtil e sobre­
tudo ao investimento na exploração mineira e na metalurgia.

w Purtulariu: tipo de carta náutica retangular onde se Encontravam registadas as linhas de rumo e a localização dos
principais portos da costa Ocidental da turupa, Mar do Norte e Mediterrarieu.
Kogge. navio de carga curri urn único mastro e vela quadrarigular.. Os latinos chamavam-lhe corracn.
Unidade 1 - A identidade civiUzacional da Europa 0cidental 31

A ligação entre o norte da Europa e d norte de Itália estabele­


ceu-se num primeiro momento por via terrestre, através das rotas
abertas nos Alpes, tendo como pontos de referência as célebres
cidades-feiras de Champagne (Lagny, Bar-sur-Aube, Províns e Troyes).
Estas feiras, situadas estrategicamente no caminho entre aqueles
doís grandes polos económicos e apoiadas pelas concessões dos
condes da Champagne (isenções fiscais e de salvo-condutos), trans­
formaram a região num mercado aberto e contínuo, num espaço de
encontro quase obrigatório dos mercadores itinerantes oriundos de
todas as partes do Mundo Ocidental.
Fig. 5. S. Mateus
Mas o percurso dos mercadores não terminava nestas cidades-feiras. Para muitos, representado como
mercador e banqueiro, com
a Champagne era apenas uma etapa no caminho da e para a Flandres, onde existiam
livros de contabilidade.
várias cidades com feiras e industrias muíto dinâmicas: Bruges, Ypres, Lille e Gand. balanços destinados
ao câmbio e peças de outd
Bruges era a mais importante. A sua situação privilegiada no centro de uma grande
sobre o balcão. Q vülume
região industrial e mercantil e no estuário do Zwin, servida pelo anteporto de Damme, e a rapidez das transações
fizeram aumentar
por um porto bem apetrechado e por uma rede de canais navegáveis, transformou-a
a procura do dinheiro
no local ideal para as relações comerciais dos mercadores han se áticos, ingleses e do e a importância dos
banqueiros.
sul da Europa, nomeadamente “italianos”, bascos, catalães e portugueses. Para além
disto, albergava a praça financeira europeia, a Bolsa (de Buerse, apelido da família pro­
prietária do espaço), procurada por mercadores, cambistas e banqueiros (Fig. 5) de toda
a Europa numa altura em que a economia europeia evoluía cada vez mais para uma
economia monetária*.

- A fragilidade do equilíbrio demográfico * Economia monetária:


economia aberta, Dnde
Não obstante a prosperidade quase generalizada na Europa nos séculos XI-XIII, a ver­ a moeda circula com
dade é que o equilíbrio alcançado entre o crescimento demográfico e a produção agrí­ velocidade e em
quantidade fruto da
cola era precário, porque os níveis de produtividade jamais foram melhorados de forma dinâmica das atividades
a afastar a ameaça das fomes. 0 equilíbrio era mantido à custa de uma conquista per­ comerciais e financeiras.
Nos séculos XI-XIII,
manente de novos solos (arroteamentos de florestas, pântanos e baldios). a melhoria dos transportes
marítimos [incremento da
Nos finais do século XIII e princípios do século XIV, atingiu-se uma situação de ten­ construção naval),
são entre a população e a produção e a rutura tornou-se inevitável, com a conjugação a adoção de novos
instrumentos e técnicas
de dois fatores com consequências devastadoras: de navegação (portulanD,
bússola, vela triangular],
- o abrandamento e a paragem dos arroteamentos em muitas regiões da Europa;
contabilísticas [partida
- o início de uma época de catástrofes climáticas e de maus anos agrícolas. dübrada/deve e haver]
e financeiras (letra de
câmbio e cheque) deram
Estava “lavrado o terreno” onde germinariam as fomes, as epidemias e a crise. A fome um importante contributo
atinge duramente a demografia. Primeiro os pobres, depois todos. As taxas de mortali­ para esta dinâmica.

dade elevam-se e a mâo de obra torna-se escassa. Menos braços, menos produção. Ao
flagelo da fome junta-se 0 das epidemias (os corpos mal alimentados estão mais expos­
tos à doença), o das pilhagens e 0 das guerras. Fecha-se o círculo sinistro. A crise está Questão
instalada.
1. Que fatores explicam
a fragilidade do equilíbrio
demográfico na Europa dos
séculos XIII-XV?
32

Cronologia Unidade 2 0 espaço português - a consolidação de um reino cristão


MHG ibérico
Fundaçãü do Condado
Portucalense. SUMÁRIO
1128
Batalha de S. Mamede:
2.1 A fixação do território - do termo da Reconquista ao estabelecimento e fortalecimento de
D. Afonso Henriques fronteiras*
assume o governo dü 2.2. 0 país urbano e concelhio*
Condado.
2.3. 0 país rural e senhorial*
1139
2.4. O poder régio, fator estruturam e da coesa o interna do reino*
Batalha de Ourique:
D. Afonso Henriques
assume o título de rei. APRENDIZAGEN5 RELEVANTES
1143 - Compreender a especificidade da sociedade portuguesa concelhio, distinguindo a diversi­
Tratado de Zamora:
dade de estatuto dos seus membros e as modalidades de relacionamento com o poder
D. Afonso VII, imperador de
Castela, reconhece o título régio e os poderes senhoriais**.
de rei a D. Afonso - Interpretar a afirmação do poder régio em Portugal como elemento estruturante da coe­
Henriques.
são do país concelhio c do país senhorial e promotor de missões de prestígio e de auto­
1179
nomia do Reino no contexto da cristandade ibérica**.
Bula Manifestis Probatunr.
o papa reconhece a
C0NCEIT05/N0ÇÔES
independência do Reino
de Portugal. Reconquista**, Concelho**, Larta de foral, Mesteiral Imunidade**, Monarquia feudal**, Eúria, Cor­
1249 tes /pariamemos**, Inquirições, Legista
D. Afonso III reconquista
o Algarve. * Conteúdos de aprofundamento

1297 ** Aprendizagens e conceitos estruturantes

Tratado de Alcanises:
definição das fronteiras
leste de Portugal.

2.1. A fixação do território' - do termo da Reconquista ao


estabelecimento e fortalecimento de fronteiras
A definição do território de Portugal, tal como a sua existência
como entidade política independente no oeste peninsular, está inti­
* Reconquista: processo de mamente ligada ao fenómeno da Reconquista*. Pode mesmo afir-
flh íkv, o. Castelo
recuperação do domínio
mar-se que Portugal é um produto seu, pois tanto a formação do
da Península Ibérica,
Cãstelü
conquistada e ocupada Condado Portucalense (1096)^ como também a autonomização po­
pelüs Muçulmanos
lítica e 0 alargamento territorial do Reino de Portugal estão-lhe as­
[Sarracenos ou Müuros].
iniciado a partir das sociados.
Astúrias no séculD VIII
Monforte
pelos cristãos 3 Com efeito, foram as vitórias no campo de batalha contra 0 Islão
peninsulares. Tratou-se de
que deram a D. Afonso Henriques 0 prestígio e a autoridade neces­
um movimento lento (até
aos finais dü século XV), sários para reivindicar junto das autoridades castelhana e papal o di­
Qsrnpo Maior.-
irregular [com avanços
reito de usar 0 título de rei e ser aceite como soberano pelos seus
e recuos) e com
alternância de longos súbditos^.
períodos de paz e outros
de guerra. rn A fuirnaçao du Condado Portucalense [1096] resultou da doação de D. Afonso VI ao
ATúdte
conde D. Henrique da Borgonha. que se encontrava na Península para ajudar na luta t uri-
Arbcena tra os mouros, a título de dote hereditário, pela casamento deste curn U. Teresa, sua
Fig. 1. Definição da fronteira filha.
leste de Portugal nos fins 121 A partir de 1139. data da vitoria na Batalha de Durique. D. Afonso Henriques assumiu □
do século XIII pelo Tratado título de rei, apesar da sua condição de vassalo de 0. Afonso VII. imperador de Leão e
5ü km Castela.
de Alcanises [1297).
Unidade 2 - O espaço português - a consolidação de um reino cristão ibérico 33

Foi ainda o sucesso militar que lhe permitiu obter um território suficientemente amplo
para viabilizar a existência de Portugal como reino independente, alargando a sua fron­
teira sul até à linha do Tejo-Sado, com a conquista de Santarém (1147) e cuja posse abriu
0 caminho à tomada de Lisboa (1147) e feito alcançado com a ajuda dos Cruzados. Segui-
ram-se-lhes as conquistas de Sintra, Almada e Palmeia, fortalezas importantes para a de­
fesa de Lisboa e de Alcácer do Sal.

Ao mesmo tempo que se ia processando 0 alargamento territorial para sul, D. Afonso


Henriques e os seus sucessores dividiam os seus esforços no povoamento e organização
administrativa, económica e social das áreas conquistadas, elementos fundamentais para Fig. 2. D. Dinis [1279-1325],
negociou □ Tratado de
a consolidação das fronteiras e para a própria sobrevivência do Reino. Para realizar estes
Alcanises [1297], com
objetivos foram concedidas cartas de foral, criaram-se os primeiros órgãos de administra­ Castela.
ção central e fizeram-se importantes doações de terras e privilégios às ordens religiosas
e ás ordens militares. A tomada de posse por D. Afonso III, em 1249, das cidades e cas­
telos do Algarve, ainda nas mãos dos Mouros, concretizou 0 grande objetivo de estender
as fronteiras até ao limite sul do território. Cronologia

A definição do espaço territorial português ficou concluída com a celebração do Tra­ 1137-1179
D. Afonso Henriques
tado de Alcanises (Fig. 1) (1297) entre D. Dinís de Portugal (Fig, 2) e D. Fernando IV de
concede forais a Penela
Castela que fixou de forma praticamente definitiva a fronteira leste de Portugal. [1137], Leiria [1142].
Germanelo [1142-1144],
Deste modo, ainda no século XIII, Portugal estabelecia as fronteiras do seu território Arouce [1151] e a Lisboa
(1179J.
que, com pequenas alterações posteriores, haveriam de permanecer atê aos nossos dias.
1186
D. Sancho I doa Almada,
Palmeia e Alcácer dü Sal
2.2. 0 país urbano e concelhio à Ordem de Santiago.
1192
- A multiplicação de vilas e cidades concelhias D. Sancho I concede foral
a Penacova.
As formas de povoamento e de organização das populações no território portu­
guês refletem as características do melo geográfico e, sobretudo, as condições histó­
ricas em que se processou a formação do território português, concluída no século XIII.

A configuração retangular, alongada no sentido do litoral, e 0 acentuado con­


traste natural entre as regiões do norte e do sul, do litoral e do interior condicio­
naram naturalmente a distribuição populacional no território português. O norte,,
em especial a região litoral, dispunha de uma maior densidade humana, mas os
seus núcleos populacionais eram bastante mais reduzidos e muito dispersos. No
século XIII, até ao vale do Tejo, apenas as cidades de Porto, Coimbra, Braga e Gui­
marães tinham alguma dimensão. Os maiores aglomerados populacionais situa-
vam-se no sul, onde havia uma forte tradição urbana romana e muçulmana,
destacando-se Lisboa e Évora, entre outras de menor dimensão, como Santarém,

Eivas, Silves, Faro e Tavira.

Foram as condições históricas ligadas ao avanço da Reconquista Cristã para sul que
terão tido uma influência mais marcante. A conquista e integração do sul no domínio
português implicou importantes movimentos de populações, parti cuia rm ente do norte
de Portugal mais povoado, para as regiões que iam sendo tomadas aos Mouros,
Fig. 3. Concelhos medievais
fenómeno que acabaria também por favorecer a coesão étnica e cultural do País. portugueses.
34

* Carta de foral: documentos Esta tarefa de povoamento - fundamental para assegurar a defesa e promover a explo­
concedidos pelos reis ou
ração económica do território - foi Incentivada pelos reis através de doações às Ordens
pelos senhores (laicos e
eclesiásticos) que regulavam Religiosas e Militares (Templários, Hlospitaláríos, Calatrava e Santiago) como contrapartida
a vida dos concelhos,
nomeadamente os direitos ao auxílio prestado na luta contra o Islão e às ordens não militares (Cónegos Regrantes
e obrigações dos seus de St.° Agostinho, Cistercienses, Franciscanos e Dominicanos).
habitantes (“vizinhos"), em
particular a administração, Ao mesmo tempo e com idênticos objetivos, reis e senhores (nobres e eclesiásticos)
o fisco e a justiça.
concederam cartas de foral* ás vilas e cidades de Portugal. Desta forma foram criados mui­
* Concelho: circunscrição
territorial e administrativa tos concelhos* (Fig. 3), importantes agentes do povoamento.
com um variável grau de
autonomia: cada concelhü - A organização do território e do espaço citadino
possuía uma assembleia
de notáveis ou homens- Sob □ ponto de vista administrativo, o território português estava dividido em terras
-bons que elegia diversos
magistrados, estando (ou territórios) e em concelhos. As primeiras eram governadas por um rico-homem que,
também d rei aí
na qualidade de delegado do rei, superentendia nos atos de administração e de justiça.
representado através de
magistrados nomeados Existiam, ainda, as terras pertencentes às ordens religiosas e ordens religiosas militares,
por si.
gozando de vários privilégios e imunidades, como a isenção fiscal.

Os concelhos eram fundamentalmente de dois tipos: rurais e urbanos. O seu número


O- Questão
e a sua distribuição geográfica estão diretamente ligados à Reconquista: em número re­
duzido no norte, onde havia uma forte presença senhorial; mais numerosos no sul e nas
1. Quais eram os objetivos
dos reis portugueses ao terras do interior, em consequência das necessidades de povoamento e de exploração
doarem terras às Ordens
Religiosas e Militares?
económica destas regiões.
Cu mo se explica a sua
concentração no centro As áreas urbanas eram muito restritas. Lisboa, Évora, Porto e Coimbra eram as mais
e sul do País? importantes. A sua população incluía não só mercadores e mesteirais* mas também um
número significativo de camponeses. A separação entre 0 campo e a cidade estava longe

* Mesteirais: trabalhadores de ser real, coexistindo no interior das muralhas as atividades agrícolas, comerciais e ar­
em ofícios (mesteres) de tesanais.
artesanato ou indústria,
e alguns pequenos A invasão da Península pelos Bárbaros destruiu 0 modelo urbanístico romano assente
comerciantes (almocreves
e carniceiros): nas cidades no traçado regular das ruas e das praças e substituiu-o pelo emaranhado de ruas e rue­
mais importantes estavam
las estreitas e tortuosas, irregularmente calcetadas, sem esgotos, comprimidas por uma
reunidos por profissões
numa mesma rua. A partir muralha circundante, que acompanha as irregularidades do solo (é a cidade a adaptar-se
do séculD XIII. crescem em
ao espaço, não o contrário). As ruas não eram pensadas para o transporte sobre rodas;
número e em força
económica e nos séculos eram sobretudo para as pessoas ou para os animais de carga utilizados como meios de
XIV e XV vão adquirir poder
transporte^. Algumas das ruas concentravam um mesmo tipo de lojas e ofícios e eram
na administração local.
mesmo identificadas pelos nomes das respetivas atividades: rua
dos sapateiros, dos caldeireiros, etc. Sentiam-se assim mais pro­
tegidos e vigiavam-se mutuamente. É 0 sentido corporativista tão

caracteristicatnente medieval.

No centro da cidade encontravam-se as construções que cons­


tituíam 0 núcleo cívico da vida citadina: a Sé, para a qual se en­
caminham quase todas as ruas, uma praça aberta para 0 Paço
Municipal, local de mercado, de festas e de reuniões municipais
(Fig. 4)-

Fiffs 4 Panorâmica da
[3)
cidade de Coimbra. Nas zunas históricas das nossas pririLipais cidades ainda tiu|e se puderri utiservar estas características.
As casas de habitação, com dois ou três andares, agrupavam-se em quarteirões, abran­
gendo estábulos, celeiros e lojas térreas abertas por uma só porta para a rua. Muitos des­
tes conjuntos dispunham de pátios interiores em geral com um úníco acesso da rua. Em
regra, a loja situava-se em baixo e os dormitórios no andar de cima com acesso através
de escadas estreitas. Os seus interiores eram austeros, amplos e pouco iluminados. As la­
reiras davam algum conforto, mas também a ameaça dos incêndios.

Na segunda metade do século XIII, o surto económico e demográfico trouxe algumas


alterações à organização das cidades: em alguns casos alargaram-se as cinturas amuralha­
das; noutros a população instalou-se no seu exterior, formando os arrabaldes.

- 0 exercício comunitário de poderes concelhios

Os concelhos, criados ou legalizados pelos forais, dispunham de graus variáveis de


autonomia. Esta exprime-se de várias formas: na existência de uma Assembleia Municipal
composta pelos homens-bons, dispondo do direito de eleger os seus magistrados, de
criar leis próprias e de organizar as suas forças militares; na garantia de determinadas Li­
berdades individuais, como a posse de bens; e ainda na exclusão do exercício dos direi­
tos senhoriais na área municipal.

A autonomia (em grau variável) das comunidades concelhias era exteriorizada por cer­
tos símbolos: o selo municipal (Fig. 5); 0 pelourinho, local da execução das sentenças, para
além de símbolo da autonomia; a bandeira e certos emblemas representativos do espírito
Fiff. 5- Selo dü concelho
de solidariedade coletiva ou ainda certos elementos identificativos do concelho.
de Castelo Mendo,
do século XIII. Os símbolos
Se a autonomia^ é 0 elemento essencial do regime do concelho, o exercício comuni­
escolhidos (neste caso a
tário dos poderes é 0 instrumento decisivo da sua realização. De facto, 0 concelho é fun­ muralha) exprimem
sentimentos de autonomia
damentalmente uma comunidade de vizinhos(sl, embora tal não exclua a existência de
e de solidariedade coletiva
várias categorias sociais e direitos desiguais para os seus habitantes. das comunidades
concelhias.
Os magistrados eram em número variável e tinham diversas designações nos diferen­
tes concelhos. Os mais importantes eram os juízes, alcaides ou alvasisl6\ supremos repre­
sentantes e dirigentes do concelho. Depois, funcionários com funções em áreas específicas:
os meirinhos (fisco e justiça); o almotacé^ (economia); os mordomos (administração dos
bens concelhios); os sesmeiros (gestão das terras).

O rei estava sempre representado por um ou mais magistrados, por si nomeados: 0 O Questão
alcaide ou juiz; o almoxarife (cobrança dos direitos régios); o mordomo do rei, (adminis­
1. Como se exprime
trador dos bens da coroa no concelho). Nos finais do século XIII, princípios do século XIV, a autonomia da vida
com 0 objetivo de reforçar 0 controlo real da vida concelhia, foram criados os corregedo­ municipal?

res ou juízes de fora parte, delegados do rei nos concelhos e representantes destes nas
cortes. Foram ainda criados novos funcionários administrativos, os vereadores, com poder
de decisão em áreas importantes.

wCnm u tempo, hubretodu a partir de D. Afonso III, a política de centralização régia foi restringindo a aoioriornid murn-
Lipdl.
Vizinhos: com origem ria palavra latiria viciriorum. designa os habitantes com residência permanente na área du
LoriLelhü e com posses suficientes para pagar os tributos devidos.
1:1 Alvasis: vocábulo de origem árabe [ul-wu^ir] que designa o mesmo que vereadores de urri comelho.
J Almotacé: do termo árabe ol-muhtosib.
- A afirmação política das elites urbanas

ü exercício dos poderes concelhios tinha uma natureza comunitária, mas tal não sig­
nifica que existia uma igualdade de direitos entre a comunidade de vizinhos. As diferen­
ças tornam-se mais notadas quando se analisa a superioridade social e económica dos
cavaleiros-vilãos ou homens-bons(íi\ uma verdadeira elite de proprietários alodiais* e mer­
cadores, sobre os peões'5' (Hg. 6), a grande maioria constituída pelos pequenos proprie­
tários, rendeiros, assalariados e mesteirais com baixos rendimentos.

A superior condição social e económica do cavaleiro-vi Ião ou homem-bom exprime-se


Fiç. 6. Um peao no trabalho
dü campo [Tomar, Museu num certo número de privilégios relativos à sua segurança pessoal, ã aplicação da justiça
Lapidar do Castelo]. e na posição cimeira que detinha na estrutura política concelhia. O seu poder económico
e influência social permitiram-lhes controlar os cargos e magistraturas municipais. Constituiu-
-se deste modo uma oligarquia municipal que foi restringindo cada vez mais a participa­
* Proprietários alodiais: ção política dos peões. Este facto reduziu significativamente o número de participantes nas
proprietários livres de
direitos e deveres assembleias municipais que, a partir do século XIV, passaram a reunir-se em recintos fe­
senhoriais: estavam chados. Daí o nome de “câmara111 para designar o edifício onde se reuniam os titulares das
abrangidos pelas
magistraturas municipais.
obrigações de “fossadeira”
paga em prestações
agrárias ou serviços
pessoais, para além do
2.3. 0 país rural e senhorial
pagamento do dízimo
à Igreja e de Dutras - 0 exercício do poder senhorial; privilégios e imunidades
imposições.
Como nos demais reinos europeus, em Portugal a nobreza era uma categoria social pri­
vilegiada, distinguindo-se pelo exercício de funções políticas e militares, que faziam dela
um auxiliar imprescindível da realeza. A nobreza, como as restantes ordens sociais, não
constituía uma categoria social homogénea. Na realidade, integravam-na grupos ou clas­
ses com níveis de rendimentos e até de estatuto muito diferenciados. Os ricos-homens,
magnatas conhecidos como nobres de “pendão e caldeira^10’, aproveitaram a luta contra
os Mouros para conquistar os favores do rei a quem os ligam laços de vassalagem, obter
* Imunidade: privilégio que a imunidade*, enriquecer e transformar-se no grupo mais importante de entre os nobres.
dava aos seus titulares um
Abaixo destes ricos-homens situava-se um grupo muito mais numeroso de proprietários
conjunto de regalias comD
a isençãD de pagamento de aristocratas, os infànções]I\ e depois uma nobreza que vivia fundamentalmente do serviço
impostos à coma, com
militar, os cavaleiros e escudeiros.
a consequente proibiçãD
da entrada düs funcionários
A nobreza senhorial vivia da teima e das rendas dominiais, cobradas em espécie, di­
régios nos seus domínios.
nheiro ou serviço aos camponeses que cultivavam as suas propriedades, as honras, e
sobre os quais exercia uma jurisdição limitada. As honras beneficiavam de um conjunto
de privilégios e imunidades, como o direito de proibição de entrada a funcionários régios,
Isenção do pagamento de impostos e autonomia judicial e administrativa.

[H| lei rriiriiddd a querra com os Mouros d designação de “cavaleiro" deixou de fazer sentido e fui sendo substituída pela
de “homem bom”, urna expressão mais adequada a nuva realidade pás-Reconquista, ja que recorda a riqueza e a
Questão honra e não a funçãu militar.
w D termo "peão’* Lern origem no tipu de partiLipaçãu na guerra; nau tendu posses para manter um cavalo e u res­
1. Como se explica a petivo equipamento, o peãu combatia a pé.
formação de uma M Esta denominação significa que os ricos-homens tinham o puder e a autoridade para arregimentar soÍj u seu
oligarquia política nos estandarte cavaleiros e peues e os meius para os sustentar nu decurso de urna Lampanha militar.
concelhos? A partir du século XIII. os riubres pur nascimento passam a ser vulgarmente designadas por “fidalgos”.
No entanto, a realeza manteve sempre o controlo sobre o poder senhorial reservando
para si determinados direitos, como a justiça maior (pena de morte oll corte de membros),
ou combatendo-o abertamente.

- A exploração económica do senhorio O Questões

Os senhorios eclesiásticos (coutos) e laicos (honras e reguengos) eram constituídos por 1. Como se caracterizava
a economia senhorial?
propriedades relativamente extensas (contínuas e/ou descontínuas), num mundo agrário
2. Em que condições viviam
relativamente fechado que procurava a autossuficiência. Uma boa parte da propriedade
e trabalhavam os
senhorial era explorada diretamente pelo seu proprietário (a reserva) através de um homem camponeses dependentes?
da sua confiança e nela trabalhavam sobretudo os servos adscritos (ligados) à terra.

Uma outra parte era dividida em parcelas (casais, quintas ou vilares) e entregues a
camponeses que as exploravam mediante determinadas condições: pagamento de uma
renda (censo, ração, porção, foro, renda, eirádega, terra digo...), das geiras ou corveias
(trabalho gratuito ao longo do ano) e da dízima1'2* à Igreja, entre outros tributos (peitas,
fintas, talhas...).

A prioridade da vida económica do País, tanto nos senhorios como fora deles, ia para
a produção de subsistências, para o cultivo dos cereais, bem como para a produção de
vinho e azeite, destinados não só ao consumo local como à troca dos excedentes, e ou­
tras atividades como a pastorícia e a criação de gado.

No litoral, a pesca, a extração do sal e o comércio marítimo eram atividades flores­


centes, funcionando até como atração para as gentes do interior.

- A situação social e económica das comunidades rurais dependentes

Mais do que uma extensa propriedade, o senhorio ou domínio senhorial era uma
comunidade hierarquizada de pessoas que viviam e trabalhavam em condições económi­
cas e jurídicas (direitos e obrigações) diferenciadas.

A massa de camponeses dependentes que trabalhava nos senhorios integrava catego­


rias e designações diversas. A população rural no seu conjunto tinha em comum uma vida
de penúria e de pobreza, agravada pelas fortes limitações quanto à sua mobilidade geo­
gráfica, em particular os servos adscritos ã terna (com vínculo à terra).

A evolução da servidão veio introduzir significativas diferenças no seio da população


camponesa e estabeleceu novas formas de relação entre o trabalhador e a terra. Desapa­
receu assim a relativa uniformidade do século XI e surgiram diversas categorias de depen­
dentes com condições jurídicas, económicas e sociais distintas.

Ao norte do Douro havia algumas terras senhoriais, com a particularidade de os senho­


res poderem ser escolhidos pelos habitantes. Designavam-se estas terras por beetrias.
Tratavam-se de coletividades de homens livres que, preferindo a segurança à liberdade,
procuravam um nobre que os aceitasse sob a sua proteção.

-< Dízima: prestação correspondente a lÜX da produção obtida na agricultura, na pesca, na salí cultura e ern uutias
atividades; podia ser curivertida ern determinado rnunlarite de prudutus ou de dinheiro.
38

® cronoio^a 2.4. 0 poder régio, fator estruturante da coesão interna do reino


Reinados dos primeiros reis
- A centralização do poder - justiça, fiscalidade e defesa
de Portugal
1143-1185 À cabeça do Reino encontrava-se d rei: chefiava o exército, administrava a justiça, ga­
D. Afonso Henriques.
rantia a ordem e a paz internas e dirigia as relações externas. Pertencia-lhe ainda, em ex­
1185-1211
clusivo, a prerrogativa de cunhar moeda, ou, como então se dizia, de “bater a moeda^^.
D. Sancho I.
Por outro lado, os tribunais reais reservavam em exclusivo para si a aplicação da justiça
1211-1223
D. Afonso II. maior (pena de morte ou corte de membros), constituindo este facto uma limitação da ju­

1223-1248 risdição senhorial e ao mesmo tempo uma afirmação clara da supremacia da justiça real.
D. Sancho II. Outro direito era a aposentadoria11^1 a que se obrigavam as terras onde o monarca e a sua
1248-1279 corte se instalavam nas deslocações pelo Pais.
D. Afonso III.
A legitimidade e a força da monarquia portuguesa têm fundamento na tradição visigõ-
tica do exercício do poder real em nome de Deusna propriedade de terras adquiridas
ao longo do processo da Reconquista; no caráter patrimonial do poder, indivisível e ina­
lienável, que legitimava a transmissão da realeza de pais para filhos segundo a regra da
primogenitura masculina. Aparentemente os poderes do rei não conheciam limites, já que
das suas decisões não existia apelo. No entanto, o rei jurava obedecer às leis e manter
as liberdades do Reino e proteger o clero e a nobreza, o que significava uma limitação ao
seu poder.

O Questões - A reestruturação da administração central e local - o reforço dos poderes da


chancelaria e a institucionalização das cortes
1. Qual significado da
intensificação do papel No desempenho das suas atribuições, o rei era auxiliado por um grupo de altos fun­
legislativo do rei a partir
cionários: o alferes-mor (chefiava o exército na ausência do rei); o mordomo da corte (res­
do séculD XIII?
ponsável pela administração da casa real); o chanceler (guarda do selo real).Até ao termo
2. Qual d significado da
presença dos procuradores da Reconquista, o primeiro era o mais importante, facto que se explica pela situação de
dos concelhos nas Cortes
guerra. Terminada esta, organizou-se, a partir de então, a chancelaria régia à frente da qual
a partir de Leiria (1254)?
estava o chanceler, auxiliado por escrivães e notários, encarregados da redação e valida­
ção dos diplomas.

A partir do século XIII, foi criado o cargo de escrivão da puridade (secretário particu­
lar que acompanhava o rei nas suas deslocações) e foram criados novos funcionários es­
pecializados, como o porteiro-mor (superentendia na cobrança dos impostos) e o
tesoureiro-mor. A administração central integrava ainda um grupo restrito de conselheiros
do rei, a Cúria Régia, formada por favoritos régios, altos funcionários e membros da famí­
lia real. Entretanto, a Cúria daria origem a dois órgãos: o Conselho Régio, composto por
prelados, ricos-homens e militares, e as Cortes*.

* Cortes/pa ria mentos: As Cortes mais antigas de que há documentação realizaram-se em Coimbra (1211), no
assembleias com funções
essencialmente consultivas reinado de D. Afonso II. A sua importância deriva do facto de terem sido ai aprovadas as
e fiscais, convocadas pelü
rei e constituídas por
representantes das três Cl rei chamou a si nau sú o direito de "bater a moeda", como também u direito de a “quitar" [quebrar, desvalori­
ordens sociais - clera. zar] ou "levantar" (elevar, revalorizar]., □□ seja de alterar u valor da moeda.

nobreza e povo. rin] Aposentadoria: i □ mu u termo indica, Lonsistid na hospedagem gratuita ao rei (ou senhores] e respetiva comitiva
quandu passavam por urna totalidade; tratava-se de um dos mais gravosos encargos suportados pelas populações
dependentes, tanto rurais torriu urbanas.
[h] Üs primeiros reis referiam sempre essa origem do seu poder, considerando-se por "graça" ou "vonLade" de Deus.
Unidade 2 - O espaço português — a consolidação de um reino cristão ibérico 39

primeiras leis gerais que se conhecem no Reino. Em 1254, as Cortes de Leiria contaram Cronologia
já com a participação dos procuradores dos concelhos, □ que revela 0 reconhecimento real
1210
do papel dos concelhos na administração do Reino e 0 seu interesse no apoio popular à D. Afonso II - V Lei de
Desamortização.
política de controlo do clero e nobreza.
1220
O objetivo de reforço do poder real passou também por um controlo mais rigoroso da Primeiras Inquirições
(D. Afonso II).
administração local: dos concelhos e dos senhorios. Para isso, recorreu ao aumento do nú­
1254
mero e dos poderes de intervenção dos funcionários régios e a medidas legislativas de ReuniãD das Cortes de
Leiria com representantes
combate à expansão senhorial.
dü clero, nobreza e dos
concelhos.
- 0 combate à expansão senhorial e a promoção política das elites urbanas 1258
Inquirições Gerais de
Apesar da supremacia de que beneficiava a realeza, esta teve de impor um conjunto D. Afonso III.
de medidas de fortalecimento do poder real e de centralização administrativa no sentido 1284
Inquirições Gerais de
de limitar as prerrogativas senhoriais e controlar os abusos dos senhores.
D. Dinis.
D. Afonso II (1211-1223) criou 0 sistema das Confirmações, que obrigava a submeter os 1286
Lei de Desamortização de
títulos ou diplomas de posse dos bens à confirmação do rei, pretendendo desta forma aca­ D. Dinis.
bar com os abusos de membros do clero e da nobreza e até dos concelhos, com a apro­

priação indevida de bens da coroa. Esta prática foi seguida por sucessivas Inquirições*, * Inquirições: inquéritos,
que permitiram ao rei identificar as ilegalidades, castigar e recuperar rendimentos. Com ob­ a nível nacional, ao estado
dos direitos reais,
jetivos idênticos, foram elaboradas Leis de Desamortização, que proibiam a aquisição de ordenados pelü poder
bens de raiz aos eclesiásticos e às instituições religiosas, com o intuito de travar a con­ central. Trata-se de uma
medida de fortalecimento
centração já considerável da propriedade fundiária na posse do clero. dü poder real e de
centralização
Este processo de combate à expansão senhorial prosseguiu durante 0 século XIV. A de­ administrativa que visava
bilidade do sistema vassálico* português facilitava a ação de controlo da realeza. D. Fer­ combater os abusos contra
os interesses da coroa.
nando recusou 0 direito de justiça às honras constituídas a partir de 1325, com algumas
* Vassalidade: rede de
exceções. D. João I restringiu 0 direito de transmissão das terras doadas pela Coroa, me­ solidariedades
dida que D. Duarte consagraria na Lei Mental (i434)06). aristocráticas assente num
vínculo vitalício de
Ao mesmo tempo que prosseguia 0 combate ã expansão do poder senhorial, a realeza dependência pessoal pelü
qual, em traça de
procurou atrair as elites urbanas à sua causa apoiando as suas atividades económicas, fidelidade e apoio, um
abrindo-lhes as portas da administração central e reforçando a sua influência nas estrutu­ homem livre [vassalo]
recebe proteção e outras
ras administrativas locais. Mas a grande oportunidade de afirmação política da burguesia recompensas (benefício du
urbana surgiu com a crise dinástica e a Revolução de 1383-1385. 0 seu apoio ao Mestre feudo) de um outro
(senhor).
de Avis, proclamado Rei nas Cortes de Coimbra de 1385, trouxe importantes contrapartidas
* Legistas; homens com
às elites urbanas: os legistas* assumiram lugares importantes na administração central, fürmaçãD jurídica. Nos finais
nomeadamente no Conselho do Rei onde acederam e em maioria; os mercadores reforça­ da Idade Média, a política
de centralização régia
ram a sua influência junto da Coroa e beneficiaram de vários apoios reais (Bolsa de abriu-lhes lugares na
Mercadores, 1293, acordos comerciais...); e os mesteirais ascenderam ao governo das cida­ administração central,
adquirindo entãD grande
des desafiando a força, até então dominante, dos proprietários e mercadores07'. importância política.

Segundo d Lei. a Coroa mantinha os seus direitos sobre as doações régias e estas sâ poderiam ser herdadas pelo
filho varão legítimo; 1 aso não se verificassem estes pressupostos, tais bens seriam reintegrados na Coroa.
■ ■' Nas Curtes de Coimbra de 1385 íilou assente que, de futuro, pertenceria a dois homens de i ada mester íufício) as
seguintes atribuições: a eleição dos magistrados municipais; a designação de funcionários; d elaboração das posto-
ras [leis) municipais; a fixação dos impostos.
40

- A afirmação de Portugal no quadro político ibérico

Cerca de um século e meio depois do reconhecimento de D. Afonso Henriques (Fig. 7)


como Rei por parte de Castela no Tratado de Zamora (1143), um novo tratado entre os dois
Reinos, assinado na localidade castelhana de Alcanises (1297), definia de forma pratica­
Fiç 7. Palavra-sinal
Portuga] no selo real mente definitiva 0 território do Reino de Portugal.
de D. Afonso Henriques.
Mas esse facto só por si não podia garantir a viabilidade da independência de Portu­
gal. A resistência à poderosa força de atração de Castela não estava garantida. Era neces­
sário que o País fosse capaz de construir uma identidade ou individualidade nacional,
condição essencial para a sua sobrevivência como Estado independente. D. Dinis, o Rei La­
vrador, estava consciente desse facto quando se reuniu com 0 rei de Castela em Alcanises,

Por isso, estabilizada a linha de fronteira, as prioridades do seu reinado foram: a de­
fesa, investindo os seus esforços na organização da marinha e na reparação dos castelos
na fronteira para prevenir qualquer invasão de Castela; o fomento do povoamento e das

atividades económicas, em particular da agricultura e do comércio; e a criação de um nú­


cleo cultural português, promovendo uma cultura nacional, fazendo da corte real um polo
de produção e de difusão de cultura (ele mesmo deu 0 exemplo como poeta e trovador)
e dotando 0 Reino de escolas e de um Estudo Geral.

Cronologia Os esforços dos nossos monarcas para formarem uma individualidade nacional suficien­
temente forte para afirmar Portugal no quadro político peninsular tiveram a sua grande
1143
Tratado de Zamora. prova na Revolução de 1383-1385 (Fig. 8). Os patriotas agrupados em redor do Mestre de
1248 Avis tinham consciência do que estava em causa com a proclamação da Rainha D. Bea­
(Rejconquista do Algarve.
triz: a sobrevivência de um Estado, mas também a preservação de um sentimento nacio­
1297
Tratado de Alcanises. nal que tinha já então consciência da sua individualidade. Consolidada a independência
1383 nacional, Portugal pôde partir então para a grande empresa planetária dos Descobri­
Morte de D. Fernando:
mentos.
regência de D. Leonor em
nome de D. Beatriz
e D. JDão de Castela.
1384
D. JoãD de Castela cerca
Lisboa.
1385
Cortes de Coimbra:
aclamação de D. João I, Rei
de Portugal.
Batalhas de Aljubarrota,
Trancoso e Valverde.
1415
Conquista de Ceuta: início
da expansãD ultramarina
portuguesa.

Fig. 8. A vitória na Batalha de Aljubarrota (14 de agosto de BflS) foi determinante para a consolidação da
identidade nacional e a afirmação de Portugal na quadro político ibérico.
Unidade 3 - Valores, vivências e quotidiano 41

Unidade 3 Valores, vivências e quotidiano

SUMÁRIO

3.1. A experiência urbana


3.2. A vivência cortesã
3.3. A difusão do gosto e da prática das viagens: peregrinações e romarias; negócio e misssoes
político-diplomáticas

APRENDIZAGENS RELEVANTES

- Compreender as atitudes e os quadros mentais que enformam a sociedade da época, dis­


tinguindo cultura popular de cultura erudita**. * Arte gótica: expressão
- Desenvolver a sensibilidade estética através da identificação c apreciação de obras artís­ com sentido pejorativo
usada a partir dü
ticas do período medieval. Renascimento para
- Valorizar formas de organização coletiva da vida em sociedade. qualificar uma arte
“bárbara", atribuída aos
Godos, invasores do
CONEEITOS/NOÇÒE5 Ocidente durante a Alta
Confraria. Corporação, Universidade, Cultura erudita**, Cultura popular'*, Arte gótica, Época Idade Média; hoje designa
um estilo de arte que se
medieval difundiu na Europa a partir
de França do século XII ao
* Conteúdos de aprofundamento início dü século XVI.
** Aprendizagens e conceitos estruturantes caracterizada pelos seus
novos elementos
arquitetónicos (ogivas,
arcDbotantes], pelo sentido
dü espaço e a integração
3.1. A experiência urbana düs diferentes volumes,
pela verticalidade e beleza
- Uma nova sensibilidade artística - o gótico das suas linhas.

No domínio artístico, o novo espírito do mundo urbano expressa-se na nova


arte gótica*, nascida da rutura com a tradição românica. Com o seu berço na
Ilha-de-França, no Noroeste de França, na primeira metade do século XII, o
estilo gótico é contemporâneo e produto do surto das cidades no Ocidente, um
espaço de prosperidade e liberdade favorável à criatividade e à inovação.

A arquitetura

As construções góticas (Fig. 1) exprimem conceções inteiramente novas: o


edifício é entendido como um todo organizado, cujas partes adotam formas
determinadas segundo a sua função no conjunto; o arco de volta inteira é subs­
tituído pelo arco quebrado ou ogivaL, inovação que veio resolver o problema
da abóbada sobre o cruzeiro111
1 ;* o peso da abóbada em ogiva (com nervuras) é
transportado para os contrafortes exteriores através dos arcobotantes(;,), liber­
tando deste modo as paredes e tornando possível rasgar amplas janelas que
solucionaram o problema da iluminação.

Fig. 1. Catedral de Notre-


-Dame de Chartres
(1194-1220], Exuberante
1 Cruzeira: cruzamento da nave central com o transeptu. expressão de verticalidade,
ArEobotante: solução encontrada pelos arquitetos gúticos para neutralizar a pressão da abóboda sobre as paredes luminosidade e amplidão
laterais. do gótico clássico.
42

Cronologia A primeira grande construção do gótico é a Abadia de Saint-Denis, iniciada em 1137


por iniciativa do Abade Suger. Esta e outras grandes abadias, como a de Saint-Martin-
D Gótico: a arte dos catedrais
-des-Champs, exteriores aos grandes centros urbanos, marcaram a primeira fase do gótico,
c. 1144
Abadia de Saint-Denis mas a construção mais representativa do gótico é a catedral. Trata-se de um tipo de
[França].
edifício com planta alargada, com uma ou várias naves (a central mais ampla e elevada),
1155-1225
trifório, charola com capelas absidiais e rosáceas. As fachadas apresentam portais, deco­
Catedral de Laon.
c 11 BS rados com esculturas e relevos, e torres, de planta quadrada terminada em terraços ou
IníciD da construção da em flechas. As suas características fundamentais são a verticalidade, luminosidade e
Catedral de Notre-Dame de
Paris. amplidão.
1194-1220
O desejo incontido de manifestar de forma exuberante a alegria pela vida, pela redes-
Catedral de Chartres.
1223 coberta do homem e do mundo, 0 Gótico evoluiu para fases onde a prioridade era dada
IníciD da construção da à exuberância decorativa e ao movimento (multiplicação das linhas ascendentes culmi­
Catedral de Burgos.
nando em agulhas e pináculos, 0 jogo de curvas e contracurvas), culminando no século
1248-1322
Catedral de Colónia. XV, no chamado gótico flamejante (de flama, chama).
1250
Catedral de Siena. 4 escultura

A escultura gótica revela na sua fase inicial um formalismo e rigidez quase românicos.
Outro aspeto característico da escultura deste período é 0 seu caráter monumental que
decorre da sua integração na arquitetura.

Nos séculos XII e XIII, a escultura gótica regista uma evolução no sentido de uma
representação mais expressiva, naturalista e humanizada (Hg. 2), ainda que procure um
tipo de beleza ideal e serena dentro de certos convencionalismos. Progressivamente, vai
abandonando a arte monumental, entrando no realismo e tornando-se independente da
arquitetura.
Fig. 2. Virgem com o
Menino (Nuno PisanD, Pisa, 4 pintura
Igreja de Santa Maria].
Tema muito comum da Na pintura gótica sobressai o vitral (Fig. 3) que aparece como um elemento inte­
escultura gótica. 0 realismo
grante da arquitetura. As soluções técnicas encontradas para 0 problema da descarga
e a expressividade da
representação transformam do peso das abóbodas permitiu abrir janelas e aumentar substancialmente os espaços
a Virgem numa figura
abertos preenchidos e decorados com o vitral. Para 0 homem medieval, a luz era uma
simples de mulher e mãe,
igual a tantas Dutras. forma de manifestação divina, razão pela qual as representações projetadas no interior
das edificações através dos vidros coloridos produziam uma forte impressão mística. As
figuras e cenas mais recriadas nos vitrais são temas religiosos, como a vida de Cristo,
da Virgem e dos santos ou ainda os trabalhos dos diversos ofícios.

Uma outra técnica que marcou a última etapa da pintura gótica é a pintura de retá­
bulos que substitui e impõe-se à pintura mural.

Também a iluminura' recuperou gradualmente a sua importância. O renovado inte­


resse por esta técnica de pintura está relacionado com os gostos requintados do mundo
urbano e das cortes europeias.

Fig. 3. Vitral alusivo à [í| Iluminura: puriLura, sobre pergaminhos e manuscritos. de representações de figuras, cenas uu ornatos ern minia­
Última Ceia. tura que formavam pequenos quadrus riurri livro, uu ainda decuraçües das letras maiusculas.
Unidade 3 - Valores, vivências e quotidiano 43

- As mutações na expressão da religiosidade; ordens mendicantes e confrarias* Cronologia

Como reação á mundanização da Igreja surgiram nos séculos XII-XIII diversas seitas 1210
Inocêncio III aprova
religiosas, como a dos albigeinses^ e a dos valdensesfe\ que condenam a vida de luxo
a Ordem Franciscana criada
da hierarquia eclesiástica, apregoam 0 Ideal de pobreza e de sacrifício do Sermão da por S. Francisco de Assis.
Montanha, negam 0 purgatório, as indulgências, 0 sacerdócio e o culto dos santos, amea­ 1209-1229
Cruzada contra os
çando desta forma a autoridade da Igreja Católica e a ortodoxia da Fé.
Albigenses [no sul de
França).
0 Papado reage com a reunião do IV Concílio de Latrão, em 1215*^ que cria um tri­
1216
bunal episcopal para a perseguição das heresias. Em 1231, Gregório IX coloca-a sob a Honório III confirma
direção e 0 controlo direto dos delegados pontifícios, criando a Inquisição papal, com a a Ordem Dominicana
fundada por S. Domingos.
missão de combater as doutrinas contrárias à ortodoxia.
1215
IV Concílio de Latrão:
Para este combate 0 Papado não poderia contar com as velhas instituições monásti­
instituição de um tribunal
cas contemplativas refugiadas nos seus mosteiros. Esse papel foi confiado às novas ins­ episcopal - a Inquisição.
tituições religiosas, fundadas nos ideais evangélicos de pobreza e de fraternidade da 1232
0 papa Gregório IX cria
Igreja primitiva, as Ordens Mendicantes dos Franciscanos (São Francisco de Assis) e dos
a Inquisição papal.
Dominicanos (São Domingos), vocacionadas para 0 ensino e a pregação.

Estas novas formas de religiosidade motivaram também a ação dos leigos, impulsio­
* Confrarias: irmandades
nando em particular a criação das confrarias*.
constituídas sob
0 patrocínio de um santo,
- A expansão do ensino elementar com estatutos e rituais
próprios, reunindo
A evolução demográfica, económica, social e cultural verificada na Europa nos sécu­ frequentemente homens
da mesma profissão, tendo
los XII e XIII não podería deixar de se refletir no ensino. A vida intelectual era até então
como objetivo a prática da
quase exclusivamente um domínio clerical. As escolas catedrais (nas sés episcopais) e as caridade.

escolas monásticas (nos mosteiros) eram totalmente controladas pelas autoridades ecle­
siásticas e destinavam-se á instrução dos homens da Igreja, Por outro lado, o ensino aí
ministrado permanecia essencialmente oral e limitava-se em geral ao ensino do cate­
cismo, escrita, música e aritmética.

Para responder às novas necessidades sociais, a partir de meados do século XII são
criadas escolas laicas. Desta forma, 0 ensino deixou de estar ligado exclusivamente à
preparação dos futuros clérigos. A prática do comércio tornava indispensável 0 conheci­
mento da Leitura, da escrita e do cálculo. 0 ensino destas escolas era no entanto de nível
elementar. Todos aqueles que queriam um saber mais completo teriam de procurar as
instituições do clero.

- A fundação de universidades

No contexto do renascimento económico, urbano e cultural dos séculos XII-XIII e cor­


respondendo às novas necessidades e expectativas sociais, alguns mestres com elevado
prestígio reuniram à sua volta estudantes interessados em partilhar dos seus saberes.

w Albigenses fde Albi, no sul da França], ou catarus [du grego. puros]: a diíusãu desta heresia ísécs. XI-XIV] que pre­
conizava urrid renovação mural e espiritual baseada na antítese entre □ bern [Deus] e d rnal [Satanás] levou papa
d pregar uma cruzada [guerra] cuntra eles (1209-1229).
,sl ValdEnses: seita religiosa fundada pelo comerciante de Lqun, Pedro Valdo, que pregava o ideal de pobreza e a per­
feição evangélica, obtendo bastante adesão no norte de Itália.
■h] Ü Concílio foi particular mente duro para corri os judeus: furam proibidos de uLuipar cargos, obrigados a usar urn
vestuáriu que os distinguisse dos demais e confinadus a ghettos.
44

* Universidade: [universitas Daqui surgiu um novo tipo de comunidade de intelectuais, associando professores e
magistrorum et
schoiarium} comunidade alunos, constituídos em corporação, a universitas magistrorum et scholarium. A palavra
ou corporação de mestres universidade* (universitas) significa na Idade Média “corporação11'. A expressão que
e alunos, com instituições
próprias, destinada exprime a ideia de universidade, no sentido de instituição escolar, é o estudo geral
a aprofundar os estudos. (studium gene raie). Sustentados frequentemente pelo soberano e pelo papa, os estudos
Dirigida por um reitor.
dividia-se em Faculdades, gerais dispõem de estatutos próprios e de privilégios como qualquer outra corporação
geralmente quatro: profissional.
Teologia, Direito (canónico
e civil). Medicina e Artes A partir do século XIII, os estudos universitários eram feitos no interior de Taculdades
(letras e ciências): atribuía
os graus de bacharel, especializadas em determinadas matérias. Nem todas as universidades tinham o mesmo
licenciado e mestre. currículo.

O ensino nas universidades era ministrado em latim e o método usado era a escolás­
tica, baseado sobretudo na leitura e comentário pelo mestre (ensino magistral) de textos
Cronologia
dos sábios e filósofos antigos. As universidades conferiam os graus de bacharel, Licen­
Principais universidades
ciado e doutor.
europeias dos séculos
XII-XIII
Temendo pelo seu prestígio e para evitar desvios das suas doutrinas, a Igreja con­
1119 Bolonha
1125 Montpellier trola a sua criação, bem como as matérias e as práticas de ensino. Em Portugal, a cria­
1150 Paris ção do ensino universitário foi aprovada em 1290 por uma Bula do Papa Nicolau IV, con­
1158 Oxford
1224 Pádua cedida na sequência de uma petição feita em 1288 por vários Abades e Priores e com 0
1241 Siena apoio do rei D. Dinis.
1244 Salamanca
1290 Lisboa
3.2. A vivência cortesã
- A cultura leiga e profana nas cortes régias e senhoriais: educação cavaleiresca,
O Questões
amor cortês, culto da memória dos antepassados
L Como se explica
a criação das O renascimento urbano e o desenvolvimento da burguesia e das atividades económi­
universidades? cas nos séculos XII e XIII foram modificando os padrões de vida, a visão do mundo e a
escala de valores das elites da sociedade medieval. Ao mesmo tempo, a afirmação das

monarquias feudais favoreceram a multíplificação das cortes régias e senhoriais. Os reis


* Cultura popular:
manifestações culturais e senhores acolhem nos seus castelos fortificados intelectuais e artistas para animar e
fundadas na tradição e no prestigiar as respetivas cortes, transformando-as em centros de produção e difusão de
costume, caracterizadas
por uma grande uma cultura leiga e profana. Trata-se de uma cultura popular* de natureza profana abor­
espontaneidade dando, em linguagens vulgares (nacionais), temas diversificados, desde os feitos épicos
e irreverência, produzidas
pelü povo e transmitidas e cavaleirescos à lírica, com objetivos mais lúdicos que didáticos, distinta da cultura
de geração para geração,
erudita*.
principalmente, por via oral.

* Cultura erudita: Os ideais cavaleirescos de coragem na luta e de fidelidade aos ideais cristãos inspi­
manifestações culturais raram os cantares épicos, escritos em língua vulgar, como as canções de gesta france­
que expressam
pensamentos estruturados sas, das quais a mais célebre é a Canção de Roiando ou 0 Poema de! Mio Cid (c. 1140),
e produzidas por uma elite na Península Ibérica.
ou minoria de intelectuais,
geralmente pertencentes A partir do século XIII, expande-se a poesia trovadoresca provençal (oriunda da Pro-
às categorias sociais
superiores. É uma cultura vença, região do sul de França) cujo tema fundamental era 0 amor cortês: um amor-vas-
que a sociedade valoriza salagem envolto em disfarce, ou “mesura”, necessário à preservação do segredo sobre a
como superior du
dominante. identidade da amada (uma mulher casada). As emoções e as subtilezas de gestos e
Unidade 3 - Valores, vivências e quotidiano 45

linguagem do amor cortês adaptavam-se bem ao gosto cerimonioso e ao artificialismo Cronologia


cortesãos. Ao mesmo tempo, vai-se enraizando nas cortes 0 gosto pelo romance cortês
5écs. Xl-Xll
em prosa, menos rude do que a canção de gesta, de que se destacam Cavaleiros da Canção de Rolando.
Tâvola Redonda, de Chrétien de Troyes, e Demanda do Santo Graai. c. 1140
Poema dei Mio Cid.
Para além da ficção narrativa, as cortes europeias alimentam também um grande inte­ 5écs. XII-XIII
Demanda do Santo Graai.
resse pela narração dos factos verídicos, pela narrativa história, sob a forma de crónicas.
1150
0 culto da memória dos antepassados está assim na origem do desenvolvimento da his­ Íris tão e Isolda, de
toriografia, que teve na Península Ibérica um desenvolvimento superior ao do resto da GüdofredD de Estrasburgo.
1170
Europa medieval, destacando-se os célebres Annales Portucalenses Veteres (século XII)
Lancelot e Percevai, de
e a Crónica Geral de Espanha (c. 1270) elaborada na corte castelhana de Afonso X, 0 Chrétien de Troyes.
Sábio (1252-1284) Séc XIII
Amadis de Gaula
Crónica Geral de Espanha.
3.3. A difusão do gosto e da prática das viagens: peregrinações e
romarias; negócios e missões político-diplomáticas
Cronologia
0 interesse e a necessidade do saber fizeram crescer 0 número das universidades e
1096-1099
das escolas públicas, laicas. Muitos estudantes e clérigos deslocam-se entre os vários
Primeira Cruzada ao
centros de culto e de saber. As grandes universidades europeias, como Paris, Bolonha, Oriente.
1204
Oxford, Lovaina ou Salamanca, acolhem estudantes de todas as regiões.
Tomada de Constantinopla
pelos Cruzados.
Ao mesmo tempo, a pregação pelas Ordens Mendicantes de uma religião mais pró­
1260-1266
xima dos ideais evangélicos de pobreza e sacrifício da Igreja primitiva despertou novas Primeira viagem dos
e mais intensas manifestações de religiosidade, incentivando à realização das peregrina­ venezianDS Niccolo e Mateo
Polo na Ásia.
ções aos principais lugares do culto cristão, em especial, a Terra Santa, Roma e Santiago 1267
de Compostela. Os peregrinos fazem longas jornadas, levam e trazem notícias, promo­ Mercadores portugueses
na feira de Lille.
vem o comércio e os serviços.
1271-1295
Marco PoId percorre
O florescimento das cortes régias e senhoriais transformou estas em polos muito ati­
0 Oriente.
vos de produção e difusão de cultura, atraindo um número crescente de pessoas que aqui 1275
Aparecimento do portulano
procuram proteção, oportunidades de enriquecimento e de promoção social. A vida cor­
(carta marítima].
tesã estimula realizações de caráter lúdico e cultural: saraus, torneios, caçadas, banque­
tes e com eles a circulação de trovadores, jograis, mensageiros...

As casas reais europeias empenhadas em reforçar os seus poderes têm necessidade


de estabelecer alianças e tratados entre si, reunir esforços para enfrentarem a oposição
dos senhorios feudais ou ameaças externas. Daí a importância das missões diplomáticas
em cortes estrangeiras, embaixadas que negoceiam acordos políticos e económicos e
também de natureza amorosa.

Os limites estreitos do senhorio feudal e o sedentarlsmo quotidiano do homem


medieval não tardarão a ser rompidos de forma decisiva.
Questões para Exame

Documento 1 O trabalho rural num senhorio Documento 2 I 0 afolhamcnto trienal


medieval (séc. XIII)
Um grande progresso reside no hábito, iniciado
nos séculos XI-XIII, de fazer três afolhamentos* e não
dois (.,.), Escusado será dizer que 0 afolhamento trie­
nal se divulgou com extrema lentidão, a princípio
O novo afolhamento só a pouco e pouco se
desenvolve de forma sistemática, (...). Este facto tor­
nava possível assegurar uma maior variedade e
abundância de alimentos não só para os homens,
mas também para os animais; 0 aumento da produ­
ção de aveia deu um impulso decisivo na criação de
gado cavalar. Esta (a produção de aveia) é uma das
bases económicas da cavalaria feudal eT é preciso
não esquecer, que 0 cavalo foi também muito utili­
zado nos trabalhos agrícolas.

UNESCO (1967), Histoire de rHumanité, vol. I.

Documento 3 I As rotas e o comércio na Europa no século XIII

Mar
do
Norte

Winchester/

Vladimir
Ratisboi Cracóvfà"^^ /
Viena

Santiago
Compost

__/^J^Narboi

ncclona
Córdova
■^Granai

PalerrtíD.■ Foceia

Rotas terrestres O Re9iÕM comerciais


, , (eixo flamengo-lombardo)
Rotas marítimas de Veneza Rogjoes hanseáticas Mar Mediterrâneo
Rotas marítimas de Génova A Feiras prirKÍpais
Rotas marítimas da Hansa à Centros bancários Alexandria
Ç 200 krn

1.1, A partir dos documentos 1 a 3, explique o aumento da produção agrícola na Europa Ocidental nos
séculos XI-XIII.

1.2. Explique o dinamismo comercial e financeiro europeu no século XIII (doc, 3),
47

Documento 4 I Carta de Foral de Vila Nova de Ccrveira (1321)

Dom Dinis (..J, A vós, João Soares (...) e a Gil Martins (...) e a (...). Bem sabedes em como era meu
talantel]) de fazer uma póvoa a par do meu castelo de Cerveira, e enviei-vos sobre isso minha carta para
saberdes se havia aí homens que 0 quisessem povoar e enviaste (dizer) que havia aí peças grandes^ deles,
que 0 queria fazer, e que vos pediam para acoileramento^ dessa póvoa vinte e oito casais,

In Saraiva, J. H. (1983), História de Portugai, 0ngens i2^, Lisboa, Alfa.

w vontade
w grande número
w divisão do termo em coirelas ou casais.

Documento 5 I As Cortes portuguesas no século XIII Documento 6 I Inquirições de D. Dinis, 1288

Ano Localidade Assunto

1211 Coimbra Leis gerais

1250 Guimarães Reclamações do clero


1254 Leiria Quebra da moeda

1261 Coimbra Quebra da moeda

1273 Santarém Reclamações do clero

1280 Évora Inquirições gerais


1285 Lisboa Inquirições gerais
1288 Guimarães Questões com 0 clero
1289 Lugar desconhecido Reclamações da nobreza

1291 Coimbra Lei sobre heranças


(ordens religiosas)

2.1. Integre os documentos 4 a 6 na caracterização dos poderes em Portugal na época medieval, especi­
ficando, nomeadamente:

- composição e diversidade de estatuto dos membros da sociedade portuguesa;

- fundamentos da legitimidade e força da monarquia portuguesa;

- 0 relacionamento do poder régio com os poderes senhoriais e concelhios.


10? Ano

A abertura europeia ao mundo - mutações nos


conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI

1. A geografia cultural europeia de Quatrocentos e Quinhentos


2. 0 alargamento do conhecimento do mundo
3. A produção cultural
4. A renovação da espiritualidade e da religiosidade
5. As novas representações da Humanidade

Contextualização

□ movimento das Descobertas iniciado pelos Portugueses, logD secundados pelos Espa­
nhóis, iniciou o processo de desencravamento dos diversos "mundos'' do Mundo. Ao fazê-loT
deram à Europa o domínio dos mares e com ele a oportunidade de afirmar a sua hegemonia
sobre o planeta. Ao mesmo tempo, forneceu uds europeus uma nova e correta visão sobre
a geografia física da Terra e sobretudo promoveu d encontro entre povos e culturas que até
então se ignoravam mutuamente, retirando daí a prova da unidade c da universalidade do
género humano.
Em estreita ligação com os Descobrimentos, o Renascimento c o Humanismo operaram uma
verdadeira revolução cultural e social numa Europa que procurou na reinvenção das origens
da sua matriz cultural e na renovação da sua espiritualidade e religiosidade d reencontro
consigo própria e o encontro com o outro Os tempos medievais não foram, pois, estéreis,
nem uma "época de trovas", comD se pretendeu classificar este longo pcríodD histórico.

Unidade 1 A geografia cultural europeia de Quatrocentos e Quinhentos

SUMÁRIO

- Principais centros culturais de produção e difusão de sínteses e inovações


- D cosmopolitismo das cidades hispânicas - importância de Lisboa e Sevilha

APRENDIZAGEN5 RELEVANTES

- Reconhecer o papel de vanguarda dos Portugueses na abertura europeia ao mundo c a sua


contribuição para a síntese renascentista

CONCEITOS/N0ÇÜE5
Navegação astronómica; Cartografia
- Principais centros culturais de produção e difusão de sínteses e inovações

A Europa dos séculos XV e XVI constituiu um tempo e um espaço de produção e difu­


são de novas conceções, valores e atitudes, uma época de grandes reformas que trans­
formaram as formas do pensamento e da atividade humanas e exerceram uma profunda
influência nos domínios das artes, das letras e das ciências.

Este movimento de renovação teve o seu berço em Itália. Em Florença, os Medieis,


agrupam à sua volta uma "academia" de letrados e artistas, exemplo que seria seguido
por outros banqueiros, pelas igrejas e conventos e pelo próprio governo da cidade. Esta
prática de mecenato111 foi fundamental para fazer de Florença o principal centro artístico
de Quatrocentos.

Nos finais do século XV, a expulsão dos Médicis de Tlorença e a instabilidade política
O Questão
e social que se lhe seguiu levaram os artistas e letrados a refugi arem-se em Roma cujos
papas Alexandre VI Borgia (1492-1503), JÜIlio II (1503-1513) e, em especial, Leão X (1513- 1. Como se explica que as
-1521) desejam transformá-la na capital de um império cristão. Milão, Génova e, sobretudo, cidades italianas tenham
sido a ■'vanguarda" da
Veneza, grande potência comercial, constituem outros tantos polos de arte e cultura. renovação e progresso
cultural nos sécuIds XV
A partir de Itália, os novos princípios e valores difundiram-se pela Europa ocidental. As e XVI?
peregrinações a Roma, 0 comércio, as relações diplomáticas entre as cortes europeias, 0
gosto pelas viagens, a criação da imprensa moderna (1440) por Gutenberg e os progres­
sos técnicos na navegação favoreceram essa difusão. Em volta das universidades e nas
grandes cidades mercantis, como Paris, Lião, Londres, Praga, Viena, Cracóvia, Augsburgo
e Nuremberga, formaram-se círculos de letrados e artistas que, apoiados pelos monarcas
e pelos homens de negócios, tornaram estas cidades grandes centros de cultura.

- 0 cosmopolitismo das cidades hispânicas - importância de Lisboa e Sevilha


Cronologia
No século XVI, Lisboa ê a cabeça de um vasto e disperso Império que pôs em con­
tacto, através do Atlântico e do índico, povos da Europa, da África, da América do Sul 1494
Assinatura do Tratado de
(Brasil) e do Extremo Oriente que até então se ignoravam mutuamente. 0 Porto no estuá­
Tordesilhas entre Portugal
rio do Tejo exporta para os mercados europeus, via Antuérpia, a pimenta e outras espe­ e Espanha.
ciarias indianas, 0 açúcar, as pedras preciosas, 0 mobiliário de luxo, as madeiras exóti­ 149B
Chegada de Vasco da Gama
cas e 0 ouro, que lhe chegam de todos os quadrantes do Império, e 0 vinho, a cortiça, à índia (Calecute).
os corantes naturais e o sal do Reino. É ainda a porta de entrada de numerosos artigos 1500
manufaturados e matérias-primas essenciais: os têxteis ingleses, flamengos, alemães e Pedro Álvares Cabral
descobre 0 Brasil.
italianos; os metais e a madeira da Alemanha e da Holanda; o trigo embarcado nos por­
1501
tos do norte da Europa... Pedro Álvares Cabral
regressa a Lisboa com
Lisboa é a base de apoio da empresa ultramarina: alberga o principal agente merca­
0 primeiro carregamento
dor, 0 monarca e a sua corte, e 0 organismo regulador e controlador dessa empresa, a de especiarias.
Casa da índia(r\ que dirige e explora 0 lucrativo comércio oriental das especiarias pela Rota 1502
Fundação da Casa da índia
do Cabo que, até 1570, 0 próprio rei reserva para si sob a forma de monopólio régio(3\ (Lisboa).
1510
MEcenatn: pruteçãu us letras e às artes, levada d tabu pur homens ricus e puderusus, que acolhem e apoiam os
intelecludis e us artistas. Conquista de Goa por
1 A Casa da índia, fundada pellu rei D. Manuel em 1502, cubrava direitos. estabelecia us cuntratus pur conte du rei corri Afonso de Albuquerque.
□s negociantes e us exploradores, organizava as frotas, controlava d carga e descarga dos navios e fazia a registo 1513
de tudos os navius portugueses largadus de Lisbud. Chegada dos Portugueses
e Manopólin régio: ern 1504, u Estado impus o seu controlo sobre 0 comércio do Oriente através da Lasa da índia, trn à China.
150G, a Coroa estabelei eu urn monopólio sobre todas as importaçQes de uuru. praia, 1 ubre e 1 ural e sobre o tráfico
entre Gua e as feitorias rnais importantes. Neste quadru, que durou até 15/0, apenas o Estado podia armar e enviar 1580-1640
navius para o Indico. União Ibérica.

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