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Anjo

Lonely, um adolescente, lida com o estresse de cuidar de seu irmão mais novo, Lysandro, enquanto enfrenta traumas do passado. Após uma ligação preocupante de sua mãe, ele se depara com um corvo que parece simbolizar sua escuridão interna. A relação entre os irmãos é marcada por momentos de ternura, mas também por segredos sombrios que ameaçam sua inocência.

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Anjo

Lonely, um adolescente, lida com o estresse de cuidar de seu irmão mais novo, Lysandro, enquanto enfrenta traumas do passado. Após uma ligação preocupante de sua mãe, ele se depara com um corvo que parece simbolizar sua escuridão interna. A relação entre os irmãos é marcada por momentos de ternura, mas também por segredos sombrios que ameaçam sua inocência.

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by Four_Craft

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Lonely, sentado em uma cadeira da cozinha, passava a mão pelo seu rosto, tentando esquecer a
experiência que teve no porão. Aquele rosto angelical que trazia lembranças tão boas se transformando
em um zumbi mexeu com seu psicológico.

Ele estica o braço, pegando um copo com água que estava sobre a mesa, perto dele, levando o copo à
boca. A cada vez que sentia a água descer sob sua garganta, uma sensação de desconexão emanava
sobre seu Ser.

O piso da cozinha estava manchado com chocolate, pelotinas estavam jogadas no chão de qualquer jeito,
algumas amassadas. Inspirou o ar e emitiu um suspiro exausto, cuidar de uma criança tão travessa exige
um enorme trabalho.

— Tsc. — Lonely passou as mãos pelo rosto, tentando aliviar o caos mental que o destruía por fora. —
Espero que ele tenha sossegado. Não vou limpar isso agora.

Repentinamente, o telefone da casa tocou, interrompendo a tranquilidade da casa. Irritado, Lonely


levantou-se da cadeira e andou em direção ao som. Os passos dele eram longos e apressados, nem
entendia o porquê de ansiar tanto para atender à ligação.

Com movimentos controlados, segurou o aparelho e o colocou no ouvido. Seu rosto era inexpressivo, o
inferno concedia uma forma física a um adolescente bárbaro, com alguns raros momentos de
compaixão.

— Alô. — Lonely disse, sua voz era casual, mas carregava um terror intrínseco.

— Oi, Lonely. — A voz era de sua mãe, Sara Silva, parecia desesperada com alguma coisa. — Sou eu.
3

— Mãe? — Ele questionou, tentando entender o que havia de errado com a mulher. — Você está bem?

— Estou sim. — Uma tosse veio do outro lado do telefone, como se ela estivesse desesperada. — Irei
demorar um pouco para voltar. Cuide de seu irmão, por favor.

— Sempre cuido. — Antes de perguntar mais sobre o que estava acontecendo, a chamada se encerrou.

Lonely posicionou o telefone no suporte onde o aparelho estava, seu rosto ficou novamente gelado.
Entretanto, um barulho na janela chamou sua atenção.

Ao olhar para trás, ele viu um corvo na borda do ferro, ao lado do vidro. O animal o olhava de maneira
inteligente, quase como se fosse um Ser Humano, entortava sua cabeça e suas patas batiam contra o
ferro, fazendo cliques irritantes e insuportáveis.

O Corvo era completamente escuro, sua presença absorvia a luz da casa. Ele olhava diretamente para
Lonely, como se estivesse o marcando para revisitar seu pior lado.

Uma sensação lúgubre tomou conta do ambiente. A figura juvenil de cabelos longos não demonstrava
medo, um vazio tomava conta de seu corpo, que já estava completamente afogado no Oceano Pacífico
colorido de vermelho. A coloração manchava qualquer traço humano de quem estava lá.

Ele deu alguns passos em direção à ave, mas não quis chegar muito perto. Os olhos de um pássaro e a de
uma quimera se encontravam, distorcendo o espaço e o tempo ao redor.

— A minha chama arde, como a sua escuridão. — Lonely diz ao Corvo sem esperar uma resposta, apenas
desabafava sobre sua vida, mesmo que as respostas sejam inexistentes. — Será que algum vou poder ter
minha luz?

2
Inexplicavelmente, o animal lançou um olhar inteligente, penetrando sua alma escura.

— Não. — O Corvo sussurrou, mais para si mesmo do que como uma resposta. — Nunca mais.

O sol, antes cintilando pela janela, agora sumiu sem deixar rastros. O mundo pareceu ficar de noite
repentinamente, quebrando qualquer tipo de lógica inteligente. Lonely pegou o celular em seu bolso,
olhando para a tela que marcava 6:30, questionando para si como aquilo era possível.

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Os olhos dele arregalaram, mas não de um medo convencional, já se acostumou com o demônio dentro
de si. Tudo o que sentia era uma enorme surpresa, algo que ele nunca pensou que veria: um corvo
falante.

— Mas o quê? — Antes de processar qualquer informação, o pássaro voou para longe, sumindo na
escuridão do céu.
Lonely permaneceu incrédulo com o que havia visto, não sabia mais diferenciar a realidade do que vinha
em sua memória. Quando ele olhou pela janela, as nuvens escuras retornaram ao normal, o sol estava
luzindo seu rosto pálido.

Ele sentiu uma presença a alguns metros de distância. Por alguns minutos, um receio tomou conta dele,
o medo do que poderia ver fez seu corpo paralisar. Talvez fosse apenas a sua mente brincando mais uma
vez, ou algo ainda mais assustador o estivesse encarando.

Respirou fundo e virou seu tronco na direção contrária à janela. Seus pés, ainda trêmulos, causavam um
som surdo no chão. Os olhos negros soslaiaram para a lateral, enquanto girava seu torso para trás. Seu
olho esquerdo expressava medo, mas o olho direito expressava um vazio que dissipava seu receio.

Quando olhou para trás, a visão que teve não era nada assustadora, sentiu-se um idiota. Tudo o que viu
foi seu pequeno irmãozinho, Lysandro, com a blusa e a boca manchadas com traços de chocolate, como
se ele estivesse banhado em uma piscina de brigadeiro. O menor estava sem calça, suas pernas brancas
expostas à luz do dia, ele chupava o dedo que estava manchado, enquanto encarava Lonely com um
olhar que transmitia fofura, aliviando a tempestade que destruía qualquer abrigo.

— Oi! — Lysandro cumprimenta seu irmão mais velho como de costume, com um sorriso no rosto. Ele
passa os dedos pelo queixo, também manchado. — Você tá bem?

— Estou sim, maninho. — Lonely ri sem humor, queria quebrar o clima opressivo em que ambos viviam,
mesmo que seu pequeno não soubesse. — E você? Por que tá sem calça?

— Sujei ela. — O caçula abaixa a cabeça, envergonhado. Pensava que seu irmão iria brigar com ele, ou
até iria agredi-lo. — Desculpa.

Lonely emite um suspiro prolongado, meio irritado, mas ainda tenta se acalmar. Ele se aproxima do
menor, que em sua visão era a coisa mais fofa que já havia visto, olhava com fascínio para aquele
baixinho, querendo possuir cada parte dele. Carinhosamente, estendeu o braço e passou as mãos pelos
cabelos macios do menino.
— Fiquei sabendo de uma coisa. — O irmão distante sorriu sutilmente, transmitindo uma expressão
controlada. — Sei que um certo menino passou o dia todo na cozinha comendo brigadeiro em vez de
dormir, né?

Lysandro riu baixinho, envergonhado.

— Podemos ficar juntos? — O menor abraça o quadril de seu irmão mais velho, ele era quase um poste
em sua visão. — Quero ficar na cama com você. Vamos?

— Claro. — Lonely ficou desconfortável com o que seu bebê estava pedindo, mas não conseguia
enxergar malícia nas suas falas.

Ele se abaixou e posicionou suas mãos pela axila do menor, levantando-o com um puxão, era como
erguer um pequeno filhote de pinscher. As pernas despidas do caçula se envolveram ao redor de suas
costas, encostando no tecido de sua blusa preta. O rosto fofo do menino estava quase colado em sua
face cadavérica.

Lonely pressionou a mão esquerda na bunda de seu irmão mais novo, apoiando com mais facilidade seu
pequeno corpo. Ele andou até a escadaria, a cada degrau que pisava, o mundo ao redor ficava mais sujo.

Lysandro apoiou mais ainda no garoto descolorado, como se fosse sua única fonte de segurança. Uma
pequena corrente de ar bateu nos joelhos nus do menor, a frieza era desconfortável, mas não sabia se
era de fonte externa ou se era do garoto que estava o segurando.

Os degraus pareciam não ter fim, como se estivesse em um loop infinito que se somava a uma atmosfera
perturbadora que pairava sobre ambos. A figura infantil pressionou ainda mais seus pequenos braços em
sua única fonte de proteção, estava quase chorando.

Conseguia olhar sobre os ombros de seu irmão, mas havia um receio insuportável tomando conta dele. A
fim de dissipar o medo, Lysandro pousou os lábios no pescoço de Lonely, chupando com suavidade e
com inocência. Sua boca estava suja com o chocolate do brigadeiro, o que acabou sujando o irmão, mas
ele não parecia notar.
Lonely riu baixo, aquilo fez um misto de cócegas, era tão bom ter aquela criança para si. Mergulhou seus
dedos nas costas da criança que estava em seus braços para segurá-la com mais firmeza, mas ainda com
suavidade.

Chegou finalmente ao fim da escadaria, um alívio tomou conta de Lysandro, que ainda chupava o
pescoço do irmão para ignorar o medo e encontrar algo que ele goste. Lembrou-se do livro que seu
amigo Félix havia lhe dado antes de desaparecer, no conteúdo, quando duas pessoas se amam muito,
elas se beijam, chupam o pescoço uma da outra, brincam. Costumam fazer isso na cama, eles dizem ser
muito gostoso, divertido, prazeroso, além de melhorar a relação com quem ama, até recomendam a
fazer duas vezes por semana.

Um sorriso travesso se formou nos lábios do caçula, uma ideia incrível percorreu em seus pensamentos.
Ele sussurram, inocentemente:

''E se eu pedir pra ele me levar pra cama? Nossa! Vai ser muito bom, até dizem que fica quentinho.''

— Podemos ir pro seu quarto? — O menor perguntou, queria ensinar aquilo ao seu irmão. Em sua visão
infantil, pensava que teria que ensinar a figura púbere que estava o segurando a fazer.

— Claro. — Lonely assentiu, mas também ficou com medo de ele descobrir o que tem dentro de seu
armário. — Mas promete que não vai mexer em nada, ok?

— Prometo. — Lysandro beijou o pescoço do mais velho com entusiasmo, amava fazer isso, ficar
agarrado a ele era tudo. — Só me leva pra sua cama, mano.

O som da madeira do chão rangendo era a única coisa que quebrava o silêncio da casa. A presença dos
irmãos se mesclava com a neblina do corredor, distorcendo a mente de ambos.

Chegaram finalmente à porta do quarto do irmão mais velho, a cessão abrupta dos passos fez tudo se
tornar ainda mais silencioso. Lonely apertou a maçaneta e empurrou a porta, fazendo-a abrir com um
ranger baixo, o som assemelhava-se a uma enorme jaula se abrindo. O quarto era uma cela aos olhos
vazios do adolescente, mas para Lysandro era um lugar lindo.
O menino sentiu seus pés encostarem no chão, o piso era confortável, mas a frieza fazia seu corpo ficar
trêmulo. Um som de notificação ecoou baixo pelo quarto, era o celular no bolso da calça de Lonely. Ele
pegou o aparelho e viu que era uma mensagem da Júlia, dizia:

você ainda quer acesso pras câmeras?

Sem hesitar, ele respondeu:

sim. Você demorou bastante também.

Em alguns minutos, outra mensagem foi enviada.

sério, vai pro inferno. Depois passa na lanchonete perto da minha casa.

Lonely olhava a tela do celular com frieza, mas também havia um vislumbre de raiva contida em seu
olhar, queria tanto esmagar a cabeça do infeliz que fez aqueles cortes em sua pequena criança. No
entanto, enquanto ele pensava maneiras de torturar a pessoa, um som baixo o fez despertar de seus
pensamentos.

Ao olhar na direção da fonte sonora, ele viu Lysandro abaixado, perto do armário onde tinha membros
humanos decepados que guardava como recordação.

— LYSANDRO, NÃO ABRE ISSO! — Lonely gritou, levantando bruscamente da cama.

O menor tirou rapidamente a mão da maçaneta, tudo o que viu foi seu irmão mais velho andando até
ele com passos longos e apressados, como se quisesse esconder alguma coisa.

— Mano, tinha sangue saindo do armário. — Lysandro aponta para gotas de sangue escorrendo de
dentro da porta. O medo estava visível em sua face, estava suando, receoso com a origem desse líquido
no armário.— O que é isso? Você se machucou aqui?

— Sim. Acabei prendendo meu dedo na porta. — Ele diz, pegando o pequeno braço do caçula e o
guiando até a cama. — Deixa isso pra lá, vamos ficar juntinhos.

Lysandro se senta na cama, os lençóis traziam um grande conforto, não fazia ideia de que ficar sem
calça trazia mais leveza. Ele inclinou seu corpo para trás, colocando a cabeça no travesseiro, deitando de
barriga para cima. Seu irmão se deitou ao seu lado, era uma sensação tão reconfortante, apenas eu e
ele, juntos, formando um clima tão gostoso. Aos olhos infantis, o momento estava perfeito.

A expressão de Lonely voltou a ser pensativa, questionou-se sobre uma possível redenção para si, um
conceito que estava tão distante dele. Nunca quis odiar as pessoas, mas elas não lhe davam escolha.
Seria tão simples se eles ficassem de boca calada e o deixassem com seu amor, qual era a dificuldade
disso? Só queria tê-lo em seus braços, mas agora nem isso.

Ele fechou os olhos, tentando invocar uma faísca de paz. Nem se lembrava do mundo averno em que
vivia, parece que a esperança que escapou da caixa de Pandora só o destruiu ainda mais. Talvez seja
melhor ter ficado aprisionada.

Sua mente o destruía de dentro para fora, já estava acostumado, mas seu neurônio aferente mandou um
estímulo externo para seu sistema nervoso, desfazendo a tortura psicológica que estava sofrendo.
Quando abriu os olhos para ver o que estava o encostando, viu algo que o fez abrir um sorriso de canto
cujas intenções não eram conhecidas.

Era Lysandro que estava montado nele, as pernas abertas ao redor de seu abdômen, até sentia ambos os
ossos púbis e a sínfise pubica de seu irmão mais novo. O que deixava aquela sensação mais diferente era
o fato do caçula estar sem calça. Por um minuto, queria que aquilo fosse um sonho, mas não era.

''O que será que ele quer agora?'' Lonely pensou, ainda sem demonstrar emoção.

— Mano. — Lysandro pousou suas pequenas mãos no tórax do irmão, seus olhos demonstravam
inocência e um misto de tristeza. — Vamos brincar de cavalo?
— Agora? — O adolescente suspirou, estressado, jogando sua cabeça no travesseiro. — Tá bom. Pode
brincar o quanto quiser.

Um riso animado pode ser ouvido, Lonely apenas relaxou na cama e sentiu o menino pular em sua
barriga como se estivesse cavalgando. Lysandro quicava em seu abdômen, pulava com entusiasmo, não
passava pela sua cabeça se seu irmão estava gostando ou não, em sua mente infantil aquilo tudo era
apenas uma brincadeira.

— Tá gostando, cavalinho? — Lysandro pergunta, com uma animação fértil em seu rosto. As risadinhas
faziam o quarto escuro ficar mais alegre.

— Você é quase uma pena, seu bobo. — Lonely ri baixo, passando a mão pelas pernas despidas da
criança que estava montada nele. — Será que meu neném quer ouvir uma das histórias idiotas dele?

— Ei! — O menor cruzou os braços, fazendo biquinho a fim de parecer rebelde. — As histórias são
fantásticas, ouviu!?

— Belas palavras que não cabem na sua boca. — O adolescente de olhar escuro passou seus dedos pelos
lábios do caçula, acariciando seu queixo, ainda sujo com o chocolate do brigadeiro. — Si bem que tem
outra coisa que caberia dentro da tua boca certinho…

— O quê? — Lysandro piscou algumas vezes sem entender, coçou a cabeça tentando entender.

— É algo bem… grande. — Ele olhava para o menino com fascínio, podia fazer o que quiser com ele, mas
não queria ainda. — Também sai um leitinho bem gostoso.

— Ah, seu pateta! — O mais novo riu por alguns segundos, pensou ser apenas uma brincadeira inocente.
— Tá falando de mamadeira? Eu já sou grande, ouviu?

Lonely sorriu de canto, ficou satisfeito pela inocência de seu pequeno, como aquela carinha de bebê o
encantava. Por alguns minutos, pode finalmente se esquecer da vontade de mutilar quem machucou sua
criança. Estar perto de um Ser tão frágil o deixava ruborizado, como ele é ingênuo.
— Vamos fazer um acordo? — Lonely diz, passando suas mãos gélidas pelas costas do pequeno. — Serei
seu… e você meu. Pode ser?

— Lógico, mano! — Lysandro inclina seu corpo para frente, deitando sua cabeça sobre o tórax de seu
irmão mais velho. — Você é tudo pra mim.

— Você também. — Ele acariciou os cabelos do caçula com suavidade, seus dedos deslizaram até seu
pescoço. — Aliás, será que um certo menino tá a fim de fazer uma brincadeira?

Lysandro levantou a cabeça, seus olhos brilhando de felicidade, pensando que iriam brincar de algo
divertido. Ele olhou para seu irmão, mas algo parecia diferente nele, como se fosse outra pessoa. Por
alguns segundos, o menor olhou para o garoto fúnebre, mas os olhos dele estavam demoníacos. Os
globos oculares estavam completamente tomados pela cor preta e estavam ausentes de pupila.

O caçula inclinou seu corpo para trás, quase caindo no chão se Lonely não o segurasse. Quando olhou
novamente para ele, os globos oculares voltaram ao normal, mas a sensação de algo perverso nele ainda
pairava em sua presença.

— Fico maluco? — Lonely perguntou, olhando confuso para o menor. Meneou sua cabeça, tentando
achar algo que possa tê-lo assustado. — O que foi?

— N-nada. — Lysandro novamente o abraçou, seu corpo estava trêmulo, só queria que tudo fosse
normal. — Por favor, só quero ficar com você.

— Vamos fazer algo divertido. — O jovem de cabelos pretos segurou os quadris do mais novo,
levantando-o com cuidado e o colocando no lado direito da cama. — Vou só pegar uma coisa.

Lonely se levantou e foi até um canto escuro do quarto. Lysandro não conseguia mais ver seu irmão,
que havia se mesclado com a escuridão presente no cômodo, apenas ouvia algumas gavetas abrindo e
fechando. O som não era alto, mas a cada vez que ecoava, arrepiava o pequeno corpo do menor.

A criança se ajeitou na cama, tentando se distrair com outra coisa, mas os poucos movimentos no limbo
do quarto só distorciam o ambiente. Queria pensar que era só uma brincadeira, talvez ele só iria jogar
bola ou brincar de pique pega.

Os vultos pararam abruptamente, um som de algo cortante deslizando em uma madeira ecoou pelo
quarto, era uma lâmina muito afiada. Da escuridão insalubre, surgiu a figura de Lonely segurando uma
faca amolada, seus cabelos caíram em torno de seus olhos e um sorriso se formou em seus lábios,
enquanto ele deslizava a ponta da faca na parede.

— A brincadeira vai ser "Jogo da verdade". — Lonely diz, caminhando lentamente até a cama, sentando-
se nela de maneira casual, ainda apertando o cabo da faca. — A gente vai fazer perguntas um ao outro,
se um de nós mentir, sangue irá jorrar. Entendeu?

— Sim… — Lysandro estava suando, estava assustado com a situação, mas também tinha medo do que
aconteceria. — Vai doer muito?

— Só um pouco. — O irmão mais velho vira a cabeça em direção ao caçula, com um sorriso perturbador
em seu rosto. Ele passa a faca pelo colchão por um tempo, mas larga o cabo, deixando-a perto do menor.

Lonely aperta sua blusa e a levanta, o som do tecido se encontrando com a pele dele emitia um som
desconfortável aos ouvidos de uma criança. Quando a roupa caiu no som, tudo o que se pode ouvir é
uma fonte sonora surda.

Ele pega um travesseiro e coloca na parede atrás da cama, encostando-se e ficando com a coluna ereta.
Lysandro olha para o torso despido de seu irmão e fica impressionado, era um corpo bem definido,
apesar de não ter músculos exacerbados. A visão do caçula captou uma beleza obscura, até apavorante.

— Vem cá. — Lonely dá alguns tapinhas em sua própria coxa, chamando seu pequeno para ficar em seu
colo. — Bora ficar igual naquele dia.

Mesmo estranhando, Lysandro inclinou seu corpo para o lado, os movimentos eram desajeitados, mas
conseguiu se encaixar. Montou na perna do irmão, seus rostos estavam mais próximos e ambos sentiam
a respiração um do outro.
Lonely pegou a faca que estava jogada no lado direito da cama, colocou a ponta da arma branca na
barriga de Lysandro, fazendo o menor suar frio, seu corpo trêmulo nem reagia. Não conseguiu
questionar, apenas aceitar a situação.

— Eu começo. — O irmão mais velho sorri, queria mostrar o controle que tinha sobre aquela criança.
Mesmo a amando muito, queria que enxergasse que ela era só dele. — Você me abandonaria?

— Não, mano. — Lysandro pousou suas pequenas mãos no ombro do garoto à sua frente. — Eu nunca
faria isso.

A sinceridade nos olhos do caçula encantou o mais velho, fazendo-o quase chorar por alguns segundos.

— Você agora. — Lonely segura o braço da sua criança e abre sua mão. Solenemente, coloca o cabo da
faca nas mãos do menor e controla seus movimentos, fazendo-o pôr a ponta da lâmina em seu abdômen
pálido e despido. — E então?

— Você ama alguém além de mim? — Lysandro pergunta, receoso com a resposta. Por algum motivo,
queria ter toda a atenção de seu irmão.

— Agora não. — Ele sorri com o canto da boca para o menino. — Mas mesmo antes, quando eu tinha
alguém para chamar de ''amor'', eu nunca deixei de amar e pensar em você… em nenhum momento.

Lysandro sorriu inocentemente, apesar de querer a atenção do adolescente voltada unicamente para si,
ainda gostou de saber que ele o amava.

— Minha vez agora. — Lonely retirou a faca da mão do menor e a pressionou a ponta do objeto contra
sua barriga, mas sem cortá-lo. — Você vê coisas escondidas de mim?

— N-não. — O caçula ficou trêmulo com a resposta, pensou que ele sabia de algum segredo.
— E aquele livro lá? — O jovem com a alma escura fala com causalidade, mas havia uma intenção
desumana subjacente. — Aquele que tem uma mulher com um olhar ''provocativo'' na capa. Inclusive, é
um conteúdo bem sensual.

Lysandro se lembrou do livro, era o que seu amigo Félix havia dado, tinha aquele conteúdo guardado
desde seus 8 anos, nunca imaginou que alguém descobriria.

— Desculpa… — Ele disse, arrependido de ter mentido, mesmo que por acidente. — Não queria mentir
pra você, mano.

— Lembra das punições? — Lonely apertou a faca contra a barriga do menor, mas ainda não o suficiente
para rasgar sua pele. — Você não foi um bom menino.

— Vai doer? — Lysandro segurou o choro, enquanto fechava os olhos, pensando que isso anestesiaria a
iminente dor.

— Um pouco. — O garoto diz, aproximando seus lábios do ouvido do irmão mais novo.

Lonely retira a faca de perto do corpo dele, dando um alívio temporário. No entanto, a sensação de
conforto se dissiparia assim que o adolescente mórbido levantou a blusa do caçula, retirando-a com
cuidado.

O pavor no rosto de Lysandro era notório, seu corpo estava trêmulo, não sabia o que aconteceria. Ele viu
a mão do mais velho se fechar ao redor do cabo de madeira do objeto cortante, não era possível ver
emoção, seus movimentos eram mecânicos e em seu olhar não havia nenhuma expressão.

A ponta da faca encontrou-se com a barriga da criança, que começou a chorar de dor. A lâmina
atravessou sua pele vagarosamente, chegando a emitir um som de corte. Lonely perfurou o corpo do
menor com um cuidado artístico, como se estivesse realizando uma obra artesanal.

Lágrimas saíram dos olhos de Lysandro, ele estava prestes a gritar algo, mas a mão da figura
perturbadora à sua frente pressionou sua boca, impedindo-o de fazer qualquer som. A única coisa que
se ouvia eram seus soluços, e a ponta da lâmina invadindo seu corpo.
2

O sangue escorria, manchando a calça escura de Lonely. O tronco do caçula também se coloriu de
vermelho, era como as águas de um rio afluente desaguando em um mar ou rio ainda maior. Uma
excitação tomou conta do aspecto imberbe e sombrio, o mar de sangue que estava escorrendo o fez ficar
alucinado. Ainda não estava satisfeito, queria mais…

Lonely cravou a faca um pouco mais fundo, mas com cuidado para não acertar nenhum órgão vital,
queria apenas causar dor física. Seu desejo era ensinar o que acontece com quem desobedece às regras
do jogo, mesmo que envolva jorrar sangue de seu bebê.

As emoções de Lysandro entraram em um caos violento, queria tanto amar seu irmão, mas aquilo era
doloroso demais. Mesmo com toda aquela dor infernal, ainda tinha uma voz na cabeça sussurrando
conselhos:

''Ele é a única coisa que você tem.'' ''Seu irmão não fez nada ruim para você. Não seja ingrato!'' ''Ele é
muito gentil, devia confiar totalmente nele."

Essas vozes o faziam criar uma empatia profunda com Lonely, mesmo ele sendo seu agressor agora. Por
um momento, um milagre, ou uma maldição, aconteceu, a faca foi retirada de seu corpo, criando uma
dor intensa, mas cessando aquela angústia horrível.

— Shh… — Lonely segura a cintura do caçula, sua mão o agarra firmemente, quase chegando aos seus
quadris, como se quisesse garantir que a criança não fugisse. — Já acabou.

— Tá doendo… — Os olhos marejados de Lysandro encaravam seu irmão, que o encarou de volta. —
Podemos parar?

— Uma pergunta antes. — Ele largou a faca no chão e envolveu sua outra mão nos quadris do pequeno.
Olhava com um fascínio sobrenatural, quase como se fosse outra pessoa. — O que você faria se eu te
beijasse?
— Eu não sei… — Lysandro se lembrou que beijo significa que a outra pessoa te ama, perguntou-se o
que aconteceria agora. — Você me beija o tempo todo, na bochecha.

— É igual naquele seu livro. — A boca de Lonely ficou úmida, estava babando de tanto desejo de possuir
o caçula para si. — Mas já vi que eu vou ter que ver na prática.

Antes de Lysandro falar qualquer coisa, a cabeça do adolescente se inclinou e os lábios úmidos se
fecharam sobre seu pescoço, chupando-os com delicadeza. Quando finalmente parou de chupar, beijou
com afeto as partes mais sensíveis dele, como se estivesse completamente louco e com uma paixão
doentia

O irmão mais novo sentiu a umidez da boca do garoto, a sensação de algo líquido escorrendo pelo seu
pescoço somado com os beijos possessivos tornavam a atmosfera ainda mais opressiva.

— Porra, venha aqui, me dê seu corpo e sua alma. — Lonely puxava a criança para mais perto, querendo
tudo dela. — Só você e eu.

Uma voz na mente de Lysandro sussurrou novamente, dizia:

''Queria a atenção dele, né? Agora cale a boca e aproveita.'' ''Tomara que ele me beija até me sufocar.''

Parecia ser ele próprio falando, mas também assemelhava-se à sua mente que tentava buscar conforto,
mesmo que envolva tornar aceitável coisas dolorosas. As palavras aliviaram o medo que ele estava
sentindo, pensava que algo estava errado, mas seu irmão apenas queria o amar igual aos adultos faziam
no livro que lera.

Lysandro ouviu algumas vozes vindo do fundo mais obscuro de sua mente, uma parte que talvez nem
existisse nele, mas aquela situação estava criando. Esse poço sem fundo se alegrava com aquilo, a voz
doentia sussurrou:

''Eu sou seu cachorrinho. Brinca comigo… ME ARREBENTA.''


Uma vontade incontrolável de externalizar aquelas frases surgiu, não sentia mais seu próprio corpo, ele
apenas falava de forma independente.

— Eu sou seu cachorrinho, Lonely. — Lysandro sussurrou, olhando para seu irmão. — Brinca comigo…
quero ser seu amorzinho… Por favor, ME ARREBENTA!

O menor sentiu que não era ele falando, mas sim sua mente que sentia empatia pelo garoto, seu estado
mental estava deteriorado demais para raciocinar qualquer possibilidade deletéria. Um sorriso se
formou na boca de Lonely, como se fosse exatamente o que ele quisesse ouvir.

— Com prazer. — O adolescente colocou a mão no osso occipital de seu pequeno neném, agarrando as
mechas de seu cabelo macio e acariciando com suavidade. Ele aproxima o rosto de Lysandro e coloca a
língua para fora da boca, lambendo a mandíbula do caçula com uma lentidão insuportável, queria
expressar o profundo poder que tinha sobre aquela criança. — Quero ficar assim com você até
morrermos.

Enquanto isso, em uma rua movimentada, sons de carros passando de um lado para o outro preenchiam
a estrada, às vezes xingamentos podiam ser ouvidos, pessoas gritavam ofensas para outros motoristas
no trânsito. Em meio a isso tudo, Sara Silva estava em pé, com o celular nas mãos, mexendo
desesperadamente em seus contatos, à procura de alguém confiável que pudesse levá-la até em casa.

Primeiramente, mandou mensagem para sua irmã, Fabiana. No entanto, não houve resposta, lembrou-se
de como ela nunca mais foi a mesma depois do desaparecimento de Tyler, às vezes sentia parte da
responsabilidade pela ausência de informações do paradeiro do garoto.

— Droga… — Murmurou, irritada para si mesma, provavelmente teria que gastar dinheiro com UBER. —
50 reais tirados do meu bolso, que maravilha.

Ela deslizou algumas telas do celular, irritada, mas quando ia chamar um motorista de aplicativo, um som
de notificação ecoou em seu aparelho. Era sua irmã Fabiana, na mensagem, ela dizia:

Oi, precisa de alguma coisa?


Sara rapidamente digitou, envergonhada com o que iria pedir.

Fabi, pode vir me buscar perto do estúdio? Acabei passando mal.

Em alguns segundos, uma resposta surgiu:

Claro. Estou passeando de carro mesmo. Já vou aí.

Um alívio tomou conta de Sara, pensou que iria ter que gastar dinheiro com UBER ou pedir carona na
rua e depender da boa vontade dos outros. Ela olhou para os lados, certificando-se de que Fabiana não
estava por perto.

A fim de se distrair, a mulher olhou o celular, vendo algumas notícias que a fizeram arrepiar: um total de
20 crianças desapareceram na semana passada. Se tiver alguma informação sobre seus paradeiros, avise
as autoridades imediatamente.

— Ah, meu Deus! — Sara ficou trêmula, questionou-se por que alguém iria fazer aquilo com tantas
crianças. Pensou em Lysandro também, será que ele está bem?

Apesar de estar preocupado com seu filho mais novo, uma indiferença em relação a ele surgiu, às vezes
nem o enxergava como seu filho, apenas como um peso em sua vida. No entanto, ainda estava receosa
sobre o que poderia acontecer com ele, havia algum resquício de sentimentos iluminando seu coração
gélido.

Suas emoções se dissiparam assim que viu o carro branco de sua irmã parar perto da calçada. Teve
certeza de que era ela quando o vidro se abriu e a viu acenando para entrar no veículo. Sara andou
rapidamente até o automóvel, o que mais queria era chegar em casa e tomar seus remédios.

Ela colocou a mão no puxador do carro, empurrando a porta para trás, abrindo-a com um clique surdo.
Assim que entrou, sentiu o ar-condicionado, fechando a porta do veículo em seguida. Olhou para sua
irmã, Fabiana, e sorriu de canto de boca, não sabia o que dizer naquele momento.
— Como tá as coisas? — Fabiana diz, enquanto dirige. Tentava retornar à normalidade novamente,
mesmo que não fosse uma tarefa fácil. — Algum namorado novo?

— Não estou com tempo para isso. — Sara vira o rosto, a exaustão emocional era notória em sua face.

— E aquele Edson Campos, sei lá o quê? — A mulher ao volante ri baixo, tentando amenizar a aflição de
Sara. — Lembro que você e ele se pegavam até no quintal

— Só fiquei com ele algumas vezes… — Algo incomodava a modelo, que parecia estar enfrentando uma
guerra que decidirá o destino de sua vida. — Posso te perguntar uma coisa?

— Claro. — Fabiana fala, ainda olhando para a estrada. O som do pneu do carro contra o asfalto trazia
um ar confortante, mas também perturbador. — O que é?

— Por que você quase não vem me visitar? — Sara olha diretamente para sua irmã, esperando a
mesma resposta que ouvira toda vez que questionava sobre. — É sempre eu que tenho que ir na sua
casa.

— Já falei que ando ocupada dando aula de inglês. — Ela responde, tentando fugir da pergunta.

— Você só dá aula de manhã. — Sara mais uma vez não está convencida, tinha a impressão de que já
sabia o verdadeiro motivo.

— Ok, vou ser honesta, Sara. — Fabiana suspira, escolhendo as palavras com cautela. — É aquele seu
filho mais velho, aquele garoto esquisito. Eu não consigo ficar perto dele.

— O Lonely? — A mulher pergunta, incrédula com o que estava ouvindo. — Ele te fez alguma coisa?

— Aquele menino é problemático! — Ela quase grita, já estava exausta de esconder. — É sério, até você
pensa assim. Ele deveria estar morto.
— Não acredito que disse isso. — Sara quase lacrimejou, mesmo estando indiferente por um momento,
ainda amava seu filho. — E ele tem nome, não o chame de “garoto”.

— Desculpa, OK? — Fabiana percebeu que falou impulsivamente, não queria ter dito aquilo. — É que
desde que o Tyler sumiu… fiquei alterada.

— O Lonely não tem nada a ver com isso. — Ela diz, ainda com tristeza na voz. Havia algo nela que a
fazia amar o filho conturbado que tem, mesmo com a indiferença sobre ele. — Por favor, não quero que
fale assim dele. Ele não fez nada.

Fabiana suspirou fundo, pensando bem no que ia dizer.

— Sinto falta do Tyler, meu filho, me desculpa. — Os olhos dela ficaram inundados, a exaustão se torna
presente em suas emoções. — Ele era tudo para mim.

— O meu filho também é tudo para mim — Sara fala por impulso, não conseguia entender seu próprio
pensamento. Às vezes sentia nojo de Lonely, mas também sentia a necessidade de protegê-lo. — Ele é
como uma parte de mim, um pouco do Davi…

— Tenho certeza de que o Davi não iria querer te ver assim. — Fabiana finalmente para o carro em
frente à casa de sua irmã. — Chegamos. Desculpa mais uma vez por dizer aquilo.

— Tá tudo bem. — Diz Sara, saindo do carro e acenando para sua irmã.

Ela entra em sua casa, ouvindo o motor do veículo sumir na outra esquina da rua. A mulher fica parada,
encarando a porta, receosa com o que espera lá na casa, mas se convence de que essa preocupação é
bobagem. O que poderia ter de tão ruim lá?

Riu baixo de sua própria preocupação e colocou a mão na maçaneta, empurrando a porta para frente,
que se abriu com um ranger baixo, como se não quisesse incomodar uma presença invisível. Sara entrou,
chegando à sala e jogando sua bolsa no sofá, enquanto retirava seu vestido de modelo, que a fazia
parecer uma prostituta.
Assim que retirou a roupa, pegou um sutiã que tinha sobre a mesa da sala e o colocou em seus seios,
rosinha na ponta e inchados, que deixavam os homens loucos por aquele torso. Ela avistou um casaco
preto que comprara para períodos de frio, mas, como precisava de uma vestimenta, esticou o braço e se
trajou.

Não havia nada por baixo do casaco, além de uma calcinha e um sutiã, apenas a blusa de frio fechada
que escondia seu corpo. Ela andou até a cozinha para fazer um chocolate quente, mas um barulho no
andar de cima chamou sua atenção. Olhou para os lados, percebendo que nenhum de seus filhos estava
por perto, que era bem estranho.

— Lonely? — Sara o chamou, em tom de voz preocupada. — Lysandro?

Importava-se mais com Lysandro devido à sua idade e sua incapacidade de se defender. Ao perceber
que nenhum dos dois estava no andar inferior, ela foi em direção às escadas, subindo os degraus com
passos hesitantes.

Sara andou pelo corredor e viu a porta do quarto de Lysandro, seu filho mais novo aberta, ao entrar no
quarto, ele não estava lá. Seu corpo ficou trêmulo com o que pode ter acontecido, sabia que ele é uma
criança muito medrosa e até bagunceira às vezes, sua preocupação aumentou ainda mais, já não sabia o
que pensar.

Ela novamente andou pelos corredores, os passos apressados, à procura do mais novo. Um rio de
previsões negativas se derramou em sua mente, fazendo-a ficar inquieta. Não era agourenta, mas sentia
que algo ruim estava acontecendo, não estava na hora de ele ir ao colégio em que estudava, além de que
sempre ficava brincando com seus brinquedos bobos.

Um som veio de um dos quartos, fazendo Sara saltar alguns centímetros do chão no susto. O barulho
era a mola da cama sendo distorcida, como se duas pessoas estivessem pulando nela, isso a fez franzir o
cenho e olhar para os lados, certificando-se de que não vinha do lado de fora da casa.

Ela seguiu a fonte sonora, quando chegou finalmente à origem do som, a expressão da mulher se
transformou em pura confusão, pois estava em frente à porta do quarto de Lonely. Hesitou em entrar,
mas a curiosidade e a preocupação com Lysandro falou mais alto.

''Eles devem estar brincando de pular na cama.'' Sara riu baixo, imaginando a cena ridícula que iria
presenciar ao entrar no quarto.

Quando apertou a maçaneta e empurrou a porta, viu uma cena que fez cessar qualquer traço de riso ou
de humor em sua face: Lysandro estava sem calça, seu rosto, do queixo à boca, estava manchado de
brigadeiro derretido, o chocolate manchando o rosto da criança criava uma espécie de fofura sombria.
No entanto, o que a fez paralisar foi o fato de ele estar com a cabeça enterrada no tórax de Lonely, que
estava sem camisa, ambos deitados na cama. O menor estava deitado em cima do irmão, estavam
agarrados um no outro, como se estivessem desfrutando de um amor fraternal, mas a mulher sabia que
não era isso.

Lysandro olhou para trás e um sorriso inocente se formou em seus lábios.

— MAMÃE! — Ele gritou, acenando para ela, sem entender a gravidade da situação. — Que saudades!

— O que… — Sara não conseguia pensar em palavras para proferir naquele momento. — O que estão
fazendo?

— O Lonely estava me ensinando uma brincadeira nova. — Lysandro diz, rindo da situação, sem
perceber que estava sendo abusado.

— O que foi? — Lonely, diferente do mais novo, não emitiu nenhum sorriso, apenas uma frieza
inumana. Ainda segurava o pequeno corpo da criança com extrema possessividade, queria ela toda para
si. — Parece que viu um fantasma.

— Seu irmão te machucou? — Sara pergunta, olhando para Lysandro.

— Não, mamãe. — O caçula coçou a cabeça, não estava entendendo o porquê do pavor no rosto de sua
mãe. — Só estávamos brincando.

Sara percebeu haver sangue no lençol e no corpo pálido de Lonely, mas ela não queria questionar isso,
desejou nunca ter entrado naquele quarto. Uma parte dos pensamentos da mulher dizia que ela não era
responsável pelo que seus dois filhos faziam, e mesmo preocupada, ainda quis escutar essa parte de si,
pois acreditava que a responsabilidade dos dois não se aplicava a ela.
— Claro. — Ela piscou por alguns segundos, tentando processar a situação. — Desculpa atrapalhar
vocês. Podem continuar fazendo… seja lá o que vão fazer.

— Quer brincar também, mamãe? — Lysandro perguntou com inocência, sem perceber que aquilo
soaria como uma provocação. — Ela pode brincar com a gente, né, mano?

— Lógico, bebê. — Lonely passou os dedos pelas mechas de cabelos macias de seu irmão mais novo,
olhando para a figura materna em seguida. — Por que não vem também, mamãe? Vai ser mais divertido
com você.

— Podem fazer o que quiserem… — Sara viu o quanto seu filho mais velho era problemático, pois não
havia inocência em sua voz, apenas malícia pura. — Só não me envolvam. Eu não quero ver.

A mulher saiu do quarto, arrependendo-se de ter entrado. Rapidamente, fechou a porta com uma
batida forte, estava trêmula e sem saber o que fazer, já havia passado por tanta coisa, que não queria
assumir outra responsabilidade. Ela ouviu gritos abafados e o barulho ensurdecedor da mola da cama.
Por um lado, queria tirar Lysandro dali, mas, por outro, não sentiu a necessidade de intervir.

Sara andou apressadamente para seu quarto, ainda ouvia os gemidos de dor e alguns sons
indescritíveis. Os risos infantis de Lysandro, que não percebia que estava, na verdade, sendo violentado,
perturbavam a mente dela. No entanto, a atmosfera se tornou ainda mais desconcertante quando outro
grito abafado foi emitido, parecia ser o caçula, mesmo preocupada, ignorou aquilo.

Após um tempo, minutos ou talvez longas horas, que pareciam uma eternidade, os sons naquele quarto
finalmente cessaram, como se alguma entidade superior concedesse um instante de harmonia para a
mulher, já exausta. A fim de se distrair, ela pegou alguns remédios e tomou, não sabia os efeitos que
causaria, apenas queria fugir da realidade.

Lonely inclinou-se, deixando seu torso ereto, enquanto encarava a parede do quarto. O cobertor cobria
seu corpo totalmente despido até o abdômen, sua expressão demonstrava indiferença, não se importava
nem um pouco com o que havia feito, nem se isso machucou seu irmão mais novo.
As roupas do mais velho estavam espalhadas pelo chão, algumas até na cama, seus dedos brincavam
com o cobertor por um momento. Os olhos vazios do adolescente fixaram-se no armário onde guardava
as partes humanas de suas vítimas que ele havia torturado, desmembrado e matado a sangue-frio. Não
havia remorso em sua face, apenas um profundo buraco a ser preenchido.

Indiferente, Lonely virou a cabeça para o lado, vendo Lysandro, que estava dormindo serenamente, sem
saber a gravidade da situação. O menino estava com um casaco de manga longa e uma calça de moletom
cinza. As vestimentas foram colocadas apressadamente, sem o menor cuidado.

Havia sangue escorrendo pelo frágil braço do caçula, cortes feitos com lâmina podiam ser vistos, apesar
de não estarem explícitos. Se olhasse com atenção, podia enxergá-los. A dor era horrível, ele demorou
um tempo para dormir, porém, tinha medo de irritar o irmão mais velho.

O jovem tétrico não via seu pequeno irmãozinho como uma criança agora, somente como um objeto
que ele usava para torturar e se deleitar quando tinha vontade. Assim que terminasse de brincar,
colocava-o para dormir para ele se esquecer do que havia acontecido, amava rasgar a pele de Lysandro,
até aliviava um pouco de sua dor constante.

No entanto, havia algo nele que se importava, uma parte dele se sentia mal por usar alguém tão
inocente e indefeso para seu bel-prazer.

Ele virou o rosto novamente para frente, mas não prendeu o olhar. Frustrado, ele moveu seu corpo para
se levantar, mas sentiu algo agarrar seu braço. Quando se virou, viu Lysandro o segurando, isso o fez
paralisar por alguns segundos, pois pensou que ele estava dormindo.

— Por que não dorme, pequeno? — Lonely pergunta, tentando transmitir controle e calma.

— Mano, eu quero dormir junto com você. — Lysandro fala, inocentemente. Estava alheio as intenções
sombrias de seu irmão, sentia uma dor aguda, mas ignorou. — Não vai embora…

A mente infantil e doente do caçula sussurrava coisas terríveis, culpando-o por tudo de ruim que
acontecia. As vozes sussurravam:
''Não foi seu irmão que fez esses cortes… foi você. Você que aceitou, agora Cala a boca, seu inútil.''

Mesmo estando dolorido devido à tortura que sofreu, ainda amava Lonely, era a única pessoa que tinha.
Acreditava que a culpa era exclusivamente dele, pois em sua crença, se ele falasse a alguém, poderia
destruir sua única família.

— Quando chegar à noite, a gente dorme agarradinhos, pode ser? — O garoto pálido encara a pequena
criança com um olhar doentio, havia outra coisa dentro dele que tinha vontades que até um demônio
não conseguiria ver. — Daqui a uns minutos, vamos pra escola.

Lysandro solta o braço dele, estava frustrado por lembrar que iria àquele lugar insuportável.

— Você faz essa brincadeira com mais pessoas? — O menor pergunta, querendo que a resposta fosse
negativa. Sentia ciúmes do irmão mais velho. — A de ficar sem roupa e fazer essas coisas loucas aí.

— Às vezes faço isso com algumas garotas. — Lonely responde sinceramente, já sabia que não haveria
como enganá-lo, pois ele já o tinha visto com a Júlia. — Mas eu te amo mais do que elas, tá bom?

Lysandro puxou o garoto com o corpo insalubre à sua frente para mais perto, aproximou seu rosto do
dele, conseguindo ouvir sua respiração e sentir seus longos cabelos encostarem em sua pele. Os lábios
do caçula encostaram no do garoto mais velho, formando um selinho rápido.

O gesto, na visão do mais novo, era somente uma forma inocente de falar que ama o irmão, porém a
mente carregada de enfermidade que consumia Lonely não via dessa forma. Seu olhar ficou ainda mais
possessivo, sabia que estava conseguindo ter seu controle, porém não estava satisfeito.

Algo na boca do adolescente estava diferente, não só a textura, mas sim a umidade desconcertante.

O pequeno menino percebeu que seu irmão estava babando como uma besta faminta por alimento,
deixando-o assustado por um tempo. Entretanto, pensou que ele estava apenas o admirando, o que fez
o medo se dissipar, porém, deixou um pequeno alerta.
— Dorme um pouco. — Lonely disse assim que separou seus lábios, levantando-se da cama e
caminhando até a porta. — O dia vai ser cansativo, amor.

Lysandro acenou com a cabeça, ficou extremamente animado pelo que achara que era um elogio. Viu o
mais velho sair do quarto, deixando-o sozinho naquele pesadelo.

Ele deitou a cabeça no travesseiro, cobrindo-se com o cobertor e fechando os olhos. Alguns minutos se
passaram, deixando a criança dormir tranquilamente na cama do irmão, um sono que afastou os
problemas por alguns minutos.

No entanto, alguma coisa começou a perturbar a harmonia do espaço ao redor, distorcia a realidade,
formando sons bizarros de alguém dançando. Lysandro abriu os olhos e viu algumas sombras minúsculas
andando pelas paredes, isso o deixou paralisado, sem saber o que fazer. Queria gritar, mas parecia que
alguma coisa estava tapando sua boca.

— Ei, Lysandro. — Uma voz infantil veio sob a cama, chamando-o com uma animação macabra. — Vem
aqui, queremos fazer a mesma brincadeira que seu irmão fez com você.

Tomado pela curiosidade, colocou os pés no chão e olhou para debaixo da cama.

— Vocês sabem brincar disso também? — Lysandro perguntou à escuridão sob a dormida, mas havia
alguns movimentos lá.

— Sim. Chega mais perto. — A voz infantil sussurrou, era inocente, mas havia algo ameaçador em suas
falas.

O caçula aproximou o rosto, tentando enxergar o que estava por trás daquilo. Uma silhueta de uma
criança, cujo rosto não estava à vista, aproximou-se, estendendo a mão, gesticulando para Lysandro
segurar.

Ainda curioso, ele estendeu suas pequenas mãos, porém algo assustador aconteceu. Os dedos da
sombra infantil se transformaram em garras afiadas, que rapidamente se esticaram e agarraram o ombro
do pequeno, puxando-o para a escuridão. Não teve tempo sequer de gritar, apenas foi sentiu que já não
estava mais no quarto de Lonely.

Lysandro abriu lentamente os olhos, percebendo estar dentro de um setor infantil, brinquedos
espalhados por todos os lados, as paredes eram coloridas e uma música animada tocava. Ele olhou ao
redor, notando a presença de outras crianças, estavam correndo e rindo, contrastando com sua
confusão.

Um menino bem pequeno se aproximou, parecia ter 7 a 9 anos, os cabelos eram curtos e tinha pele
morena. Ele parou em frente a Lysandro, que o olhava com confusão, sem entender o que estava
acontecendo.

— Oi! — O garotinho moreno cumprimentou, entusiasmado. — Eu sou Kauã e você?

— Lysandro… — As palavras saíram de sua boca quase automaticamente, queria perguntar sobre
aquele lugar, mas havia algo o impedindo.

No entanto, mesmo com essas limitações mentais, ele balbuciou algumas frases sem sentido, deixando
Kauã confuso. Quando ia questionar sobre o lugar onde se encontravam, um barulho ensurdecedor o
interrompeu, as crianças ao redor correram até o enorme palco que havia no setor, parando em frente
às cortinas, que se abriram exageradamente.

— ALÔ, GENTE!!! — Uma menina pequena surgiu, seus cabelos curtos e bagunçados, não cuidava de
sua aparência há anos e parecia ter a idade de Lysandro, mas havia uma malícia oculta no rosto inocente
da figura aparentemente frágil revelavam algo maligno oculto. — Meu nome é Zinnia. Hoje teremos a
música que tanto gostamos! E temos um convidado especial conosco, não é mesmo?

Todas as crianças presentes olham na direção de Lysandro, que os encarava de volta com confusão.
Kauã, ao seu lado, também o olhava com admiração, como se estivesse realizando um sonho.

Zinnia sorriu sutilmente para o público, enquanto andava até uma caixa de som. A menina acertou
alguns socos fracos no objeto, que fez ligar uma enorme tela, nela continha uma abóbora sorridente que
piscava entusiasmada. A festa que estava ocorrendo parecia ser algo inocente, mas havia algo que
perturbava a paz intrínseca, causando conflitos apavorantes na atmosfera.
Uma música animada ecoou pelo local, deixando todas as crianças animadas, cada uma gritava e
pulava, divertindo-se com o momento. Lysandro reconheceu muitos rostos, o que o fez arregalar os
olhos, muitas dali eram as crianças desaparecidas: Marcos, Danilo, Valentina, Ana, Beatriz e Gael.

— Vivemos no paraíso! — Gritou Danilo, enquanto pulava alegremente.

— Nesse paraíso tem uma cordilheira… — Cantava Zinnia, sua voz era baixa, mas carregava um tom
animado. — Dentro dela, dentro dela mora um Anjo… que sorriu, que sorriu para os mortos.

— UI! — Valentina falou em voz alta, a malícia em sua expressão era notória.

— Se esse paraíso, se esse paraíso fosse meu… — A voz de Zinnia, antes feminina e infantil, ganhou um
tom masculino e agudo. Assemelhava-se a de um homem muito elegante, mas também com traços
assustadores. — Eu destruiria e montaria minha quadrilha

— Quadrilha? — Os olhos de Beatriz brilharam com uma inocência demoníaca. — Espero que tenha
muito sangue.

Lysandro olhou para aquilo assustado, enquanto Kauã estava ao seu lado, sorrindo de maneira
perturbadora. Não conseguia se mexer direito devido ao aperto do menino que o prendia. Por Kauã ser
muito pequeno, ele conseguiu empurrá-lo para longe, fazendo-o cair no chão. No entanto, em vez de se
irritar, a pequena figura começou a rir alto e descontroladamente.

— Se eu pudesse, se eu pudesse, eu faria… — Zinnia continuava cantando, a voz perturbava o ambiente


que antes era animado. Atrás da garota, surgia garras afiadas, mas a pessoa estava escondida na
escuridão, tudo o que poderia ser visto era sua mão esquelética.

— O QUÊ!? — Ana perguntou, olhando fixamente para a menina no palco.

— …Uma grande chacina… — Zinnia complementou, como se esperasse aquela pergunta.

— LEGAL! — Ela disse, com a boca aberta, como se estivesse recebido uma surpresa.
— O que está acontecendo? — Lysandro estava com os olhos arregalados, sabia que algo sombrio
poderia acontecer.

— Mas parece, mas parece que a sua vida… — Zinnia era controlada como um peão em jogo de xadrez,
a voz era dela, mas estava distorcida. — Está prestes, está prestes a acabar…

— QUE BOM! — Gael abre um sorriso perturbador, algo incomum para qualquer Ser Humano.

— Você não perde, você não perde por esperar… — A voz aguda proferida por Zinnia cantava com um
tom lento e artístico, como um cantor experiente. — Porque eu vou, porque eu vou te matar.

— Ei, Marcos. — Valentina o chamou, com um tom de voz entusiasmado, como se estivesse chamando
um amigo.

Marcos, que estava prestando atenção na música, virou seu rosto para a menina. A visão que teve foi
perturbadora: ela segurava um martelo com a mão esquerda, enquanto abria um largo sorriso, sua
infantilidade perturbava ainda mais o ambiente ao redor.

Valentina levantou o martelo no ar e desceu contra o rosto de Marcos, acertando diretamente seu olho
do pobre menino. Novamente levantou o martelo e acertou sua testa, continuou o golpeando repetidas
vezes.

O som seco dos ossos se estalando se mesclava com a música animada de fundo, contrastando com a
alegria das outras crianças ao redor. Marcos não demonstrava desespero, como uma pessoa normal
faria, ele ria a cada vez que o martelo o acertava.

O olho esquerdo de Marcos saltou para fora devido às marteladas. O sangue intenso criou uma cortina
ao redor de sua cabeça, que estava sendo aberta pelos violentos golpes com o martelo. Valentina ria
infantilmente, como se estivesse realizando um trabalho de escola. Mesmo com o menino já inerte, ela
continuou o acertar com o martelo.

Seu crânio foi brutalmente fraturado, sua mandíbula quase caiu, os dentes saltaram para fora da boca
com o impacto. O que havia ali não era mais um rosto, mas sim um amontoado de carne exposta, cada
osso foi destruído, a sua face havia sido completamente esmagada.

Valentina ria alto, a música animada ao redor tocava na festa, mesmo com a carnificina que acontecera.
As outras crianças riam animadamente, como se estivessem vendo uma peça de teatro muito engraçada.

— Você viu? — Ana sussurrou, animadamente, para Beatriz — O Marcos foi destruído ao meio.

Lysandro olhava aquilo com os olhos arregalados, estava trêmulo, sem conseguir mover um único
músculo. Sua mente gritava para ele correr dali o mais rápido possível, mas não conseguia mover suas
pernas, era como se elas estivessem presas por correntes.

No entanto, quando ele viu Kauã o olhando com um sorriso doentio no rosto, seu sistema simpático se
ativou instantaneamente. Lysandro não pensou duas vezes e correu desesperadamente para uma porta
que havia no setor, já não sabia para onde estava indo, apenas correu.

Quando passou pela porta, viu algo que o fez paralisar ainda mais. Entrou em uma sala de jogos, havia
brinquedos espalhados, dois totos no centro e alguns jogos de tiro ao alvo. No entanto, ao lado de uma
mesa de xadrez, havia duas crianças devorando o corpo inerte de Gael, suas pernas, braços e tórax foram
mordidos violentamente. Seu rosto, porém, emitia um largo sorriso, como se estivesse gostando daquilo.

Uma das crianças com a boca ensanguentada levantou a cabeça, olhando fixamente para Lysandro.

— Pode vir brincar também. — Uma menina disse casualmente, quase como se o estivesse convidando
para um jogo de pique-pega.

Lysandro não conseguiu falar, apenas se virou e saiu correndo como se sua vida dependesse disso,
talvez dependa mesmo. Ele parece andar em círculos por aquele maldito lugar, até que finalmente chega
a outra sala, que era ainda mais perturbadora que a que havia visto antes.

Ele viu um jovem, aparentemente de 17 anos, pregado na parede. Havia um prego no meio de sua mão
esquerda e outro na mão direita, sua cabeça estava decepada e pendurada em cima da lâmpada, a visão
era terrível, o lugar onde se encontrava era um banho de sangue.
Outra visão ainda mais mórbida surgiu, havia um homem de cartola escura e um terno preto com cauda
de costas, mas ele se virou, concedendo outro pesadelo em forma física. Havia um vazio universal em
vez de um rosto e dois olhos, junto de um largo sorriso pintado com o sangue do rapaz pregado na
parede. A criatura à sua frente era uma anomalia, onde deveria haver traços humanos, tinha apenas
alguns rabiscos vermelho-sangue imitando uma face.

Lysandro suou frio, não sabia mais o que fazer. Uma voz com um tom que não se assemelhava ao
feminino nem ao masculino, mas distorcia ambos os gêneros, um verdadeiro pesadelo sonoro que
ecoava em sua mente dizendo:

''Meu pai me deu de presente esse sorriso, não acha legal?''

Essa voz não era do monstro, mas sim sua mente falando por ele. A entidade acenou com seus dedos
esqueléticos para o menor, enquanto seu sorriso se alargava ainda mais.

— Por favor. — Lysandro implora, virando-se e vendo uma cama. Sem hesitar, ele correu e se escondeu
sob ela. — Me deixa em paz…

Passos lentos andavam lentamente em direção à cama, enquanto o menino chorava baixo, sem
esperanças de sair vivo. Estava tremendo, os olhos fechados, esperando o pior acontecer. Se ele fosse
pego, o que fariam com ele? Será que iria virar um louco como os outros? Tudo isso o fez chorar ainda
mais, não podia fazer nada, apenas lamentar por ser fraco.

Quando ele sente alguém se abaixando para olhar debaixo da cama, uma sensação de que seu fim já
estava traçado se manifestou em sua mente. Desistiu de lutar completamente, como se sua alma tivesse
deixado o seu corpo para morrer.

No entanto, ele se acalma ao ouvir uma voz conhecida.

— Lysandro? — A voz de Lonely o fez sair do transe, abrindo os olhos.

O adolescente pegou seu irmãozinho nas mãos, tirando-o debaixo da cama. Olhou confuso para os lados,
procurando algo que poderia ter feito medo na criança, mas não viu nada fora do lugar, nem o armário
onde guardava partes de corpos humanos mutilados havia sido mexido.

— Por que está aí? — Ele questiona Lysandro, enquanto o coloca na cama e o cobre. — Tá suja aí, seu
bobão.

— Fica comigo. — Os olhos do caçula estavam marejados, quase implorando pela companhia do irmão,
que era sua única fonte de proteção. — Por favor.

— Vem cá, neném. — Lonely se deita ao lado dele, abraçando-o com afeto, mas um misto de
possessividade. Não conseguia resistir às caras de choro que sua criança fazia, era de fato o seu ponto
fraco. — Vamos ficar juntos, fofinho.

Lysandro enterrou o rosto no tórax do irmão, enquanto o abraçava firmemente, como se não quisesse
deixá-lo ir embora de novo. O pavor não o fazia ver que a pessoa que estava abraçando estava o
prendendo, ele via o jovem com aparência infernal como um protetor, não conseguia imaginar ele o
fazendo qualquer tipo de mal.

Após horas, finalmente sucumbiu ao sono, sentindo o calor confortável do corpo de seu irmão. Ambos
ficaram abraçados, estavam quase colados no outro, uma intimidade que Lonely nunca mais teve com
outra pessoa, era tão genuíno o que sentia pelo seu pequeno.

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