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EDTECH

O artigo realiza uma revisão sistemática da literatura sobre Edtech, abordando o conceito, crescimento e desafios enfrentados por startups de tecnologia educacional. A pesquisa destaca a evolução do termo Edtech desde sua primeira menção em 2013 e analisa a produção acadêmica, identificando tendências e lacunas na pesquisa atual. Além disso, discute a relação entre Edtechs e instituições de ensino, incluindo aspectos éticos e a eficácia das tecnologias na educação.
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O artigo realiza uma revisão sistemática da literatura sobre Edtech, abordando o conceito, crescimento e desafios enfrentados por startups de tecnologia educacional. A pesquisa destaca a evolução do termo Edtech desde sua primeira menção em 2013 e analisa a produção acadêmica, identificando tendências e lacunas na pesquisa atual. Além disso, discute a relação entre Edtechs e instituições de ensino, incluindo aspectos éticos e a eficácia das tecnologias na educação.
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XXIV SEMEAD novembro de 2021

ISSN 2177-3866
Seminários em Administração

EDTECH? UMA REVISÃO SISTEMÁTICA DE LITERATURA

YAN MIGUEL LOPES


UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE (MACKENZIE)

DIMÁRIA SILVA E MEIRELLES


UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE (MACKENZIE)
EDTECH? UMA REVISÃO SISTEMÁTICA DE LITERATURA

1. INTRODUÇÃO
A perda recorrente de alunos, bem como a quantidade de pessoas com diploma
universitário trabalhando em empregos de baixa qualidade, vêm gerando desafios
importantes para o modelo de negócio tradicional das instituições de ensino, inclusive pelo
fato de que várias empresas não estão exigindo diploma universitário para contratação,
como é o caso da Nubank, Movile, Loggi e Creditas (Bigarelli, 2018). O fenômeno atinge
escala mundial, inclusive nos Estados Unidos, onde 36% dos estudantes de graduação não
apresentam ganhos estatisticamente significativos em suas habilidades ao longo da
formação, como o pensamento crítico, raciocínio analítico e comunicação (Arum; Roksa,
2011). Apesar do aumento na oferta de novos cursos, a evasão continua aumentando,
principalmente na modalidade a distância.
Em contraposição ao cenário das universidades, um mapeamento realizado pela
Associação Brasileira de Startups & Centro de Inovação para a Educação brasileira (2018)
identificou 364 Edtechs em operação, sendo 43% somente no estado de São Paulo. Em
2019 um novo estudo foi executado: 449 Edtechs no Brasil, 35,1% em SP. Houve
crescimento de 23,35%.
A maior parte dos autores relacionam Edtech com a aplicação da tecnologia na
educação. Conforme consta no Cambridge Dictionary Edtech é: short for educational
technology; education technology: the use of technology in education, or the design of
such technology. Mas, Edtech é apenas o uso de tecnologias educacionais?
Se pensarmos em Edtech como revoluções tecnológicas na educação, podemos voltar
na história e vermos a primeira impressora sendo inventada por Johannes Guttenberg no
ano de 1440. Thomas Edison promovendo clipes de filmes como um substituto para
professores em 1913. Sidney Pressy inventando a primeira máquina de ensino, conhecida
como MCQ em 1927. Por fim, a educação online sendo desenvolvida na Universidade de
Illinois na década de 1960 (Dhawan, 2020).
Há outra corrente de autores que acreditam que as Edtechs não são apenas startups de
educação que aplicam tecnologias, mas são também empresas que buscam modelos
alternativos de aprendizagem em relação ao proposto pelos centros universitários
(Ghemawat, 2017). Esses estudos demonstram que essas empresas buscam não apenas
oferecer uma proposta de produtos tecnológicos, mas que cada vez mais preparam pessoas
para o mercado de trabalho ofertando cursos que estimulam a multidisciplinaridade,
colaboração, e focado em necessidades do mercado (Lucas, 2014; Ghemawat, 2017;
Lyons, 2017). Para Doña-Toledo et al. (2017), as instituições devem ser muito mais que
simplesmente desenvolvedoras de tecnologias, mas que devem entregar proposta de boa
reputação, qualidade, responsabilidade social, pronto atendimento aos estudantes e
proximidade com os alunos e ex-alunos com objetivo de aumentar a percepção de valor
pelos estudantes. Outros autores abordaram aspectos táticos de propostas de valores que
buscam capturar uma maior percepção de valor pelos alunos, tais como o desenvolvimento
de novas habilidades e conhecimentos ao construir relacionamentos para alavancar
habilidades e melhorar as interações por meio do engajamento do aluno via redes sociais
(Cheung et al., 2016) e parcerias com empresas para que os alunos consigam desenvolver
suas habilidades (Paton et al., 2014).
Portanto, a pergunta que norteia essa pesquisa é: Qual é o conceito de Edtech? A partir
da análise sistemática de literatura este artigo tem como objetivo, a partir de dados
secundários, sintetizar e avaliar o conhecimento existente sobre o assunto de maneira

1
lógica, transparente e analítica (Denyer; Tranfield, 2009).
Além de apresentar o conceito de Edtech, essa pesquisa busca evidenciar os
indicadores das pesquisas que estão sendo realizadas (quantidade por ano, por autor, por
periódico, etc.) e esclarecer ao leitor sobre o contexto no qual a Edtech está inserida, bem
como as principais tecnologias utilizadas, desafios e tendências. Essa pequisa assume sua
relevância, uma vez que falta revisões sistemáticas e pesquisas acessíveis para os
profissionais de EdTech levarem em consideração (Cukurova et al., 2019). Além disso,
Spector (2013) apontou que grande parte das pesquisas que estão sendo conduzidas são
projetadas para formas anteriores de educação, resultando em nenhuma diferença
significativa sendo encontrada para novas formas de educação. Essa pesquisa contribui
para fornecer perspectivas para pesquisadores e empreendedores utilizarem a análise
sistemática para colocarem em prática pontos ainda não contemplados pelos modelos de
negócios da atualidade e poderem refletir sobre as estratégias que estão sendo definidas
por eles.

2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Existem diretrizes sobre como conduzir uma revisão sistemática de literatura. O
Instituto de Ciências Educacionais do departamento de educação americano por meio do
What Works Clearinghouse Procedures and Standards Handbook, Version 4.0 (2017)
recomenda o processo de revisão sistemática em cinco etapas: (a) desenvolver o protocolo
de revisão, (b) identificar a literatura relevante, (c) executar uma triagem de artigos, (d)
executar a análise da literatura e (e) apresentar os resultados.
Não podemos deixar de argumentar que existem limitações aos estudos de revisão
sistemática de literatura, tais como o viés devido a análise apenas de dados publicados,
bem como o viés que resulta da triagem e codificação dos estudos disponíveis. Para reduzir
as limitações, foram evidenciados os critérios de exclusão, prezando pela transparência em
relação ao processo de triagem e codificação (Schlosser 2007; Thompson et al. 2012).
Seguindo os passos do Instituto de Ciências Educacionais americano, a revisão foi
baseada no protocolo de que os artigos buscados deveriam estar indexados na base
WebOfScience, publicados em periódicos revisados por pares. Foi selecionada a base da
WebOfScience por ser uma das principais bases de repositório de periódicos.
Como filtro de busca, os artigos deveriam estar publicados na língua inglesa,
espanhola ou portuguesa com o termo Edtech* no título, resumo ou palavras-chave do
artigo. Sobre o ano de publicação, utilizamos o período histórico mais amplo da base (1945
à fev./2021). O resultado da busca gerou 44 artigos, publicados entre os anos de 2013 e
2021 em 36 fontes distintas, com 201 palavras-chave, 101 autores envolvidos, 14
documentos de autoria única e 30 de autoria múltipla.
Com o suporte dos softwares Rstudio e VosViewer, foi realizada uma meta-análise
com a base de artigos. Nessa análise foi verificada a quantidade de publicações por ano,
periódicos relevantes, autores mais citados, incidência de palavras-chave e levantamento
sobre a evolução do termo Edtech (Ferreira, 2010).
A seleção dos artigos para a análise qualitativa envolveu uma etapa inicial de
identificação de aderência à pergunta de pesquisa. Para isso, foram lidos todos os títulos e
resumos dos artigos. Nessa etapa, foram excluídos dois artigos da amostra por tratarem de
assuntos mais pertinentes a área de tecnologia da informação.
Para o desenvolvimento da análise qualitativa das publicações, os artigos foram
separados em categorias definidas ao longo da leitura dos títulos e resumos dos artigos,
sendo: “Conceito de Edtech”, “Mudança de Mindset”, “Revisão de literatura”, “Tecnologia
como complemento” e “Tecnologia e aprendizagem”. Para executar a triagem de artigos,
isto é, identificar os artigos que de fato são importantes para conceituar Edtech, foi

2
realizada a leitura integral dos artigos. Esta leitura também foi importante para confirmar
as categorizações estabelecidas com a leitura prévia do título e resumo. Durante esse
processo, foi necessário criar categorias (contexto, conceito de Edtech, tecnologias,
desafios e tendências), macro categorias (resumo da ideia) e micro categorias (trechos dos
textos).

3. META-ANÁLISE
O termo Edtech foi utilizado pela primeira vez em artigos científicos no ano de 2013 e
teve o maior número de produções científicas no ano de 2019 (13 artigos). O resultado
demonstra que o termo é recente e que teve o interesse aumentado nos últimos anos. É
interessante mencionar que no primeiro artigo publicado, a palavra Edtech aparece apenas
uma vez, e apenas foi utilizada para mencionar um site. Nesse artigo, é possível perceber
que o autor foca nas tecnologias educacionais que estavam sendo aplicadas pelas
instituições de ensino.
Em relação as fontes de publicação dos artigos, não há concentração de publicação em
periódicos. Todavia, cabe destacar o Learning Media and Technology, que participa com a
publicação de cinco artigos, e o British Journal of Educational Technology e o Policy
Futures in Education, com três artigos publicados cada um. Como se pode observar no
Gráfico 1, esses periódicos vêm apresentando um crescimento anual destacado. As demais
fontes (33), possuem um artigo publicado cada uma. Os quatro periódicos com maior
número de publicações, três deles focam na adoção de tecnologias educacionais.

Gráfico 1: Crescimento anual dos periódicos

Fonte: os autores

A distribuição de publicações por autor aponta que em 2013 a produção era


concentrada em um único autor (Spector, 2013), mas ao longo dos anos a concentração
vêm diminuindo. Em relação ao país do autor correspondente, identifica-se que 26,67%
dos artigos foram publicados por americanos, 15,56% por britânicos, 6,67% por franceses,
6,67% por espanhóis e 4,44% por brasileiros. No entanto, os artigos brasileiros não
receberam citações.
Como se observa no Gráfico 2, o artigo de Spector (2013), é o mais citado (30 vezes).
Sua maior contribuição, entretanto, não se deve ao conceito de Edtech, foco dessa revisão
de literatura, mas sim a análise da tecnologia na facilitação do ensino personalizado e
melhor avaliação da aprendizagem por meio de análise de dados. Embora o autor ressalte a
importância da tecnologia, deixa claro que é insensato colocar fé no progresso educacional
advindo apenas das tecnologias, independentemente de quão poderosas e promissoras elas
sejam. É importante haver colaboração entre os interessados no processo de aprendizagem,
como professores, designers, administradores, formuladores de políticas e pais.

3
Gráfico 2: Autores mais citados

Fonte: o autor

Curioso observar que, após esse período inicial, os artigos publicados na área voltam
a ser citados com mais frequência em 2019. Desta vez com maior dispersão, destaca-se
nesse grupo, os dois artigos publicados por Cukurova e Luckin, relativos a estudos
desenvolvidos na aceleradora de Startup Educate, sediada em Londres, para identificação
de um padrão de implementação de inteligência artificial pelas instituições de educação.
Os resultados sugerem que a Edtech busca melhorar os resultados do aluno e reduzir a
lacuna de desempenho entre os alunos favorecidos e desfavorecidos, proporcionando
aprendizagem, dados em tempo real para professores e carga de trabalho reduzida, além de
colocarem em prática a aprendizagem espaçada, que é o princípio de que a informação é
mais facilmente aprendida quando é ensinada em intervalos de tempo curtos e repetido
várias vezes (Luckin; Cukurova, 2019). Em outro artigo de Cukurova et al (2019),
envolvendo 96 empresas identifica-se a mudança pedagógica como o cerne das tecnologias
aplicadas pelas Edtechs. tanto porque seu design evolui ao longo do tempo, mas também
pela razão de transformar a experiência dos alunos.
Thomas & Nedeva (2018) buscaram analisar as relações simbióticas entre as Edtechs
e as instituições de ensino, como Coursera, Udacity e Minereva, permitindo o
fornecimento de educação de qualidade a mais pessoas. Por outro lado, há um grupo de
autores que destacam os aspectos negativos das Edtechs, como o trabalho de Burch &
Miglani (2018), que criticam a comercialização e o tecno centrismo, por meio do uso
excessivo de dados quantitativos para avaliação de aprendizagem. Além disso, citam a
escassez de pesquisas rigorosas sobre o impacto das intervenções baseadas em tecnologia
para a equidade.
Nesse grupo de críticos às Edtechs, destacam-se os trabalhos de Regan e Jesse
(2019) sobre ética e privacidade em big data e análise de aprendizagem, bem como Regan
e Khwaja (2019) sobre investidores de risco. Embora, segundo eles, as Edtechs melhorem
a aprendizagem do aluno, apresentando aos alunos aulas mais envolventes, permitindo
instrução personalizada, eles criticam a natureza comercial desses empreendimentos. Nessa
linha dos aspectos éticos, trazem questões interessantes para discussão, entre elas o
problema da privacidade dos dados, já que o uso de Edtech envolve a coleta de dados
detalhados dos alunos, professores e familiares, bem como detalhes administrativos sobre o
funcionamento das instituições de ensino.
Em contraposição as ideias de Regan e Jesse (2019), Macgilchrist (2019) afirma que a
Edtech faz o máximo para manter a privacidade dos dados, fazendo uma programação em
anonimato duplo-cego para que nem ela mesma encontre os nomes de alunos de forma
individual. O autor ainda afirma que mesmo com tecnologias de análise de dados, a

4
tomada de decisão humana é sobreposta aos dados fornecidos pela máquina, sendo o
homem o ponto focal.

Figura 1: Histórico de citações nos últimos cinco anos

Fonte: o autor

Em relação a autores que citam outros autores com publicações nos últimos cinco
anos (Figura 1), destaca-se o trabalho de Wright e Peters (2017), citado por Mendonça Neto
et al. (2018) e Mcstay (2020). No seu estudo sobre instituições de ensino na Nova Zelândia,
geridas por empresas de tecnologias privadas, os autores identificam algumas consequências
para os alunos, como a dificuldade de desenvolver criatividade, adaptabilidade, pensamento
crítico e compreensão diferenciada de ideias complexas. Esse estudo foi utilizado por
Mendonça Neto et al. (2018) na análise do caso brasileiro, destacando aspectos negativos
como o controle das atividades de alunos e professores.
Por outro lado, Mcstay (2019) identifica o papel positivo da inteligência artificial na
aprendizagem dos alunos, na medida em que permite ao software identificar os estados
emocionais e afetivos dos alunos. O tempo de aula fica mais produtivo e promove o
aprimoramento da aprendizagem social e emocional. Ainda nessa linha, Bogoviz et al.
(2019), citando os trabalhos de Thomas e Nedeva (2018) e Burch e Miglani (2018),
destacam que a modernização digital ao mesmo tempo em que promove a redução de
pessoal acadêmico e docente, abrirá portas para que esse pessoal trabalhe em outras frentes.
A questão da eficácia da tecnologia parece superada por Macgilchrist (2019) e
Bozkurt (2020), este último realizou uma revisão sistemática de literatura sobre tecnologia
educacional no âmbito da era do conhecimento digital. As preocupações mudaram dos
esforços constantes para provar a eficácia da aplicação da tecnologia na educação para
questões éticas e de equidade.
No entanto,para Burch e Miglani (2018) essa questão da eficácia ainda está em
aberto, pois não há evidências empíricas do efeito da tecnologia na educação. Os estudos
práticos realizados por Luckin e Cukurova (2019), Cukurova et al. (2019) e Thomas e
Nedeva (2018) reforçam a afirmação de que a tecnologia contribui para a aprendizagem do
aluno. Contudo, nenhum estudo de validação estatística foi encontrado durante a realização
da revisão sistemática de literatura.
O artigo mais atual no momento em que esse estudo foi realizado foi publicado por
Ramiel (2021). O autor utiliza uma abordagem que foi empregada por outros autores de uma
forma mais sutil, que é o tratamento do aluno como usuário., embora já abordado por
Spector (2013) e Cukurova et al. (2019), que também mencionam o termo usuário para

5
referir-se aos alunos e educadores, membros do ecossistema Edtech. Entretanto, Ramiel
(2021) utiliza esse conceito não mais de forma sutil, mas com o objetivo de construir o
sujeito usuário/aluno. O autor fornece a ideia de que nas escolas tradicionais os alunos são
alunos - parte de um sistema ineficiente - mas no mundo da rede digital, o aluno-usuário faz
parte de um mundo aberto e inteligente, com abundância de opções.
Essas são algumas evidências que permitem concluir que o termo Edtech é derivado de
estudos sobre tecnologias educacionais, justificando o motivo pelo qual o dicionário retrata
que Edtech é a aplicação de tecnologias na educação. No entanto, a análise da frequência
de palavras nos resumos, indica que o termo Edtech é menos recorrente que educational,
learning, education e technology.
As análises descritivas das palavras-chave permitiram concluir que a frequência do
termo Edtech começou a ocorrer entre os anos de 2016 e 2017. Anterior a esse período, o
termo Educational Technology era destaque. É importante destacar que outros termos
também estão surgindo, tais como Artificial Intelligence, Entrepreneurship, Education
Policy.
Conforme apresentado nos quatro quadrantes do Gráfico 3 a seguir, no lado esquerdo
superior temos os temas nichos e no inferior os temas emergentes ou em declínio. No lado
direito superior temos os temas impulsionadores e no inferior os temas básicos. A análise
do gráfico permite concluir que os termos education technology, entrepreneurship e higher
education funcionam como motores nas pesquisas sobre Edtech, e os termos Edtech e
education policy funcionam como termos de base. Em outras palavras, o grau de
desenvolvimento dos estudos que se qualificam como motores é maior que os termos de
base. Contudo, os termos de base são essenciais para as publicações sobre Edtech. O
gráfico também demonstra que os termos edtech e education policy caminham juntos,
oferecendo indícios de que não basta tecnologia, é preciso haver política educacional.

Gráfico 3: Distribuição das palavras-chave

Fonte: o autor

6
4. ANÁLISE QUALITATIVA DAS PUBLICAÇÕES
Como se pode observar na Figura 2 a seguir, quatro conjuntos de palavras-chave
relativas ao tema de Edtech emergem da análise dos artigos. No grupo de palavras na cor
vermelha, o termo Edech apresenta relação com palavras que fornecem a ideia de
colaboração (collaboration, crowsourcing, etc.) e tecnologias, como a gestão de algoritmos
e computação afetiva. Além disso, apresenta conexões com políticas educacionais,
acessibilidade e uma linha crítica sobre alfabetização tecnológica.
No bloco amarelo, o conceito está relacionado à educação superior, indústria 4.0 e
empreendedorismo. Em educação superior, a análise indica que é um modelo de negócio
baseado na aprendizagem por meio de algoritmos, assistido pela inteligência artificial, que
está conectada à indústria 4.0. Em indústria 4.0 percebemos a relação com ensino,
empreendedorismo e empreendedorismo computacional.

Figura 2: Mapa de palavras-chave relacionadas à Edtech

Fonte: os autores

Os blocos roxo e cinza reúnem termos relativos a tecnologias educacionais e modelos


de negócios que aplicam tecnologias da ciência da computação como o bigdata e análise
de dados para fomentar a aprendizagem autônoma e personalizada. Assim, conclui-se que
a tecnologia é um fator importante na Edtech (funciona como motor), mas não único. Ao
notar palavras que sugerem aprendizagem personalizada, autônoma e colaborativa, é
possível concluir que a tecnologia deve ser aplicada em uma proposta de valor
educacional.
Com base nos indícios fornecidos na meta-análise e no mapa de redes apresentado
acima, iniciaremos a análise qualitativa dos artigos publicados sobre Edtech. O objetivo da
análise é ainda responder à pergunta: Basta tecnologia para conceituar Edtech?
Para executar a análise qualitativa das publicações, os artigos definidos com base na
metodologia proposta foram lidos de forma integral e cada fragmento do texto foi separado
em categorias que foram surgindo ao longo das leituras. As categorias pré-definidas com
base na leitura do título e resumo foram descartadas, uma vez que eram superficiais em
comparação com a investigação mais profunda.
A leitura dos artigos permitiu identificar quatro categorias analíticas na discussão
conceitual de Edtech: conceito, tecnologias educacionais, desafios e tendências. As
categorias serão exploradas nos tópicos seguintes.

7
4.1 O Conceito de Edtech
Há uma ampla definição para o que vem a ser uma Edtech. Uma Edtech pode estar
envolvida em todas as facetas da educação, como análises de aprendizagem, criação de
caminhos de aprendizagem, avaliação e testes, planejamento de carreira, desenvolvimento de
currículo, admissão de alunos, desenvolvimento de material didático e sistemas de gestão de
aprendizagem, iniciativas de alfabetização matemática e científica, confecção de livros
didáticos educacional e publicação e distribuição de pesquisa (Thomas & Nedeva, 2018).
Em relação ao conceito de Edtech, há uma tendência dos autores em conceituar Edtech
como aplicativos educacionais ou aplicativos populares de tecnologia educacional (Carton,
2019; Gonçalves et al., 2020; Magnus-Aryitey & Cherner, 2020; Moore et al., 2021). Outros
conceituaram como o uso de tecnologia educacional (Mendonça Neto et al., 2018; Hockly &
Dudeney, 2018; Cherner & Mitchell, 2020; McStay, 2020). Em uma definição ampla, Joshi
et al. (2020) conceituam como um modelo educacional de tecnologias onde o ensino e as
avaliações são realizados online. Contudo, o conceito mais completo foi que é um setor de
tecnologia educacional que promove intervenções nos sistemas educacionais ao redor do
mundo por meio de inovações disruptivas (Ramiel, 2020).
Há uma corrente de autores que acreditam que a Edtech surge como forma de
dominação mundial da educação, utilizando a abordagem universalista para o conhecimento,
ignorando a maneira como o conhecimento é culturalmente e relacionalmente construído
(Gallagher & Knox, 2019; Moore et al., 2021). Esses autores acreditam que faz parte de um
grande projeto para diminuir o profissionalismo e a responsabilidade ética exigidos no
ensino, reduzindo a entrega de conteúdo e avaliação das competências dos alunos. Ao prezar
pela eficiência e gerencialismo acaba priorizando o lucro, mudando o “sentido" da educação
(Moore et al., 2021). Portanto, é a última tentativa de comercializar a educação e
mercantilizar os alunos (Regan & Khwaja, 2019). De forma complementar, enxergam a
educação como mercadoria, melhorando a formalização do processo educacional e
recebimento do “efeito escala” (Bogoviz et al., 2019), isto é, reduzindo os custos a medida
que vendem mais seus serviços ou produtos. Como exemplo, a EkStep (Edtech indiana) está
testando um projeto de base tecnológica de um programa de alfabetização e numeramento
para uma futura implementação em grande escala (Burch & Miglani, 2018), assim como a
Coursera, Veduca e outras plataformas fazem com conteúdo diversos. Assim, as Edtechs não
estão apenas propondo serviços para ganhar dinheiro, mas para reorganizar o ensino para
subordiná-lo melhor à acumulação de capital global (Ovetz, 2020).
As Edtechs estão buscando soluções para as crises diárias, como por exemplo as
baixas taxas de alfabetização em países subdesenvolvidos e a empregabilidade. Então,
propõem a conexão entre o modelo tradicional de educação com a experiência do mundo
real, de modo a habilitar estudantes à atuação numa economia que valoriza inovação e
liderança, abrangendo grande parte da formação humana (Mendonça Neto et al., 2018;
Moore et al., 2021). Para oferecer essas soluções, focam no usuário. Direcionam esforço para
pensar, definir, explicar e imaginar os usuários: quem são eles? O que eles querem ou
precisam? Qual é a “dor”? Quais são seus hábitos? (Thomas & Nedeva, 2018; Ramiel, 2019;
Mattsson & Andersson, 2019).
Para que a proposta de valor seja adequada ao que o consumidor precisa, as Edtechs
desenvolvem serviços em cooperação com seus consumidores. As empresas costumam fazer
parcerias com escolas para testar novos produtos, com a ideia de que tais testes irão melhorar
os produtos e, portanto, a aprendizagem do aluno. Aproveitam para capturar a experiência
acumulada dos educadores, as necessidades e desejos de alunos e professores; bem como as
peculiaridades do contexto local (Regan & Khwaja, 2019; Ramiel, 2019; Mattsson &
Andersson, 2019; Cukurova et al., 2019; Renz & Hilbig, 2020).
As Edtechs também são caracterizadas por integrar a tecnologia a métodos

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pedagógicos para trazer inovação e potencializar o aprendizado, envolvendo mais o aluno
por meio de uma aprendizagem mais profunda (Howard, 2019; Macgilchrist, 2019;
Gonçalves et al., 2020; Cherner & Mitchell, 2020; Renz & Hilbig, 2020).
Ainda sobre o uso de tecnologias educacionais, as Edtechs fazem com que o tempo de
aula seja mais produtivo no aprimoramento do aprendizado social e emocional, utilizando
inteligência artificial (McStay, 2020). Além disso, conseguem personalizar o ensino
oferecendo customização a cada usuário e realizam análises de aprendizagem para
individualizar a educação dos alunos, oferecendo aulas diferenciadas com base no ritmo de
aprendizagem individual do aluno (Carton, 2019; Buchanan, 2020).
Um dos pontos mais mencionados pelos autores foi sobre o uso de técnicas de captura
e análise de dados dos consumidores dos serviços. As Edtechs acumulam informações
detalhadas sobre dados pessoais dos alunos, registros de aprendizagem (incluindo não
apenas notas de testes, mas também sobre a aprendizagem individual e padrões de realização
de testes) para incremento na qualidade do ensino e oferecer aprendizagem personalizada
(Burch & Miglani, 2018; Regan & Jesse, 2019). Além disso, podem transformar os dados
em indicadores quantitativos para tomada de decisões estratégicas (Burch & Miglani, 2018;
Ramiel, 2019) para criar subprodutos e aumentar os lucros (Gonçalves et al., 2020).
Sobre as formas de monetização dos serviços, as possibilidades são muitas. As Edtechs
vendem serviços tecnológicos para o ensino público e privado (Moore et al., 2021), serviços
de editoração para professores e empresas que queiram oferecer treinamentos, oferecem
conteúdos distribuídos na forma de newsletter alimentada por professores, postagens de
blogs e resumos de notícias (Carton, 2019).
Em relação ao ecossistema das Edtechs, Cukurova et al. (2019) definiu que é composto
por um triângulo dourado, sendo: desenvolvedores, pesquisadores e usuários (alunos e / ou
educadores). Os pesquisadores buscam comunicar os resultados de suas pesquisas com
empresas e profissionais de educação de forma a demonstrar o impacto. Os desenvolvedores
buscam verificar as evidências das pesquisas e descobrir o que professores e alunos pensam
sobre a eficácia do seu produto. Os usuários, por sua vez, buscam descobrir quais
tecnologias funcionam para entregar os melhores resultados para a aprendizagem.

4.2 Tecnologias Educacionais


Na educação, o tecno centrismo assume a forma de fé total no valor da tecnologia para
resolver problemas persistentes na educação (Ruiz-Iniesta et al., 2018; Burch & Miglani,
2018). É possível inferir o que pode ser interesse potencial dos usuários, considerando as
interações anteriores de outros usuários com perfis semelhantes, sem qualquer interferência
humana (Ruiz-Iniesta et al., 2018). Contudo, para outros autores, a tecnologia não é ponto
focal do processo de ensino-aprendizagem, uma vez que a tomada de decisão humana é
sobreposta ao legível pela máquina (Macgilchrist, 2019). A fé, então, deve ser direcionada a
professores, designers, administradores, formuladores de políticas e pais devidamente
treinados, persistentes e dedicados (Spector, 2013). Nesse caso, a tecnologia é reconhecida
apenas como parte da experiência de aprendizagem dos alunos, como ferramenta apoiadora
(Burch & Miglani, 2018; Luckin & Cukurova, 2019; Cherner & Mitchell, 2020; McStay,
2020)
Há um vasto grupo de autores que defendem o uso das tecnologias em Edtechs.
Diversos são os motivos, entre eles a possibilidade de impulsionar o crescimento da
aprendizagem combinada (online e presencial), a medida que hardwares e softwares se
tornam cada vez mais acessíveis em termos de conhecimento e financeiramente (Hockly &
Dudeney, 2018). O uso também pode motivar o aluno. O Socrative, Kahoot e Plickers são
usados em aulas e provam ser ferramentas de aprendizagem altamente motivadoras
(Delgado-Crespo et al., 2020). Além disso, contribuem para a desigualdade educacional,

9
reconhecendo a viabilização do acesso ao ensino para alunos até então excluídos do sistema,
seja por motivos financeiros ou pela distância em relação aos centros de ensino (Wright &
Peters, 2017; Mendonça Neto et al., 2018; Burch & Miglani, 2018).
O ensino mediado pela tecnologia e a aprendizagem aprimorada pela tecnologia
podem oferecer um tipo de educação adequada e no mesmo nível que o ensino presencial
(Assaf, 2020). Contudo, alguns autores discordam, como é o caso de Joshi et al. (2020), ao
relatar que as aulas e avaliações online não podem substituir o modo convencional de ensino,
mas que o papel da tecnologia e seu uso extensivo na transmissão de educação não pode ser
negligenciado.
Em relação ao projeto instrucional, deve-se buscar um objetivo que envolve os três
autores: desenvolvedores, educadores e alunos e o projeto irá ajudá-los a saber onde eles
estão, e onde e como eles querem ir ao longo das inter-relações em torno da interface
instrucional (Cukurova et al., 2019; Assaf, 2020)
Após definir o projeto, deve-se definir os aspectos para uso: a) Validade: é altamente
recomendável que as partes interessadas procurem os fundamentos teóricos e as bases de
pesquisa que sustentam as estruturas para garantir ainda mais sua validade; b) Usabilidade:
Os frameworks práticos focam em como a tecnologia está sendo usada na sala de aula e
fornecem descrições desse uso; c) Motivo: Lucro (desenvolvedores dessas estruturas
consistem em pesquisadores, promotores e organizações, e cada estrutura tenta obter lucro
oferecendo sessões de desenvolvimento profissional alinhado a ele; ou Influência: Várias
dezenas de blogs e sites direcionados a professores para apresentarem e recomendarem. d)
Design: Apesar do uso de cores e uma estética agradável aumentarem o engajamento,
especialmente no contexto digital, esses elementos não denotam qualidade no ensino-
aprendizagem.
Desenvolvimentos tecnológicos como inteligência artificial, aprendizagem de máquina
e análise de aprendizagem inevitavelmente encontram seu caminho em métodos de ensino e
aprendizagem, e exigem o desenvolvimento de modelos de negócios digitais baseados em
dados. Medir, coletar, analisar e interpretar dados é um pré-requisito essencial para o
desenvolvimento de soluções de ensino e aprendizagem baseadas em inteligência artificial
(Renz & Hilbig, 2020). Contudo, o uso de formas específicas de tecnologia têm efeitos que
vão além da coleta de mais dados sobre os alunos (Buchanan, 2020), tal como fornecer
mecanismos de alerta de aprendizagem, que podem ser compartilhados com pais e
educadores (Ruiz-Iniesta et al., 2018). Assim, as tecnologias podem combater a restrição
apontada por Moore et al. (2021) de que as plataformas e formatos de aplicativos restringem
o envolvimento com o currículo e alunos.

4.3 Desafios
Existem diversos desafios que inibem o desenvolvimento do setor Edtech. A falta de
compreensão técnica e medo de controle por parte dos professores e alunos são exemplos
(Howard, 2019; Joshi et al., 2020; Renz & Hilbig, 2020). Os professores não podem assumir
que os alunos possuem habilidades digitais necessárias para realizar o dever de casa online,
ou para participar de atividades combinadas, porque nem todos os alunos possuem a mesma
bagagem tecnológica ou possuem acesso à internet (Hockly & Dudeney, 2018; Regan &
Khwaja, 2019). Além disso, devido à proliferação de informações, recursos, ferramentas e
dispositivos, é cada vez mais difícil para professores e alunos manterem seus conhecimentos
e habilidades (Spector, 2013). A marginalização educacional é intensificada pela tecnologia,
que pode ser epistêmica, linguística, de gênero e econômica (Gallagher & Knox, 2019). As
desigualdades educacionais e a exclusão digital podem desafiar a estabilidade de uma
sociedade do conhecimento e precisam ser abordadas (Spector, 2013). O desafio, portanto, é
tornar o aplicativo utilizável para alunos que não têm boa conexão de internet. Contudo, a

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desigualdade não é solucionada facilmente porque a noção fundamental de acesso é
compreendida de forma diferente pelos indivíduos que criam a Edtech e aqueles que
compram para usar com os alunos (Magnus-Aryitey & Cherner, 2020).
Também há risco da aprendizagem do aluno ficar refém de ações anteriores dos
alunos, fechando possibilidades de aprendizagens que tomariam outros caminhos (Ruiz-
Iniesta et al., 2018; Buchanan, 2020). Portanto, a Edtech pode atrapalhar as experiências de
interação humana e o desenvolvimento de habilidades sociais básicas (Spector, 2013; Regan
& Khwaja, 2019) - os alunos podem se tornar hábil em fazer testes online, mas menos
proficientes em pensamento crítico e habilidades de resolução de problemas (Hockly &
Dudeney, 2018). Então há risco dos envolvidos simplesmente seguirem regras estipuladas
pelos algoritmos (Cukurova et al., 2019). Nesse caso, é necessário que as instituições adotem
estratégias de abordagens que incentivam e apoiam o envolvimento crítico dos educadores e
alunos ao uso de tecnologias digitais, contornando os clichês fáceis de entender e adotando a
complexidade do entrelaçamento humano-tecnológico (Drumm, 2019).
As Edtechs devem superar a barreira de que os alunos não são bem atendidos pelas
empresas que utilizam aprendizagem online (Wright & Peters, 2017). As Edtechs podem
superar esse desafio ao aplicar a tecnologia para aprendizagem personalizada, melhorando o
sistema de avaliação e valorizando a aprendizagem informal (Spector, 2013).

4.4 Tendências
Para diversos autores, o futuro da educação é a tecnologia. Há espaço para o uso
positivo de formas mais amplas e emergentes de inteligência na interação humano-
computador (McStay, 2020). As tecnologias são firmemente incorporadas na vida dos
alunos fora da sala de aula, o que não faz sentido deixar de aplicar no processo de ensino-
aprendizagem (Spector, 2013; Hockly & Dudeney, 2018). Spector (2013) aponta que as
tecnologias de computação baseada em gestos e análise de aprendizagem são as que mais
impactarão o processo de ensino-aprendizagem. A computação baseada em gestos estende
a entrada do teclado e mouse para incluir os movimentos do corpo e dos olhos. O objetivo
é tornar a interação mais intuitiva e natural. A noção de análise é extrair grandes conjuntos
de dados em tempo quase real, a fim de configurar uma experiência para um usuário que
provavelmente seja relevante e de interesse (recomendar trilhas com base no objetivo da
aprendizagem). Apesar dos desafios, há otimismo por um futuro melhor por meio de
intervenções técnico-educacionais (com ou sem fins lucrativos) (Macgilchrist, 2019).
A educação personalizada irá mudar radicalmente o sistema educacional existente
(Renz & Hilbig, 2020). A análise profunda do processo de aprendizagem para adaptar o
ensino a cada aluno veio para ficar e os processos de captura e uso dos dados se tornarão
cada vez mais refinados (Hockly & Dudeney, 2018). Jogos educativos reconhecerão
diferentes estilos de aprendizagem e farão a mineração de hábitos para registros e
feedbacks (Sánchez-Fernández et al., 2017). Além disso, a avaliação contínua da
aprendizagem também é uma tendência (Buchanan, 2020).
As atividades de aprendizagem se tornarão cada vez mais focadas na capacidade de
resolução de problemas e raciocínio crítico em contextos reais (Spector, 2013). O uso de
tecnologias focará cada vez mais no ensino de competências intra e interpessoais, como
resiliência e trabalho em equipe (Regan & Jesse, 2019). Isso porque a preparação para o
mercado de trabalho ganha cada vez mais importância, o que gerará incômodos no sistema
educacional tradicional (Spector, 2013; Ramiel, 2020)
A relevância da educação continuada vai aumentar no contexto da nova dinâmica de
transferência de conhecimento causada pela transformação digital (Renz & Hilbig, 2020),
focada na abordagem de aprendizagem combinada (presencial e online) e acesso a pessoas
menos favorecidas economicamente (Thomas & Nedeva, 2018).

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Sobre a convivência da instituição de ensino tradicional com a Edtech, Thomas &
Nedeva (2018) definem algumas possibilidades. A primeira delas é uma poder viver com a
outra no curto prazo, mas que poderá "matá-la" no longo prazo. A segunda é que pode
haver simbiose mutualística, com ambos os lados se beneficiando em uma dinâmica
positiva e estável no longo prazo. Na terceira possibilidade, pode haver simbiose comensal,
uma espécie de coexistência neutra e não ameaçadora, com nenhum dos parceiros afetado
grandemente pelo outro. Para os autores, as instituições de nível inferior serão as primeiras
a serem afetadas pelas Edtechs.
Por fim, os envolvidos no ecossistema educacional precisarão dominar o conhecimento
sobre tecnologia, ser flexível e criativo para fazer uso eficaz de novas tecnologias e ser
agentes de mudança eficazes dentro do sistema educacional.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O conceito de Edtech pode ser interpretado como recente e multifacetado. Os dados


das publicações sobre o tema indicam que é recente, com a primeira publicação efetuada em
2013, ainda que sem objetivo de conceituar o termo. As publicações foram crescendo a cada
ano, e atingiu o maior número em 2019 (13 artigos). Em relação as fontes de publicação dos
artigos, não há concentração de publicação em periódicos. Todavia, cabe destacar o Learning
Media and Technology, British Journal of Educational Technology e o Policy Futures in
Education, como de preferência para publicação sobre o tema. A análise da distribuição de
publicações por autor aponta que em 2013 a produção era concentrada em um único autor,
mas que ao longo dos anos a concentração vêm diminuindo. Os autores que mais publicam
sobre o tema são americanos, seguidos por britânicos.
Com base na análise de palavras-chave, conclui-se que as tecnologias educacionais
são aplicadas em modelos de negócios para fomentar a aprendizagem autônoma e
personalizada. Assim, conclui-se que a tecnologia é um fator importante na Edtech (funciona
como motor), mas não único. Ao notar palavras que sugerem aprendizagem personalizada,
autônoma e colaborativa, é possível concluir que a tecnologia deve ser aplicada em uma
proposta de valor educacional.
A fim de responder à pergunta “Edtech é apenas o uso de tecnologias educacionais?”,
a análise qualitativa gerou quatro categorias de análise: conceito, tecnologias educacionais,
desafios e tendências, confirmando que Edtech é um conceito multifacetado.
Em relação ao conceito, os autores sugerem que Edtechs são empresas que aplicam
tecnologias em seu modelo de negócio a fim de melhorar a experiência do aluno por meio do
ensino personalizado. Além disso, buscam melhorar a experiência do educador ao oferecer
dados individuais da aprendizagem para que saiba quais são os pontos a desenvolver em cada
aluno. Portanto, essas empresas têm os dados como um ponto crítico em seus modelos de
negócio.
Quanto as tecnologias educacionais, é base de funcionamento da Edtech. A
inteligência artificial, aprendizagem de máquina e análise de aprendizagem colaboram para o
desenvolvimento de modelos de negócios digitais baseados em dados. Embora a tecnologia
seja importante para a Edtech, Spector (2013) menciona a importância dos professores,
designers, administradores, formuladores de políticas e pais para a eficácia da aprendizagem.
Nesse caso, a tecnologia é reconhecida como ferramenta apoiadora do processo ensino-
aprendizagem (Burch & Miglani, 2018; Luckin & Cukurova, 2019; Cherner & Mitchell,
2020; McStay, 2020).
As Edtechs deparam-se com diversos desafios para seu desenvolvimento. Entre eles o
não acesso as tecnologias digitais pelos alunos – criando a marginalização tecnológica – e o

12
despreparo do professor no uso da tecnologia em suas aulas. Além disso, a Edtech pode
atrapalhar as experiências de interação humana e o desenvolvimento de habilidades sociais
básicas.
A análise de tendência realizada pelos autores indica que a interação digital será mais
intuitiva e natural. Haverá o uso massivo de extração e análise de grandes conjuntos de dados
em tempo quase real, a fim de configurar melhor experiência para o usuário. Além disso, a
relevância da educação continuada vai aumentar no contexto da nova dinâmica de
transferência de conhecimento causada pela transformação digital (Renz & Hilbig, 2020),
focada na abordagem de aprendizagem combinada e acesso a pessoas menos favorecidas
economicamente (Thomas & Nedeva, 2018).
Esse estudo pode auxiliar administradores e pesquisadores que trabalham com o
conceito de Edtech a entender o que de fato consiste esse conceito para que não seja atribuído
apenas às empresas que aplicam tecnologias educacionais, mas àquelas que buscam melhorar
a experiência do aluno e professor por meio de uma proposta de valor.
Além disso, o contraste entre o que é digitalmente viável e nossa realidade analógica
ainda é muito grande (Renz & Hilbig, 2020), o que sugere a necessidade de mais estudo sobre
Edtechs. Há escassez de pesquisas rigorosas sobre o impacto das intervenções baseadas em
tecnologia e suas implicações para a equidade (Burch & Miglani, 2018) e sobre a
implementação de tecnologias no campo da educação, que é necessária para entender como a
digitalização muda o sistema educacional por meio do surgimento de novos negócios (Renz &
Hilbig, 2020).

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