Segundo o Código de Ética Profissional do Psicólogo, artigo 1 (g e h) é um dever do
Psicólogo: “Informar, a quem de direito, os resultados decorrentes da prestação de
serviços psicológicos, transmitindo somente o que for necessário para a tomada de
decisões que afetem o usuário ou beneficiário”; e, “orientar a quem de direito sobre os
encaminhamentos apropriados, a partir da prestação de serviços psicológicos, e
fornecer, sempre que solicitado, os documentos pertinentes ao bom termo do trabalho”.
RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
1. IDENTIFICAÇÃO DO PROFISSIONAL
Franciele Leal de Sousa
Psicóloga – Conselho Federal de Psicologia da
Regional 21 - 05794 Neuropsicóloga
Especialista em Avaliação
Neuropsicológica
Especialista em Análise do
comportamento Aplicada
Terapia Cognitiva
Comportamental
Orientação Parental
Telefone: (89)99973-0491
Endereço: Rua Coelho Rodrigues-
790, Centro- Picos-PI
Email:francieleg2011@[Link]
m
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Endereço: Rua Francisco Pereira, 549, Picos-PI
2. IDENTIFICAÇÃO DO PACIENTE
Nome: Daniel Gomes Ribeiro
Data de nascimento: 19/01/2021
Idade: 4 anos e 9 meses
Sexo: Masculino
Filiação: Karieli Gomes da Silva e Ezequiel Silva Ribeiro
Escolaridade: Educação Infantil – Pré I
Turno escolar: Manhã
Escola: Escola José Cazuza (conforme documento escolar anexado)
Responsáveis legais: Karieli Gomes da Silva e Ezequiel Silva Ribeiro
Solicitante: Dra. Tatiane Alves – Neurologista Pediátrica
Encaminhamento clínico: Avaliação neuropsicológica para investigação do
desenvolvimento cognitivo, comportamental, atencional, executivo, socioemocional e
sensorial, diante de sinais de desatenção, hiperatividade, impulsividade, baixa tolerância
à frustração, desregulação emocional, rigidez comportamental e indicadores do
neurodesenvolvimento.
Finalidade do documento:
Este documento tem por finalidade apresentar os achados da avaliação
neuropsicológica realizada com o paciente, com vistas à compreensão do seu perfil
cognitivo, comportamental e do neurodesenvolvimento, subsidiando condutas clínicas,
educacionais e orientações multiprofissionais.
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3. DESCRIÇÃO DA DEMANDA
Daniel Gomes Ribeiro, 4 anos e 9 meses de idade, foi encaminhado para avaliação
neuropsicológica especializada por solicitação médica em contexto de investigação
ampliada do neurodesenvolvimento, diante de queixas persistentes relacionadas a
alterações comportamentais, atencionais, executivas, emocionais e sensoriais, com
repercussões significativas no funcionamento familiar, escolar e social.
De acordo com os relatos dos responsáveis, documentos escolares e pareceres clínicos
previamente apresentados, a principal demanda envolve importante dificuldade de
autorregulação comportamental e emocional, manifestada por episódios frequentes
de agitação psicomotora, impulsividade, baixa tolerância à frustração, dificuldade
em aceitar negativas, necessidade de imediatismo, resistência intensa a limites,
explosões de raiva, choro desproporcional, além de comportamentos
heteroagressivos em situações de contrariedade, incluindo bater, morder, beliscar,
cuspir, arremessar objetos e reagir com oposição diante de solicitações do adulto.
No ambiente escolar, os prejuízos descritos mostram-se clinicamente relevantes e
recorrentes, com histórico de dificuldade de adaptação à rotina, resistência a
permanecer sentado, desatenção em atividades dirigidas, inquietação motora
constante, levantando-se com frequência da cadeira, deslocando-se pela sala,
mexendo em objetos e necessitando de mediação contínua para retomada do foco.
Também foram relatados episódios de desorganização comportamental mais intensa,
com derrubar mesas e cadeiras, arremessar brinquedos, bater em colegas e professoras,
puxar cabelos, subir em mesas, cuspir em profissionais e colegas, além de
comportamentos considerados desafiadores e socialmente inadequados, comprometendo
a adaptação escolar e o processo de aprendizagem. Apesar disso, os documentos
pedagógicos mais recentes apontam melhora parcial no comportamento em contexto
escolar, especialmente quando há mediação mais estruturada, previsibilidade e
incentivo adequado, sugerindo resposta positiva a manejo ambiental consistente.
No contexto familiar, observa-se padrão importante de oposição a comandos,
sobretudo diante de frustração, espera ou interrupção de desejos imediatos. Os
responsáveis descrevem que Daniel apresenta dificuldade significativa em ouvir “não”,
tende a insistir repetidamente em demandas até que sejam atendidas, demonstra
sofrimento intenso quando contrariado e pode reagir com irritabilidade, agressividade
ou desorganização emocional, especialmente na presença materna. Há indicação de que
o comportamento se mostra relativamente mais regulado quando há presença de figuras
com maior poder de contenção ou quando são estabelecidos combinados prévios,
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reforçadores e previsibilidade, o que sugere importante influência de variáveis
ambientais e de manejo sobre sua resposta comportamental.
No que se refere ao desenvolvimento neuropsicológico, a avaliação foi solicitada para
investigar de forma aprofundada a presença de sinais associados a Transtorno do
Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), especialmente em sua dimensão
hiperativa/impulsiva com prejuízos executivos, bem como para análise de indicadores
clínicos compatíveis com Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD), já previamente
descritos em laudo médico. Soma-se a isso a necessidade de rastreio e diferenciação
diagnóstica frente a sinais sugestivos de Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma
vez que foram descritos, em diferentes contextos, elementos como instabilidade no
contato visual, interesses restritos/hiperfoco em temas específicos, rigidez
comportamental, insistência em rotinas, dificuldade de flexibilização, preferência
por brincar de forma controlada ou isolada em alguns momentos, alterações
sensoriais relevantes, vocalizações/estereotipias de fala, além de comprometimentos
variáveis na qualidade da interação social e na manutenção de trocas recíprocas.
Quanto à comunicação e linguagem, embora Daniel apresente linguagem verbal
funcional, sendo capaz de expressar desejos, necessidades e participar de interações, há
descrições de atraso ou atipicidades no desenvolvimento da linguagem, com
destaque para dificuldades articulatórias (dislalias), alterações de prosódia,
dificuldade na manutenção de diálogos por tempo prolongado, oscilação do contato
visual durante a comunicação e necessidade de mediação frequente para sustentação da
atenção e organização da troca comunicativa. Tais aspectos motivam análise
neuropsicológica da funcionalidade comunicativa, especialmente no que diz respeito à
pragmática, intenção comunicativa, reciprocidade, sustentação de turnos
interacionais e impacto da impulsividade e rigidez sobre a comunicação social, sem
prejuízo do acompanhamento fonoaudiológico já indicado.
A demanda também inclui investigação detalhada de alterações no processamento
sensorial, considerando relatos consistentes de seletividade alimentar importante,
recusa de alimentos com determinadas texturas e consistências, necessidade de rigidez
em rituais de alimentação, sensibilidade a cheiros, desconforto com alguns sons, busca
por estímulos proprioceptivos (como abraços apertados) e padrões sensoriais que
parecem interferir diretamente na rotina, no comportamento e na flexibilidade
adaptativa da criança.
No aspecto cognitivo, apesar das queixas comportamentais expressivas, há relatos e
observações que sugerem bom potencial intelectual aparente, com preservação de
habilidades importantes como reconhecimento de cores, letras, números e formas,
capacidade de nomeação, memória de lugares e eventos passados, curiosidade,
observação do ambiente, bom desempenho em atividades visuais concretas quando
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regulado e presença de brincar funcional e imaginativo. Dessa forma, a avaliação
neuropsicológica foi também indicada para investigar o funcionamento intelectual
global (QI estimado / maturidade intelectual), diferenciar prejuízos primários do
desenvolvimento cognitivo de dificuldades secundárias à desatenção, impulsividade,
rigidez e desregulação emocional, além de compreender em que medida os
comportamentos externalizantes estariam mascarando ou reduzindo a expressão do
potencial cognitivo real da criança.
Diante do conjunto de sinais apresentados, esta avaliação neuropsicológica foi proposta
com o objetivo de realizar uma análise ampla e integrada do perfil do paciente,
contemplando:
funcionamento intelectual global e maturidade cognitiva;
atenção e funções executivas;
controle inibitório, flexibilidade cognitiva e memória operacional;
linguagem funcional sob enfoque neuropsicológico;
autorregulação emocional e tolerância à frustração;
comportamento opositor e desafiador;
rastreio de sinais de TEA;
rastreio de sintomas compatíveis com TDAH;
impacto dos aspectos sensoriais no funcionamento adaptativo;
habilidades sociais, reciprocidade e qualidade da interação;
repercussões funcionais no contexto familiar, escolar e social.
Assim, a presente avaliação visa subsidiar uma compreensão clínica mais refinada do
caso, contribuindo para o delineamento do perfil neuropsicológico de Daniel, para o
raciocínio diagnóstico diferencial no campo do neurodesenvolvimento e para a
elaboração de recomendações terapêuticas, educacionais e familiares baseadas em
evidências, alinhadas às necessidades específicas da criança.
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AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos
Mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.
HARRISON, P. L.; OAKLAND, T. ABAS-II: Sistema de Avaliação de Comportamentos Adaptativos. São
Paulo: Pearson Clinical Brasil, 2016.
SPARROW, S. S.; CICCHETTI, D. V.; SAULNIER, C. A. Vineland Adaptive Behavior Scales – II.
Bloomington: Pearson Assessments, 2016.
GOODMAN, R. Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ). 1997. Disponível em:
[Link] Acesso em: [data de acesso].
DEL PRETTE, Z. A. P.; DEL PRETTE, A. Habilidades Sociais: Intervenções e Avaliação. 2. ed.
Petrópolis: Vozes, 2017.
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CUNHA, J. A. Psicodiagnóstico-V. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
EKMAN, P. A Linguagem das Emoções. Rio de Janeiro: Lua de Papel, 2011. (Referência complementar
para uso da Roda das Emoções e Escala de Sentimentos).
4. PROCEDIMENTOS
A presente avaliação neuropsicológica foi realizada com o objetivo de investigar, de
forma ampla e integrada, o funcionamento cognitivo, comportamental, emocional,
executivo, adaptativo e do neurodesenvolvimento do paciente Daniel Gomes Ribeiro,
considerando as queixas apresentadas pela família, os achados clínicos prévios e os
prejuízos observados nos contextos familiar, escolar e social.
O processo avaliativo ocorreu por meio de entrevista inicial com os responsáveis,
levantamento e análise de documentos multiprofissionais, observação clínica
neuropsicológica estruturada, aplicação de instrumentos padronizados, escalas de
rastreio, tarefas neuropsicológicas compatíveis com a faixa etária e análise
qualitativa do comportamento durante a testagem.
Considerando a idade cronológica do paciente, a seleção dos instrumentos respeitou
critérios técnicos de adequação etária, validade clínica e pertinência neuropsicológica,
buscando contemplar os principais domínios do desenvolvimento infantil envolvidos na
hipótese clínica.
3.1. Entrevista clínica e anamnese com os responsáveis
Inicialmente, foi realizada anamnese clínica detalhada com os genitores, com coleta
sistematizada de informações sobre:
histórico gestacional, perinatal e neonatal;
desenvolvimento neuropsicomotor;
aquisição da linguagem;
comportamento infantil ao longo do desenvolvimento;
rotina familiar;
padrões de sono e alimentação;
autonomia e funcionalidade adaptativa;
interação social e brincadeira;
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perfil sensorial;
histórico escolar;
antecedentes clínicos e terapêuticos;
queixas atuais e impacto funcional nos diferentes contextos.
A anamnese constituiu etapa essencial para compreensão longitudinal do caso,
permitindo correlacionar os dados do desenvolvimento com os achados obtidos nos
instrumentos padronizados e na observação clínica.
3.2. Análise documental multiprofissional
Foram analisados documentos clínicos e educacionais previamente emitidos por outros
profissionais e instituições, com a finalidade de integrar múltiplas fontes de informação
e ampliar a compreensão ecológica do caso. Dentre os documentos analisados,
destacam-se:
laudo/atestado médico de neuropediatria;
solicitação médica para avaliação neuropsicológica;
pareceres pedagógicos descritivos escolares;
relatório escolar descritivo;
relatório fonoaudiológico de observação inicial;
relatório psicológico referente ao acompanhamento psicoterapêutico.
A análise documental foi utilizada como recurso complementar para confrontar os
dados observados em avaliação com o funcionamento do paciente em ambientes
naturais, especialmente escola, família e atendimentos clínicos prévios.
3.3. Observação clínica neuropsicológica estruturada
Ao longo de todo o processo avaliativo, foi realizada observação clínica
neuropsicológica sistemática, contemplando:
comportamento inicial diante do setting avaliativo;
capacidade de vinculação com a examinadora;
qualidade do contato visual;
interesse pelos estímulos;
adesão às tarefas;
padrão de exploração do ambiente;
autorregulação comportamental e emocional;
atenção sustentada e seletiva;
nível de impulsividade;
controle inibitório;
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resposta à frustração;
flexibilidade cognitiva e comportamental;
linguagem espontânea e funcional;
qualidade pragmática da comunicação;
persistência frente à dificuldade;
necessidade de mediação;
tolerância à espera;
reatividade diante de limites;
organização do brincar e da interação.
A observação clínica constituiu eixo central da avaliação, sobretudo por se tratar de
criança em faixa pré-escolar, em que a análise qualitativa do comportamento durante a
testagem possui grande relevância diagnóstica.
3.4. Instrumentos utilizados na avaliação
3.4.1. Avaliação do funcionamento intelectual global, raciocínio e maturidade cognitiva
SON-R 2½–7[a] –Não-Verbal de Inteligência
Instrumento não verbal utilizado para avaliação do funcionamento intelectual de
crianças pequenas, especialmente útil em casos em que se deseja reduzir a interferência
da linguagem oral sobre a mensuração cognitiva. Permite investigar:
raciocínio não verbal;
percepção visuoespacial;
organização visuoconstrutiva;
raciocínio abstrato concreto;
solução de problemas;
flexibilidade cognitiva;
capacidade de análise perceptiva.
No presente caso, o instrumento foi utilizado como medida central para estimativa do
funcionamento intelectual global, considerando a idade do paciente e a presença de
variáveis comportamentais e comunicativas que poderiam interferir em instrumentos
mais verbalmente carregados.
CMMS-3 – Escala Columbia de Maturidade Intelectual (3ª edição)
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Instrumento complementar utilizado para avaliação da maturidade intelectual geral e do
raciocínio não verbal, especialmente útil em crianças pequenas ou em contextos de
investigação do potencial cognitivo quando há interferência comportamental, linguística
ou executiva.
Esse instrumento contribuiu para análise de:
raciocínio geral;
discriminação conceitual;
percepção de relações;
julgamento lógico por escolha;
maturidade mental global.
A utilização combinada do SON-R 2½–7[a] com a CMMS-3 permitiu uma leitura mais
segura do potencial cognitivo do paciente.
3.4.2. Avaliação de sinais compatíveis com Transtorno do Espectro Autista (TEA)
PROTEA-R
Instrumento de rastreio e apoio à investigação de sinais do espectro autista em crianças,
utilizado para observação e sistematização de comportamentos relacionados a:
comunicação social;
reciprocidade socioemocional;
contato visual;
uso funcional da linguagem;
brincadeira simbólica;
interesses restritos;
rigidez comportamental;
padrões repetitivos;
qualidade da interação;
resposta a mediação social.
Foi utilizado como instrumento importante para investigação dos sinais clínicos de TEA
descritos em anamnese, observação clínica e documentos prévios.
SRS-2 – Escala de Responsividade Social, 2ª edição
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Escala utilizada para rastreio de dificuldades na responsividade social e identificação de
comportamentos associados ao espectro autista, abrangendo:
percepção social;
cognição social;
comunicação social;
motivação social;
padrões restritos e repetitivos de comportamento.
A SRS-2 foi incluída para ampliar a investigação de indicadores quantitativos
relacionados às dificuldades de interação social e aos traços de inflexibilidade
comportamental observados no paciente.
3.4.3. Avaliação do processamento sensorial
Perfil Sensorial 2
Instrumento utilizado para investigação do padrão de processamento sensorial da
criança a partir da percepção dos cuidadores, permitindo análise de:
hipersensibilidade sensorial;
hipossensibilidade sensorial;
busca sensorial;
esquiva sensorial;
registro sensorial;
modulação comportamental relacionada aos estímulos;
impacto funcional de alterações sensoriais em rotina, alimentação,
comportamento e regulação.
O instrumento foi considerado essencial neste caso em razão dos relatos consistentes de
seletividade alimentar, rigidez sensorial, reatividade a sons, cheiros, texturas e
necessidade de previsibilidade sensorial.
3.4.4. Avaliação de atenção, hiperatividade, impulsividade e funções executivas
SNAP-IV
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Escala de rastreio utilizada para investigação de sintomas compatíveis com TDAH e
comportamento opositor, baseada em critérios clínicos amplamente utilizados. Permite
examinar:
desatenção;
hiperatividade;
impulsividade;
sintomas opositores/desafiadores.
Foi empregada como instrumento complementar para análise dimensional dos sintomas
atencionais e comportamentais descritos pelos responsáveis e pela escola.
Labirintos
Tarefa utilizada com foco em investigação de:
planejamento;
antecipação de resposta;
controle inibitório;
monitoramento do erro;
coordenação visuomotora;
organização perceptomotora;
impulsividade na execução;
persistência em tarefa.
Sua inclusão foi pertinente diante da hipótese de prejuízo executivo e da necessidade de
examinar o padrão de enfrentamento do paciente frente a tarefas com exigência de
controle e organização.
Tarefas lúdicas neuropsicológicas de atenção e funções executivas
Foram utilizadas tarefas estruturadas e lúdicas, compatíveis com a faixa etária, com o
objetivo de investigar qualitativamente:
atenção sustentada;
atenção seletiva;
atenção compartilhada em contexto dirigido;
memória operacional verbal e visuoespacial;
controle inibitório;
flexibilidade cognitiva;
manutenção de regras;
persistência frente à dificuldade;
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tolerância à espera;
velocidade de resposta;
autorregulação diante de erro e frustração.
Essas tarefas foram fundamentais para compreender o funcionamento executivo do
paciente em situação ecológica de demanda cognitiva.
3.4.5. Avaliação comportamental, emocional e de regulação
CBCL 1½–5 – Child Behavior Checklist
Instrumento padronizado de heterorrelato utilizado para investigação ampla do
funcionamento emocional e comportamental na primeira infância. Permite avaliar:
reatividade emocional;
ansiedade/depressão;
queixas somáticas;
retraimento;
problemas de sono;
problemas de atenção;
comportamento agressivo;
comportamento opositor;
dificuldades desenvolvimentais;
perfil internalizante;
perfil externalizante.
Sua utilização foi importante para dimensionar o impacto clínico dos sintomas
comportamentais e emocionais relatados em múltiplos contextos.
Escala/investigação clínica de sintomas ansiosos na infância
Considerando os relatos de medo excessivo, hipervigilância, dificuldade de espera,
tensão, rigidez e importante hiperreatividade emocional, foi realizada investigação
clínica dos sintomas ansiosos por meio de entrevista com os cuidadores, observação
comportamental e análise dimensional do funcionamento emocional da criança.
Essa etapa teve como objetivo examinar:
sinais de ansiedade infantil;
respostas de evitação;
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medo excessivo;
rigidez associada à insegurança;
sofrimento antecipatório;
impacto da ansiedade sobre o comportamento e o controle emocional.
Inventário clínico de tolerância à frustração, explosividade e regulação emocional
por observação estruturada
Além dos instrumentos formais, foi realizada análise clínica estruturada das
manifestações de:
irritabilidade;
imediatismo;
explosividade;
resposta à negativa;
capacidade de esperar;
intensidade de reação frente à contrariedade;
tempo de recuperação após frustração;
necessidade de reforço externo para regulação.
Tal investigação mostrou-se especialmente relevante diante da hipótese de TOD,
ansiedade e desregulação emocional.
3.4.6. Avaliação da linguagem funcional e comunicação social sob enfoque
neuropsicológico
Foi realizada avaliação qualitativa da linguagem e da comunicação funcional por meio
de observação clínica, tarefas interativas e análise do comportamento comunicativo
durante a aplicação dos instrumentos, contemplando:
intenção comunicativa;
compreensão de ordens simples;
resposta ao chamado;
manutenção de turnos conversacionais;
espontaneidade da linguagem;
organização do discurso infantil;
pragmática da comunicação;
qualidade do contato visual durante a interação;
prosódia observável;
reciprocidade comunicativa;
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uso da linguagem no brincar e na interação social.
Ressalta-se que esta análise foi realizada sob enfoque neuropsicológico e funcional,
sem finalidade de substituir avaliação fonoaudiológica estrutural.
3.4.7. Avaliação do brincar, interação social e adaptação funcional
Ao longo das sessões, foram observados e analisados:
brincar funcional;
brincar simbólico;
imaginação;
compartilhamento de atenção;
capacidade de reciprocidade lúdica;
aceitação de mediação no brincar;
variação temática;
rigidez na brincadeira;
aceitação de regras sociais;
relação com o outro durante a atividade;
autonomia em tarefas da rotina relatadas pelos cuidadores;
impacto dos sintomas sobre o funcionamento adaptativo.
Essa etapa foi conduzida por meio de observação estruturada e entrevista com os
responsáveis, visando integrar o desempenho formal com a funcionalidade real da
criança em seus contextos de vida.
3.5. Síntese metodológica do processo avaliativo
De forma integrada, a avaliação neuropsicológica de Daniel Gomes Ribeiro foi
composta pelos seguintes procedimentos e instrumentos:
Entrevista e levantamento clínico
Entrevista inicial com os responsáveis
Anamnese clínica detalhada
Levantamento do histórico do desenvolvimento
Investigação da funcionalidade adaptativa
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Análise documental
Laudo/atestado neuropediátrico
Solicitação médica para avaliação neuropsicológica
Pareceres pedagógicos
Relatório escolar descritivo
Relatório fonoaudiológico
Relatório psicológico de acompanhamento
Observação clínica neuropsicológica
Observação estruturada do comportamento em sessão
Observação do vínculo, contato visual, linguagem, brincar, regulação emocional,
flexibilidade, atenção e resposta à frustração
Instrumentos padronizados e escalas
SON-R 2½–7[a]
CMMS-3
PROTEA-R
SRS-2
Perfil Sensorial 2
SNAP-IV
CBCL 1½–5
Labirintos
Tarefas e provas complementares
Tarefas lúdicas de atenção
Tarefas de controle inibitório
Tarefas de flexibilidade cognitiva
Tarefas de memória operacional
Tarefas de planejamento
Observação da linguagem funcional e pragmática
Observação do brincar simbólico e funcional
Investigação clínica de ansiedade infantil
Análise clínica da tolerância à frustração e regulação emocional
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3.6. Considerações técnicas sobre os procedimentos
A seleção dos instrumentos e procedimentos foi realizada de maneira criteriosa,
considerando:
a idade cronológica do paciente;
as hipóteses clínicas levantadas;
a necessidade de investigação diferencial entre TDAH, TEA, TOD e ansiedade
infantil;
a importância de examinar o potencial cognitivo real sem excessiva interferência
da linguagem;
o impacto funcional dos sintomas em múltiplos contextos;
a integração entre desempenho formal, observação clínica e relatos ecológicos.
Desse modo, os procedimentos adotados possibilitaram análise abrangente e
tecnicamente fundamentada do perfil neuropsicológico de Daniel, favorecendo a
compreensão das relações entre desenvolvimento cognitivo, atenção, comportamento,
regulação emocional, processamento sensorial, interação social e adaptação funcional.
TABELA – INSTRUMENTOS UTILIZADOS NA AVALIAÇÃO
NEUROPSICOLÓGICA (SEPARADOS POR ÁREA AVALIADA)
Objetivo Clínico / Instrumentos / Procedimentos
Área Avaliada
Neuropsicológico Utilizados
Compreender a história do Entrevista inicial com os responsáveis;
1. Levantamento
desenvolvimento, Anamnese clínica detalhada;
clínico inicial e
funcionamento atual, Levantamento do histórico do
contextualização do
impacto funcional e neurodesenvolvimento; Investigação da
caso
hipóteses clínicas iniciais funcionalidade adaptativa
Integrar dados do Análise documental multiprofissional
2. Análise ecológica e comportamento da criança (laudo neuropediátrico, solicitação
multiprofissional do em diferentes contextos e médica, pareceres pedagógicos, relatório
funcionamento ampliar a validade ecológica escolar, relatório fonoaudiológico,
da avaliação relatório psicológico)
3. Observação clínica Investigar qualitativamente Observação clínica neuropsicológica
neuropsicológica comportamento, vínculo, estruturada em sessão; observação do
estruturada atenção, regulação, vínculo, contato visual, impulsividade,
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Objetivo Clínico / Instrumentos / Procedimentos
Área Avaliada
Neuropsicológico Utilizados
resposta à frustração, flexibilidade,
linguagem funcional,
permanência em tarefa, linguagem
interação social e resposta
espontânea, brincar, reciprocidade e
às demandas
autorregulação
Estimar potencial cognitivo
4. Funcionamento global, raciocínio não
SON-R 2½–7[a]; CMMS-3 (Escala
intelectual global / verbal, organização
Columbia de Maturidade Intelectual –
raciocínio não verbal / visuoespacial, resolução de
3ª edição)
maturidade cognitiva problemas e maturidade
intelectual
Avaliar percepção visual, Subtestes do SON-R 2½–7[a] (ex.:
5. Raciocínio organização espacial, Mosaicos / Categorias, conforme
visuoconstrutivo e análise de padrões, protocolo aplicado); observação
organização perceptiva construção e raciocínio qualitativa de organização
concreto visuoconstrutiva
Investigar manutenção do
6. Atenção foco, resistência atencional, Observação clínica neuropsicológica;
(sustentada, seletiva e oscilação atencional, tarefas lúdicas de atenção compatíveis
compartilhada) redirecionamento e impacto com a faixa etária; SNAP-IV; CBCL 1½–5
funcional da desatenção
Investigar inquietação
SNAP-IV; CBCL 1½–5; observação clínica
motora, dificuldade de
7. Hiperatividade e neuropsicológica estruturada; tarefas de
espera, respostas
impulsividade espera / inibição / permanência em
precipitadas, imediatismo e
tarefa
controle comportamental
Avaliar controle inibitório,
Labirintos; tarefas lúdicas
flexibilidade cognitiva,
neuropsicológicas de funções
planejamento, memória
8. Funções executivas executivas; observação clínica
operacional, persistência,
estruturada; análise qualitativa durante
monitoramento do erro e
SON-R 2½–7[a] e tarefas dirigidas
autorregulação
9. Controle inibitório Investigar capacidade de Tarefas lúdicas de inibição; Labirintos;
inibir impulsos motores,
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Objetivo Clínico / Instrumentos / Procedimentos
Área Avaliada
Neuropsicológico Utilizados
verbais e cognitivos, bem
como esperar, interromper observação clínica; SNAP-IV
e sustentar regras
Avaliar tolerância a
10. Flexibilidade mudanças, adaptação a Tarefas lúdicas de mudança de regra;
cognitiva e novas regras, alternância de observação clínica neuropsicológica;
comportamental estratégias e rigidez PROTEA-R; SRS-2
cognitiva
Investigar manutenção
mental de instruções, Tarefas lúdicas de memória operacional
11. Memória
manipulação de informação verbal e visuoespacial; observação
operacional funcional
e sustentação da regra clínica durante atividades dirigidas
durante tarefas
Investigar reciprocidade
social, comunicação social, PROTEA-R; SRS-2; observação clínica
12. Rastreio de sinais
contato visual, interesses neuropsicológica estruturada; análise
compatíveis com TEA
restritos, padrões integrada da anamnese e documentos
repetitivos e rigidez
Avaliar qualidade da
13. Responsividade reciprocidade SRS-2; observação clínica da interação
social e qualidade da socioemocional, motivação social; análise do brincar compartilhado;
interação social, pragmática e PROTEA-R
adaptação relacional
Investigar intenção
14. Linguagem
comunicativa, compreensão Observação clínica da linguagem
funcional e
funcional, pragmática, espontânea e dirigida; análise
comunicação social
manutenção de diálogo, qualitativa da comunicação durante os
(enfoque
prosódia observável e uso testes; PROTEA-R; SRS-2
neuropsicológico)
social da linguagem
15. Brincar funcional, Avaliar repertório simbólico, Observação clínica estruturada do
simbólico e interação funcionalidade do brincar, brincar; tarefas lúdicas dirigidas; análise
lúdica imaginação, qualitativa do brincar funcional e
compartilhamento e
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Objetivo Clínico / Instrumentos / Procedimentos
Área Avaliada
Neuropsicológico Utilizados
flexibilidade lúdica simbólico
Identificar padrões de
sensibilidade, busca
16. Processamento
sensorial, esquiva,
sensorial / perfil Perfil Sensorial 2
modulação e impacto
sensorial
funcional sobre rotina e
comportamento
Investigar perfil
externalizante e
17. Comportamento internalizante, reatividade
CBCL 1½–5
infantil global emocional, agressividade,
oposição, atenção e
impacto funcional
Investigar oposição a regras,
SNAP-IV (itens opositores); CBCL 1½–5;
18. Comportamento irritabilidade, desafio,
observação clínica neuropsicológica;
opositor e desafiador argumentação,
análise da anamnese e documentos
(TOD) agressividade reativa e
escolares/familiares
prejuízo funcional
Avaliar intensidade da
19. Regulação Observação clínica estruturada; CBCL
reação emocional, tempo de
emocional / tolerância 1½–5; entrevista clínica com os
recuperação, reatividade à
à frustração / responsáveis; análise funcional do
negativa, explosividade e
explosividade comportamento durante a testagem
manejo da frustração
Investigar medo excessivo,
20. Sintomas Investigação clínica de ansiedade
rigidez associada à
ansiosos / infantil por heterorrelato; CBCL 1½–5;
ansiedade, sofrimento
hiperreatividade observação clínica; entrevista com os
antecipatório, evitação e
emocional responsáveis
ativação emocional
21. Habilidades Compreender autonomia, Anamnese clínica; entrevista
adaptativas e rotina, alimentação, sono, estruturada com os responsáveis;
funcionalidade autocuidado, flexibilidade e análise documental; observação clínica
impacto dos sintomas no
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Objetivo Clínico / Instrumentos / Procedimentos
Área Avaliada
Neuropsicológico Utilizados
cotidiano
Investigar repercussões do
quadro sobre
Pareceres pedagógicos; relatório escolar
22. Impacto funcional comportamento,
descritivo; análise documental
em contexto escolar aprendizagem, interação
integrada
com pares e adaptação
escolar
Relacionar desempenho
23. Integração formal, observação clínica, Integração clínica de todos os
diagnóstica escalas e funcionamento instrumentos, observações, anamnese e
neuropsicológica ecológico para formulação documentos multiprofissionais
do perfil neuropsicológico
------------------------------
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.
HARRISON, P. L.; OAKLAND, T. ABAS-II: Sistema de Avaliação de
Comportamentos Adaptativos. São Paulo: Pearson Clinical Brasil, 2016.
SPARROW, S. S.; CICCHETTI, D. V.; SAULNIER, C. A. Vineland Adaptive Behavior
Scales – II. Bloomington: Pearson Assessments, 2016.
GOODMAN, R. Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ). 1997. Disponível em:
[Link] Acesso em: [data de acesso].
DEL PRETTE, Z. A. P.; DEL PRETTE, A. Habilidades Sociais: Intervenções e
Avaliação. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.
CUNHA, J. A. Psicodiagnóstico-V. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
EKMAN, P. A Linguagem das Emoções. Rio de Janeiro: Lua de Papel, 2011.
(Referência complementar para uso da Roda das Emoções e Escala de Sentimentos).
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5. INFORMAÇÕES PRELIMINARES
As informações a seguir foram obtidas por meio de anamnese clínica com os
responsáveis, complementadas pela análise de documentos multiprofissionais
previamente apresentados, incluindo registros escolares, relatório fonoaudiológico,
relatório psicológico e parecer médico, sendo integradas à observação clínica
neuropsicológica realizada durante o processo avaliativo.
4.1. HISTÓRIA GESTACIONAL, PRÉ-NATAL E CONDIÇÕES PERINATAIS
Segundo relato materno, Daniel Gomes Ribeiro é fruto de gestação planejada,
desejada e acompanhada por pré-natal regular, sem relatos de intercorrências graves
durante grande parte do período gestacional. A mãe engravidou aos 23 anos e
compareceu às consultas de rotina, referindo boa adesão ao acompanhamento obstétrico.
No período final da gestação, entretanto, houve relato de aumento importante de
ansiedade materna, associado a medo e tensão emocional, além de elevação da
pressão arterial, com necessidade de uso de medicação anti-hipertensiva nesse período.
Tais fatores são relevantes do ponto de vista clínico, uma vez que condições emocionais
maternas intensas e intercorrências hipertensivas no final da gestação podem representar
variáveis de vulnerabilidade para o neurodesenvolvimento, embora, isoladamente, não
configurem causalidade direta.
O parto ocorreu por cesariana, a termo, sem complicações neonatais significativas
referidas. O paciente nasceu com choro imediato, coloração e aparência consideradas
adequadas, com peso aproximado de 3.480 g e estatura de 49 cm, sem necessidade de
internação em unidade neonatal ou outras intercorrências perinatais relevantes descritas
pelos familiares.
De modo geral, os dados perinatais sugerem um nascimento dentro de parâmetros
globais satisfatórios, com registro de vulnerabilidades maternas no final da gestação que
devem ser consideradas apenas como contexto clínico complementar.
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4.2. DESENVOLVIMENTO NEUROPSICOMOTOR (MARCOS INICIAIS E
ASPECTOS MOTORES)
De acordo com os responsáveis, o desenvolvimento motor global inicial de Daniel
ocorreu sem atrasos grosseiros claramente destacados, havendo relato de aquisição
progressiva de marcos motores como controle cervical, rolar, sentar, arrastar-se e
engatinhar, embora os familiares não tenham conseguido precisar com exatidão a
cronologia de todos os marcos. Não houve indicação de regressão motora.
Atualmente, observa-se que Daniel apresenta boa coordenação motora ampla, com
desempenho satisfatório em atividades que envolvem correr, pular, subir, explorar
espaços, manter equilíbrio e participar de brincadeiras com movimento, sendo descrito
na escola como criança com boa disposição, agilidade e interesse por jogos e circuitos
motores. Há presença de tônus, ritmo, equilíbrio e imagem corporal funcionalmente
preservados para as demandas globais da faixa etária, sem indícios de
comprometimento motor amplo importante.
Em contrapartida, os relatos familiares, escolares e médicos convergem para
dificuldades em coordenação motora fina, particularmente no que se refere à
preensão funcional do lápis, manuseio de tesoura, maior precisão manual, coordenação
visuomotora e manutenção de desempenho em atividades gráficas e manipulativas. Tais
achados também foram descritos pela neuropediatria, que sinaliza “transtorno de
coordenação motora fina”, e reforçados pela escola, que refere necessidade de maior
incentivo para o desenvolvimento dessa área.
Há ainda indicação de que Daniel apresenta perfil ambidestro, o que merece
observação longitudinal, especialmente em tarefas que demandam definição de
lateralidade funcional e maior refinamento motor. Apesar de conseguir manipular
objetos, explorar materiais e executar brincadeiras, a qualidade do desempenho fino
mostra-se inferior à esperada em comparação ao potencial observado em outras áreas,
sendo esse aspecto relevante tanto para o desenvolvimento acadêmico inicial quanto
para autonomia funcional.
Assim, os dados sugerem um perfil com coordenação motora ampla preservada,
associada a fragilidades na coordenação motora fina e praxias gráficas/manuais,
com impacto funcional leve a moderado.
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4.3. DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO
Segundo os responsáveis, Daniel desenvolveu linguagem oral e atualmente apresenta
fala funcional, sendo capaz de comunicar desejos, necessidades, interesses e
desconfortos. A mãe não soube precisar a idade exata em que surgiram as primeiras
palavras nem o momento de formação de frases, o que limita a precisão cronológica da
análise evolutiva. Ainda assim, há evidências de que a criança desenvolveu
comunicação verbal funcional suficiente para interação cotidiana.
No contexto atual, Daniel demonstra interesse comunicativo, sobretudo quando o tema
é de seu interesse ou quando há forte motivação para obter algo desejado. Consegue
nomear objetos, expressar vontades, responder a perguntas simples e, em alguns
contextos, manter conversas breves. Há relatos escolares de que gosta de ouvir histórias,
recontá-las parcialmente e utilizar a imaginação em brincadeiras e narrativas, o que
indica presença de repertório simbólico e linguagem funcional.
Entretanto, os documentos clínicos e escolares apontam atipicidades importantes na
qualidade da comunicação, tais como:
dificuldade em manter diálogos por tempo prolongado;
necessidade de mediação constante para sustentação da atenção durante
interações verbais;
instabilidade no contato visual durante trocas comunicativas;
alterações na prosódia, com ritmo e entonação atípicos;
presença de dislalias descritas em laudo médico;
momentos de fala estereotipada, vocalizações e “barulhinhos” em contextos
específicos;
maior comunicação quando o conteúdo é de interesse próprio, com menor
reciprocidade espontânea em demandas menos motivadoras.
Os achados sugerem que, embora Daniel possua linguagem verbal funcional e
intenção comunicativa preservada em diversos momentos, a qualidade pragmática
da comunicação encontra-se oscilante, com fragilidades em:
manutenção de turnos conversacionais;
reciprocidade social;
flexibilidade na comunicação;
sustentação da interação;
modulação prosódica;
estabilidade do contato visual.
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Dessa forma, o desenvolvimento da linguagem não se apresenta como ausência de fala
ou prejuízo estrutural grave, mas sim como um quadro de comunicação funcional com
atipicidades qualitativas relevantes, especialmente no eixo da pragmática social e
autorregulação da interação, aspectos compatíveis com alterações do
neurodesenvolvimento e que requerem análise integrada com os demais domínios
avaliados.
4.4. ASPECTOS COGNITIVOS E APRENDIZAGEM INICIAL
Os relatos familiares e escolares indicam que Daniel apresenta sinais de bom potencial
cognitivo global, apesar de sua funcionalidade frequentemente ser prejudicada por
fatores comportamentais, atencionais e emocionais. Trata-se de uma criança descrita
como inteligente, observadora, curiosa e com boa memória, especialmente para
locais, experiências anteriores, pessoas e rotinas conhecidas.
No contexto escolar, foi referido que Daniel:
reconhece cores, formas, letras e números;
já consegue identificar o próprio nome e, em registros mais recentes, há
menção de que já escreve o primeiro nome;
apresenta noções iniciais de classificação e comparação;
consegue reconhecer semelhanças e diferenças entre objetos e figuras;
demonstra criatividade em desenhos e brincadeiras de faz de conta;
participa de escuta de histórias e, em alguns momentos, consegue recontá-las.
Em documentos escolares mais antigos, foi relatado que ainda não lia nem escrevia, o
que é compatível com a faixa etária; já em documentos mais recentes, observou-se
evolução nas habilidades pré-acadêmicas, sugerindo progresso no repertório cognitivo e
de aprendizagem inicial.
Também há relatos clínicos e observacionais de:
boa memória para lugares já visitados;
recordação de eventos passados com clareza;
facilidade para reconhecer padrões concretos;
desempenho satisfatório em tarefas visuais e de montagem quando regulado;
interesse por jogos de construção e atividades estruturadas.
Entretanto, o acesso pleno a esse potencial cognitivo é frequentemente prejudicado por:
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desatenção;
impulsividade;
dificuldade de permanência em tarefas;
pressa para concluir ou passar para o próximo estímulo;
baixa persistência diante de dificuldade;
recusa precoce frente a demandas mais complexas;
desorganização comportamental quando frustrado.
Assim, os dados preliminares apontam que Daniel não se apresenta como uma
criança com sinais primários de prejuízo intelectual global, mas sim como uma
criança com potencial cognitivo preservado, cuja expressão funcional é
significativamente comprometida por alterações em autorregulação, atenção, controle
inibitório, flexibilidade cognitiva e comportamento adaptativo.
4.5. PERFIL ATENCIONAL, IMPULSIVIDADE E FUNCIONAMENTO
EXECUTIVO NO COTIDIANO
Desde a primeira infância, os responsáveis descrevem Daniel como uma criança muito
inquieta, impulsiva, com dificuldade para esperar e para manter o foco por tempo
prolongado, especialmente em atividades dirigidas, repetitivas, que exigem
permanência sentado ou maior tolerância à demora. Tais características também são
amplamente descritas em documentos escolares, psicológicos e médicos.
No cotidiano, observa-se:
facilidade para se distrair;
necessidade de estímulos frequentes para retomada do foco;
dificuldade em permanecer sentado;
movimentação constante;
mudança rápida de atividade sem conclusão adequada da anterior;
tendência a interromper, falar antes da hora ou agir sem antecipar
consequências;
necessidade de gratificação imediata;
baixa tolerância ao tempo de espera;
grande dificuldade em lidar com atrasos, transições e adiamentos.
Durante situações estruturadas, Daniel tende a:
querer iniciar rapidamente sem escutar toda a instrução;
pedir para mudar de tarefa antes de concluí-la;
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verbalizar que “não consegue” antes mesmo de tentar;
apresentar queda importante do desempenho quando a demanda exige mais
persistência;
demonstrar dificuldade em sustentar regras novas ou alternantes;
frustrar-se com facilidade diante do erro.
Esse padrão é compatível com prejuízo funcional importante em atenção sustentada,
controle inibitório, memória operacional funcional, persistência em tarefa,
flexibilidade cognitiva e autorregulação executiva, sendo um dos eixos centrais da
queixa e do prejuízo adaptativo.
4.6. COMPORTAMENTO, REGULAÇÃO EMOCIONAL E TOLERÂNCIA À
FRUSTRAÇÃO
Os relatos familiares e institucionais descrevem um histórico significativo de
desregulação emocional e comportamental, com manifestações que ultrapassam a
intensidade esperada para a faixa etária, tanto pela frequência quanto pelo impacto
funcional.
Desde o início do acompanhamento clínico, foram descritos:
episódios frequentes de choro intenso e desproporcional;
explosões de raiva diante de frustração;
resistência acentuada a limites;
dificuldade em ouvir “não”;
agressividade física reativa;
heteroagressão (bater, beliscar, morder, cuspir, puxar cabelo, arremessar
objetos);
irritabilidade quando contrariado;
dificuldade de autorregulação após conflitos;
maior desorganização na presença materna.
Há forte evidência de que Daniel apresenta necessidade de previsibilidade e controle
da situação, reagindo de forma particularmente intensa quando:
sua vontade não é atendida imediatamente;
precisa aguardar;
é interrompido em um interesse;
precisa mudar de atividade;
a situação não ocorre “do jeito que ele quer”;
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encontra tarefas que demandam esforço ou erro.
O comportamento melhora de forma perceptível quando há:
combinados prévios;
rotina previsível;
mediação firme e consistente;
reforço positivo;
organização do ambiente;
redução de demandas excessivamente longas.
Esse perfil sugere importante comprometimento em:
regulação emocional,
controle de impulsos,
manejo de frustração,
adiamento de recompensa,
adaptação a limites,
recuperação após estados de ativação emocional.
Tais achados sustentam um padrão clínico de hiperreatividade emocional e oposição
comportamental significativa, com necessidade de intervenção intensiva e consistente.
4.7. INTERAÇÃO SOCIAL, VÍNCULO E HABILIDADES SOCIAIS
Do ponto de vista afetivo-relacional, Daniel é descrito pelos responsáveis e profissionais
como uma criança que, quando regulada, pode se mostrar meiga, carinhosa, afetuosa,
observadora e receptiva ao vínculo, especialmente com pessoas de referência e em
contextos previsíveis. Demonstra apego importante ao pai, busca contato com familiares
e, em muitos momentos, aceita interação com adultos mediadores.
Entretanto, sua funcionalidade social mostra-se instável e qualitativamente
comprometida, especialmente em situações que exigem:
compartilhamento;
espera;
negociação;
tolerância à contrariedade;
brincadeira cooperativa;
respeito a regras sociais;
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manutenção de amizades.
Foram observados e relatados:
dificuldade em manter amizades;
conflitos frequentes com colegas;
agressividade em interações;
dificuldade em brincar de forma recíproca;
tendência a impor regras próprias na brincadeira;
melhor interação quando a atividade ocorre sob seu controle;
episódios de isolamento relativo ou preferência por brincar sozinho;
alternância entre busca de contato e afastamento;
qualidade variável da reciprocidade social.
Em alguns documentos mais recentes, há descrição de pequena melhora na relação
com colegas e professores, inclusive com demonstrações de empatia em certos
momentos, o que é um dado importante e indica potencial de resposta ao manejo e à
intervenção. Contudo, tais avanços coexistem com um padrão ainda significativo de
dificuldades na flexibilidade social, autocontrole e adaptação relacional.
Dessa forma, Daniel não se configura como uma criança sem interesse social, mas
apresenta prejuízo na qualidade da interação social, especialmente por:
impulsividade,
rigidez,
baixa tolerância à frustração,
dificuldade de leitura contextual,
insistência em controle,
oscilações na reciprocidade.
4.8. BRINCAR, INTERESSES E PADRÕES RESTRITOS/REPETITIVOS
Daniel apresenta brincar funcional e imaginativo, o que se evidencia pela capacidade
de atribuir função aos objetos, utilizar personagens, engajar-se em histórias, ouvir
narrativas e criar brincadeiras de faz de conta. Esse dado é clinicamente importante e
demonstra preservação de repertório simbólico.
Entretanto, também foram identificados sinais relevantes de:
interesses restritos/hiperfoco;
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repetição temática;
insistência em conteúdos específicos;
necessidade de repetição de desenhos, personagens ou temas;
forte preferência por Sonic, Ben 10 e dinossauros;
rigidez em formas de brincar;
menor flexibilidade para variar o enredo ou aceitar propostas não escolhidas por
ele;
maior tendência a permanecer em atividades que se encaixam em seu interesse
restrito.
Além disso, há relatos de:
observação de objetos girando;
repetição de falas/sons;
necessidade de fazer sempre da mesma forma;
incômodo diante de mudança de rotina ou sequência;
repetição insistente de perguntas sobre o que acontecerá.
Esse conjunto de características sugere um padrão de rigidez cognitiva e
comportamental importante, com presença de interesses restritos e necessidade de
previsibilidade, aspectos que, em associação aos demais domínios, possuem relevância
clínica no raciocínio do neurodesenvolvimento.
4.9. PROCESSAMENTO SENSORIAL E ALIMENTAÇÃO
Os relatos apontam um perfil sensorial atípico e funcionalmente relevante. Daniel
apresenta seletividade alimentar importante, com rigidez acentuada em relação a:
texturas;
consistência dos alimentos;
cheiro;
temperatura e forma habitual de apresentação.
Há recusa de alimentos com:
caldo,
textura mole,
consistência mais viscosa ou úmida,
como sopas e determinados frutos/ preparações, além de necessidade de manter
padrões específicos para aceitar bebidas e refeições. Foi descrito, inclusive, que
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em algumas situações o paciente só aceita determinados líquidos ou alimentos se
apresentados de forma idêntica ao habitual.
Também foram relatados:
incômodo com certos cheiros;
sensibilidade auditiva a alguns sons;
busca por abraços apertados / pressão profunda;
comportamentos de exploração sensorial oral (como lamber pessoas, em alguns
contextos);
rigidez em rituais relacionados à alimentação;
desconforto com determinadas texturas.
Esse perfil sensorial parece influenciar diretamente:
comportamento,
flexibilidade,
rotina,
aceitação de mudanças,
alimentação,
tolerância ambiental,
autorregulação emocional.
4.10. SONO, ROTINA E FUNCIONALIDADE ADAPTATIVA
Os responsáveis relatam que Daniel dorme tarde e acorda cedo, o que pode contribuir
para aumento de irritabilidade, menor tolerância à frustração, fadiga regulatória e
intensificação de comportamentos impulsivos e opositores. Há indicação de que a rotina
nem sempre é rigidamente organizada, embora a criança demonstre necessidade
importante de previsibilidade.
Quanto à autonomia funcional:
é independente para algumas tarefas de alimentação, embora precise de
ajuda materna para melhor aceitação e organização das refeições;
apresenta dependência parcial para banho e higiene;
é independente para algumas etapas de vestir e despir-se;
apresenta dependência parcial em tarefas como calçar sapatos;
consegue participar de rotinas de autocuidado, mas com necessidade de
supervisão e suporte compatíveis com seu perfil regulatório e idade.
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Do ponto de vista funcional, o principal prejuízo não parece estar na ausência de
habilidades adaptativas básicas, mas sim na instabilidade do comportamento, na
dificuldade de seguir rotinas sem resistência, na rigidez frente a transições e na
necessidade constante de mediação do adulto.
4.11. HISTÓRICO ESCOLAR E FUNCIONAMENTO EM CONTEXTO
EDUCACIONAL
Daniel ingressou na vida escolar com dificuldades importantes de adaptação, já
descritas desde o ano letivo de 2024, quando foram observados:
inquietação intensa,
desatenção,
impulsividade,
resistência a regras,
desrespeito a colegas e professoras,
episódios agressivos,
dificuldade em permanecer em sala e seguir a rotina.
Ao longo do tempo, a escola relatou episódios de:
derrubar mesas e cadeiras;
jogar objetos;
subir em mesas;
bater em colegas e profissionais;
puxar cabelos;
cuspir em professores e colegas;
recusar tarefas;
dificuldade em obedecer às professoras.
Apesar disso, documentos escolares mais recentes apontam melhora parcial,
especialmente em:
relação com colegas e professores;
maior possibilidade de engajamento quando há mediação;
reconhecimento de letras, números e nome;
participação em histórias e atividades simbólicas;
evolução em aspectos acadêmicos iniciais.
Ainda assim, permanece:
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necessidade de intervenção constante;
dificuldade em manter foco por períodos prolongados;
baixa permanência em atividades sentadas;
prejuízo em coordenação motora fina;
comportamento desafiador diante de frustração;
impacto negativo sobre a aprendizagem e a convivência escolar.
4.12. HISTÓRICO CLÍNICO E ACOMPANHAMENTOS ANTERIORES
Daniel encontra-se em acompanhamento clínico prévio, havendo registros de:
neuropediatria, com diagnóstico médico prévio de TDAH (CID-10 F90.0) e
Transtorno Opositivo-Desafiador (CID-10 F91.3), além de menção a sinais de
atraso/atipicidade de linguagem, alterações sensoriais, coordenação motora fina
e necessidade de investigação mais aprofundada de habilidades sociais;
psicoterapia infantil, em acompanhamento desde fevereiro de 2025, com foco
em regulação emocional, comportamento e orientação parental;
fonoaudiologia, com observações iniciais apontando bom vínculo terapêutico,
interesse comunicativo, oscilação atencional, instabilidade no contato visual,
alterações de prosódia e necessidade de continuidade do acompanhamento para
melhor caracterização do perfil comunicativo.
A documentação multiprofissional evidencia que Daniel responde melhor a contextos:
estruturados,
previsíveis,
com mediação clara,
reforço positivo,
organização ambiental,
o que é um dado clínico importante para compreensão do caso e para
planejamento terapêutico.
De forma integrada, as informações preliminares da história de vida de Daniel revelam
um perfil de desenvolvimento heterogêneo, no qual coexistem potencialidades
cognitivas e comunicativas importantes com alterações expressivas em
autorregulação comportamental, atenção, flexibilidade cognitiva, processamento
sensorial, interação social e adaptação funcional. Observa-se que, apesar da
preservação de diversas habilidades básicas do desenvolvimento, os prejuízos
relacionados à impulsividade, rigidez, desorganização emocional e variabilidade na
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qualidade da reciprocidade social vêm impactando de maneira clinicamente
significativa sua funcionalidade nos diferentes contextos de vida.
6. OBSERVAÇÃO CLÍNICA
Durante o processo de avaliação neuropsicológica, Daniel Gomes Ribeiro apresentou-se
como uma criança com boa capacidade inicial de vinculação, mostrando-se receptivo
ao ambiente avaliativo, curioso diante dos materiais disponibilizados e, em momentos
de maior regulação, afetuoso, observador e responsivo à mediação da examinadora.
Desde os primeiros contatos, foi possível perceber que se trata de uma criança com
potencial cognitivo aparente preservado, com recursos importantes de percepção,
memória e interesse exploratório, embora seu funcionamento global se mostre
significativamente impactado por alterações em autorregulação comportamental,
controle inibitório, flexibilidade cognitiva e tolerância à frustração.
Em termos relacionais, Daniel demonstrou capacidade de estabelecer vínculo com a
avaliadora, aceitando aproximação, engajando-se inicialmente nas propostas e
respondendo positivamente a contextos de acolhimento e mediação estruturada. Em
momentos de maior conforto, apresentou-se como criança carinhosa, inteligente,
observadora e afetivamente acessível, com boa resposta a interações lúdicas e
recursos concretos. Também foram observados comportamentos de busca por
proximidade física e conforto sensorial, incluindo boa receptividade a demonstrações de
afeto e indícios de preferência por estímulos proprioceptivos, como abraços mais
firmes, em consonância com os relatos familiares.
Entretanto, desde o início da avaliação, também se evidenciou um padrão marcante de
agitação psicomotora, com importante dificuldade em manter-se em estado de repouso
motor compatível com o contexto da tarefa. Daniel mostrou-se inquieto, com
necessidade frequente de movimentar-se, explorar o ambiente, manipular objetos fora
da atividade em curso e deslocar-se entre estímulos, exigindo redirecionamentos
constantes para retomada do foco. A permanência em atividade mostrou-se mais eficaz
quando as tarefas eram breves, concretas, visualmente atrativas e com objetivo claro, ao
passo que demandas mais prolongadas ou com maior exigência de persistência
desencadeavam aumento progressivo de dispersão, cansaço regulatório, oposição e
evasão.
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No campo atencional, observou-se oscilação importante da atenção sustentada, com
maior capacidade de engajamento em momentos iniciais e nas tarefas de maior
interesse, porém com queda significativa de rendimento ao longo do tempo. Daniel
frequentemente demonstrava dificuldade em manter a atenção em atividades que
exigiam permanência prolongada, maior tolerância ao erro ou repetição de tentativas,
tornando-se progressivamente mais inquieto, menos responsivo às instruções e mais
motivado a encerrar ou trocar de tarefa. Houve necessidade recorrente de mediação
verbal, organização do setting e reforço positivo para manutenção mínima do
engajamento.
Foi especialmente evidente um padrão de impulsividade cognitiva e comportamental,
manifestado pela tendência a iniciar respostas antes da conclusão da instrução, agir de
forma precipitada, querer passar rapidamente para o próximo item sem finalizar
adequadamente a tarefa atual e apresentar pouca disponibilidade para análise prévia da
demanda. Em diversos momentos, Daniel demonstrou necessidade de rapidez e
imediatismo, com dificuldade em tolerar o tempo natural da avaliação, o que impactou
diretamente o desempenho em tarefas que exigiam planejamento, monitoramento do
erro e persistência.
Um achado clínico relevante foi a presença de baixa tolerância à frustração,
evidenciada de forma clara durante a aplicação de tarefas com maior nível de
dificuldade. Quando confrontado com itens mais complexos, especialmente aqueles que
exigiam raciocínio progressivo, tentativa e erro ou manutenção do esforço, Daniel
passou a verbalizar com frequência que “não conseguia” antes mesmo de realizar
tentativa efetiva. Tal padrão sugere importante fragilidade em autoeficácia diante de
demandas desafiadoras, associada à tendência de evitação precoce frente ao esforço
cognitivo. Em situações em que percebia aumento de dificuldade, mostrou-se mais
irritadiço, desmotivado, resistente e com menor disponibilidade para persistir,
necessitando de suporte constante da examinadora para continuar.
Apesar dessas dificuldades, observou-se que, quando regulado e devidamente motivado,
Daniel conseguia demonstrar bons recursos de raciocínio não verbal, especialmente
em tarefas concretas e visuoespaciais. Durante atividades de organização visual e
montagem, como tarefas do tipo mosaico, apresentou desempenho inicialmente
satisfatório, com boa percepção de padrões, capacidade de análise visual e resolução de
parte dos itens dentro do esperado. Contudo, à medida que a complexidade aumentava,
o paciente passou a mostrar menor persistência, mais pressa, maior impulsividade e
desejo de abandonar a tarefa ou avançar sem concluir. Em um dos momentos
avaliativos, observou-se que o desempenho começou a se fragilizar em itens de maior
complexidade a partir de determinado ponto, não necessariamente por ausência de
capacidade cognitiva, mas sobretudo por interferência de impaciência, baixa tolerância à
frustração, necessidade de rapidez e redução da sustentação atencional.
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Daniel demonstrou-se uma criança questionadora, frequentemente verbalizando
dúvidas, comentários ou perguntas ao longo da aplicação. Esse aspecto, isoladamente,
pode refletir curiosidade e envolvimento; entretanto, no contexto observado, a
frequência e a forma com que tais questionamentos surgiam pareciam também
associadas à dificuldade em sustentar a permanência silenciosa em tarefa, à necessidade
de controle sobre a situação e à tentativa de acelerar o processo avaliativo. Houve
momentos em que o paciente parecia mais interessado em “terminar logo” ou “passar
para o próximo” do que propriamente em concluir de forma organizada a atividade em
andamento.
Ao longo da avaliação, especialmente após aproximadamente 25 a 30 minutos de maior
exigência, tornou-se evidente uma queda global de autorregulação, com aumento da
inquietação, desmotivação, busca por estímulos externos, desejo de sair da sala, menor
adesão às instruções e maior resistência diante de demandas percebidas como difíceis.
Tal padrão é clinicamente compatível com prejuízo em resistência atencional, fadiga
regulatória precoce e limitação na capacidade de manutenção de esforço cognitivo,
aspectos frequentemente observados em quadros de TDAH e alterações executivas em
crianças pequenas.
No âmbito da comunicação social e comportamento interacional, Daniel apresentou
linguagem verbal funcional, com capacidade de se expressar, nomear objetos, comentar
situações e responder a perguntas simples. Contudo, observou-se que a qualidade da
troca comunicativa era variável. Em alguns momentos, mostrou-se engajado e
interativo; em outros, a comunicação tornou-se mais autocentrada, impulsiva ou pouco
sustentada. O contato visual apresentou-se inconsistente, sendo possível notar que,
em determinados momentos, Daniel desviava o olhar, evitava o contato ocular direto ou
mantinha contato visual breve e instável. Houve ainda observação de comportamento
peculiar em que, ao ser diretamente interpelado ou ao receber determinadas demandas,
podia fechar os olhos ou reduzir ainda mais o contato ocular, o que constitui um dado
clinicamente relevante dentro da análise qualitativa da interação.
Também foram observados episódios de vocalizações e estereotipias de fala, descritos
como “barulhinhos” ou modulações incomuns durante a comunicação, além de
características compatíveis com atipicidade prosódica em alguns momentos da
interação. Embora a criança apresente intenção comunicativa e capacidade verbal
funcional, tais aspectos sugerem que a comunicação não se organiza de maneira
plenamente típica em todos os contextos, especialmente quando há aumento de ativação
emocional, excitação ou maior demanda de regulação.
No que se refere à flexibilidade cognitiva e comportamental, Daniel mostrou
importante necessidade de previsibilidade e controle da situação. Demonstrou
dificuldade em aceitar mudanças de proposta, interrupções, necessidade de esperar ou
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continuidade de tarefas que já não lhe interessavam. Houve sinais claros de rigidez,
manifestados pela tentativa de conduzir a atividade em seu próprio ritmo, resistência
quando não podia avançar de imediato, incômodo quando contrariado e dificuldade em
se ajustar a regras externas sem mediação intensiva. Esse padrão também se fez presente
em relatos espontâneos e em associação com interesses preferenciais marcadamente
restritos, especialmente relacionados a conteúdos como Sonic, evidenciando tendência a
hiperfoco temático e repetição de interesse.
No brincar e na exploração de materiais, Daniel demonstrou repertório funcional
preservado, com curiosidade, capacidade de manipulação e exploração de objetos, além
de compreensão de parte das propostas lúdicas. Entretanto, também se observou
tendência a querer manipular múltiplos estímulos ao mesmo tempo, mudar rapidamente
de foco, tocar em materiais não relacionados à tarefa atual e buscar estímulos do
ambiente, o que reforça o impacto da impulsividade e da dificuldade de inibição
comportamental.
Em relação aos aspectos sensoriais, embora a avaliação neuropsicológica não tenha
como foco primário a análise terapêutica sensorial, a observação clínica foi coerente
com os relatos de um perfil sensorial atípico, notadamente no que diz respeito à busca
de estímulos específicos, necessidade de previsibilidade, seletividade alimentar rígida e
reatividade diante de determinadas texturas, cheiros e padrões de rotina. Os relatos
trazidos pelos responsáveis durante o processo foram consistentes ao descrever rigidez
importante em relação à alimentação, incluindo exigência de repetição de padrões
específicos para aceitação de determinados alimentos e bebidas, recusa de texturas e
forte necessidade de constância na forma como as refeições são apresentadas.
No aspecto socioemocional, ficou evidente que Daniel apresenta hiperreatividade
emocional, com limiar reduzido para frustração, baixa tolerância à espera e importante
dificuldade em modular respostas diante de limites externos. O padrão observado em
avaliação, somado aos relatos familiares e escolares, indica que a criança tende a reagir
de forma intensa quando não consegue algo imediatamente, quando percebe uma
atividade como difícil ou quando se vê contrariada. Tal padrão não se limita a um
comportamento opositor simples, mas se articula com impulsividade, inflexibilidade,
necessidade de controle e fragilidade de autorregulação, produzindo impacto importante
sobre o funcionamento adaptativo.
De forma integrada, a observação clínica detalhada revelou uma criança com potencial
cognitivo e simbólico relevante, capacidade de vínculo e comunicação funcional,
porém com alterações expressivas na modulação comportamental, atenção
sustentada, controle inibitório, flexibilidade cognitiva, tolerância à frustração,
reciprocidade social qualitativa e organização adaptativa diante de demandas
estruturadas. Os achados observacionais foram amplamente coerentes com os dados
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fornecidos pelos responsáveis, pela escola e pelos demais profissionais envolvidos,
reforçando a presença de um perfil do neurodesenvolvimento atípico, com
manifestações significativas em múltiplos domínios e forte impacto funcional na vida
diária da criança.
Ao final da observação clínica, ficou evidente que Daniel não apresenta um quadro de
prejuízo global primário de capacidade cognitiva, mas sim um funcionamento
heterogêneo, no qual habilidades potencialmente preservadas ou até promissoras são
significativamente comprometidas por alterações importantes em autorregulação,
impulsividade, flexibilidade, organização comportamental, processamento sensorial,
reciprocidade social qualitativa e manejo da frustração, configurando um perfil clínico
altamente compatível com alterações do neurodesenvolvimento e do comportamento
infantil.
7. Análise dos resultados
ANÁLISE DETALHADA DOS RESULTADOS – FUNCIONAMENTO
INTELECTUAL GLOBAL E MATURIDADE COGNITIVA
6. ANÁLISE DETALHADA DOS RESULTADOS
6.1. FUNCIONAMENTO INTELECTUAL GLOBAL, RACIOCÍNIO NÃO VERBAL
E MATURIDADE COGNITIVA
A avaliação do funcionamento intelectual global de Daniel foi conduzida
prioritariamente por meio de instrumentos não verbais e adequados à faixa etária
pré-escolar, visando reduzir a interferência de variáveis comportamentais, linguísticas e
atencionais sobre a estimativa do potencial cognitivo real da criança. Considerando o
perfil clínico observado, marcado por agitação, impulsividade, baixa tolerância à
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frustração e oscilação atencional, optou-se por utilizar instrumentos que privilegiassem
o raciocínio concreto, a análise perceptiva e a resolução de problemas com menor carga
verbal.
Foram utilizados, para essa finalidade, o SON-R 2½–7[a] e a CMMS-3 (Escala
Columbia de Maturidade Intelectual – 3ª edição), permitindo uma leitura mais
robusta e ecologicamente coerente do funcionamento intelectual global.
6.1.1. SON-R 2½–7[a] – Snijders-Oomen Não-Verbal de Inteligência
Objetivo do instrumento
O SON-R 2½–7[a] é um instrumento não verbal destinado à avaliação do
funcionamento intelectual de crianças pequenas, sendo particularmente útil em casos em
que há necessidade de minimizar a interferência da linguagem oral ou quando existem
suspeitas de alterações do neurodesenvolvimento que possam afetar o desempenho em
instrumentos verbalmente carregados. O teste permite investigar:
raciocínio não verbal;
organização visuoespacial;
percepção de padrões;
raciocínio abstrato concreto;
capacidade de solução de problemas;
flexibilidade cognitiva;
análise perceptiva;
construção visuomotora.
No presente caso, o instrumento foi especialmente pertinente em razão da idade do
paciente, da presença de sinais de desatenção/impulsividade, instabilidade na
comunicação social e necessidade de investigação mais fidedigna do potencial cognitivo
não verbal.
Tabela 1 – SON-R 2½–7[a] – Resultados por subteste e índice global
Escore Escore
Subteste / Índice Percentil Classificação
Bruto Padronizado
Mosaicos 21 11 63 Média
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Escore Escore
Subteste / Índice Percentil Classificação
Bruto Padronizado
Categorias 18 10 50 Média
Situações 16 9 37 Média
Padrões 17 10 50 Média
Escala de Execução /
— 101 53 Média
Raciocínio Não Verbal
Observação técnica: Os escores acima refletem desempenho global compatível com a
faixa média, porém interpretados à luz de importante interferência comportamental e
executiva observada durante a aplicação, o que pode ter reduzido a expressão plena do
potencial cognitivo da criança em itens de maior complexidade e persistência.
Descrição e interpretação detalhada do SON-R 2½–7[a]
Mosaicos
O subteste Mosaicos investiga habilidades de organização visuoespacial, análise
perceptiva, coordenação visuoconstrutiva, percepção de padrões e resolução de
problemas não verbais. Daniel apresentou desempenho na faixa média (Percentil 63),
evidenciando boa capacidade inicial de análise visual e compreensão de organização
espacial.
Durante a execução, observou-se que o paciente conseguia compreender a lógica da
tarefa, identificar padrões e iniciar respostas de forma relativamente rápida. Em itens
iniciais e intermediários, demonstrou desempenho satisfatório, com indícios de bom
potencial visuoconstrutivo e raciocínio concreto visual. Entretanto, à medida que a
complexidade aumentava, surgiram sinais importantes de:
impaciência,
pressa para concluir,
desejo de passar para o próximo item,
menor tolerância ao erro,
redução da persistência,
verbalizações de incapacidade antes da tentativa.
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Observação clínica no subteste Mosaicos
Daniel demonstrou que possui capacidade para executar a tarefa, mas o desempenho
foi prejudicado por:
impulsividade;
dificuldade de sustentação atencional;
baixa tolerância à frustração;
menor disponibilidade para persistir em itens mais difíceis;
tendência a querer encerrar rapidamente a atividade.
Esse padrão sugere que o escore obtido, embora dentro da média, pode representar
subexpressão parcial do potencial real em razão da interferência executiva e
comportamental.
Categorias
O subteste Categorias avalia raciocínio abstrato concreto, formação de conceitos,
percepção de semelhanças, classificação e capacidade de estabelecer relações lógicas
entre estímulos visuais. Daniel apresentou desempenho na faixa média (Percentil 50),
indicando capacidade adequada de discriminação e associação conceitual para a faixa
etária.
Mostrou compreensão inicial da lógica do subteste, sendo capaz de reconhecer relações
entre figuras e estabelecer agrupamentos coerentes em boa parte dos itens. Contudo, em
momentos de maior exigência de atenção sustentada e manutenção da regra, houve
aumento de impulsividade, com respostas precipitadas e menor tempo de análise antes
da escolha.
Observação clínica no subteste Categorias
Durante a execução, observou-se:
compreensão da proposta;
raciocínio visual compatível com a idade;
capacidade de associação preservada;
tendência a responder rapidamente sem revisar;
necessidade de mediação para manutenção da regra;
piora quando o subteste se prolongava.
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O padrão observado reforça a hipótese de que o raciocínio não verbal está globalmente
preservado, mas frequentemente comprometido por falhas executivas secundárias.
Situações
O subteste Situações investiga compreensão prática, raciocínio contextual e solução de
problemas cotidianos com base em estímulos visuais. Daniel apresentou desempenho na
faixa média (Percentil 37), situando-se no limite inferior da média, ainda dentro da
normalidade, porém com maior impacto de variáveis regulatórias.
Esse foi um dos subtestes em que se percebeu maior oscilação entre potencial e
desempenho efetivamente expresso. Daniel demonstrou capacidade de compreender
parte das demandas, mas apresentou maior dificuldade quando precisava:
sustentar análise por mais tempo;
considerar alternativas;
tolerar incerteza;
persistir sem resposta imediata.
Observação clínica no subteste Situações
Houve:
menor paciência;
maior pressa;
aumento da evasão;
necessidade de ajuda motivacional;
redução da persistência diante de maior dificuldade;
verbalizações negativas precoces (“não consigo”, “é difícil”).
Esse resultado sugere que a performance foi mais afetada por autorregulação e
persistência do que por limitação de compreensão propriamente dita.
Padrões
O subteste Padrões investiga análise perceptiva, raciocínio lógico visual, identificação
de regularidades e organização cognitiva. Daniel apresentou desempenho na faixa
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média (Percentil 50), com bom reconhecimento de sequências visuais e organização de
padrões simples e moderados.
Nos itens iniciais, mostrou-se responsivo e relativamente eficiente. Contudo, à medida
que as exigências aumentavam, repetiu-se o padrão observado em outros subtestes:
queda da tolerância ao esforço, pressa, maior impulsividade e menor permanência em
análise.
Observação clínica no subteste Padrões
Foram observados:
boa percepção visual;
raciocínio concreto preservado;
tendência a antecipar resposta;
menor monitoramento do erro;
flutuação atencional progressiva;
redução da qualidade da execução em função do comportamento.
Interpretação global do SON-R 2½–7[a]
O desempenho global de Daniel no SON-R 2½–7[a] situou-se na faixa média, com
Índice de Raciocínio Não Verbal estimado em 101 (Percentil 53). Esse resultado
sugere que o paciente apresenta funcionamento intelectual global não verbal
preservado, sem evidências de rebaixamento cognitivo global ou de deficiência
intelectual com base nos dados atuais.
Do ponto de vista neuropsicológico, o instrumento revelou:
potencial de raciocínio concreto e não verbal preservado;
recursos adequados de percepção visual;
capacidade de organização visuoespacial compatível com a idade;
formação de conceitos visuais e raciocínio classificatório dentro do esperado;
bom potencial de aprendizagem quando regulado.
Entretanto, a interpretação clínica exige cautela, pois o desempenho foi
significativamente modulado por fatores não intelectuais, especialmente:
impulsividade;
baixa tolerância à frustração;
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oscilação atencional;
pressa em finalizar;
baixa persistência em tarefas de maior dificuldade;
necessidade de gratificação rápida;
resistência a itens mais complexos.
Síntese clínica do SON-R
O SON-R 2½–7[a] indica que Daniel possui potencial intelectual global não verbal
preservado, com desempenho compatível com a faixa média para a idade. Todavia, a
expressão desse potencial mostrou-se frequentemente comprometida por alterações
importantes em controle inibitório, autorregulação, flexibilidade cognitiva, persistência
e tolerância à frustração, sugerindo que os prejuízos observados no cotidiano não
decorrem de limitação intelectual primária, mas de um perfil de neurodesenvolvimento
em que variáveis executivas, comportamentais e emocionais interferem de forma
significativa no acesso ao próprio potencial cognitivo.
6.1.2. CMMS-3 – Escala Columbia de Maturidade Intelectual (3ª edição)
Objetivo do instrumento
A CMMS-3 é um instrumento de avaliação da maturidade intelectual e do raciocínio
geral, especialmente útil em crianças pequenas ou em situações em que se busca uma
estimativa do potencial cognitivo com menor exigência motora e verbal. O teste
investiga:
raciocínio geral;
discriminação conceitual;
percepção de relações;
julgamento lógico;
maturidade mental;
compreensão de diferenças e semelhanças.
Sua utilização, em conjunto com o SON-R, permitiu complementar a análise do
funcionamento intelectual global de Daniel e oferecer maior segurança interpretativa.
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Tabela 2 – CMMS-3 – Resultado global
Escore Escore
Instrumento Percentil Classificação
Bruto Padronizado
CMMS-3 – Escala Global de
49 103 58 Média
Maturidade Intelectual
Daniel apresentou desempenho na faixa média (Percentil 58) na CMMS-3,
evidenciando maturidade intelectual global compatível com a faixa etária, com
capacidade satisfatória para discriminar estímulos, perceber relações lógicas e realizar
escolhas baseadas em julgamento conceitual.
Ao longo da aplicação, observou-se que o paciente conseguia:
compreender a lógica de seleção entre alternativas;
reconhecer relações visuais;
discriminar estímulos relevantes;
resolver itens concretos com eficiência quando regulado;
demonstrar boa percepção de semelhanças e diferenças.
Entretanto, assim como ocorreu no SON-R, o desempenho foi impactado por:
flutuação atencional;
impulsividade de resposta;
desejo de acelerar a atividade;
menor persistência diante de itens menos imediatos;
necessidade de redirecionamento frequente.
Observação clínica durante a CMMS-3
Durante a aplicação, Daniel mostrou:
boa capacidade inicial de engajamento;
entendimento do formato da tarefa;
interesse maior em itens curtos e objetivos;
dificuldade em manter constância ao longo do tempo;
respostas por vezes precipitadas;
queda de qualidade quando a demanda exigia mais paciência.
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Ainda assim, manteve desempenho global consistente com maturidade intelectual
preservada, reforçando a hipótese de que a base cognitiva está globalmente dentro do
esperado.
Interpretação clínica integrada da CMMS-3
A CMMS-3 corrobora os achados do SON-R, reforçando que Daniel apresenta:
maturidade intelectual preservada para a faixa etária;
capacidade de raciocínio geral adequada;
ausência de indícios de rebaixamento cognitivo global primário;
potencial de aprendizagem presente, desde que o ambiente favoreça
organização, previsibilidade e mediação adequada.
Síntese clínica da CMMS-3
O desempenho obtido na CMMS-3 reforça a presença de um funcionamento cognitivo
global dentro dos limites esperados para a idade, com maturidade intelectual preservada
e raciocínio geral compatível com a faixa etária. As oscilações observadas durante a
execução parecem decorrer predominantemente de fatores executivos, comportamentais
e atencionais, e não de limitação cognitiva estrutural.
6.1.3. SÍNTESE INTEGRADA DA ÁREA – FUNCIONAMENTO INTELECTUAL
GLOBAL E MATURIDADE COGNITIVA
A integração dos resultados obtidos no SON-R 2½–7[a] e na CMMS-3, associada à
observação clínica e aos dados de anamnese, indica que Daniel apresenta
funcionamento intelectual global preservado, com desempenho compatível com a
faixa média para sua idade.
Os achados apontam que:
não há evidências de deficiência intelectual;
o raciocínio não verbal encontra-se preservado;
a maturidade cognitiva global está dentro do esperado;
há bom potencial para aprendizagem e resolução de problemas concretos;
o repertório visuoperceptivo e conceitual mostra-se funcionalmente adequado.
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Contudo, ficou evidente que o desempenho cognitivo formal é frequentemente
rebaixado de forma secundária por:
impulsividade;
oscilação atencional;
baixa tolerância à frustração;
dificuldade em persistir;
necessidade de gratificação imediata;
rigidez cognitiva;
resistência diante do aumento da complexidade.
Em síntese, os resultados desta área indicam que Daniel apresenta potencial cognitivo
global preservado, com funcionamento intelectual e maturidade mental compatíveis
com a faixa etária. Os prejuízos observados em seu cotidiano e durante a avaliação não
se explicam por limitação intelectual primária, mas sim por alterações clinicamente
significativas em atenção, autorregulação, flexibilidade cognitiva, controle inibitório e
comportamento adaptativo, os quais reduzem a expressão plena de seu potencial.
6.2. ANÁLISE DETALHADA DOS RESULTADOS
RASTREIO DE SINAIS COMPATÍVEIS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO
AUTISTA (TEA), RESPONSIVIDADE SOCIAL E COMUNICAÇÃO SOCIAL
Considerando as queixas apresentadas pela família, os registros escolares, o laudo
médico, os achados observados durante a avaliação e a necessidade de investigação
diagnóstica diferencial no campo do neurodesenvolvimento, foram utilizados
instrumentos específicos para rastreio e caracterização de sinais compatíveis com
Transtorno do Espectro Autista (TEA), com foco em:
qualidade da interação social;
reciprocidade socioemocional;
responsividade social;
contato visual;
comunicação social;
uso funcional da linguagem;
flexibilidade cognitiva e comportamental;
padrões restritos/repetitivos de interesse;
rigidez;
adaptação social;
impacto funcional dos traços autísticos.
Para esta finalidade, foram utilizados:
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PROTEA-R
SRS-2
observação clínica neuropsicológica estruturada
análise integrada da anamnese e dos documentos multiprofissionais
Os resultados desta área foram interpretados de forma integrada, considerando que, em
crianças pequenas, especialmente na presença de TDAH, impulsividade, desregulação
emocional e comportamento opositor, a leitura do rastreio de TEA exige análise
qualitativa e contextual, evitando interpretações simplistas ou exclusivamente baseadas
em um único escore.
6.2.1. PROTEA-R
Objetivo do instrumento
O PROTEA-R é um protocolo de rastreio e apoio à investigação de comportamentos
compatíveis com o espectro autista em crianças, sendo utilizado para sistematizar a
observação clínica de aspectos relacionados a:
reciprocidade social;
comunicação verbal e não verbal;
contato visual;
atenção compartilhada;
qualidade do brincar;
flexibilidade comportamental;
presença de interesses restritos;
comportamentos repetitivos;
rigidez;
resposta social ao outro;
uso funcional e pragmático da linguagem.
No presente caso, o PROTEA-R foi utilizado como instrumento central de rastreio para
análise dos sinais clínicos de TEA, considerando a presença de múltiplos indícios
levantados em anamnese, documentos escolares, observação clínica e relato médico
prévio.
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Tabela 3 – PROTEA-R – Resultados por domínios
Pontuação Percentil
Domínio Avaliado Classificação
Bruta Clínico
Reciprocidade
9 93 Clinicamente significativo
socioemocional
Comunicação social / uso
8 91 Clinicamente significativo
pragmático
Contato visual /
7 90 Clinicamente significativo
comunicação não verbal
Brincadeira / Limítrofe a clinicamente
6 84
compartilhamento social significativo
Flexibilidade
11 97 Clinicamente significativo
comportamental / rigidez
Interesses restritos /
10 96 Clinicamente significativo
padrões repetitivos
Presença de indicadores
Escore Global PROTEA-R 51 95
relevantes para TEA
Observação técnica: O PROTEA-R, neste caso, demonstrou presença de indicadores
clínicos robustos de alterações qualitativas em comunicação social, reciprocidade,
flexibilidade e padrões restritos/repetitivos, com destaque para o eixo de rigidez
comportamental e interesses restritos, que se mostraram particularmente marcantes
no perfil do paciente.
Descrição e interpretação detalhada do PROTEA-R
Reciprocidade socioemocional
Neste domínio, Daniel apresentou desempenho em faixa clinicamente significativa
(Percentil 93), indicando fragilidades relevantes na qualidade da troca socioemocional.
Embora demonstre capacidade de vínculo, afeto e busca por interação em determinados
contextos, sua reciprocidade mostrou-se instável, especialmente quando a interação
exigia:
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compartilhamento espontâneo;
manutenção de turnos sociais;
tolerância à contrariedade;
resposta adaptativa ao outro;
ajuste do comportamento ao contexto relacional.
Foi observado que Daniel, em momentos de maior ativação emocional ou frustração,
tende a:
priorizar o próprio interesse imediato;
reduzir a responsividade ao interlocutor;
apresentar interação mais centrada em sua necessidade;
perder qualidade na reciprocidade social.
Observação clínica – reciprocidade socioemocional
Daniel não se apresenta como criança socialmente indiferente, o que é um dado
importante. Contudo, sua interação não se organiza de forma tipicamente estável, pois:
alterna entre busca de contato e dificuldade de sustentar a troca;
pode ser afetuoso, mas perde qualidade relacional sob frustração;
demonstra menor flexibilidade social quando a situação não ocorre “do jeito
dele”;
apresenta prejuízo na manutenção da qualidade da relação em contexto de
demanda.
Comunicação social / uso pragmático da linguagem
Neste domínio, Daniel apresentou desempenho clinicamente significativo (Percentil
91), sugerindo alterações importantes na qualidade pragmática da comunicação,
apesar de possuir linguagem verbal funcional.
Foram identificados:
comunicação mais eficiente quando o tema é de interesse próprio;
dificuldade em manter diálogos por maior tempo;
necessidade de mediação para sustentação da troca;
tendência a respostas rápidas e pouco elaboradas;
menor flexibilidade comunicativa;
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dificuldade em manter a organização da interação em situações menos
motivadoras.
Observação clínica – comunicação social
Durante a avaliação, Daniel:
comunicou-se verbalmente;
expressou desejos e necessidades;
respondeu a perguntas simples;
apresentou intenção comunicativa funcional.
Entretanto:
a qualidade da pragmática foi oscilante;
a troca era, por vezes, autocentrada;
houve dificuldade em sustentar turnos conversacionais;
o uso da linguagem mostrou-se menos flexível;
em alguns momentos, surgiram vocalizações e “barulhinhos” associados à fala;
observou-se modulação prosódica atípica em determinadas interações.
Esse padrão é altamente relevante na análise diferencial entre TDAH/TOD e TEA, pois
mostra que a linguagem existe, porém a qualidade social da linguagem não é
plenamente típica.
Contato visual / comunicação não verbal
Neste domínio, Daniel apresentou escore clinicamente significativo (Percentil 90),
com presença de alterações qualitativas relevantes na comunicação não verbal.
Foram observados:
contato visual inconsistente;
sustentação breve do olhar;
tendência a desviar o olhar em momentos de maior demanda;
redução do contato ocular quando diretamente interpelado;
em alguns momentos, comportamento de fechar os olhos ou reduzir ainda mais
o olhar diante da solicitação social.
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Observação clínica – contato visual
O contato visual de Daniel não esteve ausente, mas mostrou-se:
instável,
intermitente,
pouco sustentado,
qualitativamente inconsistente.
Esse é um achado muito importante, pois diferencia:
uma criança apenas agitada/desatenta
de
uma criança que, além disso, apresenta alteração qualitativa da comunicação
não verbal.
Brincadeira / compartilhamento social
Neste domínio, Daniel apresentou desempenho em faixa limítrofe a clinicamente
significativa (Percentil 84).
Esse resultado é coerente com a observação clínica de que:
o brincar funcional está presente;
o brincar simbólico também se encontra presente;
há imaginação e uso de personagens;
existe repertório lúdico preservado.
Porém, o compartilhamento do brincar apresenta fragilidades, especialmente em:
aceitação da mediação do outro;
flexibilidade de enredo;
tolerância a mudança na brincadeira;
manutenção de brincadeira cooperativa;
capacidade de sustentar interação lúdica recíproca quando contrariado.
Observação clínica – brincar
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Daniel tem brincar simbólico e funcional, o que é um dado protetivo e importante.
Contudo:
tende a brincar “do jeito dele”;
pode resistir a mudanças propostas pelo outro;
apresenta rigidez temática;
pode preferir o controle da brincadeira;
em alguns momentos, prefere brincar sozinho ou em paralelo.
Esse achado é muito coerente com um perfil de TEA mais sutil / com linguagem / com
capacidade simbólica preservada, porém com prejuízo qualitativo de flexibilidade e
reciprocidade social.
Flexibilidade comportamental / rigidez
Este foi um dos domínios mais alterados, com desempenho clinicamente significativo
importante (Percentil 97).
Daniel apresentou:
forte necessidade de previsibilidade;
dificuldade de lidar com mudanças;
insistência em rotina;
sofrimento diante de interrupções;
necessidade de repetição de padrões;
comportamento de imediatismo;
dificuldade em aceitar sequência diferente da esperada;
insistência em perguntas repetitivas (“quando vai fazer?”);
rigidez em alimentação;
rigidez em interesses;
resistência a transições.
Observação clínica – rigidez
A rigidez em Daniel é muito marcante clinicamente e vai além do esperado para
simples oposição.
Ela aparece em:
tarefas,
rotina,
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alimentação,
interesses,
interação,
espera,
transição,
exigência de controle.
Esse é um dos achados que mais fortalece a hipótese de TEA associado, e não apenas
TDAH/TOD.
Interesses restritos / padrões repetitivos
Daniel apresentou desempenho clinicamente significativo (Percentil 96) neste
domínio.
Foram observados e relatados:
hiperfoco importante em Sonic, Ben 10 e dinossauros;
repetição temática;
preferência por conteúdos específicos de forma intensa;
tendência a rever repetidamente os mesmos estímulos;
forte direcionamento da atenção para interesses específicos;
comportamento de observação de objetos girando;
vocalizações/sons repetitivos;
insistência em determinadas formas de fazer as coisas;
repetição de perguntas e temas.
Observação clínica – interesses restritos e repetição
O padrão observado não corresponde apenas a “gosto infantil comum”, mas a:
intensidade elevada,
restrição temática,
repetição persistente,
impacto funcional sobre flexibilidade e socialização.
Esse domínio, somado à rigidez e à qualidade da interação, fortalece de forma
importante os achados compatíveis com TEA.
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Interpretação clínica global do PROTEA-R
O PROTEA-R evidenciou presença de indicadores clínicos robustos compatíveis
com Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente nos seguintes eixos:
qualidade da reciprocidade social
comunicação social / pragmática
contato visual e comunicação não verbal
rigidez cognitiva e comportamental
interesses restritos e padrões repetitivos
dificuldade de adaptação social sob demanda
Síntese clínica do PROTEA-R
O PROTEA-R demonstrou presença de sinais clinicamente significativos compatíveis
com alterações qualitativas do neurodesenvolvimento, com destaque para prejuízos em
comunicação social, reciprocidade, flexibilidade comportamental e padrões
restritos/repetitivos, configurando um perfil fortemente sugestivo de indicadores
compatíveis com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a ser interpretado de forma
integrada aos demais dados clínicos e instrumentais.
6.2.2. SRS-2 – Escala de Responsividade Social (2ª edição)
Objetivo do instrumento
A SRS-2 é uma escala de rastreio amplamente utilizada para mensuração de
dificuldades relacionadas à responsividade social, sendo útil na investigação de sinais
compatíveis com TEA. O instrumento avalia:
percepção social;
cognição social;
comunicação social;
motivação social;
padrões restritos e repetitivos.
Sua aplicação, por heterorrelato, permite quantificar o impacto funcional das
dificuldades sociais e dos traços do espectro autista no cotidiano.
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Tabela 4 – SRS-2 – Resultados por domínio
T-
Domínio Percentil Classificação
Score
Percepção Social 70 98 Moderadamente elevado
Cognição Social 73 99 Moderadamente elevado
Comunicação Social 76 >99 Grave
Levemente a moderadamente
Motivação Social 67 96
elevado
Padrões Restritos e Repetitivos 79 >99 Grave
Índice Total de Responsividade
77 >99 Faixa clínica grave
Social
Observação técnica: T-Scores acima de 60 já sugerem elevação clínica; acima de 75,
geralmente indicam faixa clínica grave, com forte impacto funcional e alta relevância
para investigação do espectro autista.
Descrição e interpretação detalhada da SRS-2
Percepção Social
Resultado em faixa moderadamente elevada (T=70), indicando dificuldade em
perceber e responder adequadamente a pistas sociais sutis, gestos, expressões e sinais
contextuais.
Cognição Social
Resultado em faixa moderadamente elevada (T=73), sugerindo fragilidades na
interpretação social, compreensão de demandas relacionais e ajuste do comportamento
ao contexto interpessoal.
Comunicação Social
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Resultado em faixa grave (T=76), evidenciando prejuízo importante na qualidade da
comunicação social, coerente com:
pragmática oscilante,
dificuldade de manutenção da troca,
linguagem funcional com qualidade social atípica,
contato visual inconsistente.
Motivação Social
Resultado levemente a moderadamente elevado (T=67). Esse dado é muito coerente
com o caso, pois Daniel não é uma criança sem interesse social absoluto. Ele busca
contato, vínculo e proximidade, mas a qualidade dessa interação é prejudicada.
Padrões Restritos e Repetitivos
Resultado em faixa grave (T=79), um dos domínios mais elevados, reforçando:
rigidez intensa,
necessidade de previsibilidade,
hiperfoco,
repetição temática,
dificuldade de mudança,
insistência em rotinas.
Interpretação clínica global da SRS-2
A SRS-2 revelou elevação clínica importante, com Índice Total em faixa grave
(T=77), indicando que as dificuldades de Daniel não se limitam a problemas
comportamentais inespecíficos, mas envolvem alterações qualitativas significativas em:
responsividade social;
cognição social;
comunicação social;
flexibilidade comportamental;
padrões restritos/repetitivos.
Síntese clínica da SRS-2
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A SRS-2 demonstrou presença de prejuízo clinicamente relevante na responsividade
social, com impacto importante sobre comunicação social e padrões restritos/repetitivos,
configurando um perfil altamente compatível com sinais do espectro autista,
especialmente em associação com rigidez cognitiva e prejuízo qualitativo da interação
social.
6.2.3. OBSERVAÇÃO CLÍNICA DA INTERAÇÃO SOCIAL E COMUNICAÇÃO
SOCIAL
(integração qualitativa da área)
A observação clínica desta área mostrou que Daniel:
estabelece vínculo;
busca interação em alguns momentos;
pode ser afetuoso e receptivo;
apresenta brincar funcional e simbólico;
possui linguagem verbal funcional.
Contudo, também foram observados:
contato visual inconsistente;
qualidade variável da reciprocidade;
dificuldade de sustentar trocas sociais complexas;
menor flexibilidade comunicativa;
linguagem mais eficiente quando centrada em interesses próprios;
dificuldade de aceitar mediação e mudança de tema;
rigidez no brincar;
hiperfoco temático;
presença de vocalizações/estereotipias de fala;
prejuízo qualitativo da comunicação não verbal;
maior desorganização social quando frustrado;
tendência a controle da interação;
dificuldade em compartilhar regras sociais de forma estável.
Interpretação clínica observacional
Daniel não se enquadra em um perfil de ausência total de interesse social, o que é
importante.
Porém, sua interação apresenta prejuízo qualitativo relevante, sobretudo em:
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reciprocidade;
flexibilidade;
pragmática;
leitura contextual;
adaptação relacional;
manutenção de trocas recíprocas.
Esse padrão é extremamente compatível com quadros de TEA com linguagem
funcional, nos quais a criança pode parecer “social” em alguns contextos, mas
apresenta qualidade social atípica e inflexibilidade marcante.
6.2.4. SÍNTESE INTEGRADA DA ÁREA – RASTREIO DE TEA,
RESPONSIVIDADE SOCIAL E COMUNICAÇÃO SOCIAL
A integração dos resultados obtidos no PROTEA-R, SRS-2, observação clínica
estruturada, anamnese e análise documental evidencia que Daniel apresenta indicadores
clínicos robustos e convergentes compatíveis com Transtorno do Espectro Autista
(TEA).
Os principais eixos de alteração identificados foram:
prejuízo qualitativo da reciprocidade social;
comunicação social atípica, apesar de linguagem verbal funcional;
contato visual inconsistente;
pragmática oscilante;
rigidez cognitiva e comportamental importante;
necessidade intensa de previsibilidade;
forte dificuldade com mudanças e transições;
interesses restritos e hiperfoco;
padrões repetitivos;
impacto funcional sobre socialização, adaptação e rotina.
Conclusão da área
Em síntese, os resultados desta área sustentam a presença de sinais clinicamente
significativos compatíveis com Transtorno do Espectro Autista (TEA),
especialmente nos domínios de comunicação social qualitativa, responsividade social,
flexibilidade comportamental e padrões restritos/repetitivos. Ressalta-se que a
interpretação foi realizada de forma integrada, considerando a coexistência de sintomas
de TDAH, impulsividade e desregulação emocional; ainda assim, o conjunto dos
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achados excede o que se esperaria apenas por hiperatividade ou comportamento
opositor, configurando um perfil do neurodesenvolvimento fortemente sugestivo de
indicadores compatíveis com TEA.
6.3. ANÁLISE DETALHADA DOS RESULTADOS
PROCESSAMENTO SENSORIAL E MODULAÇÃO SENSORIAL
Considerando os relatos parentais, os registros clínicos e os comportamentos observados
durante a avaliação, investigou-se o perfil de processamento sensorial de Daniel, tendo
em vista que alterações nesse domínio podem impactar diretamente:
autorregulação emocional;
comportamento adaptativo;
tolerância a ambientes;
flexibilidade comportamental;
alimentação;
sono;
interação social;
permanência em tarefa;
nível de irritabilidade;
resposta à frustração;
intensidade das crises comportamentais.
Em crianças com alterações do neurodesenvolvimento, especialmente quando há
suspeita de TEA, a investigação sensorial é de alta relevância clínica, pois muitas
respostas que parecem “oposição”, “teimosia” ou “birra” podem, na verdade,
representar:
hiperreatividade a estímulos;
baixa modulação sensorial;
necessidade de busca sensorial;
esquiva sensorial;
sobrecarga ambiental;
dificuldade de autorregulação frente a estímulos cotidianos.
Para essa finalidade, foi utilizado o Perfil Sensorial 2, instrumento padronizado por
heterorrelato, associado à observação clínica neuropsicológica estruturada.
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6.3.1. PERFIL SENSORIAL 2
Objetivo do instrumento
O Perfil Sensorial 2 investiga como a criança percebe, modula e responde aos
estímulos sensoriais do ambiente, permitindo identificar padrões de:
busca sensorial;
esquiva sensorial;
sensibilidade aumentada;
baixo registro sensorial;
modulação;
impacto funcional em rotina, comportamento e interação.
O instrumento organiza os achados em:
1. Quadrantes sensoriais
2. Sistemas sensoriais específicos
3. Padrões comportamentais associados ao processamento sensorial
No caso de Daniel, o Perfil Sensorial 2 foi particularmente relevante por haver histórico
e observação de:
seletividade alimentar;
forte reatividade a determinadas texturas;
sensibilidade a roupas;
dificuldade com toque em alguns contextos;
agitação importante;
busca intensa por movimento;
comportamento de observação de objetos girando;
oscilação regulatória importante;
reações exacerbadas a mudanças ambientais.
Tabela 5 – Perfil Sensorial 2 – Quadrantes Sensoriais
Quadrante Sensorial Escore Bruto Percentil Classificação
Busca Sensorial (Seeking) 46 96 Muito mais que outros
Esquiva Sensorial (Avoiding) 39 93 Muito mais que outros
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Quadrante Sensorial Escore Bruto Percentil Classificação
Sensibilidade Sensorial (Sensitivity) 42 95 Muito mais que outros
Baixo Registro (Registration) 31 82 Mais que outros
Interpretação clínica geral dos quadrantes: Daniel apresenta um perfil sensorial
misto e altamente reativo, combinando busca sensorial intensa com
hipersensibilidade, esquiva e momentos de baixo registro, o que sugere importante
instabilidade de modulação sensorial e grande impacto funcional sobre comportamento,
autorregulação e adaptação cotidiana.
Análise detalhada dos quadrantes sensoriais
1. Busca Sensorial (Seeking)
Daniel apresentou escore em faixa muito mais que outros (Percentil 96), indicando
necessidade aumentada de buscar estímulos sensoriais no ambiente.
Esse padrão é compatível com:
alta necessidade de movimento;
inquietação motora;
exploração intensa;
busca por experiências corporais;
interesse aumentado por estímulos visuais e cinéticos;
maior tendência a manipular, correr, mexer-se e procurar ativação.
Observação clínica – busca sensorial
Durante as sessões, Daniel demonstrou:
agitação motora importante;
necessidade frequente de se movimentar;
dificuldade de permanecer sentado por longos períodos;
interesse em estímulos visuais dinâmicos;
busca por controle do ambiente;
maior regulação quando podia alternar entre movimento e tarefa.
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Esse padrão ajuda a explicar parte da hiperatividade observada, mas, isoladamente, não
a resume — ele deve ser compreendido em associação ao TDAH e ao perfil do
neurodesenvolvimento como um todo.
2. Esquiva Sensorial (Avoiding)
Daniel apresentou escore em faixa muito mais que outros (Percentil 93), sugerindo
forte tendência a evitar ou rejeitar estímulos sensoriais percebidos como incômodos,
excessivos ou desorganizadores.
Esse padrão é compatível com:
recusa de determinadas texturas;
desconforto com roupas específicas;
reatividade a mudanças sensoriais;
resistência a experiências táteis;
seletividade alimentar importante;
reações intensas diante de incômodos ambientais.
Observação clínica – esquiva sensorial
Foram observados e/ou relatados:
desconforto com algumas roupas e texturas;
seletividade alimentar com base sensorial;
resistência a determinadas experiências táteis;
irritabilidade diante de desconforto físico;
maior chance de oposição quando o ambiente estava desregulador.
Esse dado é extremamente importante, porque muitas reações vistas como
“desobediência” podem ser, em parte, respostas de esquiva sensorial.
3. Sensibilidade Sensorial
Daniel apresentou escore em faixa muito mais que outros (Percentil 95), indicando
hiperreatividade sensorial importante.
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Esse resultado sugere que ele:
percebe estímulos com maior intensidade;
reage de forma aumentada a sensações que outras crianças tolerariam melhor;
pode se desorganizar mais facilmente frente a estímulos cotidianos;
apresenta limiar sensorial mais baixo em alguns sistemas.
Observação clínica – sensibilidade sensorial
Esse achado é coerente com:
irritabilidade aumentada;
explosões mais rápidas;
menor tolerância à espera;
desorganização frente a incômodos;
reatividade corporal e emocional mais intensa;
baixa tolerância a variações do ambiente.
Clinicamente, isso ajuda a entender por que Daniel pode parecer “muito explosivo” em
situações que, para outras crianças, seriam mais manejáveis.
4. Baixo Registro (Registration)
Daniel apresentou escore em faixa mais que outros (Percentil 82), sugerindo que, em
alguns contextos, pode apresentar falhas na detecção ou integração de estímulos,
especialmente quando há competição de demandas ou quando o foco está
excessivamente direcionado a interesses próprios.
Esse padrão pode coexistir com hipersensibilidade em perfis sensoriais mistos, o que é
clinicamente bastante comum em quadros do neurodesenvolvimento.
Observação clínica – baixo registro
Na prática, isso pode se manifestar como:
parecer não responder prontamente a alguns comandos;
oscilar entre hiperreatividade e aparente “desligamento”;
perder parte do ambiente quando hiperfocado;
ter dificuldade em integrar múltiplas demandas simultaneamente.
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Esse dado é muito coerente com a combinação de:
hiperfoco
desatenção
rigidez
oscilação regulatória
6.3.2. PERFIL SENSORIAL 2 – ANÁLISE POR SISTEMAS SENSORIAIS
Tabela 6 – Perfil Sensorial 2 – Sistemas sensoriais específicos
Sistema Sensorial / Área Funcional Escore Bruto Percentil Classificação
Auditivo 27 88 Mais que outros
Visual 19 84 Mais que outros
Tátil 31 96 Muito mais que outros
Movimento / Vestibular 28 97 Muito mais que outros
Corporal / Proprioceptivo 23 90 Muito mais que outros
Oral / Alimentação 29 98 Muito mais que outros
Interpretação clínica geral: Os sistemas mais impactados foram tátil,
vestibular/movimento, proprioceptivo e oral, compondo um perfil de alta relevância
clínica para compreensão da seletividade alimentar, agitação motora, necessidade de
movimento, reatividade corporal e recusa a experiências sensoriais específicas.
Análise detalhada por sistemas sensoriais
Sistema Auditivo
Daniel apresentou resultado em faixa mais que outros (Percentil 88), sugerindo
reatividade auditiva aumentada em alguns contextos.
Isso pode se manifestar como:
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irritabilidade em ambientes mais ruidosos;
distração aumentada por sons;
piora da organização em contextos com muitos estímulos auditivos;
menor tolerância a barulho quando já está desregulado.
Observação clínica – auditivo
Mesmo quando não há relato de hipersensibilidade auditiva extrema, o padrão sugere
que o processamento auditivo ambiental pode contribuir para:
aumento da distração;
irritabilidade;
piora da autorregulação;
redução da permanência em atividade.
Sistema Visual
Resultado em faixa mais que outros (Percentil 84).
Esse dado é coerente com:
atração por estímulos visuais específicos;
observação de objetos girando;
foco intenso em elementos visuais de interesse;
hiperfoco em conteúdos visuais repetitivos.
Observação clínica – visual
Daniel mostrou:
atração por elementos visuais específicos;
interesse por repetição de estímulos visuais;
tendência a focalizar estímulos preferidos em detrimento de outros elementos do
ambiente.
Sistema Tátil
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Resultado em faixa muito mais que outros (Percentil 96), indicando impacto sensorial
tátil importante.
Esse é um dos sistemas mais alterados no caso e ajuda a explicar:
desconforto com determinadas roupas;
seletividade por texturas;
reatividade a toques;
resistência a experiências táteis;
aumento de irritabilidade em situações corporais desconfortáveis.
Observação clínica – tátil
A sensibilidade tátil de Daniel é clinicamente relevante e deve ser considerada central
no manejo, pois pode estar diretamente relacionada a:
recusa,
explosões,
oposição aparente,
evitação,
dificuldade de transição.
Sistema de Movimento / Vestibular
Resultado em faixa muito mais que outros (Percentil 97), indicando necessidade
aumentada de movimento e/ou forte reatividade a experiências corporais dinâmicas.
Esse resultado é altamente coerente com:
agitação motora importante;
inquietação;
dificuldade em permanecer parado;
busca por movimento;
necessidade de alternância corporal para autorregulação.
Observação clínica – vestibular
Esse é um dos achados mais coerentes com o comportamento observado em sessão.
Daniel demonstrou:
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necessidade de se mover;
oscilação postural;
dificuldade de sustentação estática;
melhor resposta quando podia alternar demanda cognitiva e movimento.
Sistema Corporal / Proprioceptivo
Resultado em faixa muito mais que outros (Percentil 90).
Esse padrão pode se associar a:
busca de pressão / movimento / ação corporal;
necessidade de estímulos corporais mais intensos;
desorganização quando há pouca regulação do corpo;
impacto sobre modulação motora e autorregulação.
Observação clínica – proprioceptivo
Daniel parece se beneficiar de:
organização corporal,
previsibilidade,
mediação sensório-motora,
alternância entre demanda e regulação física.
Sistema Oral / Alimentação
Resultado em faixa muito mais que outros (Percentil 98), configurando um dos eixos
mais alterados.
Esse achado é extremamente consistente com:
seletividade alimentar importante;
rigidez alimentar;
recusa de texturas;
dificuldade em aceitar novos alimentos;
manutenção de padrões restritos de alimentação.
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Observação clínica – oral
A seletividade alimentar de Daniel apresenta forte base sensorial, e não deve ser
interpretada apenas como comportamento opositor.
Esse é um ponto central para o plano terapêutico e para orientação familiar.
6.3.3. IMPACTO FUNCIONAL DO PERFIL SENSORIAL SOBRE
COMPORTAMENTO E REGULAÇÃO
A análise integrada do Perfil Sensorial 2 evidencia que o funcionamento sensorial de
Daniel não é apenas um dado complementar, mas sim um eixo central de
compreensão clínica do caso.
As alterações sensoriais observadas contribuem diretamente para:
crises de irritabilidade;
explosões comportamentais;
oposição aparente;
resistência a comandos;
recusa a transições;
rigidez em rotinas;
seletividade alimentar;
dificuldade de permanência;
agitação motora;
dificuldade de autorregulação emocional;
menor tolerância a frustração.
Leitura clínica importante
Em Daniel, parte do comportamento interpretado externamente como:
“teimosia”,
“desobediência”,
“birra”,
“não quer”
precisa ser compreendido, em muitos contextos, como:
sobrecarga sensorial,
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evitação sensorial,
dificuldade de modulação,
busca sensorial desorganizada,
baixa capacidade de autorregulação diante de estímulos internos e externos.
Esse ponto é muito importante no laudo, porque diferencia um olhar superficial de um
olhar neuropsicológico aprofundado.
6.3.4. SÍNTESE INTEGRADA DA ÁREA – PROCESSAMENTO SENSORIAL
A integração dos resultados do Perfil Sensorial 2, associada à observação clínica e à
anamnese, indica que Daniel apresenta alterações sensoriais clinicamente
significativas, com padrão de modulação sensorial atípico e impacto funcional
importante.
Os principais achados foram:
busca sensorial intensa;
hipersensibilidade sensorial importante;
esquiva sensorial relevante;
oscilação de registro sensorial;
alterações marcantes nos sistemas:
o tátil
o vestibular / movimento
o proprioceptivo
o oral / alimentação
Conclusão da área
Em síntese, os resultados desta área evidenciam um perfil sensorial atípico e
clinicamente relevante, com alterações importantes de modulação sensorial,
caracterizado por combinação de busca sensorial elevada, hipersensibilidade, esquiva e
instabilidade regulatória. Tais achados impactam diretamente o comportamento, a
tolerância à frustração, a adaptação a mudanças, a seletividade alimentar, a permanência
em atividades e a regulação emocional, sendo altamente coerentes com um quadro de
neurodesenvolvimento atípico e frequentemente observados em crianças com sinais
compatíveis com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e alterações executivas
associadas.
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6.4. ANÁLISE DETALHADA DOS RESULTADOS
ATENÇÃO, HIPERATIVIDADE, IMPULSIVIDADE E FUNÇÕES EXECUTIVAS
A investigação das habilidades atencionais, do controle inibitório, da hiperatividade, da
impulsividade e das funções executivas de Daniel constituiu eixo central da presente
avaliação, uma vez que os relatos familiares, escolares e clínicos apontavam para
prejuízos importantes em:
manutenção do foco;
resposta a comandos;
permanência em tarefas;
organização do comportamento;
espera;
controle de impulsos;
tolerância à frustração;
flexibilidade cognitiva;
monitoramento do erro;
regulação do comportamento diante de regras;
capacidade de adaptação a mudanças;
autorregulação emocional frente a demandas.
Considerando a faixa etária do paciente (4 anos e 9 meses), a análise desta área foi
realizada por meio de instrumentos padronizados por heterorrelato, tarefas
neuropsicológicas lúdicas compatíveis com o desenvolvimento pré-escolar e
observação clínica estruturada, uma vez que, nesta fase, a compreensão do
funcionamento executivo deve ser prioritariamente ecológica e qualitativa, articulando o
desempenho formal com a funcionalidade cotidiana.
Foram utilizados nesta área:
SNAP-IV
Labirintos
Tarefas lúdicas de atenção sustentada e seletiva
Tarefas lúdicas de controle inibitório
Tarefas lúdicas de flexibilidade cognitiva
Tarefas lúdicas de memória operacional funcional
Observação clínica neuropsicológica estruturada
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6.4.1. SNAP-IV
Objetivo do instrumento
O SNAP-IV é um instrumento de rastreio comportamental amplamente utilizado para
investigação de sintomas compatíveis com Transtorno do Déficit de
Atenção/Hiperatividade (TDAH) e comportamentos opositores/desafiadores, por
meio de heterorrelato. O instrumento permite analisar, de forma dimensional:
sintomas de desatenção;
sintomas de hiperatividade/impulsividade;
indicadores de oposição/desafio;
intensidade e frequência dos comportamentos no cotidiano.
No caso de Daniel, o SNAP-IV foi utilizado como importante marcador clínico de
rastreio, sendo interpretado em conjunto com observação clínica, anamnese e demais
instrumentos.
Tabela 7 – SNAP-IV – Resultados por domínio
Pontuação Média por Percentil
Domínio Classificação
Total Item Clínico
Clinicamente
Desatenção 22/27 2,44 96
significativo
Hiperatividade / Clinicamente
24/27 2,67 98
Impulsividade significativo
Clinicamente
Oposição / Desafio 19/24 2,38 95
significativo
Índice Global de Sintomas
— — 97 Elevado
Externalizantes
Observação técnica: Os resultados do SNAP-IV apontam elevação clínica importante
nos três domínios avaliados, com destaque para hiperatividade/impulsividade e
desatenção, sugerindo forte compatibilidade com perfil de TDAH, além de importante
presença de comportamento opositor/desafiador.
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Descrição e interpretação detalhada do SNAP-IV
Domínio de Desatenção
Daniel apresentou escore em faixa clinicamente significativa (Percentil 96), indicando
prejuízo relevante na capacidade de:
sustentar atenção;
manter-se em atividade até o final;
ouvir e seguir instruções;
organizar a resposta diante de demandas;
evitar distrações;
manter constância atencional;
sustentar esforço mental em atividades menos motivadoras.
Esse padrão é coerente com os relatos de:
não terminar o que começa;
dificuldade em seguir comandos;
oscilação rápida entre atividades;
perda de foco quando a tarefa não é de interesse;
maior adesão apenas quando há gratificação imediata;
aparente “não escutar” em alguns momentos.
Observação clínica – desatenção
Durante a avaliação, Daniel apresentou:
atenção sustentada reduzida;
necessidade frequente de redirecionamento;
oscilação entre engajamento e dispersão;
piora importante em tarefas mais longas;
redução da persistência quando a demanda exigia esforço contínuo;
tendência a abandonar a tarefa ao perceber aumento de dificuldade.
Clinicamente, a desatenção de Daniel não se mostrou apenas situacional, mas
consistente, recorrente e funcionalmente impactante, embora intensificada por
fatores sensoriais e emocionais.
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Domínio de Hiperatividade / Impulsividade
Daniel apresentou escore em faixa clinicamente significativa importante (Percentil
98), sendo este um dos domínios mais elevados do protocolo.
Esse resultado é altamente compatível com:
agitação motora intensa;
dificuldade em permanecer sentado;
necessidade constante de movimento;
respostas precipitadas;
interrupções;
dificuldade de esperar;
imediatismo;
baixa inibição motora e verbal;
impulsividade diante de regras e limites.
Observação clínica – hiperatividade/impulsividade
Durante as sessões, observou-se:
movimentação frequente e excessiva;
dificuldade em permanecer em posição estável;
tendência a responder antes da finalização da instrução;
impulsividade na manipulação dos materiais;
pressa em iniciar e encerrar atividades;
baixa capacidade de espera;
necessidade de repetidas mediações para conter precipitação.
Esse padrão se mostrou robusto, persistente e clinicamente expressivo, sustentando
fortemente sinais compatíveis com TDAH.
Domínio de Oposição / Desafio
Daniel apresentou escore em faixa clinicamente significativa (Percentil 95), indicando
presença importante de:
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resistência a comandos;
irritabilidade;
argumentação;
oposição a limites;
reatividade diante de negativa;
tendência a desafiar ou confrontar demandas;
dificuldade em aceitar mediação.
Observação clínica – oposição/desafio
É fundamental destacar que, no caso de Daniel, o comportamento opositor:
não se apresenta como eixo isolado;
surge frequentemente associado a:
o frustração,
o rigidez,
o impulsividade,
o desorganização emocional,
o sobrecarga sensorial,
o dificuldade em lidar com mudança.
Portanto, embora haja sinais clinicamente relevantes de padrão opositor-desafiador,
a leitura clínica exige cautela para não reduzir o caso a “apenas TOD”, pois o
comportamento opositor parece secundário e interligado a um quadro mais amplo do
neurodesenvolvimento.
Interpretação clínica global do SNAP-IV
O SNAP-IV evidenciou elevação clínica importante em:
desatenção,
hiperatividade/impulsividade,
oposição/desafio.
Síntese clínica do SNAP-IV
Os resultados do SNAP-IV sustentam a presença de sintomas comportamentais
clinicamente significativos compatíveis com Transtorno do Déficit de
Atenção/Hiperatividade (TDAH), com destaque para importante
hiperatividade/impulsividade associada a prejuízo atencional funcional, além de padrão
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opositor-desafiador relevante. A leitura integrada sugere que tais sintomas se
manifestam de forma intensa, persistente e funcionalmente impactante, exigindo
diferenciação clínica em relação aos efeitos secundários da rigidez, da desregulação
emocional e do processamento sensorial alterado.
6.4.2. LABIRINTOS
Objetivo do procedimento
A tarefa de Labirintos foi utilizada como recurso neuropsicológico complementar para
investigação de:
planejamento motor-cognitivo;
antecipação de trajetos;
controle inibitório;
monitoramento do erro;
persistência;
impulsividade motora;
organização visuoespacial sob regra;
autorregulação diante de tarefa estruturada.
Embora não constitua, isoladamente, um marcador diagnóstico, sua interpretação
qualitativa é extremamente útil em crianças pequenas, especialmente na análise de
funções executivas.
Tabela 8 – Labirintos – Desempenho qualitativo estruturado
Percentil
Desempenho Classificação
Variável Analisada Clínico
Observado Clínica
Estimado
Abaixo do
Planejamento inicial Reduzido / oscilante 16
esperado
Controle inibitório Clinicamente
Prejudicado 9
motor rebaixado
Monitoramento do erro Reduzido 12 Abaixo do
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Percentil
Desempenho Classificação
Variável Analisada Clínico
Observado Clínica
Estimado
esperado
Persistência até Oscilante / baixa
18 Limítrofe inferior
conclusão tolerância
Organização Preservada com Média inferior
37
visuoespacial sob regra interferência executiva funcional
Desempenho executivo Prejudic Clinicamente
10
global na tarefa ado por impulsividade relevante
Observação técnica: Em razão da faixa etária, a leitura dos Labirintos foi realizada
com foco prioritariamente qualitativo-clínico, sendo os percentis apresentados como
estimativas clínicas interpretativas, integradas à observação do comportamento
durante a execução.
Descrição e interpretação detalhada dos Labirintos
Daniel demonstrou compreender a lógica geral da atividade e mostrou-se capaz de
iniciar a tarefa com intenção adequada. Contudo, ao longo da execução, foram
observados:
início precipitado sem análise suficiente do trajeto;
tendência a avançar antes de planejar;
maior número de erros por impulsividade;
dificuldade em interromper movimento incorreto;
menor monitoramento do próprio erro;
necessidade de mediação externa;
frustração diante da dificuldade;
desejo de desistir ou apressar a conclusão.
Observação clínica – Labirintos
Do ponto de vista neuropsicológico, a tarefa evidenciou:
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compreensão da proposta preservada;
potencial visuoespacial adequado;
dificuldade importante em planejamento executivo;
baixa inibição motora;
baixa revisão da resposta;
persistência reduzida diante de aumento da complexidade.
Esse padrão é altamente coerente com:
TDAH com prejuízo executivo
baixa tolerância à frustração
necessidade de resposta imediata
autorregulação imatura
6.4.3. TAREFAS LÚDICAS DE ATENÇÃO SUSTENTADA E SELETIVA
Objetivo do procedimento
As tarefas lúdicas de atenção foram utilizadas para investigar, em contexto ecológico e
compatível com a faixa etária:
manutenção do foco ao longo do tempo;
seleção de estímulos relevantes;
resistência à distração;
capacidade de permanecer em regra;
retomada da tarefa após redirecionamento;
constância atencional em contexto estruturado.
Tabela 9 – Atenção Sustentada e Seletiva – Desempenho clínico
Desempenho Percentil Clínico
Habilidade Classificação
Observado Estimado
Clinicamente
Atenção sustentada Prejudicada 8
rebaixada
Atenção seletiva Abaixo do esperado 14 Rebaixada
Resistência à distração Baixa 7 Clinicamente
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Desempenho Percentil Clínico
Habilidade Classificação
Observado Estimado
rebaixada
Retomada após Parcial /
18 Limítrofe inferior
redirecionamento inconsistente
Permanência em Clinicamente
Prejudicada 10
atividade relevante
Descrição e interpretação clínica
Daniel apresentou dificuldade significativa para manter-se engajado de forma contínua
em atividades que exigiam foco prolongado, especialmente quando:
a tarefa era menos motivadora;
havia necessidade de repetição;
o reforço não era imediato;
o estímulo não estava alinhado ao seu interesse.
Houve:
distração rápida;
mudança frequente de foco;
abandono parcial da atividade;
necessidade de chamadas repetidas;
queda de desempenho com o tempo.
Observação clínica – atenção
O padrão atencional observado é compatível com:
atenção sustentada reduzida
baixa resistência à distração
oscilações importantes de foco
hiperfoco seletivo em interesses específicos, com contraste importante em
relação às demandas não preferidas
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Esse último ponto é muito importante, pois Daniel pode parecer “atento” em temas de
grande interesse, mas apresentar importante prejuízo atencional funcional fora desses
contextos.
6.4.4. TAREFAS LÚDICAS DE CONTROLE INIBITÓRIO
Objetivo do procedimento
As tarefas lúdicas de inibição foram utilizadas para investigar:
capacidade de esperar;
interromper impulso motor;
conter resposta imediata;
seguir regra antes de agir;
adiar ação;
modular resposta impulsiva.
Tabela 10 – Controle Inibitório – Desempenho clínico
Desempenho Percentil Clínico
Habilidade Classificação
Observado Estimado
Clinicamente
Inibição motora Prejudicada 6
rebaixada
Inibição verbal / resposta Clinicamente
Prejudicada 9
precipitada rebaixada
Gravemente
Capacidade de espera Muito reduzida 5
rebaixada
Controle da Clinicamente
Prejudicado 8
impulsividade em regra rebaixado
Descrição e interpretação clínica
Daniel demonstrou importante dificuldade para:
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aguardar instruções completas;
esperar sua vez;
conter impulso de tocar/manipular;
adiar respostas;
interromper ação já iniciada;
sustentar a regra quando havia desejo imediato.
Observação clínica – controle inibitório
Esse foi um dos domínios mais comprometidos da avaliação.
A impulsividade de Daniel:
apareceu de forma transversal;
interferiu em praticamente todas as tarefas;
reduziu a qualidade do desempenho;
aumentou erros evitáveis;
intensificou frustração;
contribuiu para conflitos com regras e limites.
Esse é um achado central e fortemente compatível com TDAH.
6.4.5. TAREFAS LÚDICAS DE FLEXIBILIDADE COGNITIVA
Objetivo do procedimento
Investigar:
adaptação a mudança de regra;
alternância de critério;
aceitação de novas formas de fazer;
tolerância a transição cognitiva;
resposta a mudança inesperada;
rigidez cognitiva.
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Tabela 11 – Flexibilidade Cognitiva – Desempenho clínico
Desempenho Percentil Clínico
Habilidade Classificação
Observado Estimado
Mudança de regra Muito prejudicada 4 Gravemente rebaixada
Alternância de Clinicamente
Prejudicada 7
estratégia rebaixada
Aceitação de
Muito reduzida 3 Gravemente rebaixada
mudança
Flexibilidade Clinicamente muito
Prejudicada 5
cognitiva global relevante
Descrição e interpretação clínica
Daniel apresentou forte dificuldade em:
aceitar alteração da regra;
adaptar-se quando a tarefa mudava;
abandonar a estratégia previamente escolhida;
tolerar condução diferente da esperada;
flexibilizar resposta frente à mediação.
Observação clínica – flexibilidade
Este foi um dos eixos mais marcantes do caso e não pode ser explicado apenas por
TDAH.
A rigidez de Daniel:
é intensa;
aparece de forma transversal;
envolve cognição, comportamento, rotina e interação;
aumenta a reatividade emocional;
amplia a oposição;
sustenta fortemente a hipótese de TEA associado.
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6.4.6. TAREFAS LÚDICAS DE MEMÓRIA OPERACIONAL FUNCIONAL
Objetivo do procedimento
Investigar:
retenção breve de instruções;
manipulação de informação em tempo curto;
manutenção da regra em mente;
sequência de ações;
sustentação mental da tarefa.
Tabela 12 – Memória Operacional Funcional – Desempenho clínico
Desempenho Percentil Clínico
Habilidade Classificação
Observado Estimado
Retenção de instruções Preservada com
37 Média inferior
simples oscilação
Retenção de instruções
Abaixo do esperado 16 Inferior
múltiplas
Manutenção da regra
Prejudicada 12 Rebaixada
durante a tarefa
Memória operacional
Limítrofe inferior 18 Vulnerável
funcional global
Descrição e interpretação clínica
Daniel conseguiu reter instruções simples, sobretudo quando:
curtas,
concretas,
imediatamente reforçadas.
Entretanto, quando a tarefa exigia:
manter mais de uma regra,
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lembrar sequência,
sustentar a instrução por mais tempo,
resistir à impulsividade,
o desempenho caiu de forma importante.
Observação clínica – memória operacional
A memória operacional mostrou-se secundariamente impactada por:
desatenção,
impulsividade,
dificuldade de permanência,
baixa tolerância à espera,
rigidez quando a tarefa fugia do padrão esperado.
6.4.7. OBSERVAÇÃO CLÍNICA INTEGRADA DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS
A observação clínica integrada desta área evidenciou que Daniel apresenta prejuízo
funcional importante em:
controle inibitório;
sustentação atencional;
permanência em tarefas;
autorregulação;
flexibilidade cognitiva;
aceitação de mudança;
persistência diante da dificuldade;
monitoramento do erro;
tolerância à frustração;
capacidade de esperar;
organização do comportamento diante de regras.
Do ponto de vista qualitativo, observou-se:
impulsividade transversal;
necessidade de repetidas mediações;
oscilação entre engajamento e evasão;
comportamento de resposta imediata;
frustração rápida;
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queda de desempenho quando a demanda se prolongava;
aumento da oposição quando precisava interromper interesse próprio;
melhor desempenho em tarefas de alto interesse;
piora expressiva quando havia exigência de espera, alternância ou mudança.
6.4.8. SÍNTESE INTEGRADA DA ÁREA – ATENÇÃO, HIPERATIVIDADE,
IMPULSIVIDADE E FUNÇÕES EXECUTIVAS
A integração dos dados obtidos no SNAP-IV, Labirintos, tarefas lúdicas
neuropsicológicas e observação clínica estruturada evidencia um padrão consistente
de alterações clinicamente significativas em:
atenção sustentada
controle inibitório
hiperatividade motora
impulsividade
persistência em tarefa
monitoramento do erro
memória operacional funcional
regulação comportamental
flexibilidade cognitiva
Os achados sugerem:
Aspectos fortemente compatíveis com TDAH
desatenção funcional relevante;
hiperatividade motora importante;
impulsividade robusta;
dificuldade de permanência;
baixa capacidade de espera;
prejuízo executivo com impacto cotidiano.
Aspectos que excedem TDAH isolado
rigidez cognitiva muito marcante;
dificuldade severa com mudança de regra;
necessidade intensa de previsibilidade;
oposição frequentemente secundária à frustração e inflexibilidade;
piora importante diante de transições.
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Conclusão da área
Em síntese, os resultados desta área sustentam a presença de sinais clinicamente
significativos e robustos compatíveis com Transtorno do Déficit de
Atenção/Hiperatividade (TDAH), com importante comprometimento em atenção
sustentada, hiperatividade, impulsividade e funções executivas. Ressalta-se, contudo,
que a intensidade da rigidez cognitiva, da dificuldade de mudança e da inflexibilidade
comportamental observadas excede o que habitualmente se esperaria em um quadro de
TDAH isolado, sugerindo a coexistência de alterações do neurodesenvolvimento de
natureza mais ampla, em consonância com os indicadores compatíveis com TEA já
identificados em outras áreas da avaliação.
6.5. ANÁLISE DETALHADA DOS RESULTADOS
COMPORTAMENTO INFANTIL GLOBAL, PADRÃO OPOSITOR-DESAFIADOR,
REGULAÇÃO EMOCIONAL E SINTOMAS ANSIOSOS
A avaliação dos aspectos emocionais e comportamentais de Daniel foi realizada com
base na integração entre:
CBCL 1½–5
SNAP-IV (domínio opositor/desafiador)
investigação clínica de ansiedade infantil por heterorrelato
anamnese clínica detalhada
observação clínica neuropsicológica estruturada
análise funcional do comportamento em sessão
documentos escolares e multiprofissionais
Esta área foi considerada de elevada relevância clínica, uma vez que o funcionamento
cotidiano de Daniel apresenta importante impacto em:
relação com limites;
resposta a comandos;
tolerância à frustração;
manejo da espera;
explosividade;
irritabilidade;
oposição;
crises comportamentais;
adaptação a mudanças;
organização emocional;
comportamento em ambiente escolar;
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qualidade das relações familiares e sociais.
Em crianças pequenas com alterações do neurodesenvolvimento, os sintomas
comportamentais e emocionais devem ser compreendidos de forma multifatorial,
especialmente quando coexistem:
rigidez cognitiva,
hiperatividade,
impulsividade,
alterações sensoriais,
dificuldades de comunicação social,
baixa capacidade de autorregulação.
Portanto, a leitura desta área foi realizada de forma integrada, evitando interpretações
reducionistas.
6.5.1. CBCL 1½–5 (Child Behavior Checklist)
Objetivo do instrumento
O CBCL 1½–5 é um instrumento padronizado de rastreio comportamental e emocional
por heterorrelato, amplamente utilizado na avaliação clínica infantil. Ele permite
investigar:
síndromes emocionais e comportamentais;
sintomas internalizantes;
sintomas externalizantes;
problemas de atenção;
comportamento agressivo;
regulação emocional;
retraimento;
queixas somáticas;
dificuldades de sono;
perfil global de ajustamento emocional e comportamental.
No presente caso, o CBCL foi utilizado para caracterizar a intensidade, frequência e
impacto funcional dos sintomas emocionais e comportamentais de Daniel.
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Tabela 13 – CBCL 1½–5 – Escalas Sindrômicas
Escala Sindrômica Escore Bruto T-Score Percentil Classificação
Reatividade Emocional 10 74 99 Clínica
Ansiedade / Depressão 9 70 98 Clínica
Queixas Somáticas 4 61 86 Limítrofe
Retraimento 5 63 90 Limítrofe
Problemas de Sono 6 67 95 Limítrofe-clínica
Problemas de Atenção 12 78 >99 Clínica grave
Comportamento Agressivo 20 79 >99 Clínica grave
Observação técnica: T-Scores acima de 64 indicam faixa limítrofe; acima de 69
indicam faixa clínica. No caso de Daniel, observa-se elevação clínica importante,
especialmente em Problemas de Atenção, Comportamento Agressivo, Reatividade
Emocional e Ansiedade/Depressão.
Tabela 14 – CBCL 1½–5 – Escalas Amplas
Escala Ampla T-Score Percentil Classificação
Internalizantes 69 97 Limítrofe superior / Clinicamente relevante
Externalizantes 78 >99 Clínica grave
Total de Problemas 76 >99 Clínica grave
Tabela 15 – CBCL 1½–5
Escore T-
Escala Orientada pelo DSM Percentil Classificação
Bruto Score
Limítrofe-
Problemas Afetivos 6 67 94
clínico
Problemas de Ansiedade 7 71 98 Clínica
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Escore T-
Escala Orientada pelo DSM Percentil Classificação
Bruto Score
Problemas Invasivos do
8 73 99 Clínica
Desenvolvimento
Problemas de Déficit de Atenção /
9 78 >99 Clínica grave
Hiperatividade
Problemas Opositores Desafiadores 8 74 99 Clínica
Observação técnica: A escala “Problemas Invasivos do Desenvolvimento” do CBCL,
embora não substitua instrumentos específicos de TEA, mostrou-se clinicamente
elevada e coerente com os achados do PROTEA-R e SRS-2, fortalecendo a
convergência entre múltiplas fontes.
6.5.2. ANÁLISE DETALHADA DAS ESCALAS DO CBCL
Reatividade Emocional
Daniel apresentou escore em faixa clínica (T=74), indicando importante instabilidade
na resposta emocional.
Esse achado é compatível com:
explosões rápidas;
intensidade emocional aumentada;
baixa tolerância à frustração;
dificuldade de retorno ao estado basal;
desorganização diante de negativas;
maior vulnerabilidade a mudanças e contrariedades.
Observação clínica – reatividade emocional
Durante a avaliação, Daniel mostrou:
variações rápidas de humor diante de pequenas frustrações;
dificuldade em aceitar correções;
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aumento da irritabilidade quando contrariado;
tendência a intensificar o comportamento quando não atendido imediatamente;
dificuldade em modular a intensidade da resposta emocional.
Esse foi um dos eixos mais clinicamente evidentes do caso.
Ansiedade / Depressão
Daniel apresentou escore em faixa clínica (T=70), com presença de sintomas ansiosos
relevantes para a faixa etária.
Na infância pré-escolar, sintomas ansiosos frequentemente se expressam por:
rigidez,
necessidade de previsibilidade,
sofrimento diante de mudança,
medo excessivo,
aumento da irritabilidade,
necessidade de controle,
dificuldade com separação ou transição,
maior sofrimento antecipatório.
Observação clínica – ansiedade
No caso de Daniel, os sinais ansiosos não se apresentam como um quadro isolado de
ansiedade generalizada clássica, mas como um padrão ansioso associado ao
neurodesenvolvimento, manifestado por:
necessidade intensa de controle;
repetição de perguntas;
sofrimento antecipatório;
dificuldade de esperar;
piora diante do imprevisível;
aumento de reatividade quando há quebra de rotina;
busca de previsibilidade como forma de autorregulação.
Esse é um achado muito coerente com:
TEA
TDAH
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rigidez
hipersensibilidade
imaturidade regulatória
Queixas Somáticas
Resultado em faixa limítrofe (T=61).
Embora não constitua o eixo central do caso, pode refletir:
expressão corporal do desconforto;
sensibilidade aumentada;
baixa tolerância a sensações físicas;
maior percepção corporal de incômodos.
Retraimento
Resultado em faixa limítrofe (T=63).
Esse dado é coerente com um perfil em que:
a criança não é socialmente ausente,
mas pode oscilar entre busca de contato e afastamento,
especialmente quando frustrada, sobrecarregada ou desorganizada.
Esse padrão é muito compatível com o perfil já visto na área de TEA:
há interesse social, porém com qualidade relacional inconsistente.
Problemas de Sono
Resultado em faixa limítrofe-clínica (T=67).
Esse achado é clinicamente relevante, pois alterações de sono em crianças com perfil de
neurodesenvolvimento atípico frequentemente:
pioram impulsividade,
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aumentam irritabilidade,
reduzem tolerância à frustração,
intensificam explosões,
prejudicam regulação ao longo do dia.
Problemas de Atenção
Daniel apresentou escore em faixa clínica grave (T=78).
Esse resultado é altamente convergente com:
SNAP-IV
observação clínica
tarefas atencionais
desempenho em tarefas estruturadas
Observação clínica – atenção
A desatenção de Daniel:
é funcionalmente significativa;
impacta rotina e aprendizagem;
piora fora de temas de interesse;
é consistente com TDAH;
é intensificada por hiperfoco e rigidez.
Comportamento Agressivo
Daniel apresentou escore em faixa clínica grave (T=79), indicando importante impacto
comportamental no domínio externalizante.
Esse achado é compatível com:
explosões;
reatividade intensa;
agressividade reativa;
oposição;
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irritabilidade elevada;
respostas desproporcionais à frustração;
baixa modulação da raiva.
Observação clínica – comportamento agressivo
parece predominantemente reativa, e não instrumental;
surge em contextos de:
o frustração,
o interrupção,
o limite,
o transição,
o sobrecarga sensorial,
6.5.3. INVESTIGAÇÃO CLÍNICA DO PADRÃO OPOSITOR-DESAFIADOR (TOD)
A investigação do padrão opositor-desafiador foi realizada por meio de:
SNAP-IV (domínio oposição/desafio)
CBCL – escala orientada pelo DSM para Problemas Opositores
Desafiadores
anamnese clínica
observação clínica
análise funcional do comportamento
Tabela 16 – Síntese clínica do padrão opositor-desafiador
Percentil / T-
Domínio / Fonte Resultado Classificação
score
Clinicamente
SNAP-IV – Oposição/Desafio Elevado Percentil 95
significativo
CBCL – Problemas Opositores
Elevado T=74 / P99 Clínica
Desafiadores
Observação clínica em sessão Presente — Clinicamente relevante
Impacto funcional
Relato funcional familiar/escolar Presente —
importante
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Descrição clínica do padrão opositor
Daniel apresenta:
resistência frequente a comandos;
necessidade de confrontar ou evitar demandas;
irritabilidade quando contrariado;
baixa aceitação de limite;
tendência a intensificar o comportamento quando há negativa;
dificuldade de seguir orientações sem oposição;
comportamento desafiador em contextos de frustração.
Observação clínica – padrão opositor
Contudo, é essencial registrar que, neste caso, o comportamento opositor:
não parece primário de forma isolada;
surge frequentemente como resposta secundária a:
o rigidez cognitiva,
o impulsividade,
o hipersensibilidade,
o dificuldade de mudança,
o sofrimento antecipatório,
o baixa autorregulação.
6.5.4. INVESTIGAÇÃO CLÍNICA DOS SINTOMAS ANSIOSOS
A análise dos sintomas ansiosos foi baseada em:
CBCL – Ansiedade/Depressão
CBCL – Problemas de Ansiedade
anamnese clínica
observação clínica
padrão comportamental diante de imprevisibilidade e mudança
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Tabela 17 – Síntese clínica dos sintomas ansiosos
Percentil / T-
Fonte / Domínio Resultado Classificação
score
CBCL – Ansiedade/Depressão Elevado T=70 / P98 Clínica
CBCL – Problemas de
Elevado T=71 / P98 Clínica
Ansiedade (DSM)
Observação clínica Presente — Clinicamente relevante
Impacto funcional
Anamnese / rotina Presente —
significativo
Descrição clínica da ansiedade
Daniel apresenta sinais ansiosos que se expressam predominantemente por:
necessidade intensa de previsibilidade;
sofrimento diante de mudanças;
repetição de perguntas;
antecipação excessiva;
necessidade de controle;
piora comportamental quando não sabe “o que vai acontecer”;
maior rigidez quando inseguro;
aumento de irritabilidade em situações novas ou incertas.
Observação clínica – ansiedade
Clinicamente, os sintomas ansiosos de Daniel:
parecem fortemente associados ao neurodesenvolvimento;
intensificam rigidez;
ampliam oposição;
pioram tolerância à frustração;
aumentam a necessidade de controle;
potencializam explosões.
Portanto, trata-se de um padrão ansioso real e clinicamente relevante, ainda que
possivelmente secundário/associado ao funcionamento atípico do
neurodesenvolvimento.
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6.5.5. OBSERVAÇÃO CLÍNICA INTEGRADA DA REGULAÇÃO EMOCIONAL
A observação clínica desta área evidenciou que Daniel apresenta:
baixa tolerância à frustração;
resposta emocional intensa e rápida;
dificuldade de espera;
necessidade de gratificação imediata;
elevação da irritabilidade quando contrariado;
dificuldade em aceitar erro;
dificuldade em interromper atividade de interesse;
baixa capacidade de reorganização espontânea;
necessidade de mediação externa frequente;
tendência à escalada comportamental quando a demanda aumenta.
Interpretação clínica
O funcionamento emocional de Daniel não sugere apenas “temperamento difícil”.
O que se observa é um padrão de:
imaturidade regulatória importante
hiperreatividade emocional
baixa modulação da raiva
intensa dificuldade em tolerar imprevisibilidade
resposta desproporcional a mudanças e limites
Esse padrão é muito coerente com:
TEA
TDAH
alterações sensoriais
ansiedade associada
padrão opositor secundário
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6.5.6. SÍNTESE INTEGRADA DA ÁREA – COMPORTAMENTO GLOBAL, TOD,
REGULAÇÃO EMOCIONAL E ANSIEDADE
A integração dos dados obtidos no CBCL 1½–5, SNAP-IV, investigação clínica,
anamnese e observação estruturada evidencia que Daniel apresenta:
comportamento externalizante em nível clinicamente grave
reatividade emocional importante
baixa tolerância à frustração
comportamento agressivo reativo
padrão opositor-desafiador clinicamente significativo
sintomas ansiosos clinicamente relevantes
importante prejuízo na autorregulação emocional
Os resultados indicam:
Sinais compatíveis com TOD
resistência a comandos;
oposição frequente;
irritabilidade;
comportamento desafiador;
impacto funcional importante.
Sinais compatíveis com ansiedade
necessidade intensa de previsibilidade;
sofrimento diante de mudanças;
controle excessivo;
repetição de perguntas;
piora emocional diante de incerteza;
hiperreatividade.
Conclusão da área
Em síntese, os resultados desta área sustentam a presença de sinais clinicamente
significativos compatíveis com padrão opositor-desafiador (TOD), associados a
desregulação emocional importante, baixa tolerância à frustração e sintomas
ansiosos clinicamente relevantes para a faixa etária. Ressalta-se, contudo, que tais
manifestações não devem ser compreendidas como fenômenos isolados, mas sim como
parte de um quadro mais amplo do neurodesenvolvimento, no qual impulsividade,
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rigidez cognitiva, alterações sensoriais, dificuldades de comunicação social e
necessidade aumentada de previsibilidade atuam de forma interdependente,
intensificando a apresentação comportamental.
6.6. ANÁLISE DETALHADA DOS RESULTADOS
LINGUAGEM FUNCIONAL, COMUNICAÇÃO PRAGMÁTICA, BRINCAR,
FUNCIONALIDADE ADAPTATIVA E IMPACTO ESCOLAR
A presente área foi analisada a partir de:
observação clínica neuropsicológica estruturada
anamnese clínica com os responsáveis
análise documental multiprofissional
observação do brincar funcional e simbólico
observação da linguagem espontânea e dirigida
análise ecológica do funcionamento em ambiente familiar e escolar
Essa etapa é especialmente importante no caso de Daniel, pois seus prejuízos não se
expressam apenas em escores formais, mas principalmente na forma como suas
dificuldades impactam:
a qualidade da comunicação social;
a adaptação a regras;
a convivência com pares;
a permanência em atividades;
a flexibilidade na brincadeira;
a rotina familiar;
o processo de aprendizagem;
a autonomia e funcionalidade diária.
6.6.1. LINGUAGEM FUNCIONAL E COMUNICAÇÃO PRAGMÁTICA
Objetivo da análise
Sob enfoque neuropsicológico, buscou-se investigar qualitativamente:
intenção comunicativa;
compreensão funcional de ordens;
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expressão verbal espontânea;
manutenção de turnos conversacionais;
organização pragmática da linguagem;
reciprocidade comunicativa;
uso social da linguagem;
modulação prosódica observável;
integração entre comunicação verbal e não verbal.
Ressalta-se que esta análise foi realizada sob perspectiva funcional e
neuropsicológica, não tendo a finalidade de substituir avaliação fonoaudiológica
estrutural.
Tabela 18 – Linguagem funcional e comunicação pragmática – análise clínica
qualitativa
Percentil
Desempenho Classificação
Domínio Avaliado Clínico
Observado Clínica
Estimado
Dentro do
Intenção comunicativa Presente 50
esperado
Compreensão de ordens Dentro do
Preservada 50
simples esperado
Compreensão de ordens com
Oscilante 18 Vulnerável
maior manutenção atencional
Média inferior
Expressão verbal funcional Presente 37
funcional
Manutenção de diálogo /
Prejudicada 12 Rebaixada
turnos conversacionais
Clinicamente
Pragmática da comunicação Prejudicada 9
relevante
Prosódia / modulação Atípica em alguns Clinicamente
10
comunicativa momentos relevante
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Percentil
Desempenho Classificação
Domínio Avaliado Clínico
Observado Clínica
Estimado
Integração entre comunicação
Inconsistente 14 Rebaixada
verbal e não verbal
Observação técnica: Em razão da faixa etária, os dados acima possuem caráter clínico-
qualitativo estimativo, construídos a partir da observação neuropsicológica integrada, e
não de mensuração padronizada formal de linguagem estrutural.
Descrição e interpretação clínica da linguagem funcional
Daniel apresentou linguagem verbal funcional, sendo capaz de:
expressar desejos e necessidades;
responder a perguntas simples;
comentar situações;
nomear objetos;
participar de interações breves;
utilizar linguagem em contexto de interesse.
Esse dado é importante, pois demonstra que não se trata de uma criança sem fala ou sem
iniciativa comunicativa. Entretanto, a qualidade da comunicação mostrou-se
qualitativamente atípica em vários momentos, especialmente no domínio pragmático.
Foram observados:
maior comunicação quando o tema era de interesse próprio;
dificuldade em sustentar diálogo por mais tempo;
menor flexibilidade na troca comunicativa;
oscilação importante na manutenção dos turnos;
comunicação por vezes autocentrada;
redução da qualidade interacional quando havia frustração;
contato visual inconsistente acompanhando a comunicação;
momentos de modulação prosódica atípica;
presença de barulhinhos e estereotipias de fala em alguns contextos.
Observação clínica – linguagem e comunicação
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Do ponto de vista clínico, Daniel:
fala,
se comunica,
tem intenção comunicativa,
mas a qualidade social da linguagem não se mostra plenamente típica, sobretudo em:
reciprocidade;
pragmática;
sustentação da interação;
modulação da comunicação ao contexto social.
Síntese clínica da linguagem
Daniel apresenta linguagem verbal funcional preservada em nível comunicativo básico,
porém com prejuízos qualitativos importantes na comunicação pragmática, na
reciprocidade interacional e na integração entre linguagem verbal e não verbal, achados
coerentes com alterações do neurodesenvolvimento já evidenciadas em outras áreas da
avaliação.
6.6.2. BRINCAR FUNCIONAL, BRINCAR SIMBÓLICO E INTERAÇÃO LÚDICA
Objetivo da análise
Investigar:
presença de brincar funcional;
capacidade simbólica;
imaginação;
compartilhamento do brincar;
aceitação da mediação do outro;
flexibilidade lúdica;
variação temática;
controle da brincadeira;
qualidade da interação durante o brincar.
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Tabela 19 – Brincar funcional e simbólico – análise clínica qualitativa
Desempenho Percentil Clínico Classificação
Domínio Avaliado
Observado Estimado Clínica
Brincar funcional Presente 50 Dentro do esperado
Brincar simbólico / Dentro do esperado
Presente 37
imaginativo funcional
Criatividade lúdica Presente 37 Adequada
Compartilhamento do
Oscilante 16 Vulnerável
brincar
Aceitação da mediação do
Prejudicada 12 Rebaixada
outro
Flexibilidade temática / Clinicamente
Prejudicada 9
de enredo relevante
Tolerância à mudança no Gravemente
Muito reduzida 5
brincar rebaixada
Reciprocidade lúdica Inconsistente 14 Rebaixada
Descrição e interpretação clínica do brincar
Daniel demonstrou presença de brincar funcional e simbólico, sendo capaz de:
atribuir função aos objetos;
engajar-se em faz de conta;
usar personagens e temas;
participar de narrativas simples;
demonstrar imaginação e criatividade.
Esse dado é muito importante e precisa aparecer no laudo, pois evidencia preservação
de repertório simbólico e afasta uma leitura simplista de empobrecimento global do
brincar.
Entretanto, a qualidade do brincar mostrou-se prejudicada em dimensões qualitativas
importantes:
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tendência a brincar “do jeito dele”;
dificuldade em aceitar mudanças propostas pelo outro;
menor tolerância à mediação;
insistência em temas de interesse;
menor flexibilidade de enredo;
maior desorganização quando contrariado;
possibilidade de brincar mais paralelamente ou sob forte controle próprio;
dificuldade de manter brincadeira cooperativa quando há frustração.
Observação clínica – brincar
Clinicamente, Daniel brinca, imagina e simboliza, porém:
apresenta rigidez no brincar;
tenta controlar o curso da atividade;
mostra dificuldade em flexibilizar;
tem redução da reciprocidade lúdica em situações de contrariedade.
Esse padrão é muito coerente com o restante do perfil:
há competência simbólica, mas com prejuízo qualitativo na flexibilidade social do
brincar.
Síntese clínica do brincar
O brincar funcional e simbólico de Daniel encontra-se presente, com repertório
imaginativo e capacidade de uso representacional dos objetos. Contudo, observam-se
prejuízos qualitativos importantes na reciprocidade lúdica, na aceitação da mediação, na
flexibilidade temática e na tolerância a mudanças durante a brincadeira, achados
coerentes com rigidez cognitiva e dificuldades de comunicação social qualitativa.
6.6.3. FUNCIONALIDADE ADAPTATIVA E ROTINA
Objetivo da análise
Compreender como os sintomas observados repercutem no cotidiano, especialmente
em:
alimentação;
higiene;
vestir-se;
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sono;
organização da rotina;
capacidade de seguir sequências;
flexibilidade adaptativa;
necessidade de supervisão;
impacto funcional do comportamento.
Tabela 20 – Funcionalidade adaptativa – análise clínica por domínios
Desempenho Percentil Clínico Classificação
Domínio Funcional
Observado Estimado Clínica
Alimentação (autonomia Parcialmente
25 Limítrofe funcional
mecânica) preservada
Alimentação (flexibilidade / Gravemente
Muito prejudicada 3
aceitação) rebaixada
Dependência
Higiene pessoal 16 Vulnerável
parcial
Parcialmente
Vestir-se / despir-se 25 Limítrofe funcional
preservado
Calçar-se / organização Abaixo do
12 Rebaixada
motora fina funcional esperado
Clinicamente
Adesão à rotina Prejudicada 8
relevante
Gravemente
Aceitação de transições Muito prejudicada 4
rebaixada
Necessidade de supervisão Clinicamente
Elevada 95
do adulto significativa
Clinicamente
Regulação funcional global Prejudicada 9
relevante
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Descrição e interpretação clínica da funcionalidade adaptativa
Os dados da anamnese e da observação indicam que Daniel possui algumas habilidades
adaptativas básicas preservadas, porém com grande oscilação funcional em razão de:
impulsividade;
rigidez;
oposição;
alterações sensoriais;
baixa tolerância à frustração;
dificuldade de seguir rotinas com constância.
Na alimentação, é importante distinguir:
capacidade mecânica de alimentar-se, parcialmente preservada,
de
aceitação alimentar funcional, bastante comprometida.
Daniel apresenta seletividade alimentar importante, com forte base sensorial e rigidez
associada, o que repercute diretamente sobre sua rotina, sobrecarga familiar e
flexibilidade adaptativa.
Na higiene e autocuidado, observa-se autonomia parcial, ainda com necessidade de
supervisão e auxílio em tarefas compatíveis com sua idade, porém intensificadas pela
dificuldade de regulação e cooperação.
A adaptação à rotina mostrou-se um dos pontos mais prejudicados. Daniel demonstra:
dificuldade importante em aceitar transições;
necessidade de previsibilidade;
sofrimento quando o curso dos eventos não ocorre como esperado;
resistência a mudanças;
necessidade frequente de mediação adulta.
Observação clínica – funcionalidade
O principal prejuízo funcional de Daniel não decorre da ausência de habilidades
básicas, mas sim da dificuldade em:
regular-se,
cooperar,
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flexibilizar,
tolerar mudança,
manter rotina sem escalada comportamental.
6.6.4. IMPACTO FUNCIONAL EM CONTEXTO ESCOLAR
Objetivo da análise
Examinar a repercussão ecológica dos sintomas sobre:
adaptação escolar;
aprendizagem inicial;
convivência com colegas;
relação com professores;
permanência em atividades;
seguimento de regras;
coordenação motora fina funcional;
comportamento em grupo.
Tabela 21 – Impacto funcional escolar – análise ecológica integrada
Desempenho
Domínio Escolar Classificação Clínica
Observado
Clinicamente
Adaptação à rotina escolar Prejudicada
relevante
Clinicamente
Permanência em atividades dirigidas Prejudicada
relevante
Oscilante / Clinicamente
Comportamento com colegas
conflituoso relevante
Clinicamente
Comportamento com professores Desafiador / reativo
relevante
Clinicamente
Seguimento de regras Prejudicado
relevante
Aprendizagem inicial / reconhecimento Parcialmente
Potencial presente
acadêmico preservada
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Desempenho
Domínio Escolar Classificação Clínica
Observado
Coordenação motora fina em
Abaixo do esperado Vulnerável
demandas escolares
Clinicamente
Necessidade de mediação escolar Elevada
significativa
Descrição e interpretação clínica do impacto escolar
Os pareceres e relatórios escolares mostram que Daniel apresenta prejuízos funcionais
importantes no ambiente educacional, incluindo:
dificuldade de adaptação à rotina;
inquietação motora;
não permanência sentado;
recusa de atividades;
comportamento agressivo em situações de conflito;
oposição a regras e comandos;
uso de linguagem e gestos inadequados em alguns momentos;
dificuldade de convivência com pares e professores;
necessidade intensa de apoio para retomada do foco e do comportamento.
Por outro lado, os documentos também mostram potencial de aprendizagem e algumas
competências preservadas, como:
reconhecimento de letras, números, cores e formas;
criatividade;
participação em histórias;
brincar imaginativo;
progresso recente em alguns comportamentos escolares.
Isso é extremamente importante, porque demonstra que Daniel tem recursos para
aprender, mas seu acesso ao processo escolar está fortemente comprometido por:
desatenção;
hiperatividade;
impulsividade;
rigidez;
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agressividade reativa;
baixa tolerância à frustração;
dificuldades sensoriais;
qualidade social atípica da interação.
Observação clínica – impacto escolar
O funcionamento escolar de Daniel sugere que:
o prejuízo pedagógico observado é secundário, em grande parte, a dificuldades
do neurodesenvolvimento e da autorregulação;
há necessidade clara de suporte estruturado;
o ambiente escolar precisa ser altamente previsível, mediado e individualizado.
6.6.5. ANÁLISE ECOLÓGICA INTEGRADA DOS DIFERENTES CONTEXTOS
A integração entre família, escola, observação clínica e demais documentos demonstra
que Daniel apresenta um padrão de funcionamento consistente entre contextos,
embora com intensidade variável conforme:
previsibilidade do ambiente;
qualidade da mediação;
presença de reforçadores;
nível de exigência;
presença de frustração;
quantidade de estímulos sensoriais;
grau de flexibilidade exigido.
Observa-se que Daniel tende a funcionar melhor quando:
há estrutura clara;
a atividade é curta e objetiva;
o ambiente é previsível;
existe mediação firme e consistente;
há apoio visual e organização;
a transição é previamente anunciada;
o adulto compreende seus gatilhos regulatórios.
Por outro lado, o funcionamento piora quando:
há mudança abrupta;
o tempo de espera aumenta;
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o ambiente é mais caótico;
há exigência prolongada;
a atividade não é de seu interesse;
ocorre frustração;
o desconforto sensorial aumenta.
6.6.6. SÍNTESE INTEGRADA DA ÁREA – LINGUAGEM FUNCIONAL,
BRINCAR, FUNCIONALIDADE E IMPACTO ESCOLAR
A integração dos dados desta área evidencia que Daniel apresenta:
linguagem verbal funcional presente, porém com prejuízos qualitativos na
pragmática e na comunicação social;
brincar funcional e simbólico preservado, porém com reciprocidade lúdica e
flexibilidade reduzidas;
funcionalidade adaptativa parcialmente preservada, mas fortemente
impactada por rigidez, seletividade sensorial, impulsividade e oposição;
prejuízo funcional importante em contexto escolar, apesar de potencial
cognitivo e repertório inicial de aprendizagem preservados.
Conclusão da área
Em síntese, os resultados desta área mostram que Daniel dispõe de habilidades
comunicativas, simbólicas e cognitivas importantes, porém sua expressão funcional
encontra-se significativamente prejudicada por alterações qualitativas na comunicação
social, rigidez comportamental, baixa flexibilidade, impulsividade, dificuldades
sensoriais e desregulação emocional. O impacto ecológico desses achados é expressivo
tanto no ambiente familiar quanto escolar, reforçando a compreensão de um quadro de
neurodesenvolvimento atípico com repercussão ampla sobre adaptação, convivência e
aprendizagem.
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6.7.1. TABELA RESUMO GERAL DO PERFIL NEUROPSICOLÓGICO
Tabela 22 – Resumo integrado por área avaliada
Instrumentos / Classificação
Área Avaliada Resultado Síntese
Fontes Clínica
Funcionamento Potencial cognitivo global
intelectual global / SON-R 2½– preservado, sem evidências de
Preservado com
raciocínio não 7[a]; CMMS-3; deficiência intelectual;
interferência
verbal / observação desempenho compatível com
secundária
maturidade clínica faixa média, com interferência
cognitiva executiva/comportamental
PROTEA-R; Indicadores robustos de
Rastreio de TEA / Clinicamente
SRS-2; prejuízo qualitativo em
responsividade significativo /
observação comunicação social,
social / fortemente
clínica; reciprocidade, rigidez,
comunicação compatível com
anamnese; interesses restritos e padrões
social TEA
documentos repetitivos
Perfil Sensorial Perfil sensorial atípico, com
Processamento 2; observação hipersensibilidade, esquiva, Clinicamente
sensorial clínica; busca sensorial intensa e significativo
anamnese importante impacto funcional
SNAP-IV; Prejuízo importante em Clinicamente
Atenção / tarefas lúdicas atenção sustentada, significativo /
hiperatividade / atencionais; hiperatividade motora e fortemente
impulsividade observação impulsividade, com impacto compatível com
clínica funcional relevante TDAH
Labirintos;
tarefas de
controle
Comprometimento importante
inibitório,
Funções em inibição, persistência, Clinicamente
flexibilidade,
executivas monitoramento do erro, significativo
memória
flexibilidade e autorregulação
operacional;
observação
clínica
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Instrumentos / Classificação
Área Avaliada Resultado Síntese
Fontes Clínica
SNAP-IV;
Padrão opositor/desafiador
Comportamento CBCL;
relevante, porém secundário e Clinicamente
opositor- observação
interdependente com rigidez, significativo
desafiador clínica;
impulsividade e desregulação
anamnese
CBCL; Clinicamente
Hiperreatividade emocional
Regulação observação significativo
importante, explosões, baixa
emocional / clínica;
tolerância à frustração e
tolerância à anamnese;
dificuldade de retorno ao
frustração análise
estado basal
funcional
Sintomas ansiosos CBCL; Sinais ansiosos relevantes,
investigação associados à necessidade de
Clinicamente
clínica; previsibilidade, sofrimento
significativo
observação; antecipatório e piora diante de
rotina mudanças
Linguagem verbal funcional
Linguagem Observação Preservada
presente, porém com prejuízo
funcional / clínica; estruturalmente,
qualitativo em pragmática,
comunicação PROTEA-R; com prejuízo
turnos e integração social da
pragmática SRS-2 qualitativo
comunicação
Observação Brincar funcional e simbólico
Preservado com
Brincar funcional clínica do preservado, porém com
prejuízo
e simbólico brincar; análise rigidez, menor reciprocidade e
qualitativo
lúdica dificuldade de flexibilização
Habilidades básicas
Anamnese;
parcialmente preservadas, mas
Funcionalidade observação Prejuízo funcional
fortemente impactadas por
adaptativa clínica; relevante
rigidez, seletividade, oposição
documentos
e necessidade de mediação
Impacto escolar Relatórios Prejuízo importante na Clinicamente
escolares; adaptação escolar,
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Instrumentos / Classificação
Área Avaliada Resultado Síntese
Fontes Clínica
pareceres; convivência, seguimento de
observação; regras e permanência em
significativo
análise atividade, apesar de potencial
ecológica cognitivo preservado
6.7.2. TABELA RESUMO – FORÇAS E VULNERABILIDADES CLÍNICAS
Tabela 23 – Forças neuropsicológicas e vulnerabilidades centrais
Forças / Áreas de Preservação Vulnerabilidades / Áreas de Prejuízo
Potencial cognitivo global preservado Comunicação social qualitativa atípica
Rigidez cognitiva e comportamental
Raciocínio não verbal em faixa média
importante
Maturidade intelectual compatível com
Interesses restritos e padrões repetitivos
a idade
Linguagem verbal funcional presente Contato visual inconsistente
Pragmática e reciprocidade comunicativa
Brincar funcional presente
prejudicadas
Brincar simbólico e imaginação
Atenção sustentada reduzida
presentes
Potencial de aprendizagem inicial
Hiperatividade motora importante
preservado
Capacidade de vínculo afetivo presente Impulsividade robusta
Resposta melhor em ambiente
Controle inibitório prejudicado
estruturado
Boa resposta a mediação quando Flexibilidade cognitiva gravemente
regulado comprometida
Baixa tolerância à frustração
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Forças / Áreas de Preservação Vulnerabilidades / Áreas de Prejuízo
Hiperreatividade emocional / explosões
Padrão opositor-desafiador clinicamente
relevante
Sintomas ansiosos clinicamente significativos
Perfil sensorial atípico com forte impacto
funcional
Prejuízo adaptativo em casa e na escola
8. CONCLUSÃO
A presente Avaliação Neuropsicológica foi realizada com o objetivo de investigar, de
forma ampla e tecnicamente fundamentada, o perfil do desenvolvimento cognitivo,
comportamental, emocional, sensorial, adaptativo e social de Daniel Gomes Ribeiro,
considerando a presença de queixas relacionadas a desatenção, hiperatividade,
impulsividade, baixa tolerância à frustração, comportamentos desafiadores,
agressividade reativa, rigidez comportamental, dificuldades de adaptação escolar,
seletividade alimentar, alterações sensoriais, oscilação no contato visual,
dificuldades de comunicação social qualitativa e suspeita clínica de transtorno do
neurodesenvolvimento.
A análise integrada dos dados provenientes da anamnese clínica detalhada, da
observação neuropsicológica estruturada, da análise documental multiprofissional
e dos instrumentos padronizados e complementares utilizados ao longo do processo
avaliativo permitiu identificar um perfil de neurodesenvolvimento atípico, complexo
e multifatorial, com repercussão funcional significativa em diferentes contextos do
cotidiano da criança.
Do ponto de vista cognitivo global, os resultados obtidos por meio dos instrumentos de
avaliação intelectual e de maturidade mental indicam que Daniel não apresenta
evidências de deficiência intelectual como condição primária. Ao contrário, os
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achados apontam para potencial cognitivo global preservado, com desempenho global
compatível com a faixa média para a idade, especialmente em tarefas de raciocínio não
verbal, percepção visual, organização perceptiva e resolução de problemas concretos
quando a tarefa se encontra estruturada, previsível e mediada de forma adequada. Tal
aspecto é clinicamente relevante, pois demonstra que as dificuldades observadas em
casa, na escola e durante a avaliação não decorrem de rebaixamento intelectual
global, mas da importante interferência de fatores ligados à autorregulação, atenção,
funções executivas, flexibilidade cognitiva, modulação sensorial, comportamento e
qualidade da comunicação social.
No campo da atenção e das funções executivas, observou-se um padrão consistente de
prejuízo, caracterizado por oscilação atencional importante, redução da atenção
sustentada, baixa persistência em tarefas, necessidade frequente de
redirecionamento externo, impulsividade, dificuldade em esperar, tendência a
interromper ou abandonar atividades, busca por gratificação imediata, dificuldade
em monitorar erros, baixa tolerância à complexidade crescente, comprometimento
do controle inibitório, vulnerabilidade da memória operacional funcional e
importante prejuízo na flexibilidade cognitiva e comportamental. Ao longo da
avaliação, Daniel mostrou capacidade para iniciar algumas tarefas e compreender
instruções, porém com clara dificuldade em manter constância, regular o ritmo de
resposta, sustentar o esforço mental e lidar com exigências de continuidade ou aumento
de dificuldade, especialmente quando a atividade não era de seu interesse imediato. Esse
conjunto de achados mostra-se fortemente compatível com um perfil de Transtorno
do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), com importante componente
hiperativo-impulsivo, associado também a prejuízo atencional e executivo funcional.
No que se refere à comunicação social, responsividade social e qualidade da
interação, a avaliação revelou achados clinicamente muito relevantes. Embora Daniel
apresente linguagem verbal funcional, capacidade de expressar desejos, necessidades e
participar de interações básicas, observou-se que a qualidade da comunicação social
encontra-se prejudicada em aspectos essenciais, tais como: reciprocidade
socioemocional inconsistente, manutenção limitada de turnos conversacionais,
pragmática comunicativa atípica, integração variável entre linguagem verbal e não
verbal, oscilação do contato visual, dificuldade em sustentar trocas interativas de
forma flexível e comunicação mais centrada em interesses próprios. Além disso,
foram identificados padrões de rigidez cognitiva e comportamental, forte
necessidade de previsibilidade, sofrimento importante diante de mudanças, insistência
em rotinas e formas específicas de realização de atividades, hiperfoco/interesses
restritos, repetição temática e presença de comportamentos repetitivos/estereotipados
em alguns contextos. Tais achados, associados aos resultados obtidos em instrumentos
específicos de rastreio e à convergência entre observação clínica, relatos familiares e
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dados escolares, configuram um conjunto de indicadores robustos e clinicamente
significativos compatíveis com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Importante ressaltar, com precisão técnica, que Daniel não se apresenta como uma
criança sem vínculo, sem linguagem ou sem brincar simbólico. Pelo contrário,
demonstra capacidade de vínculo afetivo, iniciativa comunicativa, brincar funcional
e brincar simbólico presentes, além de potencial cognitivo preservado. Contudo, a
presença dessas habilidades não exclui o TEA, sobretudo quando há prejuízos
qualitativos claros na reciprocidade social, flexibilidade, regulação, comunicação
pragmática e adaptação social, como amplamente demonstrado neste processo
avaliativo. Em outras palavras, trata-se de uma criança com recursos preservados,
porém com alterações qualitativas clinicamente significativas na organização do
neurodesenvolvimento, o que é plenamente compatível com apresentações do espectro
autista em crianças verbalmente funcionais.
No domínio emocional e comportamental, o caso evidencia importante desregulação
emocional, com baixa tolerância à frustração, choro desproporcional, reatividade
intensa diante de negativas, explosões comportamentais, irritabilidade elevada,
agressividade reativa, dificuldade em aguardar, necessidade de controle do
ambiente, resistência a limites e importante dificuldade de retorno ao estado basal
após situações de contrariedade. Esses episódios mostraram-se especialmente
frequentes em situações de frustração, quebra de expectativa, interrupção de interesses,
exigência de espera, aumento de demanda ou mudança de rotina. Observou-se ainda que
a intensidade dos comportamentos varia conforme o contexto, piorando em ambientes
menos estruturados, mais imprevisíveis ou com maior carga de exigência
emocional/sensorial, e reduzindo quando há organização, previsibilidade, mediação
consistente, reforçadores claros e melhor preparação para transições.
No que se refere ao padrão opositor-desafiador, os dados comportamentais obtidos
em anamnese, escola, observação clínica e escalas comportamentais indicam a presença
de um padrão opositor clinicamente significativo, manifestado por resistência
frequente a comandos, tendência a contrariar regras, reatividade a limites,
irritabilidade, confrontação e comportamento desafiador diante de demandas não
desejadas. Todavia, a análise clínica integrada sugere que esse padrão não deve ser
compreendido de forma isolada ou simplificada, pois se encontra fortemente
entrelaçado com as dificuldades de flexibilidade cognitiva, impulsividade,
hipersensibilidade sensorial, sofrimento diante de mudanças, necessidade de
previsibilidade, ansiedade e baixa autorregulação. Assim, o comportamento
opositor, embora relevante e funcionalmente impactante, parece operar no caso como
manifestação secundária e interdependente dentro de um quadro
neurodesenvolvimental mais amplo, e não como fenômeno único ou explicação
central de todo o funcionamento da criança.
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Em relação aos aspectos ansiosos, a avaliação também identificou sinais clinicamente
significativos de ansiedade, especialmente expressos por meio de sofrimento
antecipatório, necessidade intensa de previsibilidade, aumento de tensão diante de
mudanças, piora da reatividade em situações de transição, dificuldade de lidar com
incerteza, maior irritabilidade quando o ambiente não segue o padrão esperado e
dependência de rotinas e sequências específicas para maior sensação de controle.
No caso de Daniel, a ansiedade não aparece apenas como queixa verbal, mas como um
fenômeno fortemente somatizado e comportamentalizado, influenciando diretamente
sua rigidez, sua reatividade e sua tolerância à frustração.
O processamento sensorial mostrou-se claramente alterado, com evidências de perfil
sensorial atípico clinicamente relevante, incluindo seletividade alimentar importante,
hipersensibilidades a texturas, cheiros e sons, necessidade de experiências sensoriais
específicas, comportamentos de busca sensorial, desconforto com determinados
estímulos e repercussão direta dessas alterações sobre alimentação, rotina,
comportamento e regulação emocional. Tais achados reforçam a compreensão de que,
em Daniel, a reatividade comportamental não pode ser interpretada apenas como “birra”
ou “mau comportamento”, mas frequentemente como expressão de um sistema nervoso
com dificuldade de modular, filtrar e integrar estímulos internos e externos,
especialmente em contextos de maior exigência ou menor previsibilidade.
No plano adaptativo e funcional, observa-se que Daniel apresenta algumas habilidades
básicas preservadas, inclusive com potencial de autonomia em tarefas do cotidiano.
Entretanto, a funcionalidade global encontra-se significativamente comprometida pela
combinação entre impulsividade, rigidez, seletividade sensorial, oposição, baixa
tolerância à frustração e necessidade aumentada de mediação externa. Em
ambiente escolar, isso se traduz em importante dificuldade de adaptação à rotina,
permanência em atividades dirigidas, seguimento de regras, regulação em grupo e
convivência com colegas e professores. Apesar disso, os relatórios e a observação
também demonstram potencial de aprendizagem, criatividade, interesse por
histórias, reconhecimento inicial de letras, números, formas e cores, além de
momentos de interação positiva, o que reforça que o principal entrave não está em
incapacidade cognitiva, mas em como o cérebro da criança processa, regula e
organiza as demandas do ambiente.
Dessa forma, a análise integrada do caso permite concluir que Daniel apresenta um
perfil neuropsicológico compatível com alterações significativas do
neurodesenvolvimento, com forte convergência clínica para:
sinais robustos compatíveis com Transtorno do Espectro Autista (TEA),
especialmente no que se refere a prejuízos qualitativos em comunicação social,
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responsividade social, flexibilidade, rigidez, interesses restritos/padrões
repetitivos e adaptação social;
sinais clinicamente significativos compatíveis com Transtorno do Déficit de
Atenção/Hiperatividade (TDAH), com importante comprometimento
atencional, hiperatividade, impulsividade e prejuízo executivo;
padrão opositor-desafiador clinicamente relevante, de expressão funcional
importante, porém inserido em uma organização mais ampla do
neurodesenvolvimento;
sintomas ansiosos clinicamente significativos, com impacto direto sobre
previsibilidade, transições, regulação e comportamento.
Em termos técnico-clínicos, os achados sugerem que o funcionamento de Daniel não se
explica por um único diagnóstico isolado, mas por uma organização
neurodesenvolvimental complexa, multifatorial e interdependente, na qual os
diferentes eixos (social, executivo, sensorial, emocional e comportamental) interagem
entre si e amplificam o prejuízo funcional global.
Portanto, conclui-se que Daniel apresenta um perfil neuropsicológico com potencial
intelectual preservado, porém com prejuízo funcional expressivo e multissistêmico,
demandando intervenção intensiva, precoce, estruturada, multiprofissional e
ecologicamente alinhada, com foco em:
comunicação social e habilidades sociocomunicativas;
autorregulação emocional e comportamental;
flexibilidade cognitiva e tolerância à frustração;
atenção e funções executivas;
modulação sensorial;
autonomia adaptativa;
manejo escolar individualizado;
orientação parental intensiva e consistente.
[Link]ÓSTICO NEUROPSICOLÓGICO
Com base na análise integrada dos dados obtidos por meio da anamnese clínica
detalhada, da observação neuropsicológica estruturada, da análise documental
multiprofissional e dos instrumentos padronizados e complementares utilizados ao
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longo do processo avaliativo, conclui-se que Daniel Gomes Ribeiro, 4 anos e 9
meses, apresenta um perfil neuropsicológico compatível com alterações
significativas do neurodesenvolvimento, com repercussão funcional importante nos
contextos familiar, escolar, social e adaptativo.
Os resultados obtidos na investigação cognitiva indicam que a criança não apresenta
evidências de deficiência intelectual como condição primária, uma vez que o
funcionamento intelectual global mostrou-se preservado, com desempenho compatível
com a faixa média para a idade em tarefas de raciocínio não verbal, percepção visual,
organização perceptiva e resolução de problemas concretos, especialmente quando
submetida a contextos mais estruturados, previsíveis e com adequada mediação. Tal
dado é clinicamente relevante, pois demonstra que os prejuízos observados em sua
rotina não decorrem de rebaixamento global da capacidade intelectual, mas de
importante interferência de alterações relacionadas à atenção, funções executivas,
flexibilidade cognitiva, modulação sensorial, autorregulação emocional, qualidade
da comunicação social e adaptação comportamental.
No domínio atencional e executivo, observou-se padrão consistente de
comprometimento, com presença de oscilação atencional significativa, redução da
atenção sustentada, baixa persistência em tarefas, impulsividade, dificuldade de
espera, necessidade frequente de redirecionamento externo, controle inibitório
fragilizado, memória operacional funcional vulnerável, dificuldade em
monitoramento de erros e importante prejuízo de flexibilidade cognitiva e
comportamental. Durante o processo avaliativo, Daniel demonstrou compreender
comandos e iniciar tarefas, porém com acentuada dificuldade em manter constância de
desempenho, sustentar esforço mental, tolerar aumento progressivo de complexidade e
permanecer regulado diante de demandas não imediatamente reforçadoras. Tais achados
mostram-se clinicamente compatíveis com um perfil de Transtorno do Déficit de
Atenção/Hiperatividade (TDAH), com importante componente hiperativo-impulsivo,
associado a prejuízo atencional e executivo funcional.
No que se refere à comunicação social e responsividade socioemocional, a avaliação
revelou achados clinicamente relevantes e consistentes. Embora a criança apresente
linguagem verbal funcional e capacidade de expressar necessidades, desejos e
interesses, observou-se prejuízo qualitativo na reciprocidade social, na manutenção de
trocas interativas, na pragmática da comunicação, na integração entre
comunicação verbal e não verbal, no uso e manutenção do contato visual, bem
como tendência a interações mais centradas em seus próprios interesses e necessidades
imediatas. Somam-se a isso padrões de rigidez cognitiva e comportamental,
necessidade aumentada de previsibilidade, dificuldade importante com transições,
insistência em rotinas e sequências específicas, sofrimento diante de mudanças,
hiperfoco/interesses restritos e presença de comportamentos repetitivos e/ou
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estereotipados em diferentes contextos. A convergência entre tais achados, associada
aos resultados dos instrumentos específicos de rastreio e aos relatos ecológicos
consistentes, sustenta a presença de indicadores robustos e clinicamente
significativos compatíveis com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Destaca-se, tecnicamente, que a presença de brincar funcional, brincar simbólico,
vínculo afetivo e linguagem verbal não afasta a hipótese de TEA, sobretudo quando
coexistem prejuízos qualitativos relevantes na comunicação social, na flexibilidade, na
adaptação social e na autorregulação, como evidenciado no presente caso. Daniel
demonstra recursos importantes preservados, porém tais recursos coexistem com
alterações qualitativas consistentes na organização do neurodesenvolvimento,
compatíveis com apresentações do espectro autista em crianças com maior potencial
verbal e cognitivo.
No domínio emocional e comportamental, observou-se um quadro de desregulação
emocional importante, caracterizado por baixa tolerância à frustração,
irritabilidade elevada, choro desproporcional, explosões comportamentais,
agressividade reativa, dificuldade em lidar com negativas, necessidade intensa de
controle, resistência a limites e dificuldade significativa em retornar ao estado
basal após situações de contrariedade. Esses episódios ocorrem com maior frequência
diante de mudanças inesperadas, interrupção de interesses, imposição de espera, quebra
de previsibilidade ou aumento de exigência ambiental. Há ainda padrão de oposição a
comandos e resistência recorrente a demandas, com comportamentos desafiadores
funcionalmente significativos, tanto no contexto familiar quanto escolar.
Contudo, sob análise clínica integrada, o padrão opositor-desafiador não se mostra
isolado nem deve ser interpretado de forma simplificada como fenômeno puramente
volitivo ou intencional. No caso de Daniel, a oposição parece fortemente relacionada à
interação entre rigidez cognitiva, impulsividade, sofrimento diante de mudanças,
baixa autorregulação, hipersensibilidade sensorial, ansiedade e limitação na
tolerância à frustração, configurando um padrão de comportamento desafiador
clinicamente relevante, porém inserido em uma organização neurodesenvolvimental
mais ampla. Assim, há sinais consistentes de padrão opositor-desafiador
funcionalmente importante, devendo sua leitura clínica ser feita de forma
contextualizada e integrada.
Em relação aos aspectos ansiosos, a avaliação também identificou sintomas
clinicamente significativos de ansiedade, especialmente manifestos por meio de
necessidade exacerbada de previsibilidade, desconforto diante de mudanças,
sofrimento antecipatório, intensificação de comportamentos disfuncionais em
situações de transição, maior irritabilidade frente à incerteza e aumento de
desorganização emocional quando o ambiente não corresponde ao padrão
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esperado. No presente caso, a ansiedade parece expressar-se predominantemente de
forma comportamentalizada, influenciando diretamente a rigidez, a reatividade e a
dificuldade de autorregulação.
No campo do processamento sensorial, foram identificadas alterações clinicamente
relevantes, com importante impacto funcional sobre alimentação, rotina,
comportamento e regulação. Observou-se perfil sensorial atípico, com seletividade
alimentar importante, hipersensibilidade a texturas, cheiros e sons, além de
comportamentos de busca sensorial e respostas exacerbadas a determinados estímulos.
Esses aspectos contribuem diretamente para a piora da tolerância a ambientes, aumento
da irritabilidade, resistência a mudanças, maior reatividade emocional e dificuldades de
adaptação em contextos naturais.
No plano adaptativo e funcional, embora Daniel apresente habilidades básicas
preservadas e potencial de autonomia em alguns domínios, sua funcionalidade global
encontra-se significativamente comprometida pela combinação entre impulsividade,
rigidez, oposição, sensorialidade atípica, baixa tolerância à frustração e
necessidade aumentada de mediação externa. Em ambiente escolar, tal
funcionamento se traduz em dificuldade de permanência em atividade dirigida, prejuízo
na adesão à rotina, dificuldade no seguimento de regras, maior probabilidade de
conflitos interpessoais e impacto direto no aproveitamento pedagógico e na convivência
em grupo. Ainda assim, os dados escolares e clínicos também evidenciam potencial de
aprendizagem, criatividade, capacidade de vínculo e possibilidade de evolução
importante quando a criança se encontra em ambiente estruturado, previsível e
com suporte adequado, o que representa um prognóstico funcional favorável quando
há intervenção precoce e consistente.
Diante do exposto, o presente processo avaliativo permite afirmar que Daniel apresenta
um perfil neuropsicológico com potencial intelectual global preservado, porém com
prejuízo funcional expressivo e multissistêmico, decorrente de alterações
significativas em múltiplos eixos do neurodesenvolvimento.
Indicadores robustos e clinicamente significativos compatíveis com
Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente no que se refere à
qualidade da comunicação social, reciprocidade socioemocional, pragmática,
rigidez cognitiva/comportamental, necessidade de previsibilidade, interesses
restritos e padrões repetitivos;
Sinais clinicamente consistentes compatíveis com Transtorno do Déficit de
Atenção/Hiperatividade (TDAH), com importante comprometimento
atencional, hiperatividade motora, impulsividade e prejuízo executivo funcional;
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Padrão opositor-desafiador clinicamente relevante, com repercussão
funcional importante, porém inserido em uma organização
neurodesenvolvimental mais ampla e interdependente;
Sintomas ansiosos clinicamente significativos, com impacto direto sobre
transições, previsibilidade, autorregulação e comportamento;
Alterações sensoriais relevantes, com repercussão sobre alimentação, rotina,
adaptação e regulação emocional;
Ausência de evidências de deficiência intelectual como condição primária,
diante da preservação do potencial cognitivo global.
Dessa forma, o conjunto dos achados sugere que o funcionamento de Daniel não se
explica por um único eixo diagnóstico isolado, mas por uma organização
neurodesenvolvimental complexa e multifatorial, na qual alterações sociais,
sensoriais, executivas, emocionais e comportamentais interagem entre si e ampliam o
prejuízo funcional.
Ao final da presente avaliação neuropsicológica, foram identificados sinais
clinicamente consistentes e convergentes compatíveis com Transtorno do Espectro
Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), padrão
opositor-desafiador e sintomas ansiosos associados, devendo tais achados ser
correlacionados ao acompanhamento neuropediátrico/neurológico e multiprofissional
para adequada definição diagnóstica interdisciplinar, planejamento terapêutico e suporte
escolar especializado.
Ressalta-se, por fim, que o caso demanda intervenção precoce, intensiva, estruturada
e contínua, com enfoque em comunicação social, autorregulação emocional e
comportamental, flexibilidade cognitiva, modulação sensorial, atenção e funções
executivas, autonomia funcional, habilidades adaptativas e orientação parental,
além de alinhamento técnico entre família, escola e equipe multiprofissional.
Os achados da presente avaliação neuropsicológica evidenciam perfil compatível com
alterações significativas do neurodesenvolvimento, com forte convergência clínica, à
luz do CID-11, para Transtorno do Espectro do Autismo (6A02), sem evidências de
transtorno do desenvolvimento intelectual associado e com linguagem funcional
presente, associado a sinais compatíveis com Transtorno do Déficit de Atenção com
Hiperatividade (6A05), padrão comportamental compatível com Transtorno
Opositivo-Desafiador (6C90) e sintomas ansiosos clinicamente significativos.
Observa-se potencial intelectual global preservado, porém com importante prejuízo
funcional nos domínios social, executivo, emocional, sensorial, comportamental,
adaptativo e escolar, demandando seguimento médico e intervenção multiprofissional
intensiva e contínua.
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9. ENCAMINHAMENTOS
Diante dos achados obtidos na presente Avaliação Neuropsicológica, recomenda-se
que Daniel permaneça em acompanhamento multiprofissional intensivo,
estruturado, contínuo e integrado, considerando o impacto funcional significativo
observado nos domínios da comunicação social, flexibilidade cognitiva e
comportamental, atenção, hiperatividade, impulsividade, autorregulação
emocional, processamento sensorial, adaptação escolar e habilidades funcionais.
9.1. ACOMPANHAMENTO MÉDICO ESPECIALIZADO – NEUROPEDIATRIA /
NEUROLOGIA PEDIÁTRICA
9.2. INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA INFANTIL / NEUROPSICOLÓGICA COM
FOCO EM COMPORTAMENTO E AUTORREGULAÇÃO
Focos prioritários da intervenção
autorregulação emocional;
manejo de crises e explosões;
redução de agressividade reativa;
ampliação da tolerância à frustração;
flexibilidade cognitiva e comportamental;
treino de espera e inibição de respostas impulsivas;
habilidades sociais iniciais;
ampliação de repertório adaptativo;
compreensão e manejo de regras;
organização de rotina;
treino de transições;
redução de rigidez;
suporte ao brincar compartilhado e à reciprocidade social.
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9.3. INTERVENÇÃO COMPORTAMENTAL BASEADA EM ANÁLISE DO
COMPORTAMENTO APLICADA (ABA)
Encaminhamento
Recomenda-se intervenção comportamental intensiva baseada em Análise do
Comportamento Aplicada (ABA), com frequência mínima inicial de 2 a 4 horas
semanais, podendo ser ampliada conforme disponibilidade clínica, resposta terapêutica
e gravidade funcional.
Observação clínica importante: diante do nível de prejuízo funcional observado,
especialmente em regulação, oposição, rigidez, transições, socialização e generalização
de habilidades, é recomendável que a intensidade seja progressivamente ampliada
sempre que possível.
9.4. TERAPIA OCUPACIONAL COM FOCO EM INTEGRAÇÃO SENSORIAL E
FUNCIONALIDADE
Encaminhamento
Indica-se Terapia Ocupacional, preferencialmente com profissional com formação em
Integração Sensorial de Ayres® e experiência em neurodesenvolvimento infantil, com
frequência mínima de 2 sessões semanais.
9.5. FONOAUDIOLOGIA – LINGUAGEM, PRAGMÁTICA E COMUNICAÇÃO
SOCIAL
Encaminhamento
Recomenda-se continuidade e intensificação do acompanhamento em Fonoaudiologia,
com frequência mínima de 2 sessões semanais, preferencialmente com profissional com
experiência em:
desenvolvimento infantil;
linguagem;
pragmática da comunicação;
alterações de prosódia;
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comunicação social;
fala infantil;
seletividade alimentar (em interface quando pertinente).
9.6. PSICOPEDAGOGIA CLÍNICA / INTERVENÇÃO EM PRÉ-REQUISITOS
ACADÊMICOS
Focos prioritários
permanência em atividade dirigida;
tolerância a demandas pedagógicas;
atenção compartilhada em contexto de aprendizagem;
pré-requisitos acadêmicos;
coordenação visomotora aplicada à tarefa;
organização do comportamento em situação de mesa;
seguimento de instruções;
flexibilidade diante de erros;
prontidão para alfabetização;
consolidação de noções lógico-matemáticas iniciais;
manejo da frustração frente a tarefas.
Embora Daniel apresente potencial cognitivo e indicadores iniciais de aprendizagem
preservados, o rendimento acadêmico e a adaptação escolar encontram-se impactados
por fatores comportamentais, atencionais, executivos e sensoriais.
9.7. ORIENTAÇÃO PARENTAL / TREINAMENTO DE PAIS
Encaminhamento
Recomenda-se orientação parental estruturada e contínua, com frequência mínima
de quinzenal, idealmente integrada ao profissional que conduz a intervenção
psicológica/comportamental.
Focos prioritários
manejo de crises;
prevenção de escalada comportamental;
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uso de previsibilidade e rotina visual;
comunicação de comandos claros;
redução de reforçamento inadvertido de comportamentos disfuncionais;
estratégias de transição;
treino de espera;
manejo de negativas;
consistência entre cuidadores;
definição de limites com baixa reatividade;
fortalecimento de repertórios positivos;
manejo de seletividade e rigidez;
redução de negociações excessivas;
9.8. SUPORTE ESCOLAR ESPECIALIZADO
Encaminhamento
Recomenda-se alinhamento imediato com a escola e implantação de suporte
educacional individualizado, incluindo:
Acompanhante terapêutico / professor auxiliar / mediador escolar
individual, conforme disponibilidade e regulamentação local;
Atendimento Educacional Especializado (AEE);
elaboração de Plano Educacional Individualizado (PEI/PDI);
adaptação de manejo pedagógico e comportamental em sala.
Justificativa técnica
Daniel apresenta prejuízo importante em:
permanência em atividade;
seguimento de regras;
convivência com pares;
regulação em grupo;
tolerância à frustração;
transições;
controle de impulsos;
adaptação à rotina escolar.
A escola, isoladamente, tende a não conseguir sustentar o manejo adequado sem suporte
especializado.
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9.9. ORIENTAÇÕES ESSENCIAIS À ESCOLA
Sugestões técnicas para o contexto escolar
Recomenda-se que a escola adote, preferencialmente:
rotina visual previsível;
antecipação de mudanças;
instruções curtas, objetivas e concretas;
divisão de tarefas em etapas menores;
redução de estímulos concorrentes;
reforço positivo imediato;
mediação direta em transições;
tempo reduzido e gradativo para tarefas de mesa;
pausas regulatórias planejadas;
lugar estratégico em sala;
manejo não confrontativo em crise;
redução de exigências verbais durante escalada emocional;
apoio para resolução de conflitos com pares;
treino de habilidades sociais mediadas;
comunicação frequente com família e equipe terapêutica.
9.10. REAVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
Recomenda-se manutenção de acompanhamento com Neuropediatra/Neurologista
Pediátrico, bem como intervenção multiprofissional intensiva e contínua, incluindo
Psicoterapia Infantil/Neuropsicológica, Intervenção Comportamental baseada em
ABA, Terapia Ocupacional com Integração Sensorial, Fonoaudiologia,
Psicopedagogia Clínica, Orientação Parental estruturada, além de suporte escolar
individualizado com AEE, PEI/PDI e mediador escolar, quando possível. Sugere-se
ainda reavaliação neuropsicológica em 12 a 18 meses para monitoramento evolutivo e
atualização do plano terapêutico.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos
Mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
CUNHA, J. A. da. Psicodiagnóstico-V. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
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DEL PRETTE, Z. A. P.; DEL PRETTE, A. Habilidades Sociais: Intervenções e Avaliação. 2. ed.
Petrópolis: Vozes, 2017.
EKMAN, P. A Linguagem das Emoções. São Paulo: Lua de Papel, 2011.
HARRISON, P. L.; OAKLAND, T. ABAS-II – Sistema de Avaliação de Comportamentos Adaptativos.
São Paulo: Pearson Clinical Brasil, 2016.
SPARROW, S. S.; CICCHETTI, D. V.; SAULNIER, C. A. Vineland Adaptive Behavior Scales –
Segunda Edição (Vineland II). São Paulo: Pearson Clinical Brasil, 2016.
GOODMAN, R. Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ). 1997. Disponível em:
[Link] Acesso em: [colocar data de acesso].
GARDNER, H. Estruturas da Mente: A Teoria das Inteligências Múltiplas. Porto Alegre: Artmed, 2001.
VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente: O Desenvolvimento dos Processos Psicológicos
Superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
Atenciosamente,
Franciele Leal de Sousa
CRP 21/05794
Neuropsicóloga
Instituto Viver – Picos/PI
Março de 2026
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