CR
CR
MACEIÓ, AL
2025
ALESSANDRO MOURA COSTA
MACEIÓ, AL
2025
ALESSANDRO MOURA COSTA
BANCA EXAMINADORA
RESUMO
Este estudo investiga como a Educação Inter-religiosa pode atuar como ferramenta eficaz no
enfrentamento da intolerância religiosa e na promoção da paz social no ambiente escolar
brasileiro. A pesquisa justifica-se pela crescente diversidade cultural e religiosa no país, que
impõe desafios significativos à prática pedagógica, exigindo abordagens que transcendem o
ensino confessional. Com base em uma metodologia bibliográfica, o trabalho analisa o
fenômeno religioso como objeto de estudo científico, propondo uma tríade pedagógica
composta por ateísmo e agnosticismo metodológico, empatia e justiça restaurativa. Tal tríade
busca orientar práticas docentes que sejam laicas, críticas, inclusivas e comprometidas com os
direitos humanos e a pluralidade religiosa, conforme garantias constitucionais e legais como a
BNCC, a LDB e a Lei 10.639/2003. Os resultados apontam que uma Educação Inter-religiosa
fundamentada nesses princípios promove um ambiente escolar mais respeitoso, democrático e
acolhedor, prevenindo conflitos e práticas discriminatórias, especialmente contra religiões de
matriz africana. Conclui-se que o Ensino Religioso, quando orientado por uma perspectiva
transdisciplinar, crítica e dialógica, contribui decisivamente para a construção de uma sociedade
mais justa, plural e pacífica, ao reconhecer e valorizar a religião como expressão cultural,
identidade e direito fundamental.
Palavras-chave: Educação Inter-religiosa; Tolerância Religiosa; Ensino Religioso.
ABSTRACT
This study investigates how Interreligious Education can act as an effective tool in confronting
religious intolerance and promoting social peace in Brazilian schools. The research is justified
by the growing cultural and religious diversity in the country, which poses significant
challenges to pedagogical practice, requiring approaches that transcend confessional teaching.
Based on a bibliographic methodology, the work analyzes the religious phenomenon as an
object of scientific study, proposing a pedagogical triad composed of methodological atheism
and agnosticism, empathy, and restorative justice. This triad seeks to guide teaching practices
that are secular, critical, inclusive, and committed to human rights and religious plurality, in
accordance with constitutional and legal guarantees such as the BNCC, the LDB, and Law
10.639/2003. The results indicate that Interreligious Education based on these principles
promotes a more respectful, democratic, and welcoming school environment, preventing
conflicts and discriminatory practices, especially against religions of African origin. It is
1
Especialista em Ciências Humanas, Sociais Aplicadas e o Mundo do Trabalho, pela Universidade Federal do
Piauí, e discente do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião e Ensino Religioso, pelo Instituto Federal
de Educação, Ciência e Tecnologia de Alagoas.
concluded that Religious Education, when guided by a transdisciplinary, critical and dialogical
perspective, contributes decisively to the construction of a more just, plural and peaceful
society, by recognizing and valuing religion as a cultural expression, identity and fundamental
right.
Keywords: Interreligious Education; Religious Tolerance; Religious Education.
1. INTRODUÇÃO
A pertinência desta pesquisa, na temática que estamos a investigar, deu-se em virtude
da crescente necessidade de políticas educacionais que valorizem a diversidade cultural e
religiosa, garantindo que a Educação Religiosa no Brasil não se restrinja a uma perspectiva
confessional, e sim, que promova o respeito e a compreensão entre diferentes tradições
religiosas.
A diversidade religiosa é uma característica inegável no cotidiano brasileiro, podemos
inclusive inferir que esta múltipla religiosidade está relacionada à nossa própria essência. Pois,
[...] do ponto de vista cultural, destacamos a pessoa humana como produtora e produto
da cultura, nessa relação dialética, adquirem crenças religiosas em contextos éticos e
estéticos que se condensam em princípios morais, que ‘se expande e se enriquece’
(Rampazzo, 2010, p. 42).
Essa diversidade religiosa, presente no cotidiano brasileiro, não apenas reflete a riqueza
cultural do país, mas, também impõe desafios significativos no campo educacional. A maneira
como as crenças são ensinadas e compreendidas nas instituições de ensino desempenha um
papel fundamental na formação dos indivíduos e na construção de uma sociedade plural e
democrática (David, et. al, 2015).
Nesse sentido, a Educação Religiosa se torna um espaço estratégico para a promoção do
respeito à diversidade, exigindo abordagens que transcendam a simples transmissão de dogmas
e tradições religiosas específicas (David, et. al, 2015). Entretanto, sabe-se que a Educação
Religiosa em nosso país tradicionalmente,
Ainda segundo Silva e Soares (2015), para que não se confunda os conceitos de domínio
cultural e intolerância religiosa, ressaltamos que ao longo do tempo os conquistadores
frequentemente impuseram suas crenças sobre os povos dominados, resultando na supremacia
de certas religiões em diferentes contextos históricos. Porém, mesmo que esse processo envolva
imposição e assimilação forçada, o mesmo se difere do conceito contemporâneo de intolerância
religiosa, o qual se manifesta como discriminação, perseguição e desrespeito às crenças alheias.
Portanto, a intolerância religiosa na atualidade vai além da mera predominância de uma
religião sobre outras e se manifesta de formas diversas, como exclusão social, restrições legais,
violência física ou simbólica e marginalização de grupos religiosos minoritários. Mesmo em
sociedades que se consideram tolerantes e diversas, a intolerância persiste por meio de
preconceitos e práticas discriminatórias, afetando a liberdade religiosa e os direitos
fundamentais de muitas comunidades (Silva; Soares, 2015). Ou seja,
[...] a intolerância religiosa é uma realidade não só do Brasil, mas mundial. Conflitos
entre nações, por vezes, acabam inserindo questões religiosas para aguçar disputas. A
intolerância religiosa é, portanto, um problema persistente em muitos contextos,
especialmente no ambiente escolar, onde as diferenças são frequentemente mal
compreendidas ou até mesmo rejeitadas (Santana, 2024, p.17).
E isto, sob a ótica da realidade brasileira, sustenta Carvalho e Gomes (2024), é algo
terrível, pois, exortam que esta mesma diversidade religiosa, a qual nos faz ser um povo tão rico
em expressões culturais, pode ser um “estopim” para uma disputa que nos separe e nos fragmente
enquanto nação. Precisamos considerar que “[...] não haverá diálogo entre as religiões, se não
houver pesquisa básica nas religiões [...] não haverá paz, nem diálogo, nem trabalho de base
nas religiões se não houver empenho educativo” (Küng, 2001, p. 82). Não somente, há algo
ainda mais grave e nocivo, conforme aponta Santana (2024): a intolerância religiosa em nossas
escolas, nos ambientes escolares, espaços esses que, por natureza, deveriam ser de promoção
do conhecimento e de combate a todo tipo de intolerância, em especial, a religiosa que se trata
de um direito basilar de todo ser humano, o direito à livre expressão de seu credo religioso, de
sua crença e modo de ser no mundo, visto que, a religião é a maior expressão cultural de um
povo (Berger, 2017), logo é expressão de identidade e reconhecimento por parte de indivíduos e
grupos sociais, conforme nos assegura, por exemplo, e fruto de muita luta, a Constituição
Brasileira de 1988,
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-
se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...]
II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude
de lei; [...] IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; [...]
VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre
exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de
culto e a suas liturgias (BRASIL, 1988, n.p.).
Desta maneira, a gênese desta pesquisa verificou como a Educação Inter-religiosa pode
ser uma ferramenta eficaz na promoção da tolerância religiosa e da paz social a partir da
promoção do diálogo Inter-religioso nos espaços escolares.
Trata-se de uma pesquisa com uma metodologia bibliográfica, visando compreender
como o Ensino Inter-religioso, ao fomentar o diálogo entre diferentes crenças, pode minimizar
os impactos da intolerância religiosa e contribuir para a construção de uma sociedade mais
inclusiva e democrática. A partir destas análises bibliográficas, conforme Lüdke e André (1986,
p. 17), defendemos ser possível “desvendar por meio de literatura especializada os aspectos da
realidade para ampliar conhecimentos”.
Destarte, destacamos que a pesquisa que se segue está organizada em seções que
abordam a fundamentação teórica sobre a Educação Inter-religiosa, seu papel na promoção da
tolerância e da paz social, e os desafios enfrentados para sua implementação no contexto
educacional brasileiro. Bem como, discutimos as contribuições das legislações vigentes e as
possíveis estratégias para consolidar uma abordagem mais inclusiva e democrática para Ensino
Inter-religioso, evidenciando a importância do respeito à diversidade religiosa para a construção
de uma sociedade mais equitativa.
2
Conjunto de normas criado para regulamentar o ensino nos colégios jesuíticos. Sua primeira edição, de 1599,
além de sustentar a educação jesuítica ganhou status de norma para toda a Companhia de Jesus. Tinha por
finalidade ordenar as atividades, funções e os métodos de avaliação nas escolas jesuíticas.
3
Consiste na situação socio-histórica em que pessoas de diferentes etnias, cosmovisões, crenças e moralidades,
vivem juntas pacificamente e interagem amigavelmente. A coexistência de variadas visões de mundo, de religião
e orientações de vida só pode ser descrita como “amigável”, quando tais visões e orientações estabelecem
um diálogo duradouro sobre uma multiplicidade de temas. Tal conversação sociocultural e religiosa distinguiria
condições históricas genuinamente pluralistas dos cenários em que a coexistência entre diferentes se reduz
essencialmente à dominação (Berger, 2017).
debate, refere-se à separação entre as instituições religiosas e os poderes públicos
(Holmes, 2021, apud. Silva, 2024, p. 5).
Destacamos que do ponto de vista da práxis docente não há lugar para proselitismo
religioso em sala de aula, pois, igualmente ao docente de literatura, por exemplo, que faz
referência a diversas escolas literárias, ou mesmo, similar ao docente de história, o qual enfatiza
diversos povos, assim também o Ensino Religioso deve enfatizar diversas expressões religiosas,
considerando que as religiões fazem parte da aventura humana, e do próprio conceito de
Educação Inter-religiosa (Silva, 2004). Isso tudo sem esquecermos que, “sendo o Brasil um país
laico e estando o Ensino Religioso previsto em lei, discussões sobre essa relação se tornam
essenciais” (Domingos, 2009, p. 59). Sendo assim, o educador deve ter em mente que,
[...] tratar sobre as religiões como um segmento da área da educação é um desafio a
ser perpetrado por todos aqueles que almejam uma sociedade mais justa e equilibrada.
Todavia, é fundamental a coexistência de um Estado laico e uma escola aberta ao
multiculturalismo presente tanto dentro quanto fora do contexto social em que ela está
inserida. Vale ressaltar que o Ensino Religioso não deve ser de maneira alguma
entendido como “ensinar religião” (ou religiões), doutrinar e ou dar aula sobre uma
determinada religião. O espaço escolar não deve ser destinado à catequese, pregações
e ou discursos ideológicos (Silva, 2018, p.13).
Esta cosmovisão, regulamentada e sustentada por lei, deveria ser unânime em nosso
país, porém, segundo Lima (2024, p. 236) a “interação entre influências políticas e práticas
proselitistas no Brasil tem sido um tema relevante, revelando situações emblemáticas que
moldam o cenário religioso do país”. Alguns casos notórios destacam-se nesse contexto,
ilustrando a complexidade das relações entre poder político e religioso (Lima, 2024). É como
Faustino Teixeira (2017) nos esclarece,
A experiência do pluralismo revela de forma patente esta delicada engenharia de trato
com o outro. Berger mostrou em vários de seus livros que o pluralismo provoca
inquietação, e ele tem razão, pois é quando as versões divergentes do mundo colocam-
se lado a lado, que o risco da ameaça à estrutura de plausibilidade se torna mais
evidente. O outro, ou os outros, representam não apenas uma ameaça teórica, mas
também uma ameaça prática para a própria ordem instituída e para o mundo
objetivado. O pluralismo é visto como um passo perigoso de relativização (Teixeira,
2017, p. 13).
Isto ocorre no país, particularmente, por dois motivos: o primeiro devido ao fato da
herança histórica deixada pelo colonizador europeu, quase exclusivamente de ideologia
confessional cristã (Lima, 2024). E segundo, pelo crescimento evangélico no país, alavancado
pelo movimento das igrejas neopetencostais, as quais surgiram,
[...] no Brasil a partir da criação da Igreja Universal do Reino de Deus em 1977, no
Rio de Janeiro, por Edir Macedo e seu cunhado R. R. Soares, as igrejas
neopentecostais despontaram rompendo com vários traços sectários e ascéticos do
pentecostalismo clássico. Exemplos desse processo são a aversão a hábitos e
vestimentas considerados mundanos e a proposição de novos ritos, crenças e práticas,
estabelecendo assim uma nova maneira de se relacionar com a sociedade (Pini; Nobre;
Menezes, 2023, p. 4).
Com o tempo estas denominações religiosas infiltraram-se nas mais altas esferas do poder
político no Brasil, especialmente, no Congresso Nacional, por meio de seus deputados e
senadores eleitos, constituindo o que popularmente se denomina por “Bancada Evangélica”.
Sobre essa, podemos afirmar que atuam politicamente com,
Este “modo de pensar” tem relativa influência política de grandes impactos no que se
refere à liberdade religiosa no Brasil, inclusive, tolhendo direitos e relativizando leis já
consolidadas pela Constituição Federal e outras normas4, até mesmo no ambiente escolar. Por
exemplo, podemos citar a Lei 11.635/2007, que institui o Dia Nacional de Combate à
Intolerância Religiosa (21/01), em homenagem à ialorixá Mãe Gilda de Ogum, como era
conhecida a religiosa e ativista social Gildásia dos Santos e Santos. Considerada um símbolo de
luta contra a violência religiosa, ela, sua família e o terreiro que fundou no bairro de Itapoã, em
Salvador, foram alvos de vandalismo e violência, que a levaram a morrer de infarto em 21 de
janeiro de 2000.
Outro caso claro desta postura agressiva de intolerância e perseguição religiosa ocorreu
final de 2024, quando uma professora da rede municipal de Camaçari/BA, denunciou ao
Ministério Público e registrou um boletim de ocorrência após ser vítima de intolerância religiosa
por parte de três estudantes “evangélicos” na Escola Municipal Rural Boa União onde lecionava.
Conforme matéria publicada pela Carta Capita (2024), por ser praticante de religião de matriz
afro-brasileira, a docente passou a ser chamada de termos pejorativos e discriminatórios como
“bruxa” e “demônia”. Enfrentou discriminação ao usar trajes tradicionais de sua religião e ao
introduzir o livro ABC Afro Brasileiro em sala, sendo inclusive questionada por famílias e
proibida temporariamente e criminosamente, pela Secretaria de Educação, de usar tal literatura,
o que contraria as normas legais, tal como demonstraremos a seguir. Adepta do candomblé, a
referida docente relatou que as hostilidades começaram com agressões verbais, escalando para
ataques físicos, chegando ao cúmulo da intolerância e ápice da escalada de violência religiosa
com apedrejamentos da mesma.
Os crimes que se sucederam com a docente são inaceitáveis e precisam ser combatidos,
sendo a escola, também, um ambiente de resistência, difusão de conhecimento e de combate a
intolerância religiosa, que como vimos, gera violência e práticas discriminatória e criminosas.
Para não alargarmos demasiadamente esta análise, focaremos tão somente em demonstrar que
a docente agredida estava respaldada por lei e no exercício integral de sua função como
professora, a partir da Lei 10.639/2003 que traz em sua redação que,
4
Como a Lei nº 14.969, de 13 de setembro de 2024, a qual reconhece as expressões artísticas cristãs e os reflexos
e as influências do cristianismo, além de seus aspectos religiosos, como manifestação cultural nacional (gerando
uma impressão de superioridade sobre as demais expressões religiosas), indo contra a nossa própria Constituição
e BNCC.
Tal situação reflete desafios na promoção da diversidade e no combate ao preconceito
religioso e racial no ambiente escolar. Em 2024, a Ouvidoria Nacional do Ministério dos
Direitos Humanos e da Cidadania recebeu 2.472 denúncias e constatou 3.853 violações à
liberdade religiosa. Conforme o CONJUR (2025), destacamos que o Supremo Tribunal Federal
(STF) acumula decisões que reforçam o combate à intolerância religiosa, os dados revelam o
descumprimento desse direito fundamental, exercido dentro e fora de mais de 579 mil
estabelecimentos religiosos: igrejas, templos e outros.
Para combater este viés de fideísmo, é que então apresentamos a tríade pedagógica como
recurso e/ou alternativa para a difusão do Ensino Religioso como promoção da tolerância e paz
social, e consequentemente, como ferramenta para a implementação de uma Educação Inter-
religiosa autêntica.
O ateísmo e o agnosticismo metodológico representam uma base epistemológica
essencial para a reconfiguração do Ensino Religioso. Sua práxis justifica-se por desvincular a
disciplina de abordagens confessionais ou proselitistas, permitindo que o fenômeno religioso
seja tratado como um objeto de investigação acadêmica. Sob essa ótica, a ênfase recai sobre a
análise crítica e objetiva das religiões, compreendidas como manifestações culturais, históricas
e sociais, em vez de um enfoque em seus preceitos teológicos ou doutrinários (Stern, 2020).
Consequentemente, a adoção de tais metodologias é indispensável para a consolidação
de uma prática docente imparcial. Elas garantem o distanciamento crítico e científico na análise
dos fenômenos religiosos, o que se reflete diretamente nas estratégias pedagógicas em sala de
aula. O propósito não é validar ou refutar crenças na existência de divindades, mas sim estudar
as religiões como construções humanas complexas. Desse modo, o educador deve assumir uma
postura de neutralidade, abstendo-se de proselitismo ou da desqualificação das vivências
discentes, e fundamentar sua atuação na análise científica, cultural e sociológica do tema, em
vez de reproduzir suas convicções pessoais (Brandão, 2024).
Trata-se de uma abordagem que estabelece um limite disciplinar para a práxis docente,
diferenciando-a da teologia, por exemplo, e de discursos confessionais. Nesse sentido, o docente
deve focar nos impactos sociais e culturais das religiões, sem buscar validar ou refutar alegações
sobrenaturais. Isso pode gerar tensões entre o docente e os alunos (praticantes ou fiéis religiosos),
uma vez que a explicação científica nem sempre corresponde à compreensão mística dos fiéis.
No entanto, essa postura metodológica é essencial para garantir que a análise acadêmica se
mantenha objetiva, respeitosa e alinhada aos princípios do método científico, bem como ao
respeito aos diversos credos religiosos (Brandão, 2024).
Porém, não será possível lograr êxito apenas com técnicas metodológicas específicas,
todavia, faz-se necessário um olhar empático do professor, dito isto, questionamos, afinal, o que
é empatia? Segundo Carl Rogers (1980, p. 142- 143), empatia é “entrar no mundo perceptivo do
outro e ficar completamente à vontade nele [...] Estar com o outro dessa forma significa que, por
um momento, você deixa de lado as próprias opiniões e valores para entrar no mundo do outro
sem preconceitos”.
Refere-se, no caso dos docentes, de saber ouvir, se comunicar e se relacionar,
estabelecendo uma relação de confiança e respeito com os alunos, ou seja, não se trata então de
um “saber mais e sim de um agir melhor” (Valls, 2004, p. 75).
Ainda destacamos que será necessário trabalhar as questões conflitantes ocorridas na
escola através da chamada justiça restaurativa, isto é, processo através do qual todas as partes
envolvidas em um ato que causou ofensa reúnem-se para decidir coletivamente como lidar com
as circunstâncias desse ato e suas implicações para o futuro, objetivando, segundo Dehnhardt e
Santos (2012, p. 87), “por meio do diálogo, o empoderamento e o protagonismo dos envolvidos
em um conflito no enfrentamento a tal situação, colocando-se como uma ‘possibilidade da
vítima e ofensor falarem sobre seus sentimentos e necessidades’”.
Com isto, inúmeros projetos e subprojetos podem ser desenvolvidos e se derivarem desta
proposta baseada na justiça restaurativa, desde cursos de formação continuada para docentes
sobre a judicialização de conflitos escolares de um ponto de vista mais técnico (causas e
consequências), até mesmo protagonismo de minorias combatendo questões como bullying,
machismo, homofobia, racismo e, sobretudo, no caso em tela, o qual estamos a discorrer nesta
pesquisa, a intolerância religiosa, buscando assim, apresentar aos alunos e comunidade escolar
um ambiente mais saudável e com menos preconceitos, alicerçado especialmente na
Constituição Federal, BNCC, LDB, e Lei 10.639/2003, entre outros dispositivos legais, inclusive,
com o Ministério Público como fiador, se necessário; além é claro de toda a sociedade civil.
Assim, percebe-se que a empatia e a justiça restaurativa, como abordagens centrais na
Educação Inter-religiosa, surgem como ferramentas pedagógicas indispensáveis para promover
o respeito e a convivência pacífica em um contexto de diversidade religiosa. A capacidade de
se colocar no lugar do outro, compreender suas crenças e valores sem julgamento, favorece um
ambiente escolar inclusivo e democrático. Tal prática é essencial em um país como o Brasil,
cuja pluralidade religiosa reflete a riqueza cultural da nação, embora, também, seja um enorme
desafio aos educadores que lidam com diferenças, sobretudo as religiosas, que muitas vezes
geram conflitos e preconceitos (Frezzato; Oliveira; Oliveira, 2024).
Nesse sentido, a Educação Inter-religiosa pautada na empatia, na justiça restaurativa e
no ateísmo/agnosticismo metodológico é essencial para consolidar o papel da escola como
espaço de diálogo e formação cidadã. Essa postura não só combate a intolerância religiosa, bem
como prepara os alunos para compreenderem a religião como parte integrante da experiência
humana, valorizando sua pluralidade e impacto na sociedade. Ao mesmo tempo, reforça-se o
compromisso ético de não instrumentalizar o ambiente escolar para promover crenças
específicas, e sim, para fomentar a convivência respeitosa e o aprendizado mútuo, sobretudo, o
respeito a livre expressão do credo religioso.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por fim, enfatizamos que ao longo desta pesquisa buscamos evidenciar, com base em
uma análise rigorosamente bibliográfica e em consonância com os marcos legais e teóricos da
educação brasileira, que a Educação Inter-religiosa, quando fundamentada em princípios laicos,
críticos e inclusivos, configura-se como uma resposta ética e pedagógica ao desafio persistente
da intolerância religiosa nas escolas brasileiras, uma vez que, ao reconhecermos o pluralismo
religioso como um traço constitutivo da sociedade brasileira, e a religião como uma expressão
cultural e identitária fundamental, podemos apresentar, ou melhor, defender que o Ensino
Religioso não seja mais reduzido à catequese nem ao proselitismo, ao contrário, deve se
configurar como espaço de análise do fenômeno religioso em suas múltiplas manifestações,
comprometido com a formação cidadã e democrática.
Destacamos que nossas pesquisas apontam que práticas escolares – marcadas pelo
ensino catequético e confessional acerca do Ensino Religioso, assim como, pela negação da
diversidade religiosa em nossas escolas – comprometem o direito à liberdade de crença e a
integridade cultural de discentes e docentes, especialmente daqueles vinculados a religiões de
matriz africana, frequentemente alvo de estigmatização, exclusão simbólica e violência
explícita; conforme demonstrado com análise do caso da professora vítima de intolerância
religiosa, exemplificando de modo contundente os efeitos da ausência de uma prática
pedagógica verdadeiramente Inter-religiosa, além de escancarar as tensões entre direitos
garantidos constitucionalmente e práticas institucionais autoritárias e discriminatórias.
Destarte, apresentamos e defendemos, como resultado principal de nossa pesquisa,
frente a esse cenário descrito, a proposição de uma tríade pedagógica constituída por ateísmo
e/ou agnosticismo metodológico, empatia e justiça restaurativa, argumentando que esses três
elementos, em sua articulação, não apenas oferecem parâmetros didático-metodológicos
concretos, e sim, sustentam-se em fundamentos epistemológicos, éticos e políticos que
garantem a neutralidade religiosa, o reconhecimento das subjetividades e a mediação dialógica
de conflitos. Enfatizando que o ateísmo metodológico não implica na negação do sagrado, trata-
se do oposto: promove um distanciamento crítico necessário para que o educador possa tratar
do fenômeno religioso com objetividade e cientificidade, sem interferências dogmáticas e
indução de suas crenças pessoais; já a empatia, por sua vez, é o dispositivo ético que permite ao
docente reconhecer o outro em sua alteridade, promovendo uma escuta ativa e a criação de
vínculos baseados no respeito mútuo; enquanto a justiça restaurativa se configura como um
instrumento pedagógico essencial para lidar com as violências simbólicas e reais advindas da
intolerância, ressignificando os conflitos como oportunidades educativas para a construção de
uma cultura de paz.
Essa tríade se configura como recurso pedagógico para se alcançar a tolerância e paz
social em sala de aula numa perspectiva de uma Educação Inter-religiosa. O princípio da
tolerância, por exemplo, deve considerar a formação necessária para a vida em sociedade, isso
independentemente da opção ou posicionamento religioso de cada docente ou aluno.
Entretanto, cabe exortarmos que os resultados desta investigação indicam, de forma
conclusiva, que a efetivação de uma Educação Inter-religiosa crítica, laica e inclusiva depende
da formação continuada de docentes, da adoção de políticas públicas comprometidas com a
diversidade e da mobilização de toda a comunidade escolar em torno de valores democráticos
e de direitos humanos, bem como, a efetivação, respeito e fiscalização no que se refere aos os
instrumentos legais já existentes, a saber: Constituição Federal, a LDB, a BNCC e a Lei
10.639/2003, isto é, como suportes normativos que não apenas legitimam a abordagem inter-
religiosa, e sim, que a tornam obrigatória frente às exigências contemporâneas de justiça
curricular e reconhecimento das identidades culturais.
Reafirmamos, fundamentados pelos resultados de nossa investigação nesta pesquisa,
que o Estado, a escola, a sociedade não podem se omitir diante da complexidade religiosa que
marca a vida social brasileira, especialmente a vida escolar de nossas crianças e jovens.
Ressaltando, por exemplo, a escola, pensamos que ao contrário de se omitir frente a este
contexto vivenciado em parte das escolas brasileiras, de intolerância religiosa e ausência de
diálogo democrático e interreligioso, devem se constituir enquanto espaços educacionais de
resistência à intolerância, de valorização da diversidade e de promoção ativa de uma educação
voltada à convivência plural e à emancipação dos sujeitos.
Portanto, defendemos que o Ensino Religioso deve ser proposto como área do
conhecimento, a partir da escola, isto é, como disciplina curricular, e nunca a partir das crenças
ou religiões individuais. Advogamos que o Ensino Religioso tenha como objeto de estudo o
fenômeno religioso nas suas diferentes manifestações, uma vez que, todas as religiões ou
manifestações religiosas devem ser igualmente respeitadas. Enfaticamente precisamos
combater o proselitismo religioso nas salas de aulas e espaços escolares. Logo, é preciso pautar
a disciplina de Ensino Religioso a partir de uma perspectiva de análise crítica e multifacetada,
objetiva, criteriosa e consciente dos fatos religiosos.
A Educação Inter-religiosa, nesses termos, não é uma alternativa pedagógica entre
outras, mas uma exigência ética, legal e civilizatória, cujo êxito está diretamente ligado à
possibilidade de se construir uma sociedade mais justa, pacífica e verdadeiramente democrática.
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