Terra em Transe 2.0: a morte lenta da intelectualidade na era dos algoritmos?
Dirce Waltrick do Amarante*
Fedra Rodríguez**
Fenômenos artísticos que se revelam armações fraudulentas não são novidade.
Quem tem mais de 40 anos deve se lembrar da dupla de cantores Milli Vanilli, que
estouraram com sucessos marcantes entre 1988 e 1990, embora o embuste não tenha
durado muito. Dois anos foram suficientes, mesmo sem a internet, para descobrir que
eles não eram os verdadeiros intérpretes das canções. Naquela época, a farsa revoltava
os fãs.
Hoje, com o avanço das inteligências artificiais (IAs), as falsificações e
apropriações se multiplicam — e, não raro, os próprios fãs são os primeiros a propagá-
las, sem qualquer constrangimento. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a
proliferação de imagens recriadas por IA inspiradas em Hayao Miyazaki, cofundador do
Studio Ghibli nas últimas semanas. Muitos se divertiram brincando de “ser Miyazaki
por um dia”, sem se preocupar com direitos autorais, ética e outros fatores que
envolvem o processo criativo.
Além disso, as IAs operam com base em um acesso quase irrestrito a bancos de
dados massivos, absorvendo e recombinando conteúdos sem necessariamente indicar a
autoria deles. O resultado final se apresenta como algo "novo", mas essa suposta
originalidade esconderia possivelmente um processo predatório — afinal, se a máquina
"recria", por que citar fontes?
O fato é que as inteligências artificiais seguem evoluindo rapidamente, quase
sem regulamentação, gerando situações que beiram o absurdo.
Recentemente, um escritor honconguês radicado na Europa, Jianwei Xun,
revolucionou o pensamento filosófico com um novo conceito, a “hipnocracia”, que
expôs no ensaio The Hypnotic Architecture of Digital Power: Algorithmic Trance and
the End of Shared Reality (A arquitetura hipnótica do poder digital: o transe e o fim da
realidade compartilhada), que está disponível para download em sua página no site
[Link]. Xun construiu sua teoria com base em arcabouços teóricos e campos de
conhecimento variados que vão do “simulacro” de Baudrillard à “nova crítica da
política econômica” de Stiegler e reflexões sobre a farmacologia do proletariado.
Para o escritor asiático, a sociedade não mais disciplina os sujeitos com o lema
do “dever”, como no início da Revolução Industrial. Tampouco eles são
empreendedores escravos de si mesmos que equivocadamente se pensam livres, como
propõe Byung Chul-Han acerca da contemporaneidade. Aliás, Han é uma das
referências para o artigo seminal de Xun, e ambos curiosamente parecem compartilhar
trajetórias pessoais semelhantes.
O artigo sobre a "hipnocracia" rapidamente ganhou reconhecimento, embora um
olhar mais atento e cético pudesse identificar ali uma boa dose de inconsistências que
contrastam com a aura de rigor que pretende transmitir. Xun declara, por exemplo, atuar
como pesquisador bolsista em um tal Institute for Critical Digital Studies, cuja
localização parece oscilar: no início do texto, aparece em Berlim, enquanto na seção
"Sobre o Autor", sua localização está em Dublin.
Mas o paper sobre o mundo atual chamou a atenção em alguns messes e
começou a ganhar espaço significativo em simpósios na França - inclusive no
prestigiado World Artificial Intelligence Cannes Festival - , em jornais da Espanha
como “El País” e “La Vanguardia”, em sites de notícias de Portugal e até em blogs e
sites relevantes aqui no Brasil.
Não demorou também para que fosse debatida em centros como o Instituto de
Estudos Europeus de Direitos Humanos, da Universidade Pontifícia de Salamanca, e por
intelectuais de renome como Gianluca Misuraca, Cecilia Danesi e Marcelo Longobardi.
Em 20 de fevereiro deste ano, exatamente um mês depois da posse de Trump (e
Musk), Xun publicou seu primeiro livro, “Hypnocracy: Trump, Musk and the
Architecture of Reality” (Hipnocracia: Trump, Musk e a arquitetura da realidade). O
livro foi publicado de forma independente e já foi traduzido e publicado em editoras
como a Editorial Rosamerón, de Barcelona.
A obra foi aclamada por críticos europeus e chegou a ser considerada por
Longobardi tão revolucionária quanto “Vigiar e Punir”, de Michel Foucault foi em sua
época.
Verdade é que sua teoria não deixa de ser bastante instigante à primeira vista.
Resumidamente, o poder invisível de algoritmos atuariam não somente em um plano
emocional e psicológico, mas manipulariam a própria experiência temporal, criando um
“presente de antecipação constante”, ávido por novidades inúteis que não levam a
qualquer forma de evolução pessoal ou intelectual. Segue-se a esse fenômeno a
dissolução de estruturas básicas que fornecem orientação e significado, produzindo uma
fragmentação da realidade e um “vértigo ontológico”.
Porém, como diz o velho ditado, nem tudo o que reluz é ouro.
Após diversas tentativas infrutíferas de entrevistar Jianwei Xun, Sabina Minardi,
redatora-chefe da revista italiana L’Espresso, descobriu que Xun não existe. Ou melhor,
existe como uma fusão do pensamento do escritor e editor italiano Andrea Colamedici e
o trabalho de escrita de duas ferramentas de IA, Claude, da Anthropic, e o famoso
ChatGPT, da OpenAI. E é aqui que diversos pontos se entrelaçam, tecendo uma
complexa trama que pouco ou quase nada tem a ver com uma fraude de músicos pop
pelas implicações que traz. Chegamos a um marco: o primeiro fake book da era
tecnológica com todas as camadas intrincadas que a IA é capaz de formar. O mais
surpreendente, senão aterrorizador, foi o fato de a farsa ter convencido um grupo de
pessoas, entre elas intelectuais, cientistas e professores, que, acredita-se, teriam a
capacidade crítica e ao menos uma dose de cautela antes de referendar a qualquer tese.
Em entrevista ao El País, Colamedici afirmou que a sua intenção não era
enganar os leitores, mas “criar um experimento filosófico e uma performance artística
para demonstrar os riscos e perigos” de usar a IA para desenvolver uma ideia que nós
mesmos somos capazes de colocar no papel ou na tela sem ajuda. Além disso, em
entrevista ao L’espresso, afirma sem vergonha ter “deixados rastros engraçados, coisas
alienantes, migalhas como em João e Maria”. O argumento do experimento quase
lúdico, entretanto, soa vazio e, convenhamos, tem ares de desculpa tirada da cartola para
evitar processos e tribunais.
Em Nexus: Uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à
inteligência artificial (Companhia das Letras, 2024, em tradução de Berilo Vargas e
Denise Bottmann), Yuval Noah Harari leva o tema a sério e não recorre a piadas para
analisar numa perspectiva diacrônica e sincrônica as formas de comunicação ao longo
da história da civilização, incluindo os célebres algoritmos e modelos de linguagem.
Nessa jornada, o autor israelense posiciona o computador como um membro à parte,
não humano, nas redes de informação. Harari destaca ainda que durante milhares de
anos, a linguagem esteve a serviço dos Homo sapiens para criar realidades
intersubjetivas que nos conectam. Do mesmo modo, a linguagem nos permitiu elaborar
mecanismos financeiros, legislações, arte, ciência, nações e religiões. Ao concedermos
essa potência às máquinas, automaticamente entregamos a chave-mestra da nossa
complexa estrutura social a algo sobre o qual não temos total controle e que talvez já
tenha escapado das nossas mãos e mentes.
Vale dizer também que o “experimento” de Colamedici não é totalmente
inovador, pulverizando sua justificativa.
Em 2017, um perfil falso chamado “Q” entrou no site 4chan e declarou ter
contatos nas altas cúpulas do governo dos Estados Unidos. Com mensagens capciosas
convenceu muita gente que havia um plano secreto para destruir a humanidade. A
história se espalhou como pólvora e a teoria conspiratória Qanon ganhou milhões de
adeptos, muitos dos quais participaram da invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021.
Embora com objetivos e público totalmente diferentes, Qanon e Xun são a prova
de que num mundo fascinado pela tecnologia, os computadores têm acesso e domínio
sobre os recônditos da intimidade humana, isto é, o pensamento e as emoções.
Nesse sentido, se a intenção de Colamedici era mesmo provar os perigos e o
poder da IA, ele parece um tanto ingênuo, “trollador” e repetitivo, o que não combina
com alguém que encantou - ainda que com ajuda tecnológica - um seleto público de
intelectuais com uma teoria multifacetada e provocadora, apesar de suas bizarrices e
incongruências.
Em “O prazer do texto” (Perspectiva, 2020, em tradução de J. Guinsburg),
Roland Barthes considerava o escritor como uma criatura de linguagem, um coringa
num carteado que se presta aos movimentos dos jogadores, aos movimentos da história,
ficando à deriva e sendo incapaz de se mover completamente entre os valetes e ases das
ideologias e hegemonias. Era uma carta inútil. No caso de Colamedici-Xun, contudo,
esse coringa passa a ter outra função no jogo, pois se desfez do papel que lhe era de
praxe. A IA se transforma em outro jogador que muda as regras deste jogo e o deixa
imprevisível.
Cabe acrescentar a este ponto o conceito de clonagem do pensador francês Jean
Baudrillard em A ilusão vital (Civilização Brasileira, 2001, em tradução de Luciano
Trigo) como analogia para pensar o avanço irrefletido das inteligências artificiais que se
dá até mesmo entre acadêmicos: “a humanidade não discrimina, ela se transforma com
boa vontade em sua própria cobaia, sob as mesmas que o resto do mundo, animado ou
inanimado. A humanidade joga alegremente com seu próprio futuro sob o aspecto de
espécie, da mesma maneira que joga com o futuro de todas as outras criaturas. Em sua
busca cega para obter um conhecimento maior, a humanidade programa sua própria
destruição com a mesma ferocidade e falta de cerimônia com que se dedica à destruição
de todas as espécies restantes”. Justamente, nessa vorágine, o tal “experimento” não
deixou impune o meio ambiente. Note-se que, para ser criado, o engodo demandou o
uso de IAs generativas que consomem muita energia e, consequentemente exigem uma
maior busca por silício e cobalto, esse último extraído e, grande parte na República
Democrática do Congo, de forma muitas vezes desumana, arrasando o ecossistema da
região e não remunerando adequadamente quem faz o trabalho pesado.
Intelectuais e produtores de conhecimento científico - tanto no ambiente
acadêmico quanto além dele - foram igualmente engolfados por essa “lógica
maquínica”, como diziam Deleuze e Guattari. Encontram-se hoje em estado de agonia
semelhante ao de Paulo Martins, o jornalista-poeta de “Terra em Transe” (Glauber
Rocha, 1967), figura emblemática da crise do intelectual em tempos de colapso
institucional.
Enfim, tudo aqui nos dá a impressão de ocorrer de forma intencionalmente
irrefletida.
Em A dúvida (Annablume, 2011), o filósofo checo-brasileiro Vilém Flusser
lembra que “a dúvida é um estado de espírito polivalente. Pode significar o fim de uma
fé, ou pode significar o começo de outra. Pode ainda, se levada ao extremo, ser vista
como ceticismo, isto é, como uma espécie de fé invertida. Em dose moderada estimula o
pensamento. Em dose excessiva paralisa toda a atividade mental. A dúvida, como
exercício intelectual, proporciona um dos poucos prazeres puros, mas como experiência
moral ela é uma tortura. A dúvida, aliada à curiosidade, é o berço da pesquisa, portanto
de todo o conhecimento sistemático. Em estado destilado, no entanto, mata toda a
curiosidade e é o fim de todo o conhecimento”.
A reflexão de Flusser é fundamental. Para o filósofo, aliás, a máxima de
Descartes, “penso, portanto sou”, poderia ser reformulada por “duvido, portanto sou”.
As duas máximas talvez já não estejam em voga hoje em dia. Talvez pudesse até
se pensar numa mescla das duas: “penso, portanto, duvido”, pois, como diz Flusser, “a
dúvida, metodicamente aplicada, produzirá possivelmente novas certezas, mais
refinadas e sofisticadas”. Mas, ele adverte: “estas novas certezas nunca serão autênticas.
Conservarão sempre a marca da dúvida que lhes serviu de parteira”.
À luz do pensamento flusseriano e diante deste episódio, fica evidente a
urgência de uma discussão mais profunda e séria sobre ética, estudo, pensamento e fast-
culture - temas cujo debate, aparentemente, se tornaram démodés. Entre os
“experimentalistas estéticos”, a tendência dominante é, ao que tudo indica, buscar
visibilidade midiática a qualquer custo e capitalizá-la, mesmo que à custa do rigor e das
práticas responsáveis.
Para os intelectuais, pessoas de ciência e arte, a anedota traz um conselho
pertinente. É necessário, de agora em diante, tomar dois antídotos muito eficazes para a
neutralizar os efeitos da era do consumo intelectual descontrolado e do jogo de espelhos
da IA: a pausa reflexiva e a análise crítica. Em doses generosas, de preferência.
*Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, tradutora, escritora e ensaísta.
**Especialista em comunicação, tradutora, escritora e palestrante.