CACIMBA DE HISTÓRIAS: ENCONTROS E INTERCÂMBIOS COM OS SABERES
DOS CONTADORES DE HISTÓRIAS TRADICIONAIS DE CIDADES DO INTERIOR DA BAHIA
GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM POÉTICAS ORAIS
TRANSCRIÇÃO EDITADA DOS CONTOS DA TRADIÇÃO ORAL
RECOLHIDOS NO INTERIOR DA BAHIA
Recolha: Felipe de Cerqueira Lopes (IC/PROBIC)
Orientadora: Profª Dra. Raquel Cruz Freire Rodrigues (DEDU/UEFS)
Contadora de Histórias: Marias das Graças dos Santos Camões/ Santa Bárbara /Bahia
A MENINA E A PENA DA SAQUÉ
Em uma ocasião, um professor anunciou na escola que haveria um concurso para eleger a
mais bela fantasia de pena de saqué. Ninguém quis entrar, exceto duas meninas. Uma delas era
de uma família humilde da região e a outra de uma família com riquezas. Haveria somente um
prêmio que seria uma boneca do tamanho delas e que falava “mamãe”. As duas se animaram,
mas a menina humilde não tinha muito tempo para poder catar as penas de saqué para fazer a
sua fantasia, pois vivia para cuidar do pai e dos afazeres de casa, pois não tinha mais sua mãe
em vida. A menina rica tinha tempo para catar as penas para fantasia, pois tinha a sua mãe para
lhe ajudar nas tarefas e fazer os afazeres de casa. Passou alguns dias e a menina rica tentou
ajudar a outra menina dizendo:
- Você vai lá pra casa todo dia de manhã cedo pra catar pena de saqué comigo.
A menina humilde procurava nas horas vagas ir até a casa da amiga para catar as penas,
mas sobrava muito pouco tempo. Foi quando chegou o dia da entrega das penas de saqué e seria
a ganhadora aquela que conseguisse a maior quantidade de penas para poder fazer a fantasia.
As meninas levaram as penas juntas, mas como a rica teve mais tempo para catar, ela acabou
ganhando. Enquanto isso, a menina humilde ficou tão triste que até hoje não pode ouvir falar em
pena de saqué.
1
Contadora de Histórias: Marias das Graças dos Santos Camões/ Santa Bárbara /Bahia
A SENHORA E AS COBRAS
Essa história foi meu pai que me contou, é de uma senhora que gostava muito de fazer
sambas em sua casa e convidar muitas pessoas. Um belo dia, ela estava dando um samba com a
casa cheia de gente e quando entrou na roda foi tomada por uma energia de encantamento e
começou a cantar:
- Vem cobra jararaca, vem cobra jaracuçu, venha cobra cipó que eu tanto espero por tu.
Venha caninana, vem também a malha de sapo, vem o cascavel, vem também o jaracuçu!
Quando a senhora começou a cantar, foram chegando diversas cobras por todos os
lugares da casa e as cobras iam se entrelaçando no corpo da senhora. O povo começou a pular
pela janela, outros subiram na mesa e alguns correram pela porta e quem me contou vazou e caiu
fora!
Contadora de Histórias: Marias das Graças dos Santos Camões/ Santa Bárbara /Bahia
O LOBISOMEM
Um agricultor vivia com sua filha caçula na Fazenda Gravatá, localizada no interior do
recôncavo baiano, no município de Santa Bárbara. No tempo da plantação de mandioca, o
agricultor teve uma boa e farta plantação do fruto e contratou um torrador para ajudar na
peneiração de farinha. A fazenda ficava próxima a uma estrada chamada estrada boiadeira. Este
local era muito conhecido e temido, pois diziam que no calar da noite aconteciam coisas
misteriosas. Os mais velhos diziam que quando tudo escurecia, passava alguém montado em um
cavalo gritando e quando as pessoas saíam na porta não encontravam nada. A filha do agricultor
não acreditava nessas histórias, pois dizia que nunca tinha visto assombração. Em uma noite, o
pai pediu para a filha ir até a casa de farinha levar o café do torrador e ajudar na peneiração da
farinha. A menina chamou a filha da vizinha para ir junto. Quando estavam no caminho, debaixo
de um pé de quixabeira, avistaram um bicho horrível, medonho e grande. O bicho uivava, mas não
era um lobo. O bicho era grande, mas também não era um cavalo. O bicho tinha um rosto, mas
não era gente. Foi quando elas olharam bem mais de perto e a filha do agricultor disse:
- Corre que é o lobisomem, É O LOBISOMEM!
2
Quando a menina falou “é o lobisomem", a assombração começou a correr atrás das
meninas, subiram a ladeira e picaram o pé até chegar na casa de farinha. Quando conseguiram
chegar na casa de farinha, fecharam a porta com bastante força e o bicho foi embora. O torrador
começou a tremer de tanto medo, mas depois conseguiram fazer com que ele se acalmasse e
começaram a fazer o seu trabalho. Quando acabaram, pediram ao torrador para ir com elas até
em casa. Mas o torrador estava com muito medo e falou:
- Eu não, deus me livre, levo não!
A filha do agricultor teve uma ideia! Ela tinha um cachorro chamado Dorli, que estava perto
da casa de farinha e sempre a protegia. A menina pegou cinco cordas de pindoba e colocou no
pescoço do valente Dorli e desceu junto com sua amiga para a casa de seu pai. Dorli foi na frente
e espantou qualquer assombração que poderia aparecer. As meninas chegaram sãs e salvas em
suas casas e a partir desse dia nunca mais duvidaram do que os mais velhos falam!