A PRINCESA:
O céu está tão escuro que não é possível enxergar nem mesmo as nuvens, ouço ao longe o
som de alguns homens festejando, provavelmente bêbados pelo hidromel de baixa
qualidade da taverna. Volto ao meu foco: encontrar um pouco de Sálvia para finalmente
compôr meu novo tônico para o cabelo, apesar de sempre lavar os cabelos somente com
água do antigo poço, acreditava que ele permanecia sem o brilho que eu precisava e sabia
bem que a junção de camomila, lavanda, alecrim e sálvia, faziam até mesmo o cabelo da
velha Gytha voltarem ao seu melhor estado. Encontro as sálvias que plantei no início do
mês, em seu solo preferido, rochoso no alto da montanha, longe de água e árvores,
recebendo a melhor luz solar da região. Colho uma quantidade suficiente para que não
precise me arriscar noite a dentro pelas próximas quatro semanas.
A noite está quente, o que não me ajuda porque preciso me cobrir com a velha capa que
roubei de um dos soldados noturnos, belisco o pedaço da manga que foi chamuscado
provavelmente em alguma batalha ou contendo algum camponês revoltado pelas Corveias
exigidas por meu tio, o maior senhor das terras do Sul. Aproveito para agradecer o grande
tamanho do soldado, pois sua capa me cobre facilmente, o que não foi bem sucedido das
três primeiras tentativas, já que não sou uma donzela franzina. Respiro fundo e sinto o
cheiro rançoso de suor e fumaça, provavelmente estou próxima dos homens que ouvi mais
cedo, conforme vou avançando, em direção à casa, enxergo a luminosidade na clareira, eu
estava mais do que certa, soldados bêbados, e eu precisava pensar rápido pois de onde eles
estavam, com certeza me veriam.
Meu tamanho não ajuda, acabo pisando forte demais em um galho e o barulho chama
atenção dos soldados, ouço risadas e o que está mais ao longe da fogueira grita:
-Harlot, querida! Junte-se à nós e será rica pelo resto do verão!
Mesmo suando, senti um frio repentino, os soldados não tinham uma grande variedade de
Harlots na região Sul, as poucas estavam velhas ou doentes. Senti uma vontade instintiva de
correr, mas com o meu tamanho, eu provavelmente cairia e rolaria na direção deles. Como
eu estava congelada de medo, e não houve resposta, eles vieram em minha direção.
-Você deve ter vindo do norte, tenho certeza. Não é comum que uma Harlot busque clientes
para amá-la nessa redondeza, a taverna está bem distante daqui. A não ser que você seja
uma Striga, se esse for o caso, levarei sua cabeça com orgulho para nosso lorde.
-Isso é um insulto para mim, soldado. Sou a Lady Beaumont, direi hoje mesmo ao meu tio
que quero sua cabeça em minha porta.- Respondi com o resto de coragem que ainda tinha,
o soldado deu dois passos para trás e estreitou os olhos, fez um gesto com a mão para os
três homens que o acompanhavam e eles vieram em minha direção, passos firmes que não
combinam com homens bêbados. Era tarde demais para sair correndo, somente aceitei o
meu destido e esperei que a espada viesse ao meu encontro.
Eles tiraram a capa de mim com violência, o mais robusto deles reconhecendo a capa
roubada, me seguraram, tirando meu cabelo do rosto:
-Lady Aveline, a senhorita deveria estar em seus aposentos, nem vou lhe perguntar o que
está tramando dessa vez, no meio da floresta- Reconheci de prontidão Aldric, um dos
melhores soldados de meu tio, segurando firmemente meu braço, estava seu irmão gêmeo
Rodric e obviamente o dono da capa, robusto e de mau humor, Edgar.
-Uma dama deve colher suas próprias ervas para conservar a beleza.- Respondi, Edgar
grunhiu, respondendo em seguida:
-Uma dama não rouba capas, muito menos anda sozinha noite a dentro, no meio de uma
floresta!
-A Lady deveria tomar cuidado com suas palavras, damas e ervas não combinam, a não ser
que queia ser acusada de Striga!- Disse Rodric, sua preocupação era quase palpável, visto
que, sua mãe havia dado a luz aos dois, ruivos e brancos, um seguido do outro, algo nunca
visto em nossas terras, o que causou a morte por forca acusada de magia negra e os
meninos foram criados por nossos soldados, criando assim; duas máquinas de matar e
nenhum sentimento. Suspirei, não querendo prolongar aquela conversa e encerrando:
-Vamos, heróis! Avante para o castelo, devolvam a donzela e recebam sua proteção.
Os três obedeceram, Edgar apagou a fogueira com terra, todos vestiram suas capas
(inclusive eu) e seguimos rumo ao portão principal, deixando de lado o túnel ao lado das
masmorras, por onde eu frequentemente escapava em busca de novas ervas ou quem sabe
um novo cogumelo para chás mágicos. Passamos facilmente pelos portões, nossa pequena
trupe era reconhecida por sempre passar ali naquele horário e eu já havia decorado o
sermão de sempre que meu tio recitava ao me ver entrar e tirá-lo de seus aposentos para o
salão real somente com as roupas de baixo.
-Olá querido tio, veja só quem encontrei em minha caminhada noturna!- Disse em tom de
brincadeira, a fim de acalmar os ânimos, quando levantei o olhar, não encontrei o rosto
preocupado e cansado de meu tio, na realidade vi sentado em seu lugar meu primo
Magnus, e me surpreendi pois vestia suas vestes reais. Ele sorriu vitorioso e ordenou aos
soldados:
-Ashenwall, Steelborn, vocês estão dispensados! Podem voltar para a bebedeira. Meu pai
mandou que eu tomasse conta de minha querida prima.
-Milorde- Responderam em uníssono.
-Prima, sabe bem que este momento não é apropriado para passeios noturnos.- Começa
meu primo, em tom de bronca, seu rosto está franzido e não parece ser por meu passeio
noturno, fico instantaneamente preocupada também:
-Espero que o único motivo de sua preocupação seja meu passeio noturno, caso não, seria
apropriado lhe perguntar por que está vestido dessa maneira, em uma hora dessas...
-Ave, meu pai precisou fazer um acordo com o senhor do norte e...- Ele colocou as mãos no
rosto e soluçou, eu nunca havia visto meu primo assim antes, eu nunca fazia perguntas
apenas afirmações, e essa foi difícil de dizer:
-Meu tio está morto, você é o novo senhor!
-Não, Ave! Meu pai está chegando do Norte neste momento, pediu que eu me aprontasse e
que deixasse você o mais arrumada possível, pois será a nossa moeda de troca.- Magnus
fraquejou quando disse moeda, e eu não conseguia acreditar que haviam me chamado de
Harlot pela segunda vez em menos de 24 horas, suspirei e disse:
-Meu tio finalmente enlouqueceu, vendeu minha virgindade e com ela qualquer chance de
casamento decente.
-Não Ave, você se casará! Resta saber se será com o lorde Stormblade ou um de seus
aliados, meu pai não teve escolha. Nossa colheita fraquejou com o calor, não pagamos
taxas o suficiente e o rei exigiu um novo pagamento ou uma donzela. Você é nossa única
esperança e pelo que me parece, a grande maioria dos melhores homens de toda a
Listovênia está ao Norte, por isso a reunião foi lá.- Explicou Magnus, de repende meu rosto
se iluminou: Eu finalmente sairia desse lado do mapa quente e conheceria mais lugares, e o
mais incrível: Me casaria finalmente, seria feliz e teria muitos filhos homens! Afinal, Gytha
não havia perdido todo o seu fôlego me ensinado a toa.
-Finalmente, Deus me ouviu. Terei meu próprio castelo e serei finalmente feliz!!!- Não pude
conter meus três pulinhos de alegria, todo o entusiasmo na voz. Fui interrompida pela leva
voz de minha desquerida prima, Mildburh, seus cabelos amassados e sua roupa de baixo
denunciavam o belo sono que interrompemos.
-Querida, volte ao seu sono, nosso bebê não ps ode ser atormentado a essa altura.- Magnus
era um marido dedicado, a esposa estava com a barriga quase maior que a de meu tio, a
essa altura o bebê poderia nascer a qualquer momento e a parteira real já estava dormindo
na porta dos aposentos deles a dias. Qualquer resmungo era motivo de alarde.
-Querido, a conversa empolgante de vocês me alcançou lá de meus aposentos, posso saber
o motivo de tamanha felicidade de Aveline, será que finalmente encontrou a Sálvia?- Ela
parecia mais mau humorada do que interessada no motivo de minha felicidade, sorri e
esperei que Magnus a respondesse:
-Aveline finalmente irá se casar, meu pai está trazendo o lorde e preciso que ela esteja
pronta para conhecê-lo para o cortejo. Onde está as damas?
-Isso não são horas para damas estarem de pé, deixe-me que eu mesma a arrumo, quando
te conheci, havia me arrumado sozinha.- Alfinetou ela, eu sorri e assenti com a cabeça,
afinal quem mais saberia de beleza mais do que maior lady de todos os tempos, Mildburh
Beaulmont?
-Vá, Ave. Mild te deixará digna do próprio rei, e por favor, quando chegar e estiver no
cortejo, não diga as palavras Tônico, escapada noturna e muito menos fale sobre ervas. A
última coisa de que precisamos é uma acusação de Striga morando em nosso castelo.-
Magnus era bom com ordens, seria um bom rei, como seu pai.
Fomos para os meus aposentos, os passos de Mildburh eram tão graciosos que não era
possível nem mesmo ouví-los, ela era o meu completo oposto, mesmo com aquela barriga
enorme. Ao entrarmos, ela começou a olhar em todos os cantos em busca de vestidos
descentes, mesmo sabendo das minhas opções: Vestidos vermelhos ou verdes, sempre
com as mesmas estampas florais e apliques de renda. Ela suspirou e saiu do quarto, eu
pensei que havia desistido e me deixado lá para me envergonhar sozinha, mas ela voltou
com uma caixa tão grande que quase não aguentava arrastar, eu arrastei até o meio dos
aposentos, nós duas respirávamos pesadamente, eu por meu peso e ela pelo bebê pesado
em seu ventre.
-Aveline, quando me casei com seu primo, recebi das mãos de sua tia um presente que sua
mãe queria que recebesse apenas próximo ao seu casamento. Era para ser o seu vestido de
casamento mas não temos tempo para isso, por isso, receba este presente com o amor de
sua mãe, e o bom gosto também.- Mild parecia ter decorado aquelas palavras, eu estava
praticamente ouvindo minha tia, que faleceu de praga meses antes de Mild engravidar.
Ao abrir a caixa, vi o vestido mais bonito que já havia visto. As mangas eram longas e soltas,
era todo em veludo azul marfim, com bordados de flores brancas por todo o seu
comprimento, em baixo dele havia uma capa do mesmo veludo, em vermelho e no fundo
da caixa encontrei um conjunto de cartas de minha mãe. Mamãe era uma lady aclamada,
todo o povo a amava por sua compaixão e ideias que sempre faziam o reino prosperar. Ela
e meu tio governavam lindamente juntos, até que a inveja da rainha a atingiu em uma das
reuniões. Mamãe era forte como eu, chamava atenção dos homens, mesmo sendo a
mulher do maior soldado já visto em toda a Listovênia, que havia falecido bravamente
defendendo o nosso povo do povo amarelo da Ásia. O rei a queria como concumbina e
minha mãe respeitosamente sempre negava, até o dia que seu castelo das montanhas
pegou fogo e o que restou foram seus livros e eu, deixados como um lembrete trágico do
que um dia tinha sido minha mãe.
Devo ter ficado parada com o vestido em mãos por tempo demais, pois Mildburh estava
acenando desesperadamente em minha frente:
-Aveline, você precisa estar pronta antes do sol nascer, vista logo o vestido. Ele é lindo e é
do seu tamanho.
Vesti, coube feito uma luva e eu nunca fiquei tão feliz em uma roupa real antes. Mild
penteou meus cabelos, puxando um pouco e murmurando que os tônicos não serviam de
nada.