8 Psicologia da educação
Disciplina e indisciplina na escola
• Discussão da problemática
• O que diz Jean Piaget
• A indisciplina escolar como fenômeno
• Afetividade e amor
• Métodos de Piaget
Disciplina e indisciplina na escola
Atualmente, uma das questões mais
preocupantes e discutidas pelos
professores é a disciplina e,
consequentemente, os fatores que
promovem a sua ausência no ambiente
escolar. Segundo Aquino (1996, p. 40),
a indisciplina é considerada um dos
principais obstáculos pedagógicos da
escola contemporânea e suas
manifestações têm sido fonte de
preocupações em diversos países.
Discussão da problemática
A discussão desta problemática está cada vez mais presente
nas pesquisas e nos debates sobre educação, objetivando sua
compreensão e as melhores formas de intervenção e de
prevenção. Garcia (2009, p. 2), ao investigar os dados
fornecidos pelo inquérito internacional TALIS, desenvolvido
pela OECD (Organization for Economic Co-Operation and
Development), em 2009, descobriu que os problemas de
indisciplina exercem um papel de grande influência sobre o
ambiente de ensino-aprendizagem nas escolas, por exemplo.
Na maioria dos países investigados por esta pesquisa
internacional, um em cada quatro professores perderia ao
menos 30% do tempo das aulas devido a problemas de
indisciplina dos alunos ou de tarefas administrativas.
Portanto, trata-se de uma dificuldade comum entre muitos
educadores e observamos que, atualmente, suas expressões
estão se tornando cada vez mais complexas: são marcadas por
uma variedade de causas, tipos e concepções, exigindo, assim,
novas leituras. Contudo, não podemos deixar de considerar que
a indisciplina sempre esteve presente nas escolas nas mais
diversas épocas.
O contexto da escola tradicional promoveu interpretações para
a ideia de disciplina como controle de comportamento,
instrução, conjunto de normas e autoritarismo, enquanto os
atos de indisciplina eram controlados por meio de punições e
recompensas. Percebemos que, ainda hoje, esta forma
tradicionalista de pensar a educação está presente na sociedade
e em algumas instituições. DeVries e Zan (1998, p. 193)
confirmam, apontando que, geralmente, a disciplina é definida
por muitos como métodos de controle e punição das crianças
para que sejam socializadas.
A pesquisa aqui proposta pretende avançar em uma perspectiva contrária à
tradicional com o objetivo de compreender a indisciplina considerando
algumas ideias que influenciaram muito a educação moderna. De La Taille
(1996, p. 11) afirma que, no início do século XX, autores como Jean Piaget
propuseram a “autodisciplina”, ou seja, aquela que não é imposta de fora, mas
inspirada na busca pessoal de equilíbrio, isto é, a partir do autogoverno das
crianças desenvolve-se uma disciplina muito mais saudável e livre. É a partir
das propostas criadas por este autor, Jean Piaget, que pretendemos pensar a
disciplina e a indisciplina na escola.
Jean Piaget
Conhecido como um dos autores mais importantes da
Psicologia, faz-se relevante situar brevemente quem foi
Piaget. Biólogo e epistemólogo, Jean Piaget nasceu em
Neuchâtel, na Suíça, em 1896, e faleceu em Genebra, em
1980. Formado em Ciências Naturais, foi professor de
Psicologia e Filosofia e Psicologia Genética em grandes
universidades europeias no século passado, como a
Universidade de Genebra e a Universidade de Sorbonne
(PIAGET, 1999b, p. 1). Buscando compreender como o
homem se constitui e, principalmente, como o homem
constrói conhecimento, Piaget se dedicou ao estudo das
origens desta construção, observando e pesquisando o
desenvolvimento da criança, pois ela é o ser que mais
constrói conhecimento.
A partir do estudo da evolução do pensamento, Piaget criou a
Teoria Biológica do Conhecimento que, dentro dos estudos da
Psicologia da Inteligência, nomeou de Epistemologia Genética,
sendo, para ele, Epistemologia, o estudo do conhecimento e,
Genética, a origem, a construção. Assim, sua teoria buscou
compreender os mecanismos mentais que o ser humano utiliza
para se inserir e se adaptar ao ambiente em que vive. Foi
investigando o processo de construção do conhecimento e o
desenvolvimento das habilidades cognitivas que veio a
concluir que o pensamento e a inteligência se desenvolvem
gradualmente, ou seja, que o desenvolvimento cognitivo de
uma criança é uma evolução gradativa.
Especificamente, considerando que Piaget não escreveu uma
teoria pedagógica e nem foi um autor de pedagogia, não
encontramos relatos sobre problemas de disciplina ou sobre
indisciplina propriamente dita, no entanto, sua pesquisa sobre a
construção da personalidade e a constituição do homem foi tão
ampla que podemos estudar os temas de disciplina e da
indisciplina sob este viés.
A palavra disciplina é citada algumas vezes na obra piagetiana
e foram sobre estas páginas que nos debruçamos,
acompanhados da teoria sobre o desenvolvimento moral, para
compreender e pensar outros caminhos na construção da
disciplina na escola contemporânea.
Desenvolvimento Moral, Disciplina e Indisciplina
Em suas investigações, Piaget considerava que a criança precisa passar por
diferentes estágios em um processo psicogenético de evolução para
desenvolver a moralidade e o comportamento social de concordância com as
regras de funcionamento de uma determinada cultura e internalização das
normas de convivência social.
Em sua pesquisa, Piaget concluiu que, assim como a
inteligência evolui, a moral também evolui em um processo de
interiorização de regras e valores que também ocorre em
etapas. Ele sugere que, desde o nascimento, a criança é
influenciada pelos pais e pelo meio social em que vive, sendo
submetida a diversas normas e regras e, mesmo antes de
aprender a falar, já aprende que deve acatá-las. A partir das
interações com o meio, a criança, em um processo de
construção interior, vai internalizando e se conscientizando das
regras e dos valores morais que permeiam sua vida social.
O desenvolvimento moral acontece em um contexto de relações,
necessitando, assim, da interação social do sujeito com o ambiente em
que vive e do vínculo afetivo que se estabelece nessas relações para
acontecer. Foi organizado por Piaget (1994) em três etapas, que
chamou de estados (ou estágios) do processo de construção da
moralidade na criança, classificados como anomia, heteronomia e
autonomia.
O primeiro estágio do desenvolvimento da moral correspondente à
anomia pode ser explicado como a quase ausência de regras, pois as
regras são plenamente motoras e a faixa etária aproximada é de 0 a 2
anos. Segundo Piaget (1994, p. 33-34), neste período, as regras são
motoras e individuais, isto é, não são coletivas e nem vêm de uma
realidade obrigatória; são puramente reflexas e manipuladas em
função dos desejos da criança e de seus hábitos motores.
O termo referente ao segundo estágio, a heteronomia, significa que a
criança percebe a existência de regras, mas elas são vindas e expostas
pelos outros. Está relacionado com a entrada da criança no mundo da
moralidade. Neste momento, a criança começa a compreender a
existência de regras para intermediar sua sobrevivência e convivência
social.
Ela começa a perceber que as regras devem ser obedecidas e são
pensadas, pela criança, em relação à autoridade, ou seja, são os
adultos que estabelecem as regras e as crianças obedecem sem
questionar.
Este estágio se inicia por volta dos 3 anos e meio e se estende até os 7
anos. Além disso, é a fase marcada pelo egocentrismo da criança, que,
como Piaget (1994, p. 40) explica, é uma conduta intermediária entre
as condutas puramente individuais da criança e as condutas
socializadas. É a fase quando as crianças recebem as regras de fora já
codificadas e, mesmo quando estão junto de outras crianças, elas
jogam cada uma por si, brincam sozinhas sem se preocupar com a
codificação das regras; elas estão centradas em seu ponto de vista,
tendo dificuldade de pensar pelo outro.
O terceiro conceito se refere ao estágio mais desenvolvido da
consciência moral na criança, a autonomia, definida pela
internalização e consciência das regras para o convívio social,
ou seja, é a legitimação da moral, a autodisciplina, o
autogoverno da criança. Para Piaget (1994, p. 34-35), neste
estágio, surge a unificação e o controle mútuo das regras, que
são pensadas e elaboradas pelo consentimento mútuo e
coletivo. O respeito a elas é obrigatório e suas modificações
são decididas em um consenso geral. Neste estado, a criança
pensa a moral por uma relação de reciprocidade e a obrigação
às regras está fundamentada no respeito mútuo com os adultos,
diferentemente da fase anterior, calcada no respeito unilateral
ao adulto e em uma relação coercitiva e autoritária.
Elucidados os três estágios do desenvolvimento moral criados por Piaget, bem
como as relações de respeito que regem a moralidade humana, torna-se
possível e mais clara a compreensão do que é disciplina para este autor, que
entende este conceito como sendo uma conduta moral, construída no indivíduo
através das relações da afeição mútua. Para ele, a disciplina é algo que
depende da interação do indivíduo com o ambiente para que possa ser
construída e evoluída de dentro do próprio sujeito. E o entendimento deste
conceito está ligado com as fases do desenvolvimento moral da criança.
Segundo Piaget:
Para que as realidades morais se constituam, é necessário uma disciplina
normativa; e para que essa disciplina se constitua, é necessário que os
indivíduos estabeleçam relações uns com os outros (PIAGET, 1999a, p. 3).
Nesse sentido, um depende do outro e todos dependem das relações sociais.
São pautadas nas relações sociais a percepção e a conscientização das regras
de convivência, o processo do desenvolvimento moral e, também, a construção
da disciplina no indivíduo.
Entendemos a disciplina como uma construção interior, ou seja, ela é interna e
sob a influência do ambiente sócio-moral ela é estimulada a se desenvolver ou
não. Sob esta mesma perspectiva, podemos pensar a indisciplina, que sempre
envolve uma questão contextual, ou seja, também acontece em um contexto de
relações.
É necessária uma relação social ou pedagógica para haver
indisciplina, que ocorre nesta interação do sujeito com o ambiente em
que está inserido. Suas origens envolvem questões pessoais,
familiares, sociais e escolares.
São as relações do ambiente onde a criança vive que permitem o
desenvolvimento da moralidade na criança e a construção da
autodisciplina.
Segundo Piaget (1994, p. 298), as relações de coação, baseadas no
respeito unilateral, são estabelecidas de forma natural e espontânea
entre o adulto e a criança e contribuem para a formação do primeiro
tipo de controle lógico e moral, do primeiro tipo de disciplina, uma
disciplina normativa, que conduz a criança à heteronomia.
É nesta fase que os princípios de disciplina começam a ser
percebidos e constituídos na criança, fase na qual a criança se
submete ao que está fora de seu corpo, se submete à regras já
estabelecidas, à sabedoria do outro – do adulto –, à norma e à
disciplina que vêm de fora. Esta é, inicialmente, de caráter
externo, mas, na verdade, só precisa de relações
interindividuais favoráveis para desenvolver a disciplina já
interna na criança.
Este tipo de relação é marcada pela imposição externa à
criança de um conjunto de normas, regras e leis obrigatórias
que organizam a sociedade.
Neste sentido, a disciplina aparece como organizadora da criança e é
esta exposição inicial que fornece rotina e direcionamento para o
sujeito em formação. Contudo, sob a perspectiva piagetiana, a
disciplina normativa e necessária ao desenvolvimento da criança é,
inicialmente, imposta para garantir o seu conhecimento e a percepção
de regras. Mas essa imposição não deve ser mantida para não
comprometer o desenvolvimento da criança à autonomia. Piaget
observa que “a disciplina imposta de fora ou sufoca toda a
personalidade moral ou, pelo contrário, a prejudica mais do que lhe
favorece a formação”.
Assim, Piaget, nas poucas linhas em que discorreu sobre o termo
disciplina, critica o pensamento de alguns autores sobre a disciplina
tradicional, calcada na imposição da autoridade e afirma:
“É visível que nossos resultados
falam tanto em desfavor do método
da autoridade como dos métodos
puramente individualistas. É
absurdo e mesmo imoral (...) querer
impor à criança uma disciplina
completamente elaborada, quando a
vida social das crianças entre si é
bastante desenvolvida para dar
nascimento a uma disciplina
infinitamente mais próxima da
submissão interior própria à moral
do adulto” (PIAGET, 1994, p. 300).
Com o tempo, a maturação biológica e a qualidade de suas relações
sociais, a criança vai internalizando a lei e, a partir de uma construção
interior feita com o meio em que vive, as regras passam a fazer parte
da criança e as suas relações embasadas na obediência à autoridade
passam a ser fundamentadas na reciprocidade.
Esta é a origem da noção de respeito mútuo, desenvolvida na criança
quando entra no estado da autonomia. São as relações de cooperação,
exercitadas no ambiente onde a criança está inserida que levam ao
desenvolvimento da consciência das regras, da norma e da disciplina,
além de estimularem no sujeito o desenvolvimento do autogoverno e
da autodisciplina, permitindo a moral autônoma em suas relações
sociais.
“Só a cooperação leva à autonomia”, observou Piaget (1994, p. 299).
São apenas as relações de cooperação que podem permitir a
descentralização e possibilitar que a criança se liberte do pensamento
egocêntrico, característico da moral da heteronomia, na qual o
indivíduo só age e pensa sob um ponto de vista: o próprio. É no
contexto das relações de cooperação no ambiente em que a criança
convive socialmente que ocorre o desenvolvimento da autonomia,
estágio este em que a criança se torna consciente da existência e dos
motivos das regras e, a fim da convivência em coletividade, passa a
funcionar pela moral da cooperação. O autor ainda argumenta que:
“(...) a moral do dever
constitui-se apenas como
u m a e t a p a d o
desenvolvimento da
consciência e que o
respeito unilateral exige,
por seus fins, ser
moderado pelo respeito
mútuo, até o momento em
que será definitivamente
substituído por este”.
(PIAGET, 1999a, p. 26).
A moderação à qual o autor acima se refere é feita por meio da
convivência do indivíduo em um ambiente sócio-moral que seja
estimulador da conscientização das regras, da espontaneidade, da
liberdade de ação e da convivência mútua entre semelhantes, ou
melhor, um ambiente de educação moral. A aplicação prática das
regras e da disciplina pela criança ocorre quando os valores e
princípios morais já estão sendo internalizados e sua personalidade já
está se tornando autônoma. Piaget (1999a, p. 12) afirma que, no que
diz respeito à disciplina, existem para a criança dois tipos de regras, a
exterior, possível de ser aceita pelo respeito unilateral e a interior,
compreendida através do respeito mútuo. A regra internalizada é a
regra seguida e aplicada conscientemente em um consenso mútuo, a
regra exterior, como está fora da criança, pode ser seguida em um
momento, mas pode não ser em outro.
A indisciplina escolar
A indisciplina escolar como fenômeno perturbador e obstrutor
das relações sociais e do trabalho de aprendizagem pode ser
compreendida no âmbito das relações unilaterais, nas quais a
regra é exterior ao raciocínio da criança e por ela não é
compreendida, possibilitando, assim, o não seguimento da lei.
A criança indisciplinada pode ser identificada, seguindo Piaget
(2000, p. 64), como o indivíduo que não constituiu sua
personalidade moral, que ignora o seguimento da regra e
centra as relações sociais em si mesma.
Por isso, a autodisciplina é constituída a partir da internalização e da
conscientização da regra moral e é estimulada a partir da relação
mútua e recíproca entre os pares. O ponto de vista, neste momento, é
baseado no vínculo com o outro, na afetividade das relações e no
vínculo com o coletivo.
Disciplina é ação moral, é construída a partir da noção de
responsabilidade, de valores e de princípios morais e não de regras
convencionais. Segundo Piaget (1999a, p. 30),
“(...) é certo que a disciplina e o sentimento de responsabilidade
podem se desenvolver sem nenhuma punição expiatória. (...) as
relações de cooperação bastam para provocar nas crianças um tal
respeito à regra que a simples censura e um sentimento de isolamento
moral, resultantes do ato cometido, conduzem o faltoso à disciplina
comum.”
Nesse sentido, pela perspectiva moral, podemos compreender as relações de respeito nos
indivíduos e a questão da disciplina e da indisciplina. O respeito à regra é construído nas
interações da criança com o meio social e a partir de dois tipos de relação: de coação e de
cooperação, estudadas anteriormente, e permeadas por dois tipos principais de
sentimentos: o amor e o medo.
Na fase heterônoma, a criança respeita a autoridade do adulto por amor a ele ou por medo
de ser punida caso não o respeite. No entanto, Araújo (1999, p. 34) explica que, na relação
de respeito unilateral, o sentimento que prevalece é o medo: a criança respeita o adulto
porque tem medo de ser punida. Porém, para haver qualquer tipo de respeito, deve haver
um mínimo de afetividade na relação, ou a criança, sempre heterônoma, só agirá por uma
relação coercitiva, na qual oferece obediência ao adulto sob coação e pelo sentimento do
medo.
Esse é o primeiro tipo de relação que origina o sentimento do dever e da obrigação, não só
através do medo da punição, mas, primeiramente, através da afeição pelo adulto admirado
e detentor de autoridade e respeito.
Afetividade e amor
É a afetividade, a admiração e o amor ao adulto respeitado
junto à experiência da criança em relações de cooperação que
fornecem a ela o ambiente próprio para o desenvolvimento do
respeito mútuo e da autonomia, em que o sentimento de amor é
o que prevalece. Sobre isso, Araújo (1999, p. 35) afirma:
É a afetividade ou o amor nas relações entre as pessoas que
permite que o medo presente na relação não seja o da punição
e sim o de decair perante os olhos do indivíduo respeitado.
Esse medo é totalmente diferente do medo da punição,
característico dos sujeitos heterônomos.
O rompimento das relações afetivas e do elo de confiança entre
os indivíduos é que é o temor do sujeito autônomo,
prevalecendo o sentimento de amor, portanto, pois o medo é de
perder essa relação afetiva.
São os dois tipos de relação de respeito que originam os dois tipos de
funcionamento moral. A relação baseada no respeito unilateral
mantém o indivíduo sob a moral da heteronomia, submisso a uma lei
maior, a uma autoridade que dita o que é certo e o que é errado, sob
uma obediência tácita ao adulto, pois não há conscientização das
normas e compreensão dos valores.
Já a relação pautada no respeito mútuo e na cooperação entre os
indivíduos permite desenvolver a moral da autonomia.
Piaget destaca a convivência entre pares, principalmente na fase da
heteronomia, para estimular seu desenvolvimento moral e enfatiza o
valor da escola neste período de socialização. O sujeito “faltoso” com
a disciplina, como afirmou acima Piaget, é a criança heterônoma que
não convive em um ambiente onde as relações são de cooperação e
reciprocidade, ou mesmo que ainda não as compreende.
Nessa perspectiva, a criança indisciplinada pode ser entendida como
aquela que ainda não internalizou ou ignora as regras morais e que
convive em um ambiente autoritário e arbitrário, não permitindo sua
evolução à autonomia. A indisciplina implica, assim, a ausência de
cooperação nas relações da criança e uma carência de justiça e
respeito ao próximo, refletidos em suas atividades.
O alcance educativo do respeito mútuo e dos métodos baseados na
organização social espontânea das crianças entre si é precisamente o
de possibilitar-lhes que elaborem uma disciplina, cuja necessidade é
descoberta na própria ação, ao invés de ser recebida inteiramente
pronta antes que possa ser compreendida.
Os métodos aos quais Piaget se refere são a reciprocidade e as relações
cooperativas, exercitadas na criança com seus semelhantes e com adultos
preocupados com a educação ativamente moral, pois é nessas relações que a criança
vai se conscientizando da importância das regras morais e construindo a sua
disciplina autônoma. Colaborar com o desenvolvimento da moralidade é oferecer à
criança um ambiente livre para que se desenvolva com espontaneidade e
criatividade, com a prática dos valores e regras morais, sem restrições arbitrárias e
em relações de cooperação entre os indivíduos e de reciprocidade entre adultos e
crianças, para que possa construir sua própria disciplina, seu autogoverno e sua
autonomia.