Revelando Os Custos Da Guerra em Cabo Delgado: Uma Análise Abrangente Dos Impactos Fiscais e Desafios Multidimensionais
Revelando Os Custos Da Guerra em Cabo Delgado: Uma Análise Abrangente Dos Impactos Fiscais e Desafios Multidimensionais
Novembro, 2023
Resumo
O con昀氀ito em curso em Cabo Delgado, Moçambique, tem causado grandes impactos humanos, sociais e económicos,
afectando tanto o Estado como os seus cidadãos. Para além das violações dos direitos humanos e da deslocação de
mais de um milhão de pessoas, o con昀氀ito sobrecarrega signi昀椀cativamente os recursos 昀椀scais de Moçambique. O
presente estudo quanti昀椀ca o impacto 昀椀scal do con昀氀ito, enfatizando o seu impacto no orçamento nacional. Através
de uma análise de quebra estrutural, este estudo identi昀椀ca um aumento nas despesas com segurança nacional,
totalizando um valor estimado de 106,8 bilhões de MZN (1,69 bilhões de USD) de 2018 a 2022. Uma visão
desagregada revela aumentos particularmente elevados nas despesas com a defesa (43,6 bilhões de MZN) e com
a segurança e ordem pública (60,4 bilhões de MZN). Curiosamente, as alocações para os serviços de informações
foram menos directamente afectadas, apesar da escalada da violência e dos ataques terroristas, o que indica a
potencial in昀氀uência de outras considerações políticas relativamente a esta rubrica de despesas. Para além das
implicações 昀椀scais, os atrasos devido ao con昀氀ito no projecto de gás Mozambique LNG operado pela TotalEnergies
resultam numa perda estimada de 383,4 bilhões de MZN (6,06 bilhões de USD) em potenciais receitas do governo
nas actuais condições de mercado. Colectivamente, estas despesas adicionais com segurança nacional relacionadas
com o con昀氀ito e as receitas perdidas com o projecto de gás totalizam aproximadamente 490,2 bilhões de MZN
(7,75 bilhões de USD). O estudo revela igualmente os efeitos adversos do con昀氀ito na educação. O aumento do
analfabetismo induzido pelo con昀氀ito contribui para uma perda estimada de 22,7 bilhões de MZN (0,36 bilhões de
USD) para o PIB regional de Cabo Delgado. As violações dos direitos humanos, incluindo a exploração sexual
que afecta particularmente as mulheres, agravam ainda mais a crise. Apesar de uma ajuda internacional substancial
centrada nos esforços militares, a resposta humanitária continua a ser sub昀椀nanciada. Este estudo destaca as despesas
imediatas relacionadas com o con昀氀ito e os custos de oportunidade a longo prazo. Ao informar os decisores políticos
sobre as repercussões multidimensionais graves e de longo alcance do con昀氀ito, este estudo constitui um recurso
importante para a tomada de decisões.
4
1. Introdução
O con昀氀ito em Cabo Delgado, Moçambique, que começou no 昀椀nal de 2017, envolve uma mistura intrincada de
militantes locais motivados por queixas socioeconómicas e jihadistas estrangeiros. De acordo com o Human
Rights Watch (2023), a situação humanitária na região piorou signi昀椀cativamente em 2022 devido à intensi昀椀cação
dos ataques de um grupo ligado ao ISIS, designado localmente por Al-Shabab.1
Conforme relatado pelo International Crisis Group (2023a), a situação em Cabo Delgado continua crítica.2
Os actuais ataques do Estado Islâmico levaram o governo moçambicano a intensi昀椀car os esforços de contra-
insurreição, apoiados por tropas do Ruanda e da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC),
designada por SAMIM (missão da SADC em Moçambique). A SADC prolongou a sua missão por mais um ano a
partir de Julho de 2023, com uma potencial retirada em 2024 ou 2025. Contudo, reconheceu que é necessário fazer
mais para capacitar as forças locais. Os civis, principalmente mulheres e crianças, continuam a enfrentar riscos que
vão desde a violência baseada no género, a exploração sexual e a insegurança alimentar até à deslocação forçada.3,4
Mais de 4.500 pessoas foram mortas e mais de um milhão foram deslocadas, de acordo com relatórios actualizados
do International Crisis Group. Um relatório de Agosto de 2023 do International Crisis Group acrescenta que
os insurgentes, principalmente 昀椀liados no Estado Islâmico, têm como alvo as forças governamentais e da
SADC.5 Paralelamente ao combate, estes militantes estão também envolvidos em interacções comerciais com
as comunidades locais para ganhar o seu favor, acrescentando outra camada de complexidade. As forças de
segurança do governo estão implicadas em violações dos direitos humanos devido à sua resposta pesada, que se
manifesta em acções como o uso excessivo da força e as detenções arbitrárias. De acordo com o International
Crisis Group (2023b), existem níveis preocupantes de indisciplina no seio das forças de segurança, exacerbados
pelo atraso no pagamento dos salários aos agentes da polícia e aos soldados. A organização relata igualmente casos
de envolvimento de agentes da polícia em raptos com pedido de resgate, o que agrava ainda mais a situação em
termos de segurança.
Em geral, a área continua a ser uma zona de con昀氀ito de alto risco, enfrentando desa昀椀os éticos e operacionais, uma
vez que os insurgentes continuam a empregar tácticas de guerrilha. Esta situação ameaça a estabilidade nacional
de Moçambique num momento crucial para o desenvolvimento do gás natural e para as eleições. Dada a dinâmica
da evolução do con昀氀ito, é fundamental fazer uma avaliação do impacto 昀椀nanceiro e social.
Neste contexto complexo, o presente documento tem como objectivo fornecer informações através da quanti昀椀cação
dos impactos 昀椀scais do con昀氀ito em Cabo Delgado. A nossa análise de dados estatísticos revela que, até 2022, as
mudanças nas despesas com a defesa, segurança e ordem pública resultaram em despesas adicionais de cerca de
5
106,8 bilhões de MZN (1,69 bilhões de USD). Além disso, com os elevados preços do petróleo e gás, prevê-se que
o Estado perca cerca de 383,4 bilhões de MZN (6,06 bilhões de USD) em receitas públicas devido ao adiamento
do projecto de gás Mozambique LNG. Em suma, estas despesas adicionais induzidas pelo con昀氀ito e as receitas
públicas não realizadas aproximam-se de 490,2 bilhões de MZN (7,75 bilhões de USD). Este montante signi昀椀ca um
aumento substancial em comparação com uma estimativa anterior do CIP (2021a), que - usando uma metodologia
diferente - calculou o impacto 昀椀scal da guerra em 64,17 bilhões de MZN (1,01 bilhões de USD) até 2020.6
Além disso, o tecido social da região está a deteriorar-se, com Cabo Delgado a destacar-se como a única província
em Moçambique a testemunhar um declínio nas taxas de alfabetização desde o início do con昀氀ito. De acordo com
os dados do Instituto Nacional de Estatística de Moçambique (INE), registou-se um aumento alarmante de 8,7% na
taxa de analfabetismo entre 2020 e 20227,8. Estimamos que este impacto educacional possa resultar num declínio
relativo do PIB de Cabo Delgado de até 22,7 bilhões de MZN (0,36 bilhões de USD).
A compreensão destes custos multifacetados fornece informações essenciais a uma série de intervenientes, desde
os decisores políticos às organizações internacionais, à medida que estes navegam pelas complexidades do con昀氀ito
e procuram estratégias e昀椀cazes de intervenção e recuperação.
Após esta introdução (secção 1), o resto do documento está organizado da seguinte forma. A Secção 2 examina a
evolução das despesas com a defesa, segurança e ordem pública. A Secção 3 destaca as mudanças nas despesas
com a educação. A Secção 4 demonstra as perdas 昀椀nanceiras incorridas devido ao atraso do projecto de gás
Mozambique LNG, operado pela TotalEnergies. A Secção 5 destaca os impactos induzidos pelos con昀氀itos nas
mulheres. A análise e as constatações são sintetizadas na Secção 6. Finalmente, a Secção 7 apresenta um conjunto
de recomendações políticas especí昀椀cas para enfrentar os desa昀椀os multidimensionais decorrentes do con昀氀ito.
(1)
6 CIP (2021a). “Controlo Externo da Despesa de Defesa e Segurança: Quanto e como gasta o Estado com a guerra de Cabo Delgado?”. Acedido a 21 de
Setembro de 2023 em [Link]
-guerra-de-cabo-delgado/.
7 Instituto Nacional de Estatística (2021). “Inquérito Sobre Orçamento Familiar - IOF 2019/20”. Setembro de 2021. Relatório Final.
8 Instituto Nacional de Estatística (2023a). “Inquérito Sobre Orçamento Familiar - IOF 2022”. Julho de 2022. Relatório Final.
9 Ministério da Economia e Finanças (MEF). “Conta Geral do Estado (CGE).” Acedido aos 29 de Agosto de 2023 em [Link]
6
uma variável de interacção entre as duas últimas variáveis. A variável “Pós-2018” é incorporada para ter em conta
as rami昀椀cações do con昀氀ito que eclodiu no 昀椀nal de 2017, porque o primeiro ano 昀椀scal a ser totalmente afectado por
este con昀氀ito é 2018. Por último, X inclui também uma variável binária para o ano de 2014, para ter em conta as
eleições presidenciais desse ano. Esta variável tem como objectivo captar potenciais variações na despesa pública
devido às eleições. Para veri昀椀cações de robustez, utilizámos também um modelo Média Móvel Integrada Auto
Regressiva (ARIMA) para captar a potencial não-estacionariedade e auto-correlação nos dados.
Na nossa investigação, o nosso primeiro objectivo é estimar as alterações induzidas pelo con昀氀ito nas despesas
totais com segurança nacional. Esta análise global fornece uma visão macroscópica do impacto 昀椀nanceiro do
con昀氀ito no orçamento da segurança nacional como um todo. Depois de compreendermos as alterações totais nas
despesas com segurança nacional, passamos a uma análise mais pormenorizada. Especi昀椀camente, dividimos as
despesas totais nas suas categorias constituintes: defesa, segurança e ordem pública e informações. Ao fazê-lo,
pretendemos identi昀椀car com precisão a origem das mudanças mais signi昀椀cativas.
Antes do surgimento do con昀氀ito em Cabo Delgado, o modelo revelou um aumento constante, ano após ano, nas
despesas gerais de segurança nacional de 2.940 milhões de MZN, apontando para uma tendência já crescente
7
antes de 2018. Contudo, após 2018, a taxa de crescimento anual da segurança nacional aumentou drasticamente.
Especi昀椀camente, a taxa de aumento anual das despesas totais de segurança nacional desde 2018 aumentou em mais
8.081 milhões de MZN em comparação com a taxa antes do con昀氀ito (estatisticamente altamente signi昀椀cativa).10 Por
outras palavras, desde 2018, o aumento anual das despesas com segurança nacional subiu em mais 8.081 milhões
de MZN, para além da tendência já crescente. Esta divergência pode ser visualizada comparando as tendências das
despesas com segurança nacional antes de 2018 (linha azul) e depois de 2018 (linha verde) na Figura 1.
A análise comparativa entre as despesas nominais projectadas sem mudanças estruturais e as despesas reais de
2018 a 2022 sugere um aumento agregado de aproximadamente 106,8 bilhões de MZN atribuível ao con昀氀ito
(ver última linha da coluna (1) da Tabela 1). Este aumento acentuado das despesas é crucial para compreender as
implicações 昀椀nanceiras do actual con昀氀ito no orçamento de segurança nacional de Moçambique.11
Figura 1 Despesas com Segurança Nacional (total) de 2012 a 2022 (em milhões de MZN)
Em termos relativos, desde 2018, a tendência da percentagem das despesas com segurança nacional em relação
ao total das despesas públicas também acelerou em mais 1,20% ao ano, conforme indicado pelo coe昀椀ciente
‘Tendência x Post-2018 ‘ apresentado na coluna (3) da Tabela 1. Este aumento relativo da alocação orçamental
para as despesas com segurança nacional é apresentado na 昀椀gura 2.
10 Um teste de Chow valida as nossas constatações de regressão de uma quebra estrutural apresentadas na Tabela 1, contrastando a soma dos resíduos ao
quadrado de regressões individuais realizadas para os períodos antes e depois de 2018 com as de uma única regressão que abrange todo o período de tempo.
Rejeitamos a hipótese nula do teste de Chow, que postula que os parâmetros para estes períodos segmentados são os mesmos (estatística F de 19,18).
11 Na Figura 1, o aumento da despesa total após o ano de 2018 é visualmente representado pela área do trapézio formado pela ligação da linha verde sólida,
da linha vermelha tracejada e da linha azul tracejada.
8
Figura 2 Despesas com segurança nacional (total) de 2012 a 2022 (como proporção das despesas totais)
Após a eclosão do con昀氀ito em Cabo Delgado, as estimativas revelaram uma mudança importante. O coe昀椀ciente
para a variável de interação ‘Tendência x Pós-2018’ é positivo e estatisticamente signi昀椀cativo, situando-se em
3.186 milhões de MZN na coluna (1). Isto demonstra que, desde 2018, a taxa de despesas anuais com a defesa
tem vindo a aumentar em mais 3.186 milhões de MZN por ano (ou em mais 0,58% por ano como proporção das
despesas totais) (ver também a Figura 3).
A análise comparativa sugere que a eclosão do con昀氀ito causou uma mudança acumulada estimada nas despesas
com a defesa de aproximadamente 43.604 milhões de MZN até 2022 (conforme indicado no Painel A da Tabela 2).
9
Tabela 2 Regressões para as despesas com a defesa
10
Figura 3 Despesas com defesa (total) de 2012 a 2022 (em milhões de MZN)
Se efectuarmos uma análise por subgrupo das despesas com a defesa, encontramos o maior aumento nas despesas
com as forças armadas. Antes de 2018, havia apenas uma pequena tendência de aumento, estatisticamente
insigni昀椀cante, nas despesas com as forças armadas. Contudo, as despesas aumentaram substancialmente, sobretudo
a partir de 2020. O coe昀椀ciente para ‘Tendência x Pós-2018’ na coluna (1) do Painel B da Tabela 2 é estatisticamente
signi昀椀cativo em 2.207 milhões de MZN. Isto indica que as despesas com as forças armadas têm vindo a aumentar a
um ritmo mais rápido desde o ano de 2018, correspondendo a 0,31% por ano como proporção das despesas totais.
Contudo, parece que o governo pode ter reagido com algum atraso à eclosão do con昀氀ito, uma vez que a maior parte
deste aumento pode ser atribuída principalmente a despesas mais elevadas nos anos de 2020 a 2022, conforme
ilustrado na Figura 4. A nossa análise comparativa sugere uma estimativa de despesas adicionais acumuladas nas
forças armadas de aproximadamente 22.582 milhões de MZN de 2018 a 2022 (ver Painel B da Tabela 2).
11
Figura 4 Despesas das Forças Armadas de 2012 a 2022 (em milhões de MZN)
No caso das despesas do Ministério da Defesa de Moçambique, a nossa análise de regressões revela, na sua
maioria, alterações estatisticamente insigni昀椀cantes devido à elevada variabilidade desta rubrica orçamental (ver
Painel C). A resposta 昀椀nanceira mista e o aumento notavelmente tardio das despesas apenas em 2022 (como
observado na Figura 5), podem sugerir a falta de uma estratégia ou orientação clara e coerente na alocação de
recursos ao Ministério da Defesa.
No caso das restantes despesas com a defesa (por exemplo, Instituto Superior de Estudos de Defesa, Hospital
Militar de Maputo, Conselho Nacional de Defesa e Segurança, Casa Militar, Academia Militar Marechal Samora
12
Machel), observam-se padrões mistos (ver Figura 6). O ano de 2014, que coincidiu com as eleições presidenciais,
registou um aumento na categoria orçamental “outras despesas de defesa” em 15.735 milhões de MZN (consultar
a coluna (1) do Painel D da Tabela 2). Depois de 2018, o quadro é mais matizado. A variação acumulada estimada
em outras despesas de defesa desde 2018 é de aproximadamente 21.057 milhões de MZN. Contudo, a variável de
interação “Tendência x Pós-2018” não atinge signi昀椀cância estatística. A variabilidade dos dados relativos a esta
rubrica orçamental limita a força de quaisquer conclusões que possam ser tiradas sobre a taxa de outras despesas
de defesa desde 2018.
Figura 6 Outras despesas com defesa de 2012 a 2022 (em milhões de MZN)
13
2.3 Mudanças estruturais nas despesas com segurança e ordem pública
Nesta secção, tentamos revelar as mudanças estruturais nas despesas com segurança e ordem pública. A análise
de regressão na Tabela 3 mostra as mudanças nas tendências 昀椀scais no sector de segurança e ordem pública
de Moçambique antes e depois do con昀氀ito. Antes de 2018, os nossos dados mostram um aumento anual
estatisticamente signi昀椀cativo nas despesas de 2.030 milhões de MZN. Contudo, esta trajetória ascendente tornou-
se mais pronunciada após 2018. As despesas neste sector aumentaram em mais 4.772 milhões de MZN (ou 0,35%
como proporção das despesas totais) por ano desde 2018 (ver Painel A do Quadro 3 e comparar o aumento das
despesas desde 2018 ilustrado na Figura 7). Este crescimento acelerado pós-con昀氀ito é digno de nota. A mudança
cumulativa estimada nas despesas com segurança e ordem pública após a insurreição é substancial, aproximando-
se de 60.396 milhões de MZN. Este facto evidencia as reafectações signi昀椀cativas no orçamento para a segurança
e ordem pública desde o início do con昀氀ito.
14
Tabela 3 Regressões para despesas com segurança e ordem pública
15
Figura 7 Despesas com segurança e Ordem Pública de 2012 a 2022 (em milhões de MZN)
Embora as despesas totais com a segurança e a ordem pública tenham aumentado signi昀椀cativamente, as despesas
do Ministério do Interior não apresentam provas estatísticas de uma forte mudança nos padrões de despesa antes
e depois de 2018 (conforme mostra o Painel B da Tabela 3). As despesas já estavam a aumentar antes do con昀氀ito
e continuaram a aumentar após o con昀氀ito. A variação cumulativa estimada das despesas desde 2018 ascende a
aproximadamente 12 807 milhões de MZN (comparar também Figura 8).12
No caso das despesas com a Polícia da República de Moçambique (PRM), não se registaram tendências estatistica-
12 A interpretação destes resultados deve ser feita com alguma prudência, dada a elevada variabilidade dos dados relativos às despesas do Ministério do
Interior.
16
mente signi昀椀cativas nas despesas antes do início do con昀氀ito (ver Painel C da Tabela 3 e comparar Figura 9). Contu-
do, foi observado um aumento notável na taxa de despesas anuais com a PRM a partir de 2018. Especi昀椀camente, a
despesa anual com a PRM aumentou em mais 2.923 milhões de MZN por ano (0,66% por ano como percentagem
da despesa total). Estas conclusões sugerem que houve uma mudança substancial na alocação de recursos à polícia
após as insurreições. A mudança acumulada estimada nas despesas devido a esta mudança estrutural é considerá-
vel, ascendendo a 20.346 milhões de MZN.
O grá昀椀co 10 ilustra a mudança estrutural nas despesas com outras despesas com segurança e ordem pública antes
e depois do ano crucial de 2018 (compare também o Painel D da Tabela 3). Antes de 2018, havia uma trajetória
ascendente nas despesas, aumentando anualmente em 847 milhões de MZN. Contudo, desde 2018, esta trajetó-
ria intensi昀椀cou-se. Os resultados da regressão demonstram que outras despesas com segurança e ordem pública
aumentaram, em média, em mais 2.038 milhões de MZN anualmente desde o con昀氀ito. Consequentemente, a
mudança cumulativa estimada nas despesas atribuíveis a estas mudanças estruturais é notavelmente substancial,
totalizando aproximadamente 27.243 milhões de MZN em cinco anos.
17
Figura 10 Outras Despesas com segurança e Ordem Pública de 2012 a 2022 (em milhões de MZN)
18
Tabela 4 Regressões para despesas com serviços de inteligência e segurança do Estado (SISE)
Figura 11 Despesas com os Serviços de Inteligência e Segurança do Estado (SISE) de 2012 a 2022 (em milhões de MZN)
19
3. Mudança nas despesas com educação que afectam os
mais vulneráveis
20
Figure 12 Despesas com Educação de 2012 a 2022 (em milhões de MZN)
Desde a escalada do con昀氀ito, a proporção do 昀椀nanciamento atribuído à educação como parte da despesa total so-
freu um declínio relativo discernível (ver Figura 13 e os coe昀椀cientes signi昀椀cativos e negativos sobre o termo de
interacção na coluna (3) da Tabela 5). Se a tendência de crescimento anterior a 2018 na alocação orçamental pro-
porcional para a educação tivesse persistido até 2022, teriam sido investidos mais 80 bilhões de MZN na educação
de 2018 a 2022. Isto sublinha que, em relação aos anos anteriores, o investimento na educação tem estado numa
trajetória decrescente.13
Figure 13 Despesas com Educação de 2012 a 2022 (como proporção das despesas totais)
13 Uma especi昀椀cação de regressão que utiliza o logaritmo das despesas com educação como variável dependente corrobora uma mudança descendente nas
despesas relativas com educação. Especi昀椀camente, a taxa de crescimento anual da despesa nominal com educação tem vindo a diminuir cerca de 3,9% por
ano desde 2018.
21
Este sub-investimento na educação torna-se ainda mais evidente quando se considera a política eleitoral. No ano
eleitoral de 2014, a proporção da despesa com educação em relação à despesa total 昀椀cou 2,8% abaixo da despesa
projectada, um desvio que é estatisticamente signi昀椀cativo (ver a in昀氀exão no ano de 2014 na Figura 13 e estimativas
na coluna (3) da Tabela 5).
A deterioração dos níveis de educação em Cabo Delgado acarreta não só repercussões sociais, mas também custos
económicos substanciais. Kochav et al. (2015) estimam que a mudança no PIB por trabalhador em relação à
educação primária é de cerca de 2,5% para os países de baixo rendimento.14 Usando este valor e o PIB regional de
Cabo Delgado de 2020 (42.254 milhões de MZN), estimamos o impacto na produção económica:15
(2)
Por esta medida, o aumento das taxas de analfabetismo acaba por resultar num declínio relativo do PIB de Cabo
Delgado de aproximadamente 8.584 milhões de MZN. Barro e Lee (2010) estimam que o retorno marginal da
escolaridade na África Subsaariana é ainda maior, de 6,6%.16 Usando esta taxa de retorno sobre a educação para a
região da África Subsariana, a perda de produção esperada em Cabo Delgado ascende a cerca de 22.661 milhões de
MZN. Este declínio alarmante nas oportunidades e na produção económica regional enfatiza a necessidade urgente
de intervenções políticas para inverter a tendência ascendente do analfabetismo e para melhorar os resultados
educacionais em toda a província.
14 Kochav, Y., Spivak A., Strawczynski M. (2017). “É o capital humano novamente: The Centrality of Higher Education in Explaining GDP per Employee”,
Open Journal of Economics and Finance. Acedido a 15 de Agosto de 2023 em [Link]
15 O PIB regional é retirado do Instituto Nacional de Estatística (2023b). “Estimativas Provisórias do PIB Provincial para 2021”. Acedido em 1 de Setembro
de 2023 em [Link]
16 Barro R. e J.W. Lee (2010). “A new data set of educational attainment in the world, 1950-2010”. Documento de trabalho do NBER n.º 15902, Cambridge,
MA.
22
4. Custos de oportunidade do atraso no projecto Mozambique
LNG
Para além das consequências 昀椀scais discutidas anteriormente, o con昀氀ito em Cabo Delgado também tem cobrado
um pesado tributo às oportunidades económicas não realizadas, principalmente devido à suspensão da produção
de gás. A TotalEnergies, uma empresa francesa de petróleo e gás, lidera um consórcio que se concentra na explo-
ração de gás natural ao largo da costa de Cabo Delgado.17 O projecto Mozambique LNG na Área 1 da bacia do
Rovuma remonta à descoberta de abundantes reservas de gás natural em 2010, levando a uma decisão 昀椀nal de
investimento de 20 bilhões de USD em 2019. Contudo, o empreendimento foi suspenso por tempo indeterminado
após um ataque armado ocorrido na cidade de Palma em março de 2021, resultando na declaração de força maior
pelo operador TotalEnergies.
Numa entrevista à Deutsche Welle, Patrick Pouyanné, CEO da TotalEnergies, detalhou que qualquer decisão 昀椀nal
de reiniciar as operações em Cabo Delgado, Moçambique, será submetida a uma avaliação cuidadosa, sendo os
custos de exploração de gás natural uma consideração importante.18 Pouyanné elaborou que a manutenção dos
custos projectados e a renegociação de contratos com fornecedores locais pela TotalEnergies também in昀氀uencia-
riam signi昀椀cativamente a decisão de reiniciar as operações. Além disso, sublinhou que as considerações relativas à
segurança e aos direitos humanos desempenharão um papel crucial na eventual decisão de reiniciar as operações.
Apesar de algumas melhorias na segurança regional, a TotalEnergies continua cautelosa quanto a avançar com o
projecto suspenso. Neste contexto, é de salientar um artigo do Zitamar News (2023) que indica as intenções da
TotalEnergies de iniciar a construção da unidade de produção de Gás Natural Liquefeito (GNL) até ao 昀椀nal de
2023, conforme transmitido por Patrick Pouyanné a 27 de Setembro de 2023, com projecções que apontam para o
início da produção de gás em 2028.19
A Rystad Energy, uma empresa de estudos energéticos, prevê que a TotalEnergies possa retomar o seu projecto de
GNL em Moçambique em 2024 e prevê o início da produção de gás em 2028.20 Este atraso é atribuído aos ajustes
necessários para fazer face aos aumentos de custos previstos devido aos aumentos da in昀氀ação global, com a Rystad
Energy a estimar um aumento de 25% nos custos do projecto, um valor consistente com o aumento dos custos do
GNL a nível global.
Em entrevista à DW África, o activista ambiental Daniel Ribeiro, da associação Justiça Ambiental, destacou o
dilema 昀椀nanceiro de Moçambique, uma vez que os atrasos nos projectos de exploração de gás resultam em que-
bras signi昀椀cativas de receitas. Estes fundos são extremamente necessários para gerir uma crise de dívida pública
agravada pelo escândalo das dívidas ocultas. Para complicar ainda mais a situação, Moçambique está contratual-
17 A Total E&P Mozambique Area 1 Limitada, uma subsidiária integral da TotalEnergies, opera o Mozambique LNG com uma participação de 26,5%, jun-
tamente com a ENH Rovuma Área Um, S.A. (15%), Mitsui E&P Mozambique Area1 Limited (20%), ONGC Videsh Rovuma Limited (10%), Beas Rovuma
Energy Mozambique Limited (10%), BPRL Ventures Mozambique B.V. (10%), e PTTEP Mozambique Area 1 Limited (8,5%).
18 DW África (2023a). “Total avisa: Custo do projecto em Moçambique não pode subir”. Publicado aos 13 de Fevereiro de 2023. Acedido aos 11 de Se-
tembro de 2023 em [Link]
19 Zitamar News (2023). “TotalEnergies procura reiniciar o GNL de Moçambique antes do 昀椀nal do ano”. Publicado em 27 de Setembro de 2023. Acedido
em 28 de Setembro de 2023 em [Link]
20 Club of Mozambique (2023). “TotalEnergies reiniciará o projecto de GNL de Moçambique em 2024, primeiro gás em 2028 - Rystad Energy”. Publicado
em 10 de Julho de 2023. Acedido aos 11 de Setembro de 2023 em [Link]
-2024-昀椀rst-gas-in-2028-rystad-energy-240700/.
23
mente obrigado a suportar o impacto 昀椀nanceiro de quaisquer perturbações relacionadas com con昀氀itos, e quaisquer
alterações às leis de hidrocarbonetos existentes requerem a aprovação explícita da TotalEnergies e da Electricidade
de Moçambique (EDM). Esta situação é especialmente arriscada para Moçambique, tendo em conta que o governo
utilizou estes contratos de gás como alavanca para a obtenção de empréstimos internacionais. O atraso amplia a
necessidade urgente de receitas para fazer face à escalada da dívida soberana.21
O projecto Mozambique LNG é a maior das iniciativas de GNL em Moçambique. De acordo com a TotalEnergies,
o projecto Mozambique LNG tem capacidade para aumentar a produção para 43 milhões de toneladas métricas
por ano (MTPA).22 Em comparação, o projecto de gás Coral Sul, liderado pela Eni, e o projecto Mamba, operado
pela Exxon Mobil na Área 4, têm uma capacidade de produção estimada em cerca de 3,4 MTPA e 15,2 MTPA,
respetivamente.23, 24
Dados os riscos multidimensionais e o impacto económico signi昀椀cativo do projecto Mozambique LNG, é crucial
quanti昀椀car os custos de oportunidade para Moçambique decorrentes de atrasos na produção. As receitas públicas
previstas incluem:
5. Pagamentos de bónus quando se atingem marcos especí昀椀cos do projecto, tais como o início da produção
comercial e a consecução de determinados objectivos de produção.
A taxa normal do imposto sobre o rendimento das sociedades é de 32% dos lucros líquidos após a dedução das
despesas admissíveis. Contudo, foi acordada pelo Governo e pelo consórcio de petróleo e gás uma taxa reduzida
de imposto sobre o rendimento das sociedades de 24% para os primeiros oito anos de produção.
Após a recuperação dos custos do consórcio, o lucro é dividido entre o contratante e o Estado. A repartição dos
lucros entre a administração pública e o contratante é determinada por um factor de repartição dos lucros, o factor
R. Em termos simples, o factor R é um rácio entre as receitas acumuladas do projecto e os custos acumulados do
projecto. O factor R para a Área 1, que foi acordado no contrato de concessão de exploração e produção (CCPP),
está resumido na Tabela 6:25
21 DW África (2023b). “Os projectos de gás deixaram Moçambique numa armadilha”. Publicado em 13 de Julho de 2023. Acedido em 11 de Setembro de
2023 em [Link]
22 TotalEnergies (2023). “Sobre o projecto”. Acedido em 20 de Setembro de 2023 em [Link]
-natural-gas-project.
23 Eni (2023a). “Coral Sul: o campo de gás ao largo da costa de Moçambique”. Acedido em 20 de Setembro de 2023 em [Link]
tions/[Link].
24 Eni (2023b). “Rovuma LNG: produzimos e processamos gás ao largo da costa de Moçambique”. Acedido em Setembro de 2023 em [Link]
com/en-IT/operations/[Link].
25 Governo de Moçambique (2006). “Contrato de Concessão para Pesquisa e Produção”. Acedido em 15 de Agosto de 2023 em [Link]
Politicas-Regime-Legal/Contratos-de-Pesquisa-Producao-de-Hidrocarbonetos/Area-1-Bacia-do-Rovuma.
24
Tabela 6 Repartição dos lucros entre o Governo e o consórcio no projecto Mozambique LNG (Área 1)
Por exemplo, quando as receitas acumuladas do projecto são inferiores aos seus custos acumulados (factor R in-
ferior a 1), o Estado tem direito a 10% dos lucros, 昀椀cando o consórcio, liderado pela TotalEnergies, com 90%. À
medida que o factor R aumenta - o que indica um aumento da rentabilidade do projecto - a parte do Estado também
aumenta. Quando o factor R se situa entre 2 e 3, a participação do Estado aumenta para 30% e a do consórcio di-
minui para 70%. Quando o factor R é superior a 4, a participação do Estado aumenta para 60% dos lucros.
É crucial salientar que se espera que a maior parte dos lucros do governo se materialize apenas nas fases posterio-
res, depois de decorridos muitos anos. O estudo da Oxfam liderado por Hubert (2019) oferece informações impor-
tantes sobre a dinâmica das receitas do projecto Coral Sul, relativamente mais pequeno, na Área 4, que é gerido
pela ENI.26 De acordo com o cenário de preços de referência do estudo, o factor R nunca atinge 4. Notavelmente,
só atinge um valor de 1 após 14 anos de produção de GNL, aumenta para 2 após 18 anos e sobe para 3 após um
longo período de 24 anos. Este atraso na obtenção de factores R mais elevados signi昀椀ca que os lucros previstos
pelo governo são fortemente “sobre-avaliados”, tornando-os particularmente vulneráveis a variáveis macroeconó-
micas, incluindo taxas de juro, in昀氀ação e volatilidade global dos preços do petróleo e do gás.
O CIP (2023c) destaca as disparidades entre os contratos de partilha de lucros negociados entre o Estado moçam-
bicano e os consórcios de petróleo e gás, e as disposições da Lei n.º 27/2014, de 23 de Setembro de 2014.27 Especi-
昀椀camente, esta lei prescreve uma participação de 60% do gás de lucro para o governo sob um factor R de 2,5. Por
outro lado, o projecto Mozambique LNG atribui apenas uma quota de 30% ao governo sob o mesmo factor R. Isto
implica que a participação projectada no lucro do governo com um factor R de 2,5 é efectivamente reduzida para
metade em comparação com o que está descrito na Lei nº 27/2014. Esta discrepância substancial não só revela as
potenciais consequências 昀椀scais de tais acordos, mas também levanta questões importantes sobre a conformidade
dos contratos com os quadros legais vigentes. Para além disso, a análise do CIP (2023c) compara esta situação
com a participação do governo nas iniciativas de hidrocarbonetos em países como Angola, Azerbaijão e Tunísia.
Por exemplo, a participação do governo num empreendimento offshore na Tunísia retém pelo menos 65% do pe-
tróleo-lucro, subindo para 82,50% para factores R superiores a 2,3. Estas comparações levantam questões sobre a
distribuição equitativa dos lucros nos empreendimentos de gás moçambicanos.
26 Hubert D. (2019). “Receitas do governo do Coral FLNG”. Oxfam. Publicado em 26 de Junho de 2020. Acedido em 1 de Agosto de 2023 em https://
[Link]/media/documents/Government_Revenues_From_Coral_Flng.pdf.
27 CIP (2023c). “O modelo adotado para a partilha de produção de gás no Rovuma é desvantajoso para o Estado moçambicano”. Acedido a 26 de Setem-
bro de 2023 em [Link]
25
Comparando o projecto Coral Sul com o projecto interrompido de Mozambique LNG, conforme ilustrado na Figura
14 revela outra camada de risco. Conforme ilustrado, o aumento da participação do governo nos lucros surge mais
tarde no projecto Mozambique LNG do que no projecto Coral Sul. Este padrão sugere uma proposta mais arriscada
para o governo. Embora o acordo do factor R do Mozambique LNG possa ser favorável num cenário de preços de
gás elevados e sustentados e de lucros rápidos, apresenta desvantagens signi昀椀cativas. Especi昀椀camente, a estrutura
de retaguarda das receitas governamentais esperadas apresenta riscos substanciais face a custos de produção
elevados, instabilidades macroeconómicas, restrições de liquidez do governo e custos imprevistos relacionados
com con昀氀itos ou interrupções operacionais.
Figure 14 Alocação do lucro para o governo, dependendo da relação de receitas para custos
Para estimar os custos de oportunidade associados ao atraso no projecto de gás, utilizamos o modelo e os
pressupostos de Hubert (2019) como quadro orientador. Adicionalmente, consideramos a capacidade de produção
da Mozambique LNG de até 43 MTPA relativamente a receitas e custos, variações no factor R e a estrutura de
pagamento de bónus em três níveis especi昀椀cada no Artigo 12 do contrato CCPP. O primeiro bónus de 5 milhões
de dólares é pago no início da produção comercial. Um segundo bónus de 10 milhões de dólares é pago quando
a produção diária atinge uma média de 20 000 BOE (barris de petróleo equivalente) durante um mês contínuo.
Os bónus subsequentes, no valor de 20 milhões de dólares cada um, são atribuídos sempre que a produção diária
aumenta em mais 50 000 BOE durante um determinado mês. Com uma capacidade total de 43 MTPA, o volume
total previsto de pagamentos de bónus é de 375 milhões de dólares.28
28 Para converter os valores da produção diária de BOE (Barril de Petróleo Equivalente) para MTPA (Milhões de Toneladas por Ano) de GNL, podem seguir-
-se os seguintes passos. Primeiro, converter o valor diário de BOE em pés cúbicos de gás natural. Em segundo lugar, traduzir esta produção num valor anual.
Finalmente, converter a produção anual de pés cúbicos em toneladas métricas de GNL. Consequentemente, uma produção diária de 50.000 BOE equivaleria
aproximadamente a uma produção anual de cerca de 2.249.484 toneladas métricas ou aproximadamente 2,25 MTPA de GNL. Utilizando estas conversões, se
o projeto de GNL de Moçambique atingir a sua capacidade total de 43 MTPA, serão efectuados 18 pagamentos de bónus de 20 milhões de USD.
26
Para determinar o valor actual das receitas públicas e estimar o custo do atraso, aplicamos uma taxa de desconto
ponderada com base nos juros do Estado sobre as dívidas interna e externa:
(3)
Aqui, i representa a taxa de juro das dívidas interna e externa, enquanto d denota os montantes correspondentes
do serviço da dívida, que incluem os pagamentos do capital e dos juros. De acordo com os dados orçamentais
do Ministério da Economia e Finanças (MEF), o total do serviço da dívida para 2023 ascende a 54.167 milhões
de MZN para as dívidas internas e 44.650 milhões de MZN para as dívidas externas.29 Em Agosto de 2023, o
rendimento de uma obrigação do Estado a cinco anos é de 17% ao ano, servindo de referência para a nossa taxa
de juro interna.30 A média de 180 dias da Secured Overnight Financing Rate (SOFR) de 4,9% p.a. é usada como
referência de juros externos.31 Utilizando estes parâmetros na fórmula da taxa de desconto ponderada, obtém-se
uma taxa de desconto calculada de 11,5% ao ano.
Ao incorporar a taxa de desconto calculada no quadro geral estabelecido por Hubert (2019), avaliamos os impactos
昀椀nanceiros dos atrasos dos projectos. Especi昀椀camente, determinamos o custo do atraso como a diferença entre o
valor actual líquido (VAL) sem atraso e o VAL com atraso:
(4)
Esta equação permite-nos quanti昀椀car a erosão do valor actual atribuível ao atraso na execução do projecto. Na
Tabela 7, apresentamos um intervalo de perdas de receitas estimadas para o governo em diferentes condições de
preços do petróleo e do gás. De acordo com os pressupostos de Hubert (2019), o cenário de preço base baseia-se
num preço do petróleo bruto Brent de 70 USD por barril (bbl), correspondendo a um preço de GNL de 7,7 USD por
mmbtu (milhões de unidades térmicas britânicas). Para os cenários de custo elevado e baixo, os preços do petróleo
Brent são 昀椀xados em 85 USD bbl e 55 USD bbl, respectivamente.
Tabela 7 Simulações da Perda de Receita do Governo Sob Diferentes Cenários de Preço de Gás (em milhões de MZN)
A Tabela 7 ilustra o potencial impacto 昀椀nanceiro dos atrasos no projecto Mozambique LNG nas receitas do
governo. Se o projecto retomasse as operações em Abril de 2024, isso corresponderia a um atraso de três anos
do projecto. No cenário de preços de referência, este atraso resultaria numa redução das receitas do Estado de
228.090 milhões de MZN. Dados recentes do Banco Mundial mostram que o preço médio do Brent era de 86,20
USD e o preço do GNL era de 12,88 USD em Agosto de 2023.32 Isto sugere que o actual panorama do mercado
29 Ministério da Economia e Finanças (2023). “Plano Económico e Social e Orçamento do Estado para 2023”. Acedido em 12 de Setembro de 2023 em
[Link]
soe/pesoe-2023/1818-pesoe-2023/昀椀le.
30 Bolsa de Valores de Moçambique (BVM, 2023). “Tesouro-2023 -7ª Série.” Acedido em 10 de Setembro de 2023 em [Link]
pt/mercado/titulos-cotados/titulos-cotados#obriga%C3%A7%C3%B5es.
31 Reserva Federal de Nova Iorque (2023). “Média SOFR e dados do índice, média de 180 dias”. Acedido em 10 de Setembro de 2023 em [Link]
[Link]/markets/reference-rates/sofr-averages-and-index.
32 Banco Mundial (2023). “Dados de preços de commodities do Banco Mundial. 5-Sep-2023”. Acedido em 14 de Setembro de 2023 em [Link]
27
é caracterizado por preços elevados do gás, ainda mais exacerbados pelas consequências económicas do con昀氀ito
russo-ucraniano. Num ambiente de preços do gás sustentados e elevados, a perda de receitas públicas estimada
atinge aproximadamente 383.385 milhões de MZN em apenas três anos. O quadro também destaca os riscos 昀椀scais
associados a atrasos adicionais. Um retrocesso de 10 anos, associado a preços elevados e prolongados dos produtos
de base, poderia resultar numa profunda quebra de receitas de 911.766 milhões de MZN.
O OpenDemocracy (2023) também relatou as alegações de exploração sexual em campos de deslocados internos
em Cabo Delgado.34 Os trabalhadores humanitários locais, nomeados pelos líderes comunitários, são acusados de
forçar mulheres vulneráveis a trocar sexo por ajuda alimentar. O relatório critica o governo moçambicano pela sua
gestão inadequada da distribuição da ajuda e por não responsabilizar os líderes locais, exacerbando assim a crise
humanitária. De acordo com o artigo, o Programa Mundial de Alimentação reconheceu estes relatos de abuso, mas
não realizou nenhuma investigação, optando por encaminhar as vítimas para serviços de violência de género. Além
disso, o OpenDemocracy (2023) revela casos de corrupção entre os líderes comunitários que, alegadamente, estão
a desviar a ajuda para benefício pessoal.
[Link]/en/doc/5d903e848db1d1b83e0ec8f744e55570-0350012021/related/[Link].
33 CIP (2021b). “Número de deslocados internos em Moçambique cresceu em cerca de 2700% em dois anos?”. Acedido a 27 de Setembro de 2023 em https://
[Link]/wp-content/uploads/2020/10/Nu%CC%81mero-de-deslocados-em-Moc%CC%[Link].
34 OpenDemocracy (2023). “Trabalhadores humanitários ‘exigem sexo por comida’ nos campos de refugiados de Moçambique”. Acedido em 5 de Setembro
de 2023 em [Link]
28
O CIP (2021c) destaca ainda que as raparigas e mulheres jovens deslocadas que che昀椀am agregados familiares
também recebem frequentemente assistência inadequada, espelhando a ajuda atribuída a agregados familiares
che昀椀ados por homens adultos, apesar das suas necessidades distintas. Casos especí昀椀cos revelam que essas famílias
昀椀cam sem casa devido à falta de apoio na construção de abrigos, demonstrando a inadequação prevalecente dos
programas de apoio para enfrentar os desa昀椀os únicos enfrentados por esta demogra昀椀a vulnerável.35
O Human Rights Watch (2021) relatou tendências preocupantes que afectam as mulheres no norte de Moçambique.
O grupo extremista Al-Shabab tem sido acusado de abusos dos direitos humanos, complicando a situação dos
civis, em particular das mulheres.36 Centenas de mulheres e raparigas foram raptadas pelo Al-Shabab na região
de Cabo Delgado desde 2018, tendo muitas permanecido em cativeiro, forçadas a casamentos ou vendidas. As
vítimas enfrentam frequentemente traumas adicionais quando as autoridades moçambicanas as detêm por longos
períodos após o resgate. O grupo extremista tem como alvo mulheres mais jovens e saudáveis, forçando-as a casar
com os seus combatentes e sujeitando-as à escravatura e a abusos sexuais. Algumas foram mesmo vendidas por
resgates que variam entre 40 000 MZN e 120 000 MZN. O Human Rights Watch apela ao cumprimento das normas
humanitárias, à prestação legal de contas e ao apoio às mulheres afectadas.
35 CIP (2021c). “Gestão dos deslocados de guerra de Cabo Delgado: Governo falhou no apoio às vítimas do con昀氀ito”. Acedido a 27 de Setembro de 2023
em [Link]
C%80s-vi%CC%81timas-do-con昀氀[Link].
36 Human Rights Watch (2021). “Moçambique: Centenas de mulheres e meninas raptadas”. Acedido a 1 de Setembro de 2023 em [Link]
news/2021/12/09/380635.
29
6. Conclusão
O presente estudo proporciona uma análise abrangente das rami昀椀cações 昀椀scais do con昀氀ito em curso em Cabo
Delgado, Moçambique, revelando encargos signi昀椀cativos para o orçamento nacional. Até à data, o con昀氀ito levou a
despesas adicionais com a segurança nacional de cerca de 106,8 bilhões de MZN. O estudo chama ainda a atenção
para o atraso do projecto Mozambique LNG, um atraso que resulta num dé昀椀ce de receitas públicas estimado em
383,4 bilhões de MZN, devido aos elevados preços do gás.
Para além da pressão 昀椀scal imediata, a crise tem implicações sociais e humanitárias de grande alcance. A nossa
pesquisa indica efeitos prejudiciais na educação e no capital humano em Cabo Delgado, incluindo uma perda
substancial no PIB regional devido ao aumento das taxas de analfabetismo.
Apesar das substanciais contribuições 昀椀nanceiras e da ajuda militar dos parceiros internacionais, as necessidades
humanitárias de Moçambique continuam, em grande medida, por satisfazer. Só as contribuições da União Europeia
(UE), sob a forma de ajuda militar e de manutenção da paz, totalizam aproximadamente 8,5 bilhões de MZN
(125,9 milhões de euros).37 Contudo, conforme sublinhado pelo Center for Strategic & International Studies
(CSIS), o 昀椀nanciamento global continua a ser insu昀椀ciente.38 Até ao 昀椀nal de Outubro de 2023, o Plano de Resposta
Humanitária de Moçambique para 2023, que visa a assistência a mais de 850.000 pessoas deslocadas internamente
(PDIs),39 assegurou apenas 178,7 milhões de USD do seu objectivo de 512,9 milhões de USD.40 Isto indica que os
fundos mobilizados através do plano de resposta coordenado representam apenas 32,7% das necessidades totais.
Além disso, o 昀椀nanciamento atribuído não é distribuído proporcionalmente pelos diferentes sectores. O dé昀椀ce
de 昀椀nanciamento é excepcionalmente grave na coordenação e gestão dos campos, que recebeu apenas 4,9% do
昀椀nanciamento necessário. Seguem-se dé昀椀ces substanciais de 昀椀nanciamento na educação (12,6% de cobertura
do 昀椀nanciamento), na protecção (14,5% de cobertura do 昀椀nanciamento) e na segurança alimentar e meios de
subsistência (28,1% de cobertura do 昀椀nanciamento). Esta inadequação do 昀椀nanciamento enfraquece ainda mais a
capacidade de Moçambique para gerir a crise de forma e昀椀caz e salvaguardar os grupos vulneráveis.
É importante sublinhar a interligação entre as dimensões orçamental, social e de governação desta crise. Os encargos
económicos criados pelo con昀氀ito contribuem directamente para os desa昀椀os sociais e de governação, resultando
num ciclo vicioso que agrava toda a situação. Na medida que a ajuda internacional se concentra cada vez mais em
intervenções militares e de consolidação da paz, existe o risco de redução dos orçamentos para outras iniciativas
de desenvolvimento essenciais. Estas reafectações signi昀椀cativas na alocação de ajuda não só contribuem para os
custos de oportunidade associados à guerra, como também criam constrangimentos que impedem uma resposta
37 O apoio da UE é atribuído da seguinte forma: 20 milhões de euros para a Força de Defesa do Ruanda, 89 milhões de euros para as Forças Armadas de
Moçambique através da Missão de Formação da UE e 15 milhões de euros para a missão da SADC. Está reservado um montante adicional de 1,9 milhões
de euros para iniciativas de consolidação da paz. Conferir Conselho Europeu (2022). “Mecanismo Europeu de Apoio à Paz: O Conselho adopta medidas
de assistência em apoio às forças armadas de cinco países”. Acedido em 1 de Setembro de 2023 em [Link]
ses/2022/12/01/european-peace-facility-council-adopts-assistance-measures-in-support-of-the-armed-forces-of-昀椀ve-countries/.
38 CSIS (2023). “Avaliar o cenário de segurança, humanitário e de 昀椀nanciamento de Moçambique”. Comentário de N.J. Larnerd e E. Columbo em 8 de Agos-
to de 2023. Acedido em 15 de Setembro de 2023 em [Link]
39 OIM (2023). “Moçambique”. Instituto de Dados Globais - Matriz de Rastreio de Deslocações. Acedido em 27 de Setembro de 2023 em [Link]
int/mozambique.
40 Foram gerados mais 53,3 milhões de dólares fora do plano de resposta coordenada, mas o 昀椀nanciamento total ainda está muito aquém do objetivo global
de 512,9 milhões de dólares. Para mais pormenores sobre o plano coordenado, ver Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários das Nações Unidas
(2023). “Serviço de Rastreio Financeiro: Plano de Resposta Humanitária para Moçambique 2023”. Acedido em 24 de Outubro de 2023 em [Link]
org/countries/152/summary/2023.
30
abrangente às necessidades multifacetadas da sociedade civil moçambicana. Estas mudanças criam consequências
difíceis de prever, especialmente para as gerações futuras.
Por último, os efeitos menos tangíveis do con昀氀ito, mas igualmente prejudiciais, não devem ser ignorados. A erosão
das estruturas sociais, as violações dos direitos humanos e o comprometimento dos serviços de saúde ampli昀椀cam
os riscos imediatos e a longo prazo, como os surtos de doenças e os problemas de saúde mental.
7. Recomendações
As complexidades económicas, sociais e políticas do con昀氀ito de Cabo Delgado, em Moçambique, exigem
uma abordagem política matizada e multidimensional. Esta secção apresenta recomendações para os órgãos
governamentais, organizações internacionais e empresas multinacionais, tendo em conta os resultados da
investigação e os desenvolvimentos mais recentes em Cabo Delgado.
1. Evitar mais atrasos no projecto de Mozambique LNG: Para minimizar a perda substancial de
potenciais receitas públicas causada por atrasos, é crucial reforçar as medidas de segurança e acelerar o
desenvolvimento do projecto de Mozambique LNG. Além disso, dada a concorrência regional emergente
de países como a Tanzânia no mercado do GNL, existe um sentido de urgência acrescido para que
Moçambique avance rapidamente com os seus próprios projectos de gás.41
2. Orçamentação transparente: É imperativo garantir uma maior transparência na repartição das despesas
relacionadas com os sectores policial, militar e de segurança, especialmente durante os ciclos eleitorais.
Essa transparência é essencial para fomentar a con昀椀ança do público e garantir a prestação de contas na
governação.
3. Contribuições 昀椀nanceiras das empresas multinacionais: O governo deve envolver proactivamente
as empresas multinacionais do sector extractivo no sentido de contribuírem 昀椀nanceiramente para as
medidas de segurança regional. Tendo em conta os seus vastos ganhos potenciais futuros na região, é
estrategicamente vantajoso para estas empresas investir no reforço da segurança e estabilidade.
4. Soluções participativas: O governo deve envolver as comunidades locais nos processos de tomada de
decisão que dizem respeito à segurança e ao desenvolvimento. O envolvimento dos residentes nestas
importantes conversas pode incutir um sentimento de propriedade sobre os projectos e iniciativas locais.
Esta abordagem participativa é suscetível de reduzir as queixas que, de outra forma, poderiam levar a
con昀氀itos, promovendo assim um ambiente mais pací昀椀co e de colaboração.42
5. Criar con昀椀ança na população local: Para fomentar a con昀椀ança nas comunidades locais, o governo deve
41 CIP (2023b). “Para maximizar ganhos do gás, Moçambique deve avançar urgentemente”. Acedido a 1 de Setembro de 2023 em [Link]
wp-content/uploads/2023/06/[Link].
42 Ver, por exemplo, o trabalho de Lind et al. (2023), que explora a utilização de métodos participativos inovadores no Quénia e em Madagáscar. A sua
investigação utiliza ferramentas como o vídeo participativo para aumentar o envolvimento e criar con昀椀ança nas comunidades locais marginalizadas afectadas
por iniciativas de desenvolvimento de recursos em grande escala. Conferir Lind, J., Huff A., Shaw J., De Jong W. (2023). “Seeing’ Con昀氀ict at the Margins in
Kenya and Madagascar”. Acedido em 15 de Setembro em [Link]
31
recorrer às práticas de governação transparentes, envolver-se na participação signi昀椀cativa da comunidade
e realizar reuniões e consultas públicas. Estas acções criarão um diálogo aberto e permitirão uma maior
responsabilização, criando assim uma relação de maior con昀椀ança entre as autoridades e os membros da
comunidade.
6. Evitar a má conduta e o abuso de poder: Para travar as violações dos direitos humanos e a corrupção no
seio das forças militares, policiais e de segurança, é imperativo implementar mecanismos de supervisão
sólidos. Estes mecanismos devem incluir auditorias regulares, relatórios transparentes e avaliações
independentes para garantir que estas forças estejam a operar dentro dos limites da lei e a respeitem os
padrões éticos.
Medidas sociais
7. Aumentar as despesas com a educação: É essencial dar prioridade aos investimentos na educação e nos
sectores sociais como uma abordagem proactiva para mitigar futuros con昀氀itos. Ao mesmo tempo, é crucial
evitar a implementação de medidas de austeridade míopes que possam comprometer a estabilidade a longo
prazo.
8. Orçamento humanitário: É imperativo atribuir fundos adicionais especi昀椀camente para a ajuda
humanitária, assegurando simultaneamente que esses recursos sejam utilizados de forma e昀椀caz para
responder às necessidades imediatas das populações afectadas pelos con昀氀itos.
Gestão de recursos
9. Mitigação da maldição dos recursos: É essencial envolver activamente as comunidades locais e realizar
campanhas de sensibilização centradas na importância de actividades económicas diversi昀椀cadas. Para
além da dependência dos recursos primários, devem ser exploradas oportunidades económicas para a
sustentabilidade a longo prazo. Além disso, o reinvestimento na educação para o desenvolvimento
sustentável ao longo de várias gerações é uma estratégia fundamental para promover a estabilidade e o
crescimento económico a longo prazo.
10. Ênfase no imposto sobre a produção: Tendo em conta a complexidade da cobrança do imposto sobre o
rendimento das pessoas colectivas e as estratégias de evasão 昀椀scal por parte das empresas multinacionais,
a ênfase nos royalties, tal como o imposto sobre a produção, pode ser uma fonte de receitas mais previsível
e imediata. Consequentemente, deve garantir-se que as comunidades recebam a sua quota-parte justa do
imposto sobre a produção.43
Em suma, os desa昀椀os multidimensionais colocados pelo con昀氀ito em Cabo Delgado exigem soluções urgentes,
abrangentes e matizadas nas esferas 昀椀scal, social e de governação. Ao agir prontamente de acordo com estas
recomendações, os intervenientes podem mitigar tanto o sofrimento imediato como as repercussões socioeconómicas
a longo prazo, abrindo caminho para um futuro mais estável e próspero na região.
43 Ver mais informações sobre a vantagem dos royalties em Readhead, A., Tarus, V., Lassourd, T., Madzivanyika, E., Schlenther, B. (2023). “O futuro da tri-
butação dos recursos: 10 ideias de políticas para mobilizar as receitas mineiras. Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável e Fórum Africano
de Administração Fiscal”. Acedido a 1 de Setembro de 2023 em [Link]
32
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