aula 2 l.
Relcio Abdalla
O Modelo Cosmologico Standard
•Historia rápida do Universo
•O Princípio Cosmológico
•A Relatividade Geral de Einstein
•A métrica de Friedmann-Robertson-Walker
•Propagação da Luz em FRW: horizontes, passado e futuro
• cosmologia FRW: poeira, radiação, Λ, escalares etc.
•Tempo, distância, redshift, energia e temperatura
aula 2 l. Relcio Abdalla
redshift Rápida História Cósmica
109 200 s 1 MeV
Nucleossinthesis
103 300.000 anos 1 eV
Desacoplamento
(sup. Ult. espalhamento)
0 15Gy
tempo energy
aula 2 l. Relcio Abdalla
Fatos:
•Idade: T0 = (13.8 ± 0.2)Gy
•Densidade: ρ0 = (1.9 ± 0.15) h2 x 10-29 g cm-3
•Parametro de expansao: H0 = 100 h Km s-1 Mpc-1
h = 0.69 ± 0.2
•Fracao Barionica: Ωb = ρb / ρtot = 0.0224 h-2
•Fracao de Energia em radiacao
(fotons e neutrinos sem massa): Ωγ = 2.5 x 10-6 h-2
1 pc = 3,26 l.y.
1 Mpc = 3,1 x 1024 cm
•Extremamente homogeneo e
isotropico: ∆T/T ~ 10-5
aula 2 l. Relcio Abdalla
O Principio Cosmologico
Queremos estudar o universo como um todo, em suas
mais largas escalas, para depois estudar detalhes locais
específicos. Num primeiro instante queremos apenas
descrever sua evolução, idade e geometria.
Sabemos, através da radiação cósmica de fundo (RCF), que pelo
menos até a época do desacoplamento dos fótons com a matéria
(quando a idade do universo era 300.000 anos), a densidade era
um fluido extremamente homogêneo e isotrópico – as regiões mais
densas eram apenas 0.001% mais densas que a média.
Além disso, a distribuição de galáxias fica bastante homogênea
quando observada em escalas muito grandes (> 100 Mpc).
Essas constatações servem para fundamentar uma hipótese
extremamente útil: o Princípio Cosmológico. Ele diz que não
existem posições nem direções privilegiadas no universo.
aula 2 l. Relcio Abdalla
Relatividade Geral
As velocidades das galáxias distantes são dadas, na lei fenomenológica de Hubble, por:
v=H0.R , onde H0= 69 km/[Link]
A distâncias R maiores que 1000 Mpc, a velocidade entre duas galáxias será próxima à
velocidade da luz. Portanto, para descrever esse sistema é necessário empregar uma
teoria relativística.
A mais simples teoria de campos relativística, covariante, que obedece ao
princípio da equivalência, enfim, temente a Deus, é a teoria da Relatividade
Geral de Einstein. Nessa teoria, a métrica de Minkowski é generalizada:
2 2!2
ds = − dt + dx → ds 2 = g ab dx a dx b c=1
∂a → ∇a
A gravitação é descrita pelas equações de Einstein:
e n e rgia e
s o r de
Te n ento
Tenso
Gab = 8πG Tab m o m
a té ria)
r de Ein (m
Gab [g stein
]
(geom
etria)
Constante de Newton
aula 2 2.3 relatividade geral l. Relcio Abdalla
O tensor de Einstein é uma função da métrica do espaço-tempo. Alguns
objetos úteis em espaços curvos são os seguintes, nas nossas
convenções: 3
g ab
= g ab
−1
, ∑ cb b
g ca
g = δ a
delta de
c =0 Kronecker
Conexões (símbolos de Christoffel): índices
c cd repetidos
Γ ab = 2 g ( g da ,b + g db,a − g ab,d )
1
Tensor de Riemann:
R dabc = Γ eb
d e
Γ ac − Γ ecd Γ ab
e d
+ Γ ac,b d
− Γ ab,c
Tensor de Ricci e Escalar de Ricci:
c
Rab = Racb , R = R aa = g ab Rab
Tensor de Einstein:
Gab = Rab − 12 g ab R
aula 2 l. Relcio Abdalla
2.4 A métrica de Friedmann-Robertson-Walker
A métrica maximalmente simétrica que descreve um espaço homogêneo
e isotrópico é chamada Friedmann-Robertson-Walker (FRW):
2
2 2 2 ⎡ dr 2 2 2 2 2⎤
ds = − dt + a (t ) ⎢ 2
+ r dθ + r sen θ dφ ⎥
⎣1 − Kr ⎦
É quase sempre de grande utilidade reparametrizar o “tempo comóvel” t
em termos do “tempo conforme”: t
dt dt´
dη = , η=∫
a (t ) a (t´)
Portanto, uma forma equivalente para a métrica FRW é:
2
2 2 ⎡ 2 dr 2 2 2 2 2⎤
ds = a (η ) ⎢ − dη + 2
+ r dθ + r sen θ dφ ⎥
⎣ 1 − Kr ⎦
Note que, se K=0 (seção espacial plana), a métrica FRW é
conformemente plana:
!2
2
dsK =0 2
[ 2
= a (η ) − dη + dx ] , g ab
K =0
= a 2ηab
aula 2 l. Relcio Abdalla
• A geometria da parte espacial da métria FRW é dada pelo elemento de
distância espacial:
2
2 2 ⎡ dr 2 2⎤
dl = a ⎢ 2
+ r dΩ ⎥
⎣1 − Kr ⎦
1
Definindo: r= sen ( K χ )
K
2 ⎡ 2 1
2 2 2⎤
Temos: dl = a ⎢dχ + sen ( K χ )dΩ ⎥
⎣ K ⎦
Portanto, obtemos três casos limite:
• K =+1 -- a geometria é a de uma hiperesfera, com 0 ≤ χ ≤ π.
• K = -1 -- a geometria é hiperbólica, com 0 ≤ χ ≤ ∞.
• K = 0 -- a geometria é plana (euclideana), r = χ .
aula 2 2.4 a métrica frw l. Relcio Abdalla
A topologia da métrica FRW é portanto determinada pela constante K:
• fechada - K=+1
(seção espacial esférica)
• aberta - K=-1
(seção espacial
hiperbólica)
• plana - K=0
(seção espacial
euclideana)
aula 2 2.4 a métrica frw l. Relcio Abdalla
• O sistema de referencial de FRW é tal que os observadores do sistema
estão em repouso (inerciais), em coordenadas (r,θ,Φ) constantes.
• O fator de escala a(t) mede o variação do tamanho das seções
espaciais:
a(t)
A taxa de expansão (ou parâmetro de Hubble) 1 da a!
do universo é a taxa de crescimento do fator de H= =
escala, medida em tempo comóvel: a dt a
1 da a ʹʹ
Em termos de tempo conforme, temos: H= 2 = 2
a dη a
aula 2 l. Relcio Abdalla
2.5 Propagação da luz em FRW: distâncias e horizontes
• O sistema de referencial de FRW não tem posições nem direções
privilegiadas. Portanto, a propagação de um raio de luz radial nesse
sistema de coordenadas é idêntica à propagação de qualquer outro raio.
• A propagação da luz em Relatividade Geral é trivial: como é sempre possível
escolher um sistema de coordenadas que é localmente Minkowski, isso significa
que, assim como na Relatividade Especial, raios de luz viajam por geodésicas
nulas, o que quer dizer simplesmente que o elemento de distância ds2 = 0 .
Portanto, um fóton se propagando através da direção radial obedece a:
dt 2 dr 2
= , ou dη 2 = dχ 2
a (t ) 1 − Kr 2
2
A integração é imediata:
dt dr
=
∫ a (t ) ∫ 1 − Kr 2 , | Δη |= Δχ
A distância própria percorrida por um raio de luz de r=0 até r=r1 é dada por:
r1 r1 t1
dr dt '
d p (t ) = ∫ dr g rr ( r , t ) = a (t ) ∫ = a (t ) ∫
0 0 1 − Kr 2
t0
a (t ' )
aula 2 l. Relcio Abdalla
• Os objetos situados em r=0 e r=r1 estão naturalmente em repouso, no referencial
de FRW. A velocidade com que os dois se afastam é devida somente à expansão
do universo.
• É muita vezes útil separar essas distâncias físicas em duas partes: a distância
em coordenadas, que permanece constante; e a parte dependente do tempo,
que é o fator de escala a(t). Escrevemos então:
d p (t ) = a (t ) d c
onde dc é a distância comóvel.
• A velocidade que separa dois pontos a distâncias comóveis fixas (ou
seja, dois objetos inerciais no sistema FRW) é dada por:
! a!
d p (t ) = d p (t ) = H (t ) d p (t )
a
Ou seja, rededuzimos a Lei de Hubble das velocidades das galáxias
distantes:
v=Hd
aula 2 l. Relcio Abdalla
• As distâncias próprias podem ser finitas mesmo quando os intervalos de
tempos se extendem arbitrariamente para o passado ou para o futuro.
•Por exemplo, vamos supor que:
p
⎛t ⎞ a
a (t ) = a0 ⎜⎜ ⎟⎟ , 0 < p <1
⎝ t0 ⎠
t
Esse espaço-tempo pode ser continuado somente até t=0 no passado
(quando a=0). Temos:
t −p
⎛ t' ⎞ p ⎡ a! p ⎤
d Hp (t ) = a (t ) ∫ dt ' ⎜⎜ ⎟⎟ = 1
1− p t = 1− p H −1 ( t ) ⎢⎣ H ( t ) = = ⎥
0 ⎝ t0 ⎠ a t⎦
A distância dH é a distância máxima
percorrida por um raio de luz emitido no
passado. Isso significa que o cone de
luz passado é limitado, e não pode ser t
extendido além desse instante inicial
t=0 (que corresponde a uma expansão
inicial explosiva – o Big Bang!)
d
aula 2 l. Relcio Abdalla
• Chamamos essa distância máxima de horizonte. Como nesse caso (p<1) o
horizonte diz respeito a uma truncagem do cone de luz no passado, ele é um
horizonte tipo passado, também conhecido como horizonte de partículas. Veremos
que esse horizonte é muito próximo do raio de curvatura do espaço-tempo de FRW
com o fator de escala dado acima.
• O horizonte de partículas nos diz que observadores separados por uma distância
dHp(t) nunca estiveram em contato antes do instante t. Portanto, a existência de um
horizonte de partículas indica que o universo tem regiões causalmente desconexas.
• As regiões causalmente conexas de um universo FRW com fator de escala a ~ t p
com 0<p<1 têm um raio dado por dHp(t) . No passado, evidentemente, esse horizonte
era ainda menor do que hoje. Isso quer dizer que no passado tinhamos acesso a
uma região ainda menor do universo que a que enxergamos hoje.
• Acreditamos (ver seções seguintes) que o universo foi, durante a maior parte de
sua história, descrito pelo fator de escala acima, com p~2/3. Portanto, nosso
horizonte de partículas seria hoje: a!!!
lem licar qu e
P ro b
o s exp a???
d H (0) ≈ c × t0 ≈ 4600 Mpc
o d e m o gê ne
m o p h o m
Co a tã o
se j
a RCF
! Exercício: compute o horizonte de
partículas na época do desacoplamento
(t=300.000 y), assumindo que p=1/2.
R: 184 Kpc.
aula 2 l. Relcio Abdalla
•Considere agora o fator de escala:
p a
⎛t ⎞
a (t ) = a0 ⎜⎜ ⎟⎟ , p >1
⎝ t0 ⎠
t
t −p
Novamente, aparece o instante inicial t=0. Porém, agora ⎛ t' ⎞
d (t ) = a (t ) ∫ dt ' ⎜⎜ ⎟⎟
0 ⎝ t0 ⎠
é uma distância arbitrariamente grande quando tomamos o limite inferior t → 0 e
portanto não existe horizonte de partículas se p>1 .
Considere o que acontece ao tomar o limite t → ∞, mantendo o limite inferior como t.
Isso corresponde à seguinte pergunta: qual a distância máxima de um objeto em
relação a nós tal que, se emitirmos um sinal de luz num instante t, esse raio de
luz ainda será capaz de chegar até o objeto? Se essa distância máxima não for
infinita, existe um novo tipo de horizonte, dado por:
∞ −p
⎛ t' ⎞
d He (t ) = a (t ) ∫ dt ' ⎜⎜ ⎟⎟ = 1
p −1 t
t ⎝ t0 ⎠
O horizonte dHe(t) é um horizonte futuro. Ele indica que se um raio de luz for
emitido num instante t, desde uma distância maior que dHe(t) , esse sinal nunca
nos atingirá (em r=0). Ou seja, dHe é um horizonte de eventos.
aula 2 l. Relcio Abdalla
•O significado físico do horizonte de eventos é claro: ele separa regiões
que perderam o contato causal umas das outras.
v=c
•Note que, ao
contrário do que
ocorre com buracos
negros, o horizonte
de eventos
cosmológico não tem
uma localização num
certo local
geométrico bem
v=c definido,
v=c independente do
observador. Ele
funciona como um
arco-íris: sempre a
uma certa distância
do observador.
Considere o caso
p>>1:
v=c
aula 2 l. Relcio Abdalla
! Exercício: Mesmo quando p<1 , há uma distância para a
qual dois objetos estariam se separando com a velocidade da
luz. Por que nesse caso não existe também um horizonte de
eventos? Mostre que o critério para a existência de um
horizonte de eventos é o sinal do número adimensional
chamado parâmetro de desaceleração:
aa!!
q=−
a! 2
Quando q é positivo (desaceleração), não há horizonte de
eventos; quando q é negativo (aceleração), o horizonte
aparece. No caso a(t) ~ t p , o critério se torna simplesmente
0<p<1 (desaceleração) e p>1 (aceleração).
aula 2 l. Relcio Abdalla
2.6 Cosmologia de modelos Friedmann-Robertson-Walker:
Matéria e geometria
• Até agora só estudamos as propriedades cinemáticas de objetos
inerciais no espaço-tempo FRW. Agora vamos estudar de que modo
esses espaços-tempo surgem como consequência das equações de
Einstein.
Substituindo a métrica de FRW (expressa em coordenadas cartesianas
t,x,y,z) nas expressões para o tensor de Einstein, temos o resultado de que
apenas as componentes diagonais do tensor não se anulam:
⎡ 2 K ⎤
⎢ 3H + a 2 0 0 0 ⎥
⎢ K ⎥
⎢ 0 2 !
− 3H − 2 H − 2 0 0 ⎥
Gab = ⎢ a ⎥
⎢ 2 ! K ⎥
0 0 − 3H − 2 H − 2 0
⎢ a ⎥
⎢ 2 ! K⎥
⎢ 0 0 0 − 3H − 2 H − 2 ⎥
⎣ a ⎦
aula 2 l. Relcio Abdalla
• No lado direito das equações de Einstein temos o tensor de energia e
momento, contendo a informação sobre o conteúdo de matéria no
universo. Num universo homogêneo e isotrópico, ele é dado em geral por:
Tab = ( ρ + p )ua ub + pδ ab
onde u é a 4-velocidade própria do fluido: ua = (-1,0,0,0) . Portanto,
temos:
densidade ⎡ ρ (t ) 0 0 0 ⎤
de energia ⎢ 0 p (t ) 0 0 ⎥
Tab = ⎢ ⎥
⎢ 0 0 p (t ) 0 ⎥ pressão
⎢ ⎥
⎣ 0 0 0 p (t )⎦
Note que isotropia e homogeneidade são manifestos tanto em Gab quanto
em Tab. Em ambos os casos:
• os tensores são funções apenas do tempo (homogeneidade);
• as componentes espaciais (x,y,z) dos tensores são idênticas (sem
direções preferidas).
aula 2 l. Relcio Abdalla
• As equações de Einstein, Gab = 8πG Tab , portanto se reduzem a apenas
duas equações diferenciais acopladas, as chamadas Equações de
Friedmann:
K 2
3H + 2 = 8πG ρ
a
2 ! K
3H + 2 H + 2 = −8πG p
a
Note que apenas a segunda equação de Friedmann é de segunda ordem no
fator de escala (isto é, contém uma segunda derivada de a) e portanto determina
a dinâmica dos modelos FRW. A primeira equação, por ser de primeira ordem,
expressa apenas um vínculo, ou seja, uma condição que deve ser obedecida pela
solução explícita de a(t) (essa equação também é conhecida como vínculo da
energia). Mesmo assim, muitas vezes conseguimos obter a solução
cosmologicamente interessante para a(t) apenas inspecionando a primeira
equação.
aula 2 l. Relcio Abdalla
• O tensor de energia e momento da matéria obedece a uma lei de
conservação, ∇aTab=0 , que nesse caso se resume à equação da
continuidade:
dE = − p dV ⎫⎪ dρ 1 dV
⎬ V d+ρ + ( ρ +( ρp+) dV
p) = 0
dE = d ( ρV ) = V dρ + ρ dV ⎪⎭ dt V dt
V ∝ a 3 (t )
ρ! + 3H(ρ + p) = 0
• Em geral, temos várias formas de matéria coexistindo e gravitando juntas.
Na ausência de criação de um tipo de matéria às custas de outro tipo, cada
forma de matéria obedece separadamente a uma equação de continuidade:
ρ! X + 3H ( ρ X + p X ) = 0
aula 2 2.6 cosmologia frw: matéria e geometria l. Relcio Abdalla
• Diferentes formas de matéria têm diferentes relações entre a densidade de
energia e pressão. É útil definir um parâmetro chamado equação de estado:
px
wx =
ρx
As formas mais simples de matéria no universo têm uma equação de estado
constante. São elas:
• poeira (ou matéria fria, ou somente matéria) wm=0
• radiação (ou matéria ultra-relativística) wr=1/3
• energia de vácuo (ou constante cosmológica) wΛ=-1
Se wX constante, podemos integrar a equação da continuidade diretamente:
−3(1+ w X ) ⎧ ρ m ∝ a −3
⎛a⎞ ⎪ −4
ρ X = ρ 0 ⎜⎜ ⎟⎟ ρ
⎨ r ∝ a
⎝ a0 ⎠ ⎪ ρ ∝ a0
⎩ Λ
aula 2 2.6 cosmologia frw: matéria e geometria l. Relcio Abdalla
• Sabendo que hoje em dia a radiação responde por aproximadamente 2,5 x
10-6 da densidade de energia total, podemos reconstruir a história cósmica:
hoje
radiação
! matéria:
z~104
wΛ = -1
1+z = a0/a