SINOPSE
"Marn" nasceu com uma certa má sorte que ninguém aceita.
Mesmo assim, Marn continua sorrindo para este mundo de forma
radiante, todos os dias. Com o pequeno sonho de, um dia, ter amigos
como todo mundo. Especialmente, de ser amigo de "Than", o jovem que
senta na carteira ao lado.
Than é uma pessoa séria, quieta e de difícil acesso, mas Marn não
vai desistir. Ele acredita que a sinceridade e a alegria radiante que ele
emana vão derreter aquela muralha e alcançar aquele coração, um dia,
com certeza!
AVISO
Este trabalho foi produzido sem qualquer obtenção
de lucro, seja direto ou indireto. Com isso, caso alguém
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ESTE LIVRO É DESTINADO A LEITORES MAIORES DE
IDADE, PODENDO CONTER CENAS SENSÍVEIS AO LEITOR,
TAIS COMO: SEXO EXPLICITO, LINGUAGEM IMPRÓPRIA,
VIOLÊNCIA FÍSICA OU VERBAL, ABUSO SEXUAL E OU
SOFRIMENTO PSICOLÓGICO.
LEIA COM CUIDADO!
PRÓLOGO
A história do patinho feio à deriva no meio de um oceano
vasto.
Vocês já ouviram o conto do Patinho Feio antes?
Com certeza todos já o leram pelo menos uma vez.
É uma história clássica de ninar que pessoas no mundo
todo usam para acalmar seus filhos na hora de dormir,
enviando-os para sonhos doces.
Um pequeno patinho nasceu em meio a um grande bando
de patos.
No entanto, ele chocou com uma aparência diferente de
todos os outros — tão diferente que até a própria mãe mal
conseguia acreditar que era seu filho.
Ele não era bonito.
Era feio.
Era horroroso.
Ele nem sequer conseguia nadar.
No fim das contas, aquele patinho sofreu bullying. Ele se
tornou o alvo do ódio de todos.
Diferente, estranho, rejeitado — não importava o que
fizesse, ele nunca conseguia ser feliz onde estava.
Eventualmente, ele decidiu partir em uma jornada.
Caminhou e caminhou, mas não importava para onde fosse,
não havia felicidade.
Ele continuava dizendo a todos que encontrava —
gritando em voz alta — que era um pato, mas ninguém se
importava. Eles continuavam olhando para ele com olhos
cheios de pena e nojo.
O pequeno patinho entristecido ficou com o coração
partido. Ele tentou se encaixar em cada grupo que encontrava,
tentando achar um lugar ao qual pertencesse.
Finalmente, ele teve a chance de olhar para baixo e ver o
próprio reflexo na água.
E a verdade foi revelada — ele nunca foi um pato. Nunca
tinha sido um.
Permanecer em um lugar que não era destinado a ele
certamente o machucaria.
Mas... quando olhou mais de perto, seu verdadeiro eu não
era nada feio.
Quando finalmente se aceitou, percebeu que nunca tinha
sido feio.
Ele havia se transformado em um belo cisne, vivendo
agora entre os seus semelhantes.
O tempo perdido foi restaurado pela felicidade e pela
plenitude, transbordando para compensar todos os anos em
que sofreu, concedendo um final maravilhosamente belo ao
antigo Patinho Feio.
Ele não pôde escolher como nasceu, mas pôde escolher o
futuro que desejava ter.
Essa é a mensagem da história.
Não se perca apenas porque alguém não gosta de você.
Seja você mesmo.
Sempre haverá um lugar para você em algum canto deste
mundo.
Mas isso é apenas uma fábula, uma história com moral.
Seu final existe para confortar e curar os corações das
crianças em todos os lugares.
Para cada Patinho Feio que está enfrentando um lugar ao
qual não pertence — um dia, eles crescerão e provarão a
verdade de tudo isso por si mesmos.
Eles descobrirão onde realmente se encaixam.
No entanto, encontrar a si mesmo pode ser difícil,
doloroso e longe de ser simples como em um conto de Esopo.
Pode ser ainda mais difícil. Não é tão fácil quanto apenas
olhar para o próprio reflexo e ver instantaneamente a verdade.
Às vezes você precisa lavar de novo e de novo, limpar
repetidas vezes, antes que o verdadeiro eu se torne claro.
Às vezes você pode se perguntar se o lugar onde está é
realmente o seu.
Não tenha medo de procurar pelo seu próprio espaço.
Enquanto ele existir, acredito que vale a pena buscar.
Encontrar algo invisível aos olhos é difícil. Exaustivo, até.
Mas um dia, você certamente encontrará a lagoa que
melhor lhe convém.
E quando esse dia chegar, você pode não ser um belo
cisne.
Você pode não ser um pavão majestoso.
Você pode não ser uma águia poderosa cruzando o céu.
Mesmo que, no fim, você realmente não seja nada mais do
que um patinho feio — lembre-se sempre disto: até mesmo um
patinho feio flutuando pacificamente em sua própria lagoa não
tem do que se envergonhar.
Porque, na verdade, Patinhos Feios não existem neste
mundo.
O que existe é apenas o preconceito humano.
Às vezes, ser forte e resiliente por si mesmo é necessário.
Quero te lembrar disso.
Tudo bem — todos devem estar cansados desse falatório
sem sentido, certo? Claro que estão.
Contar uma história infantil pode não ser claro o
suficiente para ilustrar o que eu realmente desejo explicar.
Então pensei que, se eu escrevesse outra história, uma
que ajudasse todos a entender melhor essa verdade, seria
bom.
Uma história de dois Patinhos Feios, ou talvez cinco.
Talvez até muitos patos adultos que acreditam que já
amadureceram — nadando por aí em busca de um lugar ao
qual pertencem, sem perceber que o mundo ao redor parece
grande demais apenas porque eles mesmos são pequenos
demais.
Patinhos Feios à deriva em águas profundas e vastas,
incapazes de enxergar qualquer destino.
Um pequeno patinho nada em círculos, chorando alto,
sentindo-se insuportavelmente miserável.
Mas o tempo passou. Dezessete estações vieram e se
foram.
E, finalmente, ele entendeu que as águas não eram vastas
demais. Eram eles, eles mesmos, que ainda eram pequenos
demais.
Eles simplesmente precisavam de tempo para que sua
coragem e sabedoria crescessem o suficiente para
corresponder aos seus corpos.
No fim, eles perceberam que o lugar onde estiveram o
tempo todo não passava de uma pequena lagoa.
A história a seguir é sobre um Patinho Feio tentando o seu
melhor para crescer — tentando o seu melhor para alcançar a
coisa mais rápida do mundo: a felicidade.
— Olhem só para isso... coitadinho.
— Sem pai, sem mãe... e agora até a avó se foi. Com quem
ele vai morar agora?
— Ouvi dizer que ele vai se mudar para a casa do tio.
— A mãe dele faleceu?
— Ah, sim. Ela morreu quando ele tinha cinco anos.
— Oh, céus...
— Ela morreu de AIDS.
— E parece... que ele carrega o vírus também.
Todas aquelas conversas chegaram aos ouvidos de um
rapaz de dezessete anos.
Suas mãos, que estavam organizando copos em uma
bandeja, pararam por um momento.
Mas ele balançou a cabeça para espantar aquelas
palavras sem sentido e continuou entregando as bebidas aos
convidados.
Um sorriso leve permanecia em seu rosto e nunca
desaparecia — nem mesmo hoje, embora este fosse o funeral
triste de sua amada avó.
Mesmo assim, nem uma única lágrima caiu.
Porque ele havia feito uma promessa à sua avó: não
importa o que aconteça, de agora em diante ele será feliz.
Ele cresceu cercado por sussurros, desconfiança e medo.
Sua mãe morreu de AIDS quando ele tinha cinco anos.
Seu pai, ele nunca conheceu, nunca viu, sabendo apenas
o nome.
Ele foi criado nos braços de sua avó, que era como uma
segunda mãe.
Agora, suas duas mães se foram. Ele não sabia mais em
que direção deveria seguir à deriva.
Então, ele arrumou seus pertences, deixou sua antiga
casa e mudou-se para morar com o irmão mais novo de sua
mãe — seu tio.
Da infância até hoje, ele nunca teve um único amigo.
Todos tinham medo dele.
Mesmo que algumas crianças não tivessem medo, os pais
delas tinham. Ninguém ousava se aproximar dele. Ninguém
ousava brincar com ele.
Ninguém sequer se sentava perto dele.
Todos o tratavam como se ele fosse uma doença.
Todos diziam que ele poderia infectar os outros. Ele
cresceu com pelo menos um metro de distância entre ele e
todos ao seu redor.
E se ele algum dia se aproximasse, assim que contasse o
que carregava dentro de si, aquela distância sempre se
alargava para um metro novamente.
Ele estava acostumado, embora nunca quisesse estar. Ele
simplesmente não tinha escolha.
Ele costumava se sentir ferido, chateado, mas o que
poderia fazer? Chorar não mudaria nada.
O último desejo de sua avó antes de falecer foi simples:
Ela desejava que ele fosse feliz — apenas isso.
Ela desejava que ele encontrasse pelo menos um bom
amigo.
Até agora, ele nunca tinha encontrado algo tão precioso.
Ele só podia esperar que começar uma nova vida nesta
cidade pequena finalmente o levasse ao seu destino.
O nome do primeiro Patinho Feio era Marn.
A dor da infância — o sofrimento causado por algo que ele
nunca escolheu — o estava machucando.
Ainda assim, Marn era um Patinho Feio com um coração
forte e corajoso.
Ele nunca temeu encarar a crueldade com um sorriso. Ele
era um pequeno patinho com um coração muito maior do que
o de qualquer outra pessoa.
— Não está aqui?
— Hum.
— Ele já fugiu.
A mesa de jantar parecia desolada hoje. Os dois irmãos
estavam sentados em extremidades opostas.
O irmão mais velho tinha acabado de chegar em casa,
tirando lentamente os sapatos e as meias e colocando sua
bolsa em uma cadeira.
Então ele ficou parado, varrendo a casa com o olhar.
Sua irmã mais nova estava ali com as mãos firmemente
entrelaçadas, o rosto nublado de tristeza.
O irmão mais velho caminhou até ela, puxou-a para um
abraço e esfregou suavemente suas costas para confortá-la.
Todos estavam aqui — exceto aquela pessoa.
Sempre que o irmão mais velho voltava para esta casa, o
irmão mais novo não era encontrado em lugar nenhum.
Há quantos anos a família deles se tornou assim?
Os três irmãos viviam vidas distantes uns dos outros. A
casa era silenciosa, sombria para onde quer que se olhasse,
havia apenas frieza.
O calor do passado havia sumido. O riso tinha
desaparecido... quem saberia desde quando?
O barulho brincalhão de crianças correndo já não existia
há muito tempo.
Quanto tempo fazia desde a última vez que o ouviram?
Aquela imagem permanecia nos olhos da mãe enquanto
ela parava hesitante perto da janela, observando a chuva
incessante.
Ela fechou os olhos e deixou as lágrimas caírem, pesadas
pela preocupação.
Ela se lembrou da última imagem das costas de um rapaz
de dezessete anos — correndo para muito, muito longe após
ouvir que seu irmão mais velho se juntaria a eles para o jantar
naquela noite.
O coração do irmão mais velho parecia pesado, assim
como o céu sombrio lá fora. A casa estava encharcada de
escuridão.
Ele se virou lentamente para olhar as fotos penduradas
na parede.
Troféus de competições enchiam o armário, medalhas
transbordando. Todas elas vinham de um único esporte —
natação.
O homem de vinte e seis anos ficou parado, encarando
uma foto com profunda tristeza.
A última memória de felicidade antes que a miséria
tomasse conta de tudo.
Ele tinha um irmão mais novo chamado Than.
Os dois já foram próximos, cheios de calor e afeto.
Ele amava e estimava seu irmão mais novo mais do que
qualquer um. Eles cresceram juntos, compartilharam o
mesmo sonho.
Ambos queriam se tornar os maiores nadadores. Eles
estabeleceram metas, esperando ir mais longe do que o pai
jamais foi.
Eles queriam competir nacionalmente — e,
eventualmente, internacionalmente — sem vergonha.
E justo quando o dia do sucesso se aproximava, quando o
sonho elevado estava prestes a se tornar realidade, o
infortúnio atacou no exato dia em que eles se tornaram
descuidados.
Um único erro... uma tolice infantil transformou as
memórias de ontem em um pesadelo que os assombra até
hoje.
Muitos anos haviam se passado, mas nenhum dos dois
conseguia esquecer.
Aquele jovem rapaz se afogou em culpa e medo.
Ele fugiu de seu próprio irmão, recusando-se a vê-lo
novamente. Por causa daquele incidente... ele se culpava.
Ele acreditava que era sua culpa que o irmão tivesse
perdido seu sonho.
E assim, ele tentou expiar isso abandonando o próprio
sonho também.
Dali em diante, Than se tornou outra pessoa — distante,
não sendo mais o irmão mais novo que ele conheceu um dia.
O nome do segundo Patinho Feio era Than.
A tolice da juventude criou um fardo de culpa.
Ele cresceu e se tornou um patinho tímido e com medo da
verdade.
Sua vida se tornou uma tentativa constante de fugir do
pecado de seu passado.
Incapaz de encontrar um lugar ao qual pertencesse, ele se
apegou fortemente à sua dor — tornando-se mais sujo e
enlameado do que nunca.
Por fora, ele parecia durão e rústico, mas por dentro seu
coração estava murcho, ferido e estilhaçado além do reparo.
E esses dois não são os únicos Patinhos Feios.
Existem muitos outros cujas histórias serão tecidas neste
romance — moldadas em cenas de cores suaves que retratam
a tolice, a solidão, a falta de esperança da juventude, bem
como a felicidade, o calor da amizade e os sentimentos gentis
que aparecem quando um coração se abre para alguém.
Cada criança cresce um pouco a cada dia e nunca para de
crescer.
Claro, quando atingem certo ponto, os outros podem
chamá-las de adultos — podem insistir que elas deveriam ter
tudo resolvido.
Mas lá no fundo, uma voz ainda clama todas as noites.
Eles são apenas crianças... apenas um pouco mais velhos
do que eram ontem.
Desejo que esta história seja um presente — um que seja
adequado para dar a alguém de quem você gosta.
Por favor, aguardem ansiosamente pela jornada desses
dois Patinhos Feios.
1
As flores de jasmim branco foram cuidadosamente
arrumadas em um vaso, deixando sua fragrância suave
flutuar por todo o quarto. Duas mãos pequenas se afastaram.
Um garoto de dezessete anos se ajoelhou no chão, juntou as
palmas das mãos e fez uma reverência profunda. O silêncio
preenchia o ar.
Nesta madrugada, até o sol parecia relutante em nascer.
Mas, em breve, uma luz laranja pálida apareceria para
espantar a escuridão e anunciar o começo de um novo dia.
Marn levantou a cabeça levemente, olhando para a fotografia
de uma senhora idosa colocada sobre o armário. O sorriso dela
parecia gentil e suave — embora talvez um pouco rígido, já
que, afinal, era apenas uma foto, não o sorriso real dela.
Ele observou em silêncio e retribuiu com um sorriso
discreto.
Já fazia mais de uma semana — mais de uma semana
vivendo neste mundo sem nada além de solidão. Ele tentava se
acostumar, mas era realmente difícil. Muitas vezes, ele
esquecia. Ele se pegava vagando pela casa procurando por ela.
Mas, no fim, sempre tinha que encarar a realidade.
Exatamente como os outros sempre diziam: nada na vida é tão
duradouro quanto a memória.
A mulher na fotografia era a avó dele. Ela o criou desde
pequeno. Aquelas mãos enrugadas cuidaram dele desde bebê
até os dezessete anos. O pequeno Marn tinha se tornado um
Marn um pouco maior. Ele vivia apenas com a avó.
Além dela, não conhecia outros parentes. Ela tinha sido
sua única guardiã. Sempre que havia um evento escolar, ela
segurava a mão dele e ficava ao seu lado. Ele ainda se
lembrava daquela celebração do Dia das Crianças na escola.
Ele era um aluno do jardim de infância fantasiado de sapo,
dançando desajeitadamente no palco enquanto a avó aplaudia
lá de baixo. No fim, ele conseguiu terminar a música inteira
sem chorar ou dar birra.
Mais tarde, quando participou de um evento do dia de
esportes — embora fosse apenas um pintor de fundo, só um
trabalhador minúsculo que não contribuía muito — sua avó
ainda assim o aplaudiu com orgulho. Em toda a sua vida,
sempre foi apenas ela.
Você deve estar se perguntando: onde estavam os pais
dele?. Marn cresceu cercado por inúmeras incógnitas. Uma
delas era a história de seu pai. Ele não sabia quem era o pai.
Pelo que sua avó contou, seus pais namoraram uma vez antes
de terminarem. Mas, alguns meses após o término, a mãe dele
engravidou. Ela quis pedir pensão alimentícia, mas ao
descobrir que o pai dele já tinha uma nova namorada, a mãe
de Marn — sendo tímida e de bom coração — nunca ousou se
aproximar dele.
Em vez disso, escolheu criar Marn sozinha com a avó.
Mas, além da criancinha de olhos pretos, o homem deixou
para trás outra coisa.
A mãe de Marn tinha AIDS. Ela deve ter contraído logo no
início do relacionamento deles. A doença ficou adormecida no
corpo dela por anos.
Quando se tornou mãe solo, ela trabalhou dia e noite, sem
descanso, para sustentar o filho. Ela nunca dormia o
suficiente ou descansava adequadamente. Eventualmente,
quando seu sistema imunológico enfraqueceu, a doença
avançou rapidamente e começou a se manifestar claramente.
Marn tinha apenas cinco anos quando sua mãe faleceu. E
o que aquele homem deixou para trás... também passou para
o corpo de Marn.
Exatamente a mesma coisa. Marn nasceu sem sequer ter
a chance de realmente viver antes de ter que encarar uma
verdade dura, uma verdade pesada: ele era HIV positivo.
Naquele momento, o vírus estava apenas presente em seu
corpo sem apresentar sintomas ainda, mas isso não
significava que ele não ficaria gravemente doente um dia como
a mãe. Por isso, ele tinha que tomar medicação continuamente
e cuidar bem da saúde.
Durante todo esse tempo, sua avó cuidou dele com
carinho. Mesmo no último dia de vida, ela ainda olhava para
ele com olhos preocupados e gentis. Marn conseguia sentir
que ela devia estar triste por não ter mais a chance de ficar e
cuidar de seu neto. As pessoas realmente não podem escolher
as circunstâncias em que nascem — Marn entendia essa
verdade melhor do que ninguém.
Mas, apesar de tudo, ele ainda era grato por ter nascido
em uma vida onde pôde conhecer sua avó. Ele quase podia
chamá-la de sua segunda mãe. Ele desejava que as pessoas
neste mundo nunca envelhecessem, nunca murchassem. Mas
a realidade é a realidade. Perder quem amamos é a única coisa
que nunca podemos evitar, não importa o que façamos. Depois
que sua avó faleceu, algo surpreendente aconteceu.
No dia do funeral, pessoas desconhecidas apareceram aos
montes — alegando que eram parentes, dizendo que tinham
ligação através do falecido avô dele, todo tipo de coisa.
Seguiu-se uma centena de problemas confusos.
Na verdade, cada um deles veio apenas porque queriam
as propriedades da avó. Nem um deles quis assumir um fardo
como Marn. Marn não teve escolha a não ser juntar seus
pertences e se mudar daquela casa.
Embora fosse o neto legítimo, ele era apenas uma criança
sem poder e sem voz em nada. Aquelas pessoas se reuniam,
falando dele — dizendo que era um garoto digno de pena, que
estava infectado com uma doença da mãe. Chegaram ao ponto
de desenterrar eventos de antes mesmo de Marn nascer,
falando mal da mãe dele. Marn queria ficar bravo, mas depois
que olhou para a fotografia da avó e viu o sorriso gentil na foto,
sentiu vergonha de causar problemas.
Ele não ousou arruinar esse último evento importante.
Tinha prometido a ela que seria um bom menino, que viveria
feliz para que ela pudesse descansar em paz. Se ele se deixasse
consumir pela negatividade, então nunca seria capaz de
cumprir essa promessa. E enquanto Marn estava ali sentado,
imaginando o que deveria fazer da vida de agora em diante...
Na última noite antes da cremação, um homem alto e
magro se aproximou. Ele parecia estar no final dos trinta anos.
Era a primeira vez que Marn o via. Marn presumiu que ele
devia ser outro parente, então se levantou para preparar água
e comida para ele, gesticulando para que se sentasse com os
outros parentes — pensando que ele poderia querer discutir a
herança da vovó. Mas não... Este homem não estava
interessado na propriedade de jeito nenhum. Nem um pouco.
Ele tinha vindo unicamente por causa do garoto chamado
Marn. Ele disse que levaria Marn para morar com ele.
Marn paralisou, piscando rapidamente. O homem não
parecia triste, não chorou, não mostrou nenhuma emoção em
particular. Ele simplesmente ficou parado com as mãos nos
bolsos e olhou para o retrato da vovó ao lado do caixão.
Embora seu rosto permanecesse frio e indiferente, Marn
conseguia sentir um leve brilho de tristeza nos olhos do
homem.
Ele talvez fosse o único convidado... que realmente sentia
tristeza pela partida da vovó. E foi então que Marn soube de
outro parente próximo que ele nunca conhecera. O nome do
homem misterioso era Karn — seu tio de verdade, irmão mais
novo de sua mãe e filho caçula da vovó.
Marn nunca o tinha visto antes.
Tinha ouvido dizer que o tio Karn tinha saído de casa há
muito tempo e nunca mais voltou. Marn não sabia os detalhes.
Sempre que a vovó ouvia alguém mencionar o filho dela, ela
parecia triste. Marn não queria ver aquela expressão, por isso
nunca perguntou. Ele ocasionalmente se perguntava quem
era esse tio, para onde tinha ido, por que nunca visitava a
mãe.
Desde que a mãe de Marn morreu, ele vivia com a vovó —
apenas os dois. Nenhum outro parente jamais apareceu. Marn
não sabia o que os adultos planejavam fazer com a
propriedade ou como ela seria dividida, mas estava claro que
ele não seria mais autorizado a ficar naquela casa. Então o tio
Karn veio buscá-lo.
Marn ficou chocado ao saber que o tio Karn viajou
centenas de quilômetros só para levá-lo. Marn arrumou suas
coisas — ele tinha apenas alguns pertences e recebeu uma
pequena quantia em dinheiro, só alguns milhares, de um
adulto gentil que teve pena dele. Quanto à casa e ao terreno, os
parentes planejavam resolver entre si depois. Marn era apenas
um garoto; se ele se envolvesse, só levaria bronca. No fim, a
única coisa que realmente ficou em posse de Marn foi a urna
contendo as cinzas de sua amada avó.
A província onde o tio Karn morava era bem longe. Marn
cochilou de vez em quando durante a maior parte da viagem. O
tio Karn dirigia. Marn se sentia muito tenso porque o homem
quase não falava e parecia extremamente frio. E como eles
nunca se conheceram antes, Marn não tinha ideia do que
dizer. Ele apenas ficou sentado em silêncio abraçando sua
bolsa o caminho todo.
Finalmente, chegaram ao novo lar. O tio Karn vivia lá há
muitos anos. Era uma pequena casa térrea de dois andares,
adequada para apenas poucas pessoas. Embora parecesse um
pouco solitária, os arredores eram calmos e agradáveis.
De agora em diante, este seria o lar de Marn. O tio Karn
disse brevemente que, depois que Marn se formasse no ensino
médio, se ele quisesse se mudar para um dormitório, poderia.
Ele poderia estudar onde quisesse. Mas, por enquanto, o tio
Karn era seu guardião. Ele pagaria por tudo e sustentaria
Marn até ele terminar a escola. Depois disso, ele não impediria
Marn. Cada um seguiria seu caminho.
Embora ele tenha dito que era tio de sangue de Marn...
Marn sentia que ele, na verdade, não queria cuidar tanto
dele assim. Bem... isso era compreensível.
Eles eram parentes de sangue, sim, mas tinham acabado
de se conhecer. Não era estranho que houvesse uma grande
parede invisível entre eles. Mas depois de viverem juntos por
alguns dias, Marn teve a chance de entender seu tio um pouco
mais.
No começo, ele achava que o tio Karn era frio, difícil de se
aproximar, sempre sem expressão, desinteressado em tudo —
vendo Marn apenas como um fardo. Mas, na verdade, ele era
uma pessoa gentil. Por trás de seu rosto neutro, havia um
calor escondido. E havia outra coisa que Marn sentia em
relação a esse homem: era uma tristeza constante e silenciosa.
As costas do tio Karn pareciam pesadas por algum tipo de
luto, como se ele estivesse carregando algo insuportavelmente
pesado o tempo todo. O tio Karn resolveu tudo: a mudança, a
transferência de escola, tudo. Marn se comportava bem,
obedecendo ao seu novo guardião. O que quer que lhe
dissessem para fazer, ele fazia. Ele sempre se lembrava de que
agora vivia ali como um dependente.
Viver na casa de outra pessoa significava que ele não
podia ficar à toa. O que quer que pudesse fazer, ele fazia. O tio
Karn vendia leite de soja e massa frita. Ele tinha um carrinho
grande e vendia de manhã e à noite — quase todos os dias. A
renda não era muita, mas o suficiente para cuidar de si
mesmo e de seu sobrinho.
Toda manhã, Marn acordava cedo para ajudar a
empurrar o carrinho até a entrada do beco para vender leite de
soja. Depois que tudo era vendido, eles iam para casa preparar
mais suprimentos. Isso se repetia todo dia. Era cansativo, mas
Marn nunca reclamava. Ele ajudava com alegria e recebia um
pequeno salário, que guardava para o futuro. O tio Karn era
gentil, mesmo que sempre usasse uma expressão vazia.
— Vinte baht, por favor.
Hoje, Marn fazia o papel de um vendedor de rosto
radiante, vendendo leite de soja com um sorriso. O céu acima
estava mudando lentamente de cor conforme a luz do sol
aparecia. As pessoas começavam a acordar — alguns iam
correr, outros ofereciam esmolas aos monges, alguns
recolhiam a roupa que tinham esquecido de tirar do varal na
noite anterior.
Marn sorriu para o último cliente, depois se virou para ver
seu tio sentado ao lado dele, de braços cruzados e cabeça
caída. O tio Karn tinha pegado no sono de novo. Marn tinha
visto aquela cena inúmeras vezes. Sempre que tinha um
momento livre, o tio Karn dormia. Talvez ele estivesse cansado
de trabalhar sem parar e também de ter que cuidar de Marn.
Por isso, Marn tentava ao máximo aliviar o fardo. Ele fazia todo
o trabalho doméstico sem precisar que lhe pedissem, para que
seu tio não ficasse tão exausto a ponto de dormir em qualquer
lugar assim.
Embora... honestamente, talvez fosse apenas a natureza
do tio Karn. Se ele tinha tempo livre, dormia. Em qualquer
oportunidade. Fosse recostado nesta cadeira ou naquela
outra.
Às vezes, ele estava assistindo a uma novela e Marn ia
lavar a louça por um momento; quando voltava, o tio Karn já
tinha adormecido. Não importa o quanto ele dormisse, nunca
parecia totalmente descansado. Seu estilo de vida era tão
simples que chegava a ser letárgico.
Para ser honesto, o tio Karn era na verdade muito bonito.
O cabelo dele era comprido o suficiente para tocar o pescoço se
ele o deixasse solto, embora geralmente o amarrasse para trás
com um elástico fino. Ele tinha um pouco de barba, olhos
caídos e uma pequena pinta abaixo do olho esquerdo.
Às vezes, Marn se perguntava em silêncio: o tio Karn não
tinha namorada? Ele vivia sozinho naquela casa. Ninguém
nunca vinha visitar. Marn nunca o tinha visto nem sequer
falar ao telefone com ninguém. O tio Karn tinha quase
quarenta anos, mas ainda parecia muito bem. Marn se
perguntava se ele próprio ficaria tão bem assim naquela idade.
No final da manhã, o leite de soja tinha acabado e a massa
frita também. Tio e sobrinho arrumaram as coisas e foram
para casa.
Vendo que o tio Karn parecia cansado, Marn se ofereceu
para fazer tudo sozinho — deixando o tio descansar. Ele lavou
todo o equipamento, organizou tudo direitinho, encheu as
garrafas de água e as colocou na geladeira.
Quando voltou para fora, o tio Karn estava deitado
usando o braço como travesseiro, assistindo TV. Ao lado dele
estava o dinheiro que ele tinha separado como o salário de
Marn pelo dia. Marn aceitou feliz e sentou-se ao lado dele.
Uma brisa suave soprou, fazendo as notas vermelhas
balançarem. Marn levantou a cabeça para olhar lá fora. Perto
do meio-dia, o tempo estava quente e a luz do sol forte o
suficiente para arder os olhos. A sala de estar tinha uma
grande porta de vidro que o tio Karn abriu totalmente para
deixar a brisa entrar. Os pequenos sinos pendurados
tilintavam agradavelmente. A atmosfera era perfeita para uma
soneca à tarde.
Naquele momento, Marn de repente se lembrou de algo.
Ele recordou que havia uma loja de raspadinha em algum
lugar naquele bairro. Achou que a tinha visto de passagem —
talvez fosse até na entrada deste beco. Então, ele se ofereceu
para ir comprar algumas para seu tio também. Marn deu um
sorriso largo, levantou-se para pegar um guarda-chuva e saiu
correndo de casa. O novo guardião o observou ir embora em
silêncio, sem dizer uma palavra. Então, soltou um longo
suspiro.
Um garoto tão bem-comportado. Fácil de lidar. No
começo, ele achou que acabaria tendo que cuidar de algum
pestinha e teria que sofrer com dores de cabeça todo santo dia.
Ele já sabia um pouco sobre esse garoto, de qualquer forma —
sua história, todos os pequenos detalhes, até o vírus
escondido dentro do corpo de Marn. Um jovem de dezessete
anos que tinha passado por tantas coisas ruins. No entanto,
pelo que via, o menino não era nada fraco. Ele sorria apesar de
tudo. Na verdade, talvez ele fosse do tipo que sempre tentava
ver o lado bom das coisas.
— Eu realmente não me dou bem com gente assim... que
droga... — o tio de cabelos compridos murmurou baixinho,
fechando as pálpebras para absorver a brisa fresca de fora da
casa e logo pegou no sono, simplesmente assim.
Enquanto isso, o garoto ainda novo na área passeava pelo
caminho. Marn levantou a mão para coçar a cabeça de leve.
Ele lembrava que, se caminhasse por ali, deveria encontrar a
loja de raspadinha. Mas quanto mais caminhava, mais
confusa a rota se tornava. Becos demais, todos conectados
uns aos outros. Antes que percebesse, ele estava andando em
círculos. Ele parou, segurando seu guarda-chuva à beira da
estrada, e deu tapinhas leves na testa com a mão.
Isso é ruim. Estou definitivamente perdido!
E ele também não tinha trazido o celular. Para que lado
deveria ir agora? Marn decidiu confiar em seus instintos para
encontrar o caminho de volta para casa. Ele se sentia um
pouco culpado, porque tinha a intenção de comprar
raspadinha para o tio também. Imaginava se o tio estaria
esperando por ele agora. Marn continuou caminhando,
olhando ao redor, esperando encontrar um caminho familiar.
Estava um calor escaldante ao meio-dia, mas ainda havia uma
brisa fresca soprando de vez em quando.
Ele caminhou em frente até chegar a uma árvore grande.
À frente dele havia uma lagoa natural que o tio tinha
mencionado antes. Mas ele nunca tinha estado lá — nem uma
única vez. Não achava que seria tão perto.
Nossa... é enorme. E tem árvores grandes por toda parte. A
vista é incrível.
Marn vagou um pouco, indo para debaixo da árvore
grande. Ele colocou o guarda-chuva no chão. Decidiu fazer
uma pequena pausa e brincar com o balanço pendurado sob a
sombra. O calor era demais para suportar. Como havia um
balanço de pneu em que ele podia balançar, achou que se
divertiria só um pouquinho.
Um sorriso largo se formou no rosto de Marn. Ele ficou
olhando para a superfície da água brilhando sob a luz do sol,
ondulando suavemente com a brisa. Fechou os olhos,
aproveitando o vento fresco batendo em seu rosto...
Então levou um susto quando abriu os olhos e encontrou
um cachorro preto se aproximando, cheirando sua perna.
Assustado, Marn imediatamente agarrou o balanço com força.
De-de onde veio esse cachorro preto!? Ele estava com
medo! Será que ia morder? Marn estava realmente apavorado,
seu corpo inteiro ficando rígido. No momento em que aquele
focinho gelado tocou sua perna, calafrios percorreram seu
corpo.
Em sua antiga casa, ele teve uma experiência ruim com
um cachorro preto. Uma vez ele estava passando de bicicleta
em frente a uma casa — não tinha feito nada de errado —
quando, de repente, um cachorro preto o perseguiu
agressivamente, tentando mordê-lo. Desde então, ele
desenvolveu um medo profundo de cachorros pretos. Chame-o
de covarde se quiser, mas era aterrorizante! O trauma é real.
Se você nunca foi perseguido, não entenderia!
— V-vai embora... Por que você está vindo aqui?
— ...
— Xô... xô...
Ele nem ousava enxotá-lo alto, com medo de que ele
pudesse ficar bravo e mordê-lo. Seu coração quase saiu pela
boca. O cachorro apenas ficou ali sentado com olhos tristes,
olhando para ele. Pela aparência, parecia ser um Labrador.
Seu pelo estava bem cuidado. Só agora ele notou a coleira —
então não era um cachorro de rua. Mas, mesmo assim, Marn
não podia baixar a guarda. Ele estava tão assustado que quase
chorava. Por que o cachorro não entendia o medo dele de jeito
nenhum?
Viu?? Eu estou com medo, seu cachorro bobo! Não chegue
mais perto, por favor!
Alguém me ajude! Tira ele de perto de mim! Estou
segurando o balanço com tanta força que minhas mãos doem!
— Chaokuey, vem cá.
— Au!
O céu tinha ouvido suas preces — Marn estava salvo.
Marn virou-se para a voz e finalmente viu alguém que ele
presumiu ser o dono do cachorro. Ele paralisou levemente ao
perceber que a pessoa esteve deitada na grama macia sob a
sombra o tempo todo. Ele não tinha notado. Então ele esteve
deitado ali sozinho? Ao meio-dia? Sério?
O cachorro preto correu para o dono e se jogou ao lado
dele. Parecia bem-comportado — nada selvagem, nem agitado,
nem agressivo. Marn deu tapinhas leves no peito, aliviado,
então saiu do balanço e pegou seu guarda-chuva. Decidiu que
deveria ir para casa agora. Ficar ali por mais tempo não seria
bom. Mas, como tinha acabado de se mudar para cá e não
conhecia a área, precisava perguntar a alguém por direções. E,
claro, a pessoa mais próxima era o dono do cachorro.
Marn caminhou em direção a ele nervosamente. Quando
o cachorro preto olhou em sua direção novamente, suas
pernas ficaram rígidas instantaneamente, com medo demais
para dar sequer um passo a mais.
Tudo bem — ele falaria daqui mesmo. Não precisava
chegar mais perto. Só não me morda, por favor...
— Hum... posso pedir uma informação?
— ...
— Eu acabei de me mudar para cá... e estou perdido.
— ...
— Eu preciso ir para o Soi 9. Daqui, para que lado eu devo
caminhar...?
Silêncio. Sem resposta. Nem uma palavra. Ele não podia
pelo menos dar uma pequena direção? Tenha piedade deste
pobre garoto perdido de olhos pretos. Estava quente, ele
estava vagando por aí e só queria encontrar o caminho de
casa.
— Siga reto. Você verá uma casa com grandes arbustos de
buganvílias. Vire à direita ali.
Marn quase tinha desistido já. Ele abriu o guarda-chuva e
estava prestes a se afastar quando uma voz levemente irritada
finalmente falou. Marn virou-se imediatamente e agradeceu
com um sorriso enorme. Ele teve a chance de observar o
estranho gentil. Embora não pudesse ver o rosto da pessoa
claramente, porque o cara estava com um braço sobre a face,
julgando pela aparência, parecia ter por volta da idade de
Marn. Provavelmente outro adolescente morando por perto —
caso contrário, ele não estaria tirando uma soneca sozinho
debaixo de uma árvore à beira da lagoa assim.
— Muito obrigado!
Marn respondeu animado, depois saiu apressado na
direção que lhe foi dita. Assim que passou pela casa com as
grandes buganvílias, encontrou a entrada do beco familiar — o
mesmo que o tio o levava todo dia para vender leite de soja.
Mas Marn nunca tinha feito esse trajeto, por isso não o
reconheceu. Ele riu levemente e deu uns tapinhas na própria
cabeça algumas vezes.
Nossa, e eu não conseguia nem lembrar de um caminho tão
simples.
Uma vez que estava de volta a uma rua familiar, não se
perdeu mais. Infelizmente, ele não conseguiu encontrar a loja
de raspadinha. Então Marn desistiu e parou em uma
mercearia próxima, comprando dois sorvetes de coco gelados
— um para si e outro para o tio.
No caminho para casa, Marn aproveitou seu sorvete de
coco enquanto observava os pássaros e o céu. Ele não pôde
deixar de pensar na pessoa gentil que o ajudou mais cedo. Ele
realmente precisava agradecer. Caso contrário, Marn teria
continuado vagando como uma criança perdida. Quem sabe
se ele teria chegado em casa antes do pôr do sol?
Mesmo tendo ficado fora por pouco tempo, o tio já estava
sentado lá fora esperando por ele. Marn baixou a cabeça,
pedindo desculpas com culpa. Ele admitiu honestamente que
tinha se perdido, vagado por outros becos e até acabado em
uma grande lagoa. Felizmente, alguém lhe mostrou o caminho
de casa.
— Desculpa...
— Desculpa pelo quê?
— Bem...
— Você acabou de se mudar para cá. Se perder não é
estranho.
O tio falou preguiçosamente enquanto lambia seu sorvete
de coco. Ele olhou para o sobrinho. Marn não era um garoto
problemático. Desde que se mudou para cá, raramente vagava
para longe e a maior parte do tempo ficava dentro de seu
próprio beco.
Honestamente, quando Marn demorou tanto, ele ficou um
pouco preocupado. Mas ver que ele voltou em segurança o
tranquilizou. Afinal, Marn não era uma criança de três ou
quatro anos. Ele tinha dezessete. Não havia tanto com o que se
preocupar.
O garoto sentou-se ao lado dele tomando o sorvete, as
bochechas levemente vermelhas — provavelmente por
caminhar sob o sol por muito tempo.
Quando Karn desviou o olhar um pouco, notou um toque
de empolgação e alegria naqueles olhos.
Karn levantou uma sobrancelha levemente surpreso.
Desde que trouxe o menino para casa para morar com ele,
sempre pensou que esse garoto estava apenas fingindo ser
forte. Que o sorriso alegre e a atitude otimista eram apenas
uma forma de se proteger. Ele realmente nunca esperou que
um dia chegaria a ver olhos cheios de uma felicidade tão
genuína, como se o garoto estivesse realmente se sentindo
bem do fundo do coração.
Parece que, enquanto estava lá fora brincando de "criança
perdida" mais cedo, ele deve ter encontrado algo bom.
— Tio?
Marn sentiu que o tio tinha ficado quieto por muito
tempo, então virou-se para olhar para ele. O homem mais
velho levantou a cabeça, olhando para o horizonte como se
estivesse perdido em pensamentos, antes de murmurar
baixinho:
— Tem algo bom por aqui?
— Como assim?
— Nada.
O garoto inclinou a cabeça, confuso, enquanto observava
o tio se levantar lentamente, preparando-se para entrar na
casa. Ele bocejou, levantou uma mão para coçar a cabeça de
leve, bagunçando seu cabelo comprido.
— Vou te levar para comprar uma bicicleta amanhã.
— Você vai comprar uma para mim?
— Uhum.
— Não precisa, tio. Eu me sinto mal.
— Você vai precisar dela para ir à escola.
— A escola é perto, não é? Eu posso ir a pé.
— Ir a pé é devagar. Você precisa voltar logo para casa
para me ajudar a preparar as coisas para vender.
— Ah... verdade.
— Vou te levar para escolher uma. Uma barata.
— Sim. Muito obrigado, tio.
— E também...
— ...?
— Assim que ganhar ela, pedale por aí um pouco.
— ...
— Para você conhecer o caminho e não se perder.
Marn observou o tio se afastar com seu jeito lento. Ele
agradeceu baixinho, um sorriso discreto se formando em seus
lábios. Embora o tio agisse de forma fria e distante, ele era na
verdade um adulto de bom coração. Era uma pena que só
tivessem se conhecido agora. Se ele e o tio fossem mais
próximos, seria bom.
Marn apoiou as palmas das mãos no chão ao seu lado e
levantou o rosto para o céu limpo. Ele fechou os olhos,
deixando a brisa fresca da tarde passar por ele.
Uma faísca de empolgação preencheu seu coração.
Em breve, ele estaria frequentando sua nova escola. Só de
pensar em começar de novo em um lugar cheio de estranhos,
ele ficava nervoso. Marn rezou silenciosamente em seu
coração — um desejo curto para alguém lá longe, alguém que
certamente estava cuidando dele de algum lugar lá no alto.
Vovó... vou dar o meu melhor para ser feliz, tá?
Por favor, deixe que todos sejam gentis comigo.
E, por favor, me proteja também.
2
Hoje era o último dia de sua vida completamente livre. A
partir de amanhã, Marn teria que ir à escola como de costume.
Ele se sentia bastante animado. Não conseguia parar de
imaginar como seria o novo ambiente — como seriam seus
colegas, se os professores seriam gentis, se a comida da escola
seria gostosa ou se a escola teria lugares legais para relaxar.
Só de pensar nisso, seu pequeno coração acelerava de
empolgação.
Ele já tinha lavado e passado seu uniforme escolar, tudo
pronto para amanhã de manhã. Felizmente, o tio Karn não
vendia leite de soja às segundas-feiras, então Marn não
precisaria acordar cedo.
Marn estava morando com o tio havia duas semanas. No
começo, ele achou que se sentiria sufocado, mas, na verdade,
não era nada disso. O tio era muito gentil com ele, mesmo
sendo alguém difícil de se aproximar, que tendia a ficar na dele
e falava com frases curtas e abruptas. Mas Marn ainda
conseguia sentir a bondade por trás de tudo o que ele fazia.
Durante todo esse tempo, Marn se comportou bem —
nunca causou problemas, nunca foi preguiçoso, nunca
relaxou. Ele ficava quieto, não perdia tempo fazendo nada,
com medo de incomodar o tio Karn. Por isso, ajudava em
quase tudo — nas vendas, no trabalho doméstico, nas tarefas
da cozinha. Sempre que lhe pediam para fazer algo, ele corria
imediatamente para fazer. E mesmo que o tio não lhe dissesse
para fazer nada, ele cuidava das coisas de qualquer maneira.
— Vinte baht pela massa frita, certo?
Sua voz alegre continuava ecoando. O verdadeiro dono da
loja estava sentado descansando em uma cadeira, deixando
tudo para o sobrinho resolver. Marn era um garoto esforçado.
Toda manhã, acordava sozinho, sem precisar que ninguém o
chamasse. Antes do amanhecer, ele se levantava para ajudar a
preparar as coisas e empurrar o carrinho até o ponto de venda
habitual. Mesmo acordar às cinco da manhã não o
incomodava. Ele não reclamava, sempre ajudando com um
rosto alegre.
Karn não conseguia evitar sentir-se um pouco irritado
com a energia de um adolescente daquela idade. Crianças
como ele provavelmente nem sabiam o que significava tremer
de frio ao tomar banho — estavam todos transbordando de
energia, rápidos e ágeis em tudo o que faziam. Comparado a
isso, ele próprio, aos trinta e sete anos, não tinha mais
energia. Apenas vender as coisas todo dia já era cansativo o
suficiente. Ele vivia de forma preguiçosa, arrastando-se a cada
dia sem objetivos na vida. Um dia, Marn chegaria à idade dele
também. Karn se perguntava em que tipo de adulto aquele
menino se tornaria.
— Tio Karn, acabaram as moedas de dez baht.
— Vá trocá-las na loja.
— Tá bom.
Karn entregou a ele algumas notas. Marn tirou o avental e
atravessou a rua para trocar o dinheiro em uma loja local
familiar. De onde estava sentado, Karn podia ver a dona da
loja contando as moedas para entregar a Marn. Estava claro
que o garoto a tinha encantado com sua inocência. Todos que
olhavam para ele tinham olhos cheios de um carinho que não
conseguiam esconder. Deve ser o que as pessoas querem dizer
com: Uma boa criança é amada onde quer que vá. E Marn era
uma criança muito boa.
Na verdade, não era bem assim. Karn não mimava tanto o
Marn. Na verdade, ele detestava ter que deixar outra pessoa
morar em sua própria casa. Mas como Marn era seu único
sobrinho, o único membro da família que restava — filho de
sua irmã mais velha — ele não podia simplesmente deixar o
garoto sozinho lá, sem ninguém para cuidar dele. Ele sentiu
pena e compaixão, por isso trouxe Marn para morar com ele e
aceitou ser seu guardião temporário. Afinal, eles eram os
parentes de sangue mais próximos que restavam. Em mais
alguns anos, Marn teria idade suficiente para cuidar de si
mesmo.
Quando esse momento chegasse, Marn poderia abrir suas
asas e voar para onde quisesse. Karn não se importava nem
um pouco.
— Hoje vendemos tudo muito rápido, tio Karn.
— Hum.
— Eu vou arrumar isso aqui, tio.
— Hum.
— Pode passar aquele ali para mim também.
— Hum.
— Você está com tanto sono assim, tio Karn?
— Hummm.
Ver o rosto sonolento de Karn deixava Marn preocupado.
Embora seu tio tivesse o hábito de se deitar para descansar o
tempo todo, parecia que ultimamente ele andava ainda mais
exausto do que o normal. Talvez fosse porque alguém tinha se
mudado para morar com ele. Antes, Karn só precisava cuidar
de si mesmo. Agora, precisava ganhar mais dinheiro para
sustentar uma pessoa extra. Ele tinha acabado de comprar
uma bicicleta para Marn, pagado por roupas, uniformes
escolares, mensalidades, livros — Karn cobriu tudo.
Antes disso, ele nunca teve que lidar com despesas
desnecessárias como essas. Toda vez que Marn o via sentado
de braços cruzados, cochilando, sentia-se culpado. Eles
tinham que preparar as coisas para vender de manhã e à
noite, todo santo dia. Não era de admirar que ele estivesse
exausto a ponto de desabar. Era por isso que Marn precisava
ser um bom garoto, para poder aliviar o fardo do tio Karn o
máximo possível!
Depois que terminavam de vender pela manhã, os dois
empurravam o carrinho de volta para casa, guardando tudo e
limpando. Ainda restavam muitas horas antes da noite. Marn
deixava o tio Karn dormir e descansar, enquanto ia para a
cozinha verificar a soja e o amendoim de molho que tinham
sido deixados lá.
Normalmente, o tio Karn preparava dois lotes, calculando
exatamente qual lote seria usado para a manhã e qual para a
noite, já que os grãos tinham que ficar de molho durante a
noite.
Conforme se aproximava o horário de venda, os dois
moíam os grãos juntos, coavam, despejavam o líquido em uma
panela e ferviam. Marn nem queria imaginar como o tio Karn
costumava fazer tudo isso sozinho. Mesmo com duas pessoas
ajudando agora, ainda parecia pesado e exaustivo. E eles
tinham que fazer isso quase todo dia. O tio Karn era incrível.
Marn mexeu levemente nos grãos de molho e os deixou
como estavam. Ele tinha tempo livre agora, mas não sabia o
que fazer. Karn tinha pegado no sono, então Marn pegou uma
vassoura e um esfregão para limpar a casa — mas não
demorou muito, porque a casa de Karn já era bem limpa e
organizada.
Apesar de como parecia, Karn não era nem um pouco
bagunçado. Se algo estivesse fora do lugar, ele imediatamente
ficava de mãos na cintura e dava bronca. Mas isso raramente
acontecia, porque Marn também tentava manter tudo em
ordem. Ele não era um garoto preguiçoso ou bagunceiro. Sua
avó o tinha treinado desde pequeno, por isso ele cresceu
valorizando a limpeza e a organização.
Ao pensar em sua avó, Marn estacou. Seu coração
pareceu subitamente vazio. Ele caminhou em direção ao
porta-retrato, observando a foto dela por um longo tempo.
Seus olhos arderam e, quando percebeu, ele os esfregou
rapidamente e espantou a sensação. Não queria chorar na
frente dela. Tinha prometido ser alguém feliz, alguém alegre,
alguém que não reclamaria mais. Tinha medo de que, se sua
avó estivesse assistindo lá de cima, pudesse se preocupar. Ele
queria que ela descansasse em paz, livre de todos os fardos.
A velhice era assustadora. No estágio final da vida, tudo
era preenchido por tristeza. Deve ter sido terrivelmente
doloroso sentir seu corpo se deteriorando gradualmente
daquela forma. A vovó tinha sido tão forte, suportando aquele
corpo frágil até uma idade tão avançada.
Marn sorriu levemente e juntou as palmas das mãos em
um gesto de respeito em direção à foto dela. Em seu coração,
sussurrou uma mensagem, esperando que chegasse até ela lá
no céu.
— Vovó, por favor, não se preocupe. O tio Karn cuida muito
bem de mim. Ele é gentil e nunca me dá bronca por nada. Vou
dar o meu melhor para ser útil e não causar problemas a ele.
Não vou vagar por aí nem me comportar mal até que ele se
canse de mim. Vou ser um bom menino, do jeito que você
esperava. Eu prometo.
Quando ele se virou, viu o tio Karn dormindo na cadeira
comprida em seu lugar de costume, sem se mexer. O
ventilador estava virado para o outro lado, não soprando
diretamente nele, então o bom garoto foi ajustá-lo. Ele deixou
Karn descansar e, como estava com mais tempo livre do que o
normal, pegou sua bicicleta para dar uma volta. Antes de sair,
escreveu um bilhete para o tio.
Pedalou devagar, estudando as ruas, até que chegou a
um certo lugar e parou. Olhou para dentro, sentindo-se
animado para o dia de amanhã.
Então esta é... minha nova escola.
Comparada à sua antiga escola, este lugar parecia menor.
Sua escola anterior tinha milhares de alunos. Esta aqui,
situada em um distrito longe da cidade, levava horas para
chegar ao centro. A escola era menor, mas pelo que via, o
ambiente era agradável — tranquilo, arborizado, silencioso,
sem cruzamentos movimentados ou tráfego barulhento, sem
prédios altos bloqueando uns aos outros. Havia apenas cerca
de três prédios escolares, cercados por muitas árvores e flores.
Só de ver aquilo, Marn sorriu suavemente. Amanhã, hein...
— Ah, não! Esqueci de lavar minhas camisetas de baixo!
Marn voltou para casa, fez várias coisas para passar o
tempo e, no final da tarde, Karn acordou. Ele se levantou
devagar, lavou o rosto, amarrou o cabelo novamente e foi para
a cozinha preparar o leite de soja e a massa frita para a noite.
Mais tarde, empurraram o carrinho para fora de novo. As
vendas da noite geralmente terminavam rápido porque havia
mais clientes. Mas em dias lentos, tinham que ficar até
escurecer, e não se podia esperar lucros. Eles apenas
esperavam vender o máximo possível para que nada fosse
desperdiçado.
Karn era bastante habilidoso em gerenciar os
ingredientes, provavelmente porque fazia esse trabalho há
anos. Ele sempre calculava a quantidade certa para cada dia,
para que nada sobrasse. Marn secretamente tomava nota
dessas habilidades — caso precisasse delas no futuro.
Naquela noite, venderam tudo mais rápido do que o
esperado. Eram quase sete da noite quando arrumaram as
coisas e foram para casa. Hoje deve ter sido um dia bom — o
tio Karn até deu a Marn duzentos e cinquenta baht como
pagamento.
— Droga...
— Hein?
Marn ouviu Karn resmungar baixinho. Ele olhou em
direção à casa e viu alguém parado ali com uma mão no bolso,
segurando várias sacolas de comida na outra mão. Marn
piscou. Não reconhecia aquele estranho de jeito nenhum. O
dono da casa, no entanto, parecia claramente irritado.
Quando chegaram ao portão, o estranho sorriu abertamente e
os cumprimentou.
— Você vendeu bem hoje! Já vendeu tudo? Ainda tem
algum resto para mim?
— Sai da frente. Você é irritante.
Os dois claramente se conheciam bem o suficiente. O
homem até abriu o portão ele mesmo para deixar Karn
empurrar o carrinho para dentro.
— Er...
— Oi.
O homem olhou para Marn. Quando viu o garoto, estava
prestes a sorrir — mas então sua expressão mudou
completamente. Seus olhos se arregalaram em choque. Aquela
reação confundiu Marn. O homem parecia bem mais velho que
ele, então Marn educadamente juntou as palmas das mãos e
fez uma reverência.
— Esse é seu filho?!
— Marn, vá para dentro. Não fale com ele.
— Karn, qual é...
— Er... Meu nome é Marn. Não sou filho dele. Sou
sobrinho do tio Karn.
— Ah! Sobrinho... Ufa, me assustou por um segundo.
Marn inclinou a cabeça, sem entender por que o homem
de repente pareceu aliviado ao ouvir que ele era apenas um
sobrinho. Ele queria ficar e conversar, mas o olhar severo que
Karn lançou o fez recuar. Ele levou as coisas para dentro para
limpar. O estranho não hesitou em ajudar, mesmo quando
Karn franziu o cenho para ele. Ele apenas sorriu e continuou
conversando sem parar.
Quem era ele?
Marn nunca tinha visto o rosto dele antes. O homem não
apenas ajudou a carregar as coisas para dentro da casa, mas
também ajudou a lavar e limpar tudo. Assim que terminou, foi
preparar o jantar. A comida que ele tinha trazido já estava
devidamente arrumada em pratos e tigelas.
Marn sentia-se completamente tenso, sem saber como
agir com um estranho se juntando a eles para o jantar hoje. O
tio Karn parecia inexpressivo como sempre. Sempre que
alguém tentava falar com ele, raramente respondia — às vezes
até soltando um suspiro de irritação. Se fosse Marn sendo
tratado daquela forma, ele já teria chorado. Mas esse homem
apenas continuava sorrindo abertamente, apoiando o queixo
na mão enquanto observava o tio Karn mastigar. Sempre que
encontrava algo gostoso, ele colocava um pouco no prato do tio
Karn, a ponto de o tio Karn não conseguir evitar e dar um fora
nele várias vezes.
Parecia que o homem percebeu a curiosidade vinda do
garoto ao seu lado, então desviou o olhar de Karn e voltou-se
para o sobrinho. Ele levantou a mão e acenou levemente,
dando um sorriso reconfortante. Então começou a se
apresentar para Marn.
— Meu nome é Nathi. Moro aqui perto. Você viu aquela
casa de cerca branca — umas duas ou três casas abaixo
daqui?
— Ah... aquela?
— Isso, aquela é a minha casa. Se precisar de qualquer
coisa, sinta-se à vontade para passar lá.
Marn assentiu repetidamente, observando secretamente
o homem chamado Nathi. Ele parecia ser uma pessoa alegre,
totalmente diferente do tio Karn. Marn guardou o nome dele
na memória; era bom pelo menos conhecer alguns vizinhos. Se
houvesse alguma emergência um dia, ele saberia para onde
correr em busca de ajuda.
Sempre que Nathi se virava para conversar com ele, Marn
respondia com uma voz animada e um sorriso amigável,
irradiando energia de "bom garoto" sem parar. Nathi não pôde
evitar sentir carinho por ele. Ele nunca esperou que alguém
como Karn tivesse um sobrinho tão falante e charmoso.
Depois do jantar, Marn — sendo o bom menino que era —
recolheu a louça e a levou para os fundos para lavar. Karn
pensou em se levantar para ajudar, mas alguém segurou seu
pulso para impedi-lo. A princípio, ele quase deu outro fora,
mas quando viu a mudança na expressão do homem — a
melancolia em seus olhos — ele estancou.
Nathi não estava sorrindo alegremente como antes.
Estava diferente de como parecia na frente de Marn. Parecia
que o motivo de ele estar ficando aqui temporariamente era,
sem surpresa, o mesmo problema de sempre.
— Foi evitado de novo?
— É. Se eu não saísse de casa, ele provavelmente não
entraria para jantar.
— Talvez ele não queira ver a sua cara.
— Provavelmente. Haha.
— ...
— Ele continua fugindo. E eu queria passar o fim de
semana brincando com ele também.
— ...
— Não sei mais o que fazer para ele parar de fugir.
Karn baixou os olhos levemente e soltou um longo suspiro
antes de soltar o pulso. Nathi fez um biquinho, prestes a
reclamar como de costume, mas no momento em que Karn
deu um tapinha suave em sua cabeça, ele ficou em silêncio.
No mesmo instante, Marn voltou para recolher mais
pratos, então Karn retirou a mão e se afastou, deixando Nathi
sentado ali com um sorriso largo. Marn notou aquele sorriso e
sentiu um pouco de curiosidade, seus olhos brilhantes cheios
de confusão.
Nathi soltou uma risadinha e levantou-se para ajudar a
recolher mais pratos. Mesmo que ele estivesse ajudando
apenas um pouco, Marn continuava agradecendo sem parar.
Nathi nunca imaginou que o sobrinho de Karn seria tão
adorável — um garoto tão bom que dava vontade de elogiá-lo
sem fim. Só de imaginar alguém como Karn tendo uma criança
animada tagarelando ao seu lado o dia todo fazia Nathi sorrir
até as bochechas doerem.
— A carne de porco cozida estava realmente deliciosa
hoje. Muito obrigado, P'Nathi.
— Não precisa agradecer. Se eu tiver a chance, trarei algo
gostoso de novo.
— Muito obrigado!
— Em que série você está agora?
— Estou no segundo ano do ensino médio.
— Oh?
— Sim?
— Minha casa tem um moleque que também está no
segundo ano.
— Seu irmão mais novo?
— Uhum. O caçula.
— Pare de conversar e venha logo ajudar a lavar a louça.
— Desculpe, tio Karn. Já estou indo.
Em pouco tempo, uma voz cansada veio do outro lado.
Nathi sorriu levemente, pegou alguns pratos e seguiu Marn.
Os dois moradores da casa ficaram lado a lado lavando a
louça, enquanto o convidado as secava e as empilhava
ordenadamente. Se ele deixasse a água escorrer e molhasse o
chão, provavelmente levaria bronca até chorar.
Nathi olhou novamente para Karn. Ele morava ali desde
que se lembrava. Conhecia todos no beco — as gerações mais
velhas, os pais e até os filhos deles. Ele costumava ser
travesso, provocando as pessoas aqui e ali.
Cerca de dez anos atrás, alguém novo tinha se mudado
para esta casa. Naquela época, Nathi era um estudante do
ensino médio. Ele passava por esta casa todo dia e via seu
dono desde então. Embora Karn estivesse morando ali há
anos, ele não era próximo de nenhum vizinho. Com sua
personalidade quieta e retraída e a distância que colocava
entre si e os outros, ninguém realmente queria ser seu amigo.
Pensando naquela época...
Na primeira vez que se encontraram, Karn não parecia tão
sombrio. Mas com o passar dos anos, o homem daquela época
nunca mais voltou. Mas agora... quando ele estava com seu
sobrinho, a aura gelada ao redor dele tinha diminuído
consideravelmente. A princípio, Nathi pensou que Karn não
gostava de crianças. Bem... Marn era um garoto tão bom —
quem não o acharia cativante?
— P' Karn! Hoje eu...
— Suma daqui.
É... comparado àquela época, Karn tinha sido bem
ríspido. Talvez ele nunca tenha gostado do Nathi porque ele
não era um bom garoto como o Marn. Nem uma única vez ele
foi tratado com carinho.
Nathi balançou a cabeça para afastar o pensamento inútil
e olhou para o tio e o sobrinho ocupados lavando a louça. Ele
não pôde evitar soltar uma risadinha. Karn imediatamente
lançou-lhe um olhar feio. Marn inclinou a cabeça, confuso,
sem entender absolutamente nada.
Suspiro... aqueles dois eram opostos completos.
3
Hoje era o primeiro dia de Marn em sua nova escola. Ele
acordou às 5 da manhã para tomar banho e se arrumar, e não
esqueceu de preparar o café da manhã para seu tio também.
Perto das 7 horas, o tio Karn finalmente desceu lentamente do
segundo andar. Marn o cumprimentou alegremente, com uma
animação que praticamente irradiava dele.
Um jovem de dezessete anos era sempre assim — cheio de
energia, movendo-se de forma rápida e leve. Enquanto isso, o
homem de trinta e sete anos ao seu lado mal conseguia
levantar as pálpebras direito.
Karn apenas balançou a cabeça. Na sua idade, até as
coisas empolgantes haviam se tornado comuns. Ele há muito
tempo esquecera a sensação de ter os olhos brilhando de
antecipação daquela maneira.
Às vezes, ao olhar para Marn, sentia um pouco de inveja.
Porque, quando tinha aquela idade, não teve a chance de viver
livremente. Ele não tinha muitas memórias — apenas
lembranças cinzentas e borradas quando olhava para trás.
Karn comeu seu café da manhã em silêncio, enquanto
observava o sobrinho de vez em quando. Marn parecia muito
mais entusiasmado do que ele esperava.
Para um garoto que acabara de perder a família,
mudou-se para um lugar novo cheio de estranhos e deixou sua
antiga escola para trás, Karn se perguntava se ele ainda
pensava nos antigos amigos.
Karn não tinha perguntado sobre os assuntos pessoais de
Marn antes; ele nunca achou que precisasse. Mas pensando
bem... como agora era o guardião do garoto, talvez perguntar
um pouco não fizesse mal.
— Você sente falta dos seus amigos da antiga escola?
— Hein? Ah...
— Não tenho amigos.
O quê?
Como ele conseguia dizer aquela frase com uma expressão
tão brilhante?
— Tio Karn, por favor, não se preocupe. É verdade que o
Marn não tem amigos, mas eu não me sinto triste nem nada
disso. Estou bem, de verdade! Estou ótimo!
Marn sorriu até seus olhos formarem dois arcos. Cada
palavra que dizia era sincera. Em toda a sua vida, Marn nunca
teve um único amigo — nem desde a infância.
As crianças costumavam provocá-lo, chamando-o de
AIDS, porque todos conheciam a mãe dele. Os pais ensinavam
as coisas erradas aos filhos, dizendo que, se brincassem com
Marn, seriam infectados com o vírus, ficariam com feridas por
todo o corpo, como naqueles documentários que os adultos
sempre passavam em acampamentos. Marn teve que assistir
àqueles vídeos horrorosos de pacientes terminais morrendo de
dor. E, em vez de se sentir menos infeliz após assistir, ele se
sentia ainda pior quando todos olhavam para ele e se
afastavam.
Ele era apenas uma criança. Não entendia nada daquilo.
E pior, naquela época ele tinha a pele muito sensível.
Qualquer coisinha causava erupções, e o ato de coçar fazia
feridas aparecerem por todos os seus braços e pernas. E isso
só fazia as pessoas evitarem ele ainda mais.
Durante esse tempo, Marn nem queria ir para a escola.
Ele ficava em casa chorando o dia todo. Sua avó teve que
convencê-lo por muito tempo antes de ele concordar em ir.
Mas, mesmo depois que todas as suas feridas cicatrizaram,
todos continuaram o evitando, convencidos de que Marn era
algum tipo de contágio ambulante.
Do jardim de infância ao ensino fundamental e médio...
Marn nunca teve um único amigo. Mas ele se acostumou com
isso. Por isso ele podia dizer com confiança que estava
perfeitamente bem vivendo assim. Ele entendia que o tio Karn
pudesse se preocupar com o assunto, então Marn queria
tranquilizá-lo. Porque Marn não se sentia triste nem solitário
de jeito nenhum. Sério, ele era mais forte do que parecia.
Sua avó o ensinou que, se ele permanecesse forte, poderia
superar qualquer coisa, não importa o quão ruim fosse. Marn
prometeu a ela que, de agora em diante, não choraria, não
reclamaria e não agiria mais como alguém fraco. Se a vovó
estivesse assistindo lá de cima, ela não teria que se preocupar
com ele.
— Estou indo para a escola agora, tio Karn. Volto cedo
hoje à noite.
— Hm.
— Tchau, tio Karn.
Após uma reverência educada, o garoto saiu com sua
bicicleta, deixando para trás apenas o tio sentado imóvel em
sua cadeira.
A casa inteira mergulhou no silêncio.
O chilrear dos pássaros ecoava aqui e ali, saudando a
nova manhã. Alguns pássaros passaram voando pela porta.
Karn fechou os olhos lentamente, lembrando-se da conversa
que tiveram no café da manhã, e então soltou um longo
suspiro. Como diabos ele foi criado? Por que foi ensinado
daquela maneira? Como Marn cresceria daqui para frente? Ele
nem sabia como chorar. Aquela mulher... Ela não tinha
aprendido nada com seus erros.
— Er... onde é que fica?
O trajeto até a escola não demorou muito. Por não
conhecer bem o lugar, Marn teve que ficar perguntando às
pessoas onde deveria estacionar, onde era seu prédio e onde
deveria entrar na fila. Como ainda não era hora do hino
nacional, Marn sentou-se debaixo de uma árvore abraçando
sua mochila enquanto esperava.
Eram quase 8 da manhã.
O tempo estava refrescante, com o som das cigarras
sinalizando o início da primavera. As flores estavam em plena
floração e as árvores — grandes e pequenas — ofereciam
sombra para as pessoas que descansavam sob elas, incluindo
aquele gato de rua malhado.
Ah, e aquele esquilo branco também — ele tinha acabado
de subir em uma árvore e desapareceu entre os galhos em um
piscar de olhos.
Marn abraçou sua mochila e olhou ao redor, balançando
as pernas levemente. Ele viu outros alunos conversando em
grupos.
Alguns tinham uma bola e estavam jogando. Outros
copiavam a lição de casa às pressas para poderem entregar no
primeiro período. A cena o fez sorrir de leve. Era familiar — sua
antiga escola era igual. Crianças eram iguais em qualquer
lugar. Ele uma vez desejou poder vivenciar aquilo também.
Mas como a realidade nunca permitiu, ele aceitou.
Sem amigos? Tudo bem.
Ninguém queria brincar com ele? Tudo bem também.
Ele realmente conseguia viver assim. Ainda assim... ele
esperava que algum dia alguém se aproximasse, acenasse
para ele e pedisse para copiar sua lição de casa. Marn era
gentil, afinal de contas! Ele também era muito bom nos
estudos! Se alguém pedisse para ver sua lição, ele com certeza
deixaria. Poderia até ajudar a ensinar. Mas, bem... não parecia
que ninguém estava interessado naquela oferta.
Marn esperou um pouco mais até que o sinal tocou,
chamando os alunos para se reunirem. Como ele não conhecia
o caminho, apenas seguiu a multidão, tocando nos ombros de
um e de outro para perguntar onde ficava a fila do 2º ano.
Muitos alunos balançaram a cabeça — eles também não
sabiam. Marn apenas sorriu educadamente em resposta.
No fim, ele não conseguiu encontrar a fila certa e teve que
ficar no final de outra turma. Ele participou das atividades
matinais com os demais até que tudo terminou. Viu o diretor
da escola dar um passo à frente para dizer algo. Naquele
momento, alguém tocou seu ombro. Marn se virou e seus
olhos se arregalaram de choque ao ver quem era.
— P'Nathi!
— Por que você está parado aqui? Esta é a fila do 3º ano.
— Eu não sabia onde deveria ficar. Mas... como é que o
P'Nathi está aqui?
Marn perguntou inocentemente. Mas antes que pudesse
perguntar mais qualquer coisa, pareceu que o diretor havia
terminado de falar. Não foi nada de importante, apenas uma
saudação casual aos alunos. Afinal, não era um semestre
novo. Este ano letivo já havia começado há um tempo. Marn
tinha se transferido abruptamente apenas depois que sua avó
faleceu, então a empolgação habitual de um novo semestre
não existia.
Assim que o diretor desceu, a cerimônia matinal
encerrou. P'Nathi disse para Marn segui-lo. Marn assentiu
obedientemente, caminhando atrás dele com sua mochila.
Para onde Nathi virava, Marn virava. Em qualquer prédio que
ele entrava, Marn o seguia.
Em qualquer sala que ele entrava, Marn entrava também.
E, finalmente, Marn descobriu o motivo de Nathi estar ali.
— Este é o novo colega de classe de vocês que acabou de
se transferir. O nome dele é Marn. Pessoal, por favor, cuidem
bem dele.
Nathi era o professor conselheiro do 2º ano. Ele lecionava
naquela escola há dois anos. O quê!? Por que ele não contou
ao Marn que trabalhava ali? E ele era até o seu professor
conselheiro! Ele ia na casa deles o tempo todo e nunca disse
nada!
— Apresente-se.
Tecnicamente, aquele nem era o período de orientação —
o primeiro período no cronograma era língua tailandesa. Mas
Nathi, conhecendo o horário, trouxe Marn diretamente para
lá. O novo aluno olhou ao redor da sala com nervosismo.
Muitos estudantes o encararam com interesse. É claro — ter
um novo aluno transferido no meio do ano era incomum,
então todos queriam conhecê-lo.
— Olá. Meu nome é Marn. Prazer em conhecer todos
vocês.
Vários alunos trocaram olhares. Só de ouvir aquela
introdução, eles pensaram: esse garoto novo é definitivamente
um bom menino. Da cabeça aos pés, ele transmitia a aura
brilhante de um aluno favorito dos professores. O sorriso dele
fazia seus olhos formarem curvas fofas.
Ele parecia educado e bem comportado — praticamente a
definição de uma criança obediente. Marn procurou por um
assento vazio e se sentou.
Aquela escola funcionava de forma diferente da anterior.
Por ser de porte médio para pequeno e ter salas limitadas, os
alunos não mudavam de sala por disciplina. Em vez disso,
cada turma tinha sua própria sala fixa, e os professores se
revezavam nas aulas dependendo da matéria. Apenas certas
disciplinas exigiam ir para prédios especializados, como
laboratório, educação física, artes ou música.
Isso era novidade para Marn.
Sua antiga escola sempre fazia os alunos trocarem de sala
entre os períodos. Esse sistema o lembrava da escola primária
— ter uma sala fixa e uma mesa designada. Era bom, na
verdade. Não precisava carregar sua mochila subindo e
descendo prédios. Mas... quem deveria sentar ao lado dele?
Havia apenas uma mochila colocada na cadeira. Onde estava o
dono? Estaria no banheiro?
— Está faltando uma pessoa.
Nathi contou o número de alunos sob seus cuidados com
os dedos e percebeu que um ainda faltava. Na verdade, ele mal
precisava adivinhar. Seus olhos se voltaram para o assento
vazio. Uma mochila preta estava sobre a mesa, sem sinal de
seu dono. Pareceu um pouco estranho quando ele desviou o
olhar levemente e viu o garoto novo sentado ali com os olhos
arregalados, mesmo que ninguém nunca tivesse sentado
naquela cadeira antes. Aquele tinha sido o único lugar vazio
desde o início do semestre e, agora que Marn havia se
transferido, a turma estava completa.
— A Sra. Malee chegou. Prestem atenção na aula, ok? Não
sejam travessos. E cuidem do novo amigo de vocês.
— Tudo beeeem!
O professor conselheiro disse apenas isso antes de sair,
deixando a professora da matéria assumir. Marn sentiu
curiosidade.
Para onde o aluno que sentava ao lado dele tinha ido? Por
que ele ainda não tinha aparecido?
Estava no banheiro por tempo demais? Estava doente? Ou
talvez outro professor o tivesse ocupado com algo?
Mas, estranhamente, mesmo após dez minutos, ele ainda
não apareceu. A professora já tinha passado os exercícios e
nada de sinal dele.
— Er... posso perguntar uma coisa?
— Hm?
— Quem senta aqui?
— Ah, é o...
Tum!
A garota ao lado dele ia responder quando um som
repentino veio de trás deles. Marn se virou imediatamente.
Seus olhos se arregalaram. As janelas da sala de aula,
normalmente abertas para deixar a luz do sol entrar, agora
estavam obscurecidas por uma sombra. Uma mão agarrou a
moldura da janela pelo lado de fora. Marn olhou rapidamente
— alguém estava ali. E o uniforme que ele usava... não era um
uniforme do ensino médio?
O garoto levantou a cabeça e encontrou os olhos de Marn
diretamente. Suas sobrancelhas se franziram levemente —
parte confusão, parte irritação. Ele claramente estava se
perguntando por que o assento que deveria estar vazio agora
tinha um garoto novo sentado ali.
O queixo de Marn caiu.
Ele não conseguia dizer uma única palavra. Apenas ele
parecia chocado; todos os outros pareciam estar acostumados
com aquilo.
— Sai.
Pof!
Ele... ele pulou para dentro da sala pela janela?! Que tipo
de pessoa era o colega de mesa de Marn?!
— Than! De novo não!
Ah, não — a Sra. Malee estava dando uma bronca nele
agora! Veja! Veja! Marn sentiu tontura. Embora a professora o
estivesse repreendendo em voz alta, o garoto agia como se
nada estivesse acontecendo, fingindo não ouvir. Ele
calmamente abriu a mochila, tirou o livro e começou a
trabalhar — ele até conseguiu encontrar a página correta do
exercício que a professora tinha passado, embora tivesse
acabado de pular para dentro da sala há um minuto. Quem
saberia para onde ele tinha desaparecido? E então ele pulou
pela janela. Ele nem parecia ter medo de levar bronca. Incrível.
Na verdade... talvez ele não tivesse ido a lugar nenhum.
Talvez estivesse escondido do lado de fora da janela o tempo
todo. Deve ter sido por isso que ele ouviu a tarefa sendo
passada. Mas então... por que ele estava se escondendo? Ele
obviamente estava ali antes mesmo de Marn. Porque Marn
lembrava claramente: quando entrou na sala pela primeira vez
e se apresentou, até o momento em que se sentou, a mochila
preta já estava descansando silenciosamente sobre a mesa.
Ele tinha visto a mochila, mas não o dono, e se perguntou para
onde ele tinha ido.
Mesmo depois que a aula começou, ele nunca apareceu...
até agora. Marn deu uma olhada de soslaio para ele. Ele não
parecia nem um pouco amigável. Seus olhos eram frios. Sua
expressão era vazia ao ponto de ser gélida. Ele não
demonstrava emoção alguma. Seu cabelo preto era mais
comprido do que as regras da escola permitiriam, bagunçado e
cobrindo seu rosto.
Marn não fazia ideia de por que ele tinha permissão para
mantê-lo assim, mas, pensando em como ele tinha sido
indiferente quando a professora o repreendeu, Marn assentiu
para si mesmo compreendendo a situação. Talvez ele já tivesse
levado bronca inúmeras vezes e ninguém pudesse fazer nada a
respeito — então o cabelo dele simplesmente continuou
comprido. O porte físico dele era alto e magro e, a julgar pela
maneira como pulou e se segurou na moldura da janela, ele
devia ser bem forte.
— O que você está encarando?
— Ah... d-desculpa...
Assustador. Tão assustador. Socorro. Marn se encolheu
em seu assento, sem coragem de encará-lo nos olhos. Por
favor, não seja tão rude... Marn nem fez nada ainda!
Depois de levar um fora com uma voz tão fria, Marn não
ousou tentar falar de novo. Mas ele notou o dorso da mão
direita do garoto — havia um ferimento esfolado,
provavelmente de quando subiu mais cedo. Um pouco de
sangue estava escorrendo. Parecia doloroso, mas o garoto não
parecia se importar, continuando a escrever com aquela
mesma mão. Marn sentiu preocupação. Ele abriu
silenciosamente sua própria mochila, tirou um curativo e o
colocou suavemente sobre a mesa, deslizando-o em direção ao
garoto. Ele recuou quando o garoto lançou outro olhar afiado e
imediatamente recolheu a mão.
— E-Eu vi que sua mão estava machucada... você pode
usar se quiser. É para você.
— ...
— E-Eu não vou mais te incomodar...
Marn falou com uma voz bem baixinha. Ele nunca tinha
conhecido ninguém assim. Não ousava falar com ele de jeito
nenhum. O assento que estava vazio... por que tinha que ser
logo este? Isso significava que ele teria que sentar ao lado
dessa pessoa pelo resto do ano até mudar de sala? Nããão...
Não. Ele não podia desistir assim. Marn tinha prometido à
sua avó — ele faria amigos. Ele aproveitaria sua vida no ensino
médio. Então ele tinha que tentar conhecer todo mundo na
sala. Ele queria ter amigos. Queria que as coisas fossem
diferentes desta vez. Ele queria que sua avó, observando lá de
cima, sentisse orgulho de que Marn estava crescendo bem.
Certo. Começar por essa pessoa! Marn reuniu coragem por um
longo tempo.
Quando as aulas da manhã terminaram e todos estavam
se preparando para o almoço, ele correu e tocou o braço do
garoto, sorrindo docemente em uma tentativa de fazer
amizade. Ele estava determinado a se apresentar
adequadamente.
— Olá... eu sou o...
— Não estou interessado.
— ...
— Sai.
Esse garoto... se ele lembrava corretamente, o nome dele
era Than. Than o cortou instantaneamente. Ele nem sequer
olhou para Marn. Ele o rejeitou friamente. Marn ficou
paralisado, observando as costas de Than se afastarem
lentamente.
T-Tão rude. Esse colega de classe... era a pessoa mais
grossa de todas!
4
No seu primeiro dia de aula, Marn não fez nenhum amigo.
Falando sobre o ambiente escolar, na verdade não era
nada mal. Mesmo sendo uma escola de médio porte, tinha
material didático completo, salas de aula limpas e tudo o que
os alunos precisavam.
Durante todo o dia em que esteve lá, Marn explorou tudo
— quais instalações a escola tinha, como eram os banheiros, a
biblioteca, o campo de esportes e até o que a maioria dos
alunos costumava fazer. Quanto aos seus colegas de classe,
eram vinte e cinco alunos no total. Eles eram divididos em
quatro ou cinco pequenos grupos.
Marn só conseguia piscar perplexo, sem coragem de se
aproximar de ninguém. Ele tinha medo de invadir os grupos
deles e se tornar um estorvo. Ele disse a si mesmo que tinha
acabado de se transferir, então pegaria mal se grudar em
alguém logo de cara. Ele esperaria mais um pouco — esperaria
até que passasse a existir aos olhos de todos primeiro. Só
então tentaria entrar em um grupo.
Mas, pensando bem... Marn não sentia que se encaixava
em nenhum grupo. Havia cerca de vinte e cinco pessoas na
sala — não eram muitas — então havia apenas alguns grupos.
O maior grupo era o das meninas. Marn não sabia nada sobre
o que elas gostavam; ele as ouviu falando sobre atores e
cantores e percebeu que não conhecia nenhum deles.
Se ele se juntasse a elas, provavelmente só ficaria
piscando e ouvindo, sem entender nada. O segundo grupo
parecia ser o dos esportistas da classe — a maioria garotos,
altos e barulhentos, sempre fazendo bagunça, mas muito
próximos. Marn hesitou. Ele realmente não sabia como
poderia se encaixar naquele grupo.
Ainda havia outro grupo. Mas Marn tinha certeza de que
definitivamente não se juntaria a esse...
E esse era o grupo de Than. Só de pensar nesse colega, o
rosto de Marn murchou de novo. No primeiro dia em que se
conheceram, ele levou uma bronca. Ele nem tinha feito nada.
Só queria dizer oi e conhecê-lo, mas Than o ignorou, o rejeitou
claramente e ainda disse que não queria conhecê-lo. Marn
nunca tinha passado por uma rejeição tão dura e direta antes.
No máximo, as pessoas fofocavam pelas suas costas ou se
afastavam aos poucos — nada parecido com isso. Than tinha
deixado óbvio, desde o primeiro momento, que não queria
nada com Marn. Seria estranho se Marn não estivesse em
choque.
No fim das contas, Marn só pôde pedalar sua bicicleta
para casa com os ombros caídos. Ele ajudou seu tio a preparar
as coisas para a venda da manhã seguinte. Seu tio viu como
ele parecia desanimado e ergueu uma sobrancelha em dúvida,
mas perguntou apenas casualmente.
Mas Marn era o Marn: ele nunca contaria a ninguém
sobre qualquer coisa ruim que acontecesse com ele. Ele
mudou de expressão rapidamente, forçando um sorriso
radiante, evitando qualquer menção aos seus colegas e
mudando de assunto para falar sobre os professores e o
ambiente da escola. Karn olhou para ele em silêncio,
resmungou um curto “hm” e não perguntou mais nada.
— Marn não sabia que o P'Nathi era professor lá. Quando
ele veio na nossa casa, não disse nada.
— Então... como eu devo chamar ele agora? Não posso
mais chamar de P'Nathi. Mas chamar de professor também
parece estranho... — Marn murmurou baixinho, então ajudou
a levantar a panela de soja para a mesa, tampando-a para
deixar de molho durante a noite.
Amanhã de manhã, eles a ferveriam para fazer um leite de
soja cheiroso, perfeito para o café da manhã, especialmente
com massa frita. A receita do Tio Karn era a melhor! Marn
conseguia comer todo dia sem enjoar.
Depois de ajudar seu tio, Marn tomou banho, vestiu o
pijama e sentou-se para fazer a lição de casa que tinha
recebido hoje. Enquanto trabalhava nos problemas de
matemática, ouviu subitamente uma batida na porta. Marn
inclinou a cabeça, surpreso ao ver o Tio Karn. Ele se
perguntou se o tio precisava de ajuda com algo, embora já
fosse tarde: 21h30. Talvez algo que Marn fez não estivesse
certo e ele precisasse descer para refazer.
— Aconteceu alguma coisa, Tio Karn?
— Você não precisa ajudar a vender amanhã. Só se
arrume para a escola.
— Hein? Por quê?
— Você vai se atrasar para a aula. Se você se atrasar
muito, vão chamar o responsável. Não quero problemas
depois.
— Está tudo bem de verdade, Tio Karn. O Marn não vai se
atrasar. Eu vou chegar a tempo, eu prometo. Por favor, não se
preocupe. Amanhã eu vou acordar ainda mais cedo, me lavar,
me vestir e te ajudar a levar a carroça para vender!
Karn franziu a testa profundamente, encarando o garoto
vinte anos mais novo que ele. Por que esse garoto era tão
esforçado? Ele estava tentando não tirar o tempo de descanso
de Marn — apenas deixá-lo estudar para não ficar exausto. Na
idade dele, os estudos deveriam ser a prioridade. Em vez disso,
Marn queria acordar antes do amanhecer para ajudar a
vender leite de soja, depois ir para a escola, depois correr para
casa após a aula para vender de novo e então preparar os
ingredientes para o dia seguinte. Marn tinha apenas dezessete
anos. Era realmente certo deixá-lo carregar um fardo tão
pesado? Estudar deveria ser a única coisa com que ele
precisava se preocupar.
— Tio Karn, eu estou bem de verdade. É fácil.
— ...
— Eu não posso deixar você fazer tudo sozinho.
— Eu faço isso sozinho há anos. Não preciso de ajuda.
— Antes você só precisava cuidar de si mesmo. Mas agora
você me tem também. Isso dobra o trabalho. Como eu poderia
deixar você se cansar sozinho?
— ...
— Vou te ajudar. Não se preocupe comigo ficar cansado.
Eu estou bem!
Suspiro. Todas as crianças dessa idade são teimosas
assim?
No fim, a negociação falhou.
Na manhã seguinte, Marn acordou cedo de novo, se
lavou, se vestiu, arrumou sua mochila e desceu rapidamente.
Quando chegou à cozinha, ajudou a preparar tudo. Ele era tão
esforçado que até as galinhas da vizinhança ficariam
impressionadas. Os dois montaram a barraca como de
costume. O ar da manhã estava fresquinho — perfeito para
um leite de soja quente. Marn fechou os olhos contente,
esfregando a barriga aquecida após beber um saquinho de
leite de soja. Suas bochechas estavam coradas por causa do ar
frio.
Ele ajudou a vender, checando a hora ocasionalmente.
Das 5h, às 6h, depois 7h. Ele fez um wai para o Tio Karn,
recebeu algum dinheiro para o dia e foi para a escola.
Era o segundo dia em sua nova escola. Marn entrou na
fila corretamente, caminhou para a sala corretamente e estava
começando a se adaptar. Mas ele ainda não tinha feito
nenhum amigo.
Então decidiu começar pela pessoa sentada ao lado dele.
A garota ali, chamada Liu, era divertida e amigável. Marn
sentiu que seria ótimo se pudessem se tornar próximos. Por
enquanto, eles só falavam sobre coisas da escola e lição de
casa — mas já era um bom começo! Finalmente, alguém falava
comigo!
— Você está se sentindo mal, Marn?
— Hein? Ah...
Depois do intervalo do almoço, Marn voltou para a sala de
aula para esperar a próxima lição. Alguns alunos já tinham
voltado, incluindo Liu. Ela se aproximou dele quando o viu
tomando alguns remédios. Marn travou um pouco,
hesitando...
— O Marn tem AIDS. Você não sabia?
— É sério?
— É. Você não viu as feridas dele?
— Mas ele me disse que era alérgico a loção...
— Ele tem AIDS. A mãe dele também tinha. Pelo visto ele
pegou dela.
— Ai não... eu brinquei com ele ontem. Eu vou pegar
também?
— Não tenho certeza. Vá dizer aos seus pais para te
levarem ao médico.
— Que medo...
— Melhor não chegar muito perto dele.
— Não vou mais entrar na fila do almoço. O Marn estava na
fila. Não tenho coragem de comer.
— Sério. E eles deram de graça também. Que desperdício.
— Mas não foi ele quem serviu. Alguém entregou para ele.
— Eu não ligo! Não vou comer na mesma bandeja.
— Er... Marn. Eu sinto muito mesmo...
— Hum.
— Mas... você sabe, né? A doença que você tem pode ser
contagiosa. É por isso que os outros não têm coragem de deixar
você mexer na comida.
— Tudo bem. Eu entendo.
— Mas você pode ajudar com outras tarefas. Eu vou pedir
por você.
— Hum. Muito obrigado.
— Mas... Marn...
— ...
— Eu realmente não tenho certeza se os outros vão querer
que você ajude em qualquer coisa.
— ... Me desculpa.
Era como se ele pudesse ouvir inúmeras conversas
ecoando em sua cabeça — uma após a outra, desde a infância
até agora. Eram tantas que ele nem conseguia contar quantas
vezes isso já tinha acontecido. As mãos que seguravam o
saquinho de remédio congelaram. Marn pressionou os lábios
levemente, pensando consigo mesmo em silêncio. Ele deveria
manter sua doença em segredo?
Se ele dissesse em voz alta, tinha medo de que as coisas
terminassem do mesmo jeito de sempre — os amigos poderiam
se afastar, as pessoas poderiam evitá-lo, e o sonho de ter pelo
menos um amigo poderia nunca se realizar.
Talvez... ele nunca encontrasse a felicidade de novo.
E quanto à promessa que fez para a vovó? Tudo poderia
voltar a ser como era antes. Mas se ele escolhesse mentir e
esconder tudo... Marn tinha medo de que um dia pudesse
realmente infectar alguém sem saber. Ou pior, as pessoas
poderiam odiá-lo ainda mais e chamá-lo de mentiroso.
No fim, as coisas poderiam se tornar muito piores. Se esse
dia chegasse, Marn sabia que se arrependeria de ter escolhido
esse caminho. Marn não queria que ninguém terminasse como
ele. Ele não queria que ninguém passasse por isso nunca
mais. Não importava para onde olhasse, ele não conseguia ver
felicidade em lugar nenhum. Mas, julgando pela expressão da
Liu, Marn sabia que não poderia ficar em silêncio por muito
mais tempo. Ele precisava fazer uma escolha.
— Marn?
— ...
— Hum...
— Eu tenho HIV.
— ...
— Por isso tenho que tomar remédio antirretroviral.
— Ah... tá.
Ele disse.
Ele finalmente disse.
Talvez essa fosse uma das desvantagens de ser um bom
garoto. Marn não sabia mentir. Mesmo que quisesse esconder
algo, o máximo que conseguia fazer era evitar o assunto. Mas
inventar coisas e mentir continuamente — Marn nunca
conseguiria fazer isso. E mesmo se conseguisse, alguém
acabaria descobrindo a verdade de qualquer jeito.
Então, no fim, ele escolheu a honestidade. Ele aceitou a
verdade sobre o que era. Isso era algo de que ele não poderia
fugir, não importava quando ou onde. E ele viu aquela
expressão no rosto da sua futura nova amiga.
Ele viu Liu voltar silenciosamente para o seu lugar, sem
falar mais com ele. Marn entendeu imediatamente. Ele se
sentiu triste, sim — mas estava acostumado. Ele
simplesmente pegou a pílula, engoliu, guardou suas coisas
ordenadamente e então forçou um sorrisinho para se
consolar. Tudo bem.
Ele conseguiria passar por isso. Era apenas algo pequeno.
Marn olhou de relance para a outra pessoa que tinha estado
em silêncio o tempo todo.
Desde que ele entrou na sala, Than estava dormindo com
o rosto debruçado na mesa, completamente alheio a tudo.
Marn tentou se mover silenciosamente; ele não queria
atrapalhar o sono de Than e levar outra bronca. Eles sentaram
um ao lado do outro o dia todo, mas não trocaram uma única
frase. Than nunca falava, nunca interagia com ninguém. Isso
deixava Marn bastante tenso.
E agora pouco... ele estava dormindo ali.
Será que ele ouviu o que o Marn disse?
Mas o Than não queria ser amigo dele de qualquer forma.
Mesmo se tivesse ouvido, provavelmente não se importaria.
No fim das contas, naquela tarde Marn foi para casa mais
uma vez com a palavra sem amigos na mente.
— Você está bem?
— Eu estou bem, Tio Karn! Totalmente bem!
— Cuidado ao levantar coisas pesadas.
— Sim, eu sempre tomo cuidado. Tio Karn, por favor,
tome cuidado também. Ah... isso é tudo que posso ajudar por
enquanto. Tenho que ir para a escola.
— Hum. Vá em frente.
— Vou correr de volta para ajudar à tarde, Tio Karn.
Tchauzinho!
Karn ficou parado, observando aquelas costas pequenas
se distanciarem cada vez mais. Ele não tinha certeza se era
apenas sua imaginação, mas Marn parecia estranhamente
alegre — alegre demais, esforçado demais com tudo. A
princípio, ele se perguntou se algo bom tinha acontecido na
escola. Se tivesse, Marn teria corrido imediatamente para
contar. Mas, em vez disso, o garoto continuava dizendo “eu
estou bem”, “está tudo bem”, “eu dou conta”, agindo como
alguém que tenta desesperadamente esconder a própria
fraqueza. Vendo aquele sorriso forçado... Karn não gostou
nada.
Esse garoto... é realmente irritante.
Karn era quem mais odiava crianças fracas que fingiam
ser fortes.
— Phi... er, Professor Nathi, olá!
— Me chame como quiser, haha.
— Heh... o Marn realmente não sabe como te chamar,
senhor.
Quando Marn chegou à escola e viu o belo Professor
Nathi, ele rapidamente fez um wai. O professor sorriu de volta
enquanto ainda chutava uma bola com os garotos. De vez em
quando, ele devolvia a bola para um aluno ágil que a dominava
com elegância. Ele assobiou, com as mãos nos quadris,
admirando a habilidade das crianças — mas suspirou consigo
mesmo.
Era tão cedo de manhã e eles já estavam suando.
Adolescentes hoje em dia... fazendo o que querem,
quando querem. Ninguém conseguia impedi-los. Se alguma
menina reclamasse do cheiro deles depois, eles ficariam
envergonhados por conta própria.
— Hmm... você não está usando o uniforme hoje.
— Me desculpe, professor. Eu tenho educação física hoje,
mas ainda não tenho o uniforme de esportes da escola. Já
encomendei na lojinha da escola. Disseram que vai estar
pronto na semana que vem. Ontem eu já consegui permissão
do professor de educação física. Ele disse que eu poderia usar
roupas arrumadas por enquanto, então... usei isso.
Nathi segurou o riso. Na verdade, ele não estava falando
sério — estava apenas provocando. Ele entendia que Marn
tinha se transferido de repente, então não ter um uniforme era
normal. Mas ver o garoto entrar em pânico e se explicar com
aquela expressão de culpa... o fazia gostar dele. Se fosse outro
garoto, provavelmente só se faria de bobo. Marn era realmente
um bom garoto. Ele estava começando até a sentir inveja de
Karn por ter um sobrinho tão adorável.
— Eu não disse que tinha algo errado.
— Mas o Professor Nathi disse que era contra as regras...
— Eu não vi nada de errado.
Marn abriu a boca sem acreditar. O belo professor ficou
ali com as mãos nos quadris, fingindo olhar para outro lugar,
alegando que “não viu” nada de errado com as roupas de
Marn. Isso era permitido? Que tipo de professor era esse?
— Vá em frente, vá para a fila.
— Sim! Tchau, Professor...
— Chega.
Marn assentiu rapidamente e correu para se juntar à
assembleia da manhã. Quando terminou e os alunos foram
para suas salas, ele viu Liu à frente e se apressou para tocar o
ombro dela, fingindo esquecer o que aconteceu ontem. Liu
pareceu surpresa, mas ainda falou com ele. No entanto, Marn
conseguia sentir a distância entre eles. Ele não sabia se era
porque tinham acabado de se conhecer... ou por causa do que
aconteceu ontem.
Tudo bem. Se a Liu não quisesse mais falar com ele...
estava tudo bem de verdade. Ele conseguia lidar com isso.
Mas hoje pareceu um pouco diferente. Dois ou três
colegas vieram até ele perguntando se ele estava doente. É
claro que ele não mentiu. Como já tinha contado para Liu, ele
tinha que contar para todo mundo. Quem quer que
perguntasse, ele respondia honestamente sem esconder nada.
— Sim, eu tenho HIV.
— AIDS?
— Apenas o vírus. Chamam de AIDS só quando os
sintomas se tornam graves. Eu tomo antirretrovirais para não
piorar.
— Não é a mesma coisa?
— Nós apenas carregamos o vírus. Existem casos em que
alguém está infectado, mas não tem sintomas, e casos em que
a pessoa tem sintomas. Só quando chega ao ponto em que o
sistema imunológico é afetado, é aí que se chama AIDS.
— Ah...
— Você tem mais alguma coisa que queira me perguntar?
— Não, mais nada.
Depois que os colegas de Marn terminaram de perguntar,
eles se afastaram. Ele conseguia ouvi-los conversando, mas
rapidamente tampou os ouvidos, recusando-se a escutar. Ele
não queria ouvir o que diriam pelas suas costas.
Marn soltou um longo suspiro e lavou as mãos depois de
terminar de usar o banheiro. A aula de educação física tinha
acabado de terminar. Hoje eles jogaram badminton. Foi
cansativo — ele se moveu muito. Ele se perguntou se ainda
teria energia para ajudar o Tio Karn à tarde.
— Th-Than!
Marn terminou de lavar as mãos e estava prestes a sair
quando se virou e viu um colega de classe parado ali de braços
cruzados. O rosto de Than estava frio como sempre, e seus
olhos pareciam turvos — como se estivesse irritado com algo.
Marn não ousava adivinhar o porquê. Talvez ele tenha usado a
torneira por muito tempo? Talvez estivesse no caminho?
Ele tentou se desviar para a esquerda, depois para a
direita, arrastando os pés sem jeito, mas o outro garoto não
parecia menos irritado. O que era isso? Aquela expressão...
Marn tinha feito alguma coisa? Ele nem tinha feito nada! Ele
ficou quieto, não incomodou ninguém, não tentou falar com
Than de jeito nenhum, já que Than não queria ser seu amigo.
— Você tem algo que queira falar comigo?
— ...
— O que você pensa que está fazendo?
— Eu... não fiz nada.
— Andando por aí contando para todo mundo que você
tem essa e aquela doença.
— Eles perguntaram...
— Você acha que fazer isso vai te ajudar a fazer amigos?
— ...
— Você quer amigos, não quer? Se quer, então cala a boca
sobre isso.
O rosto de Marn ficou dormente. Foi a primeira vez na
vida que alguém falou com ele de forma tão direta. Ele não
entendia por que Than trouxe isso à tona de repente,
especialmente quando Than tinha deixado claro desde o início
que não queria ser seu amigo. Então, o que a doença dele
importava para Than, afinal? Por que falar com ele desse jeito?
— Eu não entendo por que você está dizendo isso para
mim.
— ...
— Sim, eu quero amigos. Acabei de me transferir para cá.
Não é estranho eu querer me dar bem com as pessoas.
— É por isso que eu disse: se você realmente quer amigos,
então pare de falar sobre isso em todo lugar.
— Mas...
— Você viu, não viu?
— O quê?
— Você viu o rosto deles quando souberam disso.
— E daí? Você quer que eu minta? Que eu esconda de
todo mundo?
— ...
— Mesmo se eu fizesse isso, mais cedo ou mais tarde
todos descobririam. E aí poderia ser ainda pior: se eles
soubessem que eu menti desde o começo.
— ...
— Eu não quero começar uma amizade com uma mentira.
Marn abaixou a cabeça, unindo as mãos, pressionando os
lábios para ganhar coragem. Ele não era alguém que discutia.
Esta poderia ser uma das poucas vezes em que ele respondeu
de volta. E para alguém como Than — alguém que ele nem
conseguia olhar nos olhos — ele precisava de cada gota de
coragem que tinha.
— Eu não sei qual é a sua real intenção, ou por que você
veio falar sobre isso.
— ...
— Mas eu pensei bem. Eu quis contar a todos o que eu
tenho.
— ...
— Eu não quero esconder isso de ninguém.
— ...
— Eu tive coragem de dizer porque nunca achei que eu
fosse nojento. Nunca tive medo do que eu tenho.
— ...
— Eu nunca me odiei.
— ...
— Eu só quero que todos sintam o mesmo.
Marn levantou a cabeça e encontrou os olhos dele,
falando honestamente do fundo do coração. Than ficou parado
ali, imóvel e sem expressão, impossível de decifrar. No começo
Marn se sentiu corajoso, mas quanto mais tempo Than ficava
em silêncio — quanto mais ele se calava e apenas encarava —
mais Marn encolhia. Ele não conseguia manter o contato
visual, olhando para as próprias mãos, piscando ansioso. O
comportamento frio de Than estava começando a deixá-lo
desconfortável.
— V... você tem mais alguma coisa para me dizer?
Ele... ele está me encarando feio! Acabou. Than
definitivamente o odeia agora.
— Fala demais.
— V... você que falou comigo daquele jeito primeiro!!
Marn só pôde ficar ali sem palavras. Than disse apenas
aquela frase, depois se virou e foi embora, deixando o novato
coçando a cabeça em confusão.
— Você é tão maldoso.
— ...
— Por que você intimidaria o novato desse jeito?
— Sai da frente.
— Ei, Than!
Outro colega de classe — que claramente estava ouvindo
a conversa escondido — apareceu rapidamente quando Than
saiu do banheiro. Ele se moveu para o lado dele, como se fosse
passar o braço pelos ombros de Than, mas Than
instantaneamente o afastou com um tapa, encarando-o com
irritação. O amigo levantou as duas mãos em sinal de
rendição.
— Você tem a língua muito afiada, Than. Como é que ele
vai saber que você está preocupado com ele?
— Preocupado é o cacete.
— Não foi por isso que você disse para ele parar de falar
sobre a doença dele?
— Não foi.
— Bem... você não está errado, sabe. O Marn realmente
não se protege. Falando abertamente sobre a doença dele
assim, é claro que as pessoas vão se afastar. Como ele vai fazer
amigos desse jeito, né?
— ...
— Se você está tão preocupado com ele não ter amigos, vá
ser amigo dele.
— Não.
— Mas o Marn parece ser um bom garoto. Você não gosta
de ter amigos legais?
— Ele é irritante.
— Ceeeeerto, você realmente acha isso.
— ...
— Eu com certeza vou contar para o seu irmão. Você é um
baita encrenqueiro, Than, implicando com o novato.
— Cala a boca.
Como esperado, Than explodiu imediatamente. Então ele
deu um empurrão forte no peito do amigo e saiu andando na
outra direção. O garoto da mesma idade só pôde soltar um
longo suspiro e desviar o olhar das costas do seu melhor
amigo.
Olhando para o outro lado, ele viu o novato agachado,
fazendo carinho nervosamente em Chaokuey. A princípio, ele
parecia que ia chorar, mas assim que viu como o cachorro
preto pedia atenção carinhosamente, ele amoleceu.
Lentamente, ele estendeu a mão e acariciou suavemente a
cabeça dele. Embora ainda parecesse um pouco assustado,
Chaokuey era um cachorro manso que nunca mordia
ninguém, então Marn reuniu coragem e o tocou daquele jeito.
— N-Não me morda, tá bom? Não morda.
— ...
— Você é tão fofo.
Chaokuey era o cachorro preto da escola — todos os
alunos o conheciam. As pessoas que moravam na vizinhança
também o conheciam. Ele não tinha um lar fixo, apenas
vagava por onde bem entendesse. Quem quer que o chamasse,
ele vinha correndo. Todos na comunidade o reconheciam; ele
podia ser visto em quase todos os lugares. Mas o lugar onde ele
mais aparecia era definitivamente a escola.
Marn ficou ali agachado, brincando com ele sozinho. Não
havia mais ninguém por perto. Mesmo assim, ele ainda sorria
tão abertamente que seus olhos quase desapareciam. Ele não
parecia nem um pouco perturbado com nada.
— Uau... você é diferenciado. O Than disse tudo aquilo na
sua cara e você nem chorou. Você até respondeu até ele ficar
quieto.
— ...
— Você fala muito bem. Alguém deveria te recrutar para o
Clube de Relações Públicas. Reservado!
5
Marn tinha um pequeno diário que usava para registrar
os acontecimentos de cada dia. Naquela noite, antes de
dormir, ele escreveu uma página e meia, com cada palavra
dedicada inteiramente ao seu colega de classe chamado Than.
Marn não entendia por que Than não gostava dele. O que ele
tinha feito? Logo na primeira vez que se encontraram, Than já
o havia recusado — disse que não queria ser seu amigo. Marn
entendeu e não o incomodou depois disso.
Mas, nos dias que se seguiram, Than se aproximava dele
e falava de forma grosseira, cara a cara. Marn não tinha ideia
do que estava acontecendo.
O que ele tinha feito?
Por que Than era tão frio com ele?
Quanto mais pensava sobre isso, mais sua cabeça doía.
Já era maio, o semestre havia começado há pouco tempo.
Marn tinha se transferido fazia cerca de uma semana. Durante
o tempo que passou na escola até agora, ele não se sentiu
desconfortável ou fora de lugar nem um pouco. Mesmo que
ainda não tivesse amigos, ele não se importava e não estava
triste. Ele já tinha dito que estava acostumado — conseguia
lidar com isso muito bem!
Algo pequeno assim não era nada. Não ter amigos não era
um grande problema. Na verdade, era até bom — ele teria mais
tempo para ajudar o tio Karn. O tio Karn foi gentil o suficiente
para acolhê-lo, então ficar correndo por aí perdendo tempo
não seria certo.
Hoje era domingo. Marn ficou em casa para ajudar o tio
Karn com as tarefas. Desde a manhã, ele tinha feito de tudo —
limpar a casa, lavar roupas, lavar a louça, regar as plantas e
lavar todos os equipamentos de venda. Normalmente, nas
noites de domingo, o tio Karn ainda precisava empurrar o
carrinho para fora para vender leite de soja e massa frita, mas
hoje ele não ia vender porque precisavam fazer uma limpeza
pesada: limpar o carrinho, passar óleo e graxa, verificar as
rodas e os pneus. Se algo estivesse gasto ou danificado, eles
levariam a um mecânico local.
O bom garoto Marn cuidou de tudo sozinho. Quando
terminou, voltou para dentro de casa e viu o dono da
residência dormindo profundamente em sua cadeira longa
favorita — seu lugar de costume.
A porta de vidro estava escancarada, deixando a brisa de
fora entrar, trazendo o tilintar suave dos sinos de vento. O
clima estava exatamente como a primavera.
Ver seu tio dormindo daquele jeito à tarde fez Marn
começar a sentir sono também. O tio Karn parecia alguém com
a bateria baixa. Marn não queria julgar seu tio, mas pelo que
ele observava o tio Karn se movia de forma muito lenta. Ele
agia como alguém que nunca dormia o suficiente, sempre
cochilando durante o dia, caindo no sono instantaneamente.
Muitas vezes, Marn o via pegando no sono em qualquer
lugar, mesmo quando saíam para vender juntos, o tio Karn
cruzava os braços e cochilava ali mesmo. Marn se perguntava
se talvez ele estivesse apenas cansado por ter que, de repente,
cuidar de outro sobrinho. O tio Karn não tinha parceiro, nem
filhos, nem outros parentes. Ele vivia sozinho naquela casa.
Antes disso, ele provavelmente só precisava ganhar o
suficiente para si mesmo — não tinha que se esgotar pagando
água, luz e comida para duas pessoas.
Agora, com a chegada de Marn, as despesas dobraram.
Além das taxas escolares, além do material escolar. Marn se
sentia verdadeiramente culpado por o tio Karn ter que pagar
por tudo. Eles nunca tinham se conhecido antes. Foi só depois
que sua avó faleceu que Marn soube quem era o tio Karn.
Pensando bem, a vovó raramente falava dele. Mas Marn
sabia que a vovó tinha um filho mais novo — o irmão mais
novo de sua mãe. Ele não sabia para onde o homem tinha ido.
Ele era jovem na época e simplesmente supôs que seu tio tinha
ido trabalhar em algum lugar como todo mundo.
Como não eram parentes próximos, Marn nunca deu
muita importância, e a própria vovó nunca mencionou o
assunto. Em todos os dezessete anos da vida de Marn, ele
nunca tinha visto esse tio uma única vez. Embora fossem tio e
sobrinho, às vezes Marn sentia que eram estranhos.
O tio Karn não demonstrava muito afeto. Ele cuidava de
Marn apenas o necessário — dava dinheiro, comida, água, um
lugar para dormir. Era isso. Nada mais.
Ele mal perguntava sobre qualquer outra coisa. E Marn
também não se atrevia a começar conversas. Às vezes, quando
estavam só os dois, o clima ficava estranho. A vida de Marn
agora era como começar do zero. Ele não conhecia ninguém e
ninguém o conhecia. Muitas vezes, ele se sentia sozinho e
sentia uma saudade terrível da vovó.
Marn caminhou até parar em frente à foto emoldurada e
olhou para o rosto sorridente de sua avó. É difícil acreditar
que, apenas alguns meses atrás, ele ainda estava conversando
com ela, rindo de suas piadas, comendo seus deliciosos ovos
no vapor, sentado ao lado dela enquanto ela rezava. Mesmo
que fossem apenas os dois, ele nunca se sentia solitário ou
sozinho.
— Hmph... eu não estou sozinho agora também. Não
estou nem um pouco sozinho — Marn sussurrou, balançando
a cabeça um pouco e sorrindo abertamente, esperando que
sua avó, lá longe, pudesse de alguma forma sentir isso.
Ele respirou fundo e se virou de volta para o tio. Viu o livro
escorregando da mão do tio Karn e correu para segurá-lo. Ele
congelou por um momento quando notou o pulso do tio Karn.
Marn não tinha certeza, mas a cicatriz longa parecia que
poderia ter vindo de carregar coisas pesadas.
— Tio Karn?
— ...
— Tio Karn.
A manhã de segunda-feira chegou mais cedo do que ele
esperava. Marn levantou cedo para tomar banho e se arrumar.
Não haveria vendas hoje, então o tio Karn poderia descansar
adequadamente. Marn preparou o café da manhã e ficou um
pouco surpreso por ainda não ter visto seu tio. Normalmente,
o tio Karn acordava muito cedo. Era raro vê-lo descer depois
das sete. Então, Marn subiu para bater na porta do quarto
dele. No início, não houve resposta. Depois de chamar várias
vezes, uma voz fraca finalmente respondeu, irritada o
suficiente para que Marn não se atrevesse a continuar
incomodando-o. Ele voltou para o andar de baixo para
esperar. Quase vinte minutos depois, o tio Karn desceu
cambaleando.
— Eu fiz o café para o senhor, tio Karn. Pode comer a
qualquer hora. Já estou indo para a escola.
— Mm.
— Então eu vou agora. Tchau.
— Espere. Eu ainda não te dei o dinheiro.
— Tudo bem. Eu ainda tenho bastante de sexta-feira.
Posso usar esse.
O tio Karn o ignorou e se virou para pegar a carteira, mas
ao se mover, ele subitamente balançou e quase desabou. Marn
entrou em pânico e correu para segurá-lo. Quando o tocou,
percebeu que o corpo do tio Karn estava mais quente que o
normal. Seu rosto estava pálido, os lábios sem cor.
Marn esqueceu imediatamente da escola.
Naquele momento, ele estava mais preocupado com seu
tio do que com qualquer outra coisa. Ele o ajudou gentilmente
a chegar até a cadeira longa, depois correu para pegar remédio
e um pano úmido morno. Ele colocou tudo na mesinha ao lado
deles. Ele gostaria de poder ficar e cuidar dele, mas tinha que
ir para a escola. O máximo que pôde fazer foi deixar uma tigela
de mingau. O tio Karn olhou para ele e praticamente o
expulsou — claramente irritado porque Marn continuava
paparicando ele e estava prestes a se atrasar.
— Eu disse VÁ!
— ... Sim, tio...
O rosto de Marn murchou imediatamente. Sendo gritado
daquele jeito, ele não se atreveu a dizer mais nada. Ele só pôde
ir de bicicleta para a escola, sentindo-se preocupado o
caminho todo. Foi a primeira vez que ele viu o tio Karn desabar
daquele jeito. Talvez Marn não estivesse ajudando o suficiente.
O tio Karn deve estar exausto — acordando cedo,
preparando as coisas para vender toda manhã e noite, e
depois preparando tudo de novo para o dia seguinte. Seu
único dia de folga era segunda-feira. Como ele não estaria
cansado?
Marn quase chegou atrasado para a assembleia matinal.
Felizmente, ele correu e conseguiu chegar a tempo.
Após a atividade, os alunos estavam prestes a ir para a
sala quando alguém tocou em seu ombro — seu professor
responsável. Marn apressadamente juntou as mãos em um
wai respeitoso. Ver o aluno normalmente alegre parecendo
cabisbaixo daquele jeito deixou o professor preocupado.
— Você quase chegou tarde hoje. Que bom que deu
tempo.
— Sinto muito. Aconteceu uma coisa em casa.
— O que houve?
— O tio Karn está doente. Esta manhã ele quase
desmaiou. Eu mal consegui segurá-lo.
Nathi ficou em silêncio por um momento, então assentiu
suavemente. Ele colocou a mão no ombro de Marn,
entendendo imediatamente que o menino devia estar
preocupado.
— Está tudo bem. Não se preocupe. Minha mãe está em
casa. Vou pedir para ela dar uma olhada nele.
Nathi se abaixou um pouco e sorriu, esperando
confortá-lo.
— Sério? Obrigado. E... sinto muito pelo incômodo.
— Não é incômodo nenhum. Somos vizinhos, afinal.
— Obrigado de novo, professor.
— Vá para a aula agora e se concentre, ok?
Marn parou de se preocupar imediatamente. Ele olhou
para cima, agradeceu ao professor com brilho nos olhos,
juntou as mãos em um wai e correu para seguir os outros até
a sala de aula. Uma sensação de alívio tomou conta dele.
Por sorte, a casa de Nathi era no mesmo beco — ele quase
tinha esquecido. Parecia que ele precisaria preparar algo para
agradecer a Nathi e sua mãe adequadamente mais tarde.
Sem mais nada pesando em sua mente, Marn conseguiu
se concentrar totalmente nas lições. Ele decidiu que hoje
tentaria mais uma vez reunir coragem para fazer amigos.
— E aí!
— ...
— Quer um? É bom.
Marn piscou rapidamente, segurando as alças de sua
mochila com força ao perceber que três colegas de classe
cercavam sua mesa. O que estava acontecendo?
Não eram todos do grupo do Than? Não me diga que o
Than mandou os amigos dele lidarem comigo também.
Ah não... quão cruel ele poderia ser? Se ele não gostava do
Marn, não podiam apenas ignorar um ao outro? Por que enviar
pessoas para mexer com ele como uma gangue de valentões
implicando com o novato em um filme?
— V-vocês precisam de algo de mim? — Marn perguntou
baixinho enquanto se acomodava lentamente em seu assento.
Ele deu uma olhada rápida para Than, que estava deitado
de bruços sobre a mochila ao seu lado. Ele tentou com muito
esforço não perturbá-lo, enquanto também observava os três
colegas ao redor de sua mesa. Eles haviam arrastado cadeiras
e estavam sentados confortavelmente, nem um pouco
preocupados com o fato de a aula estar prestes a começar.
— Pega.
Marn inclinou a cabeça em confusão quando alguém
estendeu um lanche para ele. O quê... eles queriam que ele
comesse?
— Meu nome é Hem. O cara mais bonito desta sala... AI!
— Tão sem vergonha.
— Ei, Ryu! Faz alguma coisa com ele!
O queixo de Marn caiu. O garoto que se autodenominava
Hem foi subitamente atingido com força na cabeça por uma
mão misteriosa, fazendo sua cabeça inteira balançar. Marn se
virou para a culpada — uma estudante usando o uniforme
padrão feminino, mas com cabelos curtos que a faziam se
destacar. Ela era ousada, bruta e parecia não ter medo de
nada. Olha só — ela até levantou um pouco a saia e deu um
chute na bunda do amigo.
E o terceiro — este devia ser o Ryu. Ele não parecia nem
um pouco interessado, girando um Cubo Mágico nas mãos.
Ele apenas olhava de vez em quando, balançando a cabeça em
uma leve exasperação. Ele não pretendia intervir em nada.
— Você é irritante.
— Ei! Isso foi muito bruto!
— Não se faça de fraco, seu idiota.
— Esse não é o meu nome!!
— Er... por favor, não briguem... — Marn levantou as
mãos para pará-los. Parecia que a discussão estava escalando
rápido.
— Não liga para eles. Isso é normal — Ryu disse
calmamente, ainda mexendo em seu Cubo Mágico. Ele parecia
muito acostumado com esse tipo de caos.
E-espera! O Hem estava sendo pego pelo pescoço! Alguém
não devia pará-los!?
— Argh...
Os olhos dele estavam virando!!
Quando Ryu percebeu o pânico no rosto do novato, ele
finalmente parou de brincar e interveio para separar os dois.
Ele empurrou a testa de Hem para trás com uma mão, fazendo
o garoto ganir.
— Ryu! Toda vez você é sempre bruto com os caras
bonitos! Se o meu rosto estragar...
— Chega. Parem de brigar logo.
— Ohhh, agora você empurra A MINHA testa, mas
quando puxa a Duanphen, você é todo gentil!
— Isso foi imaginação sua.
— Você ainda continua me chamando de Mae! Meu nome
é Hem! HEM!
— Bleh...
— Sua... Duanphen!
— E daí, Mae?
— Uh...
PAFT!
— Calem a boca. Vocês são barulhentos.
Marn estremeceu tanto que quase pulou do assento.
Than, que estava "dormindo", subitamente bateu na mesa
com força. Os três colegas que discutiam finalmente ficaram
quietos. Ryu separou os outros dois novamente, e foi então
que Marn finalmente aprendeu os nomes deles corretamente.
O que lhe oferecia lanches era Hem, mas como o nome
escrito poderia ser lido erroneamente como "Mae", ele era
provocado por isso constantemente.
A garota de cabelo curto era Ying, que tinha muita força
física e adorava arranjar briga com Hem todo dia. Ela já tinha
competido no Muay Thai sob o nome de Duanphen, algo que
Hem nunca parou de usar para provocá-la.
O último — o mais calmo — era Ryu, facilmente
reconhecível pelos seus óculos pretos de lentes grossas, que
seus amigos zombavam por serem fora de moda. Ryu nunca
parecia incomodado.
Marn assentiu repetidamente, memorizando os três
nomes, e se apresentou educadamente em retribuição.
— Olá, meu nome é Marn.
— Nós sabemos. Não precisa se apresentar de volta.
— T-tudo bem...
— Marn, ei.
— Sim?
— Esta tarde, você tem que escolher um clube, certo?
— Hum... sim.
Hem parecia amigável e fácil de abordar. Com apenas
algumas frases, ele já estava conversando confortavelmente
com Marn. Marn, no entanto, ainda estava confuso sobre o
que exatamente estava acontecendo.
Quanto à questão do clube — todos os outros
provavelmente já tinham escolhido há muito tempo, mas Marn
tinha acabado de se transferir. Ele nem tinha o uniforme de
educação física ainda.
Então, quais clubes ainda sobravam?
Foi por isso que o professor Nathi lhe disse na última
sexta-feira que ele tinha que se inscrever em pelo menos um
clube — qualquer um servia. Marn ainda não tinha decidido e,
depois de tudo com o tio Karn esta manhã, ele tinha esquecido
completamente.
— Sim.
— Então? Já escolheu um clube? Em qual você vai
entrar?
— Eu não sei ainda. Não decidi... Ah!
Marn deu um sobressalto quando Hem subitamente se
inclinou para perto e segurou ambas as suas mãos, com os
olhos brilhando. Marn ficou paralisado — ninguém nunca
tinha chegado tão perto dele fisicamente do nada.
— Então eu estou te cortejando!
— C-cortejando?
PAFT!
— AI, Ying! Isso doeu!
— Fale direito, Mae. Olha para a cara dele, você o
assustou.
Os três se viraram para olhar para Marn juntos. O pobre
garoto parecia que a alma tinha saído do corpo. Marn estava
sem palavras — entre o toque repentino, as palavras
enganosas de Hem e Ying socando a cabeça do amigo, ele não
sabia a que reagir primeiro!
— Eu sou do Clube de Relações Públicas. Estamos
procurando novos membros. Então estou te cortejando para
se juntar a nós! Interessado? É um clube fácil. Todo mundo é
bonito. Por exemplo, eu.
Então era sobre isso. Marn soltou um pequeno suspiro de
alívio. Ele se assustou por nada. Se Hem tivesse apenas dito
desde o início que o estava convidando, Marn teria entendido.
— O Clube de Relações Públicas? O que vocês fazem lá?
— Bem, nós...
— Não entra. Foge. Tem um monte de outros clubes.
— Ying! Não me sabota!
— Se você entrar nesse clube, só vai lidar com pessoas
irritantes como o Mae. Eu te avisei.
— Ei! Saiam! Ryu, arrasta ela daqui. Não deixa ela
interferir na minha negociação!
— Pessoal... vamos nos acalmar...
Hem estava tentando recrutá-lo, mas tudo o que Marn
ouvia era Hem e Ying discutindo. No fim, ele não aprendeu
nada. O professor entrou, e todos voltaram para seus lugares.
Marn exalou suavemente, colocando a mão no peito. Ele
realmente não estava acostumado a ser cercado de repente
daquele jeito. E todos os três eram amigos do Than —
estranhamente, eles não pareciam nada com ele. Era difícil
acreditar que fossem próximos.
Falando nisso... que tipo de clube alguém como o Than
frequentaria?
Marn olhou para o príncipe adormecido ao seu lado.
Quando o professor entrou, Than finalmente levantou a
cabeça da mesa, pegou seu caderno e o folheou. Quando
percebeu Marn o observando de relance, ele lançou um olhar
afiado. Marn deu um ganido baixo e rapidamente voltou a
olhar para o seu próprio livro. T-tão assustador.
Tudo bem, ele não queria saber de mais nada. Marn se
afastou um pouco mais de Than, baixou a cabeça e se
concentrou na lição, recusando-se a prestar atenção naquele
colega de classe novamente.
Continuou assim até o último período antes do intervalo
do almoço, quando o professor atribuiu um projeto em grupo.
Todos formaram seus grupos rapidamente. Marn ficou
sentado, imóvel, sem saber a quem deveria pedir para se
juntar. Ele se sentia um pouco ansioso. Não era que ele
odiasse trabalho em grupo — ele conseguia trabalhar com
qualquer um. Ele apenas não gostava do momento em que
tinha que andar por aí perguntando a este ou aquele grupo se
poderia se juntar a eles. Entrar em um grupo novo cheio de
estranhos o deixava tenso... e os deixava tensos também.
Aquela atmosfera estranha era algo que Marn esperava nunca
mais vivenciar.
— Tudo pronto!
— H-hein?
— Tudo feito! Aqui, escreve seu nome para eu poder
entregar a lista.
— ...
— Escreve logo, rápido. Estou morrendo de fome. Vamos
comer logo.
Marn tinha perdido a conta de quantas vezes tinha
pulado de susto hoje. Ele estava prestes a tocar em outro
colega de mesa para perguntar se poderia se juntar ao grupo
deles quando, de repente, um pedaço de papel foi enfiado em
suas mãos. Era Hem quem tinha se aproximado. Hem ergueu
as sobrancelhas com confiança, deu um joinha e sorriu. Marn
olhou para o papel. Já havia nomes escritos nele: Hem, Ying,
Ryu... e Than.
Espera. Eles queriam que Marn se juntasse a este grupo?
Um grupo com o Than nele?! Ele deu uma olhada furtiva para o
dono daquele nome. Than não prestava atenção em nada. Ele
jogou a mochila no ombro e estava prestes a sair da sala.
— Rápido! Se a gente se atrasar, meu fígado acebolado
com manjericão vai acabar.
— E-espera... T-tá bom! Escrevi, já escrevi!
Mesmo que ainda estivesse confuso, ter um grupo para se
juntar já era uma bênção. Marn não devia reclamar. Ele
conseguia trabalhar com qualquer um. Mesmo que Than
estivesse no grupo... Marn apenas tentaria o seu melhor para
não causar problemas. Ele faria o trabalho direito para não
levar bronca do Than de novo.
— Ok, vou lá entregar.
Hem saiu correndo com o papel. Ying deu um sorriso
malicioso e sussurrou para Marn descer logo. Ela parecia que
queria pregar uma peça no Hem só para ouvi-lo gritar. Marn
piscou chocado. Ele tinha acabado de perceber... eles o
estavam convidando para almoçar com eles. Esta foi a
primeira vez que alguém convidou Marn para se sentar à mesa
deles.
— Vamos, rápido.
— ... Tá bom...
Vovó... o Marn está sonhando?
Ele... ele estava prestes a ter amigos, certo?
Toc-toc.
— Marn, você ainda está aqui?
Marn levantou a mão em resposta. Era o professor Nathi.
Ele estava parado na porta e gesticulou para Marn vir. Ele
colocou a mão em concha ao redor da boca enquanto falava, e
Marn leu seus lábios. Quando percebeu que era sobre o tio
Karn, ele entrou em pânico e correu até lá. Mas ele
acidentalmente esbarrou direto em Than, quase caindo.
Felizmente, Ryu o segurou por trás. Marn também se
assustou — Than tinha subitamente corrido de volta para
dentro. Ele deveria estar descendo as escadas antes... O que
aconteceu? Por que ele de repente se virou e correu na outra
direção? Todos na sala congelaram quando viram Than pular
pela janela daquele jeito.
— ... Hah.
Marn ouviu o professor Nathi suspirar suavemente.
Quando Marn inclinou a cabeça em confusão, o professor
balançou a cabeça e rapidamente deu um sorriso
tranquilizador.
— Seu tio Karn está bem agora. Ele só estava se sentindo
mal. Minha mãe já levou comida e remédio para ele. Não se
preocupe, ele é forte. Deixe-o dormir. Ele vai se recuperar logo.
— Por favor, agradeça sua mãe por mim... eu realmente
me sinto mal por incomodá-la.
— Mm... bem, não é realmente um incômodo.
— O Marn estava tão preocupado com o tio Karn. Que
bom que não foi nada sério.
Nathi estendeu a mão e deu alguns tapinhas
reconfortantes no ombro de Marn. Ver a expressão de Marn
relaxando pouco a pouco o deixou aliviado também.
— Quando você chegar em casa, ele provavelmente já
estará se sentindo melhor.
— Sim... eu vou retribuir sua bondade algum dia,
professor.
— Não precisa. Não é nada. Eu só vim para te avisar. Vá
descansar.
Nathi deu outro tapinha no ombro de Marn antes de olhar
para os três colegas que tinham vindo convidar Marn para o
almoço. Marn ainda parecia confuso — não estava
acostumado com pessoas tocando nele de forma tão casual e
em uma proximidade tão grande.
Hem passou o braço em volta do pescoço de Marn para
arrastá-lo para baixo, mas imediatamente outro aluno bateu
na cabeça de Hem, reclamando em nome de Marn que ele
deixaria o novato desconfortável. Hem protestou alto, e eles
ficaram discutindo o caminho todo.
Enquanto isso, Ryu os seguia silenciosamente atrás com
duas mochilas. Toda a cena era caótica. Nathi piscou... e então
caiu na risada. Ele estava começando a entender tudo agora.
— Hem.
O garoto parou, virou-se e correu para ficar em frente ao
professor responsável.
— O que foi, professor Nathi?
— Cuide do seu amigo.
Hem inclinou a cabeça em confusão, mas depois de um
segundo ele entendeu. Um sorriso enorme se espalhou por seu
rosto. Ele deu um grande joinha e limpou a ponta do nariz em
sua pose confiante habitual. Ver ele agindo de forma tão
orgulhosa fez o professor relaxar também.
— Sem problemas! Fácil!
— Tenho certeza de que você se sairá bem.
— Não se preocupe com o Marn. Ele é muito mais fácil de
lidar do que o Than.
— Mm.
— Ele dormiu escondido no terceiro período hoje. Não
esqueça de dar uma palmada nele quando chegar em casa,
professor.
— Hahaha, contando fofoca de novo? Se ele te der bronca,
eu não vou te ajudar!
— Ah, ele me dá bronca o tempo todo — já estou
acostumado. Já vou indo! Se eu me atrasar, o fígado acebolado
com manjericão vai acabar!
Hem saiu disparado, deixando o professor Nathi parado
ali. Nathi voltou a olhar para dentro da sala de aula, os olhos
pousando na janela pela qual Than havia pulado. Ele pensou
nas palavras de Hem e murmurou suavemente:
— Ele tem razão... o Marn é realmente muito mais fácil de
cuidar.
6
— Bom dia, tio Karn, eu faço isso. Eu mesmo cuido disso.
— Tudo bem.
— Eu já ia fazer isso também.
— Eu disse que...
— Eu cuido disso sozinho!
Karn sentiu uma dor de cabeça latejante enquanto
observava o garoto correndo pela casa. Ele não conseguia
acreditar que ficar doente por apenas um dia tivesse
transformado Marn em uma coisinha tão ansiosa. Marn não
deixava Karn tocar ou pegar em nada; ele corria toda vez para
tomar a tarefa para si e fazê-la sozinho. Isso estava começando
a irritá-lo. Nunca em sua vida alguém tinha lhe ordenado que
ficasse parado assim, especialmente alguém vinte anos mais
jovem. Não havia a menor possibilidade de Karn tolerar aquilo.
Ele caminhou até lá, pegou o item de volta e disse para
Marn ir logo para a escola.
No começo Marn recusou, mas depois que Karn lhe deu
um olhar severo, as orelhas de Marn murcharam
instantaneamente. Ele se curvou, cumprimentou-o baixinho e
pedalou em sua bicicleta até sumir de vista. Karn soltou um
longo suspiro e sentou-se lentamente em uma cadeira. O que
deu naquele garoto? Agindo como se nunca tivesse visto
alguém ficar doente antes. Que dramático.
Já fazia dois ou três dias desde o incidente, mas Marn
ainda estava excessivamente preocupado. Karn não gostava
de ser cobrado sobre sua saúde, então acabava perdendo a
paciência e deixando Marn triste. Ele não era um adulto gentil
e tinha zero experiência em criar crianças.
Honestamente, ele era grato por Marn ser velho o
suficiente para cuidar de si mesmo até certo ponto. Ele nem
queria imaginar como seria se a criança que adotou fosse do
tipo que chora sem parar, faz birra ou se comporta mal.
Desobediente e problemático. Karn não tinha ideia de quantos
dias levaria até que ele levasse uma criança dessas direto de
volta para onde a buscou, mas com certeza seria o mais rápido
possível.
— Estou muito preocupado com o tio Karn. Se o senhor
estiver cansado ultimamente, por favor, descanse, está bem?
Não saia para vender leite de soja ainda. Eu prometo que vou
ser bonzinho. Vou tentar gastar o mínimo de dinheiro possível.
Gastar menos? O quão pouco ele precisava gastar? Marn
já quase não gastava dinheiro nenhum. É claro que Karn
notou que, ultimamente, Marn levava massa frita para a
escola no café da manhã e só bebia um ou dois sacos de leite
de soja. Ele agia como se Karn o estivesse criando na pobreza,
o que não era o caso. Karn dava a ele dinheiro mais do que
suficiente todos os dias, o bastante para que uma criança
comum desperdiçasse um pouco se divertindo. Mas Marn
nunca usava dessa forma. Ele guardava. Economizava.
Na verdade, economizava tanto que evitava gastar com
comida ou qualquer coisa desnecessária. Ele estava sendo tão
frugal que a pessoa que dava a mesada sentia vontade de dar
um cascudo nele para ver se ele tomava juízo. Se continuasse
assim, Marn acabaria desnutrido. Essa deveria ser sua fase de
crescimento; havia tantas coisas boas para comer. Por que
passar fome sem motivo? Era enfurecedor.
— Um dia eu deveria encontrar algo para agradecer à mãe
do professor Nathi. Foi muita gentileza dela vir cuidar do
senhor aqui em casa.
— O quê?
— Bom, a mãe do professor Nathi.
— ...
— Ela veio cuidar do senhor, não veio? Ela trouxe comida
e remédios também... Hum... talvez o tio Karn tenha esquecido
porque estava doente.
Marn falava com uma inocência tão pura. Karn só pôde
revirar os olhos. Ele não queria falar palavrão na frente do
garoto, mas, honestamente, tanto faz. Esquece. Não havia
necessidade de pensar demais nisso.
Aquele professor maldito...
Sério. Mentindo até para uma criança como o Marn. Que
tipo de professor era aquele? Quem confiaria seus filhos a ele?
— Atchim!
— Professor Nathi, o senhor está pegando um resfriado?
— Não faço ideia, só entrou alguma coisa no meu nariz.
— Por favor, cuide da sua saúde também. O tio Karn
acabou de ficar doente. O tempo não tem estado bom
ultimamente; está quente e úmido, parece que vem
tempestade por aí.
— Sim, sim, eu entendo.
Marn riu baixinho antes de entregar sua lição de casa. Ele
fez uma reverência educada e saiu da sala dos professores.
Ele andava bem ocupado ultimamente. Como aluno
transferido que entrou no meio do semestre, suas notas não
eram as mesmas que as dos outros. Se quisesse boas notas,
precisava compensar isso. Muitos professores tinham passado
trabalhos antigos para ele completar; não apenas matemática
com o professor Nathi, mas inglês, química, biologia e muito
mais. Sua lição de casa diária já era muita, e agora ele tinha as
tarefas antigas também.
Marn realmente não tinha tempo livre nenhum.
Ele voltou para descansar em sua sala de aula. Era hora
do almoço e a maioria dos alunos tinha descido para comer.
Apenas Marn permaneceu, sentado sozinho em sua mesa. Seu
caderno estava aberto. Ele espreguiçou os braços um pouco e
depois descansou a cabeça na mesa, virando-se para olhar
pela janela.
Embora fosse primavera, nuvens cinzas e espessas
pairavam no céu, um sinal de chuva pesada. Era época de
chuvas. Marn verificava a previsão do tempo diariamente; ele
provavelmente precisaria trazer um guarda-chuva ou capa de
chuva para a escola de agora em diante.
Uma brisa fresca roçou seu rosto, confortando-o. Ele
fechou os olhos, pretendendo descansar por apenas cinco
minutos. Mas a exaustão o puxou para um cochilo mais
profundo.
Ele não sabia que seu rosto adormecido estava sendo
observado por três colegas que tinham acabado de voltar do
almoço: Ryu, Ying e Hem.
Eles o notaram cochilando sozinho e ficaram curiosos,
aproximando-se juntos.
— Não se atreva a mexer com ele, Hem.
— O quê? Diga isso para si mesma, dona Lua Cheia.
— Parem de discutir, vocês dois. Vão acabar acordando
ele. Deixem o Marn dormir.
— Eu nunca vi ele dormindo na mesa antes. Se fosse o
Than, com certeza. Ah, talvez sentar do lado do Than todo dia
tenha feito ele pegar os hábitos preguiçosos do Than.
— Agora você está inventando coisas.
— Mmm...
Ouvindo as vozes por perto, o garoto acordou lentamente.
Marn piscou confuso e sentou-se ereto. Ele inclinou a cabeça
ao ver os três reunidos ao seu redor.
— Vocês precisam de alguma coisa? Ah...! Já é quase uma
hora? Eu caí no sono, não foi? Eu queria terminar esta página
antes do almoço acabar... mas não terminei.
Ele esfregou os olhos com cansaço. Ele realmente tinha
muito trabalho sobrando. Não queria levar nada para casa;
isso tiraria o tempo que ele passava ajudando o tio Karn. Hoje
em dia, o único momento em que Marn conseguia fazer a lição
de casa era na escola ou depois das nove da noite, porque no
resto do tempo ele tinha que ajudar a preparar os itens para a
venda do dia seguinte. Ele verdadeiramente não tinha tempo
livre.
— Você tem tanto trabalho assim?
— Tenho... e tem o projeto em grupo também. Quando
vocês decidirem se reunir, é só me avisar. E... se possível,
podem me avisar com antecedência? Estou um pouco
ocupado. Vou tentar me liberar para poder ajudar no trabalho
em grupo.
Os amigos suspiraram. Vendo o rosto cansado de Marn,
Ryu ficou curioso. Com o que exatamente Marn gastava seu
tempo todos os dias? Ele entendia que as tarefas de
compensação levavam tempo, mas Marn claramente tinha
algo mais para fazer fora da escola; talvez um emprego de meio
período ou trabalho em casa.
Mesmo agora, Marn sorria enquanto ainda parecia
exausto. Aquele cochilo de antes devia significar que ele estava
muito, muito cansado.
— Acho que vai ser neste sábado. Decidiremos o lugar
depois.
— Podemos nos encontrar na escola mesmo. É mais fácil
— sugeriu Hem.
Usar a escola era conveniente mesmo nos fins de semana;
ninguém os impediria de ficar no pátio sob o prédio. Os
garotos do clube de futebol faziam isso o tempo todo.
— É, a escola está bom. Nossa, Hem, você realmente teve
uma ideia inteligente.
Página 7
— Quem seria burro como você, dona Lua Cheia.
— Ei!
— Chega. Quando vocês dois vão parar de brigar? Estão
agindo como se tivessem pisado na cauda um do outro.
— Ryu!!
Marn riu sem jeito enquanto os três continuavam
discutindo. Logo, porém, todos ficaram em silêncio,
congelando ao ver outro colega entrando: Than.
Embora já se conhecessem há algum tempo, Than ainda
agia de forma fria com Marn, exatamente como no primeiro
dia. Ele nunca iniciava uma conversa, embora sentassem
juntos todos os dias.
Não, Than mal falava com qualquer pessoa. Mesmo com o
trio, Marn raramente o ouvia falar. Além de reclamações e
resmungos... isso era o que ele mais ouvia de Than.
— Than, vamos nos encontrar na escola este sábado para
fazer o projeto em grupo.
— É.
Than deu uma resposta curta, deixou sua mochila e
deitou com o rosto na mesa como se estivesse farto do mundo.
Como alguém podia ser tão indiferente a tudo...?
Oh! Marn quase esqueceu seu remédio.
Ele abriu rapidamente a mochila, pegou o pacote, abriu
sua garrafa de água e engoliu as pílulas. Os três colegas
observaram até ele terminar. Hem, curioso como sempre, falou
primeiro.
— Marn, posso perguntar uma coisa?
— Sim?
— Desde quando você toma remédio assim?
— Hum... provavelmente desde a escola primária. Minha
avó me levou ao médico. Foi quando comecei com os remédios.
— Você descobriu que tinha o vírus na escola primária?
— Não. Eu sei desde que era pequeno. Mas acho que
comecei com os remédios naquela época porque já tinha idade
para tomá-los. Os médicos tinham que monitorar meu corpo
regularmente. Ele não pode dar pílulas para uma criança do
jardim de infância, haha.
— E é verdade que você tem que tomar a vida inteira?
— Sim. Ainda não tem cura, então tenho que continuar
tomando. Mas tenho certeza de que algum dia pessoas
inteligentes vão encontrar uma cura completa.
Tão otimista... quase inacreditável.
Todos os três colegas pensaram a mesma coisa. Marn não
parecia em nada com alguém que tivesse uma doença grave.
Sem ele dizer, ninguém jamais adivinharia que ele carregava
um vírus. Ele era brilhante, alegre, até sorria enquanto falava
de sua condição como se fosse apenas um resfriado. Ele tinha
apenas dezessete anos. Não tinha medo?
Hem ergueu uma sobrancelha, olhando entre Marn e
Than, que eram opostos totais, mas acabaram sentados um ao
lado do outro. Ele não sabia de quem ter mais pena: de Than,
que provavelmente odiava ter um humano-sol radiante ao seu
lado, ou de Marn, que tinha que sentar ao lado de alguém que
parecia pronto para explodir a qualquer hora.
— Pfft!
— Do que você está rindo? — Ying cruzou os braços,
confusa. Hem caiu na gargalhada sem motivo aparente. Marn
piscou, desorientado, enquanto Hem dava tapinhas em seu
ombro com um sorriso estranhamente alegre que fez Marn
estremecer por dentro.
— Você ainda tem uma semana, Marn.
— Uh... para quê?
— Escolher um clube.
— Você ainda está nisso!? Dá um tempo, Hem!
— Alguém como você é perfeito para o clube de relações
públicas.
— Ah... haha...
— A gente se vê lá, lindinho.
Marn tinha procurado informações sobre o clube de RP
antes. Ele não achava que conseguiria lidar com aquilo. Ele
não era o mesmo tipo de pessoa que o Hem. Talvez
conseguisse lidar com tarefas como cuidar da playlist de
música ou carregar equipamentos, mas os membros do clube
eram todos falantes demais. Marn não achava que conseguiria
se encaixar. Então ele recusou educadamente o convite de
Hem. Hem pareceu decepcionado, mas não insistiu.
Ele recebeu as descrições dos clubes dos professores e
saiu observando cada um.
Futebol? Provavelmente não.
Vôlei? Não.
Dança tradicional? Impossível.
Clube de música, onde Ryu e Ying estavam? Também não
era para ele.
Ele vagou, imaginando o que escolher.
Então ele chegou a um lugar que nunca tinha visitado
antes.
A piscina.
Embora a escola não fosse grande, ela tinha uma
característica rara: uma piscina enorme. Tecnicamente não
pertencia à escola; a comunidade tinha arrecadado dinheiro
para construí-la, querendo que as crianças aprendessem a
nadar. Havia muitos tanques e rios por perto, incluindo o
grande tanque que Marn encontrou quando se mudou para
cá. Todos os anos, as famílias perdiam crianças por
afogamento, especialmente na primavera. Por isso, a
comunidade apoiava as aulas de natação para todos os
alunos.
Todas as crianças estudavam natação da escola primária
até o ensino fundamental II. No ensino médio, a aula era
opcional. Apenas membros do clube e aqueles que pagavam
mensalidades podiam usar a piscina.
Marn ficou parado, com os reflexos das ondulações em
seu rosto. O sol brilhava através do telhado de vidro, fazendo a
água azul cintilar lindamente.
Incrível... Os nadadores do clube deviam ver isso todos os
dias. Que pena que ele não sabia nadar. E mesmo que
soubesse... se as pessoas soubessem do vírus em seu corpo,
quem o deixaria compartilhar a mesma piscina?
Ele estava prestes a se virar quando algo chamou sua
atenção.
Do outro lado da piscina, sentado sozinho, estava um
garoto.
Aquele garoto... não era o Than?
Than estava completamente imóvel, com os olhos sem
foco, encarando profundamente a água azul. Ele não sabia
que estava sendo observado.
Marn não sabia o porquê...
Mas os olhos de Than pareciam insuportavelmente
tristes.
— Uau... algo cheira muito bem!
— Você já chegou?
— Sim! Estou aqui! Onde está a Wa? Vem cá, sua
pestinha!
— Oi, P'Nathi.
O irmão mais velho largou a mochila e correu para puxar
sua irmã mais nova, Warin, para um abraço apertado, dando
tapinhas em suas costas com carinho. Warin franziu a testa,
desconfortável, mas deixando que ele a abraçasse pelo tempo
que quisesse. Depois de vários minutos, ele finalmente a
soltou. Nathi olhou para a irmã com orgulho e depois passou o
braço ao redor dela enquanto seguiam para a mesa de jantar,
onde a mãe deles tinha preparado um jantar completo.
Smack!
— Ai, mãe!
— Lave as mãos antes de comer.
A mãe deles suspirou. Mesmo algo tão simples quanto
lavar as mãos ainda precisava de lembretes. Um filho já estava
trabalhando. A outra era uma estudante universitária. Eles
raramente conseguiam ficar juntos assim. Nathi lecionava em
uma escola próxima, mas morava em um apartamento em vez
de morar em casa. Warin ficava em um dormitório perto da
universidade dela. Ela só voltava para casa cerca de uma vez
por mês.
Havia um irmão mais velho, uma irmã mais velha...
apenas o filho mais novo ainda morava em casa. Mas em
alguns anos, ele também iria embora. No fim, a mãe deles seria
a única que restaria na casa. Três filhos; mas por que tudo
parecia tão solitário?
— Ele já comeu?
Eles não precisaram de um nome para saber a qual irmão
Nathi se referia. Warin assentiu, apontando para um prato
intocado.
— Ele pegou a comida dele e correu para o andar de cima.
— Tão extremo assim, hein? Haha...
— Leve alguns biscoitos para ele. Bata na porta e
entregue.
— Se eu fizer isso, ele pula pela janela. É o segundo
andar! Ele vai quebrar as pernas.
— Ele não ousaria fazer algo assim. Isso já seria demais.
— Ele fez sim.
— ...
— Da última vez, quando eu fui para casa, ele subiu no
telhado para fugir.
— Você está falando sério?
O queixo de Warin caiu. Ela não conseguia acreditar que
o que seu irmão mais velho dizia pudesse ser verdade. Estava
realmente tão ruim assim...?
— Estou só brincando.
— Meu Deus, não brinque assim, P'Nathi! Eu realmente
acreditei em você. Você me assustou.
Nathi soltou uma risada suave e deixou sua irmã mais
nova continuar comendo. Ele trocou olhares silenciosos com a
mãe. Nenhum dos dois disse mais nada. Eles simplesmente
deixaram o assunto desaparecer.
A atmosfera na sala parecia mais viva do que o normal
porque ambos os filhos estavam em casa e conversando.
Warin não voltava com frequência, então ela tinha toneladas
de histórias; reclamando de amigos, reclamando de
professores. Quanto a Nathi, embora morasse em um
apartamento ali perto, ele costumava estar ocupado demais
para vir para casa e visitar. Além disso... ele realmente não
conseguia mais ficar aqui com frequência.
Porque Nathi simplesmente não conseguia morar aqui.
— Então, como vai a competição?
— Estou me preparando. Treinando muito pesado
ultimamente.
— Certifique-se de equilibrar seus estudos também,
pequena sereia.
— Sim, senhor Professor — ela respondeu brincando.
Nathi a provocou com um sorriso e deixou Warin voltar
para o quarto para descansar. Ele observou as costas da irmã
com orgulho. Warin não era apenas uma estudante
universitária comum; ela era membro da seleção nacional de
natação da Tailândia, tinha competido em muitos torneios
importantes desde a infância e sempre foi excelente.
Ela demonstrava promessa como uma garota sereia desde
pequena. Ela entrou na universidade por meio de uma cota de
atleta. Quando o assunto era natação, ela era imbatível. Na
época em que o pai deles ainda era vivo, ela tinha aprendido
muito com ele. De certa forma, ela estava seguindo
exatamente os passos dele; tornando-se uma nadadora de
nível nacional, exatamente como ele fora.
Ela era verdadeiramente talentosa. Se o pai deles ainda
estivesse vivo, ele provavelmente estaria se gabando da filha
para metade da vizinhança.
Depois de arrumar suas coisas, Nathi voltou para
procurar sua mãe. Ele parou ao vê-la pegando panos limpos e
limpando os troféus na grande vitrine, removendo-os
cuidadosamente e limpando a poeira que os tinha deixado
opacos com o tempo.
— Eu quase esqueci que estes troféus estavam aqui.
Nathi riu baixinho e pegou uma das fotos emolduradas,
limpando a poeira com o polegar. A foto revelava dois
garotinhos parados lado a lado, encharcados da cabeça aos
pés, sorrindo orgulhosos com medalhas penduradas no
pescoço. Nathi ficou ali sentado, encarando a foto com um
sorriso agridoce.
Era uma vez, ele também esteve onde Warin estava agora.
Talvez até mais longe.
Os três irmãos — Nathi, Warin e Than — todos nasceram
com o mesmo sonho: tornarem-se os melhores nadadores,
exatamente como o pai deles.
Mas agora... apenas um deles ainda estava seguindo em
frente.
— Que desperdício, não é...?
Sua mãe parou e virou-se para o filho mais velho. Vendo a
expressão no rosto dele, ela deixou tudo de lado e estendeu a
mão, pegando a dele e dando um aperto gentil.
Nathi sorriu de leve, devolveu a foto ao seu lugar no
armário e soltou um longo suspiro. Ele olhou para a escada,
afastou qualquer sentimento que estivesse surgindo e mudou
de assunto. O tempo passou até tarde da noite. O céu lá fora
estava completamente escuro. Estava muito tarde; Nathi
precisava voltar para seu apartamento.
— Dirija com cuidado, está bem?
— Sim, senhora. E a senhora não deve ficar acordada até
muito tarde, mãe; não fique doente. É época de chuvas agora,
não saia na chuva.
— Diga isso a si mesmo.
— Vou indo então. Venho visitar de novo quando estiver
livre.
— Mmm.
— Mãe.
— ...
— Por favor, cuide do meu irmão.
— Mmm.
Nathi deu um passo à frente e abraçou sua mãe uma
última vez antes de se despedir. Ao abrir a porta do carro, ele
olhou para o segundo andar da casa.
O quarto do lado oeste estava completamente escuro.
Sempre estava; toda vez que ele voltava para casa. Quantos
anos já faziam agora...? Cinco anos, provavelmente. Cinco
anos desde que ele perdeu o irmãozinho que conheceu um dia.
Ele não sabia se algum dia haveria uma chance de tê-lo de
volta.
— Você errou esta aqui.
— Ti... tio Karn?
Marn se sobressaltou um pouco. Ele estava fazendo sua
lição de casa de inglês quando a voz de seu tio veio de trás.
Aqueles olhos afiados escanearam as respostas na página e,
quando ele encontrou o erro, apontou para ele imediatamente.
— As pessoas levantaram preocupações sobre este
problema...
Os olhos de Marn se arregalaram ao ouvir a pronúncia de
inglês de seu tio. Ele se virou para olhar para ele,
genuinamente impressionado. Ele nunca soube que o tio Karn
falava inglês tão fluentemente; ele parecia entender bem e
falar com facilidade.
— Corrija assim.
— Tio Karn, o senhor é incrível.
— ...
— Hum... posso perguntar uma coisa? O senhor se
formou na universidade? E em qual faculdade o senhor
estudou?
Marn perguntou com empolgação, os olhos brilhando.
Mas quando viu aquele olhar severo, fechou a boca
instantaneamente. Ele não se atreveu a perguntar de novo. Às
vezes ele esquecia; ele não era tão próximo do tio Karn. Eles
viviam juntos há pouco mais de um mês, mal se conheciam.
Fazer perguntas demais provavelmente não era bom,
especialmente porque o tio Karn detestava pessoas falantes.
— Sei falar um pouco de inglês, mas eu não sou bom
nisso como o senhor. Só de ouvir o senhor agora pouco... o
senhor foi incrível.
— ...
— Espero que algum dia eu possa ser tão bom quanto o
senhor.
— Continue praticando. Você chegará lá.
— Minha avó costumava me ensinar.
— ...
— Ela me dizia que, mesmo que eu não fosse bom em
algo, estava tudo bem. Não importa se eu não puder vencer
mais ninguém. Apenas ser eu mesmo já é o melhor.
— Sério?
— Ela dizia que, contanto que eu pudesse ser bom o
suficiente para cuidar de mim mesmo, isso bastava. Mas eu
ainda quero melhorar. Então vou estudar mais. Muito
obrigado, tio Karn, por me ajudar com a lição de casa hoje.
Marn agradeceu com um sorriso radiante, depois
arrumou suas coisas, virou-se e subiu as escadas, deixando
apenas o tio Karn sozinho no primeiro andar.
Os arredores estavam em completo silêncio. A esta hora
da noite, quase não havia barulho nenhum. O sentimento de
solidão veio cumprimentá-lo mais uma vez.
Ele se afastou da mesa e caminhou lentamente até parar
em frente à foto emoldurada da idosa. Ele ficou parado, os
punhos se fechando, os olhos tremendo. Levou vários minutos
longos antes que ele conseguisse forçar sua voz a sair.
— Minha avó costumava me ensinar.
— ...
— Ela me dizia que, mesmo que eu não fosse bom em algo,
estava tudo bem. Não importa se eu não puder vencer mais
ninguém.
— ...
— Apenas ser eu mesmo já é o melhor.
— Ela ensinou bem o neto dela.
— ...
— Não ser bom está tudo bem, hein? Não ser capaz de
competir está tudo bem? Ser imperfeito está tudo bem, é isso?
— ...
— Ser você mesmo é o melhor...
— ...
— Como ela pôde dizer isso...?
— ...
— Como ela se atreveu a dizer algo assim?
7
Finalmente, o sábado chegou. Marn tinha um encontro
marcado com o grupo de Than. Hoje eles precisavam ir à
escola para trabalharem juntos no projeto de grupo. É claro
que Marn tinha se preparado minuciosamente — ele não
queria causar problemas ou ser um fardo para ninguém.
Antes do dia da reunião, ele já tinha reunido uma boa
quantidade de material. Ele anotou cada pequeno detalhe em
seu caderninho.
A tarefa era criar um mural informativo — basicamente
um cartaz em uma placa de polionda, como os típicos projetos
de ensino médio: cortar, colar, decorar e entregar ao professor.
Quem fizesse o trabalho parecer bonito e caprichado
provavelmente ganharia um dez direto.
Bem... talvez não fosse tão extremo assim, mas ainda era
um projeto bem importante. Se Marn quisesse terminar o
segundo ano com boas notas, precisava levar esse trabalho a
sério.
— Já estou indo para a escola, tio Karn.
— Hum.
— Se eu terminar cedo, volto correndo para te ajudar, tá
bom?
Marn fez um gesto respeitoso de cumprimento ao tio
Karn. Ainda era uma manhã de dia útil para os adultos. Karn
era muito trabalhador — ele nem descansava aos sábados.
Acordava cedo, preparava sua panela de sopa e os
ingredientes, e então empurrava seu carrinho até o ponto de
venda habitual. Como era fim de semana, provavelmente
levaria mais tempo para vender tudo; pouca gente acordava
cedo aos sábados, de qualquer forma.
Era dia de folga tanto para adultos quanto para crianças
— todo mundo ainda estava esparramado na cama.
Marn pedalou sua bicicleta até a escola, olhando ao redor
pelo caminho. Esta era uma comunidade pequena e pacífica
na periferia da província. Era um pouco longe do
desenvolvimento — não havia grandes shoppings para
passear, e até mesmo uma loja de conveniência bem
abastecida ficava a vários quilômetros de distância. Mas para
Marn, isso não era problema nenhum. Ele conseguia viver
muito bem. Muito bem mesmo!
Mesmo sem muitas conveniências modernas, quando ele
erguia o rosto e olhava para o céu azul límpido, as árvores
verdes exuberantes e a silhueta distante das montanhas — a
bacia hidrográfica vital que sustentava todo o distrito — era
revigorante. Ele ouviu dizer que havia uma enorme represa lá
no alto.
Por causa disso, canais de irrigação ladeavam as estradas
por toda parte; alguns fluíam para as plantações, outros se
conectavam a outras vias navegáveis. Vivendo tão perto da
represa, eles nunca precisavam se preocupar com a falta de
comida. Podiam plantar coisas o ano todo.
Ele ficou um pouco surpreso que o tio Karn tenha se
mudado para tão longe — centenas de quilômetros da antiga
casa da avó. É muito longe...
Talvez fosse por isso que ele não voltava para visitar.
Provavelmente era muito inconveniente viajar. Marn presumiu
isso sozinho, balançando a cabeça como se concordasse que
aquele lugar era definitivamente longe demais para o tio Karn
visitar a própria mãe.
Não demorou muito para Marn chegar à escola.
Exatamente como ele pensou, a manhã de sábado na
escola estava extremamente silenciosa. Sem multidões
barulhentas de alunos. O silêncio parecia um pouco solitário.
Parecia que ele tinha chegado cedo demais — além dele, o
único que estava lá era Chaokuey, o cachorro preto da escola.
Parecia que ele estava prestes a caminhar em sua direção.
Chaokuey era manso e nunca mordia ninguém, era
amigável com todos. Embora Marn já o tivesse acariciado uma
vez, isso não significava que seu medo de cachorros tivesse
desaparecido. Ele deu um sorriso forçado para o animal e se
afastou.
Sem nada mais para fazer, Marn esperou sozinho no local
de encontro, balançando as pernas, com as mãos apoiadas no
banco enquanto olhava para cima através da sombra da
árvore acima dele.
O ar da manhã estava perfeito, a luz do sol filtrando
suavemente pelas folhas verdes. Era revigorante. Ele fechou os
olhos e aproveitou a brisa fresca até que uma voz distante
chamou seu nome. Ele olhou para cima e viu Hem, então
rapidamente acenou de volta.
— Você chegou cedo, hein.
— Oi...
— O Ryu e a Ying chegam logo. Eles estão comprando
lanches agora.
— Tudo bem.
— Você não precisa ser tão formal comigo, Marn.
— Ah... desculpa, é que eu já estou acostumado.
— Sua família é rígida?
— Não muito. Minha avó me ensinou a falar com
educação com os adultos. Mas, além dela, eu não falava muito
com ninguém, então o hábito ficou.
Hem soltou um som de compreensão e arqueou levemente
a sobrancelha, analisando secretamente o garoto novo da
cabeça aos pés.
Não importava como olhasse, Marn não parecia alguém
que se encaixaria no grupo deles de jeito nenhum. Ele
emanava tanto a aura de um garoto gentil e bem-comportado
que um encrenqueiro como Hem se sentia até meio travado.
Marn parecia radiante e inocente. Por fora, ele era apenas
um típico aluno exemplar. Ninguém esperaria que, dentro de
seu corpo, ele carregasse um vírus perigoso. Mas o próprio
Marn não parecia ter medo disso. Ele nem sequer guardava
ressentimento. Não importava como os outros o olhassem —
se falavam mal dele ou o tratavam como se fosse contagioso —
Marn nunca se ofendia. Ele sorria brilhantemente como
sempre.
Ele não tinha vergonha de dizer às pessoas o que ele era.
De certa forma, era admirável. Hem pensou que, se as
situações estivessem invertidas, ele jamais seria capaz de fazer
o que Marn fazia. Eles tinham a mesma idade, mas a coragem
deles estava em mundos diferentes.
Enquanto esperavam, Marn e Hem cortaram alguns
papéis previamente. Cerca de dez minutos depois, Ryu e Ying
chegaram, trazendo lanches para todos. Marn congelou um
pouco quando Ying abriu o pacote de salgadinhos e o colocou
no meio, virando-o para ele — convidando-o a comer do
mesmo pacote. Marn nunca tinha comido lanches junto com
amigos antes...
Porque todos tinham medo de pegar o vírus dele.
Ninguém ousava chegar perto. Eles o evitavam. Esqueça
compartilhar lanches — apenas entregar algo a ele fazia com
que tivessem vontade de passar álcool nas mãos depois. Doía
em Marn que as pessoas o tratassem como se ele fosse o
próprio vírus.
Ele não era uma doença.
Ele não era nojento.
Ele era o Marn. Apenas mais um garoto como todos os
outros.
Ele também queria felicidade.
— Você acha que o Than vai aparecer hoje?
— Como eu vou saber? Aquele lobo solitário, quem
consegue rastrear ele?
— Você nunca vai visitar ele em casa?
— De jeito nenhum. O Ryu pedalando para lá e para cá
desse jeito? Exaustivo.
— Ah é, esqueci que você traz um porco sempre que anda
de bicicleta. Vish!
— Sua nanica! Você não consegue ser normal nem
quando está comigo, é?!
— Ai... Ryu... ajuda...
O garoto de óculos suspirou. Aqueles dois brigavam toda
vez que se encontravam, discutindo sem parar. Ele olhou para
o garoto novo, que parecia querer pará-los, mas não sabia
como. O rosto dele estava cheio de preocupação. Claramente,
levaria um tempo até que Marn se acostumasse com o caos
deles.
— Sua pirralha! Ying!
— O que foi!
— Já chega. Podemos começar a trabalhar?
— Tsc.
— Vem aqui.
Ryu suspirou, pegou o pulso de Ying e a fez sentar ao lado
dele. Os dois recuaram, mas ainda se encaravam como gatos
irritados. Ryu massageou as têmporas e entregou o pacote de
salgadinhos para Ying, esperando que isso parasse a
discussão.
Marn soltou uma risadinha sem jeito, sem saber o que
dizer, baixando a cabeça para se concentrar no projeto.
Quanto mais cedo terminasse, mais cedo poderia ir para casa
ajudar o tio Karn. Depois de quase meia hora, Marn parou e
olhou ao redor. Ryu percebeu.
— Procurando alguma coisa?
— Hum... cadê o Than?
— Não faço ideia. Ele provavelmente não vem.
Hem respondeu secamente, dando de ombros como se
estivesse acostumado. Than desaparecer do trabalho em
grupo parecia normal para eles.
Marn imediatamente franziu a testa.
— Isso não está certo. Este é um trabalho em grupo. O
Than deveria ajudar também.
Ying e Hem trocaram olhares, silenciosamente surpresos
por o garoto novo ter coragem de dar um sermão no Than.
Normalmente, Marn parecia quieto e pacífico — não era do tipo
que respondia.
No entanto, agora ele estava franzindo a testa e
reclamando do Than sem medo. Apesar de que, antes disso,
todos tinham visto o quanto ele estava apavorado com o Than.
Apenas algumas frases duras dele, e Marn praticamente
encolhia até sumir. E agora? O Than não estava aqui, então o
Marn ficou corajoso de repente?
— Alguém consegue falar com o Than?
— Ei, garoto novo... o Than não é alguém que você
consegue rastrear sempre que dá vontade, sabe.
Hem deu um sorriso de lado, largou o que estava
segurando e apoiou o queixo na mão. Sua expressão tornou-se
estranhamente alegre, e o brilho em seus olhos carregava
tanta travessura que Marn sentiu um pequeno calafrio na
espinha.
— Mas nós marcamos de fazer o trabalho em grupo.
Agendamos este dia com antecedência. Ele deveria vir no
horário. Já faz quase uma hora de atraso. Se for assim... não
acho que esteja certo de jeito nenhum.
— E o projeto de grupo...
— Esperar um pouco mais não vai te matar.
— ... !
— O quê, está com medo de não conseguir me dar um
sermão?
Marn estremeceu quando a voz gélida veio de trás dele.
Ele não fazia ideia de quando Than tinha chegado, mas, pelo
momento, provavelmente tinha ouvido cada palavra.
Agora, Marn entendia por que Hem estava sentado ali
com aquela expressão — havia alguém parado atrás dele o
tempo todo.
Assim, num instante, cada gota de coragem desapareceu.
Marn apertou os lábios firmemente e imediatamente baixou a
cabeça, concentrando-se intensamente na sua parte do
trabalho. Than não disse nada. Ele simplesmente passou
caminhando, sentou-se no lado oposto, ao lado de Ryu, e
bateu com uma garrafa na mesa. Marn encolheu-se ainda
mais.
Bem... como ele ia saber que o Than estava parado atrás
dele?! Ele estava tão atrasado que seria impossível não
comentar sobre isso. Este era um projeto em grupo, não
individual.
Ser pontual era o básico da cortesia. Fazer todo mundo
trabalhar enquanto esperavam por ele assim não era bom. Um
pouco de atraso tudo bem, mas esse atraso todo não estava
certo. Mesmo que Marn tenha se calado, ele não achava que
nada do que disse antes estivesse errado.
Marn suspirou baixinho consigo mesmo. Lá vamos nós de
novo... Ele tinha certeza de que, depois disso, acabaria
passando o resto de sua vida escolar sozinho. Talvez este fosse
o último projeto em grupo para o qual alguém o convidaria.
Ninguém ia querer incluí-lo da próxima vez. Hem o
convidou desta vez — foi a primeira vez que alguém o chamou
para um grupo — mas ele estragou tudo. No começo, Than era
o único que não gostava dele. Entretanto, agora que todos o
ouviram reclamar, poderiam pensar que ele era do tipo que
fofocava ou falava mal dos outros pelas costas. Mas... mas o
Marn realmente achava que o Than não deveria ter feito
aquilo.
Ele suspirou de novo. Não adianta falar. Ele só causaria
mais problemas. Ficar quieto era melhor. Ele não deveria ter
dito nada. Ele conhecia o Than? Não. Eles eram próximos?
Não. Ele trouxe problemas para si mesmo de novo. Hem notou
o olhar sombrio no rosto do garoto novo.
Embora Marn não tivesse dito uma palavra, era óbvio que
ele estava se culpando. Hem balançou a cabeça levemente e
olhou para Than — o vilão do grupo — sentado ali com o rosto
inexpressivo, trabalhando em silêncio enquanto emanava
uma energia fria e sombria.
— Peça desculpas a ele.
Than franziu a testa. Hem esticou o braço e segurou a
cabeça dele, empurrando-a gentilmente como se o forçasse a
se curvar e pedir desculpas ao Marn.
— Você realmente não foi legal hoje, Than. Chegando
atrasado para o trabalho em grupo.
— Ah... t-tudo bem. Não precisa me pedir desculpas.
Marn imediatamente levantou a cabeça e acenou com as
mãos freneticamente. Por acidente, ele fez contato visual
direto com Than — e naquele instante, pareceu que a
primavera tinha sido substituída por uma nevasca, fria até os
ossos. Ele não se atreveu a dizer mais nada, abaixando a
cabeça novamente para continuar trabalhando.
— Vou contar isso para o seu irmão. Só espera.
— Cala a boca.
Felizmente, este era um projeto de grupo grande. Mesmo
que Marn tivesse problemas com Than, isso não afetava o
fluxo de trabalho.
Todos os outros ainda estavam lá. A atmosfera na mesa
continuava produtiva. Hem não parava de contar piadas; às
vezes, ele se virava para implicar com Ying.
Mesmo que as provocações fossem pesadas, isso
mantinha o clima leve.
Marn não se sentia nem um pouco desconfortável e
conseguia continuar trabalhando. Às vezes, ele olhava
acidentalmente para Than e, ao ver a aura fria ainda lá,
murchava um pouco de novo.
O tempo passou até perto do meio-dia.
Marn percebeu mais alunos entrando no terreno da
escola — atletas, dançarinos, crianças do teatro ensaiando.
Ele ouvia vozes de longe. Olhou para o seu grupo; o projeto
deles estava quase concluído. Eles trabalharam a manhã toda.
Finalmente, estava ficando lindo — não apenas uma folha de
papel colorido. Marn sentiu-se genuinamente orgulhoso e deu
um sorrisinho.
Arranha, arranha.
Hum? Que som era esse? Talvez ele tivesse ouvido
errado...
Arranha, arranha.
Marn congelou. Ele abaixou as mãos lentamente e olhou
debaixo da mesa. Os outros fizeram o mesmo, todos
abaixando-se ao mesmo tempo, encarando a fonte do barulho.
Ninguém imaginaria que, enquanto trabalhavam
tranquilamente sob uma árvore, um pato marrom, com cerca
de um joelho de altura, apareceria por ali, grasnando de forma
estranha debaixo da mesa deles.
— Ei! Ei!
Todos levantaram a cabeça, encarando um aluno mais
novo que corria em direção a eles, acenando freneticamente. A
expressão do garoto mostrava puro desespero.
— P'Hemmm! Me ajuda!
— O que tem de errado com você? E por que você está na
escola em um sábado? O que está acontecendo? — Hem
claramente o conhecia bem — o garoto correu direto para ele
para se agarrar em seu braço.
O novato fez um bico, parecendo que ia chorar, e apontou
para o pato marrom que agora circulava a mesa deles.
— Eu... eu deixei os patos fugirem do cercado... todos eles
saíram... buá...
— Mas que droga — como você deixou isso acontecer?!
— Eu estava no turno de alimentar os patos hoje. Fui
fazer xixi por um instantinho e esqueci de fechar o portão...
então... todos eles fugiram...
Marn não estava entendendo muito bem, sentado confuso
entre os alunos veteranos. Pelo que percebeu, os alunos do
ensino fundamental ali tinham uma aula de agricultura onde
criavam animais. Alguns anos eram galinhas, outros anos
patos.
Na maior parte do tempo, eles apenas observavam o
comportamento, colhiam ovos, os alimentavam e aprendiam
sobre o manejo de animais de fazenda. Marn ficou
sinceramente impressionado que a escola ensinasse tantas
coisas incomuns.
O garoto que chorava estava no nono ano e conhecia Hem
porque eles já tinham participado do mesmo clube antes. Ele
explicou que teve que vir hoje para alimentar os patos, mas
porque esqueceu o portão depois de sair para urinar, os patos
agora estavam vagando por todo o campus — incluindo a área
de trabalho deles.
— Uaaah!! Ying! Tira ele daqui! Não deixa ele pisar no
nosso projeto!
— E por que esses patos não têm medo de gente?! Por que
eles estão avançando na gente?! Você é um pato ou um
demônio?! Hein?!
Em menos de dez minutos, o local de trabalho tranquilo
transformou-se em um caos completo. Todos se atropelavam
para tirar o trabalho de perto dos patos. No começo era apenas
um, mas agora mais dois ou três apareceram, grasnando alto
em coro.
Hem, com olhos aguçados, avistou o saco de ração de
pato que o novato estava carregando e deu um tapa leve na
cabeça dele.
Não era de admirar que os patos estivessem cercando eles
— ele trouxe comida!
— Você está com a ração — vai atrair eles de volta!
— Mas P'Hem... eu tenho medo de patos... você pode me
ajudar?
— O quê? Como isso é problema meu?!
— P’Hemmm, por favooor, eu estou te implorando. Se os
patos sumirem, eu não vou me formar no ensino fundamental.
Por favor, me ajudaaa.
Hem ficou sem palavras. Os olhos do garoto estavam
vermelhos; ele parecia genuinamente digno de pena. Hem
suspirou pesadamente e olhou para os patos marrons. Três
aqui... um quarto, um quinto ali... mais dois perto dos
arbustos de ixora... isso somava oito.
— Me diga a verdade: quantos patos são no total?
— C... Cinco.
— Cinco o caramba — eu contei oito. Olha lá, nove. Ali,
dez.
— N-não...
— Cinquenta...
— Vai chamar todos os seus ancestrais para virem te
ajudar, garoto. Que droga.
— Uwaaaahhh!
O menino caiu no choro. Marn não sabia o que fazer a não
ser se aproximar e dar um tapinha gentil no ombro dele. Ver o
garoto soluçar também fez o coração de Marn doer. Ele pensou
que o menino provavelmente não fez por mal e estava apenas
sobrecarregado. E, mais cedo, ele ouviu algo sobre ser
reprovado na aula se os patos sumissem — isso seria terrível...
— Está tudo bem. Não chore.
— Hic...
— Eu vou te ajudar.
— S-sério?!
— Sim.
— Marn... você está falando sério?
Hem ficou boquiaberto. Ele não conseguia acreditar que
Marn tinha concordado. Reunir cinquenta patos espalhados
pelo campus de volta para a gaiola?! Isso não era um trabalho
pequeno. Hem queria impedi-lo, mas quando viu os olhos
determinados de Marn, soube que era tarde demais.
— E o nosso projeto?
— Está quase pronto, não é? Só precisa de um pouco de
decoração. Eu posso terminar sozinho em casa. Trago na
segunda-feira para todos conferirem.
— Marn...
— Eu me sinto mal por ele. Se ninguém ajudar, ele vai
estar em apuros de verdade.
— É-é!! Eu vou estar ferrado com certeza!!
O garoto quase se curvou aos pés de Marn. Todos
trocaram olhares. Hem soltou um longo suspiro, mas
assentiu, concordando em ajudar. Ying também concordou.
Ryu balançou a cabeça, mas acabou pegando um pato,
segurando-o com firmeza. Than, enquanto isso, já tinha
pegado a placa do projeto e se afastado.
Então... parecia que apenas este grupo ajudaria.
— Tudo bem então. Vamos nos dividir e encontrar os
patos, depois os levamos para a gaiola nos fundos. Marn, você
sabe onde fica, certo?
— Não.
— Ah, você tem que passar pelo prédio de madeira, ir por
baixo dele e então verá o jardim agrícola com muitas plantas e
flores.
— Ah, eu já vi esse lugar antes.
— Isso. Você tem que caminhar um pouco mais além dele.
Você verá uma área cercada, que é a gaiola dos patos.
— Entendido.
Marn assentiu repetidamente e pediu ao aluno mais novo
um pouco de ração, planejando usá-la como isca para atrair os
patos.
Todos se espalharam por diferentes pontos da escola. Não
importava para onde caminhassem, o som dos patos ecoava
por toda parte.
Marn usou a comida na mão para atraí-los. Esses patos
estavam acostumados com humanos por terem sido criados
perto deles — não tinham medo nenhum e eram
extremamente sensíveis à comida.
Marn lentamente capturou um ou dois de cada vez e os
levou de volta para a gaiola. Ele não sabia o quanto
conseguiria realmente ajudar o garoto hoje, mas fez o seu
melhor.
Depois disso... dependeria do destino do novato.
— Dez?
— Aqui, aqui, agora são doze.
— Ryu, você pegou algum?
— Dois.
— Pegamos mais três!
— Eu tambééém!
Era para ser um sábado de trabalho no projeto em
grupo... então como se transformou neles ajudando um aluno
mais novo a pegar patos? Eles passaram horas perseguindo
patos por toda a escola. Não foi nada fácil; alguns patos eram
espertos, correndo o mais rápido que podiam ou até pulando
para longe. Estava um caos total. Outros alunos que ficaram
na escola observavam e caíam na gargalhada. Eles estavam
correndo atrás dos patos como se suas vidas dependessem
disso. Marn também — ele correu atrás de um pato que ia
direto para o campo de futebol.
Um grupo de garotos estava praticando futebol ali. Marn
não olhou por onde ia e colidiu direto com um deles, caindo
com força na grama. Felizmente, ele não se machucou. E o
pato — ele conseguiu agarrá-lo bem na hora.
— Por que diabos você está correndo aqui!
O garoto se virou e gritou com Marn, claramente irritado.
Marn se desculpou baixinho e se levantou, pronto para sair da
área, mas quando se virou, congelou completamente.
Ele nunca esperou ver Than parado ali com uma
expressão fria, encarando o garoto no campo e irradiando uma
aura aterrorizante.
Ninguém ousou gritar de volta para Than — todos deram
um passo para trás em vez disso. Marn pensou que poderia
escapar desta vez, mas não — Than lançou um olhar afiado
para ele também. Nada do que ele fazia agradava Than... que
droga.
— Que barulheira.
Than disse rigidamente e se virou para ir embora. Mas
depois de alguns passos, ele se virou novamente e falou no
mesmo tom duro:
— Você planeja ficar parado aí o dia todo?
— H-hein?
— Vem.
— Than...
— Eu disse para vir.
Marn piscou rapidamente, confuso com a situação. A
última vez que viu Than, ele tinha desaparecido com o
trabalho do grupo. Marn presumiu que Than já devesse ter ido
para casa — claro, alguém como ele não ficaria para ajudar os
outros.
Mas... o que era aquilo? Um carrinho de mão? E aquela
rede? E-espera! Os patos no carrinho — tinha tantos deles!
— Than... você pegou esses patos?
— É.
— Eu não achei que você fosse ajudar.
— É irritante.
Marn abraçou seu pato, confuso, inclinando a cabeça
enquanto Than estendia a mão.
— Me dá o pato.
— T-tá bom.
Marn realmente não entendia. O Than estava mesmo
ajudando eles a pegarem patos? Than pegou o pato e o colocou
dentro da rede grande. Marn não sabia onde ele tinha
conseguido o equipamento, mas Than parecia esperto por
escolher ferramentas tão úteis. Marn correu por todo lado e
conseguiu apenas dois ou três no máximo — mas olhe para o
carrinho do Than! Tantos patos. Incrível. Marn nunca pensou
em fazer desse jeito.
— Você está procurando problemas?
— ... O quê?
— Ficar saindo por aí pegando patos, é sujo. Você não
pensa nas consequências?
P-por que ele de repente estava levando bronca?
— E mais cedo, quando você caiu. Você se machucou?
— ...
— Eu estou te perguntando agora.
— Por que você está brigando comigo...?
Than o encarou fixamente, ainda falando com aspereza.
Marn baixou o olhar para verificar suas mãos — nenhum
ferimento. Ele estava prestes a responder, mas algo o atingiu.
Than... ele estava preocupado?
Porque Marn tinha HIV, seu corpo era muito mais fraco.
Qualquer coisa que afetasse seu sistema imunológico era
séria. Até um pequeno ferimento levava semanas para
cicatrizar — às vezes podia infeccionar e se tornar perigoso.
Marn refletiu sobre esse pensamento, então deu um passo à
frente e estendeu os braços.
— Eu não estou machucado. Você não precisa se
preocupar.
— Ninguém está preocupado.
— ...
— Sobe logo.
— Hein?
— Depressa. Está calor.
— Você quer que eu... suba no carrinho?
— Segure os patos.
— ...
— Você vai ficar parado aí para sempre?
— T-tá bom, tá bom. Eu vou. Eu seguro os patos, Than.
Você consegue empurrar, certo?
No fim, Marn engoliu seu medo e subiu lentamente no
carrinho, segurando a rede e protegendo os patos. Eles
provavelmente se sentiam apertados, mas ele esperava que
pudessem aguentar um pouco mais até chegarem à gaiola.
Marn segurou firme.
Than empurrou o carrinho pelo caminho.
Sempre que avistava um pato, ele parava e o pegava.
Marn sentiu que a rede estava ficando cheia demais, não cabia
mais nem um pato. No fim, eles discutiram e Marn venceu...
ou melhor, Than cedeu só para parar com a amolação. Marn
acabou segurando o pato ele mesmo.
— Caramba — que diabos é aquilo?
Hem, que estivera ocupado dentro da cerca, olhou para
cima. Seu queixo caiu quando viu Than empurrando um
carrinho cheio de patos, com o garoto novo sentado em cima
abraçando um deles com força, sorrindo alegremente
enquanto tudo balançava — tanto o menino quanto os patos.
Hem contou por alto e ficou chocado; havia pelo menos
dez patos ali dentro.
— Than, você não disse que não ia ajudar?
— Tirem os patos daqui logo. O barulho deles é irritante.
Eles trabalharam juntos para devolver os patos à gaiola e
contaram todos. Mesmo depois de vasculharem a escola
inteira, alguns não foram encontrados em lugar nenhum.
No fim, conseguiram trazer de volta apenas pouco mais de
trinta patos. Muitos ainda estavam desaparecidos. O aluno
dono deles estava pálido. Os veteranos ajudaram o máximo
que puderam; agora o novato teria que implorar por
misericórdia ao professor e negociar sua própria saída.
Marn rapidamente lavou as mãos e os braços
minuciosamente para evitar infecções. Enquanto esfregava o
sabão pelos braços, pensou em silêncio:
Ah não... isso é ruim. Se a vovó soubesse que ele andou
pegando patos assim, ela com certeza brigaria com ele. Ela
sempre tinha medo que ele ficasse doente por outras
infecções.
Marn congelou por um momento. Ele tinha acabado de se
lembrar — a vovó não estava mais esperando em casa.
No início, ele tentou tanto ser forte. Para não ser fraco.
Para ser feliz para que sua avó pudesse ver. Mas agora seus
olhos queimavam de calor. Marn levantou o rosto para o céu e
inspirou profundamente, tentando suprimir a emoção que
crescia dentro dele.
Quando ouviu Hem e os outros caminhando em sua
direção por trás, ele se forçou a engolir as lágrimas.
— Marn, você já vai para casa?
— É-é.
— Marn?
— Sim? O que foi?
— Você está bem?
— E-eu estou bem.
— Você tem algum machucado?
— Não, não tenho.
— Sério? Você não foi arranhado por um pato, foi?
— De jeito nenhum.
— Vá para casa e tome um banho primeiro.
— Muito obrigado, Hem.
— Ouvi dizer que seu tio é super rígido. Se seus amigos te
levaram para pegar patos assim, ele vai brigar com a gente?
Marn congelou. Lentamente, ele se virou para eles,
atordoado. Ele tinha esquecido que seus olhos ainda estavam
vermelhos. Hem parou também — assim como os outros. Até o
Than lá atrás. Todos encaravam o garoto novo com surpresa.
— O-o que foi?
— O quê, eu disse algo errado? — Hem perguntou
nervosamente.
— Amigos...?
— ...
— Nós... somos amigos agora?
— Que pergunta estranha. Depois de tudo isso, como não
seríamos?
— ...
— Marn.
— Eu nunca tive amigos antes.
— ...
— ...
— Eu não sei se o que temos agora já pode ser chamado
de "amigos".
Era verdade que Marn não ousava se chamar de amigo
deles. Ele não sabia. Ele realmente não sabia o que qualificava
uma amizade. Era constrangedor ter dezessete anos e ainda
não entender o que "amigos" significava. Até uma criança de
quatro anos entendia melhor do que ele.
— Sim, claro que somos amigos — Ying respondeu
casualmente com um sorriso.
— Somos mesmo amigos? Todos nós?
— Claro.
Os olhos de Marn se arregalaram de incredulidade, mas
então ele abriu o sorriso mais brilhante, seus olhos se
transformando em crescentes, mostrando quase todos os
dentes.
— Estou muito feliz!
Ele falava a verdade — Marn não estava mentindo. Ele
estava genuína e profundamente feliz. Hem, Ying e Ryu eram
os primeiros amigos de Marn na vida. Quanto a Than... Marn
ainda não ousava contá-lo, mas estava feliz que Than estivesse
ali também.
Marn sentiu um olhar caloroso vindo de algum lugar bem
atrás dele. Ele fechou os olhos e sussurrou em seu coração,
esperando que sua avó pudesse ouvi-lo — esperando que ela
pudesse ver.
O que aconteceu hoje se tornaria uma das memórias mais
preciosas de Marn — fosse daqui a dez anos, vinte anos ou
mesmo em seu último dia.
Hoje foi o primeiro dia em que Marn teve amigos, o
primeiro dia em que fez algo novo com seus amigos.
Ele nunca se sentiu tão feliz em sua vida.
Vovó, hoje eu consegui pegar patos com meus amigos! Você
viu, vovó?
8
Karn olhou para o sobrinho, que agora estava sentado
atrás da casa lavando roupa.
À primeira vista, nada parecia estranho. Mas Karn sentia
que, nos últimos dois ou três dias, Marn estava de muito
melhor humor do que o habitual. Comparado a quando se
mudou para lá, Marn agora parecia mais radiante e cheio de
vida. Esse garoto gostava de agir de forma alegre a ponto de
irritar Karn. Ele detestava profundamente esse tipo de
criança. Mas não podia simplesmente abandoná-lo, então não
teve escolha a não ser continuar cuidando dele até que Marn
se tornasse mais forte e independente.
Quando esse momento chegasse, cada um poderia seguir
seu caminho.
Pelo menos Marn não era um jovem problemático.
Mesmo não tendo pai nem mãe, e mesmo carregando
aquela doença perigosa no corpo, isso não parecia ser um
grande trauma em sua vida. Ele ainda crescia forte, resiliente,
alegre, obediente, sem se meter em confusões ou problemas.
Ele via tudo de forma positiva. Qualquer que fosse o problema
enfrentado, ele sempre sorria e seguia em frente, apesar de
não ter mais ninguém ao seu lado. Sua amada avó havia
falecido, e ele teve que sair de sua antiga casa, deixar sua
antiga escola e vir para um ambiente completamente novo, um
lugar onde não conhecia ninguém e ninguém o conhecia.
Começar uma vida nova em uma idade tão jovem... era
estranho que Marn ainda conseguisse sorrir de forma tão
brilhante. Se fosse qualquer outra criança, estaria deprimida
por meses, talvez anos.
— Tio Karn, terminei de consertar o lençol.
— Hum.
Além disso, Marn era incrivelmente esforçado e paciente.
Desde que se mudou para lá, nunca preguiçou ou ficou à toa.
Ele ajudava em tudo — desde a venda de comida e o trabalho
na cozinha até as tarefas domésticas. Marn cuidava de quase
tudo.
Aquele lençol que ele mencionou era um que Karn usava
há algum tempo e que tinha um rasgo. Karn planejava
guardá-lo e pegar um novo. Mas aquele garoto de olhos
atentos notou o rasgo imediatamente e se ofereceu para
remendá-lo. Karn não teve a chance de impedi-lo.
Então, o resultado era o que ele via agora — Marn o
consertou, lavou, limpou minuciosamente, dobrou com
capricho e o deixou ali para Karn usar quando quisesse. Karn
não sabia se realmente gostava de garotos bonzinhos ou se os
odiava. Marn era bom demais. Tão bom que, às vezes, fazia um
adulto podre como ele se sentir sufocado.
Olhe para ele — em vez de descansar ou fazer a lição de
casa como um adolescente normal depois de terminar os
afazeres, o que ele estava fazendo? Pegando uma faca na
cozinha, preparando o jantar daquele jeito. O que deveria ser
aquilo?
— Marn.
— Tio Karn? A fechadura da porta dos fundos está um
pouco emperrada. Depois do jantar, eu vou consertar...
— Venha aqui.
— Sim? Precisa que eu faça alguma coisa?
Marn piscou e inclinou a cabeça, confuso. Aqueles olhos
inocentes fizeram Karn suspirar pesadamente, sentindo-se
subitamente sobrecarregado.
Ele se aproximou, sentou-se no chão e olhou para o tio,
que estava com a mão na testa, suspirando.
Marn sentiu-se inquieto — se o tio Karn estava fazendo
aquela cara... será que ele tinha feito algo errado sem querer?
Teria deixado o tio irritado? Ah, não... Marn achava que estava
sendo um bom garoto. Ele ouvia tudo, não se comportava mal,
não vagava por aí, não era teimoso, não causava problemas...
— Tio Karn, aconteceu alguma coisa?
— Se for algo desnecessário, você não precisa fazer.
Entendido?
A expressão de Marn caiu um pouco. Ele não esperava
levar uma bronca. Não era frequente Karn mostrar aquele tipo
de expressão.
Sinceramente, Marn não entendia o que Karn queria
dizer. Ele não precisava fazer algo desnecessário? Ele estava
dizendo que Marn estava sendo incômodo? Marn estava
passando dos limites naquela casa? Tinha feito algo errado,
mesmo tendo se esforçado tanto para se comportar?
— Me desculpe...
— Não é isso.
— Hein?
Marn franziu as sobrancelhas e olhou para cima. Karn
parecia querer dizer algo, mas as palavras não saíam.
No fim, ele simplesmente se levantou e deixou Marn ali
sentado sozinho. A expressão de Marn piorou; ele sentia como
se tivesse cometido um erro terrível. O tio Karn estava
realmente tão zangado com ele? Zangado o suficiente para ir
embora?
— Olá? Olááá?
Ainda amuado, Marn ouviu alguém chamando na frente
da casa. A voz parecia familiar.
Ele se levantou e foi lá fora. Já era crepúsculo, quase
noite — e, inacreditavelmente, o belo professor Nathi estava no
portão.
Desde que se mudara para lá, Marn cruzara com Nathi
fora da escola muitas vezes, provavelmente porque moravam
no mesmo beco. Fora da escola, eles não eram mais professor
e aluno, mas sim P'Nathi e Nong Marn, o vizinho fofo.
— Olá, professor Nathi.
Marn abriu o portão e o cumprimentou com um wai
educado. Nathi riu, com os olhos apertados, e levantou a
sacola de comida que trouxera antes de entrar casualmente —
sem nenhum medo de que o dono da casa pudesse se irritar ao
vê-lo.
— Eu já disse, fora da escola me chame apenas de
P'Nathi.
— Hehe... eu já me acostumei. Vou tentar te chamar de
P'Nathi!
— Já jantou?
— Eu ia começar a preparar, mas...
— Hum?
— Acabei de levar uma bronca do tio Karn...
— É mesmo?
— Sim.
— Pelo que ele te deu bronca? Isso é surpreendente. Nem
um bom garoto como você escapou, hein...
Nathi murmurou a última parte baixinho. Vendo a
expressão sombria de Marn, ele acreditou que fosse verdade.
Sabia bem como Karn era — dez anos morando ali e nunca se
aproximou de ninguém.
Sem amigos, sem parentes.
A única pessoa que entrava e saía desta casa era o próprio
Nathi. Karn vivia sozinho, desinteressado pelos outros, com a
língua afiada... Nathi já estivera no lado receptor muitas vezes.
Mas era realmente surpreendente que nem um bom garoto
como Marn conseguisse agradá-lo.
— Opa, ei! Você não pode beber álcool na frente do seu
sobrinho!
— O problema é meu.
Nathi congelou assim que entrou e viu o dono da casa, de
cabelos compridos, virando bebida. Ele imediatamente se
moveu para cobrir os olhos de Marn. Karn estalou a língua,
irritado com os instintos de professor de Nathi, e o encarou.
— Marn tem dezessete anos. Não três.
— Não, ainda é inaceitável.
— Garotos da idade dele bebem o tempo todo.
— O que... não eduque seu sobrinho assim!
Francamente...
— Eu não o estou educando.
Exatamente — Karn não o estava criando. Estava apenas
lhe dando um lugar para ficar. Não esperasse nenhum
comportamento paternal vindo dele.
— Está tudo bem, P'Nathi, de verdade. Eu não me
importo.
— Você... bebe também? — Nathi arregalou os olhos para
Marn.
Marn riu baixinho e acenou com as mãos.
— Não, eu não bebo.
Marn olhou brevemente para o tio e disse a Nathi para
sentar e esperar enquanto ele continuava a preparar o jantar,
deixando os dois adultos sozinhos.
Nathi suspirou e sentou-se ao lado de Karn. Ele espiou o
rosto de Karn, ainda sem expressão, frio como sempre.
Não importava quantas vezes se encontrassem, esse
homem nunca mostrava outra expressão.
Agia como alguém completamente cansado da vida. Como
alguém podia ser tão infeliz com a própria existência?
— Por que você deu bronca nele?
— Ele foi fofocar?
— Marn é um garoto tão bom. Por que você deu bronca
nele?
— Por que você está se metendo nos assuntos da casa dos
outros?
— Ele está sob meus cuidados, sabe!
— E então? Por que você deu bronca nele? Vê-lo todo
desanimado assim me faz sentir péssimo, sabia?
Karn soltou o ar, deu outro gole na bebida e olhou para o
homem ao seu lado novamente, sentindo-se tão irritado que
estalou a língua.
Nathi apenas ficou sentado em silêncio, como se
esperasse por uma resposta.
A sensação de estar encurralado fez Karn perder a
paciência; ele pousou o copo e cruzou os braços, os cabelos
escuros caindo sobre parte do rosto, escondendo o olhar
levemente vacilante em seus olhos.
— Eu não o trouxe para cá para ser meu servo. Ele
simplesmente gosta de se manter ocupado — fazendo isso,
fazendo aquilo. Eu o mandei para a escola, então ele deveria
apenas ir à escola. Qual é o problema?
A princípio, Nathi não entendeu muito bem, mas quando
se concentrou, finalmente captou os verdadeiros sentimentos
de Karn. Não era que Karn estivesse sendo cruel com um bom
garoto.
Sim, ele deu bronca no sobrinho, mas não foi por raiva ou
ressentimento. Na verdade, Karn estava preocupado com
Marn.
Embora Nathi não tivesse interagido muito com Marn,
julgando pela personalidade do garoto, ele era provavelmente
extremamente esforçado, muito responsável e disposto a fazer
qualquer coisa sem reclamar. Ele praticamente se dedicava a
servir o tio. Era uma criança boa demais.
A habilidade de comunicação de Karn era basicamente
zero — talvez até negativa. Foi por isso que Marn entendeu
errado, achando que o tio estava zangado ou chateado com ele,
quando na realidade era exatamente o oposto.
— Você se importa bastante com ele, não é? — Nathi
provocou.
— Pare de supor coisas.
— Marn é realmente um garoto de ouro.
— Ele não tem mais nenhum outro parente, não é?
— Hum.
O pai o abandonou. A mãe faleceu. A avó acabara de
morrer. Além de Karn, Marn realmente não tinha mais
ninguém.
— Ele é incrível. Crescer tão bem assim...
— ...
— Na escola ele também estuda muito. Nem um único
problema. Nunca se atrasa, nunca falta às aulas, nunca se
mete em brigas.
— Por que está me contando isso?
— Estou reportando ao guardião dele, obviamente. Eu
sou o professor conselheiro do Marn.
Karn lançou-lhe um olhar de soslaio. Esse cara entrou na
casa dele só para irritá-lo, não foi? Olhe para ele, estufando o
peito com orgulho.
Karn apenas balançou a cabeça.
Esse era o professor do Marn?
Ele não queria admitir esse fato de jeito nenhum. Mandar
o sobrinho estudar sob os cuidados de alguém assim... quem
sabe o que Marn acabaria aprendendo. Se um dia Marn se
tornasse um segundo Nathi, Karn morreria de dor de cabeça.
Karn observou Nathi de cima a baixo. Hoje Nathi estava
vestido adequadamente, como convém a um professor. Mas
talvez por causa do álcool, Karn subitamente viu outra
imagem sobrepondo-se a ele — o Nathi de dez anos atrás,
menor, mais magro, vestindo um uniforme escolar branco e
limpo, com o cabelo mais curto. Mas o sorriso era exatamente
o mesmo.
— P'Karn, comprei lanches para você.
Esse cara... mesmo depois de todos esses anos, ainda
tinha aquele rosto irritante. Talvez até mais irritante do que
antes. Como aquele garoto problemático cresceu e se tornou
professor ainda era um mistério para Karn. E quando ele
pararia de trazer comida?
— Você está bêbado, Phi? — Nathi ergueu uma
sobrancelha ao notar Karn encarando-o por tempo demais.
Levou a mão ao próprio rosto, imaginando se havia algo
grudado ali, não havia.
— Cale a boca. E por que você ainda está sentado aqui?
Volte para sua própria casa.
— Você está me expulsando de novo.
— Vá.
— Me dê um prato de arroz primeiro.
— Pode parar de agir como se não tivesse uma casa para
onde voltar?
— Ei...
— Ficar sentado aqui implorando por comida e bebida... é
ridículo.
Nathi ficou boquiaberto. Estava levando bronca de novo.
Toda vez que se encontravam, ele nunca recebia um elogio.
Apenas insultos. Ahh...
Momentos depois, Marn apareceu com pratos que
pareciam deliciosos. O garoto sabia exatamente o que fazer —
preparou um prato extra para o professor sem que lhe
pedissem. Assim, naquela noite, a casa de Karn tinha uma
pessoa adicional: Nathi.
Marn sentiu que o tio não estava mais tão zangado com
ele, então serviu-lhe cuidadosamente alguns dos
acompanhamentos que havia feito.
Karn lançou-lhe um breve olhar antes de aceitar em
silêncio. Nathi viu tudo — a forma como Marn o servia
gentilmente, a forma como Karn aceitava sem jeito — e apoiou
o queixo na mão, sorrindo com cumplicidade, os olhos cheios
de malícia.
Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, pumba!
Karn deu um tapa forte em suas costas. Marn deu um
pulo de susto. Ele nunca imaginou que o tio bateria em um
professor bem na sua frente.
Pumba! O... tio Karn acabou de bater no professor!
A atmosfera na casa de Karn naquela noite estava mais
animada do que o habitual porque o tagarela do Nathi estava
por perto.
Os três sentaram-se juntos na área de estar: o dono da
casa, de trinta e sete anos, no banco comprido, enquanto o
sobrinho e o convidado sentavam-se no chão, jantando na
mesa baixa e conversando.
Marn não parava de sorrir e rir até os olhos se apertarem,
surpreendentemente falante quando lhe davam a chance.
— P'Nathi?
— Hum? O que foi?
— Estou curioso sobre uma coisa faz tempo, mas não tive
coragem de perguntar...
— Pergunte qualquer coisa. Não sou professor agora.
— Bem... é que notei algo recentemente. Um dos meus
colegas de classe — o nome dele é Than.
— Por quê? O que tem ele?
Nathi parou no meio de uma garfada. Ouvir o nome do
seu irmão mais novo vindo de Marn o deixou curioso. Até
Karn, que bebia em silêncio, paralisou e baixou o copo
levemente, olhando automaticamente para Nathi.
— O Marn fez um trabalho em grupo com o Than. E... ele
tem exatamente o mesmo sobrenome que você.
— ...
— E ouvi alguns colegas dizendo coisas como, se o Than
se comportar mal, eles vão contar para o professor Nathi.
— ...
— Então eu estava me perguntando...
— ...
— O Than é seu filho?
— Pfft!
Nathi caiu na gargalhada. Desde que começou a trabalhar
na escola, ninguém jamais supôs que Than fosse seu filho.
Alguns chutavam que eram irmãos, outros pensavam que
eram parentes. Mas Marn... Marn foi o primeiro a pensar que
Than era seu filho.
— Não, não. Than é meu irmão mais novo. Lembra? Eu te
disse que tenho um irmão mais novo no segundo ano como
você.
— Ah... desculpe. Eu não sabia. Pensei que você e o Than
fossem pai e filho.
— Está tudo bem. Não estou chateado.
— Sim...
— Então? Como é? Você se dá bem com o Than? Ele
causou algum problema?
— Não sou muito próximo do Than. Ele não quer muito
papo comigo. Geralmente falo com o Hem, a Ying e o Ryu.
— Ah, esses três.
— Sim. Eles são meus amigos agora.
— Oh! Então isso precisa ser celebrado!
Ver o sorriso largo de Marn deixou Nathi feliz também.
Karn, ainda sentado no banco comprido e bebendo em
silêncio, fingia não se importar, mas no momento em que
ouviu que Marn fizera amigos na escola, ele realmente prestou
atenção. Sua expressão não era mais de irritação. Suas
sobrancelhas relaxaram um pouco. Como se a preocupação
que carregava tivesse começado a aliviar.
Ele devia estar realmente feliz. Marn falava sem parar —
claramente orgulhoso de seus novos amigos.
— Esses três também são próximos de mim. São amigos
do Than desde crianças. O Hem fala muito, mas é um bom
garoto.
— Sim, o Hem é muito gentil.
— E aquela garota, a Ying — ela já te perturbou?
— A Ying nunca me perturba. Ela é muito legal.
— E o Ryu? Algum problema com ele?
— Nenhum. O Ryu não fala tanto quanto os outros dois,
mas é fácil conversar com ele. Não me sinto tenso perto dele.
— Que bom. Você é novo aqui — ter alguns amigos é
importante.
— Sim. Vou tentar me aproximar mais deles.
— Você parece realmente empolgado.
— Hum... provavelmente. Estou muito feliz. É a minha
primeira vez tendo amigos, então acho que me empolguei um
pouco. Haha...
Nathi paralisou. Primeira vez tendo amigos? Ele franziu a
testa levemente. Marn percebeu e sorriu gentilmente.
— O P'Nathi sabe, certo? Que eu tenho HIV. Todo esse
tempo eu nunca tive amigos por causa disso. Mas nunca me
senti triste por isso. De outra forma, aprendi a depender de
mim mesmo.
— ...
— Minha avó me ensinou uma coisa: não importa o quão
cruel o mundo seja conosco, não devemos ser cruéis com nós
mesmos. Então tento ser gentil comigo mesmo. As pessoas
dizem que sou otimista demais, mas para mim, este é o jeito
que consigo ser feliz.
— ...
— Eu só quero me fazer feliz todos os dias. Sei que a vida
tem coisas ruins, mas vou transformar as coisas ruins em algo
bom.
— Fazer isso... não é exaustivo, Marn?
— P'Nathi.
— Sim?
— Para ser sincero... não sei quanto tempo vou viver.
Karn baixou os olhos para o sobrinho. Embora o assunto
fosse desagradável, o ambiente não mudou muito — Marn
ainda sorria, falando com uma voz calma, como se não
sentisse medo, tristeza ou negatividade nenhuma. Ele falava
da própria morte como se fosse um assunto simples do dia a
dia. Um jovem de dezessete anos dizendo coisas assim... com
aquela expressão...
— Não estou me subestimando, mas é incerto. Então
sempre penso, hoje pode ser meu último dia. É por isso que
quero ser feliz. Assim não deixarei este mundo com
arrependimentos.
— Marn...
— É por isso que quero ser feliz todos os dias. Mas, na
verdade... todo mundo quer ser feliz todos os dias, certo?
— Hah... você sempre pensou assim? Você ainda é um
garoto, não pense em coisas tão pesadas. Existe remédio,
existe tecnologia. Você é saudável e, se não contar a ninguém,
ninguém nem saberia.
— Eu realmente não tenho medo, P'Nathi. Por favor, não
se preocupe. Não estou ansioso. Também não estou
desistindo. Vou continuar o tratamento. Vou viver o melhor
que puder. Eu prometi para a vovó.
— Você é realmente incrível.
— Se um dia eu encontrar a vovó de novo, quero contar
tudo para ela com orgulho.
Nathi sorriu e assentiu. Eles continuaram comendo e
conversando por cerca de uma hora. Quando terminaram,
Marn se ofereceu para lavar a louça. Nathi quis ajudar, mas
Marn recusou — dizendo que o professor era um convidado.
Então Marn foi lavar os pratos enquanto Nathi limpava a mesa
e o chão.
— Eu te disse que esse garoto é irritante.
— Shhh — se o Marn te ouvir, ele vai entender errado —
Nathi sussurrou.
Karn estava deitado no banco comprido com um braço
cobrindo os olhos. Estivera quieto por tanto tempo que parecia
ter pegado no sono.
— Quem ensina um neto a achar que está tudo bem se
morrer amanhã... como ela pôde ensinar isso a ele?
— P'Karn...
— Ele realmente precisa se forçar a ser feliz porque não
sabe quando vai morrer?
— ...
— Ele não está com medo?
— Não.
— ...
— Eu acredito em tudo o que ele disse — ele falou sério.
— ...
— Ele não está com medo. Não está cansado. Não está se
sentindo mal.
— ...
— Aquele garoto... é verdadeiramente feliz.
Nathi parou de limpar a mesa. Ele olhou para a cozinha e
sorriu suavemente, lembrando-se da conversa anterior. Agora
entendia por que Karn estava tão irritado com o sobrinho.
Porque Marn é o tipo de pessoa que Karn sempre tentou
tanto ser — alguém que consegue ser feliz neste mundo,
transformando cada coisa ruim em algo bom. E Marn
conseguiu isso... nesta idade.
Nathi pegou gentilmente a mão de Karn. Desta vez, Karn
não resistiu — ainda deitado com os olhos fechados. O polegar
de Nathi acariciou as costas da mão dele levemente.
— Acredite em mim. Marn não está pensando em morrer.
Ele foca mais no presente do que no futuro. Acho que você
consegue ver isso também.
— ...
— Lá no fundo, você sente que ele é feliz de verdade. Até
de coisas assustadoras ele consegue falar com um sorriso.
Você deveria tentar olhar para o mundo da forma que ele olha.
— ...
— Eu gostaria de ver você feliz como ele, nem que fosse
apenas uma vez.
Nathi apertou sua mão gentilmente. Seu olhar vacilou.
Quando a voz de Marn chamou da cozinha, ele soltou devagar
e buscou um cobertor, preparando-se para cobrir Karn.
Estava ficando tarde — hora de ele ir embora. Karn não estava
dormindo, mas claramente não queria mais conversar.
— Obrigado pelos lanches, P'Nathi. Estavam muito
gostosos.
— Hum. Não esqueça a lição de casa.
— Sim, senhor. Não vou esquecer.
— Bom garoto.
— Estou feliz por ter conversado com você hoje. Talvez eu
tenha falado demais...
— Eu adoro crianças tagarelas. Pena que o Than não fala
sem parar como você.
— Fala sem parar? Eu sou tão falante assim...?
— Marn.
— Sim?
— Fico feliz que você seja amigo do Than.
— Uh... mas não acho que o Than sinta o mesmo no
momento.
— Por favor, cuide dele.
— ...?
— Aquele garoto está passando por um momento difícil.
Talvez conhecer você o ajude a superar isso.
— Hein?
— E... cuide do seu tio bêbado também.
— Vou cuidar do tio Karn com certeza.
— Ajude-o a melhorar, ok?
Marn franziu um pouco a testa. Embora estivesse curioso
sobre aquele comentário vago, não perguntou nada. Virou-se
para olhar para o tio, que ainda jazia em silêncio.
Nathi aproximou-se e ajustou a postura dele, cobrindo-o
adequadamente com um cobertor, e então despediu-se para ir
embora. Marn ofereceu-se para acompanhá-lo até o portão,
deixando Karn ainda deitado no banco comprido.
Depois que os dois sumiram de vista, ele abriu os olhos
lentamente, soltou um longo suspiro e virou o corpo para o
outro lado. Lembrou-se daquela conversa irritante que
acabaram de ter. Seus lábios se pressionaram firmemente,
sua mão agarrando o cobertor sobre si com força.
— Não vai melhorar, Nathi...
— ...
— Você já tentou tanto. Como ainda não entendeu?
— ...
— Eu realmente não consigo ser como o Marn...
9
Marn já estava em sua escola nova há um mês. Nas
primeiras semanas, houve alguns obstáculos, pois ele não
tinha amigos em quem pudesse confiar. As únicas pessoas
com quem conversava eram aquelas que discutiam trabalhos
de classe ou lições de casa com ele.
Quanto ao grupo de Hem, Ying e Ryu, Marn só havia se
aproximado deles recentemente porque tiveram a chance de
fazer um trabalho em grupo juntos. Os três eram muito gentis
e, mesmo que os boatos sobre sua doença tivessem se
espalhado, eles ainda o aceitavam como amigo.
Só isso já trouxe um pouco de cor para sua vida, que
antes era sem graça, e Marn estava se esforçando ao máximo
para se ajustar a todos. Ele só podia esperar que esse fosse o
melhor recomeço de sua vida, por isso queria se dedicar de
coração a tudo.
Por causa disso, Marn agora tinha o objetivo importante
de se tornar um amigo próximo daqueles três.
Algum dia, ele queria que fossem íntimos o suficiente
para trocar números de telefone, sair juntos, sentar para
conversar sobre seus problemas e ajudar uns aos outros a
encontrar respostas; amigos que se apoiassem em tudo e
apontassem os erros uns dos outros quando necessário. Ele
queria o tipo de amizade com que sempre sonhou.
Se fosse com esses três... talvez o seu desejo não ficasse
apenas no sonho.
— Desse ângulo que vemos aqui, vocês notarão que ele se
relaciona com o ângulo oposto. Então, jogamos na fórmula...
Era uma tarde quente e Marn estava tentando ao máximo
se concentrar na aula de física. Estar no andar superior do
prédio fazia a sala parecer abafada. Muitos alunos já tinham
perdido o foco e batiam papo casualmente em vez de ouvir. Os
ventiladores de teto mal ajudavam; na verdade, pareciam
apenas soprar ar quente para todo lado.
Marn sentiu gotas de suor se formando, mas continuou
tentando focar. As provas parciais estavam chegando e ele
precisava de uma nota boa. Ele não queria que o tio Karn
sentisse que seu dinheiro estava sendo desperdiçado. Ele
sabia o quanto Karn trabalhava duro, então Marn queria ser
um bom garoto, estudar bastante e retribuir a bondade do tio.
Mas, com um calor desses, era realmente difícil se concentrar.
Bem, pelo menos havia uma brisa suave vindo das
janelas. A área externa estava cheia de árvores e, ao longe, a
cordilheira se estendia pelo horizonte. Marn ouviu um tilintar
suave, provavelmente vindo do sino de vento de vidro
pendurado no fundo da sala, um artesanato feito por
veteranos anos atrás.
Ninguém nunca o tirou de lá, então ele continuava
pendurado. Toda vez que o vento soprava, o som o ajudava a
relaxar um pouco.
Marn olhou para a pessoa ao seu lado e, sem perceber,
distraiu-se completamente da aula. Seus olhos se demoraram
no perfil do garoto ao lado.
Than tinha caído no sono desde o início do período; de
cabeça baixa e braços cruzados, sem se importar com nada.
Mas isso não era estranho, Than era sempre assim e todos na
sala estavam acostumados a vê-lo cochilando. Ele parecia um
garoto que não ligava nem um pouco para os estudos.
Mesmo que os professores o repreendessem inúmeras
vezes, ele parecia não se abalar e continuava com o mesmo
comportamento. Todos diziam a mesma coisa: Than, da turma
11/1, era um aluno problemático, e muitos professores
estavam fartos dele. Marn se perguntava por que Than agia
daquela forma. Hem disse uma vez que Than costumava ser o
número um de todo o ano letivo e ninguém jamais o vencia.
Isso não significava que ele era muito inteligente?
Hum... talvez fosse assim que gênios agiam? Ele já sabia
de tudo, então não se dava ao trabalho de aprender o que já
entendia? Marn se inclinou um pouco e espiou a folha de
exercícios dele.
Completamente vazia, sem uma única marca. O papel
estava perfeitamente limpo, nem sequer amassado, como se
ele tivesse acabado de comprar.
Sinceramente, Marn não entendia esse garoto de jeito
nenhum. O que mais o confundia era por que Than parecia
desgostar tanto dele.
Relembrando quando se conheceram, Marn nunca tinha
feito nada contra ele, apenas queria ser seu amigo. Mas Than o
rejeitou friamente, ignorando suas intenções sinceras.
Isso deixou Marn um pouco triste. Ele se dava tão bem
com Hem, Ying e Ryu... Então por que não conseguia se dar
bem com Than também? Ele realmente não queria ser amigo
de Marn, nem um pouquinho?
Suspiro...
Marn se afastou. Foi então que ele notou algo sob a mesa
de Than. Pela primeira vez, ele agiu de forma um pouco rude e
espiou o espaço de outra pessoa. Mas ele não conseguiu evitar.
Havia uma pilha de embalagens de bala verdes ali
embaixo. Uma ideia surgiu instantaneamente em sua mente.
Marn apoiou o queixo nas palmas das mãos, com os olhos
brilhando com uma súbita e esperançosa determinação.
Sim! E se ele tentasse fazer amizade com Than usando os
doces que ele gostava? Aquelas balas verdes... ele iria conferir
a cantina da escola mais tarde!
Naquela noite, quando Marn voltou para casa, ajudou
Karn com as tarefas domésticas como sempre. Mas algo estava
diferente hoje; Marn parecia estranhamente ansioso para
pegar sua bicicleta e ir à loja. Karn mal terminou de passar um
pequeno serviço antes que o garoto pedalasse entusiasmado.
Karn apenas deu de ombros. Marn não era um garoto
problemático e provavelmente não iria a nenhum lugar que
não devesse.
Tarde daquela noite, após fazer a lição de casa e estudar,
Marn preparou suas roupas e a mochila. Ele olhou para um
saquinho plástico transparente cheio de balas verdes. Tinha
certeza de que eram exatamente do mesmo tipo que viu sob a
mesa de Than. Marn as pegou e sorriu abertamente. Amanhã
ele completaria sua missão: Fazer Amizade com o Colega
Assustador! Por favor, que essas balas funcionem... por favor!
Na manhã seguinte, depois de ajudar Karn, Marn correu
para a escola. Ele procurou por seu alvo e, como ainda não
tinha visto Than, subiu rapidamente e colocou uma bala verde
sobre a mesa dele.
Ele paralisou ao notar que não havia mais lixo sob a
mesa. Então Than devia ter limpado tudo depois da aula
ontem.
Bem, Than parecia alguém que gostava de limpeza. O
espaço dele era surpreendentemente organizado em
comparação ao de muitos alunos.
Ah! Marn! Por que você está espiando debaixo da mesa de
alguém de novo? Isso não é legal!
Ele rapidamente largou a bala e saiu da sala, fingindo que
nada aconteceu enquanto ia para a assembleia matinal como
de costume. Quando o sinal tocou e os alunos começaram a
entrar na fila, Marn se lembrou de algo de repente.
Ele agarrou a cabeça com as duas mãos.
Espere um segundo! Se eu colocar a bala lá escondido
desse jeito, como o Than vai saber de quem é? Se eu quero ser
amigo dele, tenho que me mostrar, certo?
Droga, isso estraga totalmente o plano. Por que eu sou tão
burro, sério?
— Marn, o que houve? Está com dor de cabeça?
Hem, que estava parado não muito longe dali, viu ele
agindo daquele jeito e imediatamente se aproximou para
perguntar.
Marn balançou a cabeça com um sorrisinho,
tranquilizando-o educadamente.
Então ele se apressou para seu lugar habitual na fila,
lançando olhares furtivos ao redor em busca daquele colega de
cara assustadora. Ele procurou por um longo tempo antes de
avistar Than parado imóvel no final da fila.
Marn deu um pulo quando Than o pegou encarando e
desviou o olhar instantaneamente. T-tão assustador...
Ele não podia ser só um pouquinho mais legal com o Marn?
O Marn só quer ser amigo dele...
Hoje era sexta-feira. Os dois últimos períodos eram de
clubes, iguais para toda a escola, do 7º ao 12º ano. Toda sexta
à tarde, todos tinham que ir aos seus clubes escolhidos e
realizar atividades. Como Marn tinha acabado de se transferir,
já havia escolhido um clube para si. Ele não era bom em
esportes, não era corajoso o suficiente para nada que
envolvesse apresentações e música definitivamente não era
sua praia.
Dança tradicional era ainda mais impossível. Então, no
fim das contas, ele escolheu a opção mais tediosa: o clube da
biblioteca.
Disseram que tudo o que ele teria de fazer era cuidar da
biblioteca, atuar como assistente dos bibliotecários, limpar e
organizar os livros.
Marn pensou que... bem, isso não parecia tão chato
assim.
A manhã começou com matemática.
O professor super bonitão, Nathi, entrou para dar o
primeiro período. Marn olhou imediatamente para Than.
Como esperado, Than nem sequer levantou a cabeça para
olhar o quadro. Ele simplesmente dormiu a aula inteira,
enquanto o próprio irmão mais velho dava uma lição
importante.
Marn queria cutucá-lo para acordar, mas não teve
coragem. Ele continuou lançando olhares de socorro para o
professor, mas Nathi não ajudou; ele até gesticulou
silenciosamente para que Marn acordasse Than.
Argh! Como Marn deveria fazer isso? Ele não tinha
coragem nem de encostar nele!
No fim, a aula toda terminou sem que Than levantasse a
cabeça por um segundo sequer. Marn notou que a mão de
Than relaxou um pouco.
Naquele momento, uma ideia lhe veio à cabeça. Ele enfiou
a mão na bolsa, pegou uma bala verde, respirou fundo e a
colocou gentilmente na palma aberta de Than, usando a ponta
do dedo para empurrá-la bem para o meio da mão dele. Sim!
Missão cumprida!
— Marn.
— Presente!
— Por que você está gritando? Eu te assustei?
— Heh...
Marn deu um sobressalto.
Enquanto ele realizava sua missão arriscada, Hem de
repente cutucou seu ombro e começou a falar sobre os clubes
da tarde. Hem ainda não tinha desistido de tentar recrutá-lo
para o Clube de Relações Públicas. Marn tinha ouvido dizer
que Hem era um aluno super ativo; ele participava de
inúmeros clubes, sempre correndo de um lado para o outro
fazendo atividades. Era por isso que ele tinha tantos amigos e
conhecidos. Marn se perguntava, se Hem participava de
tantos clubes, o que ele faria quando chegasse o período das
atividades?
— Eu simplesmente pulo de um para o outro — disse
Hem.
— H-hein?
— É isso aí.
— Você... pode fazer isso?
— Por que não? — Bem, e se você se atrasar para um
clube, outro ainda tiver trabalho inacabado e mais um te
chamar? O que você faria? — Eu apenas vejo qual é o mais
urgente, termino esse primeiro e depois sigo para os outros.
— Nossa... isso não cansa?
— Não. Porque eu gosto de todos eles. Então não me
cansa.
— Não importa o quanto seja cansativo, eu aguento!
Marn ouviu Hem falar sobre cada clube com uma
expressão brilhante e alegre. Ele parecia genuinamente feliz ao
falar das atividades de que gostava. Hem participava de
muitos clubes: Relações Públicas, Música, Basquete,
Atletismo, Petanca... e o maior de todos: o Clube de Teatro.
Quando Marn ouviu sobre esse último, ficou atento na
hora.
— Nossa escola envia muitos alunos para competições de
atuação. Peças morais, históricas, teatro de palco, concursos
de contação de histórias... tem até ópera chinesa. É por isso
que temos um clube de teatro especificamente para treinar as
pessoas.
— Você já competiu em algo?
— Com certeza! No meu nível? Já fiz de tudo: peças
históricas, peças morais. Já atuei em todos os papéis.
— Isso é incrível!
— Aham! Aqui, vou te mostrar.
Marn observou com olhos arregalados e animados
enquanto Hem se apresentava bem na sua frente. Suas
expressões e tom de voz mudavam sem esforço. Sua atuação
era ótima, sem vergonha nenhuma. Ele atuou de forma tão
convincente que Marn teve que aplaudir.
Hem sorriu e até fez uma reverência dramática como um
ator famoso. Ying e Ryu, que estavam por perto, viraram-se e
pediram para ele fazer silêncio porque estavam com vergonha
da atenção que ele chamava, mas Hem apenas riu e anunciou
orgulhosamente o quanto achava sua própria performance
maravilhosa.
— Porque eu tenho um sonho!
— Um sonho?
— Sim! Algum dia, vou ser um ator principal famoso.
Guarde minhas palavras, Marn!
— Uau, isso é fantástico!
Hem ficou paralisado por um momento ao ver a
sinceridade nos olhos de Marn.
— Você...
— Hum?
— Heh... você é esquisito. Qualquer outra pessoa teria
rido de mim.
— Por que a gente riria?
— Bem... eu quero ser um astro de cinema. Você não acha
que é irreal?
— Nem um pouco! Estou muito animado de saber que
você quer tanto ser ator! Boa sorte. Vou ficar na torcida por
você. Algum dia, com certeza vou te pedir um autógrafo!
Ying, sentada ao lado dele, olhou imediatamente para a
expressão de Hem. Quem diria que alguém como Hem poderia
ficar sem graça com um simples elogio? Olha só, os olhos do
Marn não paravam de brilhar.
Ver o Hem atuar e ouvir sobre todos os seus papéis o
empolgou tanto que o Hem praticamente flutuou com todos os
elogios.
— Ah, o horário do clube já vai começar. Tenho que ir
ensaiar uma peça hoje.
— Tudo bem! Dê o seu melhor.
— Com certeza! A gente se vê!
Hem saiu, e Ying e Ryu o seguiram logo depois, já que
estavam no Clube de Música juntos. Ying cantava lindamente.
Marn tinha ouvido antes, apenas algumas linhas, e já tinha
ficado impressionado.
Seus amigos eram todos tão talentosos. Comparado a
eles, ele sentia que não era bom em nada. Ele desejava ter
nascido com algum tipo de talento também...
— Hein? O Than sumiu?
Quando ele se virou novamente, o ser humano de cara de
pedra tinha ido embora.
Marn soltou um longo suspiro, jogou a mochila no ombro
e saiu da sala. Mas não antes de deixar sorrateiramente outra
bala verde na mesa de Than. Ele não sabia se Than a pegaria
ou se os alunos de plantão na limpeza a jogariam fora. Mas
Marn ainda queria dar a ele, então deixou uma bala antes de ir
para a biblioteca para seu clube.
Mas quem diria que ele encontraria Than lá?
O cara... estava encolhido dormindo entre as estantes!
Qual era o clube dele, afinal? O clube do durma em
qualquer lugar?
— Than. Than.
Marn respirou fundo, criou coragem e se aproximou. Ele
se agachou e o cutucou de leve para acordá-lo. Ele precisava
limpar aquela área e organizar os livros. Marn não ousava
falar muito alto; a biblioteca estava silenciosa e, se ele
aumentasse a voz, com certeza levaria uma bronca.
— Than, acorda. Não durma aqui.
— ...
— Than, você não tem medo de ser picado por
pernilongos?
— ...
— Than, está calor aqui...
— ...
— Tem poeira aqui também, Than.
— Quando é que você vai ficar quieto?
E-ele não está dormindo?
Marn deu um pulo quando ouviu a resposta. Than se
mexeu um pouco e abriu os olhos para olhá-lo.
Só de ver o rosto de Marn, já dava para notar o quanto
Than estava irritado.
Marn sabia que ele não gostava dele, especialmente
quando Marn tentava falar com ele assim. Ele definitivamente
não gostava. Mas o que Marn podia fazer? Esta era a sua área
de trabalho. Ele não podia simplesmente deixá-la
desorganizada.
— Than... eu vou organizar os livros. Por favor, se mexa
um pouco.
— Vá organizar em outro lugar.
— Mas...
— Vá organizar em outro lugar.
— Mas o professor me mandou cuidar desta área...
N-não me olhe com esses olhos... Argh... Eu só estou
seguindo as ordens do professor...
Than se recusou a sair.
No fim, Marn teve que desistir e se afastar com os ombros
caídos para arrumar outro canto. Ele pensou que talvez Than
acabasse saindo por conta própria e então Marn poderia voltar
e organizar os livros ali. Mas quase duas horas se passaram —
quase todo o período do clube — e Than ainda não tinha se
movido. Continuava deitado ali no mesmo lugar.
Marn aproximou-se com cuidado, garantindo que não
faria nenhum som que o acordasse. Ele soltou um longo
suspiro enquanto olhava para ele. Esse colega era realmente
difícil de abordar.
Marn não fazia ideia do que passava na cabeça dele. Por
que ele estava encolhido em um canto desse jeito, afinal? Ele
realmente não entendia.
A aula também estava prestes a acabar. Amanhã era o fim
de semana. Marn não veria Than novamente até
segunda-feira.
Marn pegou lentamente o saquinho de balas verdes,
olhando para ele com hesitação antes de colocá-lo ao lado do
garoto que dormia. Parecia que seu plano da amizade com
balas não estava funcionando. Ele teria que inventar algo novo
na segunda-feira.
Tinha que haver um jeito, algum jeito de se tornar amigo
de Than.
— Por que você desgosta tanto de mim...
— ...
— Suspiro... acho que vou ter que encontrar outro
caminho.
Marn baixou o olhar para a bala que comprou. Ele não
pôde deixar de se perguntar que gosto teria; ele nunca tinha
experimentado uma sequer.
Por causa dos ensinamentos de sua avó, ele nunca comia
a comida que comprava para os outros. Mas ele estava muito
curioso para saber por que Than gostava tanto dessas balas
verdes.
A curiosidade acabou vencendo. Marn decidiu quebrar a
regra da avó só desta vez. Ele pegou uma única bala verde,
desembrulhou-a lentamente e a jogou na boca.
— Mmmgh!!
AZEDO. MUITO AZEDO!! Socorro!
O rosto dele estava todo se contorcendo!
Marn apertou a mão contra a boca e fechou bem os olhos
enquanto as lágrimas brotavam. Ele queria muito cuspir
aquilo. Nunca na vida tinha provado uma bala tão azeda.
Quanto mais ele tentava aguentar, mais a saliva
inundava sua boca. Ele rapidamente mordeu para quebrá-la.
No início, o azedo fez sua cabeça doer, mas depois de um
momento, o gosto azedo começou a sumir, substituído por
uma doçura sutil.
Os grandes olhos redondos de Marn brilharam quando ele
percebeu que o gosto final da bala era uma doçura suave
perfeita.
— É boa! Mas o começo é muito azedo... nossa.
— Você não leu a embalagem antes de comprar?
— T-Than!
Marn deu um pulo. Ele estava resmungando sozinho,
certo de que Than estava dormindo e sem saber de nada. No
entanto, ele lhe respondeu? Não só estava acordado, como
sabia da bala que Marn colocou ao seu lado.
Agora era a vez de Marn ficar sem palavras. Ele gaguejou,
esforçando-se para encontrar as palavras certas, apavorado
de que Than o repreendesse e acabasse odiando-o ainda mais.
— Eu vi que você gostava dessa bala, então comprei para
você...
— ...
— Eu só quero ser seu amigo, Than.
— Eu já disse para não me amolar.
— Mas...
— E você comprou o sabor errado.
— H-hein? Sério?
— É.
— Eu não sabia... era só uma embalagem verde...
Marn franziu a testa. Ele lembrava de ter visto
exatamente essa marca e sabor sob a mesa de Than. Ou será
que ele tinha entendido errado? Existiam várias marcas de
balas verdes? Argh. Ele se esforçou tanto para comprar a bala
certa para se aproximar dele e agora seu plano era um
desastre total; além disso, ele comprou a coisa errada.
— Sai da frente.
— Than...
— O quê.
— Esse não é mesmo o sabor que você gosta?
— ...
— Então eu comprei o errado mesmo?
— Por que você comprou, afinal?
— Eu já te disse... eu quero ser seu amigo.
— Eu não quero.
— Por que você não quer ser meu amigo? Posso
perguntar? É porque eu não sou uma pessoa boa?
— ...
— Eu... eu nunca tive amigos antes, então não sei como
agir para me dar bem com as pessoas.
— ...
— Eu só... eu só quero conversar com você às vezes.
Marn piscou. Than não disse uma palavra. Ele
simplesmente pegou sua mochila e saiu direto da biblioteca.
Marn ficou sentado ali pensando por um momento, depois
levantou-se apressado para ir atrás dele. Ele chamou por
Than novamente, mas o garoto não parou; apenas continuou
andando cada vez mais para longe.
— Than, você ainda vai me dar uma chance? Eu vou te
trazer mais balas!
— ...
— Prometo que vou comprar a certa da próxima vez!
— ...
— Se eu trouxer a certa da próxima vez, você fala comigo?
Marn perguntou, mas não houve resposta. Than já estava
bem à frente. Marn estufou as bochechas com tristeza,
genuinamente sem saber como fazer amizade com ele.
Por fim, Marn voltou para casa naquela noite sentindo-se
derrotado. O tio Karn olhou para ele com preocupação
enquanto ele suspirava repetidamente.
Não! Marn não iria desistir.
Mesmo que Than não dissesse nada, mesmo que ele ainda
não quisesse ser seu amigo, ele nunca disse para o Marn parar
de trazer balas. Talvez, só talvez, se o Marn conseguisse
comprar o sabor correto, o Than falasse com ele.
Então Marn passou na mercearia do bairro novamente.
Ele passou mais de dez minutos franzindo a testa
profundamente diante da prateleira cheia de potes de balas.
Ele não notou outro cliente entrando na loja: Than. Ele
paralisou por um momento. Ele só tinha vindo comprar ovos
para a mãe, mas não esperava encontrar o garoto novo parado
ali, de cara fechada para os potes. Seguindo a linha do olhar
de Marn, ele entendeu imediatamente o que o garoto estava
tentando fazer.
— Hum... qual marca será que é?
— ...
— Ah, vou comprar todas!
Então Marn pegou todas as balas de cor verde de todas as
marcas. Na manhã de segunda-feira, ele chegou à escola
segurando um saco plástico estufado cheio delas, ansioso
para apresentá-las a Than.
Assim que chegou à sala e viu Than sentado de braços
cruzados, Marn correu até lá, despejou todas as balas verdes
sobre a mesa e perguntou qual delas Than gostava. Mas Than
continuou sentado ali, de braços cruzados, em silêncio.
— Esta aqui?
— ...
— Ou esta aqui?
— ...
— Than, me diz. Eu comprei a certa?
— ...
— M-mas... a loja só tinha essas verdes. Eu realmente
não sei de qual você gosta...
Nada. Nem uma palavra.
Os ombros de Marn caíram novamente. Ele tentou de
verdade. Ele só queria uma chance de criar um laço através
das balas, mas foi completamente ignorado. Talvez Than
gostasse de algum sabor raro que não era vendido em lojas
normais.
Marn suspirou e começou a colocar as balas de volta no
saco plástico. Justo então, o professor entrou. Com medo de
levar bronca, ele se apressou em recolhê-las. Uma bala caiu no
chão, Marn se abaixou para pegá-la e, quando se levantou
novamente...
Hein?
Algumas das balas tinham sumido.
Elas caíram?
Para onde foram?
— A azeda sumiu também...
Ele só tinha comprado uma daquela bala super azeda
porque tinha certeza de que o Than não iria gostar. Agora ela
tinha sumido.
Marn procurou pelo chão, mas não conseguiu encontrar
nenhuma das balas perdidas. No fim, ele guardou apenas o
que conseguia ver.
Durante toda a aula, ele continuou lançando olhares
furtivos para Than, que permanecia em silêncio como sempre;
expressão fria, boca fechada. Marn soltou outro longo suspiro,
olhando desanimado para sua apostila, com as orelhas
murchas.
Mas ele não iria desistir!
Da próxima vez, ele com certeza encontraria um jeito de se
tornar amigo de Than. Espera só!
10
À medida que a semana de provas se aproximava, Marn
precisava se concentrar mais nos estudos. Ele mal fazia outra
coisa o dia todo além de lição de casa, exercícios práticos e
revisar repetidamente os mesmos capítulos até entendê-los
totalmente.
Como ele tinha se transferido para uma escola nova no
meio do semestre, se quisesse boas notas, teria que se esforçar
mais do que todo mundo.
O cronograma de provas ainda estava a uma semana de
distância, mas Marn já tinha começado a se preparar com dez
dias de antecedência.
A visão de um garoto de dezessete anos sentado sozinho,
estudando quietamente até as onze, às vezes meia-noite, já
tinha se tornado familiar para o tio Karn, o dono da casa. Mas
ele nunca esperou que, quanto mais perto da hora da prova,
mais rigoroso Marn se tornaria consigo mesmo.
Tio Karn ficou ali parado, franzindo a testa em confusão.
Eram quatro da manhã e Marn ainda estava ali sentado
estudando?
— Ah, bom dia, tio Karn.
Marn, que estava resolvendo problemas naquele
momento, virou-se imediatamente ao ouvir passos. Ele o
cumprimentou com um sorriso largo, mas o tio Karn apenas
franziu a testa e lançou-lhe um olhar severo.
— Você ainda não dormiu?
— Não, tio. Eu já dormi à meia-noite. Só acordei agora
para continuar estudando.
Ele dormiu à meia-noite e acordou às quatro para estudar
de novo? Não me diga que o garoto só dormiu quatro horas.
Mas o que... ele sabia que adolescentes tinham energia, mas
isso não era demais?
Estudar o dia todo na escola não era o suficiente — depois
de chegar em casa, ele ajudava na loja, e quando as vendas
terminavam, ainda fazia as tarefas domésticas e, depois de
tudo isso, revisava as lições.
Quanto mais o tio observava, mais irritado se sentia. Ele
não entendia por que Marn se esforçava tanto em tudo. Por
que ele tentava tão desesperadamente ser o melhor.
Ele odiava garotos assim mais do que qualquer coisa.
Irritava-o ver o menino sentado curvado sobre os livros
daquele jeito. Mas, no fim das contas, Karn não disse nada.
Ele se virou, com a voz ríspida enquanto dizia a Marn que
ia preparar as coisas para as vendas da manhã. Ele fingiu não
se importar com o que o sobrinho estava fazendo.
Se Marn queria estudar tanto, o problema era dele. Se ele
queria trabalhar até a exaustão, isso também era problema
dele. Não havia necessidade de ele se importar.
Embora fossem parentes de sangue, não eram próximos o
suficiente para ele ser carinhoso, dar abraços ou enchê-lo de
mimos. O relacionamento deles era superficial — tio e
sobrinho de nome, mas praticamente estranhos que só tinham
se visto por um curto período.
Depois que Marn crescesse, eles acabariam seguindo
caminhos separados. Então, que o garoto fizesse o que
quisesse.
Se ele se esgotasse, que fosse. Se corresse de um lado
para o outro fazendo tudo até mal conseguir dormir, o
problema era dele. Karn não se dava ao trabalho de cuidar
dele. Se não fossem parentes de sangue, ele nem teria acolhido
o garoto de qualquer maneira.
— Hein? O que é isso, tio Karn?
Marn olhou para cima e perguntou ao receber uma
mesada maior que o normal. Naquela manhã, ele saiu para
ajudar o tio Karn a vender leite de soja, como sempre.
Os dois enchiam os sacos com leite de soja juntos — Marn
ficava encarregado de conversar alegremente com os clientes,
tanto os novos quanto os regulares, enquanto o tio Karn
sentava por perto de braços cruzados, como o chefe silencioso
da barraca.
Quando havia poucos clientes, ele deixava tudo para
Marn resolver. Só quando o movimento ficava frenético é que
ele se levantava para ajudar a servir o leite ou embalar a
massa frita nos sacos.
Marn continuou ajudando até o sol nascer.
A luz se espalhou pela área enquanto ele ainda segurava o
dinheiro na mão, olhando para seu guardião em confusão. Ele
não entendia por que o tio Karn lhe deu tanta mesada hoje, e
ainda por cima leite de soja e massa frita de graça. Ele estava
tão curioso, mas mesmo depois de perguntar, o homem não
deu nenhuma resposta.
Após um momento, ele apenas falou em tom irritado,
dizendo para Marn se apressar para a escola que ele cuidaria
do resto sozinho. Marn assentiu prontamente, juntou as
palmas das mãos em agradecimento, despediu-se e partiu em
sua bicicleta.
— Ah! Than!
Ele nunca esperou encontrar seu colega de classe hoje.
Essa poderia ser, na verdade, a primeira vez, embora Marn e
Than vivessem no mesmo beco.
Geralmente, o único que ele via com frequência era o
professor Nathi. Mas hoje finalmente encontrou Than. Marn
pedalou imediatamente para mais perto e o cumprimentou
com alegria, recusando-se a desistir de tentar fazer amizade
com esse colega de rosto de pedra. Than ainda mantinha
distância, embora Marn demonstrasse claramente seu desejo
de ser amigo.
Apesar disso, Than nunca aceitava e continuava se
recusando a ser amigável com ele.
— Than, você já terminou a lição de casa? Aquela da
professora Pimol.
— ...
— Eu não estou muito confiante em algumas das minhas
respostas. Quando chegarmos na escola, você pode conferir
para mim?
— ...
— Than? Than? Than? Você está me ouvindo?
Marn fez um biquinho. Ele sabia que Than com certeza o
tinha ouvido! Mas ele realmente não ia dizer uma única
palavra? Ele também estava ficando cansado, sabe.
Por fim, Marn se calou e simplesmente pedalou em
silêncio ao lado dele, levantando o rosto para olhar a paisagem
ao redor.
Na primavera, as árvores verdes estavam florescendo,
deixando tudo com um aspecto fresco. O ar da manhã ainda
estava fresco, com a brisa roçando nele enquanto pedalava. As
árvores à beira da estrada, decoradas com flores brilhantes,
levantaram seus espíritos instantaneamente.
A atmosfera ali era maravilhosa. As manhãs também não
tinham problemas de trânsito. Indo de bicicleta para a escola,
ele via muitos outros alunos, alguns caminhando com
mochilas; alunos do ensino médio, do ensino fundamental e
até crianças do jardim de infância usando mochilas de
desenho animado, esperando por suas mães na porta de casa.
Ver aquilo fez Marn sorrir.
Quando Marn era criança, por volta dos cinco ou seis
anos — logo quando entrou na escola — sua mãe faleceu de
repente. Sua avó foi a única que cuidou dele. Toda manhã ela
o acordava, mandava ele se lavar e vestir o uniforme do jardim
de infância. Marn ficava parado como um boneco enquanto ela
o vestia, passando talco perfumado em ambas as bochechas
gordinhas. Os dois sempre riam juntos antes de caminharem
para a escola. Ela sempre o entregava pessoalmente ao
professor, observando até que seu único neto sumisse de vista
antes de voltar para casa.
Era assim todos os dias.
Pensar nisso fez Marn sorrir suavemente.
Ele sentia muita falta da avó. Ele se perguntava se ela
ainda se preocupava com ele de onde quer que estivesse.
Se a vovó estiver assistindo, não se preocupe comigo!
Já estou no ensino médio!
Eu já consigo ir para a escola sozinho!
— Hum? O que foi?
Nesse momento, Marn sentiu alguém olhando para ele.
Ele se virou para Than e inclinou a cabeça em dúvida. Than
não disse nada, simplesmente desviou o olhar e pedalou
imediatamente para frente. Mesmo quando Marn o chamou,
Than não esperou.
Than fugiu dele de novo.
Humpf!
No fim, Marn ainda não conseguiu se tornar amigo de
Than hoje. Eles chegaram à escola e sentaram um ao lado do
outro desde o primeiro período, mas não importa quantas
vezes Marn tentasse falar com ele, Than o ignorava
completamente, agindo como se Marn nem estivesse ali
sentado. Até Hem e Ying, sentados mais longe, observavam e
se sentiam cansados por Marn.
Mesmo eles — que conheciam Than desde pequenos —
nunca tinham se esforçado tanto para ser amigos dele. Eles
percebiam que Marn estava realmente se empenhando.
Durante o intervalo entre as aulas, Than desapareceu,
provavelmente para ir ao banheiro. Hem e Ying correram
imediatamente para a mesa de Marn. A única garota do grupo
puxou uma cadeira, levantando uma perna tão alto que sua
saia quase abriu, mas ela não parecia se importar nem um
pouco.
Antes que ela percebesse, sua orelha foi agarrada e
torcida.
— Ai! — Ying gritou.
Ryu estava atrás dela, com um olhar severo.
— Sente-se direito.
— Eu estou usando shorts por baixo!
— Eu disse para sentar direito.
— Tsc!
— Você é uma garota. Como pode sentar desse jeito?
— Ryu, como você ainda consegue ver ela como uma
garota? A vizinhança inteira já chama ela de machuda. Ai! Ai!
— Eu não sou machuda!!
— Ai, seu idiota com cara de lua!
Marn suspirou e sorriu levemente. Olhe só, aqueles dois
estavam discutindo de novo.
Ao ouvir o comentário de Hem, Marn entendeu. Embora
Ying fosse uma garota, ela cortava o cabelo curto e agia de
forma tão atrevida que muitos alunos pensavam que ela era
uma machuda — sempre pronta para brigar ou lutar com os
meninos. Todos a chamavam de a machuda da turma 11/1.
Mas Marn nunca tinha visto Ying aceitar esse rótulo.
Na verdade, ela parecia irritada toda vez que alguém a
chamava de moleca — exatamente como agora.
— Só me deixa em paz!
— Tsc!
— Eu vou ser o que eu quiser, tá bom?
Ying revirou os olhos e balançou a cabeça levemente,
levantando a mão para ajustar o penteado. Ela franziu os
lábios até o rosto todo ficar enrugado. As pessoas
continuavam chamando ela de machuda. Ela nem gostava de
garotas! Só por causa do corte de cabelo e do jeito um pouco
bruto, todo mundo tirava conclusões precipitadas. Ela só
cortou o cabelo assim porque achou que parecia legal e
combinava com o rosto dela. Além disso, era conveniente,
mais fresco e dava menos trabalho.
Olhe para as outras com cabelo comprido: escovando o
dia todo, desembaraçando o dia todo, usando meio frasco de
condicionador cada vez, e no momento em que o vento sopra, o
penteado delas está arruinado e vai levar tempo para escovar
de novo. Ying odiava esse tipo de frescura, por isso escolheu
esse corte.
Mesmo quando os professores a chamavam para dar
sermão, ela os ignorava. Era estranho como algo tão simples
como um corte de cabelo podia fazer todos ao redor marcarem
território e decidirem quem ela era.
A fofoca se espalhava de boca em boca chamando ela de
moleca repetidamente.
Toda vez que ouvia isso, ela se sentia irritada, mas não
conseguia mais se dar ao trabalho de discutir, então deixava
passar. Não era como se ela devesse explicações a ninguém.
Sempre tinha sido assim. Mais alta que a maioria das
garotas, esse corte de cabelo, comportamento bruto,
arrumando briga com meninos — claro que todos a
chamariam de machuda. E alguns até iam além, provocando-a
abertamente. Ela teve que lidar com pervertidos que diziam
coisas como: “Quer que eu te transforme em uma mulher de
verdade?” “Tenta isso, tenta aquilo e você vai mudar de ideia.”
Lixo.
Ela não conseguia se segurar e tinha que dar um soco
direto na boca deles. Ela nunca se arrependeu de ser a
senhorita Lua Cheia, o orgulho de Prakan! Se eles falavam
lixo, mereciam um gancho de presa de Erawan! E isso porque
ela nem era realmente uma machuda — quão pior seria se ela
realmente fosse? Ela não queria imaginar sobre quem mais
aqueles caras andavam falando mal.
O cabelo é dela. O problema é dela.
Ela vai ser o que quiser.
E como isso envolve qualquer outra pessoa?
Ying não achava que era uma moleca. Mas,
honestamente, ela não tinha certeza se sequer contava como
uma "garota" como as outras. Olhe ao redor — ela não se
parecia em nada com nenhuma outra garota da classe.
Se um dia ela anunciasse que era realmente uma garota...
ela nem queria imaginar os olhares que as pessoas lhe dariam.
Ela nunca tinha conversado sobre isso com ninguém, nunca
pediu conselhos. Ela tinha lutado com essa confusão sozinha
por muito tempo. Mas tanto faz.
Pensar demais só lhe dava dor de cabeça. Ela sempre
deixou passar e nunca tentou chegar a uma conclusão para si
mesma.
— Enfim, esquece sobre mim... Ei, Marn.
— Sim?
— É sério... tudo isso que você está fazendo é porque está
tentando falar com o Than?
— Uhum. Eu quero muito ser amigo do Than.
— Mas ele é super difícil de abordar. Se for demais, você
pode parar, sabe. Tem muita outra gente para conversar.
— Eu realmente quero ser amigo do Than.
— ...
— Mas você tem razão, é realmente muito difícil... mas
mesmo que no fim meu esforço não chegue até ele, tudo bem.
Só de sermos colegas de classe já é ótimo. Estou muito feliz por
ter conhecido todo mundo. Quando nos formarmos mais
tarde... eu nunca vou esquecer que conheci você, o Hem e o
Ryu aqui.
Marn falou com um sorriso brilhante e olhos cintilantes.
Suas palavras eram sinceras. Esse era seu primeiro grupo de
amigos. Todos o tratavam tão bem — ninguém demonstrava
nojo, embora ele carregasse um vírus perigoso. Ninguém
nunca o tinha tratado como uma pessoa normal antes. Todos
no seu passado o tinham evitado — talvez porque fossem todos
novos demais na época: jardim de infância, ensino
fundamental, ensino médio...
Poucas crianças naquela idade realmente entendiam.
Elas só ouviam os boatos: HIV é o mesmo que AIDS, cheio de
feridas, assustador, fique longe ou você vai ser infectado. Isso
era tudo o que sabiam.
Ele esperava que agora, no ensino médio, todos
aprendessem corretamente.
Marn não os odiava pelas cicatrizes que lhe tinham
causado. Ele apenas esperava que eles crescessem,
entendessem e tratassem outros pacientes melhor do que
trataram ele.
— Estou muito feliz por poder ser amigo de você, da Ying,
do Hem e do Ryu.
— É.
— Se eu acidentalmente fizer algo errado, vocês podem
me falar a qualquer hora, tá bom? Às vezes eu não sei das
coisas, então posso causar problemas.
— Não seja bobo. Que tipo de problema você poderia
causar?
Hem riu e não conseguiu evitar de estender a mão para
dar um tapinha no ombro do novo amigo.
Marn ficou tenso — ainda não estava acostumado com
pessoas tocando nele primeiro — mas depois de um momento,
ele relaxou, sorriu docemente e assentiu. Então ele começou a
tagarelar, perguntando sobre as provas e outros assuntos.
Os olhos de Hem e Ying brilharam quando viram o
resumo de estudos na mesa de Marn. Eles o pegaram e
folhearam página após página, maravilhados com a caligrafia
caprichada e as notas fáceis de entender. Eles imediatamente
se aproximaram com olhos de cachorrinho pidão.
— Marnnn...
— Uh...
— Quando você estiver livre da próxima vez, podemos
olhar suas notas de novo, por favoooor?
— Claro! Eu não me importo. Podem ver.
— Sério?!
— Sério. Se vocês não entenderem nada, me perguntem.
Se eu puder explicar, eu explico.
— Maravilha! Agora isso é o que se chama de um amigo de
verdade — não como você, Hem!
— Ei! Não esquece quem deixou você copiar minha lição
de química!
— Eu não sei, sou cega, não vi nada. Foi o Ryu quem me
ensinou, na verdade.
— Você! Pelo amor de Deus! Por que você é assim?!
Sua...—
— AI!
Ah... aqueles dois estavam naquela de novo. Marn olhou
para a expressão resignada de Ryu e riu. O garoto de óculos
puxou Ying pelo colarinho e os separou, bem no momento em
que o próximo professor entrava. Crise evitada.
Marn olhou para o assento vazio ao seu lado, respirou
fundo e cerrou o punho com determinação. Ele seria amigo de
Than.
Só olhem!
— Ahh... Você acha que o Marn consegue?
— Ei, Ryu, você não acha que o Than está indo longe
demais? O Marn quer ser amigo dele de verdade. Vi ele
tentando falar com o Than o dia todo. Chamando Than, Than,
Than sem parar e aquele cara continua fugindo.
— Ele já disse ao Marn que não queria ser amigo dele.
— Mas o Marn seria um amigo tão bom!
— Ser um bom amigo não significa que ele será amigo de
todo mundo.
— Não diga isso onde o Marn possa ouvir! Isso é tão cruel,
sabia?
— Mas é verdade, não é?
— Suspiro... falar com você é inútil. Alguém como você
nunca entenderia as sutilezas emocionais humanas. Tudo o
que você diz é curto e grosso.
— É mesmo?
— Sim.
Ryu levantou os olhos da guitarra elétrica e deu uma
olhada no outro membro do clube que batia o pé no pedal da
bateria. Ele não disse mais nada e voltou a praticar em
silêncio.
Geralmente, apenas os membros do clube usavam aquela
sala. Ryu e Ying faziam parte do clube de música desde o
primeiro ano do ensino médio. Eles faziam tudo juntos.
Um grande evento estava chegando; após os exames de
meio de período, haveria uma grande competição de bandas
novas no centro da cidade. Um prêmio de dezenas de milhares,
além da chance de ser descoberto por uma gravadora.
Ying, apaixonada por música, agendava sessões de
prática diárias de pelo menos uma ou duas horas, embora,
como fosse época de provas, menos pessoas quisessem vir. Ela
entendia e reduzia as sessões para apenas dois ou três dias
por semana.
— Eu realmente não te entendo, Ryu. Por que você entrou
no clube de música se gosta mais de desenhar? O clube de
artes não seria melhor?
— Quem me forçou?
— Eu não te forcei, eu pedi com jeitinho! Você poderia ter
recusado!
— Eu recusei um monte de vezes. Você nunca ouviu.
— Hehe... mas se você odiasse música, não teria ficado
até agora, néee? No fundo, você deve gostar um pouquinho~
Após uma hora de prática, Ying fez uma pausa e foi
comprar chá de crisântemo e suco de hibisco.
Quando voltou, encontrou o guitarrista encostado na
parede com um caderno preto de aparência familiar na mão.
Ying olhou e percebeu que ele estava desenhando a sala de
música — a bateria, os instrumentos, os pôsteres na parede. O
traço era lindo. Ela não pôde deixar de ficar maravilhada. É
claro que ela sabia o quão talentoso Ryu era no desenho. Em
toda aula de artes, ele produzia obras-primas — lápis de cor,
aquarela, até grafite simples — ele conseguia transformar
qualquer coisa em algo deslumbrante.
— Seu suco de hibisco. Aqui, pega.
— Valeu.
Ying se deixou cair sentada ao lado dele, encostando a
cabeça no ombro do seu melhor amigo sem pensar muito
nisso. O gesto era puro hábito. A ponta do lápis de Ryu parou
por uma fração de segundo, mas após um momento ele
retomou o desenho.
— Você desenha tão bem. Me ensina.
— Eu já te ensinei.
— Não pode me ensinar de novo?
— Te ensinar é inútil. Você vai só jogar o lápis de lado e ir
bater na bateria de qualquer jeito.
— Tsc. Agindo como se soubesse de tudo.
— ...
— Ryu.
— ...
— Ryuuuuu~.
— É, estou ouvindo.
— Depois das provas... a gente devia levar o Marn para
algum lugar?
— Onde a gente iria?
— Não sei. Só quero levar um amigo para sair. Finalmente
ter um amigo novo; geralmente só vejo os mesmos rostos, tipo
o seu. Conheço você desde o jardim de infância, estou tão
cansada de olhar para você. E o Hem... chato. E o Than
também. Agora que o Marn está aqui, estou empolgada. Quero
levar ele a todo lugar. Ele acabou de se mudar para cá e é de
outra província, parece divertido, né?
— ...
— Devíamos levar o Marn para o canal? Ir brincar na
água?
— Ele consegue nadar?
— Hein? Eu realmente não sei se alguém com HIV pode
entrar na água... vou pesquisar depois.
— Estou falando do Than.
— Ah... é. Se for lá, ele com certeza não vai.
— Ah... pois é.
Ying soltou um longo suspiro e depois endireitou a
postura novamente.
Naquele momento, apenas ela e Ryu estavam na sala de
prática; os outros deviam ter saído para comer um lanche ou ir
ao banheiro. Ela estava prestes a alongar um pouco os braços
e as pernas, mas, no segundo seguinte, a porta da sala de
prática se abriu.
No momento em que viu quem entrava, ela
instantaneamente baixou os membros e se sentou
corretamente. Até Ryu parou seu desenho e olhou
discretamente.
— Ah? Ying. Vocês já terminaram de praticar?
— P-P'Zen...
— Vim ver vocês praticarem um pouco. Acho que cheguei
tarde demais. Haha.
— Nem um pouco tarde! Só estamos fazendo uma pausa.
Vamos continuar logo. Vou avisar a todo mundo que o P'Zen
veio assistir. Isso é perfeito, se você aparecer, aqueles idiotas
finalmente vão praticar a sério!
— Tudo bem. Não estou aqui para pressionar ninguém.
Só dei uma passada. Continuem com a prática; eu tenho aulas
extras mais tarde de qualquer maneira.
— V-Você já vai? Entendi... Boa sorte se preparando para
os exames, P'Zen.
— Obrigado.
A porta se fechou novamente e Ying desabou no chão
como se não tivesse mais ossos. Ambas as mãos voaram para
cobrir o rosto; um rubor vermelho brilhante se espalhou por
sua face e desceu pelo pescoço. Ryu suspirou e disse
calmamente para ela se sentar direito. Os outros voltariam a
qualquer momento e, se a vissem rolando assim, pensariam
que ela estava possuída.
— Ughhh...
Só havia uma explicação para esse comportamento.
— Eu gosto tanto do P'Zen que poderia morrer. Quase tive
um ataque cardíaco agora pouco, Ryu! Fiquei tão nervosa,
meu coração estava batendo tão forte. Sente aqui, toca!
— Ei!
Ryu repreendeu bruscamente quando Ying tentou pegar a
mão dele e pressioná-la contra o peito dela. Ele puxou a mão
de volta e soltou um suspiro forte, ignorando o desmaio
dramático dela.
Completamente diferente de si mesma. E essa era a
suposta "tomboy" que todo mundo sempre a chamava? Olhe
para ela agora — sua única fraqueza era o veterano, P'Zen. Ela
gostava dele desde o início do ensino fundamental. Ela só
entrou no clube de música porque estava seguindo ele. Ela
gostava dele há anos, sem nunca confessar, apenas se
agitando de empolgação pelas costas dele desse jeito.
— O P'Zen se forma este ano... acho que realmente
preciso me confessar.
— Mas estou com tanto medo, Ryu. A gente só conversou
por um minuto e eu quase desmaiei. Se eu tiver que dizer para
ele que gosto dele, eu morro.
— ...
— Ryuuu~~
— Os outros voltaram. Se recomponha e continue a
prática.
— Ugh, você!
Ryu não deu mais atenção ao desabafo dela. Ele guardou
seu caderno de desenhos e se levantou para se preparar para a
prática. Ying ficou sentada lá, sorrindo para si mesma como
uma idiota.
Quando os outros entraram e a viram assim, ficaram
confusos — apenas para Ying gritar com eles de vergonha.
Eles praticaram até o pôr do sol.
Então, como sempre, Ryu pedalou sua bicicleta para
deixar Ying em casa. Ele conhecia bem o caminho — eles o
usavam desde a infância.
A casa de Ying era cheia de homens: o pai dela era
boxeador; seus três irmãos mais velhos eram musculosos —
dois boxeadores e um soldado. Apenas a mãe de Ying
mantinha a suavidade na casa.
Ryu cumprimentou os pais dela educadamente e depois
pedalou de volta para casa.
Ele finalmente chegou ao seu destino — uma casa grande
e luxuosa, muito mais grandiosa que as outras da rua, com
sua cerca branca impecável que fazia qualquer um que
passasse sentir uma pontada de inveja.
Ryu estacionou sua bicicleta com cuidado, colocou os
sapatos organizadamente na sapateira e entrou lentamente. O
som do jornal da noite ecoava pela casa. Um homem de
meia-idade estava sentado rigidamente à mesa de jantar. A
casa inteira parecia pesada e sufocante.
Ryu fez uma reverência ao pai e sentou-se, esperando a
governanta lhe servir o arroz. Ele começou a comer em
silêncio.
— Você tem chegado em casa tarde ultimamente, não
tem?
— ... Sim, senhor.
A voz fria de seu pai tirou todo o sabor da comida. Ryu
mastigava devagar, perdendo o apetite de repente e desejando
poder se retirar para seu quarto.
— Você deixou a Ying em casa de novo?
— Sim.
— Você não pode deixar sua amiga ir para casa sozinha?
Você está no ensino médio agora, ela deveria ser capaz de ir
para casa sozinha.
— Levar ela para casa todos os dias desperdiça seu
tempo. Você poderia estar fazendo outra coisa.
— ...
— Sua aula extra já está reservada. De agora em diante,
pare de ir à casa da Ying. Depois da escola, pegue a van e vá
direto para a tutoria. Quando terminar à noite, me ligue. Eu
busco você.
— O quê...?
— Você já está no segundo ano. Ano que vem será o
terceiro. Com tão pouco tempo sobrando, se você continuar
desperdiçando, não estudando a sério, não se preparando,
como vai entrar na faculdade de medicina?
— E você já saiu do clube de artes?
— ... Eu não me inscrevi.
— Bom.
— Participar seria uma perda de tempo. Praticar desenho
vai tirar suas horas de estudo.
— ....
— Não se distraia com coisas inúteis. Você já conhece seu
objetivo. Foque apenas nisso.
— ... Sim, senhor.
Ryu assentiu. Ele forçou mais algumas garfadas e depois
largou os talheres.
Seu pai saiu, falando ao telefone em algum lugar.
Ryu deixou a governanta limpar tudo enquanto se
retirava para o andar de cima. Ele colocou a mochila na cama
e deitou-se lentamente.
Uma das mãos abriu o zíper da mochila e tirou o familiar
caderno preto. Ele folheou as páginas — fórmulas químicas
preenchiam as primeiras. Seus olhos atrás dos óculos
estavam opacos e sem vida. Ele continuou folheando.
Então ele chegou a uma página que havia sido dobrada.
Quando viu o desenho a lápis ali, um brilho fraco
retornou aos seus olhos. A ponta de seu dedo roçou o papel
levemente. Então ele voltou para um esboço anterior e parou.
Uma garota de cabelo curto estava rindo abertamente, com
árvores e flores atrás dela. Um esboço simples — nada de
extraordinário.
Tinha levado apenas meia hora. Apenas linhas de lápis,
nada de especial. Mas olhar para aquilo fazia a risada ecoar
em seus ouvidos.
Ryu sorriu levemente e balançou a cabeça um pouco
antes de guardar o caderno. Ele fechou os olhos lentamente e
soltou um suspiro longo e exausto. Se o pai dele descobrisse
que ele tinha entrado no clube de música — e estava
praticando quase todos os dias para uma competição que se
aproximava — ele seria punido com certeza. Aquela garota era
tão teimosa.
Mesmo sabendo que Ryu não se sentia confortável com a
música, ela ainda o arrastou para dentro. Mas ele não podia
culpá-la completamente. Ele a tinha mimado demais —
deixando que ela fizesse as coisas do jeito dela até que se
tornasse impossível recusar.
— Ryu, entra nesse clube comigo, por favooor. Eu não vou
sobreviver aqui sozinha se você não estiver comigo.
— Música?
— Éééé. Quero entrar no mesmo clube que o P'Zen, mas se
eu tiver que ver ele o tempo todo, eu definitivamente não vou
sobreviver. Por favor, vem comigo, tá bom? Eu estou te
implorando. Vá para me ajudar a me segurar quando minhas
pernas falharem. Eu com certeza vou desmaiar se o P'Zen falar
comigo com muita frequência.
— Por favor, Ryu. Você é o único que vai me ajudar. Por
favor?
— Eu não sei tocar nenhum instrumento.
— Eu posso te ensinar. Na verdade, você nem precisa tocar
bem. E não se preocupe com a prática — se você não quiser
praticar, tudo bem. Você pode faltar totalmente. Pode correr
para casa mais cedo. Só estar ali do meu lado já é o suficiente.
— ...
— Por favor, entra nesse clube comigo, Ryu.
— ...
Que problemão. Se as pessoas soubessem que a chamada
"tomboy da escola" de quem todos falavam... tinha se
apaixonado perdidamente por aquele veterano, P'Zen, do
terceiro ano. Ela ainda se lembrava da vez em que P'Zen veio
lhes ensinar bateria — a reação de pânico dela naquela época
foi hilária. Ela fez uma cara tão ridícula e gritou tão alto;
estava sendo tão óbvia que qualquer um poderia ver através
dela.
Se Hem tivesse visto aquela expressão, ele teria rido sem
parar.
Mas Ryu não conseguia rir.
Nem um pouco.
11
Atchim!
Na última hora, esse espirro deve ter ecoado várias vezes.
Tio Karn, que estava deitado com a cabeça apoiada assistindo
televisão, finalmente tirou os olhos da tela e se virou para
olhar para seu único sobrinho. Ele soube que esta semana era
um período de provas importante para os garotos, então Marn
estava estudando seriamente, fazendo o dever de casa com
dedicação e revisando tudo com afinco todos os dias.
O garoto era esforçado — muito esforçado mesmo — mas
às vezes beirava o exagero. Talvez por ainda ser jovem, ele
continuava forçando seus limites como se seu corpo fosse
aguentar qualquer coisa. Bastava um olhar para o seu rosto: o
fungar constante não significava outra coisa, ele com certeza
estava começando a ficar resfriado.
Como era semana de provas, Marn tirou uma folga de
ajudar o Tio Karn por uma semana inteira — nada de acordar
de madrugada para ajudar a ferver o leite de soja ou amassar a
massa dos bolinhos de chuva tailandeses.
Mesmo assim, ele ainda se obrigava a acordar no mesmo
horário, ajudando o Tio Karn a carregar os itens no carrinho e
montando a barraca no local de costume. Assim que a barraca
estava arrumada, ele voltava para casa para estudar.
Isso continuou por vários dias até que o Tio Karn
começou a resmungar.
Talvez pela primeira vez, ele entendeu que até crianças
boas podiam ser irritantes às vezes.
Cof! Cof!
Lá estava — ele já tinha começado a tossir alto. Marn
pegou um lenço para limpar o nariz escorrendo. Sua
respiração parecia estranhamente quente; sua cabeça doía
toda. Mas ele se forçou a focar no material de inglês à sua
frente. Ele estava revisando gramática, resumindo tudo de
forma organizada e até fazendo cópias para o seu grupo de
estudos.
Na escola, ele tinha ensinado e dado tutoria aos seus
amigos e, quando revisava novamente em casa, isso fortalecia
seu próprio entendimento. Ele aguentou tudo e, finalmente, o
último dia de prova seria amanhã — depois disso, não
precisaria mais estudar tanto. E parecia que o Tio Karn
planejava tirar o fim de semana de folga, então Marn teria um
descanso de verdade também.
— Está tarde. Vá dormir.
— Sim, Tio Karn. Eu vou daqui a pouco.
— O que mais você tem para ler?
— Eu quero tirar notas boas.
— Quantas vezes você já revisou isso?
— Hum... eu tenho medo de esquecer.
— Você está doente e ainda está lendo? Vá dormir.
— Sim. Vou terminar esta parte e já vou.
Marn deu um sorriso largo enquanto respondia, depois
baixou a cabeça para continuar lendo. Quase dez minutos
depois, o Tio Karn voltou com analgésicos e uma garrafa de
água. Ele não disse muito — apenas disse para Marn tomar o
remédio — depois saiu trancando a casa e apagando as luzes
do andar de baixo. Quando terminou, ele subiu.
Marn piscou, surpreso. Ele não tinha percebido que o Tio
Karn se importava tanto com ele.
— Obrigado, Tio Karn...
Talvez por causa do remédio, ele dormiu bem.
Quando acordou cedo para a prova, a dor de cabeça da
noite anterior tinha diminuído para apenas uma leve
pulsação.
Mesmo em semana de provas, ele não abandonou seu
papel de ajudante do Tio Karn. Ele ainda acordava cedo para
auxiliar, mesmo levando bronca e ouvindo que deveria ir se
preparar para o exame.
Quando estava quase na hora, Marn tirou o avental,
pegou sua velha mochila de sempre e se preparou para ir à
escola. Mas, antes de sair, ele se lembrou de algo.
Ele usou seu próprio dinheiro para comprar quatro sacos
de leite de soja e uma porção de bolinhos. O verdadeiro dono
da barraca franziu a testa — confuso sobre o motivo de Marn
estar comprando tanta comida para levar para a escola.
— Ah, estou levando para os meus amigos. Combinamos
de revisar juntos antes da prova.
Marn esperava gastar quase cem baht esta manhã em
nome da amizade. Mas, estranhamente, o Tio Karn empurrou
o dinheiro de volta para a mão dele e disse para ele correr para
a escola. Então Marn apenas ficou olhando confuso, fazendo
um wai educado para ele.
Uau. Ele não precisou gastar um único baht e ainda
conseguiu um monte de comida para dividir com os amigos. As
pessoas costumavam dizer que seu tio parecia antipático e
rigoroso. Mas Marn sabia bem. Para ele, o Tio Karn era a
pessoa mais bondosa do mundo.
— Pessoal, esse leite de soja é do meu tio. Peguem um
cada.
— Uau!
— Cuidado, está quente.
— Valeu mesmo, Marn! Você até trouxe os bolinhos?!
— Sim. Vamos dividir e comer juntos.
— Caramba — está uma delícia! Muito bom! Sua casa
vende leite de soja, né? Você deve beber todo dia.
— Haha, normalmente eu não tenho coragem de beber o
que a gente vende. Eu me sentiria mal pegando de graça.
— Qual é o problema? Vocês dois moram juntos de
qualquer jeito. Por que pensar tanto nisso?
— Eu não consigo. Eu realmente me sinto mal tirando
vantagem do Tio Karn. Ele já me ajudou tanto.
Marn sentou na mesa de pedra sob a sombra, pegando
seu caderno para revisar. Ao redor dele, os alunos estavam
chegando, alguns formando grupos de estudo exatamente
como o dele. Aquela era uma escola secundária, com alunos
do ensino fundamental e médio. As crianças iam desde os
pequenos do 7º ano até os veteranos altos do 3º ano do médio,
todos devidamente uniformizados e prontos para a prova final.
Cof, cof...
Marn cobriu a boca, virando o rosto e tossindo
suavemente. Hem, sentado ao lado dele, deu um cutucão com
o cotovelo — ainda segurando leite de soja e bolinhos em
ambas as mãos.
— O que foi? Está doente?
— Não... eu só engasguei.
— Você não parece muito bem hoje. Parece cansado.
— Deixa eu ver — Ying interrompeu.
Ela estendeu a mão e tocou levemente a testa dele. Os
olhos dela se arregalaram; ele estava definitivamente quente.
A preocupação a atingiu imediatamente; ela sabia que o corpo
de Marn era frágil. Ficar doente podia ser pior para ele do que
para os outros. Ela imediatamente começou a gritar que
levaria Marn para a enfermaria da escola, falaria com o
professor e daria um jeito de adiar a prova. .
Hem foi na onda, e os dois fizeram tanto alvoroço que a
área toda virou um caos até que Ryu, bebericando seu leite de
soja, finalmente falou para que se calassem.
— Ei, Than.
Hem olhou para o último amigo do grupo que tinha
acabado de chegar. Ele acenou para que ele se sentasse à
mesa. Than caminhou calmamente sem dizer uma palavra a
ninguém. Mesmo quando Marn o convidou para tomar leite de
soja e comer bolinhos com eles, Than não respondeu.
Assim que se sentou, ele virou o rosto, olhando para os
pássaros, para as árvores — para qualquer coisa, exceto para
as pessoas naquela mesa. O rosto de Marn murchou um
pouco.
Olha só... mesmo agora, Than ainda não se abria com ele
como amigo.
— Marn, você não vai comer?
— Pode comer, Ying. Eu já comi. Estou satisfeito.
— Ei, Than, quer um pouco? O Marn trouxe isso para
todos nós, sabe. É de graça! Se você não pegar, a gente vai
roubar o seu.
Ying ergueu o saco de leite de soja e se virou para aquele
amigo sem expressão. Than nem sequer olhou para ela. Ela
soltou um suspiro e acabou bebendo ela mesma.
Depois de um tempo, o sinal da escola tocou por todo o
pátio. Os alunos se prepararam para a fila da cerimônia da
bandeira pela manhã. Marn guardou seus livros na mochila e
ajudou a recolher os sacos de lanche para jogá-los fora.
No caminho, ele não parava de tossir.
Depois de jogar os sacos plásticos na lixeira, ele se virou
para ir para a fila — mas deu um pulo de susto ao ver que
Than o tinha seguido. Na mão de Than estava um pedaço de
lixo que os outros tinham deixado passar sem querer.
Marn deu um passo para o lado para deixá-lo jogar fora.
Por um momento, seus olhos se encontraram. Marn teve a
sensação estranha de que Than estava encarando ele antes.
— Você tem algo que queira me dizer?
— Não.
— Os outros disseram que querem sair juntos depois das
provas. Than, você quer vir também?
— Não.
— Sério? Por que não?
— Preguiça.
— Ah... entendi. Você provavelmente vai estar cansado
depois das provas. Descanse bem, tá?
— ...
— Eu acabei de me mudar para cá, então não conheço
muito bem a região. Quando cheguei, até para ir comprar algo
aqui perto eu me perdia. Estou muito feliz que meus amigos
querem sair, vou poder conhecer este lugar melhor também.
— ...
— Esta vai ser a primeira vez que vou conseguir sair com
amigos.
Marn sorriu feliz, depois caminhou rápido para se juntar
à fila. Eram apenas 8 da manhã, mas o sol já estava
escaldante.
Marn ficou ali, lutando contra sua dor de cabeça. Ele
achou que já estava quase recuperado, mas em apenas
algumas horas de pé e se movimentando, a dor de cabeça
constante voltou. Ele não teve escolha a não ser arrastar seu
corpo doente para a sala de aula.
Sua respiração estava quente, seu nariz não parava de
escorrer e ele tinha que ficar limpando com lenços. Isso tornou
a realização da prova extremamente difícil.
Durante o intervalo do almoço, Marn planejou passar na
enfermaria para pegar algum remédio. Mas se dessem algo que
desse sono, ele poderia acabar dormindo durante a prova da
tarde — isso seria terrível.
Ele evitou contar aos amigos que estava se sentindo mal,
sabendo que eles se preocupariam demais — como Hem e
Ying, que já tinham entrado em pânico pela manhã. Marn
admitia que nunca soube muito bem como reagir quando os
amigos demonstravam preocupação.
Em toda a sua vida, a única pessoa que já tinha olhado
para ele com esse tipo de preocupação foi sua avó.
Sempre que ele estava doente ou com dor, era ela quem
vinha vê-lo. Sempre que ele tinha dor de cabeça, a mão
enrugada, mas gentil dela, acariciava sua cabeça, sua voz
suave o confortava até que todo o desconforto desaparecesse.
O toque frágil dela sempre o fazia se sentir melhor, como
mágica.
— Obrigado, professor.
Marn juntou as palmas das mãos em respeito e saiu da
enfermaria. Ele tinha tomado o remédio e se preparava para
voltar para o andar de cima para terminar a prova da tarde.
Ele olhou para o céu — nuvens cinzas e escuras estavam
chegando. Não era de admirar que estivesse um calor
insuportável a manhã toda; uma tempestade estava se
formando por trás disso. O tempo aqui mudava com
frequência. Talvez tenha sido por isso, em parte, que ele ficou
doente.
Minha cabeça dói...
Quero dormir...
Acho que não consigo fazer a prova...
Estou tão cansado...
Marn ficou parado, olhando vagamente para o céu
sombrio enquanto ventos fortes sopravam poeira e folhas
secas para todos os lados.
Alunos ali perto gritaram. Uma tempestade de primavera
tinha chegado. Ele ergueu a mão para bloquear o vento.
Estava tão forte que o assustou. Ele se agachou para evitá-lo.
Mal se passaram cinco minutos depois que o vento
acalmou e uma chuva pesada começou a cair do céu.
Os olhos de Marn se arregalaram.
Ele deveria correr de volta para o prédio das provas. Se
ficasse preso na chuva, estaria em apuros. Melhor ir agora
antes que piorasse.
— Oh! Than!
— Than, espera.
— Vem aqui.
Marn congelou, confuso. Ele nunca esperou que Than
saísse da enfermaria. Ele até ouviu o professor lá dentro
gritando atrás dele. Ele imaginou que Than devia estar
entrando escondido para cochilar na cama macia da
enfermaria.
Que tipo de aluno fazia o que bem entendia desse jeito?
Ele até ignorava as broncas do professor e ainda parecia
completamente distraído. Nem os amigos deles conseguiam
entendê-lo. Than era realmente um mistério.
Mas o que chocou Marn não foi apenas trombar com ele
— foi que Than saiu segurando um enorme saco plástico preto
de não se sabe onde.
Antes que Marn pudesse perguntar qualquer coisa, o saco
grande foi puxado sobre a cabeça dele.
Ele não conseguia enxergar nada. Assim, do nada, Marn
virou um fantasminha de saco preto, tropeçando às cegas. Ele
quis tirar o saco, mas Than continuou empurrando suas
costas, apressando-o através da chuva.
Ele não teve escolha a não ser olhar para o chão —
embora ainda não conseguisse ver nada, exceto seus próprios
sapatos pretos de escola caminhando sem rumo. Than
continuou guiando-o por trás para que ele não se desviasse do
caminho.
Por fim, chegaram em segurança ao prédio das provas.
— Than.
Assim que chegaram, Marn imediatamente tirou o saco
da cabeça. O fantasminha de saco preto desapareceu. Marn
planejou falar com Than, mas Than já tinha se afastado,
deixando-o para trás e subindo as escadas sozinho. Marn
abraçou o grande saco preto contra o peito, inclinando a
cabeça em confusão.
Than... é realmente difícil de entender.
Depois de tomar o remédio, sua dor de cabeça aliviou um
pouco, mas agora ele sentia uma sonolência terrível —
perigoso durante uma prova.
Ele lutou para ficar acordado, ouvindo o som da chuva, as
pálpebras pesadas, mas dizendo a si mesmo repetidamente
para não estragar tudo.
O Tio Karn lhe daria uma bronca. E... sua avó no céu — se
ela o visse sendo desleixado, não levando os estudos a sério —
ela ficaria decepcionada também. No final, Marn conseguiu
terminar a prova final.
A chuva parou bem na hora e ele pôde ir para casa de
bicicleta. Por mais cansado que estivesse, ele escondeu seu
desconforto e continuou sorrindo, ajudando o Tio Karn com
tudo como de costume. Ele nunca reclamava.
Depois do jantar, ele tomou seu banho habitual. Foi então
que percebeu que sua condição tinha piorado muito. Ele não
conseguia mais continuar. Ele se deitou encolhido em seu
quarto, exausto, antes mesmo de dar nove da noite.
Tio Karn achou estranho que Marn tivesse esquecido de
subir com sua mochila escolar, então o seguiu até o andar de
cima.
Depois de bater e chamar por um tempo, Marn finalmente
cambaleou para abrir a porta. Um olhar para o rosto do
sobrinho disse tudo a ele. Ele mandou Marn direto para a
cama e desceu novamente.
Ele checou as horas — ainda não estava tão tarde. Ele
mudou de direção, preparando-se para sair. Mas assim que
abriu o portão, encontrou um convidado indesejado parado
ali.
— O que você está fazendo aqui?
— Bem, eu vim fazer uma visita.
— Já terminou o trabalho?
— Ah, minhas provas foram no primeiro dia. Já corrigi e
enviei as notas.
— ...
— Então hoje eu estou livreeeee.
Inacreditavelmente, o professor de sala de Marn estava
parado na frente da casa deles tarde da noite, sorrindo
travessamente. Karn o ignorou e passou por ele.
Vendo o homem mais velho tirar sua bicicleta, usando
chinelos pretos simples e sua jaqueta de sempre, com o cabelo
solto em volta do pescoço em vez de preso como de costume, e
parecendo apressado, como se estivesse prestes a correr para
algum lugar. O jovem professor franziu a testa.
— Onde você vai? Está tarde.
— Não se meta na minha vida. Só vá para casa.
— Onde você vai?
— Eu disse para não se meter.
— Eu te levo. Guarde a bicicleta.
— ...
— Andar por aí sozinho à noite... você não tem medo?
— Não.
— Eu sei que você consegue fazer isso sozinho, mas tente
usar essa habilidade no lugar certo.
— ... Nathi.
— Eu te levo.
— ...
— Ir sozinho é perigoso, você entende?
Era inacreditável que alguém a apenas alguns anos de
completar quarenta estivesse levando um sermão de alguém
quase dez anos mais novo. Karn sentou no carro enquanto
Nathi os dirigia até a farmácia mais próxima, comprando
apenas o essencial.
No momento em que Nathi viu os itens, ele imediatamente
perguntou sobre eles — ele tinha acabado de saber que seu
próprio aluno estava tão doente que nem conseguia sair da
cama, e que seu tio teve que arrastar seus amados chinelos
para fora para comprar remédio.
Nathi ficou parado de braços cruzados, esperando Karn
pagar. Ele ouviu enquanto o farmacêutico explicava como
tomar cada remédio. Embora a expressão de Karn
permanecesse neutra, era óbvio que ele estava ouvindo com
atenção.
Viu? Para alguém com uma língua tão afiada, ele tinha
um coração mole. Sempre fingindo não se importar, alegando
que não amava ou paparicava o sobrinho — mas quando o
garoto ficou doente? Ele estava pronto para pedalar na noite
escura para comprar remédio, recusando-se a recuar mesmo
quando o céu estava um breu total.
Parecia que o pequeno Marn significava mais para Karn
do que ele queria que alguém soubesse.
Eles voltaram para a casa. Nathi deixou Karn subir para
cuidar do garoto. Levou várias dezenas de minutos antes que
ele descesse de volta.
Karn se jogou em sua poltrona favorita com um suspiro,
lançando um olhar irritado para o convidado indesejado que
ainda estava lá. Deus, como ele odiava o rosto desse cara. Ele
estava farto daquele sorriso.
— Quando é que você vai embora?
— Ei, qual é a pressa de me expulsar?
— Você é tão irritante.
— Sim, sim, eu sei, eu sou um incômodo.
— ...
— Você parece melhor.
— Que bobagem você está falando?
— Desde que o Nong Marn se mudou para cá... você
parece muito melhor.
Karn congelou com o copo de água na mão a meio
caminho de erguê-lo. Depois de ouvir aquilo, ele escolheu o
silêncio. Ele não respondeu nada.
— Ele deve ser um garoto muito bom, não é?
— ...
— Huup!
— Seu moleque...!
Karn franziu a testa profundamente quando Nathi de
repente se jogou no chão, rastejando para frente para se
sentar na frente dele, apoiando as costas contra a poltrona.
Ele olhou para cima com aqueles olhos ridiculamente
irritantes, e Karn não conseguiu se conter e deu um peteleco
na testa dele. Apenas um peteleco leve, e Nathi fingiu um
ganido dramático.
Karn teve que mandá-lo calar a boca — caso contrário,
seu sobrinho doente no andar de cima ouviria que o professor
tinha vindo e insistiria em descer para preparar um copo de
água para ele.
— Eu ouvi dizer que a garotada planeja sair junta depois
das provas.
— Onde?
— Tão rigoroso. Não quer que o Nong Marn saia com os
amigos dele?
— Ele só está aqui há pouco tempo. Para que procurar
encrenca?
— Haha. Ele não é esse tipo de garoto. E os amigos dele,
eu conheço todos bem. Eles não são delinquentes. Pode
relaxar.
— ...
— Basicamente, estou aqui para conseguir sua permissão
para levá-lo para sair.
— Ele está doente.
— Então vamos esperar até ele melhorar.
— Se ele acabar de se recuperar e sair nesse calor, a febre
dele vai voltar.
— Você se importa muito com ele, hein?
— Se ele ficar doente por muito tempo, ele vira um fardo
para mim.
— Boca teimosa.
— Se você não tem mais nada a dizer, suma logo daqui.
— Você adora mesmo me expulsar.
— ...
— Então... se ele melhorar, você vai deixá-lo ir com os
amigos?
— ...
— Eu vou ficar de olho na garotada.
— Faça o que você quiser.
— Obrigado, P'Karn. Você é tão gentil.
— E aquele garoto?
— Hm?
— Than.
— Oh...
— Ele está no mesmo grupo que o Marn, certo?
— É verdade... mas quem sabe se ele vai aceitar ir.
— ...
— Faz muito tempo que não vamos a lugar nenhum
juntos.
— ...
— Eu nem consigo me lembrar da última vez que
comemos juntos...
Nathi sorriu de leve e fechou os olhos lentamente. Em sua
mente, ele visualizou o rosto de seu irmão mais novo. Eles
tinham muitos anos de diferença — ele tinha vinte e seis,
quase vinte e sete agora, enquanto Than faria dezoito em
alguns meses. A idade perfeita para a rebeldia, exatamente
como todos diziam.
Ele se lembrava dos velhos tempos — Than era tão
pequenininho quando nasceu. Nathi segurou suas
mãozinhas, ajudou-o a ficar de pé, guiou seus passos
trôpegos, ensinou-lhe suas primeiras palavras. Quem poderia
ter amado o irmãozinho mais do que ele? Ele conseguia
carregá-lo o dia todo. Ele brincava com a irmã do meio deles,
corriam por toda a vizinhança. A casa era cheia de fotos dos
três irmãos.
Eles costumavam ser tão próximos. Tão carinhosos. Tão
inseparáveis.
E agora... ele nem conseguia ver o rosto do irmão.
— Vá embora! Não chegue perto de mim!!
— Than, espera...
Thud!
— Ugh...!
— ...
— Than!
Talvez tudo tenha começado naquela época.
Desde aquele incidente, Than não suportava encarar o
irmão novamente. Ele o evitava todas as vezes. A distância
entre eles aumentava dia após dia até se tornar impossível de
superar.
Não importava o quanto Nathi tentasse manter as coisas
unidas, o resultado era o mesmo — eles não podiam mais
correr um ao lado do outro. Eles nem conseguiam viver na
mesma casa.
Nathi teve que se mudar, embora a casa deles estivesse
bem ali — porque, se ele voltasse, Than seria aquele forçado a
fugir.
Karn baixou o olhar em direção ao homem sentado com
os olhos fechados. Um sorriso levemente triste cruzou seu
rosto. Uma mão alcançou Nathi — não para empurrar a
cabeça dele desta vez, mas para dar um tapinha gentil em seu
ombro direito.
A dor remanescente daquela época ainda o assombrava.
Mesmo agora. Mesmo que seus ferimentos tivessem
cicatrizado anos atrás, ele nunca poderia esquecer aquele
momento.
Than não o odiava.
Than não guardava ressentimento.
Than não estava com raiva.
Aquele garoto estava com medo.
E se afogando em culpa.
— Desta vez... ele não pode mais competir. Ele tem que
abrir mão da vaga dele.
— ...
— Ele vai precisar de um ano para se recuperar...
— ...
— É... bem sério.
— ...
— Eu não sei se ele algum dia vai conseguir competir de
novo.
A sensação de ser o motivo pelo qual outra pessoa perdeu
seu sonho — era com isso que Than estava lidando. Ele não
conseguia se forçar a olhar o irmão nos olhos e fingir que nada
aconteceu. Ele estava tentando compensar... fazendo tudo o
que podia.
Até o seu próprio sonho — ele estava disposto a jogá-lo
fora.
Apenas para retribuir ao irmão.
12
— Ei, ei, Duanphen! Você está falando sério?
— O quê?!
— Quero dizer... dizem que o tio do Marn é assustador de
verdade, sabe!
— Mas não vamos fazer nada de errado.
— Mesmo assim... ah, Ryu! Você não pode pelo menos
controlar um pouco os seus amigos?!
— Por que eu faria isso?
— Vocês, sério mesmo!
Hem ficou boquiaberto. Ele engoliu em seco enquanto
olhava para frente.
Aquela era a casa do Marn — o lar do homem mais
assustador do mundo. Ele a via desde que era pequeno.
Naquela época, era uma casa abandonada que as pessoas
costumavam chamar de casa mal-assombrada. Mas, dez anos
atrás, um homem se mudou e deu uma arrumada nela.
Mesmo assim, a reputação permaneceu.
Hoje, os três se reuniram com um único propósito —
porque souberam que Marn estava seriamente doente. Eles
imaginaram que algo devia estar errado; desde o dia da prova,
Marn parecia estranho — febril e pálido. Qualquer um diria
que ele estava doente até se estivesse em Plutão, mas ele ainda
se forçou a terminar o exame. Os três ficaram impressionados
com a resistência do novo amigo.
Como hoje era feriado, eles se juntaram e vieram até aqui,
com os braços cheios de presentes, para visitar o garoto
doente. Mas já estavam parados ali há quase dez minutos, sem
conseguir entrar e com medo demais para chamar. O boato
dizia que o tio de Marn era extremamente rigoroso. O dono da
casa mal-assombrada é assustador no nível máximo de onze
caveiras! Quem se atreveria a entrar?
— Eh? Than? Você por aqui também?
A garota que estava espiando por cima da cerca se virou e,
inesperadamente, viu alguém conhecido se aproximando.
Than morava no mesmo beco que Marn, então vê-lo não era
estranho. O que foi chocante foi que ele veio se juntar ao grupo
que visitava Marn, carregando presentes em ambas as mãos.
Os três amigos se viraram e o encararam com um choque
idêntico de proporções catastróficas.
Vendo isso, Than estalou a língua com irritação.
— Fui forçado a vir.
— Quem possivelmente conseguiria te forçar? Hein?
Hem perguntou, apontando para os presentes que Than
carregava. Olhe! Eram todas coisas boas. Comparado aos
lanches infantis que os três trouxeram, esse cara claramente
sabia como escolher presentes de verdade!
— Minha mãe.
— E como sua mãe ficou sabendo que o Marn está
doente? Ela é próxima dele ou algo assim?
Than revirou os olhos.
Pensar no que aconteceu naquela manhã o irritava ainda
mais. Ele tinha planejado descansar depois das provas, mas
sua mãe ligou e disse para ele visitar Marn, dando um rio de
motivos até ele ficar cansado demais para discutir. Ele
também estava desconfiado — assim como Hem.
Por que a mãe dele estava tão preocupada com aquele
garoto? E como ela descobriu que Marn estava gravemente
doente?
Eventualmente, ela se descuidou e Than descobriu que,
na verdade, foi seu irmão mais velho quem comprou todos os
presentes e ordenou que a mãe dissesse para Than levá-los
para Marn.
Sabendo que era uma ordem do irmão, Than não ousou
desobedecer. Então aqui estava ele, parado na frente desta
casa. Ele veio apenas porque o irmão mandou.
— Nós viemos visitar o Marn também.
— Então por que estão todos aí parados?
— Bem...
Os quatro se entreolharam antes de darem um pulo de
susto com o som de passos. Eles olharam para o lado de
dentro da cerca. Hem e a garota instantaneamente se
agarraram um ao outro, apertando com força.
O portão se abriu, revelando um homem de meia-idade
que provavelmente era o dono da casa. Muito provavelmente,
aquele era Karn — o tio infamemente rigoroso de Marn.
Os quatro adolescentes congelaram, encarando sem
piscar. Karn irradiava uma aura intimidadora; apenas um
olhar já dizia que ele era definitivamente rigoroso. Suas feições
gritavam severidade. Seu longo cabelo preto estava preso em
um pequeno coque na nuca. Sua figura era alta e esguia,
quase frágil.
E pelo rosto... ele não se parecia em nada com Marn. Esse
era mesmo o tio do Marn? Eles não se pareciam nem um
pouco!
— B-Bom dia — Hem falou primeiro, e os outros o
seguiram rapidamente com reverências educadas, exceto
Than, que permaneceu imóvel.
Karn os avaliou um por um. Ele os ouvia conversando já
fazia um tempo. Eles estavam parados ali há uma eternidade,
mas ninguém ousava chamar. Isso o irritou o suficiente para
ele sair pessoalmente. Ele presumiu que fossem amigos de
escola de Marn. Ele não sabia os nomes deles nem quem eram
os pais, exceto pelo garoto parado lá atrás. Aquele era Than, o
irmão mais novo de Nathi. Ele tinha ouvido dizer que Than era
um garoto bem problemático. É estranho vê-lo aqui.
— Viemos visitar o Marn, senhor — Ryu disse,
empurrando os outros para frente.
Ying e Hem tinham se tornado completos covardes,
escondendo-se atrás de Ryu, deixando a conversa para o mais
confiável. Ryu suspirou e falou educadamente com o tio de
Marn.
Karn olhou para eles com os braços cruzados.
— Marn está melhorando. Ele vai se recuperar logo.
— Sim, senhor.
— Deixem os presentes aí.
— Senhor?
— Vão para casa.
O quê?!
Hem e Ying ficaram de boca aberta. Eles nunca
esperaram que Karn fosse tão insensível.
Carregaram todos aqueles presentes para Marn apenas
para ouvirem que deviam deixá-los e ir embora? Isso não era
cruel demais?
Pelo menos deixasse que vissem Marn por um momento
para conferir se ele estava mesmo melhorando. A última vez
que o viram foi no dia da prova final, e ele parecia péssimo. Foi
por isso que vieram até aqui. Mas por que o tio Karn era tão
cruel?
Do outro lado, Karn não recuou. Ele ficou parado ali, de
braços cruzados, encarando cada um deles, recusando-se a
deixar qualquer um entrar. Ele nem precisou dizer muito —
apenas seu silêncio os fez recuar.
No fim, nenhum deles teve permissão para entrar. Todos
tiveram que ir embora em suas bicicletas. O dono da casa
pegou os presentes e os levou para dentro, indo para o
segundo andar, para o quarto onde o sobrinho ainda jazia
doente com febre.
Marn tinha melhorado muito, mas ainda não estava
totalmente recuperado. Seu sistema imunológico era fraco;
quando ele ficava doente, o atingia com mais força do que nas
pessoas normais. Ele estava com resfriado, nariz escorrendo
tossindo e espirrando sem parar. Era preocupante — mas
Marn não deixava ninguém chegar perto dele.
— Cof... Eles já foram, certo?
— Hum. Aqui estão os presentes.
— Obrigado, tio Karn. Pode deixá-los aí mesmo.
— Você está bem?
— Estou bem.
— Hum.
— Obrigado...
Marn sorriu fracamente, com o rosto ainda pálido, e então
se deitou lentamente de novo enquanto seu tio saía.
Quando a porta se fechou, a casa mergulhou no silêncio
mais uma vez.
Karn parou do lado de fora da porta. Seus olhos
escureceram visivelmente.
Aquela criança... por carregar o HIV, ele morre de medo de
deixar qualquer pessoa chegar perto agora. Marn estava
resfriado, espirrando e tossindo constantemente. Ele não
deixava Karn se aproximar de jeito nenhum. O máximo que
Karn podia fazer era levar comida e remédios até a porta, e
Marn se levantava para cuidar de si mesmo. Ele não esperava
que Marn fosse tão teimoso, mesmo doente.
Ele entendia, embora a doença que Marn tinha fosse
transmissível. Marn devia estar aterrorizado de que, se seu tio
ficasse perto enquanto ele tossia e espirrava, algo inesperado
pudesse acontecer.
Mesmo que Karn sentisse que não era grande coisa — não
havia muito vírus no fluido nasal, sua própria pele não tinha
feridas abertas e nada provavelmente aconteceria de qualquer
maneira — Marn não pensava assim. O garoto se esforçava
tanto para ser cuidadoso. Ele não queria que mais ninguém
sofresse como ele sofria. Aquele que foi cruel por não deixar os
amigos entrarem... não foi Karn.
Foi o Marn. Ele não queria perder o primeiro grupo de
amigos que já teve. Se eles fossem infectados... Marn nunca se
perdoaria.
Essa criança... ele pretende viver assim para sempre?
— Cof... Tio Karn, aconteceu alguma coisa?
Marn acordou assustado de novo quando ouviu sons de
farfalhar. Ele piscou os olhos abrindo-os um pouco e viu seu
tio sentado em uma cadeira lendo um livro. Ele não tinha ideia
de quando Karn entrou. Ele deve ter cochilado por um tempo e
não percebeu que seu tio estava sentado ali vigiando-o.
Marn se empurrou lentamente para cima, olhando para
fora. O céu estava escuro e pesado com nuvens carregadas —
a tempestade de primavera ainda continuava. Estava
chovendo o dia todo, tornando impossível saber se era manhã,
tarde ou se já era noite.
— Sua febre baixou.
— Tio Karn...
Os olhos de Marn se arregalaram de surpresa quando seu
tio de repente guardou o livro e caminhou até ele para verificar
sua temperatura. Aquela mão fria tocou sua testa e a lateral de
seu pescoço.
Marn recuou rapidamente, não querendo que o tio o
tocasse em um momento como este. O medo em seus olhos era
óbvio.
Karn suspirou e sentou-se na cama ao lado dele. Embora
Marn não tivesse dito nada, sua expressão deixava claro — ele
estava implorando silenciosamente para que o tio se afastasse,
para não chegar perto.
— Naquela época, quando você ficava doente, sua avó não
cuidava de você?
— ... Hã?
— ...
— A vovó cuidava de mim... mas quando eu achava que
era arriscado, eu também não queria muito que ela chegasse
perto.
— ...
— Eu posso cuidar de mim mesmo, tio Karn. Estarei
totalmente recuperado em alguns dias. Não vou te dar
trabalho.
— ...
— Tio Karn...
Marn falou com a voz rouca, sentindo o nariz escorrer. Ele
pegou um lenço, limpou-o e depois o jogou na lixeira ao lado
da cama. Ele olhou de volta para o tio, sentindo-se
profundamente culpado. .
Normalmente, Karn não era alguém que se importava
com ninguém.
Ele vivia sozinho, focado apenas em si mesmo — frio,
talvez, mas não errado. Marn entendia o que o tio pensava
dele.
Embora fossem parentes de sangue, na verdade, para
Karn ele era apenas um estranho que tinha conhecido há
apenas alguns meses. Ele tinha visto as expressões de
irritação de Karn e ouvido suas palavras frias muitas vezes.
Tudo o que Marn podia fazer era sorrir e dizer a si mesmo
para se comportar, para tentar ajudar nas tarefas domésticas
o máximo possível. Ele era apenas um garoto sem ninguém em
quem confiar, ninguém que se importasse. Ele tinha que ser
forte para sobreviver.
Mas ficar doente trouxe uma enxurrada de pensamentos.
Ele temia que Karn ficasse zangado ou irritado, que visse Marn
como um fardo. Ele estava apavorado de deixar seu tio exausto
— física e mentalmente — a ponto de ele não querer mais ser
seu tutor. Karn não precisava se importar. Ele poderia
facilmente ignorá-lo. Mas não ignorou.
Desde o momento em que Marn ficou gravemente doente,
Karn estava cuidando dele sem parar. Marn tinha acordado no
meio da noite — provavelmente por volta das 2 ou 3 da manhã
— com o som de Karn preparando água e remédios.
Às vezes, Karn entrava silenciosamente para trocar o
adesivo de gel refrescante. Geralmente, depois da meia-noite,
Marn dormia profundamente de exaustão e nunca sabia o que
acontecia. Mas agora que acordou por acaso, percebeu a
verdade — seu tio ia para a cama muito tarde, movendo-se
constantemente para dar uma olhada nele.
Às vezes lendo um livro, com o som das páginas virando
preenchendo o silêncio, às vezes olhando para ele para
conferir sua condição, pronto para levá-lo ao hospital se
necessário. Marn se sentiu incrivelmente culpado.
— Tio Karn, vá dormir. Eu estou bem agora.
— Eu me sinto mal... mantendo você acordado assim...
— Vá dormir.
Normalmente, durante o dia, Karn sempre agia com sono
— sempre deitado em sua cadeira favorita. Marn pensava que
seu tio devia estar cansado do trabalho, então tentava ajudar
nas tarefas o máximo possível para que Karn pudesse
descansar. Mas descobrir que Karn nunca dormia direito à
noite... isso era estranho. E parecia que Karn já estava
acostumado com essa rotina.
O que exatamente é o tio Karn...?
— Ei.
— Sim?
Marn voltou para o presente. Karn estava sentado ao lado
dele, com uma expressão ilegível. Marn não tinha ideia do que
seu tio estava pensando.
— Você sempre diz que é positivo e otimista.
— Mas você está apenas mentindo para si mesmo.
— Hã?
— Você diz a si mesmo que consegue lidar com tudo...
mas não é tão forte assim.
— Eu não entendo...
— Pare de se forçar.
— Tio Karn...
— Pare de viver assim.
Marn congelou, confuso com cada palavra. Antes que
pudesse perguntar qualquer coisa, Karn subitamente se
levantou e saiu do quarto.
Os olhos de Marn se arregalaram ao ver quem estava
atrás da porta — seus amigos: Hem, Ying, Ryu e até Than.
Todos os quatro tinham subido até o seu quarto. Karn parou
ali também. Ele fechou a porta e se afastou sem dizer uma
palavra, deixando as crianças entrarem.
Em pânico, Marn disse imediatamente para todos ficarem
longe. Ele procurou freneticamente por uma máscara e a
colocou.
O tio Karn não tinha dito para eles irem para casa? Por que
eles estavam aqui?
Ying viu sua expressão e sorriu.
— Na verdade, ele nos expulsou mesmo. Mas nós somos
sem-vergonha, então voltamos para ficar parados no mesmo
lugar de novo. Aí seu tio saiu, ficou parado lá de braços
cruzados e, depois de nos encarar em silêncio... ele nos deixou
entrar. Não tenho ideia do porquê. Ele literalmente nos
enxotou no começo.
— Mas é, o seu tio é assustador mesmo, Marn. Eu
acredito agora — Hem acrescentou, esfregando os braços.
Toda vez que aquele tio encarava, seus cabelos ficavam
em pé. Ele ainda estava assustado. Difícil acreditar que aquele
homem era realmente tio do Marn — eles eram tão diferentes.
— E aí? Já está melhor?
— Hum. Estou melhor agora. Não se preocupem.
— Melhor o quê? Olha para o seu rosto...
— Não cheguem perto.
— Marn.
— Por favor... não. Vocês vão pegar minha febre.
— Está tudo bem. Nós não vamos pegar nada. Somos
fortes.
— Eu disse para não chegarem perto!
Todos congelaram, atordoados — esta era a primeira vez
que Marn levantava a voz. Ele segurou sua máscara com força
e recuou. Assim que percebeu o que tinha feito, seus olhos se
encheram de medo.
Ele não queria que eles pegassem nada dele. Se ele
tossisse ou espirrasse neles... se o seu muco os tocasse... o
que aconteceria? Só o pensamento o aterrorizava.
Ver os rostos chocados deles o deixou ainda mais em
pânico. Esses eram seus primeiros amigos. Eles se
importaram o suficiente para vir visitá-lo, e ainda assim ele
agiu de forma rude, levantando a voz.
Ele estava apavorado de que isso arruinaria tudo.
— Ai!
— Than!
Naquele momento, a pessoa mais silenciosa de todas de
repente deu um passo à frente e deu um peteleco na testa de
Marn, com força. Todo mundo ficou perplexo. Marn piscou,
atordoado, olhando para Than, que ainda mantinha sua
expressão vazia de sempre. Era impossível adivinhar o que ele
estava pensando. Ele simplesmente apareceu ali, deu um
peteleco na testa de Marn e agiu como se nada tivesse
acontecido... Mesmo sendo ele quem não queria ser amigo.
Marn não o entendia de jeito nenhum.
— Não é tão fácil assim de transmitir. Por que você está
pensando tanto nisso?
— Mas...
— Você é muito irritante.
Você que é o irritante! Eu não fiz nada!
— ... O quê?
— ...
— Ficar doente faz sua verdadeira face aparecer?
— Than...
Than ficou parado de braços cruzados, encarando o
paciente.
Olhando para ele, aquele era mesmo o pequeno Marn que
todo mundo elogiava como um garoto doce, educado, bom de
papo, bom de sorriso, alegre e brilhante? Quem diria que Marn
também tinha um lado rabugento?
Depois de levar um peteleco na testa e ser chamado de
irritante, ele agora estava ali sentado fazendo bico, de cara
amarrada, emburrado com os lábios para fora.
Ver aquilo deixou Than irritado por algum motivo, e ele
acabou erguendo uma sobrancelha para ele de um jeito
provocador.
Marn fez um bico ainda maior, os lábios se mexendo como
se quisesse reclamar, mas não tivesse coragem. Aquela cena
estava totalmente sob a vista dos outros três — Ying, Hem e
Ryu — que assistiam à conversa incrédulos. Aquela talvez
fosse a primeira vez que eles ouviam Marn e Than
conversarem de verdade.
— É, isso mesmo. O Than está certo. Não é tão fácil assim
pegar uma doença como essa, Marn.
— Por favor, pessoal, não se descuidem.
— Esse tipo de doença tem que entrar no seu corpo, sabe?
Se for só encostar na pele por fora, tudo bem. Não é como se
algum de nós tivesse feridas. Só de sentar aqui não vai
acontecer nada. Não precisa se afastar tanto. Não aja como se
espalhasse tão fácil assim. Se fosse algo que desse para pegar
só de respirar o mesmo ar, aí seria diferente. Certo?
— Hem...
— Nós viemos porque estamos preocupados com você.
— Nosso amigo está doente, então compramos um monte
de coisas para você. Tá vendo?
— Então trate de melhorar logo, Marn.
Marn ficou ali sentado, paralisado, com os olhos trêmulos
enquanto olhava para todos os seus amigos sorrindo para ele.
Tanto Hem quanto Ying se apressaram em carregar todos os
presentes e amontoá-los ao lado dele, enquanto Ryu ajudava a
desembrulhar.
Aquela visão fez Marn se sentir completamente
emocionado. Ele se lembrou inconscientemente das palavras
de sua avó. Ele nunca tinha conhecido aquele sentimento
antes. Nem uma única vez.
— Esse é o amigo da vovó?
— Sim, isso mesmo. Aquela foto foi tirada quando a vovó
era jovem.
— Uau.
— E esta aqui, acho que você já viu antes. Eles vieram te
visitar em casa, lembra?
— Hum... não tenho certeza se lembro.
— ...
— Vovó.
— O que foi?
— Ter amigos... é muito bom, não é?
— Um dia, você vai entender por conta própria.
— Sim, vovó.
— Você vai conhecer pessoas que podem te aceitar,
pessoas que te entendem e pessoas que vão te apoiar.
— Vovó...
— Quando esse dia chegar, traga eles para me conhecer,
ok?
Então era isso... essa era a resposta. Ele finalmente
entendeu por que a vovó estava sorrindo de forma tão radiante
naquela foto. Ela parecia tão feliz. Marn realmente entendia
agora.
— Marn, o que houve?
Ying parou de desembrulhar os lanches. Quando ela se
virou, viu o paciente sentado ali com os olhos vermelhos. Marn
levantou uma das mãos para cobrir parte do rosto. Sua voz
tremia como se estivesse prestes a chorar.
— Eu... obrigado. Muito obrigado... snif...
Vovó... eu quebrei nossa promessa.
Ele tinha prometido a ela uma vez que não choraria, para
que ela não se preocupasse. Ele se esforçou tanto para ser
forte todo esse tempo. Mesmo no funeral dela, ele não
derramou uma única lágrima. Mas, agora, Marn não estava
chorando por estar triste. Pelo contrário — ele estava
transbordando de felicidade. Se for assim... será que a vovó o
perdoaria por quebrar a promessa?
— Por que você está chorando? Não chore, não chore.
Vem cá.
— Olha, nós compramos lanches para você. Não chore.
— Mae, não senta na perna dele!
— Ah... desculpa! Desculpa, Marn!!
Ying largou tudo o que tinha nas mãos e caminhou em
direção a ele.
Ela respirou fundo e então puxou Marn para um abraço.
Hem se juntou imediatamente também, deixando Ryu e Than
de lado apenas observando. Os dois estavam fazendo um
ótimo trabalho confortando o paciente.
Marn chorou, sem conseguir dizer uma palavra. No
começo ele resistiu, não deixando que o abraçassem
facilmente, mas depois de receber alguns afagos na cabeça e
nas costas, ele finalmente se deixou levar nos braços deles.
O garoto que sempre fingiu ser forte finalmente se
permitiu mostrar fraqueza. Marn nunca se permitira chorar.
Não importava o quão ruim as coisas ficassem, ele se escondia
atrás do otimismo, fingindo que podia superar tudo. Mas, na
verdade, ele estava guardando cada problema em uma
caixinha minúscula — apertada e transbordando — sem
nunca saber quando ela iria estourar.
Ele agia de forma alegre, agia como se estivesse feliz, agia
como se fosse forte... Mas, no fim, ele ainda era apenas uma
criança que não conseguia encarar o mundo sozinho. E,
finalmente, ele chorou. Como se pudesse ouvir a voz da vovó
ecoando baixinho de longe:
“Tudo bem chorar às vezes... não tem nada de errado
nisso.”
Marn limpou as lágrimas depois de colocar tudo para
fora. Foi a primeira vez que ele chorou tanto, soluçando até o
peito doer. Seus olhos ardiam, vermelhos e irritados. Ele
piscou e olhou para todos no quarto... e então sorriu, apesar
de ainda estar coberto de lágrimas.
Mas... não havia tristeza ali. Dor nenhuma. Ele estava
sorrindo amplamente, verdadeiramente feliz.
— Eu vou melhorar logo. E quando eu estiver bem, me
levem para sair em algum lugar, ok?
— Com certeza!
— É! Só melhora primeiro. Aí os especialistas locais vão te
levar para um passeio! Né, Ryu?
— ... Hum.
Marn sorriu até seus olhos ficarem curvados. Todos
aceitaram o pedido dele com alegria. Ying e Hem pareciam
encantados e, embora Ryu não falasse muito, ele estava
disposto a ajudar a planejar qualquer passeio que fizessem.
Marn olhou para mais uma pessoa que estava em silêncio lá
atrás. Ele encontrou os olhos de Than. Than retribuiu o olhar
sem expressão. Marn se sentiu tenso, hesitando se deveria
dizer aquilo. Mas, por fim, ele respirou fundo e falou com
sinceridade.
— Than...
— ...
Vem com a gente também, ok?
Ele... ele disse. Mas Than ficou em silêncio. Ah não... ele
com certeza vai recusar. Ele definitivamente não vai.
Marn fechou a boca com força, parecendo desanimado.
Os outros esperavam pela resposta também, todos encarando
o encrenqueiro do grupo com firmeza. Than estalou a língua,
depois caminhou até a cadeira, apoiou o queixo na mão e se
virou para olhar pela janela. Eles esperaram quase cinco
minutos antes que sua voz fria finalmente saísse.
— Só melhora primeiro.
Isso significa que... ele vai também!!
— Que convencido, esse cara.
— Né? Foi o que a Mae disse!
— Meu nome é Hem, seus idiotas!!
— Mae~ Mae~ Mae~
— Seu cara de lua maldito! Você não consegue se dar bem
comigo?!
— Uaaah! Ryu, me ajuda!!
— Não façam barulho. O tio do Marn vai vir aqui gritar
com a gente.
As vozes barulhentas deles podiam ser ouvidas através da
porta. O dono da casa já estava parado ali com os braços
cruzados e os olhos fechados há um bom tempo. Karn soltou
um suspiro profundo. Ele ouviu tudo — cada conversa, até o
sobrinho chorando — até que finalmente tudo se acalmou e as
risadas tomaram o lugar.
Só então ele saiu dali, não se dando ao trabalho de
escutar mais nada. Ele estalou a língua levemente, pensando
que esses adolescentes estavam ficando agitados demais. As
risadas continuavam ficando mais altas, alegres e brilhantes
— exatamente como jovens da idade deles deveriam ser.
Ele já conseguia imaginar o quão grande era o sorriso que
aquele garoto irritante do Marn estava dando agora. Karn não
gostava nem um pouco desse tipo de atmosfera.
— Aquelas crianças estão de bom humor, hein?
— Já vai embora. Por que você continua vindo aqui?
Karn lançou um olhar mortal para outro encrenqueiro
que tinha invadido sua casa, sorrindo como um idiota. Seu dia
de folga deveria ser pacífico, mas, de alguma forma, ele acabou
com a casa cheia de convidados.
Sentindo uma dor de cabeça, Karn saiu para regar suas
plantas. As risadas do andar de cima eram altas o suficiente e,
além disso, ele tinha que ouvir a tagarelice da pessoa ao seu
lado. A expressão do tio ficou ainda mais irritada.
Nathi deu uma cutucada nele de brincadeira e
imediatamente recebeu um rosnado como o de um gato
arrepiado. Olha para ele, por que ele está regando as plantas
agora? Acabou de parar de chover. Ele obviamente só está
fazendo algo para parecer ocupado.
— Não posso simplesmente vir conferir como as coisas
acabaram? Credo.
— Eu já sabia que era obra sua.
— Hehehe.
O jovem professor coçou a cabeça e soltou uma risadinha
sem graça, admitindo prontamente que aquilo era, de fato,
coisa dele. Sim, foi ele quem espalhou a notícia da doença de
Marn para todos do grupo.
Os presentes também; foi ele quem comprou tudo, deixou
em casa e depois pediu para sua mãe obrigar seu irmãozinho
problemático a levar os presentes para visitar o amigo doente.
Ele nunca esperou que Than realmente fizesse isso. Não
apenas isso, ele até subiu para visitar Marn no quarto.
Quando soube que Than estava prestes a ganhar mais um
amigo, como irmão mais velho, ele não pôde evitar se sentir
animado também. Então ele armou tudo. E os resultados
foram... bem satisfatórios, a julgar pelas gargalhadas ecoando
do andar de cima.
Marn era o garoto novo que tinha acabado de se mudar
para cá. Depois de apenas alguns encontros com ele, Nathi já
sabia que esse menino não veio de mãos vazias. O sorriso e o
otimismo de Marn trariam mudanças para todos ao seu redor.
Mas Nathi também notou outra coisa.
Por trás daquele sorriso, algo estava sendo escondido —
quase como se, na verdade, Marn não fosse tão forte quanto
parecia. Ele era apenas alguém tentando o seu melhor.
Às vezes parecia que Marn estava se forçando a rir, se
forçando a sorrir grande para cada coisa podre em sua vida. Às
vezes uma árvore precisa ter seus galhos podados para que
possa crescer lindamente. Marn precisava saber como chorar
às vezes, como ser fraco.
Aguentar tudo e fingir aceitar cada coisinha assim...
possivelmente não seria bom para ele. Jovens de dezessete
anos podem ser impressionantes de várias formas, mas
quando ficarem mais velhos vão entender que às vezes não é
que eles conseguem aguentar algo; eles estão apenas se
forçando a aguentar coisas que nunca precisaram aguentar,
para começo de conversa.
— Obrigado.
— ...
— No fim, aquele garoto finalmente chorou.
Nathi não conseguia parar de sorrir enquanto se virava
para olhar para o dono da casa — Karn — que ainda estava
regando as plantas ao seu lado. Ele apenas disse aquilo, com
sua expressão calma e fria de costume.
Por fora, Karn parecia rigoroso e intimidador, irradiando a
aura de um adulto frio que se importava apenas consigo
mesmo. Mas, na verdade, esse homem entendia os garotos
ainda melhor do que Nathi.
— Você fala como um adulto tão cruel, querendo que uma
criança chore.
— E daí se eu for cruel?
— É, é. Você é cruel.
— ....
— Mas você também é o mais gentil.
— Cala a boca logo. Você é irritante.
— Haha, isso foi um elogio.
— ...
— Karn.
— O que foi agora?
— As crianças vão sair.
— ...
— Ei.
— ...
— Kaaarnnn.
— Você é irritante.
— A gente devia sair também?
— Não.
— Ah, vamos lá.
— Eu disse não.
— Então eu vou continuar te amolando assim.
— Meu Deus...
— Vamos sair.
— Você é irritante! Vai para onde você quiser!
As cinco crianças continuavam conversando alto, e os
dois adultos não estavam menos caóticos — um arrastando a
mangueira para longe, o outro seguindo atrás resmungando
sem parar.
Estranhamente, durante toda a manhã o céu esteve
sombrio, cheio de nuvens escuras e pesadas. Mas, após
apenas algumas horas, a melancolia desapareceu lentamente,
e a luz do sol da tarde revelou um lindo arco-íris se estendendo
pelo céu.
Duas crianças pequenas passaram pela casa com
guarda-chuvas e sacos de lanches, pisando na estrada úmida,
às vezes pulando poças, olhando para o arco-íris. Quando o
viram, gritaram excitadas — uma criança apontou, e a outra
rapidamente a impediu.
Nathi riu baixinho observando as duas crianças do
primário correrem para casa enquanto cutucavam o próprio
bumbum com os dedos, como dizia a velha superstição.
Ele olhou para o céu e sorriu até seus olhos se curvarem.
As risadas vindas do quarto de Marn, no andar de cima,
misturavam-se ao som de Karn xingando enquanto chutava
um piolho-de-cobra para fora de casa com tanta força que seu
chinelo voou. Ele fez uma careta, estalando a língua sem parar
enquanto o pegava de volta.
Hoje, a casa mal-assombrada do Tio Karn parecia
estranhamente viva. A luz do sol da tarde brilhando nas
plantas e flores ao longo da cerca fazia tudo parecer
revigorante. Parecia que... a tempestade de primavera estava
finalmente passando.
13
— Depressa!
— Pelo amor de Deus, a casa do Marn não vai sair do
lugar. Por que você está com tanta pressa, Mae?
— Eu só quero buscar nosso amigo logo.
— Ai, ai... você só quer é sair logo de casa, não é, Mae?
— Cala a boca, Duanphen!
— Mae!
— Parem com isso, vocês dois.
A discussão barulhenta deles ecoava desde a entrada do
beco até a porta da frente da casa de Marn.
Mesmo agora, Ying e Hem ainda não tinham parado de
provocar um ao outro, forçando Ryu a agir constantemente
como pacificador.
Era uma manhã de fim de semana revigorante, perfeita
para um passeio relaxante.
Claro, o motivo desse grupo de adolescentes ter se
reunido na frente da casa de Marn hoje era levar o novato para
passear, mostrando os arredores e apresentando os lugares
bonitos da vizinhança.
Eles não planejavam ir longe; apenas lugares que
pudessem visitar facilmente de bicicleta. Marn tinha acabado
de se mudar para cá.
Além da escola e da pequena mercearia perto de sua casa,
ele não conhecia nenhum outro lugar. Esse pequeno tour pelo
distrito serviria como uma introdução ao seu novo lar. Só de
pensar nisso já era emocionante; eles queriam levar o garoto
novo a todos os lugares!
Antes de hoje, eles já tinham pedido permissão ao tio
Karn. Eles ainda se lembravam claramente daquela expressão
aterrorizante.
O tio de Marn era tão assustador quanto os boatos
diziam; toda vez que ele abria a boca, parecia um tigre
mostrando as presas. Um único olhar dele enviava calafrios
pela espinha.
Ying e Hem, os mentores do plano, quase não conseguiam
ficar parados, gaguejando centenas de desculpas na frente do
guardião.
No fim, o tio Karn concordou em deixar Marn sair com
eles, mas... sob três condições que todos no grupo tiveram que
prometer seguir:
Primeira: Marn não deve se machucar. Nem um arranhão
ou hematoma.
Segunda: Eles não devem levá-lo a nenhum lugar distante
ou arriscado.
Terceira: Eles devem trazer Marn para casa antes do pôr
do sol.
Se eles falhassem em seguir essas três regras... bem,
mesmo que falhassem, era melhor que dessem um jeito de
conseguir. Não importava o que acontecesse, eles tinham que
manter essas promessas.
Só o fato de o tio Karn ficar encarando eles já era o
suficiente para causar pesadelos. Se algum dia deixassem o
sobrinho dele se machucar, o resultado com certeza não seria
nada bom.
— Seus amigos chegaram, Marn.
— Oh! Marn!
Um momento depois, o sobrinho do dono da casa saiu.
Marn tinha se recuperado completamente de sua doença,
estava saudável como sempre. Ele usava uma jaqueta de
proteção solar, calças compridas, um boné e carregava uma
mochila grande cheia de lanches e suprimentos para o
piquenique. A julgar por sua expressão radiante, ele estava
claramente animado, sorrindo de longe.
— Não esqueça de tomar seu remédio.
— Sim, tio Karn. Não vou esquecer.
— Você trouxe os curativos?
— Trouxe. Estão nesta bolsa.
— Onde está sua capa de chuva?
— Já guardei.
— Leve o bálsamo com você também.
— Eh... por que eu preciso disso, tio Karn?
— No caso de picadas de insetos. Você pode aplicar.
— Obrigado, tio Karn.
Os três adolescentes ficaram pálidos. O tio Karn tratava
Marn como se ele fosse feito de vidro!
Marn saiu junto com o tio Karn. Ele acenou alegremente
para seus três amigos que esperavam com suas bicicletas,
depois se virou para olhar para seu tio novamente. Para ser
sincero, Marn nunca pensou que o tio Karn permitiria que ele
saísse com seus amigos. Quando todos sugeriram a ideia
inicialmente, Karn cruzou os braços e recusou imediatamente.
Foi necessária uma longa negociação antes que ele finalmente
concordasse. Felizmente, Nathi ajudou a convencê-lo também.
De alguma forma — Marn não sabia como — seu tio
acabou cedendo. Mas mesmo depois de concordar, na noite
passada o tio Karn recitou uma lista interminável de regras,
proibindo Marn disso e daquilo.
A mochila grande que ele carregava também foi metade
arrumada pelo seu tio. Marn só guardou os lanches por conta
própria. Ele originalmente pensou que traria apenas comida,
mas quem poderia imaginar que seu tio prepararia tantas
coisas?
Tudo estava lá dentro: capa de chuva, itens de primeiros
socorros, lanterna, carregador portátil, caderno de contatos de
emergência. Marn só conseguia rir sem jeito. Ele estava
apenas dando uma volta pela vizinhança... não indo para um
acampamento de escoteiros.
Talvez porque Marn nunca tivesse saído com amigos
antes, ele não sabia o que preparar. Ele era grato ao tio Karn
por ajudá-lo. Marn prometeu a si mesmo que aproveitaria ao
máximo o dia de hoje e se aproximaria de todos. Ele ficou tão
animado ontem à noite que mal conseguiu dormir. Ele queria
muito saber para onde seus amigos o levariam e o que fariam.
O guardião ao seu lado estava de braços cruzados,
observando os adolescentes um por um. No fundo, ele queria
se opor a esse passeio, mas era tarde demais. Marn tinha
acabado de se recuperar, e agora esses garotos queriam levá-lo
para passar o dia inteiro fora. Ele olhou para o céu limpo.
O calor da tarde seria severo, e eles estariam andando de
bicicleta também. Eles iriam pelas estradas principais? Isso
era perigoso. Quem sabia para onde planejavam ir? Se não
fosse pelo desejo de que Marn criasse laços com seus amigos,
ele nunca teria permitido. Esse garoto podia parecer saudável
por fora, mas era na verdade frágil. Um pouco de exposição a
germes e ele poderia acabar no hospital. Como ele poderia não
se preocupar?
Mas... preocupado? Não. Ele não estava preocupado
dessa forma. Ele apenas não queria problemas. Ele só queria
paz e não queria dores de cabeça desnecessárias.
Não é como se Marn fosse alguém que ele amava
profundamente. E daí que eram tio e sobrinho? Na verdade,
eles mal se conheciam até pouco tempo atrás. Karn percorreu
o olhar pelos garotos:
Primeiro, a menina de cabelo curto com o visual ousado e
destemido — essa devia ser a Ying. Nathi disse que ela
costumava ser boxeadora e que sua família administrava uma
academia de boxe, então ela provavelmente conhecia defesa
pessoal.
Depois, o garoto de óculos, Ryu. Ele não parecia forte,
mas Nathi disse que ele era inteligente, estudioso, perspicaz, e
que já tinha representado a escola em muitas competições
acadêmicas. Ele parecia confiável, calmo — alguém com
qualidades de liderança.
Então, o garoto alegre e enérgico, Hem. Atlético, ativo,
envolvido em todos os eventos escolares. Brilhante, animado,
de mente afiada. Um pouco teimoso, talvez, mas esperto e
rápido. Deixar Marn sob os cuidados dele não parecia tão
preocupante.
Karn olhou para o sobrinho novamente...
Marn estava apenas parado ali, sorrindo inocentemente,
com os olhos brilhantes e puros. Ele realmente parecia um
patinho que acabou de sair do ovo. Esta talvez fosse a primeira
aventura real de Marn lá fora com amigos. Sua primeira vez
vendo o mundo mais amplo. Bem... Nathi confiava nesse
grupo. Eles provavelmente não fariam nada estúpido.
— Tio, o Marn vai sair com meus amigos agora, tá bom?
— Hum.
— Vou tentar não voltar muito tarde, tio Karn. Não se
preocupe!
— Hum.
Marn fez um wai educado, e os outros garotos fizeram o
mesmo. Quando Marn se virou, Ying e Hem engoliram seco —
eles tinham visto os olhos do tio Karn novamente. Como se
estivessem dizendo: Se acontecer alguma coisa com o meu
sobrinho, vocês estão mortos.
— E onde está o Than?
— Aquele lá provavelmente não vem.
— Quem disse?
— Than!
Todos se viraram em direção à voz. Marn sorriu
instantaneamente, emocionado por Than ter vindo afinal.
Than chegou em uma bicicleta preta elegante, com sua
expressão ainda sombria — como alguém que não queria estar
ali. Quando ele notou a mochila enorme de Marn, franziu a
testa.
O que era aquilo? Marn era um aluno do jardim de infância
da Sala Girassol?
— A gente achou que você ia dar o cano.
— Como ele não viria? O P'Nathi disse que ele deveria ir,
então ele teve que vir.
— Cala a boca.
— Tá bom, tá bom, não provoque ele por causa do P'Nathi,
Duanphen. Ele vai acabar indo embora de bicicleta de
verdade.
— Tá, não vou mais. Credo. Vamos lá, pessoal! Tá todo
mundo aqui, hora de partir!
Ying e Hem comemoraram alto. Marn sorriu até seus
olhos se curvarem, então pedalou atrás do grupo. Se um
amigo à frente virava à esquerda, ele virava à esquerda. Se
viravam à direita, ele virava à direita.
Ele olhava para Than de vez em quando. Than seguia
atrás, com a expressão estoica — impossível adivinhar o que
estava sentindo. Talvez Marn fosse o único animado para esta
viagem.
— Olha para a estrada.
— Ah!
Marn deu um sobressalto. Ele não esperava que Than o
flagrasse olhando. Ele só deu uma espiadinha! Como ele
percebeu tão rápido?
Than suspirou como se estivesse cansado de tudo. Como
P'Nathi tinha passado na casa deles cedo hoje de manhã, Than
não suportava mais ficar lá e acabou sendo indiretamente
expulso. Sem outro lugar para ir, ele foi arrastado para vir
junto.
O irmão mais velho dele era realmente implacável.
— Cof, cof! Deixem-me apresentar nosso primeiro ponto!
Este é Nong Ta Thao, a maior lagoa da região!
— Uauuu!
Marn aplaudiu alegremente. Ele se lembrava bem desse
lugar — ele tinha se perdido e acabado aqui logo após se
mudar para a casa do tio Karn.
Hem explicou tudo com orgulho — crianças nadando,
pescando, relaxando aqui, empinando pipa durante a estação
fria. Festivais como Loy Krathong e Songkran também eram
frequentemente realizados aqui.
— Eu já estive aqui antes. Quando me perdi, vim parar
aqui.
— Sério? Bem, é perto da sua casa. De qual beco você
veio?
— Por ali. Eu caminhei até lá, depois voltei por aquele
beco. Uma pessoa gentil me mostrou o caminho. Ele estava
deitado na grama debaixo daquela árvore.
Marn ainda se lembrava daquele dia. Ele não conseguiu
ver o rosto do homem claramente; o cara estava com o braço
sobre os olhos.
Desde então, Marn nunca mais voltou aqui. Se ele
encontrasse aquela pessoa gentil novamente algum dia,
deveria pagá-lo com leite de soja e palitos de massa frita.
— Então vamos para o próximo lugar!
— Certo! Lidere o caminho, Hem!
Hem agiu como o guia turístico deles. Do primeiro local
para o segundo — um parquinho de tamanho médio ao lado de
um parque de ciclismo e corrida. Marn assentiu seriamente,
memorizando as rotas. Não parecia uma viagem grandiosa —
eles não tinham ido longe de jeito nenhum, apenas circulando
pela vizinhança. Ele se preocupou que seus amigos pudessem
estar entediados, mas quando olhou para eles, nenhum
mostrava sinais disso. Ying andava atrás de Ryu, rindo
livremente sob o sol. Hem parecia animado como sempre.
Than... era impossível de ler, mas provavelmente não estava
muito incomodado.
— Uauuu!
— De agora em diante, vamos nos afastar mais de casa,
tá? Cuidado com os carros. Andem bem à esquerda e fiquem
em fila.
— Tudo bem!
Os olhos de Marn brilhavam enquanto ele observava a
paisagem de ambos os lados da estrada. Como todos sabiam,
este distrito era bem rural. A maioria das pessoas aqui
trabalhava na agricultura ou no pequeno comércio.
Ao longo da rota de ciclismo, havia árvores grandes e
pequenas ladeando a estrada, amplos campos de arroz verdes
e, ao longe, cordilheiras de montanhas. Garças brancas
voavam graciosamente pelo céu.
Um pouco mais à frente havia campos de flores, hortas e
fazendas de aldeões. Marn ficou um pouco impressionado ao
ver Hem cumprimentar cada idoso por quem passavam.
Nossa... ele é realmente tão amigável com todo mundo?
— O pai dele é o chefe administrativo do subdistrito.
— Sério?
— É. É por isso que ele conhece praticamente todo
mundo.
Ryu explicou, e Marn finalmente entendeu. Parando para
pensar... Hem realmente tinha aquela aura de líder.
Ao longo do caminho, havia muitos pequenos pontos
turísticos para parar e ver. Algumas áreas eram jardins de
flores, outras eram pequenas fazendas de animais. Marn e
seus amigos até tiveram a chance de dar mamadeira para
bezerros, cordeiros, coelhos e muitos outros animais.
Hem conhecia bem o dono da fazenda — aparentemente
eram parentes. Marn rapidamente juntou as palmas das mãos
para cumprimentar os adultos educadamente.
Quando souberam que ele era o novo garoto que tinha
acabado de se mudar, os adultos o acharam ainda mais
cativante. Vendo como ele era educado e gentil, eles o
encheram de lembrancinhas até que suas mãos estivessem
cheias.
Depois de passarem quase duas horas lá, seguiram para
uma oficina de tecelagem de seda. Os olhos de Marn
brilharam; ele nunca tinha visto um tear antes. Hem o puxou
para mais perto e pediu a uma senhora idosa que o ensinasse.
Esta se tornou a primeiríssima vez que Marn tentou tecer
pano.
Mesmo que tenha sido por um tempo bem curto,
tornou-se uma memória muito preciosa para ele.
— Podemos usar este aqui?
— Não.
— Então e este? Para que serve?
— É para inserir nesta fenda de madeira. Assim — venha
ver.
Marn se abaixou para observar Hem manusear as
ferramentas com interesse, depois olhou ao redor para os
outros por perto — Ying e Ryu estavam enfiando contas. Um
pouco mais longe estava Than, pegando uma ou outra peça de
tecido tecido para olhar.
No momento em que percebeu que estava sendo
observado, ele rapidamente colocou tudo no lugar e se afastou
na mesma hora.
— Tsc. Esse cara é tão pretensioso.
— Ei, Hem, já é meio-dia.
— Hum? Ah — verdade. Devemos parar para almoçar
primeiro? Tem um lugar que eu quero recomendar.
— Pode ser.
Quando a hora do almoço chegou, as cinco crianças
pedalaram mais um pouco e pararam em um restaurante de
beira de estrada. Hem jurou por sua própria cabeça que a tia
que era dona do lugar tinha mãos divinas — tudo o que ela
cozinhava era maravilhoso. Ela também era gentil como um
anjo, sempre servindo porções enormes.
Marn assentiu ansiosamente. Ele provaria qualquer prato
que Hem recomendasse. Enquanto esperavam, o tio Karn
ligou, então Marn pediu licença para atender.
Assim que atendeu, começou a relatar tudo o que tinham
feito. Sua voz estava animada, sorrindo sem parar. Por um
momento, ele esqueceu que aquele era o tio Karn — e não sua
avó — e acabou tagarelando como se estivesse falando com
alguém muito próximo.
— Eu até consegui tentar tecer pano, tio Karn! Foi tão
divertido! Eu nunca tinha feito isso antes! Os adultos também
me deram lembrancinhas!
— Hum.
— E eu também consegui...
Enquanto isso, em casa, Karn esteve esperando o dia todo
— sentado, deitado preguiçosamente. Sem nada para fazer, ele
finalmente ligou para o sobrinho para conferir o que ele estava
aprontando.
Com o telefone espremido entre o ombro e a bochecha, ele
estava cortando as unhas dos pés enquanto ouvia.
Uma brisa quente entrava de fora, trazendo o calor do
meio-dia. Karn olhou para a luz brilhante do sol e lembrou
Marn de ter cuidado. Provavelmente já era meio-dia.
Quem sabia o quão longe aquelas crianças iriam à tarde?
Pelo que ouviu, Marn parecia já ter visitado muitos lugares. O
garoto até foi a uma fazenda de animais. Ele ficou animado
com ovelhas e cabras por sabe-se lá qual motivo — apenas por
tocá-las. Karn o avisou para não ser mordido ou arranhado.
Marn prometeu radiantemente que voltaria para casa
sem uma única marca no corpo.
Karn só podia esperar que isso fosse verdade.
Depois de desligar, Karn soltou um longo suspiro e
desabou preguiçosamente na cadeira longa de novo. Ele virou
o corpo um pouco, esticando os braços e as pernas,
sentindo-se tão letárgico que não queria se levantar para fazer
nada. Ele se perguntava como aquelas crianças tinham
energia para pedalar o dia todo daquele jeito.
Seria esta a primeira vez que ele ouvia Marn soar tão
radiante?
Desde que sua avó faleceu e Marn veio morar com ele —
embora Marn fosse naturalmente alegre — nunca antes ele
tinha soado tão jubiloso.
Karn se mexeu e olhou para o lado, encarando um
porta-retratos no armário de madeira. Ele encontrou os olhos
da pessoa na foto, como se tentasse deixar seus sentimentos
serem transmitidos através dela.
— Mamãe não permitiu.
— ...
— Volte para o seu quarto.
— Quando morávamos juntos...
— ...
— Você já ouviu esse tipo de voz vindo de mim...?
— ...
— Você já me ouviu rir... como o Marn ri... ao menos uma
vez?
Após descansarem ao meio-dia, todos pareciam
totalmente recarregados e prontos para continuar pedalando,
explorando todo o distrito sem medo do sol escaldante.
Hem continuou como o guia, seguido por Ryu com Ying
na garupa, depois Marn, e Than por último. Todos andavam
em fila única para evitar acidentes.
Marn sorria abertamente, fechando os olhos às vezes para
aproveitar a brisa fresca.
O céu estava de um azul límpido com nuvens brancas
flutuando. Abaixando o olhar, ele viu fileiras de árvores verdes
e exuberantes.
Essa estrada era ladeada por árvores altas cujos galhos se
arqueavam, parecendo quase um túnel natural.
— La la la!
O canto de Ying e Hem ecoava lá na frente. Os dois
pareciam estar se divertindo muito.
Depois de um tempo, as bicicletas na frente pararam.
Hem disse que o caminho a seguir era íngreme, então Ying
trocou de lugar com Ryu; ela se ofereceu para pedalar
enquanto Ryu ia atrás.
Marn aplaudiu mentalmente. Ele já estava cansado de
pedalar sozinho, mas Ying pedalaria subida acima com
alguém sentado atrás dela. Ela era realmente uma garota
forte.
— Huup!
Marn continuou pedalando pelo caminho que Hem os
guiava. Eventualmente, eles chegaram ao topo. Hem então
gritou para que seguissem pela trilha na floresta à frente.
Marn franziu um pouco as sobrancelhas; ele não sabia para
onde Hem os estava levando. Mas Ying o tranquilizou dizendo
que aquele era um lugar local popular. Podia não ser muito
conhecido por quem era de fora, mas era um lugar bonito e
relaxante.
Marn assentiu obedientemente e os seguiu pelo caminho
estreito.
Eles estavam entrando na floresta!
Havia árvores por todos os lados. Marn ficou boquiaberto.
Ele não tinha ideia de como seria o destino, mas continuou
seguindo seus amigos.
Levou quase vinte minutos até que eles finalmente
chegassem. As bicicletas da frente pararam, e Marn também.
— Chegamos!
Marn congelou por um momento ao ouvir o som de água
corrente. Ele rapidamente estacionou sua bicicleta e
caminhou para o lado dos outros. Suas pupilas se dilataram; a
cena refletida nelas era um pequeno e pacífico riacho de
cachoeira, silencioso e intocado. Era tão bonito quanto Hem
tinha se gabado.
— Uau... é realmente lindo.
— Viu só! Esse é o ponto alto de hoje!
Hem explicou que aquele era um pequeno riacho de
cachoeira. Se subissem mais, haveria uma cachoeira grande,
um ponto turístico bem conhecido por moradores e viajantes.
Essa montanha ficava perto de uma represa, o que
explicava as florestas e as estradas íngremes. Morar ali era
uma sorte de certa forma, com tantos lugares cênicos para
relaxar. Mas também tinha desvantagens.
Durante chuvas fortes ou tempestades, a represa liberava
água, e essa área costumava sofrer com inundações. Eles
estavam acostumados a ouvir essas notícias.
— Uhuuu!
— Me espera, Hem!
— Cuidado, está escorregadio.
Ying e Hem correram na frente animados enquanto Ryu
os seguia mais devagar, alertando-os como de costume.
Marn foi e se sentou ao lado deles, mergulhando as mãos
na água fresca fazendo pequenos respingos. Ele soltou uma
folha e a observou flutuar rio abaixo. Então tirou os sapatos,
dobrou as calças acima dos joelhos e mergulhou os dois pés
descalços no riacho. Isso era mais do que suficiente para ele.
Ele não se atrevia a ir brincar na água com os outros.
Mesmo que não fosse fundo, se ele acabasse com qualquer
arranhão pequeno, não seria bom.
Apenas ver seus amigos rindo daquele jeito era o
suficiente para deixar Marn verdadeiramente feliz.
— Than?
Marn se virou e viu o outro amigo sentado não muito
longe dali, de braços cruzados. Than não chegou nem perto da
cachoeira. Ele estava sentado sozinho sob a sombra de uma
árvore, quieto e imóvel, parecendo que estava prestes a colocar
seus fones de ouvido para se isolar do resto do mundo.
— Than.
— O quê?
— Você não vai brincar na água com todo mundo?
— Não.
— Por que não?
— Não é não. Por que está perguntando?
— Bem...
— ...
— Está quente sentado aí.
— ...
— Você pode sentar aqui do meu lado se quiser. Se não
quiser entrar na água, pode só molhar os pés assim. É muito
fresco e gostoso.
Ah... nada do que ele sugeria funcionava.
Than não se importava nem um pouco.
Tudo bem, então. Se ele queria sentar ali, Marn não o
incomodaria mais. Marn voltou os olhos para a paisagem à
sua frente. Ele sorriu e acenou para os três amigos que ainda
brincavam na água.
No começo, ele achou que Ryu não participaria, mas
assim que Ying o arrastou para dentro, ele cedeu quietamente.
Ying e Hem se juntaram contra ele. Olhe só, eles jogaram água
no rosto dele até ele ficar encharcado. Os três pareciam estar
se divertindo tanto.
Quanto a Marn, tudo o que podia fazer era sentar ali com
os pés na água. Então ele pegou o celular e gravou a paisagem
ao redor. Ele filmou um vídeo para que as risadas, o som da
cachoeira e as cigarras fossem capturados juntos.
Tudo se misturava perfeitamente com a atmosfera
quente. Ele gravou um vídeo de cinco minutos, dando zoom
nos rostos alegres dos seus três amigos, então virou a câmera
para a esquerda e... eita!
— Opa! Que susto.
Marn deu um pulo quando um rosto apareceu de repente
no enquadramento. Ele baixou um pouco o celular. Ele não
esperava que Than se levantasse de onde estava e viesse
sentar bem ao seu lado.
— Than.
Ele continuava silencioso como sempre. Que música Than
estaria ouvindo? Marn estava curioso. Ele deixou o celular de
lado, apoiou as mãos no chão e se inclinou um pouco para
tentar ouvir a música que escapava dos fones de Than. Than
estava sentado abraçando os joelhos em silêncio. Marn não
esperava que ele percebesse. Mas quando Than se virou de
repente para olhar, Marn não teve tempo de se afastar.
Seus olhos se arregalaram; estavam tão perto que ele
conseguia ver até aquela pequena pinta na ponta da
sobrancelha esquerda de Than...
— Than, sua música está muito alta. Você sabia?
— ...
— Eu consigo ouvir daqui também.
— ...
— Than.
Splash!
— Uau!
De repente, água foi espirrada neles. Não o suficiente para
encharcá-los, mas o bastante para fazê-lo estremecer. Foi Hem
quem jogou água neles. Parecia que ele se controlou, sabendo
que Marn estava sentado ali.
Mesmo assim, Marn riu apesar de estar com um olho
fechado. Tinha entrado água, mas ele não levou para o lado
pessoal. Ele entendia que seus amigos estavam se divertindo.
Ele riu de volta e tentou piscar para tirar a água,
levantando a camisa levemente para limpar o olho.
— Entrou no seu olho?
— Hã... sim, mas está tudo bem. Só um pouquinho.
— Deixe-me ver.
— Than?
Marn manteve um olho fechado, deixando tudo
embaçado. Ele sentiu uma mão segurar gentilmente seu
queixo, virando seu rosto levemente para o lado. Ele ouviu
Than dizer para tentar abrir o olho, então ele tentou. Não ardia
nem parecia irritado.
Menos de um minuto depois, ele conseguia abrir
normalmente de novo, embora ainda estivesse um pouco
vermelho.
— Já estou bem. Sério, estou bem.
— ...
— Obrigado, Than, por se preocupar. Mas eu estou
realmente bem.
— Quem está preocupado?
Marn estufou as bochechas um pouco. Than soltou seu
queixo e se virou, abraçando os joelhos novamente. Marn deu
um sorriso doce para ele e Than imediatamente virou o rosto.
Tudo bem. Ele sabia que essa pessoa era difícil de ler. O que
quer que Than quisesse fazer era problema dele. Marn não
perguntaria nem o incomodaria mais.
— Ryu, olhe para aqueles dois.
— O que tem eles?
— Você acha que o Marn consegue convencer o Than a
descer e brincar na água?
— Não faço ideia.
— Ahh... eu queria muito ver o Than nadar de novo.
Queria brincar na água com ele como antes.
Ying murmurou. Ela encarava Than. Ele não olhava para
a cachoeira de jeito nenhum. Em vez disso, fixava o olhar nas
árvores verdes. Ele nem sequer mergulhava os pés como o
Marn.
Mais cedo, quando Hem jogou água nele e fingiu puxá-lo
para dentro, Than ficou pálido de medo. Parando para
pensar... já fazia quase cinco anos. Ela se perguntava quando
o amigo voltaria para a coisa que um dia amou. O que o
ajudaria a dar um passo para fora do passado? O que o
ajudaria a superar o medo daquele dia...?
— Tsc. Tudo bem. Se ele não quer brincar, que seja. Eu
posso brincar com você, Ryu.
— ...!
— Ryu?
— P-para trás.
— O que foi agora?
Ying coçou a cabeça, confusa. Ela tinha acabado de correr
em direção a ele para pular nas costas dele por diversão, mas
Ryu congelou e recuou rapidamente.
Antes que ela pudesse entender a reação dele, Hem nadou
até lá para implicar com ela de novo, fazendo-a esquecer
completamente o assunto. Mas não outra pessoa. Ryu levou a
mão ao rosto e o esfregou, sentindo uma dor de cabeça. Ele
sabia muito bem o quão ousada ela era; ousada o suficiente
para esquecer que seu próprio corpo era feminino.
Brincar na água assim com roupas molhadas grudando
no corpo já era arriscado, mas correr e abraçá-lo daquele jeito?
Como ela podia fazer aquilo?
Lentamente, Ryu olhou de volta para ela e deu um
suspiro profundo, com as orelhas ainda ardendo de vermelho.
Aquela garota maluca... ela era selvagem assim desde que
eram crianças.
Santo Deus.
Enquanto isso, a pessoa sentada na margem só podia
observar os amigos se divertindo. Marn sorria radiante. Ele
sentia como se estivesse sonhando. Estava genuinamente
feliz; pedalando para longe pela primeira vez, fazendo
atividades juntos, almoçando juntos e agora sentados ali
juntos.
De agora em diante, este lugar certamente se tornaria
uma memória preciosa para ele.
Vovó, hoje o Marn está sendo a pessoa mais feliz de todas.
Agora ele entendia por que a vovó sorria tão abertamente
naquela foto. Estar com os amigos era tão divertido e o deixava
tão feliz.
— Ah...
No começo, ele ouvia as risadas dos amigos claramente.
Mas depois de um momento, houve música misturada.
Os olhos de Marn se arregalaram. Ele se virou para o
amigo sentado ao seu lado.
Um lado dos fones de ouvido de Than foi colocado na
orelha de Marn. A música não estava alta nem baixa; ela se
misturava perfeitamente à sua audição. Marn ficou um pouco
surpreso. Ele não achou que Than faria algo assim. Mas
depois de um momento, ele sorriu docemente.
— Não estava tão alta.
— Estava sim, mas... antes, eu realmente conseguia ouvir
escapando, Than.
— Você imaginou.
— Não imaginei! Eu ouvi de verdade. Se não acredita em
mim, tira os fones e escuta. Você vai ouvir também.
— Ouviu errado.
— Thaaaaan...
Os três na água se viraram surpresos para olhar para
cima no momento em que ouviram Marn resmungando com
Than.
Than continuava parado, com o rosto inexpressivo como
de costume, mas seus olhos não estavam mais desfocados.
Por fim, Than olhou para a água novamente...
Finalmente, ele baixou o olhar para a superfície da água.
Ele olhou para a água de novo.
Pode ter sido um gesto pequeno, mas deu esperança a
todos os amigos que assistiam. Ying e Hem sorriram
abertamente de empolgação.
Mesmo que o tempo de diversão deles estivesse quase
acabando, eles ficaram felizes em ver aquela cena. Eles
cochichavam animados um com o outro sem parar até que
Than franziu a testa, confuso. Sentindo os olhares deles, ele se
virou para Ryu.
Ryu balançou a cabeça, sinalizando que também não
sabia de nada. Aqueles dois... quem sabe que tipo de plano
maluco estão tramando de novo.
— Vamos voltar agora, pessoal. Se esfriar mais, o tio Karn
vai dar bronca na gente.
— Certo. Então a viagem de hoje termina aqui. Vamos
planejar algo de novo da próxima vez.
— Marn.
— Sim?
— Você se divertiu?
O garoto montado na garupa soltou uma risada brilhante.
Seus olhos se curvaram em pequenas frestas, mostrando
claramente o quão feliz ele estava hoje.
— Eu tive o dia mais divertido de todos!
As cinco crianças voltaram de bicicleta para casa juntas
em fila única, com Hem liderando o grupo. Eles passaram por
campos de arroz, acenando para as pessoas gentis da vila por
quem passavam.
Marn fechou os olhos, aproveitando a brisa suave da
tarde, inalando o cheiro fresco da natureza ao redor. O céu
estava ficando de um laranja suave, agradável aos olhos. Nos
campos, ele conseguia ver vários patinhos flutuando em uma
pequena lagoa próxima — mergulhando, subindo e descendo.
Eles eram tão fofos e adoráveis que Marn não pôde evitar rir
sozinho, o que intrigou a pessoa que pedalava à frente.
— Do que você está rindo?
— Só quero rir
— ...
— Ei, Than... Than...
— ...
— Thaaaaan...
— O quê? Se me chamar, então fale.
— Você foi feliz hoje?
— Por que está perguntando?
— Só me responda.
— Não.
— Sério?
— É irritante.
— Shh! Seus amigos te trouxeram para se divertir hoje.
Não diga coisas assim — você vai deixá-los tristes.
— ...
— Eu fui muito, muito feliz hoje. E... sinto que fiquei só
um pouquinho mais próximo de você.
— Você está imaginando coisas.
— O quê — eu achei que a gente já fosse próximo.
— ...
— Tudo bem. Da próxima vez, então.
— ...
— Algum dia, eu com certeza vou ficar próximo de você.
— Tão confiante?
— Vou me tornar seu amigo não importa o que aconteça.
— Mm.
— Escreve o que eu estou dizendo.
— Mm.
— ...
— Estarei esperando para ver, então.
14
— Than, querido, me ajuda a recolher as roupas que estão
penduradas atrás da casa.
— Quais?
— Todas. Eu pendurei ontem e esqueci de recolher. Não
sei se o sereno as deixou úmidas.
— Tá bom. Eu vou buscar.
Than respondeu com uma expressão calma, mudou de
direção e caminhou em direção à porta dos fundos.
Várias camisas de cores claras estavam penduradas no
varal, balançando com o vento. O ar da manhã, às sete horas,
estava especialmente fresco e límpido. Quando ele olhou para
o céu, apenas nuvens brancas flutuantes podiam ser vistas.
Ele tinha acabado de ouvir a previsão do tempo na TV; a
temporada de chuvas tinha começado oficialmente.
De agora em diante, eles provavelmente veriam chuva a
cada poucos dias. Só de pensar nisso, ele já se sentia cansado.
— Coloque-as aqui, querido.
— ...
— Hm. Corra para a escola ou vai se atrasar.
Than não respondeu, apenas assentiu levemente. Ele
colocou as roupas sobre a mesa. Quando ergueu a cabeça, viu
porta-retratos pendurados perfeitamente na altura dos olhos.
Suas mãos congelaram por um momento. Uma das fotos era
de seu pai, que faleceu há cerca de quatro anos em um
acidente de carro repentino; tão repentino que ninguém na
casa teve tempo de preparar o coração.
A casa inteira ficou silenciosa por um longo tempo. Sua
mãe se isolou e não falou por dias. Than também se afastou de
todos, deixando para a irmã do meio a tarefa de cuidar tanto
da mãe quanto do irmão mais novo. Mas quem carregou o
fardo mais pesado foi o irmão mais velho, aquele que teve que
guiar a família através daquela dor. Ele era a pessoa de quem
Than menos queria se aproximar... P’Nathi.
Não tinha sido fácil para a família passar por aquele
período. Sempre que Than olhava para as costas de sua mãe,
tudo o que via era exaustão e solidão. É claro que ele sabia o
quanto seus pais se amavam profundamente.
Mesmo depois de todo esse tempo, parecia que as feridas
emocionais de sua mãe não tinham cicatrizado totalmente.
Sempre que alguém tocava no assunto, ela se encolhia
silenciosamente em seu quarto novamente, segurando as
roupas de seu pai enquanto chorava. Sua depressão ainda
persistia até agora. Ela teve que largar o emprego porque não
conseguia voltar a trabalhar.
Embora Warin se preocupasse com ela e quisesse cuidar
dela, ela tinha que frequentar a universidade, então não podia
ficar em casa. Tudo o que podia fazer era lembrar Than de ficar
de olho na mãe deles. Todo mês, sempre que tinha tempo, ela
voltava para casa para visitar, revezando-se com Nathi. Mas,
ultimamente, ambos andavam ocupados e não conseguiam
voltar com tanta frequência.
Agora, porém, sua mãe parecia muito melhor. Ela não
chorava mais à noite, nem se machucava mais. Ela tinha se
tornado uma mãe forte novamente, preparando o café da
manhã para seu filho mais novo todas as manhãs. Ela até
voltou a trabalhar, mesmo que fosse apenas um pequeno
emprego em uma creche local. Mas, ainda assim, era bom que
ela tivesse se recuperado.
Os olhos de Than escureceram um pouco. Ele observou a
casa; fotos antigas de anos atrás preenchiam as paredes.
A maioria era de fotos dos três irmãos com o pai na
piscina, ou fotos de competições; fotos dos três lado a lado
segurando medalhas. Não havia muitas fotos da mãe deles,
porque ela era sempre quem ficava atrás da câmera. Ela
adorava capturar memórias; emoções, momentos, tudo de
forma tão vívida que um olhar fazia você se sentir como se
tivesse voltado no tempo.
Como esta... era Warin durante sua vitória na natação no
ensino fundamental, sorrindo tanto que seus olhos se
curvavam.
E esta, seu pai, em pé com o braço em volta de P’Nathi.
Ambos vestindo jaquetas de patrocinadores iguais. Aqueles
dois... eram inegavelmente pai e filho.
Não havia uma única característica que não fosse
idêntica. P’Nathi parecia quase 100% com o pai deles; olhos,
nariz, boca. Todos diziam que P’Nathi era igualzinho ao pai
quando jovem. Sua gentileza, alegria, humor e otimismo; seu
irmão mais velho herdou tudo isso.
O pai deles costumava ser um nadador nacional; ele
representou a Tailândia em competições internacionais. No
mundo da natação, ele era bastante conhecido. Ele amava
profundamente a natação e competia desde a infância.
Ele ganhou o apelido de Baleia Assassina, porque uma
vez que entrava na piscina, ninguém conseguia pará-lo. Than
apenas balançava a cabeça sempre que ouvia isso.
Quem inventava um nome desses?
Era ridículo. A jornada da Baleia Assassina terminou
quando ele deixou a água para se casar com a mulher que
amava e começar uma família. Daquele dia em diante, ele
nunca mais competiu, aposentando-se completamente. Mas,
mesmo assim, ele nunca abandonou o que amava. Ele abriu
uma escola de natação, treinando crianças para competições.
Como ex-atleta nacional com medalhas para provar,
todos queriam aprender com ele. Ele treinava cada criança
com dedicação, especialmente seus três filhos.
Antes mesmo de terem idade para correr direito, ele já os
levava para a água, ensinando-os a nadar e a flutuar desde
quando tinham apenas alguns anos de idade. Todos
mostraram talento como atletas desde o jardim de infância.
O pai costumava chamar P’Nathi de tubarão-mako,
porque P’Nathi era o mais rápido e ágil. Ele tinha a habilidade
de natação mais marcante em comparação com seus outros
dois irmãos.
Quanto a Warin, ela ganhou o apelido de golfinho. O pai
dizia que esse animal era muito fofo e que ele gostava
especialmente dele. Quando soube que teria uma filha, ele
imediatamente deu a ela esse apelido; ele mimava a filha mais
do que qualquer outra coisa.
E quanto ao último... o mais novo, que era quase dez anos
mais novo que o mais velho. Este não recebeu um apelido do
pai, mas sim do seu irmão mais velho. Por causa da grande
diferença de idade, P’Nathi praticamente criou Than desde que
ele nasceu. Ele o viu desde o momento em que chegou ao
mundo, passou por seus primeiros passos, aprendendo a ficar
de pé e, eventualmente, chegando à idade em que poderia
entrar na piscina.
Quando viu o potencial de seu irmãozinho, decidiu na
hora lhe dar o apelido de Grande Tubarão Branco. Ele
pretendia que eles fossem dois tubarões nadando lado a lado
para sempre, sem fim. Mas isso era apenas bobagem de
criança.
Depois que cresceram, tudo o que antes parecia
emocionante e alegre se transformou em algo comum e sem
valor.
— Than?
A mãe, que acabara de lavar a louça, saiu e viu que seu
filho mais novo ainda não tinha ido para a escola. Ela
presumiu que ele já tivesse ido porque a casa estava silenciosa
havia um tempo.
Curiosa para saber se ele tinha esquecido algo, ela se
aproximou dele, mas quando o viu parado imóvel em frente ao
retrato da família, com os olhos opacos e sem vida, o rosto
vazio e sem emoção, sentiu sua respiração travar.
Than olhou para a mãe brevemente. Não disse nada,
apenas fez um wai, virou-se e saiu de casa. Assim, o lugar
tornou-se vazio e oco novamente.
A casa não era pequena ou apertada; pelo contrário, era
espaçosa, grande o suficiente para acomodar dez pessoas
confortavelmente. Mas esse espaço vinha acompanhado de
solidão e frieza.
Desde quando... desde quando esta casa perdeu todo o
riso? Desde quando não havia mais o som de passos
apressados de manhã? Sem vozes de brincadeiras entre os
membros da família?
Era como se... tudo tivesse desaparecido junto com
aquela pessoa.
Desde que o pai faleceu, ninguém fora verdadeiramente
feliz. A mãe soltou um longo suspiro, balançando a cabeça
para afastar os pensamentos pesados. Então ela saiu e colheu
um punhado de flores bonitas para arrumar em um vaso.
Pelo menos ter algumas flores pela casa trazia um pouco
de vida. Ela sorriu levemente e olhou para a foto de seu
falecido marido.
Aquele sorriso...
Não importa quantas vezes ela olhasse para ele, sempre a
enchia de esperança. Ele sempre fazia aquilo: colocava o filho
mais velho à sua esquerda, a filha do meio à sua direita e
deixava o menino mais novo montar em seus ombros. Ela o
repreendera muitas vezes, com medo de que a criança caísse e
se machucasse, mas ele nunca ouvia. Ele ficava encantado
demais com as mãozinhas puxando seu cabelo.
Mesmo quando seu rosto se contorcia de dor, ele ainda
abria um largo sorriso.
— Ai... eu não deveria ter deixado as crianças ficarem tão
grudadas em você naquela época.
— ...
— Se você ia nos deixar... não podia ao menos ter me dito
como criá-los?
— ...
— Por favor, me diga... o que devo fazer para deixar
nossos filhos felizes?
— ...
— Como posso... fazê-los rir juntos de novo?
— Bom dia, professor Nathi.
— E então? Você já está melhor agora?
— O Marn se recuperou, senhor! Estou muito forte agora.
Não precisa se preocupar.
— Hahaha, parece que você está melhor mesmo. Que
bom. E, logo que você se recuperou, algo bom aconteceu hoje
também.
— O que é, senhor?
Marn piscou, confuso. Hoje parecia diferente de alguma
forma. Ele esperou um momento, e então seu professor
responsável entrou carregando uma pilha de folhas brancas,
entregando-as uma a uma viradas para baixo para que
ninguém pudesse ver os resultados dos outros.
Quando Marn recebeu a sua, virou-a e a leu. Só então ele
entendeu que era o boletim do semestre anterior.
Marn imediatamente abriu um sorriso radiante.
Ele ficou em segundo lugar na classe! Segundo!
Que maravilha. Isso significava que todo o seu esforço
naquela época não foi desperdiçado. Se ele levasse isso para
casa para o tio Karn, o tio Karn com certeza ficaria orgulhoso!
Marn tinha estudado tanto e sido um bom menino.
— Guardem com cuidado. Se você foi bem no semestre
passado, estou feliz por você. E para aqueles que precisam
melhorar, esforcem-se mais neste semestre. Além disso, após
a última aula, quem reprovou não esqueça de me encontrar na
diretoria.
— Sim, senhoooor!
Nathi falou enquanto deixava seu olhar percorrer a sala
de aula. Seus olhos pararam brevemente em um assento
vazio, o que ficava ao lado de Marn. O garoto ao lado dele ainda
sorria amplamente para suas próprias notas. Ele devia estar
extremamente feliz por ter ficado em segundo lugar.
Ele deixou as crianças esperando pelo próximo professor.
Quanto a si mesmo, saiu segurando a última folha de papel;
aquela que não tinha dono. Como não havia ninguém ali para
recebê-la, ele teria que guardá-la. Nathi voltou para sua mesa,
encostou-se um pouco para trás e olhou para o canto do papel.
Era o boletim de um aluno chamado Than.
Os detalhes eram familiares demais. Than ficou em
primeiro lugar na classe novamente neste semestre.
Seu desempenho sempre foi excelente. Embora ele não
gostasse de frequentar as aulas de Matemática — que Nathi
lecionava — suas notas nos testes ainda eram
surpreendentemente altas.
Às vezes, Nathi temia que a escola pudesse chamá-lo para
uma investigação. Mas, olhando de perto, não havia nada de
errado. Ele sabia muito bem o quão capaz e talentoso Than
era. Mesmo se ele lhe entregasse um exame sem aviso prévio,
Than poderia terminar tudo ali mesmo, na hora. Than...
aquela criança realmente tinha talento. Ele podia garantir
isso, fosse como professor ou como irmão mais velho. Era uma
pena que seu talento estivesse sendo esmagado pela culpa que
ele carregava desde aquele dia. Era por isso que Than não
conseguia mostrar suas habilidades plenamente; não porque
não quisesse, mas porque tinha medo.
Todo semestre, cada aluno tinha que enviar uma ficha de
inscrição para os clubes ao professor responsável. Os clubes
variavam de acordo com seus interesses. Exceto por aquela
criança.
Than nunca escolhia clube nenhum. Nem no ensino
fundamental, nem nos dois primeiros anos do ensino médio. É
verdade que os clubes não tinham impacto nas notas, mas
faziam parte do programa de desenvolvimento estudantil da
escola.
Claro, todos em casa sabiam disso. Sua mãe já fora
convocada antes, e eles discutiram o assunto, o
aconselharam, mas Than nunca mudou. Ele se recusava a
participar de qualquer coisa.
Eles tentaram conversar, mas nada ajudou. Então,
acabaram deixando para lá; pelo menos ele não estava se
comportando mal nem causando problemas. Nathi suspirou e
levou a mão ao ombro direito para massageá-lo suavemente.
Um tubarão com a barbatana cortada... nunca mais pode
nadar. Só pode morrer.
Pensando bem, que desperdício.
Era uma vez, o próprio Nathi fora apelidado de
tubarão-mako. O pai tinha tanto orgulho de suas habilidades.
Todos costumavam dizer que ele seria o próximo
representante nacional. Ele mostrara um futuro promissor
desde a infância, vencendo quase tudo em que competia,
nunca ficando para trás; rápido e ágil, fiel ao seu apelido.
Originalmente... tornar-se professor nunca fizera parte de
seus planos.
Com suas habilidades, após terminar o ensino médio, ele
recebeu o bilhete dourado direto para a seleção nacional. Ele
planejava se tornar um atleta profissional como seu pai. Mas a
mãe insistiu para que ele se matriculasse na universidade
como um plano B para o futuro. Então, Nathi enviou seus
certificados esportivos e os usou para entrar na Faculdade de
Educação.
Durante esse tempo, ele estudava enquanto treinava. Era
difícil, mas administrável. Quando Nathi tinha cerca de vinte e
um anos, finalmente teve a chance de realizar seu sonho:
representar a Tailândia na maior competição de natação de
sua vida. Ele esperara por este momento desde criança.
Cada passo, cada esforço feito fora para este objetivo. Ele
estava tão animado que pediu para trancar um semestre da
universidade apenas para treinar em tempo integral.
Era o passo final. Só mais um pouco... só mais um pouco
e ele alcançaria seu sonho.
Talvez fosse verdade o que as pessoas diziam: o azar ataca
quando estamos mais felizes.
Naquele ano, o pai ainda estava vivo. Quando soube que
seu filho mais velho estava seguindo seus passos, ele se
dedicou de coração a apoiá-lo, passando dias inteiros
ajudando Nathi a treinar. Sempre que recebiam visitas ou
encontravam alguém na rua, as pessoas sempre perguntavam
sobre Nathi: o talentoso filho mais velho, o bonitão e
promissor. Todos o elogiavam.
E o pai... o pai estava tão orgulhoso, tão feliz com a
reputação brilhante de Nathi naquela época.
Eles tinham três filhos, mas apenas um recebia toda a
atenção — e esse foi o começo da desgraça que viria.
Nathi estava ocupado com o treinamento, e Warin estava
envolvida com seus estudos. Apenas o filho mais novo, que
tinha acabado de entrar no ensino fundamental não fazia
muito tempo, foi deixado para trás.
Seu pai treinava apenas o seu irmão mais velho; sua mãe
torcia apenas pela sua irmã mais velha.
Ninguém prestava atenção nele... nem uma única pessoa.
No dia em que a escola realizou um evento importante,
todos os alunos vieram de mãos dadas com seus pais. Mas
naquele dia sua mãe não estava disponível porque precisou ir
com sua irmã do meio. Então Than esperou e esperou que o
outro responsável aparecesse em seu lugar. Mas ele esperou
até o evento terminar, e nem a sombra de ninguém apareceu.
Nem uma única pessoa...
Poderia se dizer que ele estava magoado, e seria verdade.
Para uma criança daquela idade, quem não se sentiria
magoado ao passar por algo assim? Sua mãe foi com sua irmã.
Seu pai disse que estava ocupado — mas quando Than foi
procurá-lo na piscina onde sempre treinavam, encontrou o pai
treinando seu irmão mais velho...
Então era aquilo que o pai chamava de estar ocupado? Era
aquilo que ele queria dizer com não ter tempo?
Como a competição se aproximava, Nathi precisava estar
pronto a todo momento. Naquele dia, o pai deles tinha um
compromisso com um dos coordenadores da seleção nacional.
Já que Nathi representaria o país em uma competição de nível
mundial, era extremamente importante. Eles discutiram os
detalhes da competição e tudo correu bem.
Depois disso, pai e filho passaram o resto do tempo
treinando, esquecendo a hora, esquecendo todo o resto. O pai
presumiu que o evento escolar era algo que a mãe já havia
resolvido, então nunca imaginou que surgiria um problema.
— O papai só ama o P’Nathi.
— Than...
— Alguém sequer se importa comigo...?
— Isso não é verdade, filho.
— Você age como se eu não fosse seu filho. Eu também
não sou seu filho? É porque não sou tão bom na natação
quanto o P’Nathi? Ou porque não sou tão inteligente quanto a
P’Warin, então ninguém precisa me amar, ninguém precisa se
importar comigo?
— Than, escute o papai primeiro.
— Me solta! Como você entenderia? Você foi o filho mais
velho! Nunca teve que ser o irmão mais novo de ninguém!
Toda essa situação pode ter começado a partir daquela
conversa.
Enquanto o pai treinava Nathi na água, o mais novo
apareceu de repente diante deles. Só de ver a expressão de
Than, Nathi entendeu instantaneamente como seu
irmãozinho se sentia.
Ele saiu apressado da piscina, ainda pingando. Ele os
ouviu discutindo de longe. Than tinha apenas doze anos na
época. Ele estava furioso — não ouvia ninguém, com suas
emoções transbordando. Seu pai tentou explicar, mas ele se
recusou a ouvir qualquer coisa.
Vendo que as coisas estavam indo mal, Nathi teve a
intenção de intervir e ajudar. Ele pensou que talvez Than se
acalmasse e ouvisse se ele falasse.
Mas não... De jeito nenhum.
— Cala a boca, Phi! Todo mundo ama você. O papai só
ama você! É claro que ama, você é bom em tudo! Você é bom
em tudo!
— Than, se acalme.
— O papai só ama você. A mamãe só ama você! Ninguém
me ama! Nem uma única pessoa!
— Agora está passando dos limites, isso não é verdade.
— Não minta dizendo que me ama! Você deve estar tão
feliz, não é? Todo mundo só se importa com você. Você
esqueceu que tem outro irmão? Se você me amasse de
verdade... quando eu estava sofrendo, por que ficou calado?!
Por que não disse nada naquela hora?! Por que agora?!
— ...
— Você na verdade me odeia, não odeia? É só dizer!
Pá!
Tudo aconteceu rápido demais para controlar.
Quando ele percebeu o que tinha feito, sua mão já havia
se movido. E a ficha só caiu quando Than se virou para ele
com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Não era que Nathi não se sentisse mal. Não era que ele
não estivesse sofrendo. Ele criou Than desde pequeno.
Quando Than nasceu, Nathi praticamente o carregava pela
casa todos os dias. Ele o amava tanto — cuidava dele, o
protegia, ensinou-o a nadar, ajudava com o dever de casa,
ensinou-o a andar de bicicleta, lia livros com ele. Ele o ensinou
tudo. Era praticamente um segundo pai. Como Than poderia
não saber o quanto ele o amava?
Ter aquelas palavras fritadas... ele tentou dizer a si
mesmo que era apenas raiva de criança. Tentou deixar para lá.
Mas ele não conseguia evitar de se perguntar o que
exatamente Than carregava no coração para fazê-lo dizer algo
assim.
O que Nathi fez magoou Than profundamente... até o pai
deles, parado ao lado deles, ficou chocado e sem fala. Ele já
estava sobrecarregado com o estresse da competição que se
aproximava. Alguém achava que estar onde ele estava era
fácil? Alguém achava que aquilo trazia apenas alegria?
Todos os dias ele sofria pressão — de colegas de classe,
companheiros de equipe, treinadores e até de seu pai. Quanto
mais as pessoas o elogiavam, mais parecia que ele estava
sendo empurrado para um pedestal alto e aterrorizante.
As expectativas pesavam sobre seus ombros. A reputação
de seu pai estava em jogo — seu pai, um ex-atleta nacional.
Como filho mais velho, ele não podia falhar.
E este era o seu sonho.
Ele esperou por essa chance. Como poderia deixá-la
escapar?
Ele treinava incansavelmente, mal se permitindo
descansar. Foi por isso que não brincou tanto com Than; ele
tinha medo de que seu estresse o afetasse. Mas então ser
gritado daquela forma... é claro que ele ficou magoado.
Foi como se uma represa se rompesse. Tudo jorrou de
uma vez. Mas o que doeu ainda mais... foi o olhar de traição
nos olhos do irmãozinho que ele mais amava.
— Vai embora! Não encosta em mim!!
— Than, espera...
Bang!
— Ah...!
— Phi!
No momento em que viu seu irmão chorando, tudo o que
Nathi quis fazer foi se desculpar e puxá-lo para um abraço.
Mas Than o empurrou com toda a sua força. Não havia mais
sorriso para o irmão, nem o gesto de correr para seus braços.
Apenas distância, cada vez mais longe.
Nathi estendeu a mão para agarrá-lo, mas só pegou o ar.
Than empurrou de volta.
No instante seguinte, tudo virou de cabeça para baixo.
Seus pés molhados escorregaram feio no chão. Ele caiu
violentamente, com o estrondo ecoando. Sua cabeça atingiu o
chão, deixando-o atordoado.
Ele ouviu o pai gritando seu nome. Viu o rosto
aterrorizado do pai enquanto o segurava. E a última coisa que
viu antes de tudo escurecer... foi a expressão horrorizada de
Than.
E a partir daquele dia... ele nunca mais viu Than. Nathi
acordou com a pior notícia de sua vida. O impacto rompeu o
tendão de seu ombro direito. Ele estava no meio do
treinamento, com os músculos ainda tensos, e então caiu
violentamente, tornando tudo muito pior. Ele ficou paralisado
na cama do hospital, já anestesiado pelo diagnóstico do
médico.
Ele não poderia competir. Não poderia realizar seu sonho.
Ele teve que deixar para lá — assim, simplesmente.
Só mais um pouco...
Só mais um pouquinho...
Ele tentou a vida inteira. Desde que viu fotos antigas de
seu pai, quis se tornar um nadador nacional também. Seu
objetivo era estar no mesmo palco — e ir ainda mais longe. Ele
trabalhou muito para ser um dos poucos selecionados para
competir no cenário mundial. E, no fim... acabou assim.
Por dias, ele não falou com ninguém. Não conseguia
aceitar. Seu estado mental era o pior que já estivera. Todos o
conheciam como o Nathi alegre e bondoso — o irmão mais
velho divertido que todos adoravam. Mas naquela época, ele
não conseguia sequer falar com sua própria família.
Tudo parecia escuro.
Ele se sentia frio, imóvel.
Levou muito tempo até que se recuperasse um pouco. O
médico lhe disse que, com a terapia adequada, ele poderia ter
uma chance de se tornar o Tubarão-mako novamente. Nathi
sorriu, mas no fundo sabia... era apenas um consolo.
A recuperação levaria meses — talvez anos. Não havia
garantia de que ele pudesse nadar novamente, muito menos
retornar à sua antiga forma. Mesmo que conseguisse... teria
que começar tudo do zero.
Algumas oportunidades, uma vez perdidas, são perdidas
para sempre. E ele teve que aceitar essa verdade amarga.
Este incidente roubou não apenas sua esperança... mas
também sua felicidade.
A partir de então, a família outrora feliz nunca mais foi a
mesma. A casa grande parecia fria e vazia. A solidão preenchia
cada canto como uma névoa persistente. Nathi voltou para
casa para se recuperar — mas Nathi nunca mais viu Than.
Mesmo morando na mesma casa, Than evitava a todos.
Ele se trancava em seu quarto, com as luzes apagadas, o dia
todo. Seus pais e sua irmã mais velha tentaram falar com ele,
mas tudo o que podiam fazer era balançar a cabeça e ir
embora.
Aquela noite... Nathi subiu as escadas para procurá-lo.
Foi a primeira vez que ele parou em frente àquela porta desde
que o incidente aconteceu. Ele baixou os olhos para olhar seu
braço direito que ainda estava engessado, depois olhou para a
placa com o nome na porta.
Lentamente, ergueu a mão e bateu duas ou três vezes. Ele
sabia que o dono do quarto estava lá dentro, mas não fazia
ideia se o outro ainda ouviria.
— Than.
— ...
— Consegue me ouvir?
— ...
— Já comeu?
— ...
— A mamãe fez muitos dos seus pratos favoritos hoje. Não
esquece de comer, tá? Vou pedir para a Wa colocá-los na
frente da sua porta.
Silêncio... Como esperado, Than não respondeu.
Nenhuma reação.
— Than, me desculpa.
— ...
— Quero te dizer uma coisa.
— ...
— Eu nunca te odiei. Nem antes, nem agora. Nunca me
senti assim.
— Pelo contrário... não houve um único dia em que eu não
te amasse.
— ...
— Eu sempre vou te amar.
Toda vez que fechava os olhos, ele ainda via aquela cena
— o dia em que ele e seu irmão mais novo se afastaram um do
outro em direções diferentes.
Embora vivessem na mesma casa, parecia que viviam em
mundos diferentes. Eles nunca tiveram a chance de se
encontrar.
Depois que Nathi se recuperou, teve que voltar para a
universidade.
Após se formar, tornou-se professor. Ele não podia ficar
na mesma casa que seu irmão mais novo porque sabia que sua
presença só piorava as coisas para Than. Por isso, escolheu se
mudar e morar em outro lugar até agora.
Só aquilo já era ruim o suficiente. Mas quando o pai deles
faleceu de repente, a casa mergulhou em um silêncio ainda
mais profundo. O pilar da família havia desmoronado. A mãe
deles ficou tão arrasada que não sabia o que fazer.
Como filho mais velho, Nathi teve que assumir e cuidar de
tudo, organizando o funeral com a ajuda de Warin.
Durante todo o funeral, Than nunca apareceu. Nem uma
vez. Até a última noite, antes de o caixão ser levado para o
crematório — naquele momento, Nathi finalmente teve a
chance de ver seu irmãozinho claramente de novo.
Than aproveitou o momento mais silencioso, quando
havia menos pessoas por perto, para ficar ao lado do caixão em
silêncio. Ele não disse nada, não fez nada — apenas encarou o
caixão com olhos vazios.
Ele parecia muito mais magro. Sua expressão era muito
pior do que Nathi esperava. Nathi quis se aproximar dele, mas
assim que Than o notou, fugiu imediatamente.
Quando foi a última vez que comeram juntos?
Quando foi a última vez que ele levou Than para comprar
lanches?
Quando foi a última vez que jogaram videogame juntos?
Talvez nem ele nem Than conseguissem mais se lembrar.
Às vezes Nathi pensava... se ao menos ele tivesse tido
mais calma naquele dia, se ao menos não tivesse agido com
violência — talvez as coisas entre ele e seu irmão não tivessem
ficado assim.
Se Than estava sofrendo, Nathi sofria ainda mais. Se
Than padecia, Nathi padecia ainda mais. Ele não fazia ideia do
que fazer ou de como melhorar as coisas.
— Professor Nathi, boa tarde!
— Ah, sim. Olá. Não corram no prédio.
— Tá bom!
Durante o intervalo para o almoço, a maioria dos alunos
descia para o refeitório, e os professores ficavam na sala dos
professores para comer. Mas Nathi escolheu descer, dando
voltas até chegar à grande área da piscina que a escola usava
para as aulas.
Ele continuou caminhando até parar no canto silencioso
ao lado dos armários de metal. Ele observou a área — não
havia mais ninguém ali além dele. Pelo menos, era o que ele
pensava... mas estava enganado.
Quando ele saiu para um dos lados da piscina e ergueu a
cabeça, viu alguém parado no lado oposto. Seus reflexos
apareciam claramente nos olhos um do outro.
— Than...
Ele chamou baixinho, mas o som deve ter chegado até ele.
Than finalmente levantou o olhar da superfície da água e
olhou para seu irmão mais velho. Ele ficou parado por quase
um minuto inteiro antes de se virar e ir embora sem dizer uma
única palavra.
O grande tubarão tinha perdido sua barbatana.
O pequeno tubarão agora estava com medo demais para
nadar sozinho.
Nathi tinha um sonho por causa do pai deles.
Than tinha um sonho por causa de Nathi.
Aquele irmãozinho uma vez sonhou em crescer para ser
como seu irmão mais velho. Então, quando Nathi perdeu seu
sonho... Than abriu mão do seu também.
Than queria se redimir. O incidente daquela época foi
pesado demais. Ele não sabia como compensar a dor que
Nathi sofreu. Então escolheu isso — abandonar seu próprio
sonho, prometendo nunca mais tocá-lo.
Ele se lembrava todos os dias de que fora ele quem
destruíra tudo na vida de seu irmão. Por isso, ele não merecia
aquilo. Ele nem sequer merecia mais ser chamado de irmão
mais novo.
O que ele deveria fazer...?
O que ele poderia possivelmente fazer para proteger o
sonho de seu irmão mais novo?
O que ele poderia fazer... para que aquela criança não
cometesse um erro terrível?
Ele não queria mais vê-lo sofrer...
Ele realmente não queria.
15
— Juro, cara, nós dois precisamos pagar uma refeição
para o novato.
— É sério. Eu concordo. Se não fosse a ajuda do Marn
neste trimestre, nós dois teríamos acabado em recuperação
em matemática e física.
— Ahhh, Marn!
— Professor Ae!
O novato de quem eles estavam falando piscou confuso,
sem entender sobre o que os dois estavam falando. Ele estava
sentado em sua mesa, ainda absorto em seu boletim do último
trimestre. Quando viu que ficou em segundo lugar na classe,
ficou radiante. Ele correu para casa para contar ao tio Karn
animadamente. Mas o tio Karn continuava sendo o tio Karn —
Marn sabia que ele não daria elogios facilmente. Ele apenas
assentiu e disse um hum curto, então disse a Marn para se
preparar para que pudessem empurrar o carrinho de leite de
soja para vender. Foi só isso. Sem grandes cumprimentos.
Mas Marn ainda se sentia muito feliz. Ele já tinha
prometido ao tio Karn que manteria boas notas como essa de
agora em diante, para que o tio Karn não sentisse que
mandá-lo para a escola era um desperdício de dinheiro. E
quanto ao trabalho em casa — ele trabalharia duro, faria tudo
o que pudesse. Se ele costumava ser bom antes, seria ainda
melhor de agora em diante!
Marn tinha uma vaga ideia de quem era o melhor aluno
da classe. Não era ninguém de longe — era Than, o garoto
sentado bem ao lado dele. Ele sempre parecia não estar
prestando atenção, muitas vezes cochilando calmamente com
a cabeça baixa. Quem diria que esse cara era na verdade o
melhor aluno da turma?
Than era extremamente inteligente. Hem e Ying tinham
dito uma vez a Marn que todos na família de Than eram
brilhantes — bons em esportes, bons academicamente. Por
exemplo, seu irmão e sua irmã mais velhos tinham conseguido
admissões por cotas universitárias nas faculdades em que
estavam interessados e, durante os anos escolares, ambos
eram considerados alunos de destaque.
Se Than se importasse em participar de competições
acadêmicas como todo mundo, seu nome brilharia tanto
quanto os deles. Mas, como todos podiam ver, Than não
estava interessado em nada. Ele não competia, não se
inscrevia, não participava de nenhuma atividade escolar —
nem de uma sequer.
Mesmo o clube que todos eram obrigados a participar, ele
não escolheu nada. Ele era provavelmente o único aluno em
toda a escola que ousava fazer isso.
— Volto logo.
— Onde você vai?
— Banheiro.
— Hum.
Ying protestou quando viu Ryu se levantar e sair da sala
de aula. Seus olhos mostravam um toque de suspeita. Ryu
podia ser uma pessoa quieta, mas ele não costumava ser tão
silencioso assim. Ela sentiu que algo estava errado.
Mais cedo, ela e Hem estavam discutindo na frente dele,
quase se unhando, mas Ryu nem sequer tinha dito para eles
pararem, como faria normalmente. Ele apenas ficou sentado
ali em silêncio, encarando as próprias mãos enquanto mexia
nelas inquieto. Ying se sentiu preocupada e quis segui-lo, mas
Hem rapidamente deu um cascudo na cabeça dela com o
punho. Bem, é claro! Ela não podia segui-lo. Aquele era o
banheiro masculino! Se ela entrasse, com certeza se tornaria
um problema.
— Ele está bem. Relaxa, Dona Lua Cheia.
— Sério?
— Sim. Ele estava falando comigo no almoço
normalmente.
— Mas eu realmente acho que ele está quieto demais hoje,
Hem.
— Talvez ele esteja bravo com você. Você tem arrastado
ele para trabalhar muito no clube de música ultimamente.
Normalmente ele corre para casa para aquelas aulas
particulares ou algo assim, não é?
— Não, ele disse que não está ocupado ultimamente. Ele
disse que pode praticar até a noite.
— Isso é estranho. Ele realmente não tem aula particular?
— É. Por que você está desconfiado?
— Bem... eu vi ele lendo livros de um cursinho
recentemente.
— Ah, isso deve ser coisa antiga que ele estudou antes.
Hem não pensou muito sobre o assunto. Ele deu de
ombros levemente e terminou seu iogurte antes de tirar uma
folha fina de papel.
Os olhos de Marn brilharam imediatamente, enquanto
Ying, que ainda estava sentada ao lado deles, tapou os ouvidos
e fechou os olhos.
Than, embora ainda estivesse sentado por perto, cruzou
os braços e virou o rosto como se não quisesse ter nada a ver
com aquilo.
— Observe com atenção, Marn. Esta é uma performance
digna de ator principal de Hollywood.
— Hum-hum! Eu vi você praticando antes das provas.
Você vai competir na competição de drama histórico, certo?
— Exatamente!
— Uau! Você vai interpretar Phra Ya Phisut também! O
papel principal!
— Com certeza. Sou eu. Não tem como eles me darem um
personagem secundário qualquer, certo?
— Hum-hum!
— Certo, olhe isso — aham!
Marn assentiu rapidamente, observando seu amigo
ensaiar com empolgação. Hem nem precisava olhar para o
roteiro. Ele praticava diariamente — cada expressão estava
memorizada. Seu rosto e seus olhos mudavam com cada cena
como um ator treinado. Quando ele precisava ficar com raiva,
ele a invocava instantaneamente.
Quando precisava chorar, levava apenas alguns segundos
para espremer as lágrimas. Quando precisava parecer
triunfante, ele exibia um sorriso presunçoso e ria
vitoriosamente. Em poucos minutos, Hem conseguia rir e
chorar sem hesitação.
Uau... Hem é incrível.
Ele realmente nasceu para este papel. Phra Ya Phisut era
o personagem principal — importante e autoritário.
Além das expressões faciais, Hem teve que praticar
esgrima e movimentos corporais para ser rápido e ágil,
condizente com um guerreiro lendário. Só de vê-lo ensaiar, a
pele de Marn formigava de emoção. Se Hem usasse figurinos
reais, maquiagem e carregasse uma espada cenográfica
adequada, ele seria, sem dúvida, um Phra Ya Phisut
assustadoramente majestoso.
— Como foi?
— Foi incrível, Hem. Você é muito talentoso.
— Heh. Eu te disse que nasci para ser ator. Você vai me
ver brilhar, sabe?
— Hum-hum! Tenho certeza de que um dia estarei na fila
para o autógrafo do Hem!
— Haha! Se esse dia realmente chegar, você nem
precisará pegar fila. Eu assino sua testa bem aqui!
Marn riu com os olhos, deixando o amigo bagunçar seu
cabelo. Foi apenas uma performance curta hoje, mas
incrivelmente impressionante. Ele sabia que Hem sempre
sonhou em se tornar ator — era seu sonho desde a infância.
Sempre que alguém perguntava o que ele queria ser
quando crescesse, Hem levantava a mão mais alto do que
todos os outros e declarava com confiança que queria ser uma
estrela de cinema — o ator principal em um grande filme.
Muitas pessoas zombaram desse sonho, mas Hem nunca
deixou que nada disso o afetasse. Ele apenas continuou
praticando, trabalhando para entrar na indústria do
entretenimento no futuro. Ele aprendeu a refinar suas
expressões, praticando falas com seu reflexo todos os dias. Ele
nunca se sentia envergonhado ao recitar falas em voz alta na
calçada com os olhos fechados. Marn o admirava
genuinamente. Hem se destacava tanto nos esportes quanto
nas atividades.
Sempre que a escola precisava de alunos para competir
em qualquer coisa relacionada às artes performáticas, Hem
corria para entregar a inscrição primeiro. Era o quanto ele
queria ser ator. Mas como um garoto de um distrito pequeno,
as oportunidades eram limitadas. Então Hem se esforçava
muito — postando vídeos em todos os lugares que podia,
esperando que um caçador de talentos pudesse descobri-lo.
Ver a luz brilhante e radiante nos olhos de Hem fazia Marn
sorrir. Tão incrível... tão extraordinário... esse meu amigo. Que
o sonho de Hem se realize.
Prometo que vou torcer por ele com tudo o que tenho.
— Ah... Ryu, você foi esperto de fugir para o banheiro.
Você não teve que ouvir esse monólogo do Phra Ya Pikoon pela
milionésima vez.
Ryu finalmente voltou. Ele não disse uma palavra,
sentando-se de volta em seu lugar silenciosamente enquanto
Ying e Hem voltavam a discutir. Marn se virou levemente.
Than estava com o rosto sobre a mesa. Marn não
conseguia dizer se ele estava acordado ou se tinha caído no
sono novamente.
Marn pegou sua lapiseira e desenhou um patinho em seu
rascunho, sorrindo gentilmente.
— Than... você tem um sonho?
— ...
— A Ying quer ser cantora. O Hem quer ser estrela de
cinema. Eles parecem tão felizes quando falam de seus
sonhos.
— ...
— Fico feliz de ver meus amigos sorrindo assim. Fazer o
que se ama deve ser ótimo.
— ...
— É... acho que tudo o que podemos fazer agora é
aproveitar fazendo o que amamos.
— Uau — quem te ensinou a falar assim, Marn?
— Minha avó. Mas ela faleceu.
— Ah...
— Tudo bem. Não estou mais tão triste. Eu já aceitei.
— Você devia amar muito a sua avó.
— Hum-hum. Muito mesmo. Ela era o meu mundo
inteiro. Foi ela quem me fez forte assim.
O sorriso gentil nunca saiu do rosto de Marn. Ying e Hem
trocaram olhares, atordoados.
Antes de o conhecerem, eles presumiam que ele era do
tipo frágil e doentio — talvez até deprimido ou alguém que
carregava uma energia sombria. Mas não, Marn não era nada
disso. Mesmo estando doente, ele tinha um espírito forte. Ele
era inacreditavelmente positivo e resiliente.
Este garoto... ele deve ter passado por tanta coisa.
No entanto, de alguma forma, ele ainda era uma pequena
bola de energia positiva — sorrindo suavemente, nunca
falando mal de ninguém, nunca perdendo a calma. Embora
alguns colegas de classe o tivessem julgado no início por causa
de sua doença, ele nunca uma única vez falou mal de
ninguém. E... ele não tinha vergonha ou medo de quem era —
nem um pouco.
Enquanto esperavam o professor da tarde chegar, todos
se agruparam e conversaram. Hem e Ying ainda tagarelavam
sem parar. Marn olhou para o seu caderno novamente,
desenhando outro patinho enquanto murmurava suavemente.
— Na verdade... eu não tenho um sonho grande como o do
Hem ou da Ying.
— ...
— Eu só quero ser feliz todos os dias. Isso é o suficiente.
— ...
— Porque... honestamente... eu nem sei quanto tempo
vou viver.
— ...
— Se ser feliz todos os dias conta como um sonho... então
talvez esse seja o meu único sonho agora.
— ...
— Eu quero ver todos os meus amigos felizes.
— ...
— Você também, Than. Não se esqueça de encontrar sua
própria felicidade.
— ...
— Vou aplaudir você exatamente como aplaudi o Hem e a
Ying hoje.
— ...
— Se um dia você sentir vontade de me contar algo, pode
sempre falar comigo. Se quiser me mostrar algo, pode mostrar
a qualquer momento. Prometo que vou aplaudir bem forte
para você.
Marn desenhou um último patinho — mas desta vez não
em seu caderno. Ele abriu sua bolsinha, tirou um post-it de
cor pastel, desenhou o pato, escreveu uma curta mensagem de
incentivo e o colocou ao lado de Than junto com uma bala
azeda verde. Bem naquele momento, o professor entrou, então
Marn voltou a estudar seriamente.
Naquela noite, Marn guardou as coisas para ir para casa.
Ele olhou para o assento vazio ao lado dele. Than já tinha ido
embora. Sua mesa estava arrumada como sempre. Mas desta
vez... o post-it e a bala verde tinham sumido.
— Aff! Cheguei! Chegueeee! Nossa, phi, por que você me
chamou com tanta urgência de repente? Ainda bem que eu
ainda não tinha ido para casa.
— Hem.
— Sim? O que foi... espera, aguenta aí, água primeiro. Eu
vim correndo.
Hem levantou a mão para pedir uma pausa ao veterano
enquanto bebia água.
Depois de vários minutos, sua respiração finalmente se
estabilizou. Ele não tinha ideia do que aconteceu — alguém
tinha tocado em seu ombro, dizendo que os veteranos do clube
de teatro queriam falar com ele urgentemente.
Então ele correu direto para o depósito do clube, suando
como um louco. Na frente dele estavam veteranos que ele
reconhecia bem — pessoas com quem ele costumava trabalhar
em competições de teatro. Exceto por três pessoas cujos rostos
ele não reconhecia.
Talvez membros novos?
— O que é isso, veterano? Calouros novos? Caramba, eles
são bonitos. Onde você os encontrou? Guarde eles para outro
show!
— Hem. Temos algo para conversar.
— Ah? O que é, na verdade, espera, eu não me
apresentei... e aí! Sou o Hem, o futuro astro em ascensão do
século.
— ...
— Er... Phi? O que está acontecendo?
Hem se moveu para ficar ao lado de um dos veteranos e
sussurrou. Só então ele percebeu que dois dos três rostos
desconhecidos eram veteranos do 3º ano.
E o último era do seu ano, embora ele não o reconhecesse
de jeito nenhum. Se ele fosse um membro antigo, Hem pelo
menos já o teria visto antes.
— Hem.
— Sim, sim, o que é? Fala rápido. Preciso voltar a
praticar. Ensaio geral nesta sexta-feira, vou mostrar algo
incrível para vocês.
— É sobre isso que precisamos conversar.
— ...?
— Nós... decidimos mudar o elenco.
— ...
— Você pode interpretar o Jan em vez dele?
— Haha... Phi... você está brincando, certo?
Hem congelou, depois riu de novo. Ele presumiu que fosse
uma piada — uma pegadinha boba. Mas quanto mais ele ria,
mais sérios ficavam os rostos dos veteranos.
A sala parecia sufocante.
O sorriso de Hem desapareceu.
— Phi... é sério?
— É. Nós já propusemos isso ao professor.
— Vocês vão me substituir? Me colocar como Jan? Vocês
estão brincando? E o Bas, o cara que costumava interpretar o
Jan?
— Nós o cortamos. Ele não atua tão bem quanto você.
— Então quem vai fazer o meu papel?
Ninguém respondeu. Mas todos os veteranos lentamente
desviaram o olhar... em direção àquele garoto desconhecido.
À primeira vista, o cara era inegavelmente bonito. Não...
muito bonito. Pele clara, alto, bom porte físico, ombros largos.
Hem o examinou da cabeça aos pés, repetidamente. Uma
sensação fria e de formigamento subiu dos seus dedos dos pés
até a ponta dos dedos.
— Vocês vão dar o meu papel para ele...?
— Nós conversamos com o professor...
— Phi, isso não tem mais graça.
— Não estamos brincando.
— A competição é no final do mês! Eu venho praticando
esse papel há uma eternidade. Eu decorei tudo, nem preciso
mais do roteiro. Por que mudar o elenco agora? E quem é ele?
Ele faz parte do nosso clube, por acaso?
— Não. Ele foi suspenso por um ano.
— Então ele nunca praticou com a gente? Nem uma única
vez? Por que escolher ele?
— Hem, escuta.
— ...
— Precisamos de alguém que se encaixe melhor no
personagem. Para tornar a performance boa. Você entende,
certo?
— Phi...
— Phra Ya Phisut precisa de pele clara. Precisa ser bonito.
— ...
— Não estamos dizendo que você é feio. Mas precisamos
de alguém que pareça o papel principal.
Hem estava sem palavras.
Ele desviou o olhar dos veteranos e encarou o novo ator. O
garoto não negou nada. Não disse uma palavra.
Desde o primeiro dia — audições, distribuição de roteiros,
ensaios — Hem nunca tinha visto esse cara. Nem uma vez.
Enquanto isso, Hem tinha aparecido todas as vezes. Nunca se
atrasou, nunca faltou.
Ele praticava o roteiro pelo menos três vezes por dia.
Ele o decorou completamente.
Mesmo durante as provas, ele continuou praticando. Ele
pesquisou técnicas de atuação, estudou como retratar o
personagem e treinou seus movimentos corporais — corrida,
postura, manuseio da espada, projeção de voz.
Ele tinha colocado tudo o que tinha nesse papel.
E agora... de repente... estava sendo tirado dele e
entregue a alguém que nem sequer tentou. Alguém que
simplesmente apareceu um dia — alguém escolhido
puramente por causa da boa aparência. O que é isso?
Como o mundo pode ser tão injusto?
— Você tem que entender, está bem? Quando se trata de
atuação, você precisa encontrar a pessoa mais adequada para
o papel.
— Faltam apenas algumas semanas. Como supõe que
vamos praticar a tempo?
— É, nós vamos dar um jeito. Você apenas vai fazer o
papel do Jan no lugar dele.
— Por que, phi? O que eu fiz de errado?
— Você não fez nada de errado. É só que sua aparência
não combina com o papel. O que é tão difícil de entender
nisso?
— Ele nem sabe nada sobre a competição, certo? E de
repente vocês o trazem para me substituir, assim, do nada?
Vocês tiram meu papel com essa facilidade? Então o que
acontece com todo o treino que eu fiz? Todo o esforço que eu
coloquei — para que diabos serviu tudo isso?
— Hem, por que você está ficando bravo? É apenas uma
coisa pequena.
— Uma coisa pequena?
— Você disse que quer ser ator. Um bom ator deve ser
capaz de interpretar qualquer papel, certo? Se você quer
provar sua habilidade, então aqui está: vá fazer o papel do
Jan. Tenho certeza de que você pode interpretá-lo melhor que
o Bas, de qualquer forma. Nós já cortamos aquele garoto. Dar
a você o papel do Jan não significa que você não vá se
destacar. O que mais você quer? Contanto que você consiga
atuar, papel grande ou pequeno, você ainda terá algo para
colocar no seu portfólio quando se candidatar à universidade.
Hem cerrou os punhos com força. Seus olhos tremiam.
Ele mal conseguia falar. O sentimento que fervia dentro dele
era enfurecedor. Ele só conseguia ranger os dentes e encarar a
todos — especialmente a pessoa que tirou seu papel.
— Então eu não posso interpretar Khun That no lugar?
Ou Khun Yuwarong? Por que tem que ser o Jan?
— Esses dois papéis... os veteranos é que vão
interpretá-los.
— O quê? Aqueles dois veteranos nem são do clube,
certo? Eles nunca participaram de um único ensaio!
— Hem, não seja mesquinho. Eles já estão no terceiro
ano. Deixe que se apresentem. Eles precisam disso para os
portfólios de inscrição na universidade.
— Você está louco?! E quanto às pessoas que estão
interpretando esses papéis desde o começo? Como todos vocês
podem fazer algo assim? Eu entendo que eles são seus amigos,
mas vocês não podem fazer isso! Eles nunca ensaiaram,
nunca decoraram o roteiro, nunca fizeram nada e, de repente,
podem simplesmente chegar e substituir os outros?!
O sangue de Hem fervia. Ele continuava discutindo com
os veteranos sem parar.
Quanto mais ele olhava para aqueles três novos
substitutos, mais sufocado se sentia.
Ele não conseguia acreditar que aquilo estava realmente
acontecendo, especialmente com a competição tão próxima.
Por que os veteranos decidiram assim? Mesmo que não
respeitassem o esforço do elenco original, deveriam ao menos
respeitar o clube e seus calouros.
Como podiam fazer algo tão sem vergonha e depois alegar
que era pelo bem da atuação, quando estava claro que
estavam apenas abusando de seus privilégios?
Um conseguiu o papel principal porque era bonito. E os
outros dois conseguiram seus papéis simplesmente por serem
veteranos — mais velhos, mais necessitados — então todos os
outros tinham que se afastar?
Sério?
Isso estava indo longe demais.
— Pode parar de gritar, Hem? Já decidimos. Está
decidido. Pare de discutir. Você vai interpretar o Jan. Pegue.
— Eu vou interpretar o Phra Ya Phisut como antes!
Ninguém vai tirar esse papel de mim. Tenho confiança de que
sou capaz de interpretá-lo. Estou pronto para isso.
— Mas você não tem a pele clara!
— Eu não sou tão escuro! Tem iluminação, não tem? O
tom da minha pele é realmente um problema tão grande
assim?!
— Você...
— Ou é só porque você acha que eu não sou tão bonito
quanto ele?
— Hem...
— Isso é uma puta palhaçada.
— ...
— Aquele cara roubou meu papel porque é bonitão. E
esses outros dois, que desculpa esfarrapada foi essa? Eles
simplesmente chegam e roubam as oportunidades dos
calouros para dar um up no portfólio. Vocês estão aqui há três
anos e nunca contribuíram com nada, não é? Não é
vergonhoso? Os outros estão ensaiando há tanto tempo. A
competição é logo. E de repente, só porque são seus amigos,
eles são empurrados para papéis assim? É nojento!
— Hem!
— Certo! Não vou mais atuar nesta peça de merda! Boa
sorte com isso! Faltam duas semanas, vamos ver como vocês
ensaiam sem estragar tudo. Estarei esperando para ver a cara
de vocês.
Hem nem conseguia se lembrar do que mais gritou depois
daquilo.
Tudo o que sabia era que ele e os veteranos causaram
uma cena enorme.
Pessoas próximas correram para chamar um professor
para acalmar as coisas.
Quando tudo terminou, ambos os lados estavam com
hematomas e arranhões.
Hem mostrou o dedo do meio para eles e saiu
tempestuosamente, furioso demais para fazer qualquer coisa,
sem querer ver o rosto de ninguém.
Ele apenas olhou para o céu sombrio. Em um minuto, a
chuva começou a cair, encharcando seu uniforme escolar
branco.
Ele havia esquecido que era a estação chuvosa.
— Hic... droga...
Crash!
Hem deixou sua bicicleta rolar contra o meio-fio de
concreto.
Ele próprio sentou-se à beira da estrada, abraçando os
joelhos. A chuva abafava o som de seus soluços.
Seus olhos estavam inchados e ardendo, mas ele não
conseguia parar as lágrimas.
Ele enterrou as unhas nas palmas das mãos, tremendo de
frustração.
Quanto mais pensava no que aconteceu, mais irritado
ficava.
Ele tirou o roteiro da mochila e o arremessou em uma lata
de lixo próxima.
O papel ricocheteou e caiu na rua. Ele xingou alto e foi
buscá-lo novamente.
Ele queria jogá-lo fora — jogá-lo fora de verdade — mas
apenas estar ali fazia as memórias passarem de forma tão
vívida que suas mãos tremiam.
Memórias de caminhar pelo quarto com os olhos
fechados, decorando as falas.
Memórias de praticar expressões faciais e emoções —
mesmo que isso significasse ensaiar na frente de uma parede.
As pessoas o chamavam de esquisito, o chamavam de
louco, mas ele nunca se importou.
Ele se lembrava de praticar com naturalidade,
tornando-se o personagem com confiança.
E, de repente... ele não conseguia jogar o roteiro fora.
Por que... por que ele tinha que perder por um motivo tão
ridículo?
Porque ele não era bonito o suficiente?
Porque ele era um calouro e, por isso, tinha que ser
pisoteado?
Por quê?
O que tornava aquelas pessoas melhores do que ele?
Onde estava a habilidade, o esforço deles?
Eles invadiram, sem vergonha, e tomaram o papel dele. E
ainda agiam com orgulho disso.
Era enfurecedor... tão enfurecedor.
— Haha! Quem faz o papel principal precisa ser super
bonito, né, Hem?
— Alguém como você? Como você poderia ser um
protagonista?
— É só o sonho estúpido dele. Não preste atenção.
— É, eu acho que aquele cara combinaria muito mais com o
papel principal do que ele.
— O Hem simplesmente não é tão bonito quanto ele. As
pessoas querem ver atores atraentes, certo?
— Se um cara bonito atua mal, pelo menos você pode
treiná-lo. Mas se alguém não é bonito, o treinamento não vai
consertar isso.
Hem decidiu guardar o roteiro, segurando-o firmemente
contra o peito, agachado e soluçando ao lado da lata de lixo.
Ninguém se importava. Ninguém olhava para ele.
Ninguém mesmo... apenas ele e o som do seu choro, enterrado
sob a chuva.
Por que... Por que todos tinham que ser tão cruéis com ele?
Slap!
— Volte para o seu quarto.
— Sim, senhor.
— E não me decepcione assim de novo. Este semestre,
você tem que se sair melhor. Entendido?
— Sim, senhor.
Ele respondeu brevemente, com a expressão vazia, como
se não sentisse mais nada em relação ao mundo.
Ele ouviu uma vara de bambu sendo jogada de lado em
algum lugar. Ouviu a voz de seu pai sumindo.
O garoto de dezessete anos respirou fundo. A ardência do
castigo não havia passado, mas para ele... ele estava tão
acostumado que mal sentia mais nada.
Era o mesmo de sempre.
Repetindo.
Várias e várias vezes.
Ele olhou para os pedaços de papel rasgados espalhados
pelo chão. Era o seu boletim.
No último semestre, Ryu havia ficado em terceiro lugar na
classe. Anteriormente, ele sempre ficava em segundo.
Sua classificação caiu porque um novo aluno havia se
transferido. O nome desse novo amigo era Marn.
Ele era um bom garoto — estudioso e esforçado.
Ryu juntou lentamente cada pedaço de papel rasgado em
suas mãos e subiu as escadas.
Seus olhos por trás das lentes transparentes estavam
vazios, desprovidos de qualquer luz.
Ele acabara de ser punido, gritado até seus ouvidos
zumbirem. Mas nada daquilo doía mais.
Parecia que... todo o seu corpo e coração tinham ficado
dormentes.
Não restava nenhuma parte dele que pudesse sentir dor.
E daí? Você vai me bater assim?
Vá em frente. Faça. É tudo o que você sempre faz...
Ryu arrastou os pés de volta para o seu quarto.
Lá fora, a chuva caía tão pesadamente que ele mal
conseguia ver qualquer coisa.
O céu estava completamente escuro, com trovões
roncando a cada poucos minutos, mascarando o som da cana
batendo dentro desta casa.
Não que alguém fosse ouvir algo mesmo sem a chuva; esta
casa era enorme, luxuosa, do tipo que qualquer um que
olhasse de fora sentiria inveja e sonharia em ter.
Ryu olhou ao redor do quarto. Cada canto estava repleto
de estantes de livros.
Sua mesa estava empilhada com livros didáticos mais
grossos que as próprias paredes.
Ele moveu lentamente seu corpo exausto para a mesa e
olhou para a lata de lixo abaixo dela.
Dentro havia bolas de papel higiênico manchadas de
vermelho, amassadas juntas.
Um pouco acima disso estavam analgésicos e remédios
para febre. Ao lado deles estavam seus cadernos, uma
calculadora e folhas de papel cheias de problemas de
simulados.
Ele havia estudado assim o dia e a noite inteira, sentado
com as costas rígidas, sem pausas, forçando-se ao limite — e
ainda assim os resultados não eram nada de que se orgulhar.
Terceiro lugar? O que ele poderia fazer com isso? Não
podia ostentar. Não podia deixar ninguém orgulhoso.
Nem a si mesmo.
Por que ele era tão burro? Tão inútil?
O que ele tinha que fazer para o pai ficar satisfeito?
Uma mão roçou a superfície da mesa. Ele congelou
quando uma gota cristalina atingiu as costas de sua mão.
No começo, foi apenas uma. Depois outra. E outra... até
que começaram a cair continuamente.
Neste quarto silencioso... até o choro tinha que ser
suprimido. Nenhum som escapava de sua garganta.
Ryu mordeu o próprio lábio até sangrar. O gosto metálico
o fez estremecer.
Ele tirou os óculos e os jogou sobre a mesa, então ficou
parado por quase dez minutos antes de pegar lentamente o
frasco de comprimidos à sua frente.
Basta...
Ele não queria mais isso.
A dor era o suficiente...
Ele despejou uma grande quantidade de comprimidos em
sua mão. Seus olhos vermelhos e inchados fixaram-se neles
com um olhar vazio.
Sua mente estava completamente nublada — incapaz de
pensar em nada. Exatamente quando ele estava prestes a
levantar a mão...
Beep!
Uma notificação de mensagem soou. Ryu congelou.
Então, ele pegou lentamente o telefone e o abriu com uma
expressão em branco.
Yingying: Ryuwww olha isso! Não se atreva a mandar
para ninguém!! É sério! Não! Mande! Para! Ninguém!
Yingying: Estou mostrando só para você!
Yingying: Enviou uma foto
Yingying: Enviou uma foto
Ryu parou.
A ponta do seu dedo tremeu ao tocar nas imagens. Ele
estava... surpreso.
Ele não esperava que fossem fotos da Ying usando
vestidos bonitos — alguns curtos, outros longos. Alguns
pareciam realmente fofos.
Normalmente, a Ying nunca usaria algo assim.
Fofa... Ela parecia realmente fofa.
Yingying: Rosa ou azul, qual você acha que fica mais
fofo?
Ryu não respondeu.
Ele apenas olhava para as fotos em meio às lágrimas.
Uma mão segurava o telefone; a outra ainda segurava o
punhado de comprimidos. Suas lágrimas continuavam caindo
incontrolavelmente, o peito apertado de tanto segurar os
soluços.
Ele estava tremendo tanto que mal conseguia ficar de pé.
Tudo o que sentia era simplesmente... demais.
Vrrr... Vrrr...
E então... a Ying ligou.
O corpo dele se moveu sem ouvir seus pensamentos.
Antes que percebesse, seu dedo já havia atendido a chamada.
— O que há com você? Eu disse para escolher. Rápido,
rosa ou azul? Qual vestido? Você leu, mas não respondeu. Ei!!
— ...
— Ryu? Alôôô? Você está no banheiro ou o quê? Me
responde. Qual deles é fofo?
— ... Rosa.
— Sério? Sério mesmo? Rosa?
— ... Mm.
— Embora o azul também seja legal. Ah, tanto faz, minha
mãe comprou eles. Ela quer que eu use um no casamento da
melhor amiga dela. Eu fiquei tipo O QUÊ, que merda! Eu? De
vestido?! Mas eu tive que aceitar porque ela disse que vai
pagar nossa viagem para a competição de música. Não é
ótimo? Assim podemos ir competir confortavelmente. Mas, em
troca, tenho que usar esse vestido estúpido por um dia.
Ahhh...
— ...
— Ryu, você está bem?
— Estou bem.
— Sua voz parece de quem estava chorando.
— ...
— Eu te disse para parar de ler esses mangás trágicos,
seu manteiga derretida. Você chora toda vez! Não pode ler um
shoujo fofinho pelo menos uma vez? Sua vida já é sombria o
suficiente.
— ... Mm.
— Ah, não chore. Está tudo bem. Eu compro frango frito
para você na frente da escola amanhã, ok?
— Ying.
— Hm?
— O vestido rosa é bonito. Use o rosa.
— Tem certeza? Não está mentindo?
— Quando foi que eu menti?
— Argh... honestamente, eu gosto um pouco do azul.
Rosa é doce demais. Mas tudo bem! Considere isso minha
forma de te consolar por estar chorando por causa do seu
mangá dramático de novo. Vou usar rosa, ok? Meu Deus, fica
tão estranho em mim. Como isso pode ser bonito? Eu pareço
ridícula.
— Você está bonita.
— Ryu...
— Você está fofa.
— Eca, que calafrios — o que você está dizendo? Louco.
— ...
— Bom, acho que você é a única pessoa no mundo que me
chamaria de bonita ou fofa. Qualquer outra pessoa me assaria
viva.
— ...
— Ryu? Você está bem?
Ryu não respondeu. Ele se afundou lentamente em sua
cadeira, olhando para a mão ainda cheia de comprimidos,
tentando ao máximo silenciar seus soluços. Lágrimas
escorriam por suas bochechas. Seu corpo todo tremia. Havia
tantas coisas que ele queria dizer, mas no fim... ele
permaneceu em silêncio.
Ele quase riu — Ying sempre conseguia fazê-lo atravessar
seus piores dias.
Ela sempre conseguia. Ela o salvava todas as vezes.
Apenas ouvir a voz alegre dela o fazia esquecer tudo o que
doía.
— Você está super triste? Que m*rda você estava lendo
afinal? Da próxima vez, não leia mais esse tipo de coisa. Mude
para outra coisa, ok?
— Ying.
— O quê??
— ...
— Diga alguma coisa quando chamar meu nome! Ei!!
— ...
— Ryu, não fique tão triste. Você ainda tem a mim. Ei,
quando a chuva parar, eu vou na sua casa, ok? Vou levar
escondido alguns mangás shoujo de criança para você ler
também. Podemos assistir desenhos juntos. Pronto, pronto.
Não chore. Eu até levo frango frito. Vamos comer e assistir
coisas divertidas, ok?
— ...
— Eu posso ir agora mesmo, se você quiser.
— ...
— Ryu? Não fique em silêncio comigo. Alô??
— Ying.
— Siim?
— ...Eu quero comer frango juntos.
— Viu? É só falar! Vou comprar agora. Posso estar na sua
casa em dez minutos.
— ... Amanhã. Está chovendo. Não quero você dirigindo
nisso. Está escuro.
— Droga. Você parece um sapo sendo atropelado. Por que
está chorando tanto? Hein?
— Triste... então eu chorei.
— Pronto, pronto. Está tudo bem. Não chore. Se você for
para a escola amanhã com os olhos inchados, as pessoas vão
notar, sabe.
— ...
— Pare de chorar logo, seu nerd de quatro olhos. Chorar
demais vai te dar dor de cabeça. Não chore, não chore. Vamos
lá, hup! Hup hup hup! Boom-boom-boom-pop! Haha!
— ...
— O que foi? Estou preocupada com você, sabia.
Ryu ficou sentado, olhando fixamente pela janela. Ele
olhou para o outro lado da rua — em direção à casa onde vivia
a pessoa com quem estava falando.
Seus lábios tremeram. Ele respirou fundo, então
finalmente relaxou a mão e deixou todos os comprimidos
caírem no lixo. Ele encostou a cabeça na mesa, ouvindo a voz
do outro lado tagarelando sobre isso e aquilo.
Ele fechou lentamente as pálpebras inchadas, exausto.
Minutos se passaram; o único som era sua respiração
silenciosa. A pessoa que estivera tagarelando sem parar ouviu
aquilo e suspirou em resignação. Ying secou o cabelo
enquanto falava ao telefone, então sentou-se lentamente na
cama com um pequeno sorriso.
— Mas o que... dormindo na chamada assim do nada. Seu
chorão. Chorando como se sua vida estivesse acabando por
causa de um mangá, sério? Não consigo acreditar em você.
— ...
— Ryu? Alôôô?
— ...
— O quê, você dormiu mesmo? Sério... Quando você
dormiu? Eu estive falando sozinha esse tempo todo. Droga.
Amanhã eu vou puxar sua orelha.
— ...
— Você não dormiu debruçado sobre a mesa de novo,
dormiu...? Se você vai dormir, pelo menos vá para a sua cama,
idiota.
— ...
— Pa-ra de cho-rar lo-go! Está me ouvindo, seu lerdo de
quatro olhos?
— ...
— Eu te pago frango frito amanhã, ok? Está combinado.
— ...
— Vejo você amanhã, Ryu.
— ...
— Espere por mim na frente da sua casa. Vou te buscar
cedo de manhã.
— ...
— Espero que você não chore de novo amanhã.
— ...
— Boa noite, Ryu...
16
— Que chato. Por que tem que chover todo santo dia
desse jeito?
— Bom, é época de chuva. O que tem de estranho nisso?
— Droga, eu odeio mesmo a temporada de chuvas.
— O céu está bem escuro hoje, né. A escola teve que
acender as luzes de todos os andares.
— Pois é. Nesse ritmo, a conta de luz durante o tempo de
chuva vai ser até mais alta do que no verão.
— Eu estava pensando a mesma coisa.
As vozes dos alunos zumbiam ruidosamente depois que a
tempestade da tarde arruinou completamente o clima de
estudo.
A chuva caía tão forte que era difícil se concentrar na
lição. O ar fresco que entrava na sala de aula era
estranhamente relaxante, embalando todo mundo no sono.
Um por um, os alunos começaram a bocejar. O professor
continuava ensinando, e os alunos continuavam cochilando —
algumas partes podiam ser ouvidas, outras não.
O céu estava sombrio desde cedo, mas ninguém esperava
que ficasse tão escuro a ponto de precisarem acender as luzes
só para conseguir estudar. Pouco depois da aula recomeçar, a
energia caiu de repente “vup!” seguido imediatamente por um
estrondo de trovão.
Os alunos que estavam quase dormindo, mordendo os
lábios distraidamente, deram um pulo, arregalando os olhos.
O som foi assustadoramente alto.
Com a falta de luz, as aulas tiveram que ser
interrompidas. Vendo que os alunos não conseguiam mais se
concentrar, o professor passou exercícios para eles fazerem
nos trinta minutos restantes. Se não terminassem, deveriam
levar para casa como tarefa e entregar no próximo encontro.
Nesses poucos minutos que sobraram, apenas algumas
pessoas realmente trabalharam. A maioria se debruçou sobre
as mesas, conversando ou tirando um cochilo.
Incluindo o amigo sentado ao lado de Marn agora. Mas,
parando para pensar... Than não tinha acabado de dormir. Ele
já estava debruçado fazia um bom tempo.
— Maaaarn, vem aqui um segundo.
— Hein?
— Vem aqui um momento.
Ying chamou em um sussurro, sinalizando para ele sair
da sala com ela. Marn assentiu e ia cutucar Than para
acordá-lo e levá-lo junto.
Assim que Ying viu isso, ela correu e segurou o braço de
Marn para impedi-lo, balançando a cabeça rapidamente.
Marn franziu a testa, confuso. Por que todo mundo estava
se reunindo para conversar lá fora, mas não chamavam o
Than? É... ou será que eles tinham algum segredo que não
podiam contar para ele? Na verdade, aquela era a primeira vez
que Marn fazia algo assim — sair de fininho para fofocar em
grupo.
Mas... será que Than se sentiria mal por eles estarem
cochichando secretamente sem ele?
— O que está acontecendo, Ying?
— Aqui.
Marn pegou uma folha de papel de Ying. Depois de dar
uma olhada no título, ele soltou um pequeno ah. Eram
informações sobre o recrutamento aberto e seleção para a
equipe nacional de natação. Marn inclinou a cabeça, confuso.
O que nadadores da seleção nacional tinham a ver com ele? Por
que tiveram que tirá-lo dali e agir com tanto mistério?
Vendo a expressão dele, Ying adivinhou o que ele estava
pensando e explicou na hora.
— No começo, a gente não tinha certeza se devia te contar
isso, porque, honestamente... é um assunto meio pessoal do
Than. Mas agora consideramos você um amigo. E quando um
amigo tem um problema, a gente não pode simplesmente fingir
que nada aconteceu, certo?
— O Than tem algum tipo de problema?
Ying apertou os lábios levemente e olhou para Hem e Ryu
com hesitação. Quando Ryu deu um aceno discreto, Ying
respirou fundo e começou.
— O sonho do Than é se tornar um nadador da seleção
nacional.
Assim que Marn ouviu aquilo, uma imagem de Than na
piscina veio imediatamente à sua mente. Marn ainda lembrava
claramente de como os olhos de Than pareciam opacos e
vazios naquela época.
Desde que o conheceu, embora Than costumasse manter
uma postura fria e parecesse perpetuamente ranzinza e
inacessível, Marn nunca o tinha visto parecer tão sem
esperança antes.
— Na verdade, a família inteira dele é de nadadores. O pai
dele era um atleta nacional e até competiu
internacionalmente, trazendo uma medalha de ouro para
casa.
— Uau... isso é incrível. Espera — então o professor Nathi
também...?
— Sim. Ele também era nadador da seleção.
Marn ficou de boca aberta. Ele não conseguia acreditar
que o professor de matemática deles tinha um histórico tão
impressionante.
No entanto, sempre que se encontravam, o Nathi nunca
falava nada sobre natação. Se ele realmente tivesse sido um
atleta nacional, não deveria ter se gabado pelo menos um
pouquinho? Ou talvez ele só não fosse do tipo que fica se
achando. Mas ainda assim, ser professor e nadador da seleção
ao mesmo tempo? Quando ele arrumava tempo para treinar?
Ele devia ser incrivelmente esforçado.
— Mas ele não é mais. Esse é o problema... ai, ai.
— O que aconteceu?
— O Nathi se machucou quando a gente estava no sétimo
ano. Isso deve ter sido há uns... cinco anos, eu acho. É, cinco
anos atrás. Ele fez uma cirurgia no ombro por causa de um
acidente. Depois disso, ele não pôde mais nadar.
— Sério... que pena.
Marn falou com sinceridade. Pelo que Ying descreveu, o
futuro de Nathi estava indo muito bem naquela época.
Aquele acidente deve ter destruído completamente o
sonho dele. Ele deve ter ficado arrasado na época.
— E depois daquilo... o Than nunca mais entrou em uma
piscina.
— Eu não quero entrar em todos os detalhes... só saiba
que aconteceu algo que fez o Than desistir da natação. Nós
três somos os que melhor conhecemos ele. No fundo, ele ainda
quer nadar. O sonho dele ainda está lá. Mas... ele tem medo de
voltar para a água.
— O Than pode parecer daquele jeito, mas o histórico dele
não é brincadeira. Ele era nadador juvenil e competiu em
muitos eventos importantes. Naquela época, a gente chamava
ele de sereia até ele colocar todo mundo em fila e dar um
esporro na gente.
Ying riu baixinho da lembrança de infância. Sempre que
viam o Than naquela época, ele estava encharcado. Com um
pai que foi atleta, as três crianças naturalmente se tornaram
atletas também, treinando desde pequenos. Ela o viu nadar
muitas vezes.
Honestamente, Than nasceu com um talento real. Mesmo
tão jovem, a habilidade dele na água era excepcional. Não era à
toa que ele já deteve o recorde número um do país na divisão
de natação juvenil. Aos onze anos, Than já recebia medalhas e
troféus, enquanto Ying e Hem ainda brincavam de pular corda
em casa. Aquele garoto... quando estava na água, parecia
verdadeiramente feliz.
— Ei, Sereia! Quer um lanche?
— Para de me chamar de sereia! Eu não sou uma sereia!
— Hahaha, Nathi, olha só — o Than não é uma sereia?
— O Than não é uma sereia. Não chame meu tubarãozinho
assim.
— Credo, que nojo! Tubarãozinho, tubarãozão — vão os
dois nadar logo! Vou me sentar com a Warin.
Até a própria Ying sentia falta daquele sorriso... mas não
se comparava ao quanto o Nathi devia sentir falta. Por isso ela
queria tentar, pelo menos uma vez. Ela queria trazer aquele
mesmo amigo de volta. Ying olhou para Marn. Ela não sabia
por que, mas sentia que ele poderia ser a esperança que todos
estavam esperando.
— Eu não sou próximo do Than, mas pelo que ouvi e por
conhecer a personalidade dele, não parece que ele aceitaria
nadar de novo tão fácil — disse Marn baixinho, pensando
profundamente.
Than era teimoso e tendia a não se importar com mais
ninguém. Mesmo que amasse profundamente a natação,
depois de abandoná-la por cinco anos — cinco anos inteiros —
alguém que aguentou tanto tempo provavelmente não
aceitaria simplesmente pular de volta na piscina e competir de
novo.
Ai... esse problema era muito difícil.
— Por que a gente não pede ajuda ao Nathi? Talvez ele
consiga encontrar um jeito melhor de ajudar. Afinal, o Than é
o irmão mais novo dele, né?
— Ai, ai... você mesmo viu, Marn. O Than evita o irmão
completamente. Eles até moram separados. O que o Nathi
poderia fazer de verdade?
— É verdade... o que exatamente aconteceu entre os dois?
Ying olhou para os outros dois. Ela não queria contar a
verdade inteira. Tinha medo que isso fizesse Marn pensar mal
do Than. Embora Marn fosse legal, ele ainda era um amigo
novo. Ainda havia um muro entre eles.
Além disso, esse tópico era sensível. Remexer demais
nisso não seria bom. Até o próprio Than não queria mais ouvir
falar do assunto. Se ele descobrisse que estavam falando disso
secretamente com o Marn, ficaria furioso. Ele poderia até se
afastar de todo mundo de vez.
Quando alguém como o Than ficava sério, não importava
o quanto amasse algo, ele conseguia abandonar sem hesitação
— exatamente como fez com a natação. Ele não entrava em
uma piscina havia cinco anos.
— Mas eu ainda acho que seria melhor se o Nathi pudesse
ajudar.
— ...
— O Nathi provavelmente entenderia os sentimentos do
irmão dele melhor do que ninguém. Todo mundo confiou em
mim o suficiente para vir pedir ajuda, mesmo eu conhecendo o
Than há pouco tempo. Então por que estamos ignorando o
Nathi? Deixar ele ajudar também não seria nada mau, né?
— Marn...
— A gente podia fazer o Nathi ajudar em segredo.
— Você está falando sério? Se o Than descobrir, ele vai
ficar furioso.
— Sim, mas eu acredito que o Than com certeza vai
entender por que fizemos isso.
— ...
— Depois de ouvir a Ying falar sobre isso, eu meio que
quero ver ele nadando também. Se o Than puder nadar de
novo, seria algo realmente incrível.
Marn sorriu abertamente ao dizer aquilo, sendo
completamente sincero. Os outros três amigos ficaram sem
palavras. A princípio, eles não tinham concordado em levar
isso ao Nathi — mas, no fim, só puderam assentir.
Os quatro saíram de fininho da sala de aula e foram direto
para a sala dos professores. Por sorte, o professor Nathi não
tinha aula naquele momento. Ying acenou freneticamente,
como se tivesse esquecido que o Nathi agora era o professor
deles — e não mais o líder da gangue da infância deles.
— O que é isso? Você arrastando o Marn para matar aula,
seus pirralhos?
— Ah, não! De jeito nenhum! A gente tem uma coisa
importante que quer te perguntar.
— Me perguntar uma coisa?
Nathi arqueou levemente uma sobrancelha e cruzou os
braços, esperando para ouvir o que os garotos tinham a dizer.
Ele era quase dez anos mais velho que eles — idade suficiente
para considerá-los como sobrinhos.
Vê-los assim o fazia pensar em si mesmo naquela época
também. Ele se perguntava o que esses pequenos bagunceiros
se tornariam daqui a dez anos.
Mas, pensando bem... o irmão mais novo dele não estava
ali. Claro. Ele já sabia bem disso. Than nunca viria pedir
conselhos.
— Aqui.
— O que é isso?
— Queremos que o Than compita de novo.
Nathi pegou a folha de papel e levou apenas alguns
segundos lendo antes de ficar paralisado. Ele soltou um longo
suspiro e se voltou para os jovens. O que fazia essas crianças
pensarem que poderiam convencer o Than a competir de
novo? Cada um deles o olhava com olhos cheios de esperança.
Nathi quase teve vontade de enxugar o suor da testa.
Assim, do nada, uma tarefa difícil tinha sido jogada direto nas
mãos dele.
Than não nadava havia cinco anos. O que poderia
possivelmente fazê-lo mudar de ideia e retornar ao esporte?
Ele realmente não conseguia pensar em nada. Aquele
garoto era teimoso além da conta. Extremamente egocêntrico.
Se ele dissesse não, era não — não importava o que fosse.
Forçá-lo só levaria à perda. Trapaças não funcionariam.
Persuasão parecia inútil.
Ai, ai...
— Não tem jeito mesmo?
— ...
— Nathi, a gente consegue mesmo fazer o Than nadar de
novo?
Tanto Hem quanto Marn olhavam para ele com
expectativa. Será que o Than sabia o quanto os amigos dele
estavam preocupados? Até um amigo novo como o Marn, que
tinha acabado de se aproximar dele, estava disposto a dar um
passo à frente assim.
Nathi ficou parado pensando por um longo momento
antes de finalmente soltar um sorriso fraco. Ele estendeu a
mão e deu tapinhas nos ombros dos seus dois alunos.
— Sim. Ele com certeza vai conseguir nadar de novo.
— Sério, professor?!
— Você disse agora, isso é uma promessa!
— Ei, que promessa eu estou fazendo, Ying?
— Não ouse voltar atrás! Estamos todos no mesmo barco
agora! Nosso plano tem que correr bem — nada de afundar!
— Ai... que exigentes.
— Mas você quer ver ele nadando de novo também, não
quer?
— ...
— Você não disse que era o tubarãozão? Agora mesmo
aquele tubarãozinho está prestes a se afogar e morrer. Você
vai mesmo deixar uma chance boa dessas passar?
Era verdade... a oportunidade estava bem na frente dele.
Deixá-la passar seria um desperdício.
Nathi não respondeu. Ele apenas manteve aquele sorriso
fraco e então encontrou os olhos de Marn.
Esse garoto novo parecia confiável. Havia determinação
em seu olhar. Parecia que esse menino poderia ser a
esperança e a força motriz do grupo.
Não importava o quão pesado fosse o problema, enquanto
Marn estivesse com eles, encontrariam uma saída. A
transferência de Marn para cá realmente foi um divisor de
águas para muitas coisas. E um golpe de sorte para esse grupo
de jovens.
— Com certeza. Eu tenho que ajudar o tubarãozinho.
— Credo, isso me deu arrepios. Não é à toa que o Than
não quer falar com você.
— Ei!
— Vamos lá, é hora da próxima aula. Precisamos correr
de volta.
— Ah — então com licença, professor.
— Sim. Estudem muito. Não passem o tempo todo
tramando.
— Entendido!
Os garotos se viraram e saíram correndo, deixando Nathi
parado ali segurando a folha de papel branca. Ele baixou o
olhar para ela brevemente e então chamou alguém. Quando o
menino olhou para trás, Nathi lhe deu um sorriso gentil.
— Marn.
— Sim?
— Estou confiando o Than a você.
— Certo. Vou cuidar bem dele. Não precisa se preocupar.
— Hmm.
— Vou ser um bom amigo para o Than. Eu prometo.
— Está prometido, então.
— Heh... embora eu não saiba se o Than quer ser meu
amigo ou não.
— ...
— É muito legal, não é? Ter irmãos que se importam um
com o outro desse jeito.
— ...
— P’Nathi, você é um irmão mais velho muito bom. O
Than deve ser muito feliz por ter alguém como você.
— Haha, você está me elogiando demais. Guarde isso
para as avaliações dos professores.
— Vou te dar nota máxima em todas as categorias,
senhor!
Assim que disse isso, o garoto se virou e correu atrás dos
amigos, deixando o professor de bom coração parado ali
sozinho, sorrindo e rindo baixinho.
Nathi caminhou de volta para a sala, suspirou e ficou
olhando distraidamente para o mesmo pedaço de papel,
relendo o título várias e várias vezes. A chuva lá fora parecia
estar diminuindo. A energia que tinha caído antes já havia
voltado.
Ele lentamente puxou a carteira e a abriu, olhando para a
fotografia dentro dela. Três crianças estavam lado a lado, o
mais novo no meio, com as bochechas espremidas enquanto
os dois mais velhos o beijavam. Era uma foto bem antiga —
tirada quando Nathi tinha quase metade do tamanho que
tinha agora.
— Nathi, a gente consegue mesmo fazer o Than nadar de
novo?
— Sim. Ele com certeza vai conseguir nadar de novo.
Ah... ele deixou aquela promessa escapar sem pensar.
Aqueles garotos deviam estar depositando as esperanças neles
agora. Nathi pegou o telefone e discou um número. Ele
esperou por muito tempo — quase o suficiente para desistir —
antes de finalmente ouvir um ruído do outro lado, seguido por
uma sequência de xingamentos sonolentos. Só de ouvir aquela
voz, ele sorriu imediatamente.
Tinha chovido forte o dia todo, o céu estava sombrio desde
cedo. Parece que pouca gente visitaria a famosa loja de leite de
soja esta noite.
— Que diabos você quer? Estou trabalhando.
— Por que você está tão bravo?
— Por que você está ligando só para me encher o saco? É
algo urgente? O quê — aconteceu alguma coisa com o Marn?
— Relaxa. Estou cuidando muito bem do seu sobrinho.
Nem mosquito chega perto dele.
— Se você ligou só para me irritar, pode desligar? Vou
dormir.
— Está quase na hora das crianças saírem da escola.
— Nathi.
— Hm?
— Estou com sono.
Pela voz, ele realmente parecia sonolento. Nathi quase
conseguia imaginá-lo debruçado em uma cadeira comprida,
franzindo a testa com o rosto todo bagunçado — exatamente
como o seu longo cabelo preto.
— Se a gente prometer algo que talvez não consiga
cumprir... tudo bem?
— Que tipo de pergunta estúpida é essa... você ligou só
para perguntar isso?
— Karn.
— ...
— Estou prestes a decidir a maior coisa da minha vida. Se
eu falhar desta vez... talvez nunca mais consiga recomeçar.
— ...
— Devo correr o risco e fazer isso?
— Se você já está pensando em fazer, significa que quer
fazer no fundo.
— ...
— Você nem tentou ainda e já está com esse medo todo —
isso não combina nada com você.
— Haha... é, você tem razão.
— Você consegue.
— Karn... você está me encorajando agora?
— Ter a chance de fazer algo já é uma coisa boa. É melhor
do que se arrepender depois.
— ...
— Se você ainda pode fazer agora, então faça.
— ...
— A expressão "próxima vez" não existe para todo mundo.
— Karn...
Nathi fechou os olhos levemente e soltou um longo
suspiro. Parecia que ele estava arrastando a outra pessoa para
uma conversa que ela não queria ter — mas ele já estava um
passo atrasado. A voz do outro lado o repreendeu por algumas
frases e terminou com um aviso sonolento para não ligar de
novo. Nathi só pôde assentir suavemente em resposta.
Realmente parecia que ele tinha ligado na hora errada.
— Então não vou mais te incomodar. Vou desligar agora e
voltar ao trabalho.
— Nathi.
— ...
— Faça o que você quiser fazer.
— ...
— Não quero que você se arrependa depois.
— Hmm. Obrigado. Vou começar agora mesmo.
— Tá.
— Karn.
— O que foi agora? Vou desligar.
— Estou com vontade de tomar leite de soja.
— Seu moleque... eu não vou vender hoje.
— Uaaaah...
— Para de me dar nos nervos já.
E assim, a ligação terminou.
Nathi balançou a cabeça suavemente. Depois daquela
conversa, era como se a névoa sombria tivesse se dissipado.
O som da chuva começou a sumir, então ele caminhou
até a janela e a abriu. A luz entrou — não estava mais escuro e
nublado como de manhã. As nuvens de chuva estavam
começando a se separar.
Depois de chover forte o dia todo, finalmente era hora do
sol brilhar plenamente. Então é assim que o céu fica bonito
depois da chuva.
Quando chegou a hora da saída, a escola se encheu de
conversas alegres. Nathi bocejou amplamente. Ele achou que
daria conta de mais um pouco de trabalho — terminar de
conferir as planilhas dos alunos — e depois iria para casa.
Ele não esperava que, enquanto trabalhava, alguém de
repente se agarrasse à porta e o chamasse. Quando ele se
virou, era aquele garoto, o Marn. Ele acenou cautelosamente,
claramente preocupado em não incomodar os outros
professores na sala.
— Hm? O que foi? Por que ainda não foi para casa?
— Eu queria falar sobre o plano, professor.
— Haha, vocês crianças são mesmo impacientes. Não
acabamos de falar sobre isso? Não me diga que você passou o
último período inteiro planejando em vez de estudar.
— N-não! Por favor, não brigue comigo ainda, P’Nathi. Eu
realmente prestei atenção... só falei um pouco com meus
amigos. Só um pouquinho, juro.
— Então, qual é esse plano?
— Meus amigos e eu vamos tentar nos inscrever no clube
de natação.
— Mas o período de inscrição terminou faz tempo.
— O Hem disse que tem um veterano que consegue
arrumar uma desculpa para nos deixar usar a piscina. Ele
disse que é possível, mas teríamos que pagar ao comitê da
piscina.
— Ah... entendi. Normalmente, pessoas de fora podem
usar, mas precisam pagar uma taxa diária ou mensal.
— É isso. Todo mundo acha que, se o Than tiver amigos
indo com ele, ele pode amolecer — como quando fomos à
cachoeira juntos. No começo ele recusou, mas no fim ele
aceitou.
— Um passeio na cachoeira? Ah... quem levou vocês para
a malandragem desta vez?
— Heh...
— Bom, se vocês já planejaram tudo, espero que funcione.
Quando você falar com o Than, vai precisar ser muito calmo, e
muito paciente. Você entende seu amigo, não entende?
— Sim, eu entendo. Vou fazer o meu melhor para falar
com ele. Não precisa se preocupar, P’Nathi.
— Mhm. Se for você, posso relaxar um pouco.
— Todo mundo está falando sério sobre ajudar o Than a
nadar de novo.
— ...
— Vou fazer tudo o que puder para ajudá-lo.
— Obrigado.
— De nada.
— Muito obrigado por cuidar tão bem dele.
Nathi sorriu ao olhar para o garoto à sua frente,
aplaudindo silenciosamente em seu coração. Que quantidade
incrível de energia positiva esse menino tinha — sorrisos
radiantes, emanando bondade. Qualquer um que o criasse
seria invejável. Ai... se ao menos ele pudesse ter outro irmão
mais novo como o Marn.
Aquele garoto tinha passado por tanta coisa — sem pais,
morando com um tio em um lugar desconhecido, tendo
pouquíssimos amigos. E mesmo assim ele ainda sorria tão
intensamente, genuinamente feliz. Um pacote de energia
positiva que todos amavam e admiravam. Marn era alguém
que realmente sabia como se amar — e por causa disso, os
outros o amavam também. Ele realmente era perfeito para ser
a felicidade de outra pessoa.
— Ah, P’Nathi?
— Sim? Você ainda não foi para casa?
— Agora pouco, o tio Karn me ligou.
— ...?
— O tio Karn disse que, se você quiser leite de soja, pode
passar lá em casa e pegar.
— ...
— Estou um pouco confuso. Choveu forte o dia todo, não
tem como ele estar vendendo hoje. Então por que ele ainda
está fervendo leite de soja...? É estranho.
— É porque um cliente fiel quer.
— Hein? Você é um cliente fiel? Eu não achei que você
passava lá com tanta frequência.
— Você é muito curioso, não é, baixinho? Vá em frente,
corra para casa e faça sua lição.
— Tudo bem então. Vou para casa agora, senhor. Não
esqueça de passar lá e pegar o leite de soja.
Marn disse alegremente, então ajeitou a mochila e seguiu
para casa, deixando o professor parado ali sozinho, sorrindo
para si mesmo.
Aquele garoto realmente não sabia de nada.
Ele era um cliente fiel desde o primeiríssimo dia em que a
loja abriu.
17
E então o fim de semana finalmente chegou.
Marn e seus amigos já tinham feito planos para irem
nadar juntos na escola. Eles realizaram uma reunião secreta
sem deixar que um amigo em particular soubesse: Than. O
motivo de terem falado pelas costas dele era porque o que
estavam prestes a fazer certamente deixaria Than irritado. Se
contassem diretamente, ele jamais cooperaria com facilidade.
Por isso, os quatro — Ying, Hem, Ryu e Marn — se
reuniram especialmente hoje. O objetivo deles era claro:
precisavam persuadir Than a ceder e aceitar ir nadar com eles.
Tudo por um único propósito: fazer Than nadar novamente.
— Eu não vou.
No fim, todo o esforço que dedicaram ao planejamento
secreto por dias mostrou sinais de fracasso. Os quatro foram
de bicicleta para convidar Than para nadar, mas ele os rejeitou
categoricamente. Por mais que implorassem, ele não cedeu.
Hem e Ying tentaram salvar a situação rapidamente,
querendo usar Marn como desculpa — mas devido à condição
atual de Marn, havia uma grande chance de os supervisores
da piscina não permitirem que ele entrasse na água. Eles
também não podiam alegar que estavam ensinando Marn a
nadar, já que todos os outros já sabiam nadar.
Eles podiam não ser tão bons quanto Than, mas eram
todos nadadores razoavelmente capazes.
Então... o que eles poderiam usar para persuadir Than
agora?
Marn ficou de lado, observando os dois amigos
convencerem Than a aceitar ir nadar com eles. Naturalmente,
Than recusou. Ele virou o rosto, prestes a voltar para seu
quarto, para se trancar lá dentro e escapar de todo aquele
caos, enquanto gritava com Hem e Ying para que o deixassem
em paz. Os gritos abafavam todo o resto. O olhar de Marn
vagou pelo ambiente.
Esta era a primeira vez que ele pisava dentro da casa de
Than. Uma das paredes estava coberta por fotografias
emolduradas, penduradas ordenadamente lado a lado. Ao
lado dela, havia um grande armário de exposição, repleto de
medalhas e troféus de competições de natação, junto com
inúmeros certificados de conquista.
Marn se aproximou, analisando cada foto uma por uma.
Ele sorriu ao ver uma imagem de três irmãos juntos.
O mais alto era provavelmente o P’Nathi. A menina devia
ser a irmã mais velha, e quem estava no meio com um sorriso
radiante era o caçula da família. Veja só como ele era muito
menor naquela época. A foto devia ter sido tirada há muito
tempo. Than parecia tão adorável naquela época.
E então havia aquele homem... ele devia ser o pai de Than.
Ele usava uma jaqueta esportiva, parecendo incrivelmente
legal, com uma medalha de ouro pendurada no pescoço. Um
filho pequeno estava montado em seus ombros, com as mãos
minúsculas agarrando sua cabeça, mas o pai sorria
abertamente.
Apenas ver aquela foto era o suficiente para saber quão
felizes as pessoas nela deviam estar.
A casa de Than parecia tão acolhedora. Marn nunca tinha
vivenciado nada parecido antes. No fundo, ele sentia um
pouco de inveja, mas também entendia que nem toda criança
tinha a sorte de ter uma família tão completa. Quanto a si
mesmo, desde pequeno, ele só tinha sua avó.
Sua mãe ficou com eles por apenas alguns anos antes de
falecer. Marn cresceu com apenas um membro da família —
sem pai, sem mãe, sem irmãos — apenas sua avó, que fazia
tudo. Durante todos aqueles anos, ela devia estar tão cansada.
Agora, ela devia estar dormindo pacificamente em algum
lugar. Marn estava contente por ela não ter mais que lutar.
Marn sentia vontade de agradecer à sua avó outras cem
mil vezes, mas mesmo isso não seria o suficiente. Ele tinha
muita sorte de ter nascido neto dela, de ter sido ensinado a
encontrar felicidade nas pequenas coisas ao seu redor. Que,
quando se está feliz, deve-se compartilhar, ser gentil e ajudar
os outros. Mesmo que, no fim, ninguém perceba seus esforços,
no mínimo ser uma pessoa gentil no dia ruim de alguém já é
bom o suficiente.
Por causa disso, sempre que sabia que um amigo estava
passando por dificuldades, Marn sentia ainda mais vontade de
estender a mão. Ele queria dar o seu melhor para fazer Than
feliz. Ele queria que Than finalmente soubesse como é bom rir
e sorrir livremente.
Em seguida, veio uma foto de Than flutuando em uma
piscina. Ele sorria largamente para a câmera, parecendo
brilhante e alegre — completamente diferente do Than que ele
conhecia. Então é assim... é assim que Than fica quando está
fazendo o que ama. Um olhar era o suficiente para saber quão
feliz aquele garoto era, deslizando pela água.
Marn começou a se perguntar por que Than tinha parado
de nadar, embora amasse tanto aquilo. A natação devia ser o
sonho dele. Por que ele o abandonou assim?
— Eu já disse que não vou. Parem de me amolar de uma
vez!
— Than!
Marn se voltou para os amigos. Parecia que Ying e Hem
não tinham tido sucesso com o plano deles. Quando
planejaram juntos, pensaram que seria mais fácil do que isso.
Como na vez em que todos viajaram juntos — Than não
tinha resistido em nada naquela época. Ninguém sabia por
que desta vez ele estava tão furioso, a ponto de querer evitar
todos e correr de volta para o quarto. Hem tentou segurá-lo,
mas foi inútil.
O caos só aumentava. Ryu, que estava parado em silêncio
antes, finalmente interveio para falar também.
Todos eles tentaram desesperadamente persuadir Than a
amolecer o coração, mas isso só piorou as coisas —
especialmente quando Ying acidentalmente soltou a coisa
mais importante.
— Nós só queremos que você volte a nadar de novo.
— ...
— Nós queremos o seu bem. Não queremos que você
perca uma oportunidade tão boa.
— Querem o meu bem? Eu por acaso pedi a ajuda de
vocês?!
— Than...
— Por que vocês têm que se meter em algo que não é da
conta de vocês?!
— ...
— Eu já disse para não se envolverem. Eu tomei minha
decisão. Não importa o que aconteça, não vou mudar de ideia.
— Mas a sua decisão está errada...
— Ying, quem é você para julgar se meus pensamentos
estão certos ou errados?
— Estamos preocupados com você!
— Se estivessem realmente preocupados, saberiam que
isso é algo que não deveriam mencionar para me deixar
desconfortável!
— ...
— Já chega.
— ...
— Vocês nunca vão entender como eu me sinto.
Ying parecia dividida, mas não havia como negar agora.
Than era inteligente — apenas um deslize na fala foi o
suficiente para ele entender tudo. O motivo de seus amigos
terem vindo hoje era a competição de natação que seria
realizada em alguns meses. Era uma seleção importante que
levaria ao sonho de Than. Todos sabiam o quanto Than queria
ser nadador.
O pai, o irmão mais velho e a irmã mais velha dele tinham
sido atletas nacionais. Than também já tivera esse sonho. Mas
devido a um incidente inesperado naquela época, ele se forçou
a abrir mão e nunca mais tocar no assunto.
Marn era o único que ainda não entendia a situação. Ele
ouviu Than gritando com todos, viu a mãe de Than sair para
impedi-lo, mas Than não tinha intenção de ouvir mais
ninguém. Quando a mãe tentou segurar seu braço, Than se
soltou e correu direto para fora de casa.
A casa inteira ficou em silêncio mais uma vez. Ying e Hem
fizeram uma saudação wai para pedir desculpas à mãe de
Than pelo transtorno que causaram. Marn caminhou
lentamente e fez o mesmo, oferecendo suas desculpas. Ele
encontrou o olhar da mulher de meia-idade.
A mãe de Than parecia profundamente triste, com os
olhos opacos e pesados. Suas mãos estavam levemente
entrelaçadas. Embora ela tenha forçado um sorriso fraco para
as crianças para confortá-las, isso não conseguia esconder
sua dor. Ela estava devastada pelo que tinha acontecido — ter
que ver seu filho mais novo se tornar distante e hostil assim. O
coração dela doía profundamente. Nenhuma mãe suportaria
ser olhada daquela forma pelo próprio filho.
Marn apertou os lábios, hesitando por um momento antes
de finalmente perguntar diretamente sobre o motivo principal
de Than resistir à natação de forma tão feroz.
Todos pareciam desanimados. Apenas a mãe de Than
ainda oferecia um sorriso fraco. Ela caminhou, pegou um
porta-retrato e o acariciou suavemente. Dentro havia uma foto
de família tirada há muito tempo. Enquanto contava a
história, o sorriso nunca saiu de seu rosto — mas era um
sorriso dolorosamente triste.
Marn ficou parado, ouvindo atentamente cada palavra.
Finalmente, ele entendeu o que realmente tinha acontecido —
por que Than tinha mudado tanto.
Than uma vez tinha causado acidentalmente um
ferimento no P'Nathi antes de uma grande competição.
Naquela época, o P'Nathi tinha sido selecionado para
representar a Tailândia em um evento internacional.
Infelizmente, o incidente aconteceu antes, forçando-o a
desistir e se recuperar em casa. Mesmo que muitos anos
tivessem se passado, a lesão continuava grave. Ele não podia
mais competir em nenhum evento.
Era por isso que Than se culpava o tempo todo. Ele
acreditava que era o motivo de seu irmão ter perdido o sonho.
Então, ele desistiu de se tornar nadador como uma forma de
se redimir com o irmão. Marn nunca imaginou que o professor
Nathi — tão gentil e alegre — carregasse um passado tão
trágico.
Mesmo após perder o próprio sonho, por que ele ainda
conseguia sorrir? Enquanto isso, seu irmão mais novo —
aquele que ainda tinha inúmeras oportunidades pela frente —
era quem mais sofria, incapaz de sorrir, incapaz de se perdoar.
Era como se, pelo resto da vida, ele acreditasse que existia
apenas para assumir a responsabilidade por seu erro.
— Marn, agora que você sabe de tudo isso... você sente
raiva do Than?
— Eu não tenho o direito de sentir raiva dele. E nem sei
por que eu deveria sentir raiva dele.
— ...
— Ele já está cheio de arrependimento. Ele já está
sofrendo pelo que aconteceu.
— ...
— E eu tenho certeza absoluta de que o P'Nathi não está
nem um pouco bravo com o Than.
— Com certeza. O P'Nathi ama o Than desde o dia em que
ele nasceu. Ele o criou com as próprias mãos, ficaram juntos
por tanto tempo. Não importa o quão grave tenha sido o erro,
ele ainda ama profundamente o irmão mais novo.
Ying falou enquanto soltava um longo suspiro. Ela
caminhou e se sentou em uma cadeira de madeira, então
gesticulou para que Ryu se sentasse ao lado dela.
Naquele momento, todos estavam preocupados com
Than, que tinha saído correndo daquele jeito — ninguém sabia
para onde ele poderia ter ido. A mãe de Than estava sentada
sozinha, triste, com as pontas dos dedos acariciando
suavemente a foto da família. Ying a observava com
preocupação, porque sabia que a mãe de Than sofria de
depressão.
Desde o acidente do P'Nathi, as relações familiares
tinham se tornado distantes. Então, não muito tempo depois,
o pai deles também faleceu. Tantas dificuldades se
acumularam que ela não aguentou mais e teve que largar o
emprego para focar na recuperação de sua saúde mental em
casa.
Levou muitos anos até que ela melhorasse
significativamente. Agora ela conseguia trabalhar e interagir
com os outros normalmente de novo — mas sempre que algo
reabria a ferida em seu coração, ela acabava sentada ali
sozinha, com os olhos vermelhos, exatamente assim.
— Ah... P'Nathi.
Depois de um tempo, a porta se abriu novamente. Era
Nathi, que tinha vindo para casa visitar a mãe. Ambas as suas
mãos estavam cheias de comida e itens de necessidade básica.
Ele pareceu um pouco assustado ao ver a casa cheia de jovens.
Ao olhar mais para dentro e notar sua mãe sentada ali
distraída, ele rapidamente largou tudo e foi até ela,
agachando-se lentamente na frente dela.
Ele gentilmente firmou o porta-retrato nas mãos dela.
Vendo a tristeza nos olhos dela, ele falou com ela em uma voz
suave e confortante. Os quatro adolescentes que ainda
estavam lá observavam com expressões solidárias.
— Então... vocês não iam levar o Than para nadar?
— É...
— Suspiro. Ele não aceitou ir, não é?
— É. Ele fugiu — Hem disse, fazendo um leve bico,
fazendo queixa para o P'Nathi de que o plano cuidadosamente
traçado tinha fracassado completamente.
— Marn, você já sabe de tudo, certo?
— É... sim. A mãe do P'Nathi me contou.
Nathi assentiu silenciosamente. Então ele se levantou
devagar para preparar água e remédio para sua mãe. Durante
esse tempo, ninguém disse uma palavra. Nathi percorreu o
quarto com o olhar.
Pelas expressões nos rostos dos jovens, ele podia sentir
claramente a tristeza deles, então curvou os lábios em um
sorriso fraco e tentou brincar em um tom animado, esperando
aliviar o clima. Esses adolescentes realmente não
combinavam com expressões tão sombrias. Mas não
importava o que ele dissesse, os quatro não pareciam
melhorar. Eles estavam preocupados com Than, preocupados
com os sentimentos da mãe dele, e se culpavam de todas as
formas por não terem pensado bem no plano e apenas terem
piorado as coisas.
Vendo isso, Nathi só pôde balançar a cabeça levemente.
— Eu nunca tive raiva do Than, sabem.
— ...
— Para ser sincero, estou muito feliz em saber que todos
vocês queriam ajudar o Than a voltar a nadar. Eu quero que
ele deixe tudo para trás e volte a fazer o que ama também.
— ...
— Mas se ele ainda não consegue se perdoar, então nada
vai mudar.
— ...
— Este assunto... o único que pode realmente resolvê-lo é
o próprio Than.
— Eu não acho que isso esteja totalmente certo, P'Nathi
— Marn disse.
— Por que não?
— Se continuar assim, ele só vai sentir que foi deixado
sozinho para lidar com tudo por conta própria. No fundo, acho
que ele ainda precisa de alguém que o entenda mais.
— ...
— A pessoa que pode consertar isso não é apenas o Than.
É o P'Nathi, o P'Nathi é quem pode ajudá-lo.
— Por que você acha que eu sou tão importante?
— O P'Nathi já sabe o quanto você é importante para o
Than.
— ...
— Porque a pessoa que melhor entende o Than é o
P'Nathi.
— ...
— Ele se sente incrivelmente culpado em relação a você.
— Mas ele está com medo de mim agora. Ele continua
fugindo. Eu nem sei como falar com ele.
— Ele não quer realmente fugir do P'Nathi — Marn disse
suavemente. — Talvez... o Than na verdade queira muito te
dar um abraço.
— É mesmo...?
— Para o Than, o P'Nathi é o irmão mais velho mais
incrível — Marn disse com certeza. — Tenho certeza de que ele
pensa assim.
— ...
— Se o P'Nathi ainda o quiser, então Marn e os outros
estão prontos para ajudar a trazê-lo de volta.
— Sim! Nós ajudaremos você e o Than a fazerem as pazes
e voltarem a ser como antes — Ying acrescentou.
Nathi parou por um instante. Ele olhou diretamente para
Marn novamente. Ele nunca imaginou que chegaria o dia em
que estaria sentado ali discutindo problemas familiares com
seu próprio aluno. Enquanto ouvia as palavras de Marn, cada
frase ressoava nele. Ele não pôde deixar de admirar aquele
garoto.
O próprio Marn tinha crescido enfrentando tantos
problemas, lidando com decepções e tristeza desde jovem — e
mesmo agora, ele ainda tinha que enfrentá-los. Ele lutou
contra tudo sozinho, mas cresceu tão bem, tornando-se uma
fonte de encorajamento e energia positiva para todos ao seu
redor.
Basta olhar para ele agora. Marn sorriu abertamente,
levantando ambos os polegares para animar o irmão mais
velho. Um problema familiar que estava envolto em sombras
por tanto tempo — hoje, finalmente, um raio de esperança
parecia brilhar através daquele sorriso.
Ele pensou a mesma coisa novamente... Than tinha muita
sorte de ter conhecido esse garoto.
Marn provavelmente não percebia o quão sortudos ele
fazia todos os outros se sentirem, simplesmente por
conhecê-lo.
— Mas ele já fugiu. O que devemos fazer agora?
— Eu sei para onde ele iria.
— Hm?
— Ah... eu não tenho certeza absoluta — Marn admitiu. —
Estou apenas chutando com base no que sinto.
— Haha.
Nathi riu e, por um momento, o calor retornou à casa. Ele
sempre foi o irmão mais velho que trazia felicidade para todos
na família — tanto no passado quanto agora. P'Nathi ainda era
o pilar insubstituível desta família.
Ele se voltou para a mãe, ajudando-a gentilmente a se
levantar da cadeira, preparando-se para levá-la para cima
para descansar em seu quarto. Enquanto ele a apoiava, a mão
quente de sua mãe subiu para tocar o rosto do filho. Os olhos
dela estavam vermelhos e úmidos enquanto olhava para ele,
falando com a voz trêmula.
— Você vai trazer seu irmão de volta para casa, certo, meu
filho?
— Sim. Não se preocupe, mãe.
— Diga a ele... que eu fiz comida para ele. Não fuja por
muito tempo. Se esfriar, não vai ficar gostoso.
— ...
— Diga a ele que a mãe está esperando.
Nathi assentiu em resposta. Então o sorriso dele surgiu —
um sorriso tão caloroso, exatamente como o de seu pai.
— Hoje à noite, jantaremos juntos, mãe.
Os quatro adolescentes que ainda esperavam observavam
em silêncio. Ying e Hem sentiram uma dor profunda em seus
corações. Eles conheciam essa família desde pequenos. Eles
tinham visto a felicidade que antes preenchia aquela casa,
ouvido as gargalhadas, brincado junto com os três irmãos e
compartilhado tantas alegrias e dificuldades.
Com o tempo, aquele lar outrora feliz tinha se
transformado em um espaço oco e vazio, preenchido apenas
por memórias desbotadas. Hoje, parecia que a família
finalmente encontrava a esperança há muito esperada.
A expressão de Nathi estava cheia de determinação. Ele
traria de volta o mesmo irmãozinho que conheceu um dia.
Ying, Hem, Ryu e Marn estavam todos mais do que dispostos a
ajudar com tudo o que tinham.
Todos partiram e chegaram ao local que Marn tinha
suposto. Não era longe dali — apenas uma grande lagoa perto
da vila. Eles pararam na beira da estrada, encarando as costas
de um garoto sentado sozinho, abraçando os joelhos.
O olhar dele estava fixo na vasta extensão de água à
frente. Não havia erro — aquele era Than. Assim que teve
certeza de que era seu irmão mais novo, Nathi se virou
lentamente para Marn com um olhar agradecido.
— Você é muito bom de palpite.
— Na verdade, eu já estive aqui antes — Marn disse. — Há
muito tempo, eu vi alguém aqui. No começo, não achei que
fosse ele. Mas quando parei para pensar... talvez aquela
pessoa fosse o Than. E era ele mesmo. Em um momento como
este... se eu fosse ele, acho que também gostaria de fugir para
um lugar assim.
— ...
— P'Nathi, você devia ir até ele — Marn disse gentilmente.
— Nós vamos esperar bem aqui.
— Hum. Obrigado.
— Por favor, traga ele de volta.
Nathi assentiu e então caminhou lentamente em direção
a Than.
Than não prestava a menor atenção ao que estava ao seu
redor, apenas permanecia ali, sentado, encarando fixamente o
lago à frente. O tempo não estava muito bom hoje; ao olhar
para cima, nuvens cinzentas preenchiam o céu. Afinal, era a
estação chuvosa; não havia muitos dias de sol.
Aquela atmosfera sombria deixava o coração das pessoas
pesado.
Nathi presumiu que seu irmãozinho teimoso devia estar
se sentindo tão melancólico por dentro quanto o clima. Ele se
aproximou e, devagar, agachou-se para sentar ao lado dele.
Foi quando Than finalmente percebeu sua presença. Ele levou
um susto, com os olhos arregalados pelo choque, e fez menção
de pular e fugir de novo, mas desta vez Nathi não deixou. Ele
segurou o pulso de Than e o puxou de volta para baixo.
Than ficou rígido. Fazia tanto tempo que os dois irmãos
não ficavam assim tão próximos. Normalmente, Than sempre
fugia. Nos últimos cinco anos, ele não tinha ficado perto do
irmão nem uma única vez.
— Sente-se.
— ...
— Vamos conversar um pouco.
Than evitou o olhar dele, claramente sem querer falar.
Seu braço ainda lutava fracamente, mas ele não ousava se
mover demais. Ele tremia levemente; se era de medo ou de
choque, era difícil dizer. Mas Nathi odiava de verdade ver o
irmão mais novo agir daquele jeito.
— Você realmente não quer falar comigo a esse ponto?
— ...
— Você passou a ter medo de mim agora? Than... para
você, eu não sou mais o seu irmão mais velho?
Ele pensava que Than já estivesse crescido. Agora ele era
um estudante do segundo ano do ensino médio; já deveria
estar mais forte.
Alguém como ele não deveria mais se abalar tão
facilmente por coisas do passado. Mas no momento em que viu
seu irmãozinho ser pressionado ao ponto de as lágrimas
brotarem em seus olhos, o coração de irmão mais velho
amoleceu completamente. Ele tinha pensado que usar uma
abordagem firme funcionaria, mas não funcionou nem um
pouco. Than ainda era aquela criança excessivamente
sensível.
Mesmo tendo crescido tanto, no momento em que seu
irmão usava um tom sério ou demonstrava uma expressão
grave, a mente de Than perdia o controle. A culpa do passado
ainda estava lá. Ele provavelmente tinha medo de deixar Nathi
zangado, medo de que um dia Nathi pudesse passar a odiá-lo.
Quando viu uma única lágrima cair, Nathi puxou
gentilmente o braço dele, convencendo Than a se sentar ao seu
lado. Embora Than ainda evitasse o contato visual e virasse o
rosto, o fato de ele aceitar se sentar daquele jeito já era um
primeiro passo muito bom.
— Por que você está chorando, hein? Eu nem te dei
bronca ainda.
O que era aquilo? Quanto mais ele o confortava, mais forte
Than chorava. Ficar ali fazendo carinho na cabeça dele só fazia
seus soluços piorarem. Será que ele estava confortando o irmão
do jeito certo?
De longe, os quatro garotos que observavam secretamente
viram Than ceder e trocaram hi-fives em silêncio para
comemorar. Até Ryu sorriu ao ver aquela leve felicidade
começando a cercar os dois irmãos. Than nem percebia o
quanto era invejável ter uma família tão calorosa.
— Sobre o plano que seus amigos bolaram...
honestamente, eu já sabia. E eu podia imaginar mais ou
menos o quanto você ficaria bravo.
— ...
— Mas você sabe por que eu não os impedi, mesmo
sabendo que você ficaria tão zangado assim?
— ...
— Porque eles querem que você seja feliz. Tudo o que eles
fizeram foi porque queriam ver o amigo deles feliz; queriam que
ele pudesse fazer o que ama sem estar mais preso ao passado.
— ...
— Than, me escute.
— ...
— Sobre tudo o que aconteceu naquela época, eu nunca
estive bravo com você. Eu nunca te odiei. Pelo contrário, eu
fiquei triste e lamentei profundamente que o que aconteceu
naquele dia tenha destruído os sonhos de nós dois. Se fosse só
o meu, já teria sido o suficiente, mas você deixou que isso
destruísse o seu sonho também. É isso o que realmente me
deixa triste.
— ...
— Eu não quero ver meu irmãozinho viver a vida inteira
carregando o peso da culpa desse jeito.
Than congelou por um momento e finalmente levantou a
cabeça para olhar para o irmão. Seus olhos estavam
vermelhos e úmidos, uma visão de dar pena. Nathi deu um
sorriso gentil e acariciou suavemente a cabeça dele. Than
soltava pequenos soluços de vez em quando.
Olhando para ele assim, era difícil acreditar que era um
adolescente; ele parecia aquele irmãozinho problemático que
tinha acabado de aprender a andar, que tropeçava, caía e
ficava ali sentado chorando e resmungando para o irmão mais
velho.
Naquela época, quando Than era menor, bastava ver as
lágrimas surgirem em seus olhos para Nathi pegá-lo no colo,
dar um tapinha no bumbum dele e levá-lo para comprar doces
para consolar. Os pais deles tinham lhe dado bronca tantas
vezes por mimar o irmão, dizendo que ele nunca o disciplinava
direito, mas Nathi sempre abria as asas para proteger Than.
O tempo realmente voava muito rápido. Havia tantas
coisas que ele deveria ter feito, mas nunca fez. Agora que
percebia isso, não sabia se já era tarde demais. Mas, ao
menos, ver Than amolecer daquela forma dizia a ele que, lá no
fundo, aquele irmãozinho problemático ainda estava lá; ele
não tinha ido a lugar nenhum.
— Ficar se culpando desse jeito é só perda de tempo.
Agora que você tem a chance, faça o que quiser. Não quero que
você fique aí sentado cheio de arrependimento mais tarde.
— ...
— Já faz cinco anos, hein... é muito tempo. Se você
estivesse fazendo o que ama todo esse tempo, o quão feliz você
teria sido?
— ...
— Sabe o que mais me dói? Não é a competição. Não é o
meu corpo. É você, Than. Eu sei o quão doloroso é perder um
sonho. Por isso eu nunca quis que você sentisse essa dor. Mas
eu não consegui impedir que você assumisse a
responsabilidade, tentando se redimir e se culpando
repetidamente até destruir seu próprio sonho também. É isso
o que mais me dói. Você não precisa mais se redimir comigo.
Realmente não precisa.
— ...
— Se você realmente se sente culpado... então me faça
feliz em vez disso.
Nathi parou de acariciar a cabeça dele e deixou a mão
descansar ali, balançando gentilmente a cabeça de Than para
um lado e para o outro. Ele manteve aquele sorriso suave no
rosto, embora tivesse sido o único a falar o tempo todo.
Than apenas continuava ali sentado em silêncio, sem
dizer uma palavra; não balançava a cabeça negativamente
nem assentia. Mas ver a suavidade nos olhos dele era o
suficiente para deixar Nathi feliz. Significava que Than estava
ouvindo e não estava mais resistindo.
No fim, ele não conseguiu mais se segurar. Puxou o irmão
mais novo para um abraço apertado, sentindo o tremor
causado pelos soluços dele. As lágrimas de Than ensopavam
sua camisa em círculos escuros, mas Nathi não se importava.
Ele o abraçou forte, balançando-o gentilmente enquanto
acariciava sua cabeça. Fazer isso sempre ajudava Than a
parar de chorar mais rápido.
Fazia tanto tempo que os dois irmãos não se abraçavam
daquele jeito.
— Eu vou ser a pessoa mais feliz, muito feliz mesmo,
quando vir meu pequeno tubarão de volta na água.
— ...
— Pode me prometer que vai parar de se machucar desse
jeito?
— ...
— Than.
— Irmão...
— ...
— Me desculpa.
— Eu também peço desculpas.
— Eu sinto muito mesmo...
— Eu já te disse que não estou bravo. Pare de chorar
agora, seus olhos já estão todos inchados.
— Hic...
— Você é um homem feito agora. Chorar desse jeito, como
isso pode ser aceitável?
— Você também está chorando...
— Haha...
— ...
— Abrimos uma exceção para pessoas bonitas.
Quando Than estava no último ano do ensino
fundamental, com cerca de onze ou doze anos, ele veio
correndo com uma medalha de uma competição de natação,
mais orgulhoso do que qualquer coisa no mundo. Ele tinha se
tornado o novo campeão, batendo o tempo recorde do ano
anterior por vários segundos. A família inteira ficou animada,
mas Than correu direto para o irmão primeiro.
Embora os pais estivessem por perto aplaudindo, ele os
ignorou, pulou, abraçou o pescoço do irmão com força e
chorou alto, dizendo que estava tão feliz por finalmente ter
alcançado o irmão por mais um passo.
Os olhos de Than naquele dia brilhavam mais do que
qualquer coisa, como se ele tivesse finalmente descoberto seu
sonho. Não era apenas sobre seguir os passos de seu pai e de
seus irmãos; era o sentimento de encontrar algo que ele
realmente amava, algo que ele queria fazer pela vida inteira.
No momento em que decidiu mergulhar na água, foi como se
tivesse encontrado a si mesmo.
Foi por isso que ver Than abandonar seu sonho por causa
dele doeu tanto em Nathi. Quem era ele para decidir o sonho
do irmão? Por que a vida de Than deveria ser afogada em culpa
para sempre? Era a vida de Than, o sonho de Than. O único
com o direito de decidir isso era o próprio Than.
Os dois irmãos ficaram ali sentados se abraçando e
chorando.
Para o grupo de garotos escondidos atrás das árvores, era
uma cena linda. Hem e Ying pularam e se abraçaram de
alegria. Ryu sorriu também, aliviado por ver os irmãos
finalmente se reconciliando. Ele se virou para olhar para Marn
em silêncio. Desde que esse novo amigo se transferiu, apenas
coisas boas tinham acontecido.
Ryu não era muito bom em se expressar. Ele estendeu a
mão e deu dois ou três tapinhas leves no ombro de Marn,
então sorriu. Marn se virou lentamente para olhá-lo.
— Obrigado, pelo bem do Than.
— Não foi nada. Eu não fiz muita coisa, na verdade.
Aqueles dois apenas tinham coisas presas em seus corações.
Eles só precisavam de uma chance para se abrir e conversar
honestamente por uma vez.
— ...
— Mesmo assim... obrigado. Ver um amigo feliz assim já é
o suficiente.
— Ryu...
— Ter uma família como essa... eu fico muito feliz por
ele...
— Você está bem?
— Não é nada. Sério. Olha, eles estão se levantando
agora.
Marn assentiu levemente, sentindo-se um pouco
surpreso com a expressão e o olhar de Ryu, mas não pensou
muito sobre isso. Ele se voltou para olhar os irmãos. Nathi se
levantou e estendeu a mão para Than, com a intenção de
ajudá-lo a ficar de pé. Mas vários momentos longos se
passaram e Than ainda não pegava a mão dele.
A torcida suspirou em uníssono, balançando a cabeça em
frustração.
— Qual é a dessa marra toda agora?! Só façam as pazes
direito logo, o que tem de tão difícil nisso!
— Ying! Por que você está gritando! Shh!
— Eu não aguento maaaaais! Para de se culpar logo,
Than! Seu irmão foi até aí para fazer as pazes com você! Se
você se sente tão culpado assim, então vira de costas e deixa o
P'Nathi chutar sua bunda com força só uma vez! Droga, já está
chovendo! Rápido, façam as pazes e vamos logo para casa!
Você não tem medo de trovão ou de chuva nem um pouco,
hein?!
O grito de Ying ecoou de longe, fazendo os dois irmãos se
virarem ao mesmo tempo. Nathi soltou uma risada quando viu
o grupo de garotos escondidos atrás das árvores. Ying
continuava berrando com as mãos em concha na boca,
enquanto Hem, ao lado dela, tentava cobrir a boca dela para
fazê-la parar. Ryu continuava quieto, sorrindo para os irmãos.
Quanto a Marn, o novo amigo, ele estava olhando para lá,
fazendo sinal de positivo com os dois polegares para eles.
— Você tem amigos muito bons — Nathi disse baixinho,
acariciando a cabeça do irmão mais novo e acenando na
direção deles. — Não esqueça de pedir desculpas e agradecer a
eles também.
Than se recusou a encará-lo, virando o rosto em vez disso.
Ele provavelmente estava se sentindo completamente
envergonhado; chorando como um bebê, agarrado com força
ao irmão. Ele já era adulto; fazer algo assim na frente dos
amigos parecia realmente humilhante.
— O que foi, ainda está tentando se fazer de durão mesmo
agora, seu pirralho?
— ...
— Vamos, vamos para casa. A mãe está esperando. Ela
disse que fez muita comida hoje. A Warin também vai.
— A P'Warin também vem?
— Meu tubarão branco finalmente concordou em voltar
para a água; como poderíamos não comemorar?
— Eu nem disse que vou competir ainda.
— Mas você vai?
— ...
— Onde foi que você aprendeu essa atitude teimosa de
cara legal...?
— ...
— Vamos, vamos para casa. Está chovendo.
— Hum.
— Vamos comer juntos hoje.
— Hum.
— Nada de fugir de novo. Se você fizer isso, eu vou chutar
sua bunda de verdade.
— Hum.
— A mãe está esperando.
— ...
— O pai... provavelmente está esperando também.
— ...
— Vamos para casa.
Nathi estendeu a mão, esperando que Than a pegasse.
Minutos se passaram enquanto a chuva ficava mais forte. Ele
estava quase desistindo e recolhendo a mão quando, de
repente, Than parou de ser teimoso e rapidamente agarrou a
mão do irmão com força.
Nathi mal conseguia conter o sorriso. Ele não tinha ideia
de onde Than tinha tirado esse hábito de dizer uma coisa
enquanto sentia outra; ninguém mais na família era assim.
Realmente o filho mais novo problemático.
Estranhamente, embora a chuva estivesse caindo e o céu
estivesse escuro e sombrio, o coração de Nathi parecia mais
radiante do que nunca. Não havia necessidade de luz solar
vinda de lugar nenhum; o calor parecia fluir diretamente de
seu coração e da mão esquerda que segurava a do seu irmão.
— Já ouviu a música Baby Shark? Quer que eu cante
para você?
— Não.
— Ah, vamos lá, só um pouquinho.
— Eu já disse que não vou ouvir.
— Ei, você realmente ainda está fazendo cena com o seu
irmão?
— ...
— Baby sha...
— Eu já disse que não estou ouvindo!
— O que tem de errado com o meu tubarãozinho? Por que
você é tão ranzinza?
— Para de me chamar assim.
— Tenho novidades para você: todo mundo já sabe que
esse é o seu apelido.
— Irmão...
— Até o Marn sabe.
— Por que você contou para ele?!
— Ficou com vergonha? Tubarãozinho, tubarãozão... é
fofo. E a Warin é o golfinho. Fofo também.
— ...
— O Marn até disse que tubarãozinho é muito bonitinho.
— ...
— Opa, suas orelhas estão vermelhas.
— Já chega disso!
— Ei, não foge não!
A voz barulhenta de Nathi abafava todo o resto. De onde
estava, Marn observava os irmãos se aproximarem
novamente, sentindo-se feliz junto com eles. Than tinha
irmãos, tinha uma família calorosa. Era exatamente por isso
que ele não queria que Than perdesse o que tinha.
Marn sentia-se grato por sua própria coragem, por ter
escolhido ajudar esses dois irmãos. Finalmente, eles não
precisavam mais viver presos pela culpa do passado. Nathi
tinha seu irmãozinho de volta em seus braços. Than não
precisava mais se forçar a abandonar seu sonho.
De agora em diante, ele esperava que ambos fossem mais
felizes do que nunca, passando tempo juntos para compensar
os cinco anos que haviam passado sem sentido.
Finalmente... o tubarãozinho e o tubarãozão, que antes
estavam separados, foram capazes de nadar de volta um para
o outro novamente.
18
— Than?
Marn levantou o olhar do saco de leite de soja, encarando
o novo cliente que acabara de chegar. O garoto estacionou a
bicicleta devagar ao lado da barraca. Não era comum eles se
encontrarem de manhã cedo assim. Than nunca vinha
comprar leite de soja pela manhã, apesar de morarem na
mesma viela. Se fosse o Nathi, seria diferente — mas hoje
estava estranho.
Marn vendia leite de soja com o Tio Karn quase todas as
manhãs. Aquela era a primeira vez que Than passava por lá.
Normalmente, ele mal o via — que dirá parado na frente da
barraca; até vê-lo passar de bicicleta era raro.
— Ué? Você vai tomar leite de soja, Than?
— Por quê, não posso?
Marn piscou, completamente confuso, e assentiu
automaticamente enquanto suas mãos se moviam com
habilidade para preparar o pedido. Hoje, o pequeno vendedor
cuidava de tudo sozinho, enquanto o verdadeiro dono
descansava sentado atrás da barraca com os braços cruzados.
Tio Karn confiava plenamente em Marn — não tinha medo de
que ele pegasse dinheiro escondido para comprar lanches. Ele
sabia exatamente que garoto bom ele era.
Os clientes frequentes também já estavam familiarizados
com Marn. Esse ajudante era muito mais legal que o patrão —
sorriso doce, voz agradável. Ele até atraía novos clientes. Todo
mundo gostava de comprar leite de soja com esse jovem
vendedor.
— Você não tem que correr para chegar na escola?
— Eu ajudo o Tio Karn a vender toda manhã. Quando está
quase na hora, vou de bicicleta para a escola.
— Você não tem medo de se atrasar?
— Hehe. Não vou me atrasar. Eu conheço o horário.
— ...
— Aqui está, Than. Sem açúcar. Dez baht. — Marn
entregou o saco com uma voz animada.
Outros clientes chegaram, não deixando mais tempo para
Marn dar atenção ao Than. Depois que Than pagou, Marn se
virou para atender os próximos clientes. Alguns pediam
palitos de massa frita também — um café da manhã rápido
para quem estava sem tempo. Além de adultos que
trabalhavam, estudantes das redondezas também apareciam
regularmente.
Quando o movimento finalmente diminuiu, Marn
guardou as coisas e começou a tirar o avental. Mas, quando
ele se virou e viu Than ainda parado perto da barraca, soltou
um suspiro de surpresa.
— Você ainda não foi para a escola, Than?!
— Já está quase na hora.
— Então por que você está aí parado? Você devia ir para a
escola primeiro. Vou vender só mais um pouco e já te alcanço.
— ...
— Você está me esperando?
— Não estou esperando.
— Mas está na cara que está...
Marn fez um bico e resmungou baixinho, sem conseguir
entender muito bem o comportamento de Than naquela
manhã. Mesmo assim, não fez um grande alvoroço por causa
disso. Ele se virou e cutucou levemente o Tio Karn para
acordá-lo, avisando que estava indo para a escola. Tio Karn
assentiu em resposta sem dizer uma única palavra. Marn
juntou as palmas das mãos em um wai para se despedir,
depois jogou sua mochila preta no ombro, deixando de lado
seu papel de vendedor e voltando a ser um estudante mais
uma vez.
Ele pedalou sua bicicleta pelo caminho familiar até a
escola, ocasionalmente dando olhadas furtivas para a outra
bicicleta que rodava silenciosamente ao seu lado. Ele
realmente não tinha ideia do que estava acontecendo com
Than hoje — por que ele estava grudado nele desse jeito?
Quando chegaram à escola, faltavam menos de vinte
minutos para a assembleia matinal. Marn se juntou ao resto
do seu grupo, cumprimentando-os com seu sorriso de sempre.
Todos acenaram de volta. Mas, quando notaram alguém
caminhando logo atrás de Marn, o grupo franziu a testa em
uníssono.
— Ei, Than. Você veio com o Marn hoje?
Than não respondeu. Quando viu Marn se sentar em uma
das mesas de pedra, ele ajeitou a mochila no ombro e o seguiu,
sentando-se ao lado dele. Só aquilo já causou bastante
confusão entre todos. Hem chegou a dar uma cotovelada de
leve em Ryu, intrigado com o motivo de Than parecer tão
diferente hoje.
Talvez tivesse algo a ver com o que aconteceu alguns dias
atrás, quando todos trabalharam juntos para pressionar os
dois irmãos a se confrontarem e resolverem as coisas. No fim,
Than finalmente baixou um pouco a guarda. Ele não saía mais
correndo do irmão em velocidade máxima. Quando chegava a
aula de matemática, ele ficava na sala em vez de escapar lá
para fora.
Mesmo assim, parecia que Than ainda mantinha uma
barreira contra o P'Nathi. Ele ainda não ousava olhá-lo nos
olhos, não ousava falar com ele, não ousava chegar perto.
Muitas vezes, quando P'Nathi caminhava para
cumprimentá-lo, Than desviava o olhar e recuava um passo.
Era uma pena. Antigamente, aqueles dois tinham sido uma
dupla de irmãos tão fofa. Mas, depois de cinco anos de
distância, provavelmente seria impossível para eles se
reconectarem completamente tão cedo. Isso levaria um bom
tempo.
Ainda assim, pelo menos o fato de Than estar amolecendo
com o P'Nathi já era um sinal muito bom. Se até os amigos
estavam felizes assim — era difícil imaginar o quão aliviada e
alegre a família de Than devia se sentir.
Marn sorriu para si mesmo quando pegou Than
assistindo secretamente a vídeos de competições de natação
no celular. Por mais discreto que tentasse ser, ele não
conseguia escapar dos olhos de Marn. Quando Than percebeu
que estava sendo observado, guardou o celular rapidamente e
virou o rosto para outro lado, fingindo que nada tinha
acontecido.
Marn sabia bem — lá no fundo, Than ainda queria aquilo.
Ele ainda tinha um sonho. Ele ainda queria ser um nadador,
exatamente como seu pai e seus dois irmãos mais velhos. Mas
tudo o que tinha acontecido roubou sua confiança,
substituindo-a pelo medo. Marn só podia esperar que, de
agora em diante, Than se tornasse mais corajoso —
começando por assistir a clipes curtos, até eventualmente
tentar entrar na piscina de novo, permitindo-se voltar ao
caminho dos seus sonhos. Marn tinha certeza de que Than
podia se tornar mais forte do que isso.
Após a assembleia, Marn e seus amigos subiram para a
sala de aula e ocuparam seus lugares. O ar da manhã estava
fresco e límpido. Marn sentou-se em silêncio, prestando
atenção. Quando o professor mandava fazer algo, ele fazia.
Quando o professor fazia uma pergunta, ele levantava a mão
para responder. Ele se concentrava em escrever em seu
caderno, resolvendo os exercícios com dedicação. Sempre que
não entendia algo, coçava a cabeça de leve.
A aula de hoje era física. Enquanto Marn lia o problema à
sua frente, sentiu-se confuso — ele não estava entendendo
muito bem. Decidiu perguntar para a pessoa ao seu lado.
Than era o primeiro da classe, então com certeza entenderia.
O que Marn não esperava era que, ao levantar a cabeça
para perguntar, encontrasse Than já apoiando o queixo na
mão, olhando diretamente para ele. Marn não tinha percebido
de jeito nenhum que estava sob o olhar de Than. Há quanto
tempo Than estaria observando ele?
— Than, eu não entendo esse problema.
— Qual deles?
— Esse aqui. Você entende?
— ...
— Ei — essa parte aqui, eu não entendo. Vou explicar o
que estou pensando primeiro, tá? Acho que temos que calcular
a distância de ida e volta também, porque a pergunta pede...
A voz alegre de Marn ecoou. Hem, sentado não muito
longe dali, largou a caneta e virou o rosto devagar para olhar,
erguendo levemente uma sobrancelha. Marn movimentava os
lábios sem parar, explicando a parte que não entendia
enquanto pedia conselhos ao melhor aluno ao seu lado. O
rosto dele estava cheio de pontos de interrogação.
Than, por outro lado, apenas ficou sentado ali em
silêncio, sem dar resposta nenhuma. Apoiando o queixo na
mão, ele observava Marn falar animadamente com uma
expressão ilegível, os olhos fixos no novo amigo sem piscar.
Marn fez dez perguntas. Than apenas observava — sem nunca
responder.
— Than, você poderia me dizer?
— Estou perguntando só um pouquinho. Por favor,
explica para mim.
— ...
— Tudo bem... não pergunto mais.
Marn pareceu desanimado, falou baixinho e estava
prestes a puxar seu caderno de exercícios de volta — mas
Than o segurou primeiro.
— Ele sai, depois volta, mas a distância não é a mesma.
Está vendo?
— Hum. Por isso achei que tínhamos que calcular a
distância também — mas não entendo o que fazer depois.
— Me dá aqui.
Than pegou a caneta da mão de Marn e começou a
explicar o que estava deixando Marn confuso. Marn assentia
repetidamente, escutando com atenção e absorvendo cada
detalhe.
Than aceitar ensinar alguém era praticamente um
milagre. Hem ficou boquiaberto de choque — ele nunca teria
imaginado que Than pudesse ser tão gentil. Antes, Hem
praticamente tinha que implorar só para fazer Than explicar
alguma coisa. E, se Hem respondesse algo estúpido, Than
dava um fora nele. Perguntasse a mesma coisa duas vezes, e
Than olhava como se quisesse matar alguém. Nada nunca
estava certo.
Mas olhe só agora, Than estava explicando tudo
pacientemente para o Marn. Onde quer que Marn não
entendesse, Than explicava tudo. Sem bronca. Sem insultos.
Nem um sinal de irritação.
— Muito obrigado! Agora eu entendi.
— Hum.
— Than, você é incrível. Sério.
Marn o elogiou com um sorriso, depois baixou a cabeça e
continuou trabalhando em seus exercícios, deixando Than
sentado ali, observando-o com uma expressão calma. Os olhos
dele eram difíceis de ler — ninguém sabia o que passava pela
mente de Than.
Depois de física, veio matemática com o Professor Nathi.
Duas matérias com cálculos pesados preencheram a manhã
inteira. Marn massageou as têmporas quando a nova lição de
matemática começou. Ele respirou fundo para se acalmar e
então se concentrou na explicação de Nathi. Qualquer coisa
que não entendesse, ele anotava com pequenos asteriscos
para poder perguntar depois da aula.
Durante toda a aula, Marn ocasionalmente observava a
expressão do professor. Nathi parecia genuinamente feliz em
ver seu irmão mais novo na sala de aula. Normalmente, Than o
evitava a todo custo — ou matava aula ou enterrava o rosto
nos braços, evitando contato visual, recusando-se a responder
mesmo quando seu nome era chamado. Than realmente era
um aluno problemático.
Marn sentiu alguém o observando de novo. Ele desviou o
olhar do quadro e olhou para Than. Ficou surpreso ao ver
Than encarando-o mais uma vez. A expressão dele continuava
plana e sem emoção, como sempre — mas havia algo em seus
olhos que parecia diferente, algo estranho comparado a todos
os outros dias.
Than estava agindo de forma estranha desde manhã.
Talvez algo estivesse incomodando-o. Marn sentiu uma
pontada de preocupação e perguntou gentilmente:
— Than, você está bem?
— ...
— Preste atenção na aula do P'Nathi. Ele está olhando
para você também. Ele deve estar muito feliz que você está
estudando.
— ...
— Than, para de olhar para mim. P'Nathi pode te dar
bronca.
— ...
— Than... olha para o professor.
Marn não tinha ideia do que havia de errado com seu
amigo hoje. Tudo o que pôde fazer foi se virar de volta e dar ao
Professor Nathi um sorriso sem jeito. Than ainda parecia
teimoso — relutante em se reconciliar facilmente,
provavelmente nem ousando olhar para o rosto do irmão
ainda.
Quando Marn percebeu o sorriso discreto que P'Nathi
enviou na direção deles, sentiu uma pontada de tristeza.
P'Nathi devia estar muito magoado — seu irmão mais novo
nem sequer o reconhecia.
— Than.
— ...
— Você poderia ir resolver o problema comigo?
— ...
— Por favor?
Se ele queria ajudar a consertar o laço entre os irmãos,
aquele talvez fosse o único jeito que Marn conseguia pensar
agora — pelo menos para fazê-los conversar, nem que fosse
um pouco.
O Professor Nathi terminou de escrever o problema no
quadro e pediu voluntários. Ninguém levantou a mão. No fim,
ele apontou aleatoriamente e caiu no Marn. Marn decidiu
arrastar o aluno mais inteligente da classe junto como
garantia de que a resposta estaria correta.
O Professor Nathi recuou, encostando-se na mesa com os
braços cruzados, observando os alunos trabalharem juntos —
especialmente seu próprio irmão mais novo, que estava logo
atrás de Marn.
Than ficou parado, com os olhos baixos em direção ao
garoto menor à sua frente. Depois de escrever apenas algumas
linhas, Marn parou, levantou o olhar e encarou Than com
olhos questionadores.
— Than, você consegue fazer o resto? Eu só consigo
resolver até aqui.
— Tá bom.
— Obrigado por vir me ajudar.
— Hum.
— Than está muito gentil hoje.
Quando você agradece a alguém sinceramente, deve fazer
isso com um sorriso. Então Marn sorriu abertamente, com os
olhos semicerrados, enviando aquele sorriso para Than — ele
estava realmente grato.
Hoje, Than estava mais gentil que o normal. Desde a aula
anterior, Than o ajudara, e agora nesta aula ele continuava
sendo gentil e ajudando de novo. Nesse ritmo, Marn imaginou
que teria que comprar alguns lanches gostosos para o Than
durante o almoço.
Então é essa a sensação de ter bons amigos — amigos que
se ajudam o tempo todo. Marn tinha acabado de fazer amigos,
acabara de vivenciar algo assim pela primeira vez. Ele tinha
ficado sozinho e solitário por tanto tempo. Quando finalmente
se tornou parte de um grande grupo de amigos, sentiu-se
estranhamente como uma criança animada com um presente
novo.
Depois de ficar sentado em sua mesa por um tempo, Marn
notou que Than tinha ficado quieto. Than estava
completamente imóvel. Ele não estava mais olhando para
Marn; em vez disso, apoiava o queixo na mão, cobrindo
parcialmente a boca, virando o rosto para o outro lado.
Marn levantou a cabeça para olhar para o amigo
novamente, parando a mão que escrevia as respostas.
— Você quer trocar de lugar, Than?
— ...
— Você está sentado perto da janela. Ficar sentado no sol
por tanto tempo deve ser muito quente, né?
— ...
— Olha.
— ...
— Suas orelhas estão completamente vermelhas.
Marn não sabia se tinha dito algo errado, mas no
momento em que terminou de falar, Than escalou a janela e
pulou direto para fora da sala de aula.
A sala inteira explodiu em caos. O professor só conseguia
suspirar, enquanto o aluno novo balançava a cabeça
freneticamente, insistindo que não fazia ideia do que estava
acontecendo. Ele não tinha feito nada; Than simplesmente
saltou do nada por conta própria. Marn era inocente!
Ele achou que Than finalmente estava começando a se
dar bem com todo mundo. Então, por que ele ainda fugia
daquele jeito?
Ahhh... Than, sinceramente. Por que você é tão difícil de
entender?
— Marn.
— Hm?
— Vem aqui um segundo.
— O que foi, Hem?
— Você fez alguma coisa com o Than ou o quê? Ele está
agindo de um jeito muito estranho hoje. Não consigo entender
o que passa na cabeça dele.
— Eu também acho que ele está estranho.
— Não é?!
— ...
— Mas... acho que o Than é só meio difícil de entender
mesmo. Eu nunca entendi direito as coisas que ele fazia desde
o começo, então imaginei que talvez não fosse tão estranho
assim... eu acho.
— Argh.
Marn soltou uma risada seca, sem saber como responder.
Durante o intervalo do almoço, Hem de repente o puxou de
lado para conversar sobre o Than — só os dois. Marn se
agachou ao lado dele.
Dois adolescentes sentados juntos sob a sombra de uma
árvore, se escondendo do sol. Hem segurava uma barra de
chocolate, enquanto Marn tinha um pacotinho de lanches.
Eles descansavam ali, observando o campo de esportes verde à
frente. Mesmo com esse calor, alguns alunos ainda corriam
sob o sol. O que será que tinham na cabeça, jogando futebol
numa hora dessas? Não estavam com calor? Iriam ficar todos
suados e desconfortáveis — como iam aguentar as aulas da
tarde daquele jeito?
— Ah, verdade, quase esqueci. Hem, você vai participar do
concurso de teatro logo, né? Boa sorte. Você deve estar
praticando muito ultimamente.
Hem travou por um momento antes de sorrir devagar. Ele
balançou a cabeça suavemente e disse honestamente que não
era mais o representante para a competição. Não só isso — ele
já tinha saído do clube de teatro de vez.
Os olhos de Marn se arregalaram em choque. Ele não
fazia ideia de que Hem tinha desistido da competição e deixado
o clube.
— O que aconteceu, Hem? Por que você saiu? Você ama
tanto atuar, não ama?
— Tive um probleminha com uns veteranos. Esquece
isso.
— Foi tão sério assim?
— Bom... ficar lá teria sido impossível. Eu abri o bico e
insultei eles bem feio.
— Você não se arrepende...?
— Claro que me arrependo. Mas o que eu posso fazer?
— ...
— Qual é. Foi só uma oportunidade. Um clube é apenas
um grupo pequeno fazendo coisas pequenas juntos. Ainda tem
um monte de outras coisas para tentar. Se eu realmente
quiser entrar na indústria do entretenimento, existem muitos
outros caminhos, né?
— ...
— Por que você está com essa cara tão desanimada, hein?
Não fica pensando demais por mim, Marn. Para de se
preocupar. Eu estou totalmente bem.
— Eu só acho uma pena. Eu queria muito que você
competisse. Estava torcendo por você de todo o coração.
Hem se virou para olhar para o amigo e viu a sinceridade
nos olhos de Marn e seu pequeno punho cerrado. Um sorriso
leve apareceu imediatamente em seu rosto.
— Valeu por me apoiar.
— Eu sempre vou dar cobertura para os meus amigos. Se
tiver qualquer coisa que você queira que eu ajude, é só falar.
— Haha, sério mesmo.
— ...?
— Eu meio que entendo agora por que o Than ficou tão
doido.
— Hã?
— Deixa para lá. Não pensa muito nisso. Não importa o
que aconteça, eu vou me tornar o ator número um da
Tailândia.
— Com certeza você vai conseguir!
— Uma coisa fútil dessas não pode me parar. Meu sonho é
muito maior que isso.
— Você é incrível, Hem.
Marn sorriu abertamente, sentindo um orgulho imenso
do amigo. Hem foi o primeiro amigo que fez Marn sentir de
verdade o que significava levar a sério a busca por um sonho.
Quando alguém ama algo de verdade, os olhos brilham desse
jeito quando fala sobre o assunto. Hem falava sem parar, cheio
de empolgação, claramente orgulhoso do que estava se
esforçando para se tornar.
Marn respeitava profundamente a determinação de Hem.
Ele sabia o quanto de esforço Hem tinha colocado naquela
competição de teatro, e era por isso que se sentia tão mal por
ele. Hem não merecia ficar desapontado assim. Um papel
principal como aquele... se não fosse o Hem, Marn não
conseguia imaginar quem mais seria mais adequado. Parando
para pensar, Marn não tinha um sonho claro como o de Hem.
Ele não sabia o que queria ser quando crescesse, ou do que
realmente gostava. Mesmo agora, ele não conseguia responder
a essa pergunta de jeito nenhum.
O garoto fechou o punho, prometendo silenciosamente a
si mesmo que, um dia, encontraria a resposta.
— No que você está pensando?
— Estou tentando encontrar meu sonho.
— O quê? Haha, sério mesmo?
— É. Mas ainda não sei o que quero fazer.
— Quer tentar ser ator?
— Eu conseguiria mesmo fazer isso?
— Qualquer um consegue.
— Eh... eu?
— Sim. Vem cá.
Marn arquejou e, antes que percebesse, Hem tinha
agarrado sua mão e o puxava para debaixo do prédio. Marn
correu para acompanhar, ouvindo uma garota gritar atrás
deles. Quando ele olhou para trás, viu os amigos correndo
para alcançá-los.
Marn não pôde deixar de se perguntar para onde Hem o
estava levando.
Finalmente, chegaram ao destino. Não era nenhum lugar
estranho — era o prédio do jardim de infância. Ele se lembrava
de que a cerca da escola se conectava à área do jardim de
infância. Este distrito era bem longe das conveniências
modernas. A escola em si carecia de muitos recursos, e a outra
escola mais próxima ficava a quase dez quilômetros de
distância. Até os alunos que moravam longe tinham que usar
condução só para estudar ali. Era uma escola de tamanho
médio, do jardim de infância ao ensino médio, mas o número
total de alunos não chegava nem à metade da antiga escola de
Marn. Sua turma atual tinha apenas pouco mais de vinte
alunos. Cada série tinha apenas duas ou três salas — algumas
séries não tinham nem cem alunos.
O jardim de infância tinha apenas um prédio. Os alunos
do ensino fundamental estudavam em prédios de madeira,
enquanto os do ensino médio usavam os de concreto. Às vezes
a escola parecia grande, mas na realidade era bem pequena.
Hem os levou para visitar as salas do jardim de infância.
Ele próprio nunca tinha ido tão longe antes e ficou surpreso ao
ver tantas crianças pequenininhas, mal batendo no joelho.
Olhe para elas — crianças da altura do quadril de um adulto,
correndo barulhentamente sem parar.
— Quem quer ouvir a história da Chapeuzinho Vermelho?
Chega mais!
— Irmão Hem!
— Eu! Eu!
Marn nunca esperou que Hem fosse tão popular com os
pequenos. Hem sorriu radiante e então guiou as crianças para
dentro do prédio. Marn e os outros foram logo atrás.
Em menos de dez minutos, as crianças que estavam
correndo loucamente lá fora agora estavam sentadas
direitinho dentro da sala, com os olhos arregalados e
brilhando, olhando atentamente para os veteranos do ensino
médio.
— Eu venho muito aqui... para me apresentar para as
crianças.
— Você conta histórias para os pequenos, Hem?
— Sim.
— Isso é incrível.
— Bom, eu vejo isso como um treino também. As crianças
ficam super empolgadas quando eu faço papel de pirata ou de
leão. Os professores também gostam, ter eu por perto facilita
um pouco o trabalho deles. Toma! Pega isso.
— Hã? Isso... — Marn aceitou o capuz vermelho,
parecendo confuso. Hem fez um sinal de positivo com o
polegar e anunciou em voz alta:
— Hoje, o P’Marn vai fazer o papel da Chapeuzinho
Vermelho!
Marn piscou várias vezes. Antes que se desse conta, tinha
virado ator sem perceber. Ele se virou para olhar para os
outros e viu que eles também tinham sido arrastados para
aquilo. Ryu foi escalado para ser a vovozinha, Ying virou o lobo
mau, e Than — Hem tinha planejado originalmente colocá-lo
como a mãe. Mas como Than se recusou a atuar de qualquer
jeito, sem nem responder, Hem tomou uma decisão executiva.
Ele pegou uma roupa verde, enfiou à força no Than e ergueu
as duas mãos dele para o céu.
Marn segurou o riso com todas as forças. O irmão mais
novo do professor, escalado como uma árvore de beira de
estrada — que tipo de árvore tinha uma cara tão rabugenta?
— Era uma vez... em uma certa aldeia, vivia uma criança
muito doce e amável. Ele sempre usava uma capa com capuz
vermelho, então todos na aldeia o chamavam de Chapeuzinho
Vermelho.
Hem assumiu o papel de narrador. Sua voz atraía as
crianças facilmente. Mesmo sem interpretar um personagem,
ele prendia a atenção delas perfeitamente. Cada movimento de
mão, cada mudança na expressão e no tom de voz — era como
se ele lançasse um feitiço, mantendo os olhos de todas as
crianças fixos nele.
Marn e os outros encenavam seus papéis. De vez em
quando, Hem distorcia a história de jeitos engraçados para
fazer os pequenos rirem, com as gargalhadas ecoando por toda
a sala. Quando chegou na cena em que o lobo perseguia a
Chapeuzinho Vermelho, todo mundo ficou ainda mais
animado. Marn observava secretamente os rostos e os olhos
das crianças — elas realmente adoravam o Hem e estavam
profundamente impressionadas com ele.
— Certo, pessoal, vamos dar uma salva de palmas para os
Phis!
Finalmente, a diversão chegou ao fim. As crianças
aplaudiram com entusiasmo, elogiando os veteranos que
sacrificaram seu tempo para contar uma história divertida.
Quando o sinal tocou, todos tiveram que seguir seus
caminhos. Os alunos mais velhos deram tchau e voltaram
para o prédio deles.
Um sorriso largo permanecia no rosto de Marn. Ele se
sentia incrivelmente feliz por ter feito algo divertido junto com
seus amigos de novo.
— Hem, você é sensacional.
— Claro que sou.
— Isso só me faz sentir ainda mais pena por você... Se eu
encontrar qualquer concurso interessante, prometo que te
aviso na hora!
— Combinado. Vou ficar esperando por boas notícias.
Hem sorriu e levantou o dedo mindinho, como se pedisse
uma promessa. Marn riu baixinho e levantou seu próprio
mindinho pequeno, entrelaçando-o com o de Hem. Seus
polegares mal tinham se tocado quando um estorvo
interrompeu.
O vilão do grupo passou bem no meio deles, forçando-os a
se soltarem. Hem gritou imediatamente:
— Qual é o seu problema, Than?!
— ...
— Santo Deus.
— Hem, não perde a paciência.
— Sua árvore estúpida!
Marn só conseguia balançar a cabeça com um sorriso.
Parecia que o dia de hoje tinha lhe dado mais uma história
maravilhosa para escrever em seu diarinho. Ele ponderava
como deveria começar a escrever — então deu um leve
sobressalto ao perceber que o amigo sentado ao seu lado o
encarava.
Mais uma vez, Marn se perguntou por que Than estava
agindo de forma tão estranha hoje. Mas agora, os olhos de
Than pareciam turvos — como se estivesse irritado.
O que havia de errado?
Ah! Será que ele estava bravo por ter que fazer o papel de
árvore mais cedo?
— Than, não fica bravo com nosso amigo. Ajuda ele um
pouco. Talvez o Hem tenha feito tudo aquilo para desabafar a
tristeza. Ele anda meio decepcionado ultimamente. A gente
devia apoiar ele.
— ...
— Esse é o sonho do Hem, sabe.
— ...
— Eu fico muito feliz por ele e orgulhoso também. Por isso
já prometi ao Hem que, se ele algum dia quiser minha ajuda
com algo, vou dar o meu melhor.
— Por que você tem que se dedicar tanto ao sonho de
outra pessoa?
— Eu não tenho um sonho agora, então não sei direito ao
que eu deveria me dedicar.
— ...
— Ou talvez... fazer todo mundo feliz seja o meu sonho. Se
for esse o caso, então ajudar os outros a alcançarem seus
sonhos é o mesmo que trabalhar para o meu próprio, não é?
— ...
— E isso inclui o seu sonho também, Than.
— ...
— Eu prometo que vou ajudar a realizar o seu sonho. Eu
juro.
O sorriso de Marn parecia ter se tornado sua marca
registrada a essa altura. Depois de espalhar calor para quem
estava ao redor, ele se virou para pegar seus livros, se
preparando para a próxima aula.
Então ele travou.
Uma mão de repente se estendeu em sua direção.
No começo, Marn franziu a testa em confusão — mas
quando viu o dedo mindinho estendido, não hesitou. Ele
esticou seu próprio mindinho pequeno e o entrelaçou
imediatamente.
Dito isso... Marn realmente ficava feliz em fazer seus
amigos sorrirem.
— Than.
— ...
— Você não vai soltar o meu dedo?
— ...
— Aula primeiro, tá bom?
— ...
— Digo... por favor, me deixa estudar.
Ele não sabia o que estava acontecendo com o Than hoje.
Mas Marn estava começando a sentir que o Than de hoje
estava inacreditavelmente teimoso.
19
— Nossa, choveu pesado o dia todo.
— Esse tipo de clima dá uma vontade de dormir.
— Eu queria mesmo era ir para casa dormir, mas com
uma chuva dessas, como a gente vai embora?
— Pois é. Chuva é um saco.
As vozes resmungonas dos estudantes do ensino médio
enchiam o ar — e eles não estavam errados. Estava chovendo
canivetes o dia inteiro. Mesmo quando a chuva diminuía para
um chuvisco, ainda era o suficiente para encharcar tudo. O
clima fresco era perfeito para dormir, e os alunos quase
cochilavam durante a aula. O professor tinha que ficar de
mãos na cintura, dando bronca neles quase a cada dez
minutos.
Em uma sexta-feira como esta, o último período era
geralmente reservado para atividades de clubes. Infelizmente,
hoje o grupo dos atletas não pôde correr solto como de
costume. O campo estava ensopado, com poças por todos os
lados. Ir lá para fora significaria apenas ficar encharcado — e
depois levar bronca dos pais em casa por causa das meias
sujas de lama.
— Vamos logo!
Ying enfiou todas as suas coisas na bolsa com pressa. Ela
usava calças de moletom pretas por baixo, com a saia da
escola por cima. Em menos de cinco minutos, aquela saia já
estava socada dentro da bolsa junto com seus cadernos de
lição de casa. Ela puxou a camisa amassada para fora — o
visual não tinha nada de arrumado.
Aquela atitude ousada e durona era algo com que todos
na sala já estavam acostumados. Todo mundo sabia que Ying
não era nem um pouco feminina, apesar do nome. Sua família
era dona de uma academia de boxe. Seu pai era o dono, e seus
três irmãos mais velhos também não eram brincadeira. Os
dois primeiros — P'To e P'Tik — eram boxeadores peso-pesado,
com músculos tão grandes que podiam rivalizar com uma
cabeça humana. Eles eram campeões desde que qualquer um
conseguisse se lembrar, trazendo fama atrás de fama para a
academia do pai. O terceiro irmão, P'Tum, não seguiu o
caminho do boxe — ele já tinha passado nos exames e se
tornado oficial da marinha.
E então havia a filha caçula. Depois de criar três filhos
teimosos, seus pais rezaram todos os dias para que o último
filho fosse uma menina. Como se o céu tivesse atendido às
suas preces, Ying nasceu como um presente para seus pais e
seus três irmãos, querida mais do que qualquer coisa. Da
infância até agora, seus pais e irmãos a mimavam sem parar.
Eles tentaram moldá-la para ser uma garotinha doce e pura —
suave e delicada como uma boneca de princesa. Mesmo agora,
eles ainda estavam tentando.
Mas quem diria que essa filha caçula acabaria sendo mais
problemática do que os três filhos homens juntos? Teimosa
além da conta. Língua afiada, argumentativa sem fim. Se a
Ying algum dia realmente soltasse os cachorros com seus
palavrões, as pessoas teriam praticamente que fazer um wai e
implorar por misericórdia. Mão pesada, pé pesado, mais
violenta do que qualquer outro.
Sua reputação se espalhou por toda parte desde cedo. Ela
tinha o visual de uma delinquente desde o momento em que
estava no útero — aos cinco anos de idade, ela já tinha
invadido e acertado a cabeça de um colega de classe.
Por causa disso, a família de Ying adorava Ryu. Desde que
Ying se tornou amiga dele, era como se alguém tivesse surgido
para controlá-la, pelo menos o suficiente para evitar que ela se
tornasse uma bandida completa viciada em violência. Ryu era
estudioso e bem educado. Ele não falava muito, mas no geral
era confiável. Estar perto dele tinha suavizado muitas das
arestas brutas de Ying.
— Porra... merda... caralho, minha barriga está doendo.
No intervalo de um segundo, três palavrões voaram da
boca de Ying. Ryu apenas conseguiu suspirar, empurrando os
óculos levemente para cima antes de olhar para a pessoa ao
seu lado. O rosto de Ying estava uma bagunça, com uma mão
apertando o estômago. Uma aura escura e sombria a cercava
desde a manhã. Seu cabelo curto estava completamente
bagunçado de tanto ela puxar de frustração. Enquanto
caminhava, ela rosnava e reclamava, assustando outros
alunos pelo caminho.
O que havia de errado com essa doida? Ela não se
importava nem um pouco com a imagem dela?
— Ryu, minha barriga está doendo para cacete.
— ...
— Ficar menstruada é uma bosta. Eu quero arrancar meu
útero e jogar para os patos no lago da escola.
Sinceramente — a linguagem dela não tinha salvação.
Não era de admirar que os pais de Ying tivessem confiado ela
ao Ryu. Se essa garota teimosa tivesse permissão para se
aproximar de outros jovens, as coisas definitivamente seriam
ainda piores.
— Ainda estamos na escola. Cuidado com o que fala.
— Que se dane, isso está me deixando puta.
— Ying.
Quando Ryu a repreendeu com aquela voz severa, Ying
abriu um sorriso brilhante. Ela sempre se divertia provocando
ele. Quanto mais ele tentava impedi-la, mais ela fazia. Ryu
ficava mais rígido, e Ying forçava mais a barra — sempre foi
assim.
Eles se conheceram durante as últimas férias escolares
antes de entrarem na escola primária.
Naquela época, tanto Ying quanto Ryu tinham acabado de
sair do jardim de infância. Eles brigaram um pouco, se
encararam como rivais — mas depois de dividirem alguns
lanches e brincarem juntos, rapidamente se tornaram
próximos. Antes que percebessem, tinham se transformado
em melhores amigos, exatamente como eram agora.
Quão próximos eles eram?
— Aqui.
— Caralho! Você realmente carrega remédio para cólica
na mochila?
— Quem fica menstruada não deveria esquecer.
— Ryu... você é sério o melhor de todos. Vem cá, deixa eu
dar um beijo na sua testa.
— Não começa com palhaçada.
Ryu soltou um longo suspiro e parou de caminhar. Ele
entregou a ela uma garrafa de água junto com a cartela de
comprimidos. Chamar de "carregar o remédio" era um pouco
demais — Ying já estava menstruada há dois dias, reclamando
sem parar. Todas as vezes, ela tinha cólicas assim, mas nunca
fazia nada a respeito. Só ficava ali sentada apertando a barriga
e resmungando. Se ele não comprasse o remédio para ela, essa
garota preguiçosa nunca iria buscar por conta própria. Que
saco.
— Ah! Me sinto tão renovada como se tivesse acabado de
beber um elixir divino... ai, ai!
Está vendo? Travessa como um macaco. Ninguém
conseguia vencê-la.
Ryu nem sabia mais como descrever essa amiga dele.
Toda vez que ele visitava a casa de Ying, a família dela sempre
implorava para que ele ajudasse a cuidar dessa pequena
ameaça. Além da boca suja, diziam, ela não tinha nenhuma
qualidade que a salvasse. Não era particularmente inteligente,
era mal-educada além do conserto, sem esperança com tarefas
domésticas, costura, culinária, tudo. Toda vez que ela entrava
na cozinha, um desastre acontecia.
Ryu ouvia sem responder, apenas olhando de soslaio em
silêncio — mas Ying realmente era problemática. Ainda assim,
ela não era de todo ruim. Havia coisas nela que valiam a pena
elogiar.
Ele conhecia a Ying melhor do que a própria família dela.
Hoje em dia, o papel dele não era mais apenas o de um amigo.
Ele realmente faz de tudo.
— Ryu! Ryu! Olha... tem sangue! Está por toda parte na
minha saia, porra!
— Para de entrar em pânico primeiro.
— O que eu vou fazer?!
— Não pira.
— Ryu!
Anos atrás, houve um incidente com sangue que foi o
maior alvoroço. No meio da aula, Ying de repente se sentiu
estranha. Ela deu um pulo e agarrou a saia. Quando viu a
mancha vermelha, deu um grito, deixando todo mundo em
frenesi. No fim, era apenas a puberdade chegando. Depois de
todas aquelas aulas de saúde, ela ainda se atrapalhava com
algo tão básico.
Naquele dia, quem você acha que teve que pedir
absorventes para a enfermeira sem um pingo de vergonha?
Ryu. Quem teve que ir buscar uma calça para ela trocar? Ryu
de novo.
E veja só — os anos passaram, mas os problemas não
diminuíram nem um pouco. Quando as cólicas ficavam ruins,
quem buscava o remédio? Ainda era o Ryu. Sendo mandado de
um lado para o outro, dia após dia. Às vezes ele realmente não
tinha certeza se a Ying o via como um amigo — ou como um
empregado.
— Ryu, querido, Ryu, amado...
— Credo.
— Ahhh.
— Anda direito. Você vai cair da escada.
— Você não vem mesmo para o ensaio da banda comigo?
— Eu tenho cursinho hoje.
— Por que você é tão esforçado, Ryu? Tipo... quantas
pessoas da nossa idade realmente vão para o cursinho fora da
escola? Você tem que ralar muito para ser médico, né...
Ying murmurou baixinho. Ela sentiu a pessoa ao lado
dela parar levemente. Ela arqueou uma sobrancelha, olhando
para ele com curiosidade — mas nada se seguiu. Ryu ficou em
silêncio e continuou andando até chegarem ao andar térreo.
O tempo não estava colaborando em nada. Estava
chovendo pesado o dia todo — a água inundava tudo.
— Você devia vir ficar na sala de música comigo primeiro.
Vamos esperar a chuva parar e depois a gente vai.
— Você não pode ir a lugar nenhum agora mesmo de
qualquer jeito. Vamos lá... senta e relaxa comigo. A maninha
aqui vai cantar para você, maninho.
Ying forçou a barra de novo. Ela deu um pulo, passou o
braço em volta do pescoço de Ryu e o arrastou por um
caminho diferente em direção à sala do clube de música, do
outro lado do prédio.
A essa hora, quase ninguém estava usando a sala. Ela
realmente tinha agendado um ensaio. Havia cerca de cinco ou
seis pessoas em quem ela confiava no clube — companheiros
de banda formados por veteranos, colegas de classe e
calouros, todos formando uma banda juntos com planos de
competir em breve.
Naturalmente, Ryu tinha sido convidado para participar
também. No começo, tudo parecia estar indo bem — mas
conforme o prazo se aproximava, Ryu de repente se retirou,
alegando que precisava focar no cursinho e não podia mais
comparecer aos ensaios. Ying só conseguia franzir a testa.
Eles já estavam em mais da metade dos ensaios — por que
desistir na reta final? No fim, tiveram que encontrar outra
pessoa para substituí-lo como guitarrista.
Para falar a verdade, as habilidades de Ryu na guitarra
não eram nada de especial — apenas aceitáveis. No que ele era
realmente bom era em desenhar. Ying podia dizer com
confiança que a arte de Ryu era linda — tão boa que era difícil
encontrar alguém na escola inteira que se comparasse. Ela já
tinha visto os chamados "melhores" alunos de artes e, se Ryu
decidisse seguir seriamente esse caminho, aquelas crianças
definitivamente ficariam tremendo de medo.
Mas, do jeito que era, esse nerd de óculos não estava
interessado nesse tipo de caos. Ele tinha seu próprio objetivo,
um que repetia para si mesmo dia e noite. Parecia que Ryu
queria tanto ser médico que não conseguia se imaginar sendo
qualquer outra coisa. Ele estava sempre enterrado em livros
grossos de preparação para os exames de admissão da
faculdade de medicina.
Mas mesmo assim...
Na verdade, Ying nunca tinha ouvido o Ryu dizer isso em
voz alta.
As palavras "eu quero ser médico" — Ryu nunca as disse.
Nem uma única vez.
Mas mesmo que ele nunca tenha dito em voz alta, o fato
de ele passar todo o tempo lendo livros para se preparar para o
vestibular de medicina era, de certa forma, uma prova de que
ele estava interessado nessa profissão...
Não era?
Ying foi praticar com a banda, deixando Ryu sentado
sozinho em silêncio. Depois de um tempo, outros membros da
banda entraram. Alguns calouros cumprimentaram Ryu
quando o viram, o falatório deles ecoando do lado de fora. O
prédio multiuso não era muito grande — era uma fileira de
salas de um único andar, cada uma atribuída a um clube
diferente. Perto dali ficavam os clubes de dança tradicional,
teatro e esportes. Em uma noite de sexta-feira comum, o lugar
estaria lotado de alunos, mas hoje a chuva pesada afastou
muitos deles. Apenas algumas pessoas apareceram.
— Olha só, é aquela machuda.
Depois de algum tempo, Ying ouviu aquele cumprimento.
Ela franziu a testa levemente. Ryu, que estava desenhando em
silêncio, olhou para cima imediatamente. A voz pertencia a um
grupo de veteranos do décimo segundo ano do clube de
esportes, cuja sala ficava logo ao lado. Eram três ou quatro
deles, todos com personalidades podres e bocas sujas.
No passado, eles tiveram um grande conflito com a Ying
— tão sério que a escola chamou as duas famílias. O assunto
acabou sendo resolvido com uma suspensão condicional para
ambos os lados. Desde então, Ying e aquele grupo eram
abertamente hostis um com o outro. Toda vez que cruzavam
caminhos, insultos e provocações eram garantidos. Eles eram
praticamente os inimigos número um um do outro.
Ryu olhou para Ying e balançou a cabeça lentamente,
tentando silenciosamente impedi-la de perder a paciência e
avançar neles de novo.
— Aquela machuda ficou abusada pra cacete. Quando ela
viu a gente daquela vez, agiu toda durona — mas no momento
em que a gente falou sério, ela chorou e espremeu umas
lágrimas feito uma menininha.
— Qual é a porra do seu problema?
— Só de olhar para ela já fico puto. Quer tanto ser
homem, né?
— Você...!
E, num piscar de olhos, o caos se instalou. Ying não
conseguiu se segurar e avançou neles. O outro lado também
não hesitou. Com o rancor de longa data deles, até uma
pequena faísca se transformava em um incêndio total. Outros
alunos por perto correram para separá-los, gritando por um
professor. Levou quase vinte minutos para separar os dois
lados.
No fim, o incidente se tornou a fofoca do momento em
toda a escola. Ryu não queria que as coisas escalassem ainda
mais, então ele rapidamente arrastou Ying dali. Ela estava
furiosa — tremendo, os lábios tremelicando — e teve que se
sentar embaixo do prédio com ele para se acalmar.
— Droga... aqueles babacas mereciam uma boa surra.
— Já chega. Se acalma.
— Como é que eu vou me acalmar, Ryu? Você não viu?
Eles estavam procurando briga! Me chamando de machuda,
disso e daquilo. Eu não sou uma machuda, sou? E mesmo se
eu fosse, que diabos isso importa para eles? Bando de
desgraçados podres.
— Eles passaram do limite. É melhor não dar bola.
— E daí? Eu deveria só ficar lá parada e deixar eles
falarem o que querem?
— Se acontecer de novo, vai ser ruim. Você entende?
Pense no seu futuro. Não deixe que ele seja arruinado por
causa de pessoas como aquelas.
— Eu já aguentei muita merda, Ryu.
— Aguenta firme.
— Eles me chamam de machuda, me zombam sem parar
— por que eu tenho que sofrer por causa de gente assim?
Ying reclamou amargamente, seu ressentimento
transbordando. Ela realmente odiava aqueles veteranos.
Quando estavam em grupo, eles agiam como se fossem os
donos do mundo. No momento em que viam o corte de cabelo
curto e masculino dela, apontavam o dedo e a rotulavam como
machuda, espalhando isso por todo lado. Sempre que eles
passavam, se não estivessem insultando ela diretamente,
estavam jogando comentários sarcásticos. O comportamento
rude deles era insuportável.
Ela não era uma machuda. Ela ainda gostava do sexo
oposto. Ela apenas usava o cabelo curto porque gostava e
achava que combinava com o seu rosto. Ela não entendia
como a situação tinha chegado a esse ponto. Quanto à
personalidade dela, ela sempre foi desse jeito — nunca
fingindo, nunca atuando, nunca se achando. Por que eles não
podiam entender que esse era o seu verdadeiro eu? Em vez
disso, a acusavam de seguir tendências, de virar machuda
depois de levar um fora de um cara, de querer chamar
atenção. Se alguém era patético e desesperado por atenção,
eram eles.
Depois de esbravejar o suficiente, Ying ficou em silêncio.
Ela cruzou os braços, emburrada. Quando percebeu que sua
carteira tinha sumido, seu rosto se contorceu ainda mais —
ela devia tê-la deixado na sala do clube.
Ryu não queria que o temperamento dela explodisse de
novo, então disse para ela ficar onde estava e foi buscar ele
mesmo. Quase dez minutos depois, ele voltou com uma
carteira de cor escura na mão.
— Obrigada, P'Zen.
— Hum. Sem problemas.
Naquele momento, Ying não estava mais sozinha embaixo
do prédio.
Ryu ficou parado no canto, incapaz de dar um passo à
frente. Ele apenas assistiu os dois conversando com sorrisos.
Sua melhor amiga — que esteve irritada o dia todo — estava
finalmente sorrindo docemente. E tudo aquilo aconteceu por
causa de um único copo de uma bebida doce.
Não — na verdade, não foi a bebida. Foi a pessoa que a
deu. Aquela pessoa era P'Zen — aquele por quem Ying tinha
uma queda há muitos anos. Ela gostava dele profundamente,
tanto que sonhava acordada com ele quase todos os dias.
"P'Zen é assim. P'Zen é assado". E ele realmente era tão bom
quanto ela dizia.
Ele era um atleta da escola, um aluno de honra, vencedor
frequente de competições — alguém que trouxe
reconhecimento infinito para a escola. Ele estudava aqui
desde o ensino fundamental e tinha conquistado os corações
de inúmeras garotas. Naturalmente, as pessoas eram atraídas
por boa aparência — e P'Zen era mais do que qualificado. Até
Ryu admitia que o veterano era incrivelmente bonito. Ele até
ouviu dizer que caça-talentos já tinham se aproximado dele.
Com um rosto daqueles, o futuro dele era brilhante.
— No sábado, eu vou sair para comprar suprimentos para
o clube. Quer vir comigo?
— Hã... Hein?
— Acabaram de aprovar o orçamento. Eu perguntei a
alguns amigos, mas nenhum deles estava livre. Como somos
do mesmo clube, pensei em te perguntar. Se você estiver
livre...
— Eu... eu vou! Eu vou!
— Ótimo. Achei que teria que ir sozinho.
— P'Zen... vai ser só nós dois?
— Sim, mas só por um tempo. Assim que terminarmos de
comprar as coisas, a gente volta.
Todos diziam que Ying era esquentada e bruta, mas o que
Ryu estava vendo agora contradizia completamente essa
imagem.
Apenas P'Zen conseguia ver aquele olhar nos olhos dela.
Apenas P'Zen conseguia ver aquele sorriso doce.
Olhe para ela — estava tão feliz que não conseguia
esconder de jeito nenhum. A palavra "gostar" estava
praticamente estampada na testa dela. Mesmo depois que ele
se afastou, ela continuou olhando para trás dele, sonhadora,
se contorcendo de um lado para o outro, as bochechas
queimando de vermelho enquanto as cobria com as mãos.
A raiva de antes desapareceu completamente. Era como
se a personalidade rude dela nunca tivesse existido. No
momento em que ela viu P'Zen, foi como se a chuva lavasse o
coração dela — só de vê-lo ela já se acalmava.
Ying tentava ao máximo conter o sorriso, seu coração
inchando de alegria. Ela olhou para a bebida doce ao seu lado,
ainda se sentindo tonta de felicidade. Ela nunca imaginou que
P'Zen compraria uma bebida para ela — muito menos a
convidaria para sair. Mesmo que fosse apenas para comprar
suprimentos para o clube... para ela, era um encontro de
verdade. E só os dois!
P'Zen já estava no décimo segundo ano. Faltavam apenas
alguns meses para a formatura. Esta poderia ser a última
chance de Ying. Seu primeiro amor — aquele que ela admirava
de longe há anos. A única pessoa que realmente tocou o
coração dela. A única que conseguia transformar essa
garota-gorila em um gatinho tímido.
Naquela noite, Ying praticamente flutuou para casa. Seu
pai e seus irmãos ficaram encarando-a confusos — o que tinha
acontecido na escola para deixá-la tão animada? Eles iam
perguntar ao Ryu, que tinha caminhado com ela até em casa,
mas antes que pudessem dizer qualquer coisa, o garoto de
óculos juntou as palmas das mãos em um wai educado e saiu
silenciosamente.
Estranho. Por que a filha deles estava de tão bom humor —
enquanto o melhor amigo dela parecia tão sombrio?
— Meu Deus, mãe... agora o que foi?
— Vem cá, vem logo.
— Mãe, quando é que a senhora vai parar?
— Você é minha filha. Eu quero que você fique bonita.
— A senhora pode parar já? Ai, minha cabeça dói. E por
que o pai e meus irmãos não impedem a senhora?
— Não fique brava.
— Ou será que eles concordam também? Que droga.
O bom humor dela evaporou instantaneamente. Quando
viu o que estava na frente dela, Ying quase desmaiou de novo.
Sua mãe estava segurando uma saia de cor pastel. Ying se
sentiu sufocada. Eles tinham falado sobre isso um milhão de
vezes, mas nada nunca mudava.
Seus pais tiveram três filhos homens — por isso queriam
tanto uma filha. E assim que tiveram uma, queriam criá-la
para ser gentil e doce. Quartos rosa. Vestidos e saias. Quando
ela chorava de soluçar porque queria brincar com carrinhos de
controle remoto como os irmãos, a mãe a confortava enfiando
uma boneca de rosto doce nas mãos dela. Isso deixava a Ying
enjoada.
Conforme ela crescia e ficava mais bruta, a pressão da
mãe só aumentava. O pai e os irmãos não eram tão impositivos
— mas, lá no fundo, Ying sabia exatamente o tipo de garota
que eles queriam que ela fosse.
Na escola, ela era constantemente pressionada para ser
isso ou aquilo. E quando finalmente chegava em casa, ainda
tinha que lidar com dores de cabeça por coisas inúteis. Ela
sabia muito bem que todos a amavam e se importavam com
ela como filha e irmã — mas era realmente tão difícil apenas
deixá-la ser quem ela queria ser?
Depois de ser tratada assim repetidamente, ela começou
a perder a confiança em ser mulher. E, sinceramente...
Ying subiu pisando fundo para o quarto, bateu a porta e
se jogou na cama larga. Ela ficou olhando fixamente para o
teto, deixando seu pequeno coração vagar para longe, muito
longe. Os eventos de hoje tinham saído do controle, embora a
causa fosse realmente trivial. Por que tudo tinha que ser um
problemão? Por que as pessoas não podiam apenas deixá-la
ser — deixá-la querer o que queria, fazer o que queria — sem
interferir?
Nesse momento, ela sentia que não pertencia a lugar
nenhum. Ficar do lado das garotas a deixava desconfortável.
Tentar ficar do lado dos rapazes fazia ela sentir que não
conseguia respirar. Parecia que todos a estavam forçando a se
definir claramente — caso contrário, ela ficaria presa nessa
guerra psicológica para sempre, sem fim à vista. Ela ficava
inquieta, não importava com quem estivesse.
Havia apenas uma pessoa em quem ela ousava se apoiar
completamente. Ninguém a fazia se sentir tão segura quanto o
Ryu fazia — nem mesmo uma única pessoa em sua própria
casa.
Pensando nesse amigo, a teimosia dela aflorou
novamente. Sempre que se sentia assim tão instável, o único
que conseguia confortá-la era o Ryu. Então ela pegou o
telefone e discou imediatamente o seu número favorito. Ela
esperou e esperou — mas não houve sinal dele atender. No
fim, ela não tinha mais forças para continuar tentando e
desistiu.
— Ele provavelmente está em alguma aula de cursinho ou
algo assim... é... melhor não incomodar ele.
Ela rolou devagar para o lado. Seu olhar pousou em um
porta-retratos em cima do armário pequeno encostado na
parede. Um sorriso fraco se espalhou por seu rosto quando ela
o viu.
A foto tinha sido tirada no terceiro ano. Ela lembrava bem
daquele dia — a escola tinha organizado um evento de Dia das
Crianças, e o professor titular tinha designado todos para
usarem trajes tradicionais de diferentes países da ASEAN.
Ying tinha sido vestida como uma garota tailandesa — claro,
porque a mãe dela a forçou a usar uma roupa tailandesa doce
e linda. Ryu, por sua vez, vestiu-se como um menino malaio,
usando uma camisa verde de mangas compridas. Ele parecia
genuinamente adorável.
Há quantos anos eles se conheciam agora...?
Ela não sabia o que o futuro traria, mas, se possível, ela
realmente queria que essa pessoa ficasse na vida dela para
sempre.
— A única pessoa que eu coloco no mesmo nível que o
P'Zen é você.
— ...
— Você é tão legal — por que ninguém nunca gostou de
você em segredo, Ryu? Mas agora que paro para pensar... me
pergunto se você mesmo já teve uma queda por alguém.
— ...
— Eu estou realmente muito curiosa para saber qual é o
tipo desse quatro-olhos. Por que tipo de pessoa o Ryu se
apaixonaria, hein...?
— ...
— Não deixa eu descobrir. Eu vou te zoar por três dias e
sete noites sem parar — é só esperar. Hehehe.
20
— Devido à influência desta tempestade, são esperadas
trovoadas em sessenta a setenta por cento da área, com
possibilidade de chuva pesada e ventos fortes em alguns
pontos. Recomenda-se que os moradores das áreas afetadas
permaneçam cautelosos...
A previsão do tempo competia com o som da chuva
naquela manhã. O ar estava frio o suficiente para fazer alguém
tremer. Era mais um dia de acordar sem o calor do sol.
Ryu levantou-se lentamente da cama e foi ao banheiro
cuidar de si mesmo. No último fim de semana, ele passou os
dias discretamente em seu quarto. Num piscar de olhos, os
dias de folga se foram e, mais uma vez, ele teve que vestir seu
uniforme escolar para a segunda-feira. Ele reuniu seus livros e
cadernos, organizou-os ordenadamente em sua mochila,
verificou duas vezes se não havia esquecido nada e então
desceu as escadas. A primeira coisa que viu foi seu pai
tomando café da manhã sozinho enquanto ouvia as notícias,
com uma das mãos apoiada no teclado de um laptop. Para
Ryu, aquela cena era familiar.
Ao lado deles estava a governanta, tia Noi, arrumando a
louça. Ryu agradeceu suavemente a ela e sentou-se para
comer em frente ao pai.
A casa inteira parecia silenciosa e sufocante. Pai e filho
sequer olhavam um para o outro. Sem conversas informais.
Sem perguntas sobre como o outro estava passando.
Tia Noi trabalhava ali há algum tempo — este era seu
terceiro ano na casa. Antes de vir para cá, ela tinha ouvido
fragmentos de informações da governanta anterior. Esta
família consistia em apenas duas pessoas: pai e filho.
Ela ouviu dizer que o casal havia se separado quando o
menino tinha apenas sete ou oito anos. As personalidades
deles entravam em conflito completamente; pequenos
problemas se acumularam até que finalmente não
aguentaram mais e assinaram os papéis do divórcio. Mas
separar-se depois de ter um filho nunca era fácil. Ambos os
pais queriam a guarda do filho. Nenhum dos dois cedia, até
que a questão teve que ser resolvida no tribunal.
A situação financeira da esposa não era muito boa — ela
era apenas uma funcionária de escritório com baixo salário.
Contratar um advogado só tornou as coisas mais difíceis. No
final, tiveram que negociar pelo bem do futuro do filho. Não
importava o quanto o amassem, o dinheiro importava.
E assim, o resultado foi como estava agora: Ryu vivia com
o pai. Sua mãe seguiu seu próprio caminho. Ela ainda entrava
em contato ocasionalmente; costumava visitá-lo com
frequência, mas depois de se casar novamente e começar uma
nova família, ela não tinha mais tempo. Ela parecia bastante
feliz com sua adorável filha em idade escolar primária.
Vivendo com o pai, Ryu tinha uma vida muito confortável
em comparação a muitos garotos da sua idade. Sua mesada
diária era generosa. Qualquer coisa que ele quisesse, seu pai
comprava. Uma casa grande e luxuosa. Ele nunca conheceu
dificuldades financeiras.
Seu pai era o diretor financeiro de uma grande empresa
na província, ganhando um salário muito alto — mas com isso
vinham pesadas responsabilidades. Às vezes ele estava tão
ocupado que não conseguia voltar para casa e ficava em um
condomínio na cidade, deixando o filho sozinho na casa.
Em certo momento, ele quis se mudar e levar o filho para
morar na cidade. Mas Ryu, que havia crescido ali, não quis ir.
Ele era apegado ao lugar. Ele amava seus amigos. Então o pai
cedeu.
O garoto já havia sido machucado o suficiente pela
separação dos pais. Seu pai temia que tirá-lo de perto dos
amigos também fosse demais. Embora não estivesse satisfeito
com a educação da pequena escola, ele compensava enviando
Ryu para aulas particulares constantemente. Ele queria que o
filho fosse excelente, mais inteligente que todos os outros. O
futuro de seu filho tinha que ser o melhor. Ele não queria que o
rapaz falhasse como a mãe dele falhou.
Ryu cresceu cercado por essa solidão. Ele a enfrentava
todos os dias — até que se tornou insensível a ela sem sequer
perceber.
Pai e filho pareciam quase idênticos. Ambos usavam
óculos. Até seus gestos espelhavam um ao outro. Qualquer
um saberia dizer num relance de quem Ryu era filho. Tia Noi
só conseguia suspirar baixinho. Um garoto tão jovem — por
que seus olhos pareciam tão vazios?
— Está chovendo hoje. Vou pedir para a tia Noi levar você
para a escola.
— Sim, senhor.
— Se ainda estiver chovendo hoje à noite, ligue para ela.
Ela vai te buscar e te levar direto para a sua aula particular.
— Sim, senhor.
— Espere lá. Quando você terminar mais tarde hoje à
noite, eu passo e pego você pessoalmente.
— Sim, senhor.
O pai olhou para ele brevemente e não disse mais nada.
Ryu continuou comendo até terminar. Os utensílios foram
recolhidos. Ele se levantou lentamente, pendurou a mochila
no ombro e fez um wai educado antes de sair de casa.
Ele esperou enquanto tia Noi tirava o carro da garagem
para buscá-lo. Ela era extremamente capaz — lidava com tudo
sem falhas: tarefas domésticas, cozinha e até mesmo o levava
para os lugares. Ela entendia bem a personalidade do patrão e
nunca se intrometia em assuntos familiares. Por causa disso,
o pai de Ryu confiava profundamente nela e pagava a ela mais
do que a uma governanta comum, em reconhecimento às suas
habilidades.
Enquanto dirigia, ela ocasionalmente olhava para o
garoto sentado no banco de trás. Ryu olhava fixamente pela
janela do carro, observando a chuva cair sem parar. Seus
olhos estavam opacos e sem vida, e ver aquilo a fez sentir que
precisava fazer algo. Então, ela esticou o braço e ligou o rádio,
colocando uma música alegre para animar a manhã. Ela
conversou sobre várias coisas, esperando aliviar a solidão de
Ryu e sua sensação de isolamento. Mas não importava o que
fizesse, não ajudava. A situação só piorou quando o carro
chegou à frente da escola.
Ryu viu um pai e um filho chegando em uma motocicleta.
O pai estava deixando o filho pequeno na escola, acenando
tchau com um sorriso antes de partir para o trabalho. Ambos
usavam capas de chuva de cores vibrantes. A criança do
ensino fundamental sorria radiante, cobrindo a boca
enquanto dizia animadamente ao pai, repetidas vezes, que não
ia se molhar nem um pouco. Mesmo assim, o pai ainda parecia
preocupado. Ele pegou seu próprio guarda-chuva e o entregou
à criança também, apenas para garantir que o uniforme
escolar não ficasse encharcado.
A cena não foi longa nem curta — mas mesmo depois que
os dois seguiram caminhos opostos, Ryu ainda estava sentado
ali, perdido em pensamentos. Vendo isso, a governanta
pareceu entender e falou suavemente para confortá-lo.
— Seu pai está preocupado com você — é por isso que ele
pediu para eu te trazer até aqui, para que você não se
molhasse ou tivesse dificuldades. É mais seguro também.
— ...
— Seu pai te ama...
— Já vou indo. Muito obrigado por me trazer, tia Noi —
Ryu interrompeu imediatamente. Ele juntou as mãos em um
wai, abriu a porta do carro e saiu. Ele respirou fundo,
tentando afastar aquela sensação turva em seu peito. Ele não
queria mergulhar naquelas emoções novamente.
Seus pés o levaram pela passarela até chegar ao seu lugar
de costume. Naquela hora, eles não podiam formar fila no
mastro da bandeira, então os alunos se reuniam em fileiras na
frente de suas salas de aula. As crianças se amontoavam,
conversando ruidosamente. Ryu procurou por seus amigos,
caminhou até eles e sentou-se.
Ying e Hem haviam chegado mais cedo. Os dois estavam
provocando um ao outro como de costume, rindo alto. Um
momento depois, já estavam se xingando e batendo nas costas
um do outro com pancadas abafadas. Ryu observava em
silêncio, sem tentar impedi-los. Ele simplesmente pegou um
livro e leu distraidamente.
Após um curto período, os outros dois membros do grupo
chegaram. Hoje, Marn usava uma capa de chuva amarela
brilhante que se destacava de longe, enquanto Than carregava
um guarda-chuva preto. Eles cumprimentaram a todos e se
sentaram juntos, conversando sobre várias coisas. Quando
chegou a hora, o sinal tocou e os alunos tiveram que se alinhar
na frente de suas salas para as atividades da manhã.
Ying agarrou Ryu pelo pulso e o arrastou para a ponta da
fila. Vendo a empolgação e a alegria no rosto dela, Ryu soltou
um longo suspiro. Se ela estava agindo assim, só poderia
haver um motivo.
— Cara, o P'Zen é muuuito fofo!
E lá estava — exatamente como esperado.
Naquele sábado, Ying tinha ido comprar suprimentos
para o clube com o veterano do 12º ano. Eles foram sozinhos.
Ninguém sabia o que tinha acontecido, mas quando Ying
voltou, ela estava transbordando de animação. Ela tentou ligar
para Ryu sem parar, mas ele não atendeu nenhuma vez, então
ela não tinha conseguido contar a ele sobre aquele dia. Ela
teve que guardar tudo aquilo dentro de si, incapaz de confiar
em mais ninguém — nem no Marn, nem no Than, nem mesmo
no Hem. Ryu era o único em quem ela confiava o suficiente
para contar tudo. Ela aguentou até a manhã de segunda-feira
e agora finalmente podia colocar tudo para fora.
— Eu acabei de descobrir que o P'Zen gosta muito de
frango frito.
— Hm.
— Ir juntos daquele jeito me fez sentir que o conheci
melhor, sabe? Tipo... que tipo de pessoa ele é, de verdade? Por
que ele é tão gentil? Ai, isso só me faz gostar dele ainda mais.
Meu coração derreteu totalmente quando ele disse "sim,
senhora". Eu fiquei tipo, ahhhh!
— Hm.
— Você sabe o que ele me disse?
— O quê?
— Ele sabe que as pessoas me chamam de machuda.
Então eu contei a verdade para ele, que eu não sou uma, só
gosto de ter cabelo curto.
— ...
— E ele disse que isso era bom... caso contrário, seria um
desperdício de um rosto tão fofo.
— ...
— Cara, ele... ele disse que eu era fofa.
Ouvindo isso, Ryu franziu a testa ligeiramente e virou-se
para olhá-la. Ela estava se contorcendo de timidez,
sussurrando animadamente, completamente apaixonada —
tanto que não tinha pensado em nenhum outro ângulo da
situação. Mas é claro — Ying gostava do P'Zen desde o ensino
fundamental. Ninguém sabia há quantos anos fazia. Naquela
época, ela só ousava olhar de longe. Agora que tinha chegado
um pouco mais perto, não era de se admirar que tivesse
esquecido de todo o resto.
— E quando passamos por uma loja de roupas, ele olhou
para os conjuntos, depois olhou para mim e disse que, se eu
tentasse usar algo assim, ficaria muito fofa. Eu fiquei tipo,
ahhh! Eu estava sonhando ou o quê? Ele me chamou de fofa
duas vezes. Duas vezes, cara!
— ...
— Ele provavelmente gosta de garotas fofas. Igual à ex
dele — cabelo comprido, olhos grandes, fofa. Todas elas.
Ryu não disse nada. Ele deixou Ying falar sem parar sobre
o P'Zen até que as atividades da manhã terminassem e todos
tivessem que retornar às suas salas.
O céu estava nublado, fazendo tudo parecer sombrio. Não
importava para onde olhasse, nada parecia agradável. Ryu
parou de escrever seus exercícios e olhou lentamente para a
pessoa sentada ao seu lado. Ying estava sorrindo para si
mesma, desenhando em um pedaço de papel com uma
expressão de felicidade. Quando ele viu que o esboço era de
um homem e uma mulher de mãos dadas, Ryu se viu sem
palavras. Ele virou o rosto para o outro lado, segurando a
caneta com mais força sem perceber.
O que havia de errado com o dia de hoje? Tudo parecia
irritante. Tudo estava entediante.
As aulas continuaram até chegar o momento de uma lição
que exigia trabalho em grupo. O professor pediu aos alunos
que juntassem suas mesas. Marn e Than puxaram suas
cadeiras para se sentarem com Ying e Ryu. Enquanto
discutiam a tarefa, notaram que Ryu estava mais quieto que o
normal. Ele trabalhava em silêncio, mal falando. Assim que
terminou sua parte, ele disse brevemente que ia ao banheiro,
levantou-se e saiu da sala.
Marn apertou os lábios, hesitando por um momento,
antes de dizer que também precisava ir ao banheiro. Ele
seguiu Ryu para fora da sala e logo descobriu a verdade.
Ryu não tinha ido ao banheiro de jeito nenhum. Em vez
disso, ele estava sentado sozinho na varanda do prédio da
escola, escondido em um ponto cego por onde poucas pessoas
passavam. Naquele momento, o lugar parecia especialmente
solitário e desolado. A princípio, Marn não entendeu por que
Ryu estava ali sozinho. Mas quando viu a fumaça cinza-clara
subindo, ele congelou.
Ryu estava sentado imóvel, olhando para a distância,
deixando seus pensamentos vagarem. Ele observava a chuva
cair silenciosamente. Marn caminhou lentamente e sentou-se
ao lado dele. Ryu assustou-se um pouco, os olhos se
arregalando enquanto fazia menção de jogar o cigarro fora —
mas quando Marn balançou a cabeça suavemente, Ryu o
manteve.
Marn não tinha intenção de contar a ninguém sobre
aquilo, embora estivesse profundamente chocado. Ele sempre
conheceu Ryu como um bom garoto, um aluno exemplar.
Nunca imaginou que Ryu estivesse envolvido com algo assim.
— Ouvi dizer que na sexta-feira a Ying teve problemas
com alguns veteranos do 12º ano — disse Marn. Percebendo o
desconforto de Ryu, ele escolheu deixar aquele assunto de
lado temporariamente e mudar o tópico.
— É.
— Eu acabei de me transferir para cá, então não sabia
que a Ying tinha problemas com aqueles veteranos antes. Foi
tão sério assim?
— Foi.
— Aqueles veteranos... são o mesmo grupo que chama a
Ying de machuda, certo?
— Como você sabe?
— Eu ouvi algumas coisas. Para ser sincero, isso me deixa
desconfortável também. Tenho medo de que a Ying ouça e se
magoe.
— Não se preocupe. A Ying é mais forte do que você pensa.
— Mas ter que aguentar as pessoas dizendo coisas
assim... não é nada bom.
— Por que você se importa tanto com a Ying?
— Porque eu a entendo. Já passei por isso também, então
sei o quanto é ruim.
— ...
— Uma vez, fui maltratado por muita gente apenas pelo
que eu sou.
— ...
— Mas a Ying tem muito mais sorte do que eu tive. Fico
muito feliz que ela tenha o Ryu ao lado dela, sempre
ajudando-a.
— ...
— Ela deve ser muito feliz por ter você como amigo.
Ryu não respondeu. Ele ficou sentado em silêncio,
baixando o olhar para o cigarro em sua mão. Finos fios de
fumaça continuavam a subir, levados pelo vento. O cheiro da
fumaça era diluído pelo aroma da chuva.
Marn juntou as mãos, sentado calmamente, olhando
ocasionalmente para o amigo. Hoje, Ryu parecia
especialmente sem vida. Além de Than, Ryu era a pessoa mais
difícil para Marn entender de verdade. Ele era um homem de
poucas palavras, reservado, vivendo em seu próprio mundo.
Ainda assim, ele deixava algum espaço para o grupo — ao
contrário de Than, que mal interagia com qualquer pessoa.
Marn teve a sensação... de que aquela poderia ser a
primeira vez que ele tinha uma conversa longa com Ryu.
— Não conte a ninguém sobre isso.
— Hm. Não vou contar a ninguém.
— Valeu.
— Ryu... posso perguntar há quanto tempo você fuma?
— Três anos.
— Desde o ensino fundamental?
— Hm.
— Os outros amigos sabem disso?
— ... Não.
— Nem a Ying... ela também não sabe, né?
Os olhos de Ryu responderam tudo claramente. Marn não
perguntou mais nada. Ryu fumar devia ser um segredo que ele
se recusava a contar a qualquer pessoa — nem mesmo Ying, a
pessoa que parecia mais próxima dele, sabia que ele fumava
secretamente há três anos.
— Na verdade, parece que nunca conversamos muito
assim, né?
— Hm.
— Na minha opinião, Ryu, você é muito talentoso.
— Sério?
Ryu levantou uma sobrancelha levemente. Marn havia
ficado em segundo lugar na classe, mesmo tendo acabado de
se transferir, empurrando Ryu para o terceiro lugar. Era difícil
acreditar.
Marn o estava elogiando. Parecia um pouco ridículo — o
aluno em segundo lugar elogiando o terceiro como "talentoso".
Estranho, na verdade.
— A Ying me disse uma vez que você é muito bom em
desenhar. Ela até me mostrou seu trabalho. Com habilidades
como aquela — nota dez!
— Valeu.
— Você devia tentar entrar em uma competição de
desenho. Tem interesse?
— Não.
— Você não quer competir?
— Só estou com preguiça.
Ouvindo isso, Marn ficou em silêncio. Ele sabia que era
apenas uma desculpa que Ryu estava usando para encobrir
algo. Alguém como o Ryu, com preguiça? Qualquer um podia
ver o quanto ele era diligente. Não havia como ele desistir de
algo que amava apenas por estar "com preguiça". O que quer
que tenha feito Ryu desistir tinha que ser algo muito maior do
que aquilo.
— Eu fico genuinamente feliz pelos nossos amigos
quando eles têm algo que amam.
— Por quê?
— Porque eu não tenho nada que eu goste. Vejamos... o
Hem gosta de atuar. O Than gosta de natação — mesmo que
ele ainda se recuse a entrar na piscina. A Ying gosta de
música, gosta de cantar. E você gosta de desenhar. Mas eu
realmente não consigo pensar no que eu gosto. Sinceramente,
eu não sei.
— ...
— Eu sou ruim em esportes e nem sei de quais hobbies eu
gosto. Hum... será que ajudar o tio Karn a fazer leite de soja
conta como algo que eu gosto?
Ryu olhou para o amigo ao seu lado. Marn parecia
mergulhado em pensamentos, franzindo levemente a testa,
claramente confuso sobre si mesmo — sobre o que ele
realmente queria agora.
— Depois de pegar essa doença, é difícil para mim pensar
muito no futuro. Então, hoje em dia, eu vivo fazendo planos de
curto prazo. O que eu quero fazer amanhã ou depois de
amanhã já é o suficiente, né?
— Por que você está falando como se estivesse se
amaldiçoando?
— Amaldiçoando? Eu não estou me amaldiçoando, Ryu.
Só estou dizendo o que eu realmente penso.
— Porque planejar a curto prazo significa que eu não
preciso me cobrar tanto a ponto de ficar exausto antes mesmo
de começar. A felicidade pode ser apenas felicidade, não algo
pelo qual eu tenha que sofrer primeiro para conquistar. Muita
gente, quando descobre que eu tenho essa doença, me olha
com pena. Eles acham que eu devo viver com dor, que tenho
que aguentar muita coisa só para passar cada dia. Mas,
honestamente? É muito fácil me fazer feliz. Só comer algo
gostoso já me faz sorrir por três dias... sete dias, até!
— ...
— Você devia tentar também, Ryu.
— ...
— Esqueça as coisas que você quer fazer no futuro por
enquanto e tente fazer o que sente vontade de fazer agora.
— Você vai ser mais feliz, tipo, mil por cento mais feliz.
Marn sorriu abertamente, inclinando-se mais perto e
batendo de leve no ombro de Ryu. Ryu o encarou em silêncio,
sem dizer uma palavra. Marn conversou mais um pouco antes
de se afastar, dizendo que voltaria e esperaria na sala de aula.
Assim que Ryu terminasse seu cigarro e cuidasse do cheiro
adequadamente, ele poderia ir atrás.
A área ficou silenciosa novamente. Ryu mudou de
posição, puxando os dois joelhos e abraçando-os,
descansando o rosto neles. Sua mente não parava de remoer
um certo pensamento.
Fazer o que eu quero fazer agora...?
Certo. O que ele queria fazer agora, afinal?
Havia tantos planos futuros traçados, alinhados e
esperando que ele corresse em direção a eles. Uma estrada
longa e interminável. Metas esperando no limite distante da
visão. Ele se esforçava até ficar exausto, mas ainda assim não
conseguia alcançá-las. Antes que percebesse, tudo ao seu
redor estava vazio. Ele estivera tão focado em coisas distantes
demais que esqueceu o que estava bem na sua frente — tão
perto, mas que ele era completamente incapaz de ver.
Ele tinha apenas dezessete anos, mas não conseguia
descobrir o que alguém da sua idade deveria estar fazendo.
Sua cabeça estava cheia de planos de vida para os seus vinte,
trinta e até cinquenta anos.
Todo mundo o ensinou a ser previdente, a saber cedo o
que queria ser. Ter objetivos de longo prazo era bom, diziam —
isso o colocava no meio do caminho à frente dos outros. Ele
tinha que ser diligente, planejar o futuro, para que a vida fosse
confortável quando ficasse mais velho.
Ele sabia de tudo isso. Tinha sua vida mapeada. Nessa
idade, seus pensamentos eram décadas mais velhos que os de
seus colegas. Mas por que ele não sabia... o que realmente
deveria fazer agora?
Ryu caminhou de volta para se juntar aos amigos. Marn
lhe enviou um pequeno sorriso. Ryu não respondeu,
simplesmente sentou-se em seu lugar. Ying, que estava
esperando, imediatamente se aproximou por hábito,
encostando-se nele e descansando a cabeça em seu ombro.
Ela fechou os olhos e cantarolou baixinho.
— É boa?
— Qual música?
— Uma nova.
— Ah?
— Me dê mais um tempinho. Quando eu terminar, você
será a primeira pessoa que vou deixar ouvir.
— Eu estou falando sério sobre essa música, Ryu. Estou
pensando em onde devo tentar enviá-la. Talvez um dia eu
realmente me torne uma cantora com uma música própria.
— Você consegue.
— Quando esse dia chegar, você tem que me pagar um
frango frito.
— Só frango frito?
— Hum... é, você tem razão. Então vamos guardar para
depois!
— Quando esse dia realmente chegar, eu te pago qualquer
coisa.
— Droga, você está cheio da grana. Posso viver às suas
custas pelo resto da minha vida?
— ...
— Mas até lá eu provavelmente serei uma cantora famosa,
super rica. Eu vou retribuir e pagar para você, ok?
— Hum.
— Me dá o seu dedinho. Temos que fazer uma promessa.
— Juramento de dedinho.
— Vamos, anda logo — levanta o dedo.
— ...
— Quando eu tiver sucesso um dia, você tem que estar ao
meu lado, ok? Eu não consigo fazer isso sem você.
— ...
— Se você não estivesse aqui, acho que não conseguiria
fazer isso de jeito nenhum.
A expressão de Ryu suavizou. Ele baixou o olhar para o
dedinho estendido. Inúmeros pensamentos e sentimentos
correram por sua mente. No fim, ele voluntariamente levantou
seu próprio dedinho e o entrelaçou ao dela.
Ying sorriu tanto que seus olhos quase desapareceram,
rindo de alegria até que Hem não pôde deixar de falar
sarcasticamente. Logo os dois estavam discutindo alto como
de costume — gritando insultos de um lado para o outro,
nenhum disposto a recuar.
Suas vozes ecoavam pela sala de aula, atraindo olhares
exasperados de outros alunos. Eles eram realmente
inseparáveis — melhores amigos que discutiam
constantemente.
— Hem, tem um Phi esperando por você.
— Hein?
Hem parou no meio de um mata-leão em um amigo,
inclinando a cabeça em confusão antes de sair da sala de aula.
No começo, ele não sabia de qual Phi estavam falando, mas
assim que o viu, entendeu.
Era um Phi do clube de teatro — aquele que recebeu um
papel importante na competição de peças históricas. Um rosto
familiar que ele conhecia bem desde aquele incidente naquela
época. Depois que aquilo aconteceu, Hem cortou relações
completamente, recusando-se a se envolver mais, deixando-os
continuar praticando por conta própria.
Agora, faltando apenas uma semana para a competição,
ele não tinha ideia de que tipo de problema eles tinham para
virem procurá-lo assim.
Ele não sabia se deveria se sentir feliz ou triste. Queria rir,
mas não conseguia. Queria chorar, mas não sabia se devia.
Porque, na verdade, aqueles veteranos tinham vindo implorar
para que Hem voltasse ao papel principal, exatamente como
antes. Eles finalmente perceberam que ninguém poderia
incorporar aquele papel melhor do que Hem.
Eles tentaram pegar calouros bonitos, enfiar veteranos no
papel — qualquer um que pudessem encontrar — mas
nenhum deles tinha dedicação real. Sempre que praticavam,
era desleixado e sem vontade. Eles não levavam a sério de jeito
nenhum. Nenhum deles amava o teatro de verdade. E esta era
uma competição de teatro em nível provincial, mas eles a
tratavam com descaso, sem nem um pingo de
comprometimento.
Eles queriam reclamar — mas o tempo estava acabando.
Se perdessem aqueles atores, não haveria tempo para
substituí-los.
No fim, até o professor supervisor não aguentou mais.
Balançando a cabeça, ele ordenou que os veteranos
mudassem o ator principal imediatamente. Foi por isso que
eles vieram implorar a Hem hoje.
Pensando no que havia acontecido antes, no momento em
que encontraram alguém com um rosto melhor, eles correram
para substituí-lo — sem conversa, sem perguntas, sem uma
única palavra. Mesmo agora, Hem lembrava claramente do
que tinham dito.
O rosto dele não se compara ao do outro cara.
Mesmo que ele atue bem, e daí?
Se você não for bonito, ninguém quer assistir.
E, simples assim, tiraram o papel dele e deram para outra
pessoa sem perguntar a ele nem uma única vez. Eles
decidiram tudo sozinhos. Sem mencionar que aqueles
veteranos tinham entrado por contatos. Eles não sabiam atuar
nada. Estavam lá apenas porque conheciam pessoas, porque
eram veteranos, porque queriam certificados para preencher
seus portfólios para inscrições na universidade — roubando o
espaço que pertencia a outros.
E, no fim, nenhum deles conseguiu fazer o trabalho.
No começo, Hem ficou tão bravo que quis explodir e
xingá-los adequadamente. Mas então ele sentiu uma mão
gentil em seu ombro. Quando se virou, viu Marn, sorrindo
para ele. Ao lado dele estava o resto do grupo, ouvindo em
silêncio. Um por um, eles assentiram em encorajamento,
dizendo a Hem para aceitar essa oportunidade.
Eles entendiam o quanto ele devia estar magoado. Mas
chances como essa não vêm duas vezes. Hem já estava no
segundo ano do ensino médio — não havia razão para perder
mais tempo ou oportunidades com bobagens como essa.
Aquele papel era dele desde o começo e sempre seria dele.
O que aconteceu provou isso claramente: se não fosse o
Hem, então não seria ninguém. Ninguém conseguia
substituí-lo.
— Esse é o seu sonho, Hem.
— Marn...
— Tá vendo? No fim, voltou para você. Isso significa que
realmente pertence a você.
— Mas só falta uma semana...
— Nós acreditamos que você consegue. E você vai fazer
isso incrivelmente bem.
— ...
— Você também acredita nisso, não acredita?
— Obrigado.
— Força! Todos nós estamos torcendo por você.
Marn levantou os dois polegares e empurrou Hem
gentilmente para frente, incentivando-o a aceitar a
oportunidade novamente. Hem olhou em volta — todos
concordaram com a cabeça. Até Than confiou nas palavras de
Marn.
Com essa confiança, Hem finalmente concordou.
Os veteranos se desculparam profusamente. Hem não
quis falar muito. Ele interrompeu a conversa e deixou uma
mensagem final: nunca mais façam isso com ninguém.
Tendo ou não algum dia a chance de trabalhar em uma
indústria maior, eles não tinham o direito de tirar o sonho de
alguém apenas por causa da aparência. Julgar a habilidade de
alguém com base em preconceito pessoal e aparência
superficial era inaceitável.
Porque algumas palavras descuidadas poderiam destruir
a confiança de alguém por toda a vida.
Hem tinha muita sorte de ter amigos assim. Caso
contrário, ele poderia não ter restado nenhuma confiança.
Marn sorriu levemente ao ver que Hem estava feliz. Ele
olhou de soslaio para alguém parado ao seu lado e deu um leve
cutucão com o braço. Than olhou de volta brevemente.
— Você também, Than.
— ...
— Não deixe as oportunidades escaparem.
— ...
— Corra e faça o que você quer fazer.
— ...
— Eu estarei logo atrás de você, te empurrando para
frente.
Marn o encorajou de todo o coração — mas não importava
o quanto ele dissesse, Than não respondia. No fim, Marn
apenas estufou as bochechas, incapaz de entender os
pensamentos ou sentimentos de Than. Mesmo agora, Than
ainda não nadava. Qual era o tamanho desse medo? Quando
ele finalmente o superaria? Marn queria ver esse amigo sorrir
livremente, assim como todos os outros.
— Você fala demais.
— Than...
Os alunos se aglomeravam na porta da sala de aula,
esperando até que o Professor Nathi chegasse para começar o
próximo período. Então todos voltaram aos seus lugares.
A aula de matemática dava dor de cabeça em muitos
alunos — uma cena familiar para o Professor Nathi. De vez em
quando, ele olhava para seu próprio irmão mais novo. Ele não
sabia o que Than estava pensando, encarando a janela
distraidamente durante todo o período. Quando a aula
terminou, Than não tinha absorvido nada do que ele ensinou.
O dia passou e, finalmente, a escola acabou. A chuva
tinha parado. O céu limpou um pouco mais, a luz do sol
rompendo as nuvens. Os alunos começaram a ir para casa. O
Professor Nathi ficou para trás para terminar seu trabalho, só
percebendo mais tarde que já eram quase seis da tarde.
Ele planejava ir direto para o seu quarto, mas algo o
impulsionou a fazer um caminho diferente. Passo a passo, ele
se viu parado à beira da piscina da escola. Ele achou que
ouviu algo lá dentro — surpreso que alguém ainda estivesse lá
àquela hora.
Ele se aproximou e espiou.
Seus olhos se arregalaram.
Parecia estar assistindo a um daqueles documentários
sobre a vida selvagem da infância — aqueles que o pai deles
costumava passar, que todos os três irmãos amavam.
Especialmente as criaturas do fundo do mar. Sempre que
tubarões ou golfinhos apareciam, as crianças ficavam
grudadas na tela, com os olhos arregalados de admiração. E
agora...
Era como se Nathi estivesse vendo um grande tubarão
branco novamente.
Um corpo perfeitamente equilibrado deslizando pela
água, movendo-se livremente na vasta piscina. Barbatanas
cortando graciosamente, cada movimento poderoso e elegante.
Embora estivesse longe da água por muitos anos, sua
habilidade não tinha diminuído. Houve alguns momentos
estranhos enquanto ele ainda se ajustava — mas não
demoraria muito para que ele recuperasse totalmente sua
forma.
Olhe para ele. Livre mais do que qualquer outra coisa.
Finalmente, aquele garoto tinha retornado ao lugar onde ele
realmente pertencia.
— Pai, olha! Ele já consegue andar!
— Haha, você está ajudando ele a andar?
— Muito bem, carinha!
— Ele é realmente apegado a você.
— Hoje eu te ajudei a andar — na próxima vez, vou te
ensinar a nadar.
— ...
— Um dia, vamos nadar juntos.
— ...
— Eu vou te ensinar tudo.
— ...
— Eu mesmo vou te guiar para frente. Consegue me ouvir,
Than?
Nathi sorriu discretamente para si mesmo. Ele pegou o
telefone, tirou uma foto e enviou para a mãe e a irmã deles.
Logo em seguida, respostas animadas começaram a chegar.
Finalmente... seu irmãozinho tinha voltado de verdade.
Than tinha voltado a ser ele mesmo mais uma vez.
21
— Tio Karn pode esperar por mim aqui, está bem? Eu
cuido de tudo sozinho. Assim que terminar, eu volto.
— Tem certeza de que consegue dar conta?
— Sim. Não precisa se preocupar, tio Karn. Eu sei me
virar.
— Hum.
Marn sorriu para ele, depois se virou e foi resolver seus
assuntos.
Hoje, Marn tinha vindo ao hospital para um check-up
físico e para buscar sua medicação. O vírus em seu corpo
ainda não tinha apresentado nenhum sintoma, mas não havia
garantia de que não iria piorar algum dia. Ele não fazia ideia
de quanto tempo seu corpo frágil duraria. A única coisa que
podia fazer era cuidar bem de si mesmo, manter-se saudável e
feliz, exatamente como sua avó lhe ensinou.
Olhando para trás, já fazia vários meses que ele tinha
perdido a avó. Esse período de tempo poderia ser considerado
curto ou longo, dependendo de como se olhasse.
Marn lembrava daquele dia com clareza — a sensação de
que seu mundo inteiro tinha desabado. Um garoto de apenas
dezesseis ou dezessete anos, forçado a encarar o vasto mundo
sozinho.
Naquela época, ele realmente não tinha mais ninguém.
Não conseguia nem pensar em qual direção seguir ou o que
fazer em seguida.
Tudo o que conseguia fazer era ficar sentado imóvel,
encarando a foto da avó, vazio e oco, sem ideia de como
superaria aquela dor.
Era difícil acreditar que agora Marn conseguia sorrir de
novo — genuinamente feliz — sem chorar ou soluçar no meio
da noite. Se sua avó estivesse olhando por ele lá de cima, com
certeza estaria batendo palmas, elogiando-o sem parar por ser
tão forte.
Ele nunca achou que fosse melhorar. No começo,
acreditou que ficaria completamente sozinho. Mas seu mundo
inteiro mudou no dia em que um tio de cabelos compridos veio
buscá-lo no funeral.
Marn nunca tinha visto o homem antes, não sabia quem
ele era e não tinha nenhuma ligação com ele. Marn teve que se
mudar para longe, para um lugar desconhecido.
No entanto, a vida nova que começou ali não foi nem um
pouco solitária. Ele tinha um tio bondoso e, pela primeira vez
na vida, um grupo de amigos que estava sempre presente para
ajudar uns aos outros.
Marn pôde experimentar tantas coisas novas. Ninguém o
rejeitava pelo que ele era.
Todos o aceitavam e compreendiam, se importavam com
ele e cuidavam dele. Ele nunca tinha vivenciado tamanha
gentileza antes.
Isso o fazia se sentir profundamente grato e
verdadeiramente feliz. Atualmente, o coraçãozinho de Marn
tinha se tornado muito mais forte. Ele estava mais alegre do
que nunca e tinha certeza de que poderia brilhar ainda mais
no futuro.
Hoje, seu tio o trouxe ao hospital. Marn deixou que o tio
Karn ficasse sentado esperando enquanto ele ia ver o médico
sozinho. Ele foi capaz de resolver tudo sem precisar que um
responsável o guiasse por aí.
Marn se sentia muito atencioso com o tio Karn. Seu tio
trabalhava duro todo santo dia, vendendo leite de soja
constantemente, quase sem descansar o suficiente.
Além disso, ele tinha que ganhar dinheiro para sustentar
mais uma boca — o próprio Marn — assim como pagar as
despesas escolares.
Marn tentava ajudar o tio Karn o máximo que podia.
Embora estivesse morando com ele há vários meses,
ainda parecia que eles só tinham se aproximado por uma
margem bem pequena.
Ultimamente, o tio Karn parecia especialmente exausto,
sempre cansado de alguma forma. Às vezes, ele cochilava só de
ficar sentado parado. Até enquanto vendia leite de soja, se
fechasse os olhos por um instante, ele caía direto no sono.
Ver aquilo deixava Marn cada vez mais preocupado.
Especialmente quando ouvia o tio Karn acordando antes do
amanhecer todos os dias, trabalhando sozinho na cozinha —
aquilo o deixava ansioso. O tio Karn já tinha trinta e sete anos.
Exigir tanto de si mesmo não podia ser bom.
Marn demorou um bom tempo para terminar seus
assuntos pessoais. Quando voltou, viu o tio Karn sentado ali
sozinho, de braços cruzados e cabeça caída — dormindo
profundamente. As olheiras escuras sob os olhos dele eram
alarmantes. Marn caminhou até lá e cutucou-o de leve para
acordá-lo. Seu tio ainda parecia grogue, mas se levantou e
caminhou de volta para o carro.
Marn rapidamente comprou para ele um chá de
crisântemo gelado. Após tomar um gole da bebida doce, a
aparência do tio Karn melhorou um pouco.
Tio e sobrinho chegaram em casa em segurança.
Marn ficou de olho no seu tio.
Hoje, o tio Karn realmente parecia exausto. Afinal, ele
tinha trabalhado sem parar a semana toda, vendendo leite de
soja todas as manhãs e noites. Não era surpresa que estivesse
acabado. Marn deixou que ele se deitasse e descansasse em
sua cadeira longa de costume, enquanto ele mesmo
desapareceu para limpar a casa e cuidar das tarefas da
cozinha com dedicação.
Depois que uma hora se passou, Marn voltou para a
cadeira longa. O tio Karn estava encolhido e dormindo
profundamente, com a respiração lenta e constante. O cabelo
preto dele tinha caído bagunçado sobre o rosto. Marn buscou
um cobertor fino e o cobriu suavemente. O toque assustou o
tio Karn levemente, e ele abriu os olhos surpreso.
— Só estou te cobrindo com um cobertor — Marn disse
baixinho. — Por favor, descanse.
— Hum.
— Tem algo que você quer que eu resolva?
— Traga o cesto de roupa suja lá do quarto. Eu vou lavar
as roupas.
— Sim, eu busco para você.
— Hum.
— Por favor, descanse, tio Karn. Não vou te incomodar.
Marn deixou o tio dormir e subiu para fazer o que lhe foi
pedido. Normalmente, o tio Karn não gostava que ninguém
invadisse seu espaço pessoal. Marn sabia que seu tio não
estava particularmente feliz por ter outra pessoa morando na
mesma casa — mesmo que essa pessoa fosse seu próprio
sobrinho. Por causa disso, Marn sempre tentava não fazer
nada que pudesse deixar seu tio desconfortável. Afinal, aquela
era a casa do tio Karn. Marn era apenas um convidado.
Marn nunca tinha entrado no quarto do tio — nem
mesmo em pensamento. Mas hoje, ele não tinha escolha. O tio
Karn tinha pedido a ele. Marn pediu permissão baixinho e
depois abriu a porta devagar.
No momento em que viu o quarto, ele paralisou.
O quarto do tio Karn era extremamente vazio — tão vazio
que parecia perturbador.
Não havia nada além de uma cama, uma única poltrona e
alguns armários de armazenamento. Tudo estava organizado
de forma impecável. Embora Marn tivesse se mudado há
apenas alguns meses, ele sentia que, de alguma forma,
possuía mais pertences do que o tio.
Ele não queria ser rude olhando em volta no quarto de
outra pessoa, mas seus olhos vagavam sem controle. Ele
notou uma mesa de canto no quarto. A janela estava aberta,
deixando uma brisa fresca entrar. Cortinas brancas e finas
balançavam suavemente. Um pequeno vaso de planta verde
estava sobre a mesa — a única coisa que dava ao quarto um
pingo de vida.
Marn deu um tapinha leve no próprio rosto para voltar à
realidade e foi pegar o cesto de roupa suja. Mas, ao levantá-lo,
uma peça de roupa escorregou para fora. Ele colocou o cesto
no chão para pegá-la, mas hoje parecia ser um dia de azar.
No momento em que se abaixou e pegou a camisa, ele
levantou a cabeça e bateu direto em um armário com um
estrondo alto. A porta do armário velho e frouxo se abriu com
facilidade.
Marn esfregou a cabeça e soltou um gemido baixo. Então,
seu olhar pousou em uma caixa de papelão rosa pálido dentro
do armário. Parecia bem velha. Como ele tinha batido no
armário com muita força, a caixa tinha se deslocado para
frente e, com a porta aberta, parecia que ia cair.
Marn esticou a mão para segurá-la, com a intenção de
empurrá-la de volta para dentro.
Foi quando ele notou uma fita rosa fina saindo da caixa.
Querendo colocá-la de volta para dentro, Marn agiu sem
pensar. Ele só queria colocar as coisas de volta no lugar, com
medo de que o tio Karn pudesse lhe dar uma bronca. Ele abriu
a caixa um pouco para empurrar a fita de volta e paralisou
com o que viu lá dentro.
A fita rosa pertencia a um par de sapatilhas de balé de
cetim.
Elas pareciam tão velhas quanto a própria caixa.
— O que você está fazendo?!
Alguns segundos depois, a porta do quarto se
escancarou. Marn ficou tão assustado que não conseguiu se
mexer. Antes que pudesse explicar, ele foi empurrado com
força e caiu no chão. O tio Karn entrou correndo com o pânico
estampado no rosto. As mãos dele tremiam enquanto ele batia
a porta do armário para fechar.
Marn estava apavorado. Ele queria se desculpar, mas
quando viu a expressão no rosto do tio Karn, todas as palavras
morreram em sua garganta.
O tio Karn estava tremendo todo. No começo, ele encarou
Marn com medo nos olhos. Então, momentos depois, a raiva
explodiu de dentro dele. Pela primeira vez na vida, ele gritou
violentamente com Marn.
— Sai daqui!
— T-Tio Karn...
— Sai daqui!
Marn ficou completamente chocado. Desde o primeiro dia
em que veio morar ali, não importava o quão descontente o tio
Karn estivesse, ele nunca tinha gritado assim — nunca com
uma voz tão assustadora. Marn soube então que o que tinha
feito era errado. Ele estava furioso consigo mesmo.
Queria explicar, dizer que não tinha sido por querer,
contar como tinha acontecido, insistir que não estava
bisbilhotando. Tudo foi um acidente, algo completamente
inesperado. Tantas palavras se amontoavam em sua mente.
Mas, no fim, Marn só conseguia ficar ali sentado em
silêncio.
Porque, naquele momento, ele estava com medo de
verdade do tio Karn.
Aquele par de olhos ardia em um vermelho de raiva.
— Marn... Marn sente muito.
— Eu mandei você sair!
— Snif...
Marn recuou bruscamente, com as lágrimas brotando nos
olhos. Ele se sentia esmagadoramente culpado pelo que tinha
acontecido. O tio Karn gritou com ele furioso, então Marn
juntou as mãos em um gesto de respeito, pedindo desculpas
com a voz trêmula, depois fez uma reverência e saiu do quarto.
O tio Karn se levantou devagar, com o corpo inteiro ainda
tremendo.
A mente de Marn estava completamente em branco. Ele
não sabia mais o que fazer. Deixar o tio Karn com tanta raiva
assim — ele com certeza seria expulso de casa. Seu tio
provavelmente não ia querer mais cuidar dele. Quanto mais
pensava nisso, mais apavorado ficava. O tio Karn era a única
pessoa que restava para Marn. Se fosse abandonado de novo,
ele não tinha ideia do que faria da vida.
No momento em que Marn ia saindo, antes mesmo de
conseguir dar um passo para fora do quarto, um baque alto
ressoou de repente, como se algo pesado tivesse batido no
chão. Ele se virou alarmado.
O que viu fez seu sangue congelar.
O tio Karn tinha desmaiado.
— Tio Karn! Tio Karn!
Karn estava caído imóvel, com o rosto pálido e os olhos
entreabertos, prestes a fechar completamente.
Marn entrou em pânico e continuou chamando por ele.
Em menos de cinco minutos, Karn parou de se mexer
totalmente. Agora era Marn quem estava tremendo
incontrolavelmente de medo. Chamou o nome dele, sacudiu-o,
tentou de tudo — mas Karn não acordava.
Forçando-se a manter a calma, Marn correu escada
abaixo, escancarou o portão e disparou em direção à casa
vizinha, que não ficava longe.
Sentia como se o coração estivesse sendo esmagado, uma
dor se espalhando pelo peito. Quando viu um carro familiar
estacionado na frente daquela casa, foi como se vislumbrasse
um fio de esperança. Correu para lá imediatamente, gritando
por ajuda.
Exatamente como pensou, era o carro de Nathi.
Nathi tinha vindo visitar a mãe naquele dia. Marn correu
e agarrou o braço dele. Nathi, que estava regando as plantas,
franziu a testa preocupado ao ver os olhos de Marn vermelhos
e inchados, correndo em sua direção enquanto soluçava.
— Calma. O que aconteceu? O que houve?
— Snif... por favor, ajuda... ajuda o tio Karn...
— O que aconteceu com ele?
— Ele caiu... ele desmaiou. Não importa o que eu faça, ele
não acorda. Snif...
Isso foi tudo o que Nathi precisou ouvir. Ele correu
imediatamente de volta para a casa de Karn, direto para o
segundo andar. Ao ver Karn caído imóvel, não hesitou —
carregou-o no colo na mesma hora e o levou às pressas para o
carro.
Marn sentou ansioso no banco do passageiro da frente,
virando-se para olhar para o tio repetidas vezes. Enquanto
Nathi dirigia, checava a condição de Karn o tempo todo. Ver o
garoto tremendo e chorando daquele jeito fazia seu peito doer.
Essa era a primeira vez que ele via Marn chorar. Normalmente,
o garoto estava sempre sorrindo, alegre e radiante. Ele devia
estar apavorado ao ver o tio desmaiar daquele jeito.
Nathi esticou uma das mãos e deu um tapinha gentil na
cabeça de Marn enquanto falava para acalmá-lo.
— Fica calmo. Não tenha medo. O tio Karn vai ficar bem.
— Snif...
— Estou levando ele para o hospital. Ele logo estará nas
mãos dos médicos. Não se preocupe.
— Estou com medo...
— ...
— Só tenho o tio Karn agora... snif...
— ...
— Eu realmente só tenho o tio Karn...
Marn estava claramente apavorado. Tudo o que Nathi
podia fazer era continuar confortando-o enquanto dirigia o
mais rápido que podia com segurança. Depois que Karn foi
levado para a sala de emergência, os dois ficaram sentados do
lado de fora esperando.
Marn mantinha as mãos apertadas com força. Nathi
caminhou até lá, agachou-se na frente dele e esfregou seu
ombro gentilmente para ajudá-lo a se acalmar. Marn chorou
até ficar com os olhos completamente vermelhos. De um
garoto que antes sorria tão intensamente, agora só restava
tristeza e culpa pelo que tinha acontecido naquele dia.
Aquilo deve ter mexido profundamente com ele.
— É culpa minha...
— Não se culpe.
— Por minha causa... eu deixei o tio Karn bravo. Ele já
devia estar muito estressado. Ele quase não descansa, e aí...
— Pare. Não tire conclusões precipitadas. Ele está com os
médicos agora. Ele está seguro.
— Snif...
— Respire fundo, está bem?
— O tio Karn deve me odiar agora.
— Ele não odeia.
— Eu sinto muito mesmo... eu não queria fazer aquilo...
Esse garoto se preocupava muito mais do que Nathi
esperava. Marn continuou se culpando sem parar. Demorou
muito tempo até que ele finalmente se acalmasse. Eles
esperaram juntos até que houvesse notícias.
O tio Karn agora estava fora de perigo.
Marn se levantou na mesma hora, ouvindo atentamente a
explicação do médico. O corpo de Karn estava fraco por falta
de repouso e exaustão extrema. Quando um estresse
repentino o atingiu, isso desencadeou uma dor de cabeça
severa e o fez desmaiar.
— Então... aconteceu de novo?
— Hein?
— Nada. Que bom que ele está seguro. Ele vai ficar bem.
Não chore.
Nathi continuou a confortar Marn com gentileza. Pelo que
ele tinha percebido, Marn tinha feito algo que deixou Karn
furioso. Ele gritou com o sobrinho, ferindo-o profundamente.
Aquele surto emocional sobrecarregou o corpo de Karn e levou
ao seu desmaio.
Marn estava extremamente preocupado. Quando Karn foi
tirado da sala de emergência, ele ficou por perto, sem nunca
sair do lado dele. Eventualmente, Karn abriu os olhos.
No momento em que Marn viu que seu tio tinha acordado,
ele imediatamente saiu de fininho. Ver o garoto se afastando
com os ombros caídos e o rosto entristecido fez o coração de
Nathi doer.
— Ei, não levante ainda.
— Não me amola.
Agora era a vez de Nathi ficar com dor de cabeça por
causa desse tio. No momento em que Karn percebeu que
estava no hospital, insistiu em ir para casa. Ele mal saiu da
cama antes de cambalear, quase caindo. Nathi correu para
ampará-lo.
Analisando o rosto de Karn, ele viu nada além de
exaustão e estresse. As sobrancelhas dele estavam bem
franzidas. Karn parecia péssimo — se fosse deixado para
andar sozinho, provavelmente nem chegaria à saída sem
desmaiar de novo.
— O médico disse que você não tem descansado e que tem
passado por muito estresse. Foi por isso que você desmaiou.
— Eu te disse para não se meter.
— P'Karn...
— ...
— Você não tem conseguido dormir de novo, não é?
— ...
— Desde quando?
— Pare de meter o nariz onde não é chamado.
— O Marn está muito preocupado com você, sabia?
— ...
— Ele ficou apavorado quando te viu daquele jeito.
Nathi falou com sinceridade. Ele não sabia para onde
Marn tinha ido agora — provavelmente achando que o tio não
queria mais vê-lo, que ele era odiado. Pensando bem, o garoto
era realmente digno de pena. Sua vida foi marcada por perdas
na família. Nathi ainda lembrava claramente da expressão de
Marn quando ele disse que o tio Karn era o único que lhe
restava. Marn parecia genuinamente aterrorizado.
Ele tinha acabado de perder a avó. O mundo dele inteiro
tinha desabado há pouco tempo. O coração dele nem tinha
cicatrizado totalmente ainda — e então ele teve que presenciar
algo assim. Nathi não conseguia imaginar o quão despedaçado
o garoto devia se sentir.
— Eu não sei o que o Marn fez de errado, mas ele está se
sentindo péssimo. Quando você desmaiou, ele não parava de
chorar, pedindo desculpas, se culpando por tudo, achando
que ele causou tudo isso.
— ...
— Quando você estiver melhor, converse um pouco com
ele.
Mas não adiantou nada. O paciente virou o rosto,
recusando-se a ouvir, insistindo teimosamente em ir para
casa. Nathi disse para ele esperar enquanto ele ia procurar por
Marn.
Quem diria que o garoto se sentiria tão culpado que nem
sequer ousaria encarar o tio?
Marn disse que pegaria um transporte público para casa
primeiro e pediu que Nathi levasse o tio Karn de volta. Por
mais que Nathi tentasse impedi-lo, ele não ouvia. Tio e
sobrinho eram igualmente teimosos em seus próprios jeitos
quietos.
No fim, Nathi teve que retornar sozinho. Ele ajudou Karn
a chegar ao carro. Uma vez sentado, Karn imediatamente
perguntou onde o sobrinho estava. Quando soube que Marn já
tinha ido para casa por conta própria, ele emudeceu na hora.
Aquele garoto estúpido... que droga.
— Ele ficou com medo de que você ainda estivesse bravo,
por isso não quis voltar com a gente. Ele não queria que sua
condição piorasse.
— ...
— Não se preocupe. Eu disse para o Marn voltar e esperar
na minha casa. Eu mesmo vou falar com ele.
Nathi levou o paciente para casa e ajudou Karn a subir
para o quarto para descansar. O outro homem não disse uma
palavra, mantendo a boca fechada não importa o que Nathi
perguntasse. Nathi ficou com ele até que Karn pegasse no sono
novamente. Ele sentou na cama, encarando o rosto pálido com
preocupação, depois baixou o olhar para o pulso de Karn.
Lentamente, ele envolveu a mão em volta dele, virando-o um
pouco para olhar a cicatriz fraca que havia ali. O polegar dele
roçou sobre ela gentilmente.
Essa não era a primeira vez que Nathi carregava aquele
corpo para um carro e o levava às pressas para o hospital...
— Quando é que você vai ser feliz, P'...?
— ...
— Eu não quero te ver assim de novo.
— ...
— O que eu tenho que fazer para você ser mais gentil
consigo mesmo?
Nathi murmurou baixinho. Vendo as olheiras profundas
sob os olhos de Karn, ele só pôde soltar um longo suspiro.
Karn sofria de insônia crônica. Até onde Nathi sabia, ele
era o único ciente disso. Os sintomas dele sempre pioravam
quando algo o afetava emocionalmente. Ao longo dos anos,
isso vinha e voltava. Nathi achou que Karn tinha se
recuperado há muito tempo — nunca imaginou que isso
retornaria dessa forma. Algo deve ter abalado Karn
profundamente para ele ter que lutar contra isso de novo.
Talvez... fosse aquele assunto.
A mãe de Karn tinha falecido há apenas alguns meses.
Embora ele nunca dissesse nada, agisse de forma fria,
indiferente e inabalável... no fundo, ele ainda estava de luto
até hoje.
Nathi frequentemente ouvia Marn falar sobre a avó. Ele
era um bom garoto que a amava de verdade. Ela o criou até ele
crescer, então era natural que perdê-la doesse
profundamente. Mas, uma vez que aceitou a verdade, sua
natureza naturalmente brilhante, alegre e otimista o ajudou a
recuperar o equilíbrio e continuar vivendo. Ele conheceu
novos amigos, entrou em um novo círculo social e o luto foi
diminuindo gradualmente.
Diferente do tio.
Karn sempre teve uma relação distante com a mãe. Ele
nunca falava dela, nunca demonstrava saudade. Ele só
compareceu ao funeral por um único dia. Ele parecia sem
coração — mas, na verdade, estava sofrendo muito mais
profundamente do que Marn. Mesmo agora, ele ainda não
conseguia se livrar do luto.
Nathi deixou o paciente descansando e voltou para casa.
Encontrou seu aluno sentado ali com os olhos vermelhos e
inchados, com o irmão mais novo ao lado dele, confortando-o
sem parar. Marn disse a ele que ainda não ousava ir para casa,
com medo de que o tio Karn ainda estivesse bravo. Ele queria
esperar até que seu tio se acalmasse antes de voltar para se
desculpar devidamente.
Nathi assentiu em compreensão. Não importa o quão forte
o garoto costumasse parecer, no fim ele ainda era apenas um
adolescente com o coração sensível. Então, ele deixou o
consolo por conta de Than, dizendo a Marn para passar a noite
ali. Se as coisas estivessem melhores amanhã, ele poderia
voltar e se desculpar então.
No fim, Marn passou a noite na casa de Nathi, evitando o
tio por enquanto. Ele ainda estava profundamente abalado e
assustado. Ser gritado pelo tio já tinha sido ruim o suficiente
— mas vê-lo desmaiar bem diante de seus olhos tinha sido
ainda pior. Não era estranho que ele estivesse com medo o
suficiente para chorar.
Aquele dia deve ter sido extremamente pesado para Marn.
Ele caiu no sono enquanto ainda soluçava, murmurando pela
avó sem parar. Nathi só pôde pedir a Than e à sua mãe para
ajudarem a cuidar dele, enquanto ele mesmo pegava algumas
roupas e itens pessoais e ia ficar com o paciente na outra casa.
Já era noite. O céu estava um breu total, nada visível.
Nathi nunca esperou que, ao retornar para a casa de Karn,
veria o dono sentado imóvel perto da porta da frente, enrolado
em um cobertor. Karn estava sentado ali em silêncio —
ninguém sabia há quanto tempo ele estava lá. O rosto dele
ainda estava pálido. Ele tinha acabado de adoecer; seria
realmente sensato ficar sentado ao relento na noite fria desse
jeito?
— P'Karn, vá para dentro.
— ...
— Você vai piorar.
Nathi falou gentilmente. Ao ver aqueles olhos encarando o
vazio além do portão, como se esperasse por alguém, ele
começou a entender como o outro homem se sentia.
Então ele realmente estava preocupado com o sobrinho,
afinal.
— O Marn está na minha casa. Ele chorou até dormir.
— ...
— Não se preocupe. Minha mãe está cuidando bem dele.
— ...
O outro homem permaneceu em silêncio. Nathi caminhou
até lá e sentou-se devagar ao lado dele.
— O Marn ainda está com medo de que você esteja bravo.
Ele disse que quer esperar até você se acalmar, para então
voltar e pedir desculpas.
— ...
— Não fique bravo com ele. Ele realmente está se sentindo
péssimo com isso.
— ...
— Você não quer de verdade que ele tenha medo de você
assim, quer?
Nathi olhou de soslaio. Karn continuou a encarar além do
portão, como se ainda esperasse que alguém entrasse. Não
havia brilho nos olhos dele — apenas uma melancolia mais
profunda do que nunca. Fazia muito tempo que Nathi não via
Karn assim.
Ele continuou sem dizer nada.
No fim, Nathi não aguentou mais. Puxou-o para perto e o
abraçou apertado, pressionando o rosto de Karn contra seu
peito enquanto esfregava as costas dele gentilmente.
Dez anos... dez anos atrás, quando Nathi tinha dezessete
anos, ele já tinha desempenhado esse papel antes. Ele
conheceu alguém que o ensinou o quão aterrorizante o luto
podia ser. Um único evento devastador poderia despedaçar
alguém que antes sorria tão lindamente — e a dor poderia
durar até os dias de hoje. Pesadelos o assombravam sem fim.
Não importa o que Nathi fizesse, ele nunca conseguia estender
a mão e libertá-lo daquele ciclo.
Mesmo sabendo perfeitamente que esse era o máximo que
ele conseguia ir, estava tudo bem... mesmo que daqui a vinte
ou trinta anos ele ainda não passasse do garoto da casa ao
lado — estava tudo bem. Algumas coisas, não importa o quão
desesperadamente você tente, nunca sairão do jeito que você
espera. Você só pode fazer o máximo que puder. Pelo menos,
quando Karn estava triste, Nathi só queria ficar ao lado dele —
para não deixá-lo sozinho. Isso era o suficiente.
— Está tudo bem... eu estou aqui.
— ...
— Eu sempre estarei bem aqui com você.
Nenhum som escapou, mas as costas tremendo e a
umidade encharcando o peito de Nathi diziam tudo sobre o
quanto Karn estava sofrendo.
Se lhe fosse concedido um único desejo, ele desejaria que
esse homem fosse finalmente libertado dos pesadelos do
passado.
Ele nunca mais queria ver o P'Karn sofrer assim de novo.
22
— Muito obrigado.
— Você está se sentindo melhor agora?
— Sim. Estou muito melhor. Obrigado de novo, tia.
Marn levantou as mãos em um gesto educado de wai. A
mãe de Than sorriu de volta, olhando para o jovem que tinha
quase a mesma idade de seu filho mais novo.
Ontem, algo sério havia acontecido. Do nada, Marn
apareceu correndo naquela casa, chorando copiosamente,
pedindo ajuda a Nathi. Ele disse que seu tio tinha desmaiado e
perdido a consciência, ficando completamente sem resposta.
Não importava o que ele fizesse, seu tio não acordava, então
Nathi o levou às pressas para o hospital.
Ela ouviu dizer que foi devido à falta de descanso
combinada com o estresse que o fez desmaiar. Esse tipo de
coisa não era incomum entre os adultos; vários de seus
amigos já haviam passado pela mesma situação. O que mais a
surpreendeu foi que o garoto pediu para passar a noite. Nathi
explicou que Marn ainda estava com medo de que seu tio
estivesse bravo e não ousava voltar para casa ainda,
preocupado que a condição de seu tio pudesse piorar
novamente.
Sinceramente, ela não se importava nem um pouco.
Afinal, ele era um garoto da mesma vizinhança. Ela tinha
ouvido falar que ele era uma criança boa e doce — Nathi falava
dele com frequência. Ele também era amigo de Than. Não
havia razão para não ajudar.
Ela só não conseguia deixar de se perguntar o que um
garoto tão gentil poderia ter feito para deixar seu tio tão furioso
— a ponto de o homem desmaiar na frente dele. Ao ver o
quanto Marn tinha medo de encarar seu tio novamente, ela
realmente não conseguia imaginar o quão sério aquilo devia
ter sido.
Nathi tinha passado a noite na outra casa. Ele devia estar
lá ajudando a cuidar do tio de Marn. Ele tinha acabado de ligar
naquela manhã para dizer que a condição dele tinha
melhorado muito, mas que ele ainda precisava de mais
descanso porque estava exausto demais.
Enquanto Marn escutava, ele assentia repetidamente e
dizia que mais tarde, naquela manhã, iria até a casa. Ele disse
que queria se desculpar pessoalmente com o tio mais uma vez
e prometeu que nunca mais faria nada que deixasse seu tio
desconfortável.
Depois do café da manhã, Marn não ficou apenas
sentado. Ele ajudou rapidamente a mãe de Than a arrumar a
casa e lavou a louça com muito cuidado. Quando restaram
apenas os dois na cozinha, Marn finalmente perguntou algo
que o estava incomodando a noite toda.
— Tia, posso te perguntar uma coisa?
— Vá em frente.
— Tia... você conhece o tio Karn, certo?
— Conheço um pouco, mas não somos tão próximos.
Moramos no mesmo beco, então conversamos um pouco.
Nathi é quem costuma ir vê-lo com frequência.
— Há quanto tempo o tio Karn mora aqui?
— Hmm... há muito tempo. Sete anos? Não,
provavelmente mais do que isso. Ele se mudou para cá na
época em que Nathi ainda estava no ensino médio.
Marn assentiu pensativo. Pelo que ouviu, significava que
o tio Karn vivia ali há muito tempo. Era estranho. Desde que
Marn nasceu, ele nunca tinha visto o tio sequer uma vez.
Devia ser porque Karn se mudou para tão longe de sua antiga
casa que não conseguia voltar. Viajar provavelmente não era
muito conveniente naquela época. O tio Karn nunca tinha ido
visitar a avó.
Marn cresceu todo esse tempo e só o conheceu há alguns
meses. Se a avó não tivesse falecido, quem saberia se os dois
algum dia teriam se encontrado?
Por que o tio Karn se mudou para cá sozinho, tão longe de
casa — e nunca voltou para visitar a avó nem uma única vez?
Era realmente estranho...
— Então o tio Karn morou sozinho desde o começo?
— Não, no começo ele tinha...
— Mãe.
Antes que a dona da casa pudesse terminar a frase, uma
voz a interrompeu. Marn se virou e viu que era Nathi. Ele se
aproximou e perguntou como Marn estava. Marn esqueceu
completamente o que estava perguntando à tia e respondeu às
perguntas de Nathi com um sorriso, dizendo que não estava
mais assustado e que tinha se recuperado. Ele disse que,
depois disso, iria para casa pedir desculpas ao tio e que
assumiria os cuidados dele pessoalmente, não querendo
incomodar mais aquela família.
Marn agradeceu a Nathi inúmeras vezes, mas ainda
parecia que não era o suficiente. Nathi tinha levado seu tio ao
hospital, ajudado a cuidar dele depois e, quando soube que
Marn ainda tinha medo de voltar para casa, ele mesmo ficou
para vigiar o paciente. Ele cuidou do tio Karn de todas as
formas, a ponto de Marn se sentir profundamente em dívida.
Depois de terminar a louça, Marn saiu com Nathi.
Quando Than viu os dois juntos, ele os seguiu e ficou por
perto. Ele olhou para Nathi apenas brevemente antes de se
aproximar de Marn. Mesmo agora, Than ainda não estava
acostumado a encarar seu próprio irmão mais velho.
— Estou voltando para casa agora. Eu realmente tenho
que te agradecer, P'Nathi, por ajudar com tudo.
— Mm. Eu vou com você.
— Não, sério, eu me sentiria mal. Já te incomodei tanto.
— Está tudo bem. Não é nada.
— ...
— Quando seu tio está doente, ele fica ainda mais teimoso
do que o normal. Você sozinho não vai conseguir dar conta
dele.
Nathi brincou levemente, aliviando um pouco o ambiente.
Than apenas ficou ali parado, observando em silêncio. Marn
parecia muito melhor naquela manhã. Ontem, o próprio Than
tinha ficado apavorado — ele nunca pensou que veria Marn
chorando tanto. Quando ouviu que seu tio tinha perdido a
consciência, Marn estava tremendo de medo. Desde que se
conheciam, Than nunca tinha visto Marn chorar daquele jeito.
Ele continuava dizendo que não queria perder o tio Karn.
Provavelmente porque, em toda a sua vida, não restava mais
ninguém para Marn. A única pessoa que ele ainda podia
chamar de família era o tio Karn.
Depois de voltar do hospital, Marn não fez nada além de
ficar deitado, chorando silenciosamente sozinho. Não houve a
conversa alegre de costume. Nathi arrumou suas coisas e foi
ficar na outra casa, dizendo a Than com antecedência para
ajudar a confortar Marn. Than ficou sem saber o que fazer —
alguém como ele, confortando outra pessoa? Só de ver Marn
chorar, suas mãos e pés ficavam rígidos.
Mas ele não podia simplesmente deixá-lo sozinho, então
foi até lá, sentou-se ao lado dele e acariciou sua cabeça
gentilmente várias vezes até que Marn finalmente adormeceu,
exausto de tanto chorar. Ver aquilo fez Than sentir um pouco
de pena dele.
Na verdade... a vida de Marn não era tão perfeita assim. O
motivo pelo qual ele conseguia sorrir, manter o otimismo e
encorajar os outros era porque ele vinha fazendo o mesmo por
si mesmo o tempo todo — até que isso se tornou sua segunda
natureza.
Se Marn não sorrisse, não olhasse pelo lado positivo, não
continuasse se encorajando... então ele não seria o Marn que
era hoje.
— Muito obrigado, Than.
— Mm.
— Desculpe por te incomodar.
— ...
— Posso te pedir uma coisa?
— O que é?
— Isso... você poderia ajudar a manter em segredo? Não
conte aos nossos amigos.
— ...
— Eu não quero que ninguém saiba. Acho que o tio Karn
não se sentiria confortável com isso.
— Mm.
— Obrigado.
Marn deu um sorriso fraco, inclinou a cabeça levemente
em agradecimento, depois se virou e saiu da casa com Nathi.
No caminho, Marn não disse uma palavra. Ele estava
estranhamente quieto, fazendo com que Nathi ficasse de olho
nele. Além de ser o vizinho, Nathi também era o professor de
Marn. Normalmente, o garoto era brilhante e alegre. Nathi não
queria que esse incidente destruísse essa parte dele, então
estendeu a mão e bagunçou gentilmente o cabelo do mais
jovem. Marn parou, então olhou lentamente para ele.
— Seu tio não está bravo com você. Não pense demais.
— Sério?
— Sério.
— A culpa é minha... eu sabia que o tio Karn não gosta de
pessoas se intrometendo em seus assuntos particulares, mas
eu fiz mesmo assim. Se ele acabar ficando bravo, então eu
mereço. Eu não deveria ter tocado nas coisas dele.
— Você está pensando demais, garoto. Eu te disse que
está tudo bem, então está tudo bem. Certo?
— Sim...
— Seu tio Karn é, na verdade, uma pessoa muito gentil,
sabe?
— Embora eu o conheça há pouco tempo, posso dizer que
ele é muito gentil.
— Você nunca o conheceu antes, conheceu?
— Não. A primeira vez que nos vimos foi quando a vovó
faleceu. O tio Karn veio me buscar e me trouxe para morar
aqui.
— Entendo...
— Quando eu morava com a vovó, ninguém nunca falava
do tio Karn. Eu só sabia que minha mãe tinha um irmão mais
novo, mas não sabia quem ele era.
— ...
— Durante todo esse tempo, o tio Karn nunca voltou à
casa da vovó nem uma vez. Da infância até agora, eu nunca o
tinha visto sequer uma vez.
— ...
— A mãe do P'Nathi me contou que o tio Karn se mudou
para cá há muito tempo — na época em que o P'Nathi ainda
estava no ensino médio.
— Mm, está certo.
— Isso significa que o P'Nathi conhece o tio Karn há muito
tempo, certo?
— Mm.
Nathi assentiu, ainda com um sorriso fraco. Ele baixou a
mão que estava repousada na cabeça de Marn e, em vez disso,
a entrelaçou atrás das costas. Ele caminhava devagar,
olhando para frente. Aquele beco era o lugar que Nathi
conhecia melhor. Ele nasceu aqui, cresceu aqui. Quando
criança, ele correu de um lado para o outro por este beco
inúmeras vezes. Ele viveu os dias em que a maioria das casas
ainda tinha cercas de madeira, até agora, quando a maioria foi
substituída por muros de concreto. Das árvores grandes e
pequenas que outrora preenchiam suas memórias, apenas
algumas restavam hoje.
A estrada tinha apenas algumas centenas de metros de
extensão, mas guardava centenas de milhares, milhões de
memórias. Para onde quer que olhasse, parecia que imagens
desbotadas estavam se sobrepondo a tudo o que via.
Nathi se lembrava de tudo. Cada memória havia sido
registrada em sua mente — especialmente o dia em que
alguém se mudou pela primeira vez para aquela casa.
Originalmente, não era um lugar adequado para se viver.
Era uma casa abandonada que ficou vazia por muitos anos. O
dono a tinha colocado à venda, mas não importava quantos
anos passassem, ninguém se interessava. O terreno era
considerado sem valor — apertado, rural e longe de qualquer
desenvolvimento. Quem iria querer comprar? Nathi passou
correndo por ela da infância à idade adulta, sempre vendo a
mesma casa deserta tomada por árvores e ervas daninhas,
assustadoramente inquietante.
Mas em uma primavera, quando Nathi tinha cerca de
dezessete anos, aquela casa mal-assombrada há muito
silenciosa foi subitamente renovada, completamente
reformada, até se tornar um lugar onde as pessoas poderiam
viver novamente. Transformou-se em uma casa de tamanho
modesto, aconchegante e convidativa, cercada por árvores e
flores — agradável de se olhar de qualquer ângulo. A casa
mal-assombrada de sua infância tinha ido embora para
sempre.
Certa tarde, Nathi colocou sua mochila escolar no ombro
e caminhou para casa. Ele tinha acabado de terminar o treino
de esportes na escola e, quando saiu, o céu já começava a
escurecer. Seu uniforme parecia um pouco desalinhado. O
adolescente usava um par de fones de ouvido pretos
descolados, cantarolando a música e balançando a cabeça no
ritmo. Enquanto caminhava, seus olhos se voltaram para uma
casa familiar. Mais uma vez, ele passava por ela pela enésima
vez. Inconscientemente, ele diminuiu o passo até parar
quando percebeu que uma luz saía de dentro da chamada
casa mal-assombrada. Seus dois pés pararam. Nathi ficou na
frente da cerca, encarando alguém que saiu segurando um
pequeno vaso de flores branco nas mãos.
Nathi podia dizer isso com certeza — desde o dia em que
nasceu, ele nunca tinha visto ninguém com um sorriso tão
bonito e radiante quanto aquele.
— P'Nathi, do que você está rindo?
Marn se virou para perguntar quando Nathi soltou uma
risadinha de repente. Seu olhar estava fixo em um poste de luz
não muito longe da casa do tio Karn. Marn inclinou a cabeça
em confusão e seguiu sua linha de visão, sem entender o que
era tão engraçado. Não parecia haver nada de especial —
apenas um poste de luz cheio de anúncios rasgados, com mato
crescendo ao redor. Não importava o quanto ele olhasse de
perto, ele ainda não conseguia entender por que Nathi estava
rindo.
— Nada — disse Nathi.
— Hein?
— Eu estava apenas pensando em algo engraçado de
muito tempo atrás.
— Entendi.
— Vamos entrar. Seu tio deve estar esperando.
Nathi fez um gesto para Marn ir na frente enquanto ele o
seguia. Mesmo assim, ele não pôde evitar de se virar para
olhar para aquele poste mais uma vez. Se Marn tivesse se
virado naquele momento, com certeza teria visto o sorriso
fraco no rosto do professor Nathi — uma luz quente brilhando
suavemente em seus olhos.
Bang!
— Ei! Você está bem?
— E-eu estou bem!
— Você bateu a cabeça com força?
— ...
— Dói muito?
— ...
— Você está bem? Ei.
Suspiro... Toda vez que ele pensava naquela memória
embaraçosa do passado, sentia vontade de enterrar o rosto no
chão e sair correndo.
Marn voltou para dentro da casa e parou brevemente
quando viu seu tio sentado na cadeira de descanso longa — o
lugar de costume de Karn. Sua aparência não tinha melhorado
muito; ele ainda parecia pálido e claramente exausto. O tio
Karn não se virou para olhá-lo, nem disse uma palavra, o que
só deixou Marn mais tenso. Felizmente, Nathi estava ao seu
lado. Marn respirou fundo, reuniu coragem e se aproximou.
Ele se ajoelhou ao lado da cadeira, levantou as duas mãos
e as pressionou juntas em um wai, pedindo desculpas ao seu
tio com remorso sincero.
— Eu sinto muito de verdade, tio Karn. Eu estava errado.
— ...
— De agora em diante, não farei mais isso.
— ...
— Eu sei que acabamos de nos conhecer e ainda há
muitas coisas em que podemos não concordar. Para o senhor,
tio Karn, eu posso ser apenas um estranho — um garoto de
quem sabe onde — que de repente se tornou um fardo para o
senhor cuidar, embora eu não seja sua responsabilidade de
forma alguma. O senhor poderia ter me deixado ir lutar em
outro lugar, mas foi gentil o suficiente para me acolher. Sou
muito grato... e muito feliz por estar aqui.
— ...
— Mas para mim... o senhor é a única família que me
resta.
— ...
— Embora eu o conheça há pouco tempo, eu o respeito e o
amo muito. Não quero deixá-lo desconfortável ou
decepcioná-lo.
— ...
— De agora em diante... eu prometo que serei um garoto
melhor. Não vou deixá-lo bravo de novo.
— ...
— Eu mesmo vou cuidar do senhor. Nunca mais vou
deixar o senhor ficar daquele jeito. Eu tenho muito medo de
perder outro membro da família...
Sua voz tremeu, seus olhos arderam de vermelho. A
princípio, ele estava determinado a não chorar, mas, no fim,
não conseguiu conter. Ele olhava de relance para o rosto de
seu guardião, mas o outro homem permanecia imóvel, nem
sequer se virando. Tio Karn parecia magro e abatido. Seu
longo cabelo preto estava solto, fazendo seu rosto parecer
ainda mais pálido. Marn não tinha ideia se seu tio o havia
perdoado ou se ainda estava bravo, mas ele já havia se
decidido — se o tio Karn não se virasse e falasse com ele, ele
não sairia daquele lugar.
— P' Karn.
— ...
— Por favor, perdoe seu sobrinho.
Observando de lado, Nathi entendia os pensamentos e
ações de Marn. Ele sabia que se Karn ficasse em silêncio por
mais tempo, Marn nunca se moveria dali. A casa estava
mortalmente silenciosa, preenchida apenas pelo som do vento
e dos pássaros do lado de fora. Marn engoliu em seco, com
seus grandes olhos implorando enquanto encarava o tio.
Depois de quase cinco minutos, Karn finalmente fechou
os olhos, soltou um longo suspiro e falou por fim.
— Já chega de pedir desculpas.
— Tio Karn...
— Vá descansar um pouco.
— Obrigado... muito obrigado, tio Karn.
Os olhos de Marn se encheram de lágrimas de alívio. Ele
se virou para Nathi e abriu um sorriso largo. Mas antes que
pudesse dizer qualquer outra coisa, o dono da casa se
levantou de repente e saiu. Quando Marn tentou segui-lo, foi
instruído a não fazer isso. Vendo aquilo, Nathi disse a Marn
para esperar em casa e deixar que ele cuidasse do resto.
O garoto assentiu repetidamente, dizendo ao tio que
esperaria ali e cuidaria das tarefas domésticas. Ele também o
lembrou de se cuidar — ele tinha acabado de se recuperar e
não deveria se expor muito ao sol ou ao vento.
No fim, Marn ficou para trás enquanto Karn caminhava
em direção ao seu carro. Nathi adivinhou que Karn queria ir a
algum lugar, então se ofereceu para dirigir. Ele pegou as
chaves, deixando o dono do carro sentado em silêncio.
Durante todo o trajeto, Karn não disse uma única palavra,
apenas olhando fixamente pela janela. Vendo aquilo, Nathi
ficou preocupado.
Ele continuou dirigindo cada vez mais longe, até
passarem pela área residencial. Então ele ligou a seta e
encostou no acostamento da estrada. À frente estendia-se
uma ampla faixa de pastagem coberta de mato. Era uma
rodovia rural, ladeada de ambos os lados por árvores e ervas
daninhas. Assim que o carro parou, Karn abriu a porta
lentamente e sentou-se à beira da estrada, olhando para longe
com olhos cansados.
Ver o homem mais velho daquele jeito fez Nathi se
preocupar ainda mais. Ele pegou uma jaqueta no carro,
colocou-a sobre os ombros de Karn e depois se agachou
lentamente para se sentar ao lado dele.
— Não fique bravo com o Marn.
— Não estou bravo.
— ...
— Não tenho motivos para estar bravo com ele.
— Então por que você o ignorou daquele jeito?
— Eu não queria ver o rosto dele.
— P' Karn...
— Eu não queria ver o rosto do Marn.
— ...
— Quanto mais eu o vejo, mais dói.
— ...
— Dói vê-lo crescer tão bem.
— ...
— Toda vez que ouço Marn dizer algo bom, dói ainda
mais.
— Por quê? Por que vê-lo crescer tão bem faz você se
sentir assim? Por que ouvir ele dizer coisas boas faz você se
sentir mal? Marn é alguém com um coração muito bom. Ele
ainda é tão jovem, mas já tem sido uma fonte de força para
tantas pessoas. Ele é brilhante, alegre e gentil. Não importa
quantas coisas ruins a vida jogue nele, ele as supera com um
sorriso. Você deveria estar feliz por ter um sobrinho tão forte.
Nathi falou com sinceridade. Ele havia admirado Marn em
seu coração inúmeras vezes. O garoto era amável e cativante.
Sua vida foi repleta de dificuldades, não menos que a de
qualquer outra pessoa, mas ele conseguiu superá-las. Sua
atitude, seu otimismo — realmente tinham o poder de
transformar coisas ruins em algo bom. Basta olhar para ele
agora: um feixe de energia positiva, espalhando brilho para
seus amigos e para todos ao redor dele. Qualquer um que
ficasse perto dele não conseguia evitar se sentir mais feliz
também.
Ainda havia tantas coisas que Nathi queria dizer sobre
Marn, mas no momento em que viu a vermelhidão nos olhos
da pessoa ao seu lado, todas aquelas palavras sumiram de
uma vez.
— É exatamente por isso que estou triste.
— ...
— Marn só tem essa idade, mas é mais feliz do que
qualquer um.
— ...
— Toda vez que vejo o rosto dele, só tem uma pergunta na
minha cabeça: por que, por que....
— ...
— Por que a minha mãe conseguiu criar ele tão bem....
— P'Karn.
— Por que ela conseguiu dar tanto amor para ele....
— Quando eu tinha a idade do Marn... o que eu sabia,
além de sentir dor?
— ...
— Mas olha para o Marn agora. Não está vendo, Nathi?
Ele sabe como fazer as outras pessoas felizes. Ele sabe como
encorajar os outros. Não importa quem esteja perto dele, todos
acabam se sentindo melhor.
— ...
— Como eu poderia fazer alguém feliz... se eu mesmo
nunca soube como é a sensação de ser feliz?
Karn falou com a voz trêmula. Sua visão ficou
completamente embaçada enquanto ele sufocava os soluços,
com a dor se espalhando pelo peito. Lágrimas quentes
escorreram pelo seu rosto. Nathi, sentado ao lado dele,
lentamente o puxou para um abraço, segurando sua mão
trêmula com força e sussurrando palavras gentis de conforto.
Mas, naquele momento, nada disso chegava até Karn.
Ele tinha trinta e sete anos, mas se sentia
descaradamente com inveja de uma criança vinte anos mais
nova que ele.
Ele tinha inveja toda vez que Marn conseguia fazer o que
queria.
Inveja toda vez que ouvia Marn falar sobre os
ensinamentos gentis da avó com um sorriso. Inveja toda vez
que via o quanto Marn era feliz.
Aquela mulher... ela destruiu a vida de uma pessoa
completamente, estilhaçou tudo além de qualquer conserto,
mas, ao mesmo tempo, criou uma vida linda para outra. Como
ela pôde fazer isso? Como era possível?
Por que ele, o filho biológico dela, teve que sofrer por tanto
tempo? Por que não foi ele quem pôde ser feliz? Por que tinha
que ser o Marn?
Marn nunca saberia que toda vez que Karn o via sorrir ou
rir com felicidade genuína, Karn via a sombra de uma criança
sentada sozinha no canto de um quarto, abraçando a si
mesma e chorando de solidão, aguentando tudo por conta
própria.
O contraste era tão forte que ele não conseguia mais
suportar. Foi por isso que ele disse em voz alta: quanto mais
feliz Marn era, mais profunda se tornava a dor de Karn.
— Minha mãe ensinou uma coisa ao Marn uma vez —
Karn disse suavemente.
— ...
— Ela disse que, mesmo que o Marn não fosse bom em
nada, estava tudo bem. Mesmo que ele não pudesse competir
com os outros, estava tudo bem também.
— ...
— Apenas ser ele mesmo já era o melhor de tudo.
Como ela pôde dizer aquilo? Como ela ousou dizer essas
palavras para o Marn? Seja você mesmo, isso é o suficiente...
Como ela pôde dizer isso tão facilmente?
— Mãe!
— Chega! Pode parar com isso agora?! Eu não aguento
mais!.
— ...
— Pare de agir como uma criança problemática!.
— Uma criança problemática...?
— Pare de ser assim, Karn.
— ...
— Considere isso como sua mãe te implorando.
— E quanto a mim? Eu não tenho permissão para
implorar?
— Karn.
— Por que você espera tanto de mim....
— ...
— Você já me perguntou uma única vez se eu sou feliz? Se
eu já fui verdadeiramente feliz em algum momento? Eu fiz tudo
por você a minha vida inteira!.
— E eu não fiz tudo por você? Tudo o que eu fiz foi pelo seu
bem!.
— Mãe....
— Você é meu filho, Karn. Eu não suporto deixar você ir
pelo caminho errado. Você está em um momento decisivo da sua
vida. Você pode encontrar amigos que te levem para coisas
estranhas... e aquele seu amigo....
— Se você não quer aceitar, tudo bem. Mas é a verdade.
— Você pode tentar me entender? Eu só tenho os meus
filhos....
— E você alguma vez já tentou me entender?
— Você é meu filho. Então pare de agir assim.
— ...
— Não seja assim... eu não posso aceitar isso.
Naquele momento, que esperança ainda restava para ele?
Se a sua própria mãe não conseguia aceitá-lo, quem mais o
celebraria?
Estalo!
— M... Mãe.
— Tira isso. Agora mesmo!.
— ...
— O dinheiro que eu te dei para a monitoria... você usou
para esse tipo de coisa?
— ...
— Quantas vezes você já me decepcionou, Karn?
Ele tinha sido atingido inúmeras vezes, vezes demais para
contar. Levou tantos tapas que perdeu a conta. Mas, em todas
as vezes, ele aguentou. Ele nunca chorou, nunca mostrou
fraqueza. Ele enterrou a dor no fundo do coração, misturando
tudo até que não conseguisse mais distinguir um sentimento
do outro. Dia após dia, aquilo foi se acumulando, afundando
cada vez mais, até que nem ele mesmo conseguisse mais
encontrar.
Às vezes, ele sentia um vazio esmagador, sem nem saber o
motivo.
Ele se tornou alguém que a mãe nunca quis que ele fosse.
Ele fez coisas que ela nunca quis que ele fizesse.
A família dele poderia ser chamada de "boa"... ou talvez
"ruim" também.
A mãe dele era mãe solo, abandonada pelo marido,
deixada para criar dois filhos sozinha. A filha mais velha era
motivo de orgulho: inteligente, educada, alguém de quem ela
podia se gabar sem vergonha. Ela sonhava com um futuro
brilhante para ela.
Como filho mais novo, ele tinha que seguir os passos da
irmã. Ele tinha que ser capaz, tinha que ser bom, tinha que ser
perfeito, exatamente como ela.
Ninguém nunca soube o quanto as palavras "filho único"
pesavam para uma criança.
Karn carregou esse peso por dezessete anos; carregou
mesmo quando seu corpo e seu coração desmoronaram
completamente. Sua mãe nunca aceitou as escolhas que ele
fez e nunca permitiu que ele fizesse o que realmente queria.
No dia em que ele segurou a mão de alguém e o levou até
ela, ela lançou insultos sem restrições, dizendo que aquela
pessoa era a razão de Karn ter perdido o futuro, que eles o
fizeram crescer errado.
Ela não sabia de nada; nada sobre como ela mesma foi
quem fez o filho crescer quebrado, enquanto continuava a
despedaçar o coração dele repetidas vezes.
A pessoa que ela amaldiçoava e condenava, por outro
lado, era quem continuava consertando e curando ele, uma
vez após a outra.
Enquanto a mãe o proibia de fazer o que queria, era
justamente a pessoa que ela desprezava quem o apoiava e
encorajava sem parar.
Karn suportou inúmeras coisas terríveis, sofreu mais dor
do que podia contar e, ainda assim, sempre conseguiu
sobreviver.
Mas nada foi tão devastador quanto aquela vez.
— Mãe... eu estou te implorando. Por favor... Mãe.
— Eu nunca pensei que você se tornaria alguém tão ruim.
— Mãe....
— Você sabe o quanto estou decepcionada com você?
— ...
— Te ver vestido desse jeito, lá em cima se apresentando...
você não tem vergonha? Você já pensou em preservar a minha
honra?
— Sniff...
— ...
— Karn, por que você é assim?
— Eu quero que você estude mais, que tenha uma vida
mais fácil. Por que você não consegue entender? Por que tem
que destruir o seu futuro desse jeito? Olha, está vendo como as
pessoas estão olhando para você agora?
— Mãe, isso é o que eu quero fazer....
— Chega!.
— ...
— Não vou deixar você destruir o seu futuro nem mais um
pouco.
O sonho dele — o que ele realmente queria — foi destruído
pela própria mãe, bem diante dos seus olhos.
Tudo o que restou foi um par de sapatos gastos, deixados
para trás como prova.
Era realmente inacreditável... que a mesma pessoa
pudesse criar o Marn para crescer tão bem.
Nathi se abaixou para olhar a pessoa em seus braços. O
choro de Karn só ficava mais pesado, seu corpo tremia
incontrolavelmente, então Nathi apertou o abraço e se
aproximou ainda mais. Ele falou baixinho, com firmeza,
enquanto apertava a mão trêmula que segurava, esperando
acalmar seu tio tão capaz.
— Karn... Karn, me escuta....
— Sniff...
— Eu sei o quanto você está sofrendo. Eu sei que você
carregou essa dor a vida inteira. O que você passou... não
importa o que alguém faça, nada poderia realmente
compensar isso.
— ...
— Sua mãe deve ter percebido onde errou... por isso ela
tentou consertar as coisas através do Marn.
— ...
— Você é incrivelmente forte, Karn. Você é incrível. Você
passou por tantas coisas terríveis sem ninguém para te apoiar
do jeito que o Marn tem alguém agora, e mesmo assim você
sobreviveu.
— ...
— Para mim, Karn, você é a pessoa mais forte que eu
conheço. Tudo o que você fez, cada decisão que tomou, foi o
melhor que você podia fazer.
— Nathi....
— Sua mãe só pôde criar o Marn até aqui... ela só pôde
trazê-lo até esse ponto. Ela provavelmente esperava que você
fosse capaz de cuidar dele, de ajudá-lo a ir mais longe do que
ela jamais poderia. Você pode achar que o Marn já está bem, já
é capaz, mas a verdade é que ele ainda tem muito o que
aprender. Ele ainda precisa de alguém para guiá-lo. Agora, ele
não tem mais ninguém além de você. Marn tem apenas
dezessete anos. Ninguém sabe que tipo de adulto ele vai se
tornar. No momento, ele não é diferente de quem você era
naquela época. Ele também é solitário... está lutando para
sobreviver do jeito dele.
— ...
— A pessoa que pode ensinar ao Marn como crescer e ser
um bom adulto... é você.
— ...
— Você não ia querer que o Marn passasse pelas mesmas
coisas que você passou, ia?
— ...
— Tenho certeza de que você pode ajudar o Marn a
crescer e ser uma boa pessoa.
— ...
— Eu quero que o Marn seja forte como você. Bondoso
como você. Gentil como você. Eu quero que ele supere cada
obstáculo do jeito que você superou.
— ...
— Agora, você pode sentir dor só de ver o rosto do Marn.
Mas um dia... você vai ficar tão feliz por poder vê-lo. Você vai
ficar tão feliz quando vir o quanto o sorriso dele brilha.
— ... Vai ser assim mesmo?
— Aos olhos do Marn, ele te admira demais. Você pode
querer ser como o Marn... mas a verdade é que o Marn quer ser
como você também. Ele está se esforçando tanto para ser forte
como você. Eu pensei em como você era quando tinha
dezessete anos... e agora, só de olhar para o Marn, é como se
eu finalmente pudesse ver.
— ...
— No futuro, ele vai se tornar alguém incrível, igualzinho
ao tio dele. Eu acredito de verdade nisso.
Nathi falou com um sorriso, esfregando suavemente a
cicatriz no pulso de Karn com o polegar antes de erguer o olhar
para encontrar os olhos de Karn. Karn parecia bem mais
calmo agora. Seus olhos ainda estavam vermelhos, mas o
soluço tinha parado. A brisa fresca que soprava dos dois lados
parecia levar sua tristeza embora.
Nathi levantou uma mão para enxugar as lágrimas do
rosto de Karn, afastando os fios de cabelo preto para trás da
orelha para que seu rosto ficasse totalmente visível. Então ele
apertou uma bochecha e a puxou para fora de brincadeira,
rindo com um sorriso largo que mostrava seus caninos
proeminentes.
— Você é a sorte do Marn. Você é a esperança dele. Então,
querida sorte, querida esperança... por favor, não chore mais,
está bem?
— Para de falar logo.
— Sua mãe provavelmente está te observando de algum
lugar. E tenho certeza de que ela se sente culpada também,
quer pedir desculpas, quer compensar. Mas ela não tem mais
essa chance. Por isso ela tentou se redimir através do Marn.
Ela tentou criá-lo da melhor forma que pôde, para cuidar dele
direito, para não repetir o mesmo erro de novo. Você pode ter
inveja do Marn se quiser, mas eu quero que você saiba disto:
talvez sua mãe tenha se esforçado tanto com o Marn porque
ela via você nele.
— Não fale mais dela. Eu não quero saber o que ela estava
pensando quando criou o Marn daquele jeito. Saber não vai
melhorar nada. Está tudo no passado. Desenterrar isso de
novo só dói mais.
— Karn...
— Se ela estiver mesmo assistindo de algum lugar... então
eu quero que ela olhe bem.
— ...
— Olhe para o que as ações dela fizeram com a vida do
próprio filho. Olhe por que o filho dela está sentado aqui
sofrendo desse jeito. Olhe com atenção.
— ...
— E se ela sentir arrependimento... então eu quero que
ela saiba que não é nem metade do que eu sinto.
Karn falou com a voz trêmula e depois levantou as duas
mãos para esfregar o rosto. Ele respirou fundo várias vezes
para se acalmar antes de se levantar lentamente do chão,
pretendendo voltar para o carro.
Mas ele parou quando uma pequena flor silvestre foi
subitamente estendida na sua frente.
A minúscula flor branca tremia suavemente. Karn parecia
totalmente exausto e lançou um olhar feio para a pessoa ao
seu lado, que continuava sorrindo descaradamente.
— Já está se sentindo melhor?
— Não mexe comigo.
— Se ainda não estiver melhor, eu te levo para passear
pelo país inteiro para ver as vistas.
— O carro é meu.
— Eu pago a gasolina, então.
— Corta essa.
— Me responde primeiro: está se sentindo melhor ou não?
— Se eu estou melhor ou não, o que você tem a ver com
isso?
— Você sabe muito bem o porquê.
— ...
— Eu nunca quero te ver triste.
— ...
— Mesmo que eu já tenha visto isso tantas vezes antes...
toda vez eu desejo que seja a última. Desejo que nunca
aconteça de novo.
— Você não pode impedir isso, Nathi.
— Eu não estou tentando impedir. Só estou esperando
que não aconteça.
— ...
— Você pode chorar por mais cinco anos, dez anos... eu
ainda vou estar bem aqui.
— ...
— Vou esperar até ver o seu sorriso de novo.
Nathi prendeu a florzinha no cabelo escuro de Karn. Karn
ficou parado, encarando o rosto de Nathi. Nathi abriu um
sorriso largo para ele, com os olhos se fechando em fendas,
seus caninos claramente visíveis.
Karn não sabia o que dizer. Ele apenas balançou a cabeça
antes de esticar a mão para dar um tapinha gentil na cabeça
do homem mais novo.
Dez anos haviam se passado... desde a primeira vez que
se encontraram.
Aquele garoto do ensino médio já tinha crescido tanto.
— Irritante.
— Você acha que eu sou irritante de novo, é?
— Vamos voltar. O Marn está sozinho em casa.
— Ah, fala sério. O Marn sabe cuidar de si mesmo. Ele
tem dezessete anos, não três. Deixar ele sozinho em casa não
tem problema nenhum.
— Ele é meu sobrinho.
— Oh? Você consegue falar isso tão facilmente agora,
hein?
— Eu não deveria ter te trazido junto. Droga, você fala
demais.
— Eu poderia ter ficado em casa também. Consigo vigiar
sua casa muito bem.
— Então por que não ficou?
— Porque, se eu tiver que escolher entre a sua casa e
você... eu escolho você.
— Para de falar bobagem.
— Tudo o que eu digo ou é irritante ou é bobagem. É só
isso que eu valho? Ei, espera, Karn! Por que você já está
entrando no carro?
Karn revirou os olhos e abriu a porta, entrando primeiro
no banco de trás. Ele cruzou os braços e observou Nathi dar a
volta até o lado do motorista e entrar. No momento em que
aquele homem problemático se sentou, ele se virou e sorriu de
novo; um sorriso irritante, com os olhos brilhando.
Honestamente, aquele olhar dava vontade no Karn de enfiar o
dedo nos olhos dele.
— Au! Au!
— Você...!
Karn arquejou, completamente sem palavras, quando
Nathi de repente levantou as duas mãos, abriu a boca, latiu,
colocou a língua para fora e começou a agir como um
cachorro.
O homem mais velho só pôde levar a mão à testa e desviar
o olhar, envergonhado. Nathi já tinha uns vinte e seis ou vinte
e sete anos, era um professor formado com inúmeros alunos, e
ali estava ele, agindo de forma ridícula sem um pingo de
vergonha.
— O que foi? Eu sou seu cão de guarda, Tio Karn.
— Já chega, Nathi... oh, para com isso! Você é um
moleque!
Nathi caiu na gargalhada, claramente satisfeito consigo
mesmo. Quando ele se inclinou para se esfregar nele, Karn se
afastou apressado até seu corpo encostar na porta do carro,
com as duas mãos empurrando o rosto de Nathi, tentando
manter certa distância. Eles ficaram brincando de briga assim
por um tempo, até que o tal cão de guarda deu um ganido
quando Karn torceu sua orelha. Nathi soltou na hora,
recuando e esfregando a orelha, resmungando de dor sem
parar.
— Bem feito.
Karn bufou, franzindo o rosto com irritação e
resmungando baixinho. Mas, em vez de se sentir culpado,
Nathi apenas sorriu ainda mais, dirigindo para casa com o
rosto radiante.
Ele estava feliz, porque não havia mais lágrimas no rosto
de Karn. Ele só podia esperar que aquela fosse a última vez
que Karn chorasse, que, de agora em diante, esse seu tio
nunca mais tivesse que enfrentar tamanha tristeza.
Para Nathi... aquilo já era mais do que suficiente.
No fundo, ele sabia muito bem que, por mais que
tentasse, nunca seria capaz de ocupar aquele lugar ao lado de
Karn. Aquele lugar sempre estivera vazio, e sempre estaria.
Karn nunca tinha permitido que ninguém, nem uma
única pessoa, ocupasse aquele lugar por ele.
23
— Tio Karn, cuidado que está quente.
— Eu sei.
— Aqui está o seu remédio, tá? O Marn deixou bem aqui.
Está tudo pronto. Não esqueça de tomar.
— ...
— E a água morna, o Marn colocou...
— Já chega. Vá logo para a escola.
O dono da casa não pôde evitar um suspiro de irritação.
Ele não sabia se tinha cometido um erro ao deixar Marn se
aproximar tanto de Nathi — agora o garoto tinha se tornado
mais um tagarela. No momento em que Karn ficou levemente
doente, Marn se preocupou excessivamente, recusando-se a
deixá-lo se mexer ou fazer qualquer coisa, dizendo
constantemente para ele se deitar e descansar.
Karn tinha trinta e sete anos, quase quarenta, e lá estava
ele sendo sermoneado pelo sobrinho. Como ele não franziria as
sobrancelhas de irritação?
Eles haviam parado temporariamente de vender leite de
soja e massa frita na barraca, planejando retomar as
atividades apenas quando Karn estivesse totalmente
recuperado. Marn tinha se sentado com ele, com os joelhos
abraçados contra o peito, propondo que vendessem apenas
uma vez por dia de agora em diante — nada de manhã e noite
como antes. Era exaustivo demais. Ou, se não quisessem
reduzir as horas, que pelo menos aumentassem os dias de
descanso para que Karn tivesse mais tempo para se recuperar.
Marn sugeriu inúmeras opções, tudo para evitar que seu
tio se sobrecarregasse. Ele estava realmente preocupado; a
imagem de Karn desmaiando no chão ainda estava gravada
em sua mente.
No início, Karn ouviu com descaso, ignorando as palavras
do garoto. Mas quando Marn começou a dizer o quanto estava
preocupado, olhando para ele com olhos suplicantes e
repetindo, com uma voz desanimada e de dar pena, que o tio
Karn era a única família que ele tinha, Karn não teve mais
energia para discutir.
Ele finalmente concordou com a cabeça. Não que
pretendesse cumprir aquilo para sempre — ele resolveria isso
de novo assim que estivesse totalmente recuperado. Por
enquanto, apenas concordou para deixar o garoto feliz.
Como naquela manhã — Marn tinha acordado às cinco,
preparado canja de porco quente para ele, além de deixar a
água e o remédio prontos. Desde que Karn adoeceu, aquele
garoto tinha se tornado duas vezes mais diligente,
desdobrando-se para cuidar de todas as tarefas domésticas.
Era como se estivesse se esforçando ao máximo para ganhar o
favor de seu tio.
Karn não sabia o que dizer. Era verdade que ele tinha
desmaiado e sido levado às pressas para o hospital naquele
dia, mas depois de descansar um dia ou dois, já estava com as
forças renovadas. Ele não era fraco. Sempre foi saudável,
capaz de trabalho duro. Era Marn quem não parava de se
preocupar.
Só de vê-lo sentado calmamente comendo a canja, Marn
correu para colocar um pano sobre seus ombros, lembrando-o
de descansar bem, de se cuidar e de se manter aquecido —
porque o tempo estava mudando com frequência, quente num
momento e chuvoso no próximo, e ele tinha medo que seu tio
pegasse um resfriado.
Suspiro... logo agora que eu estava começando a me sentir
melhor, a dor de cabeça está voltando.
— Tio Karn, eu já recolhi a roupa. Coloquei em cima da
mesa — dobrei tudo direitinho.
— Hum.
— Estou indo para a escola agora. Se houver algo urgente,
você pode ligar para o P'Nathi a qualquer momento.
Karn estalou a língua com irritação. Ele realmente não
gostava de ser paparicado desse jeito, com todo mundo o
bajulando e dizendo o que fazer. O dia inteiro era a mesma
frase: descanse o suficiente.
É muito irritante.
Marn levou a louça para a pia, não deixando Karn fazer
isso. Depois de lavar, ele enxugou e guardou tudo de forma
organizada. Às vezes, se tivesse tempo, acordava cedo para
preparar uma marmita para levar para a escola — talvez um
omelete simples ou arroz frito com porco, apenas o suficiente
para encher o estômago. Se não tivesse tempo, apenas levava
sua própria tigela, colher e garfo para comer na escola. Sua
mochila estava sempre cheia de itens pessoais: garrafa de
água, copo, utensílios. Depois de comer, ele mesmo lavava e
guardava tudo. Marn gerenciava a própria vida muito bem.
Karn se sentia como nada mais do que um guardião
apenas no nome. Ele mal precisava interferir na vida de Marn
— o garoto resolvia tudo sozinho.
— Estou indo para a escola agora, tio Karn. Não esqueça
de descansar bem.
— Vá logo, você vai se atrasar.
— Vou voltar correndo para cuidar de você.
Karn soltou um longo suspiro, observando as costas de
Marn se distanciarem. Finalmente, o sobrinho intrometido
tinha ido para a escola. Sempre ocupado cuidando do tio,
mesmo que não fosse nem um pouco necessário.
Não precisava pensar muito; Karn sabia muito bem que
alguém tinha colocado aquelas ideias na cabeça do garoto.
Nathi... sussurrando no ouvido de uma criança, dizendo para
fazer isso e aquilo. Que irritante. Na próxima vez que o visse,
torceria a orelha dele com força.
O homem recém-recuperado olhou para a tigela de canja
antes de tomar outra colherada. Não estava ruim —
perfeitamente comestível. Marn tinha cozinhado para ele, e
terminar a panela inteira o deixou confortavelmente satisfeito.
A preocupação daquele garoto era realmente enorme.
Quanto ao incidente que antes causara tensão entre eles
— Marn já havia pedido desculpas, e Karn fingiu esquecer,
nunca mais tocando no assunto. Embora agisse com
indiferença, ele sabia que, desde então, Marn tinha se tornado
muito mais cauteloso com suas palavras e ações.
Aquele garoto... se importava demais com os outros, tanto
que chegava a ser irritante.
— Hoje o Hem vai competir no concurso de drama
histórico. Estou animado por ele — eu queria muito vê-lo
atuar de verdade pelo menos uma vez.
— É a rodada da manhã, e eles anunciam os resultados
na noite do mesmo dia, né? Bem, competições assim só
envolvem algumas escolas de qualquer forma. Sem
orçamento, você não consegue nem enviar uma equipe,
cenários, equipamentos, figurinos, maquiagem... é um tipo de
competição terrivelmente cara. Depois, tudo o que eles fizeram
é jogado fora. Suspiro... ainda assim, espero que aquele cara
dê o seu melhor. Eles provavelmente vão anunciar os
resultados amanhã de manhã no pátio da bandeira.
— Eu queria que pudéssemos ir torcer por ele.
— Nós estivemos apoiando ele o tempo todo.
— Espero que o Hem vença. Quero que ele ganhe um
prêmio — para compensar todo o esforço que ele fez.
Ying assentiu concordando. Então, tanto ela quanto Marn
juntaram as mãos, rezando para o vento e para o céu,
esperando que seu desejo se tornasse realidade — enviando
incentivo através da brisa para o amigo, que agora
desempenhava um papel importante.
Hem estava representando-os na competição de drama
histórico, interpretando o personagem de maior destaque. Sua
habilidade de atuação realmente combinava com aquele papel.
Ele tinha grandes sonhos, e a vitória de hoje poderia se tornar
o degrau que o levaria ao futuro brilhante que ele tanto
desejava.
Marn só podia rezar pelo sucesso do amigo. Ele sabia o
quanto Hem tinha trabalhado duro — como enfrentou
contratempos, foi removido de papéis, designado para outros,
forçado a sair de clubes e equipes. Levou muito tempo para
Hem finalmente ter outra chance de provar seu valor, e agora
restava pouco tempo. Nestes dias restantes, Hem treinou
incansavelmente para estar pronto para a competição real.
Não importa qual fosse o resultado, Marn e o resto do
grupo já haviam prometido uns aos outros — eles estariam ao
lado de Hem e o apoiariam, não importa o que acontecesse.
Quando Hem não ia à escola, Ying se sentia inquieta e
entediada. Sem seu parceiro habitual de discussões, era como
se o mundo inteiro tivesse ficado silencioso e solitário. Se ela
tentasse falar com Ryu, ele não era de falar muito. Falar com o
Than era ainda pior. Isso deixava apenas Marn como alguém
com quem ela ainda podia conversar.
Sempre que tinha tempo livre, Ying procurava uma
chance de se sentar ao lado dele, cutucando-o e tagarelando
sem parar sobre isso e aquilo — filmes, dramas, esportes e até
sobre as pessoas de quem gostava. Marn apenas a
acompanhava. Na verdade, ele não era alguém que tinha
muito o que falar. Sabia um pouco sobre filmes, mal dava
conta de esportes, então ele fazia principalmente o papel de
ouvinte, sentado ali ouvindo Ying falar sobre tudo. Na verdade,
era bem agradável.
— Então, qual é o seu tipo, Marn? Eu quero muito saber.
— Eu não tenho um tipo.
— Você tem que ter um. Tipo, você gosta de pessoas com
cabelo comprido ou curto? Alguém certinho e comportado, ou
alguém brilhante e alegre?
— Ahn...
— E então? Eu quero muito saber.
— Eu nunca pensei nisso antes. Sinceramente, não sei
responder.
— Hein... você nunca pensou em ter uma namorada?
— Ha ha... ninguém ia querer ser minha namorada de
qualquer jeito.
— Não se coloque para baixo assim, Marn. Todo mundo
tem seu valor.
— Obrigado, Ying.
— Cara, estou tão curiosa. Que tipo de pessoa realmente
ganharia o coração do Marn? Eu quero muito saber.
Ying resmungou, apoiando o queixo na mão e fazendo
beicinho, parecendo genuinamente curiosa. Sem um parceiro
para provocar e brigar, ela devia estar especialmente solitária.
— Se eu pensar bem... hum. Para mim, provavelmente
seria alguém calmo e gentil.
— Oh, então você gosta de pessoas gentis?
— E elas teriam que me entender também. Teriam que me
aceitar como eu sou.
— Isso é tudo coisa abstrata. Me dá algo concreto!
— Eu não tenho nenhum tipo específico que eu goste.
— Sério?
— Hum.
— Cabelo comprido? Cabelo curto? Tailandesa ou
estrangeira?
— Só de ser gentil já é o suficiente para mim.
Marn respondeu com um sorriso fraco. Ying pareceu
impressionada, claramente satisfeita com a resposta dele. Era
a cara do Marn. Ela queria pressioná-lo um pouco mais,
esperando que ele pudesse acabar revelando mais alguma
coisa, mas Ryu veio e a arrastou de volta para o seu lugar. O
professor da próxima aula estava prestes a entrar. Se ela
continuasse pendurada na mesa de outra pessoa, com certeza
levaria uma bronca.
— Hein? Tem algo errado?
Marn pegou um caderno novo para se preparar para a
próxima aula, sem perceber que o amigo ao lado já o
observava. Than se inclinou para frente, deitando a cabeça na
mesa, virando o rosto levemente para o Marn e encarando-o
sem dizer uma palavra. Marn apenas piscou, inclinando a
cabeça em confusão. Desde o incidente com o tio Karn, Than
parecia ter amolecido bastante com ele. Ele não falava mais de
forma fria ou sem coração como antes. Ainda assim, a
mudança no comportamento de Than deixava Marn bastante
confuso. Por exemplo:
— Hein? Than, o que você está fazendo na minha casa?
Naquela manhã, quando Marn tirou a bicicleta de casa,
encontrou o amigo estacionado por perto — nem tão perto,
nem tão longe. Than olhava para ele, mas não dizia nada.
Quando Marn perguntava, Than ficava em silêncio, sem
oferecer explicação, fingindo ignorá-lo completamente. Marn
só podia coçar a cabeça em confusão. O que havia de errado
com ele, afinal?
Marn não sabia direito se a relação dele com o Than podia
ser chamada de "melhor" agora. Era verdade que Than não era
mais ríspido, mas ele continuava quieto, raramente
respondendo e frequentemente seguindo Marn por aí. Não
importava para onde Marn se virasse, Than estava lá. Onde
havia Marn, havia Than. Onde havia Than, havia Marn. Ele
pairava por perto sem dizer uma palavra, apenas observando.
Marn não se sentia desconfortável, apenas curioso. O que
exatamente Than estava pensando?
Marn parou de escrever em seu caderno e se virou para
encarar o olhar de Than diretamente. Than olhou de volta, em
silêncio, sem oferecer explicação para seu comportamento.
Marn percebeu que o que estava fazendo agora era uma
imitação exata de Than, cem por cento. Than tinha olhado
para ele primeiro, então desta vez ele tentou olhar de volta.
Marn piscou e inclinou a cabeça levemente. Só isso fez Than
desviar o rosto imediatamente, deixando Marn ali, ainda
confuso.
... Como ele deveria entender o Than, afinal?
Talvez devesse encontrar uma chance de perguntar ao
P'Nathi sobre isso.
As aulas continuaram e, eventualmente, chegou a hora
da saída. O dia passou. Marn revisou suas lições brevemente,
depois guardou lentamente os livros na mochila,
preparando-se para ir para casa. Naquele momento, ouviu
uma barulheira vinda de longe. Ele e os outros do grupo
olharam para cima.
Antes que pudessem entender o que estava acontecendo,
alguém de repente correu e se agarrou ao batente da porta da
sala, ofegando alto. Pelo estado dele, devia ter corrido pelo
prédio, subindo dezenas de degraus. Seu rosto estava
encharcado de suor, cheio de exaustão — mas isso não
conseguia esconder a alegria que transbordava dele.
— Eu venci!
— Sério?!
— Vou competir no nível nacional agora!
— Isso é incrível, Hem! Você é demais!
Marn esqueceu completamente de ir para casa, assim
como todos os outros. Ying não perdeu um segundo; ela correu
e deu um abraço apertado em Hem, dando tapinhas em suas
costas repetidamente com orgulho. Hem pulava de um lado
para o outro, gritando alto sem um pingo de vergonha. Ele
sorria tão abertamente que seus olhos se transformavam em
fendas. Depois de soltar Ying, correu para abraçar Ryu em
seguida. O garoto de óculos o elogiou em seu estilo calmo de
sempre. Embora não tenha dito muito, os olhos de Ryu
transbordavam orgulho pelo amigo.
Hem esteve fora competindo o dia todo. Quando os
resultados foram anunciados, já era quase noite. Eles estavam
verdadeiramente felizes por saber que ele tinha vencido esta
rodada, dando mais um passo rumo ao seu sonho.
— Estamos muito felizes por você, Hem.
— Muito obrigado, pessoal. Se não fosse por vocês, eu
nunca teria chegado tão longe.
— Isso é por causa do seu próprio esforço e determinação.
Nós só demos um empurrãozinho.
— Snif... vocês sabem? Quando anunciaram que eu fiquei
em primeiro lugar, eu gritei feito um louco. Tudo o que eu
conseguia pensar era em ver vocês e agradecer a todos. Senti
tanta saudade, sabe? Assim que a competição acabou, corri
direto para a escola.
— Ah, o pequeno Hem está tão emocionado que está
quase chorando.
— Cala a boca, Ying.
— Você é muito bom mesmo, sabe disso, Hem.
— É claro que eu sou.
— É. Meu amigo é realmente incrível.
Vendo todos parabenizarem o talentoso ator, Marn sentiu
orgulho de Hem também. Ele acreditava que Hem conseguiria
— e Hem realmente conseguiu. A princípio, eles deveriam se
separar e ir para casa, mas por causa de Hem, o grupo
permaneceu na escola, conversando animadamente enquanto
o ouviam contar sobre a competição do dia. Hem contou tudo
— o que fez, o que aconteceu. Marn assentia, murmurando
"uau" e "mentira" várias vezes. Hem claramente tinha muito
orgulho de sua conquista. Amanhã de manhã, ele
provavelmente estaria todo bonitão na frente do pátio da
bandeira, ouvindo elogios do diretor e dos professores diante
de toda a escola.
Marn olhou para Ryu, que estava sentado em silêncio.
Ryu apertava os lábios, com os olhos baixos, as mãos mexendo
uma na outra como se estivesse em conflito sobre algo. Marn
estendeu a mão e tocou suavemente seu ombro. Naquele
momento, o grupo inteiro parou de falar e se voltou para olhar
para Ryu.
— Ryu, tem algo que você queira dizer?
Ryu congelou um pouco, não esperando que Marn o lesse
tão bem. Todos o observavam agora, esperando que ele
falasse. Ele cerrou as mãos levemente, respirou fundo, abriu a
mochila e tirou uma folha de papel, estendendo-a na frente
deles. O grupo se inclinou imediatamente para ler. Levou
apenas alguns segundos para entenderem o que estava
pesando na mente de Ryu.
O papel era um anúncio para uma competição de arte em
nível juvenil. O vencedor do primeiro lugar receberia um
grande prêmio — um troféu, um certificado e uma quantia em
dinheiro na casa dos seis dígitos. Os olhos de Marn se
arregalaram, assim como os de todos os outros. Ying não
hesitou — ela avançou e agarrou os ombros de Ryu com
empolgação. Seus olhos brilhavam. Essa era a primeira vez
que ela via Ryu tomar uma atitude em relação ao seu próprio
talento.
Ying sabia melhor do que ninguém sobre as habilidades
de desenho de Ryu. Apesar de ter tanta criatividade e
dedicação, ele nunca teve confiança suficiente para se colocar
à frente. Ele sempre se manteve escondido, silenciosamente
em segundo plano.
Ela o encorajara muitas vezes antes, sugerindo que ele
tentasse participar de competições. Se ele não fosse corajoso o
suficiente para uma grande, que tentasse ao menos um
concurso de nível de classe. Mas Ryu sempre recusava. Tudo o
que ela podia fazer era esperar que um dia Ryu deixasse de ter
medo e finalmente levasse seu próprio talento a sério.
O motivo de Ryu ter hesitado foi porque ele viu o sorriso
brilhante de Hem após a competição de hoje — viu o quanto
Hem estava feliz e realizado ao fazer o que amava. Aquela visão
despertou algo em Ryu, um desejo de tentar seguir seu próprio
coração pelo menos uma vez.
— Eu deveria entrar na competição?
— Ryu, você ainda precisa perguntar? Você chegou até
aqui, você absolutamente não pode deixar essa chance
escapar!
— ...
— Nós todos vimos sua habilidade. Sinceramente, é um
desperdício você manter tudo escondido dentro daquele
pequeno sketchbook. Um trabalho desse nível merece ser
visto. Todo mundo neste mundo merece saber o quanto você é
talentoso. Eu quero que as pessoas finalmente percebam o
quão incrível meu amigo é.
— ...
— Ryu, me escuta.
— Ying.
— Você não precisa hesitar. Apenas vá em frente.
— ...
— Tenho certeza de que você pode competir com qualquer
um.
Ryu ficou imóvel, encarando Ying sem piscar. Então, ele
lentamente se virou para olhar para Hem. Hem abriu um
sorriso largo, fez um sinal de positivo com o polegar e deu um
tapinha leve em suas costas, oferecendo encorajamento
claramente. Marn assentiu em concordância, apoiando
totalmente a decisão de Ryu de competir. Quanto a Than,
embora não tenha dito muito ou demonstrado abertamente, o
olhar em seus olhos foi o suficiente para Ryu sentir o apoio
vindo dele.
Ryu pressionou os lábios, dividido, e olhou para o papel
amassado em sua mão mais uma vez. Essa era a primeira vez
que ele pensava em dar um passo para fora da moldura
estreita em que vivia. Desde que era jovem, sua vida tinha sido
ditada pelas opiniões de seu pai. Nunca lhe foi permitido
decidir por si mesmo nem uma única vez — nem sobre a
escola, nem sobre esportes, nem sobre hobbies, nem mesmo
sobre seu futuro. Toda intenção e sonho haviam sido definidos
por seu pai. Quer fosse para dar um passo para a esquerda ou
para a direita, apenas seu pai tinha o direito de decidir.
Durante toda a sua vida, Ryu não fez nada além de obedecer.
Ele se sentia sufocado, com dor e uma solidão insuportável,
como se esta não fosse a sua vida, mas a vida de seu pai, uma
que ele podia controlar totalmente.
Seu pai um dia sonhou em ser médico, mas falhou nos
exames de admissão. Essa falha tornou-se um
arrependimento para toda a vida. Aos olhos de seu pai, ser
médico era uma profissão nobre — elogiada pela sociedade,
aplaudida pelos outros. Apenas ser aceito traria honra para si
mesmo e para a família. Esse sistema de valores distorcido
levou seu pai a criar o filho cegamente, forçando Ryu a seguir o
caminho que ele mesmo havia escolhido, convencido de que
era a rota melhor e mais adequada — embora não fosse, nem
um pouco.
Quando a mãe de Ryu entrou em cena, a pressão só ficou
mais forte. Ela não vinha de uma origem rica como a de seu
pai. Em termos de educação e carreira, seu pai claramente se
sentia superior. A separação deles decorreu em parte dessas
diferenças. Seu pai não queria que Ryu crescesse passando
dificuldades como sua mãe passou. Ele queria que seu filho
fosse excepcional — melhor do que seus pais — para se tornar
alguém perfeitamente bem-sucedido em todos os sentidos.
Seu pai enfrentou muitas provações e frustrações, e
transformou essas experiências em testes para seu único
filho, esperando que Ryu superasse todos os obstáculos. Ele
acreditava que seus próprios métodos eram corretos,
impecáveis — o plano perfeito para o futuro de seu filho. Um
dia, Ryu certamente teria sucesso e se tornaria um adulto
completo, forte de corpo e mente.
Mas seu pai nunca percebeu... que forçar alguém a viver a
vida que você quer para ela é o pior plano de todos.
Ryu nunca quis ser médico. Ele nunca disse nem uma
única vez que queria isso. No entanto, de alguma forma, até
seus amigos e professores acreditavam que esse era o seu
sonho. Ele nunca quis passar seus dias enterrado em livros
didáticos, nunca quis ser rotulado como um nerd ou um aluno
exemplar. Ele nunca quis frequentar cursinhos depois da
aula. Ele queria sair, dar voltas por aí, comer frango frito, jogar
futebol — fazer qualquer coisa além de sentar com a postura
ereta, ouvindo fitas de química e física repetidamente.
O que ele amava? Seu pai sabia perfeitamente bem. Mas,
aos olhos de seu pai, isso nunca importou. Para ele, desenhar
era uma perda de tempo — algo inútil que não rendia dinheiro,
drenava recursos com materiais de arte e deixava trabalhos
acabados espalhados pela casa como um estorvo visual. Seu
pai nunca o apoiou — nem uma única vez. Ele sequer se
importava.
Por causa disso, Ryu nunca tinha saído da pequena
moldura que seu pai construiu para ele. Por mais apertada
que fosse, ele suportou. Mas desta vez... ele queria seguir seu
coração, apenas uma vez.
Com seus amigos o incentivando, Ryu sentiu uma onda
de coragem. Aquela moldura estreita começou a rachar.
Juntos, Ryu e seus amigos foram a quebrando pouco a pouco.
Era como se ele tivesse recebido tanto incentivo que
finalmente ousou fazer algo que nunca pensou ser possível.
Nos olhos que antes eram sempre opacos e sombrios, uma luz
fraca começou a brilhar.
Marn percebeu isso e sorriu com felicidade genuína. O
Ryu de agora era claramente diferente do Ryu da semana
anterior. Para ser honesto, Marn não tinha se sentido à
vontade naquela época, vendo Ryu olhar fixamente para o
nada, com a miséria escrita no rosto e a fumaça do cigarro
flutuando ao seu redor. Um jovem de dezessete anos não
deveria ter olhos assim.
Era assim que deveria ser — Ryu acreditando em si
mesmo, recuperando lentamente sua determinação,
começando a agir de acordo com o que seu coração realmente
queria, livre de medo. Um sonho que antes era embaçado
começou a ganhar forma. Finalmente, Ryu estava começando
a se conhecer um pouco melhor.
Marn só podia esperar que, daqui para frente, Ryu se
tornasse cada vez mais forte até que ninguém pudesse
destruir seus sonhos novamente.
Ele se sentia verdadeiramente feliz... genuinamente feliz
por ver seus amigos falarem sobre suas vidas com sorrisos
assim.
Hem tinha tomado a liderança hoje. Logo seria a vez de
Ying, com a competição de bandas chegando na próxima
semana. Marn esperava que isso trouxesse felicidade e
orgulho para Ying. Ele estava ansioso para aplaudir
novamente assim por Ying e por Ryu, que estava prestes a
entrar em uma competição de arte. Marn continuaria torcendo
por eles, incentivando-os, até que cada um de seus amigos
alcançasse seus sonhos.
— Hein? Than?
Depois que a conversa terminou, todos começaram a ir
para casa. Hem saiu primeiro, ansioso para contar aos pais
sobre os resultados. Ying e Ryu foram para casa juntos.
Restaram apenas Marn e Than, cujas casas eram próximas.
Mas, antes que Marn pudesse colocar a mochila nos ombros e
seguir em direção ao estacionamento de bicicletas, ele foi
subitamente puxado pelo braço em outra direção.
Than caminhou à frente sem dizer uma palavra. Marn
franziu a testa em confusão, mas o seguiu. Eventualmente,
eles chegaram ao destino — a grande piscina da escola. A
princípio, Marn inclinou a cabeça, intrigado. Mas, quando viu
uma figura familiar esperando à beira da piscina, a
compreensão o atingiu de imediato.
Era Nathi.
Ele não estava vestido formalmente como quando dava
aula de matemática — ele estava usando um traje de banho.
— Than trouxe o Marn aqui porque não quer ficar sozinho
com o Nathi?
Ah... esses irmãos eram mesmo uma figura.
— Você arrastou seu amigo também? Deixe o Marn ir logo
para casa cuidar do Karn — disse Nathi, apoiando a mão no
quadril enquanto encarava o irmão mais novo, que ainda se
recusava a soltar o amigo.
— ...
— Ora, olha só. Eu acabo de dizer para ele soltar o amigo,
e ele me encara desse jeito, o próprio irmão.
— Haha, Nathi, não provoque muito o Than. Vocês
acabaram de se reconciliar, você deveria ser mais gentil com
ele.
— Cala a boca.
Than retrucou baixinho para Marn, mas Marn não ficou
nem um pouco assustado. Em vez disso, ele entendia melhor o
Nathi agora — o porquê de ele gostar tanto de provocar o irmão
mais novo. Marn sabia que Than ainda não tinha se aberto
totalmente para Nathi. Eles estiveram distantes por cinco
anos; esperar que fossem próximos novamente como antes era
irreal. Than provavelmente ainda não queria ficar sozinho com
Nathi.
Então, Marn decidiu ficar e lhe fazer companhia.
Ele ligou brevemente para o tio Karn para avisar que
talvez chegasse em casa mais tarde do que o normal.
Felizmente, Karn não reclamou. Saber que Nathi estava lá o
deixou ainda mais tranquilo — ele apenas pediu que Marn não
ficasse fora até muito tarde.
Marn descobriu mais tarde que a razão de Than ter
passado na piscina depois da escola era porque ele decidira
voltar a fazer o que amava. Quando Marn soube que Than
tinha voltado a nadar, não conseguiu esconder sua felicidade.
Than tinha mantido isso em segredo, não contando a ninguém
— nem mesmo para Nathi. Nathi só descobriu porque o seguiu
secretamente. Essa descoberta fez Than ficar ainda mais
emburrado, recusando-se a falar qualquer coisa. Ele mal tinha
voltado para a piscina quando seu irmão o pegou. Não era de
admirar que estivesse chateado.
Nathi continuou tentando convencê-lo, puxando
conversa, mas Than apenas o evitava. Assim que Nathi soube
que Than estava nadando de novo, ele se ofereceu para entrar
na piscina com ele, dizendo que ele mesmo lhe ensinaria as
técnicas.
Marn ficou um pouco chocado e preocupado. Ele se
lembrava de que Nathi sofrera uma lesão grave que afetara seu
corpo. Voltar para a piscina daquele jeito não parecia a melhor
ideia. Quando o ex-atleta viu a preocupação nos olhos de
Marn, ele sorriu carinhosamente, deu um passo à frente e deu
um tapinha leve no ombro de Marn. Ele se abaixou
ligeiramente para encontrar o olhar preocupado do garoto,
olhou para os lados para garantir que Than não estava por
perto — ele tinha ido se trocar para vestir o traje de banho — e
então decidiu dizer algo, esperando que apenas Marn ouvisse.
— Sobre isso... você não precisa se preocupar. Foi há
muito tempo. Meu corpo voltou a ficar forte como antes. Eu
consigo boiar, consigo nadar. Mas, se você estiver falando
sobre treinar pesado o suficiente para competir de novo, isso
pode ser difícil. Eu vou apenas fazer o que sou capaz. Eu não
vou exagerar, prometo. Obrigado por se preocupar comigo.
— O P’Nathi vai ensinar o Than?
— Sim.
— O Than com certeza vai ficar muito feliz.
— Receio que talvez não seja tão simples assim...
— Eu consigo sentir. O Than com certeza vai ficar feliz de
poder nadar com o Nathi novamente.
— ...
— A única pessoa que pode ensinar o Than é o P’Nathi. E
a única pessoa que pode fazer o Than ter coragem de entrar na
água de novo também é o Nathi. Para ele, o irmão mais velho é
basicamente um grande ídolo.
— Haha, se o Than ouvisse isso, ele com certeza ficaria
emburrado. Ele pode agir todo frio assim, mas na verdade ele é
muito ranzinza e se magoa facilmente, sabe.
— Sério?
— Sim.
— Mas o que eu disse nem é motivo para ficar chateado.
Eu só disse que o Than admira o Nathi como um modelo a
seguir.
— Isso é verdade.
— Contanto que o Nathi fique ao lado dele, o sonho do
Than com certeza se tornará realidade. Tenho certeza disso.
— ...
— Eu quero ver o dia em que o Than terá sucesso
também. Quero ver como ele fica quando está mais feliz.
Marn sorriu levemente. Bem na hora, Than terminou de
se trocar. Quando percebeu que seu irmão estivera
sussurrando algo para seu amigo, suas sobrancelhas se
franziram imediatamente. Than aproximou-se a passos largos
e colocou-se bem entre eles, agarrando o braço de Marn e
arrastando-o para outro lugar. Ele lançou um olhar afiado
para trás, para o seu irmão, que estava lá parado segurando a
barriga, tentando conter o riso. Esses dois irmãos realmente
não poderiam ser mais diferentes.
— Não se envolva demais com ele. O que quer que ele
diga, não dê ouvidos.
— Mas ele é nosso professor.
— Você ainda consegue mesmo chamá-lo de professor?
— Não seja assim, Than.
— ...
— Olhe para o P’Nathi agora. Ele parece muito feliz. Assim
que soube que voltaria a nadar com o irmão mais novo, ele
correu para se trocar e esperar.
Marn disse com um pequeno sorriso, apontando para o
professor parado à beira da piscina. Suas costas pareciam
largas e fortes para a sua idade, e havia uma cicatriz tênue
visível em um dos ombros. Than percebeu isso também e
congelou instantaneamente. Memórias do passado se
repetiram em sua mente. Ao seu lado, Marn decidiu pegar
suavemente o braço de Than e esfregá-lo de forma
reconfortante.
— Está tudo bem. Isso tudo ficou no passado agora. O
Nathi já seguiu em frente. Vamos começar de novo. Não perca
mais tempo.
Marn guiou Than de volta para a piscina, deu-lhe um
pequeno aceno de encorajamento e então o deixou descer para
a água, Than estava boiando perto da borda. Marn agachou-se
na beira da piscina, observando as ondulações na superfície
da água. Than levantou o rosto e encontrou o seu olhar. Eles
apenas se olharam, nenhum dos dois dizendo uma palavra.
— Então é assim que o Than fica quando está na água.
— ...
— Than.
— O quê?
— Você pode nadar para mim? Só um pouquinho?
— ...
— Por favor. Eu quero ver.
Nathi, boiando não muito longe, quase caiu na
gargalhada. Olhe para o seu irmãozinho travesso — agora
nadando de um lado para o outro bem na frente do Marn.
Quando Marn viu aquilo, seus olhos brilharam e ele aplaudiu
entusiasticamente sem parar. Quando Than emergiu
novamente, ele sacudiu a água do cabelo e a afastou com uma
das mãos. Marn radiante, com os olhos se fechando em
fendas, estendeu a mão e a baixou ligeiramente, como se
estivesse esperando por um "toca aqui".
— Você é incrível!
— O quê?
— Toca aqui!
Than franziu a testa, mas ainda assim levantou a mão
para encontrar a de Marn. Marn caiu na gargalhada
imediatamente.
— Than, você parece uma foca!
Nathi teve que se virar e cobrir a boca. Than lançou-lhe
um olhar feroz. De um tubarão branco legal, ele havia se
transformado em uma foquinha mansa.
— Tudo bem, não vou mais te incomodar. Vá nadar com o
Nathi e divirta-se. Vou sentar à beira da piscina e observar.
— Espera.
— Hein?
— Me dê sua mão.
— Por quê?
— Apenas dê.
Marn inclinou a cabeça, confuso, mas estendeu a mão
novamente como antes. Than ficou imóvel, como se estivesse
pensando em algo, então levantou a mão molhada e a
entrelaçou com a de Marn. Marn congelou. Dedos esguios
envolveram sua palma menor. De repente, segurando as mãos
assim — Marn não sabia bem o que fazer mais. Than o
segurava frouxamente, não dizia nada e apenas olhava para
ele.
Isso... é estranho. O Than está agindo muito estranho hoje.
— Than, não me puxe para dentro da água.
— Por que eu faria isso?
— Não sei... quando você faz pegadinhas com as pessoas,
você dá medo. Eu não sei nadar.
— Eu não vou fazer pegadinha com você.
— Hum.
— ...
— Pode soltar agora? O Nathi está apenas boiando lá
esperando.
— Deixe ele.
— Ele vai te dar uma bronca se você não focar no treino.
— Eu não pedi para ele me ensinar.
— Você é tão teimoso. Qualquer um consegue ver o quão
feliz você está por estar nadando com seu irmão.
— ...
— Than, solta logo. Volta a nadar.
— Não se sente muito longe. Não tem muita gente aqui —
se algo acontecer, não conseguirei te ver.
— Tá bom, tá bom. Eu entendi. Vou sentar bem ali. Se
algo acontecer, eu com certeza vou gritar.
— ...
— Estou indo agora.
— ...
— Nathi, o Than já soltou o Marn. Você pode pegá-lo e
começar a ensiná-lo a nadar agora.
O irmão mais velho flutuava ali com um sorriso. Marn foi
se sentar à beira da piscina, observando Than nadar de um
lado para o outro. Hoje, Than estava praticando mais
seriamente do que nunca. Isso o surpreendeu. Olhe para
aquilo — ele estava se movendo suavemente, rápido e ágil,
como se estivesse mais em casa na água do que em terra firme.
No início, Nathi também ficou intrigado — até perceber
que Than olhava ocasionalmente para cima. Sempre que via
Marn batendo palmas e torcendo, ele se exibia ainda mais,
nadando cada vez mais rápido, como se estivesse em uma
competição real. Ele parecia ter esquecido que aquilo era
apenas um treino leve depois da escola.
Quanto mais ele era elogiado, mais ele se esforçava ao
máximo. Quanto mais a pessoa lá em cima gostava, mais ele
se exibia.
Ah... parece que o meu pequeno tubarão realmente se
transformou em uma foca, afinal.
24
Tinha passado apenas uma semana desde aquele
incidente. Tio Karn ainda estava na fase de recuperação. O
médico o instruiu que, de agora em diante, ele precisava
reduzir o estresse o máximo possível e descansar bastante. Por
causa disso, Marn cuidava dele com atenção especial. Mesmo
quando o tio Karn reclamava, Marn continuava fazendo do
mesmo jeito.
Marn sabia que alguém como seu tio não gostava de
depender dos outros e não curtia mostrar seu lado fraco para
ninguém. Embora ele vivesse dizendo que já estava forte e
totalmente recuperado, Marn muitas vezes o pegava
secretamente levando a mão à têmpora, parecendo que
poderia desmaiar a qualquer momento. Ele tinha acabado de
se recuperar, mas correu de volta para reabrir a barraca de
leite de soja. Depois de levantar a panela apenas duas ou três
vezes, ele ficou tão tonto que Marn teve que largar tudo e
correr para ampará-lo.
Parecia que o tio Karn tinha ouvido a notícia de que a
escola logo realizaria seu festival esportivo anual.
Naturalmente, quando chegava essa época, surgiam despesas
extras — camisetas de uniforme, taxas de atividades coletivas,
etc. Alguém sem filhos ou netos como o tio Karn não teria ideia
de quanto dinheiro costumava ser necessário, então ele
tentava ganhar o máximo possível com antecedência. Melhor
sobrar do que faltar dinheiro.
Marn realmente não gostava que seu tio estivesse
deixando a própria saúde em segundo plano desse jeito. Como
não queria que o tio Karn ficasse estressado, Marn decidiu
deixar a casa o mais agradável possível. Ele queria limpar cada
canto, cada fresta, para afastar todo o clima sombrio do lugar.
Queria que o tio Karn acordasse e se sentisse revigorado e
alegre, não importava para onde olhasse.
Por causa disso, além de cuidar do tio, Marn também
assumiu a responsabilidade de cuidar da casa e dos arredores.
A casa que antes parecia solitária e vazia agora ganhava cor
aos poucos com as flores que o próprio Marn plantou.
Algumas foram colocadas em garrafas plásticas recicladas em
vez de vasos e espalhadas por diferentes cantos da casa —
pequenos encantos feitos para espantar a tristeza e o
desânimo, criados especialmente para o tio Karn.
Além de Marn, também havia outra pessoa que
frequentemente passava para ajudar a cuidar do tio Karn.
— Vamos, anda logo. Esse aqui é bom.
— ...
— Você não gostou?
Marn estava na cozinha, lavando a louça com um sorriso
surgindo nos lábios ao ouvir a voz do professor Nathi vindo de
lá. Naquela noite, a casa do tio Karn tinha mais uma vez um
visitante familiar passando por lá. Marn se ofereceu para ser o
pequeno cozinheiro, preparando uma comida deliciosa para
todos comerem.
Os três terminaram o jantar juntos, com os pratos
completamente limpos. Marn deixou os adultos passarem um
tempo juntos enquanto ele fazia o papel de bom garoto,
recolhendo a louça e lavando tudo na cozinha. Depois de
limpar, secar e guardar tudo organizadamente, ele lavou as
mãos e voltou para a sala.
Viu seu tio sentado em sua cadeira de sempre, de braços
cruzados, com o rosto fechado de desagrado. Ao lado dele
estava o belo professor de matemática, oferecendo-lhe uma
gelatina de coco.
... mas o tio Karn nem sequer olhou para aquilo.
— Marn, o seu tio é muito difícil de cuidar. É enjoado com
comida, difícil de agradar e totalmente mimado.
— Eu não pedi para você me mimar, pedi?
— Você está doente, então comprei doces. Aqui, esse aqui
é bom.
— Não.
— Então este?
— Não.
— Que tal esse aqui?
— Não.
— P' Karn...
Marn não pôde evitar sorrir enquanto caminhava para se
juntar a eles. Havia vários tipos de sobremesas espalhadas
sobre a mesa pequena. Seus olhos brilharam de empolgação
enquanto ele juntava as mãos em agradecimento, e então
pegou um pedacinho de um doce rosa em camadas. Tinha o
tamanho exato para uma mordida e o gosto era muito bom.
Marn rapidamente fez um sinal de positivo com o polegar,
entusiasmado.
Vendo aquilo, Nathi ergueu uma sobrancelha em resposta
e depois voltou a olhar para o dono da casa de trinta e sete
anos, que ainda estava lá sentado de braços cruzados e com
uma expressão emburrada. Aquele ele não aceitava. Este ele
não comia.
O que quer que fosse oferecido, não era do agrado dele.
Mesmo quando levavam a comida até a boca dele, ele virava o
rosto.
Tio Karn era mais teimoso que uma criança pequena.
— Eu cuido disso. Você senta e descansa.
— Não, não posso. Você é um convidado, professor Nathi.
Como eu poderia deixar você levar o lixo para fora?
— Você já fez muito trabalho doméstico. E tem cuidado do
seu tio também.
— É só levar o lixo. Consigo fazer isso facilmente.
— Vão os dois logo.
Quando chegou a hora de arrumar as coisas, Marn e
Nathi continuaram competindo para fazer as tarefas até que o
verdadeiro dono da casa não aguentou mais e ordenou que o
professor levasse o lixo da cozinha para fora, sem se preocupar
nem um pouco com o fato de ele ser um convidado. Marn
cuidou da mesa no lugar dele.
No fim das contas, tanto Nathi quanto Marn acabaram
carregando os sacos de lixo juntos e jogando-os na lixeira em
frente à casa. Marn continuou se desculpando em nome do tio
Karn, repetindo que Nathi era um convidado e tudo mais.
Vendo a expressão culpada de Marn, Nathi sentiu uma onda
de carinho.
— Não se preocupe. Eu já faço esse tipo de coisa há muito
mais tempo que você. Já lidei com coisas muito piores.
— Ahn?
— ... Você realmente não percebe, não é? Que você é o
sobrinho querido do tio Karn.
— Eu não acho que seja assim.
— Por que não?
— Embora eu e o tio Karn pareçamos próximos, na
verdade somos mais como estranhos morando juntos. Cresci
todo esse tempo sem vê-lo por dezessete anos. Ele também não
me conhecia. De repente tivemos que morar juntos, e faz
apenas alguns meses. Não me atrevo a me chamar de sobrinho
querido dele.
Nathi parou ao lado da lixeira, observando o garoto falar
de si mesmo e de seu tio com um sorriso discreto. Marn não
parecia ser alguém que pensava demais nas coisas, mas na
verdade seus pensamentos eram complexos e delicados. Ele
sempre escolhia o melhor a dizer aos outros, e qualquer coisa
que sentisse que não ajudaria se fosse dita em voz alta, ele
guardava para si.
Era por isso que a maioria das pessoas achava que Marn
era um garoto otimista, quando na realidade ele tinha
pensamentos negativos como qualquer outra pessoa. Pois é.
Ele ainda era apenas um adolescente, afinal.
— Para ser sincero, no primeiro dia em que ouvi que você
estava se mudando para a casa do P'Karn, tive certeza de que
algo aconteceria mais cedo ou mais tarde. É por isso que eu
continuava vindo aqui.
— Você achou que o tio Karn fosse me expulsar, não foi?
— É.
— No começo, eu também pensava isso todos os dias. Não
importava o quão bem eu me comportasse, tinha medo de que
ele ainda ficasse bravo e me chutasse para fora. Se eu não
tivesse o tio Karn, nem saberia para onde poderia ir.
— P'Karn vive sozinho há muito tempo. Não apenas dois
ou cinco anos. O tempo de que estou falando... pode ser muito
mais longo do que você imagina.
— ...
— Ele não gosta de crianças felizes. Ele odeia qualquer
criança que se aproxime dele com um sorriso.
— Por quê?
— Porque ele tem inveja.
— ...
— Às vezes, a vida pode ser muito injusta. Até algo tão
simples como ser feliz pode ser difícil para muitas pessoas.
— O que você quer dizer?
Nathi sorriu de leve e colocou a mão suavemente na
cabeça de Marn, soltando um longo suspiro enquanto olhava
para o céu. Já era noite. O céu tinha escurecido. Os sons de
pássaros e insetos noturnos enchiam o ar, e a brisa fresca
roçava seus rostos. Só então ele percebeu que já era a
transição da estação chuvosa para o inverno.
Ele conheceu Marn antes do período letivo começar, na
época em que o sol ainda brilhava forte. Meses haviam se
passado desde então, e muitas coisas tinham acontecido. E,
honestamente, desde que Marn apareceu, a vida de todos ao
redor dele mudou, especialmente a de seu tio.
Marn estava mudando Karn pouco a pouco, sem que
aquele homem sequer percebesse o quanto já estava sendo
envolvido pela gentileza de Marn.
— P'Karn ama muito você.
— Eu também amo o tio Karn. Eu sei que ele tem algo
pesado pesando no coração, algo que o fez viver sem felicidade
por muito tempo. Talvez eu não tenha permissão para saber o
que é, mas tudo bem. Mesmo que eu não saiba, ainda quero
que ele pare de ficar preso em memórias ruins e viva feliz de
agora em diante.
— Prometa para mim — disse Nathi suavemente — que
você vai ajudá-lo.
— Eu prometo!
Vendo aquele sorriso largo e aqueles olhos sinceros, Nathi
não pôde deixar de se sentir aliviado também. Ele nem sabia
exatamente pelo que deveria ser grato, o que quer que fosse
que tivesse unido esse tio e esse sobrinho. Mas ele tinha
certeza de uma coisa: Marn definitivamente seria aquele que
conseguiria desatar o que estava pesando no coração de Karn.
Nathi esperaria por esse dia — o dia em que Karn pudesse
viver livremente, sem estar mais preso a nada.
— Bom, com um garoto tão bom morando aqui, acho que
vou ficar sem emprego agora.
— Haha, acho que você ainda é importante para o tio Karn
também, P'Nathi.
— Para que ele precisa de um servo como eu, afinal?
— O tio Karn não pensa de você desse jeito.
— Comigo, ele me dá ordens sem parar. Mas com o
sobrinho dele? Eu só peço para você trabalhar um pouquinho
e ele já me lança olhares mortais. Como hoje mais cedo — eu
só pedi para você ajudar a picar alguns vegetais, você sabe o
que aconteceu assim que você virou as costas? Levei um tapa
forte nas costas. Se eu pedisse para qualquer outra pessoa,
estaria tudo bem, mas eu erroneamente pedi para o sobrinho
precioso dele, então fui punido severamente por isso.
Marn deu uma risadinha suave. Depois que terminaram
de levar o lixo, os dois voltaram para dentro de casa,
conversando alegremente pelo caminho. Nathi contou muitas
histórias sobre Karn que Marn nunca tinha ouvido antes.
Marn olhava de soslaio para a expressão do narrador e podia
notar claramente que aquele homem realmente tinha
compartilhado tanto felicidades quanto dificuldades com seu
tio por muito tempo. Marn sentia-se feliz por Karn, por ele ter
encontrado alguém tão gentil em sua vida. Ele esperava que
P'Nathi ajudasse a trazer um pouco de brilho de volta para seu
tio sombrio.
— Tio Karn...
Mas quando voltaram para dentro, tanto Marn quanto
Nathi congelaram de choque. O homem que tinha acabado de
se recuperar de uma doença estava sentado ali, virando uma
lata de cerveja. Eles tinham acabado de sair para jogar o lixo
fora por um momento, mas Karn já tinha aberto sua segunda
lata. Nathi não hesitou, caminhou até lá com a testa franzida,
estendendo a mão para tomar o álcool dele. Mas o dono da
casa se esquivou, recusando-se a entregar facilmente.
Marn ouvia a bronca do P'Nathi enquanto observava o
rosto do Karn. Ele não parecia nem um pouco incomodado —
estava apenas com uma expressão aérea enquanto bebia
casualmente a cerveja gelada. Quando Nathi agarrou seu
pulso para tirá-la dele, Karn imediatamente franziu a testa e
se soltou bruscamente, afastando-se para o lado. Olhando
para o rosto do professor agora, ele claramente parecia
exausto de lidar com aquilo.
— P'Karn, você acabou de se recuperar. Beber assim não
faz bem.
Nathi queria dar uma bronca mais pesada, mas Marn
estava bem ali na frente dele. Ele não conseguia acreditar que
Karn estava sendo tão teimoso — logo na frente do próprio
sobrinho, ainda por cima. Suspiro... no fim, já era tarde demais
para impedi-lo. Tudo o que Nathi pôde fazer foi avisar que
aquela era a última lata — nada de abrir uma terceira
escondido. Por que esse homem adulto era tão difícil de lidar?
Marn pediu licença para subir e tomar um banho,
deixando os dois adultos sozinhos. Nathi provavelmente iria
embora logo de qualquer forma. Marn imaginou que, quando
terminasse o banho, eles já teriam se despedido.
Assim que o sobrinho saiu de vista, Nathi voltou a olhar
para o verdadeiro dono da casa. Karn estava sentado em
silêncio no mesmo lugar, bebericando sua cerveja calado.
Vendo que o xale estava escorregando do ombro dele, Nathi o
segurou gentilmente e o ajeitou de volta da forma correta.
— Eu sei que você não consegue dormir, mas você acabou
de se recuperar. Beber desse jeito não é bom, sabia?
— Eu só não consigo dormir.
— P'Karn.
— Não é tão forte assim.
— Você não tem jeito mesmo...
— Então, sobre o que vocês dois estavam conversando?
— Sobre você.
— Não diga bobagens para o Marn.
— Eu já sei. Você não confia em mim?
— Você fala demais.
— P'Karn...
— Vai para casa logo.
— Sim, sim, estou indo. Você prometeu que esta era a
última lata. Beba e depois vá dormir. Tanto o Marn quanto eu
estamos exaustos de cuidar de você.
— Eu já te disse, não pedi para vocês fazerem isso.
— Você sabe muito bem que eu não consigo te ignorar.
Nathi falou suavemente. O homem mais velho olhou para
ele brevemente, depois finalmente colocou a lata de cerveja no
chão e encostou-se devagar na cadeira longa. Vendo que ele
estava prestes a se deitar, Nathi correu para pegar um
travesseiro macio e o colocou sob a cabeça dele antes de se
agachar ao seu lado.
Ele afastou as mechas de cabelo que caíam sobre o rosto
de Karn. O cabelo de Karn era longo e naturalmente ondulado
— às vezes bagunçado e sem corte, embora ele nunca se
importasse, apenas prendendo-o frouxamente com um
elástico. Olhe só para ele — ele mal cuida de si mesmo. Estava
terrivelmente magro e sua barba tinha começado a crescer.
Seu rosto pálido agora tinha um leve rubor por causa do
álcool. A temperatura do seu corpo ainda estava morna, quase
quente. Aqueles olhos acompanhavam cada movimento, mas
não vinham mais reclamações ou xingamentos, não importava
o que Nathi fizesse.
— Se você ainda não conseguir dormir na semana que
vem, vou te levar ao médico. Ok?
— ...
— Da próxima vez, encontre outro jeito. Chega de cerveja.
— Para de me amolar...
— Vou colocar isso na cabeça do Marn também. Você é
muito teimoso — o seu sobrinho entende as coisas melhor do
que você.
— Vai para casa logo.
— O Marn ama muito você. Cuide bem de si mesmo.
— ...
— Descanse um pouco. Não vou mais te incomodar.
Nathi disse brevemente, depois se virou e saiu. Antes de
sair da casa, ele ainda andou por ali, verificando portas e
janelas para ter certeza de que tudo estava seguro. Não
encontrando nada de errado, entrou em seu carro e dirigiu de
volta para o seu apartamento.
Embora as coisas estivessem melhores entre ele e Than
ultimamente, ele ainda não tinha levado suas coisas de volta
para casa. Seus itens pessoais, documentos de trabalho,
planilhas e livros ainda estavam todos lá. Havia coisas demais
atrapalhando, então tudo o que ele podia fazer era passar na
casa brevemente de vez em quando.
Depois de dirigir por um tempo, sentiu que tinha
esquecido algo. Sua jaqueta — ele a tinha tirado mais cedo
enquanto ajudava Marn a preparar o jantar. Percebendo isso,
balançou a cabeça levemente e murmurou para si mesmo que
encontraria uma chance de voltar para buscá-la outro dia.
— Tio Karn?
Marn, recém-saído do banho, voltou para ver como estava
o tio. A casa estava silenciosa agora — P'Nathi devia ter ido
embora faz tempo. Quando Marn entrou, viu Karn dormindo
em sua cadeira longa de costume. Ver um homem de quase
quarenta anos encolhido, abraçando um pedaço de pano, fez
Marn se sentir desconfortável por ele. Mas quando viu a
expressão relaxada de Karn, Marn percebeu que estava
pensando demais.
— Ele já está dormindo... devo acordá-lo e fazer com que
ele suba para dormir direito?
P'Nathi tinha dito que Karn não dormia bem à noite, e era
por isso que ele gostava de tirar cochilos durante o dia. Vê-lo
agora — de olhos fechados, respirando suave e
confortavelmente — fez Marn hesitar. Uma parte dele queria
acordar o tio e levá-lo para cima, mas outra parte não tinha
coragem de perturbá-lo.
No fim, o bom garoto tomou a decisão sozinho. Deixou o
tio dormir no andar de baixo e foi buscar um cobertor.
Estendendo-o com cuidado, ele o cobriu sobre o corpo
encolhido de Karn. Marn parou um pouco quando notou o
pano que Karn estava abraçando.
O pano que faz o tio Karn dormir tão pacificamente...
Parece estranhamente familiar — como algo que ele já viu
outra pessoa usar antes.
— Como está indo?
— Hum.
— Quer fazer uma pausa, grande artista?
Ying falou enquanto se aproximava, carregando uma
bandeja de lanches. Fazia quase uma semana que o quarto
dela tinha se tornado um refúgio para o seu amigo próximo.
Como todos sabiam, Ryu tinha decidido enviar seu trabalho
para uma competição pela primeira vez na vida.
Ele amava desenhar e tinha talento para isso, embora
nunca tivesse recebido nenhum apoio de verdade antes. Ainda
assim, as habilidades de Ryu não eram piores que as de
ninguém.
Ying sentou-se na cama, pegou uma fatia de goiaba e deu
uma mordida enquanto olhava para a pintura a óleo. Ela
soltou um "uau" impressionado de empolgação.
Ryu não podia pintar em casa, então trazia seus materiais
para cá todos os dias depois da escola, acrescentando ao que
tinha feito no dia anterior. Após vários dias, o trabalho
finalmente tinha tomado forma, tornando-se tão bonito
quanto estava agora. Restavam apenas mais alguns detalhes
antes que pudesse ser finalizado e enviado para o comitê da
competição.
Ryu estava completamente imerso na pintura, ignorando
tudo o mais. Estava profundamente focado, usando fones de
ouvido enquanto continuava a pintar. Não era sempre que
Ying conseguia vê-lo tão sério. Apoiando o queixo nas mãos,
ela observava secretamente a determinação dele com
felicidade, sem resistir a esticar a mão para bagunçar
gentilmente o cabelo do garoto sentado no chão.
A mão de Ryu que segurava o pincel parou, e ele se virou
lentamente para olhar para ela.
— Estou torcendo por você.
— Hum.
— Você com certeza vai ganhar.
— E se eu não ganhar?
— Então não é nada demais, certo?
— ...
— Porque o que estamos buscando de verdade não é o
prêmio em dinheiro. É a oportunidade.
— ...
— A oportunidade de você fazer o que ama.
— ...
— Ganhar ou perder não importa. O que importa é que
hoje você pôde desenhar exatamente o que sempre quis
desenhar. Só isso já é o suficiente.
Ying disse isso com um sorriso. Os olhos do ouvinte se
arregalaram um pouco antes de suavizarem enquanto ele se
voltava para olhar para ela. Um sorriso discreto — um que
muito poucas pessoas já tinham visto — apareceu em seu
rosto, ali mesmo para Ying testemunhar. Ela esfregou
gentilmente a cabeça dele e logo percebeu que ele estava se
inclinando contra a palma da mão dela.
— Continue desenhando, então. Não vou mais te
incomodar. Vou descer para praticar música.
— Hum. Eu vou.
— Se o meu pai ou os meus irmãos subirem e te
incomodarem de novo, me chame na hora, ok?
Ouvindo aquela ameaça, Ryu deu apenas um aceno vago.
Ying disse aquilo porque seu pai e seus irmãos não estavam
muito felizes com ela trazendo um cara para o quarto dela
todos os dias desse jeito. Embora Ryu fosse seu melhor amigo
de longa data, mesmo que eles sempre tivessem gostado dele,
os instintos de um pai — e de irmãos que também eram
homens — os deixavam desconfiados.
A cada trinta minutos, alguém batia na porta, abria e
verificava se o jovem artista estava olhando para qualquer
outra coisa que não fosse a pintura à sua frente.
— Para que tanto alvoroço? Todo mundo sabe que você
nunca faria nada comigo.
— Eles só estão preocupados. Afinal, eu ainda sou um
cara.
— Tsc, isso é tão irritante! Isso não pode, aquilo é ruim...
me deixa louca.
— Um pai ser protetor com a filha é normal.
— Estou começando a ficar cansada de ser filha.
— ...
— Se um dia eu trouxer meu namorado aqui em cima,
eles não vão simplesmente perder a cabeça?
— O que você quer dizer?
— O que mais eu poderia querer dizer?
— Você tem um namorado?
— Ainda não, mas...
— ...
— Ei! Eu estava planejando esperar um pouco antes de te
contar, mas vou dizer agora mesmo.
— ...
— Na verdade... eu ando conversando com o P'Zen
ultimamente.
— Ah.
— Ryu, não fique bravo, tá bom? Não se sinta magoado.
Não é que eu estivesse escondendo de você — só não estava
claro ainda, então não me atrevi a dizer nada. Eu estava com
medo de passar vergonha. Mas depois de conversarmos por
telefone ontem, percebi que ele está realmente me
paquerando.
— ...
— Você não parece nem um pouco empolgado! Fique feliz
por mim, quer?
— Hum. Parabéns.
— Santo Deus! Só espera, se eu algum dia me tornar
oficialmente namorada do P'Zen, vou me gabar para todo
mundo. Todos aqueles falastrões que ficam me chamando de
machuda ou sei lá o quê vão morrer de choque.
Ying disse convencida, e então deu uns tapinhas leves no
ombro de Ryu algumas vezes antes de sair do quarto. Ela não
esqueceu de acrescentar uma última coisa — dizendo para ele
abrir o coração e encontrar uma namorada bonita para si.
Claro, ele era um nerd de óculos, mas a família dele era rica;
quem não estaria interessado? Ela queria que ele tivesse um
parceiro também.
Então ela saiu, deixando para trás apenas o garoto
solitário de óculos, sentado imóvel onde estava.
O pincel manchado de tinta foi depositado lentamente.
Um desânimo profundo brotou dentro de Ryu. Ele fechou os
olhos devagar e desabou no chão, esparramado como alguém
completamente exausto.
Havia uma competição na qual Ying não sabia que ele
estivera participando o tempo todo — uma competição que,
por mais que ele tentasse, ele nunca poderia vencer.
Quando ele percebeu, já era tarde demais.
Ele tinha perdido há muito tempo, mas ainda permanecia
ali, feito um bobo.
Essa competição...
Ryu realmente não tinha chance de vencê-la.
25
— Ahhh! Já estamos quase terminando o segundo ano?!
— As provas finais estão chegando, né?
— Eu nem lembro o que a gente estudou este semestre
inteiro.
— Haha, cuidado se bombar nas finais, pode ser que não
tenha recuperação desta vez.
— Seu desgraçado, não me roga praga! Só espera,
semestre novo, vida nova.
— Você disse isso no semestre passado também.
— É, e eu não bombei.
— Não bombou?
— Ainda não tem nenhum sinal de que eu vá sobreviver,
seu babaca!
Marn estava sentado na sala de aula durante o intervalo
do almoço, cercado pelo barulho que vinha de dentro e de fora
da sala. Hoje estava mais quente que o normal, então quase
ninguém saiu para dar uma volta fora do prédio. Até os
viciados em futebol do almoço desistiram, escolhendo subir e
se esparramar debaixo do ventilador.
Marn pensava da mesma forma. Ele revisava calmamente
seus exercícios de matemática em sua mesa. Os outros
estavam agrupados — Than estava deitado de bruços na mesa
como sempre fazia, Hem e Ying discutiam alto, e Ryu estava
sentado completamente parado, com os olhos fixos em uma
única folha de papel branca na sua frente.
Curioso, Marn se inclinou um pouco. Acabou
descobrindo que era informação sobre a competição de arte
em que Ryu estava interessado. Pelo que ele se lembrava, Ryu
estava determinado a participar, e todos estavam torcendo por
ele. Ying disse que Ryu estava trabalhando na peça em
segredo. Só de ouvir isso Marn ficou empolgado — ele queria
muito ver a pintura de Ryu.
— Tem algo errado, Ryu? Você está encarando isso faz um
tempo.
— Hum... pode-se dizer que sim.
— Qual é o problema?
— Eu tenho que entregar a pintura no correio.
— Você está preocupado por não conseguir carregar até
lá, né? A gente ajuda.
— Eu sei que vocês ajudariam. Mas o problema é maior
que isso.
— Hein?
— Hoje é o último dia para entregar.
— O quê?!
— Eu li a data errado.
— Ryu! É sério?!
As expressões de todos mudaram instantaneamente. Ying
gritou em choque, Hem deu um pulo para pegar o papel e
conferir, e até Than levantou a cabeça da mesa. Marn ficou lá
parado, de boca aberta, sem conseguir dizer uma palavra. Ao
ver a expressão tensa de Ryu, ele finalmente entendeu por que
o amigo estava tão perturbado.
Que droga, como é que um problema enorme desses
aparece bem no último momento?!
— Puta merda — o prazo é hoje? Então temos que ir logo
depois da escola!
— Ei, Mae, não pensa de um jeito tão simples. A gente sai
depois das quatro e ainda tem que esperar o ônibus. Como
vamos chegar a tempo?
— Ahhh!
— E... hoje meu pai vai mandar alguém me buscar para o
cursinho particular.
— O quê?! Então você não vai conseguir dar uma
escapada para pegar a pintura, vai?
Ying e Hem perderam a cabeça completamente. Eles
pularam das cadeiras e começaram a andar de um lado para o
outro como ratos em pânico. O próprio Ryu parecia
extremamente estressado também. Felizmente, ninguém
tocou no assunto dele ter esquecido o prazo — estavam com
medo de que, ao insistir nisso, ele se sentisse ainda pior. Só
isso já era o suficiente para acabar com o ânimo dele. Um
problemão surgiu de algo tão pequeno.
Marn sentiu uma gratidão genuína por todos no grupo.
Ninguém culpou Ryu; em vez disso, todos se esforçavam ao
máximo para encontrar uma solução. Ying pensava em todos
os jeitos possíveis, recusando-se a deixar Ryu perder uma
oportunidade tão preciosa. Ela tinha visto Ryu trabalhando na
pintura escondido na casa dela, e era linda. Se ele perdesse
essa chance, seria realmente de partir o coração.
— Então eu mesma levo para o correio. Você vai para a
sua aula particular, ok?
Ying colocou a mão no ombro de Ryu e assentiu com
firmeza, tentando tranquilizá-lo.
— É, é. Eu ajudo também. Eu e a Duanphen. Vamos
chegar a tempo, confia em mim.
— E se a gente pedisse ajuda para o Professor Nathi? —
sugeriu Marn. — Pedir para ele levar para o correio para a
gente. Assim não teríamos que esperar tanto pelo ônibus.
— Oh! Isso é realmente uma boa ideia — disse Ying. — Ele
pode levar a gente de carro. Ele é tanto o irmão do Than
quanto nosso professor, ele é praticamente responsável por
nós. Não tem como ele não ajudar. O Professor Nathi não é
sem coração, né, Than?
— Não faço ideia.
— Ei!
— Ryu, não se estressa — disse Marn suavemente,
aproximando-se e esfregando o ombro dele para confortá-lo.
Ryu levou as duas mãos ao rosto, esfregando-o várias
vezes enquanto murmurava desculpas sem parar. Ele se
culpava, dizendo que tinha colocado todos em apuros por
causa do seu erro. Ele continuava se culpando sem parar.
Todos rapidamente se reuniram ao redor dele,
confortando-o. Especialmente Ying, que o puxou para um
abraço e esfregou suas costas com carinho.
— Por que você está se estressando, hein? Não é nada.
Ainda temos tempo. Temos mesmo.
— Desculpa.
— Não tem pelo que se desculpar — disse Ying com
firmeza. — Isso não é problema nenhum, Ryu. Sério. Eu e o
Hem estamos prontos para ajudar. Olha, o Marn e o Than
estão aqui também, tá vendo? Se você tiver problemas, conta
para a gente, ok? Vamos te ajudar até o fim.
Ryu assentiu repetidamente. Logo, o sinal tocou,
indicando que as aulas da tarde estavam prestes a começar.
Ryu pediu licença para ir ao banheiro. Depois que ele saiu,
Ying soltou um suspiro baixo. O jeito que ela observava as
costas dele estava cheio de preocupação e cuidado profundo.
— O Ryu não é o tipo de pessoa que fala dos problemas
dele — ela disse suavemente. — Quando ele comete até um
erro minúsculo, ele assume imediatamente que tudo vai dar
errado. Mesmo quando não é nada de mais. As pessoas erram
às vezes, é totalmente normal.
— É, ele provavelmente pensa demais — respondeu Hem.
— Como hoje, não é como se a gente não pudesse chegar a
tempo. Ainda temos bastante tempo.
— Mae, você não entende — disse Ying.
— Hein...?
— O pai dele é muito assustador — ela continuou. — Ele
provavelmente sofre pressão faz muito tempo. É por isso que
ele pensa assim.
— Como é o pai do Ryu? — perguntou Marn, curioso.
Ying então explicou. O pai de Ryu era extremamente
rigoroso e controlador. Ele ocupava um cargo de supervisão de
alto nível em uma grande organização, carregando uma
responsabilidade imensa — erros não eram uma opção. Por
causa disso, Ryu herdou alguns desses traços. Ele se tornou
cauteloso demais, ao ponto de ser obsessivo. Mesmo um único
erro pequeno poderia se tornar uma ferida eterna para ele,
forçando-o a se cobrar para ser ainda melhor do que antes.
— É como chamam, né? Perfeccionista? — disse Hem. —
Mas do jeito que ele está agora, parece um pouco demais.
Eles conversaram um pouco mais antes do próximo
professor entrar na sala carregando materiais. Ying e Hem
voltaram para seus lugares. Pouco depois, Ryu voltou do
banheiro, parecendo bem melhor. De onde estava sentado,
Marn notou Ying conversando constantemente com ele e o
abraçando gentilmente. Ver aquilo fez Marn se sentir aliviado.
Ele sorriu para si mesmo enquanto estudava,
genuinamente feliz por Ryu estar cercado por amigos tão
maravilhosos.
— Than, você tem amigos muito bons, sabia?
— ...
— Isso é muito legal. Vocês são amigos há muito tempo,
né? Trata de manter eles por perto.
Marn disse isso com um sorriso antes de baixar a cabeça
para continuar lendo. Durante a aula inteira, Than não disse
uma palavra. Ele apoiava o queixo na mão, encarando a sala
como alguém completamente desinteressado em estudar.
O calor da tarde estava sufocante, dificultando a
concentração de muitos alunos, inclusive a de Than. Marn
olhava para o lado ocasionalmente e percebeu Than pegando
um pedaço de papel, rabiscando algo nele e depois
empurrando-o lentamente em sua direção.
Marn franziu a testa em confusão, apontando para si
mesmo com o dedo indicador. A expressão de Than
permanecia indecifrável. Sem escolha, Marn largou a caneta e
pegou aquele pequeno pedaço de papel. Depois de conferir se o
professor não estava prestando atenção, ele se inclinou para
ler.
Depois da escola, vá para a piscina.
Hein? A piscina? Por quê? O Than queria conversar sobre
alguma coisa?
Marn inclinou a cabeça confuso e olhou de volta para
Than. Than não disse nada, ainda apoiando o queixo na mão,
encarando-o em silêncio.
— Por quê? E por que escrever no papel? Você podia só ter
me falado.
— Você faz perguntas demais.
— Isso não é justo. Você gosta de implicar comigo. E se
você me meter em algo estranho?
— Exatamente.
— Than! Por que você é assim!
— Presta atenção na aula. Só isso.
— Você é quem devia estar prestando atenção.
— ...
— Se não prestar, vou contar para o Professor Nathi.
— Por que você sempre usa ele para me ameaçar? Vocês
dois são tão próximos assim?
— Com certeza. O Professor Nathi leva comida para
minha casa o tempo todo.
— Ele não está levando para você.
— Mas eu sempre acabo comendo.
— Se ele não mimar o sobrinho querido, como é que ele
vai ganhar pontos...
— Hein? O que você disse? Eu não ouvi direito.
— Esquece.
— Hein? Você vai dormir de novo? Não pode acordar e
estudar!
Marn perdeu o fôlego quando Than de repente pareceu
que ia dormir de novo. Marn não achava realmente que Than
fosse fazer uma pegadinha com ele. Ele confiava no Than até
certo ponto — ele tinha assistido aos treinos de natação dele
com frequência. Ir mais uma vez não era problema. Ele só
estava curioso sobre o motivo de Than querer que ele estivesse
lá hoje.
Ultimamente, Than estava agindo de um jeito estranho.
Pensando em quando Marn se transferiu de escola pela
primeira vez — Than tinha sido completamente hostil.
Respostas curtas. Frio. Distante. Ele o evitava
constantemente, até chamando-o de irritante. Embora todos
os considerassem amigos, Marn ainda não tinha confiança
suficiente para dizer isso ele mesmo.
— O Than é muito difícil de entender. Eu não te entendo
nem um pouco. Você vivia me evitando, lembra?
— ...
— Até disse que eu era irritante. Até o Professor Nathi
disse que você é teimoso e muito difícil de lidar.
Marn sussurrou isso, baixando a cabeça para que o
professor não os pegasse conversando.
Than, que estava deitado de bruços em silêncio fazia
tempo, de repente se aproximou mais — tão perto que sua
cabeça encostou no braço de Marn.
Marn deu uma leve travada. Tudo o que ele conseguia ver
era o cabelo escuro de Than se movendo contra sua manga.
Ele não entendia esse comportamento de jeito nenhum.
Franzindo a testa, ele gentilmente colocou sua mão livre no
ombro de Than, cutucando-o para que se sentasse direito.
— Than, você pode sentar direito?
— ...
— Sabia que, se você agir assim, eu vou começar a achar
que está tentando chamar minha atenção?
— ...
— Hunf... o que há de errado com o irmãozinho do
Professor Nathi, sério?
Marn resmungou baixinho, mas deixou o amigo ao seu
lado continuar encostado nele. Than aproximou a cabeça até
encostar no braço de Marn. Às vezes ele levantava o rosto e
olhava para cima em silêncio, e sempre que Marn percebia e
olhava para baixo, Than imediatamente desviava os olhos para
outro lugar. Aquele comportamento estranho deixava Marn
confuso.
— Than, seu cabelo está ficando comprido. Não esquece
de cortar — ou o professor vai te dar bronca.
— Hum.
— Than...
— ...
— O que foi? Hm?
É exatamente isso — algo parece errado.
Era como se algo estivesse cutucando o instinto do Marn
de se preocupar com os outros. No começo, ele achou que o
Than estava só de brincadeira, mas quanto mais observava,
mais claro ficava que, hoje, o Than estava mais carente que o
normal. Carente era a única palavra para isso, mesmo que não
combinasse nada com a personalidade do Than. Encostar nele
e buscar atenção constantemente batendo a cabeça no braço
do Marn... se isso não era carência, então o que era?
Marn tinha certeza de que isso tinha algo a ver com o que
quer que o Than quisesse conversar depois da escola.
— Tudo bem. Eu vou para a piscina hoje à tarde. Mas não
me segura lá por muito tempo — eu preciso correr para casa e
ajudar o Tio Karn a vender as coisas.
— Hum.
Marn decidiu guardar suas perguntas para si e se
concentrou em estudar durante toda a aula da tarde,
esperando até que o dia escolar finalmente terminasse. Ele
notou como os outros no grupo pareciam apressados —
especialmente Ying e Hem. Aqueles dois tinham prometido ao
Ryu que correriam para pegar a pintura dele e enviá-la pelo
correio o mais rápido possível. O próprio Ryu teve que ir para o
cursinho, e parecia que o motorista de seu pai viria buscá-lo
em breve.
Ver Ryu parado ali em silêncio deixou Marn preocupado,
então ele se aproximou, ofereceu encorajamento com um
sorriso gentil e assegurou que tudo ficaria bem. Dava para
confiar em Ying e Hem — eles fariam tudo o que pudessem
para proteger o sonho do amigo. Ele disse ao Ryu para relaxar
e não se estressar tanto. Mesmo assim, Ryu continuava se
desculpando repetidamente.
Quanto ao Than — assim que o professor do último
período saiu da sala, ele jogou a mochila no ombro e pulou
direto pela janela. A essa altura, ele provavelmente já estava
assombrando a piscina.
Marn deu tchau para os outros três e seguiu em uma
direção diferente, com a mochila pendurada nas costas. Ele
caminhou por baixo do prédio da escola até que finalmente
chegou à piscina. A atmosfera estava silenciosa e solitária
como sempre. Ele avistou movimento debaixo da água,
caminhou até lá e agachou-se ao lado da piscina.
Pouco depois, a sombra sob a superfície se aproximou.
Than brotou da água tão de repente que parte dela espirrou
em Marn. Não chegou a ensopá-lo, mas ainda assim o
assustou. Marn observou enquanto Than se içava para fora da
piscina usando os braços — os músculos do braço dele não
eram brincadeira, claramente fortes. Nadadores competitivos
realmente tinham uma força incrível na parte superior do
corpo.
— E então? Estou aqui.
Than saiu, pegou o celular e sentou-se ao lado dele. Marn
ergueu uma sobrancelha levemente quando Than entregou o
celular sem dizer uma palavra. Um vídeo já estava aberto.
Marn apertou o play e rapidamente percebeu que era a
filmagem de uma competição nacional — uma em que o
Professor Nathi já havia competido.
Ele se sentiu um pouco animado. O Professor Nathi de
cinco anos atrás parecia muito diferente do atual. Aquele devia
ser ele na época em que ainda era um atleta nacional de elite.
Uau... os músculos dele eram insanos. Braços, costas,
abdômen — tudo era sólido. Incrível.
Em terra firme, ele era o tipo de professor bondoso e gentil
que sorria para todos. Mas no momento em que entrava na
água, ele se tornava feroz e intenso. Marn ficou olhando, de
boca aberta, para assistir àquela velocidade lendária. Não era
de se admirar que Nathi tivesse sido escolhido uma vez para
competir no cenário mundial. O Professor Nathi naquela época
devia ser incrivelmente talentoso. Se todos na escola
soubessem que o professor de matemática deles tinha um
passado tão extraordinário, ficariam mais do que empolgados.
— O Professor Nathi é incrível. Ele nada tão rápido,
parece que ele dispara como um foguete.
— Hum.
— Ele competiu muito no exterior, não competiu?
— Hum. Ele foi enviado como representante muitas vezes.
Ganhou um monte de medalhas de ouro também.
Than falava de forma monótona, com o olhar vagando em
direção à superfície azul da piscina. Pensamentos sobre seu
irmão mais velho inundaram sua mente. Ele sabia o quão
incrível Nathi era. Entre os três irmãos, Nathi era
inquestionavelmente o melhor — quase impossível de igualar.
Naquela época, ele era uma estrela em ascensão,
representando o país em competições de nível asiático,
enfrentando nadadores da China, Japão, Coreia e muitos
outros países. Ele era o queridinho da piscina, admirado por
todos. Por isso o pai deles o cobrava tanto, treinando-o
constantemente — porque ele tinha orgulho de seu filho mais
velho acima de tudo.
Essa também foi uma das razões pelas quais Than sentiu
ressentimento do pai tantas vezes.
Olhando para trás agora, a culpa em relação ao irmão
surgiu mais uma vez. Por causa daquele acidente estúpido,
todos os sonhos e esforços de seu irmão tinham sido apagados
— nada restou. De um representante nacional indo para a
maior competição de sua vida no cenário mundial, ele se
tornou um professor de escola rural ganhando um salário
modesto — desconhecido, despercebido, repetindo a mesma
rotina dia após dia.
Tudo foi culpa do Than.
Como ele poderia algum dia ficar em paz com isso?
Ele sabia, no fundo, que foi ele quem destruiu tudo. Em
vez de seu irmão brilhante seguir em frente, foi Than quem
recebeu as oportunidades. O que ele tinha que pudesse se
comparar ao seu irmão? Nada — absolutamente nada.
Toda vez que Nathi vinha treiná-lo, Than se sentia
esmagado pela pressão. Mesmo depois de ter deixado o esporte
por tanto tempo, Nathi ainda era incrível na água. Sua forma
permanecia elegante, seus movimentos rápidos e precisos —
ainda digno do título de Tubarão Mako, o Príncipe da Água,
exatamente como seu pai o chamara uma vez.
Mas a admiração de Than nunca durava muito. Seu
coração dava um solavanco doloroso quando seu irmão se
virava com um sorriso fraco e saía da piscina, incapaz de
continuar. Isso era tudo o que ele conseguia fazer. Esse era o
seu limite. Se ele fosse além, correria o risco de agravar sua
antiga lesão.
Than se odiava toda vez que via seu irmão sair da piscina
porque não conseguia continuar nadando. Apenas alguns
momentos mais cedo, Nathi estava liderando sem esforço, mas
logo depois seu ritmo diminuiu e sua forma piorou, até que ele
não teve escolha a não ser parar e treinar de fora da água. O
rosto de Than empalidecia toda vez que ele presenciava aquela
cena.
Ele começou a temer a água novamente. Sentia como se
aquele lugar não lhe pertencesse mais. Than não merecia ser
um nadador.
Marn desviou o olhar da figura imponente na tela do
celular e se voltou para o amigo sentado ao seu lado. O corpo
de Than ainda estava encharcado, mas seus olhos, embora
refletissem o brilho da água, estavam dolorosamente sem vida.
Marn alternou o olhar entre Than e o homem no vídeo,
finalmente começando a entender com o que seu amigo estava
lutando.
Ele largou o celular e esticou o braço para massagear
suavemente o ombro de Than em um gesto de conforto. Than
não olhou de volta, apenas inclinou a cabeça devagar para
descansá-la naquele ombro, apertando levemente a mão de
Marn.
— Than, você está se sentindo culpado de novo, não está?
— Ele era realmente incrível... Se aquilo não tivesse
acontecido, ele teria ido ainda mais longe.
— Than...
— Você sabe como é horrível...? O motivo de eu nem
querer estudar a matéria dele é porque não suporto vê-lo
assim. Não quero vê-lo como um professor. Quanto mais eu o
vejo, mais eu me odeio. Se aquilo não tivesse acontecido, ele
poderia ser um campeão mundial agora. Ele teria conseguido
fazer o que amava. Mesmo que não fosse como atleta, ele
poderia ser treinador em algum lugar, ou até mesmo um
árbitro.
Aquela foi provavelmente a primeira vez que Than falou
tanto. Eram sentimentos que ele tinha enterrado
profundamente, nunca compartilhando com ninguém, nem
mesmo com o resto do grupo. P'Nathi, P'Warin, até sua mãe
nunca tinham ouvido aquelas palavras.
Marn achava que as coisas entre Than e o professor Nathi
estavam melhorando, mas a ferida profunda no coração de
Than não tinha desaparecido. Ele ainda se sentia culpado. Ver
o quão glorioso Nathi já fora apenas tornava o arrependimento
mais profundo. Than era jovem demais na época, imprudente
demais, e tinha feito algo imperdoável.
Ele destruiu o sonho do irmão.
Destruiu seu futuro.
Destruiu a única coisa de que seu irmão se orgulhava.
Ele não conseguia nem imaginar o quão doloroso devia
ser para Nathi ficar na beira da piscina, observando o irmão
mais novo que arruinou seu sonho nadar livremente pela
água.
Se um dia Nathi tivesse que ficar ao lado da piscina,
torcendo enquanto Than vencia e seguia em frente, sabendo
que ele mesmo nunca mais teria aquela chance, seria uma dor
insuportável.
— Pensando por esse lado... Eu não quero mais nadar.
— ...
— Eu não me atrevo a nadar na frente dele de novo.
— Than, me escuta primeiro.
— Hum.
— Você pode parar de se culpar? O que aconteceu
naquela época foi um acidente, você não teve a intenção de que
acontecesse. Você já se sentiu culpado por tempo suficiente.
Cinco anos não é pouco tempo, Than. Você já se puniu mais do
que o suficiente.
— ...
— P'Nathi e todos os outros não pensam mal de você
desse jeito. Ninguém acha que tudo aconteceu por sua causa.
— ...
— Pelo contrário, o P'Nathi está realmente feliz em ver
você nadando de novo. Você sabia que toda vez que ele vai à
casa do tio Karn, ele fala muito sobre você? Ele parece
genuinamente orgulhoso de você. Ele disse que quer cuidar
bem de você, que quer te treinar seriamente e fazer de você o
melhor nadador da Tailândia. Ele até disse que, se um dia você
tiver a chance de competir em um nível mundial, ele vai
colocar enormes banners de vinil por toda a cidade para torcer
por você.
Than finalmente levantou a cabeça. Aqueles olhos
encararam Marn, vacilantes como a superfície da água diante
deles. Era raro ver o olhar de Than suavizar assim. Marn
sorriu gentilmente para ele e esfregou levemente seu ombro,
enviando todo o encorajamento e energia positiva que tinha
através daquele toque. A expressão de Than parecia muito
melhor do que antes.
— O P'Nathi realmente ama você, sabe. Então... você tem
que aprender a se amar mais também, tá bom?
— ...
— Than, não pense em si mesmo como alguém que
destruiu o sonho do P'Nathi.
— ...
— Porque você é o sonho do P'Nathi. Ele não se tornou
professor aqui porque não teve outra escolha. Ele escolheu vir
para cá. Ele escolheu ser seu professor. E ele está muito feliz
por estar aqui. Ele está verdadeiramente feliz.
— Sério?
— Sim. Você é a felicidade do P'Nathi. Ele ama o irmão
mais novo mais do que qualquer coisa no mundo. Ele nunca
ficou decepcionado, nunca sentiu arrependimento e nunca
ficou bravo com você, nem um pouquinho. Tudo o que ele quer
é dar tudo o que tem para você. Ele espera que você tenha
sucesso, porque se você conseguir alcançar seu sonho, é como
se estivesse realizando o sonho dele também.
— Hum...
Than assentiu repetidamente, como se finalmente
entendesse. Ele parecia melhor agora, embora ainda houvesse
um traço de melancolia em seu rosto. Vendo aquilo, Marn
sorriu ainda mais abertamente, tentando animar o amigo. Sua
mão passou de massagear o ombro de Than para apertá-lo e
pressioná-lo gentilmente, dizendo que fazer aquilo daria a
Than forças para voltar à piscina novamente.
— Não pense demais. Eu acredito que você
definitivamente se tornará um nadador incrível, igualzinho ao
P'Nathi! Quem sabe, você pode até ser melhor que ele.
— Sem chance. Você viu como ele era bom no vídeo.
— Você só tem dezessete anos, Than. Ainda tem muito
tempo. Talvez... quando você tiver a mesma idade que o
P'Nathi tinha naquele vídeo, você já seja um campeão
mundial. Quem sabe?
— Você está exagerando.
— Estou falando sério. Deixe o P'Nathi ser uma lenda. De
agora em diante, será a sua era.
— Você acha que eu posso superá-lo?
— Com certeza!
— Mas você viu o quão rápido ele nada.
— Você nada rápido também. Um dia eu vou gravar um
vídeo e te mostrar, para você ver por si mesmo. O P'Nathi me
disse que você é uma foca, disse que você nada tão bem
quanto o apelido sugere.
— Que foca? Isso é bobagem.
Than franziu o cenho bruscamente e negou
imediatamente. Marn lutou para segurar o riso. Ele se
lembrava claramente de como P'Nathi tinha enfatizado várias
vezes que Than era a pequena foca da família, uma foca
mal-humorada, mimada e de temperamento extremamente
forte.
— O Than não é uma foca? É fofo. É legal, vocês até têm
apelidos na família.
— Eu já disse que não sou uma foca. Sou um tubarão.
— Talvez, mas você é um tubarão travesso que gosta de
morder as pessoas. O P'Nathi é o tipo de tubarão gentil e
adulto. E ele é bonito também...
— Não diga isso.
— Ohooo, você está ficando rabugento de novo.
Marn provocou de brincadeira. Naquele momento, suas
bochechas macias foram agarradas e apertadas pelas mãos
molhadas de Than. O rosto de Marn ficou engraçado. Ele
resmungou, prestes a reclamar do porquê de Than ter
começado a mexer com ele daquele jeito do nada. Mas parecia
que Than estava de melhor humor agora, tão temperamental e
difícil de entender quanto P'Nathi tinha descrito.
Than apertou as bochechas de Marn para lá e para cá,
então parou de repente. Antes que Marn pudesse processar o
que estava acontecendo, antes mesmo de abrir a boca para
reclamar, Than envolveu os dois braços ao redor dele e o
puxou para um abraço.
Marn congelou de choque. Seus olhos grandes se
arregalaram enquanto seu coração falhava uma batida.
Aquela era... a primeira vez que Than o abraçava assim?
— Th-Than...
— Obrigado.
— Hum... não pense mais demais sobre isso, tá bom?
— Hum.
— Só foque em correr atrás do seu próprio sonho. Deixe o
passado para trás.
— Eu não consigo esquecer.
— Tudo bem se não conseguir esquecer. Só não deixe que
isso destrua seu presente e seu futuro. Você começou de novo,
Than. O P'Nathi também. De agora em diante, apenas olhe
para frente.
— Você realmente acha que eu consigo... que eu posso
realmente me tornar um grande nadador como ele?
— Tenho certeza que consegue. Você pode até se tornar
melhor que o P'Nathi.
— Marn.
— Oi?
— Você percebe que mima demais as pessoas?
— O que você quer dizer com mimar? Isso se chama
encorajamento.
— Você fala demais.
— Bom, foi você quem me chamou aqui.
— Cala a boca.
— Ai! Thannn, você está apertando demais!
Marn fez bico antes de soltar um "ai" alto quando Than
apertou o abraço. Than parecia encantado por poder provocar
Marn, apertando-o com força, depois soltando, e apertando de
novo e de novo. Marn continuou fazendo barulhos estranhos
sem parar. Quando Than finalmente se deu por satisfeito,
Marn tinha gritado tanto que parecia que, se alguém passasse
por perto, provavelmente pensaria que um pato estava sendo
esmagado até a morte ali perto.
— Eu vou contar para o P'Nathi! Só você espera. Não vou
ficar mais aqui. Vá nadar sozinho. Vou para casa ajudar o tio
Karn a vender as coisas. Você me chamou aqui só para me
provocar, que comportamento feio, nada parecido com o do
P'Nathi.
— Você só sabe elogiar meu irmão.
— Bom, o P'Nathi é realmente ótimo. Na verdade, naquele
vídeo que você me mostrou, ele estava super bonito também.
Eu nunca soube que nosso professor de sala costumava ser
tão gato. Um nadador com músculos tão bonitos, ele devia ser
incrivelmente em forma naquela época, treinando muito
pesado. E quando ele entrava na água, a forma dele era linda,
e ele era tão rápido, e também...
— Já chega. Vá para casa.
— Tsc. Quando é assim, você me enxota. Tá bom. Estou
indo para casa.
— Pare de falar do P'Nathi.
— Você está com ciúmes do seu irmão. Eu só estava
elogiando ele.
— Não estou com ciúmes.
— O Than está com ciúmes do irmão mais velho.
— Eu disse que não estou, droga.
— Por que você está emburrado? Você também recebe
muitos elogios, sabe. Todo mundo vive falando do irmão mais
novo do professor Nathi. Honestamente, você também é
bonitão.
— O que você quer dizer com isso?
— Oh! Já é tarde assim?! Achei que estivéssemos
conversando só um pouquinho. Já se passaram trinta
minutos! O tio Karn deve estar me esperando em casa. Vou
indo, Than!
— Espera, o que você disse agora há pouco... droga!
Marn se interrompeu e saiu correndo apressado com sua
bolsa. Than ficou parado ali sozinho. Ele mergulhou de volta
na piscina, nadou de um lado para o outro por um tempo,
depois boiou parado, expirando até que bolhas florescessem
na superfície da água. O rosto do jovem nadador estava todo
franzido, parecendo estranhamente incomum.
— Você não podia pelo menos terminar o que estava
dizendo antes de ir embora...?
Toda vez que se encontravam, tudo o que ele fazia era
falar do irmão dele. Than realmente queria saber: se fosse o
Than, o que Marn diria para elogiá-lo?
— Sinto muito.
— Você não precisa mais me pedir desculpas, Ryu.
Quantas vezes eu tenho que te falar?
— Hum.
— Não fique tão triste. Eu vou resolver com a mãe. A
moldura, o envio, não se preocupe com nada disso. Você já nos
deu o dinheiro. Só vá esperar sua carona. Foque nas suas
aulas extras para seu pai não reclamar com você. Assim que
tudo for enviado direitinho, a gente te liga, tá bom?
— Hum.
Ying olhou para o amigo e deu um sorriso fraco. Ela se
aproximou e bateu de leve no ombro dele, tentando espantar a
culpa de Ryu. Ela deu tapinhas gentis nas costas dele e
assentiu algumas vezes para tranquilizá-lo.
Já era depois da escola, pouco depois das quatro da tarde.
Ying e Hem tinham decidido ajudar Ryu com aquilo. No
momento, Ying tinha se separado de Hem, deixando que ele
fosse avisar Nathi para que pudessem pegar o carro do
professor emprestado para entregar os quadros de Ryu a
tempo. Quanto a Ying, ela estava indo junto, mas como correu
demais depois da aula, acabou esquecendo algo importante
debaixo da mesa e teve que voltar correndo para buscar.
Quase não havia mais alunos no prédio agora; a maioria
já tinha ido para casa. Ryu e Ying se apressaram pelo
corredor, ansiosos para sair logo do prédio para que pudessem
terminar seus afazeres o mais rápido possível.
— Haha, você também acha, né? É engraçado pra
caralho.
Naquele momento, Ying ouviu uma risada familiar não
muito longe dali. Parecia vir da sala de aula pela qual ela
acabara de passar. Ela parou e deu um passo para trás,
escondendo-se ao lado da porta. Ryu franziu a testa, confuso
sobre por que Ying tinha congelado daquele jeito, até que
ouviu a conversa de quatro ou cinco alunos veteranos dentro
da sala. Uma voz ressoou, e seu corpo inteiro ficou dormente.
— Eu nunca imaginei que aquela machuda fosse gostar
de você.
— Ela disse que não é machuda. Você devia pelo menos
acreditar nela.
— Eu sabia. Ela só finge ser descolada. No fim das contas,
ela gosta de caras de qualquer jeito.
— Mas sério, ela xingava a gente loucamente e acabou
gostando do nosso amigo. É engraçado, né?
— Mal posso esperar para zombar dela. Trate de dar um
fora nela logo. Estou esperando para ver ela ter o que merece,
droga.
— O que você tem contra ela, afinal?
— Ela já me deu um soco na cara antes. E isso sem contar
como ela está sempre agindo como valentona perto de mim. Só
uma caloura, mas metida pra caramba. Se ela não fosse uma
garota, eu já teria feito alguma coisa. Senão ela ia chorar para
os professores e acusar a gente de bullying de novo.
— Mas ela tem uma língua afiada mesmo. E o amigo dela
também, o Hem.
— Agindo toda durona e máscula só para poder andar
com os caras. Você não percebeu? O grupo inteiro dela é de
caras. Que tipo de machuda estúpida é essa, hein?
— Você não gostou dela de verdade, gostou?
— Não.
— ...
— Eu nunca dei a mínima para isso em primeiro lugar, tá
legal?
Os lábios de Ying tremeram. Ryu imediatamente levantou
as duas mãos e cobriu as orelhas dela. Os dois se esconderam
do lado de fora da sala, sem fazer som, forçados a ouvir
aquelas palavras cruéis. O rosto de Ying ficou mortalmente
pálido, seus olhos ardendo em vermelho, mas nem uma única
lágrima caiu. Ryu permaneceu imóvel, com os dentes cerrados
com tanta força que sua mandíbula tremia.
Ele guiou Ying lentamente para longe daquele lugar.
Depois de apenas alguns degraus escada abaixo, Ying agarrou
a mão de Ryu e a apertou levemente duas ou três vezes. Ela
respirou fundo e olhou para ele.
— Não se preocupe comigo. Vamos deixar isso de lado por
enquanto. Não é hora de pensar em coisas estúpidas. Eu
preciso me apressar e cuidar do seu assunto.
— Ying...
— Estou bem. Sério, estou bem.
— ...
— Vou me apressar e enviar seus quadros. Não pense
demais nisso. Não se preocupe. Não deixe que bobagens te
distraiam.
— ...
— Volte e faça o que você precisa fazer primeiro. Agora, o
seu problema é o mais importante.
Ying deu tapinhas leves no ombro dele, segurando as
lágrimas com todas as forças antes de descer as escadas
correndo. Ela provavelmente estava correndo para se juntar a
Hem e ao professor Nathi para realizar aquela missão
importante: ir até a casa dela buscar os quadros de Ryu e
enviá-los no correio a tempo.
Ryu não pôde ir com eles. Ultimamente, parecia que seu
pai tinha notado que ele andava relaxado e não estava
frequentando as aulas extras como prometido. Um motorista
tinha sido contratado especificamente para buscá-lo e
deixá-lo, relatando diretamente ao pai que Ryu tinha sido
entregue no curso particular. Por causa disso, Ryu não pôde
escapar para ajudar, embora aquele fosse o seu próprio
problema.
Na verdade, não era responsabilidade de Ying ou Hem. Foi
Ryu quem foi descuidado e arrastou seus amigos para
problemas. E, além disso... Ying tinha acabado de ser
machucada também, e ainda assim ela aguentou, deixou de
lado e disse que o assunto dele era o mais importante.
Tudo o que preenchia a cabeça de Ryu era o porquê.
Por que as pessoas ao seu redor tinham que passar por
coisas assim?
Por que tinham que encontrar pessoas tão cruéis?
Todos os amigos de Ryu mereciam ser felizes mais do que
qualquer pessoa, então por que algo assim tinha que
acontecer com eles?
Seus punhos se cerraram com força. Ele sentiu a vibração
do celular, provavelmente era o motorista esperando por ele,
ou talvez o próprio pai. Ryu deixou o aparelho vibrando. Ele
fechou os olhos e os abriu lentamente. A melancolia em seu
olhar se aprofundou.
Ele se virou e caminhou em direção àquela sala de aula.
No momento em que ele apareceu, o riso lá dentro silenciou.
Em toda a sua vida, Ryu nunca tinha sentido tanta raiva.
Seu olhar travou naquele veterano, aquele que tinha
conquistado o coração de Ying apenas para despedaçá-lo bem
na frente dela. Ryu tinha se esforçado tanto para fazer Ying
sorrir, para mantê-la feliz, ficando ao lado dela sempre que ela
enfrentava algo ruim. Ele nunca imaginou que aquele que se
tornaria a fonte do pesadelo dela seria esse tal de príncipe
gentil.
Os veteranos se levantaram e o cercaram. Não havia medo
no rosto de Ryu.
— Como você se atreve, Zen?
— ...
— Como você se atreve a fazer esse tipo de coisa escrota
com a Ying?
— ...
— Você é nojento.
26
— Rápido, professor! É urgente!
— Tá bom, tá bom. Do jeito que você está me apressando,
não precisa nem me chamar mais de professor.
— É isso aí! As aulas já acabaram. Vamos logo, chefe!
— Ai, ai... essas crianças.
Nathi suspirou baixinho. Hem pulou para dentro do
carro, batendo no banco repetidamente, insistindo para que
ele dirigisse logo. Depois da escola naquele dia, Nathi tinha
uma tarefa urgente: ajudar os garotos a entregar os desenhos
de Ryu na agência dos correios a tempo. O dono das obras de
arte teve que ficar para aulas extras e não pôde ir
pessoalmente, então seus amigos se ofereceram para fazer
isso por ele.
Os desenhos estavam na casa da Ying. Então, logo após a
aula, os dois garotos correram até lá, pegaram o professor
responsável pelo braço e disseram para ele correr de volta à
casa da Ying para que pudessem pegar as imagens e
despachá-las. É claro que Nathi ajudou de bom grado. Ele se
desculpou por ter um compromisso especial, usou seu próprio
carro e dirigiu o quanto foi necessário sem reclamar, sem nem
pensar em cobrar pela gasolina.
Ryu não era apenas um aluno sob seus cuidados; ele
também era amigo de longa data de seu irmão mais novo. Ele
podia até considerá-lo como outro irmão mais novo. Nathi
estava mais do que disposto a ajudar. E saber que Ryu
finalmente estava se permitindo fazer algo que amava o
deixava especialmente feliz.
Adolescentes não deveriam viver baseados nas decisões
de outras pessoas. Eles precisavam aprender e experimentar
para encontrar o próprio caminho. Como professor, Nathi
sabia que as notas de Ryu eram muito boas — não
excepcionais, mas estavam entre as melhores da sala. O que o
intrigava era que, apesar de ir tão bem, Ryu nunca estava
satisfeito. Ele se pressionava incansavelmente para superar
todo mundo, embora nem soubesse qual era seu verdadeiro
objetivo; apenas sentia que precisava ser o número um em
tudo.
Vendo o desânimo no rosto e nos olhos de Ryu, Nathi
sentia uma pontada de dúvida, mas nunca tinha perguntado
sobre isso.
— Ying, você já ligou para o Ryu?
— ...
— Ying.
— Hã?
Depois de dirigir por um tempo, Nathi olhou para a
pessoa ao seu lado e perguntou. Ele fez uma pequena pausa
ao perceber que Ying parecia estranhamente distraída. A
expressão dela estava murcha e triste, nada parecida com o
seu eu habitual. Ele conseguia sentir um certo peso vindo
dela, mas não se atreveu a adivinhar o que estava escondido
por trás daquele olhar triste.
— Estou falando com você. Você me ouviu?
— Eu não ouvi. O que você perguntou? — Ying virou o
rosto lentamente em direção a ele e respondeu baixinho.
Quando Nathi percebeu o brilho de lágrimas nos olhos
dela, ele ficou em silêncio. Não ousou fazer mais perguntas por
enquanto; era melhor resolver o assunto do Ryu primeiro e
perguntar depois.
— Você ligou para o Ryu para avisar que estamos indo
enviar os desenhos?
— Ainda não, P'Nathi. Eu estava planejando contar para
ele depois que tudo estivesse resolvido.
— Entendi.
— ...
— Ying.
— Hum?
— Você está bem?
— Por que eu não estaria? Estou perfeitamente bem.
Heh. Só de olhar para o rosto dela, era óbvio que não. Mas
ela continuava sendo teimosa sobre isso. Bom... crianças
dessa idade sempre têm segredos que não querem contar a
ninguém.
Nathi assentiu e deixou para lá, embora no fundo ainda
estivesse bem desconfiado. Ele continuava se perguntando
que tipo de problema Ying poderia ter ou se talvez ela tivesse
brigado com o Ryu. Mas isso parecia improvável. Aqueles dois
se entendiam melhor do que ninguém. Ryu era calmo e
sensato; no máximo, eles tinham alguns desentendimentos
bobos antes. Ele nunca os tinha visto brigar feio a ponto de
terminar em lágrimas. Hem também parecia completamente
alheio a qualquer coisa. Talvez fosse algo na escola, no clube
ou em casa.
Os três chegaram aos correios. O Nathi e os dois alunos
trabalharam juntos para deixar tudo pronto. O jovem
professor pagou todas as taxas do próprio bolso, sem intenção
de pedir o reembolso ao Ryu. Os custos de envio não eram
nada comparados ao futuro do Ryu; é claro que ele podia arcar
com aquilo. Ele tinha dado uma olhada rápida na obra de arte
e percebeu que Ryu tinha um talento real para a arte. Era uma
pena que ele tivesse mantido isso escondido por tanto tempo.
Se o Ryu apenas se desse uma chance, ele poderia até se
tornar um jovem artista extraordinariamente talentoso.
Ter um aluno com tanto potencial fazia Nathi querer agir
como um patrocinador total, investindo dinheiro em cada
competição que ele acompanhasse.
— Quer parar e comprar alguma coisa antes de voltar,
Hem?
— Hummm... deixa eu pensar.
— Ying, não esqueça de ligar para o seu amigo.
— Ah, sim... vou ligar para o Ryu.
— Hein? Estão ligando. É o diretor. Vou atender
rapidinho.
Nathi estava prestes a dar a partida no carro quando o
celular vibrou de repente, com a tela iluminando o nome do
diretor. Um pouco confuso, ele atendeu imediatamente. Ying,
sentada ao lado dele, pegou o próprio telefone e discou para
seu melhor amigo. Estranhamente, não importava o quanto
chamasse, não havia sinal de que a outra pessoa fosse
atender.
— O que o senhor disse?
— ...
— Sim, senhor. Vou voltar agora mesmo.
Ying e Hem congelaram um pouco quando ouviram o tom
sério de Nathi. A expressão dele mudou instantaneamente; ele
parecia chocado. Assim que terminou a ligação, ele se virou
para encará-los.
Nenhum dos dois sabia o que tinha acontecido, mas ver o
quanto Nathi parecia perturbado e ansioso fez o coração deles
disparar. Era como se algum instinto interno estivesse
gritando um aviso de que algo muito ruim tinha acontecido.
— Aconteceu alguma coisa, P'Nathi?
— Ying. Hem.
— ...
— O Ryu apanhou. O pai dele já mandou alguém levá-lo
para o hospital.
— O quê?! Quem fez isso?!
— O diretor disse que foram alguns alunos do terceiro
ano.
— Droga... Ryu.
Os olhos de Ying se arregalaram. Ela imediatamente levou
as mãos à cabeça, apertando-a com força. Vendo a reação
dela, Hem e Nathi perceberam: Ying devia saber de algo. Um
garoto bom como o Ryu se meter em uma briga grave o
suficiente para mandá-lo para o hospital? E ainda ir sozinho
confrontar os veteranos? Isso não combinava em nada com
ele. Ryu não era de arrumar confusão. Se o diretor disse que
ele foi espancado, era provável que Ryu tivesse sofrido bullying
covarde. Quanto mais Nathi pensava nisso, menos ele
entendia. O que poderia ter acontecido para fazer Ryu perder o
controle daquele jeito?
— Que diabos aconteceu, Duanphen? Você sabe, não
sabe?
— Sei.
— Como alguém como o Ryu poderia sair procurando
briga? Eu não acredito. Não tem como.
— ...
— P'Nathi, o que mais o diretor disse?
— Ele disse que, após o incidente, entrou em contato com
os pais. O pai do Ryu mandou levá-lo direto para o hospital.
Quanto aos alunos do terceiro ano, eles ainda estão na escola.
O diretor está chamando todos os pais deles.
— Para o hospital?! Droga... o que exatamente aconteceu?
Por que o Ryu se machucou tanto? — Hem parecia
visivelmente abalado.
Seus punhos estavam cerrados com força, com a raiva
percorrendo seu corpo. Saber que a situação era séria o
suficiente para uma visita ao hospital o deixava apavorado;
quem sabia o quão grave eram os ferimentos do Ryu? Aquele
amigo deles nunca se envolvia em problemas. Um nerd
estudioso que passava o dia todo lendo; como ele poderia ter
problemas com alguém? Quanto mais Hem pensava nisso,
mais confuso ficava.
— Antes de sairmos da escola, eu e o Ryu ouvimos alguns
veteranos falando bosta de mim.
— Foi tão ruim assim? Quer dizer, falam de você o tempo
todo. Não apenas fofoca, as pessoas já te insultaram na sua
cara antes. Mas normalmente o Ryu nunca reage. Ele é
sempre quem te segura.
— Não foi só fofoca...
— Então o que aconteceu?
— O P'Zen estava naquele grupo.
— ... O quê?
— O P'Zen me enganou... Ele só queria brincar com a
minha cabeça porque sabia que eu gostava dele.
— ...
— Acho que foi por isso... o Ryu não aguentou mais.
Depois que Ying falou, o carro inteiro mergulhou no
silêncio. Os olhos dela ficaram vermelhos rapidamente, com as
lágrimas brotando muito mais do que antes. Hem sabia muito
bem há quanto tempo Ying gostava do Zen. Só de ver o rosto
dele, ela ficava gritando por horas. Quando ela conseguiu
entrar no mesmo clube que ele, ficou tão feliz que teve que dar
voltas no campo como uma promessa. Era o quanto ela
gostava dele. Hem nunca tinha se oposto e nem o Ryu, porque
todos acreditavam que Zen não era perigoso, pelo menos
comparado a alguns de seus colegas.
Mas ouvindo isso agora, Hem não pôde deixar de ficar
chocado. A verdade era que Zen não era o príncipe da escola
que eles pensavam que era. E, de repente, Hem entendeu
perfeitamente por que Ryu tinha ficado tão furioso. Mesmo
sem ouvir aquelas palavras pessoalmente, Hem já se sentia
enfurecido; então como deve ter sido para a Ying e para o Ryu?
— Eu tive que correr para enviar os desenhos dele, então
tentei aguentar. Eu disse a mim mesma que choraria depois. A
competição do Ryu era a coisa mais importante, eu não podia
estragar tudo. Ele confiou em mim e em você para entregar o
trabalho dele, então eu tinha que focar nisso primeiro. Se nos
atrasássemos, estaria acabado.
— Ying...
— Então eu disse para ele não prestar atenção naquilo,
disse para ele correr para o cursinho dele. Mas eu nunca
pensei... nunca pensei que ele decidiria fazer algo assim. Eu já
tinha dito para ele não mexer com aqueles caras, para deixar
para lá por enquanto. Por que ele não me ouviu... hic...
— Está tudo bem. Não chore. Acalme-se.
Hem rapidamente a puxou para um abraço. Finalmente,
Ying não conseguiu mais segurar e desabou no choro. Nathi
soltou um longo suspiro e pisou no acelerador, preparando-se
para levar os dois garotos para casa antes de voltar ele mesmo
para a escola para lidar com a situação.
Ele nunca imaginou que algo assim pudesse acontecer.
As palavras crueis que Ying e Ryu ouviram não podem ter sido
apenas provocações comuns. Até a Ying, que sempre foi forte,
estava soluçando sem parar. E o Ryu — geralmente tão calmo
— tinha explodido em violência. Nathi sentia uma urgência
crescente. Quão cruéis eram aqueles alunos do terceiro ano
para conseguirem tratar um novato da mesma escola com
tanta brutalidade?
Hem decidiu entrar em contato com Than, sabendo que
ele provavelmente ainda estava treinando na piscina da
escola. Ele queria perguntar se Than sabia de algo. Mas Than
não sabia de nada; ele tinha ficado na piscina o tempo todo e
não tinha ido a lugar nenhum. No momento em que ouviu que
Ryu tinha apanhado o suficiente para ser hospitalizado, ele
ficou igualmente chocado.
Ying e Hem decidiram que iriam à casa do Ryu naquela
noite. O ideal seria irem direto para o hospital, mas ninguém
sabia em qual hospital o Ryu estava. Então, planejaram
esperar na casa dele. Estavam muito preocupados; queriam
ver o amigo o mais rápido possível.
Than estava secretamente ansioso. Ele sabia que o pai do
Ryu não era uma pessoa fácil de lidar, e havia uma chance real
de serem mandados embora. Mas agora, o mais importante
eram os sentimentos do Ryu. Quando ouviu Ying implorando
entre lágrimas, Than concordou e até sugeriu levar o Marn
junto. Ele acreditava que, se aquele amigo estivesse lá, a
situação ruim certamente se transformaria em algo melhor.
Nathi dirigiu com os garotos até a casa da Ying — o lugar
onde tinham combinado de se reunir antes de partirem para
ver o Ryu.
Vendo o quanto pareciam ansiosos, Nathi se aproximou e
deu tapinhas em seus ombros, dizendo para se acalmarem. A
última atualização do diretor foi que o pai do Ryu ligou de volta
para dizer que o filho agora estava fora de perigo. O Ryu não
estava seriamente ferido, apenas alguns hematomas e alguns
cortes no rosto. Ele provavelmente ficaria de folga por dois ou
três dias; assim que se recuperasse, voltaria à escola como de
costume.
Quanto aos alunos que se juntaram contra ele, o pai do
Ryu pretendia levar o assunto adiante até as últimas
consequências. O pai do Ryu não era um homem comum; ele
tinha dinheiro e influência, estava mais do que pronto para
lidar com aqueles garotos. Ele estava se preparando para
convocar todos os pais das outras partes envolvidas também.
Só de ouvir isso, Nathi engoliu em seco. Parecia que aqueles
garotos do terceiro ano estavam com um problemão.
O próprio Nathi teve que enxugar o suor, pois já
imaginava que o pai do Ryu logo entraria em contato com o
professor responsável. No momento, ele provavelmente estava
ocupado cuidando do filho, mas Nathi teria que preparar suas
palavras com cuidado quando chegasse a hora.
— Devemos ir para a casa do Ryu agora mesmo?
— Pelo que o Nathi disse, o Ryu já deve ter voltado do
hospital.
— É. O que estamos esperando?
— E se dermos de cara com o pai do Ryu?
— Agora, o que mais me preocupa é o Ryu.
— É... Duanphen, você e eu vamos explicar o motivo para
o tio, tudo bem?
— ...
— Não sei se o Marn pode vir com a gente... Se ele vier,
acho que ele vai conseguir ajudar muito.
Ying baixou a cabeça e encarou as próprias mãos,
apertando-as com força. Sua preocupação lentamente se
transformou em uma ansiedade pesada. Ela tentou ligar para
o Ryu novamente, mas ninguém atendeu. Ela queria tanto ver
o rosto dele — saber se ele estava realmente bem, saber onde
ele estava machucado. E, mais do que tudo, ela queria
perguntar o que diabos ele estava pensando ao lidar com tudo
sozinho. Ela tinha dito para ele recuar, para não se envolver
ainda — então por que ele não ouviu? Por que ele não se
cuidou melhor?
Por que ele teve que fazer isso por ela?
Ying e Hem ficaram inquietos na frente da casa por quase
vinte minutos antes que os outros dois finalmente chegassem.
Eles ficaram aliviados ao ver que Marn também tinha vindo.
Assim que todos estavam lá, Hem explicou brevemente o que
tinha acontecido e a situação atual.
Quando ele terminou, Marn parecia chocado — não
esperava que a causa de tudo fosse tão séria. Antes, quando
Than correu para buscá-lo na loja de leite de soja, Marn só
sabia que Ryu tinha apanhado o suficiente para ser enviado ao
hospital; ele não sabia os detalhes. Karn, vendo o quanto Marn
estava preocupado com seus amigos, o deixou vir, dizendo
para ligar se houvesse algum problema. Então Marn se
despediu apressadamente e subiu na garupa da moto de Than
para se juntar ao grupo.
— Ying, não pense demais. O Ryu deve estar seguro
agora.
— Hum...
— Vamos logo para a casa do Ryu. Se ele ainda não tiver
voltado do hospital, a gente espera lá.
— Muito obrigada por virem comigo.
— Por que está agradecendo, Duanphen? O Ryu também
é nosso amigo, sabe?
— É.
— Estamos tão preocupados com ele quanto você. Calma
— Hem disse, aproximando-se para massagear suavemente as
costas de Ying.
Os dois se viraram para olhar para Than, que estava
parado em silêncio.
Ele apenas fechou os olhos e soltou um longo suspiro.
— Quando eu estava com problemas, vocês nunca me
abandonaram. Então, como eu poderia abandonar vocês
agora?
— ...
— Vamos ver o Ryu. Não percam tempo parados aqui.
— Por que algo assim pôde acontecer?
— Por que você está se comportando de forma tão
imprudente assim?!
— Você nunca agiu tão mal antes, Ryu. O que diabos
aconteceu? Eu nunca pensei que alguém como você ousaria
fazer algo desse tipo. Você sempre foi um bom garoto! Por que
faria algo tão impensado? Agora você causou problemas na
escola... e o seu futuro? Você já parou para pensar que isso
pode afetar suas inscrições para a universidade?
— ...
— Até quando você vai continuar me decepcionando?!
O grito furioso ecoou pelo cômodo. A governanta só
conseguia ficar ali parada em silêncio, observando a cena se
desenrolar. Por mais que quisesse falar algo, ela não tinha o
direito de interferir nos assuntos familiares de seu patrão. Por
mais doloroso que fosse, ela tinha que aguentar e continuar
assistindo. Aquela cena... ela já tinha visto inúmeras vezes,
mas nunca conseguia se acostumar.
Ryu permanecia ali sem se mexer, com o rosto coberto de
cortes e hematomas. Um olho estava muito roxo; sua
sobrancelha estava aberta e havia um corte na têmpora. Ele
estava em um estado pior do que jamais estivera antes. Seu
uniforme escolar estava amassado, sujo, marcado por pegadas
e manchado com pingos de sangue. Quanto mais ela olhava,
mais doía. Como um garoto bom e dedicado como o Ryu
acabou nesse estado?
Depois da aula, de repente surgiu o boato de que alunos
estavam brigando em um dos prédios. Professores que ainda
estavam de plantão correram para lá, apenas para descobrir
que um deles era o Ryu, o filho precioso daquela casa.
O diretor, que ainda estava na escola, ligou
imediatamente para os pais de todos os alunos envolvidos. É
claro que, quando o pai de Ryu soube, ordenou que seu
pessoal o levasse ao hospital na mesma hora e foi para lá logo
em seguida.
Após o exame, Ryu foi trazido de volta para casa. Durante
todo o caminho, nem pai nem filho disseram uma única
palavra. Mas no momento em que chegaram, o silêncio se
quebrou. A raiva que estava guardada explodiu de uma vez só.
Ryu estava ali parado, suportando a fúria de seu pai por quase
dez minutos agora.
A governanta olhou de relance para o rosto de Ryu. O
garoto não tinha dito uma palavra, nem uma única desculpa,
nem uma única resposta. Ele apenas ficava ali, calado. Seus
olhos pareciam completamente sombrios, e isso a deixava
preocupada. Ele podia estar ali parado ouvindo, mas parecia
que sua mente já estava destruída, como se não restasse mais
nada dentro dele. Seu olhar estava desfocado; não importava o
quão duramente gritassem com ele, era como se ele não
ouvisse mais nada.
— Você acha que eu não sei que, nas últimas três
semanas, você não foi ao reforço nem uma única vez?!
— ...
— Eu tentei pensar positivo, que você se consertaria sem
que eu precisasse dizer nada. Mas você não fez nada!
Continua o mesmo! Seus resultados do meio do ano caíram
drasticamente e você ainda acha que pode se dar ao luxo de
ser preguiçoso? Você caiu do segundo para o terceiro lugar na
classe. Você superou alguém ultimamente?!
— ...
— E esse clube de música ridículo... além de mal ter
tempo para estudar, você ainda gasta tempo com coisas
inúteis!
— ...
— Você acha que eu te dou dinheiro todo mês para você
fazer esse tipo de lixo?!
— ...
— É por causa daquela garota, não é? Aquela sua amiga,
a Ying.
— ...
— Já chega. Quanto mais isso dura, pior fica. Depois
deste semestre, vou transferir você para outra escola. Você
não vai mais ficar aqui.
O pai estava parado com as mãos nos quadris, cuspindo
cada palavra em total exasperação. Sua cabeça latejava tanto
que ele teve que segurar as têmporas. O estresse do trabalho
sozinho já era mais que suficiente, e agora ele tinha que lidar
com essa tolice também. Seu filho subitamente tinha saído
dos trilhos. Ele nunca imaginou que o diretor ligaria para ele
sobre algo assim. No começo, mal pôde acreditar que quem
tinha causado o problema era o Ryu. Ele perguntou
repetidamente em choque. Ryu era um bom garoto, esforçado,
com o objetivo de entrar em uma universidade de prestígio,
estudando medicina, uma das faculdades mais difíceis de
entrar. Esse era o garoto que trocaria socos com alguém? Ele
não conseguia acreditar.
Mas então ele viu os ferimentos cobrindo o corpo de Ryu...
e a decepção veio abaixo, sobrecarregando-o até que ele
explodisse assim. Talvez aquela escola simplesmente não
fosse a certa para alguém como o Ryu. Na verdade, ele poderia
ter enviado Ryu para uma escola melhor, mas ele entendia que
Ryu era apegado aos amigos. Eles cresceram juntos,
brincaram juntos desde crianças. É claro que ele queria
estudar com eles. Quando Ryu prometeu se concentrar nos
estudos, competir em concursos acadêmicos, tentar entrar
nos acampamentos da Olimpíada acadêmica, ele aceitou
relutante. Ele sempre monitorou o comportamento e as notas
do filho, determinado a investir todo o seu dinheiro na
educação e no futuro dele. Ele queria que Ryu crescesse
perfeito, sendo mais bem-sucedido do que qualquer outra
pessoa; que se formasse em uma instituição de ponta,
conseguisse um emprego estável, vivesse uma vida brilhante e
confortável, sem nunca passar pelas dificuldades que a mãe
dele passou.
Mas agora... o que era aquilo? Ryu tinha destruído
completamente o caminho que seu pai havia traçado para ele.
— Vá para o seu quarto. Vá estudar e se preparar para as
provas finais. Este será o seu último semestre estudando aqui.
Não deixe suas notas caírem mais. Quanto ao seu celular, vou
confiscá-lo por enquanto. Vou observar o seu comportamento;
quando ele melhorar, eu devolvo.
— Papai.
— ...
— Eu nunca fiz uma única coisa que te desse orgulho?
— Você...
— Nem uma única coisa?
A pessoa questionada congelou por um momento. Ryu
falou suavemente, parecendo totalmente exausto. Seus olhos
estavam vermelhos e, em pouco tempo, uma única lágrima
escorreu. Ele tinha ficado em silêncio por tanto tempo,
ouvindo broncas e insultos intermináveis; aquelas foram as
primeiras palavras que ele disse.
— Eu já tentei...
— Você não tentou o suficiente.
— O quão duro eu tenho que tentar?
— ...
— Eu fiz tudo o que você queria que eu fizesse...
— ...
— Você sabe por que eu nem me arrependo de levar
bronca de você? Por que eu não chorei em todo esse tempo?
— ...
— Porque eu me dou bronca ainda mais forte do que você
jamais dá.
— ...
— Eu me critico todo dia, toda noite. Por que eu não
consigo fazer? Por que não consigo ser melhor? Por que ainda
não é o suficiente...?
— ...
— Como eu deveria te dar orgulho, se eu nunca tive
orgulho de mim mesmo?
— ...
— Sinto muito que isso seja tudo o que eu consigo fazer...
mas isso realmente é tudo o que eu consigo fazer.
Ryu disse isso brevemente e passou por ele. Ele subiu as
escadas lentamente, cada passo insuportavelmente pesado,
como se mal tivesse forças para caminhar. Ele deixou o pai e a
governanta ali parados, observando suas costas. A casa
inteira mergulhou em silêncio novamente.
Ver as lágrimas de Ryu pela primeira vez deixou a
governanta sem palavras. Normalmente, o garoto escondia
bem seus sentimentos, era tão paciente, tão resiliente. Não
importava o quanto levasse bronca, ele nunca chorava na
frente de ninguém. Mas hoje, deve ter sido demais. Ela estava
profundamente preocupada e queria segui-lo escada acima
para cuidar dele. Justo naquele momento, a campainha tocou.
Ela não teve escolha a não ser ir abrir a porta.
Quando viu que eram os amigos de Ryu, ela os deixou
entrar facilmente, sem impedi-los ou dizer uma palavra.
Quem diria que o caos estava longe de terminar?
O som de discussão ecoou pela casa, forçando-a a correr
de volta para dentro. Ela viu uma garota de cabelo curto
discutindo ferozmente com o dono da casa e ficou chocada;
nunca imaginou que alguém ousaria fazer tal coisa.
Aqueles eram os amigos do Ryu?
— Você não tem o direito de tratar o Ryu assim!
— Tire eles daqui.
— Não vamos a lugar nenhum até vermos o Ryu.
— Chega! Vocês não entendem? O motivo do Ryu ter
acabado assim é por causa de vocês, especialmente você.
— O que você quer dizer com isso?
— Você acha que eu não sei para onde você anda
arrastando o Ryu? Levando ele para lugares inúteis, puxando
ele para aquele clube de música ridículo, e não é só isso, você
até fez ele faltar às aulas de reforço. O que acontece com o seu
futuro é problema seu, mas não arraste o futuro do meu filho
junto com você. Olhe para ele, as notas caíram, as pontuações
continuam baixando, ele nem consegue mais ir longe em
competições acadêmicas. Quantas vezes ele já me
decepcionou?
— Como você consegue dizer isso?!
Ying estava tão furiosa que mal conseguia se conter. Marn
e Hem, que estavam parados por perto, apressaram-se em
intervir e pará-la. Ying tremia de raiva enquanto encarava
diretamente o rosto do pai de Ryu, sem medo. Marn engoliu
em seco; ele nunca imaginou que o pai de Ryu seria tão
aterrorizante. Até o tio Karn perderia na comparação.
— Senhor, nós só estamos preocupados com o Ryu. Só
queremos ver nosso amigo por um momento. Por favor,
poderia nos deixar encontrá-lo?
— Não. Vão embora.
— Nós também não vamos embora! Já chega! Como você
pode dizer que o Ryu te decepcionou? Você tem alguma ideia
do quanto ele tentou? Você sabe o quão cansado ele está? Você
sabe quanta dor ele está sentindo? Você continua forçando
suas próprias expectativas sobre ele, tentando até controlar os
sonhos dele. Você sequer sabe o que ele quer fazer? Por que
você tem que forçá-lo tanto? Por que tem que pressioná-lo
desse jeito?!
— Ele é meu filho. O que há de errado em um pai querer
construir o melhor futuro para o seu filho?
— Você já perguntou ao Ryu se ele quer esse futuro ou
não?!
— E o quê, você espera que eu deixe ele entrar em alguma
bandinha com você? Quanto dinheiro esse pouco de talento
possivelmente renderia? Isso poderia garantir o futuro dele?
— Não se trata de garantir ou não! O Ryu nunca quis esse
tipo de futuro em primeiro lugar! Sonhe o quão grande você
quiser, planeje o futuro dele tão grandiosamente quanto
desejar, mas o que é isso? Você não consegue dar nem um
pouquinho de felicidade para ele!
— ...
— E além disso, o sonho dele nem é ser músico!
— Peguem ela agora mesmo! O que você pensa que está
fazendo? Invadindo a casa dos outros?!
A boca de Marn caiu. Ele nunca pensou que Ying faria
aquilo; ela já tinha corrido escada acima. O pai de Ryu estava
furioso, apontando e ordenando que a governanta expulsasse
todo mundo, mas ela estava sozinha e não podia fazer muito.
Os quatro adolescentes correram para o segundo andar.
Ying parou na frente de uma porta e começou a bater
freneticamente, chamando pelo Ryu para abrir. Não importava
o quê, a pessoa lá dentro não respondia.
Bang!
— Ryu, abre a porta!
— ...
— Ryu... que barulho foi esse agora?
— ...
— Ryu... Ryu! Seu idiota!
De repente, houve um barulho alto, como algo se
espatifando no chão. Ying e os outros empalideceram. Eles
gritaram pela pessoa lá dentro, mas não houve resposta. A
porta permanecia firmemente fechada, sem nenhum som de
destranca. O pânico explodiu. Ying esmurrou a porta até que
seu corpo todo tremesse, desabando em lágrimas. Hem e Than
rapidamente a puxaram para trás. Os dois trocaram um olhar
e, juntos, investiram contra a porta. Marn puxou Ying para
um abraço, acariciando suas costas para acalmá-la.
— Todos vocês! Saiam da minha casa agora mesmo!
Pá! Pá!
— Droga! — Hem gritou. Ele e Than jogaram toda a sua
força contra a porta, na esperança de arrombar. Mesmo depois
de tudo isso, Ryu ainda não fazia nenhum som; isso só os
deixava mais apavorados.
Than rangeu os dentes, batendo contra a porta apesar da
dor no ombro e no corpo. Juntos, ele e Hem deram um
empurrão final.
A porta finalmente escancarou, revelando o quarto de
Ryu.
— Ryu!
— Hem, solta o pano... agora!
Than entrou sem hesitar. Vendo o amigo lutando, ele
imediatamente envolveu os braços ao redor dele, sustentando
seu corpo. Hem rapidamente pegou a cadeira caída, colocou-a
de pé, subiu nela e, com as mãos trêmulas, desamarrou o
pano. Finalmente, ele se soltou. Felizmente, tinha sido
amarrado apenas às pressas no varão da cortina; não
demorou muito para desamarrar. Parecia que Ryu não tinha
planejado aquilo com antecedência; ele deve ter decidido
apenas alguns momentos atrás.
Than não perdeu um segundo. Ele carregou seu amigo
para fora do quarto o mais rápido que pôde. Ying estava em
choque, incapaz de falar; Marn estava da mesma forma.
Quanto ao pai de Ryu, que chegou logo após a porta ser
arrombada, a primeira coisa que viu foram os pés pálidos e
pendurados de seu filho. Ele gritou e tentou correr para frente,
mas ainda era mais lento que os dois amigos de Ryu.
— Leve ele para o hospital... agora! — Than gritou para o
pai, com a voz furiosa e os olhos brilhando como nunca antes.
Até Marn recuou com o som daquilo.
— T-tudo bem... tudo bem.
— Pelo menos por uma vez, aja como um pai de verdade!
— ...
— Realmente teve que chegar a esse ponto... antes que
você estivesse disposto a fazer algo por ele?
27
Ryu foi levado às pressas para o hospital após o incidente,
com seu pai o conduzindo até lá. Por sorte, ele chegou às mãos
dos médicos a tempo. As quatro crianças estavam tão
chocadas que não sabiam como reagir. Elas nunca
imaginaram que visitar um amigo desta vez as levaria a algo
muito mais sério do que esperavam.
Ying ainda estava em estado de choque. Ela não dizia
uma única palavra — suas mãos tremiam incontrolavelmente,
sua mente estava distante e desfocada — então Marn teve que
ficar ao lado dela o tempo todo, confortando-a gentilmente.
Hem e Than estavam igualmente silenciosos. Um deles
carregou o amigo enquanto o outro ajudou a desamarrar a
corda. Aquela imagem estava gravada na mente de ambos, e
eles sabiam que levaria muito tempo até que pudessem aceitar
o que viram. Eles nem sabiam se, daqui a dez ou vinte anos,
seriam capazes de esquecer o que aconteceu hoje.
As expressões de todos eram de profunda preocupação.
Marn sabia que todos estavam abalados até o âmago. Em um
momento como este, alguém tinha que estar lá para
confortá-los e impedir que seus espíritos desabassem, e Marn
assumiu esse papel de bom grado. Ele foi até cada um deles,
tentando ajudá-los a se acalmarem, enquanto esperava que
Nathi chegasse logo — lidar com todos sozinho daquela forma
era muito mais do que ele conseguia suportar.
Não era que Marn não estivesse chocado também. No
momento em que viu seu amigo naquela condição, ele também
paralisou, incapaz de reagir. Esta foi a primeira vez que Marn
teve amigos, e a primeira vez que testemunhou um amigo
decidindo fazer algo assim bem diante de seus olhos. Ele
nunca imaginou que os problemas de Ryu fossem tão graves.
Ryu nunca havia falado nada, nunca contou nada a ninguém.
Ele suportou tudo em silêncio. Por trás daquela aparência
calma e composta, Ryu escondia inúmeros problemas. Sua
dor, sua tristeza, ele guardou tudo para si mesmo, sem nunca
deixar ninguém saber. Nem mesmo seu próprio pai.
Marn olhou para o homem de meia-idade parado a certa
distância. Seu rosto estava mortalmente pálido. Ele também
permanecia ali em silêncio, sem dizer nada. Pelo que Marn
podia ver, ele parecia tão chocado e abalado quanto os garotos.
Ambas as mãos do homem tremiam sem parar, seus olhos
fixos na sala de emergência, esperando que alguém saísse e
lhe dissesse algo sobre a condição de seu filho. Embora não
demonstrasse abertamente, a preocupação e o medo em sua
expressão deixavam dolorosamente claro o quão apavorado ele
estava.
— Vai ficar tudo bem. Ryu está com os médicos agora —
ele vai ficar seguro — disse Marn, assumindo o papel de
confortar a todos. Ele foi primeiro até Hem, dando um tapinha
gentil em seu ombro, depois seguiu para Ying, segurando a
mão dela com força para lhe dar apoio.
Depois disso, ele voltou para Than mais uma vez. Than
passou por algo profundamente traumático hoje. Ele carregou
o próprio amigo até o carro e o levou às pressas para o
hospital. Than tinha apenas dezessete anos — ser capaz de
fazer tudo aquilo já o tornava incrivelmente forte. No momento
em que viu Ryu naquele quarto, ele foi o mais lúcido, dizendo
imediatamente a Hem para ajudar a desamarrar a corda
enquanto ele mesmo sustentava o corpo de Ryu para que o
tecido não apertasse o pescoço. Então ele o carregou para
baixo e disse ao pai de Ryu para dirigir para o hospital o mais
rápido possível. A compostura de Than salvou a vida de seu
amigo. Ele realmente merecia o crédito por isso.
— Você se saiu muito bem, Than. Você salvou seu amigo.
— ...
— Ryu vai ficar bem. Tenho certeza disso.
Ouvindo aquelas palavras gentis, Than fechou os olhos
lentamente. Ele estendeu a mão e segurou a de Marn,
encostando o rosto contra ele. Marn ficou ali mesmo, sem se
afastar, continuando a confortá-lo. Ele podia sentir
claramente — Than também tremia de medo. Isso era o
máximo que Marn podia fazer: ajudar todos a manterem a
calma e evitar que o pânico tomasse conta.
Eles esperaram até que o professor responsável chegasse.
Nathi foi imediatamente falar com o pai de Ryu, mas após uma
breve conversa, quando notou os garotos sentados ali
segurando-se uns aos outros, ele mudou rapidamente de
direção e caminhou direto para seu irmão mais novo primeiro.
Marn se afastou e explicou brevemente o que havia
acontecido.
Quando Nathi soube que seu irmão ajudou a salvar Ryu,
ele ficou preocupado com o estado mental de Than. Ele
hesitou por um momento, então colocou a mão na cabeça de
Than, acariciando-a gentilmente para confortá-lo antes de
puxá-lo para um abraço apertado.
Than tinha apenas dezessete anos e foi forçado a encarar
algo tão terrível — era natural que estivesse abalado. O fato
dessas crianças terem conseguido levar o amigo ao hospital a
tempo já era notável.
— Você foi ótimo. Realmente foi.
— ...
— Todos vocês foram ótimos.
Depois de confortar a todos, Nathi disse a Marn que, em
pouco tempo, o Tio Karn viria buscá-lo — ele já havia ligado e o
informado. Marn levantou as mãos em um wai para agradecer,
dizendo que enquanto esperavam, ele ficaria ali e continuaria
confortando seus amigos. Ouvindo isso, Nathi sorriu e deu um
tapinha gentil no ombro do garoto sob seus cuidados.
— Muito obrigado, Marn. Em um momento como este,
eles realmente precisam de alguém para ajudar a acalmá-los.
Temos muita sorte de você estar aqui.
— Eu provavelmente só consigo fazer isso...
— Não é "só" isso, Marn. O que você está fazendo agora é
incrivelmente importante, você sabe disso?
— ...
— Eles salvaram a vida de Ryu. E você ajudou a salvá-los
em troca.
— ...
— Muito obrigado por estar aqui por todos.
Marn assentiu em silêncio. Após oferecer mais algumas
palavras de apoio, Nathi o deixou voltar para se sentar com os
amigos. Nathi então se virou e caminhou em direção a outra
pessoa que estava sentada com a cabeça baixa, não muito
longe da sala de emergência.
O pai de Ryu parecia tão devastado quanto os garotos.
Seu único filho — a criança que ele estimou e criou com as
próprias mãos — está deitado imóvel na sala de emergência.
Normalmente, Ryu era forte e resiliente, sem nunca mostrar
que tinha qualquer problema. Ele nunca enviou nenhum sinal
de alerta. E então hoje, tudo o que ele guardou explodiu de
repente. A decisão de Ryu de fazer isso — a imagem que seu
pai viu — deve ter sido inimaginavelmente traumática, algo
que o assombraria por muito tempo.
A culpa surgiu e o dominou. Suas mãos tremiam
violentamente. Nathi parou diante dele e falou com uma voz
calma, que, no entanto, carregava uma nota profunda de
decepção.
— Ryu é um bom aluno. Sempre vi o quanto ele se esforça.
Ele vem lutando com a ideia de "não ser bom o suficiente" há
muito tempo.
— Eu não entendo...
— Você espera demais dele — Nathi disse baixinho.
— Tudo o que fiz, fiz por ele. Ele é meu filho! Como eu não
poderia amá-lo?
— ...
— Trabalhei tanto todos esses anos para ganhar dinheiro
para ele. Planejei tudo: como seria o futuro dele, para qual
universidade ele iria. Mensalidade, um condomínio, um
carro... eu preparei tudo para ele. Tudo o que ele tinha que
fazer era tentar e seguir o caminho que tracei. Dei tudo a ele.
Minha vida inteira é para ele. Comparado a outras crianças,
ele vive de forma tão confortável — não precisa se esforçar
para nada. Eu mesmo pavimentei a estrada para ele...
— Senhor, Ryu tem apenas dezessete anos.
— ...
— Um jovem de dezessete anos não deveria ter que viver
como alguém na casa dos vinte ou trinta anos.
— Então você está dizendo que o futuro dele não é
importante? Que ele não deveria pensar no futuro de jeito
nenhum?
— O futuro é importante, sim, mas não é mais importante
que o presente.
— ...
— Você foca apenas no futuro porque não quer que Ryu
sofra como você sofreu um dia. Você planejou tudo para que,
se ele crescesse assim, tivesse uma vida estável e confortável.
Mas você esqueceu de algo, você o apressou, o pressionou a
fazer isso e aquilo em nome do futuro, até que ele nunca teve a
chance de viver a própria vida. Ele é como uma criança que foi
subitamente forçada a se tornar adulta. Você quer que ele
cresça para ser outra versão sua?
— ...
— Tente deixar o futuro no futuro por uma vez. Pare de
olhar para Ryu e esperar que ele se torne o tipo de adulto que
você quer. Você deveria vê-lo apenas como um adolescente.
Todos nós tivemos dezessete anos um dia. Você sabe como
éramos naquela época — como queríamos viver, o que
queríamos fazer. Os sentimentos de Ryu agora não são
diferentes.
— ...
— Eu sei que você ama o Ryu. Mas, para ele, esse amor é
muito menos visível do que as suas expectativas.
— ...
— O que Ryu mais precisa não é de uma vida perfeita.
Nesta idade, tudo o que uma criança precisa é de felicidade
com o que ama e amor das pessoas que ama.
— ...
— De agora em diante, por favor, dê a ele o máximo disso
que você puder.
Nathi abaixou um pouco a cabeça e depois deixou o pai de
Ryu sentado ali sozinho, tremendo. Justo naquele momento,
Karn chegou ao hospital para buscar seu sobrinho. Quando
viu Marn, a preocupação imediatamente surgiu em sua
expressão. Este garoto nunca teve amigos antes, e quando
finalmente encontrou seu primeiro grupo de amigos, algo
assim aconteceu. A princípio, Karn só sabia que o amigo de
Marn tinha se ferido gravemente após ser atacado — ele nunca
imaginou que a situação chegaria a esse ponto.
Karn olhou brevemente para Nathi. O professor estava
correndo sem parar o dia todo, seu rosto mostrava claramente
o cansaço. Karn decidiu caminhar até lá e dar um tapinha
gentil no ombro de Nathi, oferecendo-lhe um sorriso fraco.
Ele nunca pensou que Nathi cresceria para se tornar um
professor tão bom.
— Por favor, cuide dos garotos — disse Karn.
— Hum. Você cuida do Marn também. Nós realmente
devemos muito a ele hoje — respondeu Nathi.
— Se você estiver cansado, vá para casa descansar
primeiro.
— Não posso. Não vou me sentir tranquilo até que o Ryu
esteja seguro.
Karn notou o pai de Ryu sentado com a cabeça baixa. A
princípio não o reconheceu, mas assim que Nathi explicou, ele
assentiu em compreensão. Ele suspirou interiormente, seus
olhos perdendo o brilho por um momento.
Vinte anos se passaram... e ainda existem pais assim.
Agora ele conseguia entender por que Ryu tomou aquela
decisão.
Karn optou por esperar um pouco mais. Ele sabia que seu
sobrinho não gostaria de ir para casa sem saber a condição de
Ryu, então ficou com ele. Nathi continuou cuidando dos
garotos enquanto atendia constantemente ligações de uma
pessoa após a outra. Ele cumpriu seu papel como professor
responsável de forma admirável, mas ao observá-lo, Karn não
pôde deixar de se sentir cansado por ele. Ele se afastou para
comprar algumas garrafas de água gelada e, quando voltou,
finalmente houve uma atualização.
Ryu agora estava seguro, embora precisasse permanecer
hospitalizado para observação. Felizmente, ele foi socorrido a
tempo.
Quando os quatro garotos ouviram isso, quase caíram no
choro. Ying estivera sentada ali por muito tempo; quando
tentou se levantar, quase desabou e teve que ser amparada
pelos amigos. Levou um tempo até que tudo se acalmasse. Ryu
foi transferido para um quarto VIP, e seu pai cuidou de todos
os preparativos. Não havia mais com o que se preocupar por
enquanto. Os garotos poderiam vir visitá-lo novamente em
outro dia.
Karn e Marn voltaram para casa juntos. A viagem de carro
foi silenciosa. Normalmente, Marn tagarelava sem parar, mas
hoje ele estava visivelmente calado. Enquanto Karn parava no
último semáforo antes de casa, ele olhou para o sobrinho, com
uma mão ainda no volante e os dedos batendo levemente
enquanto ponderava sobre o que dizer.
— Tio Karn?
— Sim? — Justo quando Karn estava pensando, o garoto
que estivera em silêncio todo esse tempo finalmente falou.
Karn focou nele imediatamente.
— O meu amigo... ele deve ter sentido muita dor para
fazer algo assim, não foi?
— ...
— Talvez porque eu nunca tenha sido tão profundamente
ferido, eu não entendo muito bem o que ele fez... Ele não
estava com medo?
— ...
— Por que ele decidiu fazer uma coisa dessas...?
— Em momentos assim, não há espaço para pensar em
mais nada — Karn respondeu baixinho. — Você só consegue
pensar em uma coisa: querer escapar de tudo, não querer
mais suportar isso. Mesmo que doa, mesmo que você esteja
com medo, quando você atinge o ponto em que tudo parece
sem esperança, esses sentimentos simplesmente
desaparecem por conta própria.
— Mas isso não é apenas agir por impulso? Não é a
maneira certa de resolver um problema.
— Com certeza não é uma solução. Mas um dia, você vai
perceber que nem todo problema pode ser resolvido. Às vezes,
você só quer fugir. Não é um pensamento repentino e
imprudente — chegar a esse ponto leva muito tempo. Você
continua acumulando coisas até que um dia simplesmente
não consegue mais suportar. As pessoas dizem que é um
impulso momentâneo porque, uma vez que sua paciência se
esgota, não sobra nada sobre o que hesitar.
— ...
— Se você não entende isso, na verdade é uma coisa boa.
— Tio Karn...
Marn olhou para a cicatriz no pulso do tio e depois ficou
em silêncio. Seus olhos estavam claramente nublados de
preocupação. Karn percebeu o que Marn estava pensando,
então estendeu a mão e a colocou gentilmente na cabeça do
garoto. Esta pode ter sido a primeira vez que Karn tomou a
iniciativa de se aproximar.
O filho biológico de sua irmã — a criança que ele nunca
viu por dezessete anos — foi subitamente trazido para sua vida
pelo destino. Era difícil acreditar que alguém como Karn
pudesse cuidar de qualquer pessoa, tornar-se um tio, quando
ele próprio se sentia totalmente indigno do papel.
Ele era um adulto de trinta e sete anos cuja vida ainda era
uma bagunça. O que ele poderia ensinar a Marn?
— É bom que você soube ajudar seu amigo. De qualquer
forma, aquela não foi a decisão certa. Ele ainda é tão jovem,
não deveria deixar este mundo carregando tanto
arrependimento.
— Sim.
— Não pense demais nisso. Quando chegarmos em casa,
vá descansar.
— Tio Karn?
— O que foi?
— Obrigado.
— Você não precisa me agradecer. Isso não foi para ser
um consolo...
— Não, não é isso que eu quis dizer.
— ...
— Obrigado por ainda estar aqui, Tio Karn.
— ...
— Obrigado por tudo, seja lá o que for que te manteve
aqui.
— ...
— Fico muito feliz... por ter conhecido você, Tio Karn.
Karn ficou em silêncio após ouvir aquilo. Nenhum dos
dois falou novamente pelo resto do trajeto. Quando chegaram
em casa, seguiram caminhos separados. Karn voltou para o
seu quarto, com as palavras de Marn ainda ecoando em sua
mente. Ele se lembrava claramente do olhar no rosto do garoto
e em seus olhos — sua sinceridade, sua gratidão. E isso fez
Karn se sentir estranhamente desacostumado.
Por que alguém teria que lhe agradecer apenas por estar
vivo? Por que ficar feliz em conhecê-lo? Havia realmente algo
nele que valesse tanto assim?
O que aconteceu com Ryu hoje pareceu dolorosamente
familiar. O sedimento escuro no coração de Karn, uma vez
assentado, começou a girar novamente. As semelhanças o
esvaziaram por dentro. Aquele garoto tinha apenas dezessete
anos, mas decidiu fazer algo assim. Karn não sabia pelo que
Ryu tinha passado, o quão pesado deve ter sido — mas ele
entendia por que Ryu fez aquela escolha.
Porque quando o próprio Karn tinha dezessete anos, ele
esteve exatamente nesse mesmo ponto.
Seus pés pálidos e descalços o levaram lentamente até o
armário. Ele ficou parado ali por quase cinco minutos antes de
puxar uma caixa rosa claro que havia escondido. Seus dedos
tremiam tanto que ele quase não conseguia segurá-la. Karn
respirou fundo e abriu a tampa devagar, revelando um par de
sapatilhas de balé cor-de-rosa, gastas e castigadas.
Ele as carregou de volta para a cama e sentou-se ali,
passando a mão gentilmente sobre elas. As memórias seladas
naquelas sapatilhas começaram a fluir lentamente, passando
pelo seu toque e refletindo imagens desbotadas diante de seus
olhos.
Naquela época, ele era exatamente como Ryu — um
receptáculo para as expectativas de seus pais, um recipiente
para sonhos e planos futuros. Ele não tinha direito, não tinha
voz para projetar a própria vida. Cada passo que dava tinha
que seguir o caminho traçado para ele.
Sua mãe havia se divorciado de seu pai, e não terminou
bem. Seu pai era pobre e viveu uma vida de fracassos. Essa foi
uma das principais razões pelas quais sua mãe desprezava
homens como ele. Ela não queria que seu filho crescesse para
ser aquele tipo de homem. Ela queria que ele tivesse uma vida
boa, um futuro estável e promissor, e planejou tudo para ele
seguir.
Karn tinha que ser perfeito — estudos, idiomas,
habilidades, esportes, talentos especiais. Sua mãe o moldou
até que ele mal fosse humano, parecendo mais uma máquina
inteligente. Ele conseguia fazer tudo o que ela queria, e ela
tinha um imenso orgulho de seu filho exemplar. Ela o exibia,
falava dele em todos os lugares, colhendo elogios infinitos e
inveja por ter um filho tão perfeito.
Mas por trás daquele belo sucesso jazia a dor e o
sofrimento de uma criança pequena.
Ele nem sequer tinha permissão para chorar.
Ele não podia demonstrar fraqueza.
Ele nem sequer tinha permissão para ser feliz.
Era por isso que Karn sempre desviava o olhar sempre
que ouvia Marn elogiar aquela mulher. Por que ele rejeitava
isso em seu coração toda vez que via a felicidade no rosto e nos
olhos de Marn. Ele não conseguia suportar olhar. Ele não
conseguia acreditar que a pessoa que criou Marn pudesse ser
a mesma pessoa que um dia o feriu tão profundamente.
Embora ele fosse o filho biológico dela — por que ele
nunca teve permissão para sentir aquele amor ou felicidade,
nem sequer uma vez?
Todos os dias depois da escola, Karn treinava
implacavelmente, lia até tarde da noite para conseguir notas
melhores, para ser ainda melhor. Ele tinha que manter sua
posição, participar de todas as atividades, colecionar
conquistas para decorar seu currículo. Ele tinha que se formar
no ensino médio e entrar na universidade com notas
excelentes e habilidades impecáveis.
Aquela pressão sufocante — aquela sensação esmagadora
de confinamento — era algo que Karn nunca esqueceria.
Ele se tornou alguém que temia o som de um despertador.
Toda vez que o ouvia, estremecia tão violentamente que
parecia que sua alma quase deixava o corpo. Atualmente, se
puder evitar, ele nem usa um — ou, se for absolutamente
necessário, coloca apenas para vibrar.
Ele também se tornou incapaz de se concentrar por
longos períodos. Ele não conseguia mais ler livros por horas,
porque quanto mais tentava, mais era arrastado de volta para
as memórias de seu eu passado. O sofrimento — ler enquanto
sua cabeça latejava, seu estômago se contorcia, vomitando de
dor — essas coisas se tornaram pesadelos que tornaram o
Karn de trinta e sete anos incapaz de focar em material
acadêmico pesado.
Ele já foi uma criança prodígio que poucos conseguiam
superar, mas agora não conseguia nem ler direito. Ele tentou,
lentamente, recuperar essa habilidade, mas levou um tempo
insuportavelmente longo.
Ele soltou uma risada seca. Uma vez ele ouviu por acaso
Marn elogiando-o para Nathi pelas costas, dizendo o quão
capaz e incrível o tio era. Não... isso não era verdade de jeito
nenhum. Marn não tinha ideia de quão cruéis eram as
memórias por trás deste tio — o que Karn passou para crescer
e se tornar a pessoa que era hoje. Tudo o que ele suportou,
tudo o que ele tinha... o fato de que ele ainda estava respirando
não passava de sorte.
Marn, aos dezessete anos, conseguia sorrir e rir
livremente.
— O que você quer dizer, Karn?
— Ele é meu namorado.
— Você...
— É. Eu gosto de homens.
Mas Karn, aos dezessete, estava se afogando em lágrimas.
Ele se lembrava de cada pedaço daquela dor — a decepção e a
mágoa nos olhos de sua mãe no dia em que ele pegou a mão de
seu primeiro namorado e o levou para conhecê-la. É claro que
a mãe dele não conseguiu aceitar que Karn gostasse do mesmo
sexo. Ela rejeitou quem ele era, deixando seu nojo e desagrado
dolorosamente claros. Ela acreditava que Karn apenas tinha
se perdido na turbulência da adolescência, que era apenas
uma confusão emocional — algo que não era real, que não era
o seu verdadeiro eu.
Ela dizia que o tinha criado bem, esperando que ele se
tornasse o filho ideal que todos queriam, um filho do qual os
pais pudessem se orgulhar. O que Karn tinha feito, aos olhos
dela, era totalmente vergonhoso e um fracasso completo. Ela
não conseguia aceitar — tanto que usou palavras duras,
rejeitando-o abertamente através de suas expressões, seus
olhos e suas ações.
PAFT!
— Tire ele da minha casa!
— Mãe...
— Nunca mais o traga aqui! E você, pare de vê-lo. Vou te
transferir para outra escola. Chega deste lugar. Não quero que
você o veja nunca mais!
— Mãe!
Aquela decepção só fez com que os muros dela
crescessem ainda mais. Agradar a mãe se tornou a coisa mais
difícil na vida de Karn.
Naquela idade, ele não conseguia revidar — não tinha
escolha a não ser obedecer. Ele foi transferido para outra
escola, separado da pessoa que o fazia se sentir seguro,
forçado a suportar um novo ambiente sufocante.
Todos em sua nova escola eram iguais — crianças
transformadas em robôs por seus pais, todos visando objetivos
grandiosos, marchando sempre em frente. Karn aguentava
isso com uma sensação constante de náusea. Ele estava farto
de uma vida ditada pelos outros. Bastava das chamadas boas
intenções de sua mãe. Ele não as queria mais.
Quando sua vida estava no ponto mais frágil, Karn
descobriu algo que poderia curar seu coração. Ele era
exatamente como Ryu — seus próprios sonhos entravam em
conflito com os de seus pais, e a sua felicidade se tornava o
sofrimento deles.
No momento em que ele calçou aquelas sapatilhas, no
momento em que moveu seus braços e pernas como desejava,
sentiu como se tivesse tocado a palavra liberdade pela
primeira vez.
Ele saltou para a frente com empolgação, como um
peixinho que acaba de ser solto em um vasto lago, nadando
alegremente em todas as direções. Karn era assim. Ele ficou
feliz ao descobrir o balé. Ele não se importava que as pessoas
antigamente se recusassem a aceitar dançarinos de balé
masculinos que pessoas de fora fizessem cara de nojo e
apontassem o dedo com deboche. Por mais que amasse aquilo,
ele não podia revelar. Tinha que amar em segredo.
Karn odiava como sua mãe tentava forçá-lo a ser o
homem ideal. Ele odiava ter que se moldar para caber na
palavra masculino. Fosse em casa ou em qualquer outro
lugar, ele nunca conseguia escapar disso. Mesmo no mundo
do balé, eram poucos os que realmente aceitavam.
Ele observava as garotas com sapatilhas lindas e saias
elegantes. Algumas usavam coroas ao se apresentar;
interpretando princesas, cisnes brancos — graciosas e
hipnotizantes. Ele só podia observar das sombras, com a
inveja crescendo em seu peito.
Todos os dias, depois da escola, ele escapava para algum
lugar privado, algum lugar sem olhos observando — um lugar
onde houvesse apenas ele e uma música bonita. Sem a voz da
mãe, sem amigos, sem a sociedade. Um lugar onde ele pudesse
esticar seus braços e pernas livremente. Toda vez que ele
calçava aquelas sapatilhas e dançava no ritmo do seu coração,
sentia felicidade. Aquele sentimento era maravilhoso.
Finalmente, ele o sentia após dezessete anos sendo o robô sem
emoções de sua mãe.
Então, uma grande oportunidade surgiu. Karn conheceu
um veterano que havia se formado em um programa
especializado em balé. Foi quando ele finalmente teve a chance
de se desenvolver e conhecer pessoas o suficiente para dizer,
sem hesitação, que aquele lugar era o seu sonho. Eles o
convidaram para competir. É claro que Karn ficou
profundamente interessado e aceitou imediatamente.
Todos os dias, depois da escola, ele matava a aula de
reforço que sua mãe havia organizado e corria direto para o
que tinha escolhido, dedicando-se inteiramente aos treinos.
Com a aproximação da competição, eles agendaram um
ensaio geral. Aquela foi a primeira vez que Karn viu o figurino
de uma dançarina de perto. Seu olhar se demorou na peça —
tão obviamente que um dos veteranos percebeu. Sabendo o
quão desconfortável Karn se sentia em sua própria pele, o
veterano o chamou para o camarim e entregou a roupa a ele,
deixando que ele a experimentasse, apenas uma vez, como
desejasse.
Era como se ele tivesse sido enfeitiçado. Karn sentiu como
se tivesse entrado em um lugar que combinava com ele mais
do que qualquer outro antes.
Mas a felicidade nunca dura muito.
— Karn...
— M... Mãe.
No momento em que ele se virou e viu sua mãe parada ali,
cobrindo a boca em choque, seu mundinho se despedaçou
completamente. Ele viu claramente a dor e a decepção nos
olhos dela. Ela já suspeitava de algo — ele frequentemente
faltava ao reforço escolar, desaparecia todas as tardes em vez
de ir para as aulas de música ou treinos de esportes.
Curiosa, ela o seguiu.
Ela nunca imaginou que veria isso.
Ela correu para arrancar o que ele estava vestindo — e
todos correram para ver o que estava acontecendo, todos em
choque.
No entanto, eles apenas ficaram parados olhando.
Ninguém estendeu a mão para ajudar uma criança cujo
coração estava sendo dilacerado pela própria mãe na frente de
uma multidão.
Ninguém se importou com o quão alto Karn chorava.
Foi por isso que... Karn entendia por que Ryu tomou
aquela decisão.
Ele entendia melhor do que ninguém.
Aquele período de sua vida foi pior do que um pesadelo.
Mesmo vinte anos depois, ele ainda tinha medo de pensar
nisso. Ele não conseguia respirar sempre que via alguém
usando figurinos de balé. O que antes era amor se
transformou em medo. Aquela ferida em seu coração nunca foi
tratada, nunca cicatrizou, apenas foi escondida.
Karn esperou por uma chance de sair daquela casa e ficar
o mais longe possível daquela mulher. Depois de terminar o
ensino médio, ele cortou os laços com sua mãe
completamente. Ele arrumou suas roupas, saiu de casa e
nunca mais entrou em contato com ela — não atendia
ligações, não a encontrava.
Quase vinte anos atrás, desaparecer não era fácil de
rastrear. Karn fugiu para longe. Ao entrar na vida adulta, ele
viveu de forma imprudente — fazendo de tudo, importando-se
pouco se era certo ou errado. Ele nem sabia onde se situava na
vida, deixando o desejo e o impulso governarem o momento.
Ele chegou a pensar que sua vida não poderia ficar mais
arruinada do que aquilo — mas ele estava errado.
Às vezes, sentado em silêncio, seus pensamentos
voltavam ao passado. A dúvida surgia. O que ele estava
fazendo era realmente certo? Ele tinha feito a escolha certa?
Após se formar, ele fez o vestibular para a faculdade que
sua mãe queria — como um presente final para comprar sua
vida de volta. Ele passou no curso que ela desejava, mas
nunca se matriculou. Ele sumiu de casa como uma pessoa
desaparecida. Sua mãe e sua irmã procuraram por toda parte,
mas Karn não se importava. Ele queria fugir ainda mais para
longe.
Naquela época, ele já era um adulto com uma vida
própria. Ele fazia o que queria, não ouvia ninguém, vivia
livremente. Isso... era o que ele vinha esperando o tempo todo.
Ele ainda tinha algum afeto persistente por sua irmã.
Uma vez, ele enviou uma carta a ela dizendo apenas que
estava bem e que não deveriam mais procurá-lo.
Karn viveu loucamente naqueles anos, viajando para
lugares desconhecidos, conhecendo inúmeras pessoas,
vagando sob as luzes de neon todas as noites. Ele bebia até
ficar bêbado, sofria acidentes, brigava, enfurecia-se
violentamente, causava caos, provocava conflitos entre amigos
e deixava destruição por onde passava. Sem família, sem
amigos próximos — ninguém ao seu lado de jeito nenhum. A
vida durante esse tempo... era algo que Karn nem conseguia
encontrar palavras para descrever.
Até que ele encontrou seu segundo amor.
Foi um amor tão louco e violento quanto sua vida naquela
época — nada parecido com seu primeiro amor.
Não havia doçura, nem aquele bater de coração tímido.
Tudo era intenso, emocionante, inebriante — perdido no toque
e na sensação, mais viciante do que qualquer coisa. Era um
amor que voava aos picos mais altos e mergulhava nos
abismos mais profundos, aterrorizante em sua extremidade. O
que começou como desejo, lentamente se transformou em
apego. Estar com aquela pessoa fazia Karn esquecer
completamente sua família.
Ele e o ex chegaram a trabalhar juntos e ganharam
dinheiro suficiente para comprar uma casa. Mas a vida deles
como casal durante aquele período era terrível. Eles discutiam
todo santo dia, batiam de frente constantemente,
machucando um ao outro tanto física quanto mentalmente.
Coisas que nunca tinham acontecido antes começaram a
acontecer. Com o passar do tempo, os corações das pessoas
mudam. A confiança se transformou em suspeita; nenhum
dos dois acreditava mais no outro.
Karn sabia que em pouco tempo não seria mais capaz de
aguentar. Então ele decidiu economizar o máximo de dinheiro
possível e se preparar para ir embora. Ele estava cansado
daquela vida chamativa e caótica. Naquela época, ele já tinha
vinte e sete anos — exausto de viver de forma imprudente,
exausto de tudo. O único pensamento em sua cabeça era
desaparecer, viver calmamente em algum lugar distante, em
um lugar livre de todo o tumulto. E foi assim que, pela
primeira vez, ele conheceu esta casa.
Dez anos atrás, Karn veio para cá. Ele encontrou uma
casa abandonada que estava vazia há muito tempo. O dono
não via valor nela e decidiu vendê-la barato. Karn gastou todas
as suas economias reformando o lugar, tornando-o habitável
novamente. Com o pouco dinheiro que restou, ele comprou um
carro usado para usar. Ele fez tudo isso pelas costas do seu
parceiro, nunca contando a ele porque já tinha decidido que
eles seguiriam caminhos separados. Dali em diante, cada um
viveria sua própria vida.
Chega de caos. Chega de sofrimento.
Ele sabia que o relacionamento deles tinha chegado a um
ponto onde não dava mais para arrastar. Não importava o
quanto se amassem, no fim eles tinham que se separar. Karn e
aquele homem eram muito parecidos no temperamento — tão
parecidos que eram incompatíveis. Dois jovens esquentados
que viveram juntos por anos; o que restava provavelmente não
passava de apego.
Karn se sentia à vontade toda vez que vinha para cá.
Assim que as reformas terminaram, a casa se tornou
agradável quase instantaneamente. A atmosfera silenciosa o
ajudava a relaxar. Foi o primeiro lugar onde Karn conseguiu
sorrir e rir livremente. Só de ver pequenas flores
desabrocharem, seu coração se enchia, como se ele estivesse
lentamente recuperando os anos perdidos de sua vida. Ele
cuidava bem da casa, limpando-a com dedicação, regando
frequentemente as plantas na frente e, nesse processo, muitas
vezes cruzava com alguém.
— Meu nome é Nathi... minha casa é logo ali.
Aquele adolescente foi a primeira pessoa no beco a
cumprimentá-lo. Um garoto de dezesseis ou dezessete anos,
surpreendentemente bonito. Ele passava pela casa todos os
dias — indo para a escola de manhã, voltando para casa à
noite. De estranhos, eles gradualmente se tornaram próximos.
À noite, leite de soja quente e massa frita ficavam pendurados
no portão da frente da casa de Karn. Karn nunca soube onde
eram comprados, mas eram tão deliciosos que se tornaram um
de seus favoritos.
Karn terminou decididamente com seu parceiro naquela
época. Ele pretendia morar aqui sozinho, sem se envolver em
mais nenhum caos. Romance podia esperar. Ele já tinha visto
o suficiente do mundo para saber o que queria... e o que não
queria. Ele queria se estabelecer em paz aqui...
Mas parece que o ex dele não concordou com essa
decisão.
— Você tomou uma decisão desse tamanho sem dizer uma
palavra para mim, Karn?
— ...
— Então, quando eu estava em apuros e vim pedir dinheiro
emprestado, você não deu... foi por isso? Você usou para
comprar uma casa e um carro, mudou-se para tão longe, que
diabos você estava pensando?!
— Já chega. Nós já terminamos. O que quer que eu faça
não é da sua conta.
— Como não pode ser da minha conta?! O dinheiro usado
para construir este lugar também era meu!
— Diga isso de novo. Quem foi que realmente trabalhou
para ganhar dinheiro, hein? Enquanto o outro só ficava em
festas? Quem foi que pagou por tudo?!
— Karn!
— Já chega, seu desgraçado. Caia fora da minha casa!
Naquele dia, os gritos foram tão altos que a vizinhança
inteira saiu para ver — até mesmo aquele garoto do ensino
médio.
Ele correu imediatamente, sem nem se importar que o
saco de leite de soja caiu e se espalhou pelo caminho, tentando
separar os dois.
O rosto dele ficou pálido quando viu Karn ser agarrado
pelo cabelo e arrastado para dentro de um carro.
O incidente foi muito mais violento do que qualquer um
esperava. O coração de Karn batia forte de medo enquanto
inúmeros olhos o encaravam, forçando-o a reviver memórias
de quando tinha dezessete anos — o dia em que sua mãe
destruiu sua própria identidade na frente dos outros. Karn
estava sentado tremendo no carro. Ele não sabia para onde o
ex o estava levando. Mas quanto mais rápido o carro ia, mais
Karn perdia o controle, entrando em histeria e em outra briga
violenta dentro do veículo.
Já era noite. O céu estava um breu total, a estrada rural
estava deserta. O carro deles era o único ziguezagueando pela
escuridão. Karn apenas fechando os olhos... era como ver uma
cena de terror.
Aquele acidente tirou a vida do seu ex bem diante de seus
olhos. Karn sobreviveu — mas teve que continuar vivendo
como um morto-vivo. Tornou-se mais um motivo pelo qual ele
viveu infeliz pelos dez anos seguintes.
Isso se tornou outro pesadelo na vida de Karn. Ele não
conseguia comer, não conseguia dormir, vivendo com medo
até hoje. Mesmo que dez anos tivessem se passado, nada tinha
melhorado. Todas as noites, o pavor rastejava em seu coração.
Ele não conseguia fechar os olhos. Tinha que se levantar e
encontrar algo para fazer; em algumas noites, ele não dormia
nada. Ele sofreu de insônia crônica por anos. Mesmo quando
conseguia superar, nunca curava de verdade. Sempre que seu
coração fraquejava, aquele tormento retornava.
Karn abriu os olhos novamente. Lentamente, ele levantou
a barra de sua camisa, revelando uma longa cicatriz ao longo
de suas costelas. Ela estava com ele desde aquela noite — e
nunca desapareceria. Uma marca que o forçava a lembrar dos
destroços de sua vida, não importa o quanto tentasse
esquecer.
Quanto à cicatriz em seu pulso...
— P'Karn!
Essa também foi uma das decisões de vida que ele nunca
soube se foi certa ou errada. Naquele momento, Karn não
sentia nada além de vazio. Ele não queria enfrentar mais
nenhum sofrimento. Ele só queria deixar tudo ir e
desaparecer. Mas, assim que sua visão começou a embaçar,
ele viu uma luz fraca. Acredite ou não, ele foi salvo por um
garoto dez anos mais novo que ele — mal se agarrando à vida.
Quando ele abriu os olhos novamente, achando que não
veria ninguém, aquele garoto estava lá, sentado por perto,
cuidando dele. Karn não conseguia entender por que ele ainda
merecia viver.
— Eu não sei pelo que você passou. Pode ser mais pesado
do que eu jamais poderia imaginar... mas, mesmo assim, não
quero que você feche suas próprias chances assim.
— ...
— Não quero que você deixe este mundo carregando
arrependimento.
— ...
— Você não tem que viver por ninguém. Eu só quero que
você seja mais feliz... por favor, não jogue fora sua chance
ainda.
— ...
— Porque eu estou realmente feliz por ter conhecido você...
feliz por ter tido a chance de te conhecer...
— ...
— Obrigado por me ouvir, nem que seja apenas uma vez...
De agora em diante, P'Karn, você não precisa mais sofrer.
— ...
— Qualquer coisa ruim que chegar perto de você, eu
resolvo. Vou chutar para bem longe... vapt! Viu? Vou espantar
tudo para longe de você.
— ...
— De agora em diante, eu mesmo vou te proteger.
Karn não soube o que dizer — porque aquele garoto
realmente fez tudo o que prometeu.
Dez anos se passaram, e ele ainda manteve sua palavra.
Nem uma única coisa faltou. Ele fez isso tão bem que era
quase inacreditável.
Aquele garoto — Karn lembrava o nome dele de cor, e
nunca o esqueceria.
O próprio Nathi já havia passado por um pesadelo em sua
vida. Cinco anos atrás, Karn teve a chance de retribuir sua
gentileza, de cuidar dele e evitar que ele fosse magoado ainda
mais. Ele sentiu tristeza e pesar ao ver Nathi perder seu único
sonho. O futuro de Nathi deveria ter sido brilhante — nunca
deveria ter sido apagado por algo assim.
Após aquele incidente, a família dele desmoronou. O pai
de Nathi faleceu, seu irmão mais novo se tornou distante e sua
mãe entrou em depressão. Como o mais velho, Nathi carregou
a família inteira em seus ombros até quase quebrar.
Frequentemente, o irmão mais velho forte vinha e pedia para
sentar e descansar aqui, fechando os olhos e respirando
devagar, reunindo forças repetidamente — até que Karn viu
seu próprio reflexo nele.
Ele não era nada forte. Comparado ao Nathi, ele nem
chegava perto.
Nathi enfrentou dificuldades também, mas sempre
conseguia superá-las. Olhando em seus olhos, Karn nunca via
nenhuma tristeza — apenas riso e esperança, dados
livremente aos outros, tornando-se uma fonte de força que
ajudava todos ao seu redor a superar seus infortúnios.
Aquele garoto cresceu para ser um professor gentil,
ajudando crianças necessitadas — incluindo o único sobrinho
de Karn.
Nos dez anos em que se conheciam, Nathi nem uma única
vez fez Karn sentir que viver não tinha sentido.
Era um conforto que ele não conseguia encontrar em
nenhum outro lugar. Depois de uma jornada tão longa e
cansativa, ele finalmente tinha encontrado um lugar para
descansar.
— Muito obrigado...
— ...
— Obrigado por salvar aquelas crianças.
— ...
— E obrigado por me salvar também... Thi.
28
A condição de Ryu melhorava gradualmente, pouco a
pouco. Foi considerado uma sorte ele ter conseguido
sobreviver a um incidente tão terrível. O caso dele logo virou
fofoca na escola — em apenas um dia, os alunos já estavam
cochichando sobre o assunto, passando a história de boca em
boca, murmurando pelos cantos das salas de aula. Não
importava quem fosse, todos falavam de Ryu, um aluno do 11º
ano.
Muitos estudantes mais espertos adivinharam que Ryu
tinha se metido em confusão com um grupo de veteranos do
12º ano. Ouvi dizer que ele apanhou feio. O pai de Ryu levou o
assunto adiante com todo o rigor, responsabilizando tanto os
veteranos quanto os pais deles. Os professores e até o diretor
da escola tiveram que marcar uma reunião urgente para
encontrar uma solução.
Naturalmente, a reconciliação não funcionou. O pai de
Ryu estava furioso e o diretor entendia muito bem o porquê.
Nenhum pai suportaria ver seu filho ser atacado brutalmente
daquela forma. Mas os pais dos alunos do 12º ano também
defenderam seus casos. Era o último ano de seus filhos; logo
eles se formariam e entrariam na universidade. Um incidente
sério como esse poderia arruinar completamente o futuro
deles.
A princípio, aqueles estudantes quase enfrentaram
acusações criminais. No fim, entretanto, uma negociação foi
alcançada — embora não tenha sido exatamente um desfecho
bom para os alunos do 12º ano. O pai de Ryu concordou em
encerrar o assunto sob uma única condição: aqueles
estudantes teriam que ser transferidos da escola. Essa era a
única oferta que ele aceitaria.
É claro que os pais dos alunos do 12º ano ficaram
descontentes, mas não puderam fazer nada. Os filhos deles
estavam claramente errados. Se o pai de Ryu levasse o caso
adiante, o futuro deles provavelmente seria destruído. Pelo
menos assim, os alunos poderiam apresentar os papéis de
transferência por conta própria, em vez de serem expulsos.
A notícia se espalhou por toda a escola em pouquíssimo
tempo. Todos ficaram chocados ao descobrir o quanto o pai de
Ryu era influente.
Tudo o que as pessoas sabiam era que o grupo de Ryu e
aqueles veteranos estavam em conflito há muito tempo —
diziam que eles não se bicavam já fazia um bom tempo. Os
veteranos alegaram que Ryu tinha começado tudo, que ele foi
procurar briga primeiro, insultando-os do nada, e que as
coisas escalaram para uma briga porque o sangue subiu.
Mas quase ninguém acreditou neles. Eles não tinham
provas. Comparado a eles, Ryu nunca tinha demonstrado
comportamento agressivo com ninguém antes. Ele era
conhecido como um bom garoto — ao contrário daquela
gangue do 12º ano. Por isso, quase ninguém acreditou que
Ryu tivesse começado a confusão.
Ainda assim, muita gente se perguntava por que um dos
oponentes de Ryu era um veterano do 12º ano chamado Zen.
Todo mundo o conhecia; ele era o príncipe da escola. Um
garoto abençoado tanto pela aparência quanto pelo talento,
adorado por muitos alunos, elogiado pelos professores e até já
tinha sido homenageado como um estudante excepcional. Por
que o melhor aluno da escola faria parte daquele grupo?
Ninguém conseguia entender. Que tipo de conflito Zen e Ryu
poderiam ter tido?
Essa pergunta nunca foi respondida. No dia seguinte,
aqueles veteranos sumiram da escola — nenhum deles voltou,
nem mesmo o príncipe da escola. Muitos alunos sentiram
muito; Zen era incrivelmente popular. As pessoas falavam sem
parar sobre isso, e as lamentações eram especialmente altas
durante o intervalo do almoço. O barulho chegou aos ouvidos
dos amigos de Ryu.
Ying bateu a mão na mesa com força e se levantou, saindo
enfurecida. Vendo aquilo, Hem correu atrás dela. Apenas
Marn e Than continuaram sentados à mesa do almoço. Sem
Ryu por perto, o temperamento de Ying tinha ficado
claramente mais instável.
— Fiquei sabendo que o Ryu acordou, certo? Você já foi
visitar ele, Than?
— Hum.
— Como ele está?
— Ele ainda está na UTI. O tecido apertou o pescoço dele
com bastante força, então ele ainda está machucado e não
consegue falar. Vamos ter que esperar mais um pouco para ele
se recuperar.
— E o estado mental dele... como o Ryu está lidando com
tudo?
— Tem um psiquiatra acompanhando ele. Não se
preocupe.
— Tá bom...
Than olhou para a expressão de Marn. Ele entendia bem o
quanto Marn devia estar preocupado. Todos estavam. O que
aconteceu naquele dia deixou todo mundo emocionalmente
abalado, mas a Ying era quem estava pior.
Than sabia exatamente o porquê. No fundo, Ying se
culpava, acreditando que ela era a causa de todo o caos. O
motivo de Ryu ter perdido a paciência e confrontado aqueles
veteranos do 12º ano foi por causa da Ying. Mesmo que ela
nunca dissesse isso em voz alta, sua expressão e seus olhos
entregavam tudo.
Alguém que se culpou por cinco anos conseguia
reconhecer facilmente o mesmo sentimento de culpa em outra
pessoa.
— A gente devia visitar o Ryu depois da aula hoje?
— Ele acabou de acordar. Não seria ruim incomodar ele
agora?
— Ah... é verdade. Talvez seja melhor deixar ele descansar
primeiro, né?
— Hum.
— Só de saber que o Ryu está bem já me deixa muito feliz
— Marn disse baixinho, dando um sorriso fraco. Mesmo tendo
entrado no grupo recentemente e não conhecendo Ryu há
muito tempo, e embora não fosse tão próximo de Ryu quanto
os outros, Marn ainda se sentia muito preocupado; sua
preocupação não era menor do que a dos outros. Ele só podia
esperar que seu amigo se recuperasse e fosse feliz novamente.
— Than, você deve amar muito o Ryu, né?
— Por que você está perguntando isso?
— Só estou feliz de ver como todo mundo é próximo.
— ...
— Na verdade, eu nunca tive amigos antes — Marn
continuou. — Você sabe... eu carrego um vírus. No passado,
não eram muitas as pessoas que queriam chegar perto de mim
porque tinham medo de pegar de mim.
— Não é tão fácil assim de transmitir.
— Heh... você tem idade suficiente para entender isso
agora. Naquela época, todo mundo ao meu redor era criança,
ninguém sabia de nada. Não importava o quanto eu me
cuidasse, eles só me viam como alguém com AIDS e não
queriam chegar perto. Às vezes uma criança brincava comigo,
aí no dia seguinte aparecia com um arranhão ou uma alergia e
achava que com certeza tinha sido infectada, mesmo sendo só
um ralado normal ou uma irritação de pele. Mas era assim que
as coisas eram... crianças que não entendem direito tiram
conclusões precipitadas. Às vezes os pais deles também não
entendiam, então não queriam seus filhos brincando comigo.
Marn falava como se já estivesse anestesiado com tudo
aquilo. Não havia tristeza nenhuma em sua voz. Ouvindo isso,
Than ficou em silêncio. À sua frente, esse novo amigo estava
sempre sorrindo, sempre irradiando energia positiva — mas,
na verdade, alguém tão forte quanto Marn deve ter suportado
muitas experiências dolorosas no passado. O quão solitário ele
deve ter se sentido?
— Than...
— ...
Marn travou levemente quando o amigo sentado ao seu
lado de repente esticou a mão e a repousou sobre sua cabeça.
Than olhou para ele com um olhar gentil, uma expressão que
raramente mostrava. Marn não conseguia pensar em nada
para dizer; ele só conseguia ficar ali, parado.
Um calor estranho se espalhou por seu peito.
Parecia calmo e reconfortante, além das palavras.
— Viu só? Não aconteceu nada.
— Bom, não vai acontecer nada mesmo. Eu sou só uma
pessoa normal — talvez um pouco fraco, então só tenho que
me cuidar bem. Só isso.
— Fraco em que sentido?
— Você não acha que eu sou fraco?
— Nem um pouco.
— Than...
— ...
— Posso te perguntar uma coisa sinceramente?
— O que foi?
— Você já sentiu nojo de mim?
— ...
— No fundo... você quer me aceitar como amigo? — Marn
perguntou, com os olhos tremendo levemente.
A pergunta carregava uma esperança silenciosa. Than
entendeu perfeitamente o que Marn queria. Ele só ficou um
pouco surpreso por Marn ter escolhido perguntar de forma tão
direta hoje. Normalmente, esse novo amigo raramente tocava
em suas próprias feridas — provavelmente porque não queria
piedade, não queria ser visto como fraco. Por isso ele sempre
agia de forma forte e alegre. Mas lá no fundo, ainda havia medo
e insegurança. Alguém que nunca tinha sido verdadeiramente
compreendido — uma vez que recebesse um lugar para
descansar, não era estranho que quisesse uma confirmação.
Sob a sombra de uma árvore durante o intervalo do almoço,
uma brisa passava de vez em quando. No entanto, Marn
sentiu seu rosto esquentar quando foi subitamente puxado
para um abraço. A mão de Than deu tapinhas leves em suas
costas duas ou três vezes. Um perfume suave e fresco roçou
seu nariz. Marn pressionou os lábios, segurando a agitação do
coração, ouvindo atentamente cada palavra que Than dizia.
— Se eu tivesse nojo de você, não estaria aqui parado.
— ...
— Eu serei o que você quiser que eu seja.
— O que você quer dizer com isso?
— Quero dizer exatamente o que eu disse.
— Estou confuso.
— Então continue confuso.
— Ei, Than — por que você sempre diz coisas que são tão
difíceis de eu entender?
Than se afastou. Ele deu de ombros levemente uma vez.
Marn abriu a boca para protestar, depois fez um bico quando
Than se recusou a explicar. Eles voltaram a atenção para a
comida, esperando os outros dois amigos voltarem. A voz alta
de Hem podia ser ouvida de longe; ele tinha conseguido
consolar Ying e trazê-la de volta para a mesa. Marn notou a
vermelhidão nos olhos dela, então sorriu de forma
encorajadora e disse algumas palavras gentis para ajudar a
acalmá-la. Ela assentiu em reconhecimento e voltou a comer
em silêncio, com a expressão já bem melhor do que antes.
— Vamos esperar o Ryu melhorar um pouco, aí vamos
visitar ele juntos.
— Hum.
— Tratem de terminar de comer logo — a gente ainda tem
aula à tarde.
— Marn.
— Sim?
— Por que seu rosto está tão vermelho? Você está com
calor?
— Hã? Meu rosto está vermelho?
— É.
Marn travou por um momento, depois levantou as duas
mãos para cobrir as bochechas. Ter isso apontado assim de
repente o deixou confuso. Ele ficou com uma expressão
intrigada, piscando inocentemente, sem ter ideia do que
estava acontecendo. Hem então desviou o olhar para o amigo
silencioso sentado ao lado e viu Than coçando a nuca e
virando o rosto levemente para o lado. Hem imediatamente
caiu na risada.
— Eu vou contar tudinho para o tio Karn sobre isso, pode
esperar.
— Cala a boca.
A atmosfera dentro do quarto de hospital ainda estava
desoladora. Apenas o zumbido baixo do ar-condicionado podia
ser ouvido. Embora o quarto estivesse cheio de vários itens,
parecia estranhamente vazio. Na cama branca e limpa jazia o
corpo imóvel de um garoto de dezessete anos. O rosto dele
ainda carregava as marcas do espancamento — pálido e
preocupante. Se alguém olhasse um pouco mais para baixo,
hematomas podiam ser vistos ao redor de seu pescoço. A visão
fazia a pessoa parada ao lado da cama se sentir
insuportavelmente preocupada.
O pai de Ryu encarava o filho. Ryu tinha acordado, sim —
mas apenas brevemente antes de cair no sono de novo. Só
então o pai teve coragem de entrar no quarto novamente.
Quanto mais ele olhava para o estado do filho, mais seu corpo
inteiro parecia dormente. Suas mãos, antes firmes,
começaram a tremer de novo. Quanto mais ele pensava no
assunto, menos entendia como as coisas tinham terminado
assim — como tinha chegado a esse ponto. Ele não conseguia
acreditar que Ryu tivesse tomado tal decisão.
Ele já tinha conversado com os pais dos veteranos do 12º
ano que atacaram seu filho. Uma parte dele estava
amargurada por não poder puni-los com mais severidade.
Ainda assim, eles eram adolescentes. Os pais deles quase se
ajoelharam para implorar, pedindo que ele não prestasse
queixas que transformariam isso em um grande caso jurídico.
Eles prometeram fazer qualquer coisa, contanto que seus
filhos não enfrentassem punição criminal. Estavam todos
preocupados com seus filhos. Os alunos estavam no último
ano; no ano que vem se formariam e iriam para a
universidade. Esse incidente poderia destruir a vida de um
jovem.
Ele admitia honestamente que estava furioso além da
conta. Mas e quanto ao futuro do seu próprio filho? O filho
dele, deitado ali como um vegetal no hospital — quem
assumiria a responsabilidade por isso? Quem compensaria as
feridas esculpidas em seu corpo?
Naquela sala de reunião, o pai de Ryu ficou parado com os
punhos cerrados, rangendo os dentes, desviando o rosto dos
pais que se ajoelhavam e imploravam. Alguns deles
soluçavam, com as mãos juntas em sinal de pedido de
desculpas. Alguns até trouxeram cestas de presentes,
implorando por misericórdia, dizendo que seus filhos ainda
eram menores de idade que não sabiam o que faziam. Eles
juraram que iriam vigiar e disciplinar seus filhos
adequadamente de agora em diante e que compensariam tudo,
desde que o futuro deles não terminasse ali.
No fim, ele se forçou a ceder. Já que disseram que
compensariam de qualquer forma, contanto que seus filhos
não fossem para a prisão, então tudo bem — ele os ensinaria
que existem punições neste mundo mais severas do que a
cadeia. Para os pais, ele exigiu uma grande quantia em
dinheiro como compensação e ordenou que disciplinassem
seus filhos rigorosamente. Quanto aos alunos em si, exigiu
que eles saíssem da escola. Ele não se importava para quão
longe de casa eles teriam que se transferir — apenas que
nunca mais mostrassem seus rostos por aqui.
Antes de sair da sala, ele deixou uma ameaça. Disse que
tinha memorizado o nome completo de cada um daqueles
alunos. No futuro, fosse perto ou longe, se eles voltassem a se
cruzar — ou se alguém do lado dele descobrisse que eles
estavam trabalhando em uma grande empresa ou corporação
afiliada — suas conexões eram muito maiores do que eles
podiam imaginar. Se esse dia chegasse, ele faria com que
entendessem o que significava enfrentar as consequências de
atos que nunca poderiam ser desfeitos.
Naturalmente, após sair da sala, ele ligou para um
colaborador de confiança e o instruiu a investigar onde cada
pai trabalhava. Ele podia não chegar ao ponto de atacá-los
abertamente, mas usar esse canal para avisá-los para
controlar adequadamente seus filhos seria o suficiente para
instilar o medo. Mesmo que ele não pudesse punir os filhos
totalmente, os pais ainda tinham que assumir a
responsabilidade pelo que aconteceu com Ryu. Ele nunca
permitiria que seu filho sofresse à toa.
Ele escolheu não buscar a prisão porque ele mesmo era
pai. Ele entendia muito bem o que significava se preocupar
com o futuro de um filho. Ele já tinha destruído o futuro de
uma criança... não queria destruir os sonhos de mais
ninguém. Não importa o quanto doesse, ele tinha que deixar ir.
Talvez essa fosse a punição por ser um pai tão incompetente.
Pelo que ele sabia, o grupo de veteranos do 12º ano e o
grupo de Ryu estavam em maus termos já fazia algum tempo.
Muitos alunos confirmaram que eles discutiam quase todas as
vezes que se encontravam. E a pessoa que mais batia de frente
com os veteranos era Ying. Normalmente, Ryu era quem
intervinha para parar as coisas. Ele era calmo e quase sempre
conseguia controlar a situação. Foi extremamente estranho
que, desta vez, Ryu fosse quem se metesse em confusão com
os veteranos.
Uma das partes envolvidas alegou que Ryu tinha
começado — entrando e xingando eles primeiro, procurando
briga bem na sala deles. Disseram que estavam sentados
quando Ryu de repente invadiu o local e começou a gritar.
Adolescentes de sangue quente, disseram eles, acabaram
apenas trocando socos como jovens fazem. Mas o pai de Ryu
não acreditou por um segundo sequer que seu filho tivesse
começado aquilo. Ryu não era do tipo que causava problemas.
Brigar nunca tinha feito parte do seu caráter, nunca nem
passou pela cabeça dele. Era impossível que Ryu fosse
procurar briga primeiro.
A menos que... aqueles garotos tivessem feito algo que
finalmente levou Ryu além do seu limite.
Ele se lembrava claramente de quão bravo estivera com
Ryu naquela noite — bravo, decepcionado, com o coração
partido por quão imprudentemente Ryu tinha agido. O futuro
dele estava bem na sua frente. Se seu histórico escolar ficasse
manchado, isso poderia ter um impacto enorme em seu
futuro. Briga era um assunto sério. Ryu deveria saber disso.
Se ele quisesse entrar em uma boa universidade — uma das
melhores universidades nacionais — ele absolutamente não
podia se dar ao luxo de arruinar sua reputação.
Como pai, ele havia se dedicado a preparar o caminho
para o futuro de seu filho. Tudo o que Ryu precisava fazer era
trilhar esse caminho. Tudo o que ele fazia agora —
trabalhando até o esgotamento — era por seu filho. O futuro
havia sido planejado como um tapete macio, livre de
obstáculos.
Comparado a outros jovens da sua idade, Ryu tinha uma
vida invejável. Um futuro estável já havia sido preparado para
ele. O dinheiro estava pronto. Ele não planejou apenas para
um ou cinco anos; ele planejou dez, vinte anos à frente. Um
dia, Ryu cresceria. Ele teria uma casa, um carro, seus próprios
bens, talvez até uma família. Ele nunca permitiria que seu
filho passasse por dificuldades. Seguro de vida, seguro saúde
— tudo já havia sido providenciado. Se Ryu algum dia se
machucasse ou ficasse seriamente doente, ele não teria que
lutar. Tudo estava preparado. Ele estava mais de cem por
cento confiante de que a vida futura de seu filho nunca seria
difícil.
Para um pai, existia apenas seu filho. Apenas Ryu. Tudo o
que ele fazia, fazia apenas por Ryu, sem nunca pensar em si
mesmo. Então por que... por que Ryu rejeitou suas boas
intenções dessa maneira?
— Você sabe por que eu nem fico triste quando você me dá
bronca, pai? Por que eu nunca chorei durante todo esse tempo?
— ...
— Porque eu me cobro com muito mais força do que você
jamais faria.
— ...
— Eu me amaldiçoo todo dia, toda noite. Por que não
consigo fazer isso? Por que não sou bom o suficiente? Por que
ainda não é o bastante...?
— ...
— Como posso fazer você se orgulhar, se eu nunca tive
orgulho de mim mesmo?
Aquela foi a primeira vez que ele viu Ryu chorar.
Durante todo esse tempo, não importava o quão
severamente ele desse bronca no filho, Ryu nunca respondia.
Ele apenas assentia suavemente, dizia que faria melhor da
próxima vez, que iria melhorar, que se esforçaria mais. Ele
aceitava cada palavra que seu pai dizia sem nunca discutir.
Ryu nunca expressava seus próprios desejos na frente dele,
porque sabia que tudo o que seu pai dizia vinha de boas
intenções, mesmo que, no fundo, estivesse em conflito com o
que ele queria. Então ele guardava tudo para si, sem dizer uma
palavra.
Somente quando a armadura finalmente se estilhaçou é
que ele percebeu o quão pesado o fardo havia sido. Só então
ele viu quanta tristeza havia se acumulado sobre seu filho ao
longo dos anos — o suficiente para destruir quase
completamente a felicidade de Ryu. E todo esse tempo, ele,
como pai, apenas ficou parado observando, sem perceber
nada.
Ryu não conseguia mais carregar o peso das expectativas
de seu pai.
— Você me odeia tanto assim?
— ...
— Você me odeia tanto que nem quer mais ver o meu
rosto... que queria partir desse jeito?
— ...
— Aos seus olhos, eu devo ser o pior pai do mundo, não é?
Uma mão se estendeu, querendo segurar a mão de seu
filho, mas ele não teve coragem de tocá-lo, com medo de que,
se chegasse mais perto, Ryu sentiria apenas mais dor e
quereria fugir novamente. Depois de todo esse tempo, ele só
agora percebia que o próprio filho o odiava tanto que não
queria mais existir no mesmo mundo. Até mesmo chamar a si
mesmo de pai na frente de Ryu o enchia de vergonha; ele não
conseguia dizer a palavra em voz alta.
Ele era realmente um pai tão terrível...?
Ele havia destruído seu único filho a esse ponto — como
ainda podia se chamar de pai?
Se Ryu não tivesse escolhido fazer isso, ele algum dia teria
entendido? Talvez se Ryu continuasse suportando, ele nunca
teria percebido o quão cruéis eram as coisas que estava
fazendo.
— Você realmente precisou ir tão longe... só para me fazer
entender?
— ...
— Eu sei agora, Ryu...
— ...
— Eu sei.
— ...
— Eu sei o quanto te magoei durante todo esse tempo...
eu entendo tudo agora.
O que ele estava sentindo naquele momento poderia ser
menos do que Ryu já havia sentido...
Mas já era o bastante para que ele finalmente percebesse
o quanto Ryu tinha suportado.
Como ele poderia algum dia expiar esse pecado? Mesmo
que tentasse por toda a vida, nunca seria o suficiente.
Agora ele entendia o esforço de Ryu. Quanto empenho seu
filho havia dedicado, quanto cansaço e dificuldade ele havia
suportado. Na verdade, Ryu já tinha se forçado muito além de
seus próprios limites. Ele era o único que estava cego — cego
demais para ver que os esforços de Ryu tinham sido muito
maiores do que ele jamais imaginou.
Ele recolheu a mão, decidindo não tocar naquele corpo.
Em vez disso, alcançou o cobertor, puxando-o suavemente
para cobrir seu filho, cuidadoso para não perturbar o
descanso de Ryu. Seus olhos tremeram ao olhar para o rosto
exausto do filho. Quando ele finalmente recuou, gotas
cristalinas caíram no chão. O silêncio mais uma vez
preencheu o quarto. Um pedido de desculpas fraco flutuou até
os ouvidos do garoto que ainda estava deitado ali, de olhos
fechados. Quando o som dos passos desapareceu do quarto,
pálpebras inchadas se abriram lentamente.
A cena diante dele estava embaçada pelas lágrimas. Ele
não conseguia ver nada com clareza. Seu corpo parecia
insuportavelmente pesado, drenado de todas as forças. Tudo o
que ele conseguia fazer era ficar ali deitado, respirando
superficialmente, deixando as lágrimas escorrerem pelo rosto.
Ryu nunca quis que as coisas terminassem assim.
Ele nunca quis que chegasse a esse ponto. Ele não queria
que ninguém se machucasse por causa dele — nem uma única
pessoa.
Desde que acordou, a primeira coisa que sentiu foi um
vazio no coração, um vácuo oco que o fazia se sentir frágil.
Uma sensação de solidão e isolamento o recebeu sem trégua.
Médicos e enfermeiros entravam e saíam para examiná-lo,
mas Ryu apenas ficava ali, perdido em pensamentos. Mesmo
quando seu professor titular veio visitá-lo, ele não mostrou
reação. Seus olhos pareciam totalmente opacos, desprovidos
de vida. Ele simplesmente ficava ali, deixando cada momento
passar. O mundo inteiro parecia escuro — totalmente
sombrio.
Ao ver um aluno sob seus cuidados em tal estado, o
professor não pôde deixar de se preocupar. Ele decidiu ligar
para seu irmão mais novo e pedir que ele passasse por lá
depois da escola para visitar o amigo, esperando que ver todo
mundo pudesse ajudar Ryu a se sentir melhor. Naturalmente,
assim que a escola acabou, os garotos foram direto para o
hospital. Quando abriram a porta e viram que Ryu estava
acordado, seus rostos se iluminaram com sorrisos largos.
Hem não hesitou — correu primeiro para o lado da cama,
seguido por Ying, depois Marn e Than. Todos olharam para o
garoto ferido; ver as marcas em seu corpo fez seus corações
apertarem. A imagem de Ryu no quarto ainda permanecia na
mente deles. Than olhou para a pessoa ao seu lado e notou
Marn pressionando os lábios, preocupado. Ele estendeu a
mão, segurou a de Marn e a apertou suavemente algumas
vezes. Marn olhou de volta e deu um pequeno sorriso,
sussurrando um obrigado suave. Ele não esperava que Than
percebesse o que ele estava pensando.
— Ryu.
Ying chamou, então se aproximou da cama. Ela percorreu
o rosto dele com o olhar, estendendo a mão lentamente e
dando um leve peteleco na testa dele com o dedo. Ryu
permaneceu imóvel, seus olhos vermelhos — tão vermelhos
quanto os de Ying estavam agora.
— Só espera...
— ...
— Eu vou te bater de verdade, sabe. Snif... Vou puxar sua
orelha também.
— ...
— Se algo estava errado, por que você não disse nada? Por
que não nos contou?
— ...
— Eu estou bem aqui. Todos nós estamos bem aqui. Nós
nunca te abandonamos em lugar nenhum. Viu? Mesmo agora,
ninguém te deixou.
— ...
— Snif... é só me dizer que quer me ver, e eu venho. É só
dizer que precisa de ajuda, e eu farei qualquer coisa para te
ajudar, Ryu.
— ...
— Nós te amamos tanto, como poderíamos algum dia te
deixar?
Ying caiu no choro. Lágrimas silenciosas escorreram pelo
rosto de Ryu também. Ele ainda não conseguia falar por causa
do ferimento na garganta. Hem, parado por perto, viu os dois
chorando e sentiu seus próprios olhos se encherem de
lágrimas. Ele tentou contê-las, olhando para o teto, depois
pela janela — mas, no fim, não aguentou mais. Ele se
aproximou e envolveu Ryu em um abraço gentil, cuidadoso
para não tocar em seus ferimentos. Ying colocou a mão na
cabeça de Ryu, acariciando-a suavemente. Marn e Than, que
estavam parados em silêncio há muito tempo,
aproximaram-se e seguraram a mão trêmula de Ryu,
apertando-a algumas vezes para tranquilizá-lo.
Eles queriam que ele soubesse que não estava sozinho.
Ele tinha amigos — pessoas que viam seu valor e sua
importância. Não importava o quão cruel o mundo tivesse sido
com Ryu, eles estavam prontos para ficarem juntos, de mãos
dadas, formando um escudo ao redor dele. Eles não fugiriam.
Jamais deixariam Ryu enfrentar seus problemas sozinho.
Ryu fechou os olhos, deixando as lágrimas quentes
escorrerem. Ele tentou suprimir os soluços até seu corpo
tremer. A culpa se escondia dentro do calor que seus amigos
lhe davam. Ele se lembrava claramente — do momento em que
decidiu fazer aquilo. No instante em que seus pés deixaram o
chão, ele ouviu seus amigos gritando. Sua mente se encheu
com imagens de seus rostos: esperando juntos de manhã,
fazendo trabalhos em grupo, almoçando juntos.
Flashes de memórias surgiram — pegando patos juntos,
indo a uma cachoeira, andando de bicicleta lado a lado, rindo
e se divertindo juntos. Memórias desbotadas passavam como
cenas de um filme. Mas o tempo não podia ser voltado. No fim,
as coisas se tornaram o que eram. Ryu quase tomou uma
decisão fatal — não apenas se machucando, mas também
ferindo profundamente aqueles que o amavam.
— Está tudo bem... está tudo bem. Já chega agora. Pare
de chorar, vai afetar seus ferimentos.
— ...
— Droga... essa coisa de chorar em abraço coletivo não
combina nada.
Hem fungou alto e limpou rapidamente as lágrimas com a
manga. Todos na sala estavam com os olhos vermelhos e
inchados — incluindo Than. Ele caminhou até Ryu, e Ying se
afastou um pouco para dar espaço. Than colocou a mão
firmemente no ombro de Ryu. O garoto ferido olhou para ele
com olhos agradecidos.
— De agora em diante... vamos começar de novo.
— ...
— Melhore logo. Vou te pagar um frango frito.
— Ooooh! O senhor Than está mesmo abrindo a carteira
desta vez! Caramba, vindo de um pão-duro como ele!
Hem bateu palmas e provocou em voz alta, tentando
aliviar o clima. Ele não queria que todos se afundassem ainda
mais na tristeza. Criar felicidade — ele assumiria esse
trabalho para si mesmo.
Hem imediatamente começou a tagarelar, falando sobre
isso e aquilo sem parar. Sua voz alegre realmente elevou a
atmosfera no quarto. Ryu ouvia com uma expressão mais
calma. Ying ficou por perto, cuidando dele.
Ao ver todos se esforçando tanto para apoiar uns aos
outros, Marn sentiu-se profundamente comovido. Sem
conseguir resistir, ele levantou o telefone para tirar uma foto
— mas foi pego na mesma hora. Ying rapidamente se levantou
e reorganizou a posição de todos, depois entregou o telefone de
Marn para Than, dizendo para o mais alto do grupo segurar a
câmera e se preparar para uma selfie coletiva.
Than, no entanto, não queria ficar muito perto da câmera.
Ele imediatamente se virou e pediu ajuda a Marn.
— Than deveria ser quem tira a foto.
— ...
— Não seja tímido. Esta foto vai ficar apenas no nosso
telefone.
— É exatamente por isso que...
— Hein?
— Droga... está bem.
No fim, Than cedeu. Com todos focados nele desse jeito,
ele não teve escolha a não ser levantar o braço bem alto,
mudar para a câmera frontal e tentar encaixar todo mundo no
enquadramento. Ying e Hem ficaram bem próximos ao
paciente. Marn se agarrou a Than por trás, espiando o rosto só
um pouquinho, sorrindo docemente com o rosto e com os
olhos. O dedo de Than pairou sobre o obturador por vários
segundos até que os outros começaram a reclamar — quanto
tempo ele ia levar? Eles estavam sorrindo há tanto tempo que
seus rostos já estavam doendo.
— Tira logo... ei! Por que diabos você tirou a foto bem na
hora em que eu estava berrando com você, Than? Meu rosto
está horrível, viu?! Por que você não fez contagem regressiva?
Eu fiquei forçando um sorriso para sempre e você não tirou,
mas no momento em que eu xinguei, você bateu a foto! Você
está de brincadeira comigo, não está?
— Não teve jeito.
— Than! Seu idiota!
O caos voltou ao quarto mais uma vez. Marn pegou seu
telefone de volta e abriu rapidamente a foto que tiraram
juntos.
Esta foi a primeira foto que Marn já tirou com amigos. Ele
radiou de animação ao olhar para a imagem — pacífica, feliz e
deliciosamente caótica. Cada um de seus amigos parecia
travesso. Ying tinha uma expressão de susto, Hem foi pego no
meio de um xingamento com a boca aberta, Ryu estava com os
olhos fechados no momento errado, e Than olhava
calmamente para a câmera.
Era ridículo.
Apenas o próprio Marn estava sorrindo abertamente, sem
combinar com mais ninguém.
Cada um usava uma expressão diferente. Embora esta
pudesse ser considerada uma foto ruim, Marn sentiu que esta
era a foto mais perfeita que poderia existir.
De agora em diante — seja amanhã, daqui a dez anos ou
vinte anos — quando olhassem para essa foto, Marn tinha
certeza de que todos nela se lembrariam do que aconteceu, de
forma clara e vívida. Apenas vê-la traria de volta essa
atmosfera quente e reconfortante. Seria uma de suas melhores
lembranças.
Depois de enviar a foto para o Tio Karn, Marn baixou o
telefone um pouco e olhou pela janela. A luz do sol da tarde
entrava, espalhando calor por todo o quarto. Uma sensação de
conforto infiltrava-se em cada canto. Ouvir seus amigos
provocando uns aos outros, rindo sem parar, ver os sorrisos
nos rostos de todos — isso deixava Marn ainda mais feliz.
Se a vovó estivesse assistindo lá de cima, Marn esperava
que ela estivesse sorrindo com orgulho. Ele queria que ela
ficasse feliz sabendo que ele finalmente tinha amigos e que,
agora mesmo, ele estava mais feliz do que nunca.
Este ano, Marn tinha dezessete anos — um ano no qual
aprendeu tantas coisas. Uma delas foi esse tipo de amizade
bonita.
“Vovó, estou muito feliz de estar aqui. Não sei se você
ainda está cuidando de mim, ainda torcendo por mim de longe.
Mas se estiver, por favor, aplauda para mim bem alto, está
bem? E... por favor, dê um abraço no meu tio também. Espero
que ele seja feliz. Espero que ele possa finalmente superar
todas as coisas ruins. Não quero mais ver o Tio Karn sofrendo.”
“E espero poder ser feliz assim para sempre. Vovó, por
favor, não esqueça de torcer por mim. Eu prometo que vou sorrir
ainda mais do que isso!”
29
Quase uma semana se passou e Ryu finalmente pôde sair
do hospital para continuar sua recuperação em casa.
O grupo deles tinha ficado visivelmente mais quieto.
Mesmo que Hem e Ying ainda estivessem por perto, sem o Ryu
parecia que a alegria deles tinha sumido. A diversão acabou.
Quando faltava uma pessoa sequer, parecia que aquele
lugar já não era o mesmo que eles conheciam. Tudo o que
podiam fazer era esperar pelo dia em que o Ryu estivesse
recuperado o suficiente para voltar à escola. A Ying,
especialmente, ansiava por esse dia, prometendo a si mesma
que, quando o Ryu voltasse, ela o protegeria de todas as
formas possíveis para que ele nunca mais tivesse que
enfrentar algo assim.
Ultimamente, a Ying andava ocupada ensaiando música,
porque no próximo sábado ela se apresentaria no palco. Ela
admitia que, sempre que pensava no Zen, seu coração ainda
doía. A sensação era pior do que um choque — ela nem
conseguia colocar em palavras o quanto doía profundamente.
Ela gostava dele secretamente desde o ensino fundamental.
Sempre que ele passava por ela, seus olhos o seguiam, como
se existissem apenas para ele. Ela nunca tinha gostado de
ninguém tanto assim antes. O Zen foi a primeira pessoa que
fez seu coração disparar.
Ela queria vê-lo, queria falar com ele — mas não tinha
coragem.
Tudo o que ela conseguia fazer era se aproximar de
mansinho, misturando-se como uma caloura no mesmo clube.
Eventualmente, de vidas que seguiam órbitas completamente
separadas, eles passaram a se conhecer. A Ying ficava feliz
toda vez que ouvia a música do Zen, colocando como meta
para si mesma que um dia ganharia o coração dele.
Mas ela nunca imaginou — nunca imaginou de verdade —
que por trás daquela imagem gentil de príncipe havia alguém
capaz de ser tão cruel.
No momento em que ouviu aquelas palavras, sentiu como
se seu pequeno coração estivesse sendo esmagado. Seu corpo
inteiro ficou dormente. Enquanto ela o seguia com tanta
dedicação, era assim mesmo que o Zen a via? Ele nunca tinha
visto a Ying como uma garota — nem mesmo como uma
caloura. Aos olhos dele, talvez ela não passasse de um
brinquedo, uma forma de passar o tempo. A Ying não
conseguia entender por que o Zen fez isso. Era para se
enturmar com os amigos dele? Para ser aceito por eles? Qual
era o sentido de escolher ser uma pessoa tão terrível? Ela
realmente não entendia.
A Ying pegou uma garrafa de água e bebeu. O ensaio de
hoje com a banda tinha sido exaustivo. Por mais que quisesse
continuar, ela sabia que não devia se forçar mais ou ficaria
sem voz para a competição de verdade. Ela ficou descansando
em uma cadeira, observando os membros da banda. A maioria
era de alunos mais novos do primeiro ano, com um aluno do
ensino fundamental no meio. Todos compartilhavam o amor
pela música, cada um tocando um instrumento diferente de
acordo com suas habilidades.
A Ying estava feliz por esse clube dar a eles a chance de
desenvolver seus talentos e conhecer outras pessoas com os
mesmos interesses. Com um objetivo em comum, eles se
entrosavam facilmente. Sempre que havia uma competição ou
atividade, todos concordavam prontamente.
A própria Ying sonhava em ser cantora. Ela era habilidosa
com muitos instrumentos — bateria, violão e até instrumentos
tradicionais tailandeses como o saw duang e o ranat. Ela
conseguia tocar todos. Era um interesse pessoal que ela tinha
desde a infância. Assistir às pessoas tocando diferentes
instrumentos a fazia querer experimentar também, então ela
pediu o apoio dos pais. Como era a filha mais nova, tudo o que
pedia, eles faziam a vontade dela.
No fim, ela acabou aprendendo tudo o que queria. Mas
aquilo em que ela era melhor era, sem dúvida, ser a vocalista
principal. Ela sabia que tinha talento para cantar e também
era criativa. Frequentemente, surgiam melodias curtas em
sua cabeça e ela as cantarolava. Ela já tinha escrito músicas
antes, embora nunca seriamente — apenas por diversão,
deixando muitas inacabadas.
Mas hoje, ela de repente percebeu que não devia
desperdiçar essa habilidade. Talvez, se ela se tornasse tanto
cantora quanto compositora, isso não seria nada mal.
A competição deste sábado poderia ser o primeiro passo
em direção à indústria musical. Ela esperava sinceramente
que fosse um caminho que a levasse para mais perto do seu
sonho.
Depois da escola, a Ying foi para casa sozinha — diferente
de antes, quando o Ryu costumava acompanhá-la no caminho
de volta. Enquanto empurrava sua bicicleta para dentro,
ouviu os sons de chutes e socos dos boxeadores treinando.
Seu irmão mais velho fez uma pausa, prestes a chamá-la, mas
a irmã caçula o ignorou e entrou direto na casa. O
comportamento dela pesou no coração dele. Ele rapidamente
olhou para o segundo irmão, que estava tomando um shake de
proteína ali perto, e os dois decidiram ir atrás da Ying para
dentro de casa.
Parecia que a Ying estava seriamente chateada. Desde
que descobriram que alguém tinha insultado a irmã deles, os
dois irmãos tinham invadido a escola para confrontar aqueles
caras. Infelizmente, todos os envolvidos já tinham sido
transferidos. A aparição de dois boxeadores musculosos e
intimidadores causou um alvoroço entre os alunos.
Desde aquele dia, a Ying não falava com nenhum dos dois
irmãos. Felizmente, o outro irmão deles não estava por perto
porque estava fora no acampamento militar — caso contrário,
a Ying talvez não conseguisse se segurar e acabaria
esmagando a própria cabeça com uma pedra.
A Ying entrou e viu o pai levantando halteres, soltando
uma respiração forte. A mãe ainda estava sentada no sofá,
tricotando. Então vieram os irmãos atrás dela. Todos olharam
para ela ao mesmo tempo. A sensação sufocante tornou-se
demais para suportar, e a Ying teve que colocar tudo para fora
imediatamente. Ela colocou as mãos nas quadris e falou tudo
o que estava pesando em seu coração — tudo mesmo.
— Estou tão cheia disso. Quando é que vocês vão parar de
fazer tanto drama? Eu não sou uma garotinha fraca e frágil.
Sinceramente, eu queria falar sobre isso faz tempo. Todo
mundo fica me forçando a fazer coisas que eu nem gosto. A
mamãe está sempre me empurrando saias, me obrigando a
usar. Esse penteado é o que é confortável para mim, qual é o
problema? Parem de interferir já. E parem de me dizer para ser
mais feminina. Eu vou ser eu mesma desse jeito.
— Não fique brava ainda. Seu pai e eu nem dissemos
nada.
— Eu já sei o que vocês vão dizer.
— Ying...
— Eu não entendo por que todo mundo tem tanto
problema com quem eu sou.
— ...
— Se eu algum dia quiser ser feminina, eu mesma farei
isso. Agora, eu não quero. Não mexam no meu cabelo, não
mexam mais nas minhas roupas. Chega. Isso me deixa
desconfortável — além do mais, meus irmãos são sempre tão
exagerados. Eu sou tão fraca assim? Por que todos vocês
acham que a própria irmã não consegue dar conta de nada?
A Ying desabafou um tempão. O pai dela colocou os
halteres no chão e se aproximou, colocando as duas mãos nos
ombros dela e apertando de leve. Ver a filha continuar virando
o rosto, claramente chateada, fez o coração dele apertar. Tanto
ele quanto a esposa sempre quiseram uma filha, mas
acabaram tendo três filhos homens primeiro.
Quando finalmente tiveram uma menina, eles a criaram
com um cuidado extra, esperando que ela crescesse para ser a
princesinha da casa. Eles a vestiam de rosa, compravam tudo
o que achavam que combinava com uma menina. Quando ela
era mais nova, nunca a deixavam fazer nada bruto — apenas
bonecas e brinquedos fofos em tons pastel.
Mas a Ying claramente nunca quis ser a princesinha de
ninguém. Ela preferia subir em árvores, fazer longos passeios
de bicicleta e andar com meninos da idade dela. Isso muitas
vezes deixava a família preocupada. Conforme ela crescia,
continuava cercada principalmente por meninos, o que
deixava o pai e os irmãos ainda mais protetores. Quando
perceberam que a Ying era mais ousada que a maioria das
meninas — agindo de forma mais máscula que os meninos às
vezes, até entrando em brigas — começaram a corrigi-la,
dizendo como uma mulher deveria se comportar. No fim, em
vez de ajudar, só piorou as coisas. Eles a pressionaram
demais, até ela ficar tão infeliz quanto estava agora.
Os olhos da Ying se encheram de lágrimas. Ela se
lembrava claramente das palavras do Zen. Na época em que
ele disse que eles estavam saindo, ele costumava sussurrar no
ouvido dela que ela ficaria mais bonita de saia, e que o cabelo
comprido combinaria mais com ela. Nada daquilo era quem ela
era de verdade. Naquela época, ela estava tão apaixonada que
não tinha percebido. Agora seus olhos estavam abertos. Ela
queria poder voltar atrás e dar uns tapas em si mesma para
acordar. Pelo menos ela não tinha caído nas palavras do Zen
tão profundamente a ponto de se perder completamente.
— A gente já sabe. Conversamos com a mamãe e o papai
sobre isso também. Não vamos mais fazer isso. Não fica brava,
tá bom?
— É sério?
— É. A mamãe se sente mal também por sempre te forçar
a usar saias.
— Bom, eu não gosto delas, mas ela continuava me
obrigando a usar.
— Exatamente. Então para de ficar chateada com todo
mundo agora, certo?
— E quanto a vocês? Ainda não explicaram por terem
invadido a minha escola daquele jeito.
— Isso é diferente. A gente foi porque aquelas pessoas
mexeram com a nossa irmã. Irmã ou irmão, não importa, como
a gente ia ficar parado quando alguém falava com você daquele
jeito?
— ...
— Na próxima vez que você vir eles na rua, é só apontar.
Eu vou dar um soco na boca de cada um.
— Isso é agressão. Comportamento violento típico.
— Ei, sua pestinha!
A Ying manteve o rosto sério por um tempo, depois
finalmente os perdoou e deixou um sorriso de leve aparecer.
No momento em que todos viram isso, comemoraram alto,
celebrando que finalmente tinham feito as pazes com a irmã
caçula. Eles a cercaram, dando um abraço apertado. Os pais
pediram desculpas e prometeram não interferir mais nas
preferências pessoais dela. O que quer que ela quisesse fazer,
ela poderia fazer. A Ying sorriu abertamente, a névoa sombria
em seu coração tinha sumido completamente. Ela não
conseguia se lembrar da última vez que tinha se sentido tão
aliviada.
— Obrigada por me ouvirem.
— Se a gente não ouvir a nossa própria filha, quem é que a
gente vai ouvir?
— Que fofo!
— Ahh... tudo bem. Você já está crescida mesmo. De
agora em diante, você vai viver sua própria vida. Forçar você
seria inútil.
— Nossa, primeira vez que ouço o papai dizer algo assim.
— O que você quer dizer com isso?
— Bom, se um dia você quiser ser uma dama doce e
gentil, você fará isso por conta própria. Se você continuar
assim ou mudar — se você estiver feliz, é isso que importa, não
é?
— É, é, tanto faz.
— Hehe, vem cá, me dá um abraço. A mamãe também, os
irmãos também — vamos lá, abraço em grupo!
— Droga, sua pestinha!
— Eu amo todos vocês, de verdade. Eu sempre amei — só
não gosto de ser forçada.
— É, é, a gente sabe.
— Hehehe.
— É porque a gente te ama também que nos esforçamos
tanto para entender.
— ...
— De agora em diante, faça o que quiser. Desde que a
Ying continue feliz assim, já é o bastante.
— Certo! Tio Karn, terminei de limpar aqui.
— Você já colocou as cadeiras no carrinho?
— Tudo pronto. Pode amarrar agora, tio.
— Hum.
Naquela noite, o tio e o sobrinho trabalharam
diligentemente juntos para arrumar a barraca de leite de soja.
Eles tinham vendido tudo mais rápido do que o esperado — às
sete da noite, a panela já estava vazia. O céu tinha ficado
completamente escuro, mas as luzes dos prédios próximos
ainda iluminavam o pequeno carrinho de leite de soja.
Normalmente, o carrinho amado do tio Karn tinha uma placa
iluminada no topo que o tornava visível de longe quando ligado
na tomada, mas agora que estavam fechando, estava escuro.
O Marn e o tio Karn empurraram o carrinho de volta para
casa juntos. O tio amarrou o cabelo preto de qualquer jeito e
bocejou, girando os ombros como se estivessem doloridos.
Vendo isso, o Marn se ofereceu para lhe dar uma massagem
assim que chegassem em casa. O tio acenou levemente — ele
também estava cansado, e uma massagem seria bom. Afinal,
as habilidades de massagem do Marn eram bem decentes.
Quando chegaram na frente da casa, os dois pararam de
repente ao ver rostos familiares parados no portão. O Marn
deu uma espiada e, quando os reconheceu, sorriu
abertamente e cumprimentou o amigo e o professor da sua
turma na mesma hora.
— Than! Professor Nathi!
Enquanto o sobrinho acenava entusiasmado, o tio revirou
os olhos de irritação, soltou o carrinho e foi abrir a porta da
frente. O Nathi imediatamente interveio para ajudar a
empurrar o carrinho no lugar dele. O Marn se moveu para ficar
ao lado do amigo. Era raro o Than aparecer ali, o que tornava o
dia de hoje ainda mais estranho — ele estava esperando, e
tinha vindo com o Professor Nathi também. Havia algo urgente
acontecendo? No começo o Marn se perguntou, mas quando
notou as sacolas de comida que o Than estava carregando,
entendeu imediatamente. Aquela família era tão gentil, sempre
trazendo comida deliciosa para eles.
— O que foi?
— Não use esse tom tão distante comigo.
— Estou cansado, Nathi. Não me estressa.
O dono da barraca de leite de soja ia descarregar as coisas
do carrinho, mas o jovem professor foi ainda mais rápido. Ele
claramente tinha vindo ali para ser usado pelo Karn. Toda vez
que o Karn tentava pegar algo, o Nathi corria para pegar no
lugar dele, dizendo que estava pesado, que levantar coisas
com muita frequência machucaria as costas dele, que ele
estava ficando velho e seus ossos não eram mais tão fortes
quanto quando era jovem. O Karn, completamente irritado,
deu um tapa nas costas dele. O Marn recuou — o tio dele era
ousado o suficiente para realmente bater em um professor.
O professor deu um grito alto. O tio Karn é assustador
mesmo...
— Muito obrigado por trazer isso, Than.
— Hum.
— Por que tem tanta coisa hoje?
— Minha irmã Wa voltou para casa, então minha mãe fez
comida para comemorar.
— A Wa é a sua segunda irmã mais velha, né?
— É.
— Eu nunca a conheci.
— Ela está na universidade, no segundo ano agora. Não
volta para cá com frequência — só de vez em quando.
— Ah...
— Obrigado de novo pela comida. Da próxima vez, se a
gente tiver algo gostoso, vamos levar um pouco para vocês.
Marn disse isso com um sorriso, sentindo-se
incrivelmente sortudo por ter comida deliciosa entregue direto
na sua casa — e de graça ainda por cima.
Pensando nisso, ele começou a se perguntar por que
aquela família era tão gentil. O Professor Nathi costumava
passar para cuidar deles, e agora o Than também. Talvez o
Marn devesse arranjar uma chance de visitar a casa deles
algum dia — quem sabe levar um pouco do leite de soja do tio
Karn de presente? Mas ele não tinha certeza se eles gostavam
de leite de soja ou não. O do tio Karn era realmente delicioso,
no entanto. O Professor Nathi tinha até dito que era um cliente
fiel.
Hum... ou talvez o Marn devesse se aproximar do Than e
sutilmente promover a barraca de leite de soja do tio Karn.
Quem sabe — talvez eles ganhassem mais um cliente fiel.
Isso na verdade não parecia ser uma ideia ruim.
— Marn.
— Hum?
— Amanhã... vamos juntos para a escola.
— Mas eu tenho que ajudar o tio Karn a vender as coisas
de manhã primeiro. Geralmente, a gente só faz uma pequena
leva de manhã. Ultimamente o tio Karn não tem se sentido
bem, então ele tem feito menos para vender. Começamos a
vender às 6 da manhã, e acaba bem rápido.
— Eu espero.
— Você não precisa me esperar, Than. Eu me sentiria
mal. Eu vou correndo para a escola assim que terminarmos de
vender, vamos nos encontrar lá.
— Você não disse que o seu tio não estava bem? Eu ajudo
a vender.
— Hein... sério?
— Não posso?
— Mas... se for assim, o tio Karn teria que te pagar. Eu
acho que o tio Karn provavelmente não gosta de gastar
dinheiro sem necessidade.
O Marn fez uma concha com a mão e sussurrou, como se
tentasse evitar dizer abertamente que o tio Karn era pão-duro.
O Than apenas ficou ali parado em silêncio, sem responder.
Ver o garoto pequeno abraçando a sacola de comida, espiando
lá dentro, dando gritinhos de empolgação e sorrindo de orelha
a orelha fez com que ele sentisse um carinho. Ele deu um
passo mais perto e fingiu apontar que coisas gostosas havia lá
dentro. Quando o Marn avistou o lanche de chocolate que veio
como um brinde extra, ficou ainda mais feliz e olhou para
cima, dizendo entusiasmado:
— Eu gosto muito disso!
O Than paralisou por um momento. De repente, o ar
pareceu insuportavelmente quente, e ele virou o rosto,
limpando a garganta como se algo a estivesse cutucando. Ele
não sabia o que dizer — seus pensamentos estavam dispersos.
Uma mão subiu para coçar a nuca, mesmo que não estivesse
coçando, e o seu pé chutava levemente a grama.
Vendo o Than agir daquele jeito, o Marn inclinou a
cabeça, confuso, pensando que o Than pudesse estar com dor
de garganta. Ele até considerou perguntar ao tio Karn se ainda
sobrava algum chá de gengibre — além de leite de soja e massa
frita, o tio Karn também vendia leite de soja com gengibre.
— Não precisa. Estou bem.
— Tem certeza?
— É.
— Obrigado de novo pela comida. Vou comer tudo. Por
favor, transmita minha gratidão à sua mãe e à sua irmã.
— Eu vou.
— Como está indo seu treino de natação? Você veio com o
P'Nathi hoje, vocês dois estão próximos de novo, né? Estou
muito feliz.
— Ainda não é bem assim.
— Fico muito contente de ver você e o P'Nathi se dando
bem de novo.
— ...
— Than, você já é o garoto prodígio do P'Nathi, o melhor
de todos, um bom menino!
Marn riu alegremente na frente da casa, presenteando a
todos com um sorriso doce. Than não conseguiu resistir; ele
esticou a mão, segurou aquelas bochechas macias e as
apertou com força. Marn soltou um som abafado e adorável.
Than ficou ainda mais ousado, apertando e amassando as
bochechas com os dedos.
Mas momentos felizes nunca duram muito. De repente,
Than sentiu um calafrio estranho — uma aura assassina e
pesada que fez sua espinha estremecer. Quando ele olhou de
relance e viu o dono da casa parado ali com as mãos na
cintura, encarando-o, ele deu um pulo e soltou imediatamente
as bochechas de Marn. Than engoliu seco. A expressão e os
olhos do tio Karn estavam assustadoramente ferozes. Ele disse
para Marn entrar logo. O pequeno, sem perceber nada, apenas
sorriu abertamente e acenou se despedindo.
Se o olhar do tio Karn fosse feito de facas, Than estaria
cheio de furos a essa altura.
Nathi soltou uma risada seca quando Karn encarou Than.
Ele tinha visto tudo e se apressou em explicar.
— P'Karn, relaxa... haha.
— Pegue seu irmão e vá embora. Agora.
— Ah, qual é, Phi. São só crianças, amigos.
— Vou dizer isso pela última vez. Leve seu irmão para
casa. Agora.
— Você é bem protetor com seu sobrinho também, hein.
— Não pense que eu não vejo as intenções do seu irmão.
— Crianças nessa idade começam a ter o primeiro amor.
É normal.
— Cala a boca.
— Eu também tive um.
— ...
— Primeiro amor. Único amor. E eu o amo desde então.
Than, que ainda estava parado perto do portão, balançou
a cabeça em uma resignação cansada. No fim, ninguém
escapou — os dois irmãos foram expulsos do mesmo jeito.
Exatamente como todos diziam, o dono daquela casa era
apavorante. Mas quando Than vislumbrou o rosto do seu
irmão mais velho e viu aquele sorriso gentil e abençoado, ele
sentiu arrepios instantaneamente. Ele se virou para ir para
casa, com medo de que, se ficasse mais tempo e o tio Karn o
visse de novo, com certeza levaria um banho de água e seria
escorraçado.
Por que ele e o irmão pareciam cães vira-latas pendurados
na cerca do tio Karn?
— Viu? Você foi marcado. Não seja tão sem-vergonha,
entendeu, garoto?
— ...
— Than, você realmente não é nada discreto.
— Se eu fosse discreto, ficaria esperando por dez anos.
— Seu moleque!
— Você anda rondando a cerca deles faz dez anos — e o
que você conseguiu?
— Você se atreve a falar assim com seu irmão? Ei!
Than balançou a cabeça e caminhou para casa com as
mãos nos bolsos, com a voz do irmão mais velho ainda
resmungando por perto. Ele não respondeu nem uma vez.
P'Nathi tentava brincar como antes, querendo passar o braço
pelos ombros dele, abraçá-lo, provocá-lo — mas Than se
esquivava todas as vezes, recusando qualquer contato, agindo
como se achasse o irmão totalmente repulsivo.
Quando chegaram em casa, risadas vinham da cozinha.
Os dois irmãos seguiram o som e viram os outros dois
membros da família sentados juntos enquanto comiam. A mãe
deles usava um cardigã azul claro, parecendo radiante e
alegre. Ela acenou para que eles se sentassem.
Tanto Nathi quanto Than olharam para o jovem de rosto
novo sentado ao lado da irmã deles, analisando-o de cima a
baixo em perfeita sincronia. Vendo os irmãos se espelhando
daquele jeito, Warin estalou a língua imediatamente.
— Não olhem para o namorado da Wa desse jeito.
— Achei que você tivesse vindo para casa porque estava
com saudade dos seus irmãos. Rá. No fim das contas, você
trouxe um cunhado para a gente.
— Você fala demais, P'.
— Um amigo?
— Algo assim. Na verdade, somos de faculdades
diferentes, mas nos conhecemos quando fizemos uma
disciplina optativa juntos.
— Hm...
Nathi puxou uma cadeira e se sentou. Ele estudou o
namorado da irmã mais nova por quase um minuto inteiro
antes de disparar sua pergunta. Warin soltou um suspiro.
Sinceramente, ela nunca imaginou que o obstáculo mais difícil
seria esse irmão. Normalmente, Nathi era alegre e gentil, então
como ele se transformava nisso no momento em que a irmã
trazia um namorado para casa? Olhe só, o namorado dela
estava completamente tenso agora.
— Já chega. Você está deixando meu namorado
desconfortável.
— Eu só quero ter certeza. E se ele acabar sendo como
aquele lá?
— Não diga isso.
— Você já teve um namorado ruim antes. Eu só não quero
que minha irmã se machuque de novo.
— ...
— Não estou te proibindo de namorar.
— ...
— Mas se você algum dia fizer minha irmã chorar, com
certeza vou querer ter uma conversinha com você.
Era difícil acreditar que esse irmão tão gentil pudesse
parecer tão feroz quando falava sério. Não havia o menor sinal
de brincadeira em sua expressão ou em seus olhos. A
sensação a lembrava do pai deles. Se o pai estivesse vivo,
provavelmente faria o mesmo.
Warin olhou para o namorado. Era verdade, o namorado
anterior tinha causado uma bagunça enorme, deixando-a com
o coração partido, chorando por meses. Esse irmão foi quem
constantemente ligava, fazia chamadas de vídeo e lhe fazia
companhia. Mesmo quando ela chorava até a exaustão e
dormia na linha, Nathi nunca reclamava. Nos dias em que
estava livre, ele chegava a ir confortá-la pessoalmente. Nathi
sempre cuidou de todos os seus irmãos.
Desde o dia em que o pai faleceu, Nathi se tornou o pilar
da família — cuidando da mãe, que sofria de depressão,
cuidando de uma irmã com cicatrizes emocionais e de um
irmão mais novo que se culpava por tudo. Quão forte Nathi
teve que ser para passar por tudo isso? E, além de tudo, ele
ajudou a manter todos unidos, consertando e curando a
família até que, finalmente, esta casa se tornasse animada de
novo. No momento em que Warin descobriu que Than se
juntaria a eles para o jantar, ela ficou tão feliz que quase
chorou.
O pai deles, olhando lá de cima, deve estar muito feliz. O
grande tubarão-mako, o golfinho e o grande tubarão-branco
estavam todos reunidos hoje, finalmente completos.
— Não faça essa cara. Vamos, eu não sou tão malvado
assim. Vamos comer.
— Obrigado.
— Então, vocês vão passar a noite?
— Sim. A Warin e eu estávamos pensando em voltar
depois de amanhã.
— Então onde vocês vão dormir?
— Juntos.
Clanc!
Than soltou um suspiro. Ver seu irmão mais velho com
aquela expressão de choque total o deixou sem palavras. Ele
se sentiu tão envergonhado pelo cunhado que quase teve
vontade de pegar seu prato e ir comer sozinho no quarto. Por
que Nathi era tão excessivamente protetor com a irmã? O
próprio Than podia ter observado o cara um pouco, mas pelo
que podia notar, ele parecia bem decente — de pele clara,
usando óculos, educado e bem-comportado, completamente
diferente do anterior. Não deveria haver problema nenhum
neles namorarem, então pelo que exatamente Nathi estava
sendo tão possessivo? Ele estava agindo como o pai deles.
Than avistou um pedaço de frango e esticou o garfo, sem
esperar que seu irmão intrometido escolhesse o mesmo
pedaço. Os dois irmãos imediatamente se encararam, nenhum
deles disposto a ceder. Than espetou o frango; Nathi fez o
mesmo. Warin cobriu o rosto com a mão, totalmente
mortificada por seu namorado ter que presenciar seus irmãos
agindo como crianças.
— Ei, garoto, esse é meu.
— Que tipo de "ei" é esse?
— Seja um bom menino e coma um pouco de peixe.
Frango vai te fazer crescer.
— É só um pedaço!
Enquanto os dois irmãos discutiam, de repente eles
pareceram ouvir um soluço baixo. Nathi imediatamente se
virou para a mãe. Sem hesitar, ele soltou tudo e correu até ela,
agachando-se ao seu lado e segurando sua mão. A mãe
tentava segurar as lágrimas, forçando um sorriso mesmo com
os olhos cheios. Warin, sentada por perto, pegou alguns lenços
e entregou a ela. A mãe os pegou e secou suavemente as
lágrimas.
— Mãe, o que houve?
— Nada. Eu só estou feliz.
— Mãe...
— Faz tanto tempo que nossa casa não se sentia assim.
— ...
— Faz tanto tempo que não ouço vocês três juntos.
— ...
— Eu pensei... antes de morrer, eu gostaria de ouvir isso
só mais uma vez.
— Mãe, não diga coisas assim. Você é tão forte — olha,
você ainda é jovem e bonita.
— Than...
O filho mais novo ficou em silêncio. Ele olhou para a mãe,
apertou os lábios e esperou que ela continuasse.
— Eu sei que, no passado, tanto seu pai quanto eu te
chateamos. Nós realmente nos sentimos culpados e temos
tentado compensar você todo esse tempo. Espero que, de
agora em diante... mesmo que você não consiga nos perdoar,
eu ainda espero que você viva bem e seja feliz, meu filho. Volte
a fazer o que você ama como antes. Você não precisa mais
abandonar isso.
— ...
— E você também, Nathi.
— Mãe...
— Obrigada por cuidar de mim e dos seus irmãos todo
esse tempo. Você deve ter ficado muito cansado, não é?
Ela se virou para olhar para Nathi de novo, com uma das
mãos acariciando gentilmente a cabeça do filho mais velho. O
tempo tinha passado tão rápido. Parecia que tinha sido ontem
que ela o segurou pela primeira vez, um bebezinho de rosto
vermelho nos braços. E agora ele tinha quase trinta anos —
um adulto bom e responsável, com uma carreira estável, um
professor amado por seus alunos, mas ainda assim tão alegre
e caloroso, o mesmo irmão mais velho gentil que ele sempre
foi. Ele era alguém em quem a família podia confiar, aquele
que tinha consertado as rachaduras que os pais um dia
criaram. Embora os eventos de cinco anos atrás tivessem
deixado memórias dolorosas, Nathi permaneceu forte e as
superou. Como mãe, ela estava incrivelmente orgulhosa dele.
Ela olhou profundamente nos olhos dele. A força de Nathi
não vinha apenas de si mesmo; ela também foi nutrida por
aquele vizinho. Quando Nathi estava ferido — tanto física
quanto emocionalmente — quando a família estava
desmoronando, ele frequentemente desaparecia para aquele
lugar. Era difícil acreditar em como aquilo ajudou a curar e
restaurar o coração dele.
Na verdade, uma mãe sempre sabe o que cada um de seus
filhos está pensando e sentindo. Quanto ao seu filho mais
velho, ele demonstrava isso claramente desde o ensino médio.
Para ser sincera... naquela época, ela teve dificuldade em
aceitar que seu filho mais velho se sentia atraído pelo mesmo
sexo. Mas, pelo bem da paz familiar, ela guardou isso para si e
não disse nada. Nathi nunca confessou nada também, mas
parecia que ele já sabia que a mãe tinha percebido algo nele.
Mesmo agora, os sentimentos dela não tinham mudado.
Ela chegou a pensar em deixar este mundo muitas vezes. A
escuridão em seu coração, o luto que atingiu a família, a
sobrecarregou até que ela não pudesse mais suportar.
Olhando para trás, ela sentia arrependimento — não porque
falhou, mas porque deixou seus três filhos presenciarem
aquele momento. Ela se arrependia de ter pensado em
deixá-los para enfrentar o mundo sozinhos, apesar de ser a
mãe deles. Como ela pôde ser tão fraca? Se ao menos tivesse
parado por um momento, teria escolhido, em vez disso,
abraçar todos eles bem forte, para que pudessem ser mais
felizes.
Depois de sobreviver àqueles tempos terríveis, ela
começou a entender que o que as pessoas realmente precisam
na vida é simplesmente paz. Comer até ficar satisfeito, dormir
bem, fazer o que ama, encontrar aqueles que estima — só isso
já é suficiente para criar memórias bonitas neste mundo antes
de partir. Quando chegar a hora, a pessoa pode ir embora com
um sorriso, o que certamente é melhor do que deixar para trás
lágrimas de tristeza.
Se seu filho quer fazer algo, deixe que faça. Contanto que
isso lhe traga felicidade, os pais devem apoiá-lo. No máximo,
os pais podem guiá-los para o que é certo e apropriado, mas,
além disso, o caminho deve ser escolhido pelos próprios filhos.
Os pais dão a vida, mas não são donos dela. Um dia, eles
murcharão com o tempo, e esses filhos devem crescer e viver
suas próprias vidas. Portanto, deixe que escolham o modo de
vida que amam.
— Eu amo todos vocês.
— Eu também te amo, mãe. A Warin e o Than também.
Você não precisa mais ficar triste nem se culpar.
— Mmm.
— De agora em diante... vamos ser felizes juntos.
— ...
— Assim o papai pode olhar para a gente lá de cima e
sorrir.
— É verdade...
— Ele provavelmente está sentado em algum lugar com
um sorriso no rosto agora.
Nathi disse com um sorriso, esticando a mão para limpar
suavemente as lágrimas do rosto da mãe. O ambiente tinha
melhorado muito. Ele se sentia genuinamente feliz. Ele
entendia perfeitamente por que a mãe tinha chorado. Não
eram lágrimas de tristeza, mas lágrimas de alegria, porque
finalmente esta casa não estava mais silenciosa e solitária. O
calor que estivera ausente por tanto tempo finalmente tinha
retornado.
Em seu coração, Nathi fez uma promessa a si mesmo de
que cuidaria de todos o melhor que pudesse. Se seu pai
estivesse olhando para ele agora, queria que ele ficasse
tranquilo — porque Nathi jurou assumir o papel dele. Ele seria
o pilar em que todos poderiam confiar. Seria um bom filho
para a mãe, um bom irmão mais velho para seus irmãos. Ele
nunca deixaria ninguém triste, nunca decepcionaria ninguém.
De agora em diante, ele desejava que esta casa fosse
preenchida apenas com felicidade e risadas — e faria tudo ao
seu alcance para que isso acontecesse.
— Ei! Esse frango é meu!
— Não me importa. Estou com fome. Vou comer.
— Than!
— ...
— Mãe! Ele roubou meu frango de novo! Mãããe!
30
Neste sábado, a gangue de adolescentes teve um encontro
de última hora na casa de Than, porque havia um evento
especial que todos absolutamente tinham que comparecer:
uma competição de bandas de ensino médio na qual Ying
havia se inscrito. Ela tinha ido mais cedo com seus colegas de
banda. Enquanto isso, Marn, Hem, Than e Ryu se reuniram
aqui para que P'Nathi — que também era o professor deles —
pudesse levá-los de carro até o local.
Mesmo sendo sábado, Nathi queria descansar, mas esses
garotos já estavam causando o caos desde cedo. Suspiro... mas
o que ele poderia fazer? Eram todos seus alunos. Se um
professor não apoiasse seus alunos, quem apoiaria?
No fim, ele se levantou, tomou banho, se vestiu e os levou
até o local do evento. Era um grande salão no último andar de
um shopping no centro da cidade. Nathi sentia como se
estivesse levando um grupo de adolescentes em uma excursão
escolar.
Marn parecia mais animado do que qualquer outro.
Normalmente, ele raramente conseguia sair. No passado, ele
vivia sozinho com sua avó, cuja idade tornava as viagens
inconvenientes. Marn era um bom garoto; ele nunca implorava
para que ela o levasse a lugar nenhum, em vez disso, ficava em
casa para ajudar a cuidar do lar. Mesmo agora que havia se
mudado para a casa do Tio Karn, aquele homem também
raramente saía, então Marn ainda não tinha muitas chances
de viajar ou se divertir.
— Você está com fome?
— Nem um pouco. Eu já comi. Muito obrigado por se
preocupar comigo, Than.
Ah... mas julgando pela situação, provavelmente não
havia necessidade de se preocupar. Marn já tinha alguém ao
seu lado que o levaria a qualquer lugar. Hoje, se ele quisesse se
divertir, fazer algo ou subir em qualquer andar, provavelmente
só precisava dizer uma palavra e alguém o levaria até lá com
prazer.
Nathi balançou a cabeça suavemente ao ver seu irmão
mais novo sair correndo para comprar um copinho de bebida
doce e entregá-lo a Marn — recebendo um par de olhos
sorridentes em troca. Gastar cinquenta baht de repente
pareceu valer totalmente a pena.
Aquele garoto realmente ama mimar as pessoas. De onde
ele tirou esse hábito?
Nathi e os garotos chegaram à área do evento, onde uma
grande multidão havia se reunido para assistir à competição.
A maioria eram adolescentes interessados em música. De
longe, ele conseguia ver grupos de estudantes concorrentes
aglomerados. Nathi não tentou controlar nada hoje — era
sábado. Ele não estava no modo professor, e esses não eram
seus alunos agora. Eles podiam fazer o que quisessem. Ele
estava lá apenas para deixá-los e assistir a um pouco da
competição.
Enquanto Nathi estava parado de braços cruzados,
observando o local, os quatro adolescentes correram
imediatamente para procurar a banda de Ying. Assim que a
avistaram, Ying correu direto para abraçá-los, buscando
encorajamento. Ela estava explodindo de nervosismo — a vez
de sua banda estava chegando.
Marn sorriu para ela de forma encorajadora. Hem deu
alguns tapinhas em suas costas, esperando que ela se
acalmasse.
— Você consegue.
— Ryu...!
— Foco. Respire fundo. Não tenha medo.
Ying se soltou de Hem e foi direto para os braços de Ryu,
abraçando-o apertado como sempre fazia. Hoje, Ryu tinha
vindo usando uma blusa de gola alta para cobrir os
hematomas em seu pescoço. Os ferimentos em seu rosto ainda
eram visíveis — muito melhores do que antes, mas ainda
precisariam de algum tempo para cicatrizar totalmente.
Ninguém no grupo mencionou isso. Eles não queriam que Ryu
se sentisse desconfortável. Agora ele podia frequentar a escola
normalmente de novo e participar de atividades com seus
amigos como antes. Ying já tinha resolvido que cuidaria dele
de agora em diante; ela não queria que ele jamais voltasse a
ser como as coisas eram naquela época.
— Obrigada, Ryu. É muito bom que você esteja aqui. Caso
contrário, acho que não conseguiria me acalmar de jeito
nenhum.
— Não pense nisso como uma competição. Pense nisso
como mostrar o que você sabe fazer. Apenas se apresente
como fez durante o ensaio.
— Hmm.
— Não se pressione, ok?
— Sim, eu sei.
Ryu balançou a cabeça suavemente antes de afrouxar os
braços. Justo naquele momento, alguém da banda de Ying
veio dar um toque em seu ombro, dizendo que a equipe estava
chamando para se reunirem nos bastidores. Ryu apertou as
mãos dela algumas vezes para encorajá-la. Todos ficaram ali
assistindo até que Ying desaparecesse de vista.
Hem ficou ao lado de Ryu, notando o olhar em seus olhos
e o sorriso em seus lábios. Ele entendia lá no fundo o que Ryu
sentia por ela. Ele não sabia há quanto tempo era, mas já fazia
muito tempo. Ying era direta, lerda à sua maneira, confiando
mais na força do que na sensibilidade — como ela poderia
entender sentimentos tão delicados?
— Você não pensa em contar para ela?
— Não.
— Por quê? Medo de perdê-la como amiga?
— Não. Ying não faria isso.
— Então por que guardar para si mesmo? Já faz muito
tempo, não faz?
— Porque eu sei que mesmo se eu contasse, nada
mudaria.
Ryu olhou para longe, um sorriso fraco se formando em
seus lábios. Ele não parecia nem um pouco de coração
partido. Ele disse isso casualmente, como se já tivesse
aceitado há muito tempo.
Hem suspirou e levantou a mão para dar alguns tapinhas
no ombro de Ryu antes de levá-lo de volta para se sentar na
plateia, de onde poderiam ver a apresentação de Ying
claramente.
Ryu esperava com uma ansiedade nervosa. Este
momento poderia ser um dos mais importantes na vida de
Ying. Ela tinha esperado tanto por este dia. Sempre que ela
conseguia fazer o que amava, seus olhos brilhavam. Ela sorria
mais do que qualquer pessoa quando estava fazendo o que
amava. Os dois se conheciam desde o ensino fundamental —
melhores amigos desde então. Ryu conhecia todas as forças e
falhas dela, assim como Ying entendia seus pensamentos e
sentimentos.
Para ser honesto, Ryu não acreditava que Ying não
soubesse como ele se sentia. Ela não é lenta, e não era burra.
Mesmo que ele nunca tivesse dito abertamente, ela devia ter
sentido que havia algo especial tecido na maneira como ele a
tratava.
E por causa disso... Ryu sabia muito bem que ele e Ying
nunca poderiam ser mais do que isso. Ying estava contente
com ele sendo apenas um amigo; alguém que a amava e
apoiava assim, continuamente, para sempre. Doía que ela
nunca o visse como um homem? Dizer que não doía seria
mentira. Ele era apenas um adolescente sensível. No fundo,
ele se sentia triste às vezes. Mas não importa quão fortes
fossem esses sentimentos, ele não podia fazer nada além
disso.
Toda vez que ele ouvia Ying falar sobre P'Zen, seu coração
doía dolorosamente. Toda vez que aquele veterano passava, o
olhar de Ying flutuava atrás dele — antes mesmo de perceber,
ela já tinha parado de prestar atenção no amigo parado bem
aqui. Foi por isso que Ryu ficou tão furioso no dia em que
descobriu que aquele veterano nunca tinha sido sincero com
Ying.
Nem um pouco.
Embora Ryu sempre a tivesse protegido, cuidado dela
mais do que qualquer outra pessoa, mesmo sabendo
perfeitamente bem que nunca teria a chance de ser mais do
que isso — ele ainda ficava por vontade própria. Ser apenas
amigos, não importa por quanto tempo, não o assustava. No
entanto, aquele veterano mal fez qualquer esforço para entrar
no mundo dela, mas sem esforço se tornou o número um,
superando Ryu que esteve aqui o tempo todo.
É o que as pessoas querem dizer quando dizem: se você
não é a pessoa certa, então não importa o que faça, você nunca
será a pessoa certa. Ser apenas amigos assim... já era mais do
que bom o suficiente.
Que Ying ainda o amasse e continuasse a depositar sua
confiança nele tão profundamente, apesar de saber que Ryu
tinha sentimentos por ela, significava que ela estava fazendo o
máximo para preservar a amizade deles. Ela se importava com
os sentimentos dele tanto assim — então Ryu não deveria
deixar que os esforços dela fossem desperdiçados insistindo
teimosamente e deixando-a desconfortável. Apenas poder ficar
ao lado dela assim já era mais do que suficiente para ele.
Ser o amigo que Ying mais amava — este já era o melhor
lugar possível para se estar. Se Ying queria que ele
permanecesse apenas como um amigo, então ele seria apenas
um amigo. Para Ryu, não era problema nenhum. Ele tinha
aceitado isso há muito tempo. Tudo o que ele podia fazer era
esperar que um dia a pessoa parada naquele palco
encontrasse alguém verdadeiramente certo para ela; alguém
que a amasse, a entendesse e respeitasse quem ela era,
alguém que não repetisse os mesmos erros que P'Zen. Se esse
dia chegasse, Ryu sinceramente a parabenizaria do fundo do
seu coração. Mas se essa pessoa viesse apenas para lhe trazer
dor mais uma vez, Ryu certamente não a perdoaria tão
facilmente.
Ying tinha salvado sua vida mais vezes do que ele podia
contar. Ela era a melhor amiga que ele já teve; seu conforto,
seu lugar seguro, aquela em quem ele sempre podia confiar.
Se tivesse que proteger e cuidar de Ying pelo resto de sua vida,
Ryu faria isso sem a menor hesitação. Porque esses seus olhos
eram destinados apenas para a pessoa cantando naquele
palco.
Ele olhou para o belo sorriso dela enquanto ela vivia seu
sonho. Ying parecia radiante hoje. Mesmo que suas roupas
não fossem tão glamourosas quanto as de todos os outros, aos
olhos de Ryu, ela já parecia perfeita. Durante toda a
apresentação, ele mal conseguia desviar o olhar da vocalista
principal. Ele ouviu a bela voz de Ying com orgulho,
percebendo os juízes sussurrando entre si. Ele esperava que
fosse um bom sinal. Ele desejava de todo o coração que Ying
saísse de lá com memórias maravilhosas e experiências
significativas.
Ying segurou o microfone com confiança, passando o
olhar pela plateia até pousar em seu grupo de amigos. Ela
piscou para eles de brincadeira, depois olhou direto para Ryu,
cantando com um sorriso mais feliz do que jamais estivera.
Ryu sentou-se abaixo, aplaudindo para encorajá-la.
A apresentação durou apenas alguns minutos, mas para
Ryu, um único segundo de contato visual com ela pareceu
eterno. Ele estava assistindo Ying dar um passo mais perto de
seu sonho. A partir deste ponto, inúmeras oportunidades
certamente surgiriam em seu caminho. E quando esse dia
chegasse, Ryu continuaria ao seu lado, torcendo por ela
exatamente assim.
Ser alguém que a amava, alguém que lhe desejava o bem,
alguém dependente e confiável — não importa qual papel
tivesse que desempenhar, Ryu estava contente.
Naquela noite, Ying voltou para casa com o segundo
prêmio. A banda campeã daquele ano era uma com
experiência considerável. Aquele grupo de adolescentes tocava
junto há muito tempo, competindo em muitos eventos. Suas
habilidades eram excepcionais — era óbvio quanto tempo e
esforço eles haviam gasto praticando juntos. O ritmo e a
coordenação deles eram excelentes. Eles realmente
mereceram o primeiro lugar, junto com o prêmio de dez mil
baht.
Mesmo que não tivesse ganhado o prêmio principal que
uma vez esperou, Ying não ficou decepcionada. Ela sorriu e
correu de volta para abraçar todos os seus amigos que a
esperavam, dizendo que voltaria para vencer na próxima vez.
Ryu assentiu suavemente. Ele estava confiante de que, se Ying
e sua banda continuassem a melhorar, a vitória não estaria
longe de ser alcançada.
— Você foi ótima hoje — Ryu disse no caminho de volta,
estendendo a mão para bagunçar o cabelo dela suavemente
por hábito.
Ela se virou para ele com um sorriso torto. Ele não sabia
como os outros poderiam ver aquilo, mas para Ryu, aquele
sorriso era insuportavelmente fofo.
— Conseguimos cinco mil. Vou dividir com os outros,
provavelmente cerca de mil para cada um. Isso é bastante,
certo?
— Sim.
— Ryu.
— Sim?
— Muito obrigada por vir comigo hoje.
— Um dia importante como este, como eu não viria?
— É verdade... Honestamente, eu estava super nervosa
esta manhã. Fiquei procurando por vocês sem parar. Estou
muito feliz que todos vieram. Caso contrário, eu
provavelmente nem teria conseguido o segundo lugar.
— Você já é boa. Mesmo sem nós, você teria se saído
muito bem.
— Ryu, para mim... o incentivo dos meus amigos significa
muito. Especialmente o seu.
— ...
— Quando você me incentiva, eu te incentivo também. De
agora em diante, esteja você sentado desenhando no meu
quarto, na escola ou até mesmo expondo seu trabalho em um
museu de classe mundial — eu com certeza estarei lá para ver.
— Obrigado.
— Porque você é o amigo que eu mais amo.
— Digo o mesmo.
— ...
— Você também é a amiga que eu mais amo.
Esta manhã, o tempo estava mais radiante do que o
habitual. Estava chegando o fim do ano. Os alunos do ensino
médio estavam no meio dos exames finais e, em pouco tempo,
as férias de inverno chegariam, seguidas pelo Ano Novo e um
novo período escolar. O tempo passou tão rápido. Fazia quase
um ano que alguém novo tinha vindo morar nesta casa.
Karn bocejou amplamente enquanto descia do segundo
andar. Hoje, o dono da loja de leite de soja decidiu não abrir de
manhã — ele se sentia preguiçoso demais. Ele achou que
apenas passaria as horas restantes se preparando para as
vendas da noite.
Karn ouviu alguns ruídos do lado de fora da casa. Ele
parou quando viu a porta da frente aberta. Devia ser por volta
das seis da manhã. O céu ainda não tinha mudado de cor
completamente. Ele pegou um xale e saiu lentamente.
Pássaros estavam gorjeando para saudar o amanhecer, e a
brisa fresca enviava um leve calafrio através dele.
Olhando além da cerca, Karn avistou um pequeno grupo
de três ou quatro pessoas e caminhou até lá. O que ele viu foi
seu sobrinho de dezessete anos ajoelhado com as mãos juntas,
recebendo bênçãos de um monge. Não demorou muito para o
monge e o ajudante do templo partirem. Marn se levantou
lentamente, organizou ordenadamente os itens na bandeja,
então se virou e notou seu tio parado ali. Ele imediatamente o
cumprimentou com uma voz alegre.
— Fazendo méritos?
— Sim. Desde que me mudei para cá, não tive a chance de
oferecer esmolas nem uma única vez. Hoje finalmente
consegui fazer isso, é realmente reconfortante — Marn disse
com uma risada suave, sorrindo de suas próprias palavras,
antes de levar a bandeja de volta para dentro.
Karn seguiu silenciosamente, observando enquanto Marn
mudava de direção. Marn colocou os itens na mesa de madeira
em frente à casa, pegou uma tigela de arroz com água e
caminhou até a base da grande árvore ao lado da cerca. Ele
tirou os sapatos, agachou-se, juntou as palmas das mãos
como se fizesse uma oração e então derramou lentamente a
água no chão. Não demorou muito para ele terminar. Olhando
para cima, viu o céu ficando mais claro — laranja e azul se
misturando lindamente. Ele planejava tomar um banho, se
vestir e ir para a escola depois disso.
— Eu fiz méritos para a vovó também — Marn disse. —
Espero que ela receba os méritos.
— Quando você estava derramando água agora há pouco?
— Sim. Eu disse à vovó que estou feliz agora. O Tio Karn
cuida muito bem de mim. Tenho amigos na escola e meus
professores são gentis e sempre me ajudam. Eu disse a ela
para não se preocupar, que estou indo bem e vivendo feliz,
exatamente como prometi.
— ...
— Você vai vender leite de soja hoje à noite, certo, Tio
Karn? Vou voltar correndo depois da escola para ajudar.
Marn juntou os itens na bandeja novamente,
preparando-se para levá-los para dentro.
Karn franziu o cenho ligeiramente, imaginando por que
Marn tinha acordado tão cedo para fazer méritos hoje.
Curioso, ele perguntou. Marn parou, depois se virou com um
sorriso. Ele disse de forma simples, como se não fosse nada
especial — mas para o ouvinte, foi totalmente chocante.
— Hoje é meu aniversário.
Hoje era o aniversário de Marn.
O aniversário dele?!
Este garoto — em um dia tão importante — e ele não
contou a ninguém. Nem um pingo de empolgação ou alegria.
Ele tratou como qualquer dia comum: acordou, fez méritos
para si mesmo como um ritual simples e pronto. Depois de
oferecer esmolas, ele não mencionou seu aniversário de novo
— nem uma vez. Era estranho. A maioria dos garotos esperava
ansiosamente por seus aniversários, pedindo presentes e
bênçãos. Mas seu sobrinho não disse uma palavra.
Depois de tomar banho e se vestir, ele desceu para comer
como de costume, se preparou para a escola e deixou seu tio
ali parado em confusão. Só depois que Marn se curvou
educadamente e partiu em sua bicicleta é que Karn caiu em si.
Ele rapidamente pegou seu telefone e ligou para alguém
imediatamente.
— Hoje é o aniversário de Marn.
— Hã... espera, o quê? Você só ligou para dizer isso...
Bip.
Ele desligou logo após dizer apenas aquilo. A voz da outra
pessoa soou confusa, mas Karn imaginou que ela saberia o
que fazer a seguir. Ele caminhou até lá e parou em frente à foto
emoldurada de sua falecida mãe, que havia falecido no início
daquele ano. Ele ficou parado ali por um longo momento,
então soltou um longo suspiro, descansando as mãos nos
quadris antes de se virar — como se não pudesse suportar
olhar para o rosto dela por mais tempo.
— Você realmente deixou o aniversário de Marn passar
assim pelos últimos dezessete anos?
— ...
— Não... talvez a mamãe costumasse celebrar o
aniversário dele para ele todos os anos.
— ...
— Mas este ano deve ser o primeiro ano em que Marn não
tem mais sua avó com ele — Karn murmurou suavemente.
Seus olhos escureceram por um momento enquanto ele
olhava para fora da casa. Já era manhã agora; a luz do sol
caía, tornando tudo lá fora claramente visível. As crianças em
idade escolar estavam indo gradualmente para a escola, os
pais estavam se vestindo e se preparando para ir ao trabalho.
Todos estavam começando outro dia de suas vidas. Karn só
podia ficar ali, com as mãos nos quadris, observando sozinho
de onde estava.
Marn deveria estar mais feliz do que isso...
Ele deveria estar mais feliz e sentir mais alegria do que
isso. Ele não percebe o quanto as outras pessoas estão felizes
com a existência dele?
Karn acreditava que havia muitas pessoas que queriam
dizer a Marn...
Obrigado por ter nascido neste mundo.
— O quê?! Hoje é o aniversário de Marn?!
— Shhh! Fale baixo, Dueanphen!
— Ei... espera... o que você quer dizer? É verdade, Than?
Não minta para nós!
— P'Nathi me contou.
— E como seu irmão saberia, Than?
— Ele é o professor responsável pela sala. Ele
provavelmente conhece os aniversários dos alunos.
— Isso é atencioso demais, não é? Lembrar dos
aniversários dos alunos assim... De qualquer forma, Marn
ainda não chegou na escola. Precisamos conversar agora
sobre o que fazer. Encomendar um bolo não vai dar tempo,
droga. Ninguém sabia de antemão que hoje era o aniversário
de Marn, certo? — Ying perguntou.
Todos no grupo balançaram a cabeça. Suas expressões
claras tornavam óbvio — ninguém sabia sobre o aniversário de
Marn antes de hoje. Ying agarrou a cabeça até seu cabelo ficar
bagunçado. Na verdade, ela e os outros lembravam-se
perfeitamente dos aniversários uns dos outros porque eram
amigos há muito tempo, desde o ensino fundamental. Eles
sempre estiveram juntos. Ela mesma nasceu em março, Than
em janeiro, Hem e Ryu em abril. Eles celebravam os
aniversários uns dos outros todos os anos. Era uma pena que
este ano, Marn tivesse se transferido mais tarde e não tivesse
tido a chance de celebrar a chegada dos dezessete anos junto
com eles.
— Então, o que devemos fazer?
— É...
— Acabei de descobrir que Marn acabou de fazer
dezessete anos. Isso significa que ele tinha dezesseis esse
tempo todo?
— O Marn já não tinha dezessete há um tempo?
— Não, ele tinha dezesseis e acabou de fazer dezessete. O
que você bebeu, Mae?
— Não, Dueanphen, você é quem está confusa. Eu juro
que ouvi o Marn dizer que tinha dezessete.
— Você está misturando tudo totalmente, Mae. O Marn
nunca disse isso.
— Hã... então ele tinha mesmo dezesseis?
— Dezesseis, quase dezessete! Ele acabou de fazer
dezessete hoje!
— Então isso significa que o Marn é o mais novo do nosso
grupo.
— Bom, ele nasceu quase no final do ano.
— Tá bom, parem de discutir primeiro. Ei, tive uma ideia.
E se a gente pedisse para o P'Nathi ir comprar um bolo para a
gente...
— Ai! Duanphen, você acabou de bater na minha cabeça?!
— Você tá doida, menina?! Como você pode fazer isso...
pedir para ele sair no horário de trabalho para comprar um
bolo?
— Ué? Então ele não pode?
— Mesmo se pudesse, não seria um incômodo para ele? A
doceria é muito longe. A gente vai ajudar a pagar a gasolina
por acaso? Não.
— É verdade...
— Que tal isto? Não precisamos de bolo. Vamos só fazer
um presente para o Marn.
O garoto de óculos do grupo sugeriu a ideia. Ying e Hem
concordaram rapidamente com a cabeça e esperaram para ver
o que o Ryu diria. Eles viram o amigo tirar folhas de papel
branco de sua pasta junto com uma caixa de lápis de cor, e
entenderam na mesma hora. Mesmo sem um bolo, se eles
fizessem um cartão de aniversário bonitinho, o Marn com
certeza ficaria muito feliz.
Então decidiram fazer cartões de aniversário para o Marn.
Mas antes que pudessem conversar mais, o próprio
aniversariante chegou. Marn sorriu abertamente e acenou
para todos de um jeito amigável. Ele se sentou com os amigos,
conversando sobre várias coisas, mas nem uma única palavra
indicava que era o aniversário dele. Isso surpreendeu muito
todo mundo no grupo. Eles nunca imaginaram que o Marn
agiria como se hoje não fosse o aniversário dele de jeito
nenhum. Ou talvez ele tivesse esquecido que hoje era um dia
especial que só acontecia uma vez por ano, ou quem sabe o
professor Nathi simplesmente tivesse se enganado.
O dia inteiro, Marn realmente não mencionou o
aniversário dele em momento algum, até que a Ying começou a
hesitar e decidiu que tinha que ir perguntar direto para o
P'Nathi. Ele confirmou que hoje era mesmo o aniversário do
Marn. Talvez o garoto só não estivesse acostumado a deixar os
outros saberem sobre o aniversário dele.
No passado, o Marn não tinha muitos amigos, então
provavelmente não achava que era necessário contar para
ninguém. Pensando dessa forma, o humor de todo mundo
piorou visivelmente. Como eles poderiam não saber pelo que o
Marn deve ter passado antes?
Mesmo que nunca tivessem visto com os próprios olhos,
só de ouvir falar, sentiam que deve ter sido um mundo muito
solitário.
Se esse era o caso, então eles mesmos criariam um
mundo novo para o Marn. De agora em diante, toda vez que o
aniversário dele chegasse, o Marn se sentiria feliz. Toda vez
que ele pensasse no seu dia especial, sentiria um pouco mais
de animação e alegria. As crianças trabalharam nos cartões de
aniversário em segredo. Era muito difícil fazer isso sem que o
Marn percebesse, já que estavam sempre juntos e raramente
se separavam, exceto durante as aulas.
Normalmente, o Marn prestava muita atenção na aula;
sempre que havia conteúdo no quadro, os olhos dele ficavam
fixos ali. Por causa disso, os garotos travessos foram ao ponto
de ameaçar e forçar o professor Nathi a ensinar qualquer coisa
que impedisse o Marn de olhar em volta e o fizesse focar
apenas no quadro.
Nathi limpou o suor da testa. Essas crianças... será que
ficaram espertas o suficiente para começarem a usar o
professor agora?
Finalmente, o momento que tanto esperavam chegou.
Depois da escola, o Marn teve que ficar um pouco mais porque
o aluno que estava de plantão na limpeza da sala de repente
teve uma dor de estômago. Ele juntou as palmas das mãos e
pediu para o Marn ajudar a varrer a sala um pouco enquanto
ele corria para o banheiro.
Bondoso como era, o Marn aceitou a vassoura sem uma
única reclamação. Ele limpou a sala de aula sozinho; não
havia mais ninguém lá, já que todos os outros já tinham ido
para casa.
Mas... enquanto estava apagando o quadro negro, o Marn
ouviu sussurros vindo da janela. Curioso, ele caminhou até lá
e deu uma espiadinha, apenas para congelar de choque
quando viu todos os seus amigos escondidos ali. Eles
pareciam tão assustados quanto ele por terem sido
descobertos.
— O que vocês estão fazendo...? Por que estão todos aqui?
Than, você fez todo mundo pular a janela?
O plano foi completamente arruinado. Eles tinham
planejado fazer uma emboscada secreta com uma surpresa.
Realmente não deveriam ter deixado o Than ser quem
inventaria o plano. Ying e Hem não conseguiram se segurar e
deram um tapa na cabeça do amigo, totalmente irritados com
o imprestável garoto sereia.
Não tem mais jeito! O Marn já sabe de tudo agora!
No fim, o segredo não pôde mais ser guardado. Marn ficou
parado ali segurando a vassoura, ouvindo a verdade dos
amigos. Ele ficou chocado por todos saberem que hoje era o
seu aniversário e ainda mais chocado quando lhe entregaram
cartões de aniversário junto com lanches gostosos da cantina
da escola.
Essa foi a primeira vez que alguém além da sua avó
comemorou o aniversário do Marn.
— P-para mim?
— Feliz aniversário, Marn.
— Desejamos muita felicidade para você.
— Estamos muito felizes por termos te conhecido.
— Desculpa por não termos preparado um bolo. Só
ficamos sabendo hoje de manhã.
Marn aceitou os papéis brancos e os abriu, dando uma
olhada em cada um. Dentro havia mensagens carinhosas dos
amigos. Ele percebeu na hora qual era o do Ryu; tinha um
desenho, lindamente feito, melhor do que o de qualquer outro.
Os outros podiam não ser tão elaborados, mas seus traços
fofos estavam cheios de sinceridade e boa vontade. Marn ficou
parado olhando para eles, sentindo um calor estranho subir
nos cantos dos olhos. Quando todos viram os olhos dele
ficarem vermelhos, começaram a entrar em pânico, nunca
esperando que o Marn fosse chorar assim.
— Obrigado. Eu falo sério.
— Durante todo este tempo, só a minha avó me desejava
feliz aniversário. Este ano, ela se foi. Então decidi que tentaria
ser forte. Mesmo que eu não receba mais os parabéns da vovó,
tudo bem. Pensei que deixaria ser apenas um dia comum. Por
isso não contei para ninguém... eu nunca tive amigos de
verdade antes, então não sabia para quem deveria contar
coisas assim.
Marn falou baixinho, as pontas dos dedos acariciando
suavemente os cartões de aniversário. Um sorriso fraco surgiu
em seu rosto. As lágrimas que se acumulavam em seus olhos
não eram de tristeza, mas de alegria. Ele nunca imaginou que
sua vida chegaria a um dia como este — um dia em que
recebesse desejos de aniversário de outras pessoas além de
sua avó, um dia em que tivesse amigos que o entendessem e o
aceitassem pelo que ele era.
Marn não estava nem um pouco chateado por não ter um
bolo de aniversário. Sinceramente, mesmo se não houvesse
cartões e apenas simples palavras ditas em voz alta, ele já
estaria mais do que feliz. Ele nunca imaginou que seus amigos
tivessem discutido esse segredo e essa surpresa o dia todo.
Tornou-se uma das melhores lembranças da vida dele.
Marn não conseguia parar de sorrir. Hoje à noite, antes de
ir para a cama, ele acenderia incensos e contaria para a sua
avó que, mesmo em um dia comum como este, tantas coisas
maravilhosas haviam acontecido.
Embora este ano o Marn não tenha recebido os parabéns
da sua avó, ele acabou recebendo tantas coisas maravilhosas
das pessoas ao seu redor em vez disso. Parecia uma boa
mudança — mas parece que as surpresas ainda não tinham
acabado.
Todos os seus amigos acompanharam o Marn até em
casa. Naquele momento, o aniversariante ficou ali de boca
aberta, em choque, quando viu que o jardim da frente da casa
do Karn, que costumava ser quieto e sombreado, tinha sido
decorado com balões coloridos.
Além disso, o seu professor estava em cima de uma
escada, pendurando uma faixa onde se lia Feliz Aniversário.
Na mesa de madeira havia uma farta distribuição de comida;
muitos pratos, um bolo de chocolate com uma cara deliciosa e
até uma chapa para fazer churrasco de porco. Havia comida
suficiente para alimentar dez pessoas até ficarem
completamente cheias.
Marn entrou em transe, os olhos percorrendo tudo ao seu
redor, totalmente confuso. Ele tinha planejado chegar em casa
e ajudar o Tio Karn a empurrar o carrinho para vender leite de
soja — mas olhem só para o que estava na frente dele agora.
— Tio Karn... o senhor não vai vender leite de soja hoje?
— Em uma hora dessas, você ainda está perguntando
sobre o leite de soja?
— P'Karn, não dê bronca no seu sobrinho.
— Termina de amarrar isso primeiro. Ali também... é, esse
aí.
— Tá bom, tá bom, o Professor Mandão quem diz.
Marn estava completamente desorientado. Karn se virou
e, vendo que o sobrinho claramente não estava entendendo o
que estava acontecendo, baixou a mão que usava para
orientar o Nathi e caminhou até o Marn. Ele notou a leve
vermelhidão nos olhos do Marn e imediatamente lançou um
olhar afiado para o grupo de adolescentes atrás dele. Eles
pularam de susto e se apressaram em explicar que não tinham
provocado nem feito bullying com o Marn de jeito nenhum;
eles só queriam fazer uma surpresa. Marn estava
simplesmente tão feliz que os olhos dele lacrimejaram.
— Tio Karn... o senhor fez tudo isso para mim?
— Bom, você está vendo com seus próprios olhos. Por que
fazer tantas perguntas?
— Muito obrigado, tio.
— Hum.
— Para ser sincero, eu realmente não sei como agir.
Nunca tive tanta gente comemorando meu aniversário antes.
— Então agora você tem.
— Eu vou ajudar. O Tio Karn pode ir sentar e esperar, eu
coloco a comida nos pratos e trago.
— Fica sentado quieto.
— Eu não posso fazer isso. O senhor teve todo esse
trabalho comprando tanta comida... eu me sinto mal...
— Senta e fica quieto. Vá se divertir com seus amigos.
Tudo o que o Marn conseguia fazer era piscar os olhos. De
repente, o Tio Karn colocou um chapéu de papel na cabeça
dele, manteve a expressão séria e disse para ele ir sentar e
comer com os amigos.
No fim, hoje não foi um dia comum para o Marn de jeito
nenhum. Ele tinha amigos, o seu professor passou para lhe
desejar feliz aniversário. No começo, o Marn achou que ficaria
muito triste — este era o primeiro ano sem a avó ao seu lado no
seu aniversário. Ele tinha certeza de que sentiria uma falta
terrível dos desejos e presentes dela. Mas, inacreditavelmente,
todos conseguiram deixá-lo tão feliz que ele quase esqueceu a
tristeza por completo.
Marn sentou lá comendo comida deliciosa, rindo em um
momento e sorrindo no outro, parecendo animado e radiante
como um verdadeiro aniversariante. Vendo o sobrinho cercado
de amigos, Karn observava com olhos gentis. Nathi, que estava
sentado por perto, percebeu e o provocou baixinho.
— Você é muito bondoso, sabia?
— Come em silêncio, Nathi.
— Quem diz que o P'Karn não ama o sobrinho? Olha só o
quanto você se esforçou pelo Marn.
— ...
— Você sabia que o Marn mudou muito você? E digo isso
no bom sentido. Estou perto de você há anos... esta é a
primeira vez que realmente sinto isso. Você genuinamente se
tornou melhor. Você parece muito mais feliz.
— Você fala demais.
— Estou muito feliz por você ter decidido trazer o Marn
para morar aqui naquela época.
— ...
— Não ajudou apenas o Marn. Ajudou você também.
— ...
— Quando vejo você feliz, eu fico feliz também.
Karn se virou para olhar para quem falava. Nathi estava
sentado ao lado dele, retribuindo o olhar com uma expressão
gentil. Sempre atencioso — exatamente como os garotos
viviam elogiando. Karn não pôde deixar de se sentir irritado,
então pegou um pedaço grande de porco e enfiou na boca do
Nathi para fazê-lo calar a boca.
A mesa dos adultos estava animada à sua maneira.
Enquanto isso, na mesa dos adolescentes, todos estavam se
divertindo tanto quanto. Marn ria com os amigos até seus
olhos se curvarem em frestas felizes. Than sentou ao seu lado,
apoiando o queixo na mão, observando sem perceber há
quanto tempo estava encarando — até que o Marn percebeu e
inclinou a cabeça, confuso.
— Than, por que você está olhando para mim? Tem algo
que queira dizer?
— Não.
— Coma mais, tá bom? Me ajude, não quero que
nenhuma comida seja desperdiçada. Se fôssemos apenas eu e
o Tio Karn, com certeza não conseguiríamos terminar tudo
isso. É muito bom que todos estejam aqui.
— O que você quer?
— Hein?
— Um presente de aniversário. A gente costuma comprar
presentes uns para os outros no grupo todo ano. Não é nada
estranho —, eu só estava perguntando para saber o que
comprar.
— Eu sei. Eu não estava desconfiando de nada.
— ...
— Não tem nada especial que eu queira. Mas muito
obrigado por estar disposto a me dar algo.
— Hum.
— Então eu vou te cortar um pedaço de bolo. Ah, tem
velas espetadas nele. Devo tirá-las primeiro... eu não achei que
o Tio Karn compraria um bolo também. A idade nele está
errada na verdade, mas acho que tudo bem.
— Hein? Como assim a idade está errada?
Ying, que estava prestes a comer a sobremesa, congelou.
Marn levantou a cabeça do bolo, segurando as velas de
números — um e sete. Ele as puxou e as segurou para que
todos na mesa vissem, sorrindo abertamente enquanto
revelava a verdade. A boca de todo mundo caiu, especialmente
a do Than, que estava sentado ao lado dele.
— Eu já tenho dezoito.
E-espera. Isso significa que o Marn é na verdade o mais
velho do grupo?!
Than apertou os lábios, ficando um pouco emburrado. No
fundo, ele se sentiu um pouco incomodado sabendo que era
mais novo que o Marn.
— Than...
— Seu chapéu vai cair.
Ele estava observando há um tempo — o chapéu de papel
simplesmente não parava na cabeça do Marn, balançando
para lá e para cá.
Sem pensar, Than estendeu as duas mãos para ajustá-lo
para ele. Ele só percebeu o que estava fazendo quando a mesa
inteira ficou em silêncio.
Todos olhavam em choque.
Than congelou, prestes a recolher as mãos — mas quando
viu o aniversariante sentado completamente imóvel, não
soube o que fazer. Os olhos do Marn encontraram os dele,
depois desviaram levemente. Um vermelho fraco subiu em
suas bochechas, tornando-se mais visível a cada segundo.
Marn apertou os lábios. A súbita onda de sentimentos
tornou impossível para ele continuar olhando para o Than.
Que estranho... talvez ele estivesse sentado perto demais da
chapa.
Deve ser por isso que o rosto dele parecia tão quente. Ele
até teve que soltar um suspiro — fuuuu. Estava um calor
insuportável. Ele não teve escolha a não ser desviar o olhar.
Quanto ao nadador, ele limpou a garganta e fingiu dar
uma mordida enorme no bolo — esquecendo completamente
que normalmente nem gostava de sobremesas excessivamente
doces. Ele tinha acabado de enfiar uma bocada de creme e não
tinha a intenção de cuspir.
Ryu, Hem e Ying sentados à frente deles, observando o
comportamento dos dois garotos, só conseguiam balançar a
cabeça.
— Acho que o Than está mesmo na pior — Ying
murmurou.
Quando a festa de aniversário finalmente acabou, já eram
dez da noite. Todas as crianças ajudaram na limpeza —
lavando a louça e arrumando a casa — antes de irem para
casa. Se não tivessem ajudado, o Tio Karn com certeza os teria
colocado em uma lista negra para nunca mais saírem com o
Marn. Ele já era assustador o suficiente para que ninguém
ousasse encontrá-lo nos olhos. Um adulto verdadeiramente
intimidante — sempre sem expressão, irradiando uma pressão
fria sem parar.
Ying e Hem continuavam cutucando o Than quando viam
o tio do Marn parado à distância com os braços cruzados,
encarando-os. Eles apressadamente disseram para o Than se
afastar um pouco mais do Marn, ou o Tio Karn com certeza
viria até ali e faria o sangue correr.
Quando a casa finalmente ficou silenciosa de novo, Karn
sentiu-se relaxar um pouco. Viver entre tantas pessoas era
exaustivo — sua energia estava completamente esgotada.
Suas pálpebras caíram enquanto ele se arrastava e desabava
em sua habitual cadeira longa, seu lugar de sempre. Ele
parecia totalmente acabado. Justo quando estava prestes a
fechar os olhos para descansar, ouviu passos se aproximando.
Ele abriu os olhos imediatamente e viu o sobrinho
caminhando em sua direção. Marn baixou-se para sentar
educadamente no chão, com as pernas dobradas sob o corpo.
Em suas mãos estavam pequenas flores de jasmim do jardim
da frente. Karn endireitou-se lentamente em sua cadeira,
encarando as pequenas flores brancas com confusão.
— Todo ano, eu fazia uma reverência e agradecia à vovó —
Marn disse baixinho. — Agradecia a ela por cuidar de mim... e
por me criar tão bem.
— ...
— Este é o primeiro ano em que não tenho a vovó comigo
no meu aniversário. Acho que dá para dizer que não estou
acostumado. Achei que já tinha aceitado isso, mas quando
chega a hora, ainda me sinto triste.
— ...
— Mas eu também tenho que aceitar a verdade de que,
agora, a vovó não está mais aqui. Tudo o que o Marn tem agora
é o Tio Karn. Embora nós dois nos conheçamos há pouco
tempo, por tudo o que o Tio Karn fez por mim até agora... acho
que é mais do que suficiente para eu sentir que quero me
curvar para o senhor pelo menos uma vez.
— ...
— Obrigado por cuidar de mim, Tio Karn.
Karn não conseguiu dizer uma palavra. Ele apenas ficou
ali sentado em silêncio. Em todos os seus anos de vida, ele
nunca tinha experimentado nada parecido antes. Ninguém
jamais tinha se curvado para ele. Ninguém jamais o tinha
agradecido. Marn tinha vindo morar com ele há menos de um
ano, mas já confiava nele o suficiente para aceitá-lo como seu
guardião a esse ponto.
Um homem de quase quarenta anos que viveu uma vida
bagunçada e quebrada — como ele poderia ser digno de aceitar
flores tão pequenas desta criança?
Será que Karn era realmente merecedor daquilo?
— O Tio Karn poderia me dar uma bênção? — Marn
perguntou baixinho.
— Eu não sou bom com bênçãos.
— Só um pouquinho está bom.
Marn piscou, esperando pacientemente pelas palavras de
bênção de seu guardião. Karn ficou em silêncio por um longo
tempo, como se hesitasse em falar ou não. No fim, ele cedeu.
Estendeu uma mão e a colocou firmemente sobre a cabeça do
sobrinho, as pontas dos dedos acariciando suavemente seu
cabelo.
Marn juntou as palmas das mãos contra o peito e fechou
os olhos, ouvindo atentamente, recebendo seu décimo oitavo
ano com toda a sinceridade.
— Bem... desejo que você tenha boa sorte.
— ...
— De agora em diante... que você nunca mais tenha que
enfrentar coisas ruins.
— ...
— Viva a sua vida do jeito que você quiser.
— Obrigado, Tio Karn.
Marn abriu os olhos novamente e congelou quando viu o
olhar gentil nos olhos do Tio Karn. Era raro ver tal expressão.
Ele sentiu como se o calor estivesse flutuando por toda a casa.
Ele se virou para olhar a fotografia emoldurada da sua avó
colocada em cima do armário e viu o sorriso bondoso dela na
foto.
Ele sentiu um pouco de pesar por ela não estar mais aqui.
Sentia falta do sorriso dela e de seus calorosos desejos de
aniversário. Ano passado, a vovó ainda estava lá, dando um
presente para ele. O tempo mudou, e as pessoas
desapareceram com ele — uma verdade comum deste mundo
que o Marn teve que aprender a aceitar.
— Venha aqui. A vovó vai te dar uma bênção.
— Sim.
— Você faz dezessete este ano, certo? Desejo ao meu neto
muita saúde, sem doenças, sem dor. Que não existam coisas
ruins na sua vida.
— ...
— Que você encontre felicidade e realização. Que apenas
pessoas boas entrem na sua vida. Por onde quer que você vá,
que você seja amado e querido.
— ...
— Cresça e seja uma pessoa boa, Marn.
O décimo sétimo ano havia passado.
Marn queria agradecer profundamente à sua avó pelas
bênçãos que ela lhe deu naquele dia.
Durante o último ano... Marn encontrou tanta felicidade.
31
A primavera já havia passado há muito tempo e a estação
chuvosa tinha ficado para trás. Agora, a Tailândia entrava
oficialmente no inverno. Todas as manhãs, uma névoa branca
flutuava pelo ar, e só depois que o sol surgia no horizonte para
derreter o nevoeiro espesso é que as pessoas conseguiam
enxergar tudo com clareza novamente. Muita gente começou a
tirar as roupas de inverno do armário, sacudindo-as e
vestindo-as — alguns para ir trabalhar, outros para correr ao
ar livre logo cedo. Com um tempo tão fresco e agradável,
qualquer um sentiria vontade de sair e vivenciar a natureza.
Marn morava ali há vários meses. Esse período poderia
ser considerado curto ou longo, dependendo do ponto de vista.
Tanta coisa tinha acontecido que, se Marn fosse contar a
história toda, provavelmente levaria três dias seguidos. Ele
conheceu um tio que nunca tinha visto na vida; dois estranhos
que passaram a morar juntos. Fez novos amigos na escola e
conheceu professores que eram incrivelmente gentis.
Tudo isso fazia Marn sentir que a vida ainda reservava
muitas coisas esperando para serem descobertas. Às vezes,
você só precisava esperar pelo momento certo e acabaria
encontrando essas coisas por conta própria.
Marn sentia como se tivesse ganhado o prêmio principal
na loteria da vida. Para um jovem de dezoito anos como ele,
não queria nada mais do que uma vida tranquila.
— Atchim!
— Você pegou um resfriado?
— Não, tio. É provável que seja apenas meu nariz
reagindo ao tempo frio.
— Cuidado para não ficar doente.
— Sim. Muito obrigado por se preocupar comigo, tio Karn.
Marn se virou e sorriu para ele. Hoje era domingo, dia de
folga da loja. Desde aquela doença grave, Marn sugeriu
adicionar mais um dia de descanso para que o tio Karn não
precisasse trabalhar tanto. Embora, na verdade, o inverno
fosse a estação em que a loja de leite de soja do tio Karn
vendesse melhor do que o normal, o dono da loja também
andava preguiçoso. Assim que trabalhou o suficiente para
ganhar o dinheiro da mensalidade de Marn para o segundo
semestre, ele voltou a vender em um ritmo mais relaxado. Ele
não acordava mais às quatro ou cinco da manhã para
preparar os produtos.
Marn estava feliz com isso. Ele queria que o tio Karn
cuidasse melhor da própria saúde. O tio Karn não parecia
alguém que gostasse muito de se exercitar. Está vendo aquela
cadeira comprida? Sempre que tinha chance, ele estava
deitado nela. Se você não encontrasse o tio Karn e se
perguntasse onde ele estava, era só checar aquela cadeira —
ele quase sempre estava lá.
Marn já tinha se perguntado por que o tio Karn gostava
tanto de ficar sentado ali. Depois de testar ele mesmo, ele
entendeu. Aquele lugar não recebia apenas a brisa fresca —
ele também tinha vista para o jardim de flores na frente da
casa, fazendo a pessoa se sentir calma e relaxada. Era por isso
que o tio Karn amava tanto aquele cantinho.
— Você não teve nenhum sintoma ultimamente, certo?
— Estou bem, tio.
— Está tomando seu remédio regularmente? Se estiver
acabando, me avise.
— Sim. Eu tomo o tempo todo. Isso é muito importante,
eu não vou esquecer. Mesmo quando como com amigos na
escola, eu sempre protejo a mim mesmo e a todos os outros.
Você não precisa se preocupar.
— Hum.
— Não tem sol nenhum hoje. Provavelmente vai ficar
muito frio.
— Esta área é sempre fresca. Fica perto das montanhas.
— Ah, verdade.
Marn estava sentado no chão, dobrando suas roupas em
pilhas organizadas, preparando-se para guardá-las no
armário de cima. Ele olhou para fora. Era domingo. O tio Karn
estava descansando em casa, recostado confortavelmente na
cadeira comprida, assistindo televisão com um braço
apoiando a cabeça e um cobertor sobre o corpo. Marn viu os
dedos dos pés do tio Karn se mexendo de leve — parecia que
ele estava muito relaxado.
O tio Karn era como um gato. Adorava ficar deitado,
movendo-se preguiçosamente. Bastava um momento para
Marn desviar o olhar e ele já tinha se jogado de novo.
O tio Karn tinha apenas um tipo de expressão. Fosse feliz,
relaxado ou insatisfeito, ele sempre usava o mesmo rosto
inexpressivo. Se quisesse adivinhar o humor dele
corretamente, você tinha que observar com atenção. No
começo, Marn não entendia e achava que o tio Karn não
gostava dele. Mas depois de morarem juntos por mais tempo,
ele passou a entender a verdade. O tio Karn não era ranzinza o
tempo todo; ele tinha momentos de conforto e tranquilidade.
Ele só não era bom em demonstrar isso no rosto. Era por isso
que a maioria das pessoas o via como um adulto severo e
inacessível, exatamente como todos costumavam dizer.
Hoje, o céu estava bem sombrio. A temperatura caiu para
pouco mais de dez graus. Marn acordou de manhã tremendo,
com os dentes batendo. No final de novembro, o vento frio
soprava mais forte do que nunca, trazendo névoa e gelo com
ele. Ao dormir, Marn precisava usar meias e se encolher
debaixo do cobertor grosso que o tio Karn tinha lhe trazido. O
tempo frio, que convidava ao sono, o fazia se sentir um pouco
preguiçoso, mas ele ainda tentava se manter ativo. Embora
tivesse se aproximado mais do tio Karn, ele não deveria se
permitir ficar tão preguiçoso a ponto de causar preocupação
desnecessária ao seu tio.
Deviam ser umas oito da manhã agora. Depois de
terminar de dobrar as roupas, Marn caminhou até a frente da
casa. Ouviu pássaros piando de todas as direções,
especialmente das árvores em frente à casa. Ele se aproximou,
parou debaixo delas e olhou para cima, tentando localizar o
som. Mas, em pouco tempo, vozes humanas o interromperam.
Marn se inclinou um pouco sobre a cerca. Quando
percebeu quem era, seu rosto se iluminou e ele acenou com
entusiasmo. Os dois irmãos que moravam no mesmo beco
eram pessoas que Marn conhecia bem. Vestindo blusas de
manga comprida e calças compridas, eles correram direto na
direção dele. Pelo que parecia, o P’Nathi provavelmente estava
aquecendo o jovem atleta de novo.
— Ei, Marn.
— Olá, P’Nathi. Acabaram de voltar de uma corrida?
— Sim. Estamos correndo desde cedo.
— Vocês não estão com frio?
— O tempo está ótimo, na verdade. Da próxima vez eu
venho te convidar para ir com a gente.
— Com certeza. Muito obrigado. Vou deixar meus tênis
prontos e esperar — Marn respondeu alegremente. Então seu
olhar se voltou para o próprio amigo.
Than usava uma jaqueta preta, ainda com aquele ar
pouco amigável de sempre. Após as curtas férias escolares de
cerca de um mês, o cabelo de Than tinha crescido bastante —
tanto que quase cobria seus olhos. Ele era claramente o irmão
mais novo de um professor, e ainda assim se comportava de
forma tão desleixada. Quando os dois ficavam juntos em casa,
o P’Nathi chegava a dar bronca nele? Marn se perguntava.
Olhando um pouco mais longe, Marn avistou um
cachorro completamente preto com um porte familiar. Ele
estava grudado em Than, recusando-se a sair do lado dele. Ele
imediatamente se lembrou de que era o Chaokuay, o cachorro
que todo mundo na vizinhança conhecia. Um vira-lata que
vagava livremente por aí, mas na maioria das vezes gostava de
ficar pela escola. Na hora do almoço, ele corria de casa em casa
pedindo comida, vivendo uma vida tão livre que dava inveja
nos outros.
Bem... mesmo agora, Marn ainda tinha medo de
cachorros. Ele não se atrevia muito a chegar perto, e só
conseguia ficar parado olhando de longe assim.
— Quando é a competição do Than? — Marn perguntou.
— No próximo mês de abril. O Than tem que competir de
novo para estabelecer um novo recorde. Agora ele está
tentando voltar à forma. Ele não nada há muito tempo, então
precisa treinar mais pesado.
— No inverno assim, ele ainda entra na piscina?
— Nos dias em que não está frio demais, a gente passa
para treinar um pouco. Às vezes eu o levo para praticar em
uma piscina coberta na cidade. Tem uma piscina fechada
exclusiva em um centro de treinamento. Antigamente, meu pai
costumava me levar lá com frequência. A água não deve estar
muito gelada.
— Isso é incrível... Você realmente apoia muito o Than
como irmão. A propósito, depois que ele conseguir bons
recordes, que tipo de competições vêm a seguir?
— Haverá outro evento provincial, os Jogos Nacionais da
Juventude. O Than já competiu antes, sabia? Ele até chegou
ao nível regional, mas havia competidores mais fortes.
Naquela época ele ainda era novo, então cometer erros não era
um grande problema.
— Isso é incrível. Realmente incrível.
Nathi riu ao ver os olhos de Marn se arregalarem tanto,
exclamando "incrível" duas vezes seguidas. Olhe para o irmão
mais novo dele agora — ele ainda mantinha aquele rosto frio e
inexpressivo, mas suas orelhas estavam vermelhas e
impossíveis de esconder. Daria para ver até do espaço sideral.
Esse garoto era um novato total.
— Da próxima vez você pode vir vê-lo treinar. Talvez a foca
daqui se sinta mais motivada e se esforce mais.
Nathi deu um tapinha leve no ombro de Marn antes de
entrar na casa. Marn abriu a porta para ele com facilidade,
sabendo o quanto o P’Nathi era familiarizado com o dono da
casa. O próprio Marn ficou para trás, caminhando ao lado de
seu amigo, e depois os seguiu para dentro.
— Than, você é realmente bom.
— Em quê?
— Na natação. Eu acho que você é realmente incrível.
— Eu nem competi ainda.
— Eu já vi você treinar. Mesmo que você não estivesse
falando sério ainda, pelo que eu pude ver, você já é fantástico.
Eu assisti aos vídeos da competição de natação do P’Nathi e,
depois de ver você nadar, honestamente: Than, você é mesmo
o irmão mais novo do P’Nathi. É sério. Sua forma, seu tempo —
tudo é exatamente igual!
— Ele me ensinou desde que eu era pequeno.
— Sério?
— O pai ensinou ele, depois ele me ensinou.
— Parece que você e o P’Nathi são muito próximos.
Than inclinou um pouco a cabeça, sem responder com
sinceridade porque de repente se sentiu envergonhado. Se
Marn soubesse o quanto ele era apegado quando criança —
seguindo o irmão para todo lado, chamando por ele sem parar,
às vezes levantando os braços para ser carregado, precisando
até dormir ao lado dele, guardando comida gostosa só para o
irmão — ele ficaria mortificado.
P’Nathi era dez anos mais velho que ele. Quando Than
tinha cinco, Nathi já tinha quinze, idade suficiente para cuidar
dele com facilidade. Ele o ensinou a ler, escrever, fazer a lição
de casa — tudo. Ele era praticamente um segundo pai.
Se Marn soubesse o quanto ele era apegado, ele com
certeza ficaria com vergonha. Agora que tinha crescido, ele
realmente não conseguia lidar com as pessoas desenterrando
aquelas histórias fofas de infância.
— Seu irmão é uma pessoa tão boa.
— Você está elogiando o P’Nathi de novo.
— Por que eu não poderia? Seu irmão é realmente ótimo.
Hum-hum, fala de novo.
— Que irritante.
— Ahhh...
Marn se contorceu. Ele não sabia por que esse amigo
gostava tanto de puxar suas bochechas. Sem conseguir
resistir mais, decidiu se vingar. Ele levantou a mão, agarrou a
bochecha de Than e a puxou para fora, do mesmo jeito que
Than sempre fazia com ele.
A bochecha de Than estava muito fria, provavelmente
porque ele tinha acabado de correr no vento gelado. Marn fez
um som abafado, ainda tentando revidar, embora de alguma
forma sempre sentisse que estava perdendo para Than.
Aqueles olhos o encaravam fixamente, sem hesitação, como se
Than estivesse secretamente satisfeito com algo. Marn
paralisou ao ver o leve movimento de um sorriso no canto da
boca de Than.
— Elogiar o P’Nathi te rende isso.
— Isso dói...
— Você fala demais.
— Hmm...
Than finalmente soltou o rosto de Marn, enfiando as duas
mãos nos bolsos da jaqueta para que Marn não percebesse o
quanto as pontas de seus dedos estavam tremendo. Ele tinha
sido ousado o suficiente para estender a mão e tocá-lo
diretamente, mas tudo o que ele sabia era que o Marn, naquele
momento, era incrivelmente tentador de beliscar.
O tempo frio tinha deixado as bochechas de Marn e a
ponta de seu nariz de um rosa rosado, insuportavelmente
fofos. Than não conseguiu resistir a estender a mão para
tocá-lo. Marn ficava dentro de casa o tempo todo e não tinha
saído muito — seu corpo estava quente. Than, que tinha
acabado de correr pela vizinhança no vento frio até suas mãos
ficarem congelando, quase quis guardar aquele calor para
sempre e não soltar mais.
Mas ele se forçou a parar. Caso contrário, se as
bochechas de Marn acabassem ficando roxas, o tio Karn com
certeza o acabaria com ele.
— As pessoas sempre elogiam o P’Nathi.
— Por quê? Você quer que eu te elogie no lugar dele?
— ... É.
— ...
— Me elogia.
Marn paralisou um pouco. Ele não tinha certeza se estava
imaginando, mas a voz de Than parecia mais suave do que o
normal. Seu rosto começou a ficar quente e frio ao mesmo
tempo, bem onde a mão de Than estivera. Marn pressionou os
lábios e virou o rosto para o lado, com os dedos dos pés se
mexendo inquietos.
Aquele sentimento estranho voltou novamente. Ele
realmente não conseguia olhar Than nos olhos agora.
Ele não era assim antes. Than costumava evitá-lo, agir de
forma fria com ele. Não importava quantas vezes Marn
tentasse se aproximar, nunca funcionava. Mas olhe para ele
agora — sempre beliscando bochechas, até mesmo puxando
para abraços antes. O comportamento dele tinha mudado
trezentos por cento!
— E aí?
— O quê?
— Estou esperando.
Marn hesitou. Than inclinou o ouvido para mais perto de
propósito. O sobrinho do dono da casa imediatamente se
afastou, levantando instintivamente as duas mãos para
empurrar o rosto de Than de volta antes de marchar
rapidamente direto para dentro de casa.
Se Marn tivesse se virado um pouco que fosse, teria visto
um sorriso fraco no rosto de alguém. Mas provavelmente era
melhor que não tivesse — caso contrário, o segredo em seu
coração poderia ter sido completamente exposto.
— P’Nathi! Than...
— Shh. Silêncio.
— ...
— O P’Karn está dormindo. Não faça barulho.
— Sim... não vou fazer barulho.
Marn aproximou-se na ponta dos pés. P’Nathi estava
agachado ao lado da cadeira comprida, que no momento
estava ocupada pelo dono da casa. O tio Karn dormia
profundamente, sua respiração quente era lenta e constante
enquanto ele se encolhia sob o cobertor. Ele parecia
profundamente relaxado e à vontade.
Nathi olhou para aquele rosto e sorriu levemente. Marn
achou estranho o quão feliz P’Nathi parecia, então perguntou a
ele diretamente.
— Seu tio tem insônia. Ele já tentou tratamento antes,
mas o problema vai e vem. Quando ele está estressado, piora...
às vezes ele não consegue dormir de jeito nenhum. Mesmo
agora, ele dorme muito pouco. À noite, não é que ele não
queira dormir, ele realmente não consegue. É por isso que ele
gosta de tirar cochilos durante o dia. Às vezes ele
simplesmente apaga enquanto está sentado. É raro seu tio
dormir tão profundamente assim.
— Ah... o tio Karn realmente gosta de tirar cochilos
durante o dia. A condição dele é muito séria, P’Nathi?
— Hum. Bem séria, na verdade. Mas está muito melhor
agora do que costumava ser...
Nathi falou suavemente, estendendo a mão para ajustar o
cobertor com cuidado. Ver o homem mais velho dormindo de
forma tão pacífica o fazia se sentir à vontade também. Quanto
ao quão ruim tinha sido antes... ele realmente não queria falar
sobre isso. Não era apenas a insônia que Karn tinha que
enfrentar. Havia muito mais — coisas que foram incrivelmente
difíceis de superar para chegar onde ele estava hoje.
— Marn, o tio Karn já comeu e tomou o remédio?
— Ele comeu dois ovos cozidos esta manhã. Só um pouco,
depois veio deitar aqui e assistir TV. Depois disso, ele caiu no
sono como você está vendo agora.
— Um lanche tão pequeno para tanta energia, esse P’Karn
— Nathi riu baixinho.
Ele deixou o verdadeiro dono da casa dormindo e foi para
a cozinha, cuidando de tudo como se fosse outro dono da casa.
Marn não pôde deixar de se perguntar o quão próximo esse
professor era de seu tio. Para alguém tão protetor de seu
espaço pessoal como o tio Karn, permitir que o P’Nathi se
movesse pela casa com tanta liberdade não era pouca coisa.
Embora Marn tivesse aberto a porta para ele desta vez,
houve muitas ocasiões em que Marn desceu as escadas e
inesperadamente deu de cara com o irmão mais velho de
Than, completamente confuso sobre como alguém daquela
casa tinha ido parar nesta casa.
Marn deu um passo à frente e observou enquanto P’Nathi
dobrava as mangas de sua jaqueta esportiva, preparando-se
para cozinhar para o tio. Ele lidava com tudo com a facilidade
de quem fazia isso com frequência. Marn bateu as mãos
levemente, soltando um pequeno "uau" ao perceber que esse
professor jovem e versátil — bonito, gentil e ex-atleta —
também era um excelente cozinheiro.
— Isso é incrível.
— Haha, você gosta mesmo de dizer essa palavra, não é?
— Eu não sei de que outra forma elogiar as pessoas, então
sempre uso "incrível". Mas o P’Nathi é realmente incrível.
Acabei de descobrir que você é tão bom na cozinha.
— Com certeza. Nesse nível, é apenas adequado para o
irmão mais velho que criou o caçula, não é, Than?
Than, que os havia seguido para dentro e parado por
perto, revirou os olhos para o teto. Ele se sentia
completamente irritado com a confiança de seu irmão — e
secretamente um pouco incomodado por Marn estar olhando
para o irmão com tanta admiração.
— Eu queria conseguir cozinhar tão bem assim também.
Por onde eu deveria começar a praticar?
— Você precisa de motivação.
— Hm... então qual é a sua motivação, P'Nathi?
— Alguém especial. Eu me dediquei querendo ficar na
cozinha por essa pessoa para sempre.
— O P'Nathi já tem um parceiro?!
— Haha, Marn!
Os olhos de Marn se arregalaram em choque. Ele nunca
imaginou que P'Nathi já tivesse alguém em seu coração.
P'Nathi nunca tinha falado sobre sua vida amorosa, então
Marn não sabia. Ainda assim, fazia sentido que alguém tão
perfeito quanto ele naturalmente já estivesse comprometido.
Ele não pôde deixar de se perguntar como era o parceiro de
P'Nathi, qual era a aparência dele, já que nunca tinha visto
P'Nathi trazer ninguém por perto. Talvez morassem longe e não
conseguissem se encontrar com frequência?
Nathi se virou para olhar para Marn novamente. O jovem
de dezoito anos inclinou a cabeça com curiosidade,
claramente muito interessado no tópico da pessoa no coração
dele.
— O que te deixa curioso?
— Bem... o P'Nathi tem um parceiro, mas e o tio Karn? Ele
tem um? Eu acho que não, na verdade. Nunca vi ninguém
antes. E o tio Karn parece alguém que prefere ficar sozinho.
Talvez... meu tio simplesmente não esteja interessado em
amor.
— Agora que você fez dezoito anos, está começando a se
interessar por amor, Marn?
— M-Marn... n-nem um pouco! Eu só estava
perguntando.
Nathi sorriu de leve, olhando de soslaio para outra pessoa
que estava parada ali, de braços cruzados e em silêncio.
Mesmo com aquela expressão vazia, não era difícil adivinhar
que o peito do rapaz provavelmente estava em turbulência. Ver
isso só o fazia querer provocar mais.
Than não era o irmãozinho doce que costumava ser.
Agora ele era todo legal e reservado, crescido demais para agir
de forma infantil. Quando seu irmão o provocava, mesmo que
um pouco, ele ignorava, recusava-se a entrar na brincadeira e
simplesmente se virava. Ele tinha se tornado um lobo solitário.
— E quanto a você, Marn? Já teve algum parceiro? Na sua
idade, os adolescentes geralmente já começam a ter
quedinhas. Tem alguém chamando sua atenção?
— Eu nunca tive. E com a minha doença, é meio... bom.
Eu não acho que alguém gostaria de ser meu parceiro.
— Sério?
— Sim. Eu não acho que estou pronto para um
relacionamento agora. Mesmo que eu tivesse um, não teria
tempo para eles. Tenho que correr para casa todos os dias
para ajudar o tio Karn. Ninguém suportaria isso.
— Você fala como um adulto trabalhador que não tem
tempo para um parceiro.
— Hehe.
— Você não é nada parecido com o Than. Sabe, o Than...
— Cala a boca!
A voz cortante de Than interrompeu imediatamente. Marn
olhou de um lado para o outro entre os dois irmãos. Parecia
que P'Nathi estava prestes a dizer algo, mas Than de repente
lançou um olhar mortal para ele e mandou que ficasse quieto.
Em vez de obedecer, seu irmão apenas sorriu maliciosamente
e continuou falando, ignorando completamente o olhar furioso
do irmão.
— O Than tem toneladas de garotas interessadas nele.
Não deixe a aparência dele te enganar, ele é popular desde
criança. Um jovem nadador como ele? Todo mundo gosta
disso.
— Isso não é verdade.
— É verdade mesmo, P'Nathi?
— Você pode parar de dar ouvidos a ele?
— O Than tem muitos parceiros?
— Eu nunca tive nenhum.
— Eu perguntei para o P'Nathi.
— Então por que perguntar para ele? Apenas pergunte
para mim.
— Se eu te perguntar, você não vai me dizer. Não sei por
que você sempre guarda as coisas para si mesmo.
— Marn.
Olhe para ele agora — Than abriu a boca, pronto para
explicar tudo, mas ainda assim lançou um olhar fulminante
ao irmão. Se isso continuasse, Nathi tinha certeza de que seria
severamente punido assim que chegassem em casa. Ser
exposto dessa forma na frente de Marn deve tê-lo deixado
inquieto.
Ainda assim, Than estava dizendo a verdade — ele nunca
teve um parceiro, nunca trouxe ninguém para casa para
conhecer os pais. Mas ele tinha que admitir, muita gente se
aproximava dele. Nathi ensinava naquela escola há dois ou
três anos e já tinha ouvido muitas fofocas. Seu irmão mais
novo era charmoso o suficiente para que muitas pessoas
gostassem dele secretamente. Mas assim que conheciam a
personalidade dele, ninguém ia além.
Ele era arrogante, frio, extremamente reservado, difícil de
decifrar — um verdadeiro lobo solitário que nunca se juntava a
nenhuma alcateia. Ele desaparecia sozinho sem avisar
ninguém. Como alguém conseguiria encontrar a chance de
confessar seus sentimentos para alguém assim?
— Se o Than tem muita gente que gosta dele, então o
P'Nathi deve ser igual. Naquela época, você provavelmente
tinha toneladas de parceiros também. Eu vi vídeos antigos
seus, você era muito bonito.
— Haha, isso é normal. Mas eu sou fiel, sabe. Naquela
época eu não ficava de brincadeira. Só existia uma pessoa.
— Que irritante...
— Than, por que você sempre reclama do seu próprio
irmão?
Depois que Marn o repreendeu levemente, o irmão mais
novo de P'Nathi apertou os lábios, com o rosto franzido. As
pontas dos seus dedos se moviam sem parar, claramente
irritado. Ele provavelmente odiava ter seu passado trazido à
tona, sendo atacado enquanto seu irmão recebia elogios sem
parar. Estava tudo escrito em seu rosto — ele não conseguia
esconder nada, esse pequeno tubarão.
— Oh... olha, Marn. Ele está todo emburrado agora.
— O Than está fazendo bico.
— Eu não estou fazendo bico.
— Ele está mesmo fazendo bico, P'Nathi. Antes de eu me
tornar amigo dele, tentei de tudo para me aproximar: trazia
lanches, convidava para sentar comigo, até me forçava no
espaço dele quando ele não queria me ver. Eu tentava falar
com ele o tempo todo. Mas o Than sempre fugia e não brincava
comigo. Ultimamente, porém, se eu não fizer as vontades dele
nem que seja um pouco, ele começa a emburrar.
— Huh... o Than era mesmo tão difícil assim?
— Já chega. Podemos parar de falar sobre isso agora?
— Vamos parar, então.
Nathi finalmente encerrou o assunto.
— Ei, pare de perguntar para ele. Dê um passo para trás e
fique parado aqui.
Than implorou a Marn para parar de cavar informações
através de Nathi.
— Eu só quero saber um pouco sobre o Than. Sempre que
eu pergunto para ele, ele nunca me responde.
— Por que você é tão curioso?
— Eu só estou perguntando. Não tenho permissão para
ser curioso?
Nathi sentiu como se tivesse acabado, de alguma forma,
no lugar errado na hora errada. Não era que ele não
entendesse — ele mesmo já tinha passado pela adolescência.
Aquele desejo de conversar por muito tempo com a pessoa
de quem se gosta, aquele primeiro amor inocente e vibrante...
olhando para trás, ele também tinha feito algumas coisas
embaraçosas. Mas ele sempre teve a cara de pau, vivendo pelo
lema de que a sem-vergonhice vence a vergonha.
O jeito reservado e consciente de Than não era nada em
comparação. Se Marn algum dia descobrisse que seu
professor já tinha sido um paquerador habilidoso —
galanteador, grudento, entrando de mansinho nos corações —
Marn provavelmente ficaria tão chocado que perderia a fala.
Era melhor que Than não seguisse os passos do irmão. Caso
contrário, Nathi não suportaria ver reflexos do seu antigo eu
novamente. Era realmente constrangedor demais.
— Parece que o Marn quer ser um bom garoto até a
formatura. Você não quer um parceiro, certo?
— Bem... talvez. Não tenho certeza se o tio Karn ficaria
bem com isso se eu tivesse um. Ele já se preocupa que eu
possa me desviar do caminho. Não quero deixá-lo ansioso.
Suspiro.
— Se eu tivesse um irmão mais novo que se importasse
tanto comigo assim, seria legal.
Than lançou-lhe um olhar afiado imediatamente, irritado
o suficiente para soltar um bufo audível. Vendo isso, Marn se
aproximou e esfregou suavemente o braço de Than para
acalmá-lo. Olhe só para ele — seu rosto estava todo franzido
em um bico.
— Than, você deveria mostrar mais ao P'Nathi que você o
ama. O P'Nathi já está se sentindo magoado.
— Escute o Marn, irmãozinho — disse Nathi, mal
contendo o riso enquanto seus ombros tremiam.
Ver a expressão irritada de seu irmão só o fazia querer
provocá-lo ainda mais. Como estavam na frente de Marn,
Than não podia exatamente explodir.
— P'Nathi, eu acho que o Than realmente ama e se
preocupa muito com você. Ele só não é muito bom em
demonstrar. Por favor, não fique chateado com ele.
— O que ele deveria demonstrar? Não sou alguém de
quem ele gosta tanto a ponto de ter que me seguir por todo
lado — ei! Não faça isso! Estou cozinhando aqui!
— Than, pare com isso agora. Isso é perigoso. O óleo pode
espirrar no braço do P'Nathi — não faça isso!
Marn o alertou apressadamente quando Than de repente
pareceu que ia agarrar o irmão, causando uma breve confusão
na cozinha. Marn soltou um suspiro baixo de alívio. Por um
momento ali, ele pensou que eles fariam tanto barulho que o
tio Karn acordaria.
— Mas, hum... o Than já tem alguém de quem gosta?
Marn se virou e fez a pergunta diretamente. Nathi
segurou o fôlego. Ele estava morrendo de vontade de saber
como seu irmãozinho problemático responderia a essa.
— Por que você quer saber?
— Bem... porque eu sou curioso.
— E se eu não te contar?
— Então não conte. Eu estava apenas curioso, só isso.
— ...
— Than, você realmente tem alguém de quem gosta?
Nossa.
O irmão mais velho cobriu a boca, rindo baixinho para si
mesmo. Assistir Than perder a compostura dessa forma —
como isso podia ser tão engraçado? Ele nunca teria pensado
que seu irmãozinho habitualmente frio e arrogante se tornaria
tão diferente na frente do amigo. Marn inclinou a cabeça,
perguntando com aqueles olhos inocentes e sinceros. Ser
encarado daquele jeito era demais.
O pequeno tubarão de P'Nathi não aguentou mais e
levantou a mão para empurrar gentilmente o rosto de Marn
para longe. Marn inflou os lábios em um pequeno bico, sem
entender por que o amigo não lhe contava. O que ele não sabia
era que, se Than não o tivesse empurrado naquele momento,
suas pernas teriam fraquejado e ele provavelmente teria
desabado ali mesmo.
Nathi continuou cozinhando por mais um tempo até que
tudo ficasse pronto. Ele desligou o fogão, limpou os utensílios
e guardou tudo de forma organizada. Onde quer que houvesse
gotas de água, ele as secava. Parecia que P'Nathi entendia os
hábitos do tio Karn ainda melhor do que Marn — ele
provavelmente sabia que, se Karn acordasse com a cozinha
bagunçada, com certeza levaria uma bronca.
— Ah, eu achei que você fosse acordar o tio Karn para
comer, P'Nathi.
— Você disse que ele acabou de dormir, certo? Ele
provavelmente vai acordar em cerca de duas horas. Ele não
consegue dormir por muito tempo durante o dia de qualquer
maneira. Quando ele acordar, diga a ele para comer.
— Mas ele está dormindo tão profundamente... ele vai
mesmo acordar em duas horas?
— Mm, provavelmente. Ou se demorar mais, deixo para
você esquentar a comida que eu fiz. Quando terminar, não
esqueça de colocar no armário de comida. Quando seu tio
acordar, ele pode simplesmente tirar e comer.
— Muito obrigado, P'Nathi.
— Mm. Não foi nada.
Nathi sorriu de leve e caminhou de volta para a frente. O
verdadeiro dono da casa ainda estava deitado ali,
completamente alheio ao fato de que seu lar havia sido
invadido. Ao ver um dos braços de P'Karn pendurado para
fora, Nathi imaginou que ele devia estar dormindo
desconfortável, então ajustou gentilmente sua posição e o
cobriu com a manta novamente. Ele foi muito cuidadoso para
não acordá-lo, querendo que ele descansasse adequadamente.
Era raro ver P'Karn dormindo tão profundamente assim. Com
a chegada do tempo frio, a brisa fresca provavelmente o deixou
com preguiça de se mexer.
— Estou indo agora, Marn. Não esqueça de avisar seu tio
sobre a comida no armário.
— Sim, senhor. Obrigado novamente por ter vindo.
— Na verdade, você não precisa me agradecer.
— ...
— Eu fiz porque eu quis.
Quase duas horas se passaram antes que o dono da casa
finalmente começasse a se mexer. Marn desviou os olhos de
seu livro didático, que estava revisando casualmente após
terminar todo o trabalho doméstico, e observou enquanto seu
tio se sentava. Os olhos do tio Karn estavam semicerrados,
sua expressão ainda claramente sonolenta. Seu cabelo preto
estava completamente bagunçado enquanto ele esfregava os
olhos com preguiça.
Marn olhou para as horas, impressionado com a precisão
com que P'Nathi tinha previsto. Ele estava certo — depois de
duas horas, o tio Karn realmente acordou. Quanto mais
pensava sobre isso, mais impressionado ficava. Aquele
professor era realmente incrível.
— Tio Karn, enquanto você estava dormindo, o P'Nathi
veio e cozinhou para você. Ele disse que, quando você
acordasse, deveria ir comer.
— Hmm.
— Está no armário de comida.
— Hmm.
O tio Karn se levantou e cambaleou até a cozinha. Marn
ouviu um barulho fraco e presumiu que seu tio estava
procurando algo para comer. Ele se levantou e seguiu
silenciosamente, caso seu tio não encontrasse e precisasse de
ajuda.
O que ele viu foi o tio Karn colocando arroz na boca,
mastigando devagar, com o rosto ainda pesado de sono.
Marn caminhou até lá e sentou-se na cadeira vazia,
contando ao tio o que P'Nathi e seu irmão mais novo tinham
feito enquanto ele dormia — querendo relatar primeiro, caso
seu tio ficasse desconfortável por ele ter deixado outras
pessoas entrarem na casa sem perguntar.
Mas o tio Karn não disse nada — até que Marn chegou na
parte em que eles falaram sobre parceiros. Então ele
subitamente pousou a colher e se virou para olhá-lo.
— O que ele disse?
— Ele disse que tem alguém para quem ele quer cozinhar
para sempre. Essa é a motivação dele para ser tão bom na
cozinha.
— Será que a boca dele não tem freio ou algo assim...
— O que você disse, tio Karn?
— Nada.
— Foi só isso, na verdade. Depois que terminou de
cozinhar, o P'Nathi foi para casa.
— Hmm. Da próxima vez que ele falar bobagens, não dê
corda para a conversa. Entendeu? Especialmente sobre amor.
Não pergunte nada a ele sobre isso.
— Huh? Por quê?
— Se eu digo para não perguntar, então não pergunte.
Além disso, ele é professor na sua escola. Como você pode sair
conversando com ele sobre amor e romance?
— Então eu deveria perguntar para você, tio Karn?
— M...
— Não se preocupe, tio Karn. No momento, não estou
pensando nesse tipo de coisa com ninguém.
Marn acenou com as duas mãos honestamente em
negação. O tio Karn finalmente pareceu um pouco mais
relaxado e não perguntou mais nada, continuando
calmamente sua refeição enquanto seu sobrinho voltava para
fora.
Marn sentou-se encarando seu livro. Embora devesse ser
capaz de ler calmamente, sua concentração não parava nas
páginas de jeito nenhum. Havia algo preso em sua mente que
ele simplesmente não conseguia afastar. No fim, ele não
aguentou mais e encostou-se contra o livro, ficando deitado ali
mesmo. Ele inclinou o rosto ligeiramente, observando
distraidamente o lado de fora da casa, e soltou um longo
suspiro.
Ele tinha acabado de completar dezoito anos e esse
sentimento inquieto já tinha vindo cumprimentá-lo.
“... O Than realmente tem alguém de quem gosta?”
32
— Vamos, me deixa ver direito.
— Aqui, pega logo, seu fofoqueiro.
— Caramba!
— Isso é incrível, Ryu!
Um burburinho de animação surgiu do grupo de Marn.
Alguns alunos se viraram para olhar com interesse. A essa
hora da manhã, os estudantes se reuniam gradualmente em
vários pontos da escola, esperando para entrar na fila para a
cerimônia da bandeira. O grupo de Marn, é claro, estava
sentado junto na mesa de pedra com tampo de mármore de
sempre. Eles se amontoaram ao redor do celular de Ryu,
empolgados e animados após ouvirem a notícia de que o
trabalho artístico de Ryu havia lhe rendido reconhecimento.
Era difícil acreditar que Ryu tinha se tornado o campeão
do Concurso de Jovens Artistas. E depois de verem sua obra,
ninguém podia contestar — Ryu realmente merecia o prêmio.
Marn ficou boquiaberto. Ele nunca tinha visto Ryu mostrar
suas habilidades seriamente antes. Esta era a primeira vez
que ele via uma peça na qual Ryu tinha colocado tanta
dedicação. Mesmo quando Ryu rabiscava casualmente na
aula, seus desenhos já eram bonitos. Agora que ele tinha se
isolado na casa de Ying por quase uma semana para trabalhar
nisso, como não ficaria deslumbrante?
Todos se perguntavam como Ryu podia ser tão talentoso.
Ryu sorriu de leve antes de explicar que, na verdade, se
interessava por desenho desde criança. Na época em que seus
pais ainda estavam juntos, sua mãe sempre apoiou essa
habilidade. Ela o levava para aulas de arte, comprava tintas e
materiais e, nos feriados, o levava a exposições para ampliar
seus horizontes e expandir a imaginação de uma criança além
dos limites.
Mas depois que sua mãe se divorciou de seu pai, Ryu e ela
raramente passavam tempo juntos. Agora que ela tinha uma
nova família e um novo filho para cuidar, provavelmente
pensava que Ryu já estava crescido — um estudante do ensino
médio que logo entraria em uma boa faculdade. Entre um filho
já crescido e uma criança de apenas alguns anos, era óbvio
quem receberia mais atenção. Ryu se sentia magoado? Um
pouco. Mas ele tinha que aceitar a realidade de que sua mãe
não fazia mais parte da mesma família que ele.
Mesmo assim, ele ainda amava e respeitava sua mãe,
sempre esperando por outra chance de vê-la novamente.
— Eu na verdade desenho o tempo todo — disse Ryu. —
Só nunca mostrei em lugar nenhum.
— Sério?
— É. Tenho vários cadernos de desenho empilhados em
casa. Se vocês quiserem ver, eu trago alguns outro dia.
— Você é incrível. Parabéns, Ryu.
— Hmm, valeu.
Ryu assentiu em resposta aos elogios no exato momento
em que o sinal da manhã tocou, indicando que era hora de
seguir para as atividades no pátio da bandeira. O grupo parou
de falar sobre sua obra e caminhou em direção ao pátio aberto.
Ryu os seguiu logo atrás.
Embora ainda houvesse um leve sorriso em seu rosto,
seus olhos pareciam profundamente nublados. Seus
pensamentos voltaram para o que tinha acontecido naquela
manhã, antes de sair de casa. Por mais de um mês, Ryu
guardou a vitória para si, sem dizer uma única palavra a
ninguém em casa. E depois daquele incidente, a distância
entre ele e seu pai só aumentou.
Ryu ainda morava na mesma casa, junto com seu pai e a
tia que era governanta. Mas ele podia sentir o quanto seu pai
estava tentando evitá-lo. Alguns dias, seu pai nem sequer
voltava para casa para dormir, dizendo que estava ocupado
com o trabalho e precisava ficar em seu apartamento na
cidade. Por três ou quatro dias seguidos, Ryu teve que se
sentar e fazer suas refeições sozinho. A casa inteira parecia
vazia e desolada, preenchendo-o com uma profunda sensação
de solidão.
Ele sabia o quão culpado seu pai se sentia. Seu pai estava
envergonhado, não ousava encará-lo, não ousava dizer mais
nada de duro para ele. Às vezes, até palavras comuns eram
cuidadosamente pesadas, por medo de que pudessem
machucar Ryu e fazê-lo recair em seu estado anterior. Depois
de saber que seu filho tinha um problema de saúde mental,
seu pai tentou encontrar maneiras de tratar isso — enviando
Ryu para ver um psiquiatra todo mês, permitindo que seus
amigos fossem à sua casa, não proibindo mais nada. Todas as
suas aulas de reforço depois da escola foram canceladas. Ryu
não precisava mais correr da escola para o cursinho, não
precisava mais ficar sentado congelando naquelas salas
intensamente iluminadas.
Era como se... seu pai estivesse devolvendo a liberdade a
Ryu, para compensar todos os erros do passado. Como Ryu
poderia não saber o quanto seu pai o amava? Era apenas que o
amor entre eles tinha sido completamente enterrado sob
expectativas. Ryu sabia que tudo o que seu pai o forçou a fazer
vinha do desejo de que ele tivesse um bom futuro, uma
carreira estável, para que não tivesse que lutar na vida mais
tarde. Seu pai trabalhava duro todos os dias apenas por seu
[Link] sabia o quão privilegiado ele era. Dinheiro nunca foi
um problema para ele. Se seu pai achasse que algo seria
benéfico, não importava o custo, ele nunca reclamaria. Mas,
por outro lado... não importava o quanto Ryu quisesse algo, se
seu pai não visse valor nisso, ele nunca apoiaria e rejeitaria na
hora.
Se perguntassem se Ryu amava o pai, é claro que sim. Ele
o amava muito. Mas o amor de seu pai o machucou por tempo
demais. Ryu não achava que conseguiria amar seu pai mais do
que isso. O que tinha acontecido estava profundamente
gravado em seu coração, afetando cada pensamento e cada
ação. Ryu tinha se tornado alguém que não conseguia tolerar
nem pequenas decepções. O menor erro o fazia entrar em uma
espiral negativa, pensando demais e se culpando até não
conseguir fazer absolutamente nada.
Essa era uma vida que Ryu nunca quis — nem um pouco.
Era insuportavelmente doloroso para um garoto de dezessete
anos. Ele nem sequer ousava se dar a chance de tentar e
falhar.
Esta manhã, Ryu desceu do andar superior da casa e
hesitou um pouco ao ver que seu pai tinha acabado de chegar.
Em uma hora tão cedo, seu pai deve ter dirigido direto da
empresa. Levaria pelo menos uma hora para chegar em casa, o
que significava que ele estava na estrada desde antes do
amanhecer. No fundo, Ryu se sentiu um pouco preocupado.
Seu pai tinha quase cinquenta anos — dirigir à noite daquele
jeito era perigoso.
Os dois mal se olharam. Seu pai parecia exausto e
desgastado, e Ryu não pôde deixar de se preocupar. Seu pai
tentou evitar seu olhar, não disse nada e passou em silêncio.
Reunindo coragem, Ryu falou sobre o resultado do concurso.
— Pai...
— Minha pintura ganhou o primeiro lugar.
— ...
— Eu não quero o prêmio. Não quero elogios. Só queria te
contar.
— ...
— Caso o senhor sinta orgulho disso... como eu estou
sentindo agora.
— ...
— Eu nunca me senti tão valioso antes... até ver meu
nome naquela lista. Eu já passei em tantos exames
competitivos, mas nunca fiquei tão feliz assim.
— ...
— Porque aquelas coisas nunca foram o meu lugar... isso
aqui é o que eu estive esperando o tempo todo.
— ...
— O senhor não precisa ter orgulho, pai. Mas eu quero
que saiba que, agora, eu estou incrivelmente orgulhoso de
mim mesmo.
Seu pai parou e ficou imóvel, ouvindo cada palavra — mas
não respondeu nada. Quando Ryu terminou, seu pai
caminhou lentamente para o quarto, deixando Ryu tomando
café sozinho e se preparando para a escola.
Após a assembleia da manhã, os alunos começaram a ir
para suas salas de aula. Ryu sentiu o celular vibrar forte no
bolso e o tirou. Era uma mensagem da tia governanta. Ele
franziu a testa levemente, confuso, imaginando por que ela
estava entrando em contato com ele. Talvez algo urgente
tivesse acontecido em casa ou talvez ele tivesse esquecido algo
importante.
Tia: Ryu, querido.
Tia: Acho que seu pai ia querer que você visse isto.
Ryu apertou os lábios levemente antes de abrir a foto que
ela enviou. Parecia ser um flagra de seu pai sentado sozinho à
mesa de jantar, segurando o celular. No início, Ryu não
entendeu o que estava na tela — até que a governanta explicou
que era o resultado do concurso de arte que Ryu tinha
acabado de vencer.
O que seu pai estava olhando era a própria obra de arte
que Ryu havia enviado. Ela disse que ele já estava sentado lá
daquele jeito por quase dez minutos.
Ryu não sabia o que dizer. Um momento depois, a tia
governanta enviou outro pequeno vídeo. Tinha apenas alguns
segundos de duração, mas o que ele viu ficaria gravado na
memória de Ryu por muito tempo...
Seu pai estava encarando a pintura no celular. Ele
pressionou os lábios trêmulos enquanto lágrimas escorriam
de ambos os olhos. Em menos de dez segundos, ele largou o
celular e levou a mão ao rosto para cobri-lo. Ryu ouviu o som
de um soluço pouco antes de o vídeo terminar.
Agora, os olhos do filho estavam vermelhos e ardendo.
Ryu tentou com todas as suas forças segurar as lágrimas.
Tia: Seu pai está orgulhoso de você, Ryu.
Tia: Ele viu seu esforço o tempo todo. É que, antes, ele se
importava demais com as próprias expectativas.
Tia: Ele mudou de verdade... eu não espero que você o
perdoe, mas obrigada por dar a ele a chance de ser pai
novamente.
Tia: Agora é a vez dele de tentar pelo filho.
Ryu não respondeu. Ele pensou que a tia entenderia o que
significava quando alguém lê uma mensagem, mas não
responde.
Os amigos do grupo começaram a notar que algo estava
errado quando Ryu parou de andar de repente. Ying se virou
para olhá-lo e, quando viu as lágrimas escorrendo pelo rosto
dele, correu imediatamente e o abraçou apertado. Mesmo sem
saber o que tinha acontecido, ela estava pronta para ficar ao
lado dele e confortá-lo daquela forma.
Os outros fizeram o mesmo. Hem, Than e Marn
caminharam rapidamente e o envolveram em um abraço
também. As pessoas que passavam só podiam se perguntar
por que aqueles alunos estavam ali parados, abraçados em
um círculo apertado, mas eles não se importavam com aqueles
olhares ou pensamentos. Neste momento, a única coisa que
importava eram os sentimentos de Ryu.
Ryu fechou os olhos e tentou sorrir através das lágrimas.
Pensar no que a governanta lhe enviara enchia seu peito com
emoções que ele não conseguia colocar em palavras.
Talvez esta fosse a primeira vez que seu pai finalmente se
sentia orgulhoso de algo que Ryu tinha feito. Finalmente, o
talento de Ryu foi o suficiente para ganhar elogios de seu pai.
Ele estava com raiva do que seu pai tinha feito no
passado? É claro que estava com raiva e profundamente
magoado. Mas, mais do que isso, ele tinha se sentido
desvalorizado. Não importa o quanto tentasse, seu pai nunca
tinha visto seu valor, nunca tinha visto sua importância. Hoje,
seu pai finalmente cedeu à persistência de Ryu.
Ryu talvez conseguisse perdoá-lo, mas não podia
prometer que seria capaz de amar seu pai mais do que antes.
O que ele tinha passado era simplesmente pesado demais.
Se seu pai realmente quisesse curar Ryu — nenhum
médico, nenhum amigo, nenhum sucesso ou dinheiro jamais
poderia curar a ferida em seu coração. A única coisa que
poderia ajudar era a mudança: mostrar a Ryu amor e calor
humano reais, o máximo que ele pudesse.
Tudo o que Ryu podia fazer era esperar que algum dia...
ele pudesse finalmente experimentar como era o sentimento
de uma família de verdade.
Biip!
— Ei!
Um grito alto de comemoração ecoou do ginásio da escola.
Marn imediatamente largou a caneta e olhou pela janela. Lá
embaixo, o lugar estava excepcionalmente animado. Esta era a
temporada que muitos alunos estavam esperando: o festival
anual do Dia de Esportes.
Embora esta não fosse uma escola grande com milhares
de alunos, eles se dedicavam totalmente e se recusavam a ficar
atrás de ninguém. O Dia de Esportes propriamente dito estava
marcado para meados de dezembro. As duas ou três semanas
que antecediam o evento eram cheias de competições
esportivas e de atletismo — uma oportunidade de ouro para os
alunos que amam atividades ao ar livre. No grupo de Marn,
Hem e Ying estavam competindo em quase todos os eventos.
Aqueles dois podiam praticar praticamente qualquer esporte.
Marn só conseguia ficar boquiaberto de espanto quando
descobria em quantos eventos seus amigos tinham se inscrito.
A escola era dividida em três times: vermelho, amarelo e
azul — incluindo as crianças do ensino fundamental e do
jardim de infância. A escola apoiava o evento de todo o
coração. Quando souberam o quão ansiosos os alunos
estavam para competir, anunciaram períodos de aula mais
curtos — cada aula reduzida em cerca de quinze minutos para
deixar mais tempo para treinos e competições.
Era por isso que Marn estava sentado sozinho na sala de
aula agora, enquanto seus amigos estavam todos lá embaixo
se divertindo. Não era que eles não o tivessem convidado —
Marn simplesmente não era nada bom em esportes. E ele
queria usar esse tempo para terminar o dever de casa, para
poder ir para casa cedo e ajudar o tio Karn a vender leite de
soja. No inverno, sua barraca de bebidas quentes vendia
incrivelmente bem, muitas vezes esgotando tudo todos os dias.
Com o vento frio soprando de manhã e à noite, todos queriam
algo quente no estômago.
Esse era o motivo secundário. O motivo real? Ainda havia
muitas pessoas em seu time que não queriam que Marn
participasse das atividades. Mas tanto faz. Ser assim era
pacífico — sem caos, sem obrigações. E ele podia correr para
casa para ajudar na barraca de leite de soja.
Marn apoiou o queixo na mão, olhando pela janela, e
depois fechou os olhos para aproveitar a brisa fresca. Ele
conseguia ouvir a torcida vinda de baixo, embora não
soubesse quais eventos estavam acontecendo. Se terminasse o
dever de casa a tempo, planejava ir dar uma olhada. Era
apenas uma pena que sua saúde não permitisse que ele
praticasse muitos esportes. Se ele se machucasse — mesmo
um arranhão feio o suficiente para sangrar — seria um
problema sério.
Será que ele realmente passaria a vida inteira apenas
sentado e vendo as outras pessoas saírem e viverem de
verdade...?
— Ah... Than!
Marn deu um leve sobressalto quando algo frio tocou sua
bochecha. Quando se virou, viu um rosto familiar de seu
grupo. Than estava vestindo uma jaqueta esportiva preta,
parecendo descolado sem nenhum esforço. Marn olhou para a
origem do frio — era uma garrafa de suco de frutas da cantina
da escola. Than também tinha uma bebida, mas a dele era um
isotônico esportivo. Ele abriu a tampa e deu alguns goles,
fingindo olhar pela janela antes de voltar lentamente o olhar
para Marn.
— Você não tem nenhuma competição, Than?
— Não.
— Eu estava pensando em descer para assistir depois que
terminar o dever de casa. Não sei se a Ying e o Hem já
competiram.
— O Hem acabou de jogar petanca. Agora ele vai ver a
Ying jogar vôlei.
— Sério? O Hem ganhou?
— Sim. Ele vai enfrentar o time azul na próxima rodada.
— Que demais!
— Mas você é do time azul, não é? Por que está torcendo
pelo amarelo?
— Mas o Hem é nosso amigo. É claro que eu tenho que
torcer por ele.
— Você acha que ser chorão assim te deixa fofo?
— O quê?
— ... Nada.
— O que foi, Than? Fiquei confuso.
— Não é nada.
— Você vai para casa agora ou vai continuar assistindo?
— Vou para o treino de natação.
— Nesse frio?
— Não está frio.
— É claro que você diria isso, você é uma foca.
— Olha como fala. Quem é uma foca?
— Você. Ei, onde você vai levar isso?
— Vou levar de volta.
Marn fez biquinho. Than realmente não gostava de ser
chamado de foca. Apenas esse apelido foi o suficiente para ele
tentar pegar o suco de volta. Marn abriu a garrafa
rapidamente e deu um gole antes que Than pudesse tomá-la
de volta, enquanto a outra mão de Marn enfiava o dinheiro da
bebida no bolso. Mas Than balançou a cabeça e se recusou a
aceitar.
Marn franziu a testa, confuso, então colocou a garrafa de
lado e tentou empurrar o dinheiro na mão de Than. Só que
Than estava sendo irritantemente brincalhão; ele fechou o
punho com força e ficou observando Marn lutar para abrir
seus dedos, bufando baixinho enquanto tentava. Depois de
vários minutos, Marn não aguentou mais e estufou as
bochechas, frustrado.
Than quase não conseguiu segurar o sorriso. Com medo
de perder o controle totalmente, ele cutucou a testa de Marn
com um dedo para afastá-lo. Marn deu um ganido baixo e
ameaçou contar tudo para o Nathi. Como se o Than tivesse
medo do irmão dele. O tio Karn, por outro lado, era outra
história. Ele era assustador de verdade. Não era à toa que ele
conseguia manter o irmão mais velho na linha por mais de dez
anos.
— Você está sempre torcendo pelos outros.
— Do que você está falando agora?
— Eu nunca vejo você torcendo por mim.
Marn piscou, totalmente confuso com o comportamento
do amigo. Than resmungou algo consigo mesmo e depois
apoiou o queixo na mesa, virando o rosto para o outro lado.
Marn esticou o braço e cutucou a bochecha de Than de leve
algumas vezes. Than nem reagiu.
O que deu no irmãozinho comportado do Nathi agora?
— O Than está fazendo manha.
— ...
— Mas você nem tem competição de natação hoje. E
daquela vez, quando você competiu, o professor me chamou
para longe, então não pude ir. Provas de natação acabam
muito rápido. Quando cheguei lá, todo mundo já tinha ido
embora.
Marn explicou honestamente. Além dos esportes
terrestres, a escola também realizava competições aquáticas,
usando a piscina do próprio colégio. Para competir na
natação, era preciso ser bem habilidoso; a maioria dos
participantes era do clube de natação. Marn tinha ouvido falar
que a competição acontecia todo ano. No passado, o título de
campeão alternava entre pessoas diferentes, mas nos últimos
dois anos, a mesma pessoa mantinha o recorde. Isso
significava que ele devia ser incrivelmente bom.
Este ano era a primeira vez do Than competindo. Marn só
sabia que o Than tinha vencido a primeira rodada, mas como
Marn não tinha ido assistir, surgiram boatos de que o Than ia
desistir de tudo. Isso causou um belo alvoroço; o Nathi teve até
que ir procurar o Marn e conversar com ele por um tempão.
Por que ele era tão teimoso, afinal?
— Você está mesmo bravo porque eu não fui torcer por
você aquela vez? Ainda está chateado comigo? — Marn
perguntou com a voz mais mansa. Ele se virou para olhar
diretamente para Than.
Os olhares se cruzaram, e provavelmente foi a primeira
vez que Marn viu os olhos castanhos-escuros de Than com
tanta clareza. A luz do sol entrava pela janela, refletindo neles.
Eram tão bonitos que Marn esqueceu de piscar.
— Por favor, para de ficar bravo comigo. Eu te compenso.
— ...
— Que tal aquele seu doce favorito? Eu compro um monte
para você.
— ...
— Pronto, pronto. Da próxima vez eu com certeza vou
torcer por você, eu prometo.
Marn sorriu e esticou o dedo mindinho na frente de Than,
balançando-o levemente para chamar sua atenção. Than deu
uma risadinha nasalada antes de se sentar direito novamente.
Marn também se encostou na cadeira.
Eles ficaram sentados de frente um para o outro,
conseguindo ver claramente as expressões um do outro. Marn
sentiu um calor e um frio estranhos ao mesmo tempo. Ele
levantou a mão para cobrir parte do rosto e limpou a garganta
baixinho. Quando Than olhava para ele com aquela expressão,
Marn se sentia esquisito; ele não conseguia encarar os olhos
de Than diretamente.
P’Nathi, onde você foi parar? Pode vir me ajudar? Seu
irmãozinho está me provocando até eu não saber mais o que
fazer...
— Mesmo que eu não tenha ido torcer, Than, você já tinha
um monte de apoiadores. Eu ouvi alunos de outras salas
dizendo que iam torcer por você também.
— Sério?
— Não sei por que você está fazendo tanto drama por
minha causa.
— ...
— Tinha gente sentada torcendo em volta da piscina
inteira. Até a pessoa que você gosta provavelmente foi
também.
— O quê?
— A pessoa que você gosta.
— O que você quer dizer com isso?
— Eu sei que você já tem alguém de quem gosta.
— Espera...
Lá estava. A reação dele foi óbvia! Than abriu a boca em
pânico e levou a mão à têmpora. Ele claramente não esperava
que o amigo soubesse o seu segredo. Parecia que ninguém
mais sabia ainda que Than gostava de alguém.
Marn tinha guardado esse segredo para si por um tempo.
Sempre que encontrava o Nathi, ele perguntava discretamente
sobre isso, e o Nathi tinha dado a entender que era alguém da
idade deles. Marn estava morrendo de curiosidade para saber
quem teria chamado a atenção de um lobo solitário como o
Than. Ele construía muros ao redor de si com tanta força que
qualquer um que chegasse perto costumava fugir. Até quando
o Marn pediu para ser amigo dele, foi preciso muito esforço.
Era muito suspeito.
Marn não conseguia parar de pensar nisso há dias. Hoje
foi a primeira vez que ele tocou no assunto diretamente com o
Than. E, de alguma forma, ver o Than reagir assim deixou o
Marn inquieto.
— Quem te contou?
— O P’Nathi.
— Eu sabia. Aquele cara... se metendo onde não deve.
— Então você realmente tem alguém de quem gosta.
— E daí se eu tiver?
— Bom, nada... só estou curioso.
— Eu não vou te contar.
— Não pode me contar só um pouquinho? Ou me dar uma
dica? Eu sou seu amigo, é normal querer saber das coisas de
um amigo.
— Você não entende nada mesmo disso, não é?
— Você está me chamando de burro?
— Estou dizendo que você é lerdo.
— Than...
Marn estufou as bochechas quando Than se levantou e
pareceu que ia sair da sala de aula. Than olhou um pouco para
trás e, quando viu a expressão de Marn, o canto de sua boca se
levantou sozinho. Transformou-se em um sorriso.
Marn ficou tão atordoado que não conseguiu falar quando
Than riu daquele jeito. Olha só para ele; os olhos dele quase
fechavam de tanto sorrir, e dava até para ver os seus pequenos
caninos, iguaizinhos aos do Nathi.
— Ei! — Marn protestou quando Than de repente se
aproximou e bagunçou seu cabelo.
Marn lançou um olhar irritado para ele, mas Than apenas
continuou sorrindo, balançando a cabeça levemente e
soltando um longo suspiro, como se estivesse exausto. Ver o
Than agir assim fez o peito de Marn ficar estranhamente
pesado. Ele esticou a mão e segurou a de Than.
— Tá bom, eu não pergunto mais de quem você gosta.
Você me conta quando tiver vontade. Eu não me importo mais.
— Você chama os outros de manhosos, mas olha para
você primeiro, Marn.
— Eu não estou fazendo manha. Não inventa coisa.
— Viu só. Você está fazendo manha e nem percebe.
— Eu já disse que não estou!
— Quem é que confessaria para a pessoa de quem gosta
secretamente bem na cara dela?
— Do que você está falando? E para de bagunçar meu
cabelo logo.
— Sinceramente, Marn.
— O quê?
— Vou te dar dez segundos para ser esperto.
— Hã?
Than deu uma risadinha baixa, depois se virou e saiu da
sala, deixando Marn sentado ali com as mãos na cabeça. Marn
franziu a testa e inclinou a cabeça, confuso.
Dez segundos? Ser esperto sobre o quê? Ele ainda não
entendia o que Than estava tentando dizer. Ele só disse aquilo
e foi embora. Como alguém deveria saber...? Espera.
— Então você realmente tem alguém de quem gosta.
— E daí se eu tiver?
— Bom, nada... só estou curioso.
— Eu não vou te contar.
— Você não entende nada mesmo disso, não é?
Hã...?
— Quem é que confessaria para a pessoa de quem gosta
secretamente bem na cara dela?
Hein?!
— Ei, Than, você está aí? Achamos que você estava na
piscina. Íamos vir buscar o Marn. Ele ainda está na sala ou já
foi para casa?
Ying acenou enquanto os cumprimentava. Ela e dois
amigos, Ryu e Hem, caminhavam em direção à sala de aula
para pegar suas mochilas nas mesas. As competições
esportivas tinham acabado para eles, e os próximos times já
haviam entrado em campo. Hoje, tanto a Ying quanto o Hem
tinham garantido vagas na próxima rodada. Era uma boa
notícia, um dia excelente.
Eles planejavam convidar o Marn para sair e comemorar
se ele ainda estivesse na escola. Ying se sentia um pouco
culpada por ele também, já que ele não podia competir em
nada e acabou ficando sozinho na sala.
Sinceramente, se o Marn quisesse competir, ele
provavelmente poderia, mas aos olhos dos outros, ninguém
queria correr o risco. Se ele se machucasse e sangrasse, seria
ruim tanto para o Marn quanto para quem estivesse em volta.
Ying só conseguia suspirar. Ainda havia muita gente cautelosa
e com medo de alguém como o Marn. Mesmo que não
mostrassem abertamente, ainda o excluíam.
O Marn não podia competir nos esportes, mas não podia
pelo menos ajudar no desfile ou organizar as arquibancadas
de torcida? No entanto, ninguém pedia para ele fazer
absolutamente nada. O próprio Marn sabia disso, e era por
isso que ele sempre usava o dever de casa como desculpa,
trabalhando sozinho na sala para que ninguém pudesse falar
mal dele de novo. Mas vendo o Than sair da sala assim, talvez
o Marn não estivesse tão sozinho no fim das contas.
Ying estava prestes a convidar o Than para se juntar a
eles na comemoração depois da aula quando, de repente, viu
outro amigo sair correndo da sala. Marn parecia
completamente chocado. Ying desviou a atenção do Than,
abriu um sorriso largo e acenou, pronta para compartilhar a
boa notícia.
— Marn, a gente...
— Than, você gosta de mim?!
Todo mundo congelou, de queixo caído, incluindo a
pessoa cujo nome acabara de ser gritado. Ying ficou estática
como uma estátua. Ryu estava tão pasmo que não conseguia
falar. O Hem chegou a derrubar a garrafa de água que estava
segurando.
Todos os olhos iam e voltavam entre Marn e Than. O
irmãozinho do Nathi estava vermelho como um pimentão. Nem
ele esperava que o Marn gritasse aquilo tão alto.
Than se virou lentamente para olhar. Marn pareceu
perceber no mesmo instante o que tinha acabado de fazer. Ele
levou as duas mãos ao rosto, soltou um gemido e correu de
volta para a sala para fugir da vergonha.
Ele tinha entendido tudo e soltado sem pensar no quão
humilhante era.
Marn desabou sobre a mesa, soltando um choro abafado.
Uma das mãos cobria seu rosto ardente enquanto a outra
batia na mesa sem parar.
— O tio Karn vai me dar uma bronca com certeza... ai...
Do lado de fora da sala, o grupo permaneceu em silêncio
por um minuto inteiro. Estava tão quieto que apenas o som do
vento soprando lá do alto podia ser ouvido. Than levou a mão à
têmpora antes de se agachar ali mesmo. Ele parecia exausto.
Os outros se aproximaram e deram tapinhas no ombro
dele em sinal de apoio. Hem apertou os lábios, tentando não
rir até as bochechas doerem. Ele nunca imaginou que veria o
descolado tubarão branco vacilar desse jeito. Sem conseguir
resistir, ele se agachou ao lado de Than, passou o braço pelo
pescoço dele e sussurrou palavras de incentivo no seu ouvido.
— Eu não sei que diabos acabou de acontecer aqui, Than.
— ...
— Mas aguenta firme, cara.
— ...
— O chefão final está te esperando na loja de leite de soja.
— Seu desgraçado...
— Eu não quero zicar, mas... o tio Karn com certeza vai vir
atrás de você.
— ...
— Até o seu irmão foi massacrado... que chance você acha
que tem?
— ...
— De agora em diante, quando você passar de bicicleta
por aquela casa, vigia as costas. Estamos torcendo por você!
33
Karn estava começando a sentir que o comportamento de
seu sobrinho tinha se tornado um pouco estranho —
estranho, sim, mas apenas em pequenos detalhes. Se eles não
estivessem morando na mesma casa, ele nunca teria notado.
Ao longo dos últimos dias, sempre que ele chamava Marn para
ajudar na cozinha, costumava flagrar o rapaz de dezoito anos
sorrindo sozinho. Mesmo quando ele era deixado ali parado
sovando a massa para os palitos de massa frita, ele continuava
se remexendo com um sorriso no rosto.
Quando Karn dizia para ele verificar os grãos de molho na
água, ele cantarolava alegremente. Normalmente, Marn não
era tão radiante ou animado. Karn tentou adivinhar o que
poderia estar causando aquilo, mas não conseguiu descobrir,
e então tudo o que podia fazer era ficar ali, franzindo a testa
para si mesmo vez após vez.
Ele nunca tinha criado uma criança antes — essa era a
primeira vez que alguém como Karn se tornava tio. Além disso,
seu sobrinho tinha aparecido em sua vida de forma tão
repentina. Antes que ele pudesse sequer se preparar, o garoto
já tinha se mudado e estava vivendo sob o mesmo teto. Era
difícil acreditar que um dia ele acabaria criando um
adolescente, cuidando dele, zelando por ele, ajudando-o a
crescer e se tornar uma pessoa decente — quando sua própria
vida ainda era uma bagunça.
Karn, criando um garoto? Fala sério. Como isso poderia
dar certo?
Para começar, como eram os adolescentes? Ele só sabia
que aquela era uma encruzilhada na vida. Se você os guiasse
pelo caminho certo, o resto da vida deles poderia terminar
bem. Mas se as coisas dessem errado nesse estágio, consertar
depois seria incrivelmente difícil. Sua própria experiência se
limitava à sua própria vida — o que ele poderia ensinar a
qualquer outra pessoa? Ele não ousava afirmar que vivia bem
o suficiente para dar conselhos, especialmente para seu
sobrinho. Ele mal conseguia sobreviver sozinho.
Além disso, Marn e ele eram muito diferentes em
personalidade, com formas completamente diferentes de ver o
mundo. Como eles deveriam se sintonizar um com o outro com
bases tão distintas? Karn pensava nisso dia e noite, mas ainda
não conseguia encontrar uma resposta. Ele queria ser um
adulto bom, alguém em quem seu sobrinho pudesse se
espelhar, mas toda vez que via seu reflexo no espelho, tudo o
que conseguia fazer era balançar a cabeça levemente.
— Tio Karn, terminei de preparar tudo. Devemos
empurrar o carrinho para fora agora?
— Hum.
Ou talvez... fosse Marn quem estivesse criando o tio.
Quando uma nova manhã chegava, o bom garoto Marn se
levantava e vestia um suéter de tricô branco, grosso e macio, e
então ajudava o Tio Karn a carregar os suprimentos no
carrinho.
Os dois saíam de casa juntos antes do amanhecer. O sol
ainda não tinha nascido, e uma névoa branca e espessa os
cercava. Não importava para onde você olhasse, não dava para
ver nada — havia apenas o ar frio roçando a pele deles
constantemente. Quando abriam a boca, a respiração se
transformava em uma névoa visível.
Marn e o Tio Karn montavam sua barraca de leite de soja
no lugar de costume, contando com o calor da panela fervendo
para manter seus corpos aquecidos. Marn bebeu um saco de
leite de soja e imediatamente sentiu o calor se espalhar pelo
estômago. Ele fechou os olhos levemente e abriu um sorriso
largo; as duas bochechas ficaram rosadas, deixando-o
especialmente adorável.
Ele respirou fundo, puxando o ar fresco da manhã.
Em pouco tempo, o sol começou a aparecer, a luz dourada
brilhando sobre a barraca de leite de soja e aquecendo-a um
pouco, embora sempre que uma lufada de vento passava, seus
lábios ainda tremessem levemente. Marn enfiou as mãos nos
bolsos da jaqueta para evitar que ficassem dormentes,
esticando o pescoço para olhar de um lado para o outro.
Tio Karn, que estava sentado de braços cruzados,
percebeu e perguntou sobre aquilo. Marn balançou a cabeça
negando e se ocupou com as vendas, tentando esconder seu
comportamento.
O dono da barraca de leite de soja observava de perto.
Hoje, Karn estava usando uma jaqueta preta grande e um
cachecol enrolado no pescoço, com a ponta do nariz
avermelhada pelo frio. Ele se sentava ao fundo, aproveitando a
luz suave do sol, erguendo uma xícara de chá de gengibre para
bebericar enquanto observava o sobrinho vender. Nada
parecia fora do comum até que ele ouviu uma voz familiar
chamando de longe. Eram Nathi e seu irmão mais novo que
tinham acabado de terminar a corrida matinal. Esses caras
são realmente irritantes — correndo pela barraca de leite de
soja quase todo dia.
Hoje foi o dia em que eles realmente começaram a dar nos
nervos dele.
Karn soltou o ar, observando o sobrinho vender leite de
soja para o amigo com uma postura perfeitamente normal.
Sentado ali, ele não conseguia ouvir a conversa deles
claramente, mas depois que os dois irmãos saíram, ele notou
algo. Não era muito óbvio, mas com os instintos de um adulto
que já tinha visto muito do mundo, algo finalmente despertou
seu alerta.
Depois de entregar o leite de soja quente e os palitos de
massa frita para aquele amigo... por que as orelhas do Marn
estavam vermelhas?
E por que ele estava ali parado sorrindo sozinho de novo?
Isso está começando a parecer suspeito...
A partir daí, Karn observou discretamente o
comportamento do sobrinho. Marn ainda era um bom garoto,
uma criança adorável que sabia como ajudar aqueles que
tinham lhe mostrado bondade. Todo dia, quando chegava em
casa, ele revisava diligentemente a lição de casa. Ele não saía
para festas ou ficava andando por aí sem rumo. Pelo contrário,
ele sempre ajudava o Tio Karn a preparar as coisas para as
vendas. Sempre que era chamado, ele vinha na hora.
Mas havia uma coisa que Karn não podia ignorar...
O irmão mais novo de Nathi buscava e trazia Marn todo
santo dia.
Eles iam para a escola juntos e voltavam para casa
juntos. Antes de Marn entrar com sua bicicleta em casa, o
garoto sorria e acenava se despedindo. Sob o olhar afiado do
Tio Karn, o garoto da vizinhança congelou e depois recuou
apressadamente um passo para longe de Marn.
— Olá, Tio Karn.
Enquanto isso, o próprio Marn parecia completamente
alheio a tudo. Ele sorriu docemente, juntou as palmas das
mãos em um wai para cumprimentar o tio e depois entrou na
casa para trocar de roupa e poder voltar para ajudar a vender
novamente à noite.
Marn continuava a viver sua vida em paz, sem
preocupações. Desde que ganhou um grupo de amigos, ele
tinha se tornado ainda mais alegre do que antes. Ir para a
escola tinha se transformado em algo que ele esperava
ansiosamente. Ele se sentia feliz toda vez que via seus amigos,
porque nunca tinha tido a chance de vivenciar uma atmosfera
como aquela antes.
Pelos últimos dezessete anos, ele tinha suportado a
solidão por causa do vírus nocivo em seu corpo que fazia todo
mundo manter distância. Não eram apenas as crianças — até
os adultos que não entendiam a doença bem o suficiente
reagiam da mesma forma. Sua avó era a única que ficava ao
seu lado e o encorajava. Ela era a única que dizia que Marn era
uma pessoa normal, não diferente, não estranho, não algo feio
ou assustador para este mundo. Ela o ensinou a ter orgulho de
si mesmo e a olhar para o mundo de forma positiva, dizendo a
ele que um dia ele certamente ficaria feliz por ter um coração
tão forte.
E, de verdade, Marn era grato a si mesmo por ter
aguentado aquele tempo. No fim, ele recebeu a chance de
conhecer todo mundo aqui — Ying, que era leal e sincera com
seus amigos; Ryu, que era uma fonte de apoio e conforto para
todos no grupo; Hem, que trazia sorrisos e risadas para todos;
e Than... que a princípio podia não parecer muito acessível,
mas quanto mais Marn o conhecia, mais ele passava a
entender sua verdadeira natureza. Ele descobriu que Than
era, na verdade, um amigo muito bom e gentil também.
Eles ensinaram a Marn muitas coisas: amizade
verdadeira, ajudar uns aos outros, dar as mãos e atravessar
cada problema juntos. Eles criaram as melhores memórias
através das estações de primavera e de chuva, rindo e
respirando o ar em lugares bonitos. Ter pessoas em quem você
podia confiar, que te entendiam e a quem você entendia de
volta — cada um revezando em se apoiar no outro, ninguém
apenas dando ou apenas recebendo.
Todos compartilhavam sorrisos e dores juntos, curando
tudo lado a lado. Isso deixou uma impressão profunda em
Marn sobre esse grupo de amigos.
Havia uma experiência nova que Marn, agora com dezoito
anos, tinha acabado de conhecer pela primeira vez: a sensação
de como se centenas ou milhares de borboletas estivessem
voando em seu estômago. Ele tinha sentido isso recentemente
e admitia que estava incrivelmente animado com aquilo.
Do nascimento até agora, Marn tinha acabado de
entender que gostar de alguém era um sentimento normal,
algo que os jovens naturalmente experimentavam quando
seus corações começavam a hesitar, procurando um lugar
temporário para descansar os olhos. Às vezes podia ser
alguém parado à sua frente, alguém passando, alguém que se
aproximava e te oferecia algo delicioso, ou talvez... alguém que
estivesse ao seu lado o tempo todo.
Um espaço tão próximo que às vezes você não conseguia
enxergar. Quando você percebia, já tinha deixado a pessoa
chegar tão perto que não havia escapatória.
Durante a aula de matemática, Marn ouvia atentamente
cada palavra que o Professor Nathi dizia, com a cabeça baixa
enquanto rabiscava notas furiosamente em seu caderno,
focado demais para notar que há muito tempo tinha se
tornado o alvo do olhar da pessoa sentada ao seu lado. Foi só
quando ouviu o Professor Nathi pigarrear por perto que Marn
olhou para cima do caderno, inclinando a cabeça em
confusão. Ele estava se esforçando nos exercícios, então por
que o Professor Nathi estava ali parado de braços cruzados,
olhando para eles com aquela expressão?
Não — o Professor Nathi não estava olhando para Marn.
Ele estava olhando para o aluno sentado ao lado dele.
— Tente estudar pelo menos uma vez. Tem alguma coisa
que você vai lembrar deste período além do rosto dele?
O Professor Nathi falou baixo, apenas o suficiente para
que aquela mesa ouvisse, antes de se afastar. Marn piscou,
desorientado, sem entender direito o que o professor quis
dizer, e se virou para olhar para o amigo sentado ao lado.
E naquele momento, Marn recebeu sua resposta
claramente.
— Than, para de encarar.
— Eu não estou encarando.
— Está sim. Você encarou tanto que até o professor te
chamou a atenção.
— Eu disse que não estava.
— Só espera, se você continuar com isso, eu vou me
mudar para sentar com o Hem.
— Heh.
— Você não está prestando atenção na aula de jeito
nenhum. Isso não é bom, sabe. Depois do Ano Novo, os
exames estão chegando. Você precisa focar mais, Than. Se
continuar sendo teimoso assim, vai se arrepender quando os
exames chegarem, você vai ver.
Marn disse isso como uma ameaça, embora soubesse
perfeitamente bem que Than era muito mais inteligente do que
ele. Além disso, o irmão mais velho de Than era o próprio
professor da matéria. Se Than não entendesse alguma coisa,
ele podia simplesmente bater na porta do P'Nathi e arrastá-lo
da cama à uma da manhã para ensiná-lo, e Marn tinha certeza
de que P'Nathi faria isso. Não importa o quão cansado
estivesse, um bom irmão mais velho sempre daria o seu
melhor pelo futuro do irmão mais novo.
Than poderia realmente provocar P'Nathi desse jeito. Ele
sempre agia como um pequeno bando de problemas sempre
que estava com o irmão. Than só era um bom garoto quando
estava com Marn.
Mesmo assim, Marn não ousava dizer isso em voz alta,
porque houve inúmeras vezes em que Than o provocou
também, por exemplo...
Ding!
Marn levantou o olhar do livro em frente a ele. Era quase
onze da noite. Ele estava revisando o capítulo final antes de ir
para a cama, mas quando viu uma notificação de mensagem
de alguém, em vez de dormir em paz, acabou rolando de um
lado para o outro por metade da noite.
Para de estudar tão tarde. Vai dormir, Marn. Boa noite.
Como ele deveria cair no sono depois daquilo...
Como alguém podia simplesmente dizer boa noite
diretamente assim? Marn queria muito que o P'Nathi
confiscasse o celular do Than à noite. Than o provocava até
seu coração não conseguir descansar de jeito nenhum.
E durante as atividades do clube também...
Marn estava no clube da biblioteca — um lugar quieto
onde ele podia acalmar sua mente. Ele não tinha ideia de por
que alguém de fora do clube tinha que ficar rondando ele o
tempo todo, grudado nele mais que uma sombra.
Na escola, Than gostava de provocá-lo também — às vezes
pressionando uma garrafa de água gelada contra sua
bochecha só para fazê-lo dar um pulo, mesmo que tivesse
comprado para ele de graça.
Quando se sentavam para ler juntos na escola, Marn
podia sentir claramente que Than só focava no material uns
dez por cento do tempo. Os noventa por cento restantes eram
gastos prestando atenção em coisas que não tinham nada a
ver com o estudo! Isso era algo que ele realmente queria relatar
ao Professor Nathi — o irmão mais novo dele estava brincando
seriamente agora.
— Than, você pode ler direito?
— ...
— Than.
Marn soltou o ar e olhou de lado. Than estava de fato
segurando um livro, mas uma mão estava apoiada bem no
topo da cabeça de Marn. Não importa o quanto Marn
reclamasse, ele não respondia uma única palavra — mas Marn
sabia. Ele estava sorrindo secretamente! Than fingia virar para
a próxima página, embora ele mesmo provavelmente nem
tivesse entendido a anterior ainda. O quanto ele poderia
lembrar, brincando desse jeito? Era seriamente irritante.
Quando Than começou a balançar gentilmente a cabeça
de Marn para frente e para trás só para provocá-lo, Marn só
conseguia fechar os punhos, contando mentalmente todos os
pontos de irritação e esperando pelo dia de dar o troco. Ele
costumava entender o Than errado, achando que ele era
arrogante, frio e difícil de se aproximar — alguém que gostava
de ficar sozinho e não queria se incomodar com os outros ou
ser incomodado. Mas o que era isso agora? Olhe para ele —
segurando a cabeça de Marn, apertando suas bochechas para
fora. Ele nem precisava dizer uma palavra; suas mãos agiam
primeiro. Ele gostava de olhar para Marn com aquele sorriso
quieto e provocador. Quanto mais Marn pensava sobre isso,
mais irritante esse cara se tornava.
Se pudesse contar para sua avó, Marn diria que agora
mesmo alguém estava deixando seu pequeno coração
completamente inquieto.
Marn realmente não conseguia acreditar — que Than
pensava nele como algo mais do que apenas um amigo. No
primeiro momento em que percebeu isso, Marn não soube o
que fazer. Parecia que todos no grupo já sabiam, embora Marn
tivesse pensado que Than não contaria a ninguém. E era
verdade — Than não tinha contado a ninguém. O que fez todos
perceberem foi simplesmente o quão suspeitos os dois ficavam
juntos. Marn quase teve vontade de chorar. Ele mesmo foi a
última pessoa a descobrir. Ele era tão lerdo assim?
Depois daquele dia, Than não agiu de forma
particularmente estranha. Ele ainda se aproximava de Marn
como de costume, não dizia coisas excessivamente doces ou
fazia nada chamativo na frente dos outros, e ainda mantinha
um pouco de distância. Marn fazia o mesmo. Ele não tinha
ideia de como deveria agir agora.
Às vezes se sentia um pouco sem jeito, inseguro de si
mesmo porque nunca tinha experimentado esse tipo de
sentimento antes. Than parecia entender. Foi por isso que ele
se aproximou e falou com uma voz suave, dizendo para ele não
entrar em pânico, não se preocupar, não pensar demais —
apenas agir normalmente, como de costume.
Than não esperava que os dois mudassem tudo de
repente da noite para o dia. Ainda havia bastante tempo para
se conhecerem.
— Apenas seja você mesmo.
— ...
— É por isso que eu gosto de você, porque você é você.
— ...
— Você entende agora, certo?
A mão acariciando gentilmente sua cabeça fez o calor se
espalhar pelo peito de Marn. Suas bochechas ficaram um
pouco quentes, então ele teve que levantar a mão e abanar o
calor.
Than realmente era irmão do P'Nathi.
Normalmente, ele não prestava muita atenção em
ninguém — mas sempre que alguém estava em apuros, ele
estava sempre pronto para intervir e ajudar.
Então era isso que chamavam de coração disparado. Ele
só tinha visto isso em filmes e novelas, só tinha ouvido em
músicas. Ele nunca pensou que experimentaria isso
pessoalmente.
— Você não vai vender esta noite, certo?
— Hum.
— Que bom. Você deveria descansar.
— Você também, Than. Treinar natação com tanta
frequência no fim do ano não é muito bom. Não exagera. Toma
cuidado — você pode ter cãibras enquanto nada. Isso é muito
perigoso, sabe.
— Eu sei.
— Estou preocupado com você, por isso estou dizendo
isso.
— ...
— Você já é bom o suficiente, Than. Apenas tente o seu
melhor, mas só o quanto for necessário.
Marn sorriu suavemente e esticou a mão para tocar
levemente o ombro do amigo, esperando que Than entendesse
sua preocupação. Ele congelou quando viu o olhar nos olhos
do outro garoto — era tão gentil, diferente do Than de
costume. Marn limpou a garganta e fingiu olhar para longe,
avistando um carro entrando no beco e passando na frente de
sua casa. Ele o reconheceu imediatamente — era o carro do
Professor Nathi. Ele devia ter acabado de terminar o trabalho e
chegado em casa.
Ser professor realmente parecia um trabalho com tarefas
infinitas, sempre chegando em casa mais tarde que os alunos.
— No ano que vem já estaremos no décimo segundo ano...
Teremos que começar a nos preparar para o vestibular.
— Eu venho estudando esse tempo todo.
— Ainda não é o suficiente. Entrar na universidade é
muito difícil, sabe. Teremos que competir com muita gente.
— Se você se esforçar ao máximo, consegue.
— Em qual faculdade você quer entrar, Than?
— Talvez engenharia. Ou talvez outra coisa. Não estou
muito decidido. De agora em diante, provavelmente vou focar
mais nos esportes.
— Entendi. Afinal, você sonha em se tornar um nadador.
Marn assentiu levemente, depois pensou sobre si mesmo
e sentiu o coração afundar um pouco. Ele não sabia qual era
seu verdadeiro objetivo. Suas notas eram medianas — não
boas o suficiente para se destacar. Ele não era bom em
esportes. Não tinha formação em música. Arte não combinava
com ele. Idiomas... ele também não era fluente neles.
Ele parecia capaz, mas na verdade estava sempre em
algum lugar no meio — nem ruim, mas nunca excelente. Marn
não sabia onde pertencia, qual era seu sonho ou qual carreira
queria. Por que nada estava claro de jeito nenhum?
— Ei.
Marn piscou devagar, saindo de seus pensamentos. Than
tinha uma mochila pendurada em um ombro e se inclinou um
pouco para que os olhos deles ficassem no mesmo nível. Marn
ficou parado, apertando os lábios para acalmar o coração que
batia descontroladamente.
— Não pensa demais. Ainda tem bastante tempo, tá bom?
— Hum.
— Se formar no décimo segundo ano não significa que
tudo termina.
— ...
— Leva o tempo que precisar e procura o que você
realmente gosta.
— ...
— Eu não gosto quando você faz essa cara triste.
— Então quando você gosta da minha cara?
— Quando você sorri.
— Assim?
— É.
— ...
— Sorria mais.
— ...
— Eu gosto assim.
Chiado... O rosto de Marn ficou vermelho brilhante como
um fruto de hera maduro, enquanto Than continuava
exibindo aquele sorriso bonito para ele sem parar. Marn teve
que sinalizar para ele parar — caso contrário, provavelmente
acabaria com outra condição cardíaca. Ele realmente desejava
que Than tivesse um pouco de piedade dele. Seu coração era
tão pequeno; bater tão forte assim não podia ser bom. Poderia
dar um problema sério.
Than finalmente desistiu, puxando a mão de volta e se
afastando para onde estava antes, preparando-se para ir para
casa. Ele acenou devagar, dizendo que se veriam novamente
amanhã de manhã. Marn sorriu docemente em resposta e
acenou de volta também.
Marn se virou para entrar em sua casa também — sem
nunca esperar ver o Tio Karn parado ali de braços cruzados,
observando. O jovem de dezoito anos engoliu em seco, com o
coração caindo até os calcanhares. Ele não tinha certeza se o
Tio Karn tinha visto ou ouvido o que ele e Than tinham
acabado de conversar, mas Marn achava que provavelmente
sim. Caso contrário, ele não estaria ali parado encarando com
uma expressão tão calma e indecifrável.
Tio Karn deu um pequeno aceno de cabeça, sinalizando
para Marn segui-lo para dentro. O garoto só conseguia
esfregar o peito para se recompor, tentando dizer a si mesmo
que talvez não fosse nada — ou, se fosse alguma coisa, ele
pediria desculpas e prometeria se comportar melhor. Se o Tio
Karn não gostasse que ele estivesse tão próximo daquele
amigo, Marn se afastaria. Tudo o que ele podia fazer era seguir
o tio obedientemente de volta para dentro de casa.
Tio Karn sentou-se em sua cadeira habitual e olhou para
o sobrinho com um olhar frio. Marn ficou ali parado, unindo as
mãos, esperando pela bronca.
— Então... vocês dois estão namorando?
— Você quer dizer o Than e eu? No momento, somos
apenas amigos.
— Apenas amigos, sério?
— Sim... apenas amigos — Marn respondeu baixinho. No
fundo, ele sabia que não sentia mais apenas aquilo por Than,
mas, nesta situação, dizer que eram apenas amigos parecia a
opção mais segura.
Agora Marn finalmente entendia por que as pessoas
tinham tanto medo do Tio Karn. Apenas ser encarado
silenciosamente assim fazia seu corpo inteiro esfriar, um
calafrio descendo por sua espinha. Não faça contato visual —
absolutamente não — ou ele certamente morreria no ato.
— Se o Tio Karn não gosta que eu seja tão próximo do
Than, eu vou corrigir meu comportamento.
— ...
— Sinto muito por deixá-lo desconfortável, Tio Karn.
Karn soltou um longo suspiro e olhou para a expressão
culpada do sobrinho. Marn parecia verdadeiramente com
medo de levar uma bronca. Olhe para ele — ali parado,
apertando as mãos, todo encolhido. Na verdade, Karn não
tinha a menor intenção de explodir. Ele só queria conversar,
como um guardião deve fazer. Mas sua postura provavelmente
parecia séria demais, fazendo Marn pensar demais em tudo, se
preocupar excessivamente e mostrar tudo no rosto e nos
olhos. Não era sempre que Marn mostrava tal vulnerabilidade
na frente dos outros.
Não era que Karn não soubesse o que seu sobrinho e
aquele amigo próximo estavam sentindo um pelo outro. Ele
também já tinha sido adolescente um dia. Ele já teve dezessete
ou dezoito anos, sentiu aquele frio na barriga agitado pela
brisa da primavera. Seu primeiro relacionamento também
tinha sido nos anos finais do ensino médio — e com um amigo
homem. Pensando bem, não era tão diferente de Marn agora.
Olhando para trás, seu eu do passado esteve sob muito
estresse e pressão. Ele não ousava contar para sua mãe, seus
amigos — ninguém — que gostava de homens. Ele tinha se
escondido sob aquele medo por muito tempo.
Ele queria tanto dizer a Marn que aquilo não era errado de
jeito nenhum. Já que você nasceu neste mundo, além de
aprender sobre os estudos e como viver, o amor também é algo
que você merece conhecer.
— Eu nem te dei bronca ainda. Por que está com tanto
medo?
— Eu não quero ser um garoto mau...
— Como ter um namorado faz de você um garoto mau?
— E-Eu quero dizer, nós não somos namorados ainda.
Than e eu ainda somos apenas amigos.
— Se vocês acabarem namorando, eu não sou contra.
— ...
— Afinal, não é a minha vida. Eu não tenho o direito de te
forçar. O máximo que posso fazer é dar conselhos, como um
adulto que já passou por isso antes.
— Tio Karn...
— Apenas aprenda a distinguir o que é apropriado e o que
não é. Nesta idade, gostar ou amar alguém não é estranho.
Mas você tem que saber como cuidar bem de si mesmo.
Entende?
— Sim.
— E se algum dia chegar a esse ponto, certifique-se de
saber como se proteger.
— T-Tio Karn! E-Eu nunca pensei nesse tipo de coisa!
— Só estou te avisando com antecedência. Adolescentes
têm o sangue quente.
— Tio Karn...
Marn sentiu o rosto esquentar todo de novo. Ele estava
confuso e sobrecarregado. Ele tinha pensado que o Tio Karn o
chamou para dar uma bronca ou puni-lo — mas olhe só para
isso. Tio Karn estava sentado ali de braços cruzados,
dando-lhe um sermão sem parar, entrando até em tópicos
constrangedores. Marn já era sensível; ele teve que levantar a
mão para fazer o tio parar de vez.
— Sua avó não te ensinou? Agora que você cresceu, tem
que ter cuidado com o que faz, especialmente com a sua
condição. Ser íntimo de alguém torna ainda mais importante
ter cuidado.
Claro, sua avó nunca tinha lhe ensinado de forma tão
direta. Marn tinha assistido às aulas de educação sexual e lido
algumas coisas por conta própria. Ele podia não saber tudo
em profundidade, mas pelo menos já tinha tido contato com o
básico, como proteção.
Mesmo assim, o Tio Karn ensinando-o de forma tão direta
deixou Marn atordoado, balançando as mãos em negação,
abrindo e fechando a boca sem saber o que dizer. Aquela foi a
primeira vez que ele realmente sentiu que tinha um guardião
de verdade. Tio Karn o criou de forma tão diferente da avó —
nada gentil!
— Mas se possível, eu preferia que você não chegasse a
esse ponto ainda.
— Sim, eu entendo.
— Bom.
— Muito obrigado por se preocupar comigo, Tio Karn.
Pode ficar tranquilo — no momento, eu realmente não pensei
em nada desse tipo.
— É claro que eu me preocupo. Agora sou seu guardião. É
minha responsabilidade cuidar de você.
— E aquele garoto... ele fica de gracinha?
— Tio Karn... qual é, não é nada disso.
— O que me preocupa é essa sua personalidade inocente.
Tenho medo que você acabe sendo enganado por alguém
astuto.
— Com certeza esse não é o caso. O Than é um amigo
muito bom. Posso garantir que ele é alguém em quem você
pode confiar.
— Agora você já está defendendo ele?
— Eu só não quero que você entenda o Than errado, tio
Karn. Não quero que você o veja com maus olhos. Além disso,
ele é o irmão mais novo do P'Nathi.
— É exatamente por isso que é assustador.
— ...
— Se ele estiver vindo com conversinha doce, não caia
nessa tão fácil. Entendeu?
— Sim.
— Vá descansar. Era só sobre isso que eu queria
conversar.
— Tio Karn.
— O quê?
— Muito obrigado por não proibir isso... e estou muito
feliz por você ter me dado conselhos.
— Só estou comentando por alto. Se você acabar sendo
teimoso e fizer alguma besteira, terá que assumir a
responsabilidade pelas consequências das suas próprias
decisões.
Karn falou com desleixo, mas, no fundo, Marn entendia a
preocupação por trás daquilo. O tio Karn nunca tinha criado
ninguém antes. Ele não era bom em dar conselhos. Era
alguém que conseguia viver a vida sem se importar com os
outros, mas hoje, ele tinha chamado deliberadamente o
sobrinho para conversar cara a cara e dar orientação. Isso
significava que o tio Karn estava preocupado com ele, não
estava?
— Eu ainda tenho muito a aprender. Estou crescendo
agora. O que eu mais preciso é de alguém para me guiar.
— ...
— Se algum dia eu tiver dúvida sobre algo, eu virei até
você, tio Karn. Espero que esteja disposto a me ajudar.
— Faça o que quiser.
Karn se encostou na cadeira de madeira, parecendo que
ia descansar um pouco. Marn, que estava prestes a subir as
escadas, parou e se virou de volta para o dono da casa,
carregando toda a sua confusão consigo.
— Tio Karn... na verdade, tem mais uma coisa.
— O que é?
— Estou no último bimestre do décimo primeiro ano
agora. No ano que vem estarei no décimo segundo. Logo logo,
terei que me preparar para os vestibulares.
— ...
— Mas não consigo enxergar meu futuro de jeito nenhum.
Não sei onde eu deveria estar... ou para onde devo ir a seguir.
— ...
— Então, o que você quer fazer?
— Eu não sei.
— Qual é o seu sonho? O que você quer ser?
— Eu não sei.
— Eu nem sei como deveria começar de novo... depois de
me formar, depois de me separar de todos os meus amigos,
indo morar sozinho em algum lugar novo.
— ...
— Parece que... na verdade, o Marn ainda não teve tempo
de se estabilizar. Acabei de conhecer meus amigos faz pouco
tempo e logo já temos que nos separar e crescer.
Karn conseguia ver a preocupação claramente naqueles
olhos. Marn estava realmente estressado e pensando demais
nas coisas, caso contrário, não teria perguntado de forma tão
direta.
Esse garoto... por natureza ele não era nada mau; na
verdade, era bom até demais. Quantos garotos da idade dele
eram tão esforçados e tão sérios em serem corretos assim? Ele
estava sempre ajudando o tio no trabalho, sempre procurando
formas de retribuir a bondade da pessoa que o ajudou. O
desempenho acadêmico dele também era muito bom. Podia
não ser excepcional a ponto de ser chamado de gênio, mas
ficar em segundo lugar na classe não era de modo algum ruim.
Quanto a atividades extracurriculares e hobbies pessoais...
quando Karn parava para pensar, Marn realmente não tinha
nenhum.
Isso mesmo. Qual era o sonho de Marn, exatamente?
Ele tinha vivido a vida ajudando os outros e atendendo às
necessidades alheias o tempo todo, prestando tanta atenção
naqueles ao seu redor que esqueceu de olhar para si mesmo.
Quando se deu conta, mais um dia de sua juventude já havia
passado. Quanto tempo ele ainda teria para si mesmo?
— Eu realmente não sei para qual faculdade deve se
candidatar no ano que vem.
— No que você é melhor?
— Hum... na verdade, não sou especialmente bom em
nenhuma matéria. Minhas notas são todas parecidas. Mas eu
sei que não quero ir para uma área com muitos cálculos.
— Então descarte as ciências exatas. Engenharia e coisas
do tipo provavelmente não combinam com você.
— Então eu deveria ir para ciências sociais? Ou talvez
línguas?
— Leve o tempo que precisar para se encontrar. Você
ainda tem um ano inteiro. Não precisa ter pressa.
— O tio Karn fala igualzinho ao Than — Marn disse.
A expressão de Karn escureceu um pouco, com a irritação
surgindo claramente em seu rosto. Marn percebeu
imediatamente que não deveria ter colocado os dois na mesma
frase. Parecia que o tio Karn ainda não confiava totalmente no
Than. Mesmo o Than sendo o irmão mais novo do P'Nathi, ele
claramente não tinha passado no teste do tio Karn com
facilidade... ou talvez, justamente por ser irmão do P'Nathi, ele
estivesse sendo vigiado ainda mais de perto.
— Se você realmente não conseguir escolher no final,
então não vá.
— Tio Karn.
— Não estou te expulsando. O que quero dizer é que, se o
que tem na universidade não responde ao que você quer na
vida, então não precisa se importar com isso.
— ...
— A universidade apenas abre oportunidades para
aprender habilidades, para ter um ambiente social, para se
preparar para trabalhar em diferentes lugares. A maioria das
pessoas aceita isso porque existe um diploma certificando o
que estudaram. Mas não é o único caminho na vida.
— ...
— Se não for o certo para você e você tiver que aguentar
até a formatura, isso é apenas um cansaço desnecessário. Não
quero que você desperdice quatro ou seis anos da sua vida em
algo que não gosta.
— ...
— Mas como eu disse, se formar na faculdade é bom.
Existem muitos caminhos depois disso, mais oportunidades
que os outros, salários iniciais mais altos do que pessoas que
só terminam o ensino médio. Ainda assim, se você entrar e
estiver infeliz, então não precisa ir. Entrar na faculdade é
bom... mas não entrar, ou não querer ir, também pode ser
bom. Existem muitas estradas à frente, muitas escolhas.
Escolha devagar e com cuidado o caminho que for melhor para
você.
Enquanto falava, Karn também olhava para o seu próprio
passado. Outrora, ele também tinha vivido de acordo com os
padrões da sociedade, carregando as expectativas de sua mãe
nos ombros. Tinha sido exaustivo. O sonho dele era usar
sapatilhas de balé e estar em um palco... mas ele foi forçado a
escolher um caminho diferente em vez disso.
Ao longo de mais de vinte anos, Karn passou por
inúmeras experiências boas e ruins. Ele já viveu uma vida
extremamente imprudente, aprendendo os prós e contras de
muitas coisas por tentativa e erro. Ele viu as muitas facetas
deste mundo. Algumas pessoas pareciam perfeitas, mas
estavam igualmente quebradas por dentro; outras pareciam
sem valor aos olhos da sociedade, mas eram muito mais
admiráveis do que qualquer outra coisa. Aquela vida
turbulenta já havia passado há muito tempo, deixando apenas
memórias sedimentadas para trás — memórias que ele
ocasionalmente desenterrava em dias ociosos.
Se lhe perguntassem se ele viveria daquela forma
novamente se pudesse voltar no tempo, ele não conseguiria
responder com total certeza. Ele tinha que admitir que foi por
causa daqueles riscos e erros que passou a entender a si
mesmo e ao mundo um pouco melhor.
Karn não queria que Marn se prendesse a coisas que o
deixavam infeliz. O tempo humano era realmente curto. Feche
os olhos, abra-os novamente, e de um garoto de dezessete
anos você já pode ser um homem chegando aos quarenta.
Em toda a vida de uma pessoa, a coisa mais valiosa era o
tempo. Portanto, não o desperdice no lugar errado ou no
caminho errado. Assim, quando você olhar para trás aos
quarenta e poucos anos, não vai se arrepender de não ter feito
o que seu coração realmente queria, ou de ter se deixado
afundar em algo sem sentido por tempo demais.
— Muita gente diz que fazer coisas fora dos estudos é viver
a vida. Mas para algumas pessoas, estudar é o modo de vida
delas. Algumas pessoas amam aprender. Algumas amam
matemática pesada. Algumas amam memorizar ciências.
Deixe que gostem do que gostam. Também existem muitas
pessoas que não conseguem sobreviver nesse caminho e têm
que ir fazer outra coisa, e são mais felizes lá. Não porque seja
melhor, mas porque encontraram um lugar que combina
melhor com elas. O sonho de ninguém neste mundo é melhor
ou pior do que o de qualquer outra pessoa.
— Então o tio Karn gosta de vender leite de soja, certo?
— Eu não gosto de vender leite de soja. Eu só gosto da
vida que tenho agora.
— ...
— Não quero mais fazer nada caótico. Já chega.
Karn respondeu em um tom monótono. Se perguntassem
sobre o sonho dele agora, ele só poderia dar uma resposta:
uma vida pacífica. Sem caos, sem problemas, sem mais dor ou
tristeza inútil. Ele não sabia quanto tempo ainda lhe restava,
mas ser capaz de se deitar e manter a paz assim era o
suficiente. Ele estava verdadeiramente cansado de viver.
Marn assentiu repetidamente, entendendo tudo o que o
tio dizia. O sonho de seu tio era ser o gato velho mais feliz do
mundo — deitado em uma espreguiçadeira e pegando em um
sono tranquilo.
— Eu não sou excepcional em nada, meu sonho não está
claro e eu nem sei do que gosto mais. Eu sou tipo uma pessoa
pato, né? Hahaha.
— O que tem de errado em ser um pato? É melhor do que
ser um lagarto-monitor.
— Tio Karn, mas esse bicho também não é ruim... só
parece um pouco assustador.
— É assustador. Eu não gosto.
Marn conteve um sorriso. Parecia que o tio Karn devia ter
tido algum tipo de incidente inesquecível com aquele animal,
julgando pela forma como o seu rosto se contorceu.
— Se você não fez nada de ruim de verdade, então, não
importa o que aconteça, você não é uma pessoa tão ruim
assim. Pare de focar nas suas falhas e olhe para as suas
qualidades também.
— ...
— Deixe que os outros sejam cisnes ou lagartos se
quiserem. Existem muitos patos como nós neste mundo. Você
não precisa saber no que é melhor; apenas saber o que te faz
feliz já é o suficiente.
— E se não conseguirmos competir com esses cisnes?
Definitivamente existem pessoas neste mundo que são muito
melhores que nós.
— E daí? Eu só consigo fazer isso — isso é problema meu.
Se você consegue fazer melhor, isso é problema seu. Por que se
comparar a eles e se cansar à toa?
O tio Karn era realmente um deus da filosofia de vida do
tanto faz...
Marn não pôde evitar um sorriso largo. O peso em seu
coração ainda estava lá, mas tinha aliviado muito. De agora
em diante, ele teria que se esforçar para se encontrar — do que
gostava, qual era o seu sonho, para onde queria ir e a que
lugar ele realmente pertencia. Exatamente como o tio Karn
disse, ainda havia muito tempo para se descobrir. Mesmo
depois de se formar no ensino médio, não era como se a vida
acabasse imediatamente.
Marn olhou para o tio com admiração. O conselho de
alguém que também era um pato o ajudou a parar de esperar
tanto de si mesmo. Mesmo que, às vezes, os conselhos do tio
Karn fossem um pouco pesados demais.
A casa ficou silenciosa novamente depois que o sobrinho
subiu as escadas. Marn provavelmente foi tomar banho e
depois continuar o dever de casa. Karn soltou um longo
suspiro e se inclinou para trás, prestes a descansar em sua
cadeira habitual, quando algo brilhou no canto do olho perto
da porta — uma silhueta alta e escura.
Qualquer outra pessoa poderia ter pensado que era um
fantasma e entrado em pânico, mas Karn não teve medo
nenhum. Ele caminhou até lá e ergueu o punho, dando um
cascudo na cabeça do dono daquela sombra. Um grito de dor
ecoou, seguido por um lamento prolongado enquanto uma
orelha era arrastada para fora da escuridão.
— P'Karn! Ai! Isso dói!
— Você está na minha casa de novo. Qual é o seu
problema? Você não tem uma casa própria para morar?
Ficando de tocaia desse jeito, um dia eu vou te confundir com
um ladrão e rachar a sua cabeça.
— Ai ai ai... você nunca pega leve. Como se fosse a minha
primeira vez aqui. Sua casa já é a minha casa faz eras... ei, ei!
Não me chuta!
— Diga as palavras minha casa mais uma vez e eu te jogo
naquele arbusto de rosas.
— O P'Karn é tão maldoso.
— É. Eu sou maldoso.
— Mas quando você está com o seu sobrinho, você é
muito gentil.
— ...
— Parece que você entende o Nong Marn muito mais do
que eu esperava. Você realmente age como um guardião de
verdade.
Quem invadiu tarde da noite não era um ladrãozinho
qualquer — era muito mais perigoso que isso. O professor
Nathi tinha vindo visitar o guardião de seu aluno novamente.
Ele veio de novo. Quase todos os dias.
Aproveitando o fato de as casas deles serem tão próximas,
ele podia passar por lá a qualquer momento. Ele era a única
pessoa no mundo que podia entrar e sair da chamada casa
mal-assombrada do Karn tão livremente como se fosse a dele.
E Nathi estava certo — isso não era algo que tinha
acabado de começar. Levou quase dez anos para ele ganhar
confiança suficiente do Karn para ser capaz de entrar sozinho.
Mesmo sendo xingado e amaldiçoado várias vezes, Karn
nunca tinha ido realmente além disso. Talvez Karn tivesse
simplesmente se cansado de gritar, então acabou deixando
Nathi entrar e sair quando bem entendesse.
Quando foi que começou exatamente — quando Nathi se
tornou capaz de entrar no território proibido do Karn tão
livremente?
Talvez tenha sido naquela época... quando Nathi veio
ajudá-lo bem aqui na casa, carregando seu corpo imóvel do
chão e correndo com ele para o hospital a tempo, dando a Karn
uma chance de viver novamente.
Daquele dia em diante, ele permitiu que Nathi entrasse e
saísse livremente. E quando o próprio Nathi estava ferido,
tanto física quanto mentalmente, ele usou este lugar como um
refúgio também. Incontáveis memórias flutuavam por esta
casa. Eles tinham se revezado cuidando e curando um ao
outro. Antes de se tornarem os adultos que eram hoje, ambos
haviam passado por tempos verdadeiramente terríveis.
— Meu irmãozinho tem muito medo de você, sabe. Não
seja tão duro.
— O quanto você acha que eu posso realmente confiar
nele?
— P'Karn, forçar crianças assim não é bom. Coisas como
essa deveriam ser deixadas para eles decidirem por si
mesmos, pelo menos uma vez.
— Eu não forcei nada.
— Honestamente, nem eu estou confiante de que, se eles
decidirem namorar, será algo estável ou que dure muito
tempo. Mas o primeiro amor muitas vezes nos ensina melhor
como cuidar de nós mesmos e dos outros. Quando você
aprende sobre suas falhas agora, no futuro, se tiver um novo
parceiro, saberá como corrigi-las e melhorá-las, para não
repetir os mesmos erros e se machucar de novo. Eles deveriam
aprender passo a passo. O máximo que podemos fazer é
apenas observar de longe assim.
— Então você não confia no seu próprio irmão?
— Não é isso. Eu não sou o Than. Não sei como eles vão
mudar um dia. Eles podem se amar para sempre até ficarem
velhos... ou podem terminar em três ou seis meses. Qualquer
uma dessas coisas é possível.
— ...
— Você já esteve apaixonado antes também. Você deveria
entender melhor do que ninguém o quanto isso é imprevisível.
Karn ficou parado, encarando o rosto de quem falava por
um longo momento antes de desviar o olhar com um suspiro.
— P'Karn.
— O quê?
— Eu sei que você ainda o tem no seu coração. Já faz mais
de dez anos e você ainda não consegue esquecer o seu ex. E eu
não espero que você o esqueça algum dia.
Karn congelou levemente. Momentos atrás eles estavam
falando sobre Marn e Than — como de repente o assunto tinha
virado a história dele? Nathi falou com um sorriso fraco,
embora seus olhos tivessem perdido um pouco o brilho. Ele
tentou enterrar a tristeza lá no fundo, sabendo que Karn
detestava que esse assunto fosse trazido à tona. Mas a essa
altura, Nathi achou que deveria dizer algo — ao menos, não
deixar que aquilo continuasse se acumulando como um
resíduo emocional em seu coração.
Karn já teve alguém que amou mais do que qualquer
coisa. Eles construíram inúmeras memórias boas juntos.
Antes de Nathi conhecer Karn, Karn tinha vivido com aquele
homem por muito tempo.
Mesmo que ele tivesse partido agora, Nathi sabia que
Karn nunca o esqueceria. O apego era mais difícil de romper
do que o amor. Não importava o quão ruins as coisas tivessem
ficado, não importava o quão ferozes fossem as brigas, não
importava o quanto tivessem machucado um ao outro, Karn
ainda tinha apenas aquela pessoa em seu coração.
Toda vez que Nathi pensava nisso, seu coração doía
agudamente.
Que pena... se ao menos ele tivesse nascido antes. Se ao
menos tivesse conhecido o P'Karn antes daquele homem.
— Honestamente, já foi muito além do que eu jamais
esperei. O que quer que seja isso entre nós — é impossível. Eu
entendo isso. Se você quiser que eu fique bem aqui, então eu
ficarei bem aqui.
— ...
— Para ser franco, não é como se eu nunca tivesse
querido desistir. Eu tentei — tentei conversar com outras
pessoas. Mas no fim, nunca cheguei a lugar nenhum. Se não
for você, P'Karn, então não é ninguém. É por isso que eu
entendo por que você ainda é tão apegado a ele.
— ...
— Porque o que é mais difícil de cortar do que o amor... é o
apego. Em toda a minha vida, nunca fiz mais por ninguém do
que fiz por você. Mesmo que, no fim, eu não receba nada em
troca.
— ...
— Mas eu, agora mesmo... ainda sinto o mesmo por você
que senti no primeiro dia em que nos conhecemos. E isso
nunca mudou.
Aquele garoto de ensino médio com corte de cabelo militar
tinha crescido e se tornado este professor, mas mesmo depois
de dez anos, ele ainda se agarrava a esta casa, sem nunca ir a
lugar nenhum. O dono da casa tinha dito para ele ir embora
inúmeras vezes, ignorou-o inúmeras vezes — mas Nathi ainda
estava aqui. Sempre que Karn olhava, ele estava sempre ali
parado ao seu lado.
O verdadeiro dono da casa ficou em silêncio, encarando o
rosto do falante. Karn permaneceu quieto por vários minutos,
não respondendo com sequer uma única palavra. Era
impossível dizer o que ele estava pensando. Ele fechou os
olhos e soltou um longo suspiro. Vendo isso, os ombros de
Nathi murcharam completamente, seu coração afundando
pela bilionésima vez.
Tudo bem... ele já deveria estar acostumado com a
rejeição do P'Karn a essa altura. Mesmo depois de se atirar
para frente sem vergonha desse jeito, ele ainda foi rejeitado.
Qual era o sentido de continuar sendo cara de pau?
— Você é muito burro.
— P'Karn, você está me xingando de novo.
— É. Estou.
— ...
— Você é inteligente para todo o resto, mas algo tão
simples assim você tem que perguntar de novo e de novo. É tão
difícil assim de entender?
— O que você quer dizer, P'Karn?
— ...
— P'Karn, eu estou falando sério. O que isso significa? Eu
realmente não entendo.
— Eu não sei. Vou dormir. Não me amole. Volte para a
sua própria casa.
Karn se virou, fazendo cena ao expulsar o outro homem
com raiva. Nathi protestou apressadamente, correndo para
frente com os braços abertos para bloqueá-lo, tentando exigir
uma resposta clara. Mas quando Karn ficava teimoso, ele
nunca cedia para ninguém. Ele simplesmente continuou
andando para dentro, forçando Nathi a recorrer a medidas
drásticas — sentar-se no chão e abraçar a perna de Karn.
Os olhos do dono da casa se arregalaram em choque. Ele
não esperava que Nathi chegasse a esse ponto. Ele balançou a
perna violentamente, tentando desprendê-lo, mas o cara
irritante se agarrava implacavelmente. Como ele podia ser tão
forte? Karn não conseguia de jeito nenhum dominá-lo —
afinal, Nathi era um ex-atleta da seleção nacional. Os braços
envoltos em sua perna não eram brincadeira.
— Solte a minha perna agora mesmo!
— Não. Você tem que responder primeiro. Senão eu não
vou para casa.
— Nathi! Não aja assim. Você acha que tem três anos de
idade? Já é um professor! Pare de se comportar como um
idiota e vá para casa agora mesmo!
— P'Karn, por que você é sempre tão cruel comigo?
— Ei!
— Huuuu...
— Nathi! Você já é tão grande que nem um cachorro
alcança mais o seu saco! Pare de agir assim para eu não ter
que te xingar direito!
Eu nunca gostei de pessoas mais novas do que eu, para
começar. Apenas dois ou melhor três anos mais novos e eu nem
olharia para eles. Este é dez anos mais novo — quem diabos iria
querer isso?!
Tão irritante. Que tipo de lunático é esse — me dá vontade
de dar uma surra nele! Sempre achando motivos para levar
xingo.
Não posso gostar de alguém normal?!
Os gritos lá de baixo fizeram Marn, que estava tomando
banho, sobressaltar-se levemente. Ele parou de cantarolar,
esticou o braço para desligar o chuveiro e abriu uma fresta da
porta do banheiro para perguntar ao tio o que era aquele
barulho. Talvez o tio Karn estivesse com algum tipo de
problema — se fosse sério, Marn se secaria rápido e iria
ajudar.
— Tio Karn, aconteceu alguma coisa? Ouvi vozes altas.
— Estou expulsando um cachorro!
— Hein? Expulsando o quê? Um cachorro? Um cachorro
entrou na casa?
— Expulsando uma tartaruga-mordedora!
— Mas... mas agorinha você disse um cachorro.
— Expulsando um lagarto-monitor!
Marn piscou algumas vezes e depois fechou lentamente a
porta do banheiro de novo.
Que estranho...
Por que parecia o P'Nathi gritando antes...?
Talvez ele estivesse apenas ouvindo coisas.
34
Finalmente, o fim do ano chegou. Os últimos dias do ano
estavam repletos daquela atmosfera de festas de Réveillon.
Crianças e adultos estavam focados no Ano Novo que chegaria
em apenas algumas horas. O feriado prolongado era perfeito
para vestir roupas quentes e sentar para comer junto com a
família.
Escolas, fábricas e até a loja de leite de soja do tio Karn
fecharam temporariamente para que todos pudessem
aproveitar essa rara folga longa. Como resultado, Marn se
tornou um garoto desempregado, sem nada para fazer além de
ficar sentado ou deitado pela casa o dia todo. O tempo frio que
persistia ao longo do dia o fazia se sentir um pouco solitário.
Ele se pegou pensando no mesmo período do ano passado,
quando sua avó ainda estava com ele. Os dois costumavam
aproveitar a virada de ano para reorganizar a casa e limpar
cada canto — fosse a cozinha ou o jardim.
Mesmo não tendo pais e não possuindo muitos parentes,
passar o tempo com apenas uma guardiã nunca fez Marn
sentir que faltava algo. Toda vez que fazia atividades junto com
sua avó, ele ficava genuinamente feliz. Podia ser a época mais
fria do inverno, mas, para Marn, aqueles dias tinham sido
incrivelmente quentes.
Por causa disso, quando o último dia do ano chegou,
Marn decidiu que queria criar uma boa memória com seu tio e
fazer algo juntos. Ele queria convidar o tio Karn para limpar a
casa, reorganizar o jardim e dar as boas-vindas ao Ano Novo
juntos. Deixar a casa mais agradável de morar, para que o
próximo ano fosse repleto de coisas boas.
Mas, quando ele se aproximou e viu o dono da casa
encolhido em uma pilha de cobertores, dormindo imóvel em
sua costumeira cadeira longa, Marn só pôde guardar seu
plano silenciosamente. Parecia que o inverno era a estação
que mais ajudava na insônia crônica do tio Karn. De alguém
que costumava se revirar na cama, dormindo mal e cochilando
constantemente, o tio Karn agora dormia por muito mais
tempo.
À noite, ou perto do amanhecer, quando Marn se
levantava para ir ao banheiro, ele não ouvia mais sons de
movimento vindos do quarto do tio. Isso significava que o ar
frio realmente ajudava o tio Karn a relaxar e se sentir mais
confortável.
O tio Karn era a única pessoa que Marn, ao ver dormindo,
nunca queria acordar. Ele queria deixá-lo descansar
plenamente. Normalmente, o tio Karn sempre parecia alguém
perpetuamente sem energia. O rosto dele não era muito
amigável — apesar de ser um vendedor, ele sempre exibia uma
expressão rígida e irritada. Sua personalidade era solitária,
não gostava de falar com ninguém.
Até agora, Marn ainda achava estranho que alguém como
o tio Karn tivesse escolhido abrir uma loja de leite de soja; o
comportamento dele não chegava nem perto do de um
mercador caloroso e amável.
Marn se aproximou e ajustou suavemente o cobertor do
tio, deixando-o dormindo calmamente onde estava. Em vez de
acordá-lo, ele foi fazer o trabalho doméstico, limpando vários
pontos. Onde quer que parecesse bagunçado, ele arrumava.
Depois de terminar o interior da casa, ele carregou as
coisas para fora e continuou a reorganizar o jardim — regando
as plantas, afofando a terra, podando galhos e arrancando
ervas daninhas. Marn fez tudo sozinho.
Quando quase duas horas haviam se passado, a área ao
redor da casa finalmente parecia mais limpa. Ele parou com as
mãos na cintura, sorrindo, e soltou um suspiro de alívio. Ele
virou as mãos para conferir — por sorte, não havia ferimentos.
Mesmo assim, ele precisava se limpar em seguida. O corpo
dele era sensível a germes; ele não deveria ficar sujo por muito
tempo.
Então, Marn correu para o andar de cima para tomar
banho e trocar de roupa. Ele se surpreendeu ao descer e
encontrar muita gente reunida no andar de baixo. O dono da
casa estava se levantando devagar para se sentar, com o
cabelo todo bagunçado e os olhos semicerrados como alguém
que não tinha dormido o suficiente. Ele parecia tão surpreso
quanto Marn ao ver tantos visitantes em casa.
— Marn!
Aquele grupo não era outro senão o círculo de amigos de
Marn. Eles estavam ali esperando, carregando sacolas cheias
de comida. Marn se aproximou, confuso, e então
cumprimentou o P'Nathi com um wai. Com o Ano Novo se
aproximando, P'Nathi tinha ido a uma barbearia para fazer um
corte novo, o que o deixou com uma aparência muito melhor
do que antes. Com o cabelo mais curto, o rosto dele parecia
mais jovem também. Se alguém dissesse que ele era um
veterano do terceiro ano do ensino médio, Marn acreditaria.
— Por que todo mundo veio? Aconteceu alguma coisa?
— Não é nada demais. Minha família vai dar uma festa de
Ano Novo e tem um monte de comida. Trouxe um pouco para
você. Achei que gostaria — Hem disse com um sorriso
enquanto entregava a comida.
Os olhos de Marn brilharam e ele imediatamente
agradeceu com alegria, pegando as sacolas. Se bem se
lembrava, o pai de Hem trabalhava na organização
administrativa local — provavelmente por isso ele conhecia
tanta gente.
Na época em que iam pedalar juntos, Marn lembrava que
Hem parecia conhecer quase todas as tias e tios da
comunidade. Onde quer que parassem, as pessoas traziam
comidas deliciosas para recebê-los. E olha só, havia macarrão
frito cheiroso, curries saborosos, sobremesas e bebidas de
ervas. Marn estava verdadeiramente feliz por ter amigos tão
atenciosos.
— Na verdade, a gente não trouxe só comida. Também
tem isso.
— Hein?
— Presentes de Ano Novo. Não são caros, mas são de
todos nós. E também são presentes de boas-vindas para você.
A gente percebeu que nunca tinha te comprado nada desde
que você se mudou para cá. Só queríamos que soubesse que
estamos muito felizes por termos te conhecido.
— Pessoal...
— Este ano foi um ano muito bom. Antes que ele passe,
queríamos agradecer.
Dessa vez, Ying deu um passo à frente com um pequeno
presente nas mãos. Marn o aceitou com deleite. Era um
chaveiro de crochê em forma de um patinho — redondinho e
fofinho, muito bonitinho. Ying disse que tinha pedido para a
mãe ensiná-la um pouco de crochê porque queria fazer algo
por conta própria como presente para esse amigo maravilhoso.
Marn se sentiu profundamente tocado ao receber seu primeiro
presente feito à mão.
— Espero que goste.
— Eu amei de verdade.
— E... obrigado por tudo até agora.
— Ryu...
— Muito obrigado mesmo.
Agora era a vez de Ryu. Marn sorriu amplamente ao
aceitar a imagem. Ryu a tinha pintado com tons suaves de
aquarela e já a tinha colocado em uma moldura. Marn a
segurou com cuidado, absorvendo cada detalhe. Ryu tinha
desenhado todos os cinco juntos em um estilo fofo. Quase um
ano havia se passado desde que se conheceram — será que já
fazia tanto tempo assim?
— E o meu é este! Tcharã!
— É tão fofo, Hem!
Marn aceitou outro presente. O que Hem deu a ele foi um
lenço bordado. Hem disse que o tinha comprado em uma feira
local — feito por um grupo de donas de casa. Quando viu o
bordado delicado, pensou em Marn e achou que seria útil
como um item pessoal. Marn segurou o lenço com o coração
cheio, sem nunca esperar que Hem fosse tão atencioso.
— E quanto ao Than? — todos perguntaram, virando-se
para o último amigo.
Aquele ali não tinha trazido nada consigo. Mas Marn não
se sentiu nem um pouco decepcionado. Ele nem sequer
esperava presentes para começar; aquilo tudo já estava muito
além de qualquer coisa que tivesse imaginado.
— Está em casa. Ele vai te entregar depois.
— Muito obrigado a todos. Desculpem por eu não ter
preparado nada para vocês. Depois do Ano Novo, vou levar
presentes para todo mundo na escola, tá bom?
— A gente pode esperar sempre~ Vamos trocar presentes
lá então. Fazemos isso todo ano, né, Ryu? — Ying disse,
fazendo um sinal de positivo e piscando antes de chegar mais
perto de Ryu e passar o braço pelo pescoço dele. Aquela
proximidade fez Marn se sentir inexplicavelmente aquecido ao
ver Ryu sorrindo de leve.
— Uhum.
— Ano Novo é tempo de família. Só vamos passar por aqui
rapidinho. Temos que voltar para as nossas casas agora.
Vamos comemorar juntos na escola mais tarde. Só viemos te
entregar os presentes e visitar um pouco; ficamos
preocupados que você pudesse ficar doente com esse frio.
— Eu estou muito bem. Obrigado de novo, Hem, e a todos.
Desejo muita felicidade para vocês também. Feliz Ano Novo,
pessoal.
— Feliz Ano Novo, Marn.
Marn abraçou todos os presentes contra o peito e acenou
se despedindo dos amigos. Hem tinha que correr de volta para
a festa da família. Ying também. Ryu disse que parentes do
lado da mãe dele viriam visitar, trazendo o irmãozinho dele que
tinha apenas alguns anos.
Desde aquele incidente, o pai de Ryu tinha se tornado
muito mais gentil, permitindo que Ryu visse a mãe sem
interferência. Parecia que ele se sentia profundamente
culpado pelas suas ações passadas e estava tentando mudar,
para ser mais digno de ser um pai.
Marn estava feliz que o pai de Ryu finalmente tivesse
tomado a decisão certa. Ele tinha certeza de que Ryu estava
muito mais feliz agora — talvez não o mais feliz que pudesse
ser, mas sem dúvida muito mais do que antes.
Isso era o melhor, porque o próprio Marn nunca queria
passar por algo assim de novo e não queria que acontecesse
com nenhum de seus amigos também. Se Ryu algum dia se
sentisse exausto ou sobrecarregado pela dor novamente, eles
tinham prometido que fariam tudo o que pudessem para
ajudá-lo.
— A família do Than também vai ter festa de Ano Novo em
casa?
Marn se virou para olhar para o outro amigo que ainda
estava parado ao lado dele. Than ainda não tinha ido a lugar
nenhum. Parecia que ele estava esperando para voltar junto
com P'Nathi, que tinha ido de fininho para a cozinha preparar
uma comida para o dono da casa.
Deve ser reconfortante ter alguém cuidando
constantemente do tio Karn desse jeito. Marn não pôde deixar
de se perguntar há quanto tempo P'Nathi era próximo do tio
Karn. Ele tinha ouvido falar que eles se conheciam desde o
começo, quando o tio Karn se mudou para cá há quase dez
anos. Marn deu uma espiadinha de lado e viu o tio Karn
enrolado apertado em seu cobertor, já deitado e dormindo de
novo.
Vendo o tio Karn dormir tanto assim, Marn começou a
achar que aquilo não era um descanso comum — era
praticamente uma hibernação de inverno.
— Sim. Vamos ter um jantar de confraternização esta
noite. O P'Wa vai voltar também — Than respondeu.
— Então todo mundo vai estar junto, né? Isso é muito
legal. A família devia se reunir no Ano Novo mesmo, né?
Than travou um pouco quando viu aquele sorriso. Só
então ele se lembrou — Marn não tinha pais. Ele tinha vivido
apenas com a avó antes, e agora havia apenas o tio. Os dois só
se conheciam há menos de um ano. Than não tinha certeza do
quão profundamente conectados ou compreensivos um com o
outro eles já eram.
Às vezes, ele se preocupava silenciosamente com o estado
emocional de Marn. Marn gostava de agir como se tudo
estivesse bem, sempre alegre, otimista, acreditando que a
positividade sozinha poderia superar qualquer problema. Mas
a vida real era muito mais complicada do que isso. Por mais
que Than estivesse preocupado, o máximo que podia fazer era
ficar ao lado de Marn e encorajá-lo dessa forma.
Mesmo que um dia Marn enfrentasse grandes
dificuldades, Than acreditava que ele era forte o suficiente
para superar qualquer coisa com certeza.
— Vamos. Vamos para casa.
— Sim.
— A gente se vê na escola, Marn.
— Você também, P'Nathi. Feliz Ano Novo.
Depois de terminar a preparação da comida para o dono
da casa, P'Nathi saiu com o irmão mais novo, deixando a casa
silenciosa e solitária mais uma vez. Marn caminhou e parou
na frente da fotografia emoldurada da avó. Ele juntou as
palmas das mãos em um wai e desejou baixinho um Feliz Ano
Novo para ela. Ele desejou felicidade para si mesmo e para o
tio, para os amigos e professores. De agora em diante, ele
tentaria viver sua vida ainda melhor do que antes.
Tão focado em rezar, ele não percebeu que o tio Karn já
tinha se levantado e estava parado ao lado dele. O homem
mais velho ergueu o olhar para a fotografia, encarando
silenciosamente a imagem da mãe.
Marn não conseguia nem começar a adivinhar quais
histórias estavam escondidas por trás daqueles olhos opacos e
sombreados.
Marn não sabia muito sobre o passado do tio Karn, mas
acreditava que devia ter exigido um esforço e uma força
tremendos para ele seguir em frente. No fundo, Marn queria
perguntar — queria dar voz às suas dúvidas — mas, se fazer
isso forçasse o tio Karn a reviver memórias dolorosas, então
Marn seria um bom garoto e nunca faria nada que pudesse
magoar o coração do tio.
— Quando eu tinha a sua idade, meu mundo era muito
menor do que este — Karn disse baixinho. — Eu me arrependo
de ter desperdiçado tanto da minha vida ouvindo o que os
outros diziam.
— Tio Karn...
— Tinha tantas coisas que eu queria fazer, mas não resta
mais tempo. Eu me arrependo de não ter sido mais forte por
mim mesmo naquela época.
— ...
— Eu sei que já disse isso muitas vezes, mas eu realmente
quero que você se lembre...
— ...
— Aconteça o que acontecer, seja forte por você mesmo.
Para que um dia, quando o seu eu do futuro olhar para trás,
você seja grato por quem você é agora.
Karn estendeu a mão e bagunçou suavemente o cabelo de
Marn. Naquele momento, pareceu que imagens sobrepostas se
fundiram — a criança na frente dele não era mais seu
sobrinho, mas ele mesmo na mesma idade. Aqueles olhos
nunca tinham realmente se libertado da tristeza. Vinte anos se
passaram, mas ele ainda não conseguia realizar seus sonhos.
Tudo o que ele podia fazer era suportar a vida silenciosamente,
sem paixão, com os sonhos extintos, sem forças para lutar por
eles mais — restando apenas as memórias e o
arrependimento.
Ele esperava que, quando Marn crescesse, olhasse para o
passado com orgulho, não com tristeza como ele fazia. Karn
pedia desculpas a si mesmo todos os dias — por ter se deixado
chegar a esse ponto. Em vez de abrir os braços e as pernas
livremente em um grande palco sob luzes brilhantes, ele não
tinha se tornado nada além de um homem velho cuidando de
uma pequena loja de leite de soja em um beco estreito.
Quanto mais se envelhece, menores os sonhos se tornam.
As escolhas diminuem até não haver mais caminho a seguir.
Sonhos são esmagados pela dura realidade deste mundo. Sem
um coração forte, a pessoa pode acabar perdendo os sonhos
da juventude — exatamente como aconteceu com ele.
Karn sentiu os olhos arderem um pouco. Ele não queria
passar vergonha na frente do sobrinho, então retirou a mão e
se virou para ir para o quarto.
Mas, naquele exato momento, Marn correu atrás dele.
Braços pequenos se envolveram firmemente em sua
cintura. Os olhos de Karn se arregalaram de surpresa, mas ele
não o afastou. Lentamente, ele se virou para encarar o
sobrinho. Os dois se encararam, com os olhos vermelhos e
brilhantes. Finalmente, a tristeza que o tio Karn tinha
acumulado por mais de vinte anos transbordou.
— Tio Karn, por favor, não fique triste — Marn disse
suavemente. — Para mim, você já é o melhor.
— Hic...
— Você tem se saído muito bem todo este tempo.
— ...
— Eu quero que você tenha mais orgulho de si mesmo.
— ...
— Sabe... o tio Karn merece ser agradecido também. Eu
acredito que, se o tio Karn daquela época pudesse encontrar o
tio Karn de hoje, ele se agradeceria também.
— ...
— Obrigado por ser forte todo esse tempo.
O tempo passou. Eventualmente, Marn se tornou um
veterano do terceiro ano. Durante o último Ano Novo, ele tinha
recebido tanta gentileza de seus amigos que retribuiu fazendo
cartões fofos à mão. Quando abertos, eles saltavam com
pequenos desenhos de papel dentro. Ele escreveu mensagens
de agradecimento e bons desejos, dando um para cada amigo.
Todos ficaram encantados e prometeram guardá-los com
carinho.
Até o Than deixou escapar que gostou do cartão do Marn
— disse que era fofo. Em troca, Than deu a ele uma pelúcia
grande de tubarão. Era adorável, gordinha e incrivelmente
macia — perfeita para abraçar enquanto dormia. Era tão
grande que Marn mal conseguia envolver os dois braços nela.
Depois das férias escolares, quando todos se
reencontraram, todos os alunos pareciam mais animados do
que antes. A empolgação pairava no ar, junto com os novos
alunos do primeiro ano — muitos deles bonitos — que
rapidamente se tornaram o centro das atenções. Por onde quer
que passassem, sussurros os seguiam.
Isso fez Marn pensar de volta em quando se transferiu
para esta escola pela primeira vez. Um ano tinha se passado.
Ele não era mais o garoto novo sem amigos. Agora era o
veterano Marn — junto com o infame título de ser o conhecido
aluno soropositivo da escola.
Em uma escola pequena assim, fosse aluno novo ou
antigo, todos falavam sobre o aluno com HIV. É claro que
Marn se sentia profundamente desconfortável com esse papel.
Ele não queria ser lembrado como "o paciente". Ele queria ser
visto apenas como um aluno comum.
Viver ouvindo constantemente as pessoas falarem dele
desse jeito o deixava inquieto. Era verdade que ele tinha
enfrentado isso a vida inteira, mas isso não significava que ele
pudesse algum dia se acostumar de verdade. Ele nunca tinha
mentido sobre quem era, mas quando as pessoas reagiam com
medo — como se ele fosse um vírus ambulante — ainda doía
profundamente.
Ele tinha ouvido inúmeras vozes falando sobre ele.
Aquelas vozes permaneciam em sua cabeça, acumulando-se
com o tempo. No passado ou no presente, ele não conseguia
escapar disso.
Marn só podia esperar que, um dia, as pessoas
entendessem melhor os sentimentos dele — e que os outros na
escola falassem dele de forma mais apropriada. Ele era apenas
soropositivo; sua condição não tinha progredido para a AIDS.
Ele tomava medicação antirretroviral, ia ao médico
regularmente e cuidava bem tanto do corpo quanto da mente.
Sob todos os aspectos, ele era um aluno saudável. Por fora,
não era nem um pouco diferente de qualquer outra pessoa.
Bem... este era o seu último ano do ensino médio de
qualquer forma. Ele só podia esperar que, depois disso,
encontrasse um mundo que o entendesse melhor do que
antes.
Marn apoiou o queixo na mão e olhou pela janela.
Finalmente, a primavera tinha chegado de novo. Um novo
período escolar. Outro passo adiante no amadurecimento.
Parecia que ele tinha se mudado para cá apenas ontem.
Naquela época, Marn era um garoto novo e sem noção que
não sabia nada sobre as pessoas ao seu redor. Ele ainda
estava de luto pela morte da avó, tentando ser forte do jeito
errado — reprimindo sua tristeza e dizendo a todos que estava
bem. Ele tinha prometido a si mesmo que nunca choraria,
nunca derramaria lágrimas, mesmo que isso fosse, na
verdade, a maneira mais fácil de superar a dor.
As pessoas não deveriam se apegar à tristeza por tempo
demais. Caso contrário, ela engoliria toda a felicidade que
tinham e toda a felicidade que ainda estava por vir. Marn levou
bastante tempo para passar por essa fase e, ao longo do
caminho, aprendeu muitas coisas. No fim, ele se tornou
alguém que sorria genuinamente — do coração — sem sorrir
mais apenas para encobrir a tristeza interior.
Um ano tinha se passado e muita coisa tinha mudado.
— Droga, isso é tão difícil. Eu vou mesmo passar na
prova?
— Calma. Olha a abordagem. Tá vendo? Você começa
achando o mol primeiro, depois coloca nessa fórmula. Quando
você descobre as variáveis, fica mais fácil. Primeiro, veja o que
o problema realmente te dá, aí você vai saber qual direção
seguir.
— Ryu, eu não aguento mais isso. Estou prestes a vomitar
hidróxido de sódio. Hic...
A voz de Ying ecoou junto com a de Ryu. Marn se virou
para olhar. Os dois estavam passando o intervalo do almoço
dando monitoria um para o outro. Ryu estava muito melhor
agora. Ele ia ao psiquiatra regularmente, ajudando a aliviar a
tristeza que tinha se acumulado em seu coração ao longo de
muitos anos. Ele também ouviu dizer que o relacionamento de
Ryu com o pai tinha começado a melhorar.
Agora, Ryu podia finalmente dizer em voz alta qual era o
seu sonho. Sempre que alguém perguntava, ele respondia
honestamente — ele queria ser ilustrador, ser um artista. Não
havia mais sonhos impostos a ele por outros. O brilho nos
olhos dele quando falava sobre o futuro era radiante. Marn se
sentia genuinamente feliz por seu amigo ter sido capaz de
proteger seu sonho. Com o talento e a determinação de Ryu,
Marn acreditava que ele com certeza entraria na Faculdade de
Belas Artes, assim como esperava.
Quanto a Ying, ela estava ocupada ganhando experiência.
Ela queria se tornar cantora. Ficava mais feliz sempre que
tocava música com sua banda. No passado, ela tinha
competido em vários palcos — às vezes ganhando, às vezes
perdendo. Ela ganhou prêmios e derramou muitas lágrimas ao
longo do caminho. Eventualmente, decidiu abrir um novo
caminho para si mesma formando oficialmente uma banda e
compondo músicas para lançar na internet.
No começo, ela teve amigos ajudando a compartilhar e
espalhar a novidade. As pessoas começaram a parar para
ouvir a voz dela e as músicas que ela mesma tinha escrito.
Marn ouviu dizer que a família de Ying também apoiava o
sonho dela. Ele esperava que um dia pudesse ver Ying se
tornar uma cantora e musicista famosa. E, se esse dia
chegasse, Marn correria para ser o primeiro da fila para o
autógrafo dela.
— Porra, minha cabeça dói. Estou tão saco cheio de ler.
Por que é tão difícil? Eu nem quero mais entrar na faculdade.
— Foca.
— Hic...
— Você não quer estudar no mesmo lugar que eu?
— Quero...
— Então você tem que tentar.
— Ryu.
— Se você conseguir fazer mais da metade deste simulado
hoje, eu te pago um frango frito na frente da escola.
— Você sempre me atrai com comida.
— E aí, topa?
— Tô dentro! Vamos lá! Tô animado!
Ryu balançou a cabeça levemente, sem conseguir evitar
um peteleco na testa de Ying.
Fosse no passado ou agora, Ying continuava sendo Ying
— sua melhor amiga durona e destemida que nunca cedia a
ninguém... exceto ao frango frito da barraca na frente da
escola.
Ninguém sabia por que ela amava tanto aquilo. Devia ser
sua loja favorita — ela comia lá desde o ensino fundamental, e
agora estava prestes a se formar no ensino médio e ainda não
tinha enjoado.
A tia dona da barraca provavelmente tinha uma receita
secreta projetada especificamente para prender os clientes
fiéis. Uma vez que você ficava viciado, não tinha como trocar
por outra loja.
Ying franziu a testa ligeiramente enquanto rabiscava as
respostas no teste. De vez em quando, ela olhava para cima
para pedir dicas. Ryu as dava de bom grado, mesmo quando
eram quase as soluções completas. Ele não conseguia evitar
de sentir pena dela sempre que a via coçando a cabeça até
deixar o cabelo uma bagunça.
Quando ela ficava empacada, fazia biquinho e
resmungava, pedindo para parar um pouco, usando todos os
truques possíveis. Se fosse qualquer outra pessoa além de
Ryu, já teria cedido há muito tempo.
Ryu apoiou o queixo na mão e olhou para o rosto dela,
com um leve sorriso se formando.
O calor em seu coração ainda estava lá — não tinha ido a
lugar nenhum. Mesmo que tudo o que ele pudesse ser agora
fosse o melhor amigo dela, isso já era o suficiente para ele.
Apenas estar ao lado dela assim, vendo-a sorrir e rir
alegremente todos os dias, era mais do que suficiente. Ele não
desejava nada além disso.
Algum dia, Ying poderia encontrar um novo amor. Mesmo
que essa pessoa não fosse ele, Ryu prometeu que continuaria
a apoiá-la e ficaria ao seu lado como seu melhor amigo para
sempre. Quando ela estivesse feliz, ele estaria feliz também.
Quando ela estivesse ferida ou triste, ele estaria sempre por
perto, nunca saindo do lado dela.
Porque o que ele sentia por Ying não era apenas uma
paixão passageira de primeiro amor. Não era meramente o laço
entre amigos próximos. O que Ryu sentia por ela era muito
mais profundo que isso. Ela tinha salvado a vida dele mais
vezes do que ele podia contar. Os sentimentos que ele
carregava eram tão vastos que nenhuma palavra poderia
realmente descrevê-los.
Ryu fez uma promessa silenciosa para si mesmo: não
importava o quão longo fosse o caminho à frente, não
importava quantas coisas boas ou ruins acontecessem, ele
seria sempre alguém em quem Ying poderia confiar.
— Ryu, essa questão...
Ying estava tão focada em seu livro que não percebeu que
esteve sob o olhar de alguém o tempo todo. Quando ela
chegava a um ponto que não entendia e não conseguia
avançar, ela instintivamente olhava para cima para perguntar
ao garoto de óculos sentado à sua frente, como sempre fazia.
Mas quando encontrou os olhos dele fixos nela, congelou por
um momento. Parecia que algo tinha faiscado dentro de seu
peito, uma sensação estranha de formigamento se
espalhando. Ela limpou a garganta sem jeito e rapidamente
baixou o olhar de volta para o papel.
Que diabos... Eu entendo isso menos ainda agora. Argh!
Estou perdendo o juízo completamente!
— E aí!
— Hem!
— Abram caminho, o personagem principal chegou.
Outro membro do grupo vinha logo atrás.
Hem entrou na sala de aula com uma aura dourada
praticamente irradiando dele. Um sorriso doce de roubar
corações adornava seu rosto enquanto ele piscava para as
pessoas aqui e ali.
Vários colegas não aguentavam mais sua presença
deslumbrante e gritaram para ele parar.
Hem parecia muito mais confiante do que antes. Embora
ele sempre tivesse sido forte, Marn sabia que, lá no fundo,
Hem já se sentira magoado por suas habilidades de atuação
serem ofuscadas por sua aparência. As pessoas costumavam
dizer que ele não era bonito o suficiente para ser um ator
principal, que não tinha a aparência necessária para ser uma
estrela. Sua pele não era clara, seus traços não eram
marcantes — ele só tinha seu talento para atuar.
Mas contanto que houvesse a menor oportunidade para
os outros verem suas habilidades, Hem a agarraria sem
hesitação. Aos poucos, ele subiu de papéis secundários
menores, esperando que um dia tivesse a chance de brilhar na
tela grande.
Alguns estudantes da idade deles eram descobertos
simplesmente por serem bonitos — sem necessidade de lutar
por seus sonhos da maneira que Hem fazia.
Marn entendia esse senso de injustiça. Mas Hem era
resiliente e paciente. Mesmo que o mundo não o aceitasse
agora, ele tinha traçado sua meta — fazer com que todos o
vissem como uma estrela algum dia.
— Você tem praticado muito ultimamente, né? Se
preparando para a competição de teatro em julho?
— É. Este ano, nossa escola vai participar de uma
competição de teatro pela primeira vez. Nenhum de us
competiu antes, canto, expressões faciais, design de palco, é
tudo novo. Então temos que ser bem rigorosos. Ahhh... Estou
exausto.
— Quer um doce? Eu tenho alguns.
— Seria bom. Só um.
— Aqui está.
— Valeu, Marn. Ah, cadê o Than?
— Er...
— Não me diga que ele faltou à aula de novo.
— Heh...
— Ahh... Eu sei que o terceiro ano não é mais tão rigoroso,
mas ele precisa mesmo sumir assim o tempo todo?
Hem balançou a cabeça levemente e olhou para o assento
vazio. O último período tinha se tornado um horário vago
porque o professor tinha uma reunião. Era para ser um tempo
para os veteranos estudarem para o vestibular — mas Than
aproveitou a oportunidade para matar aula. Mesmo sem
ninguém dizer, Hem já sabia para onde aquele cara tinha ido.
Havia apenas alguns lugares nesta escola onde aquele tal
"sereia" apareceria.
— O Than deve estar praticando pesado ultimamente
também.
— Parece que ele realmente está seguindo os passos do
irmão dele.
— Hum.
— No passado, o P'Nathi também era assim. Tudo o que
importava para ele era a natação. Ele não tinha nenhum outro
sonho. Prestar o vestibular era apenas um plano B para ele.
No fundo, ele queria mesmo se dedicar totalmente aos
esportes. O Than provavelmente é igual. Mas ele já é bom, a
cabeça dele funciona rápido, ele sempre foi inteligente. Ele
finge que não liga muito para os estudos, mas ainda fica em
primeiro lugar todo santo semestre. Sinceramente, ele é do
tipo quieto, estuda escondido sozinho. Antes que você
perceba, ele já é o melhor da sala. Ele poderia até competir em
olimpíadas acadêmicas se quisesse, mas ele simplesmente
não está interessado. Se ele realmente tentasse, teria chance
de entrar em qualquer faculdade que quisesse. Tudo depende
se ele quer ou não, se ele quer estudar ou focar tudo nos
esportes.
— Isso é incrível.
— Você é ótimo também, Marn. Você é estudioso e
esforçado. Com um esforço desses, você provavelmente
entraria em qualquer lugar que quisesse também.
— Eu ainda tenho muito no que trabalhar.
— Você ainda está em dúvida sobre o que quer prestar?
— É... um pouco. Sinceramente, não sei o que quero
estudar. Só sei que tipo de trabalho quero fazer. O tio Karn tem
me dado alguns conselhos.
— Isso é bom.
— O tio Karn disse que sou bom em várias coisas, então
eu deveria tentar descobrir no que sou melhor e depois
escolher uma faculdade que seja próxima disso. Agora restam
apenas algumas opções — talvez contabilidade, administração
ou economia.
— Oh...
— Eu não tenho realmente um sonho. Não tenho algo pelo
qual seja especialmente apaixonado como o Hem ou os outros.
É uma coisa ruim se alguém não tem um sonho? Eu
costumava me estressar com isso, por não conseguir
encontrar meu sonho. Eu não tinha nenhuma obsessão
particular ou interesse profundo em nada. Eu ficava me
perguntando: se for esse o caso, o que eu vou ser quando
crescer?
— ...
— Até que ouvi o tio Karn dizer que viver uma vida
pacífica e feliz no futuro também pode ser um sonho. Foi isso
— eu consegui desapegar. Mesmo que eu não tenha um
grande sonho como os outros, eu ainda posso encontrar a
felicidade para mim mesmo. Talvez tudo o que eu realmente
queira seja estar com meus amigos, estar com as pessoas que
amo, ter uma casa própria, um gato ou um cachorro... ah, e
muitas plantas coloridas também. Haha.
— Você se contenta com pouco. Isso é até invejável.
— Mas chegar nesse ponto provavelmente vai exigir muito
esforço e cansaço também.
— Se esse é o seu sonho, estou pronto para te apoiar.
— Obrigado. Eu também vou comprar uma TV bem
grande para casa, assim posso assistir às novelas da noite
onde o Hem é o protagonista.
— Então acho que vou ter que te comprar algumas
plantas e areia de gato como presente de agradecimento.
— Haha, você é engraçado, Hem.
Marn riu alto, sorrindo tanto que seus olhos se curvaram
em meias-luas. Ele parecia incrivelmente aliviado. Comparado
a algumas semanas atrás, Marn agora parecia entender seu
próprio futuro mais claramente do que qualquer um. Hem
estava confiante de que Marn escolheria o que fosse melhor e
mais adequado para si mesmo.
— O Than disse que vai prestar engenharia, né?
— É. Eu só espero que ele não foque só no treino de
natação e esqueça de estudar para as provas. Caso contrário,
tudo o que eu me gabei antes vai direto pelo ralo.
— O Than está estudando, de verdade. Quando não está
praticando natação, ele está sempre fazendo simulados.
— Hummm... Você sabe bastante sobre o Than, não é,
Marn?
Marn fez uma cara sem jeito, e isso só fez Hem querer
provocá-lo ainda mais. Como ele e os amigos não notariam o
que estava acontecendo entre os dois? O príncipe de gelo frio e
reservado finalmente tinha encontrado uma fraqueza, assim
como todo mundo.
Aquele amigo lobo solitário passou anos mantendo
distância, agindo com indiferença para com todos — mas
agora, com o Marn sentado perto dele todo dia, toda hora,
como ele não seria afetado? Completamente derretido por
aquele sorrisinho de sol, o coração dele já estava perdido.
E ainda assim, eles continuavam presos na amizade
depois de um ano inteiro, sem progresso nenhum. Talvez ele
quisesse mesmo ficar na friend zone.
— É-É só porque eu sento do lado dele. Então eu vejo ele
estudando. Só isso.
— É mesmooo?
— Claro que é verdade! Hem, não tenta me enganar.
— Te enganar como?
— Não sei mais! Ah — o sinal tocou! Já chega, a aula
acabou, Hem. Vamos, pessoal!
Hem não conseguiu mais segurar o riso. Marn o enxotou
apressadamente, com o rosto vermelho. Agora mesmo, ele
estava mais do que atrapalhado, cada reação gritava suspeita.
Qualquer um podia notar de longe o quão envergonhado ele
estava.
Bastou uma conversinha sobre amor e ele perdeu
totalmente a compostura, derrubando suas coisas enquanto
guardava o material, esquecendo objetos aqui e ali,
desajeitado e confuso do jeito mais adorável.
Não era de admirar que o tio Karn fosse tão protetor. Com
um sobrinho tão amável, se algum tubarão astuto tentasse
flertar com ele, uma verificação completa de antecedentes
seria obrigatória.
Hem observou as costas de Marn até ele desaparecer de
vista. Ele sabia exatamente para onde o outro garoto estava
indo agora. Parece que hoje, o bom menino do tio Karn
chegaria em casa mais tarde que o normal.
Suspiro.
Ele olha para um lado e tem um par de amigos flertando
docemente, estudando enquanto trocam olhares. Olha para o
outro lado e tem alguém sorrindo timidamente para si mesmo.
Enquanto isso, uma alma solitária como ele não consegue
evitar de sentir uma inveja danada!
Marn, tendo acabado de terminar as aulas, rapidamente
jogou a mochila no ombro e desceu do prédio, caminhando por
um caminho que conhecia muito bem. Seu destino era a
piscina da escola — um lugar familiar onde ele costumava
passar depois das 16h. Ele podia ouvir o som de alguém
nadando lá dentro e sabia exatamente quem era.
Marn caminhou lentamente para mais perto, depois
parou na borda da piscina, mantendo uma distância segura
para não escorregar e cair. Esta era a piscina grande, com
cerca de dois metros de profundidade, destinada a nadadores
experientes. Os iniciantes usavam a piscina adjacente — era
mais rasa e segura.
Os olhos de Marn acompanharam a silhueta escura se
movendo debaixo d'água.
Comparado ao ano passado, o movimento de Than tinha
melhorado drasticamente. Marn ficou boquiaberto ao ver Than
recuperar totalmente sua forma. Ele finalmente entendeu —
Than era realmente especial. Ele já tinha ouvido falar que
Than um dia deteve recordes de natação, atingindo uma
velocidade máxima que ninguém conseguia superar naquela
época. Vendo com seus próprios olhos agora, Marn realmente
acreditava — Than era aquele ex-campeão.
Ele não pôde deixar de sentir pesar pelos cinco anos que
foram perdidos. Se Than tivesse passado esses cinco anos
treinando e competindo em torneios, ele poderia ter se tornado
um dos nadadores mais extraordinários da atualidade.
Than realmente estava seguindo os passos de seu irmão.
Agora mesmo, ele se parecia exatamente com o que o P'Nathi
era na juventude. Marn já tinha assistido a vídeos das
competições de natação do P'Nathi antes — honestamente, os
irmãos desta família eram incríveis. Nenhum ofuscava o outro.
Than nadava em estilo livre de um lado para o outro da
piscina, competindo apenas consigo mesmo. Esta volta tinha
que ser melhor que a anterior. A próxima tinha que ser melhor
que esta.
Seus braços cortavam a água com velocidade, suas
pernas chutavam ritmicamente enquanto ele avançava — ágil,
fluido, como se tivesse vivido na água a vida inteira. Seus
músculos bem treinados lhe davam um porte equilibrado e
poderoso, tornando-o mais alto e largo do que muitos de seus
colegas de classe. Apenas alguns meses de intervalo e, quando
se encontraram novamente, Than já parecia um atleta de
seleção nacional.
Agora, seu físico era exatamente como o de P'Nathi
costumava ser — provavelmente porque ele tinha entrado em
um treinamento intensivo com seu irmão mais velho.
Habilidades passadas adiante, o que seu irmão aprendeu com
o pai deles foi então passado para ele.
Than nadou para mais perto da borda onde Marn estava,
então emergiu, balançando a cabeça e passando a mão no
rosto para limpar a água. O coração de Marn saltou uma
batida com a cena. Marn levantou a mão para coçar a
bochecha levemente, então lentamente desviou o olhar,
focando na superfície da piscina.
— Você melhorou muito na natação, Than.
— Eu vou para casa com você mais tarde. Só me deixa
praticar um pouco mais.
— Tudo bem. Não demore muito. Temos que correr de
volta e ajudar o tio Karn a vender leite de soja.
— Marn.
— Hum?
— Agora pouco... foi bom?
— Você acha que não foi bom?
— É. Sinto que ainda posso fazer melhor, mas ainda não
consigo chegar lá.
Ah... o tubarão está se pressionando de novo.
Marn sorriu suavemente, então tirou a mochila com
cuidado e a colocou ao seu lado. Ele deu um passo à frente e se
agachou cautelosamente na borda da piscina. Than nadou
para mais perto e segurou na borda, erguendo o rosto para
olhar para cima. Marn conseguia ver a tensão e a pressão
naqueles olhos.
Than realmente estava se esforçando — treinando
implacavelmente. Mesmo no inverno passado, ele vinha
praticar. Provavelmente se arrependia dos cinco anos que
perdeu, querendo compensar o máximo possível. A
competição de nível estadual no próximo mês poderia ser um
passo crucial para entrar na equipe nacional. Durante esses
cinco anos parado, inúmeros competidores surgiram. Mesmo
ex-campeões não podiam se dar ao luxo de serem
descuidados. Ele não podia deixar uma oportunidade como
essa escapar de novo.
— Você já se saiu muito bem, Than. Você já é incrível. Eu
consigo ver o quanto você está se esforçando. Você não precisa
se estressar ou colocar tanta pressão sobre si mesmo. Apenas
faça o seu melhor, isso é o suficiente. Eu sei o quanto você
quer ser um nadador e o quanto você ama nadar. Por isso,
quero que você nade com felicidade, não com esse estresse.
Carregar expectativas demais vai te deixar mais lento. Você
tem que jogá-las fora... vapt! Assim mesmo.
Marn fez um movimento de arremesso com a mão, como
se estivesse jogando todas as suas preocupações para longe.
Than não conseguiu mais conter o sorriso. Foi como se todo o
seu estresse tivesse sido realmente jogado de lado por Marn.
Apenas ver o rosto dele já fez Than se sentir mais calmo, e
ouvir aquelas palavras de conforto aliviou seu coração ainda
mais. Escolher confiar nesta pessoa realmente tinha sido a
decisão certa.
Than não sabia o que tinha feito para merecer conhecer
Marn, mas sentia que essa era uma das poucas e maiores
sortes de sua vida. O sorriso de Marn, sua risada, até mesmo
seus menores gestos eram como um lindo arco-íris
aparecendo após a passagem de uma tempestade. Só de ver,
você esquecia que tinha sido encharcado pela chuva apenas
alguns instantes antes. As palavras de Marn eram calorosas —
ele era como um sol de bolso vivo e pulsante. Alguém que você
gostaria de carregar para todos os lugares, para que sempre
que algo ruim acontecesse, você pudesse se encolher perto
dele e recarregar as energias.
No dia em que se conheceram, Than admitiu que nem
sequer deu atenção a Marn. Ele não tinha a intenção de lhe
dar nenhuma importância. Mas aqui estavam eles agora. Ele
tinha perdido completamente para a persistência de Marn —
totalmente derrotado. Aqueles olhos sorridentes eram
impossíveis de resistir.
Tão fofo, droga...
— O que foi? — Marn perguntou quando Than continuou
encarando-o por um longo tempo sem dizer uma palavra. O
olhar de Than parecia estranhamente doce, deixando Marn
um pouco tímido. Mesmo estando bem ao lado da piscina, seu
rosto parecia insuportavelmente quente.
Isso é ruim...
— Inclina-se um pouco.
Página 14
— Hein?
— Inclina-se.
— Por quê? Eu vou acabar caindo de cabeça na piscina.
— Só um pouquinho.
— ...
— Por favor?
Aquilo era estranho. Por que o Than estava tão carente
hoje? Mesmo que Marn estivesse intrigado, ele acabou se
inclinando. Ele colocou as duas mãos no chão para se firmar,
cuidadoso para não perder o equilíbrio. Cair na piscina seria
um desastre — especialmente porque Marn não sabia nadar.
Mesmo com Than por perto, ele realmente não queria cair de
forma tão patética agora.
— Cuidado. Senta direito.
— Eu estou tomando cuidado. Não me dê bronca, Than.
— Eu não estou te dando bronca.
— Só espera. Você adora me dar bronca. Um dia eu não
falo mais com você.
Enquanto Marn se inclinava mais perto, Than curvou os
lábios em um leve sorriso. Marn arqueou uma sobrancelha em
confusão — então, no instante seguinte, aquele tubarão
disparou da água e roubou um beijo rápido de seus lábios bem
diante de seus olhos.
O toque foi leve e fugaz, durando menos de um segundo.
Mas Marn congelou como se tivesse sido atingido por um raio.
O sobrinho do tio Karn arregalou os olhos, completamente
sem fala. Tudo o que ele conseguia fazer era ficar sentado ali,
com o rosto queimando de vermelho, paralisado na mesma
posição. Seus lábios pareciam quentes, tremendo
incontrolavelmente. Levou vários minutos antes de Marn sair
do transe e cobrir apressadamente a boca com a mão.
— Th-Than!
— O quê?
— ...
— O que foi?
— Não ouse dizer "o quê" desse jeito... — Marn
resmungou.
Ele conseguia ver o culpado boiando casualmente na
água. Than virou a cabeça e até mostrou a língua para ele!
— Você não pode fazer coisas assim, Than.
— Uh-huh.
— Não faz essa cara de inocente!
— Uh-huh.
— O irmãozinho do P'Nathi é tão teimoso.
— Uh-huh.
Marn cerrou os punhos. Por que o Than ficava mais
irritante a cada dia?!
Olha para ele — apenas boiando de forma tão casual,
provocando-o deliberadamente com aquela travessura de
rosto sério. Quanto mais Than agia assim, mais irritado Marn
ficava. Ele rapidamente se levantou, jogou a mochila no ombro
e gritou que estava indo para casa. Se ficasse ali por mais
tempo, Than o provocaria até seu coração explodir.
— Por que você está esperando?
Mesmo depois de um tempo, Marn ainda estava parado
lá, apesar de agir como se quisesse correr para casa. Than
ergueu uma sobrancelha e perguntou confuso. Marn se
recusou a olhar para ele. Ainda havia um leve rubor
persistindo em seu rosto.
Então é assim que alguém fica quando está envergonhado
e amuado... Ele nem sequer se virava.
— Você não disse que iríamos para casa juntos?
— ...
— Se você vem comigo, então se apresse e saia da piscina.
Temos que ir ajudar o tio Karn.
— ...
— Vamos, sai logo. Rápido.
— Sim, sim.
— E não me provoque de novo. Caminhe um pouco mais
longe de mim hoje. O que você fez antes — você realmente
merece uma surra. Se eu contar para o tio Karn, você com
certeza vai ser punido severamente.
— Você é tão cruel assim?
— Sim. Se você me provocar de novo, eu conto para o tio
Karn. Não faça isso de novo.
— ...Tudo bem.
— ...
— Eu vou ouvir tudo o que você disser, Marn.
— Se você está ouvindo, então se apresse e saia da
piscina. Agora. Ou eu vou mesmo para casa sem você.
— Então apenas fique parado aí e espere bonitinho. Já
vou chegar.
— Than!
Marn ficou boquiaberto e imediatamente se virou para
gritar com o garoto na piscina. Mas o bagunceiro não parecia
nem um pouco incomodado — ele até mexeu as sobrancelhas
de forma provocativa. Assim que Marn começou a bufar de
raiva, Than nadou para longe sem a mínima preocupação.
Enquanto esperava Than tomar banho e se trocar, Marn
levantou a mão para esfregar levemente o peito, depois deu
alguns tapinhas nas bochechas, tentando conter o
constrangimento. Um pé estava prestes a se afastar para
esperar em outro lugar — mas então algo subitamente lhe
ocorreu, e ele recuou o pé, ficando onde estava com a mochila
no ombro.
N-Não é como se tivesse acontecido alguma coisa! Eu só
não estou a fim de andar para outro lugar. E se o Than voltar e
não me vir? Então a gente vai se desencontrar e ter que esperar
de novo. Que horas a gente vai chegar em casa, afinal?!
Não estou pensando nada estranho. Sério.
Não estou esperando aqui porque ele me disse para
esperar. Eu não quero parecer bonitinho nem nada... Mas
esperar pelo Than aqui também não tem problema. Eu
realmente não quero ser bonitinho. Sério!
35
— Pronto?
— Hum.
— Respire fundo. Não fique tenso.
— ...
— Você consegue. Acredite em si mesmo, Than.
Nathi disse enquanto estendia a mão para dar um
tapinha no ombro do irmão mais novo. O que Than estava
prestes a enfrentar era uma das maiores batalhas que ele teria
que vencer. Anos atrás, quem estava parado ali, nervoso, era o
próprio Nathi. Olhar para Than agora o fazia lembrar de sua
versão mais jovem.
Os caminhos dos sonhos dos três irmãos dessa família
eram surpreendentemente parecidos. Todos foram inspirados
pelo pai. Quando crianças, eles espalhavam água e brincavam
juntos na piscina — peixinhos nadando lado a lado —
prometendo que um dia se tornariam mestres das águas.
Nathi já havia conquistado isso uma vez. Ele se tornou
um nadador de competição bem-sucedido no início dos seus
vinte anos. Infelizmente, aquela era de ouro não passou de
uma lenda. Agora, tudo o que ele podia fazer era olhar para
trás. Ele não podia mais alcançá-la novamente.
Um grande tubarão mako, uma vez que sua barbatana é
cortada, nunca mais pode retornar às águas abertas.
Mesmo assim, ele não sentia arrependimento.
Embora não pudesse mais voltar ao seu antigo ponto de
partida, contanto que pudesse ver todos os seus irmãos mais
novos alcançarem a margem de seus sonhos felizes, isso por si
só já era mais do que suficiente para enchê-lo de orgulho. Ele
prometeu a si mesmo que ficaria bem aqui, assumindo o papel
do pai — cuidando de todos, guiando-os através de cada
obstáculo — para que seus sonhos de infância pudessem
finalmente ser realizados.
Hoje era o dia em que Than teria que provar sua
perseverança.
Depois de ficar longe do mundo da natação por cinco
longos anos, voltar a ficar firme nesta arena não era uma
tarefa fácil.
Than passou quase dois anos preparando seu corpo,
treinando incansavelmente, fortalecendo tanto sua resistência
física quanto sua determinação mental. Ele viajou pelo país,
acumulando pontos em competições grandes e pequenas, até
que o dia tão esperado finalmente chegou. Este era o mesmo
estágio que seu irmão mais velho já havia cruzado com
sucesso — uma muralha imponente que Than agora tinha que
superar sozinho. Se conseguisse, ele se tornaria um dos
membros da seleção nacional de natação, ganhando a chance
de representar o país e competir contra adversários ainda
maiores no exterior. O exato mesmo lugar onde seu irmão um
dia esteve.
Foi uma pena que o que aconteceu naquela época tenha
forçado Nathi a se retirar da representação do país. Embora
Than não dissesse muito em voz alta, no fundo seu coração
continuava pressionando-o implacavelmente. A culpa do
passado ainda persistia — nunca havia sumido
completamente. Só depois de se esforçar tanto é que Than
entendeu de verdade a profundidade da tristeza que seu irmão
sentiu naquela época. Hoje, essa percepção parecia mais
nítida do que nunca. Nathi lutou tanto, suportou um
treinamento tão exaustivo, apenas para chegar até aqui. Só
havia uma palavra para isso: lamentável.
Era realmente lamentável que seu irmão nunca tivesse
tido a chance de realizar seu próprio sonho. Tudo o que ele
podia fazer agora era ficar na beira da piscina, batendo palmas
e torcendo. Ele não podia mais competir, nem sequer enviar
seu nome para se tornar treinador de atletas.
Than pensou nas vezes em que observou as costas de seu
irmão cortando a água à sua frente — quando Nathi era um
enorme tubarão mako. Ele parecia mais feliz e livre do que
qualquer outra pessoa. Suas braçadas eram rápidas e
poderosas. Than não se comparava em nada a ele naquela
época.
Ele desejava que quem estivesse parado aqui hoje fosse
Nathi, não ele mesmo.
— Ei, eu disse para não perder o foco antes da corrida.
Nathi se aproximou, percebendo o desânimo nos olhos do
irmão mais novo. A competição começaria logo — não era hora
de deixar pensamentos confusos drenarem seu espírito.
O objetivo de Than era claro: ele tinha que conquistar o
primeiro lugar no evento individual para ser selecionado para
a seleção nacional. Levou quase dois anos para ele chegar a
este ponto.
Mesmo com uma base forte, afastar-se do esporte por
cinco anos significava que ele precisava correr para alcançar
os outros. Agora, aos vinte anos, o corpo de Than tinha
crescido mais forte e mais refinado — digno de um nadador
que já havia vencido vários campeonatos. Ele acumulou
pontos constantemente até que finalmente se qualificou para
estar aqui.
Nathi não podia atuar como seu treinador principal,
então ele confiou Than a um dos amigos de seu pai, enquanto
permanecia por perto para oferecer orientação pessoalmente.
Foi por isso que Than estava tão bem preparado. Ainda assim,
havia uma certa fragilidade persistindo no coração de Than e
Nathi não queria ver aquela expressão no rosto dele
novamente.
— Voltei.
Um momento depois, Warin voltou do banheiro. Ela tinha
se apressado para resolver seus assuntos para não perder um
segundo da competição do irmão mais novo. Antes, Than
parecia confiante, mas agora parecia sobrecarregado por algo
pesado. Os dois irmãos mais velhos não hesitaram —
aproximaram-se, cada um colocando uma mão nos ombros de
Than e dando um aperto gentil e encorajador.
— Than, me escuta — disse Nathi.
— ...
— Não fique pensando no passado. Você não está aqui
para compensar nada por mim. Este é o seu sonho — o seu
futuro. Eu não estou aqui com arrependimento ou tristeza.
Pelo contrário, estou feliz... e incrivelmente orgulhoso de ver
você parado bem aqui.
— ...
— Siga em frente. Não fique preso ao que já passou.
— ...
— Estaremos bem aqui, torcendo por você. Não vamos a
lugar nenhum.
Warin ouviu cada palavra que seu irmão mais velho disse,
e seu coração se encheu de alegria. Ela estava tão feliz de ver
os três irmãos lado a lado novamente. Depois de receber o
incentivo de Nathi, a expressão de Than finalmente começou a
iluminar. Não importava o passado ou o presente, Nathi
sempre foi o irmão mais velho favorito de Than.
O que quer que Nathi dissesse, Than ouvia. Ela não se
sentia desdenhada pelo quão próximos os dois irmãos eram —
afinal, ambos eram homens. Ela era a única filha da família,
então era natural que eles fossem mais próximos um do outro.
Nathi sorriu suavemente e estendeu... a mão para afagar
as cabeças de seu irmão e de sua irmã. Ao longe, as vozes dos
oficiais podiam ser ouvidas — estava quase na hora de entrar
na piscina. Eles tinham que deixar Than ir; chegar atrasado
poderia resultar em desclassificação.
Nathi ofereceu mais algumas palavras de incentivo,
dando um tapinha leve nas costas do jovem atleta, dizendo
que eles assistiriam da arquibancada. Embora fosse irmão de
sangue de Than, ele não tinha permissão para entrar na área
de competição. De agora em diante, seria responsabilidade do
treinador principal.
— Apenas dê o seu melhor. A mamãe se arrumou toda
hoje só para torcer por você.
— Hum.
— Vá em frente. Lute, maninho.
Nathi se virou para sair, mas antes que pudesse dar outro
passo, ouviu passos rápidos e pesados batendo em sua
direção. Ele se virou a tempo de cambalear um passo para se
equilibrar — quem diria que seu irmãozinho travesso viria
correndo e o abraçaria apertado daquele jeito? Warin mal
podia acreditar no que via. Nenhum dos três disse uma
palavra. Eles simplesmente ficaram ali, envolvidos em um
abraço silencioso, sentindo o encorajamento fluir através
daquele toque.
Than se sentiu totalmente curado, sua força
completamente restaurada. Satisfeito, ele finalmente se
afastou e seguiu o treinador principal em direção à piscina de
competição.
Nathi e Warin continuaram parados ali, observando as
costas do irmão mais novo enquanto ele se afastava. Um leve
brilho de lágrimas cintilava nos olhos de ambos. Eles
esperavam de todo o coração que o pai deles ficasse feliz vendo
aquela cena — porque eles realmente estavam.
O nadador seguiu em frente com confiança.
Diante dele havia uma vasta piscina azul, cercada por
inúmeros espectadores esperando ansiosamente por esta
competição crucial. Than olhou ao redor. Daqui, ele não
conseguia ver onde sua família estava sentada, mas sabia que
eles o observavam com orgulho.
Um apito curto soou, sinalizando para os atletas
retirarem seus agasalhos de aquecimento, revelando o físico
bem definido de um homem de vinte anos esculpido pela
disciplina e pelo treinamento rigoroso.
Than colocou os óculos e preparou o corpo. Então veio um
apito longo. Ele subiu no bloco de partida, olhos fixos na água
à frente, estreitando seu foco. Seu coração batia
descompassado, o sangue correndo pelas veias. Cada músculo
respondia em perfeita coordenação.
Than respirou fundo, contando os segundos para a
largada. Ele bloqueou todas as sensações externas,
deixando-se mergulhar nas emoções avassaladoras em seu
peito. Ele seria um grande tubarão branco — um de quem
todos pudessem se orgulhar. A partir deste momento, ele
cortaria a água lindamente, mais rápido e mais preciso do que
qualquer outro.
Tchibum!
No instante em que seu corpo colidiu com o frescor
revigorante, Than se tornou um com a água. Seus membros se
moviam em harmonia impecável. O treinamento exaustivo, as
experiências — tanto boas quanto ruins — e o incentivo
daqueles ao seu redor, tudo se fundiu em uma força poderosa
que o impulsionava para frente em velocidade máxima. O
mundo exterior desapareceu. Ele ouvia apenas seu coração,
movido por um único desejo de ser o tubarão mais rápido na
água, para superar seus próprios limites, dando tudo de si
nesta corrida.
Ao chegar à parede, Than tocou a borda e executou uma
virada crossover — uma técnica de assinatura que Nathi
dominava como ninguém. Complexa, mas a maneira mais
rápida de inverter a direção. Vendo o irmão mais novo
realizá-la, Warin e a mãe deles — assistindo da arquibancada
— ficaram paralisadas de admiração. Em Than, elas viram
tanto Nathi quanto o pai. Lágrimas brotaram nos olhos da mãe
enquanto uma das mãos acariciava suavemente sua aliança
de casamento.
Embora ele não estivesse mais fisicamente aqui, ela
sentia como se ele nunca tivesse partido de verdade.
O pai deles vivia dentro de seus filhos. Em Nathi, ela via
gentileza e bondade; em Warin, brilho e calor; em Than,
coragem e força. Cada um dos três carregava uma parte do pai
dentro de si. Ela olhou brevemente para o assento vazio ao seu
lado, depois sorriu suavemente, esperando que ele estivesse
observando o filho deles com o mesmo orgulho que ela sentia.
Obrigada... de verdade... por me dar esses três filhos
preciosos.
Than não tinha ideia do que estava acontecendo ao seu
redor. Tudo o que ele sabia era que seu corpo inteiro estava
queimando enquanto ele avançava pela piscina com
ferocidade. Seus braços se moviam rapidamente,
impulsionando-se para frente o mais longe e o mais rápido
possível até que as pontas dos seus dedos tocassem a parede
da piscina pela última vez, marcando o fim da corrida.
Than emergiu, ofegante, flutuando ali enquanto se trazia
de volta ao presente. Um por um, os outros atletas o seguiram.
Suas pupilas se dilataram quando ele viu os resultados da
competição.
Than não conseguia mais lembrar por qual caminho
andou depois de sair da piscina, o que fez ou qual expressão
vestia. Depois que a corrida terminou, ele foi encontrar o
treinador principal primeiro e depois procurou imediatamente
por sua família. Claro, seu irmão e sua irmã vieram correndo
em sua direção de longe. Than só entendeu de verdade seus
próprios sentimentos quando ambos o envolveram em um
abraço apertado daquele jeito.
— Você conseguiu, Than!
— Phi...
— Você foi incrível!
Than não conseguia dizer uma palavra, mas podia sentir
claramente como o corpo inteiro de seu irmão mais velho
estava tremendo. Nathi o segurava firme, balançando de um
lado para o outro, com uma mão dando tapinhas repetidos em
suas costas. Warin também não hesitou — ela correu e o
abraçou com a mesma força. Lágrimas escorriam pelo seu
rosto de pura alegria.
Do momento em que viu Than disparar na frente, seu
coração bateu sem parar, até o último segundo quando viu a
mão dele tocar a parede da piscina e reivindicar a vitória. Ela
gritou com toda a força de seus pulmões, pulando para
abraçar a mãe e o irmão, antes de correr aqui para baixo o
mais rápido que pôde para ver o orgulho da família deles.
— Mãe... eu consegui.
Than se virou para olhar para a mãe. Ela assentiu,
abrindo os braços para receber o filho. Lágrimas corriam
livremente pelo rosto de uma mãe enquanto ela olhava para
todos os três filhos com orgulho. Finalmente, o filho mais novo
seguiu os passos de seus irmãos. O irmão mais velho já havia
se tornado uma lenda. A irmã do meio estava no auge do seu
brilho. E agora o mais novo estava logo atrás deles. Ainda
haveria muitas provações pela frente — ela esperava que Than
não desistisse, que ele continuasse forte assim. Um dia, ele
certamente estaria no exato mesmo lugar que seus irmãos e
seu pai.
— Estou tão orgulhosa de você, Than.
— Obrigado, mãe.
— Você foi muito bem, meu filho.
Vários minutos se passaram antes que o momento em
família finalmente chegasse ao fim. Os olhos de Than ainda
estavam vermelhos e úmidos, mas a vontade avassaladora de
chorar tinha começado a sumir. Ele já tinha saído da área de
competição. Seus olhos vasculhavam os arredores enquanto
ele esticava o pescoço, claramente procurando por alguém.
Nathi, andando ao lado dele, não pôde deixar de rir — ele sabia
exatamente o que o pequeno tubarão estava pensando.
— Phi.
— Sim?
— Meu namorado...
Sério, que irritante — crianças hoje em dia.
— Than!
Lá estava ele — bem ali. Uma voz brilhante e alegre ecoou
de longe. Só de ouvir aquela voz familiar, Than sorriu
suavemente, com os olhos brilhando.
Menos de um minuto depois, os dois correram um em
direção ao outro. Marn envolveu Than em um abraço
apertado, dando alguns tapinhas em suas costas. Ele sorria de
orelha a orelha, cheio de orgulho. Ao lado dele estavam três
rostos muito familiares — seus amigos de infância.
Todos eles vieram aqui para apoiar Than. Este era um dia
importante. Claro que os amigos que cresceram juntos não
deixariam de enviar seu incentivo ali mesmo, na beira da
piscina.
Marn, Hem, Ying e Ryu — a essa altura, todos já tinham
se tornado estudantes universitários. Não eram mais as
crianças travessas sob os cuidados do Professor Nathi. Um
estudava artes; Ryu tinha se tornado um artista de mão cheia.
Arte digital estava popular hoje em dia, e ele aceitava
encomendas online para ganhar um dinheiro extra enquanto
estudava. Outro tinha ido para a atuação — parece que o
futuro de Hem era brilhante.
Depois de se formar no ensino médio, seus traços mais
marcantes chamaram a atenção de caça-talentos, levando-o a
audições. Mesmo que ainda não fosse um ator principal, subir
degrau por degrau através de papéis coadjuvantes ainda era
um grande passo para mais perto de seu sonho. Ying,
enquanto isso, estava brilhando como uma cantora iniciante.
Ela tinha sua própria banda, escrevendo músicas com amigos
— sem dúvida haveria músicas de sucesso chegando em
breve.
Quanto ao sobrinho do Tio Karn, embora sua vida não
fosse tão chamativa ou emocionante quanto a dos outros, ele
parecia genuinamente feliz e radiante para a sua idade. A vida
universitária estava cheia de amigos maduros que o
entendiam e respeitavam sua condição. Ninguém mais
entendia errado ou falava mal de quem Marn era. Todos o
aceitavam e sempre o incentivavam. Ele encontrou um novo
grupo de amigos com quem realmente se identificava, vivendo
uma vida divertida e cheia de alegria.
Eles se revezaram abraçando o mais novo nadador da
seleção nacional, elogiando o desempenho excepcional de
Than hoje. O tubarão branco bonitão, elogiado demais,
começou a resmungar timidamente — tão envergonhado que
parecia que poderia se encolher e virar uma foca a qualquer
momento.
— Than, você é o melhor.
Marn o elogiou com um sorriso largo, com os olhos
apertadinhos. Ele estava verdadeiramente feliz por Than —
tanto que queria gritar para o mundo inteiro que Than era o
melhor nadador de todos os tempos.
— De agora em diante, continue dando o seu melhor.
Sempre vamos te apoiar. Espero que você chegue até o palco
mundial!
— Você está exagerando.
— Estou falando sério. Eu até gravei um vídeo enquanto
você nadava. Vou assistir de novo mais tarde, você foi incrível.
— Você é sempre tão bom em botar seu namorado lá em
cima?
— Do que você está falando?
Marn travou, sentindo os olhares de provocação de todos
ao redor. Ele estava ficando envergonhado — especialmente
porque a mãe de Than ainda estava bem ali! Como Than podia
dizer algo assim na frente de todo mundo? Quanto mais velho
ficava, mais vontade de dar um soco o Than dava!
Agora... Marn provavelmente não conseguia mais negar,
não é? Que o relacionamento dele com Than não era mais
apenas sobre sentar na mesma mesa como amigos.
— Marn.
— Hum?
— Vamos ser namorados.
— ... Espera! Você está pedindo assim, do nada? Você de
repente diz algo como...
— É. Estou pedindo desse jeito.
— ...
— Se eu esperar mais, alguém pode chegar primeiro.
Naquela época, enquanto estudavam calmamente para as
provas juntos, o irmão mais novo de Nathi soltou aquilo de
repente. Todo o conhecimento de física de Marn evaporou
instantaneamente. Naquela noite, ele foi para casa com o rosto
ainda queimando de vermelho, até que o Tio Karn cruzou os
braços e o encarou, forçando Marn a confessar honestamente
que alguém o tinha pedido em namoro. Marn piscou nervoso,
esperando pelo veredito. O Tio Karn apenas suspirou e deu um
tapinha gentil em sua cabeça.
— Diga isso a ele, se ele um dia fizer meu sobrinho chorar,
tanto ele quanto o irmão dele serão responsabilizados.
Mesmo agora, Marn ainda estremecia quando lembrava
do olhar do Tio Karn. Talvez tenha sido sorte para aqueles dois
irmãos que o relacionamento de Marn e Than tenha corrido
bem, sem nenhum problema. Marn estava honestamente
apavorado que, se ele um dia chorasse, o Tio Karn invadiria a
casa daquela família para acertar as contas.
— Certo, certo. Deixem o Than ir descansar primeiro.
Vamos comemorar mais tarde.
— É. Than, vá descansar com sua família.
— Obrigado por virem hoje.
— Como não viríamos? Nosso amigo já é o melhor
nadador da seleção nacional. Só de pensar em ver você
competir no palco mundial já me dá arrepios.
— É isso aí, caramba, você é absurdamente legal, Than.
Than assentiu suavemente, profundamente emocionado
com essa amizade. Eles estiveram juntos desde a infância —
brincando, rindo, aguentando tempos bons e ruins juntos.
Crescer e se tornar pessoas de sucesso não foi fácil. Cada um
deles já havia sentido dor e decepção antes. Como tiveram
sorte de terem encontrado uns aos outros, para curar e apoiar
uns aos outros, para crescerem sem perder ninguém pelo
caminho. Olhando para trás agora, aqueles dias foram
verdadeiramente preciosos.
— A gente se vê mais tarde, Than. Estamos voltando para
o dormitório. Aproveite um tempo de qualidade com a sua
família.
— Marn.
— Hum?
Marn diminuiu um pouco o passo. Os outros já tinham
ido na frente, deixando apenas os dois para trás. Ele inclinou a
cabeça com uma leve curiosidade, mas seus olhos se
arregalaram quando a mão grande de Than de repente
segurou o topo de sua cabeça, puxando-o para perto. Antes
que Marn pudesse reagir, Than pressionou um beijo suave no
centro de sua testa.
O rosto de Marn queimou instantaneamente. Felizmente,
ninguém viu, caso contrário ele ficaria com vergonha demais
para encarar qualquer pessoa.
— Than!
— Volte com cuidado. Não saia por aí andando à toa.
— Para onde eu iria?
— Você tem um monte de amigos que estão sempre te
convidando para sair — bingsoo, churrasco... sua barriga vai
acabar crescendo.
— Como se todo mundo pudesse ter um corpo como o
seu. Atletas, né.
— Hum.
— Pare de fazer essa cara irritante. Eu vou te dar um
soco.
— Então agora você vai apelar para a violência?
— Ai, eu só estava falando. É porque o Than gosta de me
provocar. Quando seus irmãos mais velhos e sua mãe não
estão por perto, você realmente perde a linha. Ultimamente
seu comportamento está piorando. Se algum amigo resolvesse
se virar e visse, o que a gente faria?
— O que você está resmungando e reclamando aí?
— Than!
— Todo mundo já sabe.
— Bom, é que...
— Tímido?
— Hum... tenha um pouco de compaixão por mim, pode
ser?
— Sim.
— Já chega. Chega de me provocar. Ande direito.
— Sim, sim.
— Por que eu ainda sinto que o Than está testando a
minha paciência?
— É coisa da sua cabeça.
— Só anda. Não me provoque. Depressa, alcance os
outros logo.
— Marn, obrigado por ter vindo hoje.
— Eu não devia ter vindo? O Than disse que, se não me
visse, desistiria da competição. Foi porque você me ameaçou
desse jeito que eu tive que vir.
— Eu só estava falando... quem desistiria do próprio
sonho tão facilmente?
— Que bom, então.
— Obrigado por estar sempre ao meu lado.
— Hum.
— Por causa de você, eu consegui voltar para a piscina, a
nadar de novo. Se não fosse por você, provavelmente não
existiria o hoje.
— ...
— Obrigado por me deixar te abraçar quando eu estava
exausto. De agora em diante... se eu te pedir para continuar ao
meu lado assim, estaria tudo bem?
— Eu já fico feliz em fazer isso. O Than não precisa se
preocupar. Eu vou ficar ao seu lado e te apoiar para sempre!
— Hum.
— Eu tenho muita sorte de ter te conhecido, Marn.
— Eu seeei.
— Você é tão puro, Marn!
— Pessoal, vamos tirar uma foto!
— Aqui, depressa!
Gritos animados ecoavam de longe. Nathi caminhava com
as mãos nos bolsos antes de parar e ficar imóvel para sentir a
brisa na praia. À sua frente se estendia o mar vasto, o azul do
oceano encontrando o azul do céu no horizonte. As ondas
quebravam contra a areia, com seu som ecoando por toda a
área. O ar fresco do mar roçava seu rosto. O professor Nathi,
incrivelmente bonito, respirou fundo para absorver o máximo
de energia possível da natureza. Quando abriu os olhos
novamente, viu um grupo de adolescentes abraçados, tirando
fotos e rindo alegremente. As vozes animadas deles chegavam
até ele.
Ele tinha tomado a decisão certa ao trazê-los aqui para
comemorar. Depois que a competição do Than terminou, ele
quis dar um presente ao seu irmão mais novo, então decidiu
alugar uma van grande e levar todo mundo em uma viagem até
o mar. Ele tinha visto aquelas crianças desde quando mal
batiam na altura do seu quadril, e agora todos tinham se
tornado jovens homens e mulheres. Estavam na idade da
juventude florescendo — o que poderia ser mais alegremente
adolescente do que isso?
— Você não vai descer para brincar na água com eles? Por
que está aí parado com essa cara fechada? Estamos no mar,
pelo menos divirta-se um pouco.
— Estou preocupado com o Marn. Você sabe que a água
do mar é suja. E se ele pisar em uma concha e se cortar? E aí?
— Ah, qual é, P'Karn. Você está tão preocupado assim
com o seu sobrinho?
Nathi riu baixinho e olhou para a pessoa ao seu lado.
Hoje, P'Karn usava óculos escuros estilosos e um fone
Bluetooth, parado de braços cruzados enquanto encarava o
mar. Era realmente uma visão rara. Nathi o tinha bajulado por
muito tempo até que Karn finalmente amoleceu e concordou
em fechar sua loja de leite de soja para vir em uma viagem à
beira-mar como essa. Ele praticamente teve vontade de se
curvar aos seus pés em gratidão.
Desde o dia em que Marn foi aceito na universidade, tio e
sobrinho passaram a viver separados. Karn não estava mais
sustentando Marn financeiramente. Aquele garoto era capaz
de assumir a responsabilidade pela própria vida. Ele tinha
recebido uma bolsa de estudos da universidade, tinha uma
mesada mensal e sabia como encontrar trabalhos de meio
período para não sobrecarregar o tio. Marn tinha dito uma vez
que não queria ser um fardo para ninguém. De agora em
diante, ele cresceria como um adulto capaz que poderia cuidar
bem de si mesmo. Ele pediu ao tio para não se preocupar,
prometendo que cuidaria de si mesmo o melhor que pudesse.
— O tempo realmente voa, não é? Em pouco tempo,
aquelas crianças cresceram tanto.
— Hum.
— Você provavelmente se sentiu da mesma forma
também, né... quando me viu crescer e virar um adulto?
— Você tem a cara mais pau do que aquelas crianças.
— Haha, sério? Isso é muita maldade.
— ...
— Mas ser capaz de estar ao seu lado assim — eu diria
que ser sem-vergonha e paciente por dez anos valeu a pena.
Karn piscou devagar, depois parou de prestar atenção nas
crianças e se virou para olhar para a pessoa ao seu lado. Ele
não sabia desde quando Nathi tinha começado a olhar para ele
com olhos tão gentis.
Nathi estendeu a mão, puxou um lado dos fones e o
colocou casualmente em seu próprio ouvido. Uma música
suave e relaxante começou a tocar, combinando perfeitamente
com a atmosfera. As músicas que Karn gostava eram
geralmente melodias simples que acalmavam a mente. Nathi
também gostava desse tipo de música. Sempre que havia uma
parte de que se lembrava, ele cantarolava baixinho. Às vezes
ele não resistia e se virava para provocar a pessoa ao seu lado
com aquelas letras excessivamente doces e cafonas.
Karn permanecia parado com os braços cruzados. Por
trás dos óculos escuros descolados, seus olhos reviravam em
sinal de exasperação. Ele estava mesmo recebendo uma
serenata de um cara dez anos mais novo que ele agora?
Quando a canção de amor doce terminou, a faixa seguinte
mudou para um clima diferente. Nathi estancou ao ouvir
música clássica começar a tocar. A melodia era
primorosamente bela — apenas ouvi-la transmitia uma
sensação de graça e elegância. Suas brincadeiras pararam
imediatamente. Ele se virou para olhar para a pessoa ao seu
lado.
De repente, Karn, que estivera parado por tanto tempo,
soltou um longo suspiro. Ele descruzou os braços, retirou os
óculos escuros e os sapatos, deixando-os para trás. Descalço,
ele deu um passo à frente, levantando os braços e as pernas
pouco a pouco para relaxar os músculos. Sua camisa branca
fina flutuava com a brisa. Lentamente, ele abriu os braços. A
graça fluía em cada movimento, alcançando até a ponta de
seus dedos. Suas costas se endireitaram, revelando seus
ombros com uma postura elegante.
Nathi olhava sem piscar. A música em seus ouvidos
abafava todo o resto. Refletido em seus olhos estava apenas o
movimento bonito diante dele.
Karn fechou os olhos suavemente para saborear a
sensação mais uma vez, depois de ter ficado longe dela por
vinte anos. Seus pés pressionavam a areia; a superfície
irregular tornava mais difícil manter o equilíbrio, mas ele
ainda tentava se mover, balançando o corpo. Seus dedos
traçavam o ar delicadamente. Ele dobrava o corpo aos poucos,
alternando com o movimento de subir na ponta dos pés. Ele
sabia bem que seu corpo agora poderia não ser mais adequado
para isso, mas deixou sua mente flutuar junto com a melodia
que tocava em seus ouvidos.
Ele fechou os olhos. O que aparecia diante dele não era
mais a escuridão. Era como se ele estivesse em um palco
vasto, banhado por luzes brilhantes.
Seu coração, outrora entorpecido, começou a bater
rapidamente de novo. O Lago dos Cisnes era uma
apresentação para a qual ele nunca teve permissão de subir ao
palco, porque ninguém o tinha aceitado naquela época. Tudo o
que ele podia fazer era praticar em segredo, sozinho, fechando
os olhos e dando aquele papel importante a si mesmo. Mesmo
que este corpo não combinasse com uma saia aos olhos de
muitos, para Karn... toda vez que ele a experimentava e se
olhava no espelho, sentia que era o traje mais bonito possível
para este corpo.
A pose final terminou com uma graça suave, em perfeita
harmonia com a música em seus ouvidos. Karn voltou
lentamente a ficar em pé. Abriu os olhos gradualmente. Era
uma pena que a realidade o tivesse acordado tão rápido; ele só
pôde retornar ao seu eu de dezessete anos por alguns
minutos. Agora, ele era mais uma vez um adulto chegando aos
quarenta.
Ele se virou lentamente para olhar para a pessoa que
estava parada em silêncio ao seu lado. Que estranho —
normalmente Nathi falava sem parar, mas agora ele apenas
ficava ali olhando sem piscar, como se estivesse assistindo à
performance mais magnífica que já vira na vida.
— É uma pena que minhas habilidades tenham sumido.
Provavelmente não ficou muito bom.
— P'Karn... eu...
— O quê? Você vai dizer que foi terrível?
— Olhe nos meus olhos e me diga, realmente pareceu
isso?
— ...
— Se eu tivesse tido a chance de te conhecer naquela
época... eu prometo que nunca deixaria ninguém destruir o
seu sonho.
— Esqueça. Isso foi há muito tempo.
— Eu realmente quero ver você fazendo o que sempre
amou.
— Bom, você já viu. Está decepcionado por não ter sido
tão bom quanto você imaginou?
— Muito pelo contrário.
— ...
— Eu imaginei tantas vezes o quão incrível você devia
parecer naquela época. Sempre pensei que devia ter sido
fantástico. Mas ver com meus próprios olhos assim... vai
muito além de qualquer coisa que eu já imaginei.
— P'Karn... para ser sincero, nunca houve um único
momento em que me senti decepcionado com você.
— ...
— Do primeiríssimo dia até agora, a admiração que tenho
por você nunca diminuiu, se é que algo mudou, ela só ficou
mais forte. Eu amo tudo em você, cada detalhe. Suas
qualidades e suas falhas, seus pontos fortes e suas fraquezas.
Mesmo que, para você, algumas dessas coisas possam parecer
decepções, para mim elas são absolutamente incríveis.
— ...
— Apenas ser você já é o melhor... Quando você consegue
ser você mesmo assim, é verdadeiramente perfeito.
— Pare de falar assim, Nathi.
— Phi...
— Você já está me fazendo amar a mim mesmo demais...
— É exatamente isso que eu quero.
Karn piscou devagar. Ele podia sentir o calor se
espalhando ao redor de seus olhos. Imagens de si mesmo em
sua juventude florescente continuavam surgindo em sua
mente sem parar — ele mesmo tentando dançar pela primeira
vez, caindo, praticando tanto que torceu o tornozelo, os dias
em que seus braços e pernas doíam tanto que ele mal
conseguia se mexer.
Os dias em que teve que aguentar as palavras e os olhares
das pessoas, especialmente os de sua própria mãe. Ele tinha
tentado desesperadamente fazer com que todos no mundo
aceitassem quem ele era.
Um adolescente de dezessete anos, mas carregado com a
esperança e a aprovação do mundo inteiro. Esse corpo estava
totalmente exausto; ele não conseguia ver nem um pingo de
esperança. No fim, ele estava cansado demais para continuar
lutando e não teve escolha a não ser deixar aquele sonho
escapar junto com sua juventude, crescendo distorcido em um
adulto solitário e sombrio.
Ele não conseguia acreditar que ainda pudesse existir
alguém neste mundo que aceitasse tudo sobre ele. No
passado, para onde quer que se virasse, era
insuportavelmente solitário e frio.
Apenas uma pessoa... apenas uma pessoa que pudesse
aceitar esse amor e esse sonho, que pudesse olhar para sua
única fonte de orgulho com olhos cheios de admiração — isso
sozinho teria sido o suficiente.
Marn fez uma pequena pausa, deixando seus amigos
continuarem brincando na água alegremente enquanto ele se
virava para olhar para seu tio parado ao longe. Ele viu o outro
homem sorrindo abertamente, com lágrimas escorrendo pelo
rosto, antes de Nathi se aproximar e puxar o Tio Karn para um
abraço apertado. Marn não sabia exatamente o que tinha
acontecido ali, mas tinha que admitir que ficou surpreso ao
ver aquele tipo de sorriso no rosto do Tio Karn pela primeira
vez.
E ele entendeu imediatamente por que Nathi estava tão
radiante a ponto de levantar o Tio Karn do chão daquele jeito...
porque aquele sorriso — ele não o via há dez anos inteiros.
Um sorriso gentil surgiu no rosto de Marn. Esse
sentimento de plenitude em seu coração era incrivelmente
doce, como se uma névoa de felicidade estivesse flutuando ao
seu redor. Não importava para onde olhasse, todos exibiam
um sorriso. Pode ter chegado um pouco tarde, encontrando a
felicidade apenas agora. O caminho da vida de cada pessoa
fora preenchido por dificuldades, fardos em seus corações que
eram difíceis de desvendar. Passar por tudo para chegar a este
dia realmente não tinha sido fácil.
Marn estava feliz em ver todos felizes. Sentia alegria ao ver
seus sorrisos. Quando Marn tinha dezessete anos, ele chegou
a pensar que, após perder sua amada avó, seria o fim de sua
vida. Mas não foi. Em vez disso, tornou-se o começo da
história mais bonita e maravilhosa. Ele conheceu amigos,
professores e seu tio. Ele encontrou felicidade e esperança.
Embora houvesse momentos que exigissem paciência e
resistência, Marn caminhou através deles de mãos dadas com
todos os outros, apoiando uns aos outros, nunca deixando
ninguém para trás — nem mesmo uma única pessoa.
Neste mundo, não existem patinhos feios ou cisnes
perfeitamente impecáveis. Todo mundo tem suas próprias
forças e fraquezas, misturadas para formar quem são. O quão
diferente o caminho da vida de alguém se torna depende de
quão bem essa pessoa consegue cuidar dele e protegê-lo.
Depende se a pessoa escolhe destruí-lo ou cultivá-lo
ainda mais. Não importa o quanto o mundo inteiro tente
derrubá-lo, se a própria pessoa continuar firme por isso, sua
identidade e seus sonhos não serão destruídos. Mas se nem
ela desejar mais protegê-lo e escolher deixá-lo ir, não há
garantia de que voltará a encontrá-lo no futuro. Pode ser que
consiga trazê-lo de volta — ou pode ser que ele desapareça
para sempre. Ambos são possíveis.
Não importa se amanhã Marn se tornará um adulto bom
ou não, se ele se tornará um homem de trinta, quarenta,
cinquenta ou até noventa anos, muitas coisas neste mundo —
muitos momentos de sua vida passada — podem desaparecer
com o tempo. Mas havia uma coisa de que ele tinha absoluta
certeza de que nunca esqueceria: a história de si mesmo, de
antes e de agora.
Ele tinha certeza de que ele — e todos aqui — sempre se
lembrariam da estação em que eles mesmos floresceram aos
dezessete anos, e que se lembrariam dela para sempre.
ESPECIAL
1
— Marn, você já vai voltar?
— Sim. Estudei bastante hoje, preciso voltar e descansar
um pouco. Muito obrigado por me ajudarem com a monitoria.
— Desculpa, mas na verdade nós é que deveríamos te
agradecer. Você é a verdadeira espinha dorsal do grupo.
Pessoal, vamos todos nos curvar para o Marn.
Marn os impediu apressadamente antes que seus amigos
realmente fizessem aquilo. No meio de um café como aquele,
se outras pessoas vissem um grupo se curvando daquela
forma, ele viraria o assunto da cidade. Isso seria ruim, muito
ruim.
A vida aos dezessete anos tinha passado e uma nova
estação havia chegado. Marn não era mais um estudante do
décimo segundo ano.
Agora ele tinha crescido e se tornado um universitário na
Faculdade de Contabilidade. Ele escolheu esse campo em
parte por causa dos conselhos do tio Karn. Karn tinha visto
muito do mundo e entendia claramente onde estavam os
pontos fortes de Marn. É claro que Marn não escolheu às
cegas.
Antes de chegar aqui, ele buscou no próprio coração para
ver se realmente gostava daquilo. Ele pesquisou, leu detalhes,
perguntou a pessoas experientes, incluindo seus professores
na escola, e recebeu inúmeros conselhos. Quando os grandes
exames finalmente chegaram, ele foi capaz de usar suas
próprias notas para entrar nessa faculdade com sucesso.
Marn se sentiu incrivelmente feliz, como se tivesse realizado
algo significativo mais uma vez.
Mesmo que fosse apenas um pequeno passo aos olhos de
muitos, para Marn, foi o maior passo que ele já tinha dado na
vida.
Antes disso, Marn tinha se sentido triste por se separar do
seu antigo grupo de amigos. Todos tiveram que perseguir seus
próprios sonhos. Olhando para trás, ele não conseguia evitar
sentir falta daqueles dias. Naquela época, aos dezessete anos,
Marn enfrentou o maior problema da sua vida: sua avó
faleceu. Como uma criança pequena poderia viver sozinha
neste mundo? A única luz na sua vida tinha se apagado, e seu
mundo se tornou escuro e insuportavelmente frio. Então
alguém caminhou para dentro da sua vida.
Só então ele percebeu que ainda tinha um parente
restante. Essa foi a primeira vez que Marn conheceu o tio
Karn, o irmão mais novo de sua mãe, que tinha fugido de casa
por mais de dez anos, o filho caçula de quem sua avó sentiu
falta até seu último suspiro.
No primeiro momento em que viu o rosto de Karn, Marn
admitiu que sentiu um pouco de medo desse tio. Karn parecia
severo, falava pouco e parecia muito frio. Marn estava ansioso
e assustado de todas as formas, com medo de que, se ele se
comportasse mal, seria abandonado, enviado para viver em
um templo ou em algum outro lugar. Um jovem de dezessete
anos sem pais, sem parentes próximos, sem lugar para ir; ele
estava apavorado de ter que viver uma vida solitária.
Mas ele foi incrivelmente afortunado. O tio Karn não era
uma pessoa cruel. Ele cuidou bem de Marn e o ensinou com
paciência.
Durante os tempos difíceis, Karn estava sempre lá para
ajudar, e quando seu tio estava vulnerável, Marn estava lá
para oferecer encorajamento em troca. Em apenas dois anos,
eles se tornaram muito próximos.
Marn podia dizer com total confiança que agora era o
sobrinho mais amado de seu tio.
Além disso, Marn também teve a chance de conhecer seu
primeiro grupo de amigos verdadeiros na vida, não apenas
colegas de classe, não apenas pessoas que se juntavam para
trabalhar em uma tarefa e depois se separavam após a
entrega, não amigos para copiar o dever de casa, mas amigos
que compartilhavam tanto a felicidade quanto as dificuldades.
Amigos que davam as mãos na alegria e choravam juntos com
os braços nos ombros uns dos outros. Ele nunca pensou que
experimentaria algo assim.
Marn tinha se acostumado a ser mal interpretado e
afastado pelos outros. Ele sorria e dizia a si mesmo que estava
tudo bem. Pelo menos eles não se opunham a ele duramente
nem diziam coisas cruéis na sua cara. Às vezes, o
distanciamento silencioso era mais fácil de aceitar. Pequenas
feridas em seu coração ainda eram reparáveis. Ele tinha se
acostumado a confortar a si mesmo e forçar um sorriso, até
conhecer Hem, Ying, Ryu e Than. Só então Marn percebeu
que, durante todo esse tempo, ele estava desperdiçando sua
vida suportando coisas que nunca deveria ter que suportar em
primeiro lugar.
Se contarmos dez anos atrás, quantas pessoas realmente
tinham conhecimento ou compreensão sobre pessoas vivendo
com HIV?
Para aqueles que viviam longe do desenvolvimento, em
escolas pequenas, os mal-entendidos eram ainda mais graves.
Aquela ignorância destruiu lentamente a vida de uma criança,
pouco a pouco, transformando a infância de Marn em algo
doloroso e que mal valia a pena ser lembrado.
Felizmente, Marn conheceu esse grupo de amigos. Ele
estava feliz por conhecê-los, feliz por fazerem atividades
juntos, feliz por ajudarem e apoiarem uns aos outros. Aquelas
memórias dolorosas foram gradualmente apagadas e
substituídas por outras mais quentes e brilhantes. Sempre
que pensava neles, seu coração sempre se acalmava.
Frequentemente, Marn se lembrava das vezes em que corriam
atrás de patos juntos e se pegava sorrindo inconscientemente
porque, naquela época, era realmente muito divertido.
Arco-íris, flores, luz do sol, amizade; tudo floresceu
lindamente aos dezessete anos. Marn esperava sinceramente
que jovens de dezessete anos em todo o mundo tivessem a
chance de vivenciar as melhores memórias dessa idade, assim
como ele teve.
Além dos amigos... Marn também teve a chance de
conhecer alguém que fez seu pequeno coração bater
rapidamente. Alguém que o ensinou que, além da amizade,
havia outro tipo de relacionamento, um que chegava como
uma brisa suave carregando a fragrância das flores. Alguém
apareceu no coração de Marn e o deixou saber como era a
sensação do primeiro amor.
Ele se lembrava claramente. O nome daquele garoto era
Than. Ele sentava na mesa ao lado da de Marn. No começo,
Than realmente não gostava nem um pouco dele,
constantemente dizendo para ele ir embora. Marn continuava
o importunando, continuava tentando se aproximar, até
comprando balas verdes para ele, mas não importava o que
fizesse, Than nunca lhe dava atenção, mantendo uma
distância fria. Isso desanimou Marn por um bom tempo.
Mas quem diria que o próprio Than carregava feridas no
coração? A culpa de destruir o sonho de seu irmão mais velho
o deixou temeroso e perdido. Than se redimiu sacrificando seu
próprio futuro. Nathi, que deveria ter se tornado um nadador
da seleção nacional, trazendo glória ao país, acabou como
professor em uma pequena escola perto de casa. Than não
conseguia suportar ver aquilo. Ele nem conseguia olhar nos
olhos do irmão e fugia toda vez que se encontravam.
Marn acidentalmente tocou naquela ferida sem perceber,
mas não conseguia ficar parado vendo Than continuar se
machucando daquela forma. Então ele uniu forças com o resto
do grupo para bolar um plano para ajudar os dois irmãos a se
reconciliarem. No final, os dois tubarões conseguiram nadar
lado a lado mais uma vez.
Marn ficou verdadeiramente feliz por aquela família. O
gentil professor Nathi teve seu irmãozinho de volta, e eles se
tornaram incrivelmente próximos novamente. Quanto ao
talentoso tio Karn de Marn, ele ainda era o mesmo dono de
carrinho de leite de soja, mas agora ele vendia no seu próprio
ritmo.
Sem o sobrinho para ajudar mais, ele só vendia à noite,
empurrando seu carrinho até o ponto habitual na frente do
beco. O negócio podia não estar bombando, mas era o
suficiente para sobreviver e se sustentar. Ele não precisava
mais dar dinheiro para Marn, porque agora Marn trabalhava
meio período, dando aulas particulares para alunos do ensino
médio e às vezes fazendo pequenos trabalhos em lojas.
Havia momentos cansativos, mas no geral, era um
período colorido da vida, cheio de variedade. Mesmo não
estando mais com seu antigo grupo de amigos, Marn não se
sentia nem um pouco solitário. Ele amava a universidade.
Seus novos amigos eram gentis; eles entendiam por que Marn
vivia com HIV e estavam dispostos a ser seus amigos. Eles não
o viam como um portador de doença ou uma ameaça à
sociedade. Marn sentia-se profundamente grato por todos o
tratarem como uma pessoa normal.
Como era maravilhoso viver a vida simplesmente como
Marn, um estudante universitário comum, não como um
paciente de HIV evitado pela sociedade. Ele estava tão feliz que
todos o aceitassem e entendessem assim. Se o Marn mais
jovem pudesse se ver agora, certamente ficaria muito feliz.
Tudo bem, chega de relembrar o passado. As pessoas
devem viver no presente. Vamos falar sobre a vida de Marn
agora.
— Ei, Marn. Você está aqui esperando para buscá-lo?
— Sim. Vocês já terminaram de nadar?
— Aham. Ele está tomando banho agora. Só sentar e
esperar por aqui.
— Tá bom. Vão para casa com cuidado.
Hoje, Marn tinha ido ler livros com amigos em um café.
Ele ficou lá por várias horas até a noite, depois pegou uma
carona até a piscina da universidade. Lá dentro, estava cheio
de estudantes; às vezes ex-alunos também apareciam. Muitas
pessoas usavam a instalação e uma delas era o namorado
dele.
Marn vinha aqui com frequência para esperar por
alguém. Sentado nessa cadeira de plástico, ele observava a
superfície ondulante da água, sentindo-se inexplicavelmente
relaxado e à vontade. Ele entendia por que todos que nadavam
na piscina sorriam tanto. Ele gostaria de saber nadar bem
também; se ao menos pudesse atravessar a água
rapidamente, isso seria tão legal.
— Ah!
Marn se assustou quando algo gelado tocou a parte de
trás do seu pescoço. Ele se virou imediatamente. O culpado
não era outro senão seu amado namorado.
— Você me assustou.
— Está esperando há muito tempo?
— Heh, acabei de chegar.
— Com fome?
— Um pouco. Mas já comi alguma coisa no café.
— É noite, você ainda precisa jantar.
Than caminhou mais perto e pegou a bolsa de Marn para
carregá-la para ele. Ele sempre fazia isso. No começo, Marn
reclamava um pouco, mas o que ele podia fazer? Quando Than
decidia ser teimoso, quem poderia impedi-lo?
Marn olhou para a pessoa ao seu lado. O Than de hoje era
muito mais maduro do que o Than de dezessete anos que ele
lembrava, exatamente como ele tinha imaginado. Than se
parecia com Nathi de muitas formas, embora seus traços
fossem mais marcantes. Ao contrário do seu irmão mais velho,
que irradiava calor e gentileza, esse cara era esquentado e se
irritava facilmente. Quando algo o desagradava, suas
sobrancelhas se franziam e ele fazia beicinho. Mas sempre que
estava com Marn, ele se tornava uma pessoa completamente
diferente.
Ah, e mais uma coisa: Than agora tinha se tornado
plenamente um nadador da seleção nacional.
Na época em que estavam fazendo os exames de admissão
para a universidade, Than estava no meio dos testes de
seleção de atletas, então ele se inscreveu na universidade por
precaução. Ele entrou na Faculdade de Engenharia, mas
depois de estudar por um tempo, percebeu que os estudos
acadêmicos e seu sonho estavam em caminhos diferentes.
Então ele decidiu trancar os estudos e focar totalmente nas
competições.
Ninguém sabia ainda se ele acabaria desistindo da
universidade. Ele tinha conversado com Nathi sobre isso; seu
irmão disse que a decisão cabia inteiramente a Than. Se ele
escolhesse deixar a universidade e seguir os esportes
seriamente, a família estava pronta para apoiá-lo ao máximo.
O pai deles já tinha sido um atleta que trouxe fama ao
país, e Than tinha herdado aquele DNA poderoso. Todos
acreditavam firmemente que Than teria sucesso e iria longe.
Marn apoiava Than de todo o coração também. Agora que
Than estava na seleção nacional, ele mal tinha tempo livre,
treinando constantemente. No mês passado, ele competiu em
Singapura e ganhou um prêmio importante; até saiu no jornal.
Ele era incrível. Sua aura de atleta era esmagadora agora: alto,
largo, em forma, musculoso, bonito de todos os ângulos. Sem
fotos ruins, sem erros. Sempre que Than aparecia nas
notícias, suas fotos eram compartilhadas por todas as redes
sociais.
Marn se sentia um pouco orgulhoso. Seu namorado era
incrível!
— O que você está pensando?
— Sobre o quê?
— Por que você está abrindo as narinas desse jeito? Está
se sentindo feliz ou algo assim?
— Hein? Quando foi que eu abri as narinas? Você me
paga.
Than deu uma risadinha, satisfeito por ter conseguido
provocar o namorado. Ele caminhou com Marn até o carro
estacionado do lado de fora. Depois que Marn sentou no banco
do passageiro e afivelou o cinto de segurança, Than dirigiu
para fora da universidade. Seus dedos batiam levemente no
volante. Havia algo em que ele vinha pensando há um bom
tempo. Ele olhou para a pessoa ao seu lado. Apenas alguns
segundos de contato visual e eles se entenderam
completamente.
— Se tem algo que você quer me dizer, pode falar.
— O clube vai me mandar para treinar na Austrália por
dois meses.
— Sério?! Isso é incrível! É uma oportunidade
maravilhosa!
Os olhos de Marn brilharam instantaneamente. Ele
estava genuinamente feliz por Than. Ele já tinha ouvido falar
que o clube estava preparando
Than como uma promessa especial, depositando grandes
esperanças nele. Suas habilidades realmente se destacavam,
dignas de ser o filho de um ex-medalhista de ouro mundial na
natação. Seu irmão mais velho também tinha chegado longe
em competições uma vez, infelizmente forçado a deixar a
piscina por causa daquele acidente. Agora Than tinha
assumido o sonho e o levava adiante.
O treinador estava profundamente investido no
treinamento de Than. Mesmo assim, havia muitas vezes em
que Than vinha até Marn, o envolvia em um abraço apertado e
apenas o segurava. Natação era o que ele amava, mas também
o exauria profundamente. Como Marn poderia não saber o
quanto Than amava nadar? Ele era um grande tubarão
branco, cortando livremente a água. Quando Than estava na
piscina, ele brilhava mais do que qualquer coisa.
— Por que você parece tão desanimado? Não quer ir?
— Não...
Hm... por que Marn sentia que esse atleta tinha algo o
incomodando? Suspirando repetidamente daquele jeito... tinha
algo sério acontecendo?
— O que foi, Than?
Marn estendeu a mão e segurou gentilmente seu ombro,
sentindo-se um pouco preocupado por dentro. Than dirigiu
até chegarem a um sinal vermelho, então virou para olhar
para Marn novamente. Ele levantou aquela mão macia e a
pressionou contra os lábios, respondendo com uma voz
abafada:
— Eu não vou ver o seu rosto por dois meses inteiros.
Estou ferrado.
O que era aquilo agora? Than estava entrando no modo
manhoso? E como Marn deveria lidar com isso?
— Calma, calma...
— É só isso?
— Bem, o que você espera que eu faça? Quer que eu te
impeça de ir ou algo assim?
— Sim.
— Isso é demais. Como eu poderia te impedir? Conseguir
treinar em um lugar tão bom assim é uma oportunidade
incrível. Dois meses vão passar voando. Se você contar em
semanas, são apenas oito semanas, não é muito tempo. Viu?
— É muito tempo sim. Quanto mais você diz isso, mais
longo parece.
— Você já é bem grandinho, não fica grudado em mim
desse jeito. Eu vou ligar e contar para o P’Nathi, hein.
— Hmmpf.
— Eu poderia contar para o tio Karn também.
No momento em que esse nome foi mencionado, Than
parou imediatamente de fazer manha. Mesmo agora, ele ainda
era um completo covarde; ele não ousava desafiar aquele tio
temível.
Marn sorriu para si mesmo e levantou a mão para dar um
tapinha gentil na cabeça do namorado. O cabelo de Than
ainda estava levemente úmido do banho recente. A única
pessoa autorizada a tocar nele era Marn. Than não deixava
nem o próprio irmão encostar nele; ele sempre se esquivava.
Todos invejavam Marn por isso.
— Está tudo bem. Eu prometo que vou falar com você com
frequência e não vou deixar você se sentir sozinho. Enquanto
estiver lá, foque no treinamento. Eu quero ver você se tornar
ainda melhor. Se você um dia chegar a competir no palco
mundial, vai ser incrível. Eu quero ver você chegar às finais
olímpicas!
— Ninguém exagera como você.
— Eu estou falando sério. As pessoas têm que sonhar alto
e ir até o fim. Defina um objetivo enorme e depois vá direto
para cima dele.
— Sério?
— Sim. Eu acredito que depois desses dois meses, você
vai melhorar muito. Quando voltar para a Tailândia, venha
exibir sua natação, ok? Eu quero ver o quanto você evoluiu.
Than ouviu aquelas palavras com um profundo
sentimento de orgulho. Era porque Marn sempre o elogiava e
acreditava nele dessa forma que ele tinha conseguido se
esforçar até esse ponto. Marn era sua fonte de força mais
importante. Desde o dia em que abriu seu coração e deixou
Marn entrar em sua vida, ele nunca se sentiu decepcionado
com ele nem uma única vez.
Marn era radiante, alegre, sempre otimista e
incrivelmente bom em encorajar os outros. Cada palavra que
Marn dizia podia transformar o pior e mais escuro dia —
quando tudo o que você conseguia ver eram nuvens pesadas
de tempestade — em um dia cheio de luz solar brilhante num
piscar de olhos.
Than olhou para aqueles olhos e aquele sorriso. Eles eram
tão cativantes quanto sempre. Ele olhou para o semáforo; não
restava muito tempo para olhar nos olhos de Marn. Então ele
se inclinou e roubou um beijo rápido na bochecha do
namorado.
Marn arquejou, então levantou a mão para dar um soco
leve no ombro de Than, com o rosto ficando completamente
vermelho de vergonha.
— Than!
— Já ganhei energia suficiente para ir treinar agora.
— Você claramente só me enganou para beijar minha
bochecha.
— Só percebeu isso agora?
— Tão irritante! Vou te devolver para o P’Nathi.
Than caiu na gargalhada. Toda vez, eram sempre as
ameaças envolvendo o irmão dele. Como se aquilo fosse
funcionar. Than não tinha medo do Nathi; sua verdadeira
fraqueza era o tio Karn, sem dúvida nenhuma. É claro que ele
nunca deixaria Marn descobrir isso. Ele morria de medo
daquele tio. Sempre que ele ia para casa e tinha que passar
por aquela casa, toda vez que via Karn, ele ficava rígido
imediatamente. Se o tio Karn perguntasse qualquer coisa
sobre o Marn, Than tinha que responder com extremo
cuidado. Diga uma coisa errada e o tio Karn provavelmente o
cortaria ao meio ali mesmo.
Não é de admirar que Nathi tenha passado dez anos
tentando conquistar aquele homem. Alguém como o tio Karn
não era nada fácil de encantar. Than respeitava
verdadeiramente a paciência de seu irmão.
Ainda bem que Marn não era tão difícil de abordar quanto
aquele tio. Caso contrário, Than teria morrido de saudade —
dez anos correndo atrás sem namorar? Só de imaginar já era
fatal.
— Ei, o que foi isso?
Marn pareceu atordoado quando o motorista de repente
estendeu a mão e deu um beliscão em sua bochecha sem dizer
uma palavra, sorrindo para si mesmo daquele jeito, quem sabe
o que ele estava pensando.
— É fofo.
— Hein? Quem permitiu você tocar na minha bochecha?
— O quê? Não posso beliscar sua bochecha um
pouquinho?
— Por que você é tão mimado?
— Eu sempre fui assim.
— Bem, isso é verdade. Você era ainda mais mimado
antes. Eu era quem ficava correndo atrás de você; era
exaustivo.
— Você até me trazia bala verde. Como você pensou
naquilo?
— Porque eu queria ser seu amigo!
— E como isso acabou? Você não ganhou um amigo,
ganhou um namorado no lugar.
— Than... você está fazendo de novo.
Marn estava começando a ficar emburrado. Ser
provocado até ficar corado o tempo todo, ter o coração
disparado desse jeito; não era divertido para ele, sabe? Por que
o Than cresceu e se tornou tão provocador? Ele realmente
gostava de ver o rosto de Marn ficar vermelho brilhante?
E olha para ele: o sorriso de Than era tão irritante.
Tinha algum jeito de o Marn dar o troco nele? Talvez ele
tivesse que ir consultar o tio Karn quando chegasse em casa!
ESPECIAL
2
Click.
O som de uma porta se abrindo ecoou às duas da manhã.
Alguém carregou suas coisas silenciosamente para dentro do
quarto escuro. Com um clima tão fresco e agradável, a vontade
era de desabar na cama logo ali na entrada.
Os dois meses que Than passou treinando na Austrália
podem ter parecido curtos para muita gente, mas para ele,
pareceram incrivelmente longos. Ele admitia que ser enviado
para lá pelo clube lhe proporcionou novas experiências,
conhecendo nadadores talentosos de outros países e
aprendendo muitas habilidades e técnicas novas. Mas estar lá
sozinho também o fazia se sentir exausto e desanimado às
vezes.
Ele fazia chamadas de vídeo para Marn todos os dias,
discutindo e conversando sobre se deveria trancar a faculdade
para se tornar um atleta em tempo integral. Por enquanto,
Than apenas havia suspendido os estudos, mas não sabia
quando ou se um dia voltaria. Além disso, ele nunca quis ser
engenheiro de verdade. Mesmo estando confiante de que
poderia estudar sem problemas, se não era o sonho dele, por
que gastar quatro anos inteiros em algo que não amava?
A vida era curta. Se você estivesse determinado a algo,
deveria correr direto em direção a isso. O sonho de Than era se
tornar um nadador famoso e excepcional, assim como o pai
dele. Ele queria estar lá, no topo absoluto como atleta de
natação. Então, decidir deixar a universidade parecia a
escolha certa naquele momento da vida dele.
Ainda assim, era uma decisão importante que enchia
Than de preocupações. E se um dia a vida dele desse uma
reviravolta repentina e ele não pudesse mais competir na
natação? O que faria então? Havia um exemplo claro em casa
— Nathi tinha mantido um caminho alternativo para si mesmo
ao se tornar professor. Mas se Than ficasse sem outras opções,
o que seria da vida dele?
Ele tinha conversado sobre isso com a família. Todos
disseram para ele focar no que amava e não se preocupar com
coisas que ainda não tinham acontecido. Eles acreditavam
que, mesmo se um dia Than não pudesse mais nadar, ele
ainda encontraria um jeito de sobreviver. Se o que ele queria
agora era ser um atleta em tempo integral, então deveria se
dedicar de todo o coração. Se fizesse o seu melhor, nunca se
arrependeria.
Than se sentia grato por ter tantas pessoas ao seu redor o
apoiando, especialmente Marn, que sempre usava suas mãos
pequenas para empurrá-lo para frente. Marn era realmente
uma pessoa insubstituível na vida de Than. Sem o Marn lá
atrás, ele não sabia se existiria sequer um eu hoje.
Obrigado por tudo que levou Than a conhecer Marn.
Than deu mais alguns passos para dentro, carregando a
mala da forma mais leve possível. O quarto estava escuro; o
verdadeiro dono do quarto já estava dormindo. Não entendam
mal o comportamento sorrateiro de Than — ele não invadiu
sem permissão. Marn e Than tinham trocado as chaves dos
quartos desde o primeiro dia em que se mudaram para os
dormitórios. Than vinha aqui com tanta frequência que já era
praticamente o quarto dele.
Eles já namoravam há dois anos. Na verdade, Than e
Marn moravam em dormitórios diferentes, mas Than
costumava passar para dormir lá — especialmente durante os
períodos em que precisava treinar intensamente para se
preparar para grandes competições. Sempre que precisava de
incentivo, ele vinha para cá. Qualquer um iria querer estar
com seu parceiro.
Than já tinha pensado sobre isso: no futuro, ele poderia
sair do próprio dormitório e levar suas coisas para morar com
Marn de vez. Eles poderiam dividir o aluguel e as contas —
também economizaria dinheiro. Que as pessoas dissessem
que ele era apegado demais ao namorado, se quisessem; Than
não se importava. Morar sozinho nunca poderia ser melhor do
que acordar todos os dias para provocar seu namorado
pequeno.
Ele queria fazer Marn ficar vermelho de vergonha todo
santo dia, ser o vilãozinho que mexia com o coração de Marn
diariamente. Só de imaginar, Than já ficava feliz assim. Se um
dia eles realmente morassem juntos, ele tinha certeza de que
teria motivação suficiente para ganhar medalhas em
competições de nível mundial.
A “bateria humana” de Than dormia profundamente na
cama, com os olhos suavemente fechados, a respiração lenta e
constante, deitado de lado e abraçado ao cobertor. Than subiu
com cuidado na cama e deitou-se ao lado dele. Sentiu um
pouco de remorso por não terem se falado nem um pouco hoje.
Ele tinha acabado de voltar da Austrália após muitas horas de
viagem e veio direto ver o namorado — mas era tarde demais.
Marn dormia cedo. A menos que fosse absolutamente
necessário, ele não ficava acordado até tarde.
Em períodos de prova, Marn preferia acordar antes do
amanhecer para estudar, ao contrário de muita gente que se
entupia de café enlatado e estudava a noite toda. Ele
provavelmente estava acostumado a acordar às quatro ou
cinco da manhã para ajudar o tio a vender mercadorias
naquela época. Marn tinha sido uma criança aplicada e agora
tinha se tornado um estudante universitário extremamente
aplicado também.
Mesmo não tendo se falado hoje, amanhã de manhã,
quando Marn abrisse os olhos e visse Than como a primeira
pessoa, ele certamente ficaria chocado. Só de pensar nisso,
Than se sentia divertido. Ele desejava que a manhã chegasse
logo. Than fechou os olhos, moveu-se para mais perto e
envolveu o namorado com o braço. A exaustão o puxou
facilmente para o sono e, depois disso, ele não sentiu mais
nada. Marn era tão quentinho. Abraçá-lo fazia tudo parecer
confortável.
— Mm...
O travesseiro de corpo improvisado começou a se mexer,
pois era hora de acordar. Marn abriu as pálpebras lentamente.
O ar no quarto deveria estar fresco por causa do
ar-condicionado, mas, estranhamente, esta manhã parecia
muito mais quente. Um abraço familiar, esse tipo de toque, o
som da respiração por perto — tudo isso fez Marn despertar
totalmente. Ele ergueu a cabeça devagar para olhar para a
pessoa que dormia enquanto o segurava.
Lembrava-se claramente de ter dormido sozinho nesta
cama ontem à noite, então como esse tritão foi parar ao lado
dele de manhã? Quando ele se esgueirou para a cama? Marn
não tinha sentido nada.
— Than...
— ...
— Quando você voltou?
Não adiantava perguntar. Than estava em um sono
profundo, provavelmente completamente exausto. Marn não
sabia que horas Than tinha chegado à Tailândia ontem à
noite. Ele também não esperava que Than viesse até o quarto
dele. Se estava tão cansado assim, deveria ter voltado para o
próprio quarto. Mesmo assim, ele ainda veio vê-lo — tão
teimoso.
Marn ficou ali deitado olhando para o rosto do namorado.
Ele não conseguia ver com muita clareza na penumbra do
início da manhã, mas dava para notar o quanto Than tinha
treinado duro nos últimos dois meses. A pele dele parecia mais
escura também.
Than estava muito maior do que Marn agora — quando se
abraçavam, Marn praticamente desaparecia nos braços dele.
Ele não era em nada parecido com o Than da época do
segundo ano do ensino médio. Than tinha crescido muito
desde então. Só Marn parecia exatamente o mesmo.
Marn se aproximou mais, aninhando a cabeça no mesmo
travesseiro que Than estava usando. Sorrindo suavemente, ele
observou o rosto de Than em silêncio. Sem conseguir resistir,
ergueu a mão e traçou levemente aquele rosto, ponto por
ponto — das pálpebras até a ponta do nariz, demorando-se
então nos lábios. O rosto dele esquentou ao se lembrar da
imagem da primeira vez que se beijaram. Ele praticamente
teve a boca devorada por um grande tubarão branco — Than
tinha saltado da piscina e o beijado daquele jeito.
Sério, ele é a pessoa que mais merece um tapa no mundo.
Marn saiu suavemente daquele abraço e ajustou a
posição deles para que Than pudesse dormir mais
confortavelmente. Ele sorriu de leve. Vendo o quão
profundamente Than dormia, imaginou que ele devia estar
exausto. Correr atrás dos sonhos realmente exigia força tanto
física quanto mental. Às vezes, Marn se preocupava
secretamente — com medo de que Than pudesse ficar
desanimado e desistir, ou carregar pressão demais e desabar.
Mas ele acreditava que Than era forte e não alguém que
desistia facilmente.
Assim, Than se agarrava firmemente ao seu sonho. Ele
era ambicioso, querendo se tornar o melhor nadador,
exatamente como o pai e o irmão mais velho. Marn via aquela
determinação nos olhos dele e prometeu a si mesmo que
ficaria ao lado de Than, incentivando-o sempre.
Ah... mas em algumas horas, Marn teria que sair para a
universidade.
Se Than acordasse e não o visse, ficaria muito amuado? Se
Marn tivesse que adivinhar, Than provavelmente faria a
expressão mais emburrada imaginável.
Marn foi tomar banho, se limpou e trocou de roupa. Ao
todo, levou quase trinta minutos. Quando voltou para a cama,
encontrou Than se levantando devagar, sentado no colchão,
parecendo totalmente desgrenhado com o cabelo espetado
para todos os lados. Esse era mesmo o nadador ultra atraente
cujas fotos estilosas estavam sendo compartilhadas por todo o
país? Na verdade, Than era apenas um encrenqueiro carente e
mimado. Na água, ele era veloz e ágil, mas na cama, em uma
manhã como esta, ele se movia mais devagar que uma
preguiça.
— Bom dia, Than.
— Onde você vai...?
— Tenho aulas de manhã. Vou sair por volta das oito e
meia.
— O dia todo?
— O dia todo.
Assim que ouviu isso, Than imediatamente fez bico. Marn
riu com carinho e se aproximou. O jovem atleta o puxou
instantaneamente para um abraço apertado. Marn quase caiu
na cama. Com uma força daquelas, como ele deveria resistir?
Totalmente injusto.
— Than, está amuado de novo.
— Eu senti sua falta.
— Hmm, eu sei. Eu também senti sua falta. Que horas
você chegou ontem à noite? Por que não me acordou?
— Umas duas horas, eu acho. Você estava dormindo, eu
não quis te acordar.
— Se você está tão cansado, volte a dormir. Vou comprar
comida e deixar aqui. Quando você estiver totalmente
acordado, tome um banho e depois coma, tá bom?
— Estou exausto de verdade.
— Eu sei. Depois da aula hoje, eu volto e te abraço direito,
tá bom?
Marn olhou para Than, que ainda estava ali sentado
abraçando sua cintura, enterrando o rosto contra a barriga de
Marn. Com essas palavras, Than levantou o dedo mindinho,
claramente pedindo para Marn fazer uma promessa. Uma
promessa de que, assim que a aula acabasse, ele voltaria
imediatamente para os abraços.
Marn deu uma risadinha, mas no final, ainda entrelaçou
seu mindinho com o de Than. Dia após dia, Than estava
ficando cada vez mais carente. Será que o P'Nathi sabia o
quanto o irmão mais novo dele choramingava com o
namorado?
— Vamos, me solta primeiro.
— Não.
— Than, eu tenho que ir comprar comida. Vou me atrasar
para a aula.
— Só mais um pouquinho.
Claro que você não tem aulas, então pode dormir até
tarde. Mas Marn ainda tinha que levar em conta o tempo de
trajeto também. Tenha um pouco de compaixão.
Marn ficou parado e deixou que ele se agarrasse até que
Than ficasse satisfeito. O dorminhoco finalmente soltou os
braços e se jogou de volta na cama, com os olhos entreabertos
enquanto encarava Marn.
Marn se agachou e acariciou sua cabeça suavemente.
Assim que Than se sentiu confortável, fechou os olhos
novamente. Cair no sono com essa facilidade significava que
ele realmente estava exausto. Marn não queria incomodá-lo,
então o deixou descansar e foi comprar comida.
Antes de sair do quarto, parou para dar um toque suave
em Than para acordá-lo e avisar. Than respondeu com um
murmúrio baixo.
Marn sorriu, sem conseguir resistir a se inclinar para
depositar um beijo gentil na testa de Than. Enquanto saía do
quarto, levou a mão aos próprios lábios. Não importava
quantas vezes se beijassem, ele nunca se acostumava com a
timidez.
Quantas pessoas sabiam que o namorado daquele
nadador ultra atraente era apenas um estudante universitário
comum? Além dos amigos próximos, conhecidos antigos e
família, provavelmente ninguém. Marn não anunciava isso
para ninguém. Namorar quietinho assim era bom. Ele não
gostava de ser o centro das atenções de qualquer forma.
E ele tinha medo também — medo de que, se a sociedade
descobrisse que o namorado de Than era soropositivo, as
pessoas pudessem usar isso para atacá-lo.
Embora Marn estivesse confiante de que cuidava muito
bem de si mesmo, recebia tratamento de forma consistente e
tomava sua medicação adequadamente, muita gente ainda
não entendia. Marn já tinha passado por uma época em que
todos o rejeitaram, então não queria que Than tivesse que
enfrentar algo assim.
Em suma, Marn gostava dessa vida pacífica. Ficar quieto
assim era o melhor. O tio Karn uma vez o ensinou que, não
importa o que acontecesse, apenas deixasse ser. Marn
confiava no tio mais do que em qualquer pessoa. Ele tinha
certeza de que poderia viver uma vida tranquila.
Marn chegou à sua faculdade. A manhã era uma aula
teórica para sua especialização. Ele abaixou a cabeça e fez
anotações sobre o que o professor estava ensinando, quando
de repente a amiga sentada ao lado dele o cutucou para olhar
algo. O nome dela era Yi-Wa, a nova amiga próxima de Marn e,
claro, ela também sabia sobre o namorado dele. Foi por isso
que ela lhe entregou o celular.
Na tela estava uma foto de Than que o clube tinha
postado, documentando seu treinamento de natação na
Austrália. Marn leu os comentários. Todos falavam a mesma
coisa: Than era incrivelmente bonito. O rosto e o físico dele
eram suficientes para fazer os corações dispararem
facilmente. Alguns até diziam que estavam com inveja de
quem quer que fosse o parceiro de Than.
Marn não ousou dizer nada. Ele simplesmente deu um
sorriso educado, depois voltou a se concentrar em escrever em
seu caderno mais uma vez.
Ding!
De novo. Hm... parecia mesmo que Than estava muito
solitário. Ele não parava de enviar mensagens.
Marn tocou para abrir. Than tinha enviado uma foto de si
mesmo logo após cortar o cabelo — bonito como sempre. Marn
não conseguia parar de sentir o coração palpitar. Than era
verdadeiramente perigoso. Ele sabia perfeitamente bem que
este pequeno coração não conseguia resistir ao seu charme, e
mesmo assim usava seu rosto bonito para provocá-lo. Quando
voltassem, Marn definitivamente teria que puni-lo um pouco.
— O que você está olhando escondido?
— Nada.
— Eu vi, você está olhando a foto de alguém.
— Yiwa, não me provoca.
— Você já está ficando vermelho, Marn.
Viu? Era tudo culpa de Than que sua amiga estivesse
provocando ele assim. Than teria que assumir a
responsabilidade por isso.
Marn passou quase o dia inteiro na aula, tanto de manhã
quanto à tarde. Quando finalmente conseguiu uma pausa, já
eram quatro da tarde. Ele deu tchau para os amigos e voltou
para o quarto. Quando abriu a porta, encontrou o namorado
deitado na cama, balançando o pé casualmente. Than estava
assistindo a um filme ocidental no laptop — provavelmente
um filme de super-herói. Os efeitos sonoros estrondosos
ecoavam pelo quarto.
— Voltei, Than. O que você está fazendo?
— Vem cá.
Marn tirou os sapatos e os guardou organizadamente,
colocou a bolsa sobre a mesa e depois caminhou até Than ao
seu chamado. Than fez bico e deu tapinhas na cama
repetidamente, sinalizando para Marn sentar ao lado dele. É
claro que, no momento em que Marn se sentou, Than o puxou
para um abraço apertado. No fim, Marn foi forçado a deitar de
costas, imobilizado por braços e pernas pesados por cima e
por baixo. Ele não conseguia se mexer de jeito nenhum. Sendo
esmagado assim, ele ia ficar sem fôlego — estava prestes a ser
achatado.
— O que é isso, Than?
Marn estava completamente confuso, atacado sem aviso.
Than o abraçou apertado, depois se aproximou para esfregar o
rosto em sua bochecha com força suficiente para que Marn
tivesse que protestar, ou definitivamente ficaria com um roxo.
— Já chega, Than, chega! Minha bochecha dói, e me solta
também. Você é pesado.
— Senti tanto a sua falta que poderia morrer.
— Eu também senti muito a sua falta. Nestes últimos dois
meses, você treinou muito pesado, não foi? Pronto, pronto,
agora você finalmente pode descansar.
— Só por duas semanas. Depois eles vão me chamar de
volta para competir de novo.
— Ah... aquela na Europa, certo?
— Mm.
— Isso é rápido. Você só tem duas semanas de descanso,
não vai nem se recuperar totalmente.
— É por isso que você tem que me mimar muito.
— Sim, sim, eu entendo. Então, hoje à noite, quer sair
para comermos juntos?
— Tá bom.
Marn se virou para encará-lo, olhando profundamente
nos olhos de Than antes de estender a mão para acariciar seu
rosto gentilmente. Ele se sentia incrivelmente orgulhoso de
Than por ter chegado tão longe. A família de Than devia estar
feliz também. Marn mal podia esperar para vê-lo no dia da
competição. Than tinha se tornado verdadeiramente um
nadador da seleção nacional agora. Ele tinha crescido tanto —
de um garoto que antes gostava de fugir das salas de aula para
um atleta famoso como este. Incrível. Ele merece aplausos.
— Você é incrível, Than.
Viu? Bastou um elogio e Than já estava sorrindo. Ele deve
ter ficado deitado o dia todo esperando ouvir um elogio. Nesse
caso, Marn teria que lhe dar uma recompensa maior. Than
disse que queria ser mimado, então Marn decidiu ser um
pouco fofo para ele. Ele se inclinou mais perto e beijou Than
levemente nos lábios — mas parece que o outro não ficou
satisfeito. Than rolou e sentou por cima dele, inclinando-se
para pressionar seus lábios juntos por vários segundos.
Parecia que ondas suaves ondulavam pelo estômago de
Marn. Os olhos de Than estavam tão ternos agora. Marn
pensou que, além dele, ninguém mais receberia um olhar
como este.
— Obrigado.
— Mhm.
— Eu te amo, Marn.
— Eu sei.
Marn também estava grato. Desde que Than entrou em
sua vida, tantas coisas tinham mudado. Marn antes estava
acostumado com a solidão. Ele não tinha pais, nem outros
parentes em quem confiar. Até o tio Karn — embora ele
existisse — eles não eram tão próximos. Quando começaram a
viver juntos, Marn precisou se ajustar muito. Estar perto de
alguém da sua idade o fazia se sentir muito mais confortável e
feliz. Através de Than, ele conheceu amigos, suportaram
dificuldades juntos, deram as mãos e atravessaram inúmeros
problemas até finalmente chegarem ao dia de hoje.
Than entendia o que faltava a Marn e o que ele precisava.
Todo esse tempo, Than agiu como a família de Marn —
amando-o, cuidando dele, cuidando bem dele. Ele fez Marn
entender como era realmente um coração caloroso. Marn era
profundamente grato por Than ter aberto voluntariamente os
braços para abraçar alguém tão frágil quanto ele.
Than fazia Marn se sentir uma pessoa comum — alguém
que poderia viver em sociedade e dar felicidade aos outros.
Than nunca fez Marn se sentir estranho ou com nojo de si
mesmo. Em vez disso, Than o fazia se sentir orgulhoso e se
amar mais a cada dia.
Marn realmente desejava poder contar à sua avó. Sua
vida agora estava muito boa. Ele estava muito feliz, cercado
por pessoas adoráveis. Ele realmente se sentia afortunado por
tê-las conhecido.
— Vamos, levanta. Vamos comer juntos.
— Diga isso para si mesmo, Than.
Os dois caminharam lado a lado para fora do dormitório.
O jantar não foi nada sofisticado de um restaurante famoso —
apenas uma sopa de macarrão simples na entrada do beco,
custando pouco mais de quarenta baht. Sentados juntos,
comendo juntos, rindo juntos.
Marn olhou para a pessoa sentada à sua frente. A brisa
que passava tornava a cena ainda mais perfeita. Em sua
mente, Marn começou a esboçar e colorir, adicionando
detalhes pouco a pouco até que se tornasse mais uma
memória querida. Uma vez, ele e alguém também tinham se
sentado aqui comendo macarrão juntos. A atmosfera da noite
era caótica e calorosa ao mesmo tempo.
Marn ficou encarando por tanto tempo que Than
percebeu, inclinando a cabeça levemente com curiosidade.
Marn não respondeu — ele apenas balançou a cabeça
suavemente.
Parecia que outra flor tinha desabrochado em seu
coração. Mesmo com a mudança das estações, seus
sentimentos permaneciam os mesmos.
Marn se apaixonou por essa pessoa tudo de novo.
ESPECIAL
3
O tempo passou e muita gente mudou. Três anos foram
tempo suficiente para uma criança se tornar adulta. Marn era
agora um estudante do terceiro ano da faculdade, vivendo
uma vida alegre e feliz, adequada para a sua idade. Havia
momentos em que ele se sentia cansado, é claro, mas não
importava o que acontecesse, esse período era um capítulo
incrivelmente precioso de sua vida. Marn pretendia aproveitar
ao máximo seus dias de universidade e não deixar que nem
um único segundo fosse desperdiçado.
No momento, era recesso de semestre.
Marn decidiu passar as últimas duas semanas
descansando. Ele deixou de lado todos os seus trabalhos de
meio período, arrumou suas roupas e viajou de volta para sua
cidade natal. Fazia muito tempo desde a última vez que ele
voltou para visitar seu único parente. Tio Karn estava agora na
casa dos quarenta anos, ainda vendendo leite de soja como
sempre.
Embora estivesse ficando mais velho a cada dia, ele ainda
era saudável e não tinha ficado doente. Sua insônia crônica
também parecia ter melhorado muito. Ele vivia pacificamente
naquela casa agora e não precisava mais trabalhar duro para
mandar dinheiro para Marn. O garoto tinha crescido e já podia
cuidar de si mesmo.
No futuro, se o tio Karn precisasse de ajuda, Marn
prometeu que o apoiaria totalmente, porque o tio Karn
realmente significava muito para ele.
— Olá, tio Karn.
Foi por isso que Marn decidiu voltar para uma visita.
Quando Than descobriu, decidiu vir junto também — mas ele
só poderia ficar por uma semana. Depois disso, ele teria que
continuar viajando para competições de natação. Sua agenda
estava extremamente apertada. Especialmente depois de se
formar e se tornar um nadador profissional em tempo integral,
Than dedicava todo o seu tempo aos treinos e competições.
Marn não conseguia evitar se preocupar. Ele tinha medo
de que Than estivesse se esforçando demais e não queria que
ele ficasse excessivamente estressado. Quanto mais alto você
subia, maior a pressão se tornava. Ser um representante do
país — esse título carregava um peso enorme. Than era
incrível por ser capaz de carregar isso nos ombros.
Quando chegaram ao destino, cada um seguiu para sua
respectiva casa. Than voltou para cumprimentar sua mãe,
enquanto Marn carregou sua bolsa para dentro da casa que
conhecia tão bem. A primeira coisa que viu foi o tio Karn se
preparando para ir vender leite de soja na entrada do beco.
Eram quatro da tarde — os adultos estavam saindo do
trabalho, as crianças saindo da escola, o momento perfeito
para montar a barraca. Sem hesitar, Marn largou a bolsa e foi
imediatamente ajudar.
— Eu ajudo a empurrar o carrinho, tio.
— Mhm.
— O senhor está bem, tio Karn?
— Do jeito que você está vendo.
Karn olhou para o sobrinho. Vários anos haviam se
passado desde o primeiro dia em que ele acolheu Marn. Marn
tinha mudado apenas um pouco — estava mais alto, suas
bochechas estavam mais finas e ele parecia mais maduro.
Mas, no geral, ainda era o mesmo garoto irritante de antes.
Karn tinha ouvido que a vida de Marn na universidade
estava indo bem. Ele era inteligente, esforçado e, uma vez
colocado em um ambiente que combinava com ele, teve a
chance de brilhar, de aprender e ganhar muitas experiências.
Ele recebeu uma bolsa de estudos e cuidava bem de si mesmo.
Karn não estava nem um pouco preocupado. Ele acreditava
que esse garoto certamente se tornaria um bom adulto.
Ele sentia um orgulho silencioso. Mesmo não tendo
criado Marn desde a infância, ver ele vivendo uma vida boa
ainda o deixava feliz. Toda vez que olhava para Marn, parecia
estar vendo uma versão de si mesmo em um mundo paralelo.
Se naquela época ele não tivesse tido problemas com a mãe —
se ela o tivesse entendido da maneira que ele entendia Marn —
talvez Karn tivesse sido alguém que sorrisse assim tão
abertamente também.
Seu eu do mundo paralelo... poderia ter sido um homem
de quarenta anos capaz e digno.
Mas não era como se sua vida atual fosse dolorosa. Sua
vida agora era pacífica. Ele trabalhava o suficiente para se
sustentar e encontrava felicidade em pequenas coisas ao seu
redor. Apenas ver a chuva cair o fazia se sentir relaxado.
Apenas ver um céu limpo e brilhante fazia seu coração se
sentir leve. A vida de Karn não era nada ruim.
Talvez... aquela versão de si mesmo no mundo paralelo
pudesse até ter inveja da vida calma que ele tinha aqui. Tio e
sobrinho empurraram o carrinho até o local de venda
habitual. Muitos clientes reconheceram Marn e pararam para
cumprimentá-lo. Fazia muito tempo desde a última vez que o
tinham visto.
Diziam que ele tinha mudado tanto que mal podiam
reconhecê-lo. Mas seu tio não achava isso de jeito nenhum.
Não importa como você olhasse para ele, ele ainda era aquele
garoto bobo que sorria o tempo todo, irradiando tanta bondade
que quase chegava a doer os olhos — ainda tão irritante
quanto antes. Para Karn, Marn ainda era aquele garotinho,
não tinha crescido nada.
— Tio Karn, tem algo especial que o senhor queira comer
hoje à noite? Devo comprar algo ou vamos cozinhar em casa?
— Tem comida em casa.
— Tá bom. Então eu ajudo a cozinhar. Desde que comecei
a morar no alojamento, minha comida ficou bem melhor.
— Quando foi que você se tornou esse tipo de pessoa que
se gaba?
— É sério, tio. Vou cozinhar para o senhor — o senhor vai
ver. Vai ficar uma delícia.
Karn encarou aquele sorriso e balançou a cabeça de leve.
Ver ele assim era um alívio. Marn devia estar vivendo uma vida
muito boa lá.
— E o senhor, tio? Está com saúde?
— O mesmo de sempre. Vivo do mesmo jeito que sempre
vivi.
— Desculpa por eu não ter vindo visitar muito.
— Por que vir tanto? Dá trabalho.
Marn sorriu para si mesmo. Ele sabia que o tio Karn era
só da boca para fora — teimoso e ruim em expressar seus
sentimentos. Na verdade, Karn se preocupava muito com ele.
Toda vez que se falavam, ele sempre perguntava sobre o dia a
dia de Marn.
Na época em que Marn tinha acabado de entrar na
faculdade, Karn ligava quase todo dia, perguntando
constantemente como as coisas estavam. Ele não estava tão
preocupado com os estudos — o que mais o preocupava era a
vida social. Alguém estava fazendo bullying com ele? Ele estava
sofrendo discriminação?
Se alguém falasse mal com ele, Karn dizia que ele mesmo
iria lá para dar um tapa na boca da pessoa — era
assustadoramente feroz. Mas assim que Marn lhe contou
como sua vida era realmente boa, as preocupações de Karn
diminuíram muito. Ainda havia muitas pessoas gentis no
mundo. Marn estava feliz por ter tido a chance de fazer parte
de uma nova comunidade assim.
Os dois trabalharam juntos até o cair da noite. Às sete da
noite, eles arrumaram as coisas e foram para casa. Tudo foi
vendido naquele dia — tiveram um bom lucro. A princípio, o
dono queria dividir um pouco do dinheiro com Marn, mas ele
balançou a cabeça rapidamente e recusou, dizendo para o tio
Karn ficar com tudo para si. Marn não estava mais passando
por dificuldades. Ele podia realmente cuidar de si mesmo
agora.
— Olha só quem está aí de novo.
Quando empurraram o carrinho de volta para casa, viram
uma figura familiar esperando na frente. Marn abriu um
sorriso largo e acenou com entusiasmo. Não era um estranho
— era o professor Nathi. Ele ainda parecia tão bem quanto
antes, forte e feliz. Marn juntou as mãos em um wai. Nathi
retribuiu com um sorriso gentil, depois deu um passo à frente
para assumir o trabalho de Marn, ajudando a empurrar o
carrinho para dentro de casa. Dava para ouvir algumas
reclamações, mas Nathi apenas sorriu e ficou bem ao lado
dele, sem ir a lugar nenhum.
Assim que entraram, Marn congelou ao notar que havia
mais pertences na casa do que antes. E, se você olhasse de
perto... aqueles itens não pareciam pertencer ao tio Karn de
jeito nenhum.
— E então, Marn, como está a vida na faculdade? Está
sendo divertido?
Marn seguiu as costas do professor Nathi com os olhos
enquanto ele guiava o caminho para dentro, lidando com as
coisas como se aquela fosse sua própria casa. Marn piscou
rapidamente, olhou para as roupas penduradas na parede e
depois olhou para Nathi novamente.
Hein...?
— Hmm? P'Karn, o que foi? Por que está me encarando
desse jeito? Fiz alguma coisa errada de novo?
— Eu te disse para não comprar comida. Ainda tem carne
de porco na geladeira. Você não pode terminar o que está lá
primeiro?
— Sim, sim. Mas eu sabia que seu sobrinho voltaria hoje,
então comprei um pouco a mais. Achei que poderíamos ter um
pequeno banquete juntos.
— Se a gente não terminar, você vai comer.
— Sim, sim. Eu cuido do que sobrar.
— Você comprou frutas?
— Sim, comprei. Até peguei sobremesa. Preparei tudo
direitinho. Já que seu sobrinho está vindo para casa, devemos
fazer tudo com capricho, certo?
— Você realmente sabe o que está fazendo.
— Eu conheço você melhor do que ninguém, P'Karn.
Nathi soltou uma risadinha e se aproximou, passando um
braço pela cintura de Karn e se inclinando de forma
provocativa. O verdadeiro dono da casa teve que levantar a
mão e empurrar o rosto de Nathi para longe. Marn ficou
parado, encarando a cena, antes de soltar...
— Espera um segundo...
— Hm?
— O tio Karn e o P'Nathi estão...?
Karn não quis ser quem responderia. Ele olhou
brevemente para o homem ao seu lado, depois se virou e
caminhou para a cozinha. Isso deixou para Nathi a tarefa de
explicar. Ele se voltou para Marn com um sorriso gentil e deu
um pequeno aceno com a cabeça. Nenhuma explicação longa
foi necessária — tudo ficou imediatamente claro.
Marn rapidamente levou a mão à boca. Ele sabia o tempo
todo que parecia haver algo entre esses dois, mas os adultos
nunca tinham dito uma palavra sobre isso, deixando todo
mundo assumir que não estava acontecendo nada por tanto
tempo. Marn tinha se mudado desta casa há três anos e não
tinha ideia de que o relacionamento deles tinha progredido
tanto já. Não me diga que o Than sabia disso também. O Than
com certeza devia saber!
Sério — como eles puderam manter isso em segredo e não
dizer nada? Eles mereciam uma boa bronca.
— Eu o cortejei por muito tempo — Nathi disse com uma
risada.
— Ele não abria o coração de jeito nenhum. Quando seu
tio finalmente balançou a cabeça e aceitou, eu estava
completamente exausto.
— En-então parabéns — disse Marn. — E muito obrigado
por cuidar do tio Karn todo esse tempo.
— De nada.
Marn sorriu abertamente, genuinamente feliz. Pelo olhar
nos olhos de Nathi agora, ele também devia estar feliz. Antes
disso, Marn nunca tinha pensado que seu tio algum dia
abriria o coração para alguém. Embora houvesse sinais —
como aquela viagem ao mar, quando este professor carregou o
tio Karn tão facilmente — o tempo ainda tinha passado
silenciosamente até agora.
Marn imaginou que quem não estivesse pronto para um
relacionamento era provavelmente o tio Karn. Ele tinha sido
ferido de forma profunda demais, carregando feridas no
coração que não podiam ser curadas, apenas suportadas.
Hoje em dia, tudo o que ele podia fazer era aliviar a dor
pouco a pouco. Nathi era incrivelmente gentil. Ele esperou
pacientemente todo esse tempo. Talvez Karn finalmente tenha
sentido essa compaixão e compreensão e, no fim, encontrou a
coragem de superar seu medo e concordar em ficar com Nathi
— permitindo-se ser feliz.
O amor entre o tio Karn e o P'Nathi era maravilhoso. Eles
estavam juntos há tanto tempo, entendiam-se completamente
e viviam pacificamente lado a lado. Não havia drama, nem
emoções fortes — apenas compreensão e cuidado genuíno.
Marn estava feliz que seu tio tivesse encontrado alguém em
quem pudesse confiar. O tio Karn já tinha sofrido o suficiente.
Ele merecia um pouco de paz.
— Então... isso significa que eu devo te chamar de tio
Nathi agora? — Marn brincou.
— Haha, isso soa velho demais. Só me chame de P'Nathi,
é como eu estou acostumado.
— Então você está dizendo que meu tio Karn é velho?
— Ei, Marn, não comece a criar problemas para mim!
— Haha!
Risadas encheram a casa. Marn e Nathi ajudaram a
arrumar a mesa enquanto o tio Karn ficava na cozinha. Depois
de um tempo, outra pessoa entrou. Than procurou por Marn
com o olhar e parou ao lado dele. Ele tinha acabado de visitar
sua própria casa mais cedo, já tinha jantado com sua mãe e
veio para cá depois disso para procurar seu irmão.
Na verdade, Nathi tinha se mudado de volta para a cidade
há muito tempo e gradualmente trouxe seus pertences para
esta casa também. Alguns dias ele passava a noite aqui,
outros dias ele voltava para seu próprio lugar — o que fosse
mais conveniente. Sua vida parecia confortável o suficiente
para fazer Than sentir um pouco de inveja.
Claro, Than sabia exatamente que tipo de relacionamento
esses dois tinham. Ele só não queria sair falando. Em parte
porque tinha medo do tio Karn — um adulto que Marn
respeitava profundamente e alguém muito rigoroso. Se o
próprio Karn não tivesse dito nada, Than também não ousaria
contar para Marn. Mas, a julgar pela expressão de Marn agora,
ele provavelmente já tinha percebido.
Than se virou para olhar para o irmão. Nathi estava
sorrindo abertamente, claramente feliz, e Than se sentia feliz
por ele também. Seu irmão tinha perseguido o tio Karn por
muito tempo, desde seus dias como nadador de competição.
Realmente alguém com uma devoção inabalável. Than
honestamente admirava como ele tinha aguentado esperar por
tanto tempo.
— Vou lá ajudar o tio Karn a cozinhar — disse Marn,
deixando os dois irmãos sozinhos enquanto corria para a
cozinha.
Nathi observou as costas pequenas de Marn e então falou.
— Você não maltratou o garoto, maltratou?
— Maltratei? Cuidado com as palavras. Se o tio Karn
ouvir isso, ele vai entender errado.
— Você realmente tem medo do P'Karn.
— Você não tem medo também?
— Você é bom de resposta.
— Você já contou para a mamãe?
— Contei o quê? Ela já sabe há séculos. Nossas casas são
praticamente uma do lado da outra.
— Então o tio Karn concordou em oficializar?
— Não exatamente.
— Como assim?
— Estamos juntos há muito tempo já. Compartilhamos
momentos difíceis e momentos felizes, palavras não são tão
importantes agora. Só de olharmos um para o outro, a gente se
entende. P'Karn não quer uma vida complicada. Se ninguém
perguntar, ele não vai dizer nada.
— E você está bem com isso?
— Sim. Eu o amo.
Than soltou o ar. Tudo bem — isso era um assunto de
adultos, melhor deixar para os adultos. Já que ambos os lados
estavam contentes com um relacionamento tranquilo, ele não
iria interferir. Só de ver seu irmão sorrir tão abertamente já era
o suficiente. Parabéns, então.
— E quanto à competição? — Nathi perguntou. — Você
vai para o Vietnã na semana que vem — está pronto para
voltar para a piscina?
— Deixe-me descansar um pouco primeiro.
— Você compete com tanta frequência — não esqueça de
cuidar de si mesmo.
— Eu sei.
Nathi estudou o rosto do irmão mais novo, aproximou-se
e apertou suavemente seu ombro. Seu olhar estava cheio de
orgulho. Ele mesmo tinha se afastado totalmente da natação
agora, tornando-se um professor de matemática que ensinava
apenas o conteúdo dos livros didáticos. Claro que ele sentia
falta dos dias de cortar a água na piscina — mas a realidade
tinha que ser aceita. Ele nunca poderia retornar àquela vida.
Ser um atleta nacional permaneceria sendo o sonho da
sua vida. Mas Nathi nunca culparia Than, nunca exigiria
responsabilidade dele. Ele já tinha fechado aquele capítulo
doloroso. Agora, tudo o que ele queria fazer era apoiar e
encorajar seu irmão, esperando que Than fosse ainda mais
longe.
O pai deles, observando de longe, devia estar sentindo o
mesmo orgulho.
— Você foi ótimo.
Than assentiu, a culpa ainda persistindo em seu coração.
Ele sabia melhor do que ninguém qual tinha sido o sonho de
Nathi. Quando Nathi nadava, ele era verdadeiramente feliz.
Seu apelido, Tubarão Mako, veio de sua velocidade e agilidade.
Comparado a Warin e Than, Nathi tinha sido o mais talentoso
— como a sombra do pai deles. Mas então aquele incidente
aconteceu e Nathi teve que dizer adeus ao seu sonho.
A tristeza brilhou nos olhos de Than. Nathi percebeu e
deu um peteleco na testa de Than.
— Ai!
— Não pense demais nisso. Isso tudo está no passado.
Estou feliz com minha vida agora. Não ter que viajar para
competições significa que posso estar com o P'Karn com mais
frequência — eu não poderia estar mais feliz.
— Tsc.
— O que passou, passou. Não se prenda a isso. Apenas dê
o seu melhor hoje. Continue tentando.
— ...
— Ver você ter sucesso, esse é o meu sonho também.
Nathi não queria que seu irmão carregasse a culpa por
mais tempo. Se ela ficasse pesada demais, só iria atrasá-lo na
água.
— Voltei!
A voz alegre de Marn ecoou. Depois de ajudar na cozinha
por um tempo, ele saiu carregando um prato perfumado de
porco refogado com manjericão. Vendo os dois irmãos
sentados juntos, ele abriu um sorriso largo. A casa do tio Karn
estava animada novamente.
— Por que está todo mundo nesta casa agora?
— Porque agora somos todos uma família, P'Karn — disse
Nathi.
Karn lançou-lhe um olhar afiado, mas não pôde
argumentar — porque era verdade. Tudo o que ele pôde fazer
foi aceitar com uma expressão rígida.
— Eu vou servir o arroz — disse Marn.
Ainda o bom garoto que sempre foi, Marn levantou-se
para servir arroz para todos. Enquanto comia, ele observava
secretamente seu tio e o professor. Eles estavam cuidando um
do outro há muito tempo agora. Cada ação parecia natural,
familiar. Um comia em silêncio, sem falar muito; o outro
sorria, ria e mantinha a conversa fluindo — mas sempre
vigiando a pessoa ao seu lado. Quando percebeu que a água
estava acabando, ele pegou a jarra e serviu mais.
Eles se conheciam há muito mais tempo do que Marn
conhecia o tio Karn. Marn sentia-se verdadeiramente feliz,
sabendo que havia alguém neste mundo pronto para valorizar
seu tio.
— Pare de encarar e coma sua comida.
Uma voz soou ao lado dele. Marn olhou para o seu prato
— Than tinha colocado um pouco de frango frito ali. Marn
sorriu docemente e se virou para ele. Por que ter inveja do tio
Karn, quando ele mesmo também tinha alguém maravilhoso
cuidando dele?
— Quer isso?
— Than, para. Não coloca mais no meu prato, eu não
consigo dar conta.
— Coma mais.
— Quem come tanto assim no jantar?
— Você está magro demais. Coma. Mais.
— Ei! Onde é que eu estou magro?
— Esse aqui está gostoso.
— Já chegaaaa.
Karn encarou a cena diante de si. Ver que o irmão mais
novo de Nathi estava cuidando tão bem de seu sobrinho o
deixou tranquilo. Ele não tinha percebido o quão rápido o
tempo tinha passado — em breve, Marn estaria se formando
na universidade.
Ele pensou de volta no dia em que dirigiu para trazer
Marn para casa. Naquela época, Marn era uma criança muito
menor. O medo e a fragilidade persistiam em seus olhos, mas
ele exibia um sorriso largo e dizia a todos que estava bem,
fingindo ser forte mesmo que seu coração estivesse maltratado
e ferido além da conta. Muitos anos tinham se passado desde
então, e Marn parecia ter crescido tanto. A tristeza em seus
olhos tinha sumido agora. Ver aquilo deixava Karn feliz.
Parte dessa felicidade certamente tinha a ver com Than,
que cuidou tão bem de Marn — mostrando a ele que ainda
havia pessoas neste mundo dispostas a abrir os braços e
aceitá-lo. Marn não era algum portador de doença nojento. Ele
não era inútil. Ele não tinha que viver afogado em tristeza,
esperando pela morte como tantas pessoas ignorantemente
acreditavam que ele deveria. Ele podia viver como uma pessoa
comum, desfrutar de uma vida pacífica e crescer como um
bom adulto.
Karn sentia orgulho ao ver isso. Ele acreditava que sua
mãe sentiria o mesmo. Ele se sentia incrivelmente sortudo por
ter conhecido esse garoto, e tinha certeza agora que sua
decisão naquela época — de dirigir e trazer Marn para casa —
tinha sido a correta. Esse garoto entrou em sua vida e mudou
não apenas ele, mas todos ao seu redor. Aquele sorriso
brilhante afugentou a escuridão. Realmente, Marn era alguém
digno de gratidão.
Karn desejou silenciosamente que a felicidade de seu
sobrinho durasse para sempre.
Que aquele sorriso permanecesse brilhante, sem nunca
esmorecer.
Que Marn, mesmo aos quarenta, ainda sorrisse mais
intensamente do que qualquer outra pessoa.
Que ele tivesse uma vida ainda melhor do que a de seu tio.
Nathi notou a suavidade no olhar de Karn enquanto ele
olhava para Marn e entendeu exatamente o que ele estava
pensando. Ele estendeu a mão, segurou a mão de Karn, deu
um aperto suave e ofereceu um pequeno sorriso — como se
para reafirmar que a vida dele agora também era boa. Ele
estava vivendo pacificamente com a pessoa que amava, não
sentia mais dor. Karn era admirável por suportar tudo e se
trazer até este ponto. A força e a resiliência que Marn possuía
tinham sido todas herdadas de seu tio.
— P'Karn, quer um pouco de frango? Vou pegar para você.
Tios devem comer bastante também — disse Nathi.
— Se comer frango demais, você vai ter gota.
— Então a gota gosta de cuidar de si mesma ou o quê? —
Nathi brincou.
Isso foi ousado. Ouvindo seu irmão fazer aquela piada,
Than sentiu tanta vergonha que quis sumir no chão. Ficou
todo arrepiado. Como ele podia dizer algo assim quando os
garotos estavam sentados bem aqui? Não é de admirar que o
tio Karn o tenha mantido na friendzone por dez anos — quem
iria querer alguém assim como namorado?
— Ha.
Mas então... Karn soltou uma risada suave.
Todos à mesa se viraram para olhar para ele em choque.
O sorriso de Karn era verdadeiramente raro.
Uau... tio Karn sorri tão facilmente agora.
Nathi sorriu orgulhoso e piscou para seu irmão mais
novo, exibindo que finalmente tinha conquistado o coração do
tio Karn. Sentindo-se encorajado, ele agiu por impulso —
inclinando-se mais perto e plantando um beijo rápido na
bochecha de Karn.
Desta vez, o resultado foi bem diferente.
Karn não sorriu timidamente. Em vez disso, ele levantou
a mão bem alto e deu um tapa forte nas costas de Nathi com
um estrondo alto. O professor deu um grito, Marn arquejou e
Than continuou comendo sua comida em silêncio, com os
olhos baixos.
— Não se empolgue, ou eu te expulso para comer sozinho
lá fora — alertou Karn.
— Waaah...
Sério — procurando sarna para se coçar sem motivo
nenhum. Será que o amor entre esses dois adultos ia
realmente ser tão pacífico quanto parecia?
ESPECIAL
4
— Tudo bem, saúde!
O tilintar dos copos ecoou, seguido pelos brindes do
grupo de estudantes recém-formados. Hoje, Marn tinha
retornado mais uma vez à casa do tio Karn, acompanhado por
sua gangue do ensino médio. Todos estavam lá: Ryu, Ying,
Hem e até Than, que agora era um nadador da seleção
nacional. Era, sem dúvida, o maior reencontro deles nos
últimos dois anos.
Depois de entrarem na universidade, cada um seguiu seu
próprio caminho. Marn e Than se viam com frequência, já que
frequentavam a mesma faculdade, mas encontrar os amigos
de outras universidades era muito mais difícil. Tudo o que
podiam fazer era acompanhar a vida uns dos outros pelas
redes sociais. Quanto mais cresciam, mais se distanciavam.
Marn entendia bem isso. Ele sempre desejava a felicidade de
seus amigos e esperava sinceramente que cada um alcançasse
seus sonhos sem se perder ou deixar seus corações fortes
fraquejarem pelo caminho.
Então, vamos atualizar o que anda acontecendo na vida
de cada um.
Primeiro, Marn. Ele tinha acabado de se formar na
Faculdade de Contabilidade com honras de primeira classe e
uma medalha de ouro, como era de se esperar de um aluno
dedicado. Atualmente, ele estava procurando emprego e já
tinha recebido alguns retornos. Em breve, começaria a fazer
entrevistas. Marn se sentia animado; a partir dali, ele se
tornaria um adulto de verdade.
Quanto a Hem, ele tinha entrado oficialmente para a
indústria do entretenimento. Começou estudando atuação e,
depois de se formar no ensino médio, sua aura só ficou mais
forte até que finalmente chamou a atenção de um
caça-talentos. Passo a passo, ele foi subindo, começando com
papéis pequenos, e agora tinha começado a fazer nome. Marn
ficava feliz em ver o sucesso de Hem. Ele esperava que, um dia,
Hem se tornasse o galã número um do país, exatamente como
havia sonhado. Com um visual marcante daqueles, esse dia
certamente não estava longe.
Ying lançou sua primeira música logo após se formar no
ensino médio. No começo, quase ninguém ouvia. Ainda assim,
ela não desistiu e continuou compondo. Assim que entrou na
universidade, conheceu novos amigos que compartilhavam
sua paixão. Ela começou a participar de concursos de canto e
a lançar novas músicas. Conforme as pessoas passaram a
reconhecê-la, mais ouvintes surgiram. Agora, ela podia se
chamar com confiança de cantora profissional.
É claro que tinha o Ryu. Marn sempre torceu por ele.
Houve uma época em que Ryu passou por algo tão doloroso
que quase lhe custou a vida. O pai dele o forçou a prestar
vestibular para medicina, embora Ryu nunca tivesse querido
ser médico.
O sofrimento e a pressão o levaram a tomar uma decisão
terrível, mas, no fim, ele teve a chance de consertar as coisas.
Não apenas Ryu, mas seu pai também aprendeu com os erros.
Quando Ryu disse que queria ser ilustrador, um artista, seu
pai finalmente o deixou seguir esse sonho.
Agora, Ryu tinha se tornado um artista com um estilo
único, reconhecido na comunidade da pintura. Ele ganhou um
prêmio para artistas emergentes e ganhava um bom dinheiro
fazendo o que amava.
Marn estava genuinamente feliz em ver Ryu vivendo bem.
Ele era grato a todos que não abandonaram Ryu naquela
época; do contrário, ele não estaria sentado aqui hoje. Nada
importava mais do que estar vivo.
Quanto a Than, o famoso nadador que ele finalmente se
tornou, ele virou um atleta da seleção nacional como sonhava.
Ele competia em grandes eventos, ganhava fama e honras, e
agora detinha o recorde de nadador mais rápido do país. Era
verdade que ele talvez ainda não tivesse superado o irmão —
afinal, Nathi já tinha sido o tritão mais veloz e ágil de todos —
mas Marn acreditava que, um dia, Than conquistaria o
campeonato. Ele tinha crescido muito, teve oportunidades de
treinar no exterior e melhorava a cada competição. Marn
sentia um orgulho imenso de seu namorado.
Parecia que a vida de todos finalmente tinha se
encaixado. Marn não conseguia evitar de pensar no passado,
quando eram crianças andando de bicicleta juntos pela beira
da estrada. Agora eles tinham seguido rumos diferentes,
crescendo em seus próprios caminhos. No entanto, não
importava quanto tempo passasse, aquela primavera de
quando tinham dezessete anos ainda vivia em seus corações.
Os bons momentos e as memórias compartilhadas
permaneciam vívidos.
Sentados juntos assim, vendo o brilho nos olhos uns dos
outros, Marn sabia que seus amigos sentiam tanta falta
daqueles dias quanto ele.
— Eu realmente sinto falta disso — disse Hem, olhando
pela janela. — Faz tanto tempo que não voltamos aqui. De
agora em diante, todos estaremos trabalhando em outros
lugares, cada vez mais longe de casa.
Eles estavam sentados em um restaurante simples de
pratos feitos, um que costumavam frequentar quando eram
estudantes. A tia que era dona do lugar tinha envelhecido,
com fios grisalhos marcando sua cabeça. Os garotos do ensino
médio que antes se reuniam ali tinham se tornado adultos. O
tempo mudava as pessoas, mas nunca poderia mudar quem
elas realmente eram.
Naquela época ou agora, Hem ainda era o mesmo Hem: o
encrenqueiro do grupo. O fogo em seu coração não tinha se
apagado. Ele ainda perseguia seu sonho incansavelmente.
Afinal, seu objetivo era se tornar o ator principal número um
da Tailândia. E, até alcançar esse sonho, Hem não pretendia
parar tão cedo.
— E como você está, Ryu? Ouvi dizer que vai abrir uma
galeria logo?
— É.
— Caramba, isso é incrível. Você é demais. Eu fico
lembrando da primeira vez que você entrou em uma
competição de desenho, a Ying e eu tivemos que correr para
levar sua obra ao correio para você. Aquela peça foi como seu
primeiro passo, não foi? E agora você é um artista de mão
cheia. Hum... não me leve a mal, mas já que somos melhores
amigos, posso ganhar um dos seus desenhos? Com um
autógrafo também. Eu vou revender... ai! Idiota da Duanphen,
isso dói! Se meu cabelo começar a cair em tufos, você vai
assumir a responsabilidade? Eu ainda tenho que ir gravar um
drama depois daqui!
— Você merece, Hem. Como ousa falar em favores? Você
já está rico e ainda tenta conseguir o trabalho do seu amigo de
graça. Ryu, cobre dele pelo menos dez milhões. Não dê para ele
de graça nem que ele seja uma celebridade de topo. Negócios
são negócios.
Ying colocou as mãos nos quadris e deu uma bronca em
Hem. Aqueles dois ainda viviam brigando como nos velhos
tempos. Ryu, pego no meio, suspirou e ergueu as mãos para
detê-los.
— Eu já trouxe presentes para todos hoje, de graça.
— Sério?!
— É.
Os olhos de Marn brilharam também. Todos esperaram
ansiosamente enquanto Ryu tirava os presentes da bolsa. Não
eram grandiosos ou luxuosos, apenas desenhos comuns
emoldurados em madeira. Mas, no momento em que os viram,
todos ficaram em silêncio.
Marn pegou o seu e o estudou. Os traços de lápis de cor
eram distintos; o sombreamento, as escolhas de cores, a
composição — tudo mostrava claramente o cuidado e a
intenção do artista. Cada quadro era diferente; ninguém
recebeu a mesma imagem. Marn sorriu suavemente. Só de
olhar para o desenho, uma enxurrada de memórias voltou.
Era uma imagem de todos eles correndo juntos, a cena de
quando ajudaram a pegar os patos. Marn riu baixinho quando
se viu sentado em uma carroça, com Than a empurrando
enquanto os outros corriam ao redor. Ryu tinha desenhado os
patos de um jeito tão fofo. Era impossível não pensar no que
realmente aconteceu naquela época, quando Marn tinha
acabado de conhecer todo mundo.
Ying recebeu um desenho da época em que estudavam
juntos para as provas. Ela ficou olhando para ele, com os
olhos tremendo. Hem também ficou em silêncio. Sua foto era
da viagem que fizeram para a cachoeira, onde ele agiu como
guia, levando todos pela área. Marn tinha ficado tão feliz
naquela época, tão feliz por passar tempo com amigos pela
primeira vez. Ele ainda conseguia se lembrar da brisa suave e
da luz quente do sol. Aquela atmosfera bonita permanecia
vívida em sua memória. Toda vez que ele pensava nisso, seu
coração ainda acelerava como naquele dia.
Quanto a Than, sua imagem era da vez em que o grupo foi
torcer por ele em uma competição de natação. Naquela época,
Than tinha cicatrizes emocionais profundas e não ousava
tocar no esporte. Então, todos ajudaram a reerguê-lo,
apoiando e incentivando-o a trilhar o caminho de seus sonhos
mais uma vez. E agora, aqui estava ele. O Than medroso tinha
ido embora. Ele tinha se tornado um nadador famoso e
poderia se tornar ainda mais famoso no futuro.
— E o seu? Você não fez um para você mesmo?
— Fiz.
Hem perguntou enquanto Ryu pegava sua própria
imagem. A imagem que Ryu desenhou para si mesmo veio de
uma foto no celular de Marn, tirada logo após Ryu ter
recuperado a consciência. Ele estava deitado em uma cama de
hospital, vestindo uma bata, cercado por amigos próximos
parados ao seu lado. Era uma imagem cheia de calor e uma
sensação indescritível de felicidade.
— Por que você escolheu essa foto para você?
— Quando decidi desenhar algo, tentei pensar em
momentos que combinassem com todos. Pensei em todos eles,
exceto no meu. Passei muito tempo pensando e, a princípio,
quase desisti de desenhar um para mim. Mas aí me lembrei
dessa foto que o Marn tirou, então decidi desenhá-la.
— ...
— Naquela época... eu nunca pensei que sobreviveria.
Mas quando abri meus olhos de novo, quando me senti
respirando novamente, percebi como a vida é preciosa. Foi
quando eu renasci — quando comecei uma vida nova, deixei
toda a tristeza para trás e me tornei o Ryu que sou hoje.
— ...
— Eu não quero esquecer aquele momento, então escolhi
desenhar esta imagem para mim mesmo.
— ...
— Mesmo que um dia eu envelheça e esqueça de tudo,
espero que, quando olhar para esta imagem, eu me lembre de
todos e me lembre que, uma vez, tive amigos tão maravilhosos.
Ryu falou com um sorriso gentil, mas os olhos dos
ouvintes se encheram de lágrimas, especialmente Ying e Hem.
Eles rapidamente cobriram a boca e correram para abraçar o
amigo. A história de Ryu era algo que ninguém jamais poderia
esquecer. Se tivessem chegado à casa dele até mesmo um
pouco mais tarde naquele dia, não haveria Ryu parado aqui
agora...
Than, que estivera quieto o tempo todo, estendeu a mão e
deu uns tapinhas no ombro de Ryu algumas vezes. Ele não era
alguém de falar coisas profundas, mas desta vez queria dizer o
que estava em seu coração.
— Fico feliz que você esteja aqui.
— É. Eu também fico feliz em ver você aqui. Você
finalmente voltou a nadar e se tornou um atleta da seleção
como queria. Você é incrível.
Aquela era uma cena rara. Tanto Than quanto Ryu eram
homens de poucas palavras. Na escola, eles mal
compartilhavam momentos juntos, quanto mais sentar assim,
oferecendo encorajamento. Eles mal se falavam naquela
época. No entanto, parecia que se entendiam bem o suficiente.
Eles podiam realmente ser chamados de amigos próximos.
Marn assistiu à cena e sorriu de felicidade.
Aquele grupo de crianças daquela época tinha crescido
tão bem.
Se a vovó estivesse assistindo, Marn gostaria que ela
soubesse que ele estava muito feliz agora. Ele finalmente
entendia o que era ter uma amizade verdadeira. Ele tinha uma
sorte incrível de ter conhecido esse grupo de amigos.
— Meus olhos estão lacrimejando... vou chorar, Mae.
— Para de me chamar de Mae, Duanphen! Eu sou uma
celebridade agora, sabe. Você não pode mais usar apelidos de
infância.
— Vou te chamar de Mae. O que você vai fazer a respeito?
— Então eu vou te chamar de Duanphen também!
— Mae!
— Duanphen... pode vir!
Marn observava o caos à mesa. Por fora, parecia que
estavam discutindo, mas, no fundo, ambos estavam radiantes
por estarem reunidos. Era só olhar para os sorrisos e os olhos
de Hem e Ying — eles estavam verdadeiramente felizes.
Depois de comerem juntos e compartilharem histórias até
estarem satisfeitos, chegou a hora de voltarem para a casa de
seus pais. Todos se despediram, esperando que no futuro
tivessem outra chance de se reunir assim novamente. Eles se
abraçaram um por um e tiraram outra foto em grupo antes de
seguirem caminhos opostos.
Ryu saiu primeiro, indo em direção ao seu carro, mas
parou quando alguém tocou suavemente em seu ombro.
Quando o jovem de óculos se virou, viu Ying. Ele ficou parado,
olhando para o rosto dela. Muitos anos haviam se passado, e
Ying tinha crescido muito. Não restava nada daquela
machuda de cabelo curto que ele conheceu um dia. Agora ela
usava o cabelo comprido e gostava de estilos de roupas
modernos, e isso combinava bem com ela.
— Me dá uma carona para casa.
— Como você veio para cá?
— Ué, só estou pedindo para você me deixar lá. Não vai?
Posso ficar magoada com isso? A gente costumava ir para casa
juntos o tempo todo.
— Por que está emburrada? Eu nunca disse que não ia.
— Ótimo. Não esquece quem é que manda aqui.
Ryu olhou para Ying e sorriu suavemente.
Por fora, ela tinha mudado, mas Ying ainda era a Ying. A
mesma pessoa que era mais próxima dele do que qualquer
outra. Seu primeiro amor, um que ele nunca esqueceria.
Mesmo agora... seu coração ainda disparava toda vez que
a via.
Ele ainda amava Ying da mesma forma. Ele ainda olhava
para ela com os mesmos olhos quentes e gentis. Ele ainda
desejava o bem dela e se preocupava com ela como sempre.
Ryu era, sem dúvida, o fã número um dessa cantora.
— Como você tem passado? Faz tanto tempo desde a
última vez que nos vimos. A última vez que fizemos planos foi
há quase um ano, né?
— É. Tenho passado bem. Ainda gosto de desenhar tanto
quanto antes.
— Quais são seus planos para o ano que vem?
— Estou pensando em viajar pela Europa — desenhar
lugares diferentes e publicar um livro de esboços de viagem.
Ryu compartilhou seus planos. Ele já tinha traçado para
onde queria ir no ano que vem. Ele queria viajar para novos
lugares, desenhar tudo em um caderno de esboços e compilar
em um diário de viagem. Depois, compartilharia as
experiências que encontrasse através daqueles desenhos,
contando a história de alguém percorrendo seu próprio
caminho. Ele planejava ir de mochila nas costas sozinho,
acreditando que seria uma ótima oportunidade para ampliar
seus horizontes e aprender com novas experiências.
Ying sorriu e se aproximou, levantando a mão para
apontar para o rosto de Ryu. Ryu arqueou uma sobrancelha
levemente, confuso.
— Por que você não me convidou?
— Convidou para quê?
— Como você pôde ir sozinho?
— ...
— Um tonto como você, viajando para o exterior sozinho...
é sério, dá preocupação.
— Você quer ir comigo?
— É claro.
O coração de Ryu começou a bater forte novamente. Esse
tipo de empolgação o deixava atordoado. As pontas de seus
dedos se agitaram contra a calça enquanto ele começava a
perder o controle do nervosismo.
— E... e quanto ao seu trabalho?
— Eu vou viajar para encontrar inspiração para escrever
novas músicas.
— É mesmo?
— Então, posso ir com você?
— Você paga suas próprias despesas.
— Ah, por favor, eu tenho dinheiro! Falar desse jeito me
dá vontade de te bater. Eu estou bem rica agora, sabe. Não
acredita em mim?
Ying plantou as mãos nos quadris e lhe deu uma bronca,
encarando Ryu, que estava sorrindo. Na atmosfera da noite —
com a luz suave do sol e a brisa passando — ela parecia ver
imagens sobrepostas do Ryu do passado. Aquele garoto quieto
e calmo que sempre a lembrava de manter os pés no chão. Por
fora ele podia parecer fraco, como alguém que não revidaria,
mas ele foi quem protegeu Ying o tempo todo. Ele era um
amigo verdadeiramente bom.
Ela não sabia se as coisas se transformariam em algo
mais depois disso. Talvez devesse ser deixado para o tempo e
para os sentimentos. Mas uma coisa era certa... em toda a sua
vida, Ying nunca tinha conhecido um homem tão gentil
quanto este amigo.
— Se não acredita em mim, vamos à loja de frango frito na
frente da escola. Eu pago.
— Você tem dinheiro para isso?
— Eu compro a loja inteira!
Ryu observou enquanto a jovem subia em seu carro. O
sorriso não saiu de seu rosto, nem por um segundo. Parecia
que ele tinha voltado a ser aquele mesmo adolescente. A
estação em que as flores desabrochavam em seu coração...
tinha chegado mais uma vez.
— Nossa... mudou tanto — exclamou Marn ao entrar na
piscina da escola.
Depois de se despedirem no restaurante, ele tinha ido
para casa com Than. Ele não sabia o que tinha dado em Than
para levá-los até a antiga escola. Eles passaram facilmente
pelo segurança, já que ele conhecia bem o professor Nathi. Ao
entrarem na área da piscina, a primeira coisa que viram foi a
água brilhando, refletindo a luz suave do entardecer que
entrava.
Marn fechou os olhos e respirou fundo, memórias dos
velhos tempos voltando com tudo. Este lugar estava cheio de
suas lembranças.
— O P'Thi me disse que depois que você entrou para a
seleção nacional, a escola realmente começou a desenvolver
nadadores. Muitos alunos novos desta escola veem você como
um ídolo. Eles querem ser como você. Não está feliz por tantas
pessoas te admirarem?
Marn falou enquanto se virava para olhar para Than.
Than estava com as mãos nos bolsos, encarando a superfície
imóvel da água. Seu olhar tremulou como pequenas
ondulações.
— Eu não ligo muito se outras pessoas me admiram.
— ...
— Ter apenas você já é o suficiente.
— Você está flertando comigo de novo. Que irritante.
— ...
— Voltar para a escola me faz pensar ainda mais no
passado. Você era tão teimoso naquela época — sempre
fugindo de mim e do P'Thi. Mas, no fim, você não conseguiu
escapar. O P'Thi te arrastou para a piscina de qualquer jeito.
— Foi ali?
— Hein? O que você quer dizer? O que tem ali?
— Onde demos nosso primeiro beijo.
O quê!? Falar assim na lata, do nada? Isso foi perigoso
demais. Ele estava tentando fazer o Marn ter um ataque
cardíaco?
— Espera aí... não falo mais com você.
— Você está com vergonha?
— Como você pode falar de algo assim aqui?
— Só me veio à cabeça.
— Por que você fica mais atrevido conforme envelhece?
— Atrevido como?
— Em tudo. E você flerta com todo mundo também.
— Quando foi que eu fiz isso?
Marn mostrou os dentes para ele, mas, aos olhos de Than,
era insuportavelmente fofo.
Than se aproximou, pegou a mão de Marn e olhou
profundamente em seus olhos. Ele viu tantas coisas ali —
especialmente memórias que compartilharam no passado. Se
não tivesse conhecido Marn naquela época, se Marn tivesse se
transferido para outra escola, não haveria como ele estar aqui
agora. Ele queria dizer obrigado cem milhões de vezes. Ele era
grato por terem crescido juntos.
A luz refletia na superfície da água e caía sobre o rosto de
Marn. A cena era linda. Than a gravou em sua memória.
Ele se apaixonou por Marn tudo de novo.
— Obrigado.
— Hum.
— Conhecer você... é a minha maior sorte.
— Tanto assim?
— É. Tanto assim.
— Estou feliz por ter conhecido você também.
— Você está mesmo feliz estando comigo?
— Realmente feliz.
— Você já se machucou por minha causa?
— Machucar, não... mas já me senti um pouco chateado
às vezes.
— Quando?
— Muitas vezes. Você não saberia.
— Então por que não me contou?
— Eram coisas pequenas. Eu conseguia lidar com as
minhas próprias emoções. Não queria te distrair com os meus
problemas. Eu queria que você focasse no treino, fosse
competir, permanecesse focado no seu sonho.
— Seus sentimentos também são importantes, sabe.
Marn sorriu gentilmente e levantou a mão livre para
bagunçar suavemente o cabelo de Than.
— Eu sei. Acredito que, se você soubesse que eu estava
sofrendo, nunca deixaria assim.
— De agora em diante, você tem que dizer algo se houver
um problema.
— Hum. Se for muito sério, eu não vou guardar para mim.
Também não quero me deixar triste.
— Eu te amo, Marn.
— Eu sei.
— Obrigado... de novo.
— Obrigado a você também.
— Você vai ficar do meu lado assim para sempre, Marn?
— Com certeza. Vou ficar até você enjoar da minha cara.
E se você algum dia parar de me amar, tem que me levar de
volta e me entregar para o tio Karn pessoalmente.
— Eu não consigo nem imaginar como pararia de te amar.
Então não vou pensar nisso. Vamos apenas falar do agora.
— ...
— Eu vou ser melhor, Marn. Não vou te machucar. Não
vou te fazer chorar. Eu prometo.
— Promete?
— Sim. Eu prometo.
Marn apertou levemente a mão dele em resposta. Os dois
ficaram lado a lado, observando a piscina. Uma sensação de
leveza os invadiu, acompanhada por uma brisa suave que
entrava pelas grandes portas. Do lado de fora, o sol do
entardecer brilhava sobre as árvores verdes, e grupos de
estudantes voltavam para casa juntos.
Marn se inclinou um pouco para frente, sorrindo
enquanto observava a cena. Era como se uma imagem
desbotada se sobrepusesse à realidade — cinco adolescentes
correndo, rindo juntos. Ele sentia muita falta daquela época.
Uma vez, ele teve a chance de aprender o que significava
amizade. Uma criança que vivia fingindo ser forte, quando na
verdade era frágil e vulnerável — ansiando por apoio, ansiando
por algo em que se segurar emocionalmente. Ele conhecia
apenas nuvens escuras e névoa pesada, mas ainda tentava
sorrir através de cada problema. Ele já tinha se ressentido do
destino, perguntando por que ele era quem enfrentava apenas
dificuldades enquanto outros viviam vidas despreocupadas.
Foi só depois de conhecer esse grupo de amigos que ele
aprendeu a verdade: todo mundo carrega um canto escuro no
coração. Às vezes tem que ser escondido, impossível de
compartilhar. Se deixado sozinho, ele só cresce, engolindo
toda a luz interior. Se não forem cuidados a tempo, esses
jovens podem se tornar adultos com corações profundamente
feridos — tarde demais para consertar qualquer coisa então.
Marn esperava que sua história pudesse servir de
exemplo, ensinando outros a pararem a escuridão em seus
corações antes que fosse tarde demais. Algumas coisas não
podem ser superadas sozinhas. Para derrotá-las, deve-se
aceitar ajuda de outros. E, o mais importante, abrir o coração
para as pessoas certas... não é nada assustador.
Marn era grato por ter conhecido amigos tão
maravilhosos. Eles entraram em sua vida sombria, brilhando
luz e espantando a névoa pesada. Eles o ensinaram o que era a
verdadeira amizade, tornando suas memórias aos dezessete
anos lindas e significativas.
Não importa se dez anos passarem, vinte anos, ou mesmo
uma vida inteira — toda vez que Marn olhar para trás, ele
sorrirá. Seu coração sentirá o calor da luz do sol da primavera
daquele ano. Enquanto ele tiver memórias bonitas para
recordar, ele sempre será feliz.
O campo de flores no coração de Marn florescerá para
sempre.
Nem tudo pode ser
um fim...
}
Obrigada a todos que chegaram até aqui!
SAK