3- Diferenciar as respostas de acordo com os diferentes tipos de imunógenos:
Vacinas Bacterianas e Virais Atenuadas e Inativadas
Algumas das vacinas mais antigas (primeira geração) e mais efetivas são compostas por
microrganismos intactos que foram tratados de modo a serem atenuados ou mortos, para
assim não mais causarem a doença e, ao mesmo tempo, reterem sua imunogenicidade. A
grande vantagem das vacinas microbianas atenuadas é a indução de todas as respostas
imunes inatas e adaptativas (tanto humorais como celulares) que o microrganismo
patogênico induziria, sendo assim a forma ideal de indução de imunidade protetora.
As vacinas com bactérias atenuadas ou mortas atualmente em uso em geral induzem
proteção limitada e são efetivas somente por curtos períodos. As vacinas com vírus vivos
atenuados geralmente são mais efetivas, e três bons exemplos são as vacinas contra
poliomielite, sarampo e febre amarela. As vacinas virais muitas vezes induzem imunidade
específica duradoura, por isso a imunização de crianças é suficiente para conferir proteção
por toda a vida. O aspecto mais preocupante das vacinas virais ou bacterianas atenuadas
é a segurança. A vacina oral viva e atenuada contra a poliomielite quase erradicou a
doença, mas em casos raros o próprio vírus contido na vacina é reativado e causa
poliomielite paralítica. De fato, o êxito da vacinação mundial está criando o problema da
doença induzida por vacina que, apesar de rara, poderia se tornar mais frequente do que
a doença naturalmente adquirida. Esse problema em potencial pode ter de ser abortado
por meio da reversão para a vacina com o vírus morto, a fim de completar o programa de
erradicação.
Uma vacina inativada amplamente usada de considerável importância em saúde pública
é a vacina contra influenza. Vírus influenza cultivados em ovos de galinha são usados em
dois tipos de vacinas. A vacina mais comum é uma vacina inativada (morta) trivalente
usada na vacinação contra gripe administrada por via intramuscular.
Vacinas de Antígenos Purificados (Subunidades)
As vacinas de segunda geração foram produzidas para eliminar as preocupações
relacionadas com segurança associadas aos microrganismos atenuados. Essas vacinas
contendo subunidades são compostas por antígenos purificados de microrganismos ou
toxinas inativadas, e geralmente são administradas com um adjuvante. Um uso efetivo
dos antígenos purificados como vacinas é na prevenção de doenças causadas por toxinas
bacterianas. As toxinas podem ser tornadas inofensivas sem perder a imunogenicidade, e
esses toxoides induzem fortes respostas de anticorpo. A difteria e o tétano são duas
infecções cujas consequências prejudiciais à vida foram amplamente controladas graças
à imunização de crianças com preparações contendo toxoide. As vacinas compostas por
antígenos polissacarídicos bacterianos são usadas contra pneumococos e Haemophilus
influenzae. Como os polissacarídeos são antígenos T- independentes, tendem a deflagrar
respostas de anticorpo de baixa afinidade e são fracamente imunogênicas em bebês (que
não montam respostas fortes de anticorpo célula T-independentes). Podem ser geradas
respostas de anticorpo de alta afinidade contra antígenos polissacarídicos até mesmo em
bebês, por meio do acoplamento de polissacarídeos a proteínas para formar vacinas
conjugadas. Essas vacinas elicitam células T auxiliares para estimular reações de centro
germinativo, as quais não ocorreriam com vacinas de polissacarídeos simples. As vacinas
em uso contra H. influenzae, pneumococos e meningococos são vacinas conjugadas. As
vacinas de proteínas purificadas estimulam respostas de células T auxiliares e de
anticorpos, mas não geram CTLs potentes. A razão para o fraco desenvolvimento de
CTLs está no fato de as proteínas (e peptídeos) exógenas serem inefetivas na entrada da
via de apresentação antigênica do MHC de classe I. Como resultado, as vacinas de
proteína são reconhecidas de modo ineficiente pelas células T CD8+ restritas ao MHC de
classe I.
Vacinas de Antígenos Sintéticos
Uma meta da pesquisa em vacinas tem sido identificar os antígenos ou epítopos
microbianos mais imunogênicos, para sintetizá-los em laboratório e usar os antígenos
sintéticos como vacinas. É possível deduzir as sequências proteicas dos antígenos
microbianos a partir dos dados da sequência nucleotídica, e preparar grandes quantidades
de proteínas através da tecnologia do DNA recombinante. Vacinas feitas com antígenos
derivados de DNA-recombinante atualmente são usadas para o vírus da hepatite B e
papilomavírus humanos (HPV, do inglês, human papilloma virus).
Vacinas Virais Vivas Envolvendo Vírus
Recombinantes
Outra abordagem para o desenvolvimento de vacinas consiste em introduzir genes
codificadores de antígenos microbianos em um vírus não citopático e infectar indivíduos
com este vírus. Assim, este vírus serve de fonte de antígeno em um indivíduo inoculado.
A grande vantagem dos vetores virais é que estes, assim como outros vírus vivos, induzem
o complemento integral de respostas imunes, incluindo respostas fortes de CTL. Essa
técnica tem sido usada mais comumente com vetores de vírus da vacínia e, mais
recentemente, com vetores virais da varíola dos canários, que não são patogênicos em
seres humanos. A inoculação desses vírus recombinantes em muitas espécies de animais
induz imunidade humoral e celular contra o antígeno produzido pelo gene estranho (e,
claro, contra o vírus da vacínia também). Um potencial problema com os vírus
recombinantes é que os vírus podem infectar células hospedeiras e, mesmo que não sejam
patogênicos, podem produzir antígenos que estimulam respostas de CTL que matam as
células hospedeiras infectadas. Essas e outras preocupações com a segurança têm
limitado uso amplamente disseminado dos vetores virais para aplicação de vacinas.
Vacinas de DNA
Um método de vacinação interessante foi desenvolvido com base em uma observação
inesperada. A inoculação de um plasmídeo contendo DNA complementar (cDNA)
codificador de um antígeno proteico leva a respostas imunes humorais e celulares contra
esse antígeno. É provável que APCs, como as células dendríticas, sejam transfectadas
pelo plasmídeo e o cDNA seja então transcrito e traduzido em proteína imunogênica
indutora de respostas específicas. Os plasmídeos bacterianos são ricos em nucleotídeos
CpG não metilados e são reconhecidos por um TLR9 presente em células dendríticas e
outras células, deflagrando assim uma resposta imune inata que intensifica a imunidade
adaptativa . Portanto, as vacinas contendo plasmídeo de DNA poderiam ser efetivas
mesmo que fossem administradas sem adjuvantes. A capacidade de armazenar DNA sem
refrigeração para uso em campo também torna essa tecnologia promissora. No entanto,
as vacinas de DNA não foram tão efetivas quanto o esperado nos estudos clínicos,
principalmente porque a primeira geração dessas vacinas não produziu quantidades
adequadas de imunógeno. Atualmente, estão sendo conduzidos estudos usando vetores
mais modernos para vacinação com DNA.
Adjuvantes e Imunomoduladores
A iniciação de respostas imunes dependentes de célula T contra antígenos proteicos
requer que os antígenos sejam administrados com adjuvantes. A maioria dos adjuvantes
deflagra respostas imunes inatas, com expressão aumentada de coestimuladores e
produção de citocinas, como a IL-12, que estimulam o crescimento e diferenciação da
célula T. Bactérias mortas pelo calor são poderosos adjuvantes usados comumente em
animais de experimentação. Entretanto, a intensa inflamação local que esse tipo de
adjuvante induz impede seu uso em seres humanos. Esforços significativos estão sendo
dedicados ao desenvolvimento de adjuvantes seguros e
efetivos para uso em seres humanos. Apenas dois estão aprovados para pacientes —
hidróxido de alumínio em gel (que parece promover principalmente respostas de célula
B) e uma formulação lipídica chamada esqualeno, que pode ativar fagócitos. Uma
alternativa aos adjuvantes é a administração de substâncias naturais que estimulam
respostas de célula T junto com os antígenos. Por exemplo, a IL-12 incorporada em
vacinas promove forte imunidade mediada por células. Como mencionado, o DNA
plasmidial apresenta atividades adjuvante-símile intrínsecas, e é possível incorporar
coestimuladores (p. ex.: moléculas B7) ou citocinas às vacinas de plasmídeo de DNA.
Essas ideias interessantes ainda são experimentais.
Imunização Passiva
A imunidade protetora também pode ser conferida por imunização passiva, por exemplo,
pela transferência de anticorpos específicos. Na situação clínica, a imunização passiva é
mais comumente usada para o tratamento rápido de doenças potencialmente fatais
causadas por toxinas, como o tétano, e para proteção contra raiva e hepatite. Anticorpos
contra veneno de cobra podem salvar vidas quando administrados após a picada de
serpentes venenosas. A imunidade passiva, empregando as abordagens correntes, tem
curta duração, porque o hospedeiro não responde à imunização e a proteção dura apenas
enquanto os anticorpos injetados persistirem. Além disso, a imunização passiva não induz
memória, por isso um indivíduo imunizado não está protegido contra a exposição
subsequente à toxina ou ao microrganismo. Entretanto, com base na identificação bem- -
sucedida de anticorpos monoclonais humanos amplamente neutralizantes contra
patógenos, como o HIV e o vírus da gripe, foram desenvolvidas novas tentativas de
imunização passiva de longa duração usando um processo chamado imunoprofilaxia com
vetor. Nessa abordagem, vetores virais adeno-associados são usados para introduzir genes
das cadeias leve e pesada de Ig humana para um anticorpo neutralizante em seres
humanos. A meta é fazer com que os indivíduos injetados sintetizem um anticorpo
amplamente neutralizante protetor específico por determinado período de tempo. Os
estudos clínicos já foram iniciados.