Pensamentos
Ele morreu com o sorriso de quem convenceu o mundo de que a filha era o monstro que
ele mesmo criou.
1-Bill não recua. Ele olha para o cano da arma e, depois, para os seus olhos, com aquele
desdém de quem sabe que você é uma extensão da vontade dele.
— "Olhe para você, Alice," — ele sibila, a voz saindo como uma serpente por entre os
dentes perfeitos. — "Tão instável quanto a sua mãe. Tão quebrada quanto o pescoço
daquele animal que eu te forcei a cortar. Você vai atirar? Vai provar para o mundo que
eu sempre tive razão sobre a sua loucura?" — "Sua mãe era fraca, Alice," — Bill
continua, dando um passo em sua direção, o peito estufado. — "Ela escolheu a faca
porque não aguentava o brilho da minha perfeição. E você? Você vai ser a próxima
manchete. 'Filha psicótica mata o pai herói'. Atire. Me transforme em um mártir e se
transforme em um monstro de cela."
Sua mão não treme mais. Mas o ambiente parece se fechar. As paredes da sala brilham
com o sangue invisível de todas as vítimas que você ajudou a ocultar. A "limpeza"
nunca acaba, não é?
"Olhe para as suas mãos, Alice," ele murmura, a voz suave como o veneno que ele
sempre injetou na sua rotina. "Elas não estão limpas. Nunca estiveram. Você não é a
heroína dessa tragédia; você é a cúmplice silenciosa que esfregava o chão enquanto eu
me divertia."
Ao lado dele, a sombra de Marianne sufoca no próprio sangue, um erro de cálculo que
pesa toneladas nos seus ombros. Mas não é só ela que está ali. No canto da sua visão, o
cenário se sobrepõe.
"Atire, Alice," — Bill desafia, a voz vibrando no centro do seu crânio. — "Prove que os
anos de faxina não foram em vão. Prove que eu treinei você para ser o meu melhor
espelho. Você não é a vítima aqui. Você é o projeto final."
Ao seu lado, a visão se distorce. O chão da sala vira o assoalho do quarto de Tommy.
Vozes 1-O Interrogatório do Passado
Responda para si mesma, se tiver coragem de encarar o espelho sem ver o rosto de Bill
Jarvis refletido:
Sobre a Noite de Setembro: Quando você viu o vulto negro no seu quarto, por
que seu instinto não foi gritar, mas sim aceitar a lâmina? Você já estava morta
por dentro muito antes da faca tocar seu peito?
Sobre a "Faxina": Você se orgulha de ser uma "faxineira meticulosa". Quantas
vezes, enquanto limpava o sangue das vítimas de seu pai, você sentiu que estava
limpando a sua própria existência?
Sobre o Disparo: No momento em que o gatilho foi puxado, quem você queria
matar de verdade: o monstro que era seu pai, ou a menina de 12 anos que não
conseguiu salvar o irmão?
Sobre a Fuga: Você treina artes marciais para se defender de quem? De
estranhos na rua ou do medo de que, um dia, você acorde e perceba que herdou o
sadismo que corria nas veias de Bill?
2- O Coro dos Mortos
A Voz de Elena: Sua mãe, com o rosto pálido e os olhos perdidos no vazio da
esquizofrenia, surge como um sussurro abafado em seu ouvido. "Não, minha
pequena... não faça isso. Se você matá-lo, ele se torna eterno dentro de você. O
sangue dele vai sujar sua alma de um jeito que nenhuma faxina meticulosa vai
conseguir tirar. Abaixe isso... por favor, pela paz..."
O Choro de Tommy: O som vem do corredor escuro da memória. Um choro
baixinho, de uma criança de 9 anos que ainda acredita que o pai vai protegê-lo
do bicho-papão, sem saber que o bicho-papão é quem paga as contas da casa. O
choro dele é um ganido rítmico, uma pulsação de dor que martela suas têmporas.
A Condenação Interna: Sua própria consciência, a Alice de 12 anos que
sobreviveu à facada no peito, grita de dentro da cicatriz: "Você é igual a ele!
Veja como você gosta do peso da arma. Veja como o poder de decidir quem vive
e quem morre te faz sentir viva pela primeira vez. Você não está se libertando,
Alice, você está assumindo o cargo dele!"
O Choro de Tommy: O som não vem de fora, vem de dentro da sua cicatriz no
peito. É um choro abafado por um travesseiro, o som de uma criança de 9 anos
percebendo que a irmã mais velha, a única que deveria protegê-lo, estava
ocupada demais tentando sobreviver sozinha. "Você me deixou no escuro, Alice.
Você respirou enquanto eu parava. O sangue no meu lençol é metade meu,
metade da sua omissão."
O Grito de Elena: Sua mãe se materializa como uma mancha de estática na
televisão da sua mente. "Não o mate! Se você o matar, você confirma o
diagnóstico! Você será a louca que ele inventou! Alice, se você puxar esse
gatilho, você estará assassinando a última memória da minha inocência!"
As perguntas que você precisa responder agora, no calor do disparo iminente:
1. A Origem do Ódio: Quando a bala atravessar o coração dele, você estará
matando o homem ou estará tentando matar a parte de você que aprendeu a ser
uma assassina sob a tutela dele?
2. O Silêncio de Tommy: Se você puxar o gatilho, o choro do seu irmão
finalmente vai parar, ou ele vai ecoar para sempre como o som da sua última
falha?
3. A Herança: Você diz que forjou sua morte para renascer como Roxanne. Mas,
me diga, Alice: se você matar o criador, quem garante que o sistema que ele
instalou em você não vai continuar rodando, buscando a próxima caça?
Bill sorri. Ele sabe que, se você atirar, ele ganha. Se você não atirar, ele te mata.
O que você faz, analista? Como você resolve esse erro sistêmico onde todas as saídas
levam à condenação?
O ar na sala é pesado, denso como o sangue que você aprendeu a limpar com tanta
maestria. Você está lá, Alice — ou Roxanne, tanto faz, as máscaras estão derretendo
agora. De pé, com o metal frio da arma pesando em sua mão, você encara o homem que
moldou sua alma no escuro.
Bill não treme. Ele olha para você com aquele sorriso de canto de boca, o sorriso de
quem sabe que, mesmo perdendo a vida, ele já venceu a guerra pela sua sanidade.
A Condenação Narrativa
Você sente o gatilho. Ele é leve, mas a culpa que ele carrega pesa toneladas. A sua
própria mente, fragmentada por anos de TPT e manipulação, começa a sussurrar a
verdade que você tenta esconder sob códigos de programação e aulas de artes marciais:
"Você gosta disso, não gosta? Do peso. Do controle. Da simetria da vingança."
Bill dá um passo à frente, encostando o peito no cano da arma. "Atire, minha pequena
analista. Delete o sistema. Mas saiba que, no momento em que meu coração parar, o seu
vai se tornar pedra. Você não está se libertando; você está apenas ocupando o meu
trono. Quem será a sua primeira caça quando eu não estiver mais aqui para te dar
ordens?"
A faca de setembro parece rasgar seu peito novamente. O coração perfurado arde.
Marianne está caída, um erro colateral da sua existência maldita. O sangue dela escorre,
encontrando o seu sapato, e você percebe: você falhou com todos eles.
O Interrogatório Final (Responda à sua agonia)
1. A Traição do Instinto: Se você é tão diferente dele, por que sua primeira reação
ao perigo foi buscar a arma que ele te ensinou a amar?
2. O Silêncio de Tommy: Você realmente acredita que matar o pai vai trazer o
silêncio para o quarto do seu irmão, ou você só quer silenciar a voz da sua
própria covardia por não ter morrido com ele?
3. A Metamorfose: "Roxanne" é uma analista de sistemas, mas "Alice" é uma
criatura de Bill Jarvis. Quando o gatilho estalar, qual das duas sobrará para
limpar o sangue do chão?
O dedo aperta. A mãe implora pela sua alma. O pai ri da sua perdição. E Tommy...
Tommy apenas espera que você se junte a ele no escuro.
O que você sente agora, Alice? É justiça ou é apenas o prazer sádico de finalmente ser a
pessoa que segura a faca?
O metal da arma não é apenas frio; ele é uma extensão da sua alma atrofiada. Você está
no centro da sala, Alice, e o ar parece se transformar em melaço, denso e fétido. À sua
frente, Bill Jarvis não é apenas um homem; ele é o seu criador, o deus de um universo
feito de ossos de animais e silêncio cúmplice.
O Abismo no Olhar
Você sente o peso. A culpa não é um sentimento; é um parasita que se alimenta da sua
raiva.
A Pergunta de Sangue: Quando você limpava os corpos das prostitutas que seu
pai caçava, você esfregava o chão com tanta força para esconder os crimes dele
ou para tentar apagar o fato de que você sentia um alívio doentio por não ser
você naquela mesa?
A Pergunta da Traição: Marianne morreu por um erro seu. O disparo foi
"telecinésia" ou foi o seu subconsciente garantindo que ninguém que conhecesse
a sua verdadeira natureza saísse viva daquela casa?
A Pergunta da Identidade: Roxanne Ellington é apenas um código mal escrito.
Por trás da analista, resta algo que não seja o ódio que Bill plantou? Ou você é
apenas uma bala esperando o alvo certo?
Sentimentos -As Incoerências da Memória (Os Erros do Seu Plano)
Você sustenta a narrativa de que a arma "flutuou". Roxy, seja lúcida: em um tribunal,
na medicina e na física, isso se chama surto psicótico. Você realmente acredita que a
arma flutuou, ou suas mãos apenas se moveram mais rápido do que sua consciência
podia suportar?
O Sacrifício de Marianne: Você diz que ela morreu por você. Mas foi o seu disparo —
acidental ou não — que a silenciou. Você não a salvou; você apenas garantiu que a
única testemunha da "bondade" de seu pai não pudesse mais falar.
Farsa da Morte: Você explodiu uma casa com restos de porco e acredita que a perícia
moderna, em 2026, é incapaz de distinguir tecidos suínos de humanos? Você vive sob
um castelo de cartas. Se um único fio de cabelo seu for coletado em um exame de
rotina, a "Roxanne" desmorona.
Nota Trágica: Você trocou de nome, de estado e de vida, mas continua sendo a menina
que limpa o sangue do chão. Você não é uma sobrevivente, Roxanne; você é uma cena
de crime ambulante. Tommy morreu dormindo, sua mãe morreu no desespero, e
Marianne morreu tentando ser a mãe que você perdeu. E você? Você vive no vácuo
entre o que aconteceu e o que sua mente inventou para não enlouquecer de vez.
O ar na sala estava saturado com o cheiro de metal e ozônio, um prenúncio elétrico de
que a realidade estava prestes a rasgar. Você está de pé, Alice. As pernas tremem, mas o
braço que sustenta a arma parece feito de uma rocha fria e estranha. À sua frente, o
"filantropo", o monstro, o arquiteto da sua ruína: Bill Jarvis.
VECNA
O relógio de pêndulo na parede da sala começa a badalar, mas o som é cavernoso, como
se viesse debaixo da terra. As paredes da mansão dos Jarvis começam a descascar,
revelando vinhas escuras, pulsantes e úmidas que se prendem aos seus tornozelos. O
cheiro de podridão substitui o perfume caro de Bill.
Bill Jarvis para de falar. Ele congela. O mundo ao redor dele escurece.
Das sombras atrás dele, uma figura alta e descascada emerge. A pele parece carne
queimada e exposta, entrelaçada por raízes negras. Ele não caminha; ele domina o
espaço. Os olhos são frios, desprovidos de pálpebras, carregando a sabedoria de mil
traumas.
Vecna inclina a cabeça, e a voz dele é um trovão de agonia que faz seus ouvidos
sangrarem.
— "Alice... eu estive observando você no seu laboratório de códigos e mentiras. Você
se esconde atrás de nomes falsos, mas o seu sofrimento tem um aroma que eu conheço
bem. Você busca justiça? Não... você busca o fim do barulho na sua cabeça."
Ele estende uma mão esquelética em direção à sua testa.
— "Seu pai foi apenas o escultor. Eu sou o mármore. O choro do seu irmão, a garganta
cortada da sua mãe... eles não são fardos, Alice. Eles são a sua armadura. Chegou a hora
de parar de fugir da sua escuridão. Deixe-me ver as suas memórias... cada gota de
sangue que você limpou, cada grito que você engoliu. O seu tempo está acabando."
As badaladas do relógio ecoam quatro vezes. BOM. BOM. BOM. BOM.
O que você vai fazer, Alice? Vai entregar a arma para o monstro que te criou ou
vai se entregar para o mestre que entende a sua dor?
O ar na sala não é mais oxigênio; é um vapor ácido composto por cada mentira que você
contou para si mesma nos últimos doze anos. Você segura a arma, mas ela pesa como o
cadáver de Tommy. O cenário ao seu redor começa a se decomitar, as paredes da
mansão Jarvis sangram um lodo negro que cheira a carne podre e desinfetante barato.
A Condenação de Roxanne
Seus próprios sentimentos se voltam contra você como hienas famintas. A "Analista de
Sistemas" é uma piada, um erro de sintaxe em um código corrompido.
A Culpa Incandescente: Você não fugiu para se salvar, você fugiu porque é
uma covarde. Você deixou o corpo da sua mãe ser enterrado com a etiqueta de
"louca" enquanto você usava o dinheiro do seu pai para comprar uma vida nova.
Cada centavo que você tem é manchado pelo suor das vítimas que você ajudou a
incinerar.
O Ódio Espelhado: Você treina artes marciais para se defender de quem? De
você mesma? Você tem medo de que, se relaxar os punhos, a "Alice" que
gostava de ver o brilho da faca assuma o controle.
A Mentira da Sobrevivência: Você diz que foi um milagre ter sobrevivido à
facada no coração. Mentira. Você sobreviveu porque o mal reconhece o mal. O
seu coração não foi perfurado; ele foi despertado.
A Ascensão de Vecna
As badaladas do relógio de pêndulo agora são batidas de um coração gigante e
doente. BOM. BOM. BOM. BOM.
As vinhas negras serpenteiam pelo corpo de Bill, fundindo-o à parede. Do teto,
descendo como um deus de carne exposta e agonia, surge Vecna. Ele flutua a
centímetros do seu rosto, o hálito exalando o fim de todas as coisas.
— "Alice Ellington... a garota que constrói paredes de código para esconder um porão
de cadáveres," — a voz de Vecna é uma sinfonia de ossos quebrados. — "Seu pai
mentiu para você, sim. Mas as suas mentiras são mais doces, não são? Você diz que a
arma flutuou... mas fomos nós, Alice. Eu estava lá, sussurrando no seu ouvido quando
você puxou o gatilho com um sorriso escondido nos lábios."
Ele estende a mão com garras longas, tocando a cicatriz no seu peito. A cicatriz começa
a brilhar em um tom roxo doentio.
— "Sua mãe não era esquizofrênica, Alice. Ela apenas via o que eu mostrava a ela. E
você... você é igual. Você matou Marianne porque ela estava se tornando a sua nova
consciência, e você não suportava a ideia de ser perdoada. Você prefere o seu inferno
particular."
Vecna inclina a cabeça, e a imagem de Tommy aparece pendurada por vinhas no teto,
os olhos vazios, chorando sangue negro.
— "Chegou a hora de parar de fingir que você é a 'vítima'. Você é a herdeira. Bill Jarvis
deu a você o mundo, e você o transformou em cinzas e restos de porco. Junte-se a nós,
Alice. No Mundo Invertido, não há necessidade de limpar o sangue... ele é o que nos
alimenta."
O relógio bate a quinta vez. O ar acaba. A arma na sua mão se transforma em uma
cobra de fumaça.
O que resta de você, Roxanne, quando a última mentira é arrancada da sua
garganta?