Linguistica Bantu 2025 Outubro
Linguistica Bantu 2025 Outubro
LINGUÍSTICA BANTU
CUITO-BIÉ
OUTUBRO – 2025
1
PRELIMINARES
Objectivos específicos:
Metodologia de ensino:
2
um esbolço analítico sobre os diferentes aspectos ligados a classificação e
descrição dessas línguas.
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UNIDADE I: HISTORIOGRAFIA DAS LÍNGUAS BANTU
A palavra “bantu” é formada pelo prefixo nominal da classe 2 “ba-e” pelo radical
nominal “ntu”, que significa pessoa em todas as línguas que se denominam bantu e
se refere a um grupo de cerca 600 línguas e aos falantes das mesmas e que hoje são
estiamdos em mais de 400 milhões1. Como vimos a partida, a palavra bantu é
linguística e mais tarde tornou-se antropológica e passou a designar os falante dessas
línguas.
Os estudos linguísticos apontam que essas línguas provêm de uma língua comum
designada pronto-bantu, uma língua hipotética, considerada uma possível língua-
mãe das actuais línguas bantu faladas na regiãi dos Camarões e da Nigéria Orienta,
na África Central, Oriental e Austral quase há três mil anos.
1
Ethnologue (2012) apud Ntondo (2023)
4
Segundo textos sobre origens e a expansão bantu, existem duas versões: a primeira
e a de Joseph Greenberg (1963), que diz que, um grupo de línguas Sudeste da Nigéria
ter-se-iam espalhado para o Sul e Leste, ao longo de centenas de anos.
Analisando várias línguas bantu, Malcom Guthriel (1948), explicou que as mais
estereotípicas eram as da Zâmbia e as do sul da actual RDC, sendo esta a região
originária das línguas bantu.
Nos dias actuais, a versão mais aceite, particularmente no meio dos bantuista é a de
que os bantu teriam tido origem na região dos rios Benue-Cross, no Sudeste da
Nigéria, tendo emigrado primeiro para a região onde se encontra hoje a Zâmbia. Por
volta do século II a. C, provavelmente impelidos pela desertificação do Sahara e pela
consequente pressão dos Saharauis, que foram obrigados a espalhar-se pelas
florestas tropicais de África Central e mais tarde pelas savanas da África Austral e
Oriental.
Logo, diz-se que as línguas bantu localizam-se numa região que vai do Sul da Nigéria
estendendo-se até à República dos Camarões, atravesando A República Centro
Africano, República Democrática do Congo, Uganda, Quénia e até ao Sul da Somália
no Leste do continente. Da República de Camarões avançou até ao Oceano Indico e
da floresta equatorial e chegou até à África do Sul. Não se sabe ao certo o número
total das línguas bantu. Alguns linguístas afirmam que são 400, outros como Bastin
(1999), diz serem 542, Maho (2003), fala em 660 e Mann et al. (1978) em 680.
Portanto, fica evidente que entre os linguístas há uma controvérsia em relação ao
número de línguas bantu.
A expansão bantu foi uma acção de conquista ampla que se estendeu ao território,
hoje angolano, entre o século XII e o século XIX.
Por volta do século XIII, iniciaram movimentos migratórios para o território angolano a
partir de região do Baixo Kongo. Um primeiro grupo fixou-se na margem esquerda do
rio com o mesmo nome, trata-se do BAKONGOS.
5
Ainda no século XVI , outro povo abandona o seu território, na região do Grandes
lagos (Centro de África) e vem igualmente parar em terras angolanas. Entra pelo
Leste, atravessa o planalto do Viye e instala-se no Sul, que são os OVAHELELO.
O século XVI foi fértil em migrações. É assim que os BAYAKA, provenientes da região
Nordeste, tocaram o território angolano, onde, após confrontos territóriais com os
Bakongos, foram expulsos da região. Alguns Bayaka fixaram-se na região de Kasanji,
enquanto outros caminharam para o Sul.
No século XVII, chegava outra migração a partir da região Sudeste. Atravessa o rio
Zambeze (região do alto Zambeze) e estabelece-se entre este e o rio Kunene. Trata-
se dos VANGANGELA.
No século XVIII, o território angolano recebeu o grupo OVAMBO. Este deixou o seu
território no Baixo Kuvangu para fixar-se entre o Alto Kubangu e o rio Kunene.
2
Cf. GOMES, A. J. “Ovimbundu Pré-coloniais contribuição ao estudo sobre os planálticos de Angola, pág. 27.
6
OS PIONEIROS DOS ESTUDOS DAS LÍNGUAS BANTU
7
Nasceu a 10 de Fevereiro de 1903 e morreu de ataque cardiáco a 2 de Novembro de
1972, com 69 anos de idade. Foi chefe de departamento de áfrica na Escola de
Estudos Orientais e Africanos. A contribuição de Guthrie, linguísta da London School
of African Studies para ao estudos de classificação das línguas bantu, foi e continua
a ser essencial nos dias de hoje, tendo a obra The Classification of the Bantu
Languages (1948), trabalho mais notável do seu percurso. Nela, desenvolveu uma
criteriologia para a classificação das línguas bantu. O seu modelo de classificação
tipológica ainda é hoje utilizado, embora algumas partes tenham sido revistas pelo
Museu Real da África Central de Tervunen.
8
africana. Na sua obra, Greenberg cunhou o termo línguas afro-asiáticas para substituir
o anterior camito-semíticas. A classificação destelinguíste foi bem aceite por linguístas
históricos que, desde então, a usaram como base para trabalhos posteriores.
Família afro-asiáticas;
Família Niger-Kordofaniana;
Família Nilo Sahariana e a
Família Khoisan.
1. O berbere;
2. O egípcio;
3. O semítico;
4. O cochítico e o
5. Chádico.
9
1.1.2. Família Níger-kordofaniana
1. Níger-Kongo;
2. Níger-Kordofaniana.
1. Songhayi;
2. Sahariano – compreende os seguintes grupos: Kanuri-Kanembu, Teda-Daza,
Zaghawa e Berti;
3. Maban;
4. Furian;
5. Chari-nilo;
6. Comam – compreende os seguintes grupos: Koma, Ganza, Uduk, Gule, Gumuz
e Mao.
A palavra khoisan é formada de “khoi” termo hotentote que significa “homens”, e “san”
termo Bosquímano que significa “homens”.
10
Todas as línguas Khoisan possuem cliques entre as consoantes e a maioria de seus
falantes pertecem ao tipo San fisicamente característico. Amaior parte das línguas
dessa família é falada na Áfria do Sul. Entretanto, existem dois pequenos grupos de
populações, os Hatsa e os e os Sandawe, situados muito mais ao Norte, na Tanzânia,
cujas línguas diferem acentuadamente tanto entre si quanto as línguas do grupo da
África do Sul. Desse modo a família divide-se em três ramos:
1. Hatsa;
2. Sandawe e
3. Koisan sul african.
Tipo A
3
Berten, 1976 apud Ngunga 2004.
11
A ordem das palavras na frase é SVO;
O objecto precede o sintagma adverbia;
O genitivo e o adjectivo seguem o nome;
O possessivo precede os adjectivos;
O advérbio segue o verbo e outros adjectivos;
O pronome sujeito precede as marcas de tempo, aspecto, a partícula negativa
e o pronome objecto;
As marcas de tempo e aspecto precedem o verbo;
O pronome objecto segue o verbo, mas no subgrupo bantu, o pronome objecto
precede o verbo e o objecto nominal segue-o. O objecto indirecto precede
geralmente o objecto directo.
Tipo B
Na maioria parte das línguas deste tipo, a ordem das palavras na frase é SVO;
O genitivo precede o nome regente;
O advérbio segue o adjectivo e o verbo na maior parte das línguas;
O pronome sujeito precede as marcas de tempo, aspecto, o verbo e o pronome
objecto.
Tipo C
Com excepção do Hatsa, a língua Khoysan na Tanzânia, todas as línguas deste tipo
são do grupo do Sudão Oriental da família Nilo-Saharia, como o Masay e outras
Nilóticas.
12
A distinção singular/plural no nome é expressa com sufixos, embora possa
também sê-lo com prefixos (como em Turkana);
A distinção de número é obrigatório;
Se existir, um sistema de géneros será baseado na oposição
masculino/feminino.
Tipo D
As línguas semíticas da Etiópia, a maior parte das línguas Cuchitas (como o Sandawe)
também estão representadas:
14
Mapa de zonas das línguas bantu
Fonte:
[Link]
ng.
15
Exemplo de diagrama de línguas bantu de Angola
Níger-Kongo
Benue-Kong Kordofaniano
Bantu
Zona H
Kimbundo Kikongo Cokwe Ngang. Luvale Umbundu Helelo Oshikwany.
É lógico que as línguas bantu apresentam uma unidade genealógica. Mas também,
são notáveis as diferenças entre elas, embora mínimas. Essas diferenças permitem
distinguir uma da outra, sem as quais, teríamos uma única língua bantu.
Quanto as línguas não bantu, temos por exemplo as línguas khoisan que
caracterizam-se:
16
Emprego de “cliques”;
A estrutura morfológica e sintática apresenta-se extremamente simples.
A fonologia é de extrema dificuldade devido a presença de cliques e várias
consoantes velares e glotais, assim como de tons;
Possui vogais e consoantes como em qualquer outra língua.
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UNIDADE II – AS LÍNGUAS BANTU DE ANGOLA
Em Angola existem várias línguas, algumas bantu, as maioritárias, e outras não bantu
(khoisan, vatua, kwisi e o português). A nossa abordagem, incidir-se-á sobre as
línguas bantu.
Para a classificação das línguas bantu, utilizamos a do Malcom Githrie para encaixar-
mos as nossas línguas e as suas variantes de forma a termos uma distribuição que
responda a imagem linguística espalhada no território.
Zona H
A língua Kikongo cobre uma boa parte da região Nordeste do País. As línguas vizinhas
são, a Sul e Sudoeste o Kimbundu e a este o Cokwe.
18
iyombe (município do Buco Zau e Belize);
iwoyo (município de Cabinda);
civili (município de Cacongo);
isundi (município de Belize);
Kikongo Ocidental, na província do Zaire e Uige:
kisolongo (Soyo, Nzentu e Tomboko);
kisikongo (Kwimba, Mbanza Kongo, Mbembe e Uige);
kimboma (Noki).
Kikongo do Leste, localizado na província do Uige:
kiyaka (Kimbele, Sakandika)
Suku (Kimbele)
Kikongo do Sul, na província do Uige:
kihungu (Uige, Bungu, Negage, Buenga, Mukaba e Kitexi);
kiponmbo (Sanza Pombo e Puri).
Kikongo do Centro Sul do Uige:
kizombo (Maquela do Zombo, Kibokolo e Damba);
kinsonso (Damba, Nsoso e Buengas).
b) Grupo Kimbundu: H20
19
kibala (Kwanza Sul).
Zona K
Esta zona é representada por quatro grupo de línguas, todas localizadas na parte
Leste e Sudeste do país:
A área de difusão da língua Cokwe situa-se nas províncias das Lundas Norte e Sul,
Moxico e Kuando Kubango. Língua falada na RDC e Zâmbia. Língua vizinhas, a Oeste
– Kikongo e Kimbundu, a sul – Ngangela e a Sudoeste – umbundu. Ela reune as
seguintes variantes:
dinga
xinji
b) Grupo Lunda
c) Grupo Ngangela
20
ngangela mpengo (Kuci e Kutatu);
nyemba (Ndongo);
d) Grupo Rukavango4
Zona R
4
Uma terminologia recuperada da designação dada as línguas na Namíbia
5 Redinha e Lima (1973), apud Ntondo (2023)
21
nkhumbi, Oshikwanyama (R21), Oshiherero com as suas variantes, cujos substantivos
e verbos se caracterizam pela presença de aumento que acompanha o prefixo
nominal.
O prefixo nominal da classe 5 representado pela vogal e-, cujo prefixo de concordância
ou dependente é li-.
Embora Gathrie não inclua o grupo de língua herero em Angola, outros trabalhos de
linguístas, tais como Mann e Delby (1987) e de acordo com Redinha e Estermann
(1956-61), a presença da língua herero é confirmada em Angola. Assim, podemos
dizer que a zona R de Gathrie corresponde quatro grupos linguísticos em Angola:
Uma das línguas mais centrais de Angola no planalto central. Ela é falada com maior
predominancia nas províncias do Bié, Huambo e Benguela. As língua vizinhas são: a
norte – Kimbundu, a Oeste – Cokwe e Ngangela e a Sul Olunyaneka e Oshihelelo.
Umbundo do Huambo;
Umbundo do Bailundu;
Umbundo do Bié;
Umbundo de Kakonda e
Umbundo de Ndombe.
b) Grupo Oshikwanyama
Esta língua é falada na província do Kunene, com alguns locutores no Sul da Huila.
22
Possui as seguintes variantes:
Esta língua foi omitida na classificação de Guthrie, por possuir poucas informações
sobre a sua existência em Angola. A sua presença foi assinalada por Estermann e
Redinha e outros linguistas.
d) Grupo Nyaneka-nkhumbi
23
Esta língua localiza-se nas províncias da Huila e Cunene e é falada entre as
línguas umbundu no Planalto Central e o Oshikwanyama. As língua vizinhas são,
a Norte – Umbundu, a Este –Ngangela, a Sul e Sudoeste – Oshikwanyama e
Oshindonga e a Sudoeste e Oeste – Oshihelelo.
Ndongwena
Hinga
Kwankhawa
Cipungu – Quipungu;
Cilenge – Quienges;
Segundo Bryan e Murdock (1959), citado por T. Obenga (1995), as línguas bantu
de Angola são reunidas em duas grandes zonas:
24
Mpese;
Ntandu;
Lula;
Mbata;
Zombo;
Soso;
Nkanu;
Mbeko;
Vili (Fiote, Loango);
Mboka;
Ndingi;
Ngoyo;
Yombe;
Kunyi (influência do teke);
Bmbe;
Bwende;
Yaka;
Gangala;
Dondo;
Kamba e Lari.
Grupo Kimbundu e suas variantes:
Kimbundu;
Ngola, Ndongo, Mbaka, Njinga, Mbangala, Ndembu e Sama;
Bolo – Libolo;
Holo, Tembo e Shinji.
Grupo Cokwe – Lunda:
Cokwe, Minungu;
Lunda;
Lwimbi, Mbwela, Ngangwela;
Lucazi;
Lwena (Luvale);
Mbunda;
Nyengo;
Lunda, Ndembu e
25
Songo.
b) Bantu do Sudeste-Oeste
Kwanyama (Ovambo);
Ndonga (Am
bo);
Herero (Damara), Mbandieru e Himba,
Mbundu (Ovimbundu);
Ndombe;
Nyaneka, Humbe e Mwila.
Kikongo e Kimbundu;
Kikongo e Cokwe;
Kimbundu e Cokwe;
Kimbundu e Umbundu;
Umbundu e Olunyaneka
Umbundu e Ngangela;
Ngangela e Cokwe;
Ngangela e Oshikwanyama;
Ngangela e Olunyaneka;
26
UNIDADE III – FONÉTICA E FONOLOGIA DAS LÍNGUAS BANTU
P.A G.A
Anterior Centrais Posteriores
1° grau i u
2° grau e o
3° grau a
P.A G.A
Anterior Centrais Posteriores
1° grau i ii u uu
2° grau e ee u oo
3° grau a aa
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a) Vogais breves em cada uma das zonas:
Zona H
Kimbundu
/ndánjì/ 9 rocha
Kikongo
/lúkà/ 15 vomitar
Zona K
Cokwe
/ndándò/ 9 preço
/ùséphà/ 14 calor
Ngangela
/lívwè/ 5 pedra
/ínkhòkwéla/ 9 calcanhar
Zona R
Umbundu
/ùlùngwì/ 1 conselheiro
/útènyà/ 14 calor
Oshikwanyama
28
/òkùyélèkà/ 15 medir
/òmàté/ 6 cuspo
b) Vogais longas
Kikongo
/bákà/ 15 tomar
/fúlà/ 15 soprar
/fùúlà/ 15 exterminar
/sólà/ 15 desbravar
/sòólà/ 15 escolher
Cokwe
/mukàánda/ 3 circuncisão
/cikolo/ 7 entrada
/cikoolo/ 7 resistente
Oshikwanyama
/òshímà/ 7 cágado
29
/òshìímà/ 7 coisa
/òkùyà/ 15 ir
/òkùúyà/ 15 vir
Ngangela
/íína/ 9 pulga
/íka/ 5 qual
/lííka/ 5 só
/kucína/ 15 dançar
/kucíína/ 15 fugir
Como podemos observar nos exemplos supracitados, as vogais longas nestas línguas
têm um carácter pertinente, isto é, podem opor-se semanticamente as vogais breves.
Nestas como nas outras línguas, a presença de vogais longas é puramente fonética
quando aparecem em contextos bem previsíveis, chamadas de posição apoiada8, isto
é, antes da pré-nasal [V:NC] e depois da sequência consoante seminasal [CSV:].
Exemplos:
8
Coupet (1980) apud Ntondo (2023)
30
Kikongo
Umbundu
P.A G.A
Anterior Centrais Posteriores
1° grau i ĩ u ȗ
2° grau e ĕ o õ
3° grau a ã
Fonte: Ntondo (2023)
Exemplos:
/úkãyi/ 1 mulher
/ókútĕhà/ 15 saltar
/ólóhõlò/ 10 forças
31
/ókúfĕlà/ 15 cavar
i/ĩ /ókútìlà/ 15 fugir
/ókútõlà/ 15 fortificar
/ókúfȗlà/ 15 negociar
SISTEMA CONSONÂNTICO
Sequências de duas consoantes orais
São poucas as línguas bantu no nosso território que na sua estrutura fonológica que
são formadas por uma sequência de duas consoantes orais, a que na linguística se
chama de “africadas”. Trata-se da associação de uma consoante oclusiva e outra
fricativa: “bv”, “pf”, “dz”, “ts”. Encontramos este conjunto de consoantes em Ngangela:
vutsiki 14 noite
mivyandjo 4 convidaddos
índjivo 9 casa
9
Creissels (1989), apud Ntondo (2023)
32
Ao lado destas sequências, aparecem outras pré-nasalizadas africadas: nts, ndj, ndz,
que são fonemas.
Exemplos:
Quase que, todas as línguas bantu, a consoante /g/ nunca aparece isoladamente.
Nesse quadro torna-se difícil optar por uma das operaçoes fonológicas, quer
monofonemática ou bifonemática.
33
Kikongo
A língua Umbundu não possui as consoantes /b, d e j/ isoladas, pois são sempre
antecedidas de consoantes nasais hormorgánicas, /mb, nd e ndj/; e a consoante /j/
quando antecedida de nasal realiza-se como uma africada, isto é, [ndƷ]. O que se fez
optar na escrita por /ndj/, pois, em Kimbundu a sequência N + J = [nƷ], na escrita
ortográfica /nj/10.
Exemplos:
/ócímbùngù/ 7 lobo
/óngóngà/ 9 águia
/óndjò/ 9 casa
ou são eliminadas:
Exemplo:
Exemplos:
10 Ntondo (2023)
34
A língua Oshikwanyama não aceita a presença seguida de dupla sequência NC numa
palavra. No caso, a segunda é simplificada. Isto se verifica também, em Shona no
Zimbambue.
Exemplos em Oshikwanyama:
Exemplo em Shona:
Exemplos:
/óñgáñgá/ 9 bébe
/óciñgálì/ 7 picadela
/óñgolosi/ 7 tardinha
/óñgómà/ 7 batuque
35
2. A segunda categoria é constituída pelas consoantes não obstruentes, que do
ponto de vista acústico, podem também ser qualificadas de ressoantes. Na
maioria das línguas, as consoantes não obstruentes ignoram a oposição da voz
e são todas sonoras. Assim, aplicamos a nossateoria as consoantes das
línguas angolanas:
Ponto de articulação
Labiais Dentais Palatais Velares
Modo de articulação
Não asp. p b t d k g
Oclusivas c
OBSTRUENTES
Aspirais ph bh th dh kh gh
Fricativas f v s z ∫ j
Africadas pf bv ts dz dj
Nasal m n ny
NÃO OBSTRUENTES lateral ñg
conínuo w l y
Não Asp. mp mb nt nd nk ng
PRÉ-NASALIZADAS ndj
Aspirada mph ndz nkh
Fonte: Ntondo (2023)
Cada língua bantu falada em em Angola poderá encontrar neste quadro fonemas
consonânticos que são próprios a sua característica e assim estabelecer o seu
alfabeto e regras ortográficas.
O fonema /c/ representa todas as grafias, referindo-se ao som [t∫], a saber: tx, tsh, tch,
tj e ty.
A vogal “u” diante de outras vogais transforma-se em semi-vogal “w” e e o “i” que
tranforma-se em “y”:
36
Vogal “u”
u+a u+e u+i u+o u+u
wa We Wi wo wu
Vogal “i”
i+a i+e I+i i+o i+u
wa we wi wo wu
Fonte: Elaboração própria a partir de Sassuco e Pena (s/d)
Exemplos:
ESTRUTURA SILÁBICA
Portanto, a unidade linguística sílaba é mais complexa do que aquilo que a tradição
gramatical deixa transparecer: (i) apresenta uma estrutura interna descritível em
termos de padrões universais regulares; (ii) os seus constituintes estabelecem
relações hierárquicas entre si e com os segmentos que lhe estão associados e (iii)
são domínio de activação de processos fonológicos11.
11
Mateus, Falé e Freitas (2005)
37
Constituintes da sílaba
Dos modelos disponíveis na literatura sobre o assunto, apresentamos aqui o que tem
sido adoptado na descrição do português europeu: “Ataque-Rima”. Neste modelo, a
descrição silábica não domina directamente as unidades segmentais: estas unidades
segmentais agrupam-se em constituintes de planos intermédios, que são dominados
pelo nó máximo, o nó sílaba.
Os constituintes silábicos
Sílaba
Ataque Rima
Núcleo Coda
As vogais das palavras de (1) são o núcleo da rima (R) das respectivas sílabas. A
rima pode ser apenas constituída pelo núcleo (N), como em (1a) na primeira sílaba,
ou ser constituída pelo núcleo e pela consoante que lhe segue, como a segunda sílaba
da (1b), a coda (Cod), como em (1c). a consoante que antecede a rima em (1b) e (1c)
12 Ntondo (2024)
38
constitui o ataque (A). Estes constituintes estão organizados hierarquicamente no
interior da sílaba, sendo a rima o único constituinte obrigatoriamente preenchido.
(2) Representação das sílabas da palavra “palo” (aqui)
Ó Ó
A R A R
N N
X X X X
p a l o
Ataque
O constituinte ataque pode dominar uma consoante, duas consoantes ou pode ainda
não estar segmentamente preenchida. Estas três possibilidades estruturais
determinam a ocorrência de três tipos de ataques:
ataque ramificado, no caso de dominar duas posições de esqueleto
correspondentes a duas consoantes;
ataque não ramificado, no caso de dominar uma posição de esqueleto
associada a uma consoante (simples) ou a nenhuma (vazio).
(3) Tipologia de ataques em português
simples
Não ramificado
Ataque vazio
Ramificado
39
Ataque não ramificado simples
(5) ataque não ramificado simples da segunda sílaba da palavra “e-pa-ta” (família)
Ó
A R
Nu
X X
p a
Fonte: Elaboração própria a partir de Mateus, Falé e Freitas (2005)
A R
Nu
X X
ø e
Fonte: Elaboração própria a partir de Mateus, Falé e Freitas (2005)
40
Ataques ramificados
As línguas bantu exibe, ainda, ataques ramificados (ou ataques complexos), que são
constituídos por duas consoantes.
A R
Nu
X X X
m b o lo
Rima
(10) Rimas
Exemplo de rima não ramificada com a última sílaba da palavra “e-pa-ta” (nariz):
41
a) Rima não ramificada
Ó
A R
Nu
X X
t a
Fonte: Elaboração própria a partir de Mateus, Falé e Freitas (2005)
A R
Nu Cd
X X X
p á s
Fonte: Elaboração própria a partir de Mateus, Falé e Freitas (2005)
42
Núcleo
A presença do Núcleo implica a existência da Rima, que, por sua vez, projecta o nó
sílaba. Por outras palavras, a presença de um Núcleo é responsável pela presença
de uma sílaba. Um núcleo pode dominar uma vogal ou uma sequência de vogal e
semivogal. No primeiro caso, trata-se de um Núcleo não ramificado e no segundo
caso corresponde a um Núcleo ramificado.
Exemplos da primeira sílaba da palavra “za-la” (fome em cokwe) para o núcleo não
ramificado, e para o núcleo ramificado a primeira sílaba “kya-la” (unha em Kimbundu).
A R A R
Nu Nu
X X X X X
z a k y a
Fonte: Elaboração própria a partir de Mateus, Falé e Freitas (2005)
O tom
O sistema prosódico das línguas bantu de Angola é incipiente. Não há, ou há poucos
estudos sobre o assunto em questão. Na maioria dos trabalhos publicados ou
defendidos, poucos são aqueles cujo sistema prosódico é reconhecidp. Todavia,
tenta-se apresentar um quadro teórico sobre esta matéria.
com efeito, existem tons simples ou pontuais e tons complexos. Esses dois tons
aparecem nas línguas bantu, O tom simples abarca o slto (A) Ee o baixo (B), notado
43
(´) e (´) respectivamente, exluindo o segundo tipo de tom, por causa da incipiência dos
dados e a sua complexidade.
Exemplos:
Kikongo
/n´tú/ 3 cabeça
/zólà/ 15 amar
Oshikwanyama
/òmwédì/ 3 mês
/òmàdí/ 9 perna
Ngangela
/ngéndzì/ 9 viajante
/víkùnì/ 8 lenha
No estudo dos tons, nas línguas bantu, ainda é de extrema importância destacar ou
sublinhar o tom lexical, que é utilizado para distinguir o significado lexical, isto é, o tom
lexical desempenha a função de distinção ao nível lexical. Quando duas palavras
segmentalmente são identicas, com diferença semântica, podem ser incluídas no
dicionário, e serão distinguidas ao nível supra-segmental.
Exemplos:
Kimbundu
/njílà/ 9 pássaro
/njìlà/ 9 caminho
/hàmà/ 9 cama
Umbundu
/óndjílà/ 9 pássaro
/óndjìlà/ 9 caminho
44
Kikongo
/mfúlù/ 9 lugar
/mfùlù/ 9 cama
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UNIDADE IV – MORFOSSINTAXE DAS LÍNGUAS BANTU
Segundo Van Bulck (1949), aquando do seu regresso do Congo em 1655, o padre
Antonie Turiel levou uma gramática kikongo e um vocabulário em quatro línguas,
nomeadamente, kikongo, italiano, latim e espanhol.
Outros estudos de refêrencia foram feitos por Bleek. No primeiro volume da sua obra
A Comparative Grammar of South African Languages, publicada em 1862.
A primeira revisão foi feita por Bleek, que inverteu mais tarde a ordem de 13 e 14 *ka,
tornando-se 13 e *bu-14.
46
Uma outra revisão, foi feita por Jacottet (1896), que resultou na organização que se
tornou desde entâo estandarte: *ka-12, *tu-13, *bu-14.
47
As classes e os seus prefixos – Aumento
Em muitas línguas bantu, o prefixo de classe nominal pode ser precedido por uma
vogal que é variavelmente referida como aumento ou pré-prefixo ou vogal inicial.
ZONA H
Kimbundu
48
6 ma- malonga pratos
7 ki- kinama perna
8 i- inama pernas
9 i- Ixi País
Ø Hoji leão
10 Ji Jixi País
Ji jihoji leões
11 lu- lukwako braço
12 ka- kafunga pastor
13 tu- tufunga pastores
14 u- Wihwa cogumelos
15 ku- Kubhanza Pensar
kudisanza saúde
16 bhu- bhukitanda Na praça
17 ku- kumalanji Para
Malanje
18 mu- mwimbya Na panela
ZONA R
Umbundu
49
i- Isso olho
6 a- akamba amigos
ova- ovaso Olhos
7 oci- ocivendji ancião
8 ovi- ovivendji anciões
9 Ø- ondonge aluno
10 Olo- olondonge alunos
11 olu- olundjandjo raiz
12 oka- okalenge Gatinho
13 otu- otulenge Gatinhos
14 ou- owelema escuridão
15 oku- okulu perna
okutala olhar
16 po- polwi no rio
17 ku- kepya na lavra
18 vo- vondjo em casa
Fonte: Fernande e Ntondo (2002)
Singular Plural
Classe 1 omu- ⁄ u- Classe 2 oma- ⁄ a
L.U L.P L.U L.P
Omunu Pessoa Omanu Pessoas
Omolã Criança Omalã Crianças
Ukãyi Mulher Akãyi Mulheres
Ufeko Moça Afeko Moças
Uveli Primogénito Aveli Primogénitos
Ulongisi Professor Alongisi Professores
50
Ungombo Pastor Angombo Pastores
Classe 1a e 2a.
Estas classes designam o grau parentesco segundo a noção de desclassificação todos os
nominais que marcam o grau de parentesco, pertencem as classes 1a e 2a. Muito destes
nominais têm prefixo zero na classe 1a no singular (cf. Ntondo, 2006, p. 32).
Singular Plural
Classe 1a) ø- Classe 2a) va-
L.U L.P L.U L.P
ømandji Irmão Vamandji Irmãos
øpalume Primo Vapalume Primos
øndatembo Sogro Vandatembo Sogros
ønekulu Neto Vanekulu Netos
øPahãyi Tia Vapahãyi Tias
øNdombwa Noiva Vandombwa Noivas
ØSandombwa Noivo Vasandombwa Noivo
Classes 3 e 4
Compreende os nomes de objectos na sua generalidade, partes do corpo humano, nomes de
árvores, (cf. Nascimento, 1894, p. 13).
Singular Plural
Classe 3 ;u- Classe 4; ovi
L.U L.P L.U L.P
Utwe Cabeça Ovitwe Cabeças
Uti Árvore Oviti Árvores
Usongo Flecha Ovisongo Flechas
Ukanda Carta Ovikanda Cartas
Ula“ Cama Ovola Camas
Classes 5 e 6
Prefixos que reúnem conceitos que agrupam algumas partes do corpo humano, certos
objectos, nomes de parentesco; frutas, pequenos animais selvagens; répteis, líquidos e
tubérculos (cf. Epuka, 2011, p. 16).
51
Singular Plural
Classe 5; e – ⁄ i - Classe 6; a – ⁄ ova –
L.U L.P L.U L.P
Imo Barriga Ovamo Barrigas
Ewe Pedra Ovawe Pedras
Ehondyo Banana Ahondyo Bananas
Etosi Gota Atosi Gotas
Classe 7 e 8
Nestas classes reúnem-se os conceitos de alguns nomes dos seres humanos, partes do
corpo humano, insectos, animais domésticos, selvagens e aquáticos; alguns tubérculos, e
objectos diversos (cf. Epuka, 2011, p. 17).
Singular Plural
Classe 7: Oci – Classe 8: Ovi –
L.U L.P L.U L.P
Ocingumba Ladrão Ovingumba Ladrões
Ocimbyambyulu Borboleta Ovimbyambyulu Borboletas
Ocimbungu Lobo Ovimbungu Lobos
Ocitupi Bode Ovitupi Bodes
Classes 9 e 10
Estas classes reúnem conceitos de animais domésticos e selvagens, grandes e
pequenos, insectos, répteis e algumas aves, partes do corpo humano e alguns nomes dos seres
humanos, bem como alguns objectos e líquidos. (cf. Rev. H. Etaungo Daniel, 2002 apud
Epuka, 2011, p. 17).
Singular Plural
Classe 9; Oø- Classe 10; olo-
L.U L.P L.U L.P
Ongwe Onça Olongwe Onças
Ondjila Pássaro Olondjila Pássaros
Ongolo Joelho Olongolo Joelhos
Omango Cadeira Olomango Cadeira
Classe 11 e 10
Estas classes indicam conceitos de algumas partes do corpo humano, alguns objectos,
insectos, frutas e líquidos (cf. Epuka, 2011, p. 18).
52
Singular Plural
Classe 11: olu – Classe 10: olo – e 6: a -
L.U L.P L.U L.P
Olumati Costela Olomati Costelas
Oluhengo Ameixa Olohengo Ameixas
Oluhamwe Mosquito Olohamwe Mosquitos
Classe 12 e 13
Estas classes reúnem os diminuitivos que encontramos em todos conceitos dos
nominais, “também, indica nomes próprios ou comuns […]30” (cf. Epuka, 2011, p. 18).
Singular Plural
Classe 12: oka- Classe 13: otu -
L.U L.P L.U L.P
Okamolã Criancinha Otumalã Criancinhas
Okalenge Gatinho Otulenge Gatinhos
Okawe Pedrinha Otuwe Pedrinhas
Okambya Panelinha Otumbya Panelinhas
Classe 14 e 6
Prefixos que indicam um conceito de abstracção que formam o seu plural, partindo do
singular da classe 14 com a classe 6 no plural (cf. Epuka, 2011, p. 18).
Singular Plural
Classe 14; u – Classe -6; ova – ⁄a –
L.U L.P L.U L.P
Ulima Ano Alima Anos
Uveyi Doença Ovoveyi Doenças
Uvala Casamento Ovovala Casamentos
Classe 15 e 4 ou 6
Estas classes fazem parte dos verbo-nominais e reúnem os conceitos que indicam as
partes do corpo, e verbos que marcam o seu infinitivo, nomes deverbativos (cf. Fernandes e
Ntondo, 2002, p. 78).
53
Singular Plural
Classe 15; oku- Classes 4 ovi-, 6 ova-/ 8 ovi-
L.U L.P L.U L.P
Okulila Chorar ------------------ ---------------
Okwenda Andar ------------------- ---------------
Okulya Comer ------------------- ---------------
Okulya Comida Ovilya Comidas
Okutwi Orelha Ovatwi Orelhas
Okwokwo Braço Ovoko Braços
Okulu Pé Ovolu Pés
Classe 16, 17 e 18
Os prefixos da classe 16 “ ko- / ki- “, da classe 17 “ko-/po-” e os da classe 18 “vo-”,
são prefixos dos locativos onde:
Exemplos:
54
Ngangela: i-mphwevo (9) va-mphwevo (2) mulher(s)
Substantivos desclassificados
Kimbundu
Ngangela
Umbundu
55
BIBLIOGRAFIA
56