0% acharam este documento útil (0 voto)
2 visualizações56 páginas

Linguistica Bantu 2025 Outubro

O documento aborda a Unidade Curricular de Linguística Bantu, destacando sua importância na formação de professores em Angola, especialmente na análise de fenômenos linguísticos em um contexto multicultural. Apresenta objetivos gerais e específicos para o estudo das línguas bantu, além de discutir a história e a expansão dessas línguas na África, com ênfase em Angola. Também menciona os principais estudiosos que contribuíram para a pesquisa das línguas bantu ao longo da história.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
2 visualizações56 páginas

Linguistica Bantu 2025 Outubro

O documento aborda a Unidade Curricular de Linguística Bantu, destacando sua importância na formação de professores em Angola, especialmente na análise de fenômenos linguísticos em um contexto multicultural. Apresenta objetivos gerais e específicos para o estudo das línguas bantu, além de discutir a história e a expansão dessas línguas na África, com ênfase em Angola. Também menciona os principais estudiosos que contribuíram para a pesquisa das línguas bantu ao longo da história.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

MINISTÉRIO DO ENSINO SUPERIOR, CIÊNCIA TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

ESCOLA SUPERIOR PEDAGÓGICA DO BIÉ

DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS

LINGUÍSTICA BANTU

O DOCENTE: Martins Kamulengo Siluqui Laurindo

CUITO-BIÉ

OUTUBRO – 2025

1
PRELIMINARES

A Unidade Curricular de Linguística Bantu como parte da Línguística Geral contribui


para a preparação dos estudantes em relação aos problemas próprios da profissão,
especificamente para exercer uma prática educacional que proporciona maior
experiência pedagógica, isto é, na análise de fenómenos de contactos de línguas,
versos interferências num mosaico cultural como o de Angola, em particular a biena,
onde existem muitas línguas.

A disciplina de Linguística Bantu vai apefeçoar o desenvolvimento de habilidades


profisssionais, para que o futuro prpfessor possa desempenhar de melhor maneira na
prática pedagógica diária, já que, poderá encontrar alunos que têm o Português como
língua primeira e outros como língua segunda.

Objectivo geral: Conhecer os principais aspectos inerentes a gramática das línguas


bantu.

Objectivos específicos:

 Classificar sem dificuladades as línguas bantu da sua região e não só;


 Dotar de instrumentos prévios para o conhecimento das línguas bantu;
 Identificar e localizar os diversos grupos etnolinguísticos e socioculturais de
Angola;
 Facilitar o estudo cintífico das línguas bantu;
 Incentivar o gosto pela leitura e escrita das línguas bantu angolanas;
 Descrever o nome;
 Descrever as classes gramaticais;

Metodologia de ensino:

 Aulas teóricas e práticas que propcurarão sistematizar, teorizar e unificar as


ideias fundamentais de cada unidade de estudo, o que quer dizer que far-se-á
aplicar a técnica de interação, ou seja, expo-interrogativo;
 Aulas teóricas-práticas onde os estudantes terão a possibilidade de apresentar
alguns trabalhos de pesquisas orientados ou guiados.
 Aulas práticas, os estudantes deverão empreender uma pesquisa de campo
para a recolha de dados sobre as diferentes línguas bantu de Angola e fazer

2
um esbolço analítico sobre os diferentes aspectos ligados a classificação e
descrição dessas línguas.

3
UNIDADE I: HISTORIOGRAFIA DAS LÍNGUAS BANTU

1.1. História das línguas bantu e a sua localização geográfica

A palavra “bantu” é formada pelo prefixo nominal da classe 2 “ba-e” pelo radical
nominal “ntu”, que significa pessoa em todas as línguas que se denominam bantu e
se refere a um grupo de cerca 600 línguas e aos falantes das mesmas e que hoje são
estiamdos em mais de 400 milhões1. Como vimos a partida, a palavra bantu é
linguística e mais tarde tornou-se antropológica e passou a designar os falante dessas
línguas.

Foi em 1862 que o bibliotecário do governador do Cabo de Boa Esperaça, Wilhelm


Bleek introduziu na primeira parte da sua gramática comparativa, intitulada
Comparative Grammar of the South African Languages, a expressão bantu no
vocabulário das ciências sociais, para não se referir só a uma língua, mas ao conjunto
das línguas da mesma família com características comuns.

Os estudos linguísticos apontam que essas línguas provêm de uma língua comum
designada pronto-bantu, uma língua hipotética, considerada uma possível língua-
mãe das actuais línguas bantu faladas na regiãi dos Camarões e da Nigéria Orienta,
na África Central, Oriental e Austral quase há três mil anos.

A expansão bantu foi um dos maiores movimentos migratórios da história da


humanidade e a sua causa deu-se predominantemente pelo desenvolvimento da
agricultura, fabricação da cerâmica, uso do ferro que permitiu novas zonas ecológicas
exploradas.

A Antropologia refere-se a expansão bantu como um movimento de povos que ao


longo de três milénios terá espalhado as línguas bantu em praticamente toda a África
subsaariana.

Com a definição do termo bantu em 1862, Wilhelm Bleek avançou a hipótese de o


enorme número de línguas com característicais comuns ter tido origem numa só
língua.

1
Ethnologue (2012) apud Ntondo (2023)
4
Segundo textos sobre origens e a expansão bantu, existem duas versões: a primeira
e a de Joseph Greenberg (1963), que diz que, um grupo de línguas Sudeste da Nigéria
ter-se-iam espalhado para o Sul e Leste, ao longo de centenas de anos.

Analisando várias línguas bantu, Malcom Guthriel (1948), explicou que as mais
estereotípicas eram as da Zâmbia e as do sul da actual RDC, sendo esta a região
originária das línguas bantu.

Nos dias actuais, a versão mais aceite, particularmente no meio dos bantuista é a de
que os bantu teriam tido origem na região dos rios Benue-Cross, no Sudeste da
Nigéria, tendo emigrado primeiro para a região onde se encontra hoje a Zâmbia. Por
volta do século II a. C, provavelmente impelidos pela desertificação do Sahara e pela
consequente pressão dos Saharauis, que foram obrigados a espalhar-se pelas
florestas tropicais de África Central e mais tarde pelas savanas da África Austral e
Oriental.

Logo, diz-se que as línguas bantu localizam-se numa região que vai do Sul da Nigéria
estendendo-se até à República dos Camarões, atravesando A República Centro
Africano, República Democrática do Congo, Uganda, Quénia e até ao Sul da Somália
no Leste do continente. Da República de Camarões avançou até ao Oceano Indico e
da floresta equatorial e chegou até à África do Sul. Não se sabe ao certo o número
total das línguas bantu. Alguns linguístas afirmam que são 400, outros como Bastin
(1999), diz serem 542, Maho (2003), fala em 660 e Mann et al. (1978) em 680.
Portanto, fica evidente que entre os linguístas há uma controvérsia em relação ao
número de línguas bantu.

Penetração e fixação Bantu em Angola

A expansão bantu foi uma acção de conquista ampla que se estendeu ao território,
hoje angolano, entre o século XII e o século XIX.

Por volta do século XIII, iniciaram movimentos migratórios para o território angolano a
partir de região do Baixo Kongo. Um primeiro grupo fixou-se na margem esquerda do
rio com o mesmo nome, trata-se do BAKONGOS.

Entre os séculos XV e XVI o território angolano conheceu a penetração do


OVANYANEKA. Este grupo entrou pelo Sul de Angola, atravessou o rio Kunene e
fixou-se no planalto da Huila.

5
Ainda no século XVI , outro povo abandona o seu território, na região do Grandes
lagos (Centro de África) e vem igualmente parar em terras angolanas. Entra pelo
Leste, atravessa o planalto do Viye e instala-se no Sul, que são os OVAHELELO.

O século XVI foi fértil em migrações. É assim que os BAYAKA, provenientes da região
Nordeste, tocaram o território angolano, onde, após confrontos territóriais com os
Bakongos, foram expulsos da região. Alguns Bayaka fixaram-se na região de Kasanji,
enquanto outros caminharam para o Sul.

No século XVII, chegava outra migração a partir da região Sudeste. Atravessa o rio
Zambeze (região do alto Zambeze) e estabelece-se entre este e o rio Kunene. Trata-
se dos VANGANGELA.

No século XVIII, o território angolano recebeu o grupo OVAMBO. Este deixou o seu
território no Baixo Kuvangu para fixar-se entre o Alto Kubangu e o rio Kunene.

O século XVIII, registava-se outro movimento migratório. Os TUCOKWE, que


abandonaram a região de Katanga, atravessaram o rio Kasai e implementaram-se na
Lunda (Nordeste de Angola). Por brigas com o povo Lunda, os Tucokwe voltaram a
migrar para o Sul.

E no século XIX surgiu o último povo a instalar-se em Angola. Eram os


OVAKWANGALI provenientes da região do rio Orange (África do Sul) e fixaram-se em
Angola entre os rios Kuvangu e Kwandu, os Ovakwangali.

Relativamente aos planáticos ovimbundu, constituem um histórico conglomerado, a


sua génese é deveras bastante peculiar a história de Angola em geral. Povo “dos
povos miscigenados”, de quase todas as vertces do mosaico etnolinguístico
nacional incluindo os de descendência ocidental e os orientas (…)2.

2
Cf. GOMES, A. J. “Ovimbundu Pré-coloniais contribuição ao estudo sobre os planálticos de Angola, pág. 27.

6
OS PIONEIROS DOS ESTUDOS DAS LÍNGUAS BANTU

Relativamente a está temática, temos alguns percursores no estudo das línguas


bantu, como está descrito abaixo:

Wilhelm Heinrich Immabuel Bleek 1827-1875

Nascido em Berlim a 8 de Março de 1827 e morreu na cidade de Cabo a 17 de Agosto


de 1875. Foi bibliotecário do governador do Cabo de Boa Rsperança. Foi considerado
fundador da linguística bantu, com a sua obra intitulada Comparative Grammar of
the South African Languages, publicada entre 1862 e 1869, que descreveu o terno
bantu pela primeira vez na perspectiva linguística, sendo o primeiro a reconhecer que
as línguas bantu tinham uma relação de proximidade com as línguas de família Níger-
Congo e Kongo-Cordofan.

Os seus estudos comparativosem relação as línguas do Sul da África permitiram


identificar que as línguas bantu têm características relevantes, e mostrou que, elas
têm relação entre si. Também, comprovou que nessas línguas existe um abragente
sistema de classes com um certo número de pares singular/plural e denominou e
denominou esse grupo de línguas bantu.

Carl Friedrich Michael Meinhof 1857-1944

Nasceu em Barzwitz perto de Rugenwalder na província d Pomerânia. Estudou nas


Universidades de Tubinga e Greifswald. Em 1905 passou a ser professor na escola
de Estudos Orientais em Berlim. Em 5 de Maio de 1933 tornou-se um membro do
partido nazi. Linguísta alemão que trabalhou também com as línguas bantu, entre os
seus trabalhos, o mais notável foi a obra Comparative Phonology, publicada em
1899, obra essa que desenvolveu os estudos comparativos sobre as línguas bantu,
tai como Swahili e Zulu para determinar as semelhanças e diferenças, isto é, com
base no trabalho pioneiro de Bleek e nos princípios aplicados para o indo-europeu.
Meinhof analisou também outras línguas africanas e com isso desenvolveu um
abragente sistema de classificação para as línguas africanas. A sua classificação foi
padrão por muitos anos. Foi substituído pelo Joseph Greenberg de 1955 a 1963.

Malcom Guthrie 1903-1972

7
Nasceu a 10 de Fevereiro de 1903 e morreu de ataque cardiáco a 2 de Novembro de
1972, com 69 anos de idade. Foi chefe de departamento de áfrica na Escola de
Estudos Orientais e Africanos. A contribuição de Guthrie, linguísta da London School
of African Studies para ao estudos de classificação das línguas bantu, foi e continua
a ser essencial nos dias de hoje, tendo a obra The Classification of the Bantu
Languages (1948), trabalho mais notável do seu percurso. Nela, desenvolveu uma
criteriologia para a classificação das línguas bantu. O seu modelo de classificação
tipológica ainda é hoje utilizado, embora algumas partes tenham sido revistas pelo
Museu Real da África Central de Tervunen.

Achille Emile Meeussen 1912-1978

Nasceu em Saint-Pieters-Jette a 6 de Abril de 1912 e morreu em Leuven a 8 de


Fevereiro de 1978. Foi um distinto especialista belga sobre as línguas bantu, em
particular as do Congo Belga e Ruanda. Professor de línguas africanas e fundador do
Deparatamento de Linguística do Museu Real de África Central – Trvuren (Bélgica),
Museussen deu grandes contribuições aos estudos bantuístas, pois, nas suas obras
trabalhou a questão do tom nas línguas bantu. A partir dos seus estudos surgiu a regra
de Meeussen, que é o nome de um caso especial de tom. Meeussen deu um grande
impulso ao estudo comparativo do bantu e a construção de fonemas gramaticais e
vocabulário do proto-bantu. Escreveu duas obras de destaque, isto é, Bantu
Grammatical Reconstructions (1967) e Bantu Lexical Reconstruction (1969).

Joseph Harold Greenberg (1915-2001)

Nascido a 28 de Maio de 1915 em Brooklyn, Nova Iorque, na sua obra Languages of


Africa (1963), Greenberg estudou as línguas africanas e reuniu-as em famílias
maiores, com base na sua proposta de classificação genética. Esta classificação foi
fundamental sobretudo para os estudos genéticos das línguas africanas. É de
sublinhar que, Greenberg centrou a sua atenção em todas as línguas faladas em
África do Norte ao Sul, Leste a Oeste.

A classificação foi por algum período de tempo considerada muito audaz e


especulativa, especialmente na sua proposta de uma família de línguas nilo-
saharianas, mas que hoje é geralmente aceite entre os especialistas em história

8
africana. Na sua obra, Greenberg cunhou o termo línguas afro-asiáticas para substituir
o anterior camito-semíticas. A classificação destelinguíste foi bem aceite por linguístas
históricos que, desde então, a usaram como base para trabalhos posteriores.

1.2. Famílias linguísticas em África

As famílias de línguas constituem os diferentes grupos linguísticos, que partilham


alguns traços semelhantes, não só, em termos linguísticos, como também, cultural.
Abaixo, descrevemos as 4 grandes famílias de África, que são:

 Família afro-asiáticas;
 Família Niger-Kordofaniana;
 Família Nilo Sahariana e a
 Família Khoisan.

Foi Greenberg (1963), que apresentou em classificação revista as línguas africanas


em quatro grandes famílias, identificando em cada uma delas as subfmílias que variam
em número de família para outras.

2.1.1. Família Afro-Asiática

Esta família de língua também chamada de Camito-semíticas, cobre toda a África do


Norte e quase todo o chife da África (Etiópia e Somália); algumas línguas do ramo
Cuxítico estendem-se ao sul até a Tanzânia. O ramo semítico inclui línguas que
anteriormente ou épocas anteriores, abragiam quase todo o Oriente Médio. Em geral,
considera-se que a Afro-asiática compreende cinco (5) divisões ou subfamílias que
são:

1. O berbere;
2. O egípcio;
3. O semítico;
4. O cochítico e o
5. Chádico.

Recentemente, o investigador Fleming aventou que o grupo de línguas até agora


classificado como Cuxítico-ocidental em que se incluem o Kafa e outras línguas do
Sudoeste da Etiópia, constitui uma outra divisão ou ramo.

9
1.1.2. Família Níger-kordofaniana

A família Níger-kordofaniana possuí dois ramos bastante desiguais em número de


falantes e em extensão geográfica. O primeiro, Níger-Kongo, compreende grande
parte da África do Sul do Sahara, incluindo quase toda a África Ocidental, partes do
Sudão Central e Oriental, sendo que seu sub-ramo Bantu ocupa a maior parte da
África Central, Oriental e Meridional. Outro ramo do Níger-kordofaniano é o
Kordofaniano propriamente dito, confina-se a uma zona limitada da região do
Kordofaniano propriamente dito, confina-se a uma zona limitada da região do
Kordofan do Sudão.

Os dois ramos ou subfamílias da família Níger-Kordofaniana são:

1. Níger-Kongo;
2. Níger-Kordofaniana.

1.1.3. Família Nilo-Sahariana

Esta é a outra grande família de línguas Negro-Africanas. De modo geral, é falada a


Norte e a Leste das línguas Níger-Kongo e predomina no vale superior do Nilo e nas
porções orientais do Sahara e do Suldão. Entretanto, possuí um alongamento
ocidental no Songhayi, no bsixo vale do Níger. Compreende um ramo muito extenso,
o Chari-Nilo, que engloba maior parte das línguas dessa família. As ramificações do
Nilo-Sahariano são as seguintes:

1. Songhayi;
2. Sahariano – compreende os seguintes grupos: Kanuri-Kanembu, Teda-Daza,
Zaghawa e Berti;
3. Maban;
4. Furian;
5. Chari-nilo;
6. Comam – compreende os seguintes grupos: Koma, Ganza, Uduk, Gule, Gumuz
e Mao.

1.1.4. Família Khoisan

A palavra khoisan é formada de “khoi” termo hotentote que significa “homens”, e “san”
termo Bosquímano que significa “homens”.

10
Todas as línguas Khoisan possuem cliques entre as consoantes e a maioria de seus
falantes pertecem ao tipo San fisicamente característico. Amaior parte das línguas
dessa família é falada na Áfria do Sul. Entretanto, existem dois pequenos grupos de
populações, os Hatsa e os e os Sandawe, situados muito mais ao Norte, na Tanzânia,
cujas línguas diferem acentuadamente tanto entre si quanto as línguas do grupo da
África do Sul. Desse modo a família divide-se em três ramos:

1. Hatsa;
2. Sandawe e
3. Koisan sul african.

Em 2004, na obra intitulada “Introdução a Linguística Bantu” o linguísta africanista,


Armindo Ngunga, descreveu cino subfamílias desta família: Khoy, San, Sandawe,
Iraqw e Hatsa ou Hadza.

1.3. Classificação das línguas tipológicas e genética


1.3.1. Classificação tipológica

A classificação tipológica é aquela que se basea em traços destacados pela análise


da estrutura das línguas em questão. Este método não implica o parentesco geético
nem aproximação geográfica das línguas, mas também não os exclui 3. A tipologia
constitui um precioso instrumento de pesquisa no estudo da história das línguas:
estudo dos fenómenos de convergência e divergência, previsão de certo modo de
mudanças linguísticas, verificação de resultados obtidos pela reconstrução histórica.

Em linguística comprativa é usual aplicar-se o método tipológico com os fins


descritivos, embora geralmente se reserve o termo comparação à investigação que
visa reconhecer no mundo um determinado número de famílias de línguas
considerados aparentadas.

Um exemplo de classificação tipológica das línguas africanas é o de Heine (1976),


que divide em quatro tipos de base e alguns subtipos:

Tipo A

Contém um grande grupo de línguas de todas as famílias entre as quais as línguas


bantu, o Hausa e o Bebere. As suas principais características são:

3
Berten, 1976 apud Ngunga 2004.

11
 A ordem das palavras na frase é SVO;
 O objecto precede o sintagma adverbia;
 O genitivo e o adjectivo seguem o nome;
 O possessivo precede os adjectivos;
 O advérbio segue o verbo e outros adjectivos;
 O pronome sujeito precede as marcas de tempo, aspecto, a partícula negativa
e o pronome objecto;
 As marcas de tempo e aspecto precedem o verbo;
 O pronome objecto segue o verbo, mas no subgrupo bantu, o pronome objecto
precede o verbo e o objecto nominal segue-o. O objecto indirecto precede
geralmente o objecto directo.

Tipo B

Línguas Mande, Voltaicas, o Ewe, o Sanghay, e alguns línguas Khoisan.

 Na maioria parte das línguas deste tipo, a ordem das palavras na frase é SVO;
 O genitivo precede o nome regente;
 O advérbio segue o adjectivo e o verbo na maior parte das línguas;
 O pronome sujeito precede as marcas de tempo, aspecto, o verbo e o pronome
objecto.

Outras características são as posposiçoes, a existência de vogais nasais (para além


das orais) e a composição nominal.

Tipo C

Com excepção do Hatsa, a língua Khoysan na Tanzânia, todas as línguas deste tipo
são do grupo do Sudão Oriental da família Nilo-Saharia, como o Masay e outras
Nilóticas.

 A ordem de base da palavras na frase é SVO, embora também exista a ordem


SOV;
 Existência de preposições;
 O genitivo segue o regente;
 Os adjectivos, numerais e possessivos seguem o nome;
 O verbo auxiliar precede o verbo principal;
 A negação precede o pronome sujeito e o verbo;

12
 A distinção singular/plural no nome é expressa com sufixos, embora possa
também sê-lo com prefixos (como em Turkana);
 A distinção de número é obrigatório;
 Se existir, um sistema de géneros será baseado na oposição
masculino/feminino.

Tipo D

As línguas semíticas da Etiópia, a maior parte das línguas Cuchitas (como o Sandawe)
também estão representadas:

 A ordem das palavras na frase é SVO;


 O advérbial precede o verbo;
 O verbo auxiliar segue o verbo principal;
 Se houver afixos de género nominal, então são sufixados ao nome.
1.3.2. Classificação genética

A classificação genética é um método no qual línguas distintas são agrupadas em


determinadas classes. O agrupamento respeita critérios que podem ser tipológicas ou
teóricos. Os critérios tipológicos se referem a associações de traços fonéticos,
fonológicos e gramaticais. Os critérios teóricos são referentes ao facto de existir
correspondências recorrentes entre elementos linguísticos não universais.

Inicialmente, as classificações seguiam, na sua maioria, critérios teóricos, baseadas


em correspondência de som. A partir da análise de mudanças de som, evidenciou-se
que as semelhanças entre línguas eram justificadas por empréstimos linguísticos ou
ascendência genética e, nesse último caso, os estudos apontavam pelo facto de que
as línguas eram, antigamento, uma só língua, conhecida como língua-mãe.

Em 1971, Malcolm Guthrie apresenta uma classificação baseada em critérios


geográficos e de parentesco das línguas bantu, agrupando-as em 15 zonas, cada uma
representada, ou seja, codificadas por uma letra maiúsculas, que são A, B, C, D, F,
G, H, L, M, N, P, R, S, correspondendo as zonas A, B, D, H, L, K e R ao bantu ocidental
e as zonas D, E, F, G, M, N, P e S, ao bantu oriental zona R: Sudoeste de Angola e
Noroeste da Namíbia.

Angola e Noroeste da Namíbia.

 Zona A: Sul dos Camarões e Norte de Gabão;


13
 Zona B: Sul de Gabão e Oeste do Kongo;
 Zona C: Noroeste, Norte e Centro do Kongo;
 Zona D: Nordeste, Este da RDC, Rwanda e Burundi;
 Zona E: Sul da Uganda, Sudeste do Kenya e Noroeste da Tanzânia;
 Zona F: Norte e Oeste da Tanzânia;
 Zona G: Centro e Este da Tanzânia e Costa Swahili;
 Zona H: Sudeste do Kongo e Norte de Angola;
 ZONA K: Este de Angola e Oeste da Zâmbia;
 Zona L: Sul da RDC e Oeste e centro da Zâmbia;
 Zona M: Este e centro de Moçambique e Sudoeste da Tanzânia Sudeste da
RDC;
 Zona N: Malawi, centro de Moçambique e Sudeste da Zâmbia,
 Zona P: Sul da Tanzânia e Norte de Moçambique;
 Zona R: Sudeste de Angola e Noroeste da Namíbia;
 Zona S: Zimbabwe, sul de Moçambique e Este da Á frica do Sul

14
Mapa de zonas das línguas bantu

Fonte:
[Link]
ng.

15
Exemplo de diagrama de línguas bantu de Angola

Níger-Kongo
Benue-Kong Kordofaniano

Bantu

Zona H
Kimbundo Kikongo Cokwe Ngang. Luvale Umbundu Helelo Oshikwany.

O diagrama em árvore é a maneira mais recorrente de representar o relacionamento


genético entre dadas línguas proposta por Joseph Greemberg.

1.4. Cacterização das línguas bantu e não bantu angolana

É lógico que as línguas bantu apresentam uma unidade genealógica. Mas também,
são notáveis as diferenças entre elas, embora mínimas. Essas diferenças permitem
distinguir uma da outra, sem as quais, teríamos uma única língua bantu.

Para as línguas bantu, apresentamos as características gerais de maior relevância:

 Os nomes são caracterizados por prefixos que indicam o singular e o plural.


O número de classes, segundo estudos actuais sobre algumas línguas de
cada uma das três zonas (H, K e R), estabelece-se a volta de 18 classes;
 Os substantivos são classificados em função dos seus prefixos do singular e
do plural;
 A maior parte das línguas bantu, utiliza os tons;
 O sistema vocálico é simétrico, ou seja, este comporta uma vogal centra (a),
duas vogais anteriores (i, e) e duas vogais posterior (u, o);
 Algumas consoantes orais, não aparecem de forma isolada por serem sempre
pré-nasalisadas, isto é, precedidas de consoantes nasais;
 Não existem artigos.

Quanto as línguas não bantu, temos por exemplo as línguas khoisan que
caracterizam-se:
16
 Emprego de “cliques”;
 A estrutura morfológica e sintática apresenta-se extremamente simples.
 A fonologia é de extrema dificuldade devido a presença de cliques e várias
consoantes velares e glotais, assim como de tons;
 Possui vogais e consoantes como em qualquer outra língua.

17
UNIDADE II – AS LÍNGUAS BANTU DE ANGOLA

Em Angola existem várias línguas, algumas bantu, as maioritárias, e outras não bantu
(khoisan, vatua, kwisi e o português). A nossa abordagem, incidir-se-á sobre as
línguas bantu.

2.1. Classificação das línguas bantu

Para a classificação das línguas bantu, utilizamos a do Malcom Githrie para encaixar-
mos as nossas línguas e as suas variantes de forma a termos uma distribuição que
responda a imagem linguística espalhada no território.

2.1.1. Malcom Guthrie

De acordo com a classificação de Gathrie (1948), as línguas bantu de Angola


encontram-se reunidas em três zona:

Zona H

Esta zona abrange o Norte e Noroeste do país, que corresponde administrativamente,


por um lado as províncias de Cabinda, Uige e uma porção do Norte da província do
Bengo, onde são faladas as línguas Kikongo (H10) e as suas variantes, e por outro,
as províncias de Bengo, Malanje, Kwanza-Norte, uma parte de Kwanza Sul e Luanda,
onde predomina o Kimbundu (H20) e todas as suas variantes, identificadas pela
presença dos prefixos di- (li- para algumas línguas de Cabinda) para a classe 5 e ki-
(ci- para algumas de Cabinda) para a classe 7.

a) Grupo Kikongo: H10

As línguas deste grupo transpoem as fronteiras nacionais para os países vizinhos da


RDC e Congo Brazzaville.

A língua Kikongo cobre uma boa parte da região Nordeste do País. As línguas vizinhas
são, a Sul e Sudoeste o Kimbundu e a este o Cokwe.

Este grupo é representado pelas seguintes variantes:

 Kikongo do Norte, na província de Cabinda:


ilinji (município do Buco Zau);
ikoci (município de Cacongo);
ikwakongo (município de Cabinda);

18
iyombe (município do Buco Zau e Belize);
iwoyo (município de Cabinda);
civili (município de Cacongo);
isundi (município de Belize);
 Kikongo Ocidental, na província do Zaire e Uige:
kisolongo (Soyo, Nzentu e Tomboko);
kisikongo (Kwimba, Mbanza Kongo, Mbembe e Uige);
kimboma (Noki).
 Kikongo do Leste, localizado na província do Uige:
kiyaka (Kimbele, Sakandika)
Suku (Kimbele)
 Kikongo do Sul, na província do Uige:
kihungu (Uige, Bungu, Negage, Buenga, Mukaba e Kitexi);
kiponmbo (Sanza Pombo e Puri).
 Kikongo do Centro Sul do Uige:
kizombo (Maquela do Zombo, Kibokolo e Damba);
kinsonso (Damba, Nsoso e Buengas).
b) Grupo Kimbundu: H20

A língua Kimbundu parte do interior para o litoral e domina as províncias do


Bengo, Kwanza Norte, Norte da província do Kwanza sul, Malanje e Luanda. As
línguas vizinhas são: a Norte – Kikongo, a Este – Cokwe e a Sul – Umbundu.

lenge (Malanje e Lunda Norte);


haku (Kwanza Sul);
holo (Kunda dya Beze e Marimba);
lubolo (Kwanza Sul);
mbangala (Malanje e Lunda Norte);
mbondo (município de Kela, Kakulama, Kunda dya Beza e Lunda Norte);
ndembu (Bengo);
ngola (Kwanza Norte);
njinga (Kwanza Norte);
sama (Luanda);
songo (Kangandala, Kambundi Katembo, Lukembo, cidade de Malanje com a
sua extensão as províncias do Bié e Lunda Norte) e

19
kibala (Kwanza Sul).

Zona K

Esta zona engloba a região Leste correspondente adminsistrativamente as províncias


da Lunda Norte e Sul, Moxico, Kwando Kubango e uma parte Sudeste da província
do Bié, onde são faladas as línguas Cokwe (K10), Ngangela (K12b), com todas as
suas variantes, cuja marcaidentificadora é a presença dos prefixos li- para a classe 5
e ci- para a classe 7.

Alinham-se também nesta zona as línguas da orla do rio Kuvangu, a saber:


thimbukushu (K33), Kwangari (K43) e gciriku (K62).

Esta zona é representada por quatro grupo de línguas, todas localizadas na parte
Leste e Sudeste do país:

a) Grupo Cokwe: K12

A área de difusão da língua Cokwe situa-se nas províncias das Lundas Norte e Sul,
Moxico e Kuando Kubango. Língua falada na RDC e Zâmbia. Língua vizinhas, a Oeste
– Kikongo e Kimbundu, a sul – Ngangela e a Sudoeste – umbundu. Ela reune as
seguintes variantes:

dinga

xinji

minungu (Kapenda, Kamulemba, Kamaxilu e Lubalu.

b) Grupo Lunda

Localizado nas províncias fronteiriças da Lunda Norte e Sul, e encontramos as


seguintes variantes:

lunda xinde (Mukonda, Lunda Sul e Norte);

lunda ndembu ((K22) na Lunda Norte e Sul.

c) Grupo Ngangela

A língua Ngangela é falada nas proíncias do Kwando Kubango, Sudeste de Moxico,


Viye e Leste da Huila. A línguas vizinhas são, a Norte – Cokwe, a Sudoeste –
Umbundu, a Sul – Oshindonga. E tem as seguintes variantes:

20
ngangela mpengo (Kuci e Kutatu);

ngangela cisokola (Visati e Kutatu);

ngangela maxaka (Cingwandja, Kaindo, Vavati e Kuvelai);

lucazi (Kangamba, Kasamba, Muye e Utempwe);

luvale (k14) – Kazombo;

lwimbi (K12A) – Citembo, Kamakupa e Cinyama;

ngondzelo (Citembo, Katota e Mungwe);

nkankala (entre Kangamba e Kwito Kwanavale);

nyemba (Ndongo);

yahuma (Xiyuma, Muye e na margem do rio Kutiyi).

d) Grupo Rukavango4

Colocam-se as línguas situadas na extremidade Sudeste de Angola, isto é, na orla


do rio Kuvango que banha também a Namíbia, no grupo Ndonga, quando este
grupo não existe em Angola. As línguas nesta região são reunidas sobre a
designação genérica de rukango. Na classificação de Gathrie, as mesmas são
colocadas na zona K. em Angola também, essas l´nguas correspondem aos
topónimos localizados na província do Kwando Kubango que faz fronteira com a
Namíbi5a. Assim, temos:

kwangari (K33) – kwangari;

thimbukushu (K43) – Mucussu e Kalai;

gciriku (K62) – Dirico e Xamavera.

Zona R

Envolve o centro Sul e Sudeste que corresponde as províncias de Huambo, Bié,


Nmibe, Huila e Cunene, onde são faladas as línguas Umbundu (R20), Olunyaneka-

4
Uma terminologia recuperada da designação dada as línguas na Namíbia
5 Redinha e Lima (1973), apud Ntondo (2023)

21
nkhumbi, Oshikwanyama (R21), Oshiherero com as suas variantes, cujos substantivos
e verbos se caracterizam pela presença de aumento que acompanha o prefixo
nominal.

O prefixo nominal da classe 5 representado pela vogal e-, cujo prefixo de concordância
ou dependente é li-.

Embora Gathrie não inclua o grupo de língua herero em Angola, outros trabalhos de
linguístas, tais como Mann e Delby (1987) e de acordo com Redinha e Estermann
(1956-61), a presença da língua herero é confirmada em Angola. Assim, podemos
dizer que a zona R de Gathrie corresponde quatro grupos linguísticos em Angola:

a) Grupo de língua Umbundu (R10)

Uma das línguas mais centrais de Angola no planalto central. Ela é falada com maior
predominancia nas províncias do Bié, Huambo e Benguela. As língua vizinhas são: a
norte – Kimbundu, a Oeste – Cokwe e Ngangela e a Sul Olunyaneka e Oshihelelo.

As variantes da língua Umbundu não apresentam diferenças relevantes, diferente com


o que acontece noutras línguas. Razão pela qual o nome da língua associa-se ao local
onde é falada6. Admite-se que se fala:

Umbundo do Huambo;
Umbundo do Bailundu;
Umbundo do Bié;
Umbundo de Kakonda e
Umbundo de Ndombe.
b) Grupo Oshikwanyama

Neste grupo, evitou-se a designação de Oshiwando por englobar duas línguas:


Oshikwanyama e Oshindonga7.

Esta língua é falada na província do Kunene, com alguns locutores no Sul da Huila.

Em Angola, o Oshikwanyama tem estatuto de língua. As línguas vizinhas são, a Norte


– Olunyaneka, a Este – Oshihelelo e a Oeste – Oshindonga.

6 Lusakalalu (2006), apud Ntondo (2023)


7
Hamutumwa (1987), apud Ntondo (2023)

22
Possui as seguintes variantes:

Oshikwanyama (Ondjiva, Omongwa e Kafima);

Ombadja (Xangongo, Ombala ya Mungu e Naulila);

Efina (Kwanyama e Onehoni);

Evale (Kwanyama e Evale);

Ndobodola (Ombandja e Naulila).

c) Grupo de língua herero (helelo)

Esta língua foi omitida na classificação de Guthrie, por possuir poucas informações
sobre a sua existência em Angola. A sua presença foi assinalada por Estermann e
Redinha e outros linguistas.

A sua zona de difusão, situa-se no ângulo Sudoeste de Angola precisamente na


província do Namibe. A variante Oshikuvale (aportuguesado Mukubal) é a de maior
expressão.

Oshihelelo estende-se também a República da Namíbia. Ela tem como línguas


vizinhas, a Norte – Umbundu, a Oeste – Olunyaneka e a Sudoeste – Kwanyama.

Ela tem as seguintes variantes:

Himba – município de Tomwa;

Kuvale – município de Tombwa w Moçamedes e outros municípios de Namibe;

Cavikwa – município de Virei;

Kwanyoka – municípo de Camacuio;

Okwandelengo – município de Bibala;

Ndimba – municío de Kuroka;

Ndombe – Comina do Dombe Grande, província de Benguela.

A língua herero é mais utilizada e difundida na província do Namibe que faz


fronteira com a Namíbia.

d) Grupo Nyaneka-nkhumbi

23
Esta língua localiza-se nas províncias da Huila e Cunene e é falada entre as
línguas umbundu no Planalto Central e o Oshikwanyama. As língua vizinhas são,
a Norte – Umbundu, a Este –Ngangela, a Sul e Sudoeste – Oshikwanyama e
Oshindonga e a Sudoeste e Oeste – Oshihelelo.

Ela apresenta as seguintes variantes:

Olunyaneka – Sul de Quipungu, Leste do Lubango e Chibia;

Olunkhumbi – Mulondo, Capelongo e Tshiulu;

Olumwila – Humpata, Chibia e Lubango;

Ngambwe – Gambos, Sul de Chibia e da Humpata;

Ndongwena

Hinga

Kwankhawa

Handa – Quipungu, Cainda, Cimuhulo e Sendi;

Cipungu – Quipungu;

Cilenge – Quienges;

Cilenge-muso – Sul e Oeste de Quilenges e Norte de Kamakwiho.

2.1.2. Bryan e Murdock

Segundo Bryan e Murdock (1959), citado por T. Obenga (1995), as línguas bantu
de Angola são reunidas em duas grandes zonas:

a) Bantu do centro, onde encontramos os três grandes grupos dominantes


 Grupo Kongo e suas variantes:
Kongo de mazinga – mukimbuku;
Mboma;
Sundi;
Ndibu;
Solongo;
Mpangu;
Mbamba;

24
Mpese;
Ntandu;
Lula;
Mbata;
Zombo;
Soso;
Nkanu;
Mbeko;
Vili (Fiote, Loango);
Mboka;
Ndingi;
Ngoyo;
Yombe;
Kunyi (influência do teke);
Bmbe;
Bwende;
Yaka;
Gangala;
Dondo;
Kamba e Lari.
 Grupo Kimbundu e suas variantes:
Kimbundu;
Ngola, Ndongo, Mbaka, Njinga, Mbangala, Ndembu e Sama;
Bolo – Libolo;
Holo, Tembo e Shinji.
 Grupo Cokwe – Lunda:
Cokwe, Minungu;
Lunda;
Lwimbi, Mbwela, Ngangwela;
Lucazi;
Lwena (Luvale);
Mbunda;
Nyengo;
Lunda, Ndembu e

25
Songo.
b) Bantu do Sudeste-Oeste
Kwanyama (Ovambo);
Ndonga (Am
bo);
Herero (Damara), Mbandieru e Himba,
Mbundu (Ovimbundu);
Ndombe;
Nyaneka, Humbe e Mwila.

Na intercessão das línguas, surgem línguas de misturas espalhadas em todo território,


tendo cada uma um glossónimo. Assim, temos:

Kikongo e Kimbundu;

Kikongo e Cokwe;

Kimbundu e Cokwe;

Kimbundu e Umbundu;

Umbundu e Olunyaneka

Umbundu e Ngangela;

Ngangela e Cokwe;

Ngangela e Oshikwanyama;

Ngangela e Olunyaneka;

26
UNIDADE III – FONÉTICA E FONOLOGIA DAS LÍNGUAS BANTU

O objectivo principal desta parte é o de apresentar uma informação precisa sobre as


particularidades de organização das estruturas fonológicas que caracterizam cada
uma das línguas bantu em estudo e sobre as quais temos um certo controlo. Na
fonologia segmental, examinar-se-á os sistemas focálicos e consonânticos que cada
uma das línguas apresenta, assim como as relações de alternãncias que acabam na
representação das formas de base das unidades significativas. No plano supra-
segmental, examinaremos os dois tipos de tons pontuais, isto é, tom lexical e tom
gramatical, assim como os tons modulados que aparecem nessas línguas.

3.1. Fonologia segmental

Se é verdade que podemos encontrar em algumas línguas bantu um sistema vocálico


de sete vogais, nas línguas bantu de Angola prevalece o sistema de cinco vogais
breves e orais e em algumas podem corresponder a vogais longas e nasais. Assim,
teremos os seguintes quadros:

Vogais breves e orais

P.A G.A
Anterior Centrais Posteriores
1° grau i u
2° grau e o

3° grau a

Fonte: Ntondo (2023)

Vogais breves e longas

P.A G.A
Anterior Centrais Posteriores
1° grau i ii u uu
2° grau e ee u oo

3° grau a aa

Fonte: Ntondo (2023)

27
a) Vogais breves em cada uma das zonas:

Zona H

Kimbundu

/ùkówé/ 14 o teu sogro

/ndánjì/ 9 rocha

Kikongo

/n´léké/ 1 irmão menor

/lúkà/ 15 vomitar

Zona K

Cokwe

/ndándò/ 9 preço

/ùséphà/ 14 calor

Ngangela

/lívwè/ 5 pedra

/ínkhòkwéla/ 9 calcanhar

Zona R

Umbundu

/ùlùngwì/ 1 conselheiro

/útènyà/ 14 calor

Oshikwanyama

28
/òkùyélèkà/ 15 medir

/òmàté/ 6 cuspo

b) Vogais longas

São poucas as línguas que admitem a presença de vogais longas, fonologicamente


pertinentes no seu sistema. Encontramo-las em quatro línguas bantu de Angola:
Kikongo, Cokwe, Oshikwanyama e Ngangela, onde as vogais breves se opõem às
longas.

Kikongo

/bákà/ 15 tomar

/bàákà/ 15 rasgar, destruir

/fúlà/ 15 soprar

/fùúlà/ 15 exterminar

/sólà/ 15 desbravar

/sòólà/ 15 escolher

Cokwe

/mukánda/ 3 carta, livro

/mukàánda/ 3 circuncisão

/cikolo/ 7 entrada

/cikoolo/ 7 resistente

Oshikwanyama

/òshímà/ 7 cágado

29
/òshìímà/ 7 coisa

/òkùkólà/ 15 espremer fruta

/òkùkòólà/ 15 limpar a lavra

/òkùyà/ 15 ir

/òkùúyà/ 15 vir

Ngangela

/ína/ 9 a sua mãe

/íína/ 9 pulga

/íka/ 5 qual

/lííka/ 5 só

/kucína/ 15 dançar

/kucíína/ 15 fugir

Como podemos observar nos exemplos supracitados, as vogais longas nestas línguas
têm um carácter pertinente, isto é, podem opor-se semanticamente as vogais breves.
Nestas como nas outras línguas, a presença de vogais longas é puramente fonética
quando aparecem em contextos bem previsíveis, chamadas de posição apoiada8, isto
é, antes da pré-nasal [V:NC] e depois da sequência consoante seminasal [CSV:].
Exemplos:

8
Coupet (1980) apud Ntondo (2023)

30
Kikongo

/ndùngù/ [ndù: ŋgù] 9 pimento

/nswàlù/ [nswà:lù] 9 rapidez

Umbundu

/ésíngà/ [ésí: ŋgà] 5 cabelo

/ócyásò/ [ócyá:sò] 7 hidromel

Vogais orais e vogais nasais

De todas as línguas bantu de Angola, a língua Umbundu é a única a possuir no seu


sistema fonológico as vogais nasais ao lado das orais. As vogais nasais em
Umbundutem um funcionamento fonológico, isto é, pertinente, pois, opõem-se as
vogais orais correspondentes:

P.A G.A
Anterior Centrais Posteriores
1° grau i ĩ u ȗ
2° grau e ĕ o õ

3° grau a ã
Fonte: Ntondo (2023)

Exemplos:
/úkãyi/ 1 mulher
/ókútĕhà/ 15 saltar
/ólóhõlò/ 10 forças

Exemplos de oposição entre vogais nasais em Umbundu:


a/ã /ókúsàsà/ 15 debulhar
/ókúsãsà/ 15 azedar
e/ĕ /ókúfélà/ 15 soprar

31
/ókúfĕlà/ 15 cavar
i/ĩ /ókútìlà/ 15 fugir

/ókútĩlà/ 15 ser caro

o/õ /ókútólà/ 15 rasgar

/ókútõlà/ 15 fortificar

u/ȗ /ókúfúlà/ 15 pisar

/ókúfȗlà/ 15 negociar

SISTEMA CONSONÂNTICO
Sequências de duas consoantes orais

São poucas as línguas bantu no nosso território que na sua estrutura fonológica que
são formadas por uma sequência de duas consoantes orais, a que na linguística se
chama de “africadas”. Trata-se da associação de uma consoante oclusiva e outra
fricativa: “bv”, “pf”, “dz”, “ts”. Encontramos este conjunto de consoantes em Ngangela:

vutsiki 14 noite

mivyandjo 4 convidaddos

índjivo 9 casa

Presença das sequências nasal +consoante oral (NC)

A noção de pré-nasalização exclui toda a relação de simultaneidade entre os eventos


articulatórios que definem uma pré-nasalizada: é simplesmente impossível imaginar
em termos fonéticos uma qualquer diferença entre uma consoante pré-nasalizada e
uma sequência homorgãnica consoante Nasal + consoante oral 9. Uma das
características das línguas bantu, e não só, é a presença das sequências de
consoantes nasal seguidas de consoante oral (NC): mb, mv, mf, nd, ng, mp, nt, nz, ns,
nk e nc.

9
Creissels (1989), apud Ntondo (2023)

32
Ao lado destas sequências, aparecem outras pré-nasalizadas africadas: nts, ndj, ndz,
que são fonemas.

Exemplos:

mbandu Kimbundu 9 lado

mvula Kik. e Kimb. 9 chuva

mfinda Kimb. 9 mato

ndumba Ngang. 9 leão

ngunga Kikongo 9 sino

mpelo Kikongo 9 padre

n´kento Kik., Oshikw. 1 mulher

inzu Kik., Kimb. 9 casa

nkala Kik., Ngangela 9 carangueijo

kuncuncuka Ngangela 15 cair

Quase que, todas as línguas bantu, a consoante /g/ nunca aparece isoladamente.
Nesse quadro torna-se difícil optar por uma das operaçoes fonológicas, quer
monofonemática ou bifonemática.

Se a primeira conduz simultaneamente a tomar liberdade com os dados fonéticos e e


complicar a descrição das alternâncias morfofonológicas uma tal interpretação deve
ser rejeitada, pois, apresentaria a existência de um número impressionantede séries
de fonemas consonânticos. E se optar pela segunda operação, chegaríamos ao
princípio de economia de traços fonemáticos e a um número reduzido de fonemas na
língua.

Muitas vezes e em muitos trabalhos de linguística bantu dá-se prioridade a primeira


opção. Em muitas línguas bantu as sequ~encias nasal + consoante oral surda
resultam em aspiração das consoantes surdas, com a manutenção da nasal ou
não,quer ao nível fonético (Kikongo) ou fonológico (Ngangela).

33
Kikongo

/mfúlì/ [fhúlù] 9 lugar, cama


/mpémbè/ [phémbe] 9 cor branca
Ngangela
/nthúmba/ [nthúumba] 9 coxa

A língua Umbundu não possui as consoantes /b, d e j/ isoladas, pois são sempre
antecedidas de consoantes nasais hormorgánicas, /mb, nd e ndj/; e a consoante /j/
quando antecedida de nasal realiza-se como uma africada, isto é, [ndƷ]. O que se fez
optar na escrita por /ndj/, pois, em Kimbundu a sequência N + J = [nƷ], na escrita
ortográfica /nj/10.

Exemplos:

/ócímbùngù/ 7 lobo

/óngóngà/ 9 águia

/ólóndùngè/ 10 inteligência, sabedoria

/óndjò/ 9 casa

Em Umbundu, as consoantes surdas ninca são antecedidas de consoantes nasais.


Caso aconteça, duas soluções estão à vista:

 ou são eliminadas:

Exemplo:

olo-n-teke > olo-neke;

 ou são pré-nasalizadas, mas a sonorização da consoante oral surda,


caso houve uma consoante sonora no contexto:

Exemplos:

Entender > [endender];

Compreender > [combreender].

10 Ntondo (2023)

34
A língua Oshikwanyama não aceita a presença seguida de dupla sequência NC numa
palavra. No caso, a segunda é simplificada. Isto se verifica também, em Shona no
Zimbambue.

Exemplos em Oshikwanyama:

/òngòbé/ *-gombe 9 boi

/òndódó/ òkùlóndà 15 degrau

/òngàdú/ *-gandu 9 jacaré

Exemplo em Shona:

/Mnangagwa/ provém de Mnangangwa

/Zimbabwe/ provém de Zimbambwe

Outra nota importante em relação a língua umbundu, é facto de que, verificar-se a


presença de um fonema nasal representado foneticamente por [ŋ] que é geralmente
grafado /ñg/.

Exemplos:

/óñgáñgá/ 9 bébe

/óciñgálì/ 7 picadela

/óñgolosi/ 7 tardinha

/óñgómà/ 7 batuque

Funcionamento do sistema consonântico das línguas bantu

O funcionamento do ssitema consonântico das línguas bantu pode-se compreender,


tendo em atenção duas grandes categorias de consoantes:

1. A primeira categoria é constituída pelas consoantes obstruentes, cuja


articulação caracteriza-se por uma oclusão ou constrição de natureza a
pertubar fortemente o escoamento do fluxo de ar. Esta categoria, reune as
oclusivais orais e as fricativas.

35
2. A segunda categoria é constituída pelas consoantes não obstruentes, que do
ponto de vista acústico, podem também ser qualificadas de ressoantes. Na
maioria das línguas, as consoantes não obstruentes ignoram a oposição da voz
e são todas sonoras. Assim, aplicamos a nossateoria as consoantes das
línguas angolanas:

Ponto de articulação
Labiais Dentais Palatais Velares

Modo de articulação
Não asp. p b t d k g

Oclusivas c
OBSTRUENTES
Aspirais ph bh th dh kh gh

Fricativas f v s z ∫ j

Africadas pf bv ts dz dj
Nasal m n ny
NÃO OBSTRUENTES lateral ñg
conínuo w l y
Não Asp. mp mb nt nd nk ng
PRÉ-NASALIZADAS ndj
Aspirada mph ndz nkh
Fonte: Ntondo (2023)

Cada língua bantu falada em em Angola poderá encontrar neste quadro fonemas
consonânticos que são próprios a sua característica e assim estabelecer o seu
alfabeto e regras ortográficas.

O fonema /c/ representa todas as grafias, referindo-se ao som [t∫], a saber: tx, tsh, tch,
tj e ty.

A vogal “u” diante de outras vogais transforma-se em semi-vogal “w” e e o “i” que
tranforma-se em “y”:

36
Vogal “u”
u+a u+e u+i u+o u+u
wa We Wi wo wu
Vogal “i”
i+a i+e I+i i+o i+u
wa we wi wo wu
Fonte: Elaboração própria a partir de Sassuco e Pena (s/d)

Exemplos:

Kimbundu ki+ala = kyala unha

Kikongo mi+enza = myenze raiz

Umbundu ovi+ongo = ovyongo colunas

Umbundu okuku+ata = okukwata

Oshiwambo u+alonga = walonga ensinar

ESTRUTURA SILÁBICA

Frequentemente, quando se refere do estudo da sílaba, no percurso da escolaridade,


o trabalho sobre a sílaba limita-se quase sempre à execução de tarefas como:

 A contagem do número de sílabas na palavra;


 Classificação das sílabas das palavras em abertas (as que terminam em vogal)
e fechadas (as que terminam em consoantes);
 A classificação das sílabas da palavra em tónicas e átonas, aspecto que
remete para o facto prosódico “acento” e não para a estrutura da sílaba.

Portanto, a unidade linguística sílaba é mais complexa do que aquilo que a tradição
gramatical deixa transparecer: (i) apresenta uma estrutura interna descritível em
termos de padrões universais regulares; (ii) os seus constituintes estabelecem
relações hierárquicas entre si e com os segmentos que lhe estão associados e (iii)
são domínio de activação de processos fonológicos11.

11
Mateus, Falé e Freitas (2005)

37
Constituintes da sílaba

Ao referenciar a sílaba como unidade linguística, surgem neste quadro teórico, os


primeiros modelos linguísticos que fornecem os instrumentos necessários para a
descrição da estrutura interna da sílaba e para o estabelecimento da relação entre
posições silábicas dos segmentos e processos fonológicos que os afectam.

Dos modelos disponíveis na literatura sobre o assunto, apresentamos aqui o que tem
sido adoptado na descrição do português europeu: “Ataque-Rima”. Neste modelo, a
descrição silábica não domina directamente as unidades segmentais: estas unidades
segmentais agrupam-se em constituintes de planos intermédios, que são dominados
pelo nó máximo, o nó sílaba.

Os constituintes silábicos

Sílaba

Ataque Rima

Núcleo Coda

Assim, no modelo de “Ataque-Rima”, a sílaba é a unidade prosódica hierarquicamente


organizada em constituintes silábicos:

 No nível (ou fiada) da sílaba, o nó sílaba (ó) domina os constituintes Ataque


(A) e Rima (R);
 No nível (ou fiada) da Rima, o Ataque e a Rima são nós irmãos, sendo que a
Rima é constituída por um Núcleo (Nu) e por uma Coda (Cd).

Por exemplo, as seguintes palavras são constituídas por sílabas:

(1) (a) e-ka (mão)


(b) o-si (terra)
(c) mar (nome). Este caso é particular, exemplo em Português já que
em línguas bantu, maior parte delas não apresentam sílabas fechadas.12

As vogais das palavras de (1) são o núcleo da rima (R) das respectivas sílabas. A
rima pode ser apenas constituída pelo núcleo (N), como em (1a) na primeira sílaba,
ou ser constituída pelo núcleo e pela consoante que lhe segue, como a segunda sílaba
da (1b), a coda (Cod), como em (1c). a consoante que antecede a rima em (1b) e (1c)

12 Ntondo (2024)

38
constitui o ataque (A). Estes constituintes estão organizados hierarquicamente no
interior da sílaba, sendo a rima o único constituinte obrigatoriamente preenchido.
(2) Representação das sílabas da palavra “palo” (aqui)
Ó Ó

A R A R

N N

X X X X

p a l o

Ataque

O constituinte ataque pode dominar uma consoante, duas consoantes ou pode ainda
não estar segmentamente preenchida. Estas três possibilidades estruturais
determinam a ocorrência de três tipos de ataques:
 ataque ramificado, no caso de dominar duas posições de esqueleto
correspondentes a duas consoantes;
 ataque não ramificado, no caso de dominar uma posição de esqueleto
associada a uma consoante (simples) ou a nenhuma (vazio).
(3) Tipologia de ataques em português
simples
Não ramificado
Ataque vazio
Ramificado

Fonte: Mateus, Falé e Freitas (2005)

39
Ataque não ramificado simples

Nas línguas bantu, também encontramos estes tipos de ataques:

(5) ataque não ramificado simples da segunda sílaba da palavra “e-pa-ta” (família)
Ó

A R

Nu

X X

p a
Fonte: Elaboração própria a partir de Mateus, Falé e Freitas (2005)

Ataques não ramificados vazios

(7) ataque não ramificado vazio na primeira sílaba da palavra “e-pa-ta”

A R

Nu

X X

ø e
Fonte: Elaboração própria a partir de Mateus, Falé e Freitas (2005)

40
Ataques ramificados

As línguas bantu exibe, ainda, ataques ramificados (ou ataques complexos), que são
constituídos por duas consoantes.

(9) Ataque ramificado na sílaba inicial da palavra “mbolo” (pão)

A R

Nu

X X X

m b o lo

Fonte: Elaboração própria a partir de Mateus, Falé e Freitas (2005)

Rima

A Rima é o único constituinte não terminal, que domina os constituintes terminais


Núcleo e coda. Assim, a Rima pode apresentar um formato não ramificado (Rima não
ramificada), com presença apenas do Núcleo, ou pode ramificar em Núcleo e Coda
(Rima ramificada). Todavia, nas línguas bantu não encontramos a coda, tal como
jáfoi referenciado anteriormente, o que nos leva a inferir que as rimas ramificadas
quase que são inexistente, o contrário por exemplo do Português para nós em Angola.

(10) Rimas
Exemplo de rima não ramificada com a última sílaba da palavra “e-pa-ta” (nariz):

41
a) Rima não ramificada
Ó

A R

Nu

X X

t a
Fonte: Elaboração própria a partir de Mateus, Falé e Freitas (2005)

NOTA: Atentemos para um exemplo da rima ramificada em Português, já que, nas


línguas bantu é muito raro: a palavra “pás”.

b) Rima não ramificada


Ó

A R

Nu Cd

X X X

p á s
Fonte: Elaboração própria a partir de Mateus, Falé e Freitas (2005)

42
Núcleo

A presença do Núcleo implica a existência da Rima, que, por sua vez, projecta o nó
sílaba. Por outras palavras, a presença de um Núcleo é responsável pela presença
de uma sílaba. Um núcleo pode dominar uma vogal ou uma sequência de vogal e
semivogal. No primeiro caso, trata-se de um Núcleo não ramificado e no segundo
caso corresponde a um Núcleo ramificado.

Exemplos da primeira sílaba da palavra “za-la” (fome em cokwe) para o núcleo não
ramificado, e para o núcleo ramificado a primeira sílaba “kya-la” (unha em Kimbundu).

a) Núcleo não ramificada b) Núcleo ramificada


Ó Ó

A R A R

Nu Nu

X X X X X

z a k y a
Fonte: Elaboração própria a partir de Mateus, Falé e Freitas (2005)

3.2. Fonologia supra-segmental

O tom

O sistema prosódico das línguas bantu de Angola é incipiente. Não há, ou há poucos
estudos sobre o assunto em questão. Na maioria dos trabalhos publicados ou
defendidos, poucos são aqueles cujo sistema prosódico é reconhecidp. Todavia,
tenta-se apresentar um quadro teórico sobre esta matéria.

com efeito, existem tons simples ou pontuais e tons complexos. Esses dois tons
aparecem nas línguas bantu, O tom simples abarca o slto (A) Ee o baixo (B), notado

43
(´) e (´) respectivamente, exluindo o segundo tipo de tom, por causa da incipiência dos
dados e a sua complexidade.

Exemplos:

Kikongo

/n´tú/ 3 cabeça

/zólà/ 15 amar

Oshikwanyama

/òmwédì/ 3 mês

/òmàdí/ 9 perna

Ngangela

/ngéndzì/ 9 viajante

/víkùnì/ 8 lenha

No estudo dos tons, nas línguas bantu, ainda é de extrema importância destacar ou
sublinhar o tom lexical, que é utilizado para distinguir o significado lexical, isto é, o tom
lexical desempenha a função de distinção ao nível lexical. Quando duas palavras
segmentalmente são identicas, com diferença semântica, podem ser incluídas no
dicionário, e serão distinguidas ao nível supra-segmental.

Exemplos:

Kimbundu

/njílà/ 9 pássaro

/njìlà/ 9 caminho

/hámà/ 9 centena (cem)

/hàmà/ 9 cama

Umbundu

/óndjílà/ 9 pássaro

/óndjìlà/ 9 caminho

44
Kikongo

/mfúlù/ 9 lugar

/mfùlù/ 9 cama

45
UNIDADE IV – MORFOSSINTAXE DAS LÍNGUAS BANTU

História da classificação nominal

O sistema de classes nominais constitui uma forte característica em África. Heine


(1982) constata que 2/3 de aproximadamente 600 línguas africanas que ele observou
têm classes nominais.

Em todos os ramos do Níger-Congo, excepto o Mande, o simples nome pode ser


analisado como tendo um radical e um afixo, normalmente um prefixo. Isto é,
especialmente verdade para o bantu em que os nomes são caracterizados em
numerosas classes nominais na base de prefixos de classes nominais que é o carimbo
da morfologia nominal bantu.

A classificação nominal sempre ocupou um lugar central em linguística bantu. O


primeiro estudo de classes nominais foi proposto por Antonie Turiel (1659), que na
sua gramática da língua kikongo (H16), editada em Roma pelo prefeito da missão
Hiacinthe Bruscitto di Vetralla, classificou nomes na base dos seus acordos.

Segundo Van Bulck (1949), aquando do seu regresso do Congo em 1655, o padre
Antonie Turiel levou uma gramática kikongo e um vocabulário em quatro línguas,
nomeadamente, kikongo, italiano, latim e espanhol.

Outros estudos de refêrencia foram feitos por Bleek. No primeiro volume da sua obra
A Comparative Grammar of South African Languages, publicada em 1862.

Bleek propôs na base de um estudo comparativo de fonologia das línguas África


Austral, que essas línguas partilhavam um antepassado comum. O segundo volume
da obra apareceu em 1869, centrado na morfologia, particularmente na estrutura do
nome, pronome e adjectivo.

A herança mais marcante de Bleek foi a reconstrução de 18 classes nominais do


antigo bantu e os seus prefixos que recenseou, isto é, 1-18. A reconstrução e o
recenseamento de classes nominais do proto-bantu facilitava os estudos
comparativos.

A primeira revisão foi feita por Bleek, que inverteu mais tarde a ordem de 13 e 14 *ka,
tornando-se 13 e *bu-14.

46
Uma outra revisão, foi feita por Jacottet (1896), que resultou na organização que se
tornou desde entâo estandarte: *ka-12, *tu-13, *bu-14.

E as outras mudanças significativas foram introduzidas por Meinhof nas suas


reconstruções de ur-bantu.

Prefixos nominais reconstruídos:

Classes Bleek Meinhof Meeussen Guthrie Welmers


(1869) (1932) (1967) (1971) (1973)
1 mu- mu- mu- mo- mo-, 1.ª ø-
2 ba- va- ba- ba- va-, 2.ª va-
3 mu- mu- mu- mo- mo-
4 mi- mi- mi- me- me-
5 di-, li- Li i yi le-
6 ma- ma- ma- ma- ma-
7 ki- ki- ki- Ke ke-
8 pi- vi- bi Bi vi-
9 n- ni- n- Ny ne-
10 thin- li-, ni- n- ny- ne-
11 lu- lu- du- do- lo-
12 ka- ka- ka- ka- ka-
13 tu- tu- tu- to- to-
14 bu- vu- bu- bo- vo-
15 ku- ku- ku- ko- vo-
16 pa- pa- pa- pa- pa-
17 ku- ku- ku- ko- ko-
18 mu- mu- mu- mo- mo-
19 pi- pi- pi- pi- pi-
20 - yu- yu- - yo-
21 - - - - yi-
22 - - - - ya-
23 - - i- - ye-

47
As classes e os seus prefixos – Aumento

Em muitas línguas bantu, o prefixo de classe nominal pode ser precedido por uma
vogal que é variavelmente referida como aumento ou pré-prefixo ou vogal inicial.

Na visão de De Blois (1970) mostra que, o aumento varia consideralvemente segundo


a forma e a função.

Em todas as línguas da zona R, o prefixo nominal é sempre precedido de um aumento


que é a vogal o-, except nas classes 5, 10, 16, 17 e 18.

Na língua Oshikwanyama, os prefixos das classes 5 e 10 (*e- e *ee-) respectivamente.


Nas outras línguas da zona, como é o caso de Umbundu, olunyaneka, olukhumbi e
otjiherero, a classe 5 é representada pela vogal *e-, sem que haja aumento.

O prefixo nominal ou substantival tem como característica associar-se ao radical ou


lexeme nominal ou substantival para formar um nome ou substantivo que será
sintacticamente inserido na classe a que pretence o prefixo.

Classes e prefixos nominais/substantivos das línguas bantu de Angola

As línguas bantu de Angola apresentam 18 classes e correspondentes prefixos. A


língua Kikongo não tem a classe 12, substituída pela classe 19, que é um prefixo
aditivo, indicando o diminuitivo.

Segundo a classificação de Guthrie (1948), quatro zonas linguísticas cobrem o


território angolano, a saber: zona H, L, K, R. Contudo, trabalhamos apenas com as
línguas de três zonas (H, K e R).

ZONA H

Kimbundu

Classes Prefixo Exemplo Tradução


1 mu- mutundi viúva
2 a- atudi viúvas
3 mu- muxi árvore
4 mi- Mixi árvores
5 di- dilonga prato

48
6 ma- malonga pratos
7 ki- kinama perna
8 i- inama pernas
9 i- Ixi País
Ø Hoji leão
10 Ji Jixi País
Ji jihoji leões
11 lu- lukwako braço
12 ka- kafunga pastor
13 tu- tufunga pastores
14 u- Wihwa cogumelos
15 ku- Kubhanza Pensar
kudisanza saúde
16 bhu- bhukitanda Na praça
17 ku- kumalanji Para
Malanje
18 mu- mwimbya Na panela

Fonte: Diarra (1987) apud Ntondo (2023)

ZONA R

Umbundu

Classes Prefixo Exemplo Tradução


1 u- ukongo caçador
Omu- omunu homem
Omo- omolã criança
2 a- akongo caçadores
Oma- omanu homens
oma- Omalã crianças
3 u- Uti árvore
4 ovi- Oviti árvores
5 e- ekamba amigo

49
i- Isso olho
6 a- akamba amigos
ova- ovaso Olhos
7 oci- ocivendji ancião
8 ovi- ovivendji anciões
9 Ø- ondonge aluno
10 Olo- olondonge alunos
11 olu- olundjandjo raiz
12 oka- okalenge Gatinho
13 otu- otulenge Gatinhos
14 ou- owelema escuridão
15 oku- okulu perna
okutala olhar
16 po- polwi no rio
17 ku- kepya na lavra
18 vo- vondjo em casa
Fonte: Fernande e Ntondo (2002)

Valor semântico das classes


Emparelhamento regular por comutação

Prefixos das classes 1 e 2


Os prefixos nominais da classe 1 apresentam duas variantes: “omu-” e “u-” (omoperante a
vogal “o”. Os prefixos da classe 2 apresentam também duas variantes “oma-” e
“a-”. Os prefixos da classe 1 designam os nominais do singular e os da classe 2 designam os
nominais do plural e todos eles são ligados ao conceito dos “seres humanos” (cf. Epuka 2011,
p. 14).

Singular Plural
Classe 1 omu- ⁄ u- Classe 2 oma- ⁄ a
L.U L.P L.U L.P
Omunu Pessoa Omanu Pessoas
Omolã Criança Omalã Crianças
Ukãyi Mulher Akãyi Mulheres
Ufeko Moça Afeko Moças
Uveli Primogénito Aveli Primogénitos
Ulongisi Professor Alongisi Professores

50
Ungombo Pastor Angombo Pastores

Classe 1a e 2a.
Estas classes designam o grau parentesco segundo a noção de desclassificação todos os
nominais que marcam o grau de parentesco, pertencem as classes 1a e 2a. Muito destes
nominais têm prefixo zero na classe 1a no singular (cf. Ntondo, 2006, p. 32).

Singular Plural
Classe 1a) ø- Classe 2a) va-
L.U L.P L.U L.P
ømandji Irmão Vamandji Irmãos
øpalume Primo Vapalume Primos
øndatembo Sogro Vandatembo Sogros
ønekulu Neto Vanekulu Netos
øPahãyi Tia Vapahãyi Tias
øNdombwa Noiva Vandombwa Noivas
ØSandombwa Noivo Vasandombwa Noivo

Classes 3 e 4
Compreende os nomes de objectos na sua generalidade, partes do corpo humano, nomes de
árvores, (cf. Nascimento, 1894, p. 13).

Singular Plural
Classe 3 ;u- Classe 4; ovi
L.U L.P L.U L.P
Utwe Cabeça Ovitwe Cabeças
Uti Árvore Oviti Árvores
Usongo Flecha Ovisongo Flechas
Ukanda Carta Ovikanda Cartas
Ula“ Cama Ovola Camas

Classes 5 e 6
Prefixos que reúnem conceitos que agrupam algumas partes do corpo humano, certos
objectos, nomes de parentesco; frutas, pequenos animais selvagens; répteis, líquidos e
tubérculos (cf. Epuka, 2011, p. 16).

51
Singular Plural
Classe 5; e – ⁄ i - Classe 6; a – ⁄ ova –
L.U L.P L.U L.P
Imo Barriga Ovamo Barrigas
Ewe Pedra Ovawe Pedras
Ehondyo Banana Ahondyo Bananas
Etosi Gota Atosi Gotas

Classe 7 e 8
Nestas classes reúnem-se os conceitos de alguns nomes dos seres humanos, partes do
corpo humano, insectos, animais domésticos, selvagens e aquáticos; alguns tubérculos, e
objectos diversos (cf. Epuka, 2011, p. 17).

Singular Plural
Classe 7: Oci – Classe 8: Ovi –
L.U L.P L.U L.P
Ocingumba Ladrão Ovingumba Ladrões
Ocimbyambyulu Borboleta Ovimbyambyulu Borboletas
Ocimbungu Lobo Ovimbungu Lobos
Ocitupi Bode Ovitupi Bodes

Classes 9 e 10
Estas classes reúnem conceitos de animais domésticos e selvagens, grandes e
pequenos, insectos, répteis e algumas aves, partes do corpo humano e alguns nomes dos seres
humanos, bem como alguns objectos e líquidos. (cf. Rev. H. Etaungo Daniel, 2002 apud
Epuka, 2011, p. 17).

Singular Plural
Classe 9; Oø- Classe 10; olo-
L.U L.P L.U L.P
Ongwe Onça Olongwe Onças
Ondjila Pássaro Olondjila Pássaros
Ongolo Joelho Olongolo Joelhos
Omango Cadeira Olomango Cadeira

Classe 11 e 10
Estas classes indicam conceitos de algumas partes do corpo humano, alguns objectos,
insectos, frutas e líquidos (cf. Epuka, 2011, p. 18).

52
Singular Plural
Classe 11: olu – Classe 10: olo – e 6: a -
L.U L.P L.U L.P
Olumati Costela Olomati Costelas
Oluhengo Ameixa Olohengo Ameixas
Oluhamwe Mosquito Olohamwe Mosquitos

Classe 12 e 13
Estas classes reúnem os diminuitivos que encontramos em todos conceitos dos
nominais, “também, indica nomes próprios ou comuns […]30” (cf. Epuka, 2011, p. 18).

Singular Plural
Classe 12: oka- Classe 13: otu -
L.U L.P L.U L.P
Okamolã Criancinha Otumalã Criancinhas
Okalenge Gatinho Otulenge Gatinhos
Okawe Pedrinha Otuwe Pedrinhas
Okambya Panelinha Otumbya Panelinhas

Classe 14 e 6
Prefixos que indicam um conceito de abstracção que formam o seu plural, partindo do
singular da classe 14 com a classe 6 no plural (cf. Epuka, 2011, p. 18).

Singular Plural
Classe 14; u – Classe -6; ova – ⁄a –
L.U L.P L.U L.P
Ulima Ano Alima Anos
Uveyi Doença Ovoveyi Doenças
Uvala Casamento Ovovala Casamentos

Classe 15 e 4 ou 6
Estas classes fazem parte dos verbo-nominais e reúnem os conceitos que indicam as
partes do corpo, e verbos que marcam o seu infinitivo, nomes deverbativos (cf. Fernandes e
Ntondo, 2002, p. 78).

53
Singular Plural
Classe 15; oku- Classes 4 ovi-, 6 ova-/ 8 ovi-
L.U L.P L.U L.P
Okulila Chorar ------------------ ---------------
Okwenda Andar ------------------- ---------------
Okulya Comer ------------------- ---------------
Okulya Comida Ovilya Comidas
Okutwi Orelha Ovatwi Orelhas
Okwokwo Braço Ovoko Braços
Okulu Pé Ovolu Pés

Classe 16, 17 e 18
Os prefixos da classe 16 “ ko- / ki- “, da classe 17 “ko-/po-” e os da classe 18 “vo-”,
são prefixos dos locativos onde:

 A classe 16 - indica superfície; ex: Elonga likasi komesa “o prato está na


mesa” ou Elonga likasi kilu lyomesa “o prato está em cima da mesa”.
 A classe 17 - indica a direcção; ex: Ndenda kondjo “Vou a casa”, ou Ndikasi
ponele
yondjo “estou ao lado de casa”.
 A classe 18 - indica interioridade ex: Ndañgilã vondjo “entrei em casa”.

A comutação faz-se seguindo a ordem dos números, onde os numeros impares


representam o singular os pares o plural. Esta comutação começa da classe 1 até a
classe 10.

Emparelhamento irregular por comutação

Este emparelhamento, começa a partir da classe 11, todavia, a comutação torna-se


desordenada. O emparelhamento especifica-se em função das caracteristicas de cada
língua.

Exemplos:

Kikongo: Lu-kaya (cl. 11) ma-kaya (cl. 6) folha(s)

Ngangela: Vu-lili (14) ma-lili (6) cama(s)

54
Ngangela: i-mphwevo (9) va-mphwevo (2) mulher(s)

Cokwe: w-ato (14) ma-ato (6) canoa(s)

Emparelhamento por adição

O prefixo do plural junta-se ao substantivo singular e torna-se pré-prefixo.


Exempo:
Kimbundu: lu-mwenu (11) espelho ma-lu-mwenu (6+11) espelhos
Ngangela: li-unda (5) floresta ma-ly-unda (6+5) florestas
Kimbundu: lu-mwenu (11) espelho ma-lu-mwenu (6+11) espelhos
Umbundu: olu-singa (11) veia a-lu-singa (6+11) veias

Substantivos desclassificados

São substantivos que semanticamente designam seres humanos, mas que


morfologicamente levam os prefixos de outras classes que os das classes 1 e 2.

 Kimbundu

Dinyanga (5) caçador

kafunga (12) pastor, guia

 Ngangela

Cimbanda (7) curandeiro

imphwevo (9) mulher, esposa

 Umbundu

Ocindele (7) homem branco

Ondombwa (9) noiva

55
BIBLIOGRAFIA

1. FERNANDES, J. e NTONDO, Z. (2002), Angola: Povos e Línguas, Nzila,


Luanda.
2. GOMES, A. J (2016), O ovimundu pré-coloniais contribuição aos estudos
sobre os plnálticos de Angola, 1ª Edição.
3. MALUNGO, M. (2005) Os ovimundu de Angola: tradição – economia e
cultura organizativa.
4. NTONDO, Z. (2023) Manual de Linguística Bantu, Mayamba Editora.
2015), Fonologia e Morfologia do Oshikwanyama, Mayamba, Luanda
(2006), Morfologia e Sintaxe do Ngangela, Nzila, Luanda
5. VALENTE, J. F. (1964) Gramática Umbundu a língua do centro de Angola,
Lisboa.

56

Você também pode gostar