1.
INTRODUÇÃO
A atuação policial no Brasil tem sido alvo de constantes
questionamentos, especialmente quando se trata das abordagens baseadas na
chamada “fundada suspeita”. Esse critério, previsto no ordenamento jurídico,
tem sido utilizado como justificativa para intervenções que, em muitos casos,
revelam padrões de seletividade racial, atingindo principalmente pessoas
negras e periféricas. Diante da persistência do racismo estrutural na sociedade
brasileira, torna-se urgente refletir sobre os limites e os impactos dessa prática.
A jurisprudência dos tribunais superiores, como o Supremo Tribunal
Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça (STJ), exerce papel central na
definição dos contornos legais da fundada suspeita. As decisões dessas cortes
influenciam diretamente a atuação policial e podem tanto reforçar quanto
corrigir práticas discriminatórias. A análise dessas decisões permite
compreender se o sistema de justiça tem contribuído para a efetivação do
princípio da igualdade ou se tem falhado em coibir abordagens seletivas.
Até que ponto as decisões do STF e do STJ sobre a fundada suspeita
nas abordagens policiais têm contribuído para garantir o princípio da igualdade,
ou, ao contrário, têm legitimado práticas discriminatórias em um contexto
marcado pelo racismo estrutural?
É possível que, ao validar abordagens baseadas em estereótipos, o
Judiciário acabe legitimando práticas que perpetuam desigualdades raciais. Por
outro lado, há decisões que estabelecem limites claros à atuação policial,
exigindo critérios objetivos e protegendo os direitos fundamentais dos
cidadãos. A pesquisa parte da observação dessas tensões para investigar
como o racismo estrutural se manifesta nas abordagens policiais e como o
sistema jurídico responde a essas práticas.
Este trabalho busca compreender o impacto das decisões judiciais na
efetivação do princípio da igualdade, indo além da simples descrição
jurisprudencial para avaliar seus reflexos na realidade social. Para isso, serão
examinados os fundamentos constitucionais que garantem a igualdade e a
dignidade da pessoa humana, analisada a evolução da jurisprudência sobre a
fundada suspeita, investigada a influência do racismo estrutural na seletividade
penal, verificada a eficácia das decisões judiciais no combate à discriminação
racial e avaliadas propostas doutrinárias e políticas públicas que possam
contribuir para uma atuação policial mais equitativa.
A relevância deste trabalho está na sua contribuição para o debate
jurídico e social sobre a atuação policial no Brasil, especialmente no que diz
respeito à proteção dos direitos fundamentais e ao enfrentamento do racismo
estrutural. Ao investigar como os tribunais superiores têm interpretado e
aplicado o critério da fundada suspeita, a pesquisa busca revelar se há
coerência entre os princípios constitucionais e a prática judicial. Além disso, o
estudo pretende evidenciar como decisões judiciais podem influenciar
diretamente a conduta policial, seja reforçando padrões discriminatórios, seja
promovendo uma atuação mais justa e igualitária. Trata-se de uma análise que
ultrapassa o campo jurídico e alcança dimensões sociais e políticas,
contribuindo para a construção de uma segurança pública mais alinhada aos
valores democráticos e ao respeito à diversidade étnico-racial.
A metodologia adotada será bibliográfica e documental, com análise de
jurisprudência, doutrina e legislação pertinente ao tema.
O trabalho será estruturado em capítulos que abordam o contexto
teórico, a análise jurisprudencial, os impactos sociais das abordagens policiais
e as propostas para uma atuação mais justa e constitucionalmente adequada.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 IGUALDADE E DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA NO ORDENAMENTO
JURÍDICO BRASILEIRO
O princípio da igualdade e a dignidade da pessoa humana constituem o
núcleo axiológico da Constituição de 1988. Mais do que normas programáticas,
são comandos dotados de eficácia jurídica, que orientam a interpretação das
demais disposições constitucionais e infraconstitucionais. A igualdade, prevista
no art. 5º, caput, garante que todos são iguais perante a lei, enquanto a
dignidade, no art. 1º, III, confere ao indivíduo um status de respeito e proteção
contra qualquer forma de degradação. Esses princípios refletem a opção
constitucional por um modelo de Estado que valoriza a pessoa humana como
centro do sistema jurídico.
A dignidade da pessoa humana, por sua natureza, é um conceito aberto, mas
não indeterminado. Ela implica reconhecer que cada indivíduo possui um valor
intrínseco, que não pode ser relativizado por interesses econômicos ou
políticos. Essa concepção impõe ao Estado obrigações negativas, como a
proibição de tratamentos desumanos, e positivas, como a garantia de
condições mínimas para uma vida digna. Nesse sentido, a dignidade atua
como limite e como vetor de políticas públicas, exigindo que o Estado assegure
direitos sociais básicos, como saúde, educação e moradia.
A igualdade, por sua vez, não pode ser compreendida apenas sob a ótica
formal. A simples previsão de que todos são iguais perante a lei não elimina
desigualdades concretas. Por isso, a Constituição admite mecanismos que
promovem a igualdade material, permitindo diferenciações legítimas para
corrigir desigualdades históricas. Essa interpretação foi consolidada pelo
Supremo Tribunal Federal em julgamentos como o da ADPF 186, que
reconheceu a constitucionalidade das cotas raciais em universidades públicas.
O Tribunal entendeu que tratar desigualmente os desiguais é condição para
alcançar justiça social, reafirmando que igualdade não significa uniformidade.
Esses princípios também possuem uma dimensão hermenêutica relevante.
Eles orientam a interpretação das normas infraconstitucionais e funcionam
como cláusulas de controle da atuação estatal. Decisões como a do RE
466343/SP, que reconheceu a união estável homoafetiva, demonstram como a
dignidade e a igualdade podem servir para ampliar direitos e combater
discriminações históricas. Nesse caso, o STF não apenas aplicou a letra da lei,
mas interpretou-a à luz dos valores constitucionais, garantindo proteção a
grupos vulneráveis.
Contudo, a aplicação desses princípios não está isenta de críticas. Parte da
doutrina alerta para o risco de banalização da dignidade, utilizada como
argumento genérico em decisões judiciais sem fundamentação concreta. Esse
uso indiscriminado pode fragilizar sua força normativa, transformando-a em um
“coringa” argumentativo. Para evitar isso, é necessário estabelecer critérios
objetivos, como a proteção contra tratamentos desumanos e a garantia do
mínimo existencial. Assim, a dignidade deve ser aplicada com rigor
metodológico, evitando subjetivismos.
Em síntese, igualdade e dignidade não são apenas valores abstratos, mas
instrumentos concretos para a construção de uma sociedade justa. Sua
efetividade depende da atuação coordenada do Estado, da interpretação
responsável pelos tribunais e da conscientização social. Sem esses princípios,
a Constituição perderia sua essência humanista, comprometendo o projeto
democrático que ela pretende realizar.
2.1.1 IGUALDADE FORMAL E MATERIAL: DISTINÇÕES E IMPLICAÇÕES
PRÁTICAS
princípio da igualdade, em sua concepção clássica liberal, traduz-se na
chamada igualdade formal. Esta dimensão, consagrada no caput do artigo 5º
da Constituição ("todos são iguais perante a lei"), estabelece que a lei deve
ser genérica e abstrata, vedando diferenciações arbitrárias baseadas em
critérios como raça, credo ou origem. Sob essa ótica, a atuação policial
deveria ser neutra, aplicando a lei penal indistintamente a todos os cidadãos
(Brasil, 1988).
Entretanto, uma análise mais detida revela que a igualdade puramente formal
é insuficiente e, por vezes, injusta, quando aplicada a uma sociedade marcada
por profundas assimetrias históricas como a brasileira. É nesse ponto que a
doutrina jurídica avança para o conceito de igualdade material (ou
substancial). Entende-se que tratar de maneira idêntica sujeitos que se
encontram em posições sociais, econômicas e raciais díspares acaba por
perpetuar, e até agravar, as desigualdades preexistentes.