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Cartas para o Silêncio

O livro 'Cartas para o Silêncio' é uma coleção de cartas escritas por uma mãe, Clara Mendes, para seu filho Gabriel, que faleceu. Através de suas palavras, ela expressa a dor da perda, a saudade e os rituais diários que mantém viva a memória do filho. Cada carta reflete momentos de solidão, lembranças e a luta contínua para lidar com a ausência dele.

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Cartas para o Silêncio

O livro 'Cartas para o Silêncio' é uma coleção de cartas escritas por uma mãe, Clara Mendes, para seu filho Gabriel, que faleceu. Através de suas palavras, ela expressa a dor da perda, a saudade e os rituais diários que mantém viva a memória do filho. Cada carta reflete momentos de solidão, lembranças e a luta contínua para lidar com a ausência dele.

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Cartas para o Silêncio

De uma mãe para o filho que o tempo não trouxe de volta

por Clara Mendes


Carta 1 — A primeira ausência

Gabriel,​
Hoje a casa amanheceu muda.​
Nem os pássaros tiveram coragem de cantar.​
Passei a manhã inteira tentando fingir que era só mais um dia,​
mas o silêncio tem o teu nome.​
Ele me persegue pelos cômodos,​
senta na tua cadeira,​
dorme na tua cama.

Lavei o lençol que você usava e chorei por ter feito isso.​
Parecia que, ao tirar teu cheiro, eu te perdia outra vez.​
É estranho, filho…​
A dor é como uma visita que nunca avisa quando vai embora.​
Ela só fica.​
E eu também fiquei — parada, dentro do tempo,​
esperando o impossível.
Carta 2 — O teu quarto ainda respira

Hoje entrei no teu quarto.​


As tuas coisas continuam no mesmo lugar.​
A blusa azul que você mais gostava,​
as fotos da escola,​
a guitarra encostada na parede, com uma corda quebrada.

Por um instante, pensei em arrumar tudo.​


Mas o que seria da minha rotina sem a esperança tola​
de que você vai entrar por aquela porta e reclamar da bagunça?​
Então deixei tudo como estava.​
Porque talvez seja assim que eu ainda te mantenha vivo —​
no desarranjo das lembranças,​
na poeira que o tempo não teve coragem de limpar.
Carta 3 — As manhãs sem tua voz

Filho,​
as manhãs perderam o som.​
O café ficou amargo, mesmo com açúcar.​
Não tem graça preparar o pão e não ouvir você dizendo​
“mãe, tá quente demais”.

Sinto falta do banal, sabe?​


Do jeito como você esquecia as chaves,​
das tuas risadas quando eu me irritava com isso.​
O mundo segue, dizem.​
Mas ninguém me explicou como é que a gente segue​
sem metade do coração.
Carta 4 — O sonho

Essa noite eu sonhei com você.​


Você me chamava do outro lado da rua,​
como fazia quando era pequeno.​
Eu corri.​
Mas quando cheguei perto, você sorriu —​
e desapareceu com o vento.

Acordei com o travesseiro molhado.​


Não sei se foi chuva ou lágrima.​
Desde então, durmo pouco.​
Talvez porque o único lugar onde ainda te encontro​
é quando fecho os olhos.
Carta 5 — As flores que não duram

Gabriel,​
Hoje levei flores ao teu lugar.​
O vento estava leve, quase gentil.​
Sentei ali e contei as novidades —​
como se você ainda estivesse me ouvindo,​
com aquele sorriso calmo que dizia mais do que qualquer palavra.

As flores murcham rápido, filho.​


E toda vez que volto, tenho que trocá-las.​
Mas eu continuo levando,​
porque é o único gesto que me resta pra te mostrar​
que ainda penso em você todos os dias.​
Talvez seja isso o amor depois da partida:​
um ritual silencioso que tenta enganar o tempo.
Carta 6 — A fotografia

Encontrei uma foto tua, daquelas antigas,​


em que você está rindo de um jeito que quase dá pra ouvir.​
Guardei num porta-retrato novo,​
como se isso pudesse conservar o instante.

Olhei pra foto por horas.​


E pensei — como é cruel o tempo.​
Ele guarda imagens, mas leva o calor que havia nelas.​
Fico me perguntando se, onde quer que você esteja,​
ainda lembra do som da minha voz.​
Eu lembro da tua todos os dias.​
Ela mora aqui, no meio do peito,​
misturada com a falta.
Carta 7 — O aniversário

Hoje seria teu aniversário.​


Fiz o bolo, mesmo sem ninguém pra apagar as velas.​
A vizinha achou estranho,​
mas eu disse que era pra manter o costume.

Cantei parabéns baixinho, só pra mim —​


ou talvez pra ti.​
No meio da música, a voz falhou.​
E, pela primeira vez, percebi que a saudade também tem idade.​
Ela cresce, muda, e às vezes pesa mais do que o corpo pode suportar.​
Ainda assim, filho…​
eu soprei as velas por nós dois.
Carta 8 — O som da chuva

Choveu a tarde toda.​


E cada gota parecia te chamar.​
Você adorava ver a chuva pela janela,​
com uma caneca de chocolate quente nas mãos.

Hoje fiz o mesmo.​


Fiquei ali, quieta, esperando que o barulho da água​
me trouxesse algum sinal teu.​
Mas só veio o eco do silêncio.

Há dias em que o luto é suave,​


e há outros em que ele me arrasta pra dentro de mim.​
Hoje foi um desses.​
E mesmo assim, continuo escrevendo —​
porque é a única maneira de te manter perto
Carta 9 — O som do portão

Gabriel,​
Toda vez que o portão bate, meu coração dispara.​
É automático — por um instante, penso que é você chegando.​
A mente sabe que não,​
mas o coração é teimoso, filho.​
Ele ainda acredita em milagres pequenos,​
como passos conhecidos subindo a calçada.

Às vezes fico de propósito sentada na varanda,​


ouvindo o barulho da rua,​
como quem espera um retorno impossível.​
Não é esperança — é hábito.​
A saudade também tem seus rituais.
Carta 10 — A caixa de sapatos

Hoje encontrei aquela caixa de sapatos onde você guardava tuas lembranças.​
Ingressos de cinema, cartas, bilhetes amassados de amigos,​
e um desenho que você fez de nós dois quando era pequeno.

O tempo é engraçado, Gabriel.​


Ele tira quase tudo,​
mas guarda o que realmente importa em pedaços de papel.​
Chorei vendo teu traço torto escrevendo “mamãe e eu”.​
Naquela simplicidade havia um amor inteiro,​
e talvez seja por isso que ainda doem as lembranças mais bonitas.
Carta 11 — A cidade segue

Passei pela tua escola hoje.​


As crianças brincavam no pátio, correndo e rindo.​
Por um momento, achei que vi você entre elas.​
Mas era só o vento brincando com as folhas.

A cidade continua igual —​


as ruas, os sons, o cheiro do pão da padaria na esquina.​
Tudo segue, menos eu.​
Eu parei no dia em que te perdi.​
Desde então, só observo o mundo pela janela,​
como quem assiste a um filme cujo final já conhece.
Carta 12 — A noite mais longa

Filho,​
as noites continuam sendo o pior momento.​
Quando o barulho do dia vai embora,​
é o silêncio que vem me visitar.

Às vezes converso com você em voz alta,​


contando o que fiz, o que senti, o que sonhei.​
Pode parecer loucura,​
mas é o jeito que encontrei de continuar sendo tua mãe.

Essa madrugada, olhei pro céu e vi uma estrela piscando.​


Quis acreditar que era você.​
Não sei se era verdade,​
mas por alguns minutos o quarto pareceu menos vazio.
Carta 13 — As mãos que tremem

Gabriel,​
Percebi hoje que minhas mãos tremem quando escrevo.​
O corpo envelhece, filho, mas a saudade não.​
Ela continua jovem, viva, como se tudo tivesse acontecido ontem.

Olhei minha imagem no espelho e mal me reconheci.​


Há rugas onde antes havia sorrisos teus.​
E mesmo assim, quando penso em você,​
sinto o mesmo calor no peito,​
como se ainda fosse a mãe que te esperava chegar da escola.

Às vezes acho que o tempo só passa pra quem fica.​


Pra quem parte, ele deve ser só um sopro.
Carta 14 — A casa e o eco

Hoje, a casa está mais silenciosa do que nunca.​


Até o relógio parece bater mais devagar.​
Às vezes falo sozinha,​
só pra ouvir o som da minha própria voz.

As tuas fotos estão espalhadas por todos os cantos —​


não por falta de ordem,​
mas porque é o único jeito que encontrei​
de sentir que você ainda mora aqui.

O eco do teu nome é o que me mantém viva.​


Sem ele, talvez eu também tivesse ido embora.
Carta 15 — O vizinho novo

Chegou um vizinho novo na rua.​


Tem um menino que me lembra você quando pequeno —​
os cabelos bagunçados, a mania de sorrir com os olhos.​
Outro dia ele me chamou de “tia” e eu quase respondi “meu filho”.

É estranho, Gabriel.​
Ver o mundo continuar, ver crianças crescerem,​
ver vidas começarem quando a tua parou.​
Às vezes penso que a dor é como um relógio quebrado:​
os ponteiros param, mas o coração insiste em bater.
Carta 16 — A noite do retrato

Ontem faltou luz.​


A casa ficou mergulhada numa penumbra suave,​
e por algum motivo, eu senti paz.​
Acendi uma vela e coloquei ao lado da tua foto.

Fiquei te olhando por horas,​


lembrando do som da tua risada e da tua voz chamando “mãe”.​
A vela derreteu inteira,​
mas eu não consegui apagar o que sinto.

Talvez o amor seja isso, filho:​


uma chama que nunca se apaga,​
mesmo quando a escuridão parece vencer.
Carta 17 — O vento de setembro

Gabriel,​
Hoje o vento de setembro entrou pela janela,​
e trouxe o cheiro das flores que você plantou no quintal.​
Por um momento, o tempo se curvou —​
e eu voltei a te ver, descalço, com as mãos sujas de terra,​
rindo de mim porque eu dizia que você ia resfriar.

Fechei os olhos e quase te ouvi dizer “mãe, olha como ficou bonito”.​
Ficou, filho.​
O jardim ficou bonito.​
Mas sem você, tudo parece florindo por engano.
Carta 18 — O retrato no corredor

Passei o pano no retrato que fica no corredor.​


A moldura já está gasta, e a foto começando a desbotar.​
Mas teus olhos continuam vivos —​
como se ainda soubessem me consolar.

Às vezes falo com a foto, sabia?​


Conto do tempo, das dores, das noites frias.​
Parece loucura, mas a solidão tem dessas coisas:​
a gente conversa com o que o mundo não ouve.
Carta 19 — O sonho que voltou

Sonhei contigo outra vez.​


Você me esperava num campo aberto, com o mesmo sorriso de menino.​
Eu quis correr, mas as pernas não obedeciam.​
Você me chamou de “mãe” e disse:​
“não precisa correr, o tempo agora é outro.”

Acordei assustada.​
Demorei alguns minutos pra entender onde estava.​
Desde então, fico pensando se o sonho é lembrança,​
ou se é você me visitando quando o coração cansa demais.
Carta 20 — O relógio parou

O relógio da sala parou hoje, exatamente às 2h14.​


Foi nessa hora que você nasceu.​
Coincidência, talvez.​
Mas aprendi a acreditar nos pequenos sinais.

Deixei o relógio assim.​


Não quero consertar.​
Gosto de pensar que, por um instante,​
o tempo também quis descansar.
Carta 21 — A cadeira vazia

Ainda deixo o prato posto pra você,​


e a cadeira ao lado da minha, no jantar.​
Os outros acham estranho,​
mas o que sabem eles da ausência que se senta à mesa?

Às vezes imagino que você está ali,​


me ouvindo reclamar do noticiário,​
ou rindo das minhas manias de velha.​
E nessas horas, por um segundo,​
a dor parece menos afiada.
Carta 22 — O corpo cansado

Filho,​
meu corpo anda cansado.​
As pernas doem, a memória falha,​
e às vezes esqueço o motivo de ter ido até a cozinha.

Mas nunca esqueço de você.​


Nem por um dia.​
Nem por um segundo.

Escrever pra ti virou minha maneira de respirar.​


Cada carta é uma tentativa de não desaparecer junto com o tempo.
Carta 23 — A fotografia caída

Hoje a tua foto caiu da estante.​


O vidro quebrou,​
e pela primeira vez, eu não chorei.

Apenas fiquei olhando, em silêncio,​


como quem entende que até os retratos cansam de esperar.​
Coloquei a foto de volta,​
sem o vidro —​
pra que nada mais te separe de mim.
Carta 24 — As últimas flores

Levei flores novas ao teu túmulo.​


As mãos tremiam, o vento estava frio.​
Fiquei ali um bom tempo,​
conversando contigo,​
como quem pede desculpas por ter sobrevivido.

No fim, deixei uma carta dentro do vaso.​


Nela, escrevi o que o coração sempre soube:​
“Te amo com a mesma força do primeiro dia.​
E quando eu não estiver mais aqui,​
espero que o vento leve minhas palavras até você.”
Carta 25 — A última carta

Gabriel,​
Se um dia alguém encontrar essas cartas,​
espero que entenda:​
eu não escrevia pra amenizar a dor,​
mas pra continuar te amando.

A casa está silenciosa,​


o corpo cansado,​
mas a alma — ah, a alma ainda te procura.

Se houver outro lado,​


se houver reencontro,​
promete me chamar de “mãe” de novo?

Até lá,​
vou dormir,​
e talvez — só talvez —​
o sonho me leve até você.
Fim do livro “Cartas para o Silêncio”

Por Clara Mendes

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