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Almada

José de Almada-Negreiros, nascido em 1893 e falecido em 1970, foi um influente artista e escritor português, reconhecido por sua contribuição à pintura moderna e à literatura. Sua obra abrange diversas formas de expressão artística, refletindo uma postura vanguardista e iconoclasta que desafiou a intelectualidade convencional. Almada-Negreiros é considerado uma figura central na evolução da cultura contemporânea portuguesa, destacando-se por sua originalidade e pela busca de uma poética que une arte e conhecimento.

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Almada

José de Almada-Negreiros, nascido em 1893 e falecido em 1970, foi um influente artista e escritor português, reconhecido por sua contribuição à pintura moderna e à literatura. Sua obra abrange diversas formas de expressão artística, refletindo uma postura vanguardista e iconoclasta que desafiou a intelectualidade convencional. Almada-Negreiros é considerado uma figura central na evolução da cultura contemporânea portuguesa, destacando-se por sua originalidade e pela busca de uma poética que une arte e conhecimento.

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Almada-Negreiros

Artista e escritor polifacetado, José de Almada-Negreiros nasceu a 7 de abril de


1893, em S. Tomé e Príncipe, e morreu a 15 de junho de 1970, em Lisboa.

"Pela sua obra plástica, que o classifica entre os primeiros valores da pintura
moderna; pela sua obra literária, que vibra de uma igual e poderosa
originalidade; pela sua ação pessoal através de artigos e conferências - Almada-
Negreiros, pintor, desenhador, vitralista, poeta, romancista, ensaísta, crítico de
arte, conferencista, dramaturgo, foi, pode dizer-se que desde 1910, uma das mais
notáveis figuras da cultura portuguesa e uma das que mais decisivamente
contribuíram para a criação, prestígio e triunfo de uma mentalidade moderna
entre nós". Assim apresenta Jorge de Sena, no primeiro volume das Líricas
Portuguesas, o homem que, com Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, mais
marcou plástica e literariamente a evolução da cultura contemporânea
portuguesa.
Órfão desde tenra idade, Almada-Negreiros viajou para Lisboa com sete anos
para casa de uma tia materna. Frequentou os estudos primários e liceais em
Lisboa, no Colégio Jesuítico de Campolide, Liceu de Coimbra e Escola Nacional de
Lisboa.

Entre 1919 e 1920, seguiu estudos de pintura em Paris, aí trabalhando como


bailarino de cabaré e empregado numa fábrica de velas, redigindo na capital
francesa muitos dos textos e grafismos que viriam a ser célebres, como o
"autorretrato".

Viveu entre 1927 e 1932 em Espanha, onde realizou várias encomendas para
particulares e públicos. Embora já tivesse colaborado com textos e grafismos em
algumas publicações, como Portugal Artístico ou Ilustração Portuguesa, e tivesse
participado com êxito no 1.º Salão do Grupo dos Humoristas Portugueses, é a sua
colaboração no número 1 de Orpheu, em 1915, onde publica o texto ainda
incompletamente revelador Frizos (A Cena do Ódio, destinada a Orpheu 3, só viria
a ser publicada em Contemporânea), que lhe dará a base de lançamento para uma
postura iconoclasta (o Manifesto Anti-Dantas, apresentado no mesmo ano, é
modelar neste ataque generalizado a uma intelectualidade convencional,
burguesa e passadista), tornando-se um dos principais representantes da
vertente vanguardista do movimento modernista.

Em 1917, participa no projeto Portugal Futurista, publicando nesse órgão do


"Comité Futurista de Lisboa", que co-fundara, no mesmo ano, com Santa-Rita, o
Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, texto que já tinha sido
objeto de performance pública, e os os textos simultaneístas Mima Fatáxa e
Saltimbancos.

Desenvolve paralelamente uma intensa atividade artística, tendo colaborado,


com grafismos e com criação literária, em várias publicações, como Diário de
Lisboa, Athena, Presença, Revista Portuguesa, Cadernos de Poesia, Panorama,
Atlântico, Seara Nova e tendo fundado outras, como os "Cadernos de Almada-
Negreiros", SW, onde, em 1935, no primeiro número, tenta equacionar, com o
máximo de clareza, as relações entre civilização e cultura, entre arte e política,
entre indivíduo e coletividade, aí vindo também a publicar um dos seus vários
textos dramáticos, SOS, que, com Deseja-se Mulher, deveria integrar o projeto,
originalmente escrito em castelhano, Tragédia da Unidade.

Uma análise da obra de Almada-Negreiros não pode deixar de considerar a


complementaridade que nela assumem as várias formas de expressão artística,
nem de verificar que, independentemente do suporte escolhido (argumento e
coreografia de bailados, exposições, happening, produções publicitárias, cinema,
jornais manuscritos, telas, frescos, mosaicos, vitrais, painéis de azulejos,
palestras radiofónicas, cenários e figurinos, cartões de tapeçaria, etc.), toda a
realização artística de Almada se distingue por certos traços comuns, não
necessariamente antitéticos, como a graciosidade e a irreverência, a ingenuidade
e a inteligência, o populismo e o esteticismo, a abstração e o concreto.
Na tentativa de encontrar a arte poética subjacente à sua atividade
exclusivamente literária, Celina Silva considera que a "performance constitui o
universal maior de toda a produção" de Almada-Negreiros: "evidenciando-se no
literário através da adoção de uma conceção do verbal que é encarada enquanto
ação", essa performance verbal que "tanto é típica da postura vanguardista
quanto se revela reinstauração do verbal nos seus primórdios [...] implica um
exercício da palavra-ação radicada numa postura geradora de uma ficção do eu",
ao mesmo tempo que "A espontaneidade e o cunho comunicativo radicam numa
ambição totalizante, eivada de otimismo e euforia, que, pela abrangência de que
se reveste, aponta para um projeto de alargada receção, embora projetado por
uma elite" (cf. SILVA, Celina - A Busca de Uma Poética da Ingenuidade ou a
(Re)Invenção da Utopia (Reflexão Sistematizante acerca da Produção Literária
de José de Almada-Negreiros, Porto, Faculdade de Letras, 1992, pp. XIII, XIV).

A "poética da ingenuidade" explanada por Celina Silva, anulando qualquer


descontinuidade entre a forma linguística do poema, do drama, do texto de
intervenção, e a expressão do ensaio, da teoria poética ou filosófica, encontraria
numa "sofistificação da simplicidade" (cf. Sena, Jorge de in Obras Completas de
Almada Negreiros, vol. I, Lisboa, INCM, 1985, p. 17) o equilíbrio entre poesia e
conhecimento, num autor para quem "A Poesia "conhece" e não "sabe" (Prefácio
ao Livro de Qualquer Poeta).
Encontro

Que vens contar-me

se não sei ouvir senão o silêncio?

Estou parado no mundo.

Só sei escutar de longe

antigamente ou lá para o futuro.

É bem certo que existo:

chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga

se não sei nada e desaprendo?

A minha paz é ignorar.

Aprendo a não saber:

que a ciência aprenda comigo

já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo

que fica no alto das montanhas

e não desce à cidade

e sobe às nuvens que andam à procura de forma

antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça

se me agrada não ter horas a toda a hora?

A preguiça do céu entrou comigo

e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas


se este é o meu auge?!

Eu tive a dita de me terem roubado tudo

menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas

torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo

deixaram-me a memória envenenada

e intacta a torre de marfim.

Só não sei que faça da porta da torre

que dá para donde vim.

A Flor

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis.A criança vai
sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras
noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais
custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não
resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
:Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e
do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a
criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora
dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

.
Esperança

Esperança

Esperança:

isto de sonhar bom para diante

eu fi-lo perfeitamente,

Para diante de tudo foi bom

bom de verdade

bem feito de sonho

podia segui-lo como realidade

Esperança:

isto de sonhar bom para diante

eu sei-o de cor.

Até reparo que tenho só esperança

nada mais do que esperança

pura esperança

esperança verdadeira
que engana

e promete

e só promete.

Esperança:

pobre mãe louca

que quer pôr o filho morto de pé?

Esperança

único que eu tenho

não me deixes sem nada

promete

engana

engano que seja

engana

não me deixes sozinho

esperança.

A Cena do ódio

(excerto final)
(... ) Larga a cidade masturbadora, febril,

rabo decepado de lagartixa,

labirinto cego de toupeiras,

raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados,

anêmicos, cancerosos e arseniados!

Larga a cidade!

Larga a infâmia das ruas e dos boulevards,

esse vaivém cínico de bandidos mudos,

esse mexer esponjoso de carne viva,

esse ser-lesma nojento e macabro,

esse S ziguezague de chicote autofustigante,

esse ar expirado e espiritista,

esse Inferno de Dante por cantar,

esse ruído de sol prostituído, impotente e velho,

esse silêncio pneumônico

de lua enxovalhada sem vir a lavadeira


Larga a cidade e foge!

Larga a cidade!

Vence as lutas da família na vitória de a deixar.

Larga a casa, foge dela, larga tudo!

Nem te prendas com lágrimas que lágrimas são cadeias!

Larga a casa e verás — vai-se-te o Pesadelo!

A família é lastro: deita-a fora e vais ao céu!

Mas larga tudo primeiro, ouviste?

Larga tudo!

— Os outros, os sentimentos, os instintos,

e larga-te a ti também, a ti principalmente!

Larga tudo e vai para o campo

e larga o campo também, larga tudo!

— Põe-te a nascer outra vez!

Não queiras ter pai nem mãe,

não queiras ter outros nem Inteligência!

A Inteligência é o meu cancro:


eu sinto-A na cabeça com falta de ar!

A Inteligência é a febre da Humanidade

e ninguém a sabe regular!

E já há Inteligência a mais: pode parar por aqui!

Depois põe-te a virar sem cabeça,

vê só o que os olhos virem,

cheira os cheiros da Terra,

come o que a Terra der,

bebe dos rios e dos mares,

— põe-te na Natureza!

Ouve a Terra, escuta-A.

A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!

Depois põe-te à coca dos que nascem

e não os deixes nascer.

Vai depois pla noite nas sombras

e rouba a toda a gente a Inteligência


e raspa-lhes a cabeça por dentro

coas tuas unhas e cacos de garrafas,

bem raspado, sem deixar nada,

e vai depois depressa, muito depressa,

sem que o sol te veja,

deitar tudo no mar onde haja tubarões!

Larga tudo e a ti também!

Mas tu nem vives nem deixas viver os mais,

Crápula do Egoísmo, cartola despanta-pardais!

Mas hás de pagar-Me a febre-rodopio

novelo emaranhado da minha dor!

Mas hás de pagar-Me a febre-calafrio

abismo-descida de Eu não querer descer!

Hás de pagar-Me o Abismo e a Morfina!

Hei de ser cigana da tua sinal

Hei de ser a bruxa do teu remorso!

Hei de desforra-dor cantar-te a buena-dicha


em águas fortes de Tróia

e nos poemas de Poe!

Hei de feiticeira a galope na vassoura

largar-te os meus lagartos e a Peçonha!

Hei de vara mágica encantar-te arte de ganir!

Hei de reconstruir em ti a escravatura negra!

Hei de despir-te a pele a pouco e pouco

e depois na carne viva deitar fel,

e depois na carne viva semear vidros,

semear gumes,

lumes,

e tiros,

Hei de gozar em ti as poses diabólicas

dos teatrais venenos trágicos do persa Zoroastro!

Hei de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques,

e desfraldar-te nas canelas mirradas


o negro pendão dos piratas!

Hei de corvo marinho beber-te os olhos vesgos!

Hei de bóia do Destino ser em brasa

e tu náufrago das galés sem horizontes verdes!

E mais do que isto ainda, muito mais:

Hei de ser a mulher que tu gostes,

hei de ser Ela sem te dar atenção!

Ah! que eu sinto claramente que nasci

de uma praga de ciúmes.

Eu sou as sete pragas sobre o Nilo

e a Alma dos Bórgias a penar!

A SOMBRA SOU EU

A minha sombra sou eu,


ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei dó que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e que não me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

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